LUTO COMO PROCESSO PARA ELABORAÇÃO DA PERDA
Valmir Uhren1
[email protected]
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Licenciado em filosofia pela Faculdade Padre João Bagozzi(2010). Bacharel em Teologia pelo Studium
Theologicum (2007). Psicólogo pela Faculdade Dom Bosco 2011. Mestrando em Filosofia na PUC-PR. Atua
como Psicólogo clínico e professor de filosofia da Educação e fundamentos de Psicologia na (FASBAM). Email: [email protected]. Endereço: Rua Carmelo Rangel, 1200. Curitiba, Pr.
RESUMO
Ao lerem este artigo poderão perceber as consequências psíquicas que traz
consigo uma perda. A perda que nos referimos se traduz na cena de uma mulher
que perdeu a neta num acidente de automóvel. Os sinais que aparecem são de
luto, sentimentos de extrema tristeza e dor psíquica, mas que o tempo mostrará
como esses sinais foram se transformando e caminhando para a elaboração.
Palavras-chave: perda, luto, dor psíquica, elaboração,
1. INTRODUÇÃO
Esse trabalho buscará responder uma questão: por que para algumas
pessoas é mais fácil elaborar a perda que para outras? O que sobrevém e de que
modo a perda afeta o “aparelho psíquico” daqueles que estão envolvidos e sofrem
com a perda?
Para isso faremos um esboço a propósito do luto, através de um estudo de
caso feito com uma pessoa com as iniciais A.V. A.V. perdeu a neta de 20 anos
num acidente de automóvel. A partir deste evento é acometida por sentimentos
que chamam atenção e serão estudados neste artigo.
Os conceitos que
aparecerão serão elucidados pela abordagem psicanalítica.
2 – METODOLOGIA
Para este artigo foram realizadas duas entrevistas. A primeira entrevista
realizou-se 40 dias após o fato. A segunda entrevista aconteceu seis meses
depois.
Ambas as entrevistas foram realizadas na casa de A.V e duraram
sessenta minutos cada uma. Nestas entrevistas puderam ser analisados os efeitos
que a perda desencadearam na mulher que demonstrou claramente dificuldades
para viver sem a neta.
Os dados coletados nas entrevistas foram relacionados com autores que
discutem e escrevem sobre o luto. Os autores escolhidos foram: Freud, Jean
Allouch e Nasio.
3- DESENVOLVIMENTO TEÓRICO
Na primeira entrevista realizada com A.V., ela conta não acreditar que a
neta faleceu e espera com convicção que ela volte. Também relata deixar o quarto
da neta intacto, isto é, como a neta deixou. A.V também expressa vontade de
morrer para estar junto da moça e disse que tem visitado diariamente o cemitério.
Através desta fala torna-se evidente a dificuldade para assimilar a perda da
neta, como também é verificável que existe a incompreensão de que vivemos
diante do efêmero e transitório, sendo a perda inerente ao ser humano.2
Ainda na primeira entrevista nota-se que muitos dos conceitos usados por
Freud como consequentes da prática clínica, aparecem para justificar e explicar o
que se passa com as pessoas que são abatidas pela perda inesperada. Estes
conceitos – são: Luto, humor melancólico, investimento narcísico, dor física,
psíquica e pulsão de morte. Todos estes são constantes na vida de A.V. Essas
constantes são identificas em Freud quando o mesmo diz que: “se trata de um
trabalho que possibilita a percepção de que o objeto eleito ou perdido não existe
mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com
aquele objeto perdido” (Freud, 1916/1917, p.250).
Os sentimentos que mostram indícios de elaboração do luto em A.V. são
expressos quando ela diz: “Eu também vou até os vizinhos, principalmente à noite
porque moro sozinha e me sinto muito triste.” Esse gesto de ir até os outros para
compartilhar o que se está sentido aparece como uma atitude saudável e ao
2
No volume XIV das obras completas de Freud, editora Imago, Freud escreve sobre a transitoriedade.
Descreve o inventor da Psicanálise que passeava durante um dia, pelos bosques sorridentes, acompanhado
por dois amigos. Um deles era poeta. Este admirava a beleza do cenário que os circundava, mas sem extrair
deste nenhuma alegria. Era perturbado pelo pensamento de que tudo que estava a volta estava fadado à
extinção quando chegasse o inverno. A conclusão de Freud foi que um sentimento perturbava lhe o
discernimento, isto é, uma revolta contra o luto.
mesmo tempo, um caminho para a elaboração. A troca de palavras através do
diálogo proporciona bem estar para a pessoa que está sofrendo, pois é uma forma
de simbolizar o ocorrido.
Nesse caso, também se evidencia que a libido que foi destinada ao objeto
que não existe mais, no caso a neta, está retornando a ela e ainda não pode ser
investida em outro objeto de forma integral, mas que ao mesmo tempo ameniza a
sua dor.
O que se passa com A.V. não chega a ser melancolia, mas sim efeitos de
uma perda muito recente que mostram indícios de recuperação, informados na
primeira entrevista. Os indícios são: fazer caminhadas na intenção de estar bem
com o seu corpo e demonstra que não há depreciação melancólica.
A forma como se afronta a perda é diferente de pessoa para pessoa. No
caso de A.V quando ela fala no seu primeiro relato “quero que minha neta volte”,
referindo-se à perda da neta, dá a entender que existe a falta, ou seja, existe uma
ausência e uma lacuna a ser preenchida e que o tempo, isto é, os 40 dias não
foram suficientes para proporcionar a expectativa de novos horizontes no sentindo
de substituir o que foi perdido. Percebe-se, nessa fala, que há indícios de
elaboração do luto. Isso se dá pela ideia de que a neta não está junto dela, está
ausente, isto é, ocupa outro lugar que é diferente. Para o inventor da psicanálise
isso significa que:
O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de
alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a
liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. E segue dizendo que
o luto normal é um processo longo e doloroso, que acaba por resolver-se
por si só, quando o enlutado encontra objetos de substituição para o que
foi perdido. (Freud, 1916/1917, p. 249)
Continua Freud, o luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama,
encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo
mundo externo. A.V. se expressa da seguinte forma: “me faltam forças e ânimo.”
Acrescenta Freud que: “é fácil constatar que essa inibição e circunscrição do ego
são expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a
outros propósitos e outros interesses.” (Freud,1916/1917, p. 251)
Ainda sobre o primeiro relato de A.V encontram-se muitos traços de
sofrimento que se traduzem por dores psíquicas. Isso se demonstrou quando ela
disse: “às vezes me desespero e vou ao cemitério e quero abrir o túmulo para vêla, pois não acredito que ela está lá.” Para o pensador e psicanalista “a dor
psíquica é uma lesão do laço íntimo com o outro, uma dissociação brutal daquilo
que é naturalmente chamado a estar junto” (Násio 1996, p.18). A dor psíquica
nesse sentido brota da intenção de que o objeto perdido e eleito volte e ocupe o
mesmo lugar de outrora.
A partir das dores psíquicas de A.V. expressas por meio da fala pode-se
fazer uma comparação precisa com a dor corporal. Enquanto esta é causada por
um ferimento em alguns dos tecidos do corpo, a dor psíquica ocorre sem este
modelo de acometimento. Acrescenta (Násio, 2006, p.28) “na dor corporal o
superinvestimento incide na representação do corpo lesado; na dor psíquica ela
incide na representação da pessoa escolhida que desapareceu.”
Ao perguntarmos o que rompe o laço com outra pessoa e dói tanto e
mergulha o eu no desespero como no caso de A.V., Freud responde da seguinte
forma: “é a perda do ser escolhido. A perda brutal e irremediável do ser escolhido.”
(Násio, 2006, p.26).
Assim, o criador da psicanálise elucida este fato da seguinte forma: “o luto
só pode ser descrito e existe a partir de um investimento narcísico. O narcisismo é
fundamental para poder pensar as sombras que habitam o processo do luto.”
Em outro momento Freud intui que:
“As recriminações feitas
ao objeto eleito nada mais são que
recriminações deslocadas para o eu do próprio sujeito, mostrando
claramente que a escolha objetal havia se dado sobre uma base
narcísica e por meio de uma identificação também narcísica, isto é, o eu
da enlutada confunde-se com o próprio objeto. Assim a sombra do objeto
caiu sobre o ego e uma perda objetal se transforma numa perda do
ego”(Freud, 1916/1917, p.253)
No tocante à ligação narcísica com a neta, esta começou quando A.V.
passou a cuidá-la dois meses após o nascimento. Dentro do contexto da adoção
A.V. havia recém casado seu terceiro e último filho e estava recém-divorciada e
morando sozinha numa casa. Esses relatos são da segunda entrevista e apontam
que a neta foi adotada no sentido de compensar as mudanças recentes que
estavam ocorrendo com A.V.
Sobre o narcisismo, Freud, citado por (Laplanche e Pontalis, 2004, p.287),
introduz o conceito e considera particularmente os investimentos libidinais. Neste
contexto, “o ego se apresenta como um grande reservatório de libido que é
enviada aos objetos, e que está sempre pronto a absorver a libido que reflui dos
objetos”. Isto significa que todas as perdas anteriores de A.V. se culminaram na
perda da neta
Quando A.V, relata: “eu não consigo acreditar que a neta faleceu - não paro
de pensar que ela aparecerá,- que sonha muito com a neta e por isso foi num
terreiro de umbanda para poder encontrá-la, falar ou receber algo dela, demonstra
que A.V já sabe ou começa a acreditar que a neta está morta. Entende-se que a
pessoa eleita-perdida é tão essencial quanto uma perna ou um braço para a
pessoa que perde. Seu desaparecimento é tão revoltante que o eu ressuscita o
amado sob a forma de um fantasma. Este fenômeno é chamado de amado
fantasma. Násio o descreve da da seguinte forma:
“A alucinação do membro fantasma é um distúrbio que afeta a pessoa
que tem uma parte do corpo amputada. A pessoa sente tão viva as
sensações vindas do seu membro desaparecido, que este lhe parece
existir ainda. Do mesmo modo, a pessoa enlutada pode perceber, com
todos os seus sentidos e uma absoluta convicção, a presença do morto.
A imagem psíquica da pessoa perdida foi tão superinvestida que acaba
sendo projetada para fora do eu. Esse mecanismo também chamado de
foraclusão, explica o distúrbio de algumas pessoas enlutadas, que
alucinam o morto e o vêem como se estivesse vivo.” (Násio,1996,p.31)
Este contexto apareceu no discurso de A.V. durante a segunda entrevista
quando dizia ver a expressão da neta em forma de anjo refletida em objetos da
casa, como pratos e outros capazes de proporcionar imagens. Este episódio pode
ser pensado também a partir da pulsão. Para (Laplanche e Pontalis 2004, p,394),
“pulsão designa um processo dinâmico que consiste numa pressão ou força que
faz o organismo tender para um objetivo.” Segundo Freud, uma pulsão tem sua
fonte numa excitação corporal que é chamada também de estado de tensão; é no
objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir sua meta.
Em
1915,
em
"Pulsão
e
Destinos
da
Pulsão",
Freud
expõe
sistematicamente a sua primeira teoria das pulsões. Situa a pulsão “como um
conceito de fronteira entre o psíquico e o somático”. Ser de fronteira não implica
aqui em qualquer indefinição. Significa simplesmente que se trata de uma
estimulação que vem do somático e atinge o psíquico, atravessando, portanto a
fronteira entre o soma e o aparelho psíquico.
Na Obra “Além do Princípio do Prazer", de 1920, surge não só uma nova
teoria das pulsões, mas um novo conceito de pulsão. A pulsão de vida e pulsão de
morte passam a serem princípios gerais que regem o funcionamento, não só da
vida psíquica, mas de toda a vida orgânica, presentes nos animais, nas plantas e
nos organismos unicelulares. Sobre essas pulsões, “a pulsão de vida é concebida
como a tendência à formação de unidades maiores, à aproximação e à unificação
entre as partes dos seres vivos. A pulsão de morte, ao contrário, é vista como a
tendência à separação, à destruição e, em última análise, à volta ao estado
inorgânico”. (GOMES, 2001, p.18)
De acordo com Laplanche e (Pontalis 2004, p.395), as pulsões de vida
tendem, não apenas a conservar as unidades vitais existentes, a partir de
unidades mais englobantes e, as pulsões de morte tendem para a destruição das
unidades vitais, para a igualização radical das tensões e para o retorno ao estado
inorgânico que se supõe ser o estado de repouso absoluto.
4 - Considerações finais.
Através dos relatos de A.V, conclui-se que o trabalho que o luto necessita é
um desinvestimento progressivo. Realizar um luto significa desinvestir pouco a
pouco a representação saturada do escolhido perdido, para torná-lo de novo
conciliável com o conjunto da rede das representações egóicas. Sendo assim, o
luto nada mais é do que uma lentíssima redistribuição da energia psíquica, até
então, concentrada em uma única representação que era dominante e estranha
ao eu.
Compreende-se que se esse trabalho de desinvestimento que deve seguirse à morte do outro não se cumprir, e se o eu ficar assim imobilizado em uma
representação coagulada, o luto se eterniza em um estado crônico, que paralisa a
vida da pessoa enlutada durante vários anos ou até durante toda a vida.
Por conseguinte, toda essa gama de fatos transcorridos nos seis meses
depois do acidente corrobora certa oscilação psíquica, isto é, uma amalgamação
de comportamentos que hora parece caminhar para a elaboração, mas que de
repente aparece um retorno ao estado de angústia. Essa alternância pode ser
associada aos movimentos pulsionais de vida e morte.
REFERÊNCIAS
ALLOUCH, Jean. A Erótica do Luto – no tempo da morte seca. Rio de Janeiro:
Companhia de Freud, 2004.
FREUD, S. (1917) Luto e Melancolia. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Completas de Sigmund Freud, vol. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1997.
GOMES, G. Os Dois Conceitos Freudianos de Trieb. Psicologia: Teoria e
Pesquisa. v. 17, n.3, 2001
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. A pulsão de morte na teoria da pulsão sexual.
In: GREEN, A. (Org.), A pulsão de morte. São Paulo: Editora Escuta, 1998.
NASIO, J. D. O livro da dor e do amor. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1996.
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