O Enigma da Esfinge: A Postura Problematizadora na Pesquisa em Administração
Autoria: Carolina Machado Saraiva de Albuquerque Maranhão, Fernanda Miranda Vasconcelos Motta
Tema: 2. Problemas e estratégias metodológicas da prática de pesquisa.
Resumo:
A dialética é um método de pesquisa muito utilizado pelos pesquisadores de estudos críticos
de Administração. Ela pode, no entanto, extrapolar sua condição de método, sendo
compreendida como forma de se pensar o mundo e de problematizá-lo, buscando-se
desvendar as conexões internas dos fenômenos sociais e tomando-se em perspectiva as
diferentes facetas que compõem a realidade. Nesse sentido, a proposta inicial deste artigo é de
reforçar a posição da dialética como método filosófico, e não apenas de pesquisa, por meio da
realização de uma releitura do embate entre Popper e Adorno (1961) acerca do positivismo e
da dialética nas ciências sociais. É fundamental destacar que esse embate foi emblemático
para a consolidação da dialética como forma adequada para se pensar o mundo social de
maneira crítica. Adicionalmente, é apresentada a ferramenta denominada “Suporte
Referencial de Superação” (SuRS), desenvolvida por Salomon (2000) e analisada a sua
aplicabilidade ao campo dos estudos organizacionais. Pode-se considerar que o propósito
maior do SuRS é o de auxiliar o pesquisador no processo de desenvolvimento do
conhecimento, sob a perspectiva dialética, sem deixá-lo se tornar refém dos dados, mas
considerando-os como componentes do processo a serem submetidos a uma análise crítica.
1
“A aventura em busca de um sólido que
sustente a leveza das conjecturas”
(SALOMON, 2000, p. 99).
Uma introdução ao enigma
Em busca de analisarem a Administração sob um enfoque crítico, muitos pesquisadores
adotam a dialética como método de pesquisa. Por meio dela, torna-se possível abordar os
fenômenos organizacionais através de suas contradições, desvelando seu caráter político e
ideológico. Rompe-se com a ingenuidade associada aos estudos positivistas, predominantes
na área, agregando-se novas perspectivas de fenômenos que são, em sua essência, complexos,
múltiplos e vinculados a experiências socialmente construídas e historicamente localizadas.
A dialética, contudo, é mais do que, simplesmente, um método de pesquisa. Ela pode ser
encarada como um método filosófico, apresentando-se como um arcabouço fundamental para
o estímulo da capacidade interpretativa e crítica dos estudiosos organizacionais em relação
aos fenômenos. Nesse sentido, Salomon (2000, p. 18) afirma que a “crítica é filha primogênita
da dialética”.
A adoção de uma postura de pesquisa baseada na dialética envolve compreender que o
conhecimento da realidade se dá indiretamente, através de um conjunto de meios e percursos,
de fases e etapas, constituindo um processo sempre inacabado e que permite apenas o acesso a
verdades relativas, não absolutas. A realidade (sempre uma entre múltiplas possibilidades)
apresenta-se ao sujeito como um desafio. Ela desempenha o papel do enigma da esfinge:
“decifra-me ou devoro-te” (SALOMON, 2000, p. 9). Dessa forma, problematizar significa ver
esta ou aquela realidade como um desafio (portanto, como um problema), realizando uma
imersão para que seja possível enfrentá-lo.
O pensamento dialético se baseia no ponto-de-vista de que o conhecimento concreto da
realidade não é construído por um acréscimo sistemático de fatos a outros fatos e de noções a
outras noções. Sob a ótica da dialética, o conhecimento humano se processa em um
movimento em espiral, em que cada início é abstrato e relativo.
É um processo em espiral de mútua compenetração e elucidação dos conceitos, no
qual a abstratividade (unilateralidade e isolamento) dos aspectos é superada em uma
correlação dialética quantitativo-qualitativa – regressivo-progressiva. (KOSIK,
1976, p. 41).
Com o objetivo, então, de introduzir uma análise mais sistematizada e aprofundada a respeito
da dialética como filosofia de pesquisa, retoma-se um embate filosófico, empreendido por
Adorno e Popper, que pontuou as significativas diferenças existentes entre um espírito de
pesquisa nela apoiado e outro apoiado no positivismo. Este embate foi decisivo para que o
método dialético fosse legitimado nas ciências sociais, propondo o repúdio ao processo de
naturalização das questões humanas.
Assim, após se evidenciar o processo de defesa do método dialético por Adorno, em
contraposição ao método positivista, defendido por Popper, é apresentada a ferramenta
“Suporte Referencial de Superação” (SuRS), desenvolvida por Salomon (2000) com o intuito
de guiar o pesquisador em direção à adoção de uma postura problematizadora, questionadora,
em relação ao universo de seu estudo.
2
O embate entre Popper e Adorno: perspectivas opostas quanto ao processo de produção
de conhecimento científico.
Em 1961, a Sociedade de Sociologia Alemã promoveu um congresso sobre metodologia
científica aplicada às ciências sociais para o qual foram convidados diversos teóricos, tais
como Dahrendorf, Habermas, Albert e Pilot. Dentre os diversos debates que ocorreram neste
evento, o mais famoso, no entanto, foi o travado entre Karl Popper e Theodor Adorno,
confrontando-se os potenciais tanto do positivismo quanto da dialética como modelos
explicativos das ciências sociais. Este debate ficou conhecido como “A disputa do
Positivismo na Sociologia Alemã” (BARRETO, 2001). Nesse sentido, Yazbek (2006) faz
uma ressalva, esclarecendo que, apesar de o embate ter ficado marcado pela polarização entre
o positivismo e da dialética, o que ocorreu, de fato, foi o embate entre o racionalismo crítico
(que é a verdadeira filiação de Popper) e a visão dos teóricos críticos sobre o positivismo.
O termo “positivismo” é aplicado (pelos frankfurtianos) de forma muito ampla,
recobrindo tradições de pensamento que habitualmente não receberiam esta
designação. Sob este perspectiva, Popper será enquadrado na moldura geral de
defensor do positivismo – algo que está longe de ser evidente. (...) o termo será
empregado de modo difuso e com um significado mais amplo do que comumente se
vê em outros autores (YAZBEK, p. 1, 2006).
Popper, neste debate, defendeu a tese de que a observância estrita aos princípios básicos da
lógica formal cartesiana era o fundamento para se assegurar a “cientificidade” e a
“objetividade” do pensamento teórico. Essa seria a única forma de se evitar a armadilha da
“pseudociência”, que ele vinculava ao marxismo [daí sua crítica ao materialismo histórico ou
historicismo de Marx], à astrologia e à psicologia freudiana. Ele pretendia estimular a
realização de um tipo de ciência que, aos seus olhos, mostrava-se como a verdadeira, a
autêntica, tomando como exemplo a teoria da relatividade de Einstein. Segundo ele, a teoria
proposta por Einstein era ciência verdadeira porque poderia ser testada. (POPPER [1969]
1983).
Para o teórico em questão, o conhecimento científico é “o mais seguro e fidedigno” que se
pode pretender, embora esta não seja uma prerrogativa exclusiva do positivismo (BARRETO,
2001). A segurança do conhecimento científico só é alcançada através da pesquisa empírica,
uma vez que o papel do pesquisador é apreender alguma coisa presente no real e retratá-lo da
forma mais fidedigna possível. “A preocupação de caracterizar a ciência empírica por
oposição a outras construções teóricas, a importância concedida à lógica na construção da
metodologia e o valor atribuído à experiência como instância de teste para hipótese ou
teorias” (CARVALHO, p. 65, 1994) foram, então, os princípios básicos da concepção de
metodologia científica de Popper.
Popper apresentou suas idéias em teses enumeradas, partindo do ponto central de oposição
entre o conhecimento e o não-conhecimento (ignorância), e afirmando que:
O conhecimento não começa de percepções ou observações ou de coleção de fatos
ou números, porém, começa, mais propriamente, de problemas. Poder-se-ia dizer:
não há nenhum conhecimento sem problemas; mas, também, não há nenhum
problema sem conhecimento. Mas isto significa que o conhecimento começa da
tensão entre conhecimento e ignorância (POPPER [1961] 1983).
Desta afirmação decorre a sexta (e principal) tese da exposição do autor, por meio da qual ele
reafirmou a importância do princípio da refutabilidade. Com base nisso é que ele criticaria o
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marxismo e a psicanálise, porque seriam dogmáticas e suas afirmações não passíveis de teste,
uma vez que expressariam muito mais uma questão de valor do que um princípio científico.
Em posição contrária, Adorno procurou esclarecer a respeito da adequação do método
dialético à pesquisa em ciências sociais, afirmando que o positivismo valoriza a racionalidade
instrumental, o que acabava induzindo a um comportamento astucioso por parte do
pesquisador, voltado para ajustar suas descobertas ao que é socialmente aceito e vigente.
Adorno, portanto, argumenta que a neutralidade científica é ideológica e que é preciso
desenvolver uma razão emancipatória. “A razão converteu-se em uma razão alienada que se
desviou do seu objetivo emancipatório original, transformando-se em seu contrário: a razão
instrumental, substrato comum da alienante ciência e técnica positivista” (FREITAG, p. 35,
1986).
Inerente, então, a esses pontos-de-vista duais, coloca-se a questão da posição do pesquisador
em relação ao objeto de estudo. Para Popper, a objetividade e a máxima neutralidade possível
devem ser guias por meio dos quais o pesquisador conduzirá sua trajetória. Passa a ser
fundamental respeitar, então, o princípio da não-contradição e da conexão irreversível causaefeito (MUSSE, 2005).
Em relação a este aspecto, Adorno apressou-se em promover um desmantelamento desta
lógica, na medida em que questionava fortemente a capacidade dos dados refletirem o real,
em sua totalidade. Para ele, a confiança dos pesquisadores positivistas nas evidências
previamente calculadas não passava de mera ilusão de que a realidade é a soma de fatos que
se apresentam em uma lógica linear. O problema crucial, para Adorno, não se restringia a uma
questão de método de pesquisa, ou seja, de adoção de técnicas quantitativas ou qualitativas de
pesquisa, mas sim à escolha entre mirar os fins e adequar os meios para atingi-los ou mirar os
meios para que eles se adequassem aos fins.
Uma questão enfatizada por Adorno, portanto, é que os positivistas (e adeptos da
racionalidade instrumental) não revelavam a quem servia a racionalidade científica e de que
ela derivava. Na perspectiva adorniana, portanto, a defesa da neutralidade científica se
mostrava impregnada de conotação ideológica, sendo preciso fomentar a propagação de uma
razão emancipatória, capaz de sobrepujar a razão utilitarista, a fim de libertar as pessoas da
dominação a qual são subjugadas por aqueles que afirmam deter o conhecimento (e poder),
manipulando as verdades para consolidação de sua superioridade social e econômica.
Em relação às duas primeiras teses de Popper (o conhecimento abundante e o nãoconhecimento), Adorno afirmou até concordar com elas, porém evidenciou a ingenuidade de
seu oponente, mencionando que o princípio da contradição estava sempre presente no
conhecimento e que era justamente a partir da análise dessas contradições que as teorias
seriam construídas. Isso se dava, de acordo com o autor, devido à complexidade dos objetos
das ciências sociais: o homem e a sociedade. Ele defendia que estes objetos não poderiam ser
reduzidos a elementos homogêneos, extraídos do contexto histórico, para serem analisados em
laboratório e depois devolvidos ao seu ambiente “natural”:
O ideal de conhecimento de uma explicação unívoca, simplificada ao máximo,
matematicamente elegante, fracassa quando o próprio objeto, a sociedade, não é
unívoca, nem simples, nem tampouco se sujeita de modo neutro ao arbítrio da
formação categorial, pois difere daquilo que o sistema de categorias da lógica
discursiva antecipadamente espera. (...) Por isso, os procedimentos da sociologia
devem curva-se ante o caráter contraditório da sociedade, caso contrário, o
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empreendimento das ciências sociais corre permanentemente o risco de, por amor à
clareza e à exatidão, passar ao largo daquilo que quer conhecer (ADORNO [1961]
1983).
Em relação a esse debate entre Adorno e Popper, Marcondes (1998), portanto, ressalta que sua
importância se deve à discussão da aplicabilidade da racionalidade científica ao campo das
ciências sociais. Observa-se, então, que as visões de Popper e Adorno sobre o fazer científico
eram completamente opostas. Fica patente o desacordo das duas correntes acadêmicas em
relação à base epistemológica das ciências sociais que, para Popper, consistia em
comprovação empírica de fatos em busca da verdade e, para Adorno, significava a construção
de teorias direcionadas à emancipação social. Nas palavras do autor, “a desistência da
sociologia de uma teoria crítica da sociedade é resignada: não se atreve mais a pensar o todo
porque não vê como alterá-lo” (ADORNO [1961] 1983).
O intento, portanto, de se trazer à tona pontos-de-vista tão antagônicos vinculados ao fazer
científico nas ciências sociais e, por conseqüência, nos estudos organizacionais, consiste em
demonstrar o alto grau de complexidade associado às pesquisas na área. Exatamente por este
motivo, as discussões a respeito da metodologia ideal a ser aplicada nas pesquisas têm se
mostrado infrutíferas.
(...) não se pode reduzir os termos do embate ocorrido neste congresso ao plano
estrito das disputas metodológicas, posto que o impulso inicial da querela entre
Popper e Adorno – que de fato se apresentaria sob a forma de uma discussão
meramente metodológica – colocaria em jogo e por fim cederia à confrontação
global entre duas concepções bem distintas da sociologia, cujos pontos de apoio
filosófico e epistemológico dificilmente seriam redutíveis a um denominador
comum – prova disso, como veremos, são as diferenças de linguagem e mesmo de
armação conceitual que se explicitam nas comunicações de Adorno e Popper.
(YAZBEK, 2004)
Na busca por se lidar com essa complexidade dos fenômenos sociais, a diversificação
metodológica apresenta-se como um caminho necessário, capaz de conduzir este campo de
conhecimento a um processo de elevação de sua relevância e conseqüente amadurecimento.
No que diz respeito à consideração da epistemologia que deve sustentar os estudos sociais, a
linha adotada neste artigo está em consonância com a visão de Adorno, posicionando a
dialética como sendo uma perspectiva que reconhece a sociedade como contraditória em si
mesma, apresentando-se, ao mesmo tempo, como racional e irracional, sistemática e caótica,
natureza cega e mediada pela consciência. Desta forma, Adorno é categórico ao afirmar que:
(...) os procedimentos sociológicos ou se curvam frente às peculiaridades de seu
objeto ou então estarão fadados, por ânsia puritana contra a contradição, a
embrenhar-se nas mais desastrosas das contradições, a saber, aquela entre a estrutura
do pensar sociológico e o próprio objeto de que se ocupa este pensar (ADORNO
[1969] 1983, p. 125)
De fato, considera-se que a busca por uma objetividade extrema pode acabar cegando o
pesquisador, fazendo com que ele perca seu espírito investigativo e questionador,
exterminando toda a sua carga subjetiva, o que pode levá-lo a uma atuação afirmativa,
burocrática e confirmatória da realidade vigente que, ao final, pouco contribui para o avanço
do conhecimento na área.
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A Ferramenta SuRS: uma proposta de solução ao enigma da esfinge
Como suporte metodológico para estimular o pensamento reflexivo e crítico por parte dos
pesquisadores, Salomon (2000) propôs o uso da ferramenta “Suporte Referencial de
Superação” – SuRS. Esta é uma ferramenta “psicoepistemológica a ser empregada com
eficácia metodológica no próprio processo da produção do conhecimento científico”
(SALOMON, p. 31, 2000). O SuRS consiste em uma seqüência de perguntas tais como: o que
é, como, por quê, para quê, onde, quando, quantos e quais. Elas, conjugadas, formam uma
espiral capaz de manter firme a postura problematizante do pesquisador.
Foi justamente o desafio da problematização no processo investigatório que levou Salomon
(2000) a criar a ferramenta SuRS, visando auxiliar o pesquisador de estudos sociais a manter
sua postura crítica, evitando que os dados falem por si sós e acabem tornando o uso das
faculdades críticas dele algo desnecessário. Segundo Kosik (1976, p. 41) a postura
problematizante é:
Um processo de concretização que procede do todo para as partes e das partes para o
todo, dos fenômenos para a essência e da essência para os fenômenos, da totalidade
para as contradições e das contradições para a totalidade; e justamente nesse
processo de correlações em espiral, no qual os conceitos entram em movimento
recíproco e se elucidam mutuamente, atinge-se a concreticidade.
Na “maravilhosa aventura de encruzilhadas”, que é como Salomon (2000) denomina a
atividade da docência, é que ele acredita que o pensamento crítico começa a ser
verdadeiramente marcado pelas posturas dialéticas e reflexivas. Mais tarde, com o
desenvolvimento do SuRS, o autor reconheceu que a postura dialética deriva justamente de
outro processo inerente ao pensar: a problematização, que é muito mais ampla e profunda que
simplesmente a formulação de um problema de pesquisa.
A forma como o pesquisador crítico, que está na “aventura de interrogador em torno de si
mesmo”, compreende o processo de problematização, reflete como ele concebe sua própria
realidade. Esse processo é iniciado por um conjunto de interrogativos que proporcionam ao
homem identificar a realidade, descrevê-la, interpretá-la, explicá-la, avaliá-la e prever seu
comportamento futuro, agindo sobre ela e comunicando o conhecimento obtido aos seus
semelhantes.
Nesse contexto, tem-se, então, a primeira ponte para o entendimento da proposta do SuRS.
Quando Salomon afirma que é necessário que o ser humano saiba qual a origem do processo
de problematização e como ele o enfrenta, ele está falando de referencial. Qual o referencial
que o sujeito utiliza ao enfrentar determinado problema? Por que ele o escolheu? O que este
referencial ilumina e o que ele apaga? Este referencial, conhecido também como “princípios
da filosofia da ciência”, é mais do que somente epistemológico. “Ele está colado ao sujeito,
definindo a forma como este vê o mundo e revelando sua ideologia sobre a realidade”
(SALOMON, 2000, p. 109). Assim, o pesquisador passa a tentar definir do que a realidade é
composta, qual a hierarquia de seus elementos e qual a finalidade de se encarar os ‘fatos’
como tais. Se o pesquisador desafia a realidade, de uma perspectiva dialética, isto significa
dizer que ele encara a realidade como uma totalidade, e não como algo abstrato. Nas palavras
de Kosik (1976, p. 41):
A compreensão dialética da totalidade significa não só que as partes se encontram
em relação de interna interação e conexão entre si e com o todo, mas também que o
todo não pode ser petrificado na abstração situada por cima das partes, visto que o
todo se cria a si mesmo na interação das partes (KOSIK, 1976, p. 41).
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Esta questão foi muito atacada pelos positivistas e neopositivistas, que defendem o argumento
de que sua postura epistemológica não é fruto de ideologia e sim da exigência da postura
científica adequada ao campo da descoberta. Os dialéticos, conforme Salomon (2000), nunca
se preocuparam, contudo, com esta questão. Isso porque, para eles, a própria interação entre
dimensões subjetivas e objetivas do pesquisador, estruturadas em um processo contínuo de
reconstrução, é que acaba sendo inerente à “lógica” das descobertas científicas.
Neste sentido, não há como se mencionar que os dados podem ser “puramente” extraídos da
realidade. Na concepção dialética, os dados só podem ser pensados em termos de seus
referenciais políticos, sociais e econômicos. “Se o dado é fruto da experiência do sujeito,
então ele é concreto (histórico, político, econômico e social). Se é concreto, é plural. Logo,
não há concretamente o dado (...)” (SALOMON, 2000, p. 107). É o referencial que leva o
pesquisador a adjetivar e a precisar os dados.
A fim de não se cair na “armadilha” descrita acima, pode-se utilizar quatro critérios
norteadores do SuRS: (1) usar os recursos lingüísticos da própria teoria adotada; (2) somente
recorrer a contribuições às teorias afins; (3) nunca desligar-se dos fatos que geraram a teoria
em questão: historicidade, pluralidade, concreção, totalidade e socialidade; e (4) vigiar o
discurso, desde o início, contra três tipos de ameaças constantes: o psicologismo, o
historicismo e o logicismo (SALOMON, 2000).
Buscando-se, assim, uma compreensão mais profunda sobre a estrutura do SuRS, pode-se
dividi-lo em três bases: 1) Suporte - topos de onde fala o pesquisador. 2) Referencial - indica
que o suporte refere-se a algo. 3) Superação - tomar de cada doutrina o que ela tem de bom e
superá-la.
O processo se inicia, então, com a sustentação dos processos de pensar e agir pelo
pesquisador, que procura construir o seu discurso e desenvolver a melhor forma de
problematizar a pesquisa. Posteriormente, o pesquisador esquematiza o ponto de partida do
processo de geração do conhecimento, vinculando-o a um momento específico no tempo, a
um lugar físico e a um topos lógico (SALOMON, 2000). Essa vinculação advém da
necessidade de se tornar o processo de pesquisa claro e definido. E isso ocorre por meio de
três procedimentos:
(1) a dependência de nosso pensamento de algo além do compromisso de ser
pensamento; (2) a riqueza operacional do pensamento que pensa, formaliza, dirige,
manifesta, analisa, conclui etc; e (3) a falta de algo que fosse ao mesmo tempo
situador do pensamento, orientador do pensamento, legislador do pensamento,
promotor do pensamento, controlador do pensamento e julgador do pensamento
(SALOMON, 2000, p. 58).
Já a etapa da superação não se identifica com o significado de abolição, no sentido de que
algo foi superado. Ela apresenta uma característica hegeliana de elevação a um nível superior,
diferentemente da concepção de síntese, que o autor identifica a uma relação mecânica e à
busca constante de uma construção ideal.
A proposição do SuRS como ferramenta de incentivo à postura científica visa à superação
dos conflitos provenientes do referencial presente na situação problemática. Desta forma,
algumas diretrizes podem ajudar o pesquisador a manter a postura dialética: (1) desconfiar do
ecletismo sem contorno, sem rigor e sem força; e (2) aprofundar as teses, aguçar as
diferenças, com o objetivo de rejeitar a ambas (SALOMON, 2000). Assim, tem-se que tanto
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Suporte, quanto Referencial e Superação, são três elementos de uma mesma estrutura,
intimamente relacionados, devendo ser usados no processo de problematização, a fim de se
evitar o que Salomon (2000) chama de “bloqueio da mente”, que consiste no julgamento do
pensamento no momento em que ele é concebido, inibindo o processo criativo e de quebra de
paradigmas.
A representação do SuRS é, então, apresentada por Salomon (2000), em forma de relógio, que
é uma representação convencional, mas fiel, da realidade “tempo” enquanto movimento,
simbolizando que o processo do pensar nunca pára. Este relógio sui generis deve ser
imaginado como uma espiral, dado que este é o movimento próprio da dialética, que se
reinicia continuamente, sempre de patamares diferentes, superando-se os argumentos
anteriores e reavivando-se as contradições silenciadas.
Os ponteiros do processo de pensar e de criar passam, só aparentemente, nos mesmos pontos.
Só aparentemente porque, de fato, passam por estes “mesmos pontos” já em outro estágio. O
relógio SuRS é representado da seguinte forma:
O QUE É?
QUAIS?
COMO?
POR QUÊ?
QUANTOS?
QUANDO?
PARA QUÊ?
ONDE?
FIGURA 1: RELÓGIO SuRS
FONTE: Salomon, 2000, p. 68
Os interrogativos podem multiplicar-se ad infinitum tais quais os pontos que marcam frações
do tempo no relógio. Apenas para ilustrar, pode-se mencionar o exemplo do interrogativo:
Onde? Ele pode desdobrar-se em: De onde? Para onde? Em que direção? Em que lugar? Em
qual situação?
O ponteiro menor indicará o suporte inicial. Fixando-se no primeiro interrogativo, faz-se girar
o ponteiro maior e os demais interrogativos vão fornecendo os referenciais de superação.
Nessa sucessão, os dois ponteiros ou os dois eixos vão construindo o suporte referencial de
superação do pesquisador. Esta alternativa de utilização do SuRS é, portanto, muito útil para a
construção do marco teórico de referência para uma pesquisa e para a formulação de um
problema, além de auxiliar nos processos de análise de dados vinculados às técnicas de
análise de conteúdo e até mesmo de análise de discurso (SALOMON, 2000).
Um uso mais complexo do SuRS, por conseguinte, consiste em confrontá-lo com os
conceitos-chave de uma teoria, aferindo-se os reais significados e limitações dos conceitos a
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ela ligados. Utilizando-se o exemplo de Horkheimer e Adorno (1973), apresentado por
Salomon (2000), pode-se imaginar que o pesquisador esteja na fase de problematizar o termo
ideologia. Para compreendê-lo, em sua totalidade, o pesquisador fará girar o ponteiro maior, a
partir do primeiro interrogativo, enquanto mantém o ponteiro menor firme no item ideologia.
À medida que avança o ponteiro maior, o pesquisador vai detendo-se em cada interrogativo.
Começando a operação, teria provavelmente:
1º)O que é? – Ideologia? É o mesmo que concepção filosófica? É atitude intelectual
de apego rígido às idéias? etc
2º) Como? – surgem as ideologias? Como se apresentam? Um discurso?etc
3º) Por quê? – surgem as ideologias? Têm alguma relação com a problemática
social? Com o pensamento de um líder carismático? (SALOMON, 2000, p. 156).
O QUE É?
Conceito de
Sociologia
QUAIS?
Sociedade
QUANTOS?
COMO?
Ideologia
O Grupo
A massa
POR QUÊ?
Indivíduo
Família
QUANDO?
Preconceito
PARA QUÊ?
ONDE?
FIGURA 2: RELÓGIO SuRS X CONCEITOS-CHAVE
FONTE: Adaptado de Salomon, 2000, p. 69.
Assim, o pesquisador reduz suas chances de incorrer no erro de tomar, de forma naturalizada,
conceitos que, em verdade, são socialmente criados. O SuRS mostra-se, então, uma
ferramenta de grande apoio, no sentido de sempre provocar a confrontação do sujeito da
pesquisa com os significados atribuídos aos conceitos, fatos e dados utilizados, levando-o a
refletir sobre as contradições presentes no processo de conhecimento que vem percorrendo.
Conclusão: Ou ponto de partida?
Por meio do que foi discutido nesse artigo, considera-se que o processo de naturalização dos
fenômenos organizacionais direciona a construção do saber para uma visão tecnicista da área,
uma vez que os trata como elementos plenamente quantificáveis, retirando-se os fatores
contextuais e sociais que os geram. O equívoco, então, ao que tudo indica, consiste em se
acreditar que a objetivação nas pesquisas da área coincide com a representação fiel das
atividades organizacionais, desconsiderando-se que, também a objetivação é uma forma de
representação social.
Nesse sentido, a proposição do uso da dialética como arcabouço filosófico de pesquisa para o
campo organizacional parece contribuir para afastar o pesquisador de incorrer no erro de ser
dominado pelos dados que vão surgindo, perdendo sua postura reflexiva e desafiadora. O
diferencial da dialética, como método filosófico, é, portanto, justamente exigir que o
estudioso mantenha vivas e conscientes as conexões históricas e sociais acerca das
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explicações e compreensões dadas aos fenômenos estudados. Além disso, o exercício da
dialética, aplicado por meio da ferramenta SuRS, faz com que o pesquisador critique e reflita
sobre o suporte teórico que escolheu para tratar do problema, identificando os arcabouços
lógicos e sociais que está usando, bem como prospectando momentos de superação de seu
pensamento, através da análise das contradições e significações sociais das visões de mundo
que se vai construindo.
O que se defende, nesse artigo, por fim, é que é preciso superar a leitura da dicotomia
positivismo x dialética como uma luta entre métodos qualitativos e quantitativos de pesquisa.
Parece suficientemente claro que ambos os métodos são eficientes, quando devidamente
ajustados aos objetivos da pesquisa.
Por outro lado, dado o próprio caráter dos fenômenos sociais, e mais especificamente dos
organizacionais, a dialética mostra-se como uma forma extremamente interessante de se
problematizar as questões do mundo da administração, pois, assim, podem-se enxergar mais
claramente todas as suas ambigüidades. Com base nessa linha filosófica de análise, o
pesquisador mantém-se consciente de que as conclusões a que se chega, em seus trabalhos,
são resultados de diversas escolhas ideológicas feitas por ele, ao longo do processo
investigativo, e não reproduções fiéis da realidade. E esse processo de “desnaturalização”
apresenta-se como sendo fundamental para que se evite provocar uma manipulação deliberada
ao se esconder esse caráter inerentemente ideológico, vinculado ao campo social, debaixo de
um manto de “racionalidade”, “lógica” ou “cientificidade”.
Referências
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M.; ADORNO, T. W.; HABERMAS, J. Textos Escolhidos. São Paulo, Abril Cultural, 1983.
BARRETO, Túlio Velho. Positivismo versus Teoria Crítica: em torno do debate entre Karl
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FREITAG, B. A Teoria Crítica: Ontem e Hoje. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.
KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
MUSSE, Ricardo. A Dialética como discurso do método. Revista de Sociologia da USP,
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SALOMON, Délcio Vieira. Maravilhosa Incerteza: pensar, pesquisar e criar. São Paulo:
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YAZBEK, André Constantino. A “disputa do positivismo na sociologia alemã”: o
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http://www.urutagua.uem.br//010/10yazbek.htm. Acesso em 23/05/07.
*O nome dos autores foi colocado em ordem alfabética, sendo que todos participaram com
igual importância neste artigo.
**Os autores agradecem o apoio da FAPEMIG no desenvolvimento deste trabalho, através da
concessão de bolsa de estudos para doutorado.
***Pesquisadores do Núcleo de Estudos Organizacionais e Simbólicos (NEOS - FACEUFMG).
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1 O Enigma da Esfinge: A Postura Problematizadora na