CONCEPÇÃO DOS EDUCADORES SOBRE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E
CONHECIMENTO DO IMPACTO SOBRE A APRENDIZAGEM
Magaly Bruna Ramos – [email protected]
Tamiris S. de Oliveira – [email protected]
Eliza Dieko Oshiro Tanaka – [email protected]
(Universidade Estadual de Londrina)
Introdução
A violência doméstica (VD) tem se tornado um fenômeno cada vez mais
vivenciado na sociedade contemporânea e se manifesta das mais variadas formas. Pode
ser encontrada em diversos grupos e não se restringe a determinadas classes sociais,
faixas etárias ou nível de escolarização. Devido a sua frequente ocorrência cotidiana,
muitas vezes esse fenômeno é tomado como tão familiar que, ao invés de as pessoas
compreenderem como uma construção social, acabam naturalizando-a. A VD traz
consequências negativas tanto para a vítima quanto para a sociedade da qual ela faz
parte.
Sendo assim, para compreender a violência doméstica, primeiramente, é
preciso entender a violência, aquela que implica em dor e sofrimento. Segundo
Cavalcanti (2005) violência refere-se ao ato de utilizar a força física ou não, para
obrigar outra pessoa a realizar algo contra sua vontade.
Desse modo, é considerada violência doméstica o ato que acontece na unidade
doméstica, onde geralmente quem atua é um membro da família ou alguém próximo
que conviva com a vítima. Também chamada de violência intrafamiliar, ela pode
ocorrer fora do espaço doméstico, contudo à ação de violência deve, neste caso, partir
de um membro da família (Cavalcanti, 2005).
A violência doméstica pode ser praticada em qualquer classe social e afetar
crianças, idosos, mulheres, sendo um fenômeno de grande crueldade, praticada por
homens e mulheres que ferem os direitos humanos de suas vítimas. Existem quatro
formas de violência, são elas: física, psicológica, sexual e negligência.
De modo geral, a violência física refere ao ato de agredir, ferir, deixando ou não
marcas no corpo da vítima. Violência psicológica corresponde à rejeição, humilhação,
ou seja, formas de depreciação do outro que apesar de não deixar marcas visíveis afeta
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diretamente o desenvolvimento do indivíduo. Violência sexual envolve o abuso, o uso
da força para obter prazer sem a permissão de forma consciente do outro. A negligência
é o abandono, o não cumprimento dos deveres como responsável de outrem. (Pires &;
Miyazaki, 2005).
De acordo com a teoria histórico-cultural de Vygotsky, a qual compreende que
sem a relação cultural o aprendizado não ocorre e consequentemente não há o
desenvolvimento de aptidões e capacidades humanas (Mello, 2004). Sendo assim, é
possível inferir que uma falha nesta relação cultural poderá prejudicar o
desenvolvimento social, psicológico, bem como interferir diretamente no processo de
aprendizagem dessas vítimas.
Uma relação familiar adequada, portanto, é aquela que proporciona o
desenvolvimento de seus membros através de atenção, carinho, diálogo, segurança,
confiança, estímulos suficientes para o desenvolvimento de uma personalidade criativa,
de uma pessoa autônoma e capaz de produzir conhecimento. A relação familiar é a
referência das relações futuras dos seres humanos, é onde as pessoas experiênciam seu
primeiro contato com o mundo. Cavalcanti (2005) afirma que é nela que o indivíduo
aprenderá regras de convivência social, é a partir dessa relação com a família que o
indivíduo em formação irá produzir seus julgamentos sobre o outro, assim como seus
poderes e limites. A mesma autora afirma que na família a criança encontrará seus
primeiros modelos de conduta, condutas que mesmo sendo não pertinentes ao convívio
social, serão reproduzidas no futuro.
Além disso, os conflitos que essas crianças e adolescentes enfrentam podem
repercutir em seu aprendizado e em sua personalidade em formação. De acordo com a
teoria histórico-cultural o processo de aprendizagem é sempre ativo, ou seja, o
indivíduo tem que agir sobre o meio (Mello, 2004).
Ao considerar a freqüência dos casos de violência contra crianças e adolescentes
em nossa sociedade, pode-se afirmar que tais atos de violência estão para além das
questões singulares, ela parte de uma problemática culturalmente desenvolvida e
estabelecida. O fato de muitos pais acreditarem que punir através da violência é uma
forma eficaz de educar deve ser reconsiderado, principalmente ao constatar que a
criança poderá reproduzir o que foi ensinada a fazer.
Sendo assim, torna-se evidente a importância da investigação sobre a concepção
que os educadores (professores, pedagogos, orientadores, entre outros) têm sobre a
violência doméstica. Pois, dependendo da forma que esses educadores entendem a VD,
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se empenharam, ou não, para reduzi-la. Se os educadores compreendem que a VD pode
trazer conseqüências negativas para o desenvolvimento emocional, físico, psíquico e no
processo de aprendizado desta vítima, eles poderão trabalhar a favor da identificação
das vítimas e, assim, assisti-las de forma eficaz.
OBJETIVOS
Verificar
pública/municipal,
a
concepção
têm
sobre
que
os
violência
educadores/professores,
doméstica;
Averiguar
de
escola
se
os
professores/educadores têm conhecimento sobre o provável impacto na aprendizagem
dos alunos que vivenciam agressões realizadas por seus familiares e/ou cuidadores.
MÉTODO
Esta pesquisa se pautou no método qualitativo, o qual visa trabalhar com os
significados, valores e atitudes de um determinado campo, ou seja, um conjunto de
fenômenos humanos que é considerado uma parte da realidade social. Isto se justifica
tendo em vista o fato de que as pessoas distinguem-se umas das outras não apenas por
suas ações, mas, principalmente, pela potencialidade de pensar sobre seus atos e
consequentemente interpretá-los de acordo com a realidade que vive e compartilha com
os outros. Deste modo, as pesquisadoras envolvidas nessa dinâmica apresentarão os
dados apreendidos de uma maneira singular, re-significando, considerando as questões
histórico-sociais que se articulam nesse caminho e que são constituintes da
subjetividade.
As pesquisadoras buscaram informações com professores das cidades de
Londrina, Ibiporã, Jataizinho e Primeiro de Maio que conheciam e que sabiam da
existência de casos de VD nas escolas que atuam.
Os dados foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada, com os
professores dessas escolas. Posteriormente, as entrevistas foram transcritas na integra e
submetidas à análise do seu conteúdo, visando à consonância com os objetivos da
pesquisa.
Participantes
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Participaram da pesquisa quatro professores de escola pública ou municipal na
qual havia notícias/denúncias de casos de violência doméstica por parte de pais e/ou
cuidadores dos alunos (professor, diretor, pedagogo/orientador - e psicólogo, quando a
escola tivesse esse profissional em sua equipe de trabalho). Os professores serão
identificados pela inicial de seu nome. Professora D, formada em magistério e
pedagogia, trabalha há oito anos como professora da rede municipal; Pedagoga E é
orientadora educacional em uma escola municipal há 18 anos; Professor A, está a seis
meses na escola, leciona Filosofia para turmas de primeiro, segundo e terceiro ano do
Ensino Médio; Professor K, trabalha a 19 anos como professor na rede pública.
Instrumentos
Foram utilizados para a pesquisa gravadores, computador, papel e canetas. Foi
elaborado um roteiro com base nos estudos de Paulo Celso Pereira e Lúcia Cavalcanti
de Albuquerque Williams, da Universidade Federal de São Carlos, através do artigo “A
concepção de educadores sobre violência doméstica e desempenho escolar” encontrado
na Revista Psicologia Escolar e Educacional, vol. 12, n°1, que foi publicado em junho
de 2008. Posteriormente solicitou-se a colaboração de alguns juízes, profissionais que
possuem conhecimento da temática, para avaliar a adequação do roteiro quanto á
linguagem, seqüência e abrangência do fenômeno estudado.
Procedimentos
Primeiramente, entrou-se em contato com o Conselho Tutelar de Londrina, para
obter informações quanto às escolas que tinham possíveis casos de violência doméstica
denunciados. Como não foi possível obter as informações nesse órgão, buscou-se,
então, outras fontes de investigação. Assim, realizou-se um contato prévio com os
professores de escolas as quais as pesquisadoras já tinham conhecimento e informações
de casos de violência.
Inicialmente esclareceram-se os objetivos da pesquisa aos professores
previamente contatados e, posteriormente, foi marcado um encontro com cada um
separadamente para iniciar a coleta de dados.
Os participantes receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que
depois de lido e aceito foi assinado por eles. Após isso foram realizadas as entrevistas
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orais e em forma de perguntas baseadas no roteiro previamente elaborado pela equipe
de pesquisa. As entrevistas foram gravadas a partir do consentimento do participante e
transcritas na integra para a realização de análise de conteúdo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os entrevistados abordaram a violência doméstica tendo em vista os seguintes
temas:
Concepção de violência doméstica
De acordo com as falas dos entrevistados foi possível identificar a sua
concepção sobre a violência doméstica. Segundo a pedagoga E, de uma escola
municipal, “violência doméstica é todo tipo de maus tratos que a criança ou adolescente
sofre no seu ambiente familiar. Aí pode ser agressões físicas, psíquicas, maus tratos,
abuso sexual (sic)”.
Para a professora D, a violência doméstica “é o mau trato com a criança, o
abandono, não acompanhar na vida escolar, não dar educação necessária, alimentação
também, tudo isso é uma violência” (sic). Na fala desta professora a violência parece
estar mais relacionada à modalidade de negligência e abandono, mas também enfatiza
um aspecto importante que não foi ressaltado por nenhum outro entrevistado. Ela cita
como negligência o fato de os pais não acompanharem a vida escolar de seus filhos, ou
seja, uma violência aos seus direitos de educação o que se enquadra na modalidade de
negligência educacional.
O professor A considerou também os aspectos da negligência e classificou que a
pior violência é a física “[...] se bem que a violência física é a pior de todas” (sic). O
professor K enfatizou a violência sexual, “Tem a sexual, né? Acho que também entraria
na violência afetiva. Acho que os pais também cometem atentado ao pudor com os
filhos” (sic). Neste caso, o professor mostrou que desconhece as especificidades, bem
como outras modalidades de violência doméstica além da sexual.
Segundo Pires e Miyazaki (2005), negligência refere-se à omissão dos pais ou
responsáveis em promover e satisfazer as necessidades básicas (alimentação, vestuário,
educação, proteção, cuidados de higiene) da criança e/ou adolescente.
A negligência é classificada em três tipos mais freqüentes: negligência física,
emocional e educacional. A negligência física corresponde à ausência de cuidados com
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a saúde da criança ou adolescente, cuidados médicos. Incluem também, imprudência no
trânsito, falta de medidas preventivas, supervisão inadequada, entre outros.
A
negligência emocional envolve a falta de afetividade e atenção, bem como, a permissão
ou incentivo de atos delinquente. E a negligência educacional está relacionada à falta de
atenção ou a não realização de matrícula escolar, acompanhamento da vida escolar,
permitir faltar às aulas, entre outros (Pires & Miyazaki, 2005).
A violência doméstica contra crianças e adolescentes se caracteriza por ações ou
omissões de maus-tratos, negligência, agressões físicas, psicológicas e abuso sexual.
Pode aparecer na forma pura (uma modalidade) ou associada (mais de uma modalidade)
(Brito, Zanetta, Mendonça, Barison, Andrade, 2005). Ela acontece dentro de casa nas
relações familiares e é causada por aqueles que na realidade deveriam proteger e
garantir um desenvolvimento saudável para a criança e/ou adolescente. Quando a
violência não deixa marcas no corpo torna-se mais difícil detectá-la, pois na maioria dos
casos as famílias optam pelo silêncio (Oliveira &; Caldana, 2009).
De forma mais específica, as modalidades de violência doméstica são violência
física, psicológica, sexual e negligência. Violência Física é toda ação que provoque dor
física. Violência Psicológica, também chamada de “tortura psicológica”, acontece
quando existe rejeição, discriminação continua a criança inibindo seu empenho de autoaceitação causando sofrimento psicológico. Envolve também, na maioria das vezes,
comportamentos de humilhar e agressões verbais, cobranças exageradas, isolamento da
criança (Pires & Miyazaki, 2005). É importante ressaltar a sutileza deste tipo de
violência, sendo assim, torna-se mais difícil de ser detectado, embora seja tão
prejudicial ao desenvolvimento da criança e do adolescente quanto à violência física.
Violência sexual refere-se ao jogo ou ato sexual entre o adulto e a criança e/ou
adolescente tendo como finalidade incitar sexualmente ou obter satisfação sexual sobre
a pessoa. A coerção e o medo favorecem a participação da criança. Levando em
consideração o contexto, o abuso intrafamiliar é o mais comum, envolve o ato sexual
entre a criança e o pai, irmão, tio, avó, tia ou padrasto. Quando o agressor não é
diretamente um membro da família, geralmente, é alguém próximo, um vizinho,
professor, amigo da família. Também existem casos de abusos cometidos dentro de
instituições, por funcionários ou cuidadores, que tem como função proteger a criança
quando a mesma é retirada de seu convívio familiar (Pires & Miyazaki, 2005).
O que se pode observar é que para alguns entrevistados a concepção de
violência doméstica é mais abrangente, envolvendo todas as modalidades. Contudo,
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para outros, uma modalidade importante e muitas vezes, mais freqüente, como é o caso
da negligência não foi relatada, talvez por não corresponder a mais frequente naquele
ambiente ou pelo desconhecimento por parte do profissional de sua existência.
Falar sobre violência doméstica contra crianças e adolescentes, para muitas
pessoas não é uma tarefa fácil, pois envolvem valores, crenças, questões pessoais,
sentimentos e emoções que causam revoltas e, muitas vezes, o desejo de buscar uma
punição aos agressores.
Embora nos dias hoje os casos de violência sejam mais acessíveis por meio da
mídia, deve-se considerar que a violência contra crianças e adolescentes existe há muito
tempo em nossa sociedade. De acordo com Pires & Miyazaki (2005), a violência
praticada contra crianças e adolescentes é antiga, habitual e muito aceita por algumas
sociedades de outras épocas.
Ainda segundo os mesmos autores, existem relatos de agressões contra crianças
desde os tempos da civilização Greco-romana, a qual possuía um elevado número de
infanticídios devido à miséria ou por alguma deficiência que a criança apresentasse. Na
civilização Hebréia, por exemplo, a disciplina era essencial, consta na literatura a
existência de uma lei (século XIII a.C) que ensinava os pais como castigarem seus
filhos desobedientes e, quando os mesmos não conseguiam educar seus filhos, um
conselho era chamado para controlar a situação lidando com o filho problema, ele era
punindo e muitas vezes apedrejando até a morte (Pires & Miyazaki, 2005).
Apesar de constar os relatos de violência desde muitos anos atrás, a preocupação
com essas situações, bem como, com a vida das crianças e adolescentes é relativamente
recente. Teve início em 1874 nos Estados Unidos, decorrente de um caso de abandono
de uma mãe, as primeiras reflexões sobre o assunto. Ela se chamava Mary Ellen Wilson,
passou por uma situação de abandono na infância devido à morte dos pais e acabou aos
cuidados de uma madrasta que praticava violência com ela, um fato curioso desta
história é que a época não existia nenhuma autoridade em relação a este assunto e Mary
Ellen Wilson acabou aos cuidados de uma sociedade protetora dos animais, pois
segundo os princípios desta unidade as crianças pertenciam ao reino animal (Pires &
Miyazaki, 2005).
Foi em 1961, com a descrição da Síndrome da Criança Espancada por Henry
Kempe, que um avanço no que tange as questões sobre violência contra crianças e
adolescentes ocorreram. Esta síndrome incidia sobre crianças de baixa idade, que
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apresentavam graves ferimentos em diferentes épocas, e as explicações fornecidas pelos
pais eram discordantes ou inadequadas (Pires & Miyazaki, 2005).
No início dos anos 70, no Brasil, a pediatria passou a considerar a violência
contra crianças e adolescentes como um problema de saúde. Na década de 80 houve um
aumento na atenção em relação à questão e, somente em 1988, a Constituição
Brasileira, no artigo 227, passou a garantir os direitos à criança e ao adolescente, que
deixam de ser vistos como propriedade dos pais (Pires & Miyazaki, 2005).
Outro ponto que merece ser destacado refere-se ao Estatuto da Criança e do
Adolescente, no qual os direitos das crianças e adolescentes ficaram assegurados. Além
disso, tornou obrigatório aos profissionais da saúde notificar os casos de maus tratos.
Portanto, cabe aos profissionais, não apenas os da saúde, mas todos que lidam e passam
muito tempo com as crianças e adolescentes, saber identificar os casos de violência para
poder notificar as autoridades competentes.
Impacto da VD sobre o aprendizado das crianças e adolescentes.
Três dos entrevistados responderam a questão sobre o impacto no aprendizado
das crianças e adolescentes que sofrem de VD e nota-se que todos têm o conhecimento
sobre o prejuízo que essas crianças e adolescentes podem sofrer em seu processo de
aprendizagem. Dois deles apresentam uma preocupação com o “andamento da sala”, ou
seja, se preocupam com o “mau” comportamento desses alunos em sala de aula, pois
podem atrasar o aprendizado de outras crianças e o professor fica sem saber como agir.
Conforme afirma a professora D eles “[...] se sentem assim, retraídos, o
desenvolvimento deles cai bastante, e assim, o rendimento escolar diminui muito” (sic.).
Essa professora reafirma a sua fala com o exemplo de um aluno específico:
[...] ele parou de prestar atenção na aula. [...] conforme a
bagunça ele não queria nem saber da explicação, das
atividades, não realizava, começava a escrever e largava,
não fazia mais nada. Ele saia correndo na sala, gritando,
fazia bagunça, chamava atenção da escola inteira... Muito,
muito complicado mesmo, porque eu já tenho um
hiperativo na sala de doze anos, no meio de uma turma de
oito... Então ele assim, como se diz, fora do normal. Então
pra chamar a atenção dele é o tempo inteirinho. Então, e
esse junto com esse outro [...], e os dois ficavam correndo
um atrás do outro brincando, não tinha compromisso com
mais nada. Foi bem difícil, mais depois das conversas com
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ele, e a direção, coordenação, ele melhorou muito.
(Professora D. 2010)
Para essa professora o sentimento de impotência diante da situação acaba
interferindo no processo ensino-aprendizagem:
É complicado porque na hora que você esta dentro da sala
você é obrigado a aceitar todo tipo de aluno, e na hora de
chamar a atenção nem todos obedecem, então me sinto
assim, meio como se diz, amarrada porque passar o
conteúdo é fácil colocar no quadro, mas fazer com que as
crianças aprendam tem que todos estar querendo aprender
pra ter um bom andamento e se vêm um ou dois com
problemas na sala, atrapalha a sala e isso a gente sente.
(Professora D. 2010)
E isso acaba atrapalhando em certos momentos o seu trabalho
[...] porque a gente quer fazer o melhor por eles, a gente
estudou pra isso né, mais tem horas que deixam um pouco
a desejar, esse trabalho da gente fica um pouco assim,
complicado, por que a vontade da gente é que todos
aprendessem igualmente, mais não tem uma sala
homogenia, não são todos iguais, tem aluno assim que eu
trato individualmente, vou de carteira em carteira e tem
uns que vão que é uma beleza, sozinhos, e outros não.
(Professora D. 2010)
A pedagoga E. também expõe sobre as conseqüências da VD sobre o
desempenho escolar do aluno:
A criança que sofre violência doméstica, geralmente tende
a ter baixo desempenho escolar. Esses casos afetam o
emocional, né? Comprometendo a aprendizagem do
educando, nesses casos, eles devem receber atendimento
em sala de recurso ou mesmo em sala especial, após um
acompanhamento com a equipe psicopedagógica da
escola. Também orientar os professores nos conteúdos que
devem ser trabalhados em sala de aula etc. (Pedagoga E.
2010)
O professor A. diz que isso “depende” (sic.), pois para alguns alunos que sofrem
de VD a escola acaba se tornando um refúgio e essa criança é capaz de aprender, mas
[...], existe outras que a escola é um refúgio, mas estão
preocupados em quando voltar para casa. E a maioria
desses alunos prejudica o andamento da sala. [...] A
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maioria tem problema, não presta atenção porque a
preocupação deles é sempre na violência que sofreram. A
maioria é violento porque aprende isso em casa e acha que
tudo resolve na pancada, ou usando de outro tipo de
violência. Tem alunos da 5°, 6° série, [...] meninas que [...]
passam a mão na... (referindo-se a nádega) de outras
meninas [...] isso pode ser um reflexo de casa porque o pai
ou mãe passam né. Mas de modo geral atrapalha sim, e
não só deles, porque essas pessoas que sofrem de violência
dentro de casa acabam comprometendo toda uma sala de
aula, mas depende do professor também e não só do aluno.
(Professor A. 2010)
Através do Projeto Aquarela que atende a crianças e adolescentes que sofreram
de VD, juntamente com suas famílias, foi realizado uma pesquisa que teve como
objetivo traçar o perfil do educando e as estratégias de trabalho estabelecidas para
auxiliar no processo de ensino-aprendizagem. Os dados foram coletados por meio de
entrevista realizada com a pedagoga e coordenadora do projeto efetivada em São José
dos Campos – SP (Veiga, Silva & Silva, 2009). Essa pedagoga ressalta a importância de
assistir a criança quando são detectados sinais de violência, pois “sendo essa família
assistida pelo Projeto, provavelmente essa criança não terá problema de aprendizagem,
já o contrário certamente a dificuldade será de grau elevado sendo necessária a ajuda de
um psicopedagogo” (n.d).
Veiga, Silva & Silva (2009) afirma que a vítima de VD, na grande maioria das
vezes, tem o aprendizado comprometido por um conjunto de fatores como:
inseguranças, baixa auto-estima, medo, falta de concentração, desorganização interna e
espacial.
Há sim uma influência significativa no processo de ensino-aprendizagem das
crianças e adolescentes que sofrem de VD e para cada tipo de violência sofrida (período
e intensidade) existe um comprometimento diferenciado. Portanto, segundo a lei n.
8.069, artigo 245, “cabe à escola, educadores, familiares e ao Estado garantir que essas
crianças tenham seus direitos assegurados”. (ECA, 1990).
Vygotsky (1984) argumenta que as relações sociais e a cultura em que o
indivíduo está inserido, definem o curso do desenvolvimento da pessoa humana, sendo
assim cabe a nós garantir que o ambiente em que essas crianças e adolescentes estão
contribua para o desenvolvimento de suas potencialidades. No Projeto Aquarela, de
acordo com Veiga, Silva & Silva (2009), isso é proporcionado às crianças atendidas por
meio de intervenções e abordagens diferentes, criando um espaço para vivência do
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diálogo infantil, a partir de jogos de imaginação que as próprias crianças criam ao
brincar, uma vez que “ajudam a corrigir erros evolutivos que estariam impedindo ou
perturbando seu desenvolvimento, além de propiciar o acesso ao ambiente cultural e a
evolução da linguagem e do pensamento” (n.d).
Weiss (apud Rosas, 2006) em sua tese, afirma que os aspectos emocionais estão
diretamente ligados ao desenvolvimento afetivo e possuem relação com a construção do
conhecimento, expressando-se através da produção escolar. “O não aprender pode, por
exemplo, expressar uma dificuldade na relação da criança com sua família; será o
sintoma de que algo vai mal nessa dinâmica”. (p.11)
Sendo assim, entende-se que se o ambiente familiar estiver desequilibrado, ou
seja, apresenta-se de forma hostil, afetará diretamente o desenvolvimento mental, físico
e emocional dessas crianças e adolescentes que sofrem de qualquer forma de VD,
refletindo diretamente em seu desempenho escolar. Piaget (1978) afirma que
dependendo das estimulações ambientais, a inteligência pode ser desenvolvida além ou
aquém de seu potencial.
Quando se detecta precocemente a VD é possível corrigir esse ambiente dando
suporte social e legal, diminuindo a probabilidade dessas crianças e adolescentes que
foram maltratadas a se tornarem pais que também maltratam.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O uso da violência para solucionar os conflitos inerentes às relações entre os
humanos não é a forma mais eficaz de convívio em sociedade e muito menos serve de
modelo para educar as pessoas, principalmente quando os olhares mais cuidadosos se
voltam para as conseqüências desses atos.
Os professores entrevistados apresentam concepções de violência doméstica de
forma diversificada, uns citaram todas as modalidades de violência e outros destacaram
apenas aqueles que trazem impactos mais visíveis de forma direta como a violência
física. Este é um dado muito importante, pois o conhecimento a respeito das diferentes
modalidades de violência possibilita a identificação, bem como, as denúncias dos casos.
Quando chega a escola, as crianças que sofrem violência doméstica, além de
reproduzirem aquilo que aprendem em casa, apresentam mais dificuldades no seu
desenvolvimento escolar. Ficam menos atentas, pouco participativas, e apresentam
12
muitas dificuldades em aprender. Os entrevistados argumentaram que se o ambiente
familiar
for
desequilibrado,
provavelmente
afetará
de
forma
relevante
o
desenvolvimento mental, físico e emocional das crianças e adolescentes que sofrem de
qualquer forma de VD, ou seja, refletindo diretamente em seu desempenho escolar.
Desse modo, faz-se necessário investir nos profissionais da educação, pois passam
mais tempo com essas crianças do que elas com seus pais. Além disso, o tempo de
convivência com essas crianças pode facilitar a identificação das vítimas e,
consequentemente, os agressores. Deste modo, acredita-se que o preparo dos
professores e outros educadores é fundamental para que se possa amenizar e prevenir a
violência contra as crianças e adolescentes de nosso país. É preciso se posicionar, pois a
negligência também é uma forma de violência.
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Fontes.
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