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Confessionalidade
Apontamentos sobre pastoral e
capelania em escolas metodistas
Notes on pastoral care and
chaplaincy in Methodist schools
Luis de Souza Cardoso
Mestre em Ciências da Religião
Coordenador da Pastoral Universitária da UNIMEP
R e s u m o
Os conceitos e as práticas envolvidos nas designações de “capelania escolar” e “pastoral escolar”, de acordo com a
reflexão teológica e a experiência acumulada no âmbito das Institutições Metodistas de Educação, no Brasil, guardam
algumas diferenças fundamentais entre si. Este texto apresentará a evolução histórica e as bases teológicas desses
conceitos e práticas.
Unitermos: missão; dimensão profética; dimensão sacerdotal; consciência crítica
Synopsis
The concepts and practices involved in the designation of “school chaplaincy” and “school pastoral care”, according to
the theological reflection and the accumulated experience in the scope of the Educational Methodist Institutions in
Brazil, have some basic differences between them. This text presents the historical evolution and the Theological bases
of these concepts and practices.
Terms: mission, prophetic dimension; priestly dimension, critical conscience
Resumen
Los conceptos y las prácticas involucrados en las designaciones de “capellanía escolar” y “pastoral escolar”, de acuerdo
con la reflexión teológica y la experiencia acumulada en el ámbito de las Instituciones Metodistas de Educación en
Brasil, guardan algunas diferencias fundamentales entre sí. Este texto presentará la evolución histórica y las bases
teológicas de estos conceptos y prácticas.
Términos: misión; dimensión profética; dimensión sacerdotal; conciencia crítica
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Introdução
E
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ste texto é fruto de apontamentos utilizados na apresentação do tema no Encontro de Educação Cristã, da ALAIME – Associação Latino Americana de Instituições Metodistas de Educação, em
Santiago do Chile, novembro de 2001.
Foi uma tentativa de aproximação
com os conceitos e as práticas, a partir das experiências educacionais no
metodismo brasileiro em abertura ao
diálogo com outras perspectivas Latino Americanas.
Em primeiro lugar, a metodologia
do espaço em que se inseria essa
apresentação era de oficina – taller;
por isso, embora essa apresentação
partisse da experiência brasileira de
pastoral escolar, procurou oportunizar um ambiente dialógico, de
intercâmbio com as outras experiências pastorais nas Escolas
Metodistas de outros países. Na
perspectiva das relações entre Igreja e Escola, onde nossa ação pastoral acontece, é necessária uma avaliação constantemente de nossas
práticas. Um espaço como o proporcionado pelo Encontro da Associação
Latino Americana de Instituições
Metodistas de Educação pode constituir-se em lócus privilegiado de intercâmbio e de confronto das experiências desenvolvidas nos diferentes
contextos do continente. Dessa forma marcamos bem o caráter de nossa apresentação, não se tratando de
uma “receita” do modo como fazemos pastoral em escolas, aplicável a
todas as realidades, mas da tentativa de expor a experiência brasileira
provocando o debate, buscando quiçá encontrar e estabelecer pontos de
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contatos com outras experiências
vividas em outros países.
Em segundo lugar, é preciso ressaltar que a partir de nossa experiência no Brasil, nos últimos vinte anos,
é possível abordar muito mais o tema
da “pastoral escolar” do que
“capelania escolar”. Isto pode ser
aparentemente insignificante, semântico; contudo, como procuraremos
demonstrar, compreende conceitos e
práticas distintas que tornam relevante esta observação. Por outro
lado, é possível que para além dos
conceitos, as práticas em nossos diferentes casos guardem mais semelhanças e pontos de contatos do que
diferenças em nossa ação ministerial
nas Escolas Metodistas.
Portanto, vamos inicialmente tratar do modo como entendemos, a
partir da reflexão construída no Brasil, os conceitos de “capelania escolar” e de “pastoral escolar”
escolar”;
posteriormente vamos expor alguns
elementos conceituais e práticos,
decorrentes da construção de nossa
experiência, para finalmente debater
com as demais experiências latinoamericanas.
A partir de nossa
experiência no Brasil,
nos últimos vinte
anos, é possível
abordar muito mais o
tema da “pastoral
escolar” do que
“capelania escolar”
A metodologia do
espaço em que
se inseria essa
apresentação era
de oficina
O sentido de capelania –
a capelania escolar
Esse termo, “capelania”, deriva de
cappella, que na língua latina surgiu
por volta do sétimo século d.C., para
designar um oratório onde era guardada e venerada a capa de São
Martinho, que segundo uma lenda, no
inverno de 338 teria partido seu manto – cappa – e dado a um pobre; esse
pedaço do manto foi conservado e no
sétimo século guardado num oratório,
que logo passou a ser chamado de
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cappella; paulatinamente o termo foi
sendo usado para designar qualquer
oratório. Daí o sacerdote encarregado de tais oratórios passou a ser chamado de cappellanus – capelão. Já no
século XIV a palavra cappella passou
a designar generalizadamente os pequenos templos.
Deriva também daí a associação
do termo aos sacerdotes encarregados de serviços religiosos em unidades militares, hospitais e escolas,
chamados de “capelão” e por sua vez
o serviço prestado de “capelania”.
Embora não conheçamos registros de uma reflexão teológica sistematizada sobre o emprego dos termos “capelão” e “capelania” aos
ofícios religiosos em tais ambientes,
sabemos que até hoje são amplamente utilizados. No caso do serviço religioso nas escolas metodistas do Brasil, o conceito de “capelania” foi
plenamente empregado até meados
dos anos 70. A partir daí passou a
ganhar corpo um outro conceito, de
“pastoral”, sobre o que trataremos
mais adiante.
“Capelania escolar” tratava de uma
concepção de ação religiosa da Igreja
na instituição educativa confessional.
O conceito estava vinculado estritamente ao que se poderia chamar de
“cuidados espirituais” das pessoas
(cultos, devocionais, reuniões de oração, assembléias religiosas, estudos da
Bíblia etc.), acompanhamento em situações de crises (visitação de enfermos,
consolação aos enlutados, aconselhamento pastoral, mediação de conflitos etc.), assim como aos atos de solidariedade, por exemplo, campanhas
de ajuda humanitária.
O conceito e a prática estavam
vinculados eminentemente aos atos
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No século XIV a
palavra cappella
passou a designar
generalizadamente os
pequenos templos
A concepção de
“capelania escolar”
foi paulatinamente
sendo deixada
de lado
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sacerdotais. Não podemos negar que
tais atos são elementos importantes
nas escolas confessionais, pois contribuem com a explicitação e conservação de sua identidade confessional. Contudo, esses conceitos e
práticas mereceram reflexão sobre
sua evolução histórica.
No caso da Educação Metodista
no Brasil, teólogos educadores envolvidos com as escolas passaram a
implementar tais reflexões a partir da
prática que se verificava nas instituições em meados dos anos 70. Começaram então a perceber que essa
“ação sacerdotal” das “capelanias escolares” não dava conta de toda a
complexidade dos desafios daquele
momento histórico e da leitura teológica que se fazia, tanto das demandas sociais como das práticas existentes para atender essas demandas.
Em algum tempo era notório que a
“ação sacerdotal” não esgotava o trabalho originado na presença da Igreja na escola, nem do ponto de vista
das demandas e possibilidades, nem
do ponto de vista dos desafios do
Evangelho e da teologia em diálogo
com a educação.
Foi aí que se passou a conhecer
um outro conceito dessa presença da
Igreja na Escola, no caso das Instituições Metodistas de Educação: o conceito de “pastoral escolar”. Nessa direção a concepção de “capelania
escolar” foi paulatinamente sendo
deixada de lado, para em 1982 ter
sido definitivamente assumido em
documento conciliar da Igreja, as Diretrizes para a Educação na Igreja
Metodista, o conceito de “pastoral
escolar”, para designar essa presença da Igreja na Escola. Esse conceito
mais amplo da ação da Igreja na es-
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cola, designado por “pastoral escolar” (e posteriormente também pastoral universitária) será alvo de nosso próximo tópico.
O sentido de pastoral –
a pastoral escolar
e universitária:
O conceito de
“pastoral” em sua
evolução semântica
adquiriu uma “idéia
de autoridade, de
desvelo (...)”
Acompanhando os estudos realizados por Schützer 1 , vemos que o
conceito envolvido na palavra “pastoral” tem sua origem na antigüidade. Von Allmen2 informa que o sentido mais remoto de “pastoral” vêm
dos povos orientais mesopotâmicos;
tem origem no ofício desenvolvido
pelo guardador de rebanhos, base da
subsistência da vida naquela região
desde épocas remotas. O pastoreio
representava a garantia e o zelo pela
continuidade da vida. Posteriormente esse conceito é incorporado na
tradição bíblica veterotestamentária
e neotestamentária, culminando com
sua aplicação à figura de Jesus, que
é apresentado como “o bom pastor”
(Jo 10.1-18) que vem ao mundo para
que todos “tenham vida e a tenham
e abundância”. Do mesmo modo o
sentido do pastoreio, da pastoral
desde a antigüidade, passando pelos
textos bíblicos, está profundamente
vinculado com o cuidado da vida, a
qual é o bem maior deste mundo; dito
desde uma perspectiva teológica, a
vida é o dom de Deus, é sacramento
divino.
Também os soberanos e governos
que tinham autoridade sobre os povos descritos no Antigo Testamento
O pastoreio
representava a
garantia e o zelo pela
continuidade da vida
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eram conclamados a zelar e proteger
o povo pastoralmente, embora nem
sempre o fizessem desse modo. Contudo, o conceito de “pastoreio” passou a ser também aplicado a estes.
Como conclui Libânio3 , o termo “pastoral” em sua evolução semântica
adquiriu uma “idéia de autoridade, de
desvelo, de companhia, de relação
interpessoal e finalmente de entrega
de si até o dom total da vida àqueles
que serve”.
Em seu trabalho, Schützer4 ainda
analisa a evolução do conceito de
“pastoral” no pensamento teológico
católico romano e no protestantismo,
passando pela incorporação do termo à teologia latino-americana após
o Concílio Vaticano II.
De acordo com Santa Ana5 , esse
conceito passou a ser freqüentemente
utilizado no pensamento teológico latino-americano a partir da década de
70, especialmente pela influência do
debate sobre Igreja e sociedade, estabelecido ao longo da década anterior,
particularmente por Emile Pin e
François Houtart. Na declaração pastoral Gaudium et Spes, um dos mais
importantes textos do Vaticano II, o
conceito aparece com relevância na
ação da Igreja no mundo moderno.
Destaca Santa Ana6 que a partir daí o
conceito ganhou terreno no contexto
da prática eclesial católica romana:
O sentido do vocábulo se refere à
forma como a Igreja cumpre sua função, seja em termos gerais (pastoral
de conjunto) ou particulares (pastoral da terra, pastoral indígena, pastoral da juventude, isto é, referida a
1
Darlene Barbosa Schützer. Em missão na escola
escola: as pastorais escolares da Igreja Metodista. Piracicaba, 2000.
J. J. Von Allmen. Pastor. In: Vocabulário bíblico
bíblico, 1972, p. 315.
3
João Batista Libânio. O que é pastoral
pastoral, 1982, p. 22.
4
Darlene Barbosa Schützer. Em missão na escola
escola: as pastorais escolares da Igreja Metodista, 2000.
5
Julio Santa Ana. Pelas trilhas do mundo, a caminho do reino
reino, 1985 p. 29.
6
Idem, Ibidem, p. 30.
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situações e/ou grupos sociais específicos). A pastoral, pois, no contexto do pensamento católico latinoamericano, refere-se à ação coletiva
do povo de Deus, da igreja...
Já no pensamento protestante, o
conceito foi aplicado historicamente,
de forma muito delimitada, ao ministério do pastor (e mais recentemente, em algumas Igrejas, também da
pastora). Embora a Reforma tenha
produzido conceitos como do “sacerdócio universal de todos os crentes”,
que se trata de uma dimensão coletiva do exercício da fé e prática do
Evangelho, o conceito de “pastoral”
ficou reduzido a um ministério específico, do pastor e da pastora, ou seja,
a um ministério e a uma pessoa integrante da comunidade de fé. Santa
Ana7 conclui que, apesar de algumas
tentativas em pensar o conceito de
uma forma mais aberta no protestantismo latino-americano, evitando-se
o histórico peso clerical sobre a concepção de pastoral, ainda pairava nos
anos 80 uma “confusão entre os evangélicos quanto ao uso do conceito”,
demonstrando que o “uso do termo
‘pastoral’ no protestantismo não é
unívoco”, tampouco claro.
Sugere Santa Ana 8 que os esforços teológicos no sentido de arejamento do conceito de “pastoral” no
âmbito do protestantismo, de um
aggiornamento protestante, conferindo-lhe um sentido de ação da Igreja
no mundo (comunidade de fé, Corpo
de Cristo), superando a concepção
mais estreita de ação do pastor ou
da pastora, passam necessariamente por uma tomada em conta do “pensamento católico, que enfatiza a di8
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mensão coletiva, comunitária, da
ação pastoral”. Mas, além disso, no
protestantismo não é possível esse
aggiornamento do conceito de “pastoral” levando-se em consideração
somente a situação social e conjuntural; é exigível para isso também
uma releitura das Escrituras Sagradas. Propõe então duas questões fundamentais: “existem no Novo Testamento elementos que nos ajudem a
compreender como orientar a ação
da igreja na sociedade? Quais são as
formulações teológicas que devemos
levar em conta para atuar pastoralmente como povo de Deus?”
No caso da Igreja Metodista brasileira, houve um grande esforço em
torno dessas questões, já a partir da
década de 1970, por meio dos Planos
Quadrienais. Por exemplo, o segundo
Plano Quadrienal9 , embora ainda partisse de uma análise eclesiológica
mais do que sociológica, possuía a
mediação da releitura do Novo Testamento, reconhecendo que “ministério
é a Igreja total, todos os seus membros; que pastor e membro da Igreja
completam-se e completam a Igreja
para o desempenho de sua Missão;
que o ministério pastoral carece de
uma reavaliação; que o ministério do
crente não tem sido devidamente
compreendido pela Igreja como essencial à Missão”. Essa mentalidade que
já começava a mudar em relação à
ação da Igreja, mais ampla do que a
ação do pastor, proporcionaria uma
conceituação de “ministério cristão”,
a qual podemos considerar alinhada
com as perspectivas do conceito de
“sacerdócio universal de todos os
crentes”; diz o Plano Quadrienal10 :
O conceito
de “pastoral” ficou
reduzido a um
ministério específico,
do pastor e da
pastora
O segundo Plano
Quadrienal possuía a
mediação da releitura
do Novo Testamento
Idem, Ibidem, p. 33-34.
Plano Quadrienal. In: Atas e documentos do XI Concílio Geral
Geral, 1974, p. 225.
Idem, Ibidem, p. 229.
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va a tomar forma também nas reflexões teológicas promovidas pelo
Centro Evangélico Latino-Americano
de Estudos Pastorais – CELEP, em San
Jose, Costa Rica, com a contribuição
do teólogo metodista uruguaio Emílio
Castro.
Nesse contexto, por volta da segunda metade dos anos 70, paralelamente aos movimentos que introduziam o conceito de “pastoral” no
pensamento teológico protestante
Latino-Americano e da Igreja
Metodista, recebendo os influxos de
toda aquela reflexão, surgiam nas
escolas metodistas as primeiras experiências que podemos qualificar
como “pastoral escolar”.
Conforme Schützer12 , até então a
presença da Igreja Metodista nas escolas havia se caracterizado pelos missionários que exerciam tarefas educacionais, administrativas e religiosas, e
mais tarde através da assistência religiosa de pastores das igrejas próximas
às escolas. Havia, sempre, uma característica marcadamente de capelania:
aconselhamento, consolação, exortação, devocionais, cultos, as famosas
assembléias religiosas e a educação
cristã.
A primeira vez que um documento oficial da Igreja faz menção a uma
“equipe de atendimento pastoral” em
uma escola, conforme identifica
Schützer13 , ocorre na Segunda Região
Eclesiástica, em 1974, nas Atas e Documentos do Concílio Regional. Contudo, essa não era uma experiência
isolada, pois em 1974 também no Instituto Bennett surgia do Departamento de Teologia e Filosofia uma propos-
A Igreja Metodista reconhece que todos os seus membros, pelo fato de
pertencerem ao povo de Deus, são
ministros do evangelho
evangelho. Isto é, são
chamados por Deus, preparados
pela Igreja para, sob a ação do Espírito Santo, cumprirem a Missão testemunhando a nova vida e servindo em
todas as áreas da existência.
Duas particularidades importantes dessa conceituação mais tarde
facilitariam o desenvolvimento dos
conceitos de “pastoral”, “ação pastoral da Igreja” ou “Igreja comunidade
pastoral no mundo”: primeiro, o fato
de um deslocamento do eixo do ministério cristão, outrora muito centralizado na figura do pastor, agora
para todos os membros da Igreja;
segundo, a concepção de Missão voltada para fora da Igreja, “servindo em
todas as áreas da existência”.
Como já foi mencionado, nesse
período tornava-se cada vez mais freqüente o uso do termo e do conceito
de “pastoral”, notadamente no âmbito católico romano latino-americano
e logo também em setores ecumênicos, onde participavam Igrejas
evangélicas interessadas na organização coletiva dos cristãos. Santa Ana11
destaca que no âmbito do Centro
Ecumênico de Documentação e Informação – CEDI, surgiu um programa
intitulado “Pastoral Protestante”,
com objetivo de formação de clérigos e leigos para atuarem mais diretamente na realidade social.
O conceito de “pastoral” como
ação da Igreja na sociedade começa-
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Surgiam nas escolas
metodistas
as primeiras
experiências que
podemos qualificar
como “pastoral
escolar”
Tornava-se cada vez
mais freqüente o uso
do termo e do
conceito de
“pastoral”
Julio Santa Ana. Pelas trilhas do mundo, a caminho do reino
reino, 1985, 32.
Darlene Barbosa Schützer. Em missão na escola
escola: as pastorais escolares da Igreja Metodista. Piracicaba, 2000, p. 54.
Idem, Ibidem, p. 55.
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ta de aproximação entre o Serviço de
Orientação Religiosa e a Capelania
Escolar para a criação de uma pastoral escolar. No Instituto Metodista de
Ensino Superior, desde 1972 a Faculdade de Teologia indicava um pastor
para cuidar das tarefas pastorais na
instituição; nesse caso a equipe que
se formou entre 1977 e 1978 ampliava politicamente e pastoralmente sua
atuação, passando o coordenador a
integrar conselhos administrativopedagógicos e mediando conflitos
entre a direção e os alunos, professores e funcionários. No Instituto
Educacional Piracicabano, com a
mudança de reitor em 1978, foi instalada também uma equipe de pastoral, composta por clérigos e leigos,
que ganharia características mais
amplas do que as de capelania, promovendo atividades culturais e movimentos de motivação à consciência crítica da realidade, assim como
pela retomada da democracia no Brasil, que ainda vivia sob os duros anos
da ditadura militar.
Contudo, somente em 1982, com
o documento “Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista”, aprovado pelo XIII Concílio Geral, é que
pela primeira vez aparece no contexto de um documento oficial da
Igreja a instituição das “pastorais
escolares”, com um objetivo claro
de atuação nas Escolas Metodistas
e na sociedade.
É necessário destacar que a aprovação das Diretrizes para a Educação
se deu no contexto de aprovação de
um documento maior, intitulado “Plano para a Vida e a Missão da Igreja”.
Esse documento aplica o conceito de
missão à ação educacional desenvol14
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vida pela própria Igreja ou por suas
instituições educacionais, declarando o seguinte14 :
A educação, como parte da Missão, é
o processo que visa oferecer à pessoa
e à comunidade uma compreensão da
vida e da sociedade, comprometida
com uma prática libertadora, recriando a vida e a sociedade, segundo o
modelo de Jesus Cristo, e questionando os sistemas de dominação e morte, à luz do Reino de Deus.
No Instituto
Educacional
Piracicabano, com a
mudança de reitor em
1978, foi instalada
também uma equipe
de pastoral
As Diretrizes para a Educação foram elaboradas no contexto do movimento de arejamento teológico da
Igreja. Na época, um setor da sua liderança buscava dar respostas à profunda crise de identidade vivida nos
anos 60 e 70, desejoso de uma maior
integração com a cultura nacional, de
abrasileiramento e deslocamento do
eixo missionário, do interior dela
mesma para o mundo, como já foi
mencionado acima. Também na área
da educação esse movimento era forte e procurava caminhos para uma
ruptura com a ação educativa até então “influenciada por idéias da chamada filosofia liberal (...) com características acentuadamente individualistas”,
marcada pela busca de ascensão social, pelo espírito de competição,
pelo utilitarismo e pela colocação do
lucro como a base das relações econômicas 15 . O documento abrange a
chamada “educação secular”, a
“educação teológica” e a “educação
cristã”.
Ao tratar especificamente da área
educacional, as DEIM analisam criticamente aquele estado em que se
encontrava o processo educativo
Igreja Metodista. Plano para a vida e missão de igreja - Decisões do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista, 1982, p.22.
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desenvolvido pelas instituições
metodistas, propondo uma nova filosofia e novas práticas que superassem o modelo até então em vigor.
Alguns princípios fundamentais deveriam, a partir daí, ser assumidos na
prática educacional das escolas
metodistas, conforme menciona o
documento 16 :
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e sacerdotais dentro e fora delas.
[grifo nosso]
Decorrências conceituais e
práticas dessa caminhada
...de tal modo que os indivíduos e os
grupos:
• desenvolvam consciência crítica da
realidade;
• compreendam que o interesse social é mais importante que o individual;
• exercitem o senso e a prática da
justiça e solidariedade;
• alcancem a sua realização como
fruto do esforço comum;
• tomem consciência de que todos
têm direito de participar de modo justo dos frutos do trabalho;
• reconheçam que, dentro de uma
perspectiva cristã, útil é aquilo que
tem valor social.
Fundamentalmente, a existência
das pastorais nas Instituições
Metodistas de Educação, no Brasil,
está ligada ao zelo pelos princípios
a que se propõe a Igreja ao criar e
manter tais instituições. Se pudéssemos sintetizá-los, o que não é tarefa simples, diríamos resumidamente que têm haver com o sonho da
Igreja em cumprir a Missão de Deus
no mundo, participando da construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna, com vida em abundância, por meio da educação, dentre
outros aspectos que envolvem a Missão. Para realizar esse seu sonho a
Igreja lança mão de sua vocação educacional. Entendemos que a educação, embora não sendo o único
meio, tem uma contribuição importante, uma vez que capacita as pessoas e comunidades, pela produção
e socialização do conhecimento, nos
seus aspectos técnico-científicos,
mas também na motivação à construção
da
cidadania
como
patrimônio coletivo, dimensão ética
presente no fazer acadêmico-pedagógico 18 . Assim, a pastoral trabalha
por zelar e fomentar essa ação nas
instituições metodistas. Contudo, é
necessário assinalar que, no zelo e
na consecução desses princípios e
objetivos fundamentais da educação
nas instituições metodistas, a pas-
Para realizar esse
sonho a Igreja lança
mão de sua vocação
educacional
Ficava evidente que havia necessidade de criar condições para
implementar essas mudanças nas
Instituições Metodistas de Educação. Para ajudar nesse processo o
XIII Concílio Geral criou as “Pastorais Escolares”, com as seguintes
atribuições 17 :
Terá prioridade a existência de pastorais escolares que atuem como
consciência crítica das instituições, em todos os seus aspectos,
exercendo suas funções proféticas
15
Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista. In: Vida e missão
missão: decisões do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista e
Credo Social da Igreja Metodista, 1982, p. 38.
16
Idem, Ibidem, p. 38-39.
17
Idem, Ibidem, p. 42.
18
Política Acadêmica da Unimep
Unimep, 1996, p. 21.
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toral não está sozinha, tampouco
tem como absolutos seus pontos de
partida, a teologia e o ministério
cristão; mas, soma-se com outros
pensares e fazeres que também labutam neste mesmo espaço e por
este mesmo sonho, de construir vida
digna e abundante para todos.
Em sua dimensão profética
profética, a
pastoral procura dialogar com a comunidade acadêmica e escolar, alimentando um olhar crítico sobre a
realidade, perguntando-se pelo sentido dos saberes construídos e reproduzidos nas instituições metodistas.
Em que resultam, como contribuição
para uma sociedade mais justa e para
o bem da vida, os saberes que desenvolvemos e socializamos? Para isso
a pastoral precisa ter um pé dentro e
outro fora da instituição, dialogando
continuamente com a “agenda interna” (da escola, universidade e da Igreja) e com a “agenda externa” (da comunidade onde está inserida, da
sociedade e do mundo), a fim de reconhecer, por um lado, as possibilidades disponíveis na escola/universidade e as demandas da comunidade e
do mundo contemporâneo, onde se
insere a escola/universidade. Por outro lado, procura perceber e ajudar a
perceber como a escola/universidade pode estabelecer conexões
dialéticas e dialógicas com esta realidade.
Ainda por essa dimensão profética
tica, a pastoral procura olhar criticamente os processos internos das instituições, pelo filtro da ética e da
justiça, procurando ajudar todos os
atores envolvidos nos processos a
preservar princípios de zelo pela vida
e a dignidade humana, à luz do Evan19
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A pastoral procura
dialogar com a
comunidade
acadêmica e escolar
A pastoral procura
olhar criticamente os
processos internos
das instituições
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gelho de Cristo. Mas também, nesse
mesmo olhar crítico, lastreado pelo
Evangelho e por princípios universais
de ética e dignidade da vida, estão
presentes, no escopo da ação das
pastorais escolares e universitárias,
as atenções com a organização social mais ampla. Isto acontece pela denúncia dos pecados sociais – injustiças, corrupção, imoralidade, violação
aos direitos humanos, perversidade
econômica, pobreza e miséria etc. –
bem como pelo anúncio
anúncio, continuo e
intenso, da esperança no “surgimento do novo mundo; da nova vida,
do perfeito amor, da justiça plena, da
autêntica liberdade e da completa
paz” 19 .
Em sua dimensão sacerdotal
sacerdotal, a
pastoral tem no zelo pela vida comunitária e das pessoas, sujeitos
que compõe as instituições, um objetivo fundamental. O cuidado com
a espiritualidade, a qualidade de
vida e a ética comunitária, na universidade e escola, expressam-se de
diversas maneiras: em celebrações
litúrgicas; na consolação e solidariedade aos que sofrem; no incentivo e na preservação do diálogo e
dos
espaços
de
democracia
participativa; no aconselhamento
pastoral; em fomento à alteridade
e inclusão.
Finalmente destacamos que, apesar de a pastoral reconhecer e valorizar o ponto de partida de sua ação
e reflexão, sua identidade mesma, a
qual se dá na confessionalidade, baseada em fundamentos cristãos e
humanistas, reconhece também
que o ambiente acadêmico e escolar exige a construção e preservação de espaços e horizontes ecu-
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Notamos, em nossa experiência desenvolvida no contexto da Igreja
Metodista brasileira e das Instituições
Metodistas de Educação neste país, que
houve historicamente uma transição do
conceito e das práticas de “capelania
escolar” para “pastoral escolar”. A primeira experiência, mais voltada para
um cuidado com a espiritualidade, a
evangelização e os indivíduos e grupos
dentro das escolas, e a segunda experiência, conservando aspectos da primeira, ampliam o seu sentido para o esforço de diálogo com a realidade social que
envolve a Igreja e a escola, bem como
no acompanhamento e na interferência,
sempre que necessário, nas práticas,
nos processos e na filosofia educacional desenvolvida nas Instituições
Metodistas de Educação.
Resumidamente, nessa concepção
desenvolvida, “capelania escolar” limita-se ao interno e aos cuidados espirituais, e “pastoral escolar” ocupa-se do
interno, mas também do externo às instituições, dos cuidados espirituais, mas
também da crítica e da reforma das práticas e dos processos que não estejam
de acordo com a confes-sionalidade
emanada da Igreja e do Evangelho.
Pastoral Universitária e Escolar existe
por fazer parte do sonho de educação
da Igreja Metodista: proporcionar crescimento e amadurecimento não só nos
aspectos técnicos, mas aliar o compromisso com a vida, que se expressa em
consciência das relações injustas que
compõem a sociedade e criatividade na
busca da superação dessas relações...20
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Conclusão
mênicos, plurais, multi-religiosos e
multi-culturais, estabelecidos dentro de um ambiente de liberdade,
respeito mútuo, criatividade e participação coletiva. O zelo por essa
dimensão ecumênica e universal,
no mundo da escola e da universidade, com a superação da imposição de valores pela força ou intolerância, é o caminho capaz de
construir parcerias criativas na direção do sonho de vida abundante
e, como dizemos teologicamente,
do Reino de Deus.
Talvez, procurando sintetizar
essa presença e ação das pastorais
escolares e universitárias nas Instituições Metodistas de Educação, podemos lançar mão da declaração feita pelo documento “Referências da
Pastoral do Instituto Educacional
Piracicabano”, que diz:
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Referências da Pastoral do IEP
IEP, 1997.
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Referências bibliográficas
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missão: decisões do XIII Concílio
Geral da Igreja Metodista e Credo Social da Igreja Metodista. 2.ed. Piracicaba: Editora
Unimep, 1982.
Igreja Metodista. Plano para a vida e missão de igreja - Decisões do XIII Concílio Geral da
Igreja Metodista. Piracicaba: Editora UNIMEP, 1982.
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pastoral. São Paulo: Brasiliense, 1982.
Plano Quadrienal. In: Atas e documentos do XI Concílio Geral
Geral. São Paulo: Igreja Metodista, 1974.
Política Acadêmica da Unimep
Unimep. 2. ed. Piracicaba: Editora Unimep, 1996.
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Referências da Pastoral do IEP
IEP. Piracicaba: Pastoral Universitária e Escolar, 1997.
SANTA ANA, Julio. Pelas trilhas do mundo, a caminho do reino
reino. São Bernardo do Campo:
Imprensa Metodista - Faculdade de Teologia, 1985.
SCHÜTZER, Darlene Barbosa. Em missão na escola
escola: as pastorais escolares da Igreja
Metodista. Piracicaba, 2000, 95 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Faculdade de
Educação, Universidade Metodista de Piracicaba, Piracicaba.
Vida e a missão. Decisões do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista e Credo Social da Igreja
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VON ALLMEN, J. J. Pastor. In: Vocabulário bíblico
bíblico. São Paulo: ASTE, 1972.
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Apontamentos sobre pastoral e capelania em escolas