AVULSAS IMPRESSÕES
«Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro»
Natália Correia
in, Sonetos Românticos, 1990
1. Criar é seduzir resistindo; é passear por todos os Limbos na companhia
eufórica, embriagada, inquieta e irrequieta de Dionisos. «Que eu seja
igual a mim / e diferente a cada segundo / falando a voz da criação».
Possamos nós, agora, beber deste doce-vinho-salgado, qual fenómeno
das parreiras com cheiro de rosas, cultivadas nos campos do Prazer!
Comamos os desejos-de-asa-azul-e-ouro dos deuses-amantes com o
tempero da flor de Sal! Possamos nós também, aqui e agora, desflorar
- com todos os sentidos - a flor de sal nos dias mágicos das “coisas
assombrosas”.
2. Como é difícil o aMor?! É urgente exorcizar! É preciso resistir às
distracções de um quotidiano rotineiro e fazer renascer em nós, essa
força sublime que tudo pode. Possamos nós “fazer” o aMor e seremos
como deuses.
3. De que falam os poetas?! De outra coisa… Ainda bem que não
sabemos o que é. Mas é para lá que iremos almificamente. Se assim
não for, nada terá sentido. Eis, entre vários e diferentes, o caminho.
Mas é esse que vale a pena; é esse que nos tornará eternos e divinos.
4. Evocar o aMor para que se possa de facto viver, é a proposta do poeta,
homem-artista multifacetado, plural, irrequieto, em demanda,
insatisfeito, inquieto, corajoso, em-excesso, que cria como quem
respira e que ama porque vive. O que importa tudo o mais!?
5. Creio que os poemas deste livro-sedução querem dizer e dizem, o
Indizível, a Eternidade, a Paixão, a Beleza, a liberdade de se amar e
de ser amado de uma maneira peculiar, original, diferente. A fruição
destes “poemas-setas-ao-coração” dos amantes, traz-me à mente
alguns versos do poema DA MULHER que escrevi em 1987 e que,
parece-me, vão ao encontro e estabelecem uma espécie de
cumplicidade com estes poemas de Carlos Amaral que renovam
também, a doce e grandiosa “ideia/tese” da Mátria da nossa querida e
saudosa Natália Correia: «(...) Tenho que sair deste poema-vaginal /
Antes de “comer” em gula TODAS / As fantasias da carne / E as
femininas tempestades de espírito // Não sei nada de MULHER /
Beijarei a mama mais próxima do Infinito / E tentarei adormecer /
Sobre o ventre quente da MULHER-DEUS».
6. Cada poema deste manual-de-sensações, é um hino, uma apologia ao
aMor sem outra pretensão que não seja a de “compreender” o
essencial da humanidade em qualquer das suas dimensões. Um
ensaio, um tratado, uma definição, o que quer que seja neste âmbito,
pouco ou nada dirá de verdadeiro e de essencial sobre a força motriz
de todos os seres.
7. «Desflorar da Flor de Sal» é também um exercício de respiração. O
poeta respira flores de sal. «Desflorar da Flor de Sal» não é só e
apenas um livro de poemas; é, sobretudo, um sentido à procura de
outros sentidos, um manifesto de Vida, uma singular aplicação da
nobre máxima de Heraclito: «é a mim mesmo que procuro».
8. Carlos é um apaixonado deus-aprendiz, o guardião do oráculo que
habita o seu olhar de poeta, que não vê apenas, mas que tem a nobre
capacidade de reparar: «que o olhar me lamba como pote de mel».
«Devora as pérolas da tentação / no jardim das metáforas, / onde os
dias bebem imagens / na inclemência dos olhos».
9. Há coragem e ousadia (apanágio dos criadores) pois o poeta expõe-se
e assume as suas emoções e sentimentos: alegria, dor, sofrimento,
erotismo, paixão, êxtase... como que a dizer-nos à boa maneira dos
românticos de todos os tempos: aqui estou!; assim me apresento!;
conheçam o melhor que há em mim e (talvez) em vós!
10. Eis o poeta do aMor que, sem querer ensinar, nos ensina que a vida
de todos os dias tem mais magia, encanto, “libertação” (Kathársis)
quando vivemos intensamente e manifestamos e partilhamos as
nossas relações de paixão, amizade, desgosto... os nossos
“amantismos” favoráveis e desfavoráveis; sejamos também líricos,
amorosamente sofredores, saudosistas, carinhosos, românticos,
apaixonados e apaixonantes.
11. É
urgente fazer deste nosso racional mundo, um éden de
enamoramentos. É urgente acender no “mais essencial” dos homens e
das mulheres, o fogo da paixão amorosa: «nos lábios carnudos sente a
flor de sal / indo para além do bem, / ficando muito aquém do mal».
Que o aMor “de asas de ouro” esteja sempre convosco!
Ângelo Rodrigues
29 de Março de 2010
http://angelorodrigues1.com.sapo.pt
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desflorar da flo de sal - Ângelo Rodrigues