PRODUÇÕES ESCRITAS NO COLÉGIO TIRADENTES DA POLÍCIA MILITAR DE UBERABA: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA Anelise Martinelli Borges Oliveira1 - UNESP-Marília/SP Mari Clair Moro Nascimento2 - UEL; UNESP-Marília/SP Raquel Lazzari Leite Barbosa3 - UNESP-Assis/SP Resumo Este trabalho tem como objetivo apresentar e compartilhar as experiências vivenciadas no Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Uberaba (CTPM-Uberaba) – objeto de pesquisa em andamento – em novembro de 2014, quando fomos convidadas para participar da conclusão do projeto pedagógico Paradão da Leitura. Este projeto foi desenvolvido pela pedagoga da biblioteca com os alunos do Ensino Médio no decorrer de 2014, no qual os alunos “[...] farão leituras de textos diversos, após esse momento os docentes promoverão discussões orais [...]” e, posteriormente, “[...] os discentes produzirão textos em gêneros literários variados” (PDE, 2014, p. 60). A culminância do Projeto Paradão da Leitura se deu com a produção escrita em forma de poesia pelos alunos. Dias antes da atividade, os mesmos foram informados que as produções seriam analisadas, tendo em vista uma “premiação” para as três “melhores” poesias. Tal análise coube a nós, cuja atribuição ocorreu tendo em vista sermos pesquisadoras do colégio e não possuirmos vínculo empregatício com o mesmo. Os resultados deste relato de experiência revelam que a forma utilizada pelo CTPM-Uberaba para estimular nos alunos o gosto pela produção textual precisa ser repensada, uma vez que, ao se basear em critérios eminentemente compensatórios e classificatórios, pode promover a segregação e o desinteresse, afastando o aluno do percurso escolar (FERNANDES, 2006). Palavras-Chave: Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Uberaba (CTPM-Uberaba). Paradão da Leitura. Produção escrita. 1 Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da UNESP - Marília/SP. Email: [email protected] 2 Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da UNESP - Marília/SP. Professora na UEL. Email: [email protected] 3 Professora Adjunto na Faculdade de Ciências e Letras - UNESP-Assis/SP e Professora Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNESP-Marília/SP. Email: [email protected] Apresentação Enquanto prática que norteia grande parte das atividades em sala de aula, a escrita é um processo que possibilita a construção de conhecimentos por meio da interação e da dialogicidade. Nesta visão, o texto aparece como um lugar de constante (re) significação, no qual “[...] o sentido revela-se em sua profundidade ao encontrar e tocar outro sentido, um sentido alheio [...]” (BAKHTIN, 2003, p.368), por permitir múltiplas vozes entre os sujeitos (autor e leitor). A escrita se configura como uma das múltiplas linguagens que a escola deve desenvolver junto ao aluno. Segundo Kramer (2003, p. 60), a escola ainda não explorou o potencial de criação da escrita, uma vez que insiste em um sistema instrumental, mecânico e repetitivo, com vistas a “[...] escrever cada vez menor variedade de palavras, cada vez mais as mesmas palavras sobre as quais a criança não guarda dúvidas, e em nome de garantir o conserto ou o acerto da forma de escrever, arruma e amarra as ideias”. Tal concepção impossibilita o sentido inventivo e criativo da escrita, gerando escritos sem motivação e destituídos de significado: Quando a prática de produção escrita é colocada como uma questão de técnicas que visam um produto final, acabado, dentro de um padrão de língua, reduzem-se as possibilidades de se fazer dessa prática um momento do processo de interação verbal, no qual a totalidade semântica e a historicidade do texto estão garantidas [...] (RAMIRES, 1999, p. 300). Cabe à escola promover a prática social da escrita por meio de estratégias que ultrapassem a perspectiva de que a mesma é um produto que prima exclusivamente pela ausência de erros gramaticais. Atenta-se para o fato de que a escrita vem a ser um processo, no qual o texto é escrito em um contexto sócio-historico, para uma determinada finalidade e para um leitor que também possui suas vivências. Nesse processo, a pessoa que escreve é um sujeito que interage com o seu interlocutor, que também é um sujeito, uma vez que ambos estão em constante (re) construção do material escrito. A produção escrita proporciona uma atuação ativa na sociedade letrada: “A aprendizagem do uso da escrita, na escola, torna-se, pois, a aprendizagem de ser sujeito capaz de assumir a sua palavra na interação com interlocutores que reconhece e com quem deseja interagir.” (SOARES, 1999, p. 62, grifos da autora), objetivando atender as necessidades de comunicação. A partir do pressuposto de que a produção escrita no contexto escolar é um meio, e não um fim em si mesma, o objetivo deste trabalho4 é compartilhar as experiências vivenciadas no Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Uberaba (CTPM-Uberaba) em novembro de 2014, quando fomos convidadas para participar da conclusão do projeto pedagógico Paradão da Leitura. Como forma de se atingir o objetivo proposto, nosso trabalho se insere na abordagem qualitativa de pesquisa a partir da coleta de dados por meio de observação, análise de documento e entrevista (ANDRÉ, 2012). O CTPM-Uberaba é uma escola mantida pelo Estado de Minas Gerais por meio da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). Atende atualmente cerca de 800 alunos, do Ensino Fundamental I ao Ensino Médio, e integra uma rede de vinte e duas unidades presentes no Estado mineiro. Esses colégios “[...] mantém regime disciplinar compatível com o preparo para o ingresso à carreira militar e para as instituições civis de ensino superior.” (POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS, 2012, p. 20), e suas vagas destinam-se, por ordem de prioridade, a: dependentes de militares da PMMG; dependentes de servidores civis, e, demais candidatos. Desenvolvido pela pedagoga da biblioteca do CTPM-Uberaba com os alunos do Ensino Médio ao longo do ano de 2014, o projeto Paradão da Leitura teve a seguinte metodologia: em um mesmo momento, todos os alunos realizavam leituras de um tipo de texto; após essa leitura o professor regente da sala promovia discussões orais, e, posteriormente, o aluno fazia uma produção escrita relacionada ao tema do texto (PDE, 2014, p. 60). A culminância do projeto ocorreu em novembro, quando foi solicitada aos alunos a produção escrita em forma de poesia. Dias antes dessa atividade, os alunos foram informados que as poesias seriam analisadas mediante uma premiação para as três “melhores”. A análise das mesmas coube a nós, por realizarmos pesquisa no colégio e não possuirmos vínculo empregatício com o mesmo. No dia da premiação realizou-se um evento artístico no refeitório do CTPM-Uberaba, com a participação dos alunos do Ensino Médio e de funcionários civis e militares. A experiência vivenciada possibilitou compreender que o método utilizado pelo CTPM-Uberaba para promover o estímulo e o gosto pela produção escrita precisa ser repensado, uma vez que a finalização do projeto Paradão da Leitura, por meio da premiação para as três “melhores” poesias, se baseou em critérios exclusivamente classificatórios, 4 O presente trabalho está vinculado ao Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Linguagem, Ensino e Narrativa de Professores - GEPLENP, liderado pelos professores doutores Raquel Lazzari Leite Barbosa e Sérgio Fabiano Annibal. O GEPLENP é certificado pelo CNPq e sediado na Universidade Estadual Paulista, Campus Assis-SP. seletivos e compensatórios. Tal método, como argumenta Fernandes (2006, p. 17), “[...] pode segregar ou pode integrar. Pode melhorar a auto-estima dos alunos, pode piorá-la ou, em casos extremos, pode mesmo destruí-la. Pode orientar o percurso escolar dos alunos ou pode afastá-los de qualquer percurso.” Cabe observar a importância de se promover atividades que motivem os alunos a atribuir um sentido para a produção escrita, sentido este pautado na compreensão de suas habilidades, na superação de dificuldades, no desenvolvimento da criatividade e na promoção de interesse. Apesar de termos feito a análise das produções dos alunos, optamos por não transcrever as três “melhores” poesias, por considerarmos que tal ação vem a promover a avaliação classificatória a partir da hierarquização e da exclusão, em detrimento de uma ação democrática, com vistas à igualdade de direitos, pois “Continuam a prevalecer uma avaliação pouco integrada no ensino e na aprendizagem, mais orientada para a atribuição de classificações do que para a análise cuidada do que os alunos sabem e são capazes de fazer ou para compreender as suas eventuais dificuldades, ajudando-os a superá-las” (FERNANDES, 2007, p. 587). Produção escrita no CTPM-Uberaba: uma experiência crítica O projeto Paradão da Leitura foi desenvolvido pela pedagoga da biblioteca do período matutino com os alunos do Ensino Médio do CTPM-Uberaba no decorrer de 2014. Este projeto está vinculado ao Biblioteca em Ação, projeto implantado na escola em 2012 cuja finalidade é [...] criar condições para a leitura em contextos diferentes dos de sala de aula, os quais os alunos do colégio possam ter uma relação mais livre e pessoal com as mais diversas modalidades textuais que circulam socialmente, e formarem-se como leitores e escritores autônomos no exercício de sua cidadania (PDE, 2014, p. 57). O documento anterior evidencia a preocupação em se oportunizar práticas leitoras para além da sala de aula, o que facilitaria, de acordo com o mesmo, uma relação mais íntima entre leitor e texto. Também afirma que a liberdade na escolha dos escritos a serem lidos poderá auxiliar a formação de um leitor e escritor independente para atuar em sociedade. Ramires (1999, p. 300) esclarece que a leitura é um dos elementos que podem vir a auxiliar a produção de texto, “[...] pois, na medida em que fornece matéria prima para se definir o que escrever, coloca o leitor em contato com os procedimentos de organização do texto”. Ao ampliar os conhecimentos de mundo e o conteúdo linguístico do aluno, a prática leitora pode oportunizar maior clareza de ideias e organização textual. O projeto Paradão da Leitura, subprojeto do Biblioteca em Ação, também foi instituído em 2012, e tem por objetivo: Será desenvolvido no decorrer do ano letivo, em que todos os integrantes do colégio em momento marcado com antecedência, farão leituras de textos diversos, após esse momento os docentes promoverão discussões orais e os discentes produzirão textos em gêneros literários variados (PDE, 2014, p. 57). Segundo o PDE (2014) o Paradão da Leitura ocorre durante o aluno letivo, quando todos os alunos do Ensino Médio, em um mesmo momento, fazem leitura de um texto. O professor regente da sala de aula, de acordo com o documento, promove discussão oral sobre o tema lido e depois os alunos fazem uma produção textual. A seguir, a pedagoga da biblioteca e responsável pelo projeto, esclarece a metodologia usada: A escola pára para fazer a leitura. É de 15 em 15 dias. A gente escolhe o tema, esses temas sociais... por exemplo, o último Paradão foi sobre o tráfico humano [...] O professor regente da sala lê e comenta o assunto [...]. O importante do Paradão é a redação, que é corrigida pelo professor de português de cada série e por mim. A gente coloca observação [na produção]: “você precisa melhorar isso, está muito sem contextualizar... um parágrafo não está ligado com outro...” Depois o professor devolve pro aluno, pra ele corrigir os erros5. Segundo a pedagoga da biblioteca, os temas a serem trabalhos são escolhidos pelos responsáveis pelo projeto, o que sugere falta de liberdade do aluno não só na escolha da leitura que irá fazer, como também da escrita que irá produzir a partir daquela. Sobre a utilização de um texto para a produção de outro, Lajolo (1993, p. 60) ressalta que pode ser válida, “Desde que não se abandone a perspectiva de que é o processo de significação autalizado no texto escrito, tomado como ponto de partida, que pode deflagrar o processo de significação do texto a ser criado”. Assim, o uso de texto para a produção textual deve vir acompanhado de significação, tendo em vista o desenvolvimento da habilidade de escrever a partir da criação, e não da cópia de um modelo. Pode-se perceber, também na fala da pedagoga, que a avaliação feita pelos professores, ao corrigir as produções textuais, privilegia, em grande parte, o resultado obtido, pois a prática avaliativa é feita por meio de seleção de erros com vistas à classificação, onde não há um feedbak “[...] que ajude a melhorar a aprendizagem dos alunos, nomeadamente mediante processos de auto-regulação, de auto-avaliação e de autocontrole” (FERNANDES, 2006, p. 26). 5 Será utilizada para transcrição da entrevista fonte Times New Roman, corpo 11, itálico. Entrevista concedida em 16/06/2014. Apesar de fazerem registros na produção do aluno, os professores e a pedagoga não realizam uma discussão com o mesmo acerca de suas dificuldades, o que pode desfavorecer o aprendizado e a aquisição de novos conhecimentos a partir dos obstáculos encontrados. Ao dizer que a produção é devolvida “[...] pro aluno, pra ele corrigir os erros.”, a pedagoga da biblioteca sugere que a avaliação da produção textual teve como principal objetivo a correção do conteúdo linguístico. Reafirma, pois, a ideia de que não houve um trabalho fecundo com o aluno a partir do estado no qual ele se encontra em relação à aprendizagem, de onde precisa chegar e nem da melhor maneira de chegar lá (FERNANDES, 2006). O fato de devolver a produção ao aluno para ele corrigir os erros demonstra uma prática avaliativa unilateral por parte do professor, como se cabesse somente ao aluno, por si só, entender seus obstáculos e dificuldades, sem a mediação de outros agentes que fazem parte do processo de aprendizagem, como o professor, por exemplo. Recorremos novamente a Fernandes (2006, p. 26), quando informa: “Os erros devem ser integrados de forma inteligente em um processo didático que conduza à superação das dificuldades e à aprendizagem com a participação deliberada e ativa dos alunos”. Nesta perspectiva, os erros são reconhecidos como possibilidades de avanço, por indicar o que o aluno não sabe neste momento, mas que pode vir a saber se suas dúvidas forem sanadas. Para além da classificação simplista do fracasso do aluno, o erro pode ser um importante aliado na aquisição de conhecimentos. Inserida na perspectiva de como o Paradão da Leitura acontece no CTPM-Uberaba, a nossa experiência ocorreu no mês de novembro de 2014, mês no qual o mesmo seria concluído. Em outubro daquele ano, fomos convidadas pela pedagoga da biblioteca para participarmos da sua finalização. O convite ocorreu porque estamos realizando uma pesquisa de doutoramento no colégio desde o ano de 2013, cujo tema é a trajetória da leitura no mesmo. Como a pedagoga da biblioteca realizava outras atividades didáticas vinculadas à leitura, passamos a acompanhá-la no desenvolvimento das mesmas. Devido a esta proximidade, o convite aconteceu. A atividade escolhida pela pedagoga da biblioteca para finalizar o Paradão da Leitura com o Ensino Médio foi a produção de uma poesia, que ocorreu dia 07 de novembro, no período da manhã, no 2º horário das aulas. Participaram da atividade todas as nove turmas do Ensino Médio (três do 1º ano, três do 2º ano e três do 3º ano), totalizando 271 alunos. O tema para a produção foi livre, cabendo ao aluno optar pelo assunto. Apesar de, na atividade, ter sido possibilitado ao aluno a escolha do tema, fica perceptível a imposição e o direcionamento quando é exigida a produção de um específico gênero textual, a poesia. Subentendemos que, caso o aluno viesse a produzir outro gênero textual, o mesmo não seria “válido”, por fugir da normatização imposta. Segundo Britto (1997, p. 120), “[...] na situação escolar existem relações muito rígidas e bem definidas. O aluno é obrigado a escrever dentro de padrões previamente estipulados [...]”, os quais são os considerados corretos e legítimos de serem reproduzidos. Ao realizar estudo sobre as dificuldades de leitura relatadas por alunos universitários em Assis-SP, Barbosa (2010, p. 31) observa: A escola – como um dos canais que detém na sociedade papel de passar para o indivíduo os valores nela gerados e referentes à relação leitor-leitura – passa, também, o medo gerado coletivamente, o medo de não desvendar e não cumprir certas determinações impostas e alheias à vontade e à escolha de cada um. A produção do aluno é, muitas vezes, realizada “para a escola” (GERALDI, 1993), ou seja, para atender às expectativas do professor (BARBOSA, 2010), com vistas à pontuação. Ao procurar escrever “para o professor”, o aluno deixa de registrar em seus escritos suas próprias ideias e concepção de mundo, consistindo em uma prática mecânica e repetitiva, destituída de sentido. Chamamos a atenção para a necessidade de um trabalho interativo junto ao aluno do CTPM-Uberaba, no qual este possa participar das decisões da escola – e, especificamente, participar das discussões sobre o processo de construção e desenvolvimento do projeto Paradão da Leitura, uma vez que ele é o principal sujeito envolvido. Com vistas a conseguir um maior “empenho” por parte dos alunos do CTPM-Uberaba em relação à produção das poesias, a pedagoga solicitou ao coordenador administrativo6 uma premiação para as “melhores” poesias, ficando, então, estipulado que três delas seriam contempladas. Na visão da pedagoga e do coordenador administrativo, os alunos, ao terem conhecimento disso, se esforçariam mais para escrever boas poesias. Dias antes da atividade, a premiação foi divulgada através de informações em todas as salas de aula e de cartazes nos murais da escola. Neste ponto, a tentativa de incentivar nos alunos a produção escrita por meio da premiação acaba promovendo uma situação de competitividade, onde punir e recompensar são ações que selecionam os alunos considerados capazes e eliminam os que não o são, ou 6 Assim como toda a rede, o CTPM-Uberaba possui dois diretores: um diretor pedagógico (professor do colégio eleito) e um diretor administrativo (Comandante do Batalhão). Devido às funções militares do Comandante, a PMMG criou em 2011 o cargo de coordenador administrativo, que é um oficial da PMMG nomeado pelo Comandante. Apesar de oficialmente o diretor administrativo ser a pessoa quem dirige o colégio, na prática, esse papel é feito pelo coordenador administrativo. Este também interfere nas ações pedagógicas do colégio, pois possui autonomia para modificar o que julgar necessário. seja, recompensa-se o acerto e pune-se o fracasso. A valorização do sucesso aparece como principal critério de medição de conhecimento, como mostra André (1996, p. 17): A forma técnica de concretizar a função seletiva e hierarquizadora da avaliação é pela comparação dos alunos, estabelecendo sua posição dentro do grupo (quem é o melhor) ou apelando para um critério de competência em relação a certos conhecimentos e habilidades (quem é competente). A seleção a partir de âmbitos antagônicos, como saber/não saber, competência/incompetência, gera a separação dos alunos em subgrupos conforme seus rendimentos escolares. Ao adotar uma avaliação classificatória que hierarquiza a escrita do aluno a partir do que se considera válido de ser produzido por ele, a escola contribui para a segregação, na medida em que “[...] ordena, hierarquiza, classifica os indivíduos em função de seus méritos [...]” (DUBET, 2003, p. 40). Assim, os alunos aparecem como os únicos responsáveis por seus desempenhos, conseguindo sucesso apenas aqueles considerados mais esforçados: “A escola apresenta-se um pouco à maneira de uma prova esportiva que postula a igualdade dos concorrentes e a objetividade das regras. A ética esportiva é a da responsabilidade dos desempenhos: que vença o melhor!” (DUBET, 2003, p. 40). Além disso, a prática avaliativa adotada pelo CTPM-Uberaba em se premiar as “melhores” poesias pode vir a provocar sentimentos negativos no aluno, como por exemplo, frustração e inferioridade, tornando-se um “[...] instrumento de ameaça e adestramento da personalidade do educando, fazendo com que o indivíduo se sinta culpado e incapaz” (TEIXEIRA; NUNES, 2008, p. 69). Tais sentimentos podem incidir na autoestima do aluno, e, mesmo, repercutir para além da sua vida escolar. No momento da produção da poesia foi colocada música clássica instrumental para facilitar a escrita dos alunos. Com base em nosso conhecimento sobre o cotidiano do colégio, percebemos que a utilização de música em atividades didáticas ocorre esporadicamente. É importante frisar que a música pode vir a colaborar com a prática pedagógica ao facilitar a concentração, assimilação de conteúdos, compreensão da linguagem ou mesmo o raciocínio matemático. Para que isso ocorra, no entanto, “[...] é necessário ter como base uma ideia clara, concreta, que viabilize ações conectadas à vida real”, de modo que a música seja trabalhada levando-se em conta o modo de pensar, agir e sentir do aluno (LOUREIRO, 2008, p. 22). Antes dos alunos iniciarem a produção, alguns professores abriram discussão sobre a atividade, e registraram na lousa temas que poderiam vir a facilitar a escrita dos alunos, como por exemplo, “amizade”, “amor” e “família”. Destacamos a importância do professor regente em promover diálogos a respeito de possíveis assuntos a serem abordados pelo aluno, uma vez que tal ação pode auxiliar o desenvolvimento do raciocínio do mesmo. A Figura 1 mostra o momento da produção escrita dos alunos. FIGURA 1: Produção escrita dos alunos do Ensino Médio do CTPM-Uberaba. Fonte: Acervo das autoras. Após a atividade, a pedagoga da biblioteca entregou-nos as produções textuais, tendo em vista que faríamos a análise das mesmas. Buscamos um método que levasse em conta as vivências, opiniões e pensamentos próprios do aluno, apesar de termos conhecimento que o tipo de análise feito por nós implicaria na premiação de três poesias. Desse modo, a análise foi realizada também a partir de outros aspectos, como: a organização das ideias centrais; a criatividade, que segundo Giglio (1996) corresponde à liberdade de expressar o novo, manifestado por ideias originais e maneiras pessoais do indivíduo em utilizar a língua, a partir de suas experiências individuais; a coesão, como um sentido perceptível no texto, que resulta em conexões entre os elementos do texto; a coerência, que está associada à inteligibilidade e à capacidade do leitor em compreender o sentido do texto (KOCH; TRAVAGLIA, 1995). Aqui, enfatizamos o papel do professor em propiciar ao aluno a compreensão da importância em atribuir um objetivo à sua escrita. Enquanto interlocutor dos textos do aluno, o professor “[...] pode ampliar as formas de interação [...] na medida em que cria condições favoráveis à produção, como, por exemplo, disponibilizar aos alunos os múltiplos recursos de usos da língua para a construção da textualidade” (RAMIRES, 1999, p. 300). Ao promover diálogos, o professor amplia a possibilidade dos recursos linguísticos para a produção escrita. Mais do que a adequação simplista no que se refere às questões gramaticais, nossa análise se pautou na valorização da escrita enquanto prática social, e, mais especificamente, na valorização de um escritor capaz de criar o seu próprio texto, [...] para mostrar suas ideias, para informar sobre fatos que os destinatários necessitam ou devem conhecer, para incitar seus leitores a empreender ações que consideram valiosas, para convencê-los da validade dos pontos de vista ou das propostas que tentam promover, para protestar ou reclamar, para compartilhar com os demais uma bela frase ou um bom escrito, para intrigar ou fazer rir... (LIMA; FERREIRA, 2010, p.4 apud LERNER, 2002, p. 17). Nesse sentido, a escrita aparece como uma ferramenta que auxilia o aluno a compreender melhor o mundo, a tomar posição em relação a algum problema e a expor seu ponto de vista. Em relação especificamente à produção escrita dos 271 alunos do CTPM-Uberaba, foi constatado que todas foram escritas em forma de poesia, fato que vem a confirmar a ideia da padronização imposta pela escola. Do total de poesias, 50 apresentaram reproduções de escritos já existentes, como poemas de autores conhecidos nacionalmente e letras de músicas. Ressaltamos, mais uma vez, o papel do professor como mediador da construção de conhecimentos por parte do aluno, ao propiciar a este, conforme já exposto, a compreensão da importância em atribuir um objetivo e um significado à sua escrita. Tal mediação poderia, por exemplo, vir a auxiliar o aluno na escrita da seguinte poesia: Sono Estou sem ideia, Estou sem criatividade. A vontade de dormir Diminui minha capacidade Queria muito escrever Mas não vai rolar, posso crer. Enquanto eu não dormir, Nada vai fluir7. Também verificamos que, dentre os temas abordados pelos alunos nas poesias, o mais frequente foi o “amor”, presente em 89 produções, seguido respectivamente de “vida”, “meio ambiente” “infância”, “pensamento”, “tempo”, “medo”, “família”, “amizade”, “lembranças”, “poesia”, “solidão”, “música”, “tecnologia”, dentre outros. 7 Neste trabalho, as transcrições das poesias ocorreram tais como foram escritas pelos alunos. Como relatamos anteriormente, a premiação das poesias pode vir a promover situações de concorrência nos alunos, pois contribui para incentivar a competitividade por meio de disputas ao enfocar a importância de ser o melhor. A poesia abaixo retrata essa questão: Competição Sem dor não há vitória Sem dedicação não há compensação Sem campeão não há competição. A vida é uma competição Não adianta reclamar. Competição não é para qualquer um, Se perder, não adianta chorar. É campeão aquele que não desiste não É aquele que se entrega do fundo do coração Mas lembre-se: sem erro não há perfeição. Ao se restringir em julgar os sucessos e os fracassos dos alunos, a escola “[...] estimula o espírito de competitividade individualista, que se estabelece por relações autoritárias e de poder [...]” (SOUZA, 1998, p. 113), confrontando indivíduos a partir de classificações que os homogeneízam de acordo com a padronização estabelecida pela escola e pelo professor. O verso “Se perder, não adianta chorar”, demonstra claramente a visão de competição, pois reforça que o sucesso é alcançado somente quando o aluno se esforça, e que o fato de não alcançá-lo resulta de sua incapacidade e incompetência, ou seja, as falhas são todas do aluno. Desconsidera-se assim a possibilidade de as práticas de ensino não favorecerem os alunos à ampliação dos saberes. Nesta concepção desenvolve-se no aluno “[...] uma compreensão culposa da vida, pois, além de heterocastigado, muitas vezes ele sofre ainda a autopunição” (LUCKESI, 1990, p. 135), por atribuir, a si mesmo, supostos erros. A “[...] explicação rotineira consiste em atribuir as causas dos resultados exclusivamente ao indivíduo mediante traços negativos: [...] o aluno não estuda, [...] o aluno não colabora, [...] o aluno não se interessa, [...] o aluno não está pronto, etc." (BALLESTER, 2003, p. 49). Há que se atentar, no entanto, para o erro como um indicador no processo ensinoaprendizagem, de modo que possa auxiliar professor e aluno, informando “[...] estratégias inadequadas, lacunas de conhecimento, falhas na compreensão, lapsos na execução etc.” (TORRE, 2007, p. 28). Para tanto, é fundamental que o professor, e também a escola, passem a conceber o erro como uma oportunidade de avanço. A premiação aconteceu na manhã do dia 14 de novembro, quando foi realizado um evento artístico no refeitório do colégio com a participação dos alunos do Ensino Médio e de funcionários civis e militares, como professores, diretor pedagógico, coordenador administrativo e secretário (estes dois últimos, oficiais da PMMG). O evento contou com discurso do coordenador administrativo além de apresentações artísticas com declamação de poemas e música de alguns alunos. Foi observado, durante o evento, que a presença dos militares ocasionou certa contenção de gestos por parte dos alunos. Esse controle do comportamento por meio da economia dos movimentos, presente na conduta dos alunos do CTPM-Uberaba, é o que Foucault (1999) denomina de “mecânica do poder”. No caso específico do colégio, ela é exercida pelos militares, pois “[...] define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina” (FOUCAULT, 1999, p. 164). Assim, a disciplina existente no CTPM-Uberaba se constitui como um instrumento de poder em relação ao que se espera que o aluno faça, ou seja, ao que é considerado como digno de ser reproduzido por ele. No que concerne à produção escrita dos alunos, compreendemos que tal disciplina pode incidir na construção de ideias ao inibir pensamentos e/ou palavras, na medida em que o aluno escreve com vistas a atender a escola, ou, mais especificamente, atender aos oficiais militares presentes nela. Considerações Finais Este trabalho objetivou compartilhar as experiências vivenciadas no CTPM-Uberaba em novembro de 2014, quando participamos da conclusão do projeto pedagógico Paradão da Leitura. Desenvolvido para os alunos do Ensino Médio, o projeto ocorreu durante o ano de 2014 e teve como metodologia a leitura de textos, discussão oral promovida pelo professor e a posterior produção de texto pelos alunos. A culminância do projeto Paradão da Leitura se deu com a produção escrita em forma de poesia, tendo em vista uma premiação para as três “melhores” poesias. A análise das produções coube a nós, cuja atribuição ocorreu tendo em vista sermos pesquisadoras do colégio e não possuirmos vínculo empregatício com o mesmo. A premiação ocorreu durante um evento artístico no refeitório do colégio com a participação dos alunos do Ensino Médio e de funcionários civis e militares. No que diz respeito a como ocorreu o processo avaliativo da produção escrita do aluno durante o ano de 2014, a entrevista da pedagoga responsável pelo projeto revelou preocupação com a correção do conteúdo linguístico e a concepção do erro como algo negativo, que atrapalha a aquisição de conhecimentos do aluno. Tal visão considera a avaliação como um fim, e não um processo, uma vez que desconsidera a realização de um trabalho docente junto ao aluno, pautado no conhecimento das dificuldades e obstáculos por meio do feedbak. Ao escolher a produção em forma de poesia para a finalização do projeto Paradão da Leitura, a pedagoga permitiu entender que o aluno não participa das decisões da escola, pois verifica-se a imposição e o direcionamento da atividade quando é exigida a escrita de um específico gênero textual, fato que confirma a padronização a partir de regras que devem ser seguidas pelo aluno. Essa padronização, muitas vezes, influencia a produção do aluno na medida em que este, ao procurar escrever “para a escola” (GERALDI, 1993), deixa de registrar em seus escritos suas próprias ideias e concepção de mundo, consistindo em uma prática mecânica e repetitiva, destituída de sentido. Também ficou evidente que a maneira encontrada pela pedagoga e pelo coordenador administrativo para estimular a escrita dos alunos – a premiação de três poesias – pode promover o estímulo de competitividade, onde punir e recompensar são ações que selecionam os alunos considerados capazes e eliminam os que não o são, recompensando-se o acerto e punindo-se o fracasso. Ao realizar a análise das produções dos alunos, buscamos um método que levasse em conta as vivências, opiniões e pensamentos próprios do aluno, apesar de termos conhecimento que o tipo de análise feito por nós implicaria na premiação de três poesias. A experiência vivenciada possibilitou compreender que o método utilizado pelo CTPM-Uberaba para promover o estímulo e o gosto pela produção escrita precisa ser repensado, pois a finalização do projeto Paradão da Leitura, por meio da premiação, se baseou em critérios exclusivamente classificatórios, seletivos e compensatórios. Assim, considerarmos que esta prática vem a promover a avaliação classificatória a partir da hierarquização e da exclusão, em detrimento de uma ação democrática, com vistas à igualdade de direitos. Nossa experiência também permitiu verificar que o fato do CTPM-Uberaba ser uma escola administrada pela PMMG pode incidir na produção escrita dos alunos, uma vez que contribui para que escrevam com vistas a atender a escola, ou, mais especificamente, atender aos oficiais militares que fazem parte do cotidiano da mesma. Referências ANDRÉ, Marli Elisa Dalmazzo Afonso de. Avaliação escolar: além da meritocracia e do fracasso. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 99, p. 16-20, 1996. _________. Etnografia da prática escolar. 18ed. Campinas: Papirus, 2012. BAKHTIN Mikail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BALLESTER, Margarita et al. Avaliação como apoio à aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2003. BARBOSA, Raquel Lazzari Leite. 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