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cria nova figura:
o “paciente instrumentalizado”
Em sua última edição, o JORNAL OFTALMOLÓGICO JOTA ZERO mostrou
como a utilização da internet por leigos começa a influenciar no roteiro das
consultas médicas no Brasil. A opinião dominante expressa na matéria é que o
uso do Dr. Google como ferramenta pela busca de informação, coletada
com o devido bom senso em sites responsáveis, é benéfico para a
relação entre médicos e paciente. Já como fonte única de informação e incentivo à automedicação, o “Dr. Google” torna-se
prejudicial. Para enriquecer as reflexões sobre essa realidade cotidiana de clínicas e consultórios, o professor do
Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Ciências
Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e
especialista em administração médica, Wilmar Roberto
Silvino, examina a questão por um ângulo diferente.
D
e acordo com Silvino, hoje é possível que leigos
encontrem informações que sempre foram mantidas em segredo e alojadas em “caixas-pretas”
do conhecimento exclusivo para médicos.
“Esses “segredos” foram guardados pela Medicina, na maior
parte das vezes, para evitar que interpretações equivocadas
pudessem levar os leigos a conclusões assustadoras, pessimistas e que quase sempre funcionavam como vetor de dificuldade na implementação da terapêutica adequada”, disse.
Fundamentando o seu posicionamento, Roberto Silvino ressalta que a lógica da ciência médica sofre forte interferência
de acordo com as qualidades individuais de cada ser humano. É normal que casos idênticos, em indivíduos muito semelhantes tenham evolução absolutamente diferente, situação
que a internet não consegue prever.
Para Roberto Silvino, existem fatores para o sucesso do
Jornal Oftalmológico Jota Zero | Julho/Agosto 2011
Dr. Google 55
“Dr. Google” entre os internautas. Essas facilidades fazem com que o risco da consulta sem
o real acompanhamento médico seja colocado
em segundo plano. São eles:
1.
2.
3.
O “Dr. Google atende” no domicílio do
interessado e está sempre disponível;
O acesso ao médico “de verdade” é
dificultado pela falta de tempo, custo
da consulta, distância para se chegar
ao consultório do médico e, uma vez lá,
de conseguir conversar com ele;
Num grande número de casos, a doença se resolve por si só, ou como
dizia o Professor Maffei, “com médico, sem médico ou apesar dele...
“Portanto, a indicação de terapêutica
indicada pela internet muitas vezes
acaba dando certo e, com isso, o “Dr.
Google”, em consonância com o próprio consulente, torna-se imbatível.
O novo paciente
O resultado transforma completamente
o roteiro normal do relacionamento entre o
médico e paciente. Surge o “paciente instrumentalizado”, dotado de informações médicas
e com dificuldade para assimilar a ideia de
existir a chance de várias interpretações em
Medicina. Este paciente cria o figurino prévio
de como deve ser atendido, examinado e
orientado. “Quando o principal protagonista
do “ato”, o médico, não age como o paciente
instrumentalizado havia redigido em seu texto
imaginário, a consulta pode ser considerada,
no mínimo, suspeita, para não dizer, desqualificada”, afirma Roberto Silvino.
Com estas situações cada vez mais frequentes em seu consultório, Silvino mostra
algumas atitudes que tem aplicado no seu
dia a dia de trabalho e que podem facilitar
o convívio entre médicos e os pacientes
instrumentalizados:
“Primeiro, não ter pré-conceito contra o
“Dr. Google” e seus “alunos adestrados” que
chegam para a consulta. É preciso ouvi-los
com atenção redobrada e jamais mentir caso
não tenha lido sobre qualquer matéria citada.
Segundo, prometer retorno após ler a matéria
e realmente dar este retorno. Terceiro, manter-se atualizado em relação aos assuntos da
Especialidade e, em caso de “confronto” com
os clientes do Dr. Google fazer referência
aos instrumentos de atualização (reuniões
científicas semanais, Congressos, Simpósio
etc.), de forma com que eles saibam que estão
“trocando ideia” com alguém “por dentro” da
especialidade”, aconselha.
Em último caso, manter diplomas atualizados, na sala de espera, continua sendo
forte aliado contra a investida unilateral dos
“clientes mais estudiosos”, finaliza Wilmar
Roberto Silvino.
Wilmar Roberto Silvino
Quando o principal
protagonista do
“ato”, o médico, não
age como o paciente
instrumentalizado havia
redigido em seu texto
imaginário, a consulta
pode ser considerada, no
mínimo, suspeita, para
não dizer, desqualificada
Os Estrabismos - Teoria e Casos Comentados
Os Estrabismos – Teoria e Casos Comentados é o novo lançamento da Editora Guanabara Koogan para 2011. O
livro, escrito pelo Professor Titular do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa
de Misericórdia de São Paulo Carlos Souza-Dias e pelo Professor e Chefe da Seção de Motilidade Extrínseca Ocular do
Departamento de Oftalmologia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo Mauro Goldchmit.
A obra é composta por 14 capítulos com início histórico, passando em seguida para abordagem dos desvios
horizontais (esotropias e exotropias), desvios verticais em formas simples (hipertropias), estrabismos restritivos e por
paralisias neuromotoras.
Segundo a editora, o conteúdo possibilita o aprendizado sobre o estrabismo em suas diferentes apresentações e
consequências ao expor, de modo didático, como deve ser praticado o atendimento ao paciente portador de estrabismo.
Mais informações sobre o livro e sua distribuição podem ser obtidas pela Editora Guanabara Koogan pelo telefone
(21) 3543-0770 ou pelo email [email protected]
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