INTERAÇÃO, LEITURA E INTERPRETAÇÃO DO TEXTO OPINATIVO: UM ESTUDO COM ACADÊMICOS DE JORNALISMO DA UNITAU ROBSON LUIZ MONTEIRO Departamento de Comunicação Social Universidade de Taubaté RESUMO Este trabalho apresenta, discute e analisa a interação e a interpretação de um texto opinativo do Jornal Diário de Taubaté, junto aos acadêmicos do curso de jornalismo da Universidade de Taubaté, e como eles procuram construir o sentido do texto, considerando o nível de leitura e o conhecimento de mundo, lingüístico e textual desses estudantes. PALAVRAS-CHAVE: emissor/receptor; sentido; percepção; marcas lingüísticas; conhecimento prévio; planejamento gráfico JUSTIFICATIVA Os acadêmicos dos cursos de graduação, de uma forma geral, são considerados por boa parte dos professores como leitores “bem sucedidos”. Notadamente, os alunos do curso de jornalismo que estão cursando o 2º e 3º ano da graduação também podem ser considerados como pessoas que realizem uma leitura “eficiente” dos jornais diários e semanais, por estes serem matéria-prima de seu conhecimento no futuro. Essas expectativas coadunam com a abordagem de leitura interacionista metacognitiva proposta por Kleiman (1989, p.34). É possível avaliar que, após anos de estudos e atividades pedagógicas específicas no chamado ensino médio, os acadêmicos que estão cursando a graduação utilizem também o aprendizado adquirido na faculdade e a bagagem técnica e teórica, no processo de leitura. Por sua vez, o mundo moderno exige cada vez mais pessoas preparadas para absorver os diferentes conteúdos e formas das mensagens e idéias que chegam até elas. Isso exige um conhecimento prévio de mundo do leitor, conforme Kleiman (op. cit., p. 13). Nesse sentido, a autora enfatiza que “o conhecimento prévio tem três níveis entrelaçados na leitura: o lingüístico, o textual e o de mundo”. Enquanto o nível lingüístico é implícito e comum a todo nativo falante de língua portuguesa, o textual envolve os tipos de textos e sua estrutura (passando pelo texto opinativo) e o de mundo leva em consideração o conhecimento enciclopédico. A expectativa é que, com base nesse conhecimento prévio, segundo Silva (1986, p 143-144), o acadêmico tenha uma conduta de leitor “eficiente e maduro”. Conforme a autora e com base em Hosenfeld (1977 e 1984, op.cit., p. 144), o protótipo de “leitor maduro” pode ser classificado como aquele que “consegue desempenhar um conjunto de estratégias, como: • retenção do significado do texto enquanto lê; • leitura em grandes blocos; • uso de fontes de informação variadas: ilustrações (fotos), sinais gráficos; • inferências a partir do título, subtítulo, etc.; • adivinhação do significado das palavras a partir do contexto; • adivinhação de suas próprias adivinhações; • utilização do dicionário como último recurso; • utilização de seu conhecimento prévio de mundo na decodificação do significado; • conceito positivo de si enquanto leitor; • identificação da categoria gramatical das palavras; • identificação de cognatos e, • percepção de diferença na ordem das palavras.” É preciso ressaltar que os cinco últimos itens devem ser considerados para verificação em língua estrangeira. Os demais itens, sobretudo os três primeiros do conjunto acima, podem ser utilizados em análises e pesquisas da língua portuguesa, especificamente em textos jornalísticos, como é o caso deste trabalho. OBJETIVOS Atualmente, no mundo globalizado, o conjunto de informações dos meios de comunicação chega aos receptores em diferentes formatos: o jornal, a revista, a internet e os meios eletrônicos (rádio e TV). Qualquer que seja o meio, o receptor/leitor conduz seus julgamentos e forma sua opinião pelo veículo de comunicação que costuma utilizar e acompanhar cotidianamente, já que este é fundamental para estimular seus conceitos e criar aspectos reais para o efeito que se quer e pretende atingir. Nos textos opinativos, o profissional da comunicação (editor/redator) busca a intenção de alcançar o máximo de adesão ao seu pensamento e o engajamento em sua causa, quando for o caso. No Brasil, de acordo com a visão interacionista da leitura proposta por Kleiman (1989, p.37), o autor procura mostrar suas intenções, objetivos e metas, deixando “marcas/pistas” no texto para que o leitor possa recuperá-los, dando-lhe um significado e construindo um sentido. Ainda nessa linha, é necessário ressaltar que a interação e o uso da linguagem pelos textos se assemelha a um jogo ao qual nos propomos participar. Ora, num jogo buscamos atingir objetivos (a vitória ou o sucesso). Nesse sentido, Koch (1997, p.47) ressalta que há relações que desejamos estabelecer, efeitos que pretendemos causar, comportamentos que queremos ver desencadeados, isto é, pretendemos atuar sobre o(s) outro (s) de determinada maneira, obter dele(s) determinadas reações. Por isso, quando o texto opinativo - que tem fortes características argumentativas - é utilizado para essa interação, nós o construímos de forma que os enunciados sejam dotados de argumentos fortes, coesos, coerentes e direcionados, com marcas formais que caracterizam tal construção lingüística. Neste trabalho, a opção foi por investigar, por meio de um texto opinativo de um jornal de Taubaté, o sentido que um determinado grupo de leitores - especificamente acadêmicos do curso de jornalismo da Universidade de Taubaté - constrói a partir da leitura do mesmo. O objetivo central desta análise é tentar elucidar as seguintes questões: 1. O leitor consegue identificar a idéia central, a partir do texto apresentado? 2. Por ser um texto dirigido, as pistas formais podem ajudar na compreensão final do tema central do texto em questão? DELIMITAÇÃO Com os objetivos acima apresentados, delimitamos analisar o texto VOTE POR TAUBATÉ! do Jornal DIÁRIO DE TAUBATÉ, edição do dia 30 de setembro de 2000, veiculado na primeira página (PP). Neste trabalho delimitamos também que a análise da leitura seria feita junto a 04 (quatro) alunos de um grupo de 40 acadêmicos do curso de jornalismo do Departamento de Comunicação Social da Universidade de Taubaté, residentes na cidade de Taubaté. HIPÓTESE Ao fazer a leitura completa de um texto, podemos dizer que o acadêmico de jornalismo deve acionar o seu conhecimento lingüístico, textual e de mundo. Pelo menos é o que se espera desse acadêmico. Nesse sentido, a realização uma leitura global para exploração do texto, seguida de outra leitura completa para compreensão das idéias principais e secundárias e, por fim, de uma leitura detalhada e profunda, para que assuma um posicionamento crítico, é o que se espera desse acadêmico. Entretanto, pela experiência e vivência nesta área no curso de jornalismo da UNITAU, percebemos que não é isso que ocorre na grande maioria dos casos. Na leitura de jornais, notadamente nos textos opinativos (editoriais), os acadêmicos têm algumas dificuldades para construir o sentido e não conseguem desencadear, de forma satisfatória, os conhecimentos prévios elencados anteriormente. Assim, partimos das seguintes hipóteses: 1. Mesmo sendo considerados, pela maioria dos professores, leitores com relativo grau de maturidade, a maioria não consegue definir a idéia central do texto apresentado; 2. Por ser um texto opinativo dirigido e com marcas/pistas específicas, o acadêmico pode até conseguir entender o significado, mas não compreende quais as intenções propostas pelo autor do texto. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS Dentre as várias concepções históricas da linguagem, podemos destacar que ela é uma representação do mundo e do pensamento; um instrumento de comunicação e uma forma eficaz de ação e interação entre os sujeitos. A linguagem como instrumento de comunicação é ferramenta importante na transmissão de informações. Afinal, a língua é um código por meio do qual os interlocutores se comunicam e procuram se entender através de mensagens. Dessa forma, a linguagem pode ser considerada um ato de comunicação verbal, seja ele oral ou escrito, que pode ser caracterizado por envolver uma relação cooperativa entre emissor e receptor, por transmitir intenções e conteúdos e por ter uma forma adequada à sua função. É possível destacar que qualquer texto opinativo (editorial) carrega em seu interior a intencionalidade de propagar uma idéia ou mesmo de conduzir a um pensamento. Na ordem hierárquica da disposição gráfica dos elementos na página de um jornal impresso, notadamente na primeira página, tudo está apresentado de modo a atrair o leitor. Silva (1985, p.43) ressalta que “a disposição gráfica de uma página de jornal é uma preocupação do programador visual” e que a tarefa específica dessa atividade é dar à mensagem (texto, fotos, ilustrações) uma estrutura visual eficiente e completa, que possibilite ao leitor entender rapidamente o que está contido no assunto enfocado. Hierarquicamente, para aliar forma e conteúdo, a diagramação busca, entre outros, elementos formais para elaborar essa tarefa: as letras (agrupadas em palavras, frases e períodos) e imagens (por meio de fotos e ilustrações). É necessário enfatizar que as características imagéticas carregam toda uma carga emocional e informativa de uma ação ou do fato e que muitas vezes dispensam outro tipo de informação complementar. A valorização do espaço (gráfico) para a leitura é significativa, uma vez que esse recurso é muito utilizado na mídia impressa, sobretudo em jornais e revistas. Esse aspecto é relevante nessa discussão, principalmente na questão da zona de visualização da página do jornal impresso. Silva (op.cit. p.46-47) salienta que “a primeira página de um jornal significa o mesmo que representa a embalagem de um produto, ou seja, este espaço deve reunir características e atrativos para que o leitor possa comprar a idéia”. Assim, uma página de jornal é dividida em várias zonas, e esses espaços são valorizados de acordo com a importância da notícia e linha editorial do jornal. Na formulação da mensagem, historicamente, nos jornais, há uma tradição predominantemente lingüística. Entretanto, essa mensagem não se formula apenas pelos recursos verbais. Medina (1988, p.91) relata que “os signos lingüísticos representam um espaço muito significativo na página impressa, mas estão inter-relacionados com outros signos (fotografia e ilustrações)”. Essa união ainda é fortalecida, segundo a autora, pelo destaque da cor, do relevo dos blocos e ordenação gráfica na página por áreas físicas de valor visual. Essa formatação da mensagem, denominada planejamento gráfico (ou diagramação) é composta de elementos verbais, de imagens e relações de espaço entre uns e outros. Utilizando a argumentação de Koch (1997, p. 21), de que o texto é o resultado concreto de uma atividade comunicativa, independente de sua extensão, é possível definir, com clareza e eficácia, que a comunicação através da língua portuguesa é mais que um instrumento que conduz a mensagem. É, na verdade, uma atividade interativa forte e eficiente. Dessa forma, o editorial (texto opinativo) segue numa determinada direção, mas com o objetivo definido: buscar o engajamento à idéia central do texto e levar o receptor (leitor) a apoiar sua causa. Assim, após um tratamento gráfico, onde se incorporam uma série de atributos visuais, o texto jornalístico ganha conteúdos adicionais que elevam o valor inicial, podendo influenciar, de forma decisiva, o processo final de leitura. No caso, partimos do princípio de que os acadêmicos de jornalismo, considerados leitores eficientes, conhecem essas informações e de que estas fazem parte de seu conhecimento prévio (de mundo, lingüístico e textual). Ressalte-se que, na questão do texto opinativo, não se trata apenas de dar conhecimento ao leitor da informação, mas seduzi-lo para seu objetivo maior. PROCEDIMENTOS DE PESQUISA O texto opinativo é caracterizado por sua ação direta ao assunto que se propõe abordar. É também composto de partes de outros textos ou de perspectivas de outras experiências e impressões de pessoas ligadas - ou não - à temática central. Em sua produção, procura-se a utilização de partes textuais para apoiar a idéia principal, justificando-se com observações individuais do seu redator. Nas publicações, o texto opinativo (editorial) procura, como relatamos anteriormente, encaminhar o receptor (leitor) para o engajamento de sua idéia ou para a luta por sua causa. Com base nessas considerações, este trabalho optou por uma análise específica do desempenho e da compreensão do acadêmico de jornalismo quanto à leitura de um texto opinativo. Essa avaliação levou em conta o uso do conhecimento prévio já explicitado anteriormente, procurando enfatizar também as estratégias do uso de outras fontes. Afinal, o texto é jornalístico e os acadêmicos são estudantes de jornalismo. Para esta avaliação, foram utilizados questionários específicos, para que cada acadêmico pudesse realizar a leitura com calma e, assim, responder às perguntas contidas no mesmo. O questionário era composto de 6 (seis) perguntas sobre os hábitos de leitura do acadêmico, compreensão, sentido e percepção do tema central do texto e sobre a importância dos aspectos gráficos para a compreensão final e valorização do texto. RESULTADOS Na aferição do desempenho e da compreensão final do texto apresentado é possível observar os seguintes aspectos: todos lêem pelo menos um jornal diariamente. A preferência é pelo jornal regional de maior circulação no Vale do Paraíba, o Valeparaibano, mas todos realizam uma segunda leitura dos jornais locais, entre eles o “Diário de Taubaté” e o “A Voz do Vale”. Dos quatro acadêmicos consultados, três declararam que se consideram “leitores eficientes”, ou seja , compreendem tudo o que lê. Com relação à idéia central do texto opinativo (editorial), os acadêmicos A, B, C e D seguiram na mesma direção e demonstraram que entenderam o tema abordado no texto: as “eleições municipais” e a utilização do “voto consciente”. Em linhas gerais, os acadêmicos ressaltaram que o texto relacionava a importância dos fatos e aspectos eleitorais e o que os eleitores deveriam observar, naquele momento, para votar “com consciência”. Quanto à intenção do autor, o acadêmico A enfatiza que considera que o redator (autor) deposita no (e) leitor a responsabilidade de diferenciar as idéias (do atual ou do futuro prefeito) e escolher a (s) melhor (es) para Taubaté. Por uma das muitas marcas lingüísticas deixadas no texto (“Taubaté não pode retroceder!”, “...se cada voto digitado na urna arrastar Taubaté para o passado...”, “por uma Taubaté sem politicagem, sem assessores de salto alto, escondendo o prefeito de seu povo”), o acadêmico identificou que elas mostram explicitamente que o autor (redator) apresenta sua preferência pelo então chefe do poder executivo (e candidato à reeleição), uma vez que um dos mais fortes opositores no pleito de 2000 já foi prefeito da cidade de Taubaté por duas vezes. Por ser um estudante que reside na cidade, esse subentendido fica patente. Ele vai além: no editorial, segundo o aluno, o redator revela a intenção de seu jornal em “apoiar” o atual ocupante do cargo e que este é muito melhor que seu (s) opositor (es). Pelos termos utilizados e pela construção das frases na linguagem do discurso político vigente em Taubaté, demonstra-se, aí, por parte do acadêmico, o conhecimento prévio (de mundo e lingüístico). No tocante à disposição gráfica da PP do jornal, o estudante inferiu que, ao colocar o texto na capa do periódico, o redator teve a intenção deliberada de dar relevância ao tema e construir um formato que caracterizasse o assunto como fundamental no momento vivido pela cidade. Ao colocar o editorial na capa do jornal, com um título objetivo e forte e com letras maiores do que as habituais, diagramado no alto da página, o redator mostrou-se disposto a buscar a adesão ao seu pensamento e à sua idéia. Dessa forma, fortalecendo o aspecto gráfico, pressupõe-se um fortalecimento ao aspecto comunicativo e lingüístico. Ficou claro que o leitor utilizou o seu conhecimento prévio e que isso lhe assegura a compreensão do texto. Quanto ao conhecimento textual, o acadêmico deixou a desejar. Ele tinha o objetivo de obter informações que fossem apenas de seu interesse. A leitura do texto opinativo realizada pelo acadêmico B levou-o a destacar que o autor teve a intenção de ser neutro no processo e procurar apresentar argumentos que levassem o (e)leitor a definir o seu voto de forma consciente e eficaz. Na avaliação do estudante, o autor do texto produziu marcas ( ... residem em Taubaté – merece um bom prefeito, um administrador com mentalidade moderna e arrojada. , ....Vote com dignidade e com a cabeça erguida no dia 1º de outubro.) que caracterizam sua intenção de apenas “orientar” o leitor a escolher conscientemente o futuro prefeito da cidade de Taubaté. O acadêmico ressalta, ainda, que as marcas lingüísticas deixadas ao longo do texto são específicas e que, “se o leitor não for um profundo conhecedor do processo político de Taubaté e não tiver uma opinião formada, a tendência é que ele (leitor) se deixe levar pela opinião do redator”. O certo é que compreender um texto não significa memorizar, mas sim entendê-lo em seus vários sentidos. No que diz respeito à leitura global do texto apresentado, o acadêmico B explica que conseguiu relacionar o contexto social e político ao tema central proposto pelo redator. Esses indícios textuais e lingüísticos evidenciam que o aluno conseguiu formar uma organização textual e uma estruturação de léxicos que lhe possibilitaram construir um sentido ao texto. Ele também compartilha que os aspectos gráficos de diagramação, com a colocação do texto em PP, o uso de tipos (letras) maiores e disposição gráfica implementada, garantem ao texto o destaque merecido, chamando a atenção do leitor, influenciando-o no processo final de compreensão e construção do sentido. Neste caso específico, o acadêmico B demonstrou amplo e completo conhecimento prévio (de mundo, lingüístico e textual). O conhecimento de mundo e lingüístico foi demonstrado pelas inferências que fez sobre os diversos aspectos apresentados ao longo do texto, principalmente a alusão de que procura sempre ler os temas relacionados à política local e ter contato diário com os termos utilizados em textos semelhantes publicados em jornais locais. O conhecimento textual também foi amplamente utilizado, com destaque para as estratégias de leitura referentes ao significado das palavras e, sobretudo, para a composição gráfica da página e do texto. Moradora de Taubaté há mais de 22 anos e confessando-se uma ativa participante do processo político da cidade, a acadêmica C interpretou a intenção do autor como “uma forma escandalosa” de levar o (e)leitor a aderir à candidatura do então prefeito e que postulava a reeleição. Ela construiu o sentido de que o autor do texto procurou induzir o leitor à idéia de que só existiria uma saída para Taubaté continuar sendo uma cidade de sucesso: votar no candidato que modernizou a cidade e que continua a mostrar a evolução da cultura, da saúde, da habitação e da segurança. As inferências da acadêmica quanto ao conteúdo e sentido são claras no tocante ao conhecimento textual, pois, como leitora, demonstrou uso de seus conhecimentos sobre o texto ao afirmar que a conduta adotada para a interpretação faz parte do texto jornalístico, principalmente do opinativo. Ela enfatiza que o conhecimento prévio do quadro político, o estilo fácil e direto (próprio do texto jornalístico) e os parágrafos curtos (blocos) estimularam a leitura e a compreensão. No que diz respeito ao conhecimento lingüístico, a acadêmica C mostrou que tem amplo domínio das estruturas referentes à língua. Assim, considera que os argumentos do autor do texto do Diário de Taubaté, deixados em marcas formais, contribuem para a assimilação do sentido proposto pelo redator. Citando a frase “Taubaté não pode retroceder!”, a aluna diz que “as entrelinhas deixam clara a opção do redator pelo candidato e atual prefeito da cidade”. Dessa forma, com as pistas textuais e os conhecimentos sociais e políticos (de mundo), podemos dizer com certa segurança que a acadêmica demonstra aliar o lingüístico e o textual. No aspecto da diagramação, a aluna considera-se como uma “típica leitora que folheia o jornal e se interessa pelas manchetes mais interessantes”. E arrematou: “nesse caso, o texto estava na PP e, por isso, despertou um interesse maior”. Nesse sentido, configura-se o aspecto que tem sido uma unanimidade entre os pesquisados: a colocação do texto opinativo na primeira página do jornal tem peso. Ao contrário do habitual (o editorial é sempre veiculado na página 2), o texto de primeira página sempre acrescentará um peso extra ao contexto lingüístico, causando um impacto maior. Em conseqüência, a linguagem visual imprime uma importância também maior ao sentido que o autor quer dar à sua argumentação. Na avaliação da acadêmica D, o texto analisado não apresentou fatores que dificultassem a leitura. Especificamente, a aluna explica que não é muito difícil perceber que o redator aponta numa direção declarada. Esse ponto fica patente, segundo a acadêmica, no 3º parágrafo, quando há uma comparação entre o novo e o velho. Quanto às marcas do texto, a estudante salienta que o código empregado pelo redator assemelha-se a discurso produzido por um tradutor. Nesse caso, o verdadeiro autor seria o atual prefeito da cidade e o tradutor e intérprete seria o jornalista que redigiu o editorial. A aluna frisa que essa simbiose amplia o fator de aproximação entre o autor e o leitor e, na maioria dos casos, o (e)leitor compartilha e adere ao pensamento do autor. Ela faz questão de enfatizar que o endereço do texto não é um elogio ao atual prefeito, mas uma aberta e transparente crítica ao opositor do atual mandatário da cidade. Ao inferir sobre essa relação entre autor e leitor, a acadêmica D apresenta um considerável conhecimento prévio. Ela frisa que a bagagem cultural, social e política foram fundamentais para que houvesse o processo de interpretação do assunto em discussão. Nesse caso, podemos dizer que a acadêmica D demonstrou conhecimento de mundo, lingüístico e textual. Embora tenha expressado que a tentativa do autor é buscar a adesão ao seu pensamento, baseado no argumento forte de que não se pode escolher “um candidato do passado” (numa clara alusão a um ex-prefeito da cidade), a aluna fez uma breve e rápida reflexão sobre as dificuldades em estabelecer limites precisos no processo de interpretação e compreensão do texto. Para ela, o limite depende das estratégias do autor ao codificar suas informações no texto, ou seja, produzir marcas que levem o (e)eitor a aderir ao seu pensamento e a aceitar as suas argumentações. Dizendo-se uma contumaz leitora de revistas temáticas, mas sem se esquecer do hábito diário da leitura de jornais, a acadêmica D afirma que “extrair significados de textos deve ser considerado um ato muito criativo e pessoal.” No plano da diagramação, a acadêmica de jornalismo reafirma que o texto ganha uma importância maior devido à sua localização na página (alto, à direita) e, sobretudo, ao seu formato (com letras garrafais no título e um ponto maior no corpo de texto) e estilo. CONCLUSÕES Ainda que os dados coletados não possam ser generalizados, em razão do tamanho da amostra, após análise do corpus e diante do quadro apresentado e das observações realizadas, podemos concluir que qualquer texto – notadamente o opinativo – pode apresentar diversas leituras. Os aspectos presentes na análise revelam que o tema central proposto no texto é unânime entre os pesquisados; no entanto, construção dos sentidos e a interpretação variam de acordo com os conhecimentos prévios. O que era de se esperar, afinal conhecimento de mundo também varia de pessoa para pessoa. Avaliando especificamente os dados analisados, conclui-se que os acadêmicos pesquisados ativam parcialmente os conhecimentos prévios (de mundo, lingüístico e textual), uma vez que realizam a leitura diária de pelo menos um jornal. Encontram, porém, algumas barreiras, ao se depararem com um texto opinativo permeado de marcas diferenciadas. É possível notar que diferentes leitores, em contextos distintos e com conhecimentos variados, chegarão (ou não) ao sentido proposto pelo autor das mais diversas formas. Ainda que não tenhamos aqui apresentado a real intenção do autor com o seu texto VOTE POR TAUBATÉ!, o jornalista pode se esmerar, a fim de produzir um enunciado, e depois se decepcionar, ao constatar que não foi entendido. Ora, sem a “voz” literal do autor, fica praticamente difícil observar se os (e)leitores (no caso, os acadêmicos pesquisados) apontam o sentido proposto em seu texto. Isso envolve uma questão crucial: a intenção comunicativa do produtor de textos. Ou seja: o que o jornalista (redator) quer dizer e como ele (jornalista) e o leitor devem compartilhar esse sentido. Desta forma, podemos observar outros fatores que também contribuem para essa questão do(s) sentido(s) múltiplo(s). Os elementos lingüísticos são os primeiros. Se o redator não levar em consideração o contexto lingüístico e o seu público alvo (leitores), são grandes as possibilidades de não haver a captação da intenção comunicativa. A questão do conhecimento de mundo é igualmente importante. Sem um grau de conhecimento de mundo entre o redator e seus leitores, as inferências serão díspares. O conhecimento de mundo deve permitir aos leitores uma conexão entre os elementos (lingüísticos, textuais e visuais) da mensagem e conseqüentemente no contexto do enunciado e do sentido. Outro ponto a destacar: no editorial os leitores analisados apresentam uma evidência de entendimento do tema central, mas, quanto à compreensão, há uma variação do sentido do mesmo. Isso nos mostra que, mesmo considerando o histórico de leituras dos acadêmicos do curso de jornalismo e o fato de muitos professores entenderem que parte desses alunos são leitores “eficientes”, há, ainda, uma grave distorção entre o que se entende e o que se compreende num mesmo texto. Seria utopia querer uniformidade na compreensão de um texto, inclusive no opinativo. Por fim, faz-se necessário ressaltar que os pesquisados utilizaram os níveis de conhecimento prévio enfatizados durante o trabalho. É importante ressaltar que o conhecimento de mundo e o lingüístico foram, na medida do possível, utilizados pelos acadêmicos. Já o textual foi colocado em nível secundário. Daí, conclui-se que o estudante do curso de jornalismo não intercala os níveis de conhecimento propostos por Kleiman e que um se valoriza em detrimento do outro. A situação remete-nos a pensar que é importante afinar, na leitura dos jornais, não apenas os conhecimentos de mundo ou lingüísticos. O emprego dos conhecimentos prévios nos textos jornalísticos deveria ser estimulado, pois estão associados aos propósitos do jornalista/redator e, por isso, refletem uma dimensão pedagógica para a questão. Humildemente, esta indicação de diretrizes não implica no abandono de outras, inclusive aquelas engendradas no processo de aprendizado de leitura. O que se fez aqui foi procurar o desenho de linhas básicas de um estudo a ser legitimado posteriormente por uma reflexão coletiva mais ampla. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS KLEIMAN, Angela. Texto e Leitor: aspectos cognitivos da leitura. 1. ed. Campinas: Pontes, 1989. KOCK. Ingedore V. O texto e a construção dos sentidos. 1. ed. São Paulo: Contexto, 1997. MEDINA, Cremilda. Notícia, um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial. 2. ed. São Paulo: Summus Editorial, 1988. SILVA, M.C.P de S. e. Estratégias de leitura de texto em língua materna: uma investigação preliminar. In: FÁVERO, L.L. & PASCHOAL, M.S.Z. de (Orgs.). Lingüística Textual: texto e leitura. Série Cadernos PUC-22. São Paulo: EDUC, 1986, p. 143-159. SILVA, Rafael Souza. Diagramação. O Planejamento Visual Gráfico na Comunicação Impressa. 3. ed. São Paulo: Summus Editorial, 1985. ABSTRACT This study presents, discusses and analyses the interaction and the understanding of an editorial of the newspaper called “Diário de Taubaté”, done with the journalism universitarian students trying to discover how these students build the meaning of the text, considering their reading level and their world, textual and linguistic knowledge. KEY-WORDS: sender/receiver; perception; linguistic marks; knowledge; graphic planning. meaning; previous Robson Luiz Monteiro é Professor Colaborador Assistente no Departamento de Comunicação Social da Universidade de Taubaté.