A BIBLIOTECA INFINITA A Biblioteca de Babel, conhecido conto de Borges, é um espaço arquitectónico constituído por um número infinito de galerias hexagonais, onde se encontram estantes repletas com todos os livros possíveis, cada um deles contendo a solução de um problema, ou o esclarecimento dos mistérios da humanidade. Talvez este belo e estranho conto de Borges seja uma metáfora elaborada sobre a história humana, uma história de Babel, marcada por desavenças que nascem de um saber espartilhado, de que a Biblioteca seria a totalidade. Talvez, as intenções de Borges sejam mais prosaicas: reflectir sobre a impossibilidade de reconstituir o saber humano, a partir dos múltiplos e, por vezes, contraditórios saberes que cada livro contém... Ou então, a Biblioteca é a metáfora que ilustra a ausência de uma ordem de sentido, a impossibilidade de um ‘ordenador’, capaz de estabelecer uma relação inteligível entre todas as coisas. Se esta interpretação for correcta, então o conto de Borges talvez seja uma reflexão sobre a ausência de Deus, sobre a perda de um sentido universal, de uma verdade, ou de uma metafísica, capazes de unificar a natureza ‘babilónica’ do mundo … Seja qual for a interpretação que se queira dar a este conto, a Biblioteca de Borges corresponde a um antigo desejo da humanidade, tão antigo como a biblioteca de Alexandria, construída no século III a.C, de conter, num único lugar, todo o saber produzido pelo homem, toda a humana sabedoria... Num certo sentido, o conto de Borges é a constatação da impossibilidade, tal como fôra, a seu tempo, a biblioteca de Alexandria, de reconstituir um saber humano universal. O que Borges parece querer dizer, é que não basta ao homem reunir a totalidade do saber, numa única Biblioteca, para estabelecer uma verdade definitiva sobre o mundo. É preciso também compreender o sentido último que une os ‘livros inacessíveis’, na expressão de Borges, aqueles que contêm as verdades sobre os mistérios humanos, ou então possuir um improvável ‘livro total’, que seja a cifra, ou o compendio perfeito de todos os outros… O problema que a Biblioteca de Borges coloca, a sua impossibilidade por assim dizer, não é o do acesso ao saber, na medida em que a biblioteca contém todos os livros possíveis, mas a impossibilidade de estabelecer ‘uma ordem’ de sentido subjacente ao saber que os livros expressam. É claro que a Biblioteca de Borges, tem os seus alicerces assentes numa suposição metafísica. Nasce da crença de uma verdade universal, de que cada livro seria a expressão parcial e fragmentada, para acabar na impossibilidade de compreender o sentido último dessa verdade que os livros contêm. A metafísica, a crença numa verdade universal, torna possível a existência da Biblioteca e impossível o seu usufruto. Este paradoxo nasce do facto da Biblioteca representar, ao mesmo tempo, a totalidade do saber e a impossibilidade de saber, que resulta da ausência de um sentido, (de uma ‘chave’ de leitura) que permita compreender o saber que ela encerra. Neste ponto, o drama do Biblioteca de Borges é análogo ao drama bíblico da torre de Babel. Ambos nascem da impossibilidade de recuperar um sentido único e universal, o sentido de Deus, por assim dizer, a partir da unidade perdida, ou do saber espartilhado… Mas, o que torna a releitura do conto de Borges interessante, é que ela hoje pode ser feita à luz das possibilidades abertas pela era digital. O projecto Gutenberg e outros análogos, de criar uma biblioteca digital contendo livros de todo o mundo e de todas as épocas, coloca ao dispor do antigo sonho de uma biblioteca universal, as infinitas potencialidades da era tecnológica. Podemos imaginar, num futuro talvez não muito distante, um super –computador capaz, não só de armazenar todos os livros possíveis, (como na Biblioteca de Borges), como também de os ordenar de modo a estabelecer uma ‘ordem de sentido’, entre eles – aquilo que faltava à Biblioteca de Borges. O super-computador, infinitamente mais potente do que qualquer computador actual, poderá realizar o sonho borgeano de uma Biblioteca inteligente, capaz de conter em si todas as possíveis combinações, em todos os idiomas, de toda a produção cultural humana… A futura Biblioteca inteligente, infinita nas suas possibilidades, não se limitará a disponibilizar para todos o saber humano, em suporte virtual. É possivel imaginar o progresso dos computadores, de modo que possam no futuro, não só armazenar uma cada vez maior quantidade de informação, como também processá-la de forma inteiramente nova. Comparando com as actuais possibilidades oferecidas pela internet, o futuro super-computador (e não me refiro à possibilidade, bem mais remota, de uma inteligência artificial), não se limitará a armazenar e organizar passivamente os dados. Os supercomputadores poderão estabelecer relações de sentido entre os dados armazenados, formar sequências significativas entre eles, comparar significados, segundo multiplos critérios que não apenas a aproximidade de significado,(critérios linguisticos, culturais, evolução histórica, de significado etc...), sugerir formas possíveis de os compreender, enfim, criar sentidos inesperados a partir da informação armazenada. Comparada com a Biblioteca do futuro, a internet, tal como a conhecemos hoje em dia, já é uma realidade obsoleta. Os actuais motores de busca, por exemplo, limitam-se a listar a informação disponível, a partir de uma palavra ou conceito chave, sem conseguir estabelecer ‘ligações inteligentes' entre eles. Neste aspecto, a imensa base de dados disponibilizada pela internet, e outras em suporte digital, parece-se com a biblioteca de Babel, um repositório ilimitado de informação, sem que se consiga uma relação ‘significativa’ entre essa informação. É certo que a internet consegue cumprir a promessa da Biblioteca da Babel (tal como foi imaginada por Borges) e da biblioteca de Alexandria, de tornar o conhecimento disponível a todos, mas tal como aquelas bibliotecas míticas, também a internet acaba por ser vitima da sua totalidade - do desejo de conter toda toda a informação e produção cultural humana… O hipertexto, que permite deambular quase ad aeternum entre ‘links’, transforma muitas vezes o internauta num espécie de caçador de tesouros à procura da informação relevante. Os dados fornecidos pelos motores de busca, não estabelecem relações significativas entre eles, para além do facto de responderem todos pelo mesmo termo ou palavra chave. A busca não diferencia, por exemplo, a informação primária, da informação secundária; não define critérios de qualidade, nem relações significativas entre eles… Tal como a biblioteca de Babel, também a internet parece quebrar perante a dificuldade de ‘ordenar’, de forma inteligente, um saber ilimitado… Para muitos especialistas, o desafio que se coloca hoje à internet é o de adquirir um ‘contexto real’, (a real time context), uma espessura significativa, que permita organizar a informação de uma forma mais próxima à nossa maneira de pensar, isto é, por associação, ao mesmo tempo que tem em conta o contexto real do utilizador, quem ele, os seus interesses é as suas reais necessidade de informação. O conceito para designar a nova fase de evolução da internet já tem um nome, chama-se ‘context engine’- uma 'máquina em contexto'... Talvez este seja um passo decisivo em direcção á maquina capaz de processar informação de uma forma inteligente, significativa… Fonte: <http://luis-tudoomais.blogspot.com/2009/02/bibliotecainfinita.html>