Memorial da Resistência de São Paulo PROGRAMA LUGARES DA MEMÓRIA INSTITUTO CULTURAL ISRAELITA BRASILEIRO Construído em homenagem às vitimas do holocausto e por isso mais conhecido como "Casa do Povo", o instituto fica localizado no bairro do Bom Retiro na Rua Três Rios. Em suas instalações funcionaram a Escola Scholem Aleichem, a Associação Feminina Israelita Brasileira (AFIB) e o Teatro de Arte Israelita Brasileiro (TAIB), com atividades voltadas para o cultivo da cultura ídiche, e paulatinamente envolvem-se nas lutas do povo brasileiro para a construção de uma sociedade mais justa. Com o surgimento dos Estados nacionais, após a Israelita ou Sociedade Esportiva Zukunft na Rua Amazonas, Revolução Francesa os judeus que viviam na Europa denunciado durante o Governo Vargas e foi considerado ocidental adquiriam sua cidadania. Já as massas judaicas um aparelho subversivo do Partido Comunista. que viviam na Europa Oriental, nos pequenos "shtetl", região que era autorizada a moradia de judeus no Império Czarista e pertenciam as camadas miseráveis de pequenos artesão. No começo do século XX, com o grande desenvolvimento capitalista da Rússia, houve uma grande ascensão das lutas sociais, os cárceres encontravam-se repletos de militantes revolucionários que visavam liquidar o despotismo reinante. Em São Paulo, nesse período, imigrantes oriundos do Bund fundaram o clube Tsukunft (futuro) no bairro de Bom Retiro. Nos anos 1930, se chamava Yugend Club (clube da juventude) e fundaram uma biblioteca, um grupo de teatro chamado Dramkrais (grupo dramático) e o coro Schaeffer. Nos anos 1940, a entidade passou a se chamar Centro de Cultura e Progresso e constitui parte do Idisch Kultur Nesse período, esses judeus paulatinamente passam a Farband (ICUF) Fundado em 1937, em meio ao I imigrar, especialmente após as Grandes Guerras que Congresso Internacional de Cultura Judaica em Paris, assolaram a Europa. Os judeus da Europa Oriental e respondia com medidas práticas ao clima facista de chegam ao Brasil, trazendo ideias socialistas e um intimidação cultural. passado de intensa militância. Estes os judeus chamados de “roiters” (vermelhos) haviam criado vários agrupamentos de diversas orientações esquerdistas. Em São Paulo se instalaram no Bom Retiro na década de 1930 e sofreram perseguições antissemitas do Governo Vargas, e, além disso, por serem considerados “comunistas”. Nesse período formaram em seu entorno diversos agrupamentos como, por exemplo: o Clube O ICUF é movimento internacional em prol da cultura ídiche, no qual tinha como determinações criar um conjunto de instituições nas quais a cultura ídiche encontrasse condições de disseminação. Centros de cultura, escolas e clubes para articular os Em 1953, foi inaugurado o prédio Palácio da Cultura, judeus que se identificavam com as causas progressistas e também chamado de “Casa do Povo”, isto é, o Instituto semear mentalidade Cultural Israelita Brasileiro (ICIB), fruto de uma universalista, a sensibilidade às questões locais e homenagem aos seis milhões de judeus que foram internacionais, a mobilização à luta pela paz e pela vítimas do Holocausto. A partir desse período o Colégio igualdade entre os povos. Scholem Aleichem (CSA), a Associação Federal Israelita nas novas gerações uma Essas instituições Brasileira (AFIB), possuíam periódicos, clubinho I Peretz e a colônia fundaram suas próprias de escolas, e passaram a funcionar nas atividades instalações do ICIB. Em clubes promoviam (leienkrainz/círculos de leitura 1960, e apenas a integração às locais, mas também o aprimoramento cultural sob o ponto de vista do campo socialista. Após a Segunda Guerra proporcionou um momento de grande vitalidade para o judaísmo dado forças o no inaugurado o Essas instituições possuíam teatrais) que visavam não progressista foi Brasileiro (TAIB). dramáticos/grupos Mundial, Kinderland Teatro de Arte Israelita dramkrainz/círculos sociedades férias o Brasil, prestígio das principais de resistência e combate ao nazismo foi idealizado um periódicos, fundaram suas Figura 1. Lançamento da Pedra Fundamental ICIB. 1946 próprias escolas, clubes e “A Casa do Povo” é fruto de uma homenagem aos seis milhões de judeus que foram vítimas do Holocausto. Embora não representasse um memorial estático para contemplação, mas estruturou-se como um centro de produção, reflexão e fruição de ideias. promoviam O esforço de restaurar a vitalidade da língua através das expressões artísticas estava ligado à compreensão que a Guerra não havia somente aniquilado milhares de vidas, bem como colocado em risco uma forma de representar e vivenciar o mundo. culturalmente do ponto de Cultura e com o dinheiro da comunidade conseguiram começar a construção do Instituto Israelita Brasileiro. Era um lugar de grande experimentação artística e também de ativismo social. Ali se fazia teatro, música e produções de vanguarda que contavam até mesmo com artistas e diretores de teatro da Polônia. (leienkrainz/círculos de leitura e dramkrainz/círculos dramáticos/grupos teatrais) que visavam não apenas a integração locais às e sociedades aprimoravam vista do campo socialista. As posições políticas críticas tornaram a Casa do Povo uma voz isolada na política comunitária, o que mostra projeto pela comunidade de reunir um centro de atividades que o colégio era mantido pelas contribuições de seus ativistas, não tendo apoio material por parte das demais instituições. É importante salientar que as mulheres eram militantes muito ativas e o movimento feminista foi bem desenvolvido na casa do povo, durante a guerra, as mulheres organizaram um comitê de auxilio as suas vitimas. No entanto, os todos os trabalhos no bairro integravam- cultural, pois estava sendo constantemente vigiada. se em solidariedade, cooperação e militância. Mas ainda, a rede também servia para ocultar os procurados e esconder os segredos mais importantes da vida política. Segundo a Iokoi, os componentes do processo permitiram que esses homens e mulheres saídos das condições de opressão, de perseguição religiosa e de recrutamento forçado criassem um elo entre a utopia libertaria e o messianismo judaico, como afinidades eletivas. Colégio Scholem Aleiche Fruto da intensa atividade dos judeus progressistas em São Paulo, em 1949 é criado o Colégio Scholem Aleiche de São Paulo, visando a disseminação dos ideais antifascistas e progressistas no cenário social brasileiro, por meio de uma educação pluralista e inovadora, perfil que manteve até encerrar suas atividades em 1981. José Sendacz que foi um personagem chave na orientação do perfil judaico da escola e o desafio que buscavam A Cultura iídiche estava presente nas casas e nas ruas do Bom Retiro. Gerações de imigrantes mantinham o idioma na educação de seus filhos, além de terem alguns meios de comunicação, como o jornal “Nossa Voz” e “Reflexo” que eram escritos em iídiche e em português. Além de programas de rádio encontrar a síntese, entrelaçar judaísmo e brasilidade na formação juvenil. Eles visavam a libertação, a conscientização do indivíduo para as causas reais e sociais da injustiça. Neste sentido, buscavam um caminho paradoxal entre assimilação à sociedade brasileira, sem entretanto “abrir mão” da Na década de 1970 a Casa do Povo quase não pode ser utilizada para desenvolver algum programa político e preservação de uma cultura progressista originária da Europa Oriental. Neste sentido, tratar da importância de instituições que ressaltavam uma escrita e cultura iídiche enfatiza o forte “Tratava-se de um grupo de jovens ligados entre si por uma busca de futuro, cujas energias os estimularam a sonhar com um novo modo de ser, num tempo a uma formação coletiva e preocupada com um mundo para todos. De um lado, realizavam as atividades voltadas para o cultivo da cultura, para uma certa erudição, de outro, mantinham o envolvimento nas lutas gerias do povo brasileiro” Zilda Márcia Grícoli Yokoi. Intolerância e Resistência. A saga dos comunistas entre a Polônia e o Brasil (1935-1975). caráter político que esta possuía em seu contexto original e o modo em que este é apropriado pelos imigrantes e seus descendentes no contexto brasileiro. Cultura e política eram palavras pensadas e vividas como indissociáveis por estes ativistas, tanto em suas entrevistas quanto nos seus escritos sobre a história que refazem de seu próprio grupo. O colégio era judaico. Entretanto, por ter um alto nível educacional, era composto também por alunos de diferentes origens, e não era apenas de moradores da região, mas de diferentes áreas da cidade. Muitos filhos de ativistas do partido foram acolhidos no colégio por questões de segurança. Segundo Altman, muitos pais e membros da mantenedora da escola eram militantes dos Com projeto arquitetônico modernista de Jorge Wilheim, o ICIB foi um dos epicentros de uma cultura judaica idichista, socialista nos anos 1950 e 1960. movimentos de esquerda e foram perseguidos pela Em sua grade curricular, o iídiche era mais importante ditadura. Muitos filhos de militantes, não judeus, tiveram do que o hebraico e mesmo as aulas de história judaica acolhida que eram chamadas de Ídishe Gueshichte. A ênfase era dada à recebessem uma educação de alta qualidade e condizente história do povo judeu, à literatura iídiche e ao domínio com os valores políticos de suas famílias. do idioma. O no Scholem Scholem Aleiche, destacava-se permitindo como espaço de A celebração das festas judaicas ressaltava o caráter experimentação educacional, inovando em termos combativo e os valores de liberdade associados a uma metodológicos e nas opções curriculares que adota. leitura histórica da tradição que em nenhum momento se Apostava-se em uma escola dinâmica, na qual “descolava da realidade brasileira”. A agitação cultural professores continuavam educando e eram incentivados da “Casa do Povo” chegava até o Scholem, fosse pelas a criar. A experiência de militância comunista incitou a intensas atividades do grêmio, fosse por convites dos necessidade de unir teoria e prática, e apresentou-se profissionais da escola. Novos Baians, Belchior, Renato como um terreno fértil para materializar ideais que Teixeira, Caetano Veloso foram alguns dos que se rompiam com a educação formal. O Scholem entra em apresentaram na escola. um conjunto de escolas experimentalistas da década de 1960, como a Escola de Aplicação e a Escola Experimental da Lapa, que visavam a criação de um novo modo de ensinar, contrapondo-se ao ensino tradicional. Muitos fatores corroboraram para a inviabilidade da manutenção dos CSA. O alto custo do projeto demandava um aporte financeiro que o CSA nunca teve, pois nunca recebeu suporte das respectivas federações israelitas. O trabalho coletivo e o diálogo permanente com a produção cultural reforçavam o contraponto ao nacionalismo reforçavam o contraponto ao nacionalismo incondicional propagado pela ditadura militar a partir de 1964. Educar praticando internamente a liberdade de expressão e estimulando o pensamento crítico confirmava a coerência da escola com raízes progressitas, e pavimentava a formação desses jovens para uma participação consciente da vida política do país. A existência desse espaço educacional atraiu jovens professores, que, estimulados pela liberdade que havia na escola, dedicaram-se a propor formas de aprender. A valorização da criatividade perpassava toda a vida escolar do aluno. Nas paredes da escola, fotos das produções das crianças, numa orientação menos preocupada com a estética do resultado do que com a liberdade de criação e a experimentação de técnicas variadas. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, a escola desempenhou importante papel no processo educacional da cidade, não apernas por recuperar de modo crítico os fundamentos do pensamento pedagógico moderno, mas também por introduzir na dinâmica da vida escolar uma preocupação com as artes, especialmente teatro, o coral e a literatura. Teatro de Arte Israelita Brasileiro Na esteira da tradição dos grupos profissionais e amadores em língua iídiche, onde havia a encenação dos contos de Scholem Aleichem e outros autores era uma estratégia eficaz para popularizar esses textos entre os Portanto, é fundamental ressaltar que o Instituto alunos. Ética, cultura e humor são os principais legados Cultural Israelita Brasileiro cumpriu sempre com a sua da escola. A cultura e a educação são de fato os alicerces “vocação” de ser a Casa do Povo, além de ter abrigado de sua sobrevivência e são constantemente usadas como crianças que nunca poderiam ter estudado, se não fosse marcos estratégicos de manutenção e reinvenção de sua o Scholem, e as constantes lembranças aos heróis do identidade marcada pela diáspora. Gueto de Varsóvia. Além disso, interviram também nas Para este grupo, o caráter da diáspora permite mais do que a aliá viver a cultura de modo libertário, ou seja, em qualquer parte do mundo. Por ser atemporal, “diaspórica” esta cultura consegue ser também temporal e local. Então, recriar o judaísmo na diáspora é construir um shtetl local, ou seja, reinventar uma idéia de coletividade judaica brasileira. Obras de autores como Schakespearte, Brecht, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna foram montadas pelas turmas, além das composições literárias das próprias crianças Nesse espaço realizaram muitas atividades significativas no teatro judaico, José Celso Martinez Corrêa, Augusto Boal, Gianfresco Guarnieri foram nomes que percorreram as salas da Casa do Povo, usaram o Paulo do Teatro TAIB, aproximaram textos, autores e atores que no Oficina e no Arena imprimiram a critica social e o protesto como formas de expressão da dramaturgia no rompimento da mordaça imposta pela linha dura do sistema. Muitas foram as formas encontradas para uma oposição constante aos mecanismos de vigilância dos atos de protestos. lutas do povo brasileiro, pois foi um espaço que abriu para novas formas de (re)organização da esquerda. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHIA, Joana D’Arc do Valle. MEMÓRIAS DE GÊNERO. A CONSTRUÇÃO DE UMA ÍDISCHKEIT IMAGINÁRIA NO BRASIL. Fazendo Gênero 9. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos, 23 a 26 de agosto de 2010. BAHIA, Joana D’Arc do Valle. O “espírito do comentário” – a idéia de educação e de cultura como demarcadores étnicos, 2009. Eva Alterman; INQUISIÇÃO, INQUISIÇÕES: Aspectos da participação dos judeus na vida sócio-política brasileira nos anos 30, Apresentado no Congresso “América Latina e Blay, Europa em Diálogo”da Westfalische WilhemsUniversität; Münster, República Federal da Alemanha. 28/09 a 30/10 de 1987. 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Agradecemos a todas as fotos contidas neste trabalho, que foram reproduzidas com autorização do Acervo do ICIB.