UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS – DCH/CAMPUS I PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDO DE LINGUAGENS – PPGEL ALINE SILVA GOMES A VIBRANTE MÚLTIPLA ESPANHOLA EM APRENDENTES DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA NA BAHIA E EM SÃO PAULO: UMA ABORDAGEM SOCIOLINGUÍSTICA SALVADOR 2013 2 ALINE SILVA GOMES A VIBRANTE MÚLTIPLA ESPANHOLA EM APRENDENTES DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA NA BAHIA E EM SÃO PAULO: UMA ABORDAGEM SOCIOLINGUÍSTICA Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens (PPGEL), no âmbito da Linha de Pesquisa II – Linguagens Discurso e Sociedade, do Departamento de Ciências Humanas – DCH/Campus I –, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), como requisito obrigatório para a obtenção do grau de Mestre em Estudo de Linguagens. Orientadora: Profª. Drª. Norma da Silva Lopes SALVADOR 2013 3 FICHA CATALOGRÁFICA Sistema de Bibliotecas da UNEB Bibliotecária: Jacira Almeida Mendes – CRB: 5/592 Gomes, Aline Silva A vibrante múltipla espanhola em aprendentes de espanhol como língua estrangeira na Bahia e em São Paulo: uma abordagem sociolingüística / Aline Silva Gomes. - Salvador, 2013. 124f. Orientadora: Norma da Silva Lopes. Dissertação (Mestrado) – Universidade do Estado da Bahia. Departamento de Ciências Humanas. Campus I. 2013. Contém referências, apêndice e anexos. . 1. Sociolingüística. 2. Língua espanhola - Estudo e ensino. 3. Língua espanhola Aspectos sociais. 4. Interação social. I. Lopes, Norma da Silva. II. Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Ciências Humanas. CDD: 401.9 4 TERMO DE APROVAÇÃO ALINE SILVA GOMES A VIBRANTE MÚLTIPLA ESPANHOLA EM APRENDENTES DE ESPANHOL COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA NA BAHIA E EM SÃO PAULO: UMA ABORDAGEM SOCIOLINGUÍSTICA Dissertação de Mestrado aprovada como requisito obrigatório para a obtenção do grau de Mestre em Estudo de Linguagens, da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, pela seguinte Banca Examinadora: Orientadora Profª. Drª. Norma da Silva Lopes Universidade do Estado da Bahia - UNEB Membros da Banca Examinadora Profª. Drª. Marian dos Santos Oliveira Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB Profª. Drª. Lígia Pellon de Lima Bulhões Universidade do Estado da Bahia – UNEB Salvador, 26 de março de 2013 5 AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar a Deus, meu Pai, por ter me dado paz nessa missão tão árdua, por me ter feito crescer como pessoa e profissional durante o período em que me dediquei ao mestrado. Neste tempo só confirmei o que já sabia, que, na verdade, não há nada melhor do que depender e entregar nossos planos totalmente em Suas mãos. A minha família e amigos, em especial, pelo carinho e estímulo, por meio de suas orações. Especiais à querida professora Norma Lopes pelo acolhimento ao meu tema de pesquisa, pela orientação segura, pela dedicação e presença constante desde o início das aulas do mestrado e pelo profissionalismo exemplar. À professora Rosa Helena Blanco, por sua sensibilidade e pelo incentivo constante em todas as atividades realizadas no PPGEL durante esse período. Aos professores e funcionários do PPGEL, pela receptividade e dedicação. Ao professor Odair Nadin da UNESP/Araraquara, por facilitar-me o contato com as suas alunas. Às estudantes que participaram da pesquisa, pela disposição em dedicar-me seu tempo e suas vozes. Aos colegas do mestrado, companheiros de muitas horas de estudos e também de muitas risadas. Agradeço, em especial, aos mais chegados: Bethânia, Lucélia, Paula e Vanessa. À Liliane Barreiros, minha eterna gratidão, por auxiliar-me na carreira profissional... A CAPES, pelo apoio financeiro em parte da minha caminhada. A todas as pessoas que contribuíram direta ou indiretamente na concretização desta pesquisa. 6 RESUMO Com base nos pressupostos teóricos da Sociolinguística Variacionista, nesta pesquisa tem-se como objetivo principal analisar os condicionamentos para as diferentes realizações fonéticas do fonema vibrante múltiplo na produção oral de aprendentes brasileiros de Espanhol como Língua Estrangeira – ELE – nos Estados da Bahia e São Paulo. Os objetivos específicos são: i) verificar a realização de , a depender do contexto fônico em que se apresenta; ii) verificar a realização de , a depender da função sintática da palavra em que se encontra o fonema em estudo iii) identificar condicionamentos na realização deconforme a variedade regional dos aprendentes; iv) identificar diferenças na realização de conforme o nível de aprendizagem da língua espanhola; e v) relacionar a escolha das variantes ao estilo de fala empregado. O estudo tem como hipótese que, nas duas regiões investigadas, devido ao fato de terem variedades dialetais diferentes, e aos níveis diferentes de conhecimento da língua espanhola, a realização do fonemapelos falantes brasileiros de ELE deve refletir diferentes realizações fonéticas, resultantes de condicionamentos linguísticos (estruturais) e extralinguísticos (região geográfica, nível de aquisição e estilo de fala empregado). Os dados da pesquisa foram coletados de 10 informantes da Bahia e 10 informantes de diferentes cidades do interior de São Paulo, do gênero/sexo feminino, estudantes de graduação dos cursos de Letras/Espanhol de universidades públicas localizadas em Salvador/BA, em Campinas/SP e em Araraquara/SP. Utilizam-se questionários elaborados para a pesquisa, um gravador digital da marca Panasonic RR-US511 e os programas VARBRUL e Praat como recursos e instrumentos de coleta e análise de dados. Pretende-se, com esta investigação, poder contribuir para uma reflexão sobre a necessidade de se repensar o ensino do espanhol para aprendentes brasileiros sob um novo prisma, que considere as variedades dialetais existentes neste país. PALAVRAS CHAVE: Sociolinguística variacionista. Vibrante Ensino/aprendizagem de ELE. Interferência dialetal da língua materna múltipla. 7 RESUMEN Con base en los presupuestos teóricos de la Sociolingüística Variacionista, esta investigación tiene como objetivo principal analizar los condicionamientos para las diferentes realizaciones fonéticas del fonema vibrante múltiple en la producción oral de aprendientes brasileños de Español como Lengua Extrajera– ELE – en las provincias de Bahia y São Paulo. Los objetivos específicos son: i) verificar la realización de, a depender del contexto fónico en el que se presenta; ii) verificar la realización de , a depender de la función sintáctica de la palabra en la que se encuentra el fonema en estudio iii) identificar condicionamientos en realización deconforme la variedad regional de los aprendientes ; iv) identificar diferencias en la realización de conforme el nivel de aprendizaje de la lengua española; e v) relacionar la elección de las variantes al estilo de habla empleado. El estudio tiene como hipótesis que, en las dos regiones investigadas, debido al hecho de tener variedades dialectales diferentes, y a los niveles diferentes de conocimiento de la lengua española, la realización del fonemapor los hablantes brasileños de ELE debe reflejar diferentes realizaciones fonéticas, resultantes de condicionamientos linguísticos (estructurales) y extralinguísticos (región geográfica, nivel de adquisición y estilo de habla empleado). Los datos de la investigación fueron recolectados de 10 informantes de Bahia y 10 informantes de diferentes ciudades del interior de São Paulo, del género/sexo femenino, estudiantes de graduación de los cursos de Letras/Español de universidades públicas ubicadas en Salvador/BA, en Campinas/SP y en Araraquara/SP. Se utilizan cuestionarios elaborados para la investigación, un grabador digital de la marca Panasonic RR-US511 y los programas VARBRUL y Praat como recursos e instrumentos de recolección y análisis de datos. Se pretende, con la investigación, poder contribuir para una reflexión sobre la necesidad de repensar la enseñanza del español para aprendientes brasileiros bajo un nuevo prisma, que considere las variedades dialectales existentes en este país. PALABRAS CLAVE: Sociolinguística variacionista. Vibrante Enseñanza/aprendizaje de ELE. Interferencia dialectal de la lengua materna múltiple. 8 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Realizações fonéticas da vibrante múltipla nas duas variedades de língua em relação ao contexto fônico 76 Gráfico 2 – Realizações fonéticas da vibrante múltipla em relação à função sintática 85 Gráfico 3 – Realizações fonéticas da vibrante múltipla em relação à variedade regional dos aprendentes 92 Gráfico 4 – Realizações fonéticas da vibrante múltipla em relação ao estilo de fala 96 Gráfico 5 – Realizações fonéticas da vibrante múltipla em relação ao estilo de fala nas variedades caipira e baiana. 98 9 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Realizações fonéticas de nas variedades caipira e baiana 73 Tabela 2 – Realizações fonéticas dee sua distribuição em relação à variável contextos fônicos em que ocorre o fonema. 75 Tabela 3 – Realizações fonéticas denas variedades caipira e baiana e sua distribuição em relação à variável contextos fônicos em que ocorre o fonema. 77 Tabela 4 – Realizações fonéticas de e sua distribuição em relação à variável função sintática da palavra em que se encontra o fonema 84 Tabela 5 – Realizações fonéticas denas variedades caipira e baiana sua distribuição em relação à função sintática da palavra em que se encontra o fonema 86 Tabela 6 – Realizações fonéticas de e sua distribuição em relação à variedade regional dos aprendentes 91 Tabela 7 – Realizações fonéticas de e sua distribuição em relação ao tempo de exposição formal ao ensino de ELE 94 Tabela 8 – Realizações fonéticas de nas variedades caipira e baiana sua distribuição em relação ao tempo de exposição formal ao ensino de ELE 95 Tabela 9 – Realizações fonéticas de e sua distribuição em relação ao estilo de fala empregado 96 Tabela 10 – Realizações fonéticas de nas variedades caipira e baiana e sua distribuição em relação ao estilo de fala empregado 98 10 SUMÁRIO 11 INTRODUÇÃO MÚLTIPLA NAS LÍNGUAS ESPANHOLA E 16 1 A VIBRANTE PORTUGUESA 1.1 SOBRE AS CONSOANTES LÍQUIDAS 1.2 CARACTERIZAÇÃO ESPANHOLA DA VIBRANTE MÚLTIPLA NA LÍNGUA 17 1.3 CARACTERIZAÇÃO PORTUGUESA DA VIBRANTE MÚLTIPLA NA LÍNGUA 26 2 ANTECEDENTES SOBRE O TEMA 34 3 PRESSUPOSTOS TEÓRICO – METODOLÓGICOS 52 3.1 SOBRE A SOCIOLINGUÍSTICA 52 3.2 SOBRE OS MÉTODOS SOCIOLINGUÍSTICOS 59 16 3.2.1 Observação da comunidade e hipótese de trabalho 61 3.2.2 Seleção da amostra dos falantes 61 3.2.3 Coleta de dados 63 3.2.4 O estudo das atitudes 65 3.2.5 Análise dos dados linguísticos 65 3.3 65 DADOS METODOLÓGICOS DA PRESENTE PESQUISA 3.3.1 Os participantes da pesquisa 66 3.3.2 Os instrumentos de coleta de dados 67 3.3.3 O fenômeno de variação estudado 69 3.3.4 Sobre as entrevistas 71 3.3.5 Recursos utilizados nas entrevistas e na transcrição fonética dos dados 72 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS 73 4.1 ANÁLISE DA INTERFERÊNCIA DE FATORES LINGUÍSTICOS 75 4.1.1 Realizações fonéticas de de acordo com os contextos fônicos em que ocorre o fonema 4.1.2 Realizações fonéticas de de acordo com a função sintática da palavra em que se encontra o fonema observado 75 84 11 4.2 ANÁLISE DA INTERFERÊNCIA DE FATORES EXTRALINGUÍSTICOS 91 4.2.1 Realizações fonéticas de de acordo com a variedade regional dos aprendentes 91 4.2.2 Realizações fonéticas de de acordo com o tempo de exposição formal ao ensino de ELE 93 4.2.3 Realizações fonéticas de de acordo com o estilo de fala empregado 96 4.3 101 RESULTADOS GERAIS CONSIDERAÇÕES FINAIS 105 REFERÊNCIAS 110 APÊNDICE 116 ANEXOS 121 12 INTRODUÇÃO Os róticos (chamados também de vibrantes) nas línguas portuguesa e espanhola são, até os dias atuais, fontes de discussão entre os estudiosos da linguagem. Entretanto, observamos que há de certa forma uma carência de estudos sistemáticos acerca da aprendizagem da vibrante 1 múltipla do espanhol por aprendentes brasileiros dessa língua como Língua Estrangeira (LE) 2. Em outras palavras, esse é um assunto que precisa ser mais bem explorado. A atual pesquisa tem como objetivo principal analisar as realizações fonéticas do fonema vibrante múltiplo na produção oral dos aprendentes de Espanhol como Língua Estrangeira – doravante ELE – nos Estados da Bahia e São Paulo. Os objetivos específicos são: a) verificar a realização de, a depender do contexto fônico em que se localiza; b) verificar a realização de , a depender da função sintática da palavra em que se encontra o fonema em estudo c) identificar condicionamentos na realização de conforme a variedade regional dos aprendizes; d) identificar diferenças na realização de conforme o nível de aprendizagem da língua espanhola pelos aprendentes nas duas regiões mencionadas; e e) relacionar a escolha das variantes ao estilo de fala empregado. Na seção 3 – Pressupostos Teórico-Metodológicos –, explicamos com maiores detalhes as variáveis selecionadas para este estudo. Com relação aos sons vibrantes, neste trabalho optamos pela análise da realização da vibrante múltipla e não consideramos a realização da vibrante simples , devido ao fato de que este último fonema não apresenta dificuldades de produção aos aprendentes brasileiros de espanhol. É importante mencionar que esse fenômeno já foi analisado no espanhol falado apenas por aprendentes baianos em um estudo anterior (GOMES, 2008). Nesse trabalho, a autora realiza uma pesquisa de caráter exploratório, com o objetivo de descrever como os estudantes 11 Segundo Dubois et al. (1973, p. 612), “a vibrante é uma consoante oral cuja articulação comporta um escoamento livre do ar, interrompido por uma ou várias oclusões devidas à vibração de um articulador (ponta da língua, lábios úvula) na passagem do ar. ... . O mais frequente nas línguas, particularmente nas românicas e eslavas, é a vibrante múltipla ápico-dental A vibrante pode ser também uvular, como é o caso das realizações fortes do fonemaem franco-provençal, e em todas as etapas de transição histórica entre o vibrante e o fricativo. 2 Em linhas gerais, a Linguística Aplicada faz a diferenciação entre os termos Segunda Língua (SL) e Língua Estrangeira (LE): Segunda Língua (SL) se refere àquela que um indivíduo adquire em um contexto natural, por necessidade de comunicação, e dentro de um processo de socialização. Já a aprendizagem de Língua Estrangeira (LE) se dá em espaços formais de ensino e exige maior esforço do aprendiz. A comunicação não é fundamental para sua integração na comunidade. 13 da variedade baiana pronunciam o fonema em diferentes contextos fônicos e verificar como se dá a interferência da língua materna – o português brasileiro – na produção do fonema mencionado. Vale ressaltar que, naquele momento, não foram utilizados os pressupostos da Sociolinguística Variacionista como referencial teórico. Assim, decidimos ampliar ainda mais a pesquisa sobre este fenômeno, adotando como base a Teoria da Variação, pois acreditamos que dessa forma ajudaria a elucidar melhor o tema proposto. Ao longo de quinze anos como professora de ELE, em Salvador, capital do estado da Bahia, temos notado que a realização da vibrante é muitas vezes um desafio, tanto para aqueles que estão começando o estudo da língua, quanto para os que fazem parte de grupos de níveis mais avançados. Acreditamos, por isso, que o tema proposto neste trabalho é relevante no que se refere à aprendizagem da língua espanhola por brasileiros A partir dessa apreensão, a pergunta que norteia o estudo proposto é: como se dá a interferência da língua materna – no caso, o português brasileiro –, ou das variedades de língua materna, na realização da vibrante múltipla espanhola? Embora diversas pesquisas sobre as realizações fonéticas dos róticos, tanto no português brasileiro, quando no espanhol, já tenham sido desenvolvidas em alguns países como México, Chile, Estados Unidos, Espanha e Brasil, tanto de natureza acústica, quanto articulatória, não foram localizados nos bancos de teses das universidades brasileiras, nem estrangeiras, até o presente momento, nenhuma investigação dedicada à aprendizagem desse fonema, na língua espanhola, a partir da observação de sua realização, em diferentes grupos dialetais do Brasil. Sobre o estudo dos róticos, temos como exemplos o trabalho de Lastra e Martin Butragueño (2003), que trata sobre uma possível mudança em curso das vibrantes, na Cidade do México, e as teses doutorais das pesquisadoras Blecua Falgueras (2001) e Carvalho (2004). A primeira trata das manifestações acústicas e processos fonéticos das vibrantes, no espanhol falado na Espanha; a segunda apresenta em seu trabalho uma descrição fonéticoacústica dos róticos do português e do espanhol. Desse modo, neste estudo visamos à análise da interferência de fatores linguísticos e extralinguísticos nas variações fonéticas de no espanhol falado por aprendentes de ELE na Bahia e em São Paulo. Para isso, utilizamos os pressupostos teórico – metodológicos da sociolinguística, sob a perspectiva da Teoria da Variação. Durante a aprendizagem de espanhol, os aprendentes brasileiros tendem a substituir a pronúncia ápico-alveolar de – que é considerada como norma padrão nessa língua – por outros sons existentes na língua portuguesa (vibrante simples ou fricativas velar, uvular e 14 glotal). De acordo com as tendências já registradas na literatura sobre o tema, esse fenômeno pode dar-se devido à interferência da língua materna na aprendizagem da língua alvo. Sobre essas tendências, tratam diferentes autores como, por exemplo, Hoyos-Andrade (1994), Masip (1999) e Andrade Neta (2001). Dessa forma, temos como hipótese que, nas duas regiões estudadas no presente trabalho, devido ao fato de terem variedades dialetais diferentes, e aos níveis diferentes de conhecimento da língua espanhola, a realização do fonema pelos falantes de ELE deve refletir diferentes realizações fonéticas, resultantes de condicionamentos linguísticos (estruturais) e extralinguísticos (região geográfica, nível de aquisição e estilo de fala empregado). As razões que originaram o tema proposto foram: a) a escassez de estudos contrastivos, em nível fonético-fonológico, entre o português e o espanhol: temos observado nos últimos congressos e seminários ligados ao ensino-aprendizagem de língua espanhola realizados no Brasil que escassos investigadores têm se dedicado, ou têm apresentado pesquisas nessa área, quer sejam estudos teóricos propriamente ditos, ou mesmo estudos aplicados; b) a utilidade metodológica que estudos dessa natureza podem oferecer a aqueles profissionais que se dedicam à elaboração de livros e materiais didáticos com conteúdos fonético-fonológicos específicos para falantes de português; c) a crescente importância que a fonética e fonologia vêm adquirindo no processo de ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras, em especial a partir da definição do conceito de competência comunicativa3 global, elaborado por volta da década de sessenta do século passado, que inclui a competência fonético-fonológica como uma das competências a serem desenvolvidas pelos aprendentes; d) a necessidade que enfrentam os professores de ELE em manejar conhecimentos específicos básicos relacionados com os processos de aprendizagem da língua oral; e) e a necessidade de investigar a respeito da ideia de que o fonema vibrante múltiplo do espanhol é um dos segmentos que ocasiona mais problemas na aprendizagem para os estudantes brasileiros. De acordo com Brandão (2003, p.132), “comparar línguas tão próximas como o português e o espanhol é demarcar as fronteiras entre os sons, ora distantes, ora alheios, ora tão familiares quanto aqueles que conhecemos desde as primeiras palavras que ouvimos e 3 De acordo com o Diccionario de Términos Clave de ELE (1997-2013), “a competência comunicativa é a capacidade de uma pessoa para comportar-se de maneira eficaz e adequada em uma determinada comunidade de fala; isso implica respeitar um conjunto de regras que inclui tanto as da gramática e os outros níveis de descrição linguística (léxico, fonética, semântica) quanto às regras de uso da língua, relacionadas com o contexto sóciohistórico e cultural no qual a comunicação se dá”. 15 falamos”. A autora ainda menciona que é comum entre os estudantes brasileiros de ELE a percepção da proximidade e do distanciamento entre as línguas portuguesa e espanhola, ao longo de sua aprendizagem, percepção essa que, em diferentes ocasiões, gera conflitos. Em outras palavras, a semelhança entre o português e o espanhol pode funcionar como um fator estimulante na aprendizagem da língua meta, produzindo uma resposta positiva. Mas, por outro lado, essa proximidade pode gerar insegurança, a qual se revela por meios das transferências da língua materna do aprendente para a língua que está estudando. Brandão (2003, p.132) também afirma que “o estudo comparativo entre línguas próximas pode auxiliar os professores na identificação e interpretação dos erros produzidos por seus alunos e na elaboração de atividades e materiais específicos para o tratamento desses erros”, ou seja, na correção de pronúncias consideradas inadequadas. Para fundamentar o marco teórico, adotamos trabalhos de autores como Alckmin (2000), Cezário e Votre (2009), Tarallo (2001), Mattoso Câmara Jr. (1982), Callou e Leite (2003), Martínez Celdrán (1997), Navarro Tomás (1985), Quilis (1982, 1993), Silva-Corvalán (2001) e Labov (2008). O estudo tem como base a Teoria da Variação formulada por este último. Participaram da pesquisa 20 estudantes de Letras/Espanhol, com idades entre 19 e 30 anos, de diferentes níveis de aprendizagem da língua em questão; 10 de nível intermediário e 10 de grupos avançados. Foram selecionadas 10 informantes do gênero/sexo feminino oriundas de cidades da Bahia (Salvador, Valéria, Ibirapitanga e Ilhéus) e 10 da região do interior de São Paulo (Araçatuba, Araraquara, Bauru, Campinas, Ibitinga, Ribeirão Preto, São Carlos e São José dos Campos), escolhidas de acordo com os níveis de aprendizagem mencionados. Para alcançar os objetivos propostos, esta dissertação está dividida em quatro seções. Na seção I – A Vibrante Múltipla nas Línguas Espanhola e Portuguesa – propomos uma reflexão acerca da consoante em questão, em ambos os sistemas linguísticos (espanhol e português brasileiro), tanto do ponto de vista fonológico, quanto fonético. Explicamos, de maneira especial, o mecanismo de produção desse segmento e as possíveis manifestações fonéticas em ambas as línguas. Para isso, analisamos diferentes definições acerca do objeto em estudo, apresentadas por diferentes linguistas, no intuito de compreender melhor sua realização nos falantes das duas línguas. Na seção II – Antecedentes Sobre o Tema – apresentamos uma revisão bibliográfica acerca de pesquisas que versam sobre a realização da vibrante múltipla espanhola pelos 16 aprendentes nativos de diferentes línguas maternas. Para fundamentá-la, mencionamos diversos trabalhos que tratam sobre a aprendizagem de espanhol em falantes nativos de idiomas – o inglês, o alemão, o esloveno, o russo, o búlgaro, o italiano, o francês, o romeno, o chinês, o japonês, o árabe e o português brasileiro. Em linhas gerais, chegamos à conclusão de que os problemas de pronúncia da vibrante múltipla espanhola não se dão apenas entre os aprendizes brasileiros, mas também em aprendentes de espanhol de diferentes línguas maternas, por diferentes razões, entre as quais estão a ausência do segmento mencionado no sistema fonológico da língua materna do indivíduo, ou o fato de que o fonema existe, porém apresenta realizações fonéticas diferentes. Na seção III – Pressupostos Teórico-Metodológicos – apresentamos a teoria e a metodologia utilizada como base neste trabalho – Teoria Variacionista –, discorremos sobre os caminhos percorridos pela investigação, apresentamos o perfil dos participantes envolvidos, os instrumentos utilizados na coleta de dados, o fenômeno de variação a ser analisado, as variáveis consideradas na pesquisa e os procedimentos adotados para sua execução, segundo a proposta laboviana. Na seção IV – Apresentação e Análise de Dados, compartilhamos a apreciação do corpus investigado com base na teoria mencionada e discorremos sobre as manifestações fonéticas encontradas nas duas variedades dialetais, considerando os fatores linguísticos (contextos fonológicos e função sintática da palavra em que ocorre o fonema) e extralinguísticos (variedade regional dos aprendentes, tempo de exposição formal ao ensino de espanhol e estilo de fala empregado). Nas Considerações Finais, retomamos o início da pesquisa, destacando os pontos importantes verificados, sintetizando as hipóteses levantadas e os resultados encontrados. Discorremos sobre a relevância de se conhecer os fatores linguísticos e extralinguísticos que interferem na aprendizagem de ELE por aprendentes brasileiros e, ainda, sobre a importância que o docente deve destinar ao tratamento da variedade linguística em sala de aula. 17 1 A VIBRANTE MÚLTIPLA NAS LÍNGUAS ESPANHOLA E PORTUGUESA Nesta seção, comentamos a bibliografia concernente ao objeto em estudo – a vibrante múltipla (aqui também referido como “erre forte” 4) – nas línguas espanhola e portuguesa, tanto do ponto de vista fonológico quanto fonético. Vale a pena relembrar que, nesta dissertação, optamos por não entrar em detalhes no que tange aos aspectos ligados a realização da vibrante simples , devido ao fato de que esta não apresenta dificuldades de produção aos aprendentes brasileiros de espanhol. Assim, tratamos de maneira específica sobre o mecanismo de articulação da vibrante múltipla (ou erre forte) e suas possíveis manifestações fonéticas, em ambos os sistemas linguísticos. Refletimos e analisamos as definições apresentadas por diferentes linguistas sobre a consoante em questão, a fim de compreendermos melhor sua produção nos falantes das duas línguas. Chamamos a atenção para o fato de que, nesta seção, mantemos nas citações diretas e nas notas explicativas os símbolos fonéticos utilizados pelos autores consultados. 1.1 SOBRE AS CONSOANTES LÍQUIDAS De acordo com o Alfabeto Fonético Internacional – AFI –, o fonema compõe o grupo das consoantes líquidas, o qual abarca os sons laterais e vibrantes (este último grupo chamado também de “róticos”, ao longo do trabalho). Quanto à sua realização, elas são consonânticas, porém possuem traços próprios dos fonemas vocálicos, ou seja, maior abertura e tom mais alto. Em linhas gerais, podemos afirmar que as consoantes líquidas pertencem a um grupo transitório entre as consoantes e as vogais. As principais características dos fonemas líquidos, segundo Quilis e Fernández (1982), são: i) desde a perspectiva articulatória, essas consoantes atingem a máxima abertura dentro do conjunto dos segmentos consonânticos, porém não atingem o grau de abertura das vogais; ii) as cordas vocais vibram com uma frequência maior, pelo fato de que grande parte da energia produzida para a articulação desses segmentos não é consumida, e há pouco fechamento dos órgãos articulatórios envolvidos nesse processo; iii) apesar de apresentar uma abertura maior em sua emissão, produz-se um ruído fricativo, ainda que menor em relação aos demais fonemas consonânticos. 4 Nesta dissertação, utilizamos também a expressão “erre forte”, utilizada por Callou e Leite (20031990) para referirmos a vibrante múltipla, devido às grandes questões levantadas sobre esse segmento, tanto do ponto de vista fonético como fonológico, em especial no português brasileiro. 18 Em conformidade com Ladefoged e Maddieson (1996), Renata Carvalho (2000) explica que entre os fonemas laterais e vibrantes há características comuns que permitem sua classificação em um grupo único, isto é, eles são agrupados em um só conjunto porque possuem certas semelhanças, tanto fonéticas, quanto fonológicas. As consoantes líquidas formam uma classe especial em diversas línguas, como no português e no espanhol, já que geralmente possuem facilidade para combinar-se com outras consoantes e formar os chamados encontros consonantais. “Há um grande número de línguas em que um único fonema líquido varia entre uma pronúncia lateral e uma rótica”. (CARVALHO, 2000, p.5). O fonema compõe o grupo das líquidas – como mencionamos anteriormente –, constituindo-se um segmento chamado comumente de vibrante. Quilis e Fernández apresentam a seguinte definição para os fonemas vibrantes: Se da el nombre de consonantes vibrantes a aquel grupo de sonidos cuya característica principal es la de poseer una o varias interrupciones momentáneas durante la salida del aire fonador, producidas por el contacto entre el ápice lingual y los alvéolos. Las cuerdas vocales vibran siempre durante la emisión de estos sonidos5. (QUILIS; FERNÁNDEZ, 1982, p.129). Cunha e Cintra (2008[1985], p. 55) também mencionam que, do ponto de vista acústico, os róticos se opõem a outros sons consonânticos existentes por sua maior proximidade com as vogais; inclusive essa característica lhes permite que, em certas línguas, elas ocupem a posição central de sílaba. Em realidade, esse atributo é reconhecido desde os estudos antigos, quando esses fonemas receberam as denominações de líquidas ou soantes. Na fonética moderna, os róticos e são classificados como [- lateral], em oposição aos fonemas laterais l e λ, considerados como [+ laterais]. 1.2 CARACTERIZAÇÃO DA VIBRANTE MÚLTIPLA NA LÍNGUA ESPANHOLA Ao consultar diferentes obras que tratam dos segmentos consonânticos do espanhol, foram encontradas algumas descrições articulatórias acerca do mecanismo de realização da chamada vibrante múltipla na língua mencionada. 5 É dado o nome de consoantes vibrantes àquele grupo de sons cuja característica principal é a de possuir uma ou várias interrupções momentâneas durante a saída do ar fonador, produzidas pelo contato entre o ápice lingual e os alvéolos. As cordas vocais vibram sempre durante a emissão destes sons. (QUILIS; FERNÁNDEZ, 1982, p. 129, tradução nossa). 19 Quilis e Fernández (1982, p.130) afirmam que sua articulação se dá através da formação de duas ou mais oclusões breves resultantes do contato do ápice da língua com os alvéolos, colocando em evidência, em sua definição, a participação dos órgãos envolvidos nesse processo e a quantidade de vibrações. Gili Gaya (1966) apresenta uma definição semelhante à de Quilis e Fernández no que se refere ao número de vibrações na realização da consoante . Porém Gili Gaya menciona a participação da corrente de ar nesse processo, descreve a posição da língua durante a articulação de ambos os róticos, que são a vibrante simples e a vibrante múltipla . O autor ainda compara a produção deste último segmento com a realização articulatória da vibrante simples: Para pronunciar la r simple la lengua ejecuta un solo movimiento sobre los alvéolos, mientras que la r múltiple se pronuncia con dos o más vibraciones linguales que interrumpen alternadamente la salida del aire. En español, el movimiento de la lengua es una r más bien de fuera adentro, en tanto que para la r la presión se ejerce de dentro para fuera.6 (GILI GAYA, 1966, p. 149) A definição apresentada por Sánchez e Matilla (2001[1974]) também se assemelha com a de Gili Gaya (1966), uma vez que menciona a participação dos órgãos articulatórios envolvidos na realização do segmento em questão e compara o mecanismo de produção dos róticos na língua espanhola. Contudo, os primeiros autores acrescentam que a consoante vibrante múltipla pode ser articulada de maneiras diferentes, a depender da ênfase dada pelo falante em sua emissão: La posición de los órganos articuladores es igual que para la «r» simple, con la excepción de que la «rr» múltiple la lengua se retira un poco más hacia atrás, recogiéndose. En cuanto toca los alvéolos es empujada hacia adelante por la presión del aire; luego vuelve rápidamente hacia el punto de contacto inicial y de nuevo el aire la desplaza. Este ciclo se repite, por regla general, unas tres veces. Si se pretende acentuar este sonido, entonces el número de vibraciones aumenta proporcionalmente”7. (SÁNCHEZ; MATILLA, 2001 [1974], p. 72) 6 Para pronunciar o r simples, a língua executa um só movimento sobre os alvéolos, enquanto que o r múltiplo se pronuncia com duas ou mais vibrações da língua que interrompem alternadamente a saída do ar. Em espanhol, o movimento da língua é um r senão de fora para dentro, enquanto que para o r a pressão é exercida de dentro para fora. (GILI GAYA, 1966, p. 149, tradução nossa). 7 A posição dos órgãos articuladores é igual para o «r» simples, com a exceção de que o «rr» múltiplo a língua se retrai um pouco mais para trás, recolhendo-se. Quando toca os alvéolos é empurrada pra frente pela pressão do ar; logo volta rapidamente até o ponto de contato inicial e de novo o ar se desloca. Este ciclo se repete, em regra 20 Navarro Tomás (1985 [1918]), em seu Manual de Pronunciación Española, descreve “a língua espanhola culta e sem vulgarismos”, estudada especialmente nos ambientes universitários, como o próprio linguista afirma na introdução de sua obra. O autor explica o mecanismo de articulação do fonema variedade standard, da seguinte forma: Labios y mandíbulas según los sonidos vecinos; los lados de la lengua cierran, como en la r, la salida lateral del aire, la punta de la lengua se encorva hacia arriba, hasta tocar con sus bordes la parte más alta de los alvéolos, tendiendo hacia la mitad posterior de los mismos, el tronco de la lengua se recoge hacia el fondo de la boca; el predorso toma la forma hueca o cóncava. En el mismo instante en que la punta de la lengua toca los alvéolos, es empujada con fuerza hacia fuera por la corriente espiratoria, rápidamente su propia elasticidad le hace volver al punto de contacto, pero de nuevo es empujada hacia fuera con igual impulso, repitiéndose varias veces este mismo movimiento, que viene a ser como el aleteo de los bordes de una bandera desplegada y sacudida por el viento [...].A cada contacto de la lengua con los alvéolos se interrumpe momentáneamente la salida del aire, resultando una serie rapidísima de pequeñas explosiones, velo del paladar, cerrado; glotis, sonora.”8 (NAVARRO TOMÁS, 1985 [1918], p. 121-122.) Após a leitura e a análise das caracterizações articulatórias da consoante mencionadas anteriormente, as quais se encontram em obras tradicionais de Fonética e Fonologia espanholas, observamos que as ditas descrições são, de certa forma, inconsistentes e, além disso, não explicam de maneira cabal o fenômeno em questão. Concordamos com Martínez Celdrán (1997) quando afirma que o mecanismo de realização do na língua espanhola ainda não foi elucidado por completo, apesar de que o próprio linguista reconhece que a descrição de Navarro Tomás (1985 [1918]) é bem precisa, porém incompleta. Em seu estudo, Martínez Celdrán (1997) critica a descrição articulatória do fonema apresentada por Navarro Tomás em pelos menos três aspectos: i) a elasticidade do ápice geral, umas três vezes. Se se pretende enfatizar este som, então o número de vibrações aumenta proporcionalmente. (SÁNCHEZ; MATILLA, 2001 [1974], p. 72, tradução nossa). 8 Lábios e mandíbulas, segundo os sons vizinhos; os lados da língua fecham, como no r, a saída lateral do ar; a ponta da língua se encurva até encima, até tocar com as suas bordas a parte mais alta dos alvéolos, estendendo-se até a metade posterior dos mesmos; o tronco da língua se recolhe até o fundo da boca; o pré-dorso toma uma forma oca ou côncava. No mesmo instante em que a ponta da língua toca os alvéolos, é empurrada com força pela corrente expiratória; rapidamente a sua própria elasticidade a faz voltar ao ponto de contato; mas novamente é empurrada para fora com o mesmo impulso, repetindo-se várias vezes este mesmo movimento, que vem a ser como a batida das bordas de uma bandeira aberta e sacudida pelo vento [...]. A cada contato da língua com os alvéolos se interrompe momentaneamente a saída do ar, resultando uma série rapidíssima de pequenas explosões; o véu do paladar, fechado, glote, sonora. (NAVARRO TOMÁS, 1985 [1918], p. 121-122, tradução nossa). 21 da língua não é um mecanismo de produção, mas, sim, uma condição que permite a sua realização; ii) o ar proveniente dos pulmões exerce uma pressão que empurra a língua para baixo, e não de dentro para fora, já que o ápice da língua se despega dos alvéolos; iii) para a realização desse segmento, é necessário que o ápice da língua se encurve até tocar os alvéolos, acompanhado de certa pressão sobre esse último. Em conformidade com Tobias Corredera, Martínez Celdrán (1997) menciona a seguinte descrição articulatoria para a realização do fonema : La punta de la lengua se apoya con cierta fuerza en la protuberancia alveolar de los incisivos superiores […]. Cuando se pronuncia, la lengua hace presión sobre la protuberancia alveolar, pero su resistencia es vencida, por la presión del aire, permitiendo el pasaje de parte de éste. Cuando parte del aire acumulado en la boca ha salido, la resistencia lingual es superior a la presión del aire, y la lengua vuelve a la posición primitiva. Como no hay abertura, éste se acumula nuevamente, aumentando al mismo tiempo su presión, volviendo a vencer la resistencia lingual. El movimiento se repite varias veces con rapidez.9 (CORREDERA, apud MARTÍNEZ CELDRÁN, 1997, p. 88). Concordamos com Martínez Celdrán de que a definição apresentada por Corredera apresenta de forma mais clara a descrição articulatória do fonema – ainda que não totalmente acabada – do que a de Navarro Tomás, e dos outros linguistas mencionados neste trabalho; Celdrán consegue estabelecer, em sua descrição, uma relação inversamente proporcional entre a pressão do ar proveniente dos pulmões e a pressão do ápice da língua nos alvéolos. Corredera não faz nenhuma referência à elasticidade do órgão ativo na emissão deste fonema, porém reconhecemos que esta condição de certa forma é necessária. Martínez Celdrán (1997) pretende esclarecer o mecanismo de realização de , a fim de superar as descrições existentes e de propor um trabalho que possa ser útil para alguns profissionais da linguagem, como foneticistas e professores de ELE. Para explicar a realização articulatória do fonema mencionado, o linguista adota o Teorema de Bernoulli, o qual afirma que a velocidade e a pressão de um fluido são inversamente proporcionais ao longo de uma linha particular. Dessa maneira, o aumento da velocidade contribui para a diminuição da pressão e vice-versa. Trata de um teorema que podemos observar em 9 A ponta da língua se apoia com certa força na protuberância alveolar dos incisivos superiores […]. Quando é pronunciado, a língua faz pressão sobre a protuberância alveolar, mas sua resistência é vencida, pela pressão do ar, permitindo a passagem de parte deste. Quando parte do ar acumulado na boca saiu, a resistência lingual é superior a pressão do ar e a língua volta à posição inicial. Como não há abertura, este se acumula novamente, aumentando ao mesmo tempo sua pressão, voltando a vencer a resistência da língua. O movimento se repete varias vezes com rapidez. (CORREDERA, apud MARTÍNEZ CELDRÁN, 1997, p.88, tradução nossa). 22 experiências diárias10 e que, inclusive, já foi empregado na fonética para explicar o mecanismo de vibração das cordas vocais. O autor aplica o efeito Bernoulli, – proposta já utilizada pelo linguista Catford, em 1977 –, para elucidar a realização do fonema e justificar o movimento de vai e vem do ápice da língua; primeiro, a língua se dirige à região dos alvéolos com pressão, a qual impede a passagem de ar proveniente dos pulmões. Este primeiro movimento é voluntario. Em seguida, a pressão do ar vai aumentando de forma progressiva que, com sua força, vence a resistência do ápice, e este acaba não resistindo à pressão, separando-se dos alvéolos. Essa relação antagônica entre a pressão do ar e a pressão do ápice da língua é involuntária, ou seja, é um processo físico alheio à vontade de quem o realiza. Em geral, este ciclo se repete duas ou três vezes. Em resumidas palavras, a elasticidade da língua não tem relação direta com a realização de , mas, sim, o efeito de Bernoulli, de acordo com o autor. Sobre o status fonológico dos róticos em espanhol, existem duas correntes. Em geral, os estudos realizados com base no modelo gerativista aceitam a função contrastiva entre e , entretanto tentam relacionar todas as realizações fonéticas de ambas as consoantes com um mesmo fonema básico. Segundo essa aproximação, a oposição entre e se explica como uma diferença que afeta a quantidade, e não a qualidade. Os gerativistas que seguem esta tendência têm proposto múltiplas maneiras para descrever a relação entre os róticos; de maneira usual, eles consideram a vibrante simples como um segmento básico. O principal obstáculo com que se encontra este tipo de descrição fonológica é tentar explicar a manifestação dos dois róticos em um mesmo contexto – intervocálico. Em outras palavras, os estudos que postulam a existência de um único fonema pretendem dar conta da relação existente entre as vibrantes e justificar sua distribuição, como afirma Blecua Falgueras (2001). Em espanhol, a vibrante simples e vibrante múltipla (com uma pronúncia ápicoalveolar ) têm um valor opositivo. Já no português brasileiro, essa oposição não se pode generalizar, pois a realização ápico-alveolar é apenas uma das diversas possibilidades de pronúncia do erre forte. Sobre esse aspecto, tratamos na seção 1.3. Por outro lado, encontramos linguistas que tratam os róticosecomo segmentos distintos. Em geral, os trabalhos de natureza estruturalista concordam que ambos 10 Como, por exemplo, ao observarmos um banheiro com chuveiro aberto e cortinas: ao deixar correr a água do chuveiro com força, as cortinas são atraídas pra dentro porque a velocidade da água que cai faz com que a pressão que rodeia o corpo da pessoa que está tomando banho diminua. 23 os fonemas se manifestam, foneticamente, da uma maneira definida. Citamos como exemplos Navarro Tomás (1985 [1918]), Gili Gaya (1966) e Quilis (1993). Uma das maneiras mais usuais de identificar se dois sons são alofones de um mesmo fonema, ou correspondem a fonemas diferentes, é o princípio da comutação, ou seja: a confirmação se dá quando, ao substituir um fonema por outro, em uma palavra, se obtêm um elemento lexical diferente. No caso dos róticos, se utilizamos esta prova, fica evidente que há que determinar a existência de dois fonemas possíveis, e , posto que cada um se manifesta de uma determinada forma. Para Navarro Tomás (1985 [1918]), a vibrante simples e a vibrante múltipla se diferenciam entre si, no que diz respeito ao mecanismo de produção: a primeira vibra em um só momento, com uma tensão menor ente os músculos, enquanto que a segunda vibra de maneira seguida (duas ou mais vezes) com os movimentos do ápice da língua de dentro para fora (ou melhor, de cima para baixo) na cavidade bucal, com um esforço muscular maior. Estes dois fonemas, em espanhol, têm sua importância própria e a troca de um pelo outro, em determinados contextos, pode produzir uma compreensão incorreta por parte do ouvinte, em uma situação comunicativa. Como exemplos, os vocábulos pera > 'e perra > ', que correspondem em português às palavras pêra e cadela, respectivamente. Na ortografia espanhola, o fonema corresponde à grafia «r» quando este aparece no início ou em meio de palavra precedida de , ou , e é representado ortograficamente por «rr», quando o segmento se encontra em interior de vocábulo, em posição intervocálica. É importante esclarecer ainda que, quando se apresenta em posição implosiva, este se realiza como uma variante da vibrante simples, ou da fricativa; este fenômeno vai variar de acordo com a ênfase dada na produção, ou com a variedade dialetal do falante: puerta 'é, ' , ['], em português, porta. Neste último caso, em posição final de sílaba, se produz um arquifonema11 vibrante R. (QUILIS, 1993, p. 332). Ainda sobre a ortografia da língua espanhola, Navarro Tomás (1985 [1918]) apresenta a mesma descrição que Quilis, porém menciona que o número de vibrações na articulação do fonema varia de acordo com o contexto no qual o mesmo se encontra: em início de sílaba acentuada (três vibrações) 11 – roca ' – em português, rocha; em posição intervocálica Arquifonema é uma classe de fonemas que perde a sua capacidade de distinguir vocábulos. 24 pré-nuclear (quatro vibrações) - carro ' - em português, carro; e dentro de uma unidade léxica precedida por ,e (duas vibrações) em português, honrado, alrededor ' – – honrado ' – em português, ao redor, israelita ' em português, israelita. Se a pronúncia é forte, a quantidade de vibrações pode aumentar de forma proporcional, mas se um falante o articula de maneira mais rápida ou de forma relaxada, a quantidade de vibrações pode diminuir. No que tange às realizações fonéticas de , diferentes autores como Quilis (1993), Andión Herreno (2004), Vaquero de Ramírez (2003) e Lipski (2007) descrevem em suas obras as produções encontradas para esse segmento, na língua espanhola. Detemo-nos neste trabalho, aos países situados na América e Espanha. Sobre o surgimento dos variados alofones para os róticos em espanhol, Quilis (1993) afirma que, em geral, a origem das mudanças na produção dessas consoantes é resultante do enfraquecimento do movimento orgânico do ápice da língua. A vibrante do latim era um fonema ápico-alveolar que se conserva, nos dias atuais, em diferentes línguas românicas, mas sofreu diversas modificações em outras, como o português e o francês, por exemplo. Em conformidade com o linguista Straka, Quilis (1993) explica que sua articulação vem sendo realizada por meio de um contato menos amplo dos órgãos articulatórios – o que significa menor elevação da língua – e um leve recuo do lugar de articulação sobre os alvéolos, em direção aos incisivos superiores. O foneticista assevera que: Tanto en las vibrantes, como en las laterales, con energía articulatoria debilitada, la punta de la lengua, al elevarse menos, toca los alvéolos en su parte más baja y, por ello, su lugar de articulación está más adentrado que su articulación normal12. (QUILIS, 1993, p. 344). Sobre o enfraquecimento na realização de , Vaquero de Ramírez (2003) afirma também que as diferentes soluções para o dito debilitamento orgânico, encontradas pela língua espanhola, resultam na produção de alofones não vibrantes, alguns dos quais estão presentes em todas as variedades dialetais hispânicas. 12 Tanto nas vibrantes, quanto nas laterais, com a energia articulatória debilitada, a ponta da língua, ao elevar-se menos, toca os alvéolos em sua parte mais baixa e, por isso, seu ponto de articulação está mais adentrado que sua articulação normal. (QUILIS, 1993, p. 344, tradução nossa). 25 Entre os fenômenos dialetais relacionados com o fonema , Quilis (1993) menciona a possibilidade de emissão sibilante13 [ř]. Essa produção ocorre quando, ao enfraquecer e perder as vibrações, a língua, em posição convexa, se desloca em direção aos incisos inferiores e deixa de ser alveolar. De acordo com Quilis (1993), o erre forte sibilante ocorre em toda a América e se distribui geograficamente em diferentes países como Cuba (onde é muito frequente), México (onde é considerada uma variedade de prestígio, na capital), Guatemala, Costa Rica e Panamá. Nos dois últimos países, estudos apontam que sua realização é considerada como um fenômeno estigmatizado. Em países da América do Sul como Colômbia, Equador, Chile, Paraguai (maior parte do seu território) e Bolivia também podemos encontrar o fenômeno mencionado. O autor também cita que estudos dialetais realizados pelo linguista Maldonado de Guevara, em 1965, também confirmaram a presença do erre forte sibilante em algumas regiões da Espanha, entre Logroño e Zaragoza. De acordo com Quilis (1993), diferentes hipóteses coexistiam, ao longo dos anos, sobre a existência do sibilante [ř]. O autor diz que, se, por um lado, alguns dos principais investigadores, como Lenz, acreditam na influência araucana, outros postulam a influência da língua inglesa, em especial na região do Novo México. Em conformidade com Menéndez Pidal (1958), Quilis (1993) menciona também a hipótese de que esse som seja um possível substrato. Em resumo, tanto na América, quanto na Espanha, o fenômeno é resultado de uma evolução paralela da vibrante múltipla até a fricatização, através da perda das oclusões. A vibrante múltipla espanhola ainda pode manifestar-se foneticamente como fricativo posdorsovelar sonoro ou como vibrante uvular em países da América, porém estes dois alofones, ou seja, estas duas possibilidades de realização não são produzidas na Espanha. Estudos dialetais desenvolvidos em Porto Rico sobre as crenças e atitudes dos portoriquenhos sobre a produção do velar colocaram em evidência a opinião negativa da maioria dos falantes daquela região acerca desse fenômeno: os portoriquenhos investigados acreditavam que a pronúncia velar não fazia parte do espanhol padrão e que era próprio dos indivíduos que 13 Segundo Dubois et al.(1993), “sibilante é uma consoante fricativa realizada como alveolar ou dental e apical ou predorsal. ...No plano acústico, as sibilantes são consoantes difusas, agudas, continuas e estridentes. As sibilantes, como as chiantes, são realizadas como uma aspiração reforçada pela forma de goteira que toma a língua no seu eixo médio (de onde o termo fricativas com a língua côncava que frequentemente lhes atribuímos), o que agrava a turbulência do ar. ...As sibilantes são muito utilizadas como fonemas nas línguas do mundo.... Numerosas línguas (entre as línguas romance: o romeno, o espanhol, os dialetos itálicos meridionais) não apresentam senão um fonema sibilante, realizando mais frequentemente como não- sonoro e, em alguns contextos, como sonoro ". 26 viviam em áreas rurais, ou que pertenciam a classes sociais mais baixas, entre outros argumentos. Por outro lado, nesse mesmo estudo, um grupo de informantes acredita que a produção velar de é um fenômeno que caracteriza o espanhol de Porto Rico. Outros ainda pensam que todas as realizações são “corretas”. Segundo Vaquero de Ramírez (2003), a realização velar teve pouca extensão no espanhol da América. Em conformidade com o linguista Candfield, Vaquero de Ramírez (2003) ainda acrescenta que a emissão velar está presente no centro de Cuba, República Dominicana, região oriental de Porto Rico, litoral da Venezuela e Norte do Panamá. Outro fenômeno fonético também relacionado com o espanhol é a sua realização mista, que se dá por meio de uma aspiração faríngea, seguida de uma articulação ápicoalveolar vibrante múltipla . Pode ser observado em países como Cuba, República Dominicana, Porto Rico, Colômbia. Andión Herrero (2004) também descreve os fenômenos dialetais relacionados com o nos países americanos: a autora divide o continente por zonas e menciona, em sua obra, as realizações fonéticas encontradas para esse segmento. Segundo a autora, na zona do México e América Central, a realização sibilada é esporádica: no Panamá, sua realização está condicionada por fatores situacionais (conversas íntimas, leitura de poesia, por exemplo), sendo mais frequente na fala feminina. Na Costa Rica se conserva a vibrante ápico-alveolar em algumas regiões, porém em outras podemos encontrar ainda osibilante ř ou retroflexo. Na Guatemala, a realização palatalizada desse segmento é bastante comum, principalmente quando este se dá em posição intervocálica, com perda da sonoridade. Na zona do Caribe, a consoanteé realizada como um som velar em parte da República Dominicana. Ainda conforme a autora, na região dos Andes, encontramos a produção fricativa sibilante em países como a Colômbia – área sul – e no espanhol popular do Chile, Bolivia, Equador, e Peru. Na Colômbia, ainda temos a produção velar e também a aspiração vibrante nas terras altas. No território denominado como Rio de la Plata, encontramos a realização sibilante, fricativa e surda no Paraguai, e no centro, oeste e norte da Argentina. No Uruguai, mantém-se a pronúncia de como ápico-alveolar . Outra possibilidade é a produção de como vibrante simples, algo bastante frequente em regiões de Cuba, Porto Rico e da Colômbia. Para Lipski (2007), essa realização está entre as discrepâncias fonéticas mais comuns observadas na zona do Caribe, assim como a pronúncia das duas vibrantes como um glide retroflexo, como ocorre na língua inglesa. 27 Em linhas gerais, nota-se a tendência ao desaparecimento em diversos países de fala espanhola da pronuncia ápico-alveolar para o fonema vibrante múltiplo . 1.3 CARACTERIZAÇÃO DA VIBRANTE MÚLTIPLA NA LÍNGUA PORTUGUESA Ao examinar diferentes autores que tratam sobre as consoantes líquidas, em especial, do erre forte do português /R14, averiguamos que escassos são os estudiosos que apresentam em seus trabalhos uma descrição articulatória para esse segmento. Nesta dissertação, adotamos o símbolo utilizado por Cunha e Cintra (2008 1985), o arquifonema R, para representar o erre forte, posto que o mesmo varia amplamente no português do Brasil, conforme descrevemos mais adiante. Podemos encontrar no português brasileiro, por exemplo, os alofones fricativos velar , glotal e uvular . Callou e Leite (2003 [1990]), em sua obra Iniciação à Fonética e Fonologia, afirmam que as primeiras gramáticas do português praticamente não apresentam informações sobre a pronúncia do segmento em estudo, e se limitam apenas a estabelecer a oposição entre R e a vibrante simples . Entretanto, as autoras mencionam que as gramáticas atuais, como a de Cunha e Cintra (2008 [1985]) já demonstram uma preocupação em apontar as diversas manifestações fonéticas para o erre forte. Rocha Lima (1998 [1972]) traz uma definição fonológica para os róticos do português, explicando a oposição entre a vibrante simples (chamada de erre fraco) e a forte, em sua realização. No entanto, o linguista não apresenta detalhes no que tange à articulação de R(representado pelo autor, em sua obra, como ) como, por exemplo, a quantidade de vibrações: [...] acarretam vibrações da língua (daí seu nome), decorrentes do contato intermitente dela com uma zona da boca. São apenas duas: o e o . Na produção do , há uma vibração simples e frouxa da língua, cuja ponta toca levemente nos alvéolos; na do , são múltiplas e mais intensas essas vibrações, junto ao véu palatino (LIMA, 1998[1972], p. 18). Cunha e Cintra (2008 [1985]) apresentam em sua gramática uma descrição articulatória semelhante à de Rocha Lima acerca do mecanismo de produção dos róticos no 14 Esclarecemos que nesta pesquisa adotamos apenas como referência o português falado no Brasil para tratar das manifestações fonéticas de /R. 28 português, no que se refere ao ponto de articulação e à postura dos órgãos envolvidos no processo. Entretanto, os autores mencionam a participação ativa da língua, em sua realização: [...] caracterizadas pelo movimento vibratório rápido de um órgão ativo elástico (a língua ou o véu palatino), que provoca uma ou várias brevíssimas interrupções da passagem da corrente expiratória. São vibrantes as consoantes ,ou [R]: caro, carro. (CINTRA; CUNHA, (2008[1985]), p. 55). Mattoso Câmara Jr. (1982 [1960]), em seu livro Estrutura da Língua Portuguesa, também trata das diferenças no mecanismo de produção da vibrante simples (brando) e do erre forte /R/ no português, mencionando o envolvimento dos órgãos articulatórios em sua emissão; porém o linguista cita as possibilidades de realizações fonéticas para o segundo segmento, como sons fricativos: o alofone alveolar , velar , e uvular Já nas vibrantes, a língua vibra, quer num só golpe junto aos dentes superiores, para o brando, quer para o forte, em golpes múltiplos junto aos dentes superiores, ou em vibrações da parte dorsal junto ao véu palatino, que em uma vez da língua há a vibração da úvula, ou se dá além do fundo da boca propriamente dita em fricção faríngea. (MATTOSO CÂMARA JR, 1982 [1960], p. 49). Em linhas gerais, podemos de certa maneira afirmar que o erre forte R, na língua portuguesa, também carece de uma descrição fonética mais aprofundada no que se refere ao seu mecanismo de produção, assim como na língua espanhola – talvez até ainda mais. Após diversas pesquisas bibliográficas sobre o segmento mencionado, podemos observar que as ditas descrições também não explicam de maneira cabal e aprofundada o fenômeno em questão. Em outras palavras, o R do português precisa de uma descrição articulatória mais consistente, a fim de que compreendamos melhor como se dá a sua produção por parte dos falantes. Sobre o status fonológico dos róticos do português, assim como na língua espanhola, encontramos, pelo menos, duas correntes teóricas: por um lado, alguns linguistas postulam a existência de uma única consoante vibrante (que pode ser o simples – brando – ou o forte, a depender da visão adotada), porém outros estudiosos confirmam que o sistema fonológico do português contém dois segmentos: um simplese outro forte, representado pelo arquifonema R. 29 Monaretto et al. (1996), em seu texto As Consoantes do Português Brasileiro, explicam em detalhes as diferentes perspectivas mencionadas. Segundo os autores, Lopez, em 1979, postula que o português brasileiro, em sua estrutura subjacente, possui um único fonema vibrante, que se realiza articulatoriamente como uma vibrante simples. A partir de uma visão gerativista, adotando como referência o português falado no Rio de Janeiro, a linguista ressalta que a vibrante é representada foneticamente pelo som fricativo velar. Monaretto (1992), fundamentando-se no modelo fonológico defendido anteriormente por Lopez, em 1979 – Fonologia Autosegmental – adota como referência o português falado no sul do Brasil para defender a existência de um só fonema vibrante que, para autora, corresponde a uma vibrante branda (simples). Em seu estudo, a linguista considera que a vibrante múltipla é resultado do contato entre duas vibrantes simples, em contexto intervocálico, ambiente esperado para o contraste entre os fonemas vibrantes. Em posição reacionária, grande parte dos estudiosos – ao nosso entender – defende a presença de duas vibrantes que se manifestam foneticamente de maneira definida. Concordamos com esta hipótese, tal como afirmam Callou e Leite (2003[1990]): [...] há duas espécies de r que se opõem fonologicamente apenas em posição intervocálica (careta: carreta. tora: torra), embora ocorra em muitos outros contextos: a) inicial (rato, roupa), b) final de sílaba no meio de palavra (corta, mergulho), c) final de palavra (brilhar, chegar) e d) como segundo elemento de grupo consonântico, (prato, praia).”. (CALLOU; LEITE, 2003 [1990], p. 74). Porém ressaltamos que, em termos fonéticos, a realização vibrante múltipla ápicoalveolar só ocorre em poucas regiões do país, apresentando-se como uma variante para o arquifonema R em restritas áreas como, por exemplo, na região sul. No Brasil, a oposição se dá, em geral, entre a vibrante simples e as fricativas (uvular, velar ou glotal); dessa forma, na maior parte do Brasil, esse segmento não se realiza como vibrante múltipla ápico-alveolar. Os dois róticos do português brasileiro e R se opõem apenas em contexto intervocálico, sendo que nas outras posições, por exemplo, em final de palavra, estes dois segmentos se neutralizam; isto é, essa oposição só se dá em termos fonológicos, quando aparece entre vogais. Nos demais contextos fônicos, esse contraste desaparece. Mattoso Câmara Jr. (1977[1953]), em seus primeiros trabalhos sobre os fonemas do português brasileiro – desde a perspectiva estruturalista –, postulava a existência de um único 30 fonema vibrante (uma vibrante forte, ao contrário do que defende Lopez). Entretanto o linguista revê sua interpretação sobre este fenômeno, corrigindo-a, nas edições seguintes: Na 1ª edição deste trabalho, ensaiei resolver a incongruência com só considerar a existência de um fonema , o forte, e interpretar o brando como uma variante posicional, enfraquecida, intervocálica. Para isso, era preciso provar que em forte intervocálico há a realidade de uma geminação consonântica. (MATTOSO CÂMARA JR. 1977, p. 79). Em outras palavras, o autor reformula a sua explicação acerca dos róticos, reconhecendo a presença dos dois segmentos na língua portuguesa: Acho preferível hoje, portanto, aceitar a idiossincrasia do consonantismo português em reconhecer duas vibrantes, que só se opõem em posição intervocálica, com neutralização em outras posições, inclusive na posição mais favorável para a nitidez das consoantes, que é a inicial e onde só aparece o forte. (MATTOSO CÂMARA JR., 1977, p. 79). Cristófaro-Silva (1998[2002]) também defende a presença da vibrante simples , chamado de fraco, e do erre forte no sistema fonológico do português, independente do dialeto falado no país e chama a atenção para as possibilidades de pronúncia do Rcomo um som fricativo ou retroflexo: Em todos os dialetos do português haverá o contraste fonêmico em posição intervocálica entre o “r fraco” e o “R forte” [...] Este contraste fonêmico pode manifestar-se pelo número de vibrações da língua na articulação do segmento consonantal: vibrante simples em “caro” ']e vibrante múltipla em “carro” '. Alternativamente o “R forte” pode manifestar-se como uma consoante fricativa ] ou retroflexa []. [...] A variação linguística ocorre de maneira bastante ampla nos demais contextos em que o “R forte” ocorre. CRISTÓFARO-SILVA (1998[2002], p.160). Na ortografia do português, o erre forte corresponde à grafia “r” quando este se dá em posição inicial, ou em meio de palavra precedida pelos fonemas ou . É representado ortograficamente por “rr” quando o segmento se encontra em interior de palavra, em posição intervocálica. Como exemplos, temos as palavras raiva, honra e agarrar. Segundo Callou e Leite (2003), a oposição entre e R(este último representado pelas autoras como ) foi mantida na România Ocidental, que se mantêm como uma consoante forte com relação a uma fraca, e não como uma duplicada, em relação a uma 31 simples. A oposição, que era a princípio exclusivamente quantitativa, ao longo do tempo tornou-se qualitativa em línguas como o português e espanhol, por exemplo. Em outras palavras: [...] a marca de oposição entre e consistia na quantidade de vibrações e que durante o processo de evolução tal marca foi substituída por outra de natureza diversa. A oposição quantitativa foi substituída por uma do tipo qualitativo com a mudança do ponto de articulação de anterior (alveolar) para posterior (uvular ou velar) e de vibrante para fricativa. (CALLOU; LEITE (2003[1990]), p. 77). A mudança fonética do ponto de articulação já faz parte do sistema fonológico do português. Mattoso Câmara Jr. (1985), em seus trabalhos, inseriu essa mudança na classificação dos fonemas consonânticos de nossa língua. Entretanto, inserir as mudanças no modo de articulação da consoante (de vibrante posterior para fricativa posterior) no sistema fonológico do português falado no Brasil, segundo o autor, implicaria numa reestruturação do mesmo. De acordo com a opinião de diversos linguistas como, por exemplo, Dinah Callou, que discute em seu estudo de 1987 as manifestações fonéticas desse segmento na fala do Rio de Janeiro, tal inclusão criaria mais uma oposição de natureza qualitativa (vibrante posterior x fricativa posterior). Ainda no que tange aos aspectos fonéticos do R no português brasileiro, Cunha e Cintra (2008 [1985]), em sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, classificam o erre forte como fricativo velar , pelo fato de ser, segundo os autores, a pronúncia mais comum no português de Lisboa, do Rio de Janeiro, e de diversas outras áreas do Brasil. A realização ápico-alveolar continua viva em algumas regiões do Brasil como, por exemplo, no Rio Grande do Sul, e a pronúncia dorso uvular múltipla se dá na fala popular do Rio de Janeiro também. Em outras regiões como o Sul de Minas, norte de São Paulo e outras áreas do país ainda podemos encontrar a realização linguopalatar velarizada, conhecida comumente como “r” caipira15. Callou e Leite (2003 [1990]), ao investigar a norma culta falada no Rio de Janeiro, encontraram para o R do português brasileiro as seguintes realizações fonéticas: vibrante múltipla anterior ápico-alveolar sonora ; vibrante múltipla posterior uvular, que de preferência se transcreve como ; fricativa velar surda e fricativa laríngea ou glotal 15 Termo utilizado por Amadeu Amaral na obra O dialeto caipira (1920). 32 (aspiração) surda. É importante destacar que as formas de pronúncia podem variar de acordo com os diferentes dialetos existentes, e que a substituição do som vibrante ápicoalveolar por vibrações uvulares e velares iniciou-se aproximadamente no final do século XIX. As autoras mencionadas afirmam que pesquisas de Gonçalves Viana, realizadas na década de setenta do século XX, já revelavam a mudança da consoante vibrante múltipla por sons fricativos, porém o foneticista não fornece maiores informações sobre os contextos em que este fenômeno – fricatização – se dá. Entretanto, os linguistas em geral concordam que houve uma mudança na articulação desse segmento consonântico, de anterior para posterior, tanto em português, quanto em outras línguas românicas. Essa alteração se deu, ou por mudança na tensão necessária para produzir as vibrações necessarias, as quais caracterizam a emissão de um som ápico-alveolar , ou por um processo de relaxamento e comodidade articulatória, isto é, a passagem da articulação velar vibrante para uma velar fricativa e desta para uma aspiração. No entanto, essa possibilidade de diferentes realizações fonéticas de R não é exclusividade das línguas românicas (CALLOU; LEITE (2003[1990]), p. 76). Callou e Leite ainda afirmam que os róticos têm sido alvo de discussões no português brasileiro: i) a vibrante múltipla , em especial, sofreu mudanças em sua realização, tanto no ponto de articulação (de anterior para posterior), como no modo de articulação (de vibrante para fricativa); ii) As diferentes realizações desse segmento já existiam desde o século XIX e coexistem até os dias atuais; iii) o alofone ápico-alveolar ainda se conserva como a norma padrão básica, de maior prestígio, em algumas linguagens como as do teatro e do rádio, por exemplo; iv) há um trabalho por parte dos linguistas para agrupá-las por regiões, de acordo com as variantes do erre forte que utilizam; v) nem os próprios falantes se dão conta da variante que eles mesmo realizam e os seus interlocutores. Ainda sobre as possíveis realizações fonéticas de R no português brasileiro, Monaretto et al. (1996, p. 215) mencionam que o dito segmento pode ser pronunciado como fricativo velar ,uvular e aspirada glotal , pode manifestar-se também como vibrante simples , ou ainda como um som retroflexo []. No entanto, em conformidade com Cagliari (2002), os autores reconhecem que a realização alveolar do fonema em estudo vem sendo substituída por uma fricativa velar em contexto intervocálico, ou pré-vocálico, nos dialetos paulista e do sul do Brasil. Rodrigues (1974) em sua tese de doutorado em que aborda 33 o dialeto caipira16 na região de Piracicaba, cidade do interior de São Paulo, afirma que a consoante mencionada tem realização alveolar naquela localidade: rato '. Luis Carlos Cagliari (2007), em seu livro Elementos de Fonética do Português Brasileiro, descreve os sons da língua falada no Brasil, tomando como parâmetro, essencialmente, o dialeto utilizado por falantes cultos nativos do estado de São Paulo. Segundo o foneticista, podemos encontrar sons retroflexos nos dialetos paulista17 e em especial, no dialeto caipira, sendo que, nessa última variedade do português brasileiro, a constritiva posterior sonora se dá onde, em outros dialetos, ocorrem os alofones fricativo velar e vibrante múltipla apico-alveolar , ou vibrante simples , com exceção da posição intervocálica, em que podemos encontrar a variante alveolar como na palavra carro . Sobre a realização do erre forte no dialeto baiano18, encontramos alguns trabalhos sobre as produções fonéticas desse segmento em posição final de sílaba; entretanto esse contexto não se constitui o objetivo desta pesquisa. Como exemplo, citamos a dissertação de mestrado de Josane Oliveira, realizada na Universidade Federal da Bahia, em 1999, que trata do apagamento do R implosivo na norma culta de Salvador, desde a perspectiva da sociolinguística quantitativa. A autora explica o processo de enfraquecimento que resulta na queda dessa consoante, e sua ligação com variáveis linguísticas (contexto de ocorrência) e extralinguísticas (sexo, idade do informante e estilo de texto). Após a pesquisa bibliográfica, e consulta a pesquisadores da área de estudo, constatamos que ainda são escassos os trabalhos que se dedicam à realização articulatória de R no dialeto baiano, em diferentes contextos fônicos como, por exemplo, quando esse se dá em posição inicial absoluta ou em posição pré-vocálica, que é o alvo do trabalho proposto. Adotando como referência um breve trabalho comparativo sobre as variações sonoras de R em falantes da Bahia e do Paraná, proposto por Inês de Barros et al. (2010) e também as apreciações de diferentes linguistas baianos do campo da sociolinguística e dialectologia, com respeito à manifestação fonética de R na variante linguística mencionada, 16 Termo utilizado por Amadeu Amaral na obra O dialeto caipira (1920). Segundo o autor, o dialeto caipira é uma variante linguística do português brasileiro, falado no interior do estado de São Paulo, norte do Paraná, leste do Mato Grosso do Sul, sul de Minas Gerais, sul de Goiás. 17 18 Cagliari, em seu trabalho, identifica o dialeto paulista como o português culto falado no estado de São Paulo. De acordo com Antenor Nascentes (1958-1961), o dialeto baiano é uma variante da língua portuguesa falada no estado da Bahia, Norte de Minas Gerais, Leste de Goiás e Tocantins. 34 encontramos para este segmento a realização fricativa laríngea glotal, em geral desvozeada, ou um som aspirado. Em resumo, o R do português, comparado com a vibrante múltipla da língua espanhola, de certa forma, se manifesta foneticamente de maneira mais complexa, desde o ponto de vista articulatório, porém notamos que essa variação em ambas as línguas está em consonância com os diferentes dialetos19 existentes. Em outras palavras, desde a perspectiva fonética os róticos apresentam um grande número de realizações que dependem não apenas do contexto linguístico em que se encontram, mas também das diferentes variedades linguísticas. Inúmeras investigações baseadas na metodologia sociolinguística laboviana, realizados por dialetólogos e sociolinguistas, têm comprovado tal fenômeno. 19 Segundo Silva-Corvalán (2001, p. 14), entende-se dialeto como um termo técnico que corresponde a uma variedade de língua compartilhada por um grupo de pessoas. 35 2 ANTECEDENTES SOBRE O TEMA Nesta seção apresentamos uma revisão bibliográfica acerca de estudos fonéticofonológicos que versam sobre a produção da vibrante múltipla espanhola por aprendentes nativos de diferentes línguas maternas. Primeiro, abordamos alguns trabalhos que tratam do ensino da língua espanhola em falantes de línguas germânicas, especificamente o inglês e o alemão. Em seguida, discorremos sobre a aprendizagem do espanhol por aprendentes de línguas eslavas, como o esloveno, o russo e o búlgaro. Mais adiante, mencionamos diferentes pesquisas que discutem o processo de ensino/aprendizagem de espanhol em falantes de línguas itálicas, como o francês, o italiano, o romeno e o português – variedade brasileira. E, por último, expomos acerca da aprendizagem do espanhol, em especial, pelos aprendentes nativos de outras famílias linguísticas como, por exemplo, o chinês, o japonês e o árabe. É importante ressaltar que, neste capítulo, citamos pesquisas realizadas tanto em indivíduos que adquirem a língua espanhola por processo de imersão linguística, quanto por meio do ensino formal como, por exemplo, em cursos de idiomas ou instituições escolares. Sobre a realização da vibrante múltipla espanhola por aprendentes de fala inglesa, encontramos o trabalho de Pérez López (2011), que trata da aquisição desse segmento por estudantes estadunidenses, desde a perspectiva auditiva e articulatória. Nesse estudo, o autor parte da análise contrastiva de nas duas línguas, – inglês norte-americano20 e espanhol – , mencionando as particularidades que caracterizam esse fonema em ambos os sistemas fonológicos e também as dificuldades que a pronúncia do espanhol pode proporcionar aos estudantes de espanhol de fala inglesa, em sua realização. Nessa pesquisa, o autor faz questão de ressaltar que não considera o inglês falado na Inglaterra em sua análise, visto que, nessa variedade de língua, a consoante é praticamente inexistente, além de apresentar outras características, se o comparamos com os falantes da variedade norte-americana. Pérez López (2011) desenvolve seu trabalho com a participação de um grupo de estudantes dos Estados Unidos e, para isso, elabora uma série de atividades e questionários cujos resultados revelam algumas dificuldades desses aprendentes, tanto na produção, quanto na percepção do fonema espanhol. Em linhas gerais, a pesquisa mostra que o contexto 20 Pérez López define em seu trabalho como inglês norte-americano a variedade de língua inglesa falada nos Estados Unidos e Canadá. 36 intervocálico é o que apresenta maior obstáculo para os aprendentes norte-americanos de ELE, pois há, em geral, uma dificuldade em reconhecer a diferença entre a vibrante simples e a vibrante múltipla como, por exemplo, em vocábulos como perro'e pero ', que, em português, correspondem às palavras cachorro e a conjunção mas, respectivamente. A pesquisa revela, sobretudo, que determinadas combinações dentro da cadeia da fala – como, por exemplos, as combinações e– podem dificultar tanto a aquisição do contraste entre as duas vibrantes e , quanto à realização da vibrante espanhola, que tem características diferentes na fala inglesa: na língua espanhola, sua realização fonética padrão é uma vibrante alveolar , enquanto que, no inglês norteamericano, esse mesmo fonema se manifesta foneticamente como palatal ou tepe retroflexo21. Ou seja, tanto o ponto quanto o modo de articulação são diferentes. Essas diferenças podem oferecer dificuldades ao falante nativo de inglês em realizar o som de maneira adequada na língua espanhola. Cala Carvajal (1997) também realiza um estudo contrastivo dos sistemas fonológicos do inglês padrão britânico e do espanhol peninsular, sem se deter, entretanto, nas características suprasegmentais das línguas mencionadas. Segundo o autor, os estudos contrastivos nesse campo podem ajudar os professores a detectar os possíveis erros e dificuldades dos aprendentes, com a finalidade de, se possível, evitá-los. A pesquisa apresenta uma descrição fonético-fonológica dos sistemas vocálicos e consonânticos das duas línguas e destaca que, no que se refere à aquisição das consoantes em espanhol, a realização das vibrantes nessa língua apresenta sérios problemas e dificuldades para os falantes de inglês. Em concordância com Mott (1991), Cala Carvajal apresenta a seguinte citação: The important thing to remember about the English is that there is no contact between the tougue and the roof of the mouth. The tougue position is similar to that of English and , but the tongue tip does not touch the alveoles… in final position or before consonants, as in car, hard and port. r is not pronounced in Standard English22. (MOTT, apud CALA CARVAJAL (1997, p. 225). 21 Dubois et al (1993, p. 522) definem fonema retroflexo como “aquele cuja articulação implica à elevação do reverso da ponta da língua em direção ao palato. Uma articulação retroflexa é também dita cacuminal ou cerebral”. “Uma coisa importante para lembrar sobre o inglês é que não há contato entre a língua e o céu da boca. A posição da língua é semelhante a do e do inglês, porém o ápice da língua não toca os alvéolos…em posição final, ou antes de consoantes, em palavras como car, hard e port, o r não é pronunciado no inglês padrão” (MOTT, apud CALA CARVAJAL, 1997, p. 225, tradução nossa). 22 37 Em outras palavras, enquanto que no espanhol peninsular o ápice da língua toca a região dos alvéolos, na realização do fonema no inglês britânico padrão isso não ocorre. A posição da língua na produção do espanhol é semelhante à posição da língua na realização dos fonemas que aparece, por exemplo, na palavra later (posteriormente) e , do vocábulo lady (dama),do inglês. Assim, não há o contato do ápice da língua com alvéolos na realização dos dois últimos fonemas mencionados, ou seja, eles são aproximantes23. Sobre o inglês padrão britânico, Cala Carvajal (1997) confirma, assim como Pérez López (2011), que o nessa variedade de língua é retroflexo. No que diz respeito à aprendizagem da língua espanhola por falantes nativos de alemão, Andrea Homman (2000) apresenta um relato fruto de uma conferência dada na Universidade de Alcalá de Hanares, Espanha, para alunos de pós-graduação em ELE, cuja finalidade é discorrer sobre os contrastes linguísticos entre o alemão e o espanhol. O alvo do estudo são os docentes de língua espanhola que ministram aulas para falantes de alemão oriundos da Alemanha, da Suíça e da Áustria. A autora alerta que há uma gama de diferenças entre ambas as línguas, as quais podem causar dificuldades para os falantes de ELE de língua alemã, e que nesse contraste deverão ser considerados, ainda, os hábitos e costumes das duas culturas, ou seja, o contexto cultural precisa ser levado em conta, desde o início da aprendizagem. Entre os diferentes aspectos linguísticos que devem ser abordados também, desde o princípio, de acordo com a autora, é a Fonologia. Segundo Homman (2000), uma das maiores dificuldades dos estudantes nativos de alemão na aprendizagem de ELE é a realização dos róticos: a vibrante simples não faz parte do sistema fonológico do alemão, portanto é o fonema líquido que oferece maior dificuldade de pronúncia para os aprendentes. Já a vibrante múltipla, nessa língua, é uvular, e sua pronúncia como um som ápico-alveolar se dá apenas em alguns dialetos do alemão. Podemos afirmar que esses aprendentes de espanhol, em especial, certamente necessitam de atividades específicas a fim de auxiliá-los na produção adequada das vibrantes dessa língua, tanto a simples, quanto a múltipla. Em linhas gerais, ao pesquisar referências sobre estudos contrastivos fonéticofonológicos entre o espanhol e diferentes línguas germânicas, constatamos que há certa 23 Uma consoante aproximante é um fonema que é articulado por meio da aproximação entre os órgãos sem interromper totalmente a corrente de ar, ou produzir uma constrição com turbulência audível do ar proveniente dos pulmões. 38 escassez de pesquisas nessa área de conhecimento como, por exemplo, investigações que tratam do ensino do espanhol para holandeses ou para falantes nativos de línguas germânicas do grupo nórdico, como o dinamarquês, o islandês o norueguês e o sueco. Em seguida, discorremos acerca da realização da vibrante múltipla espanhola em falantes de línguas eslavas que, assim como as línguas germânicas, pertencem também ao grupo das línguas indo-européias, faladas, principalmente, no Leste Europeu. Sobre a aprendizagem do espanhol por eslovenos, Markič (2002) desenvolve um estudo contrastivo entre os sistemas fonético-fonológicos do espanhol – falado na Espanha e na América Latina – e o esloveno, desde a perspectiva articulatória. Segundo a autora, essa é uma tarefa primordial, pois, dessa maneira, é possível entender melhor os erros que produzem os aprendentes eslovenos de ELE, a fim de auxiliá-los a alcançar uma pronúncia apropriada. Cortés Moreno (2002), em seu trabalho intitulado Dificultades de pronunciación para eslovenohablantes, faz a observação de que um dos maiores obstáculos que enfrenta o linguista hispânico no estudo da língua eslovena é que a maior parte da bibliografia está escrita neste idioma, que grande parte dos estudiosos desconhece. Markič (2002) aponta que um dos motivos de erros para os falantes eslovenos aprendizes de espanhol é a presença da oposição, nesta língua, entre a vibrante simples e a vibrante múltipla , pois no sistema fonológico da língua materna desses aprendentes não há um fonema equivalente ao segundo segmento mencionado:. Assim, os eslovenos tendem a pronunciá-lo sempre como e não fazem a distinção, por exemplo, entre os vocábulos corro ' e coro 'k, que correspondem, em português, as palavras corro e coro, respectivamente. Ainda sobre o ensino do espanhol para nativos de línguas eslavas, encontramos o breve trabalho de Guzmán Tirado e Herrador del Pino (2002), cujo objetivo é abordar as principais particularidades do ensino de espanhol para falantes de russo como língua materna. Esses autores mencionam alguns problemas e obstáculos que enfrentam tanto os docentes quanto os discentes, neste processo. O texto traz a análise de algumas dificuldades com as quais os estudantes russos se deparam, considerando os níveis fônico, morfossintático e lexical da língua meta, ou seja, o espanhol. Segundo o estudo, entre os diferentes fonemas que fazem parte do sistema linguístico do espanhol, a vibrante múltipla é um dos que oferece dificuldades de aprendizagem para os russos, pois, nessa língua, existe apenas a vibrante simples . Assim, a tendência 39 desses aprendentes de espanhol é substituir o fonema desconhecido por um existente em sua língua materna; em outras palavras, os russos tendem a realizar o fonema em lugar de : como exemplo, pronunciam 'em lugar de ' - Rafael. Observamos que as dificuldades desses aprendizes são semelhantes a dos falantes eslovenos. Lorente Muñoz (2007) publica um artigo no qual descreve de maneira breve a situação do idioma espanhol na Bulgária, cujo objetivo é chamar a atenção sobre as necessidades específicas dos discentes búlgaros durante a aprendizagem da língua meta mencionada. Nesse estudo, o autor traz uma análise descritiva dos principais equívocos que esses aprendentes cometem, tentando explicar os fatores que os originam e, além disso, apresenta algumas orientações dirigidas aos professores que se dedicam ao ensino de espanhol a esse público em especial, no intuito de ajudá-los a otimizar sua tarefa. De acordo com Lorente Muñoz (2007), um dos percalços enfrentados por aprendizes búlgaros de ELE é fazer a distinção entre as vibrantes espanholas, porém ressalta que, com um pouco de paciência os docentes podem conseguir resultados bem melhores com esses aprendentes, no que se refere ao ensino da pronúncia do espanhol, do que com o alunado francês, na visão do próprio autor. Vale ressaltar que o texto não fornece maiores detalhes sobre a presença ou não dos róticos no sistema linguístico búlgaro. Assim como nas línguas germânicas, observamos que, de certa forma, os estudos contrastivos entre o espanhol e as línguas eslavas também são escassos. Com respeito à aprendizagem de espanhol por falantes de línguas itálicas, identificamos diferentes pesquisas que versam sobre essa temática. Luisa Molinié (2010) apresenta um estudo que trata da pronúncia do espanhol em falantes de língua francesa - estudantes, especificamente, de Quebec, Canadá-, no qual destaca a aquisição da vibrante por esses aprendentes. Em seu trabalho, a autora menciona dificuldades concretas que os estudantes quebequenses enfrentam e apresenta, ainda, algumas pautas de correção que podem ser aplicadas a fim de melhorar a sua pronúncia. Apresentam-se também, na obra, as tendências gerais dos falantes de francês quando se comunicam oralmente em espanhol, chamando a atenção, em especial, para as tendências observadas entre os alunos quebequenses. Ao tratar especificamente da aprendizagem de espanhol por falantes de francês de Quebec, Molinié (2010) explica que, apesar de os individuos dessa região possuírem características especiais no que se refere a pronúncia, quando são comparados com os francófonos de outras partes do mundo, essas diferenças, na realidade, não são tão amplas. No entanto, a autora postula que os aprendentes de Quebec, em especial, têm certas vantagens na 40 hora de pronunciar o espanhol, em comparação com os francófonos de outras localidades: i) os quebequenses têm uma base articulatória que apresenta uma mandíbula mais relaxada, elástica e flexível, que lhes permite pronunciar os sons com maior elasticidade e exagero do que o francês da França, por exemplo, que tem uma pronúncia mais fina e uma posição dos órgãos fonadores com a boca mais fechada; e ii) alguns quebequenses, por exemplo, têm facilidade para pronunciar certos sons devido ao contato que eles têm com diferentes sons de outras línguas. Assim, o ouvido já está acostumado a receber sons estrangeiros, o que pode ser uma vantagem na hora de pronunciar novos sons durante a aprendizagem de uma nova língua. Segundo Molinié (2010), desde a perspectiva histórica, a língua francesa possuía em sua origem, como as demais línguas românicas, um ápico-alveolar, que se modificou com o passar do tempo. A mudança no mecanismo de produção articulatória, na língua francesa, surge em Paris, no século XVII, enquanto que nas outras variedades de língua se conservava ainda a variedade ápico-alveolar. A autora ainda explica que, nos dias atuais, o sistema fonológico do francês apresenta realizações fonéticas que não existem no espanhol padrão como, por exemplo, o alofone uvular Я, um som que não pertence ao espanhol padrão. Chama a atenção para o fato de que, em algumas ocasiões, uma variante alofônica de um fonema em uma das duas línguas pode corresponder a um fonema na outra. Dessa maneira, a autora esclarece que, apesar de que, tanto no francês, quanto no espanhol, existe a vibrante múltipla , na realidade, trata-se de dois fonemas com realizações diferentes: em espanhol, ele é apico-alveolar , enquanto que em francês, o mesmo fonema é velar RPor outro lado, alguns fonemas consonânticos do espanhol não existem na língua francesa, como, por exemplo, a vibrante simples . No entanto, este último fonema pode ser encontrado em algumas regiões da França e em Quebec. Como já mencionado, a vibrante múltipla existe nas duas línguas – espanhol e francês –, porém com realizações fonéticas diferentes. Como existe essa diferença entre os dois sistemas linguísticos, conforme a autora, há uma tendência dos alunos franceses de espanhol em substituir a vibrante múltipla espanhola , que é apico-alveolar, pela vibrante de seu próprio sistema. Ou seja, a tendência da maioria dos alunos é pronunciá-la como um alofone velar Rou uvular Я. Como a vibrante francesa se diferencia da espanhola no que diz respeito ao ponto de articulação, a tendência dos aprendentes franceses aprendentes de espanhol é realizá-la como um alofone velar Rou como vibrante simples, quanto este 41 se dá em posição inicial. Em resumo, após realizar a pesquisa entre os aprendentes mencionados, Molinié (2010) aponta, pelo menos, duas dificuldades com relação à realização dos fonemas vibrantes espanhóis: a confusão entre a vibrante simples e múltipla e a substituição pela pronúncia vibrante francesa velar R. Por último Molinié (2010) propõe algumas atividades para melhorar a pronúncia dos estudantes quebequenses de ELE. Para isso, Molinié realiza um trabalho de campo com dois grupos de estudantes universitários, no qual um grupo pôde praticar a pronúncia com uma série de exercícios e explicações teóricas, e o outro, não. O estudo busca demonstrar que a aplicação de atividades específicas de correção fonética pode ajudar a melhorar a pronúncia dos estudantes, e que, por isso, essas atividades deveriam ter maior relevância dentro do ensino de espanhol. Os questionários aplicados pela pesquisadora se detêm, principalmente, nos fonemas vibrante simples e vibrante múltiplo, em espanhol, pois, segundo ela, esses são alguns dos segmentos mais difíceis de serem pronunciados pelos falantes de francês, sendo a vibrante múltipla considerada como o que oferece maiores problemas aos aprendentes. Ainda sobre a aprendizagem de espanhol por falantes de línguas românicas, Carrascón (2003) desenvolve um estudo fonético e contrastivo acerca dos róticos nas línguas espanhola e italiana. O autor ressalta que, nos dois sistemas linguísticos, existem alguns fonemas em comum, mas que suas realizações fonéticas apresentam diferenças que, em geral, são praticamente imperceptíveis ao ouvido dos aprendentes. A partir de observações de ambas as línguas mencionadas, Carrascón apresenta algumas diferenças entre as bases articulatórias das línguas: uma das distinções de maior destaque, segundo o autor é o acento; a língua italiana utiliza uma energia articulatória consideravelmente maior do que a espanhola na produção de diferentes fonemas como, por exemplo, na realização das consoantes oclusivas e em posição intervocálica, que, em espanhol, se fricatizam ou são realizadas, inclusive, como aproximantes. Em outras palavras, se afirma que o idioma italiano tem uma articulação “forte” e o espanhol possui uma economia em sua tensão articulatória. Outra diferença mencionada por Carrascón (2003) trata da relevância no sistema fonológico do italiano, frente a sua irrelevância na língua espanhola, no que se refere à quantidade, que pode ser entendida como duração ou como geminação. Ou seja, a língua italiana aproveita de forma sistemática a quantidade, além de utilizar para a articulação fônica uma tensão maior que o espanhol, língua em que nem a duração nem a geminação são consideradas fonologicamente. 42 Rubio Sánchez (2010), também realiza uma pesquisa que trata da aprendizagem da fonética espanhola em falantes de italiano como língua materna. Segundo o autor, existe um mito de que a fonética do espanhol é de fácil aprendizagem para os falantes nativos de italiano porque a distância entre a ortografia e a pronúncia é menor, se comparada com outras línguas, como o inglês e o francês, por exemplo. Entretanto, o mesmo afirma que isso não significa que os fonemas do espanhol não apresentarão dificuldades para os aprendentes italianos, e é sobre estas diferenças que o autor trata ao longo de seu estudo. Um dos principais objetivos de Rubio Sánchez (2010), nesse trabalho, é revelar as armadilhas mais comuns enfrentadas pelos italianos aprendentes de língua espanhola, no que se refere aos aspectos fonéticos. Em seu texto, o autor ainda trata das variedades linguísticas do espanhol e a adoção de uma norma de pronúncia nas aulas de ELE. Por último, o estudo apresenta também algumas reflexões breves sobre a importância de se trabalhar a entonação nessa língua, aspecto que raras vezes é considerado nas aulas, conforme o texto. Por último, a pesquisa oferece algumas sugestões de atividades classificadas por níveis de aprendizagem, a fim de ajudar a prevenir ou solucionar os problemas existentes na aquisição fonética do espanhol por falantes de língua materna italiana. Segundo Sánchez (2010) e Carrascón (2003), a vibrante múltipla espanhola gera certos problemas para os falantes de italiano porque em diversas variedades linguísticas da Itália só existe o fonema vibrante simples . Entretanto, os linguistas esclarecem que, no sul do país, existe, sim, o dito fonema, ainda que este apresente duas vibrações, diferente do espanhol, que apresenta três. Assim, a depender da região de origem do aprendente, pronunciar corretamente o novo fonema lhe pode custar maior ou menor esforço. Sobre a aprendizagem de espanhol entre os romenos, encontramos a tese doutoral de Patrick Roesler (2011), que trata das características gerais dessa língua falada por imigrantes da Romênia que residem em Castellón de la Plana, região oeste da Espanha, desde 1995 até 2008. O estudo visa apresentar um panorama amplo e aprofundado das características gerais do espanhol falado pelos imigrantes romenos, analisando, em especial, como se manifestam as interferências da língua materna. Curiosamente, o autor chega à conclusão de que o espanhol desses individuos possui influências de variedades linguísticas latino-americanas, com as quais estes sujeitos entraram em contato através das novelas televisivas, de origem hispânica, desde quando residiam em seu país de origem. Com base nos dados coletados, Roesler (2011) observa alguns fenômenos fonéticofonológicos presentes na oralidade dos romenos imigrantes. No que se refere à produção da 43 vibrante múltipla espanhola , se pôde observar nas entrevistas realizadas quatro formas de articulação para a consoante em questão, as quais se desviam da norma padrão espanhola como: i) a ausência de articulação ou uma produção efêmera como, por exemplo, no vocábulo rumano (romeno); ii) uma pronúncia suave que se aproxima do uvular alemão, como na palavra rose (rosa); iii) a articulação da vibrante simples no lugar da múltipla ; e iv) a articulação da vibrante múltipla ao invés da simples (ROESLER, 2011, p. 9). Assim como em outros idiomas, averiguamos que a língua romena também não apresenta a distinção entre as vibrantes, como ocorre no espanhol. Em seguida, mencionamos diferentes estudos que versam sobre o ensino da fonética e da fonologia espanhola para aprendentes de português brasileiro. Hoyos-Andrade (1994), ao descrever as principais interferências fonético-fonológicas do português no espanhol falado pelos aprendentes brasileiros, dá ênfase na importância de se discutir este problema, com a meta de propor algumas soluções a serem colocadas em prática, em sala de aula, por professores de ELE. Em seu texto, o autor menciona o conceito de interferência linguística em seus diferentes níveis e tipos, analisando, de maneira específica, as interferências fonético-fonológicas que a língua portuguesa exerce sobre o espanhol dos estudantes do Brasil. Assim como afirmam os outros autores mencionados anteriormente, no que diz respeito à pronuncia do fonema , Hoyos-Andade (1994) também cita a realização ápico-alveolar sonora para esse segmento, em espanhol, como norma padrão, explicando que sua produção não é fácil para maior parte dos brasileiros, já que em muitas variedades linguísticas do português do Brasil a sua produção como ápico-alveolar é inexistente (sobre as possibilidades alofônicas da vibrante em estudo, no sistema fonológico do português falado no Brasil, discorremos na seção 1.3 do seção primeiro). Segundo o linguista, outro fator ainda mais agravante é que a pronúncia da consoante em estudo, no português brasileiro R é muito semelhante ao jota espanhol : Ante una palabra como JARRA, p.e., el estudiante brasileño además de la dificultad – prodeciente de tener que utilizar un sonido que él no posee en su lengua materna (el sonido erre) – debe superar la trampa que el sistema fonético del portugués le tiende con la pronunciación de la erre como fricativa, uvular, sorda (muy semejante al sonido de la jota, fricativa, velar, sorda). Sólo una fuerte dosis de ejercicios, además de la consabida intelección del problema, podrán evitar que ocasionalmente el brasileño 44 confunda JARRA con RAJA o ROTA con JOTA o FAJA con FARRA.24 (HOYOS- ANDRADE, 1993, p.24). Ou seja, faz-se necessária a prática de exercícios fonéticos, a fim de evitar problemas na comunicação, pois, em alguns casos, a produção de um som em lugar de outro pode implicar, inclusive, em mudança de significado, segundo afirma o autor. Entretanto, chamamos a atenção para o fato de que Hoyos-Andrade (1994) não deixa claro no texto qual é a variedade linguística do português do Brasil em que se baseia para afirmar que existe uma tendência por parte dos brasileiros em substituir a vibrante ápico-alveolar espanhola por um som fricativo uvular surdo. Vicente Masip, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, desenvolve diferentes pesquisas referentes a estudos contrastivos fonético-fonológicos entre o espanhol e o português. Entre esses trabalhos citamos sua tese doutoral intitulada Dificuldades fonéticas segmentais dos brasileiros estudantes de espanhol, do ano de 1995 e livro Fonología y ortografía españolas: curso integrado para brasileños, publicado em 2001. Masip (1999) apresenta uma síntese dos principais aspectos da fonética espanhola para brasileiros, descrevendo as principais dificuldades fonéticas dos aprendentes de ELE do Brasil, em nível segmental. Além disso, propõe exercícios de correção para que esse público alcance a pronúncia adequada dos sons da língua espanhola. No que tange à realização dos róticos do espanhol, Masip (1999) também relata que o aluno brasileiro tem uma tendência em realizar a vibrante múltipla espanhola como um som velar . Andrade Neta (2001) igualmente propõe um breve estudo contrastivo entre as línguas portuguesa e espanhola, no qual menciona as possíveis vantagens e desvantagens para o público brasileiro ao aprender espanhol. O artigo mencionado destaca a validade dos estudos comparativos entre línguas, visando ao ensino, e também a necessidade de se superar os erros linguísticos provenientes de interferências. Com relação ao nível fonético-fonológico, a autora discorre sobre as dificuldades mais comuns dos estudantes brasileiros, entre as quais se encontra a realização do espanhol, explicando que existe uma tendência por parte desses aprendentes em substituir a pronúncia padrão espanhola por sons existentes na língua portuguesa, falada no Brasil, como, por exemplo, a vibrante fricativa ou a fricativa velar 24 Diante de uma palavra como JARRA p.e., o estudante brasileiro além da dificuldade – procedente de ter que utilizar um som que ele não possui em sua língua materna (o som erre) – deve superar a armadilha que o sistema fonético do português o proporciona com a pronúncia do erre como fricativo, uvular, surdo (muito semelhante ao som do jota, fricativo, velar, surdo). Só uma forte dose de exercícios, além do conhecimento intelectual do problema, poderão evitar que ocasionalmente o brasileiro confunda JARRA com RAJA ou ROTA com JOTA ou FAJA com FARRA. (HOYOS-ANDRADE, 1993, p. 24, tradução nossa). 45 Observamos, no entanto, que Andrade Neta (2001) também não explica (assim como os outros autores mencionados anteriormente) em detalhes qual a procedência, ou seja, a variedade linguística dos aprendentes de ELE em que a consoante em estudo se manifesta como um som glotal ou velar. É relevante citar aqui outros estudos contrastivos fonético-fonológicos entre o português brasileiro e o espanhol, de caráter descritivo, que podem servir como embasamento para aqueles profissionais que se dedicam ao ensino de ELE, ainda que os mesmos não visem, de maneira especial, apresentar os principais obstáculos com os quais se deparam os aprendentes dessa língua, no Brasil, durante seus estudos. Entre os trabalhos realizados citamos, por exemplo, a tese de livre docência de Martins (1980), intitulada Os Sistemas Consonantais do Português e do Espanhol; a dissertação de mestrado de Gisele Domingos do Mar (1994), cujo título é Os Sistemas Consonânticos do Português do Brasil e do Espanhol Peninsular: Estudo Contrastivo Fonético-Fonológico das Normas Cultas; a tese doutoral de Carvalho (2004) sobre as vibrantes do português e do espanhol, desde a perspectiva acústica; e o artigo A Fonética e a Fonologia da Língua Espanhola e da Língua Portuguesa: Aspectos Contrastivos, elaborado por Sandes (2007). Por último – e não menos importante – mencionamos diferentes pesquisas sobre a aprendizagem de espanhol por falantes de línguas que pertencem a outras famílias linguísticas como, por exemplo, as línguas asiáticas. Silverio Pérez e Miñoso Machado (2010) apresentam algumas recomendações para o ensino das vibrantes espanholas a estudantes chineses, justificando que é muito frequente a dificuldade desses aprendentes na realização dessas consoantes, inclusive entre aqueles alunos que fazem parte de grupos avançados. Nesse trabalho, os autores apresentam uma descrição geral sobre as características das consoantes líquidas em algumas das línguas asiáticas e, ao longo do estudo, eles relembram que é necessário ter a consciência de que as consoantes líquidas laterais ( e λ/ ) e vibrantes ( / e / ) se diferenciam pela oposição contínuainterrupta em diversas línguas, mas que essa distinção não ocorre em outros idiomas como, por exemplo, no japonês, chinês e coreano. Em conformidade com Alarcos Llorach (1975) e Santos et al (1985), Silvério Pérez e Miñoso Machado (2010) esclarecem, por exemplo, que na língua coreana há somente um fonema líquido, pronunciado como vibrante ou como lateral, de acordo com o contexto, e que nas línguas japonesa e chinesa também só existe um fonema líquido, que em japonês é sempre vibrante e em chinês é sempre lateral. Assim, em geral, os aprendentes de espanhol, de 46 línguas asiáticas, não percebem a diferença entre as consoantes líquidas e comumente pronunciam o final, de forma nasalizada, por exemplo. Chen Zi (2011) realiza um estudo sobre os erros articulatórios mais comuns entre os estudantes chineses na pronúncia das consoantes da língua espanhola, cujo objetivo é encontrar os sons dessa língua que oferecem maiores obstáculos de aprendizagem para esses falantes em particular,, a fim de apontar possíveis causas e também apresentar estratégias para auxiliá-los a melhorar na língua oral. Trata-se de um estudo comparativo entre as línguas chinesa e espanhola – realizado entre os discentes do primeiro ano do curso de licenciatura em Espanhol, da Universidade de Xangai – que tem como meta fazer um levantamento de quais são os sons do espanhol que são mais difíceis para os chineses aprendizes de ELE, considerando três fatores: o linguístico (a língua materna), o pessoal e o geográfico. Com base na análise, desde a perspectiva linguística, as maiores dificuldades dos estudantes chineses consistem na distinção entre as oclusivas surdas e sonoras (por exemplo, entre os fonemas oclusivo dental surdo e oclusivo dental sonoro ); a ausência do relaxamento na pronúncia das oclusivas sonoras em posição intervocálica e a realização das vibrantes. Chen Zi (2011) apresenta um quadro expositivo dos resultados da pesquisa, o qual é elaborado a partir dos resultados obtidos no exame oral dos estudantes investigados. O quadro mencionado demonstra que, entre os sons analisados, o segmento que apresenta maiores dificuldades para os alunos chineses iniciantes de ELE é a vibrante múltipla; nesse estudo, 81,5% dos estudantes não sabem produzir este fonema, ou o realiza, foneticamente, de maneira equivocada como, por exemplo, como vibrante simples - (18.5%) A autora explica que os aprendentes chineses, em geral, têm muita dificuldade em utilizar o ápice da língua na produção dessa consoante, já que ele não se encontra presente em praticamente nenhum dialeto falado na China. Assim, a ausência da vibrante múltipla na língua chinesa é a causa da dificuldade. Ao desenvolver a análise considerando o fator pessoal, Chen Zi (2011) chega à conclusão de que, em geral, os alunos que realizam maiores esforços para aprender a língua espanhola (por exemplo, por meio de leituras na língua alvo, entre outras atividades), e de maneira mais constante, têm uma pronúncia correta ou quase correta, se comparados a aqueles estudantes que não se dedicam, na mesma proporção. Por outro lado, observa-se nessa pesquisa que, apesar de que muitos alunos dedicavam muitas horas-aulas do espanhol, estes não desenvolviam uma boa pronúncia. A fim de buscar uma resposta, a autora investiga sobre a influência do fator geográfico na produção oral dos estudantes chineses de ELE, com 47 respeito aos aspectos articulatórios. O estudo revela que a região de procedência do aprendente está relacionada com o maior ou menor grau de dificuldade na pronúncia do espanhol desses alunos: em geral, por razões dialetais, os estudantes de Xangai e regiões próximas apresentam menos dificuldades fonéticas do que estudantes oriundos de outras partes da China. Fernández Mata (2012) desenvolve uma pesquisa sobre as dificuldades de distinção e produção dos sons entre os falantes nativos de japonês, aprendentes de espanhol. Segundo o autor, escassas são as pesquisas desenvolvidas nessa área, em língua espanhola, acerca deste fenômeno linguístico que se produz com ampla frequência entre os indivíduos mencionados. Para iniciar, Fernández Mata analisa o problema da interferência do idioma japonês na aprendizagem do espanhol, desde o ponto de vista linguístico, descrevendo brevemente em que consiste, explicando como ocorre a neutralização dos fonemas e a japonesa(este último explicaremos mais adiante), e, por último, relata a dificuldade na realização da vibrante múltipla além das causas e fatores condicionantes. Para realizar o estudo, o autor compara os sistemas fonológicos de ambas as línguas – em especial as consoantes líquidas que apresentam – sua distribuição silábica e as diferentes possibilidades fonéticas de realização dos fonemas em questão. Para Fernández Mata (2012), não é necessario ser professor de espanhol para conhecer um fenômeno de pronúncia amplamente conhecido com relação aos falantes de japonês, aprendentes de língua espanhola, que é a substituição do fonema vibrante simples e do múltiplo pelo lateral : por exemplo, o verbo parar, geralmente é pronunciado por um falante nativo de japonês como palar ' , e a palavra carro, como calo ' . O estudo ainda cita que dois importantes professores japoneses de ELE, Makoto Hara e Akemi Saito, também comprovaram, em suas pesquisas, a grande dificuldade dos falantes nativos da língua japonesa no momento de pronunciar os fonemas líquidos na língua espanhola, e que a confusão entre estes é um dos obstáculos enfrentados por esses aprendizes, em especial. A língua japonesa só possui em seu sistema fonológico um segmento similar às consoantes vibrantes e lateral do espanhol, que o autor transcreve como japonesa, representado graficamente como a fusão de um “r” invertido e um “l”, definido na linguística inglesa, desde a perspectiva articulatória, como um segmento lateral, tepe/flepe, alveolar sonoro, o que quer dizer que, em sua realização, uma corrente de ar é expulsa, fazendo vibrar 48 as cordas vocais, enquanto que o ápice da língua entra em contato com os alvéolos, produzindo uma abertura do canal lateral pelo qual escapa a corrente de ar, através da boca. Fernández Mata (2012) apresenta uma caracterização do fonema japonês , que é semelhante aos fonemas e tanto em sua acústica quanto em sua articulação, explicando, em detalhes, cada um de suas características distintivas: El segmento japonés se caracteriza por ser: consonante-sonante sonoro, coronal indeterminado, lateral-vibrante no continuo. En lo que se respecta a los dos últimos rasgos distintivos, es coronal indeterminado porque en algunas ocasiones la zona de contacto varía: desde los alvéolos hasta la zona postalveolar, es lateral vibrante no continuo puesto que se apoya a veces el borde de la lengua, dejando escapar el aire por las laterales-asemejándose a nuestra - y, en otras ocasiones, contacta brevemente el ápice de la lengua, expulsando el aire por el centro, lo cual recuerda a nuestra rótica pecursiva 25. (FERNANDEZ MATA, 2012, p. 8). Em outras palavras, em conformidade com Makoto Hara (1994) e Akemi Saito (2005), Fernández Mata (2012) afirma que o na língua japonesa se caracteriza pela indeterminação fônica com respeito a sua centralidade; enquanto que na língua espanhola e em outras, como o português e o inglês, por exemplo, há uma distinção fonológica entre e ; em japonês esta diferença é alofônica, isto é, ela vai ocorrer a depender do contexto fônico em que se apresente, podendo ocorrer uma variação na obstrução. Em resumo, na fala dos japoneses aprendentes de espanhol ocorre uma neutralização entre e em sua interlíngua. No entanto, o autor esclarece que, todavia, existe uma carência de estudos mais detalhados sobre as realizações alofônicas da unidade japonesa , para mais adiante compará-las com os alofones do e espanhóis. No que se refere à pronuncia da vibrante múltipla espanholapor japoneses, que é o foco desse estudo, Fernández Mata (2012) afirma, em conformidade com Hara (1994), que o fonema é um segmento de dificílima realização para a maioria desses aprendentes, pelo fato de que o sistema fonológico do japonês carece dessa consoante. No entanto, sabemos 25 “O segmento japonês se caracteriza por ser: consoante-soante sonoro, coronal indeterminado, lateral vibrante não contínuo. No que se refere aos dois últimos traços distintivos, é coronal indeterminado porque em algumas ocasiões a zona de contato varia, desde os alvéolos até a zona postalveolar, é lateral vibrante não contínuo, já que a ponta da língua, às vezes, não se apóia, deixando escapar o ar, pelas laterais – assemelhando-se ao nosso /l/ - y, em outras ocasiões, há um contato breve do ápice da língua, expulsando o ar pelo centro, o qual relembra o nosso rótico percursivo ”. (FERNANDEZ MATA, 2012, p. 8, tradução nossa). 49 que, no geral, qualquer fonema que está presente na língua meta, e que não aparece na língua materna poderá gerar problemas de aquisição. Rivera Reyes (2000) desenvolve uma pesquisa acerca das dificuldades enfrentadas pelos aprendentes árabes, de dialeto ceutense, durante aprendizagem de espanhol. A autora faz uma análise dos principais erros gráficos e orais produzidos por estudantes falantes de árabe, com o objetivo de sistematizá-los, e também dar subsídios para que os docentes desenvolvam propostas didáticas que auxiliem a sanar as dificuldades do público mencionado. Após a descrição e a análise dos erros mais comuns, Rivera Reyes (2000) propõe um breve guia metodológico, no intuito de ajudar na redução ou no desaparecimento das dificuldades de pronúncia desses aprendentes em especial, e alcançar a melhora dos resultados acadêmicos dos árabes falantes de língua espanhola. Conforme a autora, o árabe de Ceuta, assim como os outros dialetos procedentes da língua árabe, não possui em seu sistema fonológico um fonema vibrante múltiplo, como ocorre na língua espanhola, no qual a distinção +/- vibrante é significativa. Durante a aprendizagem dos árabes, a confusão entre e não se encontra entre os problemas mais frequentes nesse grupo, em especial. Entretanto, Rivera Reyes menciona que ainda, sim, é um tema suficientemente relevante para abordá-lo em seu trabalho. No plano oral, se nota que esses falantes realizam a vibrante múltipla espanhola de maneira mais suave do que é pronunciado pelos nativos desta língua. Em linhas gerais, com base na revisão bibliográfica realizada, averiguamos que a dificuldade de produção da vibrante múltipla espanhola não se dá apenas entre os aprendentes brasileiros; este fenômeno ocorre também, como podemos ver, entre aprendentes de diferentes sistemas linguísticos. Como mencionamos no inicio desta dissertação, o fonema vibrante do espanhol é um dos segmentos que apresenta maiores dificuldades de realização, em geral, relacionadas com os requisitos articulatórios que a produção desse segmento exige e que são bem diferentes, se comparado a outros fonemas da língua espanhola. Além disso, o objeto em estudo apresenta características particulares, que muitas vezes não estão presentes em outras línguas, conforme podemos observar. Em resumo, os problemas de pronúncia do fonema se manifestam entre os aprendentes de espanhol, de diferentes línguas. Entre as principais razões, podem-se citar: (i) ou porque a consoante em questão não faz parte da língua materna do indivduo - como, por exemplo, no russo, no esloveno, no japonês e na língua chinesa -, (ii) ou pelo fato de que o fonema existe, porém possui características diferentes em sua língua materna, isto é, ele apresenta realizações fonéticas diferentes. Em diversas línguas, a realização fonética ápico- 50 alveolar aparece apenas como um alofone, ou seja, como uma das possibilidades de produção, que muitas vezes fica restrita a alguns dialetos. Apresentamos como exemplos as línguas alemã, romena, francesa e portuguesa, na variedade brasileira. Além disso, em diferentes línguas (como as mencionadas neste estudo, a modo de exemplo), é comum a realização de por , pois ambos os fones têm características articulatórias semelhantes. Sabemos que os sons que são novos para um aprendente de qualquer língua estrangeira podem acarretar dificuldades de produção devido às diferenças entre os sistemas fonológicos, ou seja, entre a língua materna e a língua meta, o que resulta, com frequência, em interferências na pronúncia da língua estudada. Sobre este aspecto, Trubetzkoy (1939), mencionado por Poch (2009), afirma que interferência fonética pode ser prevista, quando diz que: El sistema fonológico de una lengua es comparable a una criba a través de la cual pasa todo lo que se dice (…). Las personas se apropian del sistema de su lengua materna y cuando oyen hablar otra lengua emplean involuntariamente para el análisis de lo que oyen la "criba" fonológica que les es habitual, es decir, la de su lengua materna. Pero como esta "criba" no se adapta a la lengua extranjera, surgen numerosos errores e incomprensiones. Los sonidos de la lengua extranjera reciben una interpretación fonológica inexacta debido a que se los ha hecho pasar por la "criba" de la propia lengua (…) el llamado "acento extranjero" no depende exclusivamente de que el extranjero no pueda pronunciar un sonido determinado sino más bien de que no está interpretando con corrección dicho sonido. Y esta interpretación errónea está condicionada por la diferencia entre la estructura fonológica de la lengua extranjera y la de la lengua materna del locutor26. (TRUBETZKOY(1939), apud POCH (2009, p. 196). Entretanto, concordamos com Poch quando menciona que realizar apenas uma análise contrastiva entre a língua materna e a língua a ser ensinada, com vistas a prever possíveis interferências, constituiria uma postura, de certa maneira, simplista, pois cremos que não é possível prever os prováveis erros dos aprendentes de outra língua, apenas por meio da 26 “O sistema fonológico de uma língua é semelhante a uma peneira através da qual passa tudo o que se diz (...) As pessoas se apropriam do sistema de sua língua materna e quando ouvem falar outra língua empregam involuntariamente para a análise do que ouvem a “peneira” fonológica que lhes é habitual, ou seja, a de sua língua materna. Mas como esta “peneira” não se adapta à língua estrangeira, surgem numerosos erros e incompreensões. Os sons da língua estrangeira recebem uma interpretação fonológica inexata devido a que se fez com que os sons passassem pela “peneira” da própria língua(...) o chamado “sotaque estrangeiro” não depende exclusivamente de que um estrangeiro não possa pronunciar um determinado som, e sim o fato de não estar interpretando corretamente o dito som. E esta interpretação errônea está condicionada pela diferença entre a estrutura fonológica da língua estrangeira e a da língua materna do locutor.” 26. (TRUBETZKOY(1939), apud POCH (2009), p. 196, tradução nossa). 51 comparação entre dois sistemas linguísticos, – a língua materna do indivíduo e da língua meta –, pois as línguas são muito mais complexas para serem compreendidas em uma análise puramente contrastiva. Além disso, as dificuldades de realização dos fonemas na língua estrangeira estão relacionadas não somente com a forma como o falante pronuncia o segmento, mas também como ele mesmo o interpreta, em outras palavras, o seu aprendizado também está condicionado a como o aprendente percebe os sons (não entramos em detalhes sobre este último tema, pois não faz parte do objetivo dessa dissertação). Entretanto, é certo que as diferenças entre ambos os inventários fonológicos contribuem para que surjam erros de pronúncia na língua alvo. Seguindo os pressupostos de Solé et al (1998) e Recasens (1991), Blecua Falgueras (2001, p.7) afirma que, na realidade, a vibrante é um dos fonemas do espanhol que necessita um maior esforço fisiológico em sua produção, que deve ocorrer de maneira exata. Para iniciar e conservar o ápice da língua em vibração, é necessario um domínio preciso dos diferentes órgãos envolvidos em sua articulação, sendo que qualquer desajuste na tensão necessária em cada ponto pode propiciar a que não haja esta vibração: Si se relaja demasiado el ápice de la lengua, el resultado es una fricción; por el contrario, si la tensión es excesiva, no es posible iniciar el movimiento. Además en la realización de este sonido no sólo actúa el ápice de la lengua, sino que también se forma una conctricción postdorsovelofaringea27 (SOLÉ et al (1998); RECASENS (1991), apud BLECUA FALGUERAS, 2001, p.7) Como podemos observar, esse tipo de articulação requer certa precisão no controle dos órgãos envolvidos em sua realização, posto que exige dois movimentos ao mesmo tempo: um de vibração (na parte anterior) e outro de constrição (na parte posterior) do aparelho bucal. Por último, é interessante mencionar que o fonema pode ocasionar problemas também na aquisição da língua materna. Segundo Blecua Falgueras (2001, p.7 - 8), estudos sobre a aquisição fonológica das línguas que possuem em seu inventário a vibrante apical múltipla revelam que esse é o segmento que aparece mais tardiamente na fala das crianças. Em conformidade com Bosh (1984), a autora menciona a existência de estudos que comprovam que a vibrante aparece de forma consolidada na fonologia infantil do falante 27 Se se relaxa demasiadamente o ápice da língua, o resultado é uma fricção; pelo contrário, se a tensão é excessiva, não é possível iniciar o movimento. Além disso, na realização desse som não somente atua o ápice da língua, mas também se forma uma constrição postdorsovelofaringea. (SOLÉ et al (1998); RECASENS(1991), apud BLECUA FALGUERAS, 2001, p.7, tradução nossa) 52 nativo de espanhol aos seis anos de idade, e que os problemas de pronúncia que se notam nas etapas iniciais de aquisição de uma língua, em ocasiões, podem manter-se até a idade adulta. Esse tipo de dificuldade é um dos mais frequentes na população adulta, e pode se manifestar, isoladamente, sem nenhum outro problema associado. Na seção três, apresentamos os pressupostos teórico-metodológicos adotados nesta investigação. 53 3 PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS Esta seção consiste na abordagem da teoria e da metodologia em que se baseia a investigação – Sociolinguística Variacionista – e na apresentação dos procedimentos metodológicos utilizados na coleta de dados, na organização dos corpora e na análise das informações. Caracterizamos os grupos de sujeitos entrevistados, descrevemos o instrumento de coleta de dados e as entrevistas. Explicamos ainda o fenômeno linguístico apontado – objeto de estudo – e os grupos de fatores linguísticos e extralinguísticos controlados na investigação. Por último, mencionamos os recursos utilizados, tanto nas entrevistas, quanto na transcrição fonética dos dados. 3.1 SOBRE A SOCIOLINGUÍSTICA A sociolinguística surge nos Estados Unidos nos anos 50 do século XX, contudo se desenvolve como corrente no dito país na década de 60 do século passado, a partir dos trabalhos de Gumperz, Dell Hymes e William Bright, entre outros. Bright publica em 1966 uma conferência sob o título de Sociolinguistics, obra que inaugura a nova área de estudos. Diferentes pesquisadores participaram da referida conferência, os quais mais tarde se tornaram referência neste campo de investigação, como o próprio Gumperz, Dell Hymes, Haugen, Fisher e William Labov. Este último é considerado o pai da corrente linguística que leva o seu sobrenome – Sociolinguística Laboviana – a qual também é denominada Teoria da variação ou Sociolinguística variacionista. Cezário e Votre definem a sociolinguística como: Área que estuda a língua em seu uso real, levando em consideração as relações entre a estrutura linguística e os aspectos sociais e culturais da produção linguística. Para essa corrente, a língua é uma instituição social e, por tanto, não pode ser estudada como uma estrutura autônoma, independente do contexto situacional, da cultura e da história das pessoas que a utilizam como meio de comunicação. (CEZÁRIO; VOTRE, 2009, p. 141). A Sociolinguística estabeleceu ao longo dos anos diferentes temas de investigação na área como contato entre línguas, multilinguismo, variação e mudança, etnografia da comunicação, entre outros. Essa ciência considera a relação entre linguagem e sociedade e as manifestações dos fenômenos linguísticos como algo importante, tanto em comunidades maiores, quando em pequenos grupos socioculturais. 54 É importante relembrar que desde a década de 30 do século XX diversos linguistas e filósofos da linguagem já se dedicavam a pensar a questão do social na área dos estudos da linguagem, deixando importantes contribuições. Antes do surgimento da sociolinguística, outros estudiosos da linguagem humana já sinalizavam a necessidade de desenvolver pesquisas que relacionassem língua, cultura e sociedade. Por exemplo, na França, na década de 20 do século XX, Meillet descobre que as modificações na estrutura social geram uma mudança nas condições nas quais a língua se desenvolve. Nos anos 30, dialetólogos norteamericanos e canadenses incorporaram informações sociais e geográficas ao estudo de dialetos, dividindo os participantes de acordo com o nível de escolarização. Alckmim (2000), entretanto, reconhece que realizar estudos nessa perspectiva não é uma empreitada fácil; é uma tarefa complexa explicar a relação linguagem-sociedade. Para o variacionismo não existe caos na comunicação linguística do dia-a-dia; na aparente desordem há uma ordem que pode ser explicada a partir de modelos teóricos que permitem ver a regularidade e a sistematicidade das línguas. Esse modelo busca evidenciar como uma variante linguística surge em uma língua, ou deixa de existir. A sociolinguística nasce em um momento em que o formalismo está em pleno vigor ( em especial representado pelo gerativismo chomskiano) defendendo uma visão diferente, isto é, o fenômeno da linguagem aliado ao contexto social e cultural. Em outras palavras, a nova ciência se posiciona de forma reacionaria à corrente gerativa, postulando a intrínseca relação entre língua e sociedade e a possibilidade de sistematização da variação existente na linguagem humana. Em 1963, Labov realiza um estudo pioneiro nos Estados Unidos, em Massachusetts, sobre o inglês falado na ilha de Martha’s Vineyard. Em seguida o sociolinguista realiza pesquisas sobre a estratificação social do inglês nova-iorquino e sobre o inglês falado pelos adolescentes do Harlem, também em Nova Iorque. Suas investigações demonstraram que a língua é um elemento relevante na identificação dos grupos sociais, pois revela como a sociedade se organiza, agrupando indivíduos que têm características linguísticas semelhantes e, por outro lado, distanciando os diferentes. Labov formou seguidores em todos os continentes; no Brasil podemos encontrar nos bancos de tese das nossas universidades pesquisas sobre o português falado nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, entre outras. Segundo Mollica (2008, p. 10), a Sociolinguística considera, em especial, como objeto de estudo a variação, “entendendo-a como um princípio geral e universal, passível de ser descrita e analisada cientificamente”. O sociolinguista tem sua atenção focada em todas as 55 manifestações linguísticas de diferentes níveis de uma língua; ele tem como pressuposto que variação e mudança são fenômenos que estão intrinsecamente ligados às línguas e, assim, devem ser considerados na análise linguística. Um dos objetivos desse ramo da Linguística é compreender os principais fatores que originam a variação linguística e qual o papel de cada um deles no panorama em que se apresenta a variável (CEZÁRIO; VOTRE, 2009). Em pesquisas nessa área, em geral, o objeto de estudo é a língua vernácula falada pelo indivíduo em situações em que este dá mais atenção ao que quer dizer, do que como dizer, ou seja, em circunstâncias espontâneas. Parte-se do objeto para elaborar uma teoria, considerando o falante-ouvinte real –- e não ideal – em situações concretas de comunicação linguística, a fim de descrever e trazer a luz a um determinado fenômeno de linguagem. William Bright, juntamente com outros pesquisadores explica que o objeto da Sociolinguística é a diversidade linguística e definem um conjunto de fatores sociais que, segundo eles, estão ligados a essa diversidade que são: i) identidade social do emissor ou falante; ii) identidade social do receptor ou ouvinte; iii) o contexto social; iv) as atitudes linguísticas dos falantes. (ALCKMIM, 2000, p. 28). A variação linguística não é concebida como algo que se dá de maneira indiscriminada, mas como um fenômeno motivado culturalmente, tanto por fatores linguísticos, quanto extralinguísticos dos mais diversos. Ela não é assistemática e demonstra a predisposição das línguas para adaptar-se, como meio de comunicação. Mollica (2008) diz que todas as línguas naturais são heterogêneas; um mesmo sistema linguístico pode apresentar formas distintas, mas que são equivalentes, em diferentes planos, como no sintático, lexical e fonético-fonológico. Essa heterogeneidade pode ser observada, por exemplo, no português brasileiro. Linguistas como Dell Hymes afirmam que a sociolinguística é uma área de estudos que engloba aportes de várias disciplinas, como a sociologia, a linguística, a psicologia, entre outras, e defendem que ela é uma ciência autônoma, pois a sua meta primordial é identificar, descrever e interpretar as variáveis que interferem na variação e mudança linguística. Labov (2008) diz que a sociolinguística é uma ciência do social e esclarece que essa disciplina se distingue da linguística porque dá mais ênfase e atenção às variáveis extralinguísticas que interatuam na linguagem humana. O autor evidenciou por meio de suas pesquisas que, para entender a mudança linguística, é essencial refletir também sobre a sociedade que em que ela ocorre, já que a língua sofre pressões sociais a todo momento. Cezário e Votre (2009) abordam a relação linguagem- sociedade, explicando que as pessoas que fazem parte em uma mesma comunidade de fala compartilham entre si várias ações e experiências em comum. 56 Dessa forma, as trocas de experiências proporcionam que esses indivíduos compartilhem valores linguísticos e normas de avaliação dos usos que são feitos da linguagem, embora não usem a linguagem necessariamente da mesma forma; podemos observar esse fenômeno, por exemplo, entre pessoas que pertencem a uma mesma religião, a uma mesma profissão, etc. Mollica (2008) explica o papel do pesquisador que atua nessa área: Antes de tudo, o linguista deve compreender como se caracteriza uma determinada variação de acordo com as propriedades da língua, verificar seu status social positivo ou negativo, entender o grau de comprometimento do fenômeno variável no sistema e determinar se as variantes em competição acham-se em processo de mudança, seja no sentido de avanço, seja no de recuo da inovação. Em última análise, deve definir se o caso é de variação estável ou de mudança em progresso [...]. (MOLLICA, 2008, p. 10) A fim de compreender essa variação linguística mencionada por Mollica – e que está presente em todas as línguas humanas – surge a Teoria da Variação que, conforme Tarallo (2001, p. 6), “trata-se de um modelo teórico-metodológico que assume o „caos‟ linguístico como objeto de estudo”, no intuito de apreender e sistematizar variantes linguísticas usadas por uma mesma comunidade de fala. Mollica afirma que a variação é estruturada conforme as propriedades da língua enquanto sistema, e se implementa porque é contextualizada com regularidade. Assim, não se admite a hipótese da variação livre. Tarallo (2001) e Mollica (2008) abordam três noções essenciais para a sociolinguística, que são os conceitos de variante linguística, variável linguística e variável dependente: o termo variante é utilizado para designar uma forma linguística que é utilizada em alternância com outra forma, isto é, elas concorrem entre si, no que diz respeito ao uso, sem que haja mudança de significação. “Entendemos então por variantes as diversas formas alternativas que configuram um fenômeno variável, tecnicamente chamado de variável dependente.” (MOLLICA, 2008, p. 11). Elas podem permanecer estáveis nas línguas durante um período de tempo breve ou inclusive por vários séculos, ou podem mudar, quando uma das formas linguísticas se extingue: neste caso temos um fenômeno de mudança em progresso. Para Tarallo (2001, p. 8), “„variantes linguísticas‟ são, portanto, diversas maneiras de se dizer a mesma coisa num mesmo contexto, e com o mesmo valor de verdade. A um conjunto de variantes dá-se o nome de „variável linguística‟”. Em seu texto, o sociolinguista apresenta uma divisão binária das variantes: o padrão (que em geral é simultaneamente conservador e de prestígio na comunidade linguística) e o não padrão (que comumente está 57 associado às formas inovadoras e estigmatizadas socialmente). Como exemplo, temos a marcação do plural no português brasileiro: a variante é padrão, e a ausência do fonema [ø], não padrão, situação em que ambas as variantes concorrem entre si. Mollica menciona que “uma variável é concebida como dependente no sentido de que o emprego das variantes não é aleatorio, mas influenciado por grupos de fatores (ou variáveis independentes) de natureza social ou estrutural”. (MOLLICA, 2008, p. 11). A autora classifica as variáveis em dois tipos: as internas que são os fatores de natureza fono-morfosintáticos, os semânticos, os discursivos e os lexicais. Também dizem respeito às características do sistema linguístico em seus diversos níveis, considerando tanto o plano do significante e do significado, quanto os diferentes subsistemas da língua. Os fatores externos são aqueles intrínsecos ao sujeito como etnia e gênero/sexo, os sociais (profissão, classe social, etc.) e os relacionados ao contexto de que o individuo faz parte (situações formais / informais). Sobre os tipos de variação linguística, as pesquisas sobre os processos de variação – e mudança linguística – formulam, basicamente, três tipos de variação: a variação regional (que está associada a distâncias espaciais entre cidades ou entre estados, por exemplo); a variação social (que está ligada a diferenças entre grupos socioeconômicos); e a variação de registro (que tem a ver com o contexto e o grau de formalidade nas comunicações entre os usuários da língua). (CEZÁRIO; VOTRE, p. 144-145) Os autores ressaltam que essas variáveis não funcionam de forma isolada; ao contrário, elas se comportam de maneira interativa e em todos os níveis da língua. Eles afirmam ainda que a análise das variantes pode determinar duas situações: a presença da estabilidade entre variantes (variação) e a tendência a mudança, com o aumento do uso de uma das variantes em uma comunidade linguística (mudança em curso). A variação pode ser identificada com facilidade e está relacionada com a interferência dos fatores sociais dos mais diversos como o prestígio de determinado grupo numa comunidade, o gênero, a faixa etária, entre outros. Portanto, devemos lembrar que um período de variação precede a mudança. A variação estável diz respeito às diferenças linguísticas que marcam cada grupo social, cada cidade, região, cada canal de comunicação – seja oral ou escrito – e é inerente a todas as línguas, em um determinado período. Tarallo (2001) ressalta que, independente dos eixos – diatópico e diastrático – ou de outros que possam surgir, a variação é um continuum, e que por isso não é possível estabelecer os limites em que ela se manifesta: é mais plausível discutir sobre tendências a usos de formas linguísticas motivadas por condicionamentos variados, em uma comunidade linguística. Entendendo por comunidade 58 linguística o conjunto de indivíduos em que se vai estudar determinado fenômeno da linguagem, os quais compartilham normas e usos linguísticos, quando se estuda uma comunidade linguística, a primeira coisa que se observa é a existência da diversidade, pois não há comunidade homogênea; lembremos que a variedade linguística não é um entrave para a sociolinguística, mas uma característica intrínseca da linguagem. Concordamos com Tarallo (2001) quando afirma que para a sociolinguística a língua é como um campo de batalha onde há a pressão de duas forças que atuam a fim de garantir a unidade e a diversidade. Isso faz com que a língua, ao mesmo tempo em que apresenta inovações, também se apresente de maneira coesa. Em outras palavras, o sistema linguístico exibe uma unidade, mas dentro dela existe a heterogeneidade que se deve ao caráter dinâmico e motivador inerente à língua. Sobre os fatores extralinguísticos e linguísticos, no início das primeiras pesquisas – por volta da década de 60 e 70 do século passado – dava-se maior ênfase aos primeiros em detrimento dos segundos. Porém, por volta dos anos 80 do mesmo século, Labov chama a atenção de que os aspectos linguísticos deveriam receber mais atenção do que os fatores exteriores à língua nos estudos dessa nova ciência. Ao longo do tempo, a teoria variacionista sofreu diversas modificações, dando-se cada vez mais espaço aos fatores linguísticos. Alckmim (2000) menciona que todas as línguas são sempre continuações históricas e que as modificações, ao longo de tempo, fazem parte da história das línguas. As variações linguísticas presentes em determinada comunidade devem-se a fatores diversos como a origem geográfica do indivíduo, idade, gênero, entre outros, que fazem com que os sujeitos falem de formas diferentes. Para a sociolinguística nenhum fenômeno se manifesta na linguagem humana por acaso. A autora também acrescenta que as variedades linguísticas utilizadas pelos indivíduos em uma situação comunicativa devem buscar atender às expectativas das convenções sociais; caso contrário, esses indivíduos podem ser recriminados. Os sujeitos de qualquer comunidade que seja precisam ter noção de quando devem mudar de uma variedade linguística para outra, em função do contexto. Alckmin (2000) chama de registros ou variantes estilísticas as variedades ligadas ao contexto. Os indivíduos diversificam sua fala nas interações verbais de acordo com as circunstâncias em que se encontram. A autora lembra também que, de certa maneira, as variedades linguísticas são valoradas de acordo com a hierarquia dos grupos sociais, ou seja, em todos os grupos sociais existem variedades linguísticas classificadas como superiores e inferiores, algo que está relacionado intrinsecamente com o valor do indivíduo que a usa em determinada sociedade. Surgem, então, as variedades de prestígio e as desprestigiadas; a 59 variedade padrão (mais valorizada) e a não padrão (menos valorizadas). A variedade padrão é aquela eleita como o modo “correto” de se usar determinada língua e que representa o ideal de homogeneidade linguística (que é um mito) historicamente definido. Segundo Alckmin (2000, p.40), “a definição de uma variedade padrão representa o ideal de homogeneidade em meio à realidade concreta da variação linguística – algo que, por estar acima do corpo social, representa o conjunto de suas diversidades e contradições”. A avaliação social das variedades linguísticas é algo que se dá em qualquer comunidade de fala do mundo e está fundamentada, muitas vezes, em critérios não linguísticos, isto é, são apreciações de natureza política e social. No entanto, segundo Alckmin (2000), a padronização em uma determinada língua é historicamente definida, isto é, cada época irá decidir o que considera ou não como padrão com relação a seus aspectos lexicais, gramaticais, fonético-fonológicos, etc. Por exemplo, certos sons de uma língua podem ser considerados como padrão em uma época e podem deixar de sê-lo em outra, ou vice-versa. Como as línguas são dinâmicas e mudam constantemente, a definição de “certo” ou “adequado” muda também. Nesta seção ainda relembramos a diferença entre variação e mudança linguística. A variação não indica necessariamente mudança linguística, porém a mudança advém de um processo anterior de variação. Em linhas gerais, por um lado, a língua é um sistema flexível e que mostra variações; por outro, apesar das variações existentes, ela possui elementos que são comuns (gramaticais, lexicais, fonéticos) às variedades da língua. Weinreich, Labov e Herzgov (2006) postulam, em 1965, fundamentos empíricos para uma mudança linguística; entretanto os linguistas norte-americanos enfatizam que o objetivo da obra não é postular uma teoria de mudança totalmente elaborada (e não a apresenta), mas, sim, promover uma discussão e formulação de uma série de princípios empíricos os quais nenhuma teoria da mudança pode evitar. Os estudos mencionados tinham como foco problematizar a transição e o encaixamento sociolinguístico das mudanças, realizar algumas referências sobre o problema da avaliação e os fatores condicionantes da implementação; os dois últimos, em realidade, foram pouco discutidos, e tem servido de subsídios para pesquisas futuras. Apesar das restrições apontadas pelos próprios autores, esse trabalho é considerado como um ponto de partida para as pesquisas sobre a mudança linguística, pois já sinaliza que o aparente caos do sistema linguístico, mesmo sendo heterogêneo, pode ser analisado, organizado e interpretado. Os três sociolinguistas, em conjunto, vão de encontro aos modelos construídos pela linguística histórica de língua homogênea, em busca de uma nova teoria 60 capaz de olhar o fenômeno linguístico, ligado à sociedade, como algo plausível e inerente a ele. Weinreich, Labov e Herzog (2006) formulam cinco dimensões para a apreciação dos fenômenos de mudança linguística – e variação: (i) os fatores universais que limitam a mudança (e variação) podem ser tanto sociais quanto linguísticos; (ii) o encaixamento das mudanças linguísticas no sistema linguístico e social da comunidade; (iii) a avaliação das mudanças em termos de possíveis efeitos sobre a estrutura linguística e sobre a eficiência comunicativa; (iv) a transição, momento em que há mudanças intermediárias; (v) a implementação da mudança: estudo dos fatores responsáveis pela implementação de uma determinada mudança, ou seja, a explicação para o fato de a mudança ocorrer em uma língua e não em outras, ou na mesma língua em outros momentos. Após o trabalho de sistematização, o sociolinguista poderá estabelecer as regras linguísticas para o fenômeno analisado, as quais não devem ser definitivas, optativas ou obrigatórias. A hipótese da ausência de condicionamento das variantes não é aceita pelos pesquisadores neste campo, ou seja, não se admite a variação livre como explicação para os fenômenos de linguagem. Apesar de os sociolinguistas terem desenvolvido métodos para identificar se uma variante está vencendo ou não outra variante pré-existente, Cezário e Votre (2009) afirmam que definir se um fenômeno linguístico trata de uma variação estável ou de um processo de mudança é algo complexo. Os autores explicam que, tanto um estudo em tempo aparente (como por exemplo, por meio de técnica de pesquisa baseada em dados coletados de indivíduos de diferentes faixas etárias, a fim de analisar uma dada forma linguística), quanto uma investigação em tempo real (que se dá, por exemplo, através da pesquisa de um fenômeno linguístico em duas ou mais épocas), podem ser realizados. Faz-se necessário o estudo do fenômeno em tempo real para confirmar as hipóteses levantadas no estudo de tempo aparente. 3.2. SOBRE OS MÉTODOS SOCIOLINGUÍSTICOS Tarallo (2001) e Silva-Corvalán (2001) tratam das metodologias e técnicas utilizadas pela Sociolinguística. Tarallo discorre sobre a relação entre objeto de estudo e metodologia afirmando que: “O modelo teórico-metodológico da sociolinguística parte do objeto bruto, não polido, não aromatizado artificialmente [...] – o fato linguístico – é o 61 ponto de partida e, mais uma vez um ponto ao qual o modelo espera que retornemos, sempre que encontramos dificuldades de análise.” (TARALLO, 2001, p. 18). Em outras palavras, a ligação fenômeno linguístico e método constitui o pilar das pesquisas nesse campo e um ponto a ser considerado. Silva-Corvalán (2001), na obra Sociolinguística y pragmática del español, no seção dois, trata das metodologias utilizadas nas pesquisas sociolinguísticas em geral. A partir de suas experiências, assim como de exemplos deixados por outros estudiosos nessa área, a autora apresenta diversos caminhos dentro desse campo de investigação, aliados a diferentes exemplos, destacando ao longo do texto as vantagens e desvantagens de cada um a ser percorrido. Para iniciar, Silva-Corvalán (2001) afirma que um dos grandes alvos dessa disciplina consiste no desenvolvimento de técnicas e metodologias seguras para o estudo da fala humana, a coleta e a seleção das informações, além da sua análise. Em linhas gerais, os pesquisadores nessa área admitem que ainda não há uma técnica ou método ideal para a investigação dos fenômenos da linguagem desde a perspectiva sociolinguística. Uma pesquisa sociolinguística visa a dar conta das estruturas da língua (em geral, a língua oral, mas sem descartar a língua escrita) por meio de métodos descritivos e interpretativos. É um campo de estudos em que a sincronia se explica, em geral, como decorrência de processos de diacronia já concluídos, ou no seu início, ou em estágio de desenvolvimento. É uma ciência que considera tanto a análise qualitativa quanto quantitativa para descrever e explicar os fenômenos linguísticos a partir de dados reais, ou seja, seu objeto de estudo é a fala viva dentro de um contexto real de uso em uma determinada comunidade. (SILVA-CORVALÁN, 2001, p. 38). A autora apresenta cinco passos utilizados nas pesquisas sociolinguísticas e esclarece que não há uma única maneira para realizar estudos dessa natureza, que são: i) observação da comunidade e hipótese de trabalho; ii) seleção dos falantes; iii) coleta de dados; iv) análise de dados e v) interpretação dos resultados das análises. 62 3.2.1 Observação da comunidade e hipótese de trabalho A ordem em que essas atividades são realizadas, ou seja, a observação da comunidade e a elaboração da hipótese da pesquisa, em geral, são flexíveis e estão relacionadas diretamente com o objetivo do estudo, segundo Silva-Corvalán (2001). No entanto, o fator principal que norteará a execução das pesquisas nesse campo é o objetivo e a hipótese precisa, de certa forma, ser flexível, pois o investigador pode começar a pesquisa com uma conjectura mais geral e, ao longo do percurso, e por meio das evidências, perceber a necessidade de dar um novo direcionamento ao seu trabalho, ou seja, de formular outras hipóteses. SilvaCorvalán (2001) apresenta dois exemplos de pesquisas a título de ilustração: um deles foi o estudo realizado pela própria autora sobre as variações morfossintáticas e fonológicas da fala da comunidade de Covarrubias, na Espanha. Nessa pesquisa, a observação detalhada da comunidade mencionada, por parte da pesquisadora, lhe permitiu reelaborar, de forma mais detalhada, sua hipótese inicial. Outro ponto destacado por Silva- Corvalán (2001) são as questões éticas que entram em jogo quando um pesquisador realiza um estudo de campo: os critérios devem ser avaliados em função da cultura e do país dos informantes, e conforme também o acordo estabelecido entre o participante e o investigador. O pesquisador, nesse caso, deve assegurar ao sujeito o sigilo das informações fornecidas, assim como sua identidade preservada, entre outras questões. Recomenda-se não omitir o objetivo geral da pesquisa ao participante envolvido. O relacionamento estabelecido com os sujeitos participantes nos trabalhos de campo é outro tema que preocupa em especial os sociolinguistas, pois, em diversas ocasiões, algumas conversas abordam conflitos pessoais que afligem o participante do estudo e precisam, portanto, de uma intervenção do pesquisador. Diversos sociolinguistas, após o término de seus estudos – os norte-americanos, por exemplo – têm tomado a decisão de comprometer-se a favor dos grupos chamados latinos. (SILVA-CORVALÁN, 2001, p.41, 42). No entanto, esclarecemos que fica a critério do pesquisador esse tipo de postura ou decisão. 3.2.2 Seleção da amostra dos falantes Nas pesquisas sociolinguísticas, a eleição da amostra dos participantes deve estar condicionada ao objetivo do estudo e à hipótese inicial. Nesse tipo de estudos, podemos abarcar uma amostra mais homogênea de sujeitos (idade, gênero, grau de escolaridade, etc.) se levamos em conta os fatores linguísticos como principal foco da pesquisa. A população 63 deve ser selecionada de acordo com um método que de fato garanta uma amostra representativa. Na realidade, grande parte dos trabalhos nessa área nos dá apenas uma noção parcial do fenômeno linguístico, já que nem sempre é possível nos certificarmos de que a amostra da comunidade é mesmo representativa. Após determinar os critérios de seleção dos fatores extralinguísticos da pesquisa, é possível utilizar técnicas, como a de amostragem aleatória, por exemplo, com a finalidade de obter uma amostra representativa de cada comunidade a ser pesquisada. Um exemplo da aplicação dessa técnica é a escolha de um sujeito de cada grupo diferente de indivíduos, até completar o número total necessário para um determinado estudo. Apesar de ser um procedimento comum, Silva-Corvalán (2001) afirma que essa metodologia de seleção dos sujeitos, aplicada às pesquisas sociolinguísticas, de maneira geral, tem revelado desvantagens, as quais não mencionamos nesta dissertação, por não se tratar do nosso objetivo. Outra técnica de seleção é a amostragem intencionada, a qual consiste em definir com antecipação as categorias sociais (gênero, idade, nível social, etc.) e o número global de sujeitos que se pretende abarcar no estudo. O sociolinguista escolhe de forma completamente aleatória os participantes necessários para fazer parte de cada subgrupo, ou de acordo com uma amostra proporcionalmente equivalente à estrutura da população. E o número de sujeitos na amostra? Qual o número ideal de participantes necessário para garantir a validade e representatividade da pesquisa? Labov sugere o número de 5 falantes em cada subgrupo. Esse ainda é um problema por resolver dentro dos estudos sociolinguísticos, ou seja, o número ideal é difícil de estabelecer. Vai depender do objetivo da pesquisa, e ainda dos pontos teóricos e práticos em questão como, por exemplo, a natureza do fenômeno que será investigado, os recursos que os investigadores dispõem, entre outros. (SILVA-CORVALÁN, 2001 p. 44). Seja qual for o método de amostragem estabelecido para o estudo, uma pesquisa que visa identificar as correlações sociolinguísticas deve respaldar-se em um estudo sociológico que defina os níveis sociais válidos para a comunidade que se pretende investigar. Podemos, portanto, partir de dois métodos: o objetivo ou subjetivo. Na prática os sociolinguistas têm se baseado, tanto em seu próprio conhecimento sobre a comunidade investigada, quanto em estudos sociológicos e antropológicos que definem os estratos ou camadas sociais dos sujeitos envolvidos. Esses estratos ou níveis sociais são delimitados de acordo com fatores socioeconômicos (educação, moradia, bairro, ocupação, etc.) que se dividem em várias categorias e a cada uma é dado certo valor (SILVA-CORVALÁN, 2001 p. 48). A definição de classe social vem sendo considerada bastante ampla porque nem sempre mantém uma 64 correlação com a maneira como os indivíduos falam. A autora ressalta que certo número de pesquisas sociolinguísticas não tem incluído a classe social como um dos fatores de variáveis independentes. Em resumo, Silva-Corvalán (2001) diz que qualquer que seja o método que o investigador empregue, deverá decidir que fatores extralinguísticos devem ser incluídos na análise. Os que têm sido considerados com mais frequência são a idade, o sexo (gênero), o nível educacional, a ocupação e um fator complexo denominado classe social – nível socioeconômico ou nível sociocultural. 3.2.3 Coleta dos dados Depois de definida a população que vai ser investigada, o próximo passo é a coleta dos dados linguísticos. Nesse momento, é necessária uma técnica denominada pela autora como entrevista sociolinguística ou conversação gravada, como alguns pesquisadores preferem chamar. Essa técnica tem sido modificada e aperfeiçoada com o passar do tempo. O maior objetivo da conversação gravada consiste na obtenção de uma amostra de língua oral o mais espontânea possível, e mais próxima da fala natural, informal e coloquial da vida cotidiana. Surge então um obstáculo para o alcance desse objetivo, que Labov intitula de “paradoxo do observador”, que é a observação sistemática dos fenômenos linguísticos a serem analisados pelo próprio do pesquisador, o qual é, na maioria das vezes, um indivíduo estranho para o sujeito investigado. A sociolinguística tem buscado diferentes saídas para o “paradoxo do observador” e uma delas é a gravação secreta da fala dos informantes envolvidos na investigação; porém vale ressaltar que essa estratégia não é universalmente aceitável. Sendo assim, os sociolinguistas vêm desenvolvendo estratégias para utilizar todos os recursos possíveis para conseguir que o sujeito da pesquisa esqueça que está sendo gravado e que sua atenção se distancie da sua fala, evitando, dessa maneira, os traços característicos do estilo formal na fala coletada. (SILVA-CORVALÁN, 2001 p. 52, 53). A autora trata também no texto sobre o contato inicial com os sujeitos, isto é, sobre como encontrar indivíduos que estejam dispostos a participar do trabalho de investigação. Há várias técnicas e cada uma tem suas vantagens e desvantagens. Uma possibilidade é gravar entrevistas sem um contato prévio com os participantes, mas há o risco de perda de tempo conversando com indivíduos que não atendem aos requisitos do estudo. Outra possibilidade é a participação em algumas atividades da comunidade a ser analisada, com o objetivo de alcançar a confiança dos seus membros e conseguir uma fala mais espontânea possível através 65 das interações entre os sujeitos (técnica de participante - observador). Um dos principais inconvenientes dessa técnica é o risco de obter gravações de má qualidade, a depender do objetivo do estudo que se realize como, por exemplo, em estudos fonéticos. Outro ponto importante é relativo às características do investigador (nível socioeconômico, gênero, variedade de língua, seu vínculo com a comunidade, etc.) em relação aos sujeitos do estudo proposto. O perfil do pesquisador desempenha um papel crucial, pois de certa forma irá guiar o tipo de relação que ocorrerá entre os participantes da conversação e exercerá influência no comportamento dos sujeitos. Já é comprovado que o fato de o investigador ser parte da comunidade ou não pode influenciar nos dados coletados tanto de forma qualitativa quanto quantitativa. Quanto mais próximo da comunidade e semelhante a ele for o pesquisador, maior a possibilidade de coletar dados mais espontâneos e não formais. (SILVA-CORVALÁN, 2001, p. 56, 67). O sociolinguista pode definir três tipos de conversação, a fim de controlar a participação dos sujeitos em sua pesquisa: livre (o pesquisador não exerce nenhum controle sobre os assuntos da conversa, nem sobre a quantidade de participação dos falantes); semidirigida (é conduzida basicamente como uma conversação livre só que o pesquisador seleciona alguns temas previamente) e dirigida (que segue uma ordem e um conteúdo planejado previamente a fim de obter a maior quantidade de dados em pouco tempo como, por exemplo, leitura de textos e palavras que contêm o fenômeno a ser analisado). Tarallo (2001) explica com mais detalhes o que são as conversações livres – narrativas. Segundo o autor, a narrativa de vivências pessoas é um instrumento valioso para o sociolinguista, pois, desta forma, o investigador poderá coletar dados que são fruto das experiências mais profundas vividas pelo participante de uma comunidade linguística. Nesse momento, ao colocá-las em evidência, o indivíduo entrevistado, de maneira inconsciente, deixa de se preocupar com ou como irá dizer, já que está envolvido emocionalmente com seus relatos, no momento da gravação. O sociolinguista deseja e precisa de situações naturais de comunicação e que o participante envolvido não esteja preocupado com a forma da sua fala, ou seja, o pesquisador busca o dado mais natural possível. Em resumo, Silva-Corvalán (2001) afirma que não existem fórmulas perfeitas; ela apenas sugere algumas possibilidades a serem exploradas. Outras técnicas de coleta de dados usadas nas pesquisas sociolinguísticas são as respostas breves e anônimas, entrevista, por telefone, provas formais de repetição, resposta a questionários, perguntas indiretas e diretas que envolvam a valoração de usos linguísticos, etc. 66 3.2.4 O estudo das atitudes Os trabalhos sociolinguísticos têm considerado de grande valor os estudos das atitudes linguísticas, pois estes trazem consigo aspectos importantes sobre os próprios falantes, sua posição dentro da comunidade, ou grupo social a que pertencem, seus valores e preconceitos linguísticos. As atitudes positivas ou negativas do indivíduo diante de um fenômeno linguístico variável podem ser um vestígio do futuro de um fenômeno variável, pois uma das variantes pode tornar-se categórica, pondo fim à variação. Os estudos das atitudes linguísticas ainda são importantes para definirmos, por exemplo, uma comunidade de fala, pois esta em geral compartilha as mesmas normas de avaliação com respeito à língua que usam. Os caminhos mais utilizados para identificar as normas avaliativas dos falantes são o juízo de gramaticidade e aceitabilidade e os juízos sobre os próprios falantes, extraídos a partir de perguntas diretas e indiretas, entre outras técnicas (SILVA-CORVALÁN, 2001 p. 63-65). 3.2.5 Análise dos dados linguísticos Por último, Silva-Corvalán (2001) aborda o tema da análise de dados, processo que envolve dois trabalhos: a análise qualitativa (essencial) e quantitativa (que pode ser ou não realizada, a depender da pesquisa). Cada uma tem suas peculiaridades. Como exemplos, a autora menciona um estudo realizado por ela própria sobre a variável fonológica (rr) realizado em Median-Ribera em 1997 em Porto Rico e outro sobre a análise de uma variável morfossintática em cláusulas relativas. Os dados estatísticos servem como ponto inicial para os estudos sociolinguísticos e não têm uma finalidade em si mesmos; são elementos importantes para que o pesquisador estabeleça conclusões acerca de fatores que favorecem ou não o uso de uma variante. 3.3 DADOS METODOLÓGICOS DA PRESENTE PESQUISA Nesta seção, descrevemos a metodologia empregada na investigação como o perfil dos sujeitos selecionados, os instrumentos aplicados na coleta de dados e o fenômeno de variação analisado, ou seja, as realizações fonéticas de encontradas na produção oral dos informantes entrevistados. Explicamos, ainda, os procedimentos e os recursos utilizados durante as entrevistas, assim como o tratamento dos dados avaliados. 67 3.3.1 Os participantes da pesquisa Os dados do estudo foram obtidos de 20 participantes de duas regiões diferentes do território brasileiro. Os informantes são do gênero/sexo feminino, estudantes de graduação do curso de Letras/Espanhol de universidades públicas localizadas em: (i) São Paulo, nas cidades de Campinas e Araraquara; (ii) Bahia – na cidade de Salvador. Realizamos entrevistas com estudantes de idades entre 19 e 30 anos. O primeiro grupo é formado por 10 discentes oriundas de diferentes cidades do interior de São Paulo, classificadas nesta pesquisa como falantes da variedade caipira: Araçatuba, Araraquara, Bauru, Campinas, Ibitinga, Ribeirão Preto, São Carlos e São José dos Campos. Quase todas (9/10) estudantes residiam, na época da entrevista, na cidade de Araraquara/SP com os pais, ou em pensionatos, ou casas alugadas por conta do curso de graduação; e uma que morava em Campinas/SP. Em geral, segundo relatos das entrevistadas, o interesse em estudar Letras/Espanhol surgiu, principalmente, pela afinidade com a língua estrangeira em questão. Outra razão apresentada por algumas estudantes foi a falta de vagas disponíveis para cursar a primeira opção escolhida no processo seletivo, na ocasião: graduação em Letras/Inglês. O segundo grupo está composto por 10 estudantes nascidas no estado da Bahia, classificadas neste estudo como falantes da variedade baiana, das cidades de Ibirapitanga, Ilhéus e Salvador. Nove participantes vivem na última cidade mencionada desde que nasceram. A estudante de Ilhéus fixou residência em Salvador já na fase adulta, a partir do ano de 2006 e, no momento da entrevista (ano de 2011), estava completando cinco anos de residência na capital baiana. De modo geral, o interesse das alunas pela carreira de Letras/Espanhol deu-se pela afinidade com a língua e seus aspectos culturais. Em vista do fenômeno fonético estudado, agrupamos as informantes em dois grupos, conforme o tempo de exposição formal ao ensino da língua espanhola: o primeiro deles, um grupo de estudantes que tinham cursado até 250 horas de aula e o segundo, um grupo de alunas que já haviam cursado 350 horas de estudos ou mais. Elegemos esse fator – tempo de exposição formal ao espanhol – a fim de verificar se há diferenças ou semelhanças na aquisição do fonema vibrante múltiplo do espanhol conforme o período de contato com a língua mencionada. Algumas estudantes, participantes da investigação, tiveram contato com a língua espanhola no ensino médio, ou em cursos preparatórios para ingressar na universidade. 68 Portanto, gostaríamos de ressaltar que esse período de estudo não foi considerado em nossa pesquisa, visto que esses cursos tiveram, como uma proposta de ensino, o desenvolvimento de apenas uma das habilidades linguísticas, que é a compreensão leitora. Uma das entrevistadas fez um curso de um mês na Espanha e outras cinco fazem ou fizeram cursos de extensão de espanhol paralelos à graduação. O primeiro contato com as informantes do interior de São Paulo deu-se por intermédio de professores da língua do quadro efetivo das universidades, os quais fazem parte de uma lista de discussão acerca de temas relacionados com o ensino e aprendizagem de ELE no Brasil. Um dos docentes da lista mencionada se dispôs a contatar suas alunas por e-mail e, do grupo de estudantes contatadas, todas participaram da investigação. As entrevistas foram realizadas durante um colóquio de língua, literatura e cultura espanhola ocorrido na Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho-UNESP, no campus de Araraquara, em setembro de 2011 e também na Universidade de Campinas-UNICAMP no mesmo período. O contato com uma parte das estudantes das universidades localizadas em Salvador ocorreu no período em que a investigadora ministrava aulas como professora substituta na Universidade Federal da Bahia – UFBA–, no período da coleta de dados. Entramos em contato com as participantes por e-mail e realizamos as entrevistas na própria instituição, entre novembro e dezembro de 2011. Para concluir a coleta de dados, entrevistamos também estudantes do curso de Licenciatura em Letras/Espanhol e Literaturas da Universidade do Estado da Bahia, instituição onde ministramos aulas, atualmente, como professora de espanhol. 3.3.2 Os instrumentos de coleta de dados Os instrumentos de coleta de dados foram elaborados para a pesquisa com as participantes das duas regiões, no intuito de apreender o fenômeno linguístico apresentado. O objetivo era que as participantes produzissem diferentes estilos de linguagem que nos permitissem depreender desde a fala espontânea até a fala em contextos mais formais. A pesquisa toma como referencial a proposta de coleta de dados formulada por Labov (2008[1972]). Nesta pesquisa coletamos quatro estilos de fala, em diferentes contextos. Dividimos os contextos em A, B, C e D. O contexto A é o estilo de fala espontâneo. A primeira parte da entrevista deu-se por meio de uma conversa informal em espanhol, no intuito de coletar das informantes uma fala o mais espontânea possível. Antes de cada entrevista, pedimos 69 autorização às participantes para usar o gravador e iniciamos a entrevista com uma conversa informal, que nos auxiliou na coleta de dados, em especial com as estudantes do interior de São Paulo, pois não tínhamos nenhum laço afetivo, ou contato pessoal, antes da entrevista. Essa estratégia permitiu que as participantes se sentissem à vontade diante da presença do gravador e da pesquisadora. Sabemos que este procedimento causa, de certa forma, constrangimentos aos participantes da pesquisa em campo, portanto, buscamos alternativas para contorná-la como, por exemplo, perguntar sobre o fim de semana anterior, sobre a família, sobre o andamento das aulas na universidade e também as expectativas do dia a dia. No contexto A, as participantes discorreram sobre alguns temas sem respostas diretas – sem serem interrompidas –, como explicar o interesse pela língua espanhola, falar de hábitos de leitura, narrar os gostos musicais, falar sobre a relação com os meios de comunicação, sobre política, etc. Nessa etapa, apesar das estratégias utilizadas pela pesquisadora com todas as informantes, observamos que as participantes da pesquisa do grupo de Salvador demoraram mais tempo discorrendo sobre os temas propostos. Isso poderia atribuir-se ao fato de a pesquisadora ter um contato mais próximo com o grupo da Bahia do que com as estudantes paulistas. No contexto B, realizamos uma entrevista mais controlada, por meio de um questionário dirigido com 27 perguntas (anexo A). Nessa etapa, mostramos às participantes diferentes imagens com vocabulário básico para aprendentes de espanhol, de diferentes campos semânticos (objetos, frutas e legumes, pessoas famosas, instrumentos musicais, lugares, cores e animais) e fizemos perguntas a fim de que elas respondessem oralmente o que estava sendo mostrado nas imagens. Para que as entrevistadas não percebessem nosso interesse em coletar dados referentes ao fenômeno estudado, selecionamos para a entrevista dirigida, tanto palavras que continham o segmento analisado nos contextos em que pode se apresentar (9 gravuras), quanto outros vocábulos que não têm a presença da vibrante múltipla espanhola (18 gravuras), no intuito de desviar a atenção das informantes do objetivo do estudo. No contexto C, a fim de coletar outro estilo de fala mais controlado ainda, as informantes realizaram a leitura de duas fábulas de Esopo: El perro y el reflejo en el rio e El labrador y la fortuna (textos em anexo). Todas as participantes leram ambos os textos, sendo que as estudantes de níveis mais avançados de estudo da língua apresentaram nesta etapa maior fluência na leitura do que as estudantes de nível intermediário de aprendizagem, comportamento este que, de certa maneira, já era esperado. 70 O contexto D envolveu a leitura de uma lista de frases curtas que contemplam a presença da vibrante múltipla, o qual constitui uma das maiores dificuldades dos estudantes brasileiros na aprendizagem da língua espanhola. Nos estudos sociolinguísticos de vertente variacionista, considera-se leitura desde uma lista de palavras correspondentes a um estilo mais formal de linguagem do que a leitura de texto: o primeiro, segundo Labov (2008 [1972], p. 79) permite que o entrevistado reflita e avalie a sua produção oral; no segundo, o informante – na maioria dos casos – não percebe quais aspectos da sua oralidade estão sendo avaliados. Nesta pesquisa optamos por elaborar frases curtas em lugar de uma lista de palavras (pares mínimos), a fim de conservarmos, na medida do possível, as características da fala espontânea, através da elaboração de enunciados que poderiam ser emitidos em situações reais de comunicação. Tanto nas frases curtas quanto nas fábulas aparecem unidades léxicas que contêm o fenômeno objeto da pesquisa. É importante destacar que as fábulas não foram modificadas em seu conteúdo, e que também desconhecemos informações de que tenham sido utilizadas em estudos anteriores. Labov (2008 1972 ) afirma que o instrumento de coleta de dados, elaborado e dividido dessa maneira, permite ao pesquisador coletar os mesmos fenômenos em vários estilos de linguagem. Em resumo, os instrumentos de medição são os relatos de experiências, o questionário dirigido, as fábulas e a lista de frases curtas. No apêndice dois, segue o roteiro elaborado e utilizado nas entrevistas. 3.3.3 O fenômeno de variação estudado O objetivo inicial do estudo consiste em analisar as realizações fonéticas de , variável dependente, encontradas na fala das informantes pesquisadas. Considera-se a produção da vibrante múltipla espanhola , como mencionamos no início do trabalho, uma das maiores dificuldades na aprendizagem de ELE (se não a maior) em termos de pronúncia, pois a vibrante múltipla ápico-alveolar no português brasileiro tem diferentes valores fonêmicos e é realizado em poucos dialetos do país como vibrante múltipla ápico-alveolar , conforme explicamos no seção primeiro. Nesta pesquisa, foram consideradas as seguintes possibilidades de realização da variável dependente: vibrante múltipla ; vibrante simples ; fricativa velar ; fricativa glotal e retroflexa . Como exemplos encontrados no corpus, temos as 71 palavras rosa ', honra ' arrugas ' terrible ' e Aguirre ', que em português correspondem às palavras rosa, honra, rugas, terrível e Aguirre, respectivamente. Como variáveis independentes ou explanatórias, foram consideradas: (i) o contexto fonológico (ou a posição do fonema na palavra) - em início de palavra, ex: razón. - em posição intervocálica, ex: horrible. - precedida pelo fonema , ex: sonrisa. - precedida pelo fonema , ex: alrededor. - precedida pelo fonema , ex: Israel. (ii) função sintática em que se encontra o elemento observado: - núcleo do sujeito, ex: “Malrotar el dinero es gastarlo mal” - núcleo do predicado, ex: “Luis honra a sus padres” - complemento direto, ex: “Informaron el robo ayer” - complemento indireto, ex: “...ofrendaba a la Tierra un presente” - adjunto adnominal, ex: “El valor del rubí es caro” - adjunto adverbial, ex: “...aquel reflejo era, en realidad, otro perro” (iii) variedade regional dos aprendizes: -São Paulo - Bahia. (iv) tempo de exposição formal ao ensino do espanhol: - até 250 horas - a partir de 350 horas (v) estilo de fala empregado: - espontânea - entrevista dirigida - leitura de textos - leitura de frases Antes de iniciar a análise de cada variável independente selecionada para esta pesquisa, tínhamos determinadas expectativas de resultados com relação à interferência de cada uma delas na produção oral das aprendentes brasileiras de ELE nos estados da Bahia e 72 São Paulo. No que se refere aos contextos fônicos, a nossa suspeita era de que o contexto inicial era o que melhor favorecia a realização do som vibrante ápico-alveolarr, devido a sua posição saliente. Com respeito à função sintática da palavra em quem se encontra o fonema observado, na realidade, não tínhamos uma expectativa clara ou definida. Nosso objetivo, ao selecionar esta variável independente, era investigá-la com um olhar exploratório, visando dar segmento aos achados em pesquisas posteriores. No que tange à variedade regional das aprendentes de ELE, nossa hipótese inicial era que os dois grupos – variedade baiana e caipira – teriam comportamentos fonéticos díspares, devido à interferência das variedades dialetais diferentes. Supúnhamos que a variedade caipira contribuiria melhor à realização do espanhol segundo a norma padrão por dos aspectos: i) o ponto de articulação desse segmento na variedade caipira está mais próximo do som ápico-alveolar do espanhol do que o ponto de articulação na variedade baiana: na fala paulista, ele é velar , enquanto que na fala baiana o som é glotal e ii) a variedade caipira conta com o som retroflexo , o qual exige o movimento do ápice da língua, e se assemelha ao espanhol ápico-alveolar, o que poderia facilitar a produção oral de na fala das aprendentes desta variedade de língua. Sobre o tempo de exposição formal ao ensino do espanhol, tínhamos como hipótese que essa variável contribuiria para uma melhor pronúncia do fonema segundo a norma padrão. Com respeito ao estilo de fala empregado, acreditávamos que os estilos mais formais, mas controlados, favoreceriam a ocorrência de conforme a norma padrão, pois, segundo Labov (2008 [1972]), permitem que os participantes investigados reflitam e avaliem a sua produção oral. 3.3.4 Sobre as entrevistas Para maior praticidade e comodidade das participantes do estudo, as entrevistas foram feitas nas dependências das universidades onde as estudantes observadas desenvolvem suas atividades acadêmicas. Coletamos os dados das entrevistadas na UNICAMP28 e na UNESP – Campus Araraquara29 – no mês de setembro de 2011, no período da manhã e da tarde. 28 O Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da UNICAMP está localizado na Rua Sérgio Buarque de Holanda, nº 571, em Campinas - SP – Brasil. 29 Endereço da UNESP - Araraquara: Rodovia Araraquara-Jaú, km 1. Bairro dos Machados – Araraquara/SP. 73 Entrevistamos as graduandas de Letras/Espanhol da UFBA30 e da UNEB31 em novembro de 2011 e em março de 2012, respectivamente, nos turnos matutino e vespertino. Todas as etapas da pesquisa de campo foram realizadas em um único encontro com cada participante e cada entrevista durou entre 15 e 30 minutos. Em ambos os grupos – estudantes baianas e paulistas – buscamos obter as informações por meio de entrevistas em um clima em que todas se sentissem à vontade para colaborar. 3.3.5 Recursos utilizados nas entrevistas e na transcrição fonética dos dados Utilizamos nas entrevistas um gravador digital da marca Panasonic RR- US511, a fim de garantir boa qualidade de gravação. O aparelho possui cabo USB que transporta os dados em áudio direto para o computador e contém recursos que auxiliam no registro de informações sobre participantes de estudo tais como: data da entrevista, horário e tempo decorrido no momento em que se reproduz a gravação. É um instrumento de fácil manuseio e possui qualidade de som necessária para pesquisas nessa área. As entrevistas foram gravadas em formato MP332 e o tempo total de gravação foi de aproximadamente 5 horas. Para desenvolver o estudo proposto, realizamos uma transcrição fonética ampla dos dados coletados, excluindo, dessa maneira, determinadas nuances fonéticas, com a dispensa de aproximadamente 30 horas, em trechos sem dados para a pesquisa, para que se pudessem concluir as transcrições. Para auxiliar em alguns momentos o trabalho de transcrição, utilizamos um programa complementar de análise acústica – Praat -, a fim de elucidar possíveis dúvidas sobre a produção do segmento, em determinados momentos do corpus, quando a compreensão apenas audível não era possível. Vale ressaltar que não empregamos outros recursos do programa acima citado, para a apreciação dos dados propriamente dita. A análise quantitativa teve o suporte do programa VARBRUL para a análise estatística dos dados. 30 O Instituto de Letras da UFBA - ILUFBA está localizado na Avenida Adhemar de Barros, s/n – no bairro de Ondina, Salvador/BA. 31 32 Endereço da UNEB - Campus I: Rua Silveira Martins, 2555, Cabula. Salvador/BA. A sigla MP3 significa MPEG 1 Layer-3 e se trata de uma forma de compressão de dados de áudio. A característica principal do MP3 é a de possibilitar a compressão do áudio com perdas quase imperceptíveis ao ouvido humano. A técnica desse tipo de compressão é eliminar os dados de áudio que o ouvido humano não consegue perceber, reduzindo grandemente o tamanho dos arquivos, sem perder a qualidade do áudio. Informação disponível no site do Brasil Escola, ano de 2008. 74 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS Nesta seção, apresentamos e analisamos, primeiramente, como, e de que maneira, os fatores linguísticos (contexto fônico e função sintática da palavra em que se encontra o fonema em estudo) e extralinguísticos (variedade regional do aprendentes, tempo de exposição formal ao ensino do espanhol e o estilo de fala empregado) podem interferir na realização da vibrante múltipla espanhola por aprendentes brasileiros de ELE, oriundos dos estados da Bahia e São Paulo. Nosso objetivo, nesta seção, consiste também em descrever e avaliar as manifestações fonético-fonológicas de encontradas na pesquisa. Para iniciar, citamos as variantes fonéticas do espanhol, presentes na produção oral das participantes envolvidas nesta investigação. No total, foram levantadas 1919 ocorrências de no corpus coletado. Em linhas gerais, os dados revelam que, nos dois grupos pesquisados, há maior predominância da produção deste fonema como vibrante múltipla ápico-alveolar e, em seguida, a vibrante simples , sendo que a realização glotal só aparece na produção oral das estudantes baianas, e a realização fricativa velar se manifesta apenas no grupo das informantes paulistas, o que já revela, de certa forma, a influência dialetal na aquisição da nova língua estrangeira. Ver tabela 1. Nas duas variedades linguísticas, tanto a realização fricativa velar quanto a fricativa glotal tem um nível de ocorrência diminuto, em termos percentuais. No entanto, podemos observar que a percentagem de realizações glotais entre as participantes baianas é mais elevada do que a presença de produções velares no grupo de estudantes paulistas: 10% frente a 2%. Tabela 1: Realizações fonéticas de nas variedades caipira e baiana Alofones para o fonema Variedade caipira Nº 717/909 172/909 19/909 0/909 909 % 79% 19% 2% 0% 100% Variedade baiana Nº 643/1011 271/1011 0/1011 97/1011 1101 % 64% 27% 0% 10% 100% Total 1360 443 19 97 1919 75 Sobre o número total de manifestações fonéticas de encontradas no corpus analisado, 1360 casos correspondem à vibrante múltipla ápico-alveolar , 443 são vibrantes simples (27%), 19 ocorrências correspondem ao alofone fricativo velar (2%) e 97 são fricativas glotais (10%). Das 908 ocorrências do fonema identificadasna produção oral das estudantes paulistas, 717 (79%) são vibrantes múltiplas ápico-alveolares , 172 (19%) são vibrantes simples e 19 (2%) fricativas velares . Das 1011 ocorrências do mesmo fonema espanhol, coletado no grupo das aprendentes baianas, 643 casos (64%) correspondem à vibrante múltipla ápico-alveolar , 271 (27%), são vibrantes simples e 97 (10%), são fricativas glotais . Ao comparar as variedades dialetais selecionadas para esta pesquisa, observando os números percentuais, verificamos que as realizações do espanhol segundo a norma padrão se dão com maior frequência entre as aprendentes de dialeto caipira: 79% frente 64% das estudantes de dialeto baiano. Em seguida, explicamos em detalhes a relação entre a interferência dos fatores linguísticos e a realização da vibrante múltipla espanhola na produção oral das estudantes brasileiras de ELE das regiões selecionadas. 76 4.1 ANÁLISE DA INTERFERÊNCIA DE FATORES LINGUÍSTICOS Nesta seção, prosseguimos com a descrição e análise do corpus, com base na sociolinguística quantitativa, considerando as seguintes variáveis independentes: i) contexto fônico; ii) função sintática da palavra em que se encontra o fenômeno observado. 4.1.1 Realizações fonéticas de de acordo com os contextos fônicos em que ocorre o fonema Em posição inicial, em início de vocábulo, foram encontradas 778 ocorrências do fonema na amostra analisada, sendo que 621 correspondem à vibrante múltipla ápicoalveolar , o que corresponde a 80% dos dados coletados. O peso relativo é 0,57, o que nos faz supor que este contexto favorece ligeiramente à produção de pelas aprendentes de ELE neste contexto. Em posição intervocálica, foram identificadas 603 ocorrências da vibrante múltipla como ápico-alveolar, num total de 801 realizações, o que corresponde a 75%, em termos percentuais. No entanto, verificamos que esse contexto fônico, ao contrário do anterior, desfavorece ligeiramente a realização da vibrante múltipla, ou podemos afirmar que o peso relativo está próximo do neutro: 0,49. Ver tabela 2 e gráfico 1 (distribuição geral por contextos). Tabela 2: Realizações fonéticas de e sua distribuição em relação à variável contextos fônicos em que ocorre o fonema. Contextos fônicos Inicial Intervocálico Precedido de Precedido de Precedido de Total Vibrante múltipla Nº 621/778 603/801 40/54 59/112 37/58 1360/1803 % 80% 75% 74% 53% 64% 75% Vibrante múltipla P.R 0,57 0,49 0,40 0,23 0,29 77 Gráfico 1: Realizações fonéticas da vibrante múltipla nas duas variedades de língua em relação ao contexto fônico 1 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0 Inicial Interv Prec fric Prec nas Prec lat . Averiguamos, ainda, no corpus coletado, detalhes interessantes acerca das manifestações fonéticas da vibrante múltipla espanhola, quando esta sucede as consoantes alveolares , e . No que se refere à realização de precedido de (como, por exemplo, na palavra Israel '), ao submeter os dados ao programa estatístico, encontramos, no total, 40 ocorrências de como vibrante múltiplo ápico-alveolar, num total de 50 casos, o que corresponde em termos percentuais a 74% dos dados. No que tange a pesos relativos, notamos que o referido contexto fônico, em geral, desfavorece ligeiramente à produção do som padrão . Nos casos em que o fonema nasal alveolar antecede o fonema , (como, por exemplo, na palavra honra '), foram encontradas 112 ocorrências no total, sendo que 59 casos correspondem à vibrante ápico-alveolar (53%). Esse contexto, segundo o corpus gravado, é o que menos favorece a produção de . O peso relativo é, apenas, 0,23. Sobre a realização de , quando este sucede o fonema lateral alveolar , (como, por exemplo, na palavra alrededor '), foram encontrados 58 casos, sendo que 37 correspondem ao som , que em números percentuais equivalem a 64%. Verificamos, também, que esse contexto fônico não é favorável à realização do fonema em estudo conforme a norma padrão, conforme mostra a tabela 2. O peso relativo é 0,29. Em seguida, apresentamos uma análise comparativa das realizações de nas variedades caipira e baiana, considerado ainda os contextos fônicos em que ocorre o fonema em questão. 78 Como já mencionamos anteriormente, em posição inicial, em início de vocábulo, encontramos 778 casos do fonema no corpus analisado. Ao verificar os pesos relativos nas duas variedades de língua, considerando este contexto fônico, observamos que há um leve favorecimento da pronúncia de como alofone vibrante múltiplo ápico-alveolar entre as estudantes baianas, (peso relativo de 0,60), enquanto que entre as entrevistadas paulistas o peso relativo é de 0,54. Apesar da pouca diferença em números, no que se refere a pesos relativos, (0,6), poderíamos afirmar que o contexto inicial favorece ligeiramente à emissão do fonema , conforme a norma culta do espanhol, na fala baiana, enquanto que na produção oral das estudantes de paulistas o mesmo contexto seria próximo do neutro. Apesar de as estudantes paulistas realizarem uma quantidade um pouco maior do segmento em estudo, nessa posição, o condicionamento é maior na fala das aprendentes baianas, conforme mostra a tabela 3. Tabela 3. Realizações fonéticas de nas variedades caipira e baiana e sua distribuição em relação à variável contextos fônicos em que ocorre o fonema. Contextos fônicos Inicial Intervocálico Precedido de Precedido de Precedido de Total Variedade caipira Nº 320/385 321/387 21/30 33/57 22/30 717/889 % 83% 83% 70% 58% 73% 81% Variedade baiana P.R 0,54 0,53 0,30 0,21 0,37 Nº 301/393 282/414 19/24 26/55 15/28 643/914 % 77% 68% 79% 47% 54% 70% P.R 0,60 0,46 0,55 0,24 0,27 Com respeito ao número de casos e aos números percentuais, ainda na posição inicial, encontramos, no total, 385 ocorrências do fonema na variedade caipira, sendo que 320 correspondem à vibrante múltipla ápico-alveolar como, por exemplo, nas palavras rosa 'e río ', totalizando uma frequência de 83%. Na variedade baiana, o programa VARBRUL mostrou uma quantidade ligeiramente maior de realizações do fonema (393 ocorrências), ao compararmos com o grupo anterior, porém o número de produções segundo a norma padrão da língua espanhola é ligeiramente menor, isto é, a variante ápicoalveolar aparece 301 vezes. A frequência do alofone vibrante múltiplo , em termos percentuais, na fala das informantes paulistas, é de 83%, enquanto que entre as informantes 79 baianas este número cai para 77%. Podemos observar que há uma ligeira queda de 6% neste último grupo, com relação ao primeiro, como mostra a tabela 3. Em termos fonético-fonológicos, podemos afirmar que a presença da vibrante múltipla em posição inicial, de certa maneira, chama a atenção dos aprendentes brasileiros de espanhol, por sua posição saliente. A fim de embasar os resultados encontrados nesta pesquisa, recorremos ao Princípio da Saliência, mencionado por Naro e Lemle (1976) (os autores referem-se à Saliência Fônica, aqui consideramos a questão da posição saliente), o qual afirma que as formas mais evidentes, com mais material fonético, são mais conservadoras com relação ao processo de mudança, do que as menos evidentes, ou seja, com menos material fonético. Esse princípio nos faz confirmar – pelo menos nesta pesquisa – que existem contextos fônicos em que a realização do fonema como ápico-alveolar sejam mais favoráveis, por mostrar-se mais saliente e perceptível para o aprendente de ELE. Dessa forma, a percepção desse segmento, em contexto inicial, parece ser mais fácil para as estudantes perceberem a sua realização, o que poderia facilitar a sua aquisição. É provável que o conhecimento por parte das participantes da pesquisa de que na língua espanhola a vibrante múltipla é ápico-alveolar (segundo a norma padrão), nesse contexto, já está assimilado, no geral. O efeito da saliência funciona nos dois grupos pesquisados, porém é mais forte na fala das estudantes do dialeto baiano, o que poderia indicar que a pronúncia desse som está mais bem assimilada pelas aprendentes baianas. Essa constatação confirma uma das hipóteses formuladas nesta investigação: que o contexto inicial seria o mais propício a realização do espanhol, de acordo com a norma padrão. Em posição intervocálica, foram encontradas 801 ocorrências do fonema nos dois grupos investigados. No que se refere a pesos relativos, a diferença entre ambas as variedades linguísticas é de 0,7: estudantes de São Paulo, 0,53; estudantes da Bahia, 0,46. Poderíamos afirmar que, no primeiro grupo, o contexto intervocálico da produção do fonema não favorece nem desfavorece, pois o peso relativo está numa situação neutra, enquanto que no grupo baiano a pesquisa mostra que o mesmo contexto desfavorece levemente a sua produção conforme a norma padrão. Ver na tabela 3. Sobre o número de casos e os números percentuais, no que se refere à produção do fonema em posição intervocálica, averiguamos uma maior distância ao contrastar as duas variedades dialetais. Segundo o programa de análise estatística, a percentagem de realizações ápico-alveolares para este segmento na fala das informantes paulistas é 15% maior do que na 80 produção oral das estudantes universitárias baianas: 83% das discentes paulistas frente a 68% das estudantes baianas. Do ponto de vista fonético-fonológico, ao analisar o corpus coletado, percebemos que o contexto intervocálico favorece o debilitamento e a fricatização do ápico-alveolar, motivado pelo fenômeno de assimilação produzido pelo contato desta consoante com as vogais. Para confirmar o que indicam as amostras, nos apoiamos na definição apresentada por diferentes autores como Cristófaro Silva ( 1998 2002, p. 50), para explicar o fenômeno da assimilação. Segundo a autora, “a assimilação é caracterizada pelo fato de um segmento adquirir uma propriedade de um segmento que lhe é adjacente”. A assimilação de um som pode dar-se por influência do som anterior (assimilação progressiva), do som posterior (assimilação regressiva), ou ainda por influência simultânea dos sons anterior e posterior (assimilação dupla). A partir do corpus coletado, verificamos que esse fenômeno se dá no contexto intervocálico, que é um dos mais propícios à lenição33, segundo Dubois et al. (1993, p. 359). Para a produção das vogais, a passagem do ar proveniente dos pulmões não é obstruída nem sofre fricções na cavidade bucal. Dessa maneira, a emissão desses fonemas não exige o mesmo esforço necessário para a produção realização da vibrante múltipla, fonema que necessita uma energia articulatória considerável, a fim de realizá-lo, conforme explicamos na seção primeira. Com base nessas afirmações, verificamos na produção do espanhol, em contexto intervocálico, uma das leis fonéticas, conhecida como a lei do menor esforço, ou lei da simplificação articulatória. Exemplos: arrebatar', em lugar de '; burro', ao invés de '; guitarra, ', em lugar de '. Podemos de certa forma afirmar, nesse caso, que o leve favorecimento do contexto intervocálico (ou a neutralidade – nem favorecimento, nem desfavorecimento), na produção das aprendentes do dialeto caipira, frente ao desfavorecimento desse mesmo contexto, na fala das estantes de dialeto baiano se deve, entre outros fatores, à presença do erre retroflexo no dialeto das informantes paulistas. Explicamos com maiores detalhes essa suposição, mais adiante. Verificamos, ainda, dados interessantes acerca das realizações da vibrante múltipla espanhola pelas aprendentes investigadas quando esta sucede as consoantes alveolares , e . Ao submeter os dados ao programa estatístico, encontramos no total 54 33 “Segundo Dubois et al. (1993, p.359), “chama-se por lenição “uma mutação consonântica que consiste num conjunto de fenômenos de enfraquecimento das consoantes intervocálicas.” 81 ocorrências do fonema , quando este sucede o fonema fricativo alveolar , no corpus analisado, sendo que 40 casos apresentados correspondem à norma padrão (74%). O peso relativo neste contexto é 0,40, o que pode indicar que o mesmo não contribui para a realização do fonema em estudo, segundo a norma padrão. Comparando as produções de nas duas variedades linguísticas, no que se referem aos pesos relativos, os dados revelam que esse mesmo contexto desfavorece a produção oral de ápico-alveolar entre as estudantes paulistas – peso relativo de 0,30 –, enquanto que nas discentes baianas o mesmo contexto mostra-se neutro, com um leve favorecimento; peso relativo de 0,55. Citamos dois exemplos em que as participantes utilizam a vibrante simples no lugar da múltipla ápico-alveolar: desrieló '; desroñado '. Neste momento, não encontramos respostas definitivas para explicar as diferentes interferências apresentadas nesse contexto (precedido de ). Dessa maneira, reconhecemos a necessidade de estudos mais aprofundados, a fim de elucidá-lo. No entanto, de acordo com os dados analisados, suspeitamos que o dialeto baiano favorece à pronúncia da vibrante múltipla espanhola padrão porque o fonema , nessa variedade de língua, tem o mesmo ponto de articulação do espanhol padrão, isto é, ambos são segmentos alveolares. Assim, acreditamos que o contato entre as duas consoantes, de certa forma, facilita a articulação de pelas aprendentes baianas. Por outro lado, o fonema no dialeto caipira tem o ponto de articulação diferente a do padrão da língua espanhola, ou seja, ele é dental, conforme Amaral (1976). De acordo o autor, o “s” pós vocálico do dialeto caipira é linguo-dental, o qual não é notado em outras variedades de língua do português brasileiro. Amaral explica que, “para produzir este som, a língua projeta a sua ponta contra os dentes da arcada inferior e encurva-se de modo que os bordos laterais toquem os dentes da arcada superior, só deixando uma pequena abertura sob os incisivos”. AMARAL (1976, p. 5). Em outras palavras, supomos que a dificuldade de articulação do fonema pelas estudantes paulistas, nesse contexto, pode atribuir-se ao fato de que o , nessa variedade de língua, não tem o mesmo ponto de articulação que espanhol padrão, como ocorre no dialeto baiano, o que, consequentemente, exige das aprendentes paulistas um maior esforço articulatório na produção do segmento em estudo. Esses resultados, de certa maneira, confirmam a hipótese inicial desta pesquisa, quando apontamos uma possível influência da variedade dialetal dos aprendentes brasileiros na sua produção da vibrante múltipla espanhola. 82 Sobre o número de ocorrências e números percentuais nas duas variedades de língua, ainda nesse contexto ( precedido de ), foram encontrados no grupo de estudantes paulistas 21 realizações de acordo com a norma padrão do espanhol , no total de 30 casos (70%). Já nas estudantes baianas, verificamos um número de ocorrências ligeiramente menor desse mesmo alofone – 19 casos –, no total de 24. No entanto, a percentagem de produções desse segmento como vibrante ápico-alveolar na produção das aprendentes baianas é mais elevada com relação ao grupo de variedade caipira (79%), conforme podemos ver na tabela 3. Para os casos em que o fonema nasal alveolar antecede o segmento , encontramos 112 ocorrências, no geral, sendo que 59 são ápico-alveolar (74%). Observamos, por meio dos resultados apresentados pelo VARBRUL, que esta posição desfavorece consideravelmente a produção do padrão espanhol nas duas variedades linguísticas consideradas nesta investigação; na fala caipira, o peso relativo é 0, 21 e na fala baiana, o peso relativo é 0, 24. Verificamos, também, o número de ocorrências e a frequência percentual nessa mesma posição; de maneira geral, as participantes da pesquisa realizaram aproximadamente metade das ocorrências conforme a norma padrão : aprendentes paulistas, 58%; aprendentes baianas, 47%. Com respeito à quantidade de realizações alofônicas ápico-alveolares, encontramos 33 casos (58%) no grupo de estudantes paulistas em um total de 57 ocorrências, e nas participantes baianas, 26 casos (47%), num total de 55. Assim, houve uma percentagem maior de emissões segundo a norma padrão do espanhol, ainda que leve, no grupo de São Paulo (9%). Sobre a pronunciação da vibrante precedida pelo fonema lateral alveolar , os pesos relativos das amostras nos dois grupos demonstram que esse contexto também desfavorece a produção da consoante em estudo. No geral, o peso relativo é 0,29, o que demonstra que este contexto desfavorece fortemente a produção do som . Na variedade caipira, o peso relativo aumenta um pouco em comparação com o corpus geral, mas ainda é desfavorecedor: 0,37. Na fala baiana, este contexto desfavorece ainda mais do que no geral: 0,27. Em termos percentuais, as participantes da pesquisa de São Paulo obtiveram 19% a mais de realizações ápico-alveolares do que as estudantes da Bahia: 73% frente a 54%. Sobre a quantidade de realizações alofônicas ápico-alveolares , encontramos 22 casos no grupo de estudantes paulistas, num total de 30 ocorrências (73%), e nas participantes baianas, 15 casos 83 (54%), no total de 28. Desse modo, em termos percentuais, houve um número maior de emissões segundo a norma padrão do espanhol falado pelas estudantes de variedade caipira, do que no grupo baiano, de acordo ainda com a tabela 3. Do ponto de vista fonético-fonológico, ao analisar a pronúncia do espanhol das informantes pesquisadas, pressupomos que a tendência a substituição da vibrante múltipla ápico-alveolar por outros sons, quando esta sucede os fonemas , e , em geral, é motivado pelo fenômeno de diferenciação. Segundo Dubois et al (1973, p. 189), “em fonética chama-se diferenciação a qualquer alteração que acentue ou crie diferença entre dois fonemas contíguos”. Quer dizer, é toda mudança fonética que tem como objetivo acentuar ou criar uma diferença articulatória entre os sons vizinhos, pois o som influenciado deixa de compartilhar características articulatórias para tornar-se diferente em termos fonéticos. Os fonemas líquidos e nasais são segmentos mais susceptíveis a diferenciação, segundo afirmam diferentes autores, como Montiel (1992). Assim, essa afirmação está em concordância com os exemplos encontrados no corpus analisado. A vibrante múltipla é uma consoante líquida que tem o mesmo ponto de articulação que os fonemas , e , ou seja, todos são alveolares. Com base no corpus oral, percebemos que nos contextos fônicos mencionados acima, o fonema espanhol, em diferentes momentos, perde características fonéticas que estão presentes nos sons vizinhos – que também são alveolares –, devido à dificuldade das aprendentes de coordenar os movimentos articulados nas repetições. A alternativa encontrada é a produção de sons nos quais se notam mudanças no ponto e/ou no modo de articulação, os quais também refletem, de certa forma, a influência da variedade regional das estudantes pesquisadas. Segundo Dubois et al. (1993, p.189), “a tendência a diferenciação ... corresponde à necessidade de manter o contraste entre as diferentes sequências da cadeia falada para atender às exigências da compreensão ameaçada pela tendência à assimilação”. Como resultado do fenômeno de diferenciação na produção oral das aprendentes baianas de ELE, quando o fonema aparece precedido por consoantes alveolares, encontramos o som fricativo glotal : Israel '; honra '; alrededor '. Entretanto, esse mesmo fonema, nestes mesmos vocábulos, é pronunciado pelas aprendentes de dialeto caipira como velar : Israel '; honra '; alrededor '. Ainda quando se trata do contato da vibrante múltipla espanhola com as consoantes alveolares, verificamos que o contexto em que a diferenciação exerce influência de maneira 84 mais forte é quando o aparece precedido pelo som , conforme a tabela 3. Esse fenômeno se dá em ambos os grupos, tanto entre as aprendentes de dialeto baiano, quanto caipira: Enrique ', ', '. Poderíamos afirmar, de acordo com os dados apontados pelo VARBRUL, que esse contexto é o que mais desfavorece a produção de do espanhol, porquetanto esse quanto o são fonemas consonânticos altamente suscetíveis ao fenômeno mencionado, pois tem o mesmo ponto de articulação (são alveolares) e têm modos de articulação bastante próximos: um é nasal e o outro é vibrante. Dentre os três contextos fônicos mencionados anteriormente, ou seja, quando o fonema sucede os fonemas alveolares , e , observamos que o contato deste último com o espanhol é o que menos favorece a sua realização conforme a norma padrão . O peso relativo na variedade baiana é 0,24, enquanto que na variedade caipira o peso é ainda um pouco menor, – 0,21–, resultado que poderia justificar-se como decorrência do fenômeno de diferenciação, pois os dois segmentos e estão entre as consoantes mais vulneráveis a essa mudança, conforme já referido. O comportamento mais frequente no corpus, para esse contexto, entre as variantes fonéticas identificadas, é a substituição do som vibrante múltiplo ápico-alveolar pela vibrante simples: sonrisa '; enrular '; enroscar '. No que se refere à produção de precedido por , averiguamos que esse contexto fônico, assim como o precedido de , também desfavorece a produção da vibrante múltipla ápico-alveolar espanhola (ainda que em menor escala), em ambos os grupos pesquisados: variedade baiana, 0,27, variedade caipira, 0,37. O resultado mais comum no corpus, para esse contexto, é também a realização do ápico-alveolar como vibrante simples : alrededor '; milrayas '. Acreditamos que o fenômeno da diferenciação se dá de maneira um pouco menos intensa, neste último contexto, porque o fonema se distancia mais da consoante do espanhol padrão, em sua produção articulatória, do que a consoante nasal , não com relação ao ponto de articulação (porque o também é alveolar), mas no que se refere ao estreitamento na cavidade oral; trata-se de uma consoante lateral aproximante. 85 4.1.2 Realizações fonéticas de de acordo com a função sintática da palavra em que se encontra o elemento observado Nesta seção, apresentamos e analisamos os dados, tendo como foco a função sintática da palavra em que se encontra o fonema espanhol na produção oral das participantes da pesquisa. Em outras palavras, buscamos compreender, através de uma análise exploratória, se a função sintática é um fator linguístico que pode interferir ou não no comportamento fonético da consoante em questão. Ao submeter os dados ao programa VARBRUL, encontramos, no total, 789 ocorrências do fonema , que, em números percentuais, correspondem a 73% do material analisado: das 789 produções articulatórias presentes em todo o corpus, considerando essa variável, 278 são da vibrante múltipla ápico-alveolar , e as demais são, em sua maioria, produzidas como vibrantes simples . No geral, identificamos 117 ocorrências de em palavras que ocupam a função sintática de núcleo do sujeito, sendo que 83 correspondem à variante padrão, o que, em termos percentuais, equivale a 71% dos dados. O peso relativo é de 0,47, o que pode indicar um ligeiro desfavorecimento à realização do padrão nessa classe sintática. Na função de núcleo do predicado, o programa estatístico detectou 353 ocorrências, das quais 260 correspondem à produção ápico-alveolar , ou seja, 74% dos dados. Notamos que o peso relativo nessa função é maior (0,54), se a compararmos com a de núcleo do sujeito: o peso relativo é 0,47. Ver tabela 4 e gráfico 2 (distribuição geral por função sintática). Tabela 4: Realizações fonéticas de e sua distribuição em relação à variável função sintática da palavra em que se encontra o fonema Função sintática Vibrante múltipla Vibrante múltipla Núcleo do sujeito Núcleo do predicado Nº 83/117 260/353 % 71% 74% P.R 0,47 0,54 Complemento direto Complemento indireto Adjunto adnominal Adjunto adverbial Total 112/149 16/38 56/67 47/65 574/789 75% 42% 84% 72% 73% 0,44 0,27 0,63 0,52 86 Gráfico 2: Realizações fonéticas da vibrante múltipla em relação à função sintática 1 0,9 0,8 0,7 N suj 0,6 N pred 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 Comp dir Comp ind Ad adn Adj adv 0 Em outras palavras, poderíamos afirmar que a função de núcleo do predicado contribui ligeiramente para a realização padrão do fonema em estudo na fala das estudantes paulistas. Ao analisarmos as manifestações fonéticas de na produção oral das aprendentes brasileiras abordadas nesta pesquisa, tendo como foco a função de complemento direto, encontramos 112 ocorrências do alofone vibrante simples (77%). O peso relativo é de 0,44, o que pode indicar que essa função sintática desfavorece a realização do fonema segundo a norma padrão, assim como na função de núcleo do sujeito. No que se refere à função de complemento indireto, o programa indicou 38 ocorrências no total, sendo que, dessas produções, 16 correspondem ao alofone vibrante múltiplo ápico-alveolar , que, em números percentuais, equivale a 42%. Segundo a amostra, a função de complemento indireto desfavorece fortemente a produção do padrão; o peso relativo é 0, 27. Na função de adjunto adnominal, foram encontradas 67 ocorrências do fonema , das quais 56 são da vibrante múltipla ápico-alveolar , ou seja, 84% de frequência. O peso relativo é 0,63, o que demonstra que essa função sintática contribui para a realização do padrão. Vale ressaltar que, nesta dissertação, não analisamos com maiores detalhes se há diferença de pesos relativos quando a vibrante aparece como adjunto nominal, na função de sujeito, ou como adjunto adnominal de um complemento direto ou indireto. No entanto, esse é um assunto que pode ser esclarecido em pesquisas futuras. 87 Na posição de adjunto adverbial o programa lista, no total, 65 ocorrências, e dessas, 47 correspondem à variante padrão (72%). O peso relativo é de 0,52, ponto neutro, o que poderia indicar que essa função sintática favorece levemente a produção oral dessa consoante, segundo a norma, como mostra a tabela 4. Ao submeter o corpus à análise estatística, o programa não selecionou a variável função sintática da palavra em que se encontra o segmento analisado nos dados coletados entre as aprendentes baianas. Assim, apresentamos os pesos relativos das manifestações alofônicas do fonema no espanhol falado apenas pelas estudantes paulistas (variedade caipira). Entretanto, comentamos as ocorrências e os dados percentuais do segmento em estudo, das duas variedades dialetais em investigação. No corpus oral das aprendentes de espanhol da variedade caipira, considerando a variável função sintática em que se encontra a consoante em estudo, encontramos 374 ocorrências do fonema , o que, em números percentuais, corresponde a 74% do material analisado: das 374 produções articulatórias encontradas na produção oral dessas aprendentes, 278 são da vibrante múltipla ápico-alveolar , e as demais são, em sua maioria, produzidas como vibrantes simples . Encontramos nessa variedade de língua, em particular, 64 ocorrências de em palavras que ocupam a função sintática de núcleo do sujeito, sendo que 45 correspondem à variante padrão (70%.). O peso relativo é 0,41, o que pode indicar um desfavorecimento ao aparecimento de nessa variedade linguística, considerando essa variável independente, como mostra a tabela 5. Tabela 5: Realizações fonéticas de nas variedades caipira e baiana sua distribuição em relação à função sintática da palavra em que se encontra o fonema Função sintática Núcleo do sujeito Núcleo do predicado Complemento direto Complemento indireto Adjunto adnominal Adjunto adverbial Total Variedade caipira Nº 45/64 118/158 54/70 9/20 27/28 25/34 278/374 % 70% 75% 77% 45% 96% 74% 74% Variedade caipira P.R. 0,41 0,52 0,44 0,22 0,87 0,49 Variedade baiana Nº 38/53 142/195 58/89 7/18 29/39 22/31 296/415 % 72% 73% 65% 39% 74% 71% 71% Na função de núcleo do predicado, o programa detectou 158 ocorrências, das quais 118 correspondem à produção ápico-alveolar , ou seja, 75%. Notamos que o peso 88 relativo, nessa função, é levemente maior, 0,52, mas muito próximo da neutralidade, se a compararmos com a função de núcleo do sujeito. Em outras palavras, poderíamos afirmar que a função de núcleo do predicado contribui ligeiramente à realização do fonema em estudo, conforme a norma padrão, na fala das estudantes paulistas, ou que está próximo do neutro. Ao analisarmos as manifestações fonéticas de na função de complemento direto na produção oral das aprendentes paulistas, encontramos 54 ocorrências do alofone vibrante múltiplo , de um total de 70 casos, que em termos percentuais correspondem a 77%. O peso relativo é de 0,44, o que pode indicar que essa função sintática desfavorece à produção oral do fonema, segundo a norma padrão. Ainda no mesmo grupo, no que se refere à função de complemento indireto, o programa indicou 20 ocorrências do fonema , no total, e, dessas produções, apenas 9 correspondem ao alofone vibrante múltiplo ápico-alveolar , que, em números percentuais corresponde a 45% do material gravado. Segundo os dados, a função de complemento indireto desfavorece fortemente a pronúncia padrão do fonema espanhol, no dialeto caipira: o peso relativo é 0,22. Na função de adjunto adnominal, encontramos 28 ocorrências do fonema na variedade caipira, sendo que em apenas 1 dado não é produzido como ápico-alveolar: 96% de frequência total . O peso relativo é de 0,87, o que pode demonstrar que essa função sintática favorece fortemente a presença do alofone padrão na fala caipira. Inclusive, o peso relativo nessa variedade de língua é mais elevado, em comparação com corpus geral: enquanto que o peso relativo na variedade caipira é 0,87 (ver tabela 4), no corpusgeral é 0,63 (ver tabela 5). Na posição de adjunto adverbial o programa lista, no total, 34 ocorrências, e dessas, 25 correspondem à variante padrão (74%). O peso relativo é de 0,49, o que poderia indicar que essa função sintática desfavorece levemente à produção oral da vibrante ápico-alveolar na variedade caipira. Segundo os dados, outro fato interessante que observamos é que, se por um lado a função de adjunto adverbial contribui levemente na realização de na produção oral das aprendentes em geral (ver tabela 4), por outro, essa mesma função desfavorece a sua produção segundo a norma, na variedade caipira (ver tabela 5). Com respeito aos números percentuais, verificamos os seguintes resultados, ao compararmos as duas variedades de língua. Em geral, observamos que a percentagem de realizações fonéticas do fonema como vibrante múltipla ápico-alveolar é maior no grupo das estudantes de São Paulo do que no grupo de aprendentes baianas em quase todas as funções sintáticas consideradas neste estudo, com exceção da função de núcleo do sujeito: 89 variedade caipira, 70%, variedade baiana, 72%. Encontramos a maior distância, em termos percentuais, quando a consoante ocorre em palavras que ocupam a função de adjunto adnominal: 96% na fala caipira e 74 % na fala baiana. A menor diferença percentual entre as duas variedades de língua se deu quando o fonema ocupa as funções de núcleo do sujeito e núcleo do predicado: a diferença é de 2% mais entre as aprendentes da variedade caipira, em ambas as funções sintáticas mencionadas. Com base na análise do corpus, tendo como foco a função sintática em que se encontra a consoante em estudo, suspeitamos que as aprendentes de ELE selecionadas para esta pesquisa focalizam de maneira explícita a pronúncia do fonema conforme a norma padrão, em diferentes funções sintáticas, embora em proporções distintas (aspecto que será retomado em trabalhos futuros). Na sintaxe, de acordo como Diccionario de Términos Clave de ELE (1997-2013), a focalização é um recurso através do qual os falantes ou leitores visam enfatizar um segmento da enunciação que constitui um elemento informativo sobre o qual se quer chamar a atenção do destinatário que, nesta pesquisa, seria a realização da vibrante múltipla espanhola. Segundo Gonçalves (1998, p. 32), “Focalização é o ato de focalizar, ou seja, de acentuar, de ressaltar, de por em relevo/realce/evidência um determinado item do texto”. No que se refere à interferência da função sintática na produção do espanhol das participantes desta pesquisa, não obtivemos respostas claras ou definitivas, no entanto, acreditamos que seja válido investigá-lo, com maior profundidade, em pesquisas posteriores. Os dados parecem indicar, contudo, que a função de adjunto adnominal é a que melhor contribui para a realização do som ápico-alveolar , conforme já citamos. Segundo os dados examinados, podemos observar que as palavras que ocupam a função de adjunto adnominal (nas quais o fonema vibrante múltiplo está inserido) eram as mais informativas/relevantes para a audiência, desde a perspectiva das aprendentes, sendo colocadas em primeiro plano na produção oral. Assim, a pronúncia da vibrante tende a realizar-se conforme a norma padrão. Essa observação está em concordância com o que dizem diferentes autores como Gonçalves (1998, p. 33), que afirma que a “focalização é um fenômeno de natureza discursivo-pragmática, pois o usuário pode centrar sua atenção a uma parcela do enunciado que julgue relevante, enfatizando-o”. Em seguida, citamos dois exemplos nos quais as participantes focalizam o segmento nessa função (adjunto adnominal), pronunciando-o como vibrante múltiplo ápico-alveolar : 90 (1) ...vio su propio reflejo en el agua del RÍO '… (2) …yo siempre me quedo con el corazón ROTO' cuando veo algo así. Verificamos também que, no geral, as funções núcleo do predicado (peso relativo 0,54) e adjunto adverbial (peso relativo. 0,52) contribuem levemente para a realização da vibrante múltipla ápico-alveolar , ou poderíamos afirmar que essas variáveis independentes não favorecem nem desfavorecem a produção da consoante, chegando bem próximo do neutro. É provável que, em alguns momentos, as estudantes focalizaram a pronúncia de , nas duas funções mencionadas, segundo a variante padrão, por tratar de uma informação nova, ou seja, de não ter sido mencionada anteriormente. FUNÇÃO NÚCLEO DO PREDICADO (3) … los dones que yo te he dado para ENRIQUECERTE ' (4) …Es IRRACIONAL ' su teoría. (5) …los políticos de Brasil me parecen muy CORRUPTOS ' FUNÇÃO ADJUNTO ADVERBIAL (6) …aquel reflejo era en REALIDAD ' otro perro. (7) Costó ALREDEDOR ' de mis, mil reales. Por outro lado, as aprendentes de espanhol utilizaram em diversos momentos outras variantes fonéticas para o fonema nas funções núcleo do predicado e adjunto adverbial, em especial o alofone vibrante simples , como podemos conferir nos seguintes exemplos: FUNÇÃO NÚCLEO DO PREDICADO (8) ... aquel reflejo era en realidad otro PERRO ' (9) Luis HONRA ' a sus padres. 91 Na função de adjunto adverbial, encontramos realizações de como vibrante simples, nos mesmos exemplos, (6) e (7), já mencionados. No entanto, ressaltamos que encontramos poucas produções da consoante investigada, nessa função. Verificamos ainda, a partir dos dados gravados, que as funções de núcleo do sujeito (peso relativo. 0,47) e complemento direto (peso relativo. 0,44) parecem desfavorecer a produção articulatória da vibrante múltipla ápico-alveolar , sendo que a função complemento direto chega mais próximo do neutro, como mostra a tabela 4. As aprendentes de espanhol pronunciaram o fonema utilizando as diferentes variantes fonéticas apresentadas no início deste seção, em particular, a vibrante simples : FUNÇÃO NÚCLEO DO SUJEITO (10) Vadeaba un PERRO ' un río… (11) …sí, me gustan las ROSAS '… FUNÇÃO COMPLEMENTO DIRETO (12) Costó alrededor de mil REALES ' (13) …las personas de más edad, las mayores que escuchan la RADIO ' É importante mencionar que, de acordo com os dados, há uma suspeita de que a função sintática que menos contribui para a produção articulatória de segundo a norma padrão é a de complemento indireto, ou seja, nessa função as aprendentes, em diversos momentos, não focalizaram na pronúncia da consoante analisada. (14) Todos los días, pues, ofrendaba a la TIERRA ' un presente… Em linhas gerais, sabemos que as línguas naturais dispõem de determinadas estratégias para colocar em evidência (ou realçar) um item do enunciado, isto é, utilizam diferentes recursos linguísticos para formular um enunciado como, por exemplo, focalizando o adjunto adnominal ou o núcleo do predicado com mecanismos diversos como o realce na prosódia, mudança na ordem das palavras, etc. Nesta pesquisa, no entanto, não objetivamos discutir em profundidade quais são as estratégias de focalização (ligadas à função sintática) utilizadas 92 pelas aprendentes selecionadas para esta pesquisa. Estes são apenas resultados inicias que serão mais bem elucidados em pesquisas posteriores. 4.2 ANÁLISE DA INTERFERÊNCIA DE FATORES EXTRALINGUÍSTICOS Em seguida, apresentamos e analisamos as realizações fonéticas da vibrante múltipla espanhola identificadas no corpus coletado, considerando os seguintes fatores extralingústicos: i) variedade regional dos aprendentes; ii) tempo de exposição formal ao ensino de espanhol; iii) estilo de fala empregado. 4.2.1 Realizações fonéticas de de acordo com a variedade regional dos aprendizes Analisando cada variedade, separadamente, encontramos 889 realizações de , sendo que 717 correspondem à vibrante múltipla ápico-alveolar (81%) na produção oral das estudantes paulistas, enquanto que as aprendentes baianas apresentaram 914 ocorrências do mesmo fonema, das quais 634 tratam do som , o que corresponde a 70% dos casos. Verificamos, então, que há um maior número de ocorrências do som ápico-alveolar no grupo de estudantes da variedade caipira, em termos percentuais; 11% a mais que no grupo de estudantes do dialeto baiano, conforme podemos ver na tabela 6 e gráfico 3 (distribuição geral por variedade regional) Tabela 6: Realizações fonéticas de e sua distribuição em relação à variedade regional dos aprendentes Variedade regional Caipira Baiana Total Vibrante múltipla Nº 717/889 643/914 1360/1803 % 81% 70% 75% Vibrante múltipla P.R. 0,57 0,43 93 Gráfico 3: Realizações fonéticas da vibrante múltipla em relação à variedade regional dos aprendentes 1 caipira 0,5 baiana 0 Com respeito aos pesos relativos, de acordo com o programa estatístico de análise de regras variáveis, averiguamos que, enquanto a variedade caipira favorece ligeiramente à produção articulatória da vibrante espanhola como ápico-alveolar – peso relativo de 0,57 –, a variedade baiana parece desfavorecer a realização articulatória do mesmo som: peso relativo de 0,43, conforme mostra a tabela 6. Com base nas amostras, ao considerarmos a variedade regional das participantes selecionadas para este estudo, fizemos a seguinte pergunta: porque as aprendentes paulistas apresentam uma tendência maior à produção do padrão do espanhol (ápico-alveolar) em comparação com as estudantes baianas? Em outras palavras, porque a variedade caipira parece contribuir para a produção articulatória da vibrante , enquanto que a variedade baiana parece desfavorecer a sua realização? De acordo com os dados analisados, acreditamos que o dialeto caipira favorece mais à pronúncia da vibrante múltipla espanhola padrão devido à presença do som retroflexo nessa variedade de língua, o qual está ausente no dialeto baiano; o ponto de articulação do som retroflexo está mais próximo ao da vibrante múltipla ápico-alveolar do que o som glotal da variedade baiana, que se distancia bastante do som ápico-alveolar, em termos articulatórios; a vibrante múltipla espanhola padrão é produzida na parte anterior da cavidade bucal, enquanto que o R do dialeto baiano tem como ponto de articulação a faringe, ou seja, a parte posterior. Além disso, o deslocamento do ponto de articulação de R na variedade baiana é maior do que no dialeto caipira, no qual o mesmo arquifonemase manifesta foneticamente como velar, som que também é articulado na cavidade bucal, só que em uma região mais próxima dos alvéolos que a realização dos baianos. 94 Os resultados encontrados, de certa maneira, confirmam também a hipótese inicial deste estudo, quando apontamos uma possível influência da variedade dialetal dos aprendentes brasileiros na sua produção da vibrante múltipla espanhola. Essa observação, apresentada nesta pesquisa, está em consonância com a posição dos autores como, por exemplo, Herrero de Haro (2010), que afirmam que aprendentes de determinada língua estrangeira certamente introduzirão em sua fala características dialetais de sua procedência, o que nos permite identificar, por exemplo, se um aprendente de ELE é oriundo do estado de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia, etc. Ou seja, ao aprender a nova língua, o estudante fará uso dos sons através do filtro particular de sua língua materna. Ao falar espanhol, o aprendente apontará traços próprios de sua variedade linguística. 4.2.2 Realizações fonéticas de de acordo com o tempo de exposição formal ao ensino de ELE No início da pesquisa, tínhamos como hipótese que o tempo de exposição formal ao ensino do espanhol exercia influência na aprendizagem da consoante , de forma progressiva, ou seja: quanto maior o tempo de estudos, maior a aquisição da vibrante múltipla ápicoalveolar. No entanto, encontramos resultados interessantes, os quais são descritos e apresentados em seguida. Ao submeter os dados coletados ao programa estatístico, tomando como foco o tempo de exposição oral ao ensino de espanhol das aprendentes investigadas, verificamos, no total, 1803 ocorrências do fonema , que em números percentuais corresponde a 75% do material analisado: das 1803 produções articulatórias presentes em todo o corpus, 1360 são vibrantes múltiplas ápico-alveolares, e as demais são, em sua maioria, são produzidas como vibrantes simples , da mesma maneira que na variável independente apresentada na seção anterior. No que se refere à quantidade de casos e aos números percentuais, verificamos, contraditoriamente, que as estudantes que possuem até 250 horas de estudos produziram 860 ocorrências para o fonema , sendo que 671 correspondem ao som vibrante múltiplo ápico-alveolar (78%) e as participantes que haviam cursado mais de 350 horas de estudos de espanhol apresentaram 943 ocorrências para a consoante , das quais 689 correspondem 95 à norma padrão espanhola (73%), percentual menor que os de 250 horas, conforme mostra a tabela 7. Tabela 7: Realizações fonéticas de e sua distribuição em relação ao tempo de exposição formal ao ensino de ELE Tempo de exposição ao ensino de ELE Até 250 horas A partir de 350 horas Total Vibrante múltipla Nº 671/860 689/943 1360/1803 % 78% 73% 75% Vibrante múltipla P.R. 0,53 0,47 No que tange aos pesos relativos, considerando as duas variedades de língua, verificamos um fato curioso: segundo os dados, há um leve condicionamento (próximo do neutro) dessa variável no grupo de participantes que estudaram até 250 horas de espanhol, com peso relativo de 0,53. No entanto, observamos que no grupo de estudantes que têm a partir de 350 horas de estudos a mesma variável desfavorece a produção do som investigado: peso relativo de 0,47 (também próximo do neutro). Dessa forma, percebemos que o maior tempo de exposição formal ao ensino não contribui para a maior realização da vibrante múltipla na produção oral das aprendentes investigadas. Os dados indicam que outras variáveis devem estar condicionando mais a realização padrão desse fonema Analisamos ainda a produção oral das aprendentes brasileiras de espanhol, de acordo com o tempo de exposição formal ao ensino da língua, considerando apenas a fala das estudantes paulistas. Vale destacar que o programa estatístico só aponta os pesos relativos dessa variedade. No entanto, apresentamos as ocorrências e a frequência na produção oral das estudantes de fala baiana. Segundo o programa VARBRUL, no que se refere ao número de casos e números percentuais, encontramos no corpus 889 realizações de , sendo que 717 correspondem à vibrante múltipla ápico-alveolar (81% dos casos) na produção oral das estudantes paulistas, enquanto que as aprendentes baianas apresentaram 914 ocorrências do mesmo fonema; das 914 ocorrências encontradas neste último grupo, 634 tratam do som , que corresponde a 70% dos casos. Verificamos, então, que há um maior número de ocorrências do som ápico-alveolar no grupo de estudantes da variedade caipira, em termos percentuais, isto é, 11% a mais que no grupo de estudantes baianas. Ver tabela 8. 96 Tabela 8: Realizações fonéticas de nas variedades caipira e baiana sua distribuição em relação ao tempo de exposição formal ao ensino de ELE Tempo de exposição ao ensino de ELE Até 250 horas A partir de 350 horas Total Variedade caipira Nº 392/456 325/433 717/889 % 86% 75% 81% Variedade caipira P.R 0,59 0,40 Variedade baiana Nº 279/404 364/510 643/914 % 69% 71% 70% Identificamos outro fato curioso ao analisar as informações apresentadas na tabela 8. Conforme os dados obtidos entre as estudantes de dialeto caipira, verificamos que o tempo de exposição formal de até 250 horas (ou seja, menos tempo de exposição formal) ao ensino de espanhol é um fator que condiciona a produção da vibrante múltipla espanhola padrão : o peso relativo é 0,59. No entanto, o tempo de exposição a partir de 350 horas de estudos desfavorece a produção do som investigado: peso relativo de 0,40. Assim, a diferença é de 0,19, com relação aos pesos relativos. Esses resultados são contrários ao que se previa, ou seja, percebemos que o maior tempo de exposição formal ao ensino não contribui para a maior realização da vibrante múltipla na produção oral das aprendentes de variedade caipira. A pergunta que fizemos, ao depararmos com os dados mencionados, foi a razão porque as estudantes paulistas que possuem um menor tempo cronológico de estudo de espanhol parecem ter melhor desempenho na produção de do que aquelas que têm mais tempo de exposição ao ensino da língua mencionada. A princípio, não formulamos hipóteses nem apresentamos respostas fundamentadas para responder a essa questão, já que esse questionamento exige, de certa forma, pesquisas mais aprofundadas. No entanto, supomos que o tempo de 350 horas de estudos formais de língua espanhola desfavorece a realização da variante padrão no grupo de aprendentes investigadas porque elas se sentem mais seguras e confiantes ao falarem a língua alvo, e, consequentemente, não estariam tão atentas a pronúncia “correta” dos sons, mas, sim, em comunicar-se e transmitir as suas idéias. Já as aprendentes que cursaram até 250 horas de estudos de espanhol, de acordo com os dados, demonstram estar mais atentas a realização de e, consequentemente, o realizam de maneira mais consciente. A mesma suposição se aplica, também, aos dados apresentados na tabela 7 (dados gerais). 97 4.2.3 Realizações fonéticas de de acordo com o estilo de fala empregado Nesta seção, apresentamos e analisamos as produções articulatórias de encontradas no corpus oral, considerando o estilo de fala empregado. Em seguida, apresentamos o gráfico 4, que representa a distribuição geral das manifestações fonéticas de acordo com essa variável. Gráfico 4 : Realizações fonéticas da vibrante múltipla em relação ao estilo de fala 1 0,8 espontâneo 0,6 dirigida 0,4 leit. Textos 0,2 leit. Frases 0 No contexto A (fala espontânea), identificamos 358 ocorrências de , sendo que 267 correspondem à variante padrão , o que, em termos percentuais, equivale a 75% dos dados. O peso relativo é de 0,44, o que poderia indicar que o dito estilo de fala desfavorece a realização da vibrante múltipla ápico-alveolar , conforme mostra a tabela 9. No contexto B (fala dirigida), o programa VARBRUL encontrou 132 ocorrências da consoante , das quais 115 são ápico-alveolares . Em números percentuais, os dados correspondem a 87% dos casos identificados. Ao contrário do estilo anterior, verificamos que o contexto B contribui à realização de , pois o peso relativo e de 0,64. Tabela 9: Realizações fonéticas de e sua distribuição em relação ao estilo de fala empregado Estilo de fala Espontâneo Dirigida Leitura de textos Leitura de frases Total Vibrante múltipla Nº 267/358 115/132 223/334 755/979 1360/1803 % 75% 87% 67% 82% 75% Vibrante múltipla P.R. 0,44 0,64 0,38 0,55 98 Ao analisar as manifestações fonéticas de presentes na produção oral das aprendentes no contexto C (leitura de textos), encontramos 223 ocorrências do som vibrante múltiplo , no total de 334 casos. Em termos percentuais, correspondem a 67% do material e o peso relativo é de 0,38, o que poderia indicar que o contexto C também desfavorece a produção oral do fonema de acordo com a norma padrão. O desfavorecimento aparenta ser ainda maior do que na fala espontânea, de acordo com a tabela 9. Ainda considerando o estilo de fala empregado, ao analisar o contexto D (leitura de frases), o programa indicou 979 ocorrências do fonema , 755 dessas produções correspondem à vibrante múltiplo ápico-alveolar , o que, em números percentuais se traduz em 82%. No que tange aos pesos relativos, os dados revelam que nesse contexto o peso relativo está no ponto do neutro: 0, 51, ou seja, não favorece nem desfavorece. Em linhas gerais, ao avaliar a produção oral das aprendentes investigadas, segundo os estilos de fala empregados, verificamos os seguintes resultados: os contextos que menos favorecem a produção da vibrante múltipla ápico-alveolar são os contextos A (fala espontânea) e C (leitura de textos), sendo que este último desfavorece ainda mais: o peso relativo é de 0,38. Esses resultados também confirmam uma das hipóteses levantadas nesta pesquisa, pois ambos os estilos oferecem, como supúnhamos, elementos que, de alguma forma, proporcionam uma despreocupação com a forma lingüística ou redução do controle da linguagem; são situações que levam a uma distração para os falantes de ELE. Por exemplo, em um conversa onde não há um controle do que irá ser dito, o participante se sente mais a vontade e relaxado para falar e, como consequência, se distrai mais, pois não sabe o que está sendo avaliado. Diversas aprendentes, das duas variedades dialetais, realizaram as palavras rosa e perro de diferentes maneiras. Por exemplo, enquanto que na fala espontânea, os ditos vocábulos foram pronunciados com som vibrante simples – '; ' – , na entrevista dirigida, as estudantes pronunciaram as mesmas palavras utilizando a vibrante múltipla ápico-alveolar – ;. Por outro lado, os contextos B (fala dirigida) e D (leitura de frases), segundo o material coletado, contribuem para que as aprendentes realizem a vibrante múltipla espanhola padrão, pois são estilos de fala que favorecem a que as aprendentes prestem mais atenção ao que estão pronunciando. Podemos verificar, ainda, que o contexto B (entrevista dirigida) é o que melhor contribui à produção de segundo a norma: peso relativo de 0,64, favorecendo ainda mais do que o contexto D, conforme mostra a tabela 9. 99 Ao analisar os estilos de fala empregados, considerando as variedades dialetais das aprendentes investigadas, separadamente, encontramos os resultados apresentados na tabela 10 e no gráfico 5. Tabela 10: Realizações fonéticas de nas variedades caipira e baiana e sua distribuição em relação ao estilo de fala empregado Estilo de fala Espontâneo Entrevista dirigida Leitura de textos Leitura de frases Total Variedade caipira Nº 115/140 63/69 127/180 409 /500 717/889 % 82% 96% 71% 82% 81% Variedade caipira P.R. 0,45 0,77 0,39 0,51 Variedade baiana Nº 152/218 49/63 96/154 346/479 643/914 Variedade baiana % 70% 78% 62% 72% 70% P.R. 0,44 0,55 0,38 0,56 Gráfico 5 : Realizações fonéticas da vibrante múltipla em relação ao estilo de fala nas variedades caipira e baiana 1 0,8 Espontâneo 0,6 Ent. Dirigida 0,4 Leit. De textos 0,2 Leit. De frases 0 Caipira Baiana No contexto A (fala espontânea), identificamos 140 ocorrências de , sendo que 115 correspondem à variante padrão , que, em termos percentuais, equivale a 82% dos dados. O peso relativo é de 0,45, o que poderia indicar que esse estilo de fala desfavorece a realização da vibrante múltipla ápico-alveolar nas aprendentes paulistas, conforme mostra a tabela 10. No contexto B (fala dirigida), o programa detectou 69 ocorrências da consoante no dialeto caipira, sendo que 63 são ápico-alveolares . Em números percentuais, os dados correspondem a 96% dos casos identificados. Ao contrário do estilo anterior, verificamos que o contexto B contribui fortemente à realização de , pois o peso relativo e de 0,77. 100 Ao analisar as manifestações fonéticas de , presentes na produção oral das aprendentes paulistas, considerando o contexto C (leitura de textos), encontramos 127 ocorrências do alofone vibrante múltiplo , no total de 180 casos. Em termos percentuais, estes números correspondem a 71% do material coletado. O peso relativo é de 0,39, o que poderia indicar que o contexto C também desfavorece a produção oral do fonema de acordo com a norma padrão. Considerando apenas essa variedade de língua – dialeto caipira –, percebemos que a leitura de textos desfavorece ainda mais a produção de do que a fala espontânea, de acordo com a tabela. Ainda analisando a variedade caipira, o programa detectou 500 ocorrências do fonema no contexto D (leitura de frases), sendo que 409 dessas produções correspondem ao alofone vibrante múltiplo ápico-alveolar (82%.) No que tange aos pesos relativos, os dados revelam que esse contexto favorece levemente a realização do fonema do espanhol, segundo a norma padrão, ou poderíamos ainda afirmar que está próximo do neutro (0, 51). Na produção oral das estudantes baianas, ao analisar o contexto A (fala espontânea), identificamos 218 ocorrências de , sendo que 152 correspondem à variante padrão, que, em termos percentuais, equivale a 70% dos dados. O peso relativo é de 0,45, o que poderia indicar que esse estilo de fala desfavorece a realização da vibrante múltipla ápicoalveolar na fala baiana, como podemos ver na tabela 10. No contexto B (entrevista dirigida), o programa identificou 63 ocorrências da consoante , das quais 49 são ápico-alveolares . Em números percentuais, os dados correspondem a 78% dos casos identificados. Ao contrário do estilo anterior, verificamos que o contexto B favorece levemente a realização da vibrante múltipla espanhola padrão: peso relativo de 0,55. Ao analisar as realizações fonéticas de , presentes na produção oral das aprendentes de variedade baiana, considerando no contexto C (leitura de textos), encontramos 96 ocorrências do som vibrante múltiplo , no total de 154 casos que, em termos percentuais, correspondem a 62% do material coletado. O peso relativo é de 0,38, o que poderia indicar que esse estilo também desfavorece a produção oral do fonema de acordo com a norma. Segundo dos dados das estudantes baianas, a leitura de textos desfavorece ainda mais a produção de do que a fala espontânea, conforme mostra a tabela 10. 101 No contexto D (leitura de frases), o programa indicou 479 ocorrências do fonema , sendo que, dessas produções, 346 correspondem ao alofone vibrante múltiplo ápicoalveolar , que em números percentuais se traduz em 72%. No que tange aos pesos relativos, os dados revelam que contexto D favorece levemente a realização do fonema do espanhol padrão, na fala das aprendentes baianas. O peso relativo é 0, 56. No geral, ao analisar os estilos de fala empregados pelas aprendentes, e comparar as variedades dialetais selecionadas para esta pesquisa, encontramos os seguintes resultados. As aprendentes de variedade caipira realizaram o fonema como vibrante múltipla ápicoalveolar em números percentuais maiores do que as aprendentes baianas, em todos os contextos investigados.. A maior diferença é verificada no contexto B (entrevista dirigida), pois, enquanto as estudantes paulistas realizaram 96% por cento das ocorrências conforme a norma padrão espanhola, as aprendentes baianas pronunciaram 18% a menos, no mesmo estilo de fala, ou seja, 78%. Com relação a pesos relativos, obtivemos também resultados interessantes, ao confrontar as duas variedades de língua. Ao comparar a produção oral das aprendentes investigadas, segundo os estilos de fala empregados, verificamos que as restrições com relação a essa variável, são as mesmas: os pesos relativos mostram que os contextos desfavorecedores da variante padrão são os mesmos nas duas variedades. Os contextos que menos favorecem a produção da vibrante múltipla ápico-alveolar, tanto na variedade caipira, quanto baiana, são os contextos A (fala espontânea) e C (leitura de textos), sendo que este último desfavorece ainda mais: o peso relativo na variedade caipira é 0,39, enquanto que na variedade baiana é 0,38, isto é, são bastante próximos. O contexto A, segundo a amostra coletada, não favorece a produção do padrão espanhol, em nenhuma das duas variedades linguísticas, entretanto, os pesos relativos estão bem mais próximos do neutro do que o contexto C: na variedade caipira, o peso relativo é 0,45, enquanto que na variedade baiana é de 0,44. Em outras palavras, os pesos relativos também são bastante próximos. Conforme mencionamos anteriormente, esses resultados, de certa maneira, já eram esperados, pois ambos os estilos de fala oferecem, como acreditávamos no inicio da pesquisa, elementos que servem de distração para as estudantes de ELE, no momento da produção oral. Por outro lado, contextos B (entrevista dirigida) e D (leitura de frases), segundo os dados observados, contribuem para que as aprendentes, de ambas as variedades de língua, realizem a vibrante múltipla espanhola padrão, pois são estilos de fala que favorecem a que as 102 aprendentes estejam mais atentas ao que estão pronunciando. No entanto, verificamos que na entrevista dirigida, o peso relativo na variedade caipira é maior do que na baiana: 0,77 frente a 0,55, ou seja, o primeiro contribui fortemente, enquanto que o segundo está mais próximo do neutro, de acordo com a tabela 10. Acreditamos que essa diferença com relação aos pesos relativos se dá pela interferência do som retroflexo na produção oral das aprendentes paulistas, inexistente no dialeto baiano, como já foi explicado anteriormente. De acordo com os dados, o contexto D (leitura de frases), tanto na variedade caipira quanto na baiana, contribui para a produção da vibrante múltipla ápico-alveolar . No entanto, o peso relativo na variedade caipira chega próximo do neutro, 0,51, enquanto que na variedade baiana o peso é um pouco maior: 0,56. 4.3 RESULTADOS GERAIS Após a análise das realizações fonéticas de das aprendentes brasileiras de ELE selecionadas para esta pesquisa, percebemos que as tendências encontradas na produção oral coincidem com, pelo menos, quatro comportamentos fonéticos que estão presentes entre os falantes nativos de espanhol, de diferentes variedades línguísticas. Relembrando o que citamos no seção primeiro, de acordo com Quilis (1993), a vibrante do latim era pronunciada como um som vibrante ápico-alveolar, que se conservou durante um longo tempo em praticamente toda România, e se mantém ainda em diversas línguas de origem românica. No entanto, esse fonema sofreu diferentes evoluções em algumas línguas como, por exemplo, o espanhol. Com base nessa constatação, poderíamos afirmar que as manifestações fonéticas de no espanhol falado pelas participantes desta pesquisa parecem seguir algumas tendências apontadas por autores como Navarro Tomás (1985 1918 ), Quilis (1993), Andión Herrero (2004), Vaquero de Ramírez (2003) e Lipski (2007). Verificamos que o debilitamento do segmento do espanholocorre em todo corpus, de forma ampla, tanto na fala das aprendentes baianas, como na oralidade das estudantes paulistas. Ou seja, o relaxamento na pronúncia da vibrante múltipla espanhola é uma das semelhanças existentes em comum entre as diferentes variedades dialetais do espanhol e a língua espanhola falada pelas aprendentes brasileiras investigadas, no que tange aos aspectos fonéticos. Como mencionamos anteriormente, ainda segundo Quilis (1993), a origem das mudanças das consoantes vibrantes é resultado do debilitamento do movimento 103 orgânico da língua, mais especificamente de seu ápice. Esse fenômeno pode ser identificado em diversas variedades linguísticas do espanhol como, por exemplo, na língua espanhola falada em Cuba, conforme afirmou Darias Concepción (2003, p.1): “a vibrante múltipla é um dos fonemas que mais se destaca por sua ampla polifonia”. Um dos fenômenos fonéticos presentes no espanhol falado pelos nativos é a realização velar de. Segundo Quilis (1993, p. 350), essa articulação é o resultado do esforço fisiológico do indivíduo ao elevar a parte posterior da língua em direção a abóbada do paladar; nesse caso, se substitui os movimentos da ponta da língua por vibrações das partes brandas da parte posterior da boca. Verificamos a velarização da vibrante múltipla espanhola na produção oral das aprendentes de ELE investigadas, em especial, na fala das informantes paulistas, de variedade caipira, como demonstraram os autores Hoyos-Andrade (1994), Andrade Neta (2001), entre outros. Das dez estudantes investigadas, seis apresentaram articulações velares, as quais se manifestaram em diferentes contextos fônicos: i) em posição inicial, revista x' ; reflejo ' ; ii) em posição intervocálica, perro ' ; tierra ' ; iii) precedido de , honra ' . As produções velares presentes no corpus, de certa forma, já revelam, como mencionamos nos parágrafos anteriores, a influência dialetal na aprendizagem do espanhol. Outra tendência fonética que pode ser observada nos falantes nativos de espanhol, e que verificamos entre as estudantes investigadas, é a realização glotal ou aspirada do fonema , representada pelo símbolo fonético como afirma Andrade Neta (2001). A articulação glotal corresponde a um processo de fricatização na emissão do segmento em estudo, que tem como resultado a substituição dos movimentos do ápice da língua por uma simples aspiração, que exige um menor esforço por parte dos órgãos articulatórios envolvidos em sua produção. Analisamos a pronúncia do glotal, presente, em particular, na produção oral das aprendentes de ELE do dialeto baiano; oito das dez estudantes pesquisadas apresentaram o fenômeno mencionado, o qual se manifestou em todos os contextos fônicos considerados nesta investigação: i) em posição inicial, románticas; ' ; resultado ' ; ii) em posição intervocálica, guitarra ' ; corriente; ' iii) precedido de , enriquecerte ' ; iii) precedido de , Israel ' ; iii) precedido de , alrededor ' . Com base nos dados coletados, podemos afirmar que as realizações glotais, presentes no corpus oral das 104 aprendentes baianas também, de certa forma, revelam a influência dialetal na aprendizagem da língua espanhola, conforme explicamos anteriormente. A terceira tendência fonética observada na produção oral das aprendentes brasileiras de ELE– a maior –, que também aparece comumente e com frequência, por exemplo, em grande parte do território caribenho, é a pronúncia de como vibrante simples , como afirma Lipski (2007). Relembrando o que também já foi mencionado no seção primeiro, a produção do fonema como um som vibrante simples é considerada como uma das discrepâncias fonéticas mais recorrentes observadas na língua espanhola que se dão, por exemplo, na zona do Caribe. De certa forma, a maior ocorrência do alofone vibrante simples , em detrimento das outras possibilidades fonéticas apontadas anteriormente no corpus analisado já era esperada, pois o som é o que possui o mecanismo de produção mais próximo da vibrante ápico-alveolar do espanhol, em termos fisiológicos; ambos têm o mesmo ponto de articulação, ou seja, são alveolares. A diferença entre estes sons é que, na realização da vibrante simples, o ápice da língua executa um só movimento em direção aos alvéolos, sem que haja necessariamente uma pressão entre os órgãos envolvidos, enquanto que na produção da vibrante múltipla, a ponta da língua efetua dois ou mais golpes, também contra os alvéolos, porém exigindo certa pressão. Verificamos na fala de todas as informantes envolvidas neste estudo – sem exceção – a pronúncia do fonema como um som vibrante simples , em diferentes momentos das entrevistas. Entretanto, vale ressaltar que algumas estudantes realizaram com maior frequência a dita variante fonética do que outras. Assim, com base dos dados coletados, poderíamos afirmar que o grau de competência fonético-fonológica na produção desse fonema, entre as aprendentes, é variável; umas demonstraram ter mais competência, e outras menos. Nos dois grupos avaliados, o alofone se manifestou em todos os contextos fônicos abordados nesta dissertação: i) em posição inicial, rabia ' ; rio ' ; ii) em posição intervocálica, arrebatar ' ; Aguirre ' ; iii) precedido de ,enrriquecerte ' ; iii) precedido de , Israel ' ; iii) precedido de , alrededor ' . A quarta tendência fonética que pode ser observada apenas em uma das participantes investigadas, de variedade caipira (ainda que em escassos momentos), é a articulação retroflexa do fonema , representado pelo símbolo fonético . Por exemplo, encontramos 105 a palavra honra . Destacamos que essa realização também pode ocorrer entre os falantes nativos de espanhol, como demonstra Lipsky (2007). O erre retroflexo é aquele cuja produção se dá quando o reverso da língua se dobra para trás, em direção a região palatal. Assim como o som vibrante simples , a pronúncia de também não faz parte da norma padrão da língua espanhola, sendo considerado também, por alguns linguistas, como outro caso de discrepância fonética, conforme explicamos no seção primeiro. Durante a apresentação e análise dos resultados, não consideramos essa variante, posto que se manifestou, foneticamente, de forma isolada. Aqui podemos observar também, como nos demais casos, a interferência do dialeto da aprendente na pronúncia da língua alvo. Em linhas gerais, podemos afirmar que a pronúncia da vibrante múltipla espanhola das aprendentes analisadas nesta pesquisa demonstra tendências ao debilitamento e fricatizações (glotal e velar), a realizações aproximantes retroflexas (raríssimos casos) e, principalmente, a articulações como tap/flepe. 106 CONSIDERAÇÕES FINAIS No intuito de contribuir para as pesquisas sobre a aprendizagem de conteúdos fonético-fonológicos da língua espanhola por aprendentes brasileiros, realizamos um estudo cujo objetivo principal é analisar as manifestações fonéticas da vibrante múltipla na produção oral dos aprendentes de ELE – nos Estados da Bahia e São Paulo. Vale ressaltar que desde o início da investigação, até o momento, não encontramos estudos voltados para a aprendizagem da vibrante espanhola ,a partir da observação de sua produção em diferentes grupos dialetais do Brasil. Tendo, em outro momento, trabalhado esse mesmo fenômeno na fala de aprendizes baianos (GOMES, 2008), percebemos a necessidade de ampliar o estudo, a fim de verificar os possíveis problemas de produção articulatória em aprendentes de espanhol de outras variedades linguísticas. Porém, nesta nova pesquisa, visamos à análise da interferência de fatores linguísticos e extralinguísticos nas variações fonéticas de no espanhol falado por aprendentes de ELE na Bahia e em São Paulo e, para isso, adotamos os pressupostos da Sociolinguística Variacionista como modelo teórico, pois acreditamos que esse aparato teórico-metodológico nos ajudaria a encontrar respostas mais aprofundadas e a compreender ainda mais o fenômeno apresentado. Além disso, sabemos que esse é um tema pertinente no que se refere à aprendizagem do espanhol por lusofalantes brasileiros. Por meio deste estudo, confirmamos a ideia de que a realização da vibrante múltipla espanhola por aprendentes brasileiros é sim um desafio, tanto para os alunos que estão em estágios iniciais de aprendizagem, quanto para aqueles que se encontram em níveis avançados. E não só isso: durante a revisão bibliográfica, descobrimos que a dificuldade de realização de não se dá apenas em aprendizes de espanhol no Brasil, mas também em falantes nativos de diferentes línguas. É um fonema que exige certos requisitos articulatórios, bem peculiares e diferentes, se comparado a outros fonemas da língua espanhola. Além disso, o fonema apresenta características próprias que muitas vezes não estão presentes em outras línguas, como podemos constatar. Em consequência, podemos observar a interferência das variedades regionais no espanhol falado pelas participantes desta pesquisa. Ao longo do trabalho, com base no corpus analisado, confirmamos a noção de que os estudantes brasileiros de ELE tendem a substituir o som ápico-alveolar por outros sons 107 existentes na língua portuguesa, conforme mencionam diferentes autores como, HoyosAndrade (1994), Masip (1999) e Andrade Neta (2001). A comparação entre o desempenho das falantes da variedade baiana e da caipira no aprendizado de ELE permitiu comprovar nossa hipótese de que, nas duas regiões estudadas na presente pesquisa, devido ao fato de terem variedades dialetais diferentes, e aos níveis diferentes de conhecimento da língua espanhola, a realização do fonema pelos falantes brasileiros apresenta diferenças, resultantes de condicionamentos linguísticos (estruturais) e extralinguísticos (região geográfica, nível de aquisição e estilo de fala empregado). Sobre a interferência da variedade dialetal no aprendizado de uma língua estrangeira, esta pesquisa confirma o que pressupõe Herrero de Haro (2010), quando afirma que aprendentes de determinada língua estrangeira certamente introduzirão em sua fala características dialetais de sua procedência. Com base no corpus, ao analisar as manifestações fonéticas da vibrante múltipla espanhola , percebemos que tanto os fatores linguísticos quanto extralinguísticos são relevantes na aprendizagem dessa língua nos dois grupos pesquisados. Em relação aos fatores linguísticos, no que diz respeito aos contextos fônicos, o estudo comprova que a posição inicial é a mais favorável para a realização de pelo motivo exposto ao longo do trabalho (posição saliente). Sobre a interferência da variedade regional dos aprendentes, a pesquisa também comprova a hipótese levantada no início, de que a variedade caipira contribui melhor para a produção do ápico-alveolar, frente à variedade baiana, devido à presença de sons que estão presentes na primeira variedade de língua (bem semelhantes ao som padrão de em termos articulatórios), mas que estão ausentes na fala baiana. Ao investigar as participantes selecionadas, no que tange ao tempo de exposição formal ao ensino de espanhol, verificamos que a nossa hipótese inicial não se confirma, pois conjecturamos que o tempo de aprendizagem de espanhol seria um fator que contribuiria, de maneira, positiva, na realização da vibrante múltipla espanhola segundo a norma. No entanto, identificamos um fenômeno curioso, que não tínhamos previsto no princípio: o estudo aponta que estudantes com menor tempo cronológico de aprendizagem de ELE, têm uma tendência maior em pronunciar o som padrão (ápico-alveolar) do que os estudantes de níveis mais avançados. Este resultado servirá para dar início, certamente, a estudos posteriores, devido ao tempo. Com relação aos estilos de fala empregados, nossa hipótese também se confirma, pois os estilos que apresentavam mais elementos de distração (ou despreocupação com a linguagem – discurso menos monitorado), como, por exemplo, a fala espontânea, 108 proporcionaram usos linguísticos em que as aprendentes desviassem sua atenção e, consequentemente, não realizassem a consoante segundo a norma. Por outro lado, os estilos mais controlados contribuíram para chamar a atenção das participantes com relação à pronúncia do padrão do espanhol. Sobre a interferência da função sintática na realização de , investigamos essa variável independente com o objetivo, apenas, exploratório. Os primeiros achados indicam que quando o fonema aparece em palavras que ocupam a função sintática de adjunto adnominal favorecem a produção da variante padrão de . No entanto, os resultados encontrados serão mais bem elucidados em estudos futuros, conforme afirmamos durante a apresentação dos resultados. Diante dos achados obtidos, por meio da análise do fenômeno selecionado, percebemos a importância de conhecer os fatores que interferem na aprendizagem de espanhol por aprendentes brasileiros, a fim de sejam apresentadas estratégias que dêem conta das dificuldades apresentadas em uma sala de aprendentes de espanhol de diferentes variedades linguísticas. Compreendemos também, por meio desta pesquisa que, além de conhecermos a língua em seus diferentes níveis (fonético-fonológico, sintático, semântico, etc.), é necessário entender como os fatores linguísticos e extralinguísticos condicionam a variação, facilitando ou dificultando a aprendizagem da língua falada pelos aprendizes de ELE. Na sequência, gostaríamos de chamar a atenção para a necessidade de atualização do professor de espanhol que está em sala de aula no que diz respeito aos conhecimentos linguísticos e, neste caso em particular, a necessidade de um contato mínimo desses docentes com as diferentes variedades dialetais dessa língua. E isso deve ser resultado da aproximação entre a prática pedagógica e a pesquisa básica em linguística. Segundo Moreno Fernández (2004), pesquisas dialetais acerca da linguagem utilizada por grupos de indivíduos menos favorecidos ou estigmatizados vêm sendo realizadas e tem-se chegado à conclusão de que os dialetos, usados por estes grupos, têm regras diferentes do dialeto padrão, mas não por isso são inferiores, pois também têm uma estrutura. Na sala de aula, esses trabalhos podem servir como meios e oportunidades para que os professores de ELE motivem seus alunos a dar valor aos diferentes dialetos, mostrando-lhes as diferenças existentes, conscientizando-lhes de que não existem dialetos superiores ou inferiores. A partir desta pesquisa, verificamos também que as variantes fonéticas de não padrão, pronunciadas por falantes nativos de espanhol, muitas vezes são consideradas como formas estigmatizadas, mas que, por outro lado, a pronúncia ápico-alveolar já está desaparecendo em 109 diversas regiões onde se fala o espanhol, como podemos observar a partir das leituras realizadas. No que concerne à relação entre a Sociolinguística e o ensino de línguas, Moreno Fernández (2004) afirma que, nos últimos anos, essa ciência vem incluindo, cada vez mais, em sua teoria questões ligadas à aquisição da linguagem em pesquisas de língua materna – principalmente – e também nos estudos de segunda língua34. Nesse contexto, pesquisas têm demonstrado que os melhores resultados alcançados se dão quando os conteúdos linguísticos dos cursos se aproximam mais das necessidades reais dos aprendentes. Em linhas gerais, o ensino de línguas exige atenção à relação entre necessidades dos aprendentes e o contexto social e a existência das variedades, sejam elas sociais, dialetais, etc. Esses dados não podem ser dissociados do ensino, seja de primeira língua, seja de segunda língua. É importante mencionar que quanto mais entendemos o funcionamento de uma língua e seu uso em diferentes contextos sociais, melhor podemos ensiná-la, já que temos mais recurso para tal. Os resultados obtidos em pesquisas realizadas com base na sociolinguística nos ajudarão, por exemplo, a ensinar que usos de linguagem têm mais prestígio e quais são estigmatizados, quais são mais frequentes ou menos comuns em determinados grupos sociais, que características estão relacionadas como mudanças consolidadas, etc. Em linhas gerais, esses estudos poderão nos auxiliar a acercar-nos à língua real utilizada em determinada sociedade. Moreno Fernández (2004) diz que o ensino de línguas e o estudo da aquisição têm utilizado como base a Teoria da Variação e, com isso, tem se beneficiado na construção de estratégias de ensino. A partir dessa teoria, conclusões de hipóteses valiosas vêm sendo alcançadas com respeito, por exemplo, à interferência dos estilos da linguagem, ao grau de influência dos fatores linguísticos e extralinguísticos sobre o processo de uso linguístico. As pesquisas sociolinguísticas têm contribuído ainda no sentido de destruir preconceitos linguísticos e de relativizar a noção de erro, ou buscar e descrever o plano real que a escola, por exemplo, busca menosprezar e abolir como expressão linguística natural e autêntica. O preconceito linguístico é um assunto amplamente discutido entre sociolinguistas, pois ainda, nos dias atuais, no ambiente escolar existem práticas de ensino que trabalham com a dicotomia certo/errado, sendo a forma considerada correta apenas o padrão culto (Mollica, 2008). Em resumo, consideramos importante não ignorar a relação da aprendizagem de língua estrangeira (neste caso, o espanhol) com os aspectos sociais. 34 Aqui se entende Segunda Língua (SL) como qualquer idioma que não seja a língua materna do indivíduo. 110 A respeito das possíveis conclusões a que esta pesquisa pode conduzir, é importante ressaltar que o universo da atuação deste estudo se restringiu a aprendentes brasileiras de ELE de apenas duas variedades dialetais. Dessa maneira, o grau de generalização das considerações que são expostas aqui são, de certa forma, modestas e até mesmo restritas. Entretanto, esperamos que este trabalho, de alguma maneira, venha a contribuir tanto para os estudos sociolinguísticos, quanto para o ensino-aprendizagem de ELE no Brasil. Além disso, desejamos que esta pesquisa tenha diferentes aplicações futuras. Nesse sentido, acreditamos que pode constituir-se um material de apoio e de consulta para aqueles que se dedicam a aprofundar seus conhecimentos sobre o mecanismo de realização da vibrante múltipla espanhola por aprendentes brasileiros. Os resultados desta investigação, aliados a estudos de caráter suprasegmental ou de natureza acústica, certamente oferecerão uma descrição fonética mais completa acerca da realização do espanhol por lusofalantes brasileiros, pois ambos os elementos – segmental e suprasegmental – são de grande valor para aqueles que querem aprender ou ensinar línguas estrangeiras. Consideramos que pesquisas dessa natureza não devem ser dadas por encerradas. Outras deverão surgir, tanto na perspectiva adotada, quanto em outras. 111 REFERÊNCIAS ALCKMIM, Tânia Maria. Sociolinguística. In: MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Ana Christina. (Org.). Introdução à linguística: domínios e fronteiras. v. 1. São Paulo: Cortez, 2000. AMARAL, A. O dialeto caipira. São Paulo: HUCITEC, 1976. 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Disponível em:< http://www.sinoele.org/index.php?option=com_content&view=article&id=137>. Acesso em 3 de nov. 2012. 117 APÊNDICE 1 Ficha de identificação Nº. do participante: ____________________ Data da gravação: _______/________/______ a) Lugar de nascimento: b) Data de nascimento: c) Endereço: d) Te. Fixo: e) E-mail: f) Tel. Celular: g) Escolaridade: h)Profissão: i) Anos de residência na cidade atual: j) Local de nascimento da mãe: k) Local de nascimento do pai: l) Tempo/nível de ELE: Outras informações importantes:_________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 118 2 Questionário 2.1 Fala espontânea (conversa em espanhol) Fazer as apresentações Perguntar por que começou a estudar a língua espanhola. Fale sobre seus hábitos de leitura. Falar sobre o uso dos meios de comunicação de massa. Fale sobre seus gostos musicais. Pedir para falar sobre flores (se já recebeu flores: quando, de quem, em que ocasião) Falar sobre o governo brasileiro em geral (política). Falar sobre os últimos presidentes do Brasil. Fale sobre as mudanças climáticas do planeta e catástrofes naturais (motivos). 2.2 Entrevista dirigida: os participantes da pesquisa completarão as respostas oralmente, em espanhol, por meio de imagens. Esta legumbre es un________________________ (tomate) Esta fruta es una___________________________ (pera) Esta fruta es un(a)________________________ (plátano/banana) Esta parte de la planta es la___________________ (raíz) Esto es una_________________________________ (tele/televisión) Esto es un_______________________ (teléfono) Este instrumento es una__________________ (guitarra) Este instrumento es una__________________ (batería) Este instrumento es un____________________ (piano) Este ex-presidente se llama___________________ (Fernando Henrique Cardoso) Este ex-presidente se llama____________________ (Luis Inácio Lula da Sila/ Lula) La actual presidente se llama____________________ ( Dilma Rousseff/ Dilma) Este lugar es un_______________________ (restaurante) Este lugar es una_________________________ (farmacia) Y este lugar es una________________________ (escuela) Para cultivar plantas, es necesario usar un sistema de_________ (irrigación) 119 Este mueble es una___________________________ (cama) Este mueble es una________________________ (mesa) Este papel es de color___________________________ (rosa/ rosado) Este papel es de color____________________________ (negro) Este papel es de color____________________________(azul) Y este último, es de color___________________________ (verde) Este animal es un______________________________ (pato) Este animal es un_______________________________ (burro) Este anima es un______________________________ (gato) Y este es un___________________________ (tigre) 2.3 Lista de frases curtas Cinco barrios famosos Con mucha farra y vino En la carretera norte Baño de barro en las termas Pocas arrugas en la cara Razón de Estado Años de guerra civil Hubo un gran terremoto Todo territorio nacional Pueblo de Cerro Blanco Nuestro terruño de vino Respuesta de autoridades Es irracional su teoría Señor Aguirre Fernández Buena irrigación total 120 Una cirrosis hepática Logró irrumpir en su misión Rima consonante La zorra y las uvas Lista de correos de Brasil Una horrible situación Nunca corro por aquí La corrupción pública Ropas de invierno Infanta Urraca de León Áreas de ocurrencia de plagas Todo transcurría bien Como un burro de carga Paula Urrutia López Rusia y Canadá Luís honra a sus padres La sonrisa de Mona Lisa Antes de enroscar los pedales Una enredadera de flores Para enrular el pelo Por las calles de Israel Cuestan dos reales todo Los riesgos son muchos Unas rosas de mi vestido Este animal es rumiante 121 Un sol radiante en verano Fue un mal resultado para mí Un papel ridículo Informaron el robo ayer El valor del rubí es caro 122 ANEXOS A - Imagens que os participantes se basearam para responder a entrevista dirigida (2.2). Obs: estas figuras foram retiradas de um site que publica imagens livres de direitos autorais< http://www.everystockphoto.com/about.php>. 123 124 Rosa Azul Negro Verde 125 B - Leitura de textos Texto 1: El perro y su reflejo en el río Vadeaba un perro un río llevando en su hocico un sabroso pedazo de carne. Vio su propio reflejo en el agua del río y creyó que aquel reflejo era en realidad otro perro que llevaba un trozo de carne mayor que el suyo. Y deseando adueñarse del pedazo ajeno, soltó el suyo para arrebatar el trozo a su supuesto compadre. Pero el resultado fue que se quedó sin el propio y sin el ajeno: éste porque no existía, sólo era un reflejo, y el otro, el verdadero, porque se lo llevó la corriente. Moraleja: Nunca codicies el bien ajeno, pues puedes perder lo que ya has adquirido con tu esfuerzo. (Fábula de Esopo) Texto 2: El labrado y la fortuna Removiendo un labrador con su pala el suelo, encontró un paquete de oro. Todos los días, pues, ofrendaba a la Tierra un presente, creyendo que era a ésta a quien le debía tan gran favor. Pero se le apareció la Fortuna y le dijo: -Oye, amigo: ¿por qué agradeces a la Tierra los dones que yo te he dado para enriquecerte? Si los tiempos cambian y el oro pasa a otras manos, entonces echarás la culpa a la Fortuna. Moraleja: Cuando recibamos un beneficio, veamos bien de donde proviene antes de juzgar indebidamente. (Fábula de Esopo)