XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. HYPHOMYCETES ISOLADOS EM SOLOS DO PARQUE NACIONAL DO CATIMBAU - PERNAMBUCO, BRASIL Ivana Roberta Gomes Alves de Souza Galvão 1, Renan do Nascimento Barbosa2, Jadson Diogo Pereira Bezerra3, Débora Massa Lima4, Maria José Fernandes5, Neiva Tinti de Oliveira6, Cristina Maria de Souza-Motta7 Introdução O solo é considerado um ecossistema complexo, naturalmente organizado, resultante das interações de clima, relevo, organismos e material orgânico, sendo um habitat microbiano por excelência, abrigando vários micro-organismos, dentre eles os fungos (Prade, 2007). Estudos em áreas com vegetação de Caatinga no semiárido estão sendo incrementados tendo em vista a necessidade de ampliar o conhecimento e definir estratégias de conservação, bem como de uso sustentável dos recursos. Apesar dos esforços para acessar a microbiota de áreas de Caatinga, essa diversidade ainda é incipientemente conhecida e merece atenção não apenas pelo seu papel ecológico, mas também pelo potencial biotecnológico que representam (Maia & Gibertoni, 2002). Em inventário da diversidade de fungos no semi-árido nordestino, Maia & Gibertoni (2002), apresentaram um check list com 451 espécies distribuídas entre os Filos Ascomycota, Basidiomycota, Oomycota, Zygomycota (incluindo a ordem Glomales, atualmente Glomeromycota) e os fungos anamórficos, sendo estes representados por 198 espécies distribuídas em 82 gêneros. Os resultados obtidos com esse trabalho demonstra a necessidade de mais estudos de verificação da diversidade microbiológica de fungos em ambientes de Caatinga. Os fungos até então classificados como hyphomycetes são amplamente distribuídos no ambiente, colonizando diferentes habitats terrestres e aquáticos. Sua dispersão ocorre principalmente por meio dos conídios e/ou fragmentos de hifas que são levados pelo vento, insetos e animais (Kirk et al. 2008). A região semiárida brasileira compreende uma área de 969.589,4 km2 (Ministério da Integração), sendo formada por 1.133 municípios em nove estados. O aspecto fitofisionômico predominante é a Caatinga, ocorrendo outros tipos vegetacionais como matas úmidas, matas estacionais, cerrados, tabuleiros e campos rupestres. O Parque Nacional do Catimbau corresponde a uma das áreas de importância biológica da Caatinga por ser um ambiente ainda preservado e pouco explorado. Objetivo deste estudo foi isolar e identificar hyphomycetes em solos de área de Caatinga no Parque Nacional do Catimbau, Pernambuco- Brasil. Material e métodos A. Coleta do solo Amostras de solo foram coletadas nos municípios de Ibimirim e Tupanatinga- Pernambuco/Brasil, durante a estação seca de 2012, na área inserida no Parque Nacional do Catimbau. Em cada coleta, foram distribuídos aleatoriamente cinco 2 quadrantes de 25m (5x5m) respeitando uma distância mínima de 10m entre si. Em cada quadrante foram coletadas seis subamostras de solo em pontos equidistantes a uma profundidade de 0-20 cm. As amostras foram acondicionadas em sacos plásticos etiquetados, e manipuladas no Laboratório de Fungos Fitopatogênicos, Departamento de Micologia, Centro de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Pernambuco. B. Isolamento dos fungos O isolamento foi realizado pelo método de Clark (1965) modificado, com o seguinte procedimento: 25 g de cada amostra do solo foi suspensa em 225 mL de água destilada esterilizada e o sistema foi agitado durante três minutos. Desta suspensão, 1 mL foi adicionados a 9 mL de água destilada esterilizada (1:100) e a operação repetida até a diluição de 1:1000. Desta suspensão, 1 mL foi semeado em triplicata na superfície dos meios: ágar Sabouraud (Sabouraud, 1892) pH 5,5 acrescido de cloranfenicol (0,17g/L) e rosa bengala (0,05g/L), em ágar dicloran glicerol (DG- 18) (Hocking & 1 Ivana Roberta Gomes Alves de Souza Galvão é aluna do curso de Bacharelado em Ciências Biológicas com ênfase em Ciências Ambientais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)– E-mail:[email protected] 2 Renan do Nascimento Barbosa é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos (PPG-BF) da UFPE - E-mail: [email protected] 3 Jadson Diogo Pereira Bezerra é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos (PPG-BF) da UFPE- E-mail: [email protected] 4 Débora Massa Lima é professora aposentada da UFPE e presta consultoria para Micoteca URM- E-mail: [email protected] 5 Maria José Fernandes é professora aposentada da UFPE e presta consultoria para Micoteca URM –E-mail:[email protected] 6 Neiva Tinti de Oliveira é Professor Associado do Departamento de Micologia da UFPE – E-mail: [email protected] 7 Cristina Maria de Souza-Motta é Professor Adjunto do Departamento de Micologia da UFPE e Curadora da Micoteca URM – E-mail: [email protected] Financiamento: CNPq XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. Pitt, 1980). As placas de Petri foram incubadas à temperatura ambiente (28 ºC ± 1 ºC) e o crescimento das colônias acompanhado por 72 horas. Após purificação, os isolados foram transferidos para meios específicos (Czapeck, CYA, G25N, Agar Malte, BDA) para posterior identificação. C. Identificação dos fungos A identificação foi realizada pela equipe da Coleção de Culturas – Micoteca URM da UFPE (WCDM 604) observando-se as características macro e microscópicas, com o auxílio de literatura específica (Klich & Pitt, 1988; Klich, 2002; Ellis, 1971,1976). Resultados e Discussão A. Figura e Tabelas Do solo coletado e processado, foram isolados 682 fungos, distribuídos entre os gêneros Aspergillus, Penicillium, Talaromyces, Acrophialophora, Curvularia, Cladosporium, Fusarium, Trichoderma, Pseudocochiolobolus e Neocosmospora. Para o nosso conhecimento, 22 espécies de fungos são relatadas como primeira ocorrência em solos de Área de Caatinga no Parque Nacional do Vale do Catimbau-Pernambuco-Brasil (Tabela 1). Estudando a população de micro-organismos em área de Caatinga, Da Silva (1997), observou maiores ocorrências de fungos, bactérias e algas na estação seca, demonstrando que as comunidades de micro-organismos existentes no ecossistema Caatinga também se adaptam as condições de baixa umidade. A maioria dos fungos isolados no presente estudo já é de ocorrência conhecida para solo. Ao avaliarem a diversidade de fungos no solo de áreas de ocupação humana na zona semiárida do estado de Pernambuco, Cavalcanti e Maia (1994) obtiveram alta diversidade de hyphomycetes. Maia e Gilbertoni (2002), ao listarem fungos de solo em municípios da região semiárida no Nordeste brasileiro, registraram dezenas de espécies de hyphomycetes , dentre elas Cladosporium cladosporioides, Fusarium oxysporum e Trichoderma harzianum. Estudando fungos em solos da região de Xingó na região Nordeste do Brasil, Cavalcanti et al. (2006) isolaram 96 espécies de fungos, sendo Ascomycota (8 espécies), Zygomycota (8) e hyphomycetes (80). Semelhantemente, em área de Caatinga na Floresta Nacional Contendas do Sincorá (BA), foram isolados fungos filamentosos de solo sendo verificada a ocorrência de A. aculeatus, A. flavus, A. fumigatus, A. japonicus, A. niger e A. tamarii (Simões, 2006). Em solo no município de Bom Jardim (PE), Silva et al. (2011) identificaram 11 espécies de hyphomycetes pertencentes a cinco gêneros, sendo Aspergillus o mais frequente, representado pelas espécies A. clavatus, A. flavus, A. niger e A. niveus. Agradecimentos Ao CNPq pelo financiamento e bolsa concedida, e a Micoteca URM do Centro de Ciências Biológicas da UFPE. Referências Cavalcanti, M.A.; Maia, L.C. Cellulolytic fungi isolated from alluvial soil in semi-arid area of the northeast of Brazil. Revista de Microbiologia, v.25, p. 251-254, 1994. Cavalcanti, M.A.Q.; Oliveira, L.G.; Fernandes, M.J.; Lima, D.M. Fungos filamentosos isolados do solo em municípios na região Xingó, Brasil. Acta Botanica Brasilica, v.20, p.831-837, 2006. Da Silva, R.; Franco, C.M.L.; Gomes, E. Pectinases, Hemicelulases e Celulases, Ação, Produção e Aplicação no Processamento de Alimentos: Revisão. Boletim da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos, v.31, n.2, p.249-260, 1997. Ellis, M.B., 1971. Dematiaceous Hyphomycetes. Commonwealth Mycology Institute, England. Ellis, M.B., 1976. More Dematiaceous Hyphomycetes. Commonwealth Mycology Institute, England. Hocking, A.D & PITT, J.I. Dichloran-Glycerol media for enumeration xerophilic fungi from low moisture foods. Appl. Environm. Microbiology, v. 39, p. 488-492, 1980. Kirk P, Cannon PF, Minter DW, Stalpers JA (2008) Ainsworth & Bisby’s Dictionary of the Fungi. 10th edn. CAB International, Wallingford, UK. Klich, M.A.; Pitt, J.I. 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Ann Dermatol Syphil v.3, p.1061-1087, 1892. Silva, D.C.V.; Tiago, P.V.; Mattos, J.L.S.; Paiva, L.M; Souza-Motta, C.M. Isolamento e seleção de fungos filamentosos do solo de sistemasagroflorestais do Município de Bom Jardim (PE) com base na capacidade de produção de enzimas hidrolíticas. Revista Brasileira de Botanica, v.34, n.4, p.607-610, 2011. Simões, M.L.G. Produção de xilanase por fungos filamentosos isolados de solo de área de caatinga. Rio Claro: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, 2006. 133p. Dissertação Mestrado. Tabela 1: Frequência absoluta (fa), relativa (fr), e possível primeira ocorrência para hyphomycetes isolados em solos do Parque Nacional do Vale do Catimbau- Pernambuco- Brasil. Táxon Acrophialophora fusispora (S.B. Saksena) Samson Aspergillus aculeatus Iizuka A. aureolus Fennell & Raper A. aureoterreus (A. terreus) Thom & Raper A. caelatus BW Horn A. flavus Link A. fumigatus Fresen A. violaceus fuscus Fennell & Raper A. lentulus Balajee & K.A. Marr A. neoafricanus Samson, S.W. Peterson, Frisvad & Varga A. nidulans Fennell & Raper A.niger Tiegh A. niveus Blochwitz A. recurvatus Raper & Fennell A. ruber Thom & Church A. sydowii (Bainier & Sartory) Thom & Church A. tamarii Kita A. terreus Thom A. versicolor (Vuill.)Tirab. A. viridinutans Ducker & Thrower A. westerdijkiae Frisvad & Samson Cladosporium cladosporioides (Fresn.) G.A. de Vries Curvularia brachyspora Boedijn C. lunata (Cochilobolus lunatus) (Wakker) Boedijn Curvularia pallescens Bordijn Fusarium heterosporum Nees & T. Nees F. oxysporum Schitdl. Neocosmospora E.F. Sm. Penicillium adametzii K.M. Zalessky P. bilaiae Chalab P. citreonigrum Dierckx P. citrinum Dierckx P. corylophilum Dierckx P. decumbens Thom P. griseofulvum Dierckx P. implicatum Dierckx P. janczewskii Zaleski P. janthinelum Biourge P. miczynskii K.M. Zalessky P. mineoluteum Dierckx P. sclerotiorum Beyma P. simplicissimum (Oudem.) Thom P. verruculosum Peyronel P. waksmanii K.M. Zalessky Pseudocochiolobolus pallescens Boedijn Talaromyces pinophilum Thom Total fa 1 14 25 5 23 32 33 55 5 4 2 38 1 1 1 4 14 36 7 25 12 14 22 19 1 18 11 7 19 22 27 20 3 10 26 6 13 5 1 3 22 11 18 7 25 14 682 fr % 0,001466 0,020528 0,036657 0,007331 0,033724 0,046921 0,048387 0,080645 0,007331 0,005865 0,002933 0,055718 0,001466 0,001466 0,001466 0,005865 0,020528 0,052786 0,010264 0,036657 0,017595 0,020528 0,032258 0,027859 0,001466 0,026393 0,016129 0,010264 0,027859 0,032258 0,039589 0,029326 0,004399 0,014663 0,038123 0,008798 0,019062 0,007331 0,001466 0,004399 0,032258 0,016129 0,026393 0,010264 0,036657 0,020528 1ª ocorrência para solo de Caatinga X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X