CONCEPÇÃO DOS EDUCADORES SOBRE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E CONHECIMENTO DO IMPACTO SOBRE A APRENDIZAGEM Magaly Bruna Ramos – [email protected] Tamiris S. de Oliveira – [email protected] Eliza Dieko Oshiro Tanaka – [email protected] (Universidade Estadual de Londrina) Introdução A violência doméstica (VD) tem se tornado um fenômeno cada vez mais vivenciado na sociedade contemporânea e se manifesta das mais variadas formas. Pode ser encontrada em diversos grupos e não se restringe a determinadas classes sociais, faixas etárias ou nível de escolarização. Devido a sua frequente ocorrência cotidiana, muitas vezes esse fenômeno é tomado como tão familiar que, ao invés de as pessoas compreenderem como uma construção social, acabam naturalizando-a. A VD traz consequências negativas tanto para a vítima quanto para a sociedade da qual ela faz parte. Sendo assim, para compreender a violência doméstica, primeiramente, é preciso entender a violência, aquela que implica em dor e sofrimento. Segundo Cavalcanti (2005) violência refere-se ao ato de utilizar a força física ou não, para obrigar outra pessoa a realizar algo contra sua vontade. Desse modo, é considerada violência doméstica o ato que acontece na unidade doméstica, onde geralmente quem atua é um membro da família ou alguém próximo que conviva com a vítima. Também chamada de violência intrafamiliar, ela pode ocorrer fora do espaço doméstico, contudo à ação de violência deve, neste caso, partir de um membro da família (Cavalcanti, 2005). A violência doméstica pode ser praticada em qualquer classe social e afetar crianças, idosos, mulheres, sendo um fenômeno de grande crueldade, praticada por homens e mulheres que ferem os direitos humanos de suas vítimas. Existem quatro formas de violência, são elas: física, psicológica, sexual e negligência. De modo geral, a violência física refere ao ato de agredir, ferir, deixando ou não marcas no corpo da vítima. Violência psicológica corresponde à rejeição, humilhação, ou seja, formas de depreciação do outro que apesar de não deixar marcas visíveis afeta 2 diretamente o desenvolvimento do indivíduo. Violência sexual envolve o abuso, o uso da força para obter prazer sem a permissão de forma consciente do outro. A negligência é o abandono, o não cumprimento dos deveres como responsável de outrem. (Pires &; Miyazaki, 2005). De acordo com a teoria histórico-cultural de Vygotsky, a qual compreende que sem a relação cultural o aprendizado não ocorre e consequentemente não há o desenvolvimento de aptidões e capacidades humanas (Mello, 2004). Sendo assim, é possível inferir que uma falha nesta relação cultural poderá prejudicar o desenvolvimento social, psicológico, bem como interferir diretamente no processo de aprendizagem dessas vítimas. Uma relação familiar adequada, portanto, é aquela que proporciona o desenvolvimento de seus membros através de atenção, carinho, diálogo, segurança, confiança, estímulos suficientes para o desenvolvimento de uma personalidade criativa, de uma pessoa autônoma e capaz de produzir conhecimento. A relação familiar é a referência das relações futuras dos seres humanos, é onde as pessoas experiênciam seu primeiro contato com o mundo. Cavalcanti (2005) afirma que é nela que o indivíduo aprenderá regras de convivência social, é a partir dessa relação com a família que o indivíduo em formação irá produzir seus julgamentos sobre o outro, assim como seus poderes e limites. A mesma autora afirma que na família a criança encontrará seus primeiros modelos de conduta, condutas que mesmo sendo não pertinentes ao convívio social, serão reproduzidas no futuro. Além disso, os conflitos que essas crianças e adolescentes enfrentam podem repercutir em seu aprendizado e em sua personalidade em formação. De acordo com a teoria histórico-cultural o processo de aprendizagem é sempre ativo, ou seja, o indivíduo tem que agir sobre o meio (Mello, 2004). Ao considerar a freqüência dos casos de violência contra crianças e adolescentes em nossa sociedade, pode-se afirmar que tais atos de violência estão para além das questões singulares, ela parte de uma problemática culturalmente desenvolvida e estabelecida. O fato de muitos pais acreditarem que punir através da violência é uma forma eficaz de educar deve ser reconsiderado, principalmente ao constatar que a criança poderá reproduzir o que foi ensinada a fazer. Sendo assim, torna-se evidente a importância da investigação sobre a concepção que os educadores (professores, pedagogos, orientadores, entre outros) têm sobre a violência doméstica. Pois, dependendo da forma que esses educadores entendem a VD, 3 se empenharam, ou não, para reduzi-la. Se os educadores compreendem que a VD pode trazer conseqüências negativas para o desenvolvimento emocional, físico, psíquico e no processo de aprendizado desta vítima, eles poderão trabalhar a favor da identificação das vítimas e, assim, assisti-las de forma eficaz. OBJETIVOS Verificar pública/municipal, a concepção têm sobre que os violência educadores/professores, doméstica; Averiguar de escola se os professores/educadores têm conhecimento sobre o provável impacto na aprendizagem dos alunos que vivenciam agressões realizadas por seus familiares e/ou cuidadores. MÉTODO Esta pesquisa se pautou no método qualitativo, o qual visa trabalhar com os significados, valores e atitudes de um determinado campo, ou seja, um conjunto de fenômenos humanos que é considerado uma parte da realidade social. Isto se justifica tendo em vista o fato de que as pessoas distinguem-se umas das outras não apenas por suas ações, mas, principalmente, pela potencialidade de pensar sobre seus atos e consequentemente interpretá-los de acordo com a realidade que vive e compartilha com os outros. Deste modo, as pesquisadoras envolvidas nessa dinâmica apresentarão os dados apreendidos de uma maneira singular, re-significando, considerando as questões histórico-sociais que se articulam nesse caminho e que são constituintes da subjetividade. As pesquisadoras buscaram informações com professores das cidades de Londrina, Ibiporã, Jataizinho e Primeiro de Maio que conheciam e que sabiam da existência de casos de VD nas escolas que atuam. Os dados foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada, com os professores dessas escolas. Posteriormente, as entrevistas foram transcritas na integra e submetidas à análise do seu conteúdo, visando à consonância com os objetivos da pesquisa. Participantes 4 Participaram da pesquisa quatro professores de escola pública ou municipal na qual havia notícias/denúncias de casos de violência doméstica por parte de pais e/ou cuidadores dos alunos (professor, diretor, pedagogo/orientador - e psicólogo, quando a escola tivesse esse profissional em sua equipe de trabalho). Os professores serão identificados pela inicial de seu nome. Professora D, formada em magistério e pedagogia, trabalha há oito anos como professora da rede municipal; Pedagoga E é orientadora educacional em uma escola municipal há 18 anos; Professor A, está a seis meses na escola, leciona Filosofia para turmas de primeiro, segundo e terceiro ano do Ensino Médio; Professor K, trabalha a 19 anos como professor na rede pública. Instrumentos Foram utilizados para a pesquisa gravadores, computador, papel e canetas. Foi elaborado um roteiro com base nos estudos de Paulo Celso Pereira e Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams, da Universidade Federal de São Carlos, através do artigo “A concepção de educadores sobre violência doméstica e desempenho escolar” encontrado na Revista Psicologia Escolar e Educacional, vol. 12, n°1, que foi publicado em junho de 2008. Posteriormente solicitou-se a colaboração de alguns juízes, profissionais que possuem conhecimento da temática, para avaliar a adequação do roteiro quanto á linguagem, seqüência e abrangência do fenômeno estudado. Procedimentos Primeiramente, entrou-se em contato com o Conselho Tutelar de Londrina, para obter informações quanto às escolas que tinham possíveis casos de violência doméstica denunciados. Como não foi possível obter as informações nesse órgão, buscou-se, então, outras fontes de investigação. Assim, realizou-se um contato prévio com os professores de escolas as quais as pesquisadoras já tinham conhecimento e informações de casos de violência. Inicialmente esclareceram-se os objetivos da pesquisa aos professores previamente contatados e, posteriormente, foi marcado um encontro com cada um separadamente para iniciar a coleta de dados. Os participantes receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que depois de lido e aceito foi assinado por eles. Após isso foram realizadas as entrevistas 5 orais e em forma de perguntas baseadas no roteiro previamente elaborado pela equipe de pesquisa. As entrevistas foram gravadas a partir do consentimento do participante e transcritas na integra para a realização de análise de conteúdo. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os entrevistados abordaram a violência doméstica tendo em vista os seguintes temas: Concepção de violência doméstica De acordo com as falas dos entrevistados foi possível identificar a sua concepção sobre a violência doméstica. Segundo a pedagoga E, de uma escola municipal, “violência doméstica é todo tipo de maus tratos que a criança ou adolescente sofre no seu ambiente familiar. Aí pode ser agressões físicas, psíquicas, maus tratos, abuso sexual (sic)”. Para a professora D, a violência doméstica “é o mau trato com a criança, o abandono, não acompanhar na vida escolar, não dar educação necessária, alimentação também, tudo isso é uma violência” (sic). Na fala desta professora a violência parece estar mais relacionada à modalidade de negligência e abandono, mas também enfatiza um aspecto importante que não foi ressaltado por nenhum outro entrevistado. Ela cita como negligência o fato de os pais não acompanharem a vida escolar de seus filhos, ou seja, uma violência aos seus direitos de educação o que se enquadra na modalidade de negligência educacional. O professor A considerou também os aspectos da negligência e classificou que a pior violência é a física “[...] se bem que a violência física é a pior de todas” (sic). O professor K enfatizou a violência sexual, “Tem a sexual, né? Acho que também entraria na violência afetiva. Acho que os pais também cometem atentado ao pudor com os filhos” (sic). Neste caso, o professor mostrou que desconhece as especificidades, bem como outras modalidades de violência doméstica além da sexual. Segundo Pires e Miyazaki (2005), negligência refere-se à omissão dos pais ou responsáveis em promover e satisfazer as necessidades básicas (alimentação, vestuário, educação, proteção, cuidados de higiene) da criança e/ou adolescente. A negligência é classificada em três tipos mais freqüentes: negligência física, emocional e educacional. A negligência física corresponde à ausência de cuidados com 6 a saúde da criança ou adolescente, cuidados médicos. Incluem também, imprudência no trânsito, falta de medidas preventivas, supervisão inadequada, entre outros. A negligência emocional envolve a falta de afetividade e atenção, bem como, a permissão ou incentivo de atos delinquente. E a negligência educacional está relacionada à falta de atenção ou a não realização de matrícula escolar, acompanhamento da vida escolar, permitir faltar às aulas, entre outros (Pires & Miyazaki, 2005). A violência doméstica contra crianças e adolescentes se caracteriza por ações ou omissões de maus-tratos, negligência, agressões físicas, psicológicas e abuso sexual. Pode aparecer na forma pura (uma modalidade) ou associada (mais de uma modalidade) (Brito, Zanetta, Mendonça, Barison, Andrade, 2005). Ela acontece dentro de casa nas relações familiares e é causada por aqueles que na realidade deveriam proteger e garantir um desenvolvimento saudável para a criança e/ou adolescente. Quando a violência não deixa marcas no corpo torna-se mais difícil detectá-la, pois na maioria dos casos as famílias optam pelo silêncio (Oliveira &; Caldana, 2009). De forma mais específica, as modalidades de violência doméstica são violência física, psicológica, sexual e negligência. Violência Física é toda ação que provoque dor física. Violência Psicológica, também chamada de “tortura psicológica”, acontece quando existe rejeição, discriminação continua a criança inibindo seu empenho de autoaceitação causando sofrimento psicológico. Envolve também, na maioria das vezes, comportamentos de humilhar e agressões verbais, cobranças exageradas, isolamento da criança (Pires & Miyazaki, 2005). É importante ressaltar a sutileza deste tipo de violência, sendo assim, torna-se mais difícil de ser detectado, embora seja tão prejudicial ao desenvolvimento da criança e do adolescente quanto à violência física. Violência sexual refere-se ao jogo ou ato sexual entre o adulto e a criança e/ou adolescente tendo como finalidade incitar sexualmente ou obter satisfação sexual sobre a pessoa. A coerção e o medo favorecem a participação da criança. Levando em consideração o contexto, o abuso intrafamiliar é o mais comum, envolve o ato sexual entre a criança e o pai, irmão, tio, avó, tia ou padrasto. Quando o agressor não é diretamente um membro da família, geralmente, é alguém próximo, um vizinho, professor, amigo da família. Também existem casos de abusos cometidos dentro de instituições, por funcionários ou cuidadores, que tem como função proteger a criança quando a mesma é retirada de seu convívio familiar (Pires & Miyazaki, 2005). O que se pode observar é que para alguns entrevistados a concepção de violência doméstica é mais abrangente, envolvendo todas as modalidades. Contudo, 7 para outros, uma modalidade importante e muitas vezes, mais freqüente, como é o caso da negligência não foi relatada, talvez por não corresponder a mais frequente naquele ambiente ou pelo desconhecimento por parte do profissional de sua existência. Falar sobre violência doméstica contra crianças e adolescentes, para muitas pessoas não é uma tarefa fácil, pois envolvem valores, crenças, questões pessoais, sentimentos e emoções que causam revoltas e, muitas vezes, o desejo de buscar uma punição aos agressores. Embora nos dias hoje os casos de violência sejam mais acessíveis por meio da mídia, deve-se considerar que a violência contra crianças e adolescentes existe há muito tempo em nossa sociedade. De acordo com Pires & Miyazaki (2005), a violência praticada contra crianças e adolescentes é antiga, habitual e muito aceita por algumas sociedades de outras épocas. Ainda segundo os mesmos autores, existem relatos de agressões contra crianças desde os tempos da civilização Greco-romana, a qual possuía um elevado número de infanticídios devido à miséria ou por alguma deficiência que a criança apresentasse. Na civilização Hebréia, por exemplo, a disciplina era essencial, consta na literatura a existência de uma lei (século XIII a.C) que ensinava os pais como castigarem seus filhos desobedientes e, quando os mesmos não conseguiam educar seus filhos, um conselho era chamado para controlar a situação lidando com o filho problema, ele era punindo e muitas vezes apedrejando até a morte (Pires & Miyazaki, 2005). Apesar de constar os relatos de violência desde muitos anos atrás, a preocupação com essas situações, bem como, com a vida das crianças e adolescentes é relativamente recente. Teve início em 1874 nos Estados Unidos, decorrente de um caso de abandono de uma mãe, as primeiras reflexões sobre o assunto. Ela se chamava Mary Ellen Wilson, passou por uma situação de abandono na infância devido à morte dos pais e acabou aos cuidados de uma madrasta que praticava violência com ela, um fato curioso desta história é que a época não existia nenhuma autoridade em relação a este assunto e Mary Ellen Wilson acabou aos cuidados de uma sociedade protetora dos animais, pois segundo os princípios desta unidade as crianças pertenciam ao reino animal (Pires & Miyazaki, 2005). Foi em 1961, com a descrição da Síndrome da Criança Espancada por Henry Kempe, que um avanço no que tange as questões sobre violência contra crianças e adolescentes ocorreram. Esta síndrome incidia sobre crianças de baixa idade, que 8 apresentavam graves ferimentos em diferentes épocas, e as explicações fornecidas pelos pais eram discordantes ou inadequadas (Pires & Miyazaki, 2005). No início dos anos 70, no Brasil, a pediatria passou a considerar a violência contra crianças e adolescentes como um problema de saúde. Na década de 80 houve um aumento na atenção em relação à questão e, somente em 1988, a Constituição Brasileira, no artigo 227, passou a garantir os direitos à criança e ao adolescente, que deixam de ser vistos como propriedade dos pais (Pires & Miyazaki, 2005). Outro ponto que merece ser destacado refere-se ao Estatuto da Criança e do Adolescente, no qual os direitos das crianças e adolescentes ficaram assegurados. Além disso, tornou obrigatório aos profissionais da saúde notificar os casos de maus tratos. Portanto, cabe aos profissionais, não apenas os da saúde, mas todos que lidam e passam muito tempo com as crianças e adolescentes, saber identificar os casos de violência para poder notificar as autoridades competentes. Impacto da VD sobre o aprendizado das crianças e adolescentes. Três dos entrevistados responderam a questão sobre o impacto no aprendizado das crianças e adolescentes que sofrem de VD e nota-se que todos têm o conhecimento sobre o prejuízo que essas crianças e adolescentes podem sofrer em seu processo de aprendizagem. Dois deles apresentam uma preocupação com o “andamento da sala”, ou seja, se preocupam com o “mau” comportamento desses alunos em sala de aula, pois podem atrasar o aprendizado de outras crianças e o professor fica sem saber como agir. Conforme afirma a professora D eles “[...] se sentem assim, retraídos, o desenvolvimento deles cai bastante, e assim, o rendimento escolar diminui muito” (sic.). Essa professora reafirma a sua fala com o exemplo de um aluno específico: [...] ele parou de prestar atenção na aula. [...] conforme a bagunça ele não queria nem saber da explicação, das atividades, não realizava, começava a escrever e largava, não fazia mais nada. Ele saia correndo na sala, gritando, fazia bagunça, chamava atenção da escola inteira... Muito, muito complicado mesmo, porque eu já tenho um hiperativo na sala de doze anos, no meio de uma turma de oito... Então ele assim, como se diz, fora do normal. Então pra chamar a atenção dele é o tempo inteirinho. Então, e esse junto com esse outro [...], e os dois ficavam correndo um atrás do outro brincando, não tinha compromisso com mais nada. Foi bem difícil, mais depois das conversas com 9 ele, e a direção, coordenação, ele melhorou muito. (Professora D. 2010) Para essa professora o sentimento de impotência diante da situação acaba interferindo no processo ensino-aprendizagem: É complicado porque na hora que você esta dentro da sala você é obrigado a aceitar todo tipo de aluno, e na hora de chamar a atenção nem todos obedecem, então me sinto assim, meio como se diz, amarrada porque passar o conteúdo é fácil colocar no quadro, mas fazer com que as crianças aprendam tem que todos estar querendo aprender pra ter um bom andamento e se vêm um ou dois com problemas na sala, atrapalha a sala e isso a gente sente. (Professora D. 2010) E isso acaba atrapalhando em certos momentos o seu trabalho [...] porque a gente quer fazer o melhor por eles, a gente estudou pra isso né, mais tem horas que deixam um pouco a desejar, esse trabalho da gente fica um pouco assim, complicado, por que a vontade da gente é que todos aprendessem igualmente, mais não tem uma sala homogenia, não são todos iguais, tem aluno assim que eu trato individualmente, vou de carteira em carteira e tem uns que vão que é uma beleza, sozinhos, e outros não. (Professora D. 2010) A pedagoga E. também expõe sobre as conseqüências da VD sobre o desempenho escolar do aluno: A criança que sofre violência doméstica, geralmente tende a ter baixo desempenho escolar. Esses casos afetam o emocional, né? Comprometendo a aprendizagem do educando, nesses casos, eles devem receber atendimento em sala de recurso ou mesmo em sala especial, após um acompanhamento com a equipe psicopedagógica da escola. Também orientar os professores nos conteúdos que devem ser trabalhados em sala de aula etc. (Pedagoga E. 2010) O professor A. diz que isso “depende” (sic.), pois para alguns alunos que sofrem de VD a escola acaba se tornando um refúgio e essa criança é capaz de aprender, mas [...], existe outras que a escola é um refúgio, mas estão preocupados em quando voltar para casa. E a maioria desses alunos prejudica o andamento da sala. [...] A 10 maioria tem problema, não presta atenção porque a preocupação deles é sempre na violência que sofreram. A maioria é violento porque aprende isso em casa e acha que tudo resolve na pancada, ou usando de outro tipo de violência. Tem alunos da 5°, 6° série, [...] meninas que [...] passam a mão na... (referindo-se a nádega) de outras meninas [...] isso pode ser um reflexo de casa porque o pai ou mãe passam né. Mas de modo geral atrapalha sim, e não só deles, porque essas pessoas que sofrem de violência dentro de casa acabam comprometendo toda uma sala de aula, mas depende do professor também e não só do aluno. (Professor A. 2010) Através do Projeto Aquarela que atende a crianças e adolescentes que sofreram de VD, juntamente com suas famílias, foi realizado uma pesquisa que teve como objetivo traçar o perfil do educando e as estratégias de trabalho estabelecidas para auxiliar no processo de ensino-aprendizagem. Os dados foram coletados por meio de entrevista realizada com a pedagoga e coordenadora do projeto efetivada em São José dos Campos – SP (Veiga, Silva & Silva, 2009). Essa pedagoga ressalta a importância de assistir a criança quando são detectados sinais de violência, pois “sendo essa família assistida pelo Projeto, provavelmente essa criança não terá problema de aprendizagem, já o contrário certamente a dificuldade será de grau elevado sendo necessária a ajuda de um psicopedagogo” (n.d). Veiga, Silva & Silva (2009) afirma que a vítima de VD, na grande maioria das vezes, tem o aprendizado comprometido por um conjunto de fatores como: inseguranças, baixa auto-estima, medo, falta de concentração, desorganização interna e espacial. Há sim uma influência significativa no processo de ensino-aprendizagem das crianças e adolescentes que sofrem de VD e para cada tipo de violência sofrida (período e intensidade) existe um comprometimento diferenciado. Portanto, segundo a lei n. 8.069, artigo 245, “cabe à escola, educadores, familiares e ao Estado garantir que essas crianças tenham seus direitos assegurados”. (ECA, 1990). Vygotsky (1984) argumenta que as relações sociais e a cultura em que o indivíduo está inserido, definem o curso do desenvolvimento da pessoa humana, sendo assim cabe a nós garantir que o ambiente em que essas crianças e adolescentes estão contribua para o desenvolvimento de suas potencialidades. No Projeto Aquarela, de acordo com Veiga, Silva & Silva (2009), isso é proporcionado às crianças atendidas por meio de intervenções e abordagens diferentes, criando um espaço para vivência do 11 diálogo infantil, a partir de jogos de imaginação que as próprias crianças criam ao brincar, uma vez que “ajudam a corrigir erros evolutivos que estariam impedindo ou perturbando seu desenvolvimento, além de propiciar o acesso ao ambiente cultural e a evolução da linguagem e do pensamento” (n.d). Weiss (apud Rosas, 2006) em sua tese, afirma que os aspectos emocionais estão diretamente ligados ao desenvolvimento afetivo e possuem relação com a construção do conhecimento, expressando-se através da produção escolar. “O não aprender pode, por exemplo, expressar uma dificuldade na relação da criança com sua família; será o sintoma de que algo vai mal nessa dinâmica”. (p.11) Sendo assim, entende-se que se o ambiente familiar estiver desequilibrado, ou seja, apresenta-se de forma hostil, afetará diretamente o desenvolvimento mental, físico e emocional dessas crianças e adolescentes que sofrem de qualquer forma de VD, refletindo diretamente em seu desempenho escolar. Piaget (1978) afirma que dependendo das estimulações ambientais, a inteligência pode ser desenvolvida além ou aquém de seu potencial. Quando se detecta precocemente a VD é possível corrigir esse ambiente dando suporte social e legal, diminuindo a probabilidade dessas crianças e adolescentes que foram maltratadas a se tornarem pais que também maltratam. CONSIDERAÇÕES FINAIS O uso da violência para solucionar os conflitos inerentes às relações entre os humanos não é a forma mais eficaz de convívio em sociedade e muito menos serve de modelo para educar as pessoas, principalmente quando os olhares mais cuidadosos se voltam para as conseqüências desses atos. Os professores entrevistados apresentam concepções de violência doméstica de forma diversificada, uns citaram todas as modalidades de violência e outros destacaram apenas aqueles que trazem impactos mais visíveis de forma direta como a violência física. Este é um dado muito importante, pois o conhecimento a respeito das diferentes modalidades de violência possibilita a identificação, bem como, as denúncias dos casos. Quando chega a escola, as crianças que sofrem violência doméstica, além de reproduzirem aquilo que aprendem em casa, apresentam mais dificuldades no seu desenvolvimento escolar. Ficam menos atentas, pouco participativas, e apresentam 12 muitas dificuldades em aprender. Os entrevistados argumentaram que se o ambiente familiar for desequilibrado, provavelmente afetará de forma relevante o desenvolvimento mental, físico e emocional das crianças e adolescentes que sofrem de qualquer forma de VD, ou seja, refletindo diretamente em seu desempenho escolar. Desse modo, faz-se necessário investir nos profissionais da educação, pois passam mais tempo com essas crianças do que elas com seus pais. Além disso, o tempo de convivência com essas crianças pode facilitar a identificação das vítimas e, consequentemente, os agressores. Deste modo, acredita-se que o preparo dos professores e outros educadores é fundamental para que se possa amenizar e prevenir a violência contra as crianças e adolescentes de nosso país. É preciso se posicionar, pois a negligência também é uma forma de violência. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BRITO, A. M. M. ZANETTA, D. M. T. MENDONÇA, R. DE C. V. BARISON, S. Z. P. ANDRADE, V. A. G. (2005). Violência doméstica contra crianças e adolescentes: estudo de um programa de intervenção. Ciênc. saúde coletiva [online], vol.10, n.1, pp. 143-149. Disponível em: [http://redalyc.uaemex.mx/pdf/630/63010121.pdf] CAVALCANTI, STELA VALÉRIA SOARES DE FARIAS (2005). A Violência Doméstica como Violação dos Direitos Humanos. Disponível em <http://jus.uol.com.br/revista/texto/7753/a-violencia-domestica-como-violacao-dosdireitos-humanos> Acessado em 29/04/2011. ESTATUTO DA CRIANÇA E ADOLESCENTE: lei n. 8.069 de 13 de julho de 1990. 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