54 Dr. Google cria nova figura: o “paciente instrumentalizado” Em sua última edição, o JORNAL OFTALMOLÓGICO JOTA ZERO mostrou como a utilização da internet por leigos começa a influenciar no roteiro das consultas médicas no Brasil. A opinião dominante expressa na matéria é que o uso do Dr. Google como ferramenta pela busca de informação, coletada com o devido bom senso em sites responsáveis, é benéfico para a relação entre médicos e paciente. Já como fonte única de informação e incentivo à automedicação, o “Dr. Google” torna-se prejudicial. Para enriquecer as reflexões sobre essa realidade cotidiana de clínicas e consultórios, o professor do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e especialista em administração médica, Wilmar Roberto Silvino, examina a questão por um ângulo diferente. D e acordo com Silvino, hoje é possível que leigos encontrem informações que sempre foram mantidas em segredo e alojadas em “caixas-pretas” do conhecimento exclusivo para médicos. “Esses “segredos” foram guardados pela Medicina, na maior parte das vezes, para evitar que interpretações equivocadas pudessem levar os leigos a conclusões assustadoras, pessimistas e que quase sempre funcionavam como vetor de dificuldade na implementação da terapêutica adequada”, disse. Fundamentando o seu posicionamento, Roberto Silvino ressalta que a lógica da ciência médica sofre forte interferência de acordo com as qualidades individuais de cada ser humano. É normal que casos idênticos, em indivíduos muito semelhantes tenham evolução absolutamente diferente, situação que a internet não consegue prever. Para Roberto Silvino, existem fatores para o sucesso do Jornal Oftalmológico Jota Zero | Julho/Agosto 2011 Dr. Google 55 “Dr. Google” entre os internautas. Essas facilidades fazem com que o risco da consulta sem o real acompanhamento médico seja colocado em segundo plano. São eles: 1. 2. 3. O “Dr. Google atende” no domicílio do interessado e está sempre disponível; O acesso ao médico “de verdade” é dificultado pela falta de tempo, custo da consulta, distância para se chegar ao consultório do médico e, uma vez lá, de conseguir conversar com ele; Num grande número de casos, a doença se resolve por si só, ou como dizia o Professor Maffei, “com médico, sem médico ou apesar dele... “Portanto, a indicação de terapêutica indicada pela internet muitas vezes acaba dando certo e, com isso, o “Dr. Google”, em consonância com o próprio consulente, torna-se imbatível. O novo paciente O resultado transforma completamente o roteiro normal do relacionamento entre o médico e paciente. Surge o “paciente instrumentalizado”, dotado de informações médicas e com dificuldade para assimilar a ideia de existir a chance de várias interpretações em Medicina. Este paciente cria o figurino prévio de como deve ser atendido, examinado e orientado. “Quando o principal protagonista do “ato”, o médico, não age como o paciente instrumentalizado havia redigido em seu texto imaginário, a consulta pode ser considerada, no mínimo, suspeita, para não dizer, desqualificada”, afirma Roberto Silvino. Com estas situações cada vez mais frequentes em seu consultório, Silvino mostra algumas atitudes que tem aplicado no seu dia a dia de trabalho e que podem facilitar o convívio entre médicos e os pacientes instrumentalizados: “Primeiro, não ter pré-conceito contra o “Dr. Google” e seus “alunos adestrados” que chegam para a consulta. É preciso ouvi-los com atenção redobrada e jamais mentir caso não tenha lido sobre qualquer matéria citada. Segundo, prometer retorno após ler a matéria e realmente dar este retorno. Terceiro, manter-se atualizado em relação aos assuntos da Especialidade e, em caso de “confronto” com os clientes do Dr. Google fazer referência aos instrumentos de atualização (reuniões científicas semanais, Congressos, Simpósio etc.), de forma com que eles saibam que estão “trocando ideia” com alguém “por dentro” da especialidade”, aconselha. Em último caso, manter diplomas atualizados, na sala de espera, continua sendo forte aliado contra a investida unilateral dos “clientes mais estudiosos”, finaliza Wilmar Roberto Silvino. Wilmar Roberto Silvino Quando o principal protagonista do “ato”, o médico, não age como o paciente instrumentalizado havia redigido em seu texto imaginário, a consulta pode ser considerada, no mínimo, suspeita, para não dizer, desqualificada Os Estrabismos - Teoria e Casos Comentados Os Estrabismos – Teoria e Casos Comentados é o novo lançamento da Editora Guanabara Koogan para 2011. O livro, escrito pelo Professor Titular do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo Carlos Souza-Dias e pelo Professor e Chefe da Seção de Motilidade Extrínseca Ocular do Departamento de Oftalmologia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo Mauro Goldchmit. A obra é composta por 14 capítulos com início histórico, passando em seguida para abordagem dos desvios horizontais (esotropias e exotropias), desvios verticais em formas simples (hipertropias), estrabismos restritivos e por paralisias neuromotoras. Segundo a editora, o conteúdo possibilita o aprendizado sobre o estrabismo em suas diferentes apresentações e consequências ao expor, de modo didático, como deve ser praticado o atendimento ao paciente portador de estrabismo. Mais informações sobre o livro e sua distribuição podem ser obtidas pela Editora Guanabara Koogan pelo telefone (21) 3543-0770 ou pelo email [email protected] Jornal Oftalmológico Jota Zero | Julho/Agosto 2011