PLANTAS MEDICINAIS TÓXICAS UTILIZADAS PELA COMUNIDADE VILA
LADEIRA DO URUGUAI (TERESINA - PIAUI)
Cicero Rodrigues de Sousa Neto - NOVAFAPI
Clarice Ferreira dos Santos Neta - NOVAFAPI
Erisonval Saraiva da Silva - NOVAFAPI
Michael Pereira Lustosa – NOVAFAPI
INTRODUÇÃO
O emprego de plantas medicinais na recuperação da saúde evolui ao longo dos tempos,
desde as formas mais simples de tratamento, provavelmente utilizada pelo homem das cavernas,
até as formas tecnologicamente sofisticadas da fabricação industrial, utilizada pelo homem
moderno. Na tentativa de suprir suas necessidades básicas, o homem aprofundou seus
conhecimentos empíricos (LORENZI, 2002; ALMEIDA, 2003).
A Organização Mundial de Saúde (OMS), define plantas medicinais como sendo “todo e
qualquer vegetal que possui em um ou mais órgãos substâncias que podem ser utilizadas com fins
terapêuticos ou que sejam precursoras de fármacos semi-sintéticos” (SOUSA et al., 2005).
Recentemente, o Ministério da Saúde normalizou, por meio da Portaria 971(maio de
2006), a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único
de Saúde (SUS). Uma das principais medidas inseridas é a proposta para plantas medicinais e
fitoterapia, podendo as unidades do SUS implementar o uso de plantas medicinais (BRASIL,
2006).
A seleção de plantas a serem utilizadas para fins terapêuticos pela população em geral
deve ser baseada na eficácia e segurança terapêutica de tais plantas, levando-se em consideração
a tradição popular e na validação científica. Considera-se validada a planta que responde
positivamente a aplicação do conjunto de ensaios capazes de comprovar a existência da
propriedade terapêutica que lhe é atribuída, bem como o seu grau de toxidade nas doses
compatíveis com o emprego medicinal (LORENZI; MATOS, 2002).
São consideradas plantas tóxicas aquelas que possuem substâncias que por suas
propriedades naturais, físicas, químicas ou físico-químicas, alteram o conjunto funcionalorgânico em vista de sua incompatibilidade vital, conduzindo o organismo vivo a reações
biológicas diversas. O grau de toxicidade depende da dosagem e do indivíduo (BRASIL, 2006).
Bortoleto (1993) coloca que para a Organização Mundial de Saúde (OMS), 3% da
população em geral se intoxicam com plantas anualmente. Segundo Oliveira (2003),
aproximadamente 70% dos casos de intoxicação com as plantas são acidentais e atingem crianças
de até 12 anos de idade. No caso de adultos, as ocorrências mais freqüentes são as consideradas
abusivas, ou seja, decorrentes do consumo voluntário de plantas por propriedades já conhecidas.
Entre os sintomas do contato de substâncias tóxicas de certos vegetais, estão: irritações na pele e
mucosas, desordens gastrointestinais e até complicações cardíacas e neurológicas.
O presente estudo trabalha com o objetivo de conhecer as plantas medicinais que
oferecem risco a saúde da comunidade Ladeira do Uruguai.
METODOLOGIA
Estudo de natureza quantitativa. O método quantitativo caracteriza-se pela busca e análise
quantitativa das informações, garantindo resultados precisos, confiáveis e de fácil interpretação
pessoal (DESLANDES, 2002).
O estudo foi realizado na comunidade Vila Ladeira do Uruguai, na zona leste de Teresina,
comunidade carente que não dispõe de saneamento básico satisfatório e de transporte coletivo. A
população atual é de aproximadamente 776 habitantes distribuídos em 173 domicílios (VELOSO
et al., 2003).
A amostra constituída por 136 moradores de ambos os sexos e maiores de 18 anos o que
equivale a um grau de confiabilidade de 90%, grau de significância de 10% e uma margem de
erro de 4.5 percentuais (MARTINS, 2002). Os informantes foram escolhidos de forma aleatória
por conglomerado.
A coleta de dados realizada por meio de entrevistas semi-estruturadas, utilizando-se
formulários. Os dados foram obtidos no período de Agosto a Setembro de 2006. Inicialmente
foram realizadas visitas à comunidade para reconhecimento da área, apresentação do projeto e
seleção dos informantes.
Os dados organizados em quadros, gráficos e tabelas. Para tanto foi utilizado o programa
Epi Info versão 3.32. A análise dos dados foi feita considerando a freqüência absoluta e
freqüência percentual.
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A população entrevistada, em sua maioria mulheres (80,10%), entre 40 anos ou mais
(39,70%), possui somente alfabetização (43,40%), seguido de 41,20% com ensino fundamental
incompleto. As ocupações mais freqüentes, dentre as opções citadas, foram: Do lar (62,5%) o que
justifica o alto percentual de mulheres entrevistadas e, outras ocupações (24,30%). 55,88% dos
entrevistados mora no local há 7 anos ou mais, ou seja desde do inicio da criação da vila. A
quantidade de moradores por casa em grande parte é de 4 a 6 pessoas por casa, totalizando
49,30% dos entrevistados, e com um nível sócio-econômico relativamente baixo.
A comunidade obtém grande parte dos recursos vegetais nos próprios quintais (52,40%). Do
total de plantas levantadas, 10 espécies são consideradas tóxicas pela comunidade: angico preto
(Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan), batata-de-purga (Ipomoea altíssima M.), boldo
(Plectranthus barbatus Andrews), erva cidreira (Lippia Alba (Mill.) N.E.Br), eucalipto
(Eucalyptus globulus Labill.), goiabeira (Psidium guayava L.), pega-pinto (Boerhavia diffusa L.),
quebra-pedra (Phyllanthus niiruri L.), urucum (Bixa orellana L.) e vique (Mentha pulegium L.).
Dentre as plantas consideradas tóxicas pela comunidade Ladeira do Uruguai, destacaramse pela freqüência de citações o Boldo (Plectranthus barbatus) 38,10 % e Erva Cidreira (Lippia
Alba) 14,30% como mais comuns.
Algumas plantas não foram reconhecidas pela comunidade como tóxica, porém são
citadas na literatura especializada: babosa, camomila, romã, tipi, trevo.
A maioria da indicação terapêutica popular das plantas que foram listadas como tóxicas é
para dor de barriga/ estomago (38,10%), pois foi o boldo que teve maior número de intoxicação,
sendo indicado na maioria para dores abdominais. E observa-se que o uso de plantas medicinais
está associado geralmente ao combate de enfermidades mais comuns aos pacientes que procuram
os serviços ambulatoriais.
Com relação ao modo de manipulação para utilização das plantas a maioria dos
entrevistados relatou uso sob a forma de decocção (chá) 66,70% , infusão 19% e garrafada
9,50%. Sendo que as plantas medicinais podem ser utilizadas de diversas formas para serem
ingeridas, dente estas ainda se enquadra às formas de maceração, tintura, suco, salada,
pulverização e outras. E segundo observações durante a entrevista pode-se perceber que a
utilização de fitoterápicos é muito grande para diversas formas de tratamento e prevenção de
algumas patologias.
Os danos provocados pelo uso de plantas medicinais tóxicas segundo a parte do corpo
afetada registrou um percentual de 38.10% como ignorado não sabendo relatar seguramente que
parte do corpo estava sendo afetada,.23,80% no útero, 19%, coração e vasos, 9.5% pulmão e
9.5% Intestino. De acordo com a literatura pesquisada a grande maioria das plantas com
princípios tóxicos provocam reações na pele e mucosa (principalmente aquelas que secretam
“leite ou“ látex”), as outras, distúrbios nos aparelhos cardiovascular e gastrointestinal (CIAVE,
2006).
As alterações informadas 15, 33,30% relataram dor; 38,10% citaram outras alterações que
não constou no formulário de pesquisa, 19% não souberam informar e, 9,50% eritema. De acordo
com a literatura plantas tóxicas são aquelas que possuem substâncias que por suas propriedades
naturais, físicas, químicas ou físico-químicas, alteram o conjunto funcional-orgânico em vista de
sua incompatibilidade vital, conduzindo o organismo vivo a reações biológicas diversas. O grau
de toxicidade depende da dosagem e do individuo. (CIAVE, 2006).
38.10% não souberam relatar as alterações provocadas pelo uso de plantas medicinais
tóxicas, 19% hipotensão arterial , não ouve nenhum relato de alteração neurológica, 14.30%
relataram caso de aborto, , 9.5% vômitos, 4.8% taquicardia, 4.8% diarréia e 4.8% outras
alterações não relacionadas no questionário. Portanto, salienta-se que “assim como as plantas
podem representar remédios poderosos e eficazes, o risco de intoxicação causada pelo uso
indevido deve ser levado em consideração. [...] As plantas medicinais só podem ser consideradas
medicamentos quando usadas corretamente ( LORENZI ;MATOS, 2002).
Das medidas de primeiros socorros utilizadas pela população entrevistada registrou-se em
maior freqüência o tratamento hospitalar (15 pessoas) por ser mais seguro e eficaz, seguido de
outros (4 pessoas), tratamento fitoterápico (1 pessoa) e tratamento aloterápico ( 1 pessoa).
Analisando estes dados, os entrevistados na maioria fazem medidas corretamente.
Pode-se verificar que a maioria da população entrevistada, em casos de acidentes por
plantas tóxicas têm como formas de tratamento hospitalar( 16 pessoas), por ser mais eficaz e
seguro. Outros utilizam aloterápicos (2 pessoas) outros métodos( 2 pessoas) e somente uma
pessoa relatou tratamento fitoterápico.
Analisando estes dados pode-se perceber que a população em sua maioria estão usando o
método mais adequado, pois com indícios de alguns acidentes por toxicidade da plantas, a melhor
maneira de se recuperar é através de um meio que não seja perigoso para a pessoa que se
submete a intoxicação, e nessa situação a melhor maneira é através de especialistas para
identificar cada situação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A utilização de plantas medicinais para fins terapêuticos na comunidade estudada é muito
grande, sendo que foram encontradas algumas plantas tóxicas usadas pela população e alguns
acidentes ocorridos devido ao uso indiscriminado. Sendo que a população desconhece a
toxicidade de algumas constatadas como tóxicas pela literatura.
O perfil sócio-econômico destacou que 80,10% dos entrevistados eram mulheres, com
faixa etária de 40 anos ou mais, tendo somente alfabetização (43,40%) e do lar (62,5%); moram
no local há 7 anos ou mais e na faixa de 4 a 6 pessoas por casa.
Os resultados dos dados coletados mostram que a credibilidade nessa alternativa
terapêutica esta relacionada para o tratamento de doenças comuns, tais como sistema respiratório,
problemas gastrointestinais, dores e inflamações em geral.
Em relação ao uso das plantas medicinais tóxicas foram mais encontrados: o arbusto com
47,60%, nos quintais (52,40%), mais indicado para dor de estomago (38,10%). A parte mais
utilizada são as folhas com 66,70%, em seu estado verde (76%), sob a forma de decocção
(66,70%), com armazenamento da matéria-prima na geladeira (47,60%), numa proporção 5 a 7
folhas (42,90%) para cada preparação e depois armazenado na geladeira (57,10%), e usado 1
xícara de 1 a 4x ao dia (81%). Já a contra-indicação é para mulher grávida (66,70%), com 19%
provocando danos e dentre estes 38,10% não soube relatar a parte do corpo afetada e 23,80%
relatou o útero.
De acordo com as alterações 38,30% citaram outras que não constou no formulário de
pesquisa e 33,10% dor; com medidas de primeiros socorros em tratamento hospitalar, (15
pessoas) e 16 pessoas relataram que em casos de acidentes a melhor forma de tratamento seria
hospitalar.
Logo, concluímos que esta população detém conhecimento sobre as plantas medicinais, mais
necessita de orientações que visem o uso deste recurso terapêutico e orientações sobre a
toxicidade de algumas delas; para evitar que ocorram novos acidentes e assim também, poder
contribuir com a literatura, mostrando que há casos de intoxicação que ainda não relatados.
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Cicero Rodrigues de Sousa Neto – cicerosone @bol.com.br
Clarice Ferreira dos Santos Neta – Clarice_netahotmail.com.br
Erisonval Saraiva da Silva Michael Pereira Lustosa – [email protected]
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