REPRESENTAÇÃO SOCIAL DO USO POPULAR DE PLANTAS MEDICINAIS – UMA EXPERIÊNCIA ESCOLAR Patrícia Mary Real Acosta1 - UNIVILLE Grupo de Trabalho - Cultura, Currículo e Saberes Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo A pesquisa teve como objetivo analisar a representação social do patrimônio imaterial “Uso popular de Plantas Medicinais” em uma comunidade rural. O estudo foi aplicado a crianças em idade escolar que frequentam a turma do 5º ano do ensino fundamental da Escola “Eugênio Klug” na localidade conhecida como Estrada Mildau, área rural do distrito de Pirabeiraba, Joinville/SC. Também participaram as mães e avós dessas crianças que possibilitou a avaliação da transmissão desse conhecimento. As plantas medicinais sempre foram utilizadas pelos homens transformando-se em uma tradição que transpassa gerações. Porém, com o avanço do desenvolvimento, a urbanicidade e as mudanças de estilos de vida essa tradição perde espaço e valor para a medicina convencional. Com o intuito de buscar respostas a essa nova situação, utilizou-se uma abordagem qualitativa, que permite investigar subjetivamente as relações entre os indivíduos sociais (MINAYO, 2013). Aliou-se a esta abordagem técnica da pesquisa-ação que, de acordo com Thiollent (2011), instiga o contato entre o pesquisador e os participantes facilitando, assim, a comunicação e acesso a informações não reveladas e valorações atribuídas ao objeto de estudo. A coleta de dados ocorreu mediante aplicação de questionários e conversas informais com as famílias. Fundamentou-se o estudo com duas teorias: a representação social, com base em Moscovici (2009), Minayo (2013) e a fenomenologia de Husserl (2006), importante para o entendimento do fenômeno questionado, tendo em vista que é, no estudo, o fenômeno que o pesquisador indaga e busca por respostas. Outros questionamentos relacionados à temática foram abordados com a finalidade de obter um panorama sobre a representação social da comunidade a respeito desse patrimônio cultural tão importante como alternativa aos tratamentos de enfermidades e que sem dúvida deve ser protegido e mantido para as próximas gerações. Por estar em execução, aqui são apresentados apenas resultados ainda parciais. Palavras-chave: Representações Sociais. Uso popular de plantas medicinais. Patrimônio Cultural Imaterial. 1 Mestranda do Programa Saúde e Meio Ambiente pela Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE). Especialista em Farmácia Magistral – Equilibra, Curitiba / PR. Especialização em Homeopatia - IBEHE, Porto Alegre / RS. Graduada em Farmácia Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria/RS (UFSM), E-mail: [email protected]. ISSN 2176-1396 32613 Introdução O uso de plantas medicinais remonta ao início da civilização, pois o homem sempre esteve em contato com a natureza e dela tirou o alimento, o habitat, as vestimentas e também os elementos curativos para tratar as doenças. Este conhecimento empírico foi sendo repassado para as gerações que se seguiram constituindo o que denominamos de patrimônio histórico cultural imaterial. Este patrimônio, pertencente a toda a humanidade, confronta-se dia a dia com o desenvolvimento das sociedades, a industrialização, e as mudanças nos estilos de vida das pessoas que cada vez mais se afastam das tradições e hábitos mantidos por seus antigos familiares. Nesse contexto, a pesquisa aqui em destaque teve como principal objetivo analisar qual a representação social do patrimônio imaterial “Uso popular de Plantas Medicinais” em uma comunidade rural. O estudo foi aplicado a crianças em idade escolar que frequentam a turma do 5º ano do ensino fundamental da Escola Municipal “Eugênio Klug” na localidade onde está situada, chamada de Estrada Mildau, na área rural do distrito de Pirabeiraba, Joinville/SC. Também participaram da pesquisa as mães e as avós dessas mesmas crianças com o intuito de obter um panorama geral do conhecimento sobre o uso dessa alternativa de tratamento das doenças nas famílias, bem como qual o significado e a importância desses saberes para a comunidade. Situando o locus de estudo e os sujeitos da pesquisa A comunidade de Pirabeiraba teve seu inicio com a chegada dos primeiros imigrantes europeus, no ano de 1859, na sua grande maioria de origem alemã. Essas populações foram estimuladas a migrarem devido à instabilidade econômica e questões políticas que acometiam a Europa. Desde os tempos do início da colonização da região até os dias de hoje muita coisa mudou. O desenvolvimento econômico e o crescimento do distrito são percebidos por todos, e os dados oficiais acerca da população demonstram estar, esta, em torno de 35.000 habitantes, distribuídas em cinco bairros, sendo a Estrada Mildau pertencente ao bairro Dona Francisca (IPPUJ, 2015). No entanto, mesmo com o crescimento acelerado, essas comunidades ainda mantêm um pouco das características bucólicas que remetem aos tempos antigos (BALDIN, 2012; SCHMALZ, 1989). 32614 E foi justamente essa rusticidade que levou à escolha da comunidade Estrada Mildau para pesquisar sobre as percepções e representação social que tem para essa população um bem cultural imaterial que transpassa gerações. Teoria das representações sociais e a fenomenologia A teoria das Representações Sociais foi um amplo projeto de Moscovici para buscar o entendimento da influência do conhecimento científico na cultura e no pensamento comum das pessoas e onde essas pessoas se encaixam no mundo em que vivem para, então, ter condições de compreendê-lo. É a partir da comunicação e da troca de ideias entre os sujeitos sociais que a representação vai tomando forma, pois cada ator social contribui com seus saberes anteriores, sua condição intelectual, ideias, valores e crenças que vão se agrupando e convergindo a um consenso geral e, dessa forma, as representações vão sendo construídas e tomando conta da realidade social (JODELET, 1989; MOSCOVICI, 2009). A dinâmica da formação das representações sociais, como definido por Moscovici (2009, p.61), busca “tornar familiar aquilo que não é familiar”. Portanto, essa familiarização vai sendo construída a partir da comunicação entre os atores sociais que nomeiam e identifica o objeto, tornando-se, desse modo, familiar para um grande número de pessoas (MOSCOVICI, 2009). Nas crianças, de acordo com Piaget (1975), a formação da representação ocorre com o desenvolvimento cognitivo e vai evoluindo espontaneamente com o avançar da idade, com o grau de maturidade intelectual e com as sucessivas adaptações da criança com o objeto e o meio onde vive. Portanto, tanto nas crianças como nos pais e avós a formação da representação de algo depende de diversos elementos, cujo processo se inicia já na infância com o desenvolvimento cognitivo e vai se aprimorando com o crescimento e com as ações no meio em que vivem. Por outro lado, a fenomenologia ou o estudo dos fenômenos torna-se crucial para o estudo das representações, uma vez que a representação social é o fenômeno. Para ser compreendido todo o fenômeno deve possibilitar o alcance da essência pura na consciência do indivíduo que o questiona (HUSSERL, 2006). Para melhor compreender o fenômeno da “representação” e o que ele significa na visão dos sujeitos, primeiro é preciso entendê-lo no nível da consciência alcançando o fenômeno puro para depois descrevê-lo revelando o entendimento do significado do próprio fenômeno. E na pesquisa realizada, buscou-se estudar a representação social do uso comum 32615 de plantas medicinais sob três aspectos: social, econômico e cultural. Assim, buscou-se avaliar a importância que representa, para os sujeitos, essa tradição que tem história de uso, em nosso país, desde antes do período da colonização, tendo em vista que os povos indígenas faziam uso e respeitavam os poderes da natureza. Valoração do patrimônio cultural imaterial – uso popular das plantas medicinais Patrimônio cultural imaterial são todas as manifestações populares que decorrem das tradições e costumes que acontecem há tempos em determinadas regiões ou comunidades e, por serem imateriais, distinguem-se dos monumentos históricos, por exemplo, que são bens materiais. Assim, patrimônios culturais imateriais são as crenças, as tradições valoradas pelas pessoas e que fazem parte da cultura de um povo e que são transmitidas para os seus descendentes (IPHAN, 2014). Entre essas tradições pode-se destacar o uso popular das plantas medicinais exercido desde o início das civilizações com fins de tratar e aliviar as enfermidades. Embora ainda esse bem imaterial não conste oficialmente nos registros como um “patrimônio cultural imaterial”, ele assim é considerado tendo em vista o uso empírico das incontáveis pessoas que dele se beneficiam. A manutenção, preservação e herança de um patrimônio imaterial dependem particularmente do conhecimento e da transmissão do seu valor às gerações que se seguem. Por isto, tornou-se relevante o entendimento acerca de como está sendo transmitido o saber sobre as plantas medicinais. Metodologia O estudo desenvolvido é do tipo qualitativo, descritivo e participante, segundo orientações de Minayo (2013) e Thiollent (2011). Mas também é quantitativo no que se refere à coleta dos dados, que se deu mediante a aplicação de questionários semi-estruturados. Como participantes, os alunos do 5º ano do ensino fundamental e suas respectivas mães e avós, todos moradores da área rural da Estrada Mildau totalizando 38 sujeitos, sendo: 18 alunos, 17 mães e três avós. A coleta dos dados ocorreu nos meses de janeiro e fevereiro de 2015 e, deu-se mediante a aplicação de questionários semi-estruturados para os alunos e para as mães e avós e, também contou com atividades exclusivas para os alunos na escola, tais como: palestra 32616 sobre as plantas medicinais e a aplicação de um jogo educativo com o intuito de analisar a compreensão dos alunos sobre as atividades que estavam sendo realizadas. Quanto às mães e as avós, além do questionário, a pesquisadora ainda buscou, de maneira informal, interagir com esses atores a fim de perceber nas suas falas e expressões, possíveis peculiaridades e sentimentos oriundos da temática. Ação, esta, entendida como uma característica da pesquisa do tipo qualitativa participante. Esses relatos então advindos são produtos da história de vida, das crenças, das atitudes e de suas relações com o meio e com a coletividade (MINAYO, 2013). Análise dos dados (parcial) Faixa etária, profissão e grau de escolaridade Dos alunos que participaram desse estudo, dez eram meninos e oito meninas, tinham entre nove e 11 anos de idade. As mães compreendiam a faixa etária de 29 a 35 anos e as avós de 55 e 68 anos. Das 17 mães, oito delas responderam ser do lar, as demais, trabalham no comércio local e duas são aposentadas. Em relação ao grau de escolaridade, duas dessas participantes tinham o 3º grau completo, quatro o 2º grau completo, duas o 2º grau incompleto, três o 1º grau completo e sete o 1º grau incompleto e duas não estudaram. De acordo com autores que fundamentam esse estudo, como, por exemplo, Badke et al (2012), a baixa escolaridade está intimamente ligada ao conhecimento e o uso tradicional das plantas medicinais. Considerando o cultivo de plantas medicinais em casa, 80% das mães e avós responderam que cultivam algum tipo de planta medicinal e 20% responderam que não. Logo se entende que essa prática de fato pode facilitar o uso das plantas medicinais para o tratamento caseiro de enfermidades. Plantas medicinais mais citadas e a relação com as enfermidades As plantas medicinais mais referenciadas pelas avós, mães e alunos foram Hortelã, Goiabeira, Limão, Camomila, Boldo, Erva cidreira e o Guaco. Entende-se, portanto, que a comunidade faz uso das plantas medicinais para enfermidades comuns, como, por exemplo: doenças do sistema digestivo, nervoso, respiratório e urinário. Resultados, esses corroborados por outros estudos, como, por exemplo, Brasileiro et al (2008). 32617 A transmissão do conhecimento e a representação social do uso das plantas medicinais Quanto à pessoa responsável pela transmissão do conhecimento, os resultados obtidos foram: 71% consideraram a mãe, 16% a avó e 13% outras pessoas. Esses resultados foram condizentes com outros já realizados, na mesma linha, como, por exemplo, o estudo de Ceolin et al (2011). Considerando as plantas medicinais mais citadas nas três gerações, verificou-se que a transmissão desse conhecimento ocorreu de maneira verticalizada, principalmente das avós para as mães. Isto leva-nos a pensar que a 1º geração teve uma maior facilidade em passar seus conhecimentos para suas filhas (2°geração) em função de ser outra época com costumes e valores mais enraizados. O mesmo já não acontece nos dias de hoje, provavelmente pelo estilo de vida das mães e de seus filhos na época atual. A representação do uso popular das plantas medicinais pelos sujeitos foi avaliada sob três aspectos: econômico, social e cultural. Os resultados obtidos foram: 100% das avós consideraram a representação do uso caseiro das plantas medicinais uma tradição. Para as mães: 53% consideraram social, 41,1% tradição e 5,9% econômica e, para as crianças: 56% social, 39% tradição e 5% econômica. Percebe-se uma semelhança nos dados da 2ª e 3º gerações e, como relatam Pelegrini e Funari (2008), os valores patrimoniais e os juízos de preservação tendem a mudar com o passar do tempo, pois ambos são construídos social e historicamente, por isso a diferença nos resultados obtidos quando se analisou as três gerações. Considerações Finais A pesquisa aqui apresentada, ainda está em fase de verificação e análise dos dados. No entanto, até o presente momento, revela dados significativos que contribuiu para com a comunidade no sentido de fazer com que as pessoas pensem e se conscientizem do bem cultural que têm em mãos no sentido de que possa ser mais bem aproveitado garantindo acesso às próximas gerações. Uma questão de extrema relevância para o estudo é a análise da transmissão do saber, pois é a partir dele que se pode verificar a importância que a comunidade dá ao uso das plantas medicinais para o tratamento das enfermidades. REFERÊNCIAS 32618 BADKE, Marcio; BUDÓ, Maria; ALVIM, Neide; ZANETTI, Gilberto; HEISLER, Elisa. Saberes e práticas populares de cuidado em saúde com o uso de plantas medicinais. Texto Contexto Enfermagem, Florianópolis, 21, p.363-70, abr/jun, 2012. Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/tce/v21n2/a14v21n2.pdf>. Acesso em: 12 ago. 2014. BALDIN, Nelma. Educação ambiental, cultura e histórias de vida: o movimento para revitalizar um rio. In: ANPED SUL-. Caxias do Sul. Anais.. Caxias do Sul: [s.n.] 2012. p. 114. Disponível em:< http://www.portalanpedsul.com.br/admin/uploads/2012/Educacao_Ambiental/Trabalho/05_53 _13_200-7471-1-PB.pdf >. Acesso em: 5 ago. 2014. BRASILEIRO, Beatriz; PIZZIOLO, Virginia; MATOS, Danilo; GERMANO, Ana Maria; JAMAL, Claudia. Plantas medicinais utilizadas pela população atendida no “Programa de Saúde da Família”, Governador Valadares, MG, Brasil. 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