Valéria Cristina Fidélis CÂNCER NO COLO DO ÚTERO A importância do ampliar a consciência para o resgate da criatividade na mulher FACIS/IBEHE SÃO PAULO 2007 2 Valéria Cristina Fidélis CÂNCER NO COLO DO ÚTERO A importância do ampliar a consciência para o resgate da criatividade na mulher Monografia apresentada à FACIS/IBEHE como requisito para obtenção do título de especialista em Psicossomática FACIS/IBEHE SÃO PAULO 2007 3 AGRADECIMENTOS Em especial a minha mãe (in memorian) e a todas a mulheres que cruzaram minha vida, emprestando força para o enfrentamento da perda e a realização deste trabalho. A minha amiga Maria Noemia Baptista, que está sabendo resignificar sua existência, através da ampliação de sua consciência sobre o sentido de sua vida. 4 “...Aquilo que não fazemos aflorar à consciência aparece em nossas vidas como destino...” “... a finalidade única da existência humana é a de acender uma luz na escuridão do ser...” “...A luz recai sobre a vida à partir da morte, só quem, na sua alma está pronto para caminhar através do portal da morte será um homem vivo... ” Carl Gustav Jung 5 RESUMO O estudo da psicossomática e pesquisa presente consolidou um processo de desenvolvimento pessoal e profissional, ampliando o meu entendimento sobre a tão repentina e dolorosa perda de minha mãe aos 57 anos. De maneira criativa tive a possibilidade de reviver o contato com diversas mulheres em consultas médicas ambulatoriais com diferentes tipos de câncer. O convívio com pessoas portadoras de câncer, torna obrigatória a realização de reflexões pessoais e filosóficas acerca do sofrimento da dor e da morte em sua forma concreta. Delimitei o estudo ao câncer de colo uterino; o segundo tipo de maior incidência de morte no Brasil; mesmo existindo grande possibilidade de cura em seu estágio inicial, a previsão de morte é confirmada quando a mulher não tem por hábito a acuidade consigo; evidenciei o quanto é importante o conhecimento e a exigência dos direitos da mulher no contexto social. Os resultados apontam para a importância do ampliar da consciência na prevenção, no tratamento e no enfrentamento da doença, bem como na estagnação desta, podendo colaborar com o desenvolvimento da flexibilidade e da busca da integridade da mulher no saber lidar com o fantasma da recorrência; ou ainda frente à morte eminente. Palavras-chaves: Câncer de Colo do Útero. Psicossomática. Ampliação da Consciência. Espontaneidade. Criatividade 6 ÍNDICE RESUMO I – INTRODUÇÃO II – OBJETIVOS / HIPÒTESES III – PESQUISAS E CONCEITOS TEÓRICOS CAPÍTULO 1 – GENESE, NOME E EXPLICAÇÃO FISIOLÓGICA DA DOENÇA 1.1 - Câncer de Colo Uterino 1.2 -Fatores de Risco 1.3 - Os aspectos sociais da doença 1.4 - O diagnóstico 1.5 – O tratamento CAPÍTULO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA ANALÍTICA DE CARL GUSTAV JUNG 2.1– Breve relato de sua vida 2.2– A obra do pai da psicologia analítica e as suas conceituações mais importantes CAPÍTULO 3 – OS ASPECTOS PSICOLÒGICOS NO PROCESSO DE AQUISIÇÃO DA DOENÇA E NO SEU ENFRENTAMENTO 3.1- Psicossomática e o câncer 3.2 - Características de personalidades das mulheres que desenvolveram o câncer de Colo Uterino 3.3 - A simbologia do Câncer de Colo Uterino 3.4 - Porque as mulheres precisaram desta doença 7 CAPÍTULO 4 – A IMPORTÂNCIA DA PSICOSSOMÁTCIA NO RESGATE DA ESPONTANEIDADE E NO ATINGIR OS OBJETIVOS: VIDA OU MORTE 4.1 – A Importância da área da psicologia no âmbito hospitalar 4.2 – A etiologia da doença, seu desenvolvimento e a oportunidade de desenvolvimento pessoal no resignificar a doença IV - CONCLUSÃO 8 I – INTRODUÇÃO A elaboração deste trabalho trouxe uma experiência enriquecedora na ampliação bibliográfica do estudo da psicossomática e da psicologia analítica; em paralelo, a pesquisa sobre o câncer de colo uterino possibilitou uma vivência da real necessidade de uma sociedade mais justa e voltada para o coletivo. O estudo foi delimitado no diagnóstico de câncer no colo do útero; o aspecto psíquico foi o ponto de partida de minha curiosidade sobre o tema, embora encontraremos muitas outras variáveis apontadas pelas pesquisas; busquei entender o estado emocional da mulher, sua condição social e a simbologia da doença; o aprofundamento quanto a repressão das emoções foi apontada como influência significativa no processo de aquisição do diagnóstico. Várias foram as indicações das dificuldades adaptativas das mulheres que recebem o diagnóstico do câncer de colo uterino; no primeiro capítulo busquei o entendimento sobre a doença e o órgão em questão, através da conceituação teórica encontrei as explicações sobre o nome e as possíveis causas de seu aparecimento sob o ponto de vista da medicina tradicional, a gênese da doença foi explicada apenas no âmbito fisiológico. Os dados apontam para a não acuidade de um modo geral da mulher consigo e sugere que o diagnóstico no seu início pode ser um grande caminho para a cura, porém, as pesquisas evidenciam um descaso do poder público em viabilizar o acesso à estas mulheres a exames de rotina pela precariedade do atendimento público, este que colabora muitas vezes para o diagnóstico tardio. 9 Foi possível entender que a própria condição social e cultural destas mulheres não proporciona o discernimento de exigir os seus direitos enquanto cidadãs; os dados estatísticos são representativos e indica um maior índice na população de baixa renda que ficam a margem da sociedade; o que fez-me reforçar a importância da consciência para àquelas mulheres que estão em condições socioeconômicas mais favoráveis, e que de alguma forma possuem o acesso à assistência médica e não se preocupam com a regularidade necessária em realizar os exames preventivos. Há indicativos de um possível re-estabelecimento para uma qualidade de vida em harmonia após a aquisição de uma doença como o câncer de colo uterino, este processo é mais favorável quando a mulher consegue um diagnóstico precoce da doença. Foi detectado que o tratamento é muito invasivo e representa para a mulher uma grande mudança em sua rotina, exigindo uma flexibilidade adaptativa tanto física como emocional em lidar com o mesmo; existe uma grande lista de medicações e formas de aplicá-las ao tipo de câncer em questão e a cada estágio da doença; em nenhum momento foi encontrado a citação da importância de se equilibrar o estado psíquico da mulher, pois ainda é precário o atendimento médico hospitalar. Os dados sobre importância dos serviços de psicologia e sua escassez foi encontrado no trabalho que utilizei para trazer dados reais Neme (1999), e não deixar a pesquisa apenas no âmbito teórico, trazendo sentimentos verídicos de mulheres em situações nos diversos tipos de estadiamento da doença. Para reflexão e entendimento do processo de aquisição da doença, utilizei as conceituações teóricas da psicossomática e da psicologia analítica que amplia a nossa compreensão do comportamento sadio e patológico. Estas abordagens se aplicada a cada fenômeno que ocorre no organismo vivo, pode oferecer uma compreensão deste como um sistema integrado. Conforme exposto acima no capítulo 2 busquei apresentar o criador da psicologia analítica, e para que o leitor compreendesse o meu raciocínio posterior trouxe as principais contribuições teóricas de Carl Gustav Jung de maneira que 10 possa facilitar os conceitos e os significados abordados na leitura da psicossomática que será realizada nos próximos capítulos. Como a visão da doença teve um enfoque nos pressupostos teóricos da psicossomática, no capítulo 3 realizei a correlação entre a etiologia da doença com o aspecto psíquico das mulheres que adquirem a mesma, explicando a simbologia da doença, do órgão, do desenvolvimento da doença, no seu enfrentamento, e tentei buscar o porque estas mulheres precisaram adquirir a doença. Ao longo do capítulo 4 busquei nas dissertações o entendimento da aquisição da doença através da questão somática e de sua simbologia, para compreender o caminho da remissão, minha preocupação foi achar uma teoria que se afina-se com minha hipótese de que o ampliar a consciência viabilizaria no processo de tratamento e a possível estagnação da mesma, conclui-se através dos dados encontrados, que o câncer é um grande modelo de doença psicossomática que abrange os aspectos biopsicossocial envolvidos na aquisição da mesma. Neste olhar foi possível também perceber o quanto as características de personalidade das mulheres que adquirem o câncer de colo uterino, proporciona o entendimento e esclarece a simbologia da doença, proporcionando uma visão mais ampliada do processo de adoecimento. No decorrer da pesquisa foi possível ampliar a minha visão sobre o termo: “cura”, pois através da teoria Jungiana foi possível entender que as experiências e vivências do doente pode ampliar a consciência sobre a sua realidade e re-significar a doença, ou ainda possibilitar a vivência e o conhecimento do sagrado (totalidade). Neste contexto a cura pode seguir dois caminhos: onde a pessoa pode identificar-se com um novo propósito ou uma nova intenção de vida, resgatando a vontade e a coragem para evoluir indo contra o destino e as expectativas, mantendose viva, ou ainda consciente e preparada para a morte e alcançar o maior nível de desenvolvimento espiritual, o que Jung (1980), chamou de processo de individuação, tornando-se o si mesmo e despojando-se da matéria (os invólucros da persona), despindo-se das máscaras definada pelo social e que muitas vezes serve para o desempenho de alguns papéis. Ficou evidente a importância do ampliar a consciência como parte importante no tratamento do doente, neste contexto o trabalho de pesquisa de doutorado 11 realizado pela PUC-São Paulo de NEME (1999), corroborou com os demais pesquisadores e com minha hipótese inicial. Diante de uma real reflexão, o resultado permite indicações para futuras pesquisas nesta área, sugestões quanto à sexualidade, aos serviços da psicossomática, ampliação do conhecimento dos direitos das mulheres e de seu papel na sociedade, entre outros. Um estudo tão denso proporcionará à atualidade a reflexão sobre os caminhos que podemos enveredar, mediante um novo olhar sobre o tema; chamando atenção para a falta de consciência do EU e da realidade a que ele está sujeito no processo de adoecimento, e da dificuldade num momento tão perverso de acreditar na aquisição da doença como um sintoma que pode ser re-significado; dar ênfase na falta de percepção da mulher sobre os seus sentimentos, vontades e também a passividade diante de sua vida e principalmente sobre sua sexualidade, bem como, a responsabilidade, frente as suas escolhas no contexto social e nos diversos papéis que assume e a constitui mulher. 12 II – OBJETIVOS Trazer a reflexão sobre as possibilidade de cura sob o ponto de vista da abordagem Jungiana e psicossomática. Específicos: 1.Investigar os aspectos: fisiológicos, psicológicos e sociais da doença. 2. Averiguar pesquisas realizadas neste âmbito para mostrar a importância das condições psicológicas para enfrentamento do câncer e suas conseqüências. 3. Verificar a obtenção de estagnação da doença e conseqüentemente visualizar os recursos psicológicos, (internos e externos), necessários para o resgate da espontaneidade após a fase do convívio com o estigma de ter tido uma doença “incurável”. HIPÓTESE Que a ampliação da consciência sobre os aspectos stressores que interatuam na realidade de cada mulher; resgatem a espontaneidade das mesmas no resignificar o patológico de maneira a sobreviver harmonicamente com o futuro mesmo que este seja a transcendência. 13 III – PESQUISAS E CONCEITOS TEÒRICOS TEÓRICO CAPÍTULO 1 – GÊNESE, NOME E EXPLICAÇÃO FISIOLÓGICA DA DOENÇA Genericamente a palavra Câncer é utilizada para denominar uma grande variedade de tumores “malignos” ou neoplasias (novos tecidos) que acabam de ampliar-se gerando a destruição orgânica devido seu caráter invasivo e disseminador. Geneticamente o câncer acontece na formação de células, estas formadas por três partes: a membrana celular que é a parte externa da célula; o citoplasma, que constitui o corpo da célula; e o núcleo, que contém os cromossomos que por sua vez são compostos de genes. Os genes são arquivos que guardam e fornecem instruções para a organização das estruturas, formas e atividades das células no organismo. Toda a informação genética encontra-se inscrita no gene através de uma “memória química” – o ácido desoxirribonucléico (DNA). É através do DNA que os cromossomos passam as informações para o funcionamento da célula, o que chamamos de mutação genética. As células cancerígenas dividem-se rapidamente, e tendem a multiplicarem-se de forma agressiva e descontroláveis, determinando a formação de tumores (acúmulo de células cancerosas) ou neoplasias malignas. Existem também os tumores benignos, são aqueles que se formam por uma massa localizada de células que se multiplicaram vagarosamente se assemelham ao seu tecido original, raramente constituindo um risco de vida. 14 Alguns experimentos sugerem como os maiores causadores do câncer os fatores ambientais (agentes químicos, radiações e viroses); apontam também que a maioria dos cânceres são doenças genéticas de origem somática. Porém, é valido lembrar que são múltiplas as etapas e os fatores envolvidos no processo que desencadeiam a doença, que podem ser externos ou internos, ou seja, para que uma célula normal se transforme em uma célula maligna as causas podem ser várias, estando ambas as possibilidades envolvidas e inter-relacionadas. O câncer em geral é a segunda causa de morte para as mulheres no Brasil logo após as doenças cardiovasculares (ABRÃO,1995). 1.1- Câncer de Colo Uterino Em decorrência do alto índice estatístico nos últimos anos, vários são os grupos de pesquisas que tentam buscar, caracterizar e investigar as causas desta doença. Sugere-se um suposto microorganismo sexualmente transmissível, na gênese desta neoplasia maligna. Os resultados das pesquisas www.scielo.br/scielo.php, apontam hoje que não existe câncer do colo sem HPV. Evidência de certos tipos de papilomavírus humano (HPV sigla em inglês para Human Papiloma Vírus) seria um agente. Esta infecção não resulta em câncer, mas é comprovado que 99% das mulheres que têm câncer do colo uterino, foram antes infectadas por este vírus, e a infecção cervical pelo HPV, assim como condição que dela resulta, a neoplasia propriamente dita. Estes estudos epidemiológicos demonstram que há grande associação entre a conduta sexual e o câncer de colo uterino, sendo que alguns pesquisadores chegam a afirmar que se trata de uma doença sexualmente transmissível. Cerca de 75% da população sexualmente ativa entra em contato com o HPV e espontaneamente elimina o vírus do organismo, sem desenvolver qualquer doença. Algumas até adquirem uma infecção transitória com duração média de 12 a 18 meses e menos de 1% corre o risco de ter câncer do colo do útero. Segundo alguns médicos a aquisição do vírus em algumas mulheres deve-se ao stress. 15 1.2- Fatores de Risco Condutas sexuais que estão associadas a um maior risco de desenvolver-se o câncer de colo uterino: - início precoce da atividade sexual - maior número de filhos - múltiplos parceiros sexuais masculinos - parceiro sexual masculino com múltiplas parceiras - lesão genital por papilomavírus humano – HPV (vírus do condiloma) - mulheres imunodeprimidas, qualquer que seja a causa, como por exemplo, as que usam drogas imunossupressoras após transplante renal - mulheres fumantes - mulheres virgens menopausadas com sangramento A doença é detectável facilmente através dos cuidados que toda mulher deve ter com o seu corpo, ou seja, exames periódicos são fáceis de identificar no seu início, sendo assim, os casos de morte são mais previsíveis quando a mulher não tem por hábito a visita ao ginecologista para realização de exames periódicos de papanicolau. 1.3- Os aspectos sociais da doença Segundo a dissertação de Carvalho, C.S.U, revista brasileira de cancerologia 2004; 50(2) :135; o câncer de colo uterino retrata as condições sociais das mulheres no Brasil, pois estas pertencem ao segmento menos favorecidos da sociedade, o que as coloca em situações mais vulneráveis e aos riscos de desenvolvimento da neoplasia; a pesquisa mostrou que a maioria das mulheres portadoras de câncer em estágio avançado caracteriza-se pelo seu referencial sóciohistórico como uma expressão da questão de desigualdade social e seu reflexo no 16 cotidiano das classes menos favorecidas, a faixa etária predominante é de 35 a 55 anos de idade. Os estudos revelam que há limitações concretas de acesso ao controle e prevenção da doença em virtude dos precários serviços públicos de saúde estruturados para dar atenção a mulher; o que torna compreensivo o diagnóstico tardio da doença. Concomitantemente há também as condições de habitação e seu aspecto cultural que também não proporcionam conhecimentos específicos sobre a importância de cuidados pessoais e exames preventivos. É relevante lembrar que os estudos não apontam índices de mulheres de classe social alta e de nível cultural diferenciado, acredito que neste caso a aquisição e a identificação do diagnóstico tardio, pode estar correlacionada também com a falta de consciência da mesma no âmbito biopsicossocial, demonstrando de uma forma mais acentuada a importância da consciência sobre nossas ações na vida. É válido lembrar que é necessária educação e principalmente a motivação individual para o controle do câncer de colo uterino. 1.4- O diagnóstico Câncer é uma palavra assustadora mediante o recebimento do diagnóstico, algumas pessoas ainda na época de hoje mal mencionavam o seu nome, muitas vezes referem-se ao câncer como: “...aquela doença...” “...não quero nem falar o nome...”.É difícil lidar com o diagnóstico, mesmo para alguns médicos diante de seus pacientes. A primeira reação das pessoas ainda é o desespero; o câncer ainda é visto como sinônimo da morte e para alguns, motivo para se esconder o diagnóstico, pois num país capitalista onde a produtividade é o que impera, pode significar não ser produtivo no contexto social e familiar, e neste sentido encarar a rejeição, pois às vezes essa família não está preparada para lidar com os aspectos inerentes a doença como o tratamento prolongado ou mesmo com a morte. 17 Mesmo sabendo conscientemente que com diagnósticos precisos, possuímos tratamentos apropriados que se pode buscar a cura, ou controlar o tumor ou pelos menos oferecer uma boa “qualidade” de vida. As pessoas portadoras de câncer na maioria das vezes não estão preparadas para receber o diagnóstico pois vivem a vida como se não fosse morrer, o que de uma certa forma já colabora para que a doença não seja entendida às vezes como um símbolo a ser re-significado. Alguns relatos da pesquisa de Neme (1999), quanto ao recebimento do diagnóstico: “Tenho muita mágoa. Sempre fui de luta e enfrentar tudo. Procurei logo o médico... Sou revoltada com esses erros no meu diagnóstico...Agora, a doença está deste jeito...” (mulher entre 50-65 anos de idade; metástases ósseas). “Não consigo dormir... Fico ansiosa... às vezes melhoro, me animo; mas depois vem a tristeza de novo” (mulher, entre 50-65 anos; categoria de câncer; mama/útero/ovário) “Penso que a doença pode ser um castigo (pelo aborto que fiz)....e por tudo que fiz ‘par minha mãe” (mulher, entre 19-33 anos; categoria de câncer; mama/útero/ovário) 18 1.5- O tratamento medicamentoso No decorrer do tratamento é possível evidenciar diversos tipos a saber: Radioterapia que inclui a teleterapia e a braquiterapia e a Quimioterapia utilizada como tratamento sistêmico; estes que desafiam a mulher a suportar diversas conseqüências físicas e emocionais. São recursos utilizados para impedir o desenvolvimento das células cancerígenas e /ou eliminar total ou parcialmente os tumores existentes, que também destroem células normais, estas que possuem maior possibilidade de reparo. Neste contexto existe um efeito desgastante no cotidiano da mulher, pois os efeitos colaterais são os mais diversos: reações da pele, sensação de cansaço, alterações de apetite, sonolência, diarréia, disúria, além de vivenciar um intervalo de abstinência sexual, se em seu tratamento houver a impossibilidade de manter a relação sexual, entre outros. Os tratamentos podem ter resultados efetivos ou paliativos, vai depender muito do estadiamento da doença. É fato que as mulheres submetidas a qualquer tipo de tratamento que se faça necessário, ficam mais sensíveis e fragilizadas a tantas exposições aos diversos tipos de tratamentos; a condição da ansiedade, fragilidade e insegurança se potencializam, fato que demanda uma atenção especial de uma equipe multiprofissional. Falas para ilustrar o aspecto psíquico: “ Sei que meu problema não é grave. Graças a Deus, foi detectado no exame preventivo de rotina. Já operei, fiz a rádio preventiva, e o médico (em quem eu confio muito), já me disse tantas vezes, que eu posso morrer de câncer, mas não deste. Mas mesmo assim, é sempre um fantasma assustador. Vai ser muito difícil me livrar dele” (mulher de 42 anos) Neme, (1999) 19 CAPÍTULO 2– CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA ANALÍTCIA DE CARL GUSTAV JUNG 2.1- Breve relato de sua vida Em 26 de julho de 1875 na aldeia de Kesswil na suíça nasce Carl Gustav Jung, filho de Paul Achilles Jung (doutor em Teologia e Filosofia) e de Emilie Preiswerk (mulher com dons literários com fortes experiências espiritualistas). Dedicou-se aos estudos da mente desde muito cedo, tornando-se depois aplicado pesquisador da medicina. Em virtude de suas próprias influencias familiares e vivencias de visões premonitórias e sonhos espirituais foi guiado em sua vida e obra por seu lado espiritual, sendo sua realidade mais autêntica a vasta curiosidade científica foi sobre a alma e transcendência. Desconfiado da fé dogmática vivida por seu pai e vivenciando muitas crises e divergências a respeito do assunto, após a primeira comunhão afasta-se da igreja pela falta de vitalidade na cerimônia, dizia que sentia na mesma a ausência de Deus e que não era um lugar de vida e sim de morte. Na adolescência passa por uma crise filosófica e começa a buscar leituras aprofundadas não só em conteúdos religiosos mas também no campo da filosofia. Tornou-se médico preocupado com os males do espírito; para ele afastar-se dessa natureza humana e espiritual principalmente na meia idade seria a origem das inúmeras neuroses. Contudo sua visão sobre religião difere do Cristianismo tradicional, sobretudo a questão do Mal e concepção de Deus, que não considera só 20 bom e protetor mas também tentador e destruidor. Não sendo compreendido apesar de considerar-se cristão, foi acusado pelo Cristianismo dogmático de ser um outsider, sofrendo inúmeras perseguições. Em alguns desabafos ele dizia que na Idade Média ele teria sido queimado; sua necessidade de compreender Deus em experiências imediatas era vital, embora não tenha conceituado Deus. Como estudante de medicina leu tudo de significativo sobre espiritismo, da mesma maneira como estudou os primeiros trabalhos de Freud (pai da psicanálise). Depois desenvolveu as primeiras teorias psicológicas fundamentadas no inconsciente. Quando terminou medicina escolheu a psiquiatria e então começa sua busca incessante pelo entendimento dos enigmas misteriosos da loucura; sua atração especial no início era o tratamento de psicóticos. Inicialmente tomou partido de Freud, mais tarde por discordância de idéias sobre a espiritualidade e a parapsicologia afasta-se por não querer desligar-se de seus verdadeiros objetivos. Sofre imensamente com os afastamentos de amigos e conhecidos e passa-se por místico, experimentando uma dolorosa humilhação. Se Jung tivesse se reprimido com as discordâncias encontradas, seria fatalmente vítima de um desequilíbrio mental, porém, utilizou-se desta crise confrontando-se com seu inconsciente e obtendo uma experiência científica efetuada sobre o si mesmo, esforçando-se por mostrar que os conteúdos psíquicos são reais e de experiências coletivas, não apenas pessoais. Foram diversos anos elaborando e inscrevendo-se no quadro de sua obra científica, interessando-se por conteúdos marginalizados e desprezados pelo meio científico e recusando-se a concordar com a ideologia de massas e do progresso mecanicista, desconfiando de todas as teorias grandiosas e de toda busca filosófica por fundamentos em certezas universais. 2.2– A obra do pai da psicologia analítica e as suas conceituações mais importantes Podemos encontrar diversos assuntos estudados e conceituados por Jung; pai da psicologia analítica suas contribuições não teve como finalidade a “cura” em si, mas o resgate das possibilidades criativas do indivíduo, levando a prática da 21 psicoterapia para fora da psicopatologia, conferindo sentido e propósito aos sintomas psíquicos. Entre as inúmeras contribuições quatro teorias são consideradas as mais importantes: 1. Estrutura e dinâmica da psique consciente e inconsciente, bem como, o inconsciente se manifesta. Com o conceito básico de complexos; 2. Tipos Psicológicos (introvertido/extrovertido); 3. Estudo sobre a psicologia do desenvolvimento da personalidade, articulado no conceito de individuação; 4. Descrição aprofundada dos conceitos de Arquétipos, derivados da psique do inconsciente coletivo, entre eles: Self, a Anima, o Animus, o Ego etc. Concebeu o aparelho psíquico como um sistema energético dinâmico e em constante movimento, esta energia geral designou de libido que flui em 2 opostos. A resultante dialética entre o consciente e o inconsciente denominou de processo de individuação, juntamente com o processo do Self que constitui seu ponto de apoio teórico. Ao contrário das críticas acirradas que recebeu, Jung colocou a psicologia no campo da ciência, sua obra é a expressão de uma abordagem empírica e experimental, no final de sua vida deixa uma das maiores contribuições ao pensamento moderno através do estudo da física nuclear que é o reconhecimento da realidade da mente e a redescoberta da idéia da psique como um cosmo. Dentro do exposto considero que sua teoria é muito importante para o entendimento e leitura dos pressupostos da psicossomática que também é uma ciência contemporânea, separei alguns conceitos para que possamos realizar a leitura através da psicologia analítica: 22 Inconsciente: na psique designa uma parte dos conteúdos reprimidos e esquecidos que já foram conscientes. Constitui-se de conteúdos sem energia psíquica suficiente para atingir a consciência. Inconsciente coletivo: uma camada do inconsciente pessoal mais profunda que já não tem origem em experiências ou aquisições pessoais e nunca foram conscientes, são inatos e hereditários. Amplificação: técnica para aprofundar e aumentar as imagens do inconsciente do paciente, por meios de associações dirigidas e sobretudo partindo da história de sua concepção de vida individual e coletiva. Arquétipo: São representações de imagens e temas ou padrões universais que estiveram presentes em todo tempo e lugar comum a toda a humanidade, existem na psique como energia potencial na vida psicológica inconsciente de todos. Ex: Nascimento, Morte, Maternidade, Paternidade, etc... (experiências arquetípicas), outros já são ativados com base em experiências pessoais como os complexos. Complexos: conjunto de idéias, imagens, temas, capazes de nos afetar. São conteúdos psíquicos carregados de afetividade, agrupados pelo tom emocional comum, muitas vezes reprimido e capaz de provocar distúrbios psicológicos. Anima e Animus: Personificação arquetípica da natureza feminina no inconsciente do homem e da natureza masculina no inconsciente da mulher. Coniunctio: Conjunção, casamento sagrado; integração com a ajuda da consciência de aspectos insconscientes da personalidade. Esta união leva à transformação de atitude do próprio Ego e da consciência. Ego: é o sujeito da ação consciente, sendo o primeiro complexo a se formar, centro da consciência, estrutura-se com base no inconsciente. 23 Self: centro organizador do aparelho psíquico, abrangendo o consciente e o inconsciente como se fosse uma imagem de Deus em nós. Seria o arquétipo da totalidade impossível de ser alcançada. Individuação: é o processo de realização do self; seria a realização progressiva da unidade da vida em cada ser humano e tomando a forma de um confronto entre o consciente e o inconsciente na busca de um ser individual em ação unidade singular). Nunca haverá uma realização total da unidade, apenas a melhor possível. É importante nas situações da vida a submissão consciente ao poder do consciente; e reconhecer o direcionamento sugerido pelo Self, havendo colaboração paciente do Ego para o atingir dos objetivos que é a integração da consciência com o inconsciente, neste caminho o indivíduo se desenvolve ao reconhecer e integrar os significados de suas perdas e limitações. O objetivo da individuação é tornar o indivíduo mais diferenciado da coletividade ampliando suas relações com o mesmo, para individuar-se é preciso evitar tendências coletivas alienantes e evitar o egocentrismo individual (inflação do Ego), pois a individuação inclui o universo. Função transcendente: é um aspecto da auto-regulação da Psique que se manifesta de um modo simbólico e é experimentada como uma nova atitude em face do si mesmo e da vida. Mantém a união entre o consciente e o inconsciente tendo um papel fundamental no processo de individuação, ela é resultante da relação entre os conteúdos do Ego/Self. Numinoso: o inexprimível, experiência imediata do divino que inspira temor reverencial fora do alcance racional. Sombra: são sentimentos e comportamentos proibidos que surge na parte mais escura e negada de nós mesmos, e não são conscientes; reconhecê-la é um passo inicial para o processo de individuação. 24 Símbolo: é uma imagem simbólica, uma expressão da situação psíquica, que inclui elementos tanto da consciência como do inconsciente, viabiliza e pode canalizar a energia psíquica inconsciente para a consciência se reconhecida e apreendida pelo Ego. Sincronicidade: Coincidência entre um evento do mundo interior (imagem, sonhos, idéias ou premonições) com uma situação objetiva do exterior, ou seja, conexão acausal entre a psique pessoal e o mundo. Mito: configura representações da consciência coletiva, ditas e reditas em cada geração. Expressa valores de grande irradiação que podem ser adequadamente expressos por conceitos ou de forma racional, Ramalho (2002). 25 CAPÍTULO 3 – AS INFLUÊNCIAS DOS ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA MULHER NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DA DOENÇA E SEU ENFRENTAMENTO 3.1 – Psicossomática e o Câncer O processo de aquisição e enfrentamento da doença é entendido como a capacidade de lidar com a relação do stress; um processo psicofisiológico, que desencadeia respostas gerais e específicas, ou seja, para entendermos o processo de adoecimento, precisamos entender a psique (mente) e a soma (corpo); e a capacidade de adaptação do organismo aos agentes nocivos a saúde. Em sua pesquisa Neme, (1999) salienta que o termo stress acarreta muitas confusões e controvérsias entre os cientistas e leigos, mas a melhor definição encontrada por ela foi: ”...marcada discrepância entre as demandas feitas sobre um organismo e a capacidade deste organismo responder...” ou ainda: um processo de inter-relações funcionais e atua no organismo por meio de estímulos originais no sistema límbicohipotalâmico, os quais incluem relações com a dinâmica psíquica, cognições e emoções. (Rossi, 1994;Vasconcelos, 1998) Já MELLO e Cols.(1992), concentraram-se sob a perspectiva psicofisiológicas, psicológicas e psicossociais, tendo assim uma visão mais holística do ser, envolvendo-se na análise das estruturas sociais, pensando-as como um dos fatores 26 de risco na cadeia etiológica da doença, ou seja, o organismo humano desenvolvese em interação como meio ambiente onde está inserido, sendo assim muitas das funções orgânicas são influenciadas e determinadas socialmente. As emoções são percebidas pela comunicação e o seu conteúdo ideológico, sendo assim, o indivíduo buscará através de sua percepção e expressão solucionar o estado que foi criado, se o processo for bloqueado a solução ficará prejudicada e a emoção ficará contida, então será manifestada indiretamente e de forma simbólica, ou seja, a doença é o sintoma de uma emoção contida que não teve solução. O estudo da psicossomática demonstra que a fragilidade das mulheres em adaptar-se as vicissitudes da vida, propicia uma maior chance de desenvolvimento de uma doença como o câncer, desencadeando desequilíbrios metabólicos que resultam em comprometimentos da concentração de substâncias orgânicas e deficiências da regulação homeostática (condição de equilíbrio do sistema psiconeuroendócrino necessários à sobrevivência), com diminuição das funções celulares que são responsáveis pelo sistema imune. Foi demonstrado que há aumento considerável da divisão celular, inclusive das células cancerosas, bem como, redução da capacidade reparatória do DNA e das Imunoglobulinas, resultando em falência do sistema imunológico e maior probabilidade de desenvolvimento de doenças. Neste processo precisamos considerar o indivíduo como um ser único, sendo a concordância entre os estímulos e as sensações suas respostas ao meio interno e externo de acordo com suas funções sensoperceptivas; ou seja, transformar uma situação stressante ao organismo depende exclusivamente do indivíduo, e na sua forma em lidar com o estímulo estressor (Ballone, e outros 2007). Alexander (1989), denominou a doença como um “sintoma conversivo” que seria a expressão simbólica de um conteúdo psicológico emocionalmente definido, neste sentido a mesma seria uma tentativa de descarregar a tensão emocional expressando-se no fisiológico. Como este estado stressante é desenvolvido no estado psicofisiológico denominou este de “neurose vegetativa” que funcionando constantemente ou voltando periodicamente tem a função primordial de expressar e aliviar tensões, porém, estas respostas fisiológicas dos órgãos a estados emocionais 27 se realizada, sem modificação em sua rotina, e sem a busca de uma nova adequação do organismo aos estímulos psíquicos internos e externos, pode ocasionar em determinado momento numa lesão ou a destruição celular. Sobre os enfrentamentos considera-se a “evitação e a negação” como defesas que tem funções adaptativas inerentes ao contexto stressor, dentro desta perspectiva entendo que o tempo interno de elaboração de cada pessoa em lidar com a situação de stress também tem interferência no processo de defesa do organismo ou na busca da estagnação e desenvolvimento da doença. No estadiamento da doença foi observado que os motivos da demora na busca do diagnóstico, refere-se a baixa escolaridade e ao baixo índice de realização de exame de rotina, estes que poderiam detectar o câncer no seu início. Esta realidade pode ser entendida pelas condições sociais menos favorecidas. Esta variável indica o tempo de duração desse evento de estresse (câncer), o que possibilita a compreensão de como o indivíduo lida com o contexto da doença;e muitas vezes sua realidade não viabiliza uma rápida elaboração, sendo melhor racionalizar ou negar os sintomas existentes. Foi observado que a maioria das pessoas que participaram das pesquisas em ambulatórios médicos possuíam menções de existência de conflitos e problemas familiares, visto pelas pessoas que participaram da pesquisa como significativos em sua história de vida. Os resultados apontam que 50% dos envolvidos relatavam dificuldades estressoras. Percebe-se na pesquisa que 67% referiu-se a problemas relevantes na vida adulta relacionado a conflitos familiares e perda de familiares por morte. Os pequenos acontecimentos repetidos por longos períodos de tempo e experimentados quase que imperceptivelmente pelos indivíduos, podem ser potencialmente mais patogênicos do que as ocorrências extraordinárias ocasionais, para os quais são facilmente encontrados recursos e estratégias para superá-los. 28 Na vida adulta percebeu-se que o stress antes da doença também era evidente; exemplos: “...Sinto-me bem, para 76 anos... Sempre tive problemas de relacionamentos com a família. Meu marido era muito distante, frio...brigava muito. Minha família (de origem) também é cheia de problemas e eu me afastei deles. Os momentos bons do meu casamento foram poucos; os ruins, foram muitos...” (mulher, 76 anos, categoria: câncer de mama/útero/ovários) “... Sempre fui cheia de problemas de saúde. Foi uma luta para engravidar. Conseguia e perdia. Aí consegui segurar a gravidez, mas perdi dois filhos recémnascidos...” (mulher, entre 19-33 anos, categoria de câncer: colo de útero/ovário/Mama) Neme (1999) As situações de enfrentamento são configuradas pelos fatores intra-individuais e situacionais com características específicas, fatores estes interdependentes e que devem ser considerados na realidade de cada indivíduo, o que realmente ele faz, (pensa e faz), não pode ser confundido com seus resultados, visto que não existem formas melhores ou piores, os tipos e a natureza do evento estressor tem características específicas vividas e percebidas no âmbito individual, sendo complexas de ser avaliadas. 3.2- Características de personalidade das mulheres que desenvolveram o Câncer de Colo Uterino Explorando a conceituação de stress pela visão psicossomática, podemos compreender o doente, como um organismo dinâmico que entrou em desequilíbrio e a doença seria a expressão de suas emoções. 29 Nos relatos das mulheres portadoras de câncer de colo do útero foi confirmado personalidades: depreciativas, com pouca espontaneidade, no que refere as suas necessidades e vontades; e que se submetem aos sistemas relacionais ou familiares e não reclamam por mudanças; quer e não consegue receber, dificuldade de expressar (comunicação) agressividade (passiva). Podemos entender estas mulheres com pouca ação ou respostas adequadas para as situações velhas ou novas a enfrentar em suas vidas, cabe aqui uma citação: “... O que temos em comum são as idéias criadoras, a motivação, a inteligência, as aptidões e a educação. O que os separa é a espontaneidade que, nos casos bem sucedidos, habilita o seu portador a dominar completamente esses recursos, enquanto que os que fracassam ignoram o que fazer com todos os seus recursos; eles sofrem de deficiências em seus processos de aquecimento preparatório. Neste sentido a espontaneidade tem três reações possíveis que o indivíduo pode manifestar: 1. Nenhuma resposta numa dada situação, ou seja, quanto mais profundamente é o desejo de produzir uma resposta e esta estiver ligada à incapacidade de produzi-la, maior será a calamidade. 2. Uma velha resposta a uma nova situação e 3. Nova resposta a uma nova situação...Criatividade: É o ato espontâneo... ” MORENO, J.L. (1993) Existe pouca persistência na busca de seus sonhos e seus propósitos de vida, Ballone et al. (2007), conceitua esta personalidade como do tipo C, onde há um maior risco para a aquisição do câncer, mencionando algumas características como: - personalidade que sobressai a negação das experiências mais traumáticas; - não demonstra suas emoções e tendências a raiva; - possuem um excesso de cortesia às vezes contrariada; - não reconhecem seus conflitos mais profundos da alma e/ou coração; - desejam exageradamente ser reconhecida socialmente; - obrigam-se forçadamente a ter um comportamento harmonioso; 30 - tem excesso de paciência (e às vezes dissimulada); - usa a razão de forma decisiva e muito agressiva; - tem um rígido controle sobre a expressão emocional. Mais uma vez percebe-se que são mulheres que se utilizam excessivamente de um mecanismo de defesa, ou seja, fazem uso excessivo da negação e repressão de suas experiências e sentimentos; citam como exemplo os casos de infidelidade conjugal, onde um dos cônjuges em processo terapêutico nega de forma dissimulada a traição existente. 3.3 - A simbologia da doença: Câncer O corpo é o palco onde as doenças expressam sua linguagem; o organismo de cada indivíduo possui um órgão de choque, determinando uma fragilidade genética; frente a constantes tensões emocionais podendo ou não desencadear alterações celulares com posterior destruição do órgão. Segundo Jung os símbolos nos dão sentido à vida, podemos constantemente transformar um símbolo vivo, como se fosse uma bandeira que nos faz ter a experiência da emoção. Para Dahlke (1996), existe uma importância no significado da doença, pois a mesma pode nos levar ao caminho do desenvolvimento, do re-significar a doença e buscar a cura, no entanto é importante buscar o significado do local afetado para aquele indivíduo e correlacionar com suas emoções reprimidas. Simbolicamente e socialmente podemos entender a pessoa que adquiriu um câncer, como uma pessoa com perfeita adaptação social (normopatia) e com uma convivência boa à subordinação, não sabendo impor os seus próprios interesses e desejos da alma. É como se a busca da imortalidade e onipotência da alma em vez de estarem na consciência do indivíduo para sair do sistema da normopatia e da aceitação submissa e desenvolver-se, fossem canalizadas do inconsciente para 31 células cancerígenas, por isso se tornam tão poderosas, pois a energia reprimida no inconsciente alimenta a reprodução destas células destruidoras. Podemos correlacionar o corpo como o espelho da destruição da terra, e podemos ainda fazer uma analogia com o próprio contexto social capitalista selvagem que invade e aniquila o poder das mulheres de classes inferiores nas suas necessidades mais intimas de resolução de saúde no seu significado mais amplo e complexo, invadindo o sistema imunológico sem consideração e pensando apenas na realização de seus próprios interesses, tornado a pessoa com câncer o espelho da terra pelas pessoas que pensam de maneira individual e com falta de uma consciência mais coletiva. Neste palco resta a mulher que adquiriu a doença resgatar as forças, criar coragem e não deixar-se submeter as regras e ordenações, encontrar para sua vida um lugar nesta grande “ordem”, ou seja, deixar crescer os seus próprios objetivos e sonhos descobrindo o amor, abdicar do corpo e colocar a alma em primeiro lugar; “...não regredir e não se afastar da linha de desenvolvimento rever e resgatar o conceito de realização e de liberdade...“(Dahlke,1996). 3.4 – A simbologia do Câncer no Colo do Útero Por que será que o templo que acolhe a vida criando o homem com um significado tão pleno pode ser destruído? Por que o órgão que dá vida, também pode tirá-la e ser eliminado de uma forma tão perversa? Vários foram os significados encontrados sobre o órgão em questão, entre eles: a entrega, a maternagem, fecundidade,a acolhida, produtividade, fertilidade de mundo, sexualidade, poder, agressividade, força de domínio. Verifica-se no plano sintomático que muito antes do câncer do colo do útero instalar-se, há recidivas de inflamações vaginais; no plano simbólico este sintoma pode indicar conflitos crônicos de altas frustrações não resolvidas; tendo em vista que as inflamações ocorrem pelo ato sexual, podemos associar a insatisfação da mulher com o seu relacionamento sexual. 32 Mediante as características das mulheres no relacionar-se com o outro e consigo, o processo simbólico indica um comportamento submisso frente a sua sexualidade, sendo que a manutenção de seu relacionamento deve acontecer de forma subserviente à ataques e abusos ofensivos de seus parceiros. Em outro contexto pode haver o afastamento da via do desenvolvimento do exercício da maternidade, como se esta não fosse vivenciada por diversos motivos. É válido salientar que no contexto biopsicossocial, são mulheres que não vivem uma vida por si, mas pelo outro, ficando em segundo plano, ou ainda encontram-se com uma diversidade de complexos maternos Jung (1980), que inviabiliza uma abertura para o ver e viver a sua realidade. Desta maneira, a energia reprimida no inconsciente atuará novamente no plano corporal desenvolvendo o que conscientemente não foi possível desenvolver; infelizmente nem sempre há consciência para buscar a espontaneidade e resolver antes, e às vezes a doença foi à alternativa encontrada. 3.5 - Porque as mulheres precisaram desta doença No processo de somatização, devemos considerar os tipos de respostas emocionais resultantes da avaliação que a pessoa faz da realidade e seus mecanismos pessoais e particulares de enfrentamento das diversas situações em sua própria vida. Porém, tendo o útero o símbolo da fertilidade, criatividade e proteção; talvez a mulher precisou adquirir a doença para re-significar seu desenvolvimento no caminho anímico-espiritual. Dahlke (1996), sugere que estas mulheres possam não ter vivido sua maternagem e acredita que o caminho a se descobrir está no campo da criatividade e da identidade, ou seja, vivenciar e desfrutar conscientemente a maternidade; e abrir os horizontes para as próprias idéias; ceder aos impulsos (mesmos que selvagens) de crescimento e relembrar e tornar a vivenciar os sonhos de uma vida relacionados aos temas, deixar que o hormônio do amor instale-se na alma e direcione seus desejos. 33 Ocorre que muitas vezes, a mulher precisou chegar ao extremo de desenvolver o câncer para adquirir consciência de algo que está lhe incomodando e infelizmente às vezes pode ser tarde para tomar as rédias e re-direcionamentos de sua vida. 34 CAPÍTULO 4 – A IMPORTÂNCIA DA PSICOSSOMÁTCIA NO RESGATE DA ESPONTANEIDADE E NO ATINGIR OS OBJETIVOS: VIDA OU MORTE 4.1 – A Importância da atuação da psicologia no âmbito hospitalar Quanto ao tratamento psíquico no âmbito desta pesquisas, ficou nítida a quase inexistência da atuação do profissional de psicologia e, a pesquisa evidenciou o quanto à preocupação ainda é medicamentosa e de especialidade da medicina. Cabe aqui ressaltar a importância de inserção da psiconcologia/psicossomática no contexto hospitalar, utilizando como recurso a ser agregado aos tratamentos do câncer em geral. Segundo Neme (1999), não há nos hospitais uma área de atuação e pesquisa, a maioria das intervenções baseiam-se na psicologia clínica e na prática da psicoterapia de forma individualizada; temos poucos profissionais preparados para este tipo de atuação, sendo um campo potencial para o desenvolvimento de trabalhos específicos que possam ser eficazes para o alívio da dor psíquica, minimizando estados de pânico e temor, ou preparando-as para: - exames invasivos; - cirurgias; - aceitação do tratamento indicado e seus efeitos colaterais; - redução de seus conflitos; - diminuição do estresse, entre outras necessidades emocionais. 35 Enquanto psicoterapeutas e especialista em psicossomática é preciso entender o doente com câncer além da visão simplista , pois não é possível ajudá-lo mediante a concepção de que a doença é algo anormal, ou seja, a normalidade é aquilo que o deixou doente, e neste sentido o câncer apresenta um conjunto de elementos psicossomáticos a ser entendido na complexidade do doente. Voltar a “normalidade” é permanecer na doença; sendo assim no caso de uma psicoterapia resgatar os propósitos amortecidos mais íntimos de sua vida, mediando previamente qualquer intenção de trazê-lo para a nossa realidade. Porém é importante alterar o significado atribuído à situação, dando mais esperança e mais tranqüilidade para com outros aspectos também importantes na vida neste momento, resgatando os recursos intrapessoais necessários para que a pessoa possa manejar as múltiplas demandas da situação. É importante re-valorizar o tempo, pois para o doente este é diferente e indeterminado; cada encontro pode ser o último e é preciso ponderar a regressão. O trabalho deve ser desenvolvido no aceitar sua nova condição de realidade, e na vivência de possíveis perdas que são constantes no desenvolvimento da doença, afetando diretamente não só o estado fisiológico como o psicológico, exemplos: perda do útero, do cabelo, da rotina antiga, entre outros. Sem o conhecimento destes elementos envolvidos, fica difícil para o psicoterapeuta obter algum resultado de valor; sem contar que o convívio com a realidade o coloca frente à possibilidade de uma recidiva ou metástase. É importante enquanto psicoterapeuta trabalhar com a questão do quanto tudo se modifica com o diagnóstico da doença, pois muitas vezes o paciente tem em sua estrutura psíquica o conceito de voltar à vida “normal” e isso não é uma verdade tendo em vista a lesão obtida com a doença. O psicoterapeuta só poderá intervir de forma adequada com o doente se entender que sua vida a partir do diagnóstico é diferente, através desta perspectiva poderá buscar readequar a sua vida no convívio social e familiar. O trabalho de Neme,1999 mostra através dos relatos de pacientes os ganhos do ponto de vista das mulheres em tratamento com o processo de terapia breve colaborando com o ampliar da consciência, embora relatassem que o tempo era 36 curto, salientando a importância de continuar a trabalhar os diversos aspectos de suas vidas, algumas mulheres recebem alta mais saudáveis no enfrentamento de suas realidades. A seguir alguns relatos coletados: “ Está sendo importante...contei toda minha vida... Resolvi falar com a minha filha... acho que preciso falar com ela... Também quero que ela não avise (de sua morte) os parentes de .... (cidade): eles me abandonaram há seis anos, e não é agora que vão precisar vir... “ (mulher, entre 66-82 anos; câncer avançado: útero/ovários. Foi acompanhada até o óbito). “Acredito que a doença veio..., também para me mostrar alguma coisa... Sou muito sensível aos problemas dos outros, e me incomodava muito isso. Mas depois de estar passando por isto, de ter ficado “arrasada”, vi algumas coisas (também com a terapia) e mudei. Até o meu relacionamento com a família, mudou com esta doença”. (mulher, entre 50-65 anos; categoria câncer: útero/ovário) “ Quando o médico falou para eu vim, eu estava muito desanimada, me sentindo muito mal com o tratamento (quimioterapia). Não queria mais fazer. Com as conversas, consegui me reeguer, fiquei mais alegre e tive forças para fazer o tratamento. Acho que fui socorrida na hora certa. Boa parte desta recuperação que eu tive, tenho certeza que foi deste tratamento (psicoterapia)” (mulher, entre 44-47 anos, categoria: mama/útero/ovário) 37 “Consegui realizar com a terapia, uma coisa que sempre quis fazer, mas achava que não ia conseguir (escrever). Agora, aqui no hospital, estou escrevendo (um tipo de diário, com pensamento e poesias). Isto está me ajudando muito. Não me sinto mais sozinha e tenho mais confiança em mim e no tratamento”. (mulher, 50-57 anos; categoria câncer: mama/útero/ovários) “ É um trabalho muito bom este que vocês estão fazendo.... Para mim, eu sei que não vou ter cura. Não tenho medo de morrer. Estou na paz de Deus, e recebi o seu chamado para ir embora... tive uma vida formidável, um grande amor (marido falecido há 6 anos). Com a minha idade, já vivi o que devia...” As vezes parece que estou fora do corpo... não queria voltar”. (mulher, entre 66-82 anos; categoria: útero, ovário, mama) Neme (1999) 4.2 – A etiologia da doença, seu desenvolvimento e a oportunidade de desenvolvimento pessoal no re-significar a doença A conceituação de Mello, Filho e cols (1992), é bem propícia para entendermos este processo, ele define Ego como o conjunto de elementos orgânicos e psicológicos que uma pessoa entende como integrantes de sua estrutura. Sendo assim, no processo da mitose as células em constante mutação em alguns momentos são células cancerígenas que podem ser reconhecidas pelo organismo como parte integrante do Ego e permanecer em crescimento ao invés de serem espelidas normalmente, neste sentido entender o câncer como doença externa e evasiva pode ser considerado um mito, pois seu desenvolvimento tem origem e faz parte do Ego, que em seu desequilíbrio ocorrido pelo estressor emocional não permitiu que o organismo se adequasse as vicissitudes de sua realidade e não reconheceu a célula cancerígena como tal e as integrou como parte do sistema biológico. 38 Apenas para entender o desenvolvimento da doença e salientar o mito do invasor, é importante saber que o câncer se instala no organismo no período de 2 a 15 anos, infelizmente ele só pode ser diagnosticado quando possui 1cm3, sendo que neste início a possibilidade de cura é maior; segundo pesquisas sobre a sua etiologia, o câncer não é incontrolável e anárquico como sugere o senso comum, pois como semelhante pode ser tratado como seus tumores observados anteriormente. Porém, não é concebível ainda dizer que a cura é obtida em todos os casos, pois por mais precoce que seja o diagnóstico em alguns casos não modifica o prognóstico. Mediante tal evidência podemos acreditar que o organismo se estimulado (mente/corpo) pode controlar este crescimento, desde de que haja consciência do indivíduo sobre o seu poder de reconhecer a vulnerabilidade e de eliminar a doença já que viabilizou mesmo que inconscientemente sua instalação e permitiu que houvesse a integração como estrutura psicorgânica. Não podemos pretender entender o porque do câncer apenas no plano orgânico, precisamos entender na perspectiva do individuo como ser integral, pois no plano orgânico geral pensando o ser humano numa visão sistêmica, não há conhecimento geral. Frente a estes dados, começa a correlação entre o sintoma da doença física com a psicológica em seu aspecto simbólico, ou seja, as causas externas relacionam-se ao meio ambiente e aos hábitos e costumes próprios de um ambiente social e cultural. Já as internas podem ser geneticamente pré-determinada através da hereditariedade; na maioria das vezes ter ou não a doença pode ter ligação com a capacidade do organismo de se defender das agressões físicas ou psicológicas internas. Pensando na defesa das questões externas, o próprio homem através de seus hábitos e o estilo de vida que adotam, podem ou não determinar tipos de câncer. A psicoterapia pode colaborar ou facilitar no desenvolvimento de formas mais adaptativas de lidar com a doença (o que é facilmente realizado se não for preciso mudar de estilo de personalidade). 39 O descobrimento da doença em seu início pode sinalizar o nível de consciência de um indivíduo. Neste contexto, a espontaneidade pode colaborar imensamente no processo de ampliação da consciência e na estagnação da doença. Através da consciência da situação vivida, o individuo pode promover o restabelecimento da defesa do organismo, as células que estão em crescimento deixariam de crescer, e neste movimento pode resgatar o sentido da existência pessoal, fazendo com que o indivíduo sobreviva a doença e não o inverso. Em nossa cultura é muito valorizada a vida e, o viver com saúde, como se fossemos imortais, tornando a vida o único objetivo. Desta maneira estamos pouco preparados para as doenças e para a morte que também é um objetivo que pode ser conseguido pelo doente neste momento. Através da psicologia analítica entendemos como fatores internos o inconsciente e o consciente, que pode ou não determinar a ação sobre o livre arbítrio do doente em querer viver ou morrer ou ainda transcender através da morte física, como salienta Jung em seus estudos sobre a morte, onde ele acredita no processo de mutação para o desenvolvimento de um novo ser, e afirma: “...nosso nascimento é uma morte e a nossa morte é um nascimento...” . Neste sentido a morte pode ser entendida como um processo de cura. A proposta é olhar o doente e não a doença, os sintomas são expressões das emoções e podem ser utilizados para interferir na ampliação do olhar do doente de maneira que este busque o desbloqueio de suas emoções e conseqüentemente a estagnação da doença. A vivência do doente com os arquétipos coletivos sobre a morte, possibilita o desenvolvimento do processo alquímico (transformação das células); e conseqüentemente pode restabelecê-lo, o irromper com o material coletivo possui um significado extraordinário para o processo de cura. Só consegue curar-se quando identifica-se um propósito, uma intenção de vida, vontade e coragem para evoluir e manter-se vivo. Muito embora manter-se vivo, está muito além de ir contra o próprio destino e as expectativas; é estar consciente e preparado para a morte, é alcançar o maior nível de desenvolvimento espiritual e de conscientização. 40 Para Jung (1980), a vida é um intervalo entre o antes e o depois, e neste processo aceitar a morte é entender a volta para o UNO (cosmos) e ir de encontro ao sagrado. A existência psíquica nesta travessia continua sendo um mistério; aceitar a morte é tomar consciência do fim da corporalidade neste intervalo Exemplo: “... Agora faço direitinho o meu tratamento médico. Me viro sozinha, mesmo com tanta dificuldade, vou levar a sério...” Minha filha precisa de mim (mulher, entre 34-49 anos; categoria de câncer: mama/útero e ovários) Neme (1999) Cada ser humano é único e reage diferentemente frente ao stress, inclusive no que se refere à doença psicossomática, ao pesquisar sobre o afeto podemos entender que os fatos e eventos da vida são percebidos de forma exclusiva e com valor específico por cada pessoa e o evento é enfrentado de maneira particular dependendo muito da própria personalidade. Evidentemente a pessoa avalia o significado e a importância das situações que vive mediante seu conhecimento e sua emoção, comportando-se ou reagindo conforme o significado ou interpretação subjetiva realizada sobre seus pensamentos, crenças, valores e vivências; estas que fornecem a dimensão dos significados pessoais de cada situação a ser enfrentada. A doença na visão de Jung é uma simbologia que quando o protagonista entende seu símbolo/significado e o torna consciente, consegue re-significar a doença e buscar o desenvolvimento da cura. Para Jung o sentido da vida é a ampliação da consciência, o que ele chamava da busca da individuação pessoal. Acreditava que o Self precisa de uma consciência para entender o Ego, alma e o espírito e é nela que se tem toda a possibilidade de cura e a possibilidade de atrair outras coisas e a agir no mundo provocando mudanças em si mesmo e isto é resultante de forças da própria consciência, se está 41 fragilizada, possibilita a abertura para entrar em um padrão simplificado. Sendo assim, não basta só desejar as coisas que elas acontecem, temos que desejar na sua totalidade. É preciso estar conectado com o todo, e este todo é intra e extra psíquico, onde é preciso começar com o micro e aí, você avança para o macro. Podemos completar que a psicoterapia pode nos ajudar a começar com o micro, ou seja, nós enquanto parte do todo (universo) e neste sentido, entender a nossa missão, dando um sentido maior para a vida física. 42 IV - Conclusão A pesquisa aqui dissertada nos remete a reflexão dos enfrentamentos que temos ao longo de nossa história; através da visão psicossomática é possível entender que a doença pode ser um sintoma que favorece no desenvolvimento do processo de individuação. Foi possível concluir que uma pessoa portadora de câncer de colo no útero, passa por diversas situações de stress em uma dimensão muito individual de lidar, criando estratégias de respostas que pode ser de distanciamento ou de evitação sobre o que circunda a sua realidade ou de reavaliação de valores e objetivos. Percebe-se um valor agregado quando há em paralelo ao tratamento medicamentoso o acompanhamento psicológico do doente, que pode ajudar de forma individual na ampliação de sua consciência, melhorando: a sua percepção, facilitando no manejo das situações de stress, viabilizando os recursos internos e externos, na diminuição da ansiedade, e ainda tornando o processo de adoecimento e o seu re-estabelecimento (vida ou morte) com uma maior sensação de bem estar. Sendo a percepção e o entendimento muito individual, o que determinará a forma de lidar com a sua realidade para alguns pode ser o auto-engano e para outras um alívio entendendo que a morte pode ser o melhor objetivo neste momento e de forma consciente preparar-se para ela, pois apesar das variações interpessoais quanto à avaliação da situação stressante, existem aspectos de diagnósticos concretos que pode determinar o prognóstico. 43 A doença remete a pessoa refletir sobre a vida, seus paradigmas, sua rotina comum entre outras variáveis; quando o processo de transformação ocorre, ou seja, quando o self consegue atuar de maneira que o ego recue para dar espaço para o melhor caminho como objetivo, o aspecto sombrio da doença desaparece, parte da sombra se faz luz, ampliando a consciência, fortalecendo e possibilitando sua relação com o self. Se aceitarmos que cada um de nós é potencialmente um transformador de experiência, pode haver uma maneira mais saudável de se ter uma doença ou encontrar uma maneira mais espontânea de enfrentar uma crise como a aquisição de câncer. As transformações positivas provocadas no processo do adoecimento, talvez seja uma possibilidade das mais singulares e concretas que temos para refletir e entrar em contato com o nosso inconsciente e pode sugerir mesmo que tardio uma conceituação do que venha ser a saúde humana. Acredito que as mulheres que perderam sua espontaneidade para vida, deixaram de acreditar na capacidade feminina de lidar com as vicissitudes da própria vida e responder às adversidades com a força da coragem e da emoção que possuem. Embora numa situação de aquisição de câncer o stress é incomensurável, acredito que o trabalho revelou a minha hipótese do resgate da espontaneidade através do ampliar a consciência, porque toda mulher possui em si o dom mais poderoso da vida que é o de gerar e manter a própria vida; se houver tempo e a realidade não estiver tão comprometedora, esta pode conseguir romper com os arquétipos coletivos sobre a questão da morte resignificando de maneira extraordinária o sintoma e estagnar a doença, arrumando forças para enfrentar o fantasma de ter tido uma doença incurável, para isto, além de resgatar o sentido para a vida é preciso integrar-se com o todo e requer a colaboração da personalidade no âmbito da consciência e do inconsciente. 44 BIBLIOGRAFIAS ABRÃO, Fauzer Simão. Tratado de oncologia genital e mamária. São Paulo: Roca, 1.995 ALEXANDER, Franz– Medicina psicossomática: seus princípios e aplicações. Trad. Fischmann Célia Beatriz. 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