A PREVALÊNCIA DE AGRAVOS ENTRE USUÁRIOS VULNERÁVEIS E NÃO VULNERÁVEIS E O NOVO PARADIGMA Heitor Vieira Professor do curso de graduação em Engenharia Civil - Universidade Federal do Rio Grande [email protected] Alice Tavares da Silva Acadêmico do curso de Engenharia Civil - Universidade Federal do Rio Grande [email protected] Igor Machado Silveira Acadêmico do curso de Mestrado em Engenharia de Transportes - Universidade Federal de São Paulo [email protected] Resumo. O presente trabalho apresenta uma pesquisa que propõe avaliar a qualidade da mobilidade urbana por meio da razão de prevalências entre os agravos experimentados por usuários vulneráveis (pedestres, ciclistas e motociclistas), em relação aos usuários não vulneráveis, ou que possuem uma carenagem envoltória protetora (lataria). A avaliação considera a proteção experimentada pelos usuários vulneráveis (UV) com a adoção de medidas que visem qualificar a mobilidade urbana sob à luz do novo paradigma, a qual coloca o homem como objeto do planejamento da mobilidade urbana e sua infraestrutura. A metodologia se mostrou adequada aos propósitos almejados para comparações temporais e espaciais de ambientes urbanos. Palavras-chave: Troca de paradigma na mobilidade urbana. Análise de prevalência de agravos. Usuários vulneráveis e não vulneráveis. 1. INTRODUÇÃO A partir do início do processo de massificação do automóvel, se passou a pensar a urbanização das cidades de acordo com as necessidades do mesmo. O automóvel é ávido por espaço e, rapidamente, impulsionou o surgimento de rodovias e ruas adaptadas a suas necessidades e em detrimento do ser humano e seus modos suaves de deslocamento. As consequências imediatas foram a degradação ambiental e os acidentes, resultantes da iteração entre Usuários Não Vulneráveis UNV, ou seja, automóveis, caminhões e ônibus, e os usuários vulneráveis (UV). Os UV são aqueles que não possuem uma carenagem a protegê-los. Entre os UV podem se incluir, além de pedestres, ciclistas e motociclistas, cadeirantes, skatistas, e outros usuários de veículos sobre rodas, de tração humana. O presente estudo analisa a prevalência de ocorrências entre os UNV em relação aos seus contrapares UV. Sendo assim, o estudo tem como objetivo principal apresentar uma ferramenta capaz de estabelecer comparações temporais, com estudos do tipo antes e depois, e comparações espaciais, ou seja, local A x local B, quanto a qualidade da mobilidade urbana, com base na relação entre dados de acidentes com vítimas entre UV e UNV (OTTE et al., 2010; PRATO et al., 2010; WEI et al., 2010). A proposta se baseia em uma lógica simples. Se um sistema de mobilidade não é XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil amigável aos UV’s, traz como consequência inevitável um número maior de agravos à saúde, resultantes de conflitos mal resolvidos com os UNV’s. Como o ambiente foi planejado para facilitar para os carros, privilegia-os de várias formas, aumenta ainda mais as vantagens no que diz respeito à segurança, além da oferecida com a carapaça protetora proporcionada pela carenagem. A diferença de massa entre os usuários faz com quem possui um corpo mais leve sofra uma grande aceleração no caso de uma colisão, aumentando potencialmente a sua morbimortalidade, ou seja, a sua tendência de sofrer agravos à saúde, fatais e não fatais. 2. MATERIAIS E MÉTODOS 2.1 A mobilidade urbana x imobilidade urbana Muito se apregoou sobre a influência dos estímulos a indústria automobilística e, o consequente crescimento da frota, no problema dos congestionamentos e outras externalidades do automóvel. É claro que isso é falso, haja vista a diferença enorme de frota per capita que existe entre países como Holanda, Alemanha, E.U.A., por exemplo, em relação ao Brasil, sem que isso se materialize em uma taxa de acidentes mais alta ou em maiores congestionamentos (EVANS, 2007). A imobilidade urbana ocorre quando uma parcela, maior do que o sistema de trânsito é capaz de absorver, faz uso do automóvel para suas viagens do diaa-dia. O automóvel é insustentável porque ocupa muito espaço, sem que aproveite eficazmente esse espaço na promoção da mobilidade. Isso ocorre devido a um mau planejamento de viagens previsíveis sem que exista um transporte público com a confiabilidade e qualidade necessária para atingir as expectativas dos usuários. Como em qualquer lugar do mundo, o usuário só usa um sistema se lhe for conveniente em termos financeiros, pontualidade, rapidez e conforto (FERRAZ, 2004). 2.2 Avaliação da qualidade da mobilidade urbana A mobilidade urbana de qualidade pressupõe uma distribuição modal equilibrada com um sistema de transporte público eficiente, o que só é possível com instalações adequadas para pedestres e ciclistas alimentando este sistema. Há ainda a segregação, onde o transporte público não deve compartilhar vias com automóveis, pois perde-se o controle da variável tempo, a eficiência e a atratividade (GTZ, 2007; GTZ, 2009). O conforto, a segurança e o padrão estético representam uma fatia a mais de usuários que podem ser retirados dos autos. Quanto mais calçadas e outras instalações adequadas oferecidas aos modos suaves, mais usuários se sentirão bem servidos pelo serviço coletivo e migrarão para o mesmo. Essa dinâmica, repercute num aumento da segurança pela redução da presença de elementos que oferecem risco aos usuários vulneráveis. Dessa forma, uma das melhores medidas de contenção de acidente é oferta de um serviço público de transporte de qualidade. Mesmo nos países ditos desenvolvidos, se a ênfase rodoviária ainda prevalece, o quadro do usuário vulnerável se agrava, de alguma parte influenciado pelo aumento do uso da motocicleta, do número de conflitos com os automóveis (BASTOS, 2008). Em contrapartida, houve algum incremento na proteção oferecida aos usuários não vulneráveis (UNV). Desse modo, através da análise da série histórica da FARS, sabe-se que a prevalência de agravos entre usuários vulneráveis possui uma tendência quase constante de um aumento relativo do risco dos UV em relação aos UNV nos EUA, conforme NHTSA (2014). Essa tendência é claramente influenciada pelo aumento do uso das motocicletas e de uma forma mais discreta pelo aumento dos conflitos entre usuários suaves e automóveis e, como é uma razão UV/UNV, pela melhora da tecnologia XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil de proteção oferecida aos UNV’s de um modo geral. agravos entre estes usuários (OLIVEIRA, 2013). 2.3 A coleta de dados no contexto da pesquisa 2.5 Análise de confounders Para contextualização do trabalho, foi necessária a utilização de dados com a maior confiabilidade possível, para garantia da disposição dos dados das ocorrências, segundo uma tipologia adequada a sua correlação com os possíveis determinantes presentes no cenário de estudo. Essa necessidade prévia, exigiu a realização de uma busca em profundidade. Assim sendo, antes da elaboração deste trabalho, fez-se uma prospecção realizada diretamente sobre os registros policiais forenses do PML. Além dos boletins, foi utilizado na coleta de dados laudos de lesão corporal e de necropsia. (ELVIK, 1996; WEI, 2010; OLIVEIRA, 2013). 2.4 A avaliação temporal e espacial A consideração nas avaliações espaciais e temporais das prevalências de agravos entre UV e UNV é o cerne dessa proposta. Os agravos ocorridos entre pedestres e ciclistas são resultado dos conflitos destes com os UNV e também com as motocicletas. A pesquisa se propõe a avaliar a consequência da falta de um sistema de mobilidade racional e equilibrado, e utilizar assim, os agravos ocorridos entre motociclistas como uma forma de medir o problema que surge da carência de alternativas para encontrar soluções de mobilidade. O transporte ruim estimula o uso do automóvel, que congestiona o sistema, o qual incentiva ao uso da motocicleta. Considerando a lógica exposta até o presado momento, e de posse do banco detalhado e a ferramenta para filtragem dos dados, são retirados os dados sobre agravos ocorridos entre os integrantes dos grupos UV e UNV (PML, 2012). Desta forma, é possível determinar a prevalência das ocorrências de O uso da razão envolvendo dois grupos que são influenciados de uma maneira mais ou menos similar pelas variações de fluxo faz com que esse fator fique de certa forma controlado. No caso de ocorrer alguma variação não esperada ou desproporcional, esta pode ser retirada das análises não comprometendo as comparações espaciais ou temporais, o que aliás é uma outra grande vantagem de seu uso (ELVIK, 1996; 2002). 3. ANÁLISE DE RESULTADOS Os resultados obtidos para as prevalências espelham a qualidade da mobilidade nas análises espaciais e sugerem, a inclusão de variáveis relacionadas com a qualidade do transporte público e com a proporção e qualidade de calçadas/ciclovias em relação em relação ao espaço destinado aos automóveis. Os resultados que seriam desejáveis a partir do capital investido, deveriam contemplar o novo paradigma, melhorando e estimulando o uso dos modais suaves e penalizando o uso do veículo motorizado particular. No cenário proposto ao longo de 5 anos, foram implementadas várias medidas com a intenção de melhorar a mobilidade. A principal recomendação feita a partir das análises realizadas é a de planejar e implementar um sistema de transporte público perfeitamente integrado e acessível aos diversos modos suaves de deslocamento. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS A ferramenta proposta se mostrou adequada para estabelecer comparações temporais e comparações espaciais quanto a qualidade da mobilidade urbana, principalmente na ausência de fatores de exposição, ou seja, dados capazes de quantificar a quantidade de utilização de XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil cada modo e/ou o potencial de conflitos entre os grupos. A razão utilizada permite que se possa controlar fatores de confusão presentes na relação entre ocorrências e determinantes, os quais podem distorcer e provocar má interpretação das relações. O que se deve esperar nas razões, antes e depois, é que sejam maiores do que um (1), indicando que a condição anterior representa risco em relação ao que se tem no presente, ou que as medidas implementadas depois de certo instante, representam proteção ao UV em relação a condição anterior. 5. REFERÊNCIAS GTZ SUTP Bus Transit Rapid Planning Guide. GTZ (Deutsche für Technische Zusammenarbeit). Editors Lloyd Wright Researcher Bartlett School of Plannning, Unioversity College London. Institute for Transportation & Development Policy, Nova York, U.S.A. 2007. NHTSA, Fatality Analysis Reporting System. NCSA Data Resource Website. Disponível em: <http://wwwfars.nhtsa.dot.gov/Main/index.aspx>. Acesso em 8 de agosto de 2014. BASTOS, J.T. Um estudo dos acidentes de trânsito baseado na relação entre ocorrências e determinantes com ênfase na participação da motocicleta. Trabalho de Conclusão do Curso de Engenharia Civil Empresarial. Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande, Brasil. 2008. OLIVEIRA, A.M. Avaliação do risco enfrentado pelos usuários suscetíveis do sistema de trânsito em um ambiente em transformação: caso município de Rio Grande. Trabalho de Conclusão do Curso de Engenharia Civil. Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande, Brasil. 2013. ELVIK, R. 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