EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente OS IMPACTOS DAS POLÍTICAS EDUCACIONAIS BRASILEIRA NO TRABALHO DOCENTE Elda Alvarenga1 Emília Peixoto Vieira2 Miriam Morelli Lima3 Apresentação Pesquisar o trabalho docente no contexto atual requer um estudo aprofundado das reformas educacionais promovidas nos últimos anos no cenário brasileiro, além de compreender os aspectos históricos, sociais, políticos, econômicos e culturais concernentes à realidade da sociedade contemporânea. As transformações ocorridas em tal contexto afetaram profundamente a vida social e, conseqüentemente, as questões relacionadas à educação. Segundo Oliveira (2003) “o movimento de reformas que toma corpo nos países da América Latina nos anos 1990 traz conseqüências significativas para a organização e a gestão escolar, resultando uma reestruturação do trabalho docente, podendo alterar até sua natureza” (2003, p. 33). Essas reformas procuraram traduzir as demandas postas pela lógica do capital, respondendo às exigências dos organismos internacionais. As transformações recentes no modo de produção capitalista - a transição do fordismo à acumulação flexível foram algumas das mudanças encontradas pelo capital para a retomada do crescimento econômico. É nesse contexto que o estado brasileiro define sua política educacional, tendo como principais características a regulação e o controle, um Estado Avaliador e Regulador. Nesse sentido, as reformas evidenciaram a necessidade de adequação do trabalho docente às novas exigências profissionais advindas das inovações tecnológicas e da conseqüente mudança no mundo do trabalho. O Estado com sua política educacional tem intervindo no trabalho docente, procurando instituir mecanismos que induzam os docentes a adequarem as atividades inerentes à profissão de acordo com os resultados estabelecidos pelos interesses mercantilistas. Dessa forma, o trabalho docente tende a sofrer conseqüências importantes em função de sua natureza, dos objetivos e finalidades das reformas implantadas ou em curso. O resultado desse processo tem levado a uma discussão sobre qual seria o nível de subsunção da categoria docente ao capital frente às transformações no mundo do trabalho. Que o capital está sim presente na escola não nos deixa dúvida, a subsunção do trabalho ao capital foi um processo que se desenrolou ao longo da história do capitalismo. O que é preciso explicar utilizando para isso análises marxistas, o processo de subsunção formal e real ao capital (MARX, 1985). Para Nakatani (1999) o período do fordismo/taylorismo constitui-se em uma fase do processo de subsunção real do trabalho ao capital. Neste momento, exclui-se toda a subjetividade do trabalhador do processo de produção. Separa-se assim de forma clara e 1 Mestra em Educação pela UFES e professora do Ensino Superior da Faculdade Vitoriana - FAVI - ES. Mestra em Educação pela USP e professora do Ensino Superior da Universidade Estadual Santa Cruz - UESC BA. 3 Mestra em Educação pela USP e professora do Ensino Superior da Faculdade Vitoriana - FAVI - ES. 2 VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 1 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente explícita a concepção do produto da sua elaboração. Isso significa dizer que o novo padrão de acumulação flexível abre espaço para nova relação com o processo de trabalho e estabelece uma inversão entre sujeito-objeto, na qual o capital, como fruto do trabalho humano autonomiza-se e impõe sua vontade à humanidade. É como se o capital, de objeto e de relação social, adquirisse vida própria, autoconsciência e passasse a dirigir, a comandar os seres humanos. Analisando a especificidade do trabalho docente, alguns apontamentos se fazem necessários para entender como o capital se apropria dessa força de trabalho. Se o trabalho humano é fruto das relações sociais ao longo do desenvolvimento da história da humanidade, entendemos que o trabalho do professor também se torna trabalho assalariado no processo capitalista. Isso significa dizer que se o professor sobrevive do seu trabalho e necessita vendê-lo, já que não é dono dos meios de produção, a exploração da sua força de trabalho consiste na reprodução e ampliação do capital. Contudo é preciso fazer um cuidadoso estudo a respeito do processo de subsunção do trabalho docente, buscando entender os aspectos da especificidade dessa categoria principalmente quando se trata do controle do seu processo de trabalho. Nos anos 90, o debate que emergiu no cenário nacional foi sobre a Reforma do Estado, particularmente, a reforma administrativa. A idéia reformista para o Estado foi incorporada no cenário nacional e principalmente as idéias defendidas por Bresser Pereira.“À questão central hoje é como reconstruir o Estado e como redefinir um novo Estado em um mundo globalizado” (Bresser Pereira, 1998, p. 21). Com esse argumento, dentre o que se precisava redefinir, de acordo com o governo FHC, estava a questão da reforma fiscal, da previdência social e da eliminação dos monopólios estatais para tornar a administração pública moderna e eficiente. A necessidade de flexibilizar o estatuto da estabilidade dos servidores públicos e aproximar os mercados de trabalho público e privado também estava na ordem do dia4. Com essas premissas para a Reforma administrativa, foi encaminhada uma proposta para o Congresso em 1995, como Emenda Constitucional. De acordo com o documento da Presidência da República, a reforma do aparelho do Estado tem o objetivo básico de transformar a administração pública brasileira, de burocrática em gerencial. Essa transformação passou a ser uma questão nacional (lbid., p.22). Nesse sentido, nos anos 90, a mudança para a administração gerencial que significava a descentralização, controle de qualidade, e a terceirização dos serviços públicos, é fundamental para a transformação do Estado brasileiro, segundo seus defensores. Passa-se a enfatizar a descentralização como “democratização” do poder, a qualidade entendida como produtividade, com eixo na eficiência e eficácia, e a terceirização com a introdução de novos setores públicos não-estatais, “não-governamentais”. Tais argumentos são defendidos pelo governo federal que reconhece os avanços realizados pela administração empresarial como os ideais para tornar o aparelho estatal mais eficiente. Para Silva Jr. (2002) a matriz orientadora do Estado deriva da racionalidade do movimento da sociedade no presente estágio do capitalismo, quando o capital põe-se em todas as esferas sociais, estabelecendo, assim, o império do privado para as instituições por meio dos mais diversos processos. Para situarmos as políticas e as conseqüentes reformas mais recentes no trabalho docente superior indicamos com referência a Lei n. 9.678/98, que institui a Gratificação de Estímulo à Docência no Magistério Superior. Essa legislação, modificada em 2004, pela 4 VIEIRA (2001) apresenta essa mudança em sua dissertação de mestrado em 2001. VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 2 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente Medida Provisória n. 208 introduziu a avaliação produtivista, que estabelece uma relação direta entre pontos obtidos e gratificação a receber, dando ênfase para as atividades em sala de aula, item ao qual foram estipulados 120 pontos, de um total de 140. Os 20 pontos restantes estão distribuídos entre pesquisa e extensão. MAUÉS (2005) problematiza que a ênfase dada ao ensino levará, naturalmente, o docente a organizar o seu trabalho em torno desse eixo. Mas, ao mesmo tempo, aqueles docentes vinculados aos programas de pós-graduação é feita uma outra exigência, que é traduzida pelo número de artigos publicados em periódicos indexados (no mínimo dois ao ano), de trabalhos publicados em anais de eventos, de coordenação de projeto de pesquisa, de orientações de dissertações e teses. Essa dicotomia entre as exigências, então feitas pela Lei 9.678/98, das atividades, cujos pontos, se alcançados, redundavam em uma gratificação pecuniária e a avaliação proposta pela CAPES em relação aos docentes dos programas de pós-graduação stricto sensu, tem levado os docentes a uma sobrecarga de trabalho, a um acúmulo de atividades, na medida em que, para atender a ‘comandos’ diferentes, mas emanados dos mesmos princípios e políticas, precisam ultrapassar, em muito, as horas de atividades pelas quais se rege o contrato de trabalho (MAUÉS, 2005, p.9) Essas reformas impostas pelo Estado, abrem-se caminhos aos agentes como o Banco Mundial e outros organismos multilaterais para atuarem, pois, na sedimentação da nova ordem mundial, interferem na organização econômica e política dos Estados nacionais, em especial dos chamados países em desenvolvimento. Segundo Silva Jr. (2002) no setor educacional, em especial no ensino superior, as propostas do Banco Mundial, em documento de 1994, são claras ao referir-se sobre as orientações para a reforma. E continua o autor descrevendo sobre as orientações para a educação privada, no mesmo documento: As instituições privadas constituem um elemento importante de alguns dos sistemas de educação pós-secundária mais eficazes que existem atualmente no mundo em desenvolvimento. Podem reagir de forma eficiente e flexível diante das transformações da demanda, e ampliam as oportunidades educacionais com pouco ou nenhum custo adicional para o Estado. Os governos podem fomentar o desenvolvimento da educação superior privada a fim de complementar as instituições estatais como meio de controlar os custos do aumento da matrícula na educação superior, incrementar a diversidade dos programas de educação e ampliar a participação social no nível superior (BIRD/BANCO MUNDIAL, 1994, Apud SILVA Jr., 2002, p. 58). Essas orientações refletiram nas reformas educacionais na América Latina e principalmente no Brasil, com características de um movimento reformista mundial, apesar das especificidades históricas de cada um. Nessa lógica, a atuação do profissional docente, em diferentes níveis, experimenta VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 3 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente um processo de segmentação e complexificação. Observa-se também um acúmulo de responsabilidades quanto aos procedimentos do/a professor/a, tornando sua rotina absorvida por tarefas que impedem uma prática refletida, profundamente articulada com a prática social, transformando tais profissionais em práticos que repetem os procedimentos aprendidos na formação inicial, muitas vezes insuficientes para responder às questões colocadas pelo contexto em que atuam, quanto à sua atuação política e pedagógica. Tudo isso agravado pelo fato de que são os/as professores/as responsabilizados individualmente por seus sucessos e fracassos profissionais, pelas dificuldades e pela qualidade do ensino, bem ao gosto da ideologia liberal vigente. Ausentes do trabalho de planejamento e de elaboração de projetos, currículos e avaliação, há uma simplificação/empobrecimento da função docente, tornando seu trabalho cada vez mais a mercê da interferência do Estado, que amplia seu uso dos mecanismos persuasivos da sociedade civil, ampliando a hegemonia da classe que representa. Trata os educadores, na concepção gramscista como meros “administradores” da produção intelectual já existente. Isto se agrava pela retirada gradativa das condições de trabalho do magistério (número excessivo de aulas, falta de recursos materiais, equipamentos, número de alunos por turma) deteriorando as condições concretas nas quais o trabalho pedagógico deve ser realizado, provocando um desgaste físico e emocional. Inúmeras pesquisas mostram que as doenças conhecidas como “transtornos psíquicos”, por exemplo, a “síndrome de Burnout”, ou da desistência são provocadas também pelo stress resultante da natureza do trabalho docente. A precarização da formação inicial e continuada – quando existente – aliadas à precarização das condições objetivas de trabalho, reduzem as possibilidades de um trabalho intelectual no sentido gramscista do termo, uma vez que não permite a própria produção do intelectual, comprometendo definitivamente sua capacidade de atuar organicamente junto às classes trabalhadoras. Para alguns autores há uma tendência de um processo crescente de alienação (ou perda de autonomia) do trabalho docente e de transformações essenciais em sua forma, bem como uma desqualificação e uma desprofissionalização em função das injunções legais que ditam os procedimentos com fins de controle e avaliação dos resultados, o Estado Regulador e Avaliador. A concepção de formação do profissional de educação na política brasileira A formação do/a professor/a se apresenta como um dos muitos desafios enfrentados pela educação brasileira. O artigo 87 da Lei 9394/96, que estabelece as diretrizes da educação nacional, afirma que a formação do educador deve atender aos objetivos dos diferentes níveis e modalidades de ensino e às características de cada fase do desenvolvimento do educando. A ANFOPE (Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação), por sua vez, defende a necessidade da vinculação entre teoria e prática no processo de formação. Para Di Rocco (1979), diante de uma sociedade em constante evolução, é imprescindível a formação de homens e mulheres como “um conjunto harmônico de potencialidades a serem desenvolvidas" (p. 17). Neste contexto, a Educação pode “representar uma força em prol do desenvolvimento" (Ibid., p. 171). Barros (1997) aponta que existe uma contradição em torno do termo formação, uma vez que este é usado tanto para se referir à competência técnica ou pedagógica, quanto à conscientização e ao compromisso político. A contradição se faz na diferença da concepção VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 4 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente que se tem a respeito de formação. O primeiro sentido está impregnado da idéia de uma habilidade a ser adquirida, já o segundo, pela idéia de que a consciência crítica possibilita a interferência dos educadores nos processos sociais, podendo assim desarranjar a ordem já estabelecida. A autora destaca ainda que a ambigüidade do termo “formação" pode ser vista como capacitação técnico-metodológica, modelagem, competência teórica, cientificidade e compromisso político. Bortolozzi e Venturim (1996) salientam que existe uma tendência em supervalorizar a competência técnica (na maioria das vezes traduzida como certificação) como instrumento para a qualidade da escola, o que leva a desconsiderar o fato de que o/a professor/a está inserido/a em um sistema capitalista, sofrendo assim todas as interferências inerentes a este sistema. As autoras não desmerecem a importância da competência técnica, mas enfatizam que a formação do professor “fica restrita" se não estiver alicerçada na dimensão de formação política. Em consonância com esta concepção, Saviani (1989) afirma que foi exatamente a classe dominante que provocou a incompetência técnica do Magistério, buscando assegurar sua “opressão” sobre as classes oprimidas. Para o autor, é ela (a classe dominante) que tem motivos para temer a competência técnica. Para Frigotto (1996), não se pode perder a perspectiva teórica e epistemológica na formação do/a professor/a sob o risco de reduzi-la (bem como a sua prática) apenas ao eixo teórico e didático. Ressalta, ainda, que é preciso se pensar quais os atuais desafios na formação e profissionalização do educador. Vale ressaltar ainda o estudo realizado pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED), em 1996 que mostra que “ainda é baixa a consciência política em relação à importância social dos professores no quadro do desenvolvimento social do país". Aliado a esse fato está a “descaracterização” dos cursos de formação dos/as professores/as. Outro agravante apontado pelo documento é a escassez de publicações na área que sirvam de subsídios para a formação do/a educador/a. Freitas (1994) caracteriza a atual formação do professor no Brasil como “precária e desarticulada". Aponta as extintas escolas normais, os cursos de Licenciatura em Pedagogia e as demais licenciaturas como os principais meios de formação do/a educador/a e propõe a unificação destes. O autor destaca ainda as faculdades de educação como “local privilegiado para a formação do profissional da educação" (1994, p. 95). Lima (1991) relaciona a qualidade dos cursos de formação no país ao impasse da evasão e repetência escolar que, segundo ela, é de quase 80% nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Arroyo (1996), por sua vez se contrapõe a essa perspectiva e, de forma contundente, afirma que os/as professores/as brasileiros/as têm acumulado formação no decorrer das últimas décadas. Mas, a manutenção da estrutura escolar e a concepção rudimentar, pobre e empobrecedora da educação, desqualificam o/a professor/a. O autor propõe que a tarefa urgente dos governantes é a redefinição dessa estrutura de educação básica e, partindo desse princípio, colocar a problemática da formação do/a educador/a no seu devido lugar. Para o referido autor, as constantes críticas sofridas pelo magistério público são, geralmente, unilaterais e simplistas determinantes da desqualificação do nosso sistema educacional e de nossos educadores/as. Corrêa (2000) aponta que as reformas neoliberais recomendam que os investimentos com a formação dos professores/as devam ser na “capacitação e serviço” no lugar da formação inicial e em especial na formação à distância. Para a autora, a formação dos/as professores/as não se dá apenas através da formação acadêmica, mas de outras esferas, tais como as das ações políticas do Estado, das práticas docentes cotidianas, das práticas políticas coletivas das pesquisas em educação. (p.133.) VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 5 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente Para Carvalho (2002), Em face do atual quadro da educação no Brasil, qualquer proposição de ‘reinvenção’ ou ‘reencantamento’ da escola, para não soar ingênua, passa pela discussão do modelo sociopolítico adotado em sua interface com o capitalismo neoliberal do mundo globalizado, assim como envolve a discussão paradigmática da educação em sua interface com a ciência moderna. (CARVALHO, 2002, p.13-14). No que se refere à formação para a competência, Alvarenga e Oliveira (2002) apontam que a chamada reestruturação produtiva decorrente das mudanças no capitalismo entre o final da década de 60 e início dos anos 70 tem seus fundamentos materiais nas mudanças tecnológicas e organizacionais das economias mundiais. Para dar cabo a essas transformações e superar as constantes crises do sistema capitalista, tornou-se necessário um novo tipo de Estado, com um modelo de regulação de capital que desse sustentação a essa nova fase do capitalismo. Desta necessidade foi se configurando o Estado Neoliberal que pressupõe mudanças estruturais na sua interferência nos serviços essenciais como a educação, por exemplo. É necessário, portanto, que a discussão referente à formação do magistério seja feita à luz das diversas conseqüências no campo educacional dessa reestruturação no Estado brasileiro. Dessa forma, enfatizam: Cabe uma análise crítica da utilização deste termo nos debates referentes à formação do professor e uma intervenção cada vez mais qualificada que, pouco a pouco, vá construindo novos aportes para o estudo da competência profissional que se fundamentem em uma concepção multidirecional. É preciso que os processos de avaliação sejam construídos com a participação do magistério e dos demais segmentos da comunidade escolar, considerando as diversas condições que interferem (e por muitas vezes determinam), na produção do conhecimento no cotidiano escolar. (ALVARENGA; OLIVEIRA, 2002, P. 53). No que se refere à concepção de competência na legislação brasileira que dispõe sobre a formação de professores/as é válido lembrar que nos últimos anos, o Estado brasileiro tem se ajustado à globalização da economia. Esse processo trouxe implicações diretas no campo educacional, incidindo na efetivação de políticas de formação do/a educador/a. Essas mudanças, sob a bandeira de modernização dos processos educativos e democratização do acesso à formação dos milhares de professores/as da educação básica no país, têm acumulado um saldo negativo no que se refere à qualidade da formação do magistério. Todo esse empenho do governo federal em adaptar a estrutura da educação brasileira a partir dos ditames do Banco Mundial e do FMI resultou em uma variedade de dispositivos legais que, de modo geral, regulamentam essas mudanças. Ramos (2001) aponta que a integração da noção de competência à reforma educacional brasileira iniciou-se legalmente com a aprovação da Lei nº. 9.394 de 20 de dezembro de 1999, nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que incide tanto sobre a educação básica quanto sobre a educação profissional. Para a autora as principais mudanças estruturais foram: Por um lado a definição da identidade do ensino médio como educação básica, sendo a última etapa deste nível e responsável pela consolidação da formação que se inicia na educação infantil e no ensino fundamental; VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 6 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente e por outro, a separação da educação profissional técnica básica adquirindo caráter complementar ao ensino médio. As reformas curriculares, por sua vez, visam re-orientar a prática pedagógica em torno da transmissão de conteúdos disciplinares para uma prática voltada para a construção de competências. (RAMOS, 2001 p.125). Para Ramos (2001) a defesa desse tema por parte do capital se converte em retórica neoconservadora, uma vez que a educação profissional tem sido considerada como alternativa à ameaça de desemprego, face à ausência de políticas econômicas e sociais nesta área. Entretanto, os esforços com capacitação não têm necessariamente se traduzido em mais empregos. Vale lembrar que diversos segmentos de resistência têm se manifestado veementemente contra a reestruturação liberal da educação, mas a democracia burguesa, que ainda persiste em nosso país, tem alcançado vitórias consideráveis contra a educação pública brasileira. Para a ANFOPE, As reformas levadas a efeito em nosso país e nos países da América Latina desde a final da década de 70, com o objetivo de adequar o sistema educacional ao processo de reestruturação produtiva e aos novos rumos do Estado, adquire em nosso país feições próprias. O projeto do governo atual vem configurando-se numa privatização predatória e de desnacionalização da economia, tornando o país mais vulnerável às crises externas e mais dependente dos fluxos de capitais provenientes das potências estrangeiras. (ANFOPE, 2000, p. 14). Dessa forma são debatidas as diferentes propostas para a formação de professores/as, fundamentadas em projetos políticos e perspectivas históricas diferenciadas, transformando a formação do/a professor/a num elemento facilitador de reformas ou ainda como elemento capaz de, por si só, se constituir num instrumento de transformação do cotidiano escolar, da comunidade e da sociedade. Ora, esta é uma estratégia astuta do sistema uma vez que coloca sobre os/as professores/as a responsabilidade e o peso pelos insucessos da escola, em particular, e da educação (especialmente a pública) brasileira. A ANFOPE (2000) avalia que a importância dada à questão da formação pelas políticas vigentes no Brasil objetiva, tão somente, equacionar o problema da formação para elevar o nível de “qualidade” da educação nos países subdesenvolvidos. O problema dessas políticas reside exatamente na concepção de qualidade defendida pelos organismos internacionais para esses países. A qualidade para o FMI e o Banco Mundial é definida pelo menor investimento financeiro possível do Estado em políticas públicas como saúde e educação, motivo pelo qual privilegiam a capacitação em serviço e a formação à distância. Para Alvarenga e Oliveira (2002) é esse sentido que se configura o lado mais perverso do conceito de competências impregnado na legislação brasileira: delega ao profissional da educação a responsabilidade pela sua falta de formação. As capacidades (ou incapacidades) pessoais são supervalorizadas em detrimento da análise sóciohistórica, econômica e cultural das crescentes condições de empobrecimento do/a professor/a brasileiro/a. O sentimento de insucesso e mesmo o temor de não ser aproveitado pelo sistema, cada vez mais competitivo, contribui para que muitos/as VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 7 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente professores/as se submetam a pagar, com os seus já insuficientes salários, preços altíssimos para cursar um curso superior. O/a professor/a como trabalhador/a intelectual: a especificidade do trabalho docente Diante do atual contexto explicitado no conjunto deste trabalho acerca da reforma do Estado e das atuais propostas para formação de professores/as, propomos uma reflexão sobre o profissional docente como intelectual, os limites e possibilidades de sua atuação no atual contexto a partir de sua especificidade. Tendo como horizonte a transformação social da maneira como se encontra a sociedade organizada, de que modo podemos pensar o trabalho docente como um trabalho intelectual que engendra ou ajuda a engendrar as consciências de homens e mulheres a partir das relações econômicas e sociais e sobre a forma que a organização política e jurídica da sociedade assume com base naquelas relações? Para isso, Gramsci (1978) apresenta ainda uma formulação teórica bastante salutar e atual para a compreensão da sociedade capitalista do século XX e XXI. Ao discutir o processo histórico real de formação das diversas categorias intelectuais, ele o faz entendendo este processo no conjunto geral do sistema de relações sociais. Neste sentido afirma que todo ser humano é intelectual, no entanto, nem todos desempenham esta função na sociedade. Nesse sentido, só é possível compreender as atividades intelectuais no contexto em que estas se encontram no conjunto geral das relações sociais. Desse modo, Gramsci afirma que, Não existe atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual, não se pode separar o homo faber do homo sapiens. Em suma, todo, homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um “filósofo”, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção do mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim, para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para promover novas maneiras de pensar (1978, p. 08) O intelectual caracteriza-se por sua ligação com a estrutura, isto é, com os interesses de uma determinada classe da produção econômica, mas também pelo caráter superestrutural5 de sua função no bloco histórico6, dando homogeneidade e consciência de sua função à classe à qual está ligado. O vínculo do intelectual não é, portanto, sua origem social, mas o caráter orgânico que ele desempenha no nível superestrutural. Nesse sentido, todo ser humano é um intelectual fora de sua profissão, pois participa de uma concepção de mundo contribuindo para mantê-la ou modificá-la, promovendo novas maneiras de pensar. A 5 Para Gramsci, as superestruturas formam um conjunto complexo e inter-relacionado, onde encontramos duas dimensões essenciais: a sociedade política e a sociedade civil. A primeira compreende o aparelho de Estado que corresponde à dominação direta ou de comando que se exprime no Estado ou no governo jurídico. A sociedade civil, que é a maior parte da superestrutura é concebida como “o conjunto dos organismos, vulgarmente ditos privados, que correspondem à função de hegemonia que o grupo dominante exerce em toda a sociedade” (GRAMSCI apud PORTELLI, 1977, p. 22) 6 Na concepção gramscista, o bloco histórico liga estrutura e superestrutura organicamente. “Essa organicidade é definida abstratamente por Gramsci como a necessidade de o movimento superestrutural do bloco histórico evoluir nos limites de desenvolvimento da estrutura, mas também, mais concretamente, como a obra dos grupos sociais encarregados de gerir as atividades superestruturais” (PORTELLI, 1977, p. 47) VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 8 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente elaboração dessa camada de intelectuais deve ser entendida sempre como resultado dos processos históricos concretos. A relação entre os intelectuais e o mundo da produção não é imediata, como é o caso nos grupos sociais fundamentais, mas é “mediatizada”, em diversos graus, por todo o contexto social, pelo conjunto das superestruturas, do qual os intelectuais são precisamente os “funcionários” (GRAMSCI, 1978, p. 10) É precisamente por meio dos processos de persuasão, tarefa dos intelectuais, que a supremacia da classe dominante é mantida por longos períodos, uma vez que pelos mecanismos repressivos da sociedade política ela exerce uma dominação pela força, submetendo-os à sua vontade. A impossibilidade de manter essa dominação pelos mecanismos coercitivos por longos períodos, requer também o trabalho de persuasão, próprio da sociedade civil, por meio do qual passa-se do exercício da dominação ao exercício da hegemonia7. Isso significa dizer que no capitalismo o intelectual pode vincularse tanto à burguesia quanto ao operariado, uma vez que sua relação é mediatizada. Desse modo, Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no político (GRAMSCI, 1978, p. 03) O conceito de intelectual em Gramsci, portanto, só pode ser compreendido se compreendida sua qualidade de ser orgânico, o que significa claramente vincular-se a uma classe fundamental, desempenhando atividades tanto no âmbito da sociedade civil quanto política. A busca da hegemonia do grupo que representa é seu objetivo, a fim de proporcionar-lhe o controle do bloco histórico, isto é, mantendo a relação dialética existente entre a estrutura e a superestrutura. Os intelectuais ligados à classe burguesa são As células vivas da sociedade civil e da sociedade política: são eles que elaboram a ideologia da classe dominante, dando-lhe assim consciência de seu papel, e a transformam em “concepção de mundo” que impregna todo o corpo social. No nível da difusão da ideologia, os intelectuais são os encarregados de animar e gerir a “estrutura ideológica” da classe dominante no seio das organizações da sociedade civil (Igrejas, sistema escolar, sindicatos, partidos etc.) e de seu material de difusão (mass media). Funcionários da sociedade civil, os intelectuais são igualmente os agentes da sociedade política, encarregados da gestão do aparelho de Estado e da força armada (homens políticos, funcionários, exército etc.) (PORTELLI, 1977, P. 86) 7 “Hegemonia que decorre precisamente do sistema de alianças que a classe dirigente consegue estabelecer em torno de seus propósitos de classe e da adesão a esses propósitos por parte da população em geral, que os toma como se fossem ao encontro de seus interesses coletivos e não dos interesses particulares da classe no poder” (PARO, 1991, p. 86) VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 9 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente Gramsci destaca ainda que, a atividade intelectual pode ser diferenciada em graus do ponto de vista intrínseco, que vão produzir um diferença qualitativa entre os tipos de intelectual que possa existir e de acordo a atividade exercida na superestrutura. “No mais alto grau, devem ser colocados os criadores das várias ciências, da filosofia, da arte, etc.; no mais baixo, os “administradores” e divulgadores mais modestos da riqueza intelectual já existente, tradicional acumulada” (1978, p. 11-12). Numa sociedade marcada pela desigualdade entre classes fundamentais é impossível superar todos os conflitos de classe, apesar da constituição de um bloco histórico – que estabelece um vínculo orgânico entre estrutura e superestrutura – que busca garantir a hegemonia dominante. As contradições originadas na exploração do trabalho impedem a realização plena e livre do desenvolvimento humano, porque parte dela tem seus interesses negados. A colaboração recíproca e a realização de interesses comuns é a condição necessária para uma sociedade igualitária. A atual organização da sociedade como uma sociedade de classes, portanto, impede uma sociedade que realize a igualdade, fato que só pode ser possível com a superação de tal estrutura. No entanto, a superestrutura tem importante papel na manutenção e reprodução de tais contradições, uma vez que é a responsável pela produção das consciências acerca de tais antagonismos. Nesse sentido, a transformação social tem que ser compreendida também na dimensão da produção ideológica8, responsável pela tradução das grandes mudanças ocorridas na história, para um determinado período histórico. As mudanças mais radicais e profundas são sempre, resultado de movimentos amplos, duradouros e complexos, que se desenvolvem em longos períodos e que vão, ao longo do tempo, produzindo e expressando as contradições na totalidade do corpo social. Na sociedade contemporânea, muito maior e complexa, a “revolução” também terá um caráter mais complexo de difícil resolução (PARO, 1991). Para Gramsci a sociedade civil é o lugar privilegiado para a luta de hegemonia da classe revolucionária, uma vez que esta não se funda apenas no poder coercitivo do Estado, fenômeno ainda mais evidente na sociedade moderna, porque, ao contrário, depende cada vez mais de complexos mecanismos e instituições da sociedade civil. Criar um novo bloco histórico é condição para a transformação social, isso implica uma crise orgânica no atual bloco histórico – na vinculação entre estrutura e superestrutura – para que uma nova hegemonia seja instalada. Para Gramsci “se a classe dominante perdeu o consenso, então não é mais ‘dirigente’, senão unicamente dominante, detentora da pura força coercitiva, o que significa que as classes dominantes se separaram das ideologias tradicionais, não crêem mais no que acreditavam antes” (1974, p. 56, tradução nossa). Há um rompimento com os intelectuais e com a ideologia dominante, com os organismos e com as instituições que representam à classe no poder. Interessa-nos especificamente esse aspecto, para pensarmos no papel do intelectual e de modo particular, no papel dos profissionais da educação numa sociedade de classes. Considerando a atividade intelectual como a especificidade do trabalho pedagógico, estarão seus profissionais atuando como intelectuais orgânicos? A favor de qual das classes fundamentais? Estarão atuando como construtores, organizadores, persuasores permanentes? 8 “a ideologia nunca é uma totalidade abstrata em conexão com uma totalidade concreta, uma relação ideal teoria/prática, uma cadeia invisível que uniria a consciência ao real, mas o processo dialético da manifestação de uma ‘filosofia’ determinada, através das estruturas materiais históricas, de que modifica a forma e o conteúdo ao ‘realizar-se’” (GRISONI & MAGGIORI apud PARO, 1991, p. 87) VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 10 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente Elaborar os princípios, os problemas, o cotidiano, do ponto de vista teórico, deve ser a tarefa do intelectual, determinando dessa forma um bloco social e cultural. A homogeneidade da classe revolucionária se concretiza à medida que toma consciência de sua realidade, de sua função e da formação de pessoas capazes de um pensamento crítico capaz de generalizarse sobre toda a sociedade. Desse modo, O problema da criação de uma nova camada intelectual, portanto, consiste em elaborar criticamente a atividade intelectual que existe em cada um em determinado grau de desenvolvimento, modificando sua relação como o esforço muscular-nervoso no sentido de um novo equilíbrio e conseguindo-se que o próprio esforço muscularnervoso, enquanto elemento de uma atividade prática geral, que inova continuamente o mundo físico e social, torne-se o fundamento de uma nova e integral concepção do mundo. (GRAMSCI, 1978, p. 08) Segundo Paro (1991) o educador formal, que atua na escola, tem uma dupla responsabilidade no desempenho da função educativa. A primeira delas refere-se à constatação de que a produção do saber foi possível na medida em que a classe trabalhadora em todos os tempos foi a responsável pela produção material, liberando uma parcela da população para o trabalho intelectual, fato que na maioria das vezes não é nem percebido, contribuindo para a maneira desigual como este é distribuído socialmente. A segunda responsabilidade diz respeito à importância que representa para a classe trabalhadora o acesso ao saber para luta pela transformação social. Por tudo isto, diz o autor, os educadores deveriam atuar como um intelectual orgânico da classe trabalhadora, considerando-se inteiramente vinculados a essa classe e aos seus interesses. “Na medida em que, sem conhecimento objetivo da realidade, não se pode vê-la criticamente, o desenvolvimento de uma consciência crítica na escola deve levar em conta, preliminarmente, a própria valorização dos conhecimentos objetivos que se fazem presentes mesmo no currículo da escola capitalista” (PARO, 1991, p. 119). A partir das questões colocadas anteriormente acerca da reforma do Estado e da política de formação de professores/as, passemos a algumas reflexões acerca das possibilidades de atuação dos educadores/as, em nossas escolas, na sociedade contemporânea e alguns dos limites impostos à formação dos/as professores/as como intelectuais orgânicos vinculados à classe trabalhadora, especialmente. As reformas educacionais conseqüências das reformas do Estado resultaram em uma política de formação com base em valores sociais deslocados do paradigma humanista, da produção do conhecimento e da produção da cultura, e centrados na recompensa econômica. Como produzir intelectuais que acima de tudo tenham compreensão histórica do mundo em que vivem, da cultura em que estão inseridos, com uma política de formação que prioriza aspectos desvinculados de tais valores? A “competência” profissional dos/as educadores/as brasileiros tem sido avaliada por suas capacidades ou incapacidades pessoais, descoladas da análise sócio-histórica, implicando a formação de profissionais muitas vezes impossibilitados de atuarem na perspectiva da transformação social, resultado de sua impossibilidade de compreender a realidade em que vivem, decorrentes de uma formação precária do ponto de vista técnico e político, pela qual são os próprios profissionais responsabilizados individualmente. VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 11 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente O Estado capitalista em que vivemos não tem possibilitado a realização de uma educação comprometida com a transformação social, e nem poderíamos esperar isto, em se tratando de uma sociedade estruturalmente desigual, mas tem também produzido toda ordem de reducionismos e dificuldades no que se refere a dois aspectos, necessariamente interligados: a formação dos educadores (inicial e continuada) e a produção das condições objetivas em que se realiza o magistério. Vimos assistindo desse modo, especialmente nas últimas duas décadas a real subordinação da educação à política, em seu sentido mais amplo. Nesse sentido são os educadores/as – aqueles organicamente vinculados à classe trabalhadora - que necessariamente, terão que buscar alterar a conjugação de forças da atual sociedade, no que se refere à produção da escola enquanto aparelho da sociedade civil, encontrando no trabalho coletivo, formas de organização capazes de contraporem-se às atuais condições de produção intelectual de professores/as e alunos/as que necessitam da escola pública como espaço de escolarização e produção de consciências capazes de produzirem a transformação social. Sem delegar mais responsabilidades aos educadores/as brasileiros, expostos a uma perversa organização do trabalho docente, é preciso acreditar, como diz Saviani que, “ser idealista em educação significa justamente agir como se esse tipo de sociedade [igualitária] já fosse realidade. Ser realista, inversamente, significa reconhecê-la como um ideal que buscamos atingir” (2003, p. 87). VI SEMINÁRIO DA REDESTRADO - Regulação Educacional e Trabalho Docente 06 e 07 de novembro de 2006 – UERJ - Rio de Janeiro-RJ 12 EIXO TEMÁTICO I - Políticas educativas na América Latina: conseqüências sobre a formação e o trabalho docente Referências bibliográficas ALMEIDA, Mª Isabel. O Trabalho dos educadores. In: Retrato da escola no Brasil. SILVA, Aída Maria M; AGUIAR Márcia Ângela da Silva. Brasília, 2004. p. 107-117 APPLE, M. W. Trabalho docente e textos: economia política das relações de classe e de gênero em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaios sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 1999. BRASIL Medida Provisória nº. 208 de 20 de agosto de 2004. altera dispositivos da Lei nº. 9.678 de 3 de julho de 1998, que institui a Gratificação de Estímulo à Docência no Magistério Superior, e dá outras providências. Diário Oficial de 20 de agosto de 2004. Edição Extra. BRASIL, Lei 9.678 de 3 de julho de 1998. 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