Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 1 ÁGUA VIVA E A FLUIDEZ DO FEMININO: RIO SEM MARGENS Cristiane Amorim (Doutoranda – UFRJ) Como nada entendo – então adiro à vacilante realidade móvel. (LISPECTOR, 1998, p. 74) O sábio, diz-se de Confúncio, por não ter parti pris, “não tem idéia”; e, com isso, mantendo o espírito disponível, torna-se aberto a cada “assim” [...]. (JULLIEN, 2000, p. 9) Em Linhas de Fogo, Claire Varin afirma que Água viva, com “duzentas e oitenta páginas” (VARIN, 2002, p. 154) em sua primeira versão, foi “intitulada antes Atrás do pensamento, depois Objeto gritante [...]” (VARIN, 2002, p. 155). Apesar de as duas alternativas revelarem muito sobre a obra, sem dúvida as acepções possíveis do título selecionado se harmonizam a esta novela, publicada em 1973, que se erige sobre a multiplicidade, a abertura e a transmutação do ser na sucessividade dos instantes. “Água viva”, por oposição a águas mortas, paradas, confere a noção de movimento contínuo, ininterrupto; fluir vivaz de correnteza. Por também se relacionar ao aumento da maré nas luas cheia e nova, alude ainda à conexão íntima entre todas as coisas, ao “fundo de imanência”, que atravessa o texto clariciano. Não se pode negligenciar a potência das águas, quase sempre envolta em erotismo e mistério, como símbolo de vida e morte. Edgar Morin ressalta que “a vida intra-uterina do feto humano traz em si, e recomeça, a experiência primeira, marítima, dos seres vivos [...]” (MORIN, 1970, p. 120). A água como origem e fim se conforma, portanto, a uma personagem que anseia pela “coisa primeira porque é fonte de geração [...]” (LISPECTOR, 1998, p. 17). Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 2 Há ainda a acepção de água que brota e jorra em grande quantidade, adequada a esse texto-nascente, que procura captar a essência do mundo escavando o momento anterior ao pensar-dizer, em busca do que há antes do pensamento; em busca de um saber pré-lingüístico. Deve-se atentar além disso para o animal, homônimo ao título, de corpo transparente e gelatinoso, cujas células podem provocar queimaduras na pele humana. Esse organismo tentacular, algo primitivo, composto quase integramente de água, de natureza urticante, também parece se coadunar a um “eu” que arde continua e apaixonadamente imerso em seu deslizar discursivo. Esse “eu” feminino escreve a um “tu” masculino, todavia a voz que “fala” dialoga sobretudo consigo mesma e, por vezes, com o leitor, esgarçando a linguagem para muito além das grades da razão na tentativa de captar o fugidio “instante-já” e alcançar o “é da coisa” (LISPECTOR, 1998, p. 9). ABERTO A CADA “ASSIM”: MUTAÇÕES FAISCANTES Em O sábio não tem idéia, François Jullien analisa as diferenças entre a filosofia (“ocidental”) e a sabedoria (“oriental”). Enquanto o filósofo parte de um ponto de vista para refutá-lo, fechando-se aos demais, o sábio não tem parti pris e, portanto, não se imobiliza e evolui “de acordo com o fluxo das coisas [...]. Estando o real em transformação contínua, sua conduta também está e, como ele, também não se estabelece” (JULLIEN, 2000, p. 22). É esse real em processo que se delineia em Água viva. A personagem pintora reconhece a incapacidade de apropriar-se do instante-já “porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais” (LISPECTOR, 1998, p. 9). Em seguida afirma que “cada coisa tem um instante em que ela é” (LISPECTOR, 1998, p. 9) para revelar ainda que se divide Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 3 “milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem” (LISPECTOR, 1998, p. 10). A morte de cada instante no instante que nasce e o sucede está, dessa forma, em profunda comunhão com um eu que se renova a cada momento. Seu anonimato é o terreno aberto às possibilidades; a individualidade abdica de suas fincadas raízes para tornar-se “entidade elástica” (LISPECTOR, 1998, p. 28). Enquanto para o sábio “não há mais eu – porque se tornou demasiado estreito” (JULLIEN, 2000, p. 23), a artista de Água viva, sente, ao se personalizar, que está se “apequenando” (LISPECTOR, 1998, p. 13) e reconhece a necessidade de abdicar de si para se ultrapassar (LISPECTOR, 1998, p. 24). O sujeito, na novela clariciana, se funde ainda com animais, plantas, coisas, na ânsia não apenas de plenitude, mas de ser múltiplo. A narradora afirma diante dos elementos que compõem sua pintura da gruta: “tudo isso sou eu” (LISPECTOR, 1998, p. 15). E, após relacionar a variedade sonora do domingo, revela: “[...] eu que ambiciono beber água na nascente da fonte, eu que sou tudo isso, devo por sina e trágico destino só conhecer e experimentar os ecos de mim, porque não capto o mim propriamente dito [...]” (LISPECTOR, 1998, p. 17). Esse sujeito, que perde a solidez da pessoalidade, se torna complexo, plural. A partir do estudo de alguns contos e romances lispectorianos, Benedito Nunes conclui que a subjetividade é apenas um momento privilegiado dessa experiência [de ser e de existir] que, na obra de Clarice Lispector, possui extensão universal e caráter cósmico. Isso quer dizer que a experiência humana, individualmente considerada, torna-se aí apenas um aspecto ou um modo determinado da existência universal, que se manifesta em todas as coisas e até nos mais humildes objetos. (NUNES, 1969, p. 122) Após analisar a entrevista feita por Clarice a uma pintora, Claire Varin observa que havia na ficcionista um “desejo de fusionar as artes” (VARIN, 2002, p. 154). Olga de Sá comprova a impressão de Varin, ao ressaltar que o texto de Água viva “aspira a ser pintura, música, fotografia, escultura, significante, puro jogo de sons e formas [...]” (SÁ, 1979, p. Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 4 205). Sem dúvida, todas essas manifestações artísticas se liquefazem, na expectativa de decodificação do mistério. Se a palavra não dá conta dos permutáveis mundos exterior e interior, as artes devem confluir literariamente, oferecendo, cada uma a seu modo, uma contribuição para captar a essência das coisas. Essa ânsia de fusão se espraia por toda a obra. Ao mesclar os gêneros, pertencendo simultaneamente a todos e a nenhum especificamente, Clarice faz romance (ou novela), que se afasta de sua significação, por mesclar uma carta-diário fragmentada a reflexões próprias da crônica ou do ensaio. Para Lucia Helena, a escritora entrelaça “ficção, crônicas, entrevistas, anotações soltas” e elabora “um processo narrativo que toma a forma (fluida) de um corp’a’screver de citações nômades e fugidias” (HELENA, 1997, p. 91). Tudo parece, portanto, convergir ou ao menos exala uma sede de convergência: o eu múltiplo, a diversidade artística, a pluralidade de gêneros e, sobretudo, as várias circunstâncias temporais. Quando o “eu” de Água viva sentencia “inútil querer me classificar” (LISPECTOR, 1998, p. 13) ou “Este não é um livro porque não é assim que se escreve” (LISPECTOR, 1998, p. 12) e ainda “Gênero não me pega mais” (LISPECTOR, 1998, p. 13), revela que sujeito e obra escapam ao coágulo da definição, mantendo o caráter de abertura, caleidoscópico, tipicamente clariciano. O DEUS E O IT: ENIGMAS Há ainda nesta prosa aquática uma tentativa de apreensão da coisa das coisas, do it. Ele está na ostra viva que se come (“Eu estava comendo o it vivo” (LISPECTOR, 1998, p. 30)), ele é o Deus que há em todos os viventes (“O it vivo é o Deus” (LISPECTOR, 1998, p. 30)) e o mistério da vida e do impessoal (“sei de coisas it sobre amamentar crianças” (LISPECTOR, 1998, p. 31)). É ainda a matéria-prima de que se compõem todos os seres, o Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 5 fundo comum de imanência: “fomos modelados e sobrou muita matéria-prima – it – e formaram-se então os bichos” (LISPECTOR, 1998, p. 55). A pintora também é it (“eu que sou it” (LISPECTOR, 1998, p. 71)) e o “X” incognoscível foi criado pela onipotência do it (“X” é o sopro do it” (LISPECTOR, 1998, p. 81)). Se tudo converge em Água viva – os múltiplos eus de cada instante-já, os gêneros, os tempos (do olhar, da escrita, da leitura), as artes (pintura, música, fotografia, literatura) – o it, fonte da existência, parece reunir em si o todo corpóreo do mundo e seu enigma. Com alguma freqüência, a prosa clariciana ganha aura religiosa e tom de prece. O “eu” de Água viva, por exemplo, faz questão de frisar que sua escrita “é em contralto. É negro-espiritual. Tem coro e velas acesas” (LISPECTOR, 1998, p. 65) e, em seguida, parece atingir o êxtase, ao afirmar que está “tendo agora uma vertigem” (LISPECTOR, 1998, p. 65). Todavia, se ante uma perspectiva judaico-cristã, a ficção de Clarice Lispector soaria profana, frente ao olhar do cético, o texto pareceria, por vezes, culto litúrgico. Isso porque, em suas narrativas, não há religião, não há dogmatismos, mas há uma religiosidade (uma adoração?) ímpar e plural, que confere a este romance uma perspectiva simultaneamente sacrílega e mística, sobretudo por mesclar o divino a referências à bruxaria e à salamandra. Novamente, pode-se afirmar que, em consonância com o sábio, o caminho de Clarice é o da abertura, dos possíveis. Não há idéia fixa, mas a mobilidade viva da água. Da mesma forma que, para a personagem, a resolução do mistério, “a verdade que é a do mundo” (LISPECTOR, 1998, p. 85), está no atrás do pensamento, deixando entrever a obsessão clariciana pelo princípio, “do Deus é no passado que se o soube” (LISPECTOR, 1998, p. 72). É como se, no processo considerado pela ciência evolutivo, o homem, em verdade, mergulhado no pensar, na razão, no conhecimento prático, tivesse perdido, ao se afastar do instintivo, do âmago, de sua essência, o quem das coisas. Deve-se, portanto, Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 6 trotar pra frente e pra trás e não numa linha reta, causal, (pseudo) progressiva. A prosa de Clarice é, sobretudo, a do resgate, do reencontro com a fonte geradora da vida – o que talvez esclareça a confissão da pintora: “Não, nunca fui moderna” (LISPECTOR, 1998, p. 83). Construindo e desconstruindo, a personagem amplia o olhar sobre o divino. Ela se pergunta: “Deus é uma forma de ser? é a abstração que se materializa na natureza do que existe?” (LISPECTOR, 1998, p. 71). E, sem temer o enfrentamento, confessa seu terror ante o “enorme silêncio” de Deus e ressalta ainda que Ele é “uma criação monstruosa” (LISPECTOR, 1998, p. 92). O Criador se torna, pela pena clariciana, criatura. Quem o criou e a que se refere exatamente o adjetivo são questões que permanecem nas entrelinhas e dão margem a um desdobrar interrogativo. Deus também perde seu caráter onipotente porque há coisas sobre ela que “nem Ele sabe” (LISPECTOR, 1998, p. 92). Deve-se ainda atentar para o fato de que a divindade – talvez numa tentativa de apreensão e/ou particularização – quase sempre surge, no texto, acompanhada do artigo definido. Ele não é Deus, mas “o Deus”. Sua revolta pela condição humana coloca esse criador-criatura na berlinda. Há um teor acusativo na indagação “Somos uns abandonados?” (LISPECTOR, 1998, p.93), que dialoga com a pergunta inconformada do Filho ao Pai, durante a crucificação. O divino é também uma espécie de potência de onde tudo sai e para onde tudo retorna: “tudo voltou para o nada, voltou para a Força do que Existe e que se chama às vezes Deus” (LISPECTOR, 1998, p. 95). Todavia, a artista de Água viva necessita, para atenuar sua solidão e sua angústia de ser, que haja Deus e, então, trança palavras-súplica e confecciona um texto-prece: Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 7 Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. (LISPECTOR, 1998, p. 55-6) AS RAÍZES ANIMÁLICAS DO MUNDO Outra recorrência na prosa lispectoriana que não deve ser menosprezada é a figura do cavalo. Se Joana aparece, na primeira obra de Clarice, como o cavalo novo capaz de se reerguer continuamente – “de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo” (LISPECTOR, 1998, p. 202) –, Macabéa, personagem de sua última novela, é comparada a “cavalo morto” (LISPECTOR, 2006, p. 107). Considerando A cidade sitiada, Claire Varin declara: “Os cavalos habitam a narradora assim como a cidade tinha sido invadida por eles em seu terceiro romance. [...] O cavalo é um meio de transporte que dá acesso ao coração selvagem perdido” (VARIN, 2002, p. 160). Em seguida, cita a pergunta destacada do livro de contos Onde estivestes de noite: uma noite no templo: “O cavalo representa a animalidade bela e solta do ser humano?” (VARIN, 2002, p. 160). Em Água viva, no entanto, a comparação – presente tanto em Perto do coração selvagem quanto em A hora da estrela – dá lugar à imagem metafórica. Aqui a personagem, que aspira pintar um “cavalo com asas abertas de grande águia” (LISPECTOR, 1998, p. 48), é, por vezes, o próprio eqüino selvagem, liberto, capaz de seguir em todas as direções, em harmonia com o fazer poético da novelística clariciana: Sinto que estou nas proximidades de fontes, lagoas e cachoeiras, todas de águas abundantes e frescas para a minha sede. E, eu, selvagem, enfim e Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 8 enfim livre dos secos dias de hoje: troto para frente e para trás sem fronteiras. (LISPECTOR, 1998, p. 75) Há, em Água viva, uma voltagem erótica e permanente entre as coisas do mundo. O “eu” observa que o erotismo próprio do que é vivo está espalhado no ar, no mar, nas plantas, em nós, espalhado na veemência de minha voz, eu te escrevo com minha voz. E há um vigor de tronco robusto, de raízes entranhadas na terra viva que reage dando-lhe grandes alimentos. (LISPECTOR, 1998, p. 40) Um devorar, orgíaco e orgástico, maquinário de vida e morte, perpassa a obra. A pintora confessa que sua fome se alimenta de “seres putrefatos em decomposição” (LISPECTOR, 1998, p. 41) e revela ainda o caráter erótico do seu dizer, extraído do âmago do mundo, em paralelo, ao que parece, a ritos de bruxaria, centrados no poder feminal da natureza: Como se arrancasse das profundezas da terra as nodosas raízes de árvore descomunal, é assim que te escrevo, e essas raízes como se fossem poderosos tentáculos de corpos nus de fortes mulheres envolvidas em serpentes em carnais desejos de realização, e tudo isso é uma prece de missa negra, e um pedido rastejante de amém [...]. (LISPECTOR, 1998, p. 20) Não se pode negar que a fusão dos elementos árvore, mulher e serpente remete ao pecado carnal que o texto exime de culpa e reverencia. Em um estado de continua excitação, a personagem, que deseja ser bio (LISPECTOR, 1998, p. 35), pura vida, arrepiase no “contato físico com bichos ou com a simples visão deles” (LISPECTOR, 1998, p. 48). A ânsia de encontro com “a vida primitiva animálica” (LISPECTOR, 1998, p. 48) carrega ainda o temor de ser obrigada a assumir seus “instintos abafados” (LISPECTOR, 1998, p. 49). É na animalidade, na natureza – violenta, mágica, febril, selvática –, que o ser recupera parte de sua essência perdida (de seu elo?) e se torna cavalo indomável. A Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 9 pintora, imersa em sua “densa selva de palavras” (LISPECTOR, 1998, p. 67), “feiticeira dessa bacanal muda” (LISPECTOR, 1998, p. 70) e nostálgica por não ter nascido bicho (LISPECTOR, 1998, p. 52), também enaltece a grandeza da inconsciência da finitude e se revolta: “não quero ser gente” (LISPECTOR, 1998, p. 93). Os bichos de Água viva – tartaruga, dinossauro, formiga, águia, gato, cachorro, pássaro, cavalo e tantos outros – se aliam às plantas e às coisas, ao Deus e ao it, às artes e aos gêneros, aos tempos e à mutação faiscante do eu, na feitura de uma prosa-prece à diversidade e à integração do mundo. DESENCONTRO: O “TU” MASCULINO E O “EU” FEMININO Num primeiro instante seria possível pensar que Água viva é a história do fim de um relacionamento. Mas, em se tratando de Clarice, a ficção se torna, sobretudo, uma abordagem sobre o processo de escrita, sobre a incompetência e o poder da linguagem e ainda sobre o mistério do mundo. Para compreender essa relação homem-mulher, há apenas algumas frases dispersas ao longo do texto. Ele, como outros personagens masculinos da escritora, é limitado por uma perspectiva racional, incapaz de compreender o mundo pela sensação, pela captação. Diante da abstração da pintura, o “eu” revela a incapacidade do “tu” de submergir na essência, pois sabe que ele perguntará a razão dos “traços negros e finos” (LISPECTOR, 1998, p. 11). É preciso ainda que ela escreva, já que a seara dele é apenas a “das palavras discursivas” (LISPECTOR, 1998, p. 12). De imediato, surge, portanto, um lamento frente à impossibilidade de encontro da umidade do feminino com a secura do masculino, embora, de maneira aparentemente contraditória, possa ocorrer uma troca de papeis: “Tu és uma forma de ser eu e eu uma forma de te ser [...]” (LISPECTOR, 1998, p. 67). Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 10 Aliás, tudo o que provem dessa relação é de natureza antagônica, apesar de nãoexcludente. Ela inicia o texto com um grito de aleluia, “que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais” (LISPECTOR, 1998, p. 9). Há, então, de maneira simultânea, alegria e sofrimento: alegria, pela liberdade (re) conquistada (só há liberdade na solidão); sofrimento, pela perda do outro. Essa liberdade, contudo, não é apenas satisfatória, já que o “eu” confessa suportá-la, apesar de tê-la escolhido para si: “Liberdade? É o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e agüento-a não como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre” (LISPECTOR, 1998, p. 16). E, se a dor permanece no rememorar – “lembrar-se com saudade é como se despedir de novo.” (LISPECTOR, 1998, p. 67) –, para o “eu”, o afastamento do “tu” tem um saldo positivo: “Venho do sofrido longe, venho do inferno do amor mas agora estou livre de ti” (LISPECTOR, 1998, p. 16). É com a separação ainda que a pintora ganha amplitude: “Sou o antes, sou o quase, sou o nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar” (LISPECTOR, 1998, p. 18). Deve-se considerar também que esse amor, aos olhos do “eu”, não era correspondido: “Não me amaste, disto só eu sei. Estive só. Só de ti” (LISPECTOR, 1998, p. 82). Esse estar só de ti revela de maneira plena e intensa a ausência completa do outro para o “eu” e no “eu” – a pior forma de solidão, porque ajoelhada aos pés de quem se ama, o que justifica a sensação libertária, embora sofrida, da ruptura. Ela, que parece lamentar o comportamento humano na sentença “animal nunca substitui uma coisa por outra” (LISPECTOR, 1998, p. 48), se revela permanentemente solitária: Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 11 de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver. (LISPECTOR, 1998, p. 72) Todavia, é nessa espécie de fúria textual que a pintora encontra sua força. Sem a intenção de agradar, pretende atingi-lo (atingir na acepção de ferir, já que não há desejo de retorno), dizendo “coisas sem nexo” (LISPECTOR, 1998, p. 82). Deve-se levar em conta, no entanto, que a própria carta, que ela não pretende entregar, é, em verdade, uma confissão de que ainda não conseguiu se apartar por completo desse “tu”. Olga de Sá observa a importância que a escrita assume para o “eu”, considerando os momentos em que a pintora se afasta do seu texto-tela: “a narradora de Água Viva, às vezes, pede licença para morrer. Morrer é deixar de escrever. Escrever é viver” (SÁ, 1979, p. 208). Ela possui como companhia, portanto, a escrita e a si mesma (“[...] enquanto eu tiver a mim não estarei só.” (LISPECTOR, 1998, p. 84)). E, mesmo diante do desencontro “entre os seres que se perdem uns aos outros [...]” (LISPECTOR, 1998, p. 9), celebra a liberdade em seu sofrido grito de aleluia. Na caleidoscópica novela lispectoriana, aberta a cada assim, à harmonia dos contrários, não há margens, delimitações. Para o sábio, “procedendo dos dois lados, não há mais lado, deixou-se a unilateralidade do juízo” (JULLIEN, 2000, p. 166). A pintora confessa: “Eis que de repente vejo que não sei nada” (LISPECTOR, 1998, p. 68). Esse não-saber é típico da sabedoria do “caminhar” oriental, porque reconhece “que só andando é que se sabe andar e – milagre – se anda” (LISPECTOR, 1998, p. 68). Assim como A hora da estrela fecha abertamente – por mais contraditório que isso pareça – com um sim, que dirá sim a outra molécula e nascerá a vida, o “eu” de Água viva faz questão de frisar que o que escreve, de um agora permanente, “não vai parar: continua” Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 12 (LISPECTOR, 1998, p. 95). Continua na imensidão das águas, na fluidez do feminino, pois “um rio sem margens é o ideal do peixe”1. 1 Frase de André Maurois retomada por Guimarães Rosa na carta a João Condé sobre Sagarana. In: BARBOSA, Alaor. Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa. Tomo I. Brasília: LGE, 2007, p.209. Anais do II Seminário Nacional Literatura e Cultura Vol. 2, São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128 13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA, Alaor. Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa. Tomo I. Brasília: LGE, 2007 HELENA, Lucia. Nem musa, nem medusa: Itinerários da escrita em Clarice Lispector. Niterói: Eduff, 1997. JULLIEN, François. Um sábio não tem idéia. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2000. LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. ______. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. ______. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. MORIN, Edgar. O homem e a morte. Trad. João Guerreiro Boto e Adelino dos Santos Rodrigues. Rio de Janeiro: Imago, 1970. NUNES, Benedito. O dorso do tigre. São Paulo: Perspectiva, 1969. SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes, 1979. VARIN, Claire. Línguas de fogo. Ensaio sobre Clarice Lispector. São Paulo: Limiar, 2002.