INTERAÇÃO, LEITURA E INTERPRETAÇÃO DO TEXTO
OPINATIVO: UM ESTUDO COM ACADÊMICOS DE
JORNALISMO DA UNITAU
ROBSON LUIZ MONTEIRO
Departamento de Comunicação Social
Universidade de Taubaté
RESUMO
Este trabalho apresenta, discute e analisa a interação e a interpretação de um texto opinativo do Jornal Diário de
Taubaté, junto aos acadêmicos do curso de jornalismo da Universidade de Taubaté, e como eles procuram
construir o sentido do texto, considerando o nível de leitura e o conhecimento de mundo, lingüístico e textual
desses estudantes.
PALAVRAS-CHAVE: emissor/receptor; sentido; percepção; marcas lingüísticas; conhecimento prévio;
planejamento gráfico
JUSTIFICATIVA
Os acadêmicos dos cursos de graduação,
de uma forma geral, são considerados por boa
parte dos professores como leitores “bem
sucedidos”. Notadamente, os alunos do curso de
jornalismo que estão cursando o 2º e 3º ano da
graduação também podem ser considerados
como pessoas que realizem uma leitura
“eficiente” dos jornais diários e semanais, por
estes serem matéria-prima de seu conhecimento
no futuro.
Essas expectativas coadunam com a
abordagem
de
leitura
interacionista
metacognitiva proposta por Kleiman (1989,
p.34). É possível avaliar que, após anos de
estudos e atividades pedagógicas específicas no
chamado ensino médio, os acadêmicos que estão
cursando a graduação utilizem também o
aprendizado adquirido na faculdade e a bagagem
técnica e teórica, no processo de leitura.
Por sua vez, o mundo moderno exige cada
vez mais pessoas preparadas para absorver os
diferentes conteúdos e formas das mensagens e
idéias que chegam até elas. Isso exige um
conhecimento prévio de mundo do leitor,
conforme Kleiman (op. cit., p. 13). Nesse
sentido, a autora enfatiza que “o conhecimento
prévio tem três níveis entrelaçados na leitura: o
lingüístico, o textual e o de mundo”. Enquanto o
nível lingüístico é implícito e comum a todo
nativo falante de língua portuguesa, o textual
envolve os tipos de textos e sua estrutura
(passando pelo texto opinativo) e o de mundo
leva
em
consideração
o
conhecimento
enciclopédico. A expectativa é que, com base
nesse conhecimento prévio, segundo Silva
(1986, p 143-144), o acadêmico tenha uma
conduta de leitor “eficiente e maduro”.
Conforme a autora e com base em Hosenfeld
(1977 e 1984, op.cit., p. 144), o protótipo de
“leitor maduro” pode ser classificado como
aquele que “consegue desempenhar um conjunto
de estratégias, como:
• retenção do significado do texto enquanto
lê;
• leitura em grandes blocos;
• uso de fontes de informação variadas:
ilustrações (fotos), sinais gráficos;
• inferências a partir do título, subtítulo,
etc.;
• adivinhação do significado das palavras a
partir do contexto;
• adivinhação de suas próprias adivinhações;
• utilização do dicionário como último
recurso;
• utilização de seu conhecimento prévio de
mundo na decodificação do significado;
• conceito positivo de si enquanto leitor;
• identificação da categoria gramatical das
palavras;
• identificação de cognatos e,
• percepção de diferença na ordem das
palavras.”
É preciso ressaltar que os cinco últimos
itens devem ser considerados para verificação
em língua estrangeira. Os demais itens,
sobretudo os três primeiros do conjunto acima,
podem ser utilizados em análises e pesquisas da
língua portuguesa, especificamente em textos
jornalísticos, como é o caso deste trabalho.
OBJETIVOS
Atualmente, no mundo globalizado, o
conjunto de informações dos meios de
comunicação chega aos receptores em diferentes
formatos: o jornal, a revista, a internet e os
meios eletrônicos (rádio e TV). Qualquer que
seja o meio, o receptor/leitor conduz seus
julgamentos e forma sua opinião pelo veículo de
comunicação que costuma utilizar e acompanhar
cotidianamente, já que este é fundamental para
estimular seus conceitos e criar aspectos reais
para o efeito que se quer e pretende atingir. Nos
textos opinativos, o profissional da comunicação
(editor/redator) busca a intenção de alcançar o
máximo de adesão ao seu pensamento e o
engajamento em sua causa, quando for o caso.
No Brasil, de acordo com a visão
interacionista da leitura proposta por Kleiman
(1989, p.37), o autor procura mostrar suas
intenções,
objetivos
e
metas,
deixando
“marcas/pistas” no texto para que o leitor possa
recuperá-los, dando-lhe um significado e
construindo um sentido.
Ainda nessa linha, é necessário ressaltar
que a interação e o uso da linguagem pelos
textos se assemelha a um jogo ao qual nos
propomos participar. Ora, num jogo buscamos
atingir objetivos (a vitória ou o sucesso). Nesse
sentido, Koch (1997, p.47) ressalta que há
relações que desejamos estabelecer, efeitos que
pretendemos
causar,
comportamentos
que
queremos
ver
desencadeados,
isto
é,
pretendemos atuar sobre o(s) outro (s) de
determinada maneira, obter dele(s) determinadas
reações.
Por isso, quando o texto opinativo - que
tem fortes características argumentativas - é
utilizado para essa interação, nós o construímos
de forma que os enunciados sejam dotados de
argumentos
fortes,
coesos,
coerentes
e
direcionados,
com
marcas
formais
que
caracterizam tal construção lingüística.
Neste trabalho, a opção foi por
investigar, por meio de um texto opinativo de
um jornal de Taubaté, o sentido que um
determinado grupo de leitores - especificamente
acadêmicos
do curso de jornalismo da
Universidade de Taubaté - constrói a partir da
leitura do mesmo.
O objetivo central desta análise é tentar
elucidar as seguintes questões:
1. O leitor consegue identificar a idéia
central, a partir do texto apresentado?
2. Por ser um texto dirigido, as pistas formais
podem ajudar na compreensão final do tema
central do texto em questão?
DELIMITAÇÃO
Com os objetivos acima apresentados,
delimitamos analisar o texto VOTE POR
TAUBATÉ! do Jornal DIÁRIO DE TAUBATÉ,
edição do dia 30 de setembro de 2000, veiculado
na primeira página (PP). Neste trabalho
delimitamos também que a análise da leitura
seria feita junto a 04 (quatro) alunos de um
grupo de 40 acadêmicos do curso de jornalismo
do Departamento de Comunicação Social da
Universidade de Taubaté, residentes na cidade
de Taubaté.
HIPÓTESE
Ao fazer a leitura completa de um texto,
podemos dizer que o acadêmico de jornalismo
deve acionar o seu conhecimento lingüístico,
textual e de mundo. Pelo menos é o que se
espera desse acadêmico.
Nesse sentido, a realização uma leitura
global para exploração do texto, seguida de
outra leitura completa para compreensão das
idéias principais e secundárias e, por fim, de
uma leitura detalhada e profunda, para que
assuma um posicionamento crítico, é o que se
espera desse acadêmico.
Entretanto, pela experiência e vivência
nesta área no curso de jornalismo da UNITAU,
percebemos que não é isso que ocorre na grande
maioria dos casos. Na leitura de jornais,
notadamente nos textos opinativos (editoriais),
os acadêmicos têm algumas dificuldades para
construir
o
sentido
e
não
conseguem
desencadear,
de
forma
satisfatória,
os
conhecimentos prévios elencados anteriormente.
Assim, partimos das seguintes hipóteses:
1. Mesmo sendo considerados, pela maioria
dos professores, leitores com relativo grau de
maturidade, a maioria não consegue definir a
idéia central do texto apresentado;
2. Por ser um texto opinativo dirigido e com
marcas/pistas específicas, o acadêmico pode até
conseguir entender o significado, mas não
compreende quais as intenções propostas pelo
autor do texto.
PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Dentre as várias concepções históricas da
linguagem, podemos destacar que ela é uma
representação do mundo e do pensamento; um
instrumento de comunicação e uma forma eficaz
de ação e interação entre os sujeitos. A
linguagem como instrumento de comunicação é
ferramenta importante na transmissão de
informações. Afinal, a língua é um código por
meio do qual os interlocutores se comunicam e
procuram se entender através de mensagens.
Dessa forma, a linguagem pode ser
considerada um ato de comunicação verbal, seja
ele oral ou escrito, que pode ser caracterizado
por envolver uma relação cooperativa entre
emissor e receptor, por transmitir intenções e
conteúdos e por ter uma forma adequada à sua
função. É possível destacar que qualquer texto
opinativo (editorial) carrega em seu interior a
intencionalidade de propagar uma idéia ou
mesmo de conduzir a um pensamento.
Na ordem hierárquica da disposição
gráfica dos elementos na página de um jornal
impresso, notadamente na primeira página, tudo
está apresentado de modo a atrair o leitor. Silva
(1985, p.43) ressalta que “a disposição gráfica
de uma página de jornal é uma preocupação do
programador visual” e que a tarefa específica
dessa atividade é dar à mensagem (texto, fotos,
ilustrações) uma estrutura visual eficiente e
completa, que possibilite ao leitor entender
rapidamente o que está contido no assunto
enfocado. Hierarquicamente, para aliar forma e
conteúdo, a diagramação busca, entre outros,
elementos formais para elaborar essa tarefa: as
letras (agrupadas em palavras, frases e períodos)
e imagens (por meio de fotos e ilustrações). É
necessário enfatizar que as características
imagéticas carregam toda uma carga emocional
e informativa de uma ação ou do fato e que
muitas
vezes
dispensam
outro
tipo
de
informação complementar.
A valorização do espaço (gráfico) para a
leitura é significativa, uma vez que esse recurso
é muito utilizado na mídia impressa, sobretudo
em jornais e revistas. Esse aspecto é relevante
nessa discussão, principalmente na questão da
zona de visualização da página do jornal
impresso. Silva (op.cit. p.46-47) salienta que “a
primeira página de um jornal significa o mesmo
que representa a embalagem de um produto, ou
seja, este espaço deve reunir características e
atrativos para que o leitor possa comprar a
idéia”. Assim, uma página de jornal é dividida
em várias zonas, e esses espaços são valorizados
de acordo com a importância da notícia e linha
editorial do jornal.
Na
formulação
da
mensagem,
historicamente, nos jornais, há uma tradição
predominantemente lingüística. Entretanto, essa
mensagem não se formula apenas pelos recursos
verbais. Medina (1988, p.91) relata que “os
signos lingüísticos representam um espaço
muito significativo na página impressa, mas
estão inter-relacionados com outros signos
(fotografia e ilustrações)”. Essa união ainda é
fortalecida, segundo a autora, pelo destaque da
cor, do relevo dos blocos e ordenação gráfica na
página por áreas físicas de valor visual. Essa
formatação
da
mensagem,
denominada
planejamento gráfico (ou diagramação) é
composta de elementos verbais, de imagens e
relações de espaço entre uns e outros.
Utilizando a argumentação de Koch
(1997, p. 21), de que o texto é o resultado
concreto de uma atividade comunicativa,
independente de sua extensão, é possível
definir, com clareza e eficácia, que a
comunicação através da língua portuguesa é
mais que um instrumento que conduz a
mensagem. É, na verdade, uma atividade
interativa forte e eficiente.
Dessa forma, o editorial (texto opinativo)
segue numa determinada direção, mas com o
objetivo definido: buscar o engajamento à idéia
central do texto e levar o receptor (leitor) a
apoiar sua causa. Assim, após um tratamento
gráfico, onde se incorporam uma série de
atributos visuais, o texto jornalístico ganha
conteúdos adicionais que elevam o valor inicial,
podendo influenciar, de forma decisiva, o
processo final de leitura.
No caso, partimos do princípio de que os
acadêmicos de jornalismo, considerados leitores
eficientes, conhecem essas informações e de que
estas fazem parte de seu conhecimento prévio
(de mundo, lingüístico e textual). Ressalte-se
que, na questão do texto opinativo, não se trata
apenas de dar conhecimento ao leitor da
informação, mas seduzi-lo para seu objetivo
maior.
PROCEDIMENTOS DE PESQUISA
O texto opinativo é caracterizado por sua
ação direta ao assunto que se propõe abordar. É
também composto de partes de outros textos ou
de perspectivas de outras experiências e
impressões de pessoas ligadas - ou não - à
temática central.
Em sua produção, procura-se a utilização
de partes textuais para apoiar a idéia principal,
justificando-se com observações individuais do
seu redator. Nas publicações, o texto opinativo
(editorial)
procura,
como
relatamos
anteriormente, encaminhar o receptor (leitor)
para o engajamento de sua idéia ou para a luta
por sua causa.
Com base nessas considerações, este
trabalho optou por uma análise específica do
desempenho e da compreensão do acadêmico de
jornalismo quanto à leitura de um texto
opinativo. Essa avaliação levou em conta o uso
do
conhecimento
prévio
já
explicitado
anteriormente, procurando enfatizar também as
estratégias do uso de outras fontes. Afinal, o
texto é jornalístico e os acadêmicos são
estudantes de jornalismo. Para esta avaliação,
foram utilizados questionários específicos, para
que cada acadêmico pudesse realizar a leitura
com calma e, assim, responder às perguntas
contidas no mesmo.
O questionário era composto de 6 (seis)
perguntas sobre os hábitos de leitura do
acadêmico, compreensão, sentido e percepção do
tema central do texto e sobre a importância dos
aspectos gráficos para a compreensão final e
valorização do texto.
RESULTADOS
Na aferição do desempenho e da
compreensão final do texto apresentado é
possível observar os seguintes aspectos: todos
lêem pelo menos um jornal diariamente. A
preferência é pelo jornal regional de maior
circulação no Vale do Paraíba, o Valeparaibano,
mas todos realizam uma segunda leitura dos
jornais locais, entre eles o “Diário de Taubaté” e
o “A Voz do Vale”. Dos quatro acadêmicos
consultados, três declararam que se consideram
“leitores eficientes”, ou seja , compreendem
tudo o que lê.
Com relação à idéia central do texto
opinativo (editorial), os acadêmicos A, B, C e D
seguiram na mesma direção e demonstraram que
entenderam o tema abordado no texto: as
“eleições municipais” e a utilização do “voto
consciente”. Em linhas gerais, os acadêmicos
ressaltaram
que o
texto
relacionava
a
importância dos fatos e aspectos eleitorais e o
que os eleitores deveriam observar, naquele
momento, para votar “com consciência”.
Quanto à intenção do autor, o acadêmico
A enfatiza que considera que o redator (autor)
deposita no (e) leitor a responsabilidade de
diferenciar as idéias (do atual ou do futuro
prefeito) e escolher a (s) melhor (es) para
Taubaté. Por uma das muitas marcas lingüísticas
deixadas no texto (“Taubaté não pode
retroceder!”, “...se cada voto digitado na urna
arrastar Taubaté para o passado...”, “por uma
Taubaté sem politicagem, sem assessores de
salto alto, escondendo o prefeito de seu povo”),
o acadêmico identificou que elas mostram
explicitamente que o autor (redator) apresenta
sua preferência pelo então chefe do poder
executivo (e candidato à reeleição), uma vez que
um dos mais fortes opositores no pleito de 2000
já foi prefeito da cidade de Taubaté por duas
vezes. Por ser um estudante que reside na
cidade, esse subentendido fica patente. Ele vai
além: no editorial, segundo o aluno, o redator
revela a intenção de seu jornal em “apoiar” o
atual ocupante do cargo e que este é muito
melhor que seu (s) opositor (es). Pelos termos
utilizados e pela construção das frases na
linguagem do discurso político vigente em
Taubaté, demonstra-se, aí, por parte do
acadêmico, o conhecimento prévio (de mundo e
lingüístico).
No tocante à disposição gráfica da PP do
jornal, o estudante inferiu que, ao colocar o
texto na capa do periódico, o redator teve a
intenção deliberada de dar relevância ao tema e
construir um formato que caracterizasse o
assunto como fundamental no momento vivido
pela cidade. Ao colocar o editorial na capa do
jornal, com um título objetivo e forte e com
letras maiores do que as habituais, diagramado
no alto da página, o redator mostrou-se disposto
a buscar a adesão ao seu pensamento e à sua
idéia. Dessa forma, fortalecendo o aspecto
gráfico, pressupõe-se um fortalecimento ao
aspecto comunicativo e lingüístico. Ficou claro
que o leitor utilizou o seu conhecimento prévio
e que isso lhe assegura a compreensão do texto.
Quanto ao conhecimento textual, o acadêmico
deixou a desejar. Ele tinha o objetivo de obter
informações que fossem apenas de seu interesse.
A leitura do texto opinativo realizada
pelo acadêmico B levou-o a destacar que o autor
teve a intenção de ser neutro no processo e
procurar apresentar argumentos que levassem o
(e)leitor a definir o seu voto de forma
consciente e eficaz. Na avaliação do estudante,
o autor do texto produziu marcas ( ... residem
em Taubaté – merece um bom prefeito, um
administrador com mentalidade moderna e
arrojada. , ....Vote com dignidade e com a
cabeça erguida no dia 1º de outubro.) que
caracterizam sua intenção de apenas “orientar” o
leitor a escolher conscientemente o futuro
prefeito da cidade de Taubaté. O acadêmico
ressalta, ainda, que as marcas lingüísticas
deixadas ao longo do texto são específicas e
que, “se o leitor não for um profundo
conhecedor do processo político de Taubaté e
não tiver uma opinião formada, a tendência é
que ele (leitor) se deixe levar pela opinião do
redator”. O certo é que compreender um texto
não significa memorizar, mas sim entendê-lo em
seus vários sentidos.
No que diz respeito à leitura global do
texto apresentado, o acadêmico B explica que
conseguiu relacionar o contexto social e político
ao tema central proposto pelo redator. Esses
indícios textuais e lingüísticos evidenciam que o
aluno conseguiu formar uma organização textual
e uma estruturação de léxicos que lhe
possibilitaram construir um sentido ao texto. Ele
também compartilha que os aspectos gráficos de
diagramação, com a colocação do texto em PP, o
uso de tipos (letras) maiores e disposição
gráfica implementada, garantem ao texto o
destaque merecido, chamando a atenção do
leitor, influenciando-o no processo final de
compreensão e construção do sentido. Neste
caso específico, o acadêmico B demonstrou
amplo e completo conhecimento prévio (de
mundo, lingüístico e textual). O conhecimento
de mundo e lingüístico foi demonstrado pelas
inferências que fez sobre os diversos aspectos
apresentados ao longo do texto, principalmente
a alusão de que procura sempre ler os temas
relacionados à política local e ter contato diário
com os termos utilizados em textos semelhantes
publicados em jornais locais. O conhecimento
textual também foi amplamente utilizado, com
destaque para as estratégias de leitura referentes
ao significado das palavras e, sobretudo, para a
composição gráfica da página e do texto.
Moradora de Taubaté há mais de 22 anos
e confessando-se uma ativa participante do
processo político da cidade, a acadêmica C
interpretou a intenção do autor como “uma
forma escandalosa” de levar o (e)leitor a aderir
à candidatura do então prefeito e que postulava
a reeleição. Ela construiu o sentido de que o
autor do texto procurou induzir o leitor à idéia
de que só existiria uma saída para Taubaté
continuar sendo uma cidade de sucesso: votar no
candidato que modernizou a cidade e que
continua a mostrar a evolução da cultura, da
saúde, da habitação e da segurança. As
inferências da acadêmica quanto ao conteúdo e
sentido são claras no tocante ao conhecimento
textual, pois, como leitora, demonstrou uso de
seus conhecimentos sobre o texto ao afirmar que
a conduta adotada para a interpretação faz parte
do
texto
jornalístico,
principalmente
do
opinativo. Ela enfatiza que o conhecimento
prévio do quadro político, o estilo fácil e direto
(próprio do texto jornalístico) e os parágrafos
curtos (blocos) estimularam a leitura e a
compreensão.
No que diz respeito ao conhecimento
lingüístico, a acadêmica C mostrou que tem
amplo domínio das estruturas referentes à
língua. Assim, considera que os argumentos do
autor do texto do Diário de Taubaté, deixados
em marcas formais, contribuem para a
assimilação do sentido proposto pelo redator.
Citando a frase “Taubaté não pode retroceder!”,
a aluna diz que “as entrelinhas deixam clara a
opção do redator pelo candidato e atual prefeito
da cidade”. Dessa forma, com as pistas textuais
e os conhecimentos sociais e políticos (de
mundo), podemos dizer com certa segurança que
a acadêmica demonstra aliar o lingüístico e o
textual.
No aspecto da diagramação, a aluna
considera-se como uma “típica leitora que
folheia o jornal e se interessa pelas manchetes
mais interessantes”. E arrematou: “nesse caso, o
texto estava na PP e, por isso, despertou um
interesse maior”. Nesse sentido, configura-se o
aspecto que tem sido uma unanimidade entre os
pesquisados: a colocação do texto opinativo na
primeira página do jornal tem peso. Ao contrário
do habitual (o editorial é sempre veiculado na
página 2), o texto de primeira página sempre
acrescentará um peso extra ao contexto
lingüístico, causando um impacto maior. Em
conseqüência, a linguagem visual imprime uma
importância também maior ao sentido que o
autor quer dar à sua argumentação.
Na avaliação da acadêmica D, o texto
analisado
não
apresentou
fatores
que
dificultassem a leitura. Especificamente, a aluna
explica que não é muito difícil perceber que o
redator aponta numa direção declarada. Esse
ponto fica patente, segundo a acadêmica, no 3º
parágrafo, quando há uma comparação entre o
novo e o velho.
Quanto às marcas do texto, a estudante
salienta que o código empregado pelo redator
assemelha-se a discurso produzido por um
tradutor. Nesse caso, o verdadeiro autor seria o
atual prefeito da cidade e o tradutor e intérprete
seria o jornalista que redigiu o editorial. A
aluna frisa que essa simbiose amplia o fator de
aproximação entre o autor e o leitor e, na
maioria dos casos, o (e)leitor compartilha e
adere ao pensamento do autor. Ela faz questão
de enfatizar que o endereço do texto não é um
elogio ao atual prefeito, mas uma aberta e
transparente crítica ao opositor do atual
mandatário da cidade.
Ao inferir sobre essa relação entre autor
e leitor, a acadêmica D apresenta um
considerável conhecimento prévio. Ela frisa que
a bagagem cultural, social e política foram
fundamentais para que houvesse o processo de
interpretação do assunto em discussão. Nesse
caso, podemos dizer que a acadêmica D
demonstrou conhecimento de mundo, lingüístico
e textual.
Embora tenha expressado que a tentativa
do autor é buscar a adesão ao seu pensamento,
baseado no argumento forte de que não se pode
escolher “um candidato do passado” (numa clara
alusão a um ex-prefeito da cidade), a aluna fez
uma breve e rápida reflexão sobre as
dificuldades em estabelecer limites precisos no
processo de interpretação e compreensão do
texto. Para ela, o limite depende das estratégias
do autor ao codificar suas informações no texto,
ou seja, produzir marcas que levem o (e)eitor a
aderir ao seu pensamento e a aceitar as suas
argumentações.
Dizendo-se uma contumaz leitora de
revistas temáticas, mas sem se esquecer do
hábito diário da leitura de jornais, a acadêmica
D afirma que “extrair significados de textos
deve ser considerado um ato muito criativo e
pessoal.”
No plano da diagramação, a acadêmica de
jornalismo reafirma que o texto ganha uma
importância maior devido à sua localização na
página (alto, à direita) e, sobretudo, ao seu
formato (com letras garrafais no título e um
ponto maior no corpo de texto) e estilo.
CONCLUSÕES
Ainda que os dados coletados não possam
ser generalizados, em razão do tamanho da
amostra, após análise do corpus e diante do
quadro
apresentado
e
das
observações
realizadas, podemos concluir que qualquer texto
– notadamente o opinativo – pode apresentar
diversas leituras. Os aspectos presentes na
análise revelam que o tema central proposto no
texto é unânime entre os pesquisados; no
entanto,
construção dos sentidos e a
interpretação variam de acordo com os
conhecimentos prévios. O que era de se esperar,
afinal conhecimento de mundo também varia de
pessoa para pessoa.
Avaliando especificamente os dados
analisados, conclui-se que os acadêmicos
pesquisados
ativam
parcialmente
os
conhecimentos prévios (de mundo, lingüístico e
textual), uma vez que realizam a leitura diária
de pelo menos um jornal. Encontram, porém,
algumas barreiras, ao se depararem com um
texto
opinativo
permeado
de
marcas
diferenciadas. É possível notar que diferentes
leitores,
em contextos
distintos
e com
conhecimentos variados, chegarão (ou não) ao
sentido proposto pelo autor das mais diversas
formas.
Ainda
que não tenhamos
aqui
apresentado a real intenção do autor com o seu
texto VOTE POR TAUBATÉ!, o jornalista pode
se esmerar, a fim de produzir um enunciado, e
depois se decepcionar, ao constatar que não foi
entendido. Ora, sem a “voz” literal do autor,
fica praticamente difícil observar se os
(e)leitores (no caso, os acadêmicos pesquisados)
apontam o sentido proposto em seu texto. Isso
envolve uma questão crucial: a intenção
comunicativa do produtor de textos. Ou seja: o
que o jornalista (redator) quer dizer e como ele
(jornalista) e o leitor devem compartilhar esse
sentido. Desta forma, podemos observar outros
fatores que também contribuem para essa
questão do(s) sentido(s) múltiplo(s).
Os
elementos
lingüísticos
são
os
primeiros. Se o redator não levar em
consideração o contexto lingüístico e o seu
público alvo (leitores), são grandes as
possibilidades de não haver a captação da
intenção
comunicativa.
A
questão
do
conhecimento
de
mundo
é
igualmente
importante. Sem um grau de conhecimento de
mundo entre o redator e seus leitores, as
inferências serão díspares. O conhecimento de
mundo deve permitir aos leitores uma conexão
entre os elementos (lingüísticos, textuais e
visuais) da mensagem e conseqüentemente no
contexto do enunciado e do sentido.
Outro ponto a destacar: no editorial os
leitores analisados apresentam uma evidência de
entendimento do tema central, mas, quanto à
compreensão, há uma variação do sentido do
mesmo.
Isso
nos
mostra
que,
mesmo
considerando o histórico de leituras dos
acadêmicos do curso de jornalismo e o fato de
muitos professores entenderem que parte desses
alunos são leitores “eficientes”, há, ainda, uma
grave distorção entre o que se entende e o que
se compreende num mesmo texto. Seria utopia
querer uniformidade na compreensão de um
texto, inclusive no opinativo.
Por fim, faz-se necessário ressaltar que
os pesquisados utilizaram os níveis de
conhecimento prévio enfatizados durante o
trabalho. É importante ressaltar que o
conhecimento de mundo e o lingüístico foram,
na medida do possível, utilizados pelos
acadêmicos. Já o textual foi colocado em nível
secundário. Daí, conclui-se que o estudante do
curso de jornalismo não intercala os níveis de
conhecimento propostos por Kleiman e que um
se valoriza em detrimento do outro. A situação
remete-nos a pensar que é importante afinar, na
leitura dos jornais, não apenas os conhecimentos
de mundo ou lingüísticos.
O emprego dos conhecimentos prévios
nos textos jornalísticos deveria ser estimulado,
pois estão associados aos propósitos do
jornalista/redator e, por isso, refletem uma
dimensão pedagógica para a questão.
Humildemente,
esta
indicação
de
diretrizes não implica no abandono de outras,
inclusive aquelas engendradas no processo de
aprendizado de leitura. O que se fez aqui foi
procurar o desenho de linhas básicas de um
estudo a ser legitimado posteriormente por uma
reflexão coletiva mais ampla.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KLEIMAN, Angela.
Texto
e
Leitor:
aspectos
cognitivos da leitura. 1. ed.
Campinas: Pontes, 1989.
KOCK. Ingedore V. O texto e a construção dos
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MEDINA, Cremilda. Notícia, um produto à
venda: jornalismo na sociedade urbana e
industrial. 2. ed. São Paulo: Summus Editorial,
1988.
SILVA, M.C.P de S. e. Estratégias de leitura
de
texto em língua materna: uma investigação
preliminar. In: FÁVERO, L.L. & PASCHOAL,
M.S.Z. de (Orgs.). Lingüística Textual: texto e
leitura. Série Cadernos PUC-22. São Paulo:
EDUC, 1986, p. 143-159.
SILVA,
Rafael Souza.
Diagramação.
O
Planejamento Visual Gráfico na Comunicação
Impressa. 3. ed. São Paulo: Summus Editorial,
1985.
ABSTRACT
This study presents, discusses and analyses the
interaction and the understanding of an editorial
of the newspaper called “Diário de Taubaté”,
done with the journalism universitarian students
trying to discover how these students build the
meaning of the text, considering their reading
level and their world, textual and linguistic
knowledge.
KEY-WORDS:
sender/receiver;
perception;
linguistic
marks;
knowledge; graphic planning.
meaning;
previous
Robson Luiz Monteiro é Professor Colaborador
Assistente no Departamento de Comunicação
Social da Universidade de Taubaté.
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