○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○○ ○○ ○○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Confessionalidade Apontamentos sobre pastoral e capelania em escolas metodistas Notes on pastoral care and chaplaincy in Methodist schools Luis de Souza Cardoso Mestre em Ciências da Religião Coordenador da Pastoral Universitária da UNIMEP R e s u m o Os conceitos e as práticas envolvidos nas designações de “capelania escolar” e “pastoral escolar”, de acordo com a reflexão teológica e a experiência acumulada no âmbito das Institutições Metodistas de Educação, no Brasil, guardam algumas diferenças fundamentais entre si. Este texto apresentará a evolução histórica e as bases teológicas desses conceitos e práticas. Unitermos: missão; dimensão profética; dimensão sacerdotal; consciência crítica Synopsis The concepts and practices involved in the designation of “school chaplaincy” and “school pastoral care”, according to the theological reflection and the accumulated experience in the scope of the Educational Methodist Institutions in Brazil, have some basic differences between them. This text presents the historical evolution and the Theological bases of these concepts and practices. Terms: mission, prophetic dimension; priestly dimension, critical conscience Resumen Los conceptos y las prácticas involucrados en las designaciones de “capellanía escolar” y “pastoral escolar”, de acuerdo con la reflexión teológica y la experiencia acumulada en el ámbito de las Instituciones Metodistas de Educación en Brasil, guardan algunas diferencias fundamentales entre sí. Este texto presentará la evolución histórica y las bases teológicas de estos conceptos y prácticas. Términos: misión; dimensión profética; dimensión sacerdotal; conciencia crítica Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 113 ○ ○ ○ Ano 11 - n 0 21 - dezembro / 2002 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Introdução E ○ ○ ○ ste texto é fruto de apontamentos utilizados na apresentação do tema no Encontro de Educação Cristã, da ALAIME – Associação Latino Americana de Instituições Metodistas de Educação, em Santiago do Chile, novembro de 2001. Foi uma tentativa de aproximação com os conceitos e as práticas, a partir das experiências educacionais no metodismo brasileiro em abertura ao diálogo com outras perspectivas Latino Americanas. Em primeiro lugar, a metodologia do espaço em que se inseria essa apresentação era de oficina – taller; por isso, embora essa apresentação partisse da experiência brasileira de pastoral escolar, procurou oportunizar um ambiente dialógico, de intercâmbio com as outras experiências pastorais nas Escolas Metodistas de outros países. Na perspectiva das relações entre Igreja e Escola, onde nossa ação pastoral acontece, é necessária uma avaliação constantemente de nossas práticas. Um espaço como o proporcionado pelo Encontro da Associação Latino Americana de Instituições Metodistas de Educação pode constituir-se em lócus privilegiado de intercâmbio e de confronto das experiências desenvolvidas nos diferentes contextos do continente. Dessa forma marcamos bem o caráter de nossa apresentação, não se tratando de uma “receita” do modo como fazemos pastoral em escolas, aplicável a todas as realidades, mas da tentativa de expor a experiência brasileira provocando o debate, buscando quiçá encontrar e estabelecer pontos de Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ contatos com outras experiências vividas em outros países. Em segundo lugar, é preciso ressaltar que a partir de nossa experiência no Brasil, nos últimos vinte anos, é possível abordar muito mais o tema da “pastoral escolar” do que “capelania escolar”. Isto pode ser aparentemente insignificante, semântico; contudo, como procuraremos demonstrar, compreende conceitos e práticas distintas que tornam relevante esta observação. Por outro lado, é possível que para além dos conceitos, as práticas em nossos diferentes casos guardem mais semelhanças e pontos de contatos do que diferenças em nossa ação ministerial nas Escolas Metodistas. Portanto, vamos inicialmente tratar do modo como entendemos, a partir da reflexão construída no Brasil, os conceitos de “capelania escolar” e de “pastoral escolar” escolar”; posteriormente vamos expor alguns elementos conceituais e práticos, decorrentes da construção de nossa experiência, para finalmente debater com as demais experiências latinoamericanas. A partir de nossa experiência no Brasil, nos últimos vinte anos, é possível abordar muito mais o tema da “pastoral escolar” do que “capelania escolar” A metodologia do espaço em que se inseria essa apresentação era de oficina O sentido de capelania – a capelania escolar Esse termo, “capelania”, deriva de cappella, que na língua latina surgiu por volta do sétimo século d.C., para designar um oratório onde era guardada e venerada a capa de São Martinho, que segundo uma lenda, no inverno de 338 teria partido seu manto – cappa – e dado a um pobre; esse pedaço do manto foi conservado e no sétimo século guardado num oratório, que logo passou a ser chamado de ○ ○ ○ 114 ○ ○ ○ Ano 11 - n 0 21 - dezembro / 2002 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ cappella; paulatinamente o termo foi sendo usado para designar qualquer oratório. Daí o sacerdote encarregado de tais oratórios passou a ser chamado de cappellanus – capelão. Já no século XIV a palavra cappella passou a designar generalizadamente os pequenos templos. Deriva também daí a associação do termo aos sacerdotes encarregados de serviços religiosos em unidades militares, hospitais e escolas, chamados de “capelão” e por sua vez o serviço prestado de “capelania”. Embora não conheçamos registros de uma reflexão teológica sistematizada sobre o emprego dos termos “capelão” e “capelania” aos ofícios religiosos em tais ambientes, sabemos que até hoje são amplamente utilizados. No caso do serviço religioso nas escolas metodistas do Brasil, o conceito de “capelania” foi plenamente empregado até meados dos anos 70. A partir daí passou a ganhar corpo um outro conceito, de “pastoral”, sobre o que trataremos mais adiante. “Capelania escolar” tratava de uma concepção de ação religiosa da Igreja na instituição educativa confessional. O conceito estava vinculado estritamente ao que se poderia chamar de “cuidados espirituais” das pessoas (cultos, devocionais, reuniões de oração, assembléias religiosas, estudos da Bíblia etc.), acompanhamento em situações de crises (visitação de enfermos, consolação aos enlutados, aconselhamento pastoral, mediação de conflitos etc.), assim como aos atos de solidariedade, por exemplo, campanhas de ajuda humanitária. O conceito e a prática estavam vinculados eminentemente aos atos Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ No século XIV a palavra cappella passou a designar generalizadamente os pequenos templos A concepção de “capelania escolar” foi paulatinamente sendo deixada de lado ○ ○ ○ 115 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ sacerdotais. Não podemos negar que tais atos são elementos importantes nas escolas confessionais, pois contribuem com a explicitação e conservação de sua identidade confessional. Contudo, esses conceitos e práticas mereceram reflexão sobre sua evolução histórica. No caso da Educação Metodista no Brasil, teólogos educadores envolvidos com as escolas passaram a implementar tais reflexões a partir da prática que se verificava nas instituições em meados dos anos 70. Começaram então a perceber que essa “ação sacerdotal” das “capelanias escolares” não dava conta de toda a complexidade dos desafios daquele momento histórico e da leitura teológica que se fazia, tanto das demandas sociais como das práticas existentes para atender essas demandas. Em algum tempo era notório que a “ação sacerdotal” não esgotava o trabalho originado na presença da Igreja na escola, nem do ponto de vista das demandas e possibilidades, nem do ponto de vista dos desafios do Evangelho e da teologia em diálogo com a educação. Foi aí que se passou a conhecer um outro conceito dessa presença da Igreja na Escola, no caso das Instituições Metodistas de Educação: o conceito de “pastoral escolar”. Nessa direção a concepção de “capelania escolar” foi paulatinamente sendo deixada de lado, para em 1982 ter sido definitivamente assumido em documento conciliar da Igreja, as Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista, o conceito de “pastoral escolar”, para designar essa presença da Igreja na Escola. Esse conceito mais amplo da ação da Igreja na es- Ano 11 - n 0 21 - dezembro / 2002 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ cola, designado por “pastoral escolar” (e posteriormente também pastoral universitária) será alvo de nosso próximo tópico. O sentido de pastoral – a pastoral escolar e universitária: O conceito de “pastoral” em sua evolução semântica adquiriu uma “idéia de autoridade, de desvelo (...)” Acompanhando os estudos realizados por Schützer 1 , vemos que o conceito envolvido na palavra “pastoral” tem sua origem na antigüidade. Von Allmen2 informa que o sentido mais remoto de “pastoral” vêm dos povos orientais mesopotâmicos; tem origem no ofício desenvolvido pelo guardador de rebanhos, base da subsistência da vida naquela região desde épocas remotas. O pastoreio representava a garantia e o zelo pela continuidade da vida. Posteriormente esse conceito é incorporado na tradição bíblica veterotestamentária e neotestamentária, culminando com sua aplicação à figura de Jesus, que é apresentado como “o bom pastor” (Jo 10.1-18) que vem ao mundo para que todos “tenham vida e a tenham e abundância”. Do mesmo modo o sentido do pastoreio, da pastoral desde a antigüidade, passando pelos textos bíblicos, está profundamente vinculado com o cuidado da vida, a qual é o bem maior deste mundo; dito desde uma perspectiva teológica, a vida é o dom de Deus, é sacramento divino. Também os soberanos e governos que tinham autoridade sobre os povos descritos no Antigo Testamento O pastoreio representava a garantia e o zelo pela continuidade da vida ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ eram conclamados a zelar e proteger o povo pastoralmente, embora nem sempre o fizessem desse modo. Contudo, o conceito de “pastoreio” passou a ser também aplicado a estes. Como conclui Libânio3 , o termo “pastoral” em sua evolução semântica adquiriu uma “idéia de autoridade, de desvelo, de companhia, de relação interpessoal e finalmente de entrega de si até o dom total da vida àqueles que serve”. Em seu trabalho, Schützer4 ainda analisa a evolução do conceito de “pastoral” no pensamento teológico católico romano e no protestantismo, passando pela incorporação do termo à teologia latino-americana após o Concílio Vaticano II. De acordo com Santa Ana5 , esse conceito passou a ser freqüentemente utilizado no pensamento teológico latino-americano a partir da década de 70, especialmente pela influência do debate sobre Igreja e sociedade, estabelecido ao longo da década anterior, particularmente por Emile Pin e François Houtart. Na declaração pastoral Gaudium et Spes, um dos mais importantes textos do Vaticano II, o conceito aparece com relevância na ação da Igreja no mundo moderno. Destaca Santa Ana6 que a partir daí o conceito ganhou terreno no contexto da prática eclesial católica romana: O sentido do vocábulo se refere à forma como a Igreja cumpre sua função, seja em termos gerais (pastoral de conjunto) ou particulares (pastoral da terra, pastoral indígena, pastoral da juventude, isto é, referida a 1 Darlene Barbosa Schützer. Em missão na escola escola: as pastorais escolares da Igreja Metodista. Piracicaba, 2000. J. J. Von Allmen. Pastor. In: Vocabulário bíblico bíblico, 1972, p. 315. 3 João Batista Libânio. O que é pastoral pastoral, 1982, p. 22. 4 Darlene Barbosa Schützer. Em missão na escola escola: as pastorais escolares da Igreja Metodista, 2000. 5 Julio Santa Ana. Pelas trilhas do mundo, a caminho do reino reino, 1985 p. 29. 6 Idem, Ibidem, p. 30. 2 Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 116 ○ ○ ○ Ano 11 - n 0 21 - dezembro / 2002 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ situações e/ou grupos sociais específicos). A pastoral, pois, no contexto do pensamento católico latinoamericano, refere-se à ação coletiva do povo de Deus, da igreja... Já no pensamento protestante, o conceito foi aplicado historicamente, de forma muito delimitada, ao ministério do pastor (e mais recentemente, em algumas Igrejas, também da pastora). Embora a Reforma tenha produzido conceitos como do “sacerdócio universal de todos os crentes”, que se trata de uma dimensão coletiva do exercício da fé e prática do Evangelho, o conceito de “pastoral” ficou reduzido a um ministério específico, do pastor e da pastora, ou seja, a um ministério e a uma pessoa integrante da comunidade de fé. Santa Ana7 conclui que, apesar de algumas tentativas em pensar o conceito de uma forma mais aberta no protestantismo latino-americano, evitando-se o histórico peso clerical sobre a concepção de pastoral, ainda pairava nos anos 80 uma “confusão entre os evangélicos quanto ao uso do conceito”, demonstrando que o “uso do termo ‘pastoral’ no protestantismo não é unívoco”, tampouco claro. Sugere Santa Ana 8 que os esforços teológicos no sentido de arejamento do conceito de “pastoral” no âmbito do protestantismo, de um aggiornamento protestante, conferindo-lhe um sentido de ação da Igreja no mundo (comunidade de fé, Corpo de Cristo), superando a concepção mais estreita de ação do pastor ou da pastora, passam necessariamente por uma tomada em conta do “pensamento católico, que enfatiza a di8 9 10 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ mensão coletiva, comunitária, da ação pastoral”. Mas, além disso, no protestantismo não é possível esse aggiornamento do conceito de “pastoral” levando-se em consideração somente a situação social e conjuntural; é exigível para isso também uma releitura das Escrituras Sagradas. Propõe então duas questões fundamentais: “existem no Novo Testamento elementos que nos ajudem a compreender como orientar a ação da igreja na sociedade? Quais são as formulações teológicas que devemos levar em conta para atuar pastoralmente como povo de Deus?” No caso da Igreja Metodista brasileira, houve um grande esforço em torno dessas questões, já a partir da década de 1970, por meio dos Planos Quadrienais. Por exemplo, o segundo Plano Quadrienal9 , embora ainda partisse de uma análise eclesiológica mais do que sociológica, possuía a mediação da releitura do Novo Testamento, reconhecendo que “ministério é a Igreja total, todos os seus membros; que pastor e membro da Igreja completam-se e completam a Igreja para o desempenho de sua Missão; que o ministério pastoral carece de uma reavaliação; que o ministério do crente não tem sido devidamente compreendido pela Igreja como essencial à Missão”. Essa mentalidade que já começava a mudar em relação à ação da Igreja, mais ampla do que a ação do pastor, proporcionaria uma conceituação de “ministério cristão”, a qual podemos considerar alinhada com as perspectivas do conceito de “sacerdócio universal de todos os crentes”; diz o Plano Quadrienal10 : O conceito de “pastoral” ficou reduzido a um ministério específico, do pastor e da pastora O segundo Plano Quadrienal possuía a mediação da releitura do Novo Testamento Idem, Ibidem, p. 33-34. Plano Quadrienal. In: Atas e documentos do XI Concílio Geral Geral, 1974, p. 225. Idem, Ibidem, p. 229. Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 117 ○ ○ ○ Ano 11 - n 0 21 - dezembro / 2002 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 11 12 13 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ va a tomar forma também nas reflexões teológicas promovidas pelo Centro Evangélico Latino-Americano de Estudos Pastorais – CELEP, em San Jose, Costa Rica, com a contribuição do teólogo metodista uruguaio Emílio Castro. Nesse contexto, por volta da segunda metade dos anos 70, paralelamente aos movimentos que introduziam o conceito de “pastoral” no pensamento teológico protestante Latino-Americano e da Igreja Metodista, recebendo os influxos de toda aquela reflexão, surgiam nas escolas metodistas as primeiras experiências que podemos qualificar como “pastoral escolar”. Conforme Schützer12 , até então a presença da Igreja Metodista nas escolas havia se caracterizado pelos missionários que exerciam tarefas educacionais, administrativas e religiosas, e mais tarde através da assistência religiosa de pastores das igrejas próximas às escolas. Havia, sempre, uma característica marcadamente de capelania: aconselhamento, consolação, exortação, devocionais, cultos, as famosas assembléias religiosas e a educação cristã. A primeira vez que um documento oficial da Igreja faz menção a uma “equipe de atendimento pastoral” em uma escola, conforme identifica Schützer13 , ocorre na Segunda Região Eclesiástica, em 1974, nas Atas e Documentos do Concílio Regional. Contudo, essa não era uma experiência isolada, pois em 1974 também no Instituto Bennett surgia do Departamento de Teologia e Filosofia uma propos- A Igreja Metodista reconhece que todos os seus membros, pelo fato de pertencerem ao povo de Deus, são ministros do evangelho evangelho. Isto é, são chamados por Deus, preparados pela Igreja para, sob a ação do Espírito Santo, cumprirem a Missão testemunhando a nova vida e servindo em todas as áreas da existência. Duas particularidades importantes dessa conceituação mais tarde facilitariam o desenvolvimento dos conceitos de “pastoral”, “ação pastoral da Igreja” ou “Igreja comunidade pastoral no mundo”: primeiro, o fato de um deslocamento do eixo do ministério cristão, outrora muito centralizado na figura do pastor, agora para todos os membros da Igreja; segundo, a concepção de Missão voltada para fora da Igreja, “servindo em todas as áreas da existência”. Como já foi mencionado, nesse período tornava-se cada vez mais freqüente o uso do termo e do conceito de “pastoral”, notadamente no âmbito católico romano latino-americano e logo também em setores ecumênicos, onde participavam Igrejas evangélicas interessadas na organização coletiva dos cristãos. Santa Ana11 destaca que no âmbito do Centro Ecumênico de Documentação e Informação – CEDI, surgiu um programa intitulado “Pastoral Protestante”, com objetivo de formação de clérigos e leigos para atuarem mais diretamente na realidade social. O conceito de “pastoral” como ação da Igreja na sociedade começa- ○ Surgiam nas escolas metodistas as primeiras experiências que podemos qualificar como “pastoral escolar” Tornava-se cada vez mais freqüente o uso do termo e do conceito de “pastoral” Julio Santa Ana. Pelas trilhas do mundo, a caminho do reino reino, 1985, 32. Darlene Barbosa Schützer. Em missão na escola escola: as pastorais escolares da Igreja Metodista. Piracicaba, 2000, p. 54. Idem, Ibidem, p. 55. Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 118 ○ ○ ○ Ano 11 - n 0 21 - dezembro / 2002 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ta de aproximação entre o Serviço de Orientação Religiosa e a Capelania Escolar para a criação de uma pastoral escolar. No Instituto Metodista de Ensino Superior, desde 1972 a Faculdade de Teologia indicava um pastor para cuidar das tarefas pastorais na instituição; nesse caso a equipe que se formou entre 1977 e 1978 ampliava politicamente e pastoralmente sua atuação, passando o coordenador a integrar conselhos administrativopedagógicos e mediando conflitos entre a direção e os alunos, professores e funcionários. No Instituto Educacional Piracicabano, com a mudança de reitor em 1978, foi instalada também uma equipe de pastoral, composta por clérigos e leigos, que ganharia características mais amplas do que as de capelania, promovendo atividades culturais e movimentos de motivação à consciência crítica da realidade, assim como pela retomada da democracia no Brasil, que ainda vivia sob os duros anos da ditadura militar. Contudo, somente em 1982, com o documento “Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista”, aprovado pelo XIII Concílio Geral, é que pela primeira vez aparece no contexto de um documento oficial da Igreja a instituição das “pastorais escolares”, com um objetivo claro de atuação nas Escolas Metodistas e na sociedade. É necessário destacar que a aprovação das Diretrizes para a Educação se deu no contexto de aprovação de um documento maior, intitulado “Plano para a Vida e a Missão da Igreja”. Esse documento aplica o conceito de missão à ação educacional desenvol14 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ vida pela própria Igreja ou por suas instituições educacionais, declarando o seguinte14 : A educação, como parte da Missão, é o processo que visa oferecer à pessoa e à comunidade uma compreensão da vida e da sociedade, comprometida com uma prática libertadora, recriando a vida e a sociedade, segundo o modelo de Jesus Cristo, e questionando os sistemas de dominação e morte, à luz do Reino de Deus. No Instituto Educacional Piracicabano, com a mudança de reitor em 1978, foi instalada também uma equipe de pastoral As Diretrizes para a Educação foram elaboradas no contexto do movimento de arejamento teológico da Igreja. Na época, um setor da sua liderança buscava dar respostas à profunda crise de identidade vivida nos anos 60 e 70, desejoso de uma maior integração com a cultura nacional, de abrasileiramento e deslocamento do eixo missionário, do interior dela mesma para o mundo, como já foi mencionado acima. Também na área da educação esse movimento era forte e procurava caminhos para uma ruptura com a ação educativa até então “influenciada por idéias da chamada filosofia liberal (...) com características acentuadamente individualistas”, marcada pela busca de ascensão social, pelo espírito de competição, pelo utilitarismo e pela colocação do lucro como a base das relações econômicas 15 . O documento abrange a chamada “educação secular”, a “educação teológica” e a “educação cristã”. Ao tratar especificamente da área educacional, as DEIM analisam criticamente aquele estado em que se encontrava o processo educativo Igreja Metodista. Plano para a vida e missão de igreja - Decisões do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista, 1982, p.22. Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 119 ○ ○ ○ Ano 11 - n 0 21 - dezembro / 2002 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ desenvolvido pelas instituições metodistas, propondo uma nova filosofia e novas práticas que superassem o modelo até então em vigor. Alguns princípios fundamentais deveriam, a partir daí, ser assumidos na prática educacional das escolas metodistas, conforme menciona o documento 16 : ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ e sacerdotais dentro e fora delas. [grifo nosso] Decorrências conceituais e práticas dessa caminhada ...de tal modo que os indivíduos e os grupos: • desenvolvam consciência crítica da realidade; • compreendam que o interesse social é mais importante que o individual; • exercitem o senso e a prática da justiça e solidariedade; • alcancem a sua realização como fruto do esforço comum; • tomem consciência de que todos têm direito de participar de modo justo dos frutos do trabalho; • reconheçam que, dentro de uma perspectiva cristã, útil é aquilo que tem valor social. Fundamentalmente, a existência das pastorais nas Instituições Metodistas de Educação, no Brasil, está ligada ao zelo pelos princípios a que se propõe a Igreja ao criar e manter tais instituições. Se pudéssemos sintetizá-los, o que não é tarefa simples, diríamos resumidamente que têm haver com o sonho da Igreja em cumprir a Missão de Deus no mundo, participando da construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna, com vida em abundância, por meio da educação, dentre outros aspectos que envolvem a Missão. Para realizar esse seu sonho a Igreja lança mão de sua vocação educacional. Entendemos que a educação, embora não sendo o único meio, tem uma contribuição importante, uma vez que capacita as pessoas e comunidades, pela produção e socialização do conhecimento, nos seus aspectos técnico-científicos, mas também na motivação à construção da cidadania como patrimônio coletivo, dimensão ética presente no fazer acadêmico-pedagógico 18 . Assim, a pastoral trabalha por zelar e fomentar essa ação nas instituições metodistas. Contudo, é necessário assinalar que, no zelo e na consecução desses princípios e objetivos fundamentais da educação nas instituições metodistas, a pas- Para realizar esse sonho a Igreja lança mão de sua vocação educacional Ficava evidente que havia necessidade de criar condições para implementar essas mudanças nas Instituições Metodistas de Educação. Para ajudar nesse processo o XIII Concílio Geral criou as “Pastorais Escolares”, com as seguintes atribuições 17 : Terá prioridade a existência de pastorais escolares que atuem como consciência crítica das instituições, em todos os seus aspectos, exercendo suas funções proféticas 15 Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista. In: Vida e missão missão: decisões do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista e Credo Social da Igreja Metodista, 1982, p. 38. 16 Idem, Ibidem, p. 38-39. 17 Idem, Ibidem, p. 42. 18 Política Acadêmica da Unimep Unimep, 1996, p. 21. Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 120 ○ ○ ○ Ano 11 - n 0 21 - dezembro / 2002 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ toral não está sozinha, tampouco tem como absolutos seus pontos de partida, a teologia e o ministério cristão; mas, soma-se com outros pensares e fazeres que também labutam neste mesmo espaço e por este mesmo sonho, de construir vida digna e abundante para todos. Em sua dimensão profética profética, a pastoral procura dialogar com a comunidade acadêmica e escolar, alimentando um olhar crítico sobre a realidade, perguntando-se pelo sentido dos saberes construídos e reproduzidos nas instituições metodistas. Em que resultam, como contribuição para uma sociedade mais justa e para o bem da vida, os saberes que desenvolvemos e socializamos? Para isso a pastoral precisa ter um pé dentro e outro fora da instituição, dialogando continuamente com a “agenda interna” (da escola, universidade e da Igreja) e com a “agenda externa” (da comunidade onde está inserida, da sociedade e do mundo), a fim de reconhecer, por um lado, as possibilidades disponíveis na escola/universidade e as demandas da comunidade e do mundo contemporâneo, onde se insere a escola/universidade. Por outro lado, procura perceber e ajudar a perceber como a escola/universidade pode estabelecer conexões dialéticas e dialógicas com esta realidade. Ainda por essa dimensão profética tica, a pastoral procura olhar criticamente os processos internos das instituições, pelo filtro da ética e da justiça, procurando ajudar todos os atores envolvidos nos processos a preservar princípios de zelo pela vida e a dignidade humana, à luz do Evan19 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A pastoral procura dialogar com a comunidade acadêmica e escolar A pastoral procura olhar criticamente os processos internos das instituições ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ gelho de Cristo. Mas também, nesse mesmo olhar crítico, lastreado pelo Evangelho e por princípios universais de ética e dignidade da vida, estão presentes, no escopo da ação das pastorais escolares e universitárias, as atenções com a organização social mais ampla. Isto acontece pela denúncia dos pecados sociais – injustiças, corrupção, imoralidade, violação aos direitos humanos, perversidade econômica, pobreza e miséria etc. – bem como pelo anúncio anúncio, continuo e intenso, da esperança no “surgimento do novo mundo; da nova vida, do perfeito amor, da justiça plena, da autêntica liberdade e da completa paz” 19 . Em sua dimensão sacerdotal sacerdotal, a pastoral tem no zelo pela vida comunitária e das pessoas, sujeitos que compõe as instituições, um objetivo fundamental. O cuidado com a espiritualidade, a qualidade de vida e a ética comunitária, na universidade e escola, expressam-se de diversas maneiras: em celebrações litúrgicas; na consolação e solidariedade aos que sofrem; no incentivo e na preservação do diálogo e dos espaços de democracia participativa; no aconselhamento pastoral; em fomento à alteridade e inclusão. Finalmente destacamos que, apesar de a pastoral reconhecer e valorizar o ponto de partida de sua ação e reflexão, sua identidade mesma, a qual se dá na confessionalidade, baseada em fundamentos cristãos e humanistas, reconhece também que o ambiente acadêmico e escolar exige a construção e preservação de espaços e horizontes ecu- Igreja Metodista. Plano para a vida e missão de igreja - Decisões do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista, 1982, p.11. Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 121 ○ ○ ○ Ano 11 - n 0 21 - dezembro / 2002 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Notamos, em nossa experiência desenvolvida no contexto da Igreja Metodista brasileira e das Instituições Metodistas de Educação neste país, que houve historicamente uma transição do conceito e das práticas de “capelania escolar” para “pastoral escolar”. A primeira experiência, mais voltada para um cuidado com a espiritualidade, a evangelização e os indivíduos e grupos dentro das escolas, e a segunda experiência, conservando aspectos da primeira, ampliam o seu sentido para o esforço de diálogo com a realidade social que envolve a Igreja e a escola, bem como no acompanhamento e na interferência, sempre que necessário, nas práticas, nos processos e na filosofia educacional desenvolvida nas Instituições Metodistas de Educação. Resumidamente, nessa concepção desenvolvida, “capelania escolar” limita-se ao interno e aos cuidados espirituais, e “pastoral escolar” ocupa-se do interno, mas também do externo às instituições, dos cuidados espirituais, mas também da crítica e da reforma das práticas e dos processos que não estejam de acordo com a confes-sionalidade emanada da Igreja e do Evangelho. Pastoral Universitária e Escolar existe por fazer parte do sonho de educação da Igreja Metodista: proporcionar crescimento e amadurecimento não só nos aspectos técnicos, mas aliar o compromisso com a vida, que se expressa em consciência das relações injustas que compõem a sociedade e criatividade na busca da superação dessas relações...20 ○ ○ Conclusão mênicos, plurais, multi-religiosos e multi-culturais, estabelecidos dentro de um ambiente de liberdade, respeito mútuo, criatividade e participação coletiva. O zelo por essa dimensão ecumênica e universal, no mundo da escola e da universidade, com a superação da imposição de valores pela força ou intolerância, é o caminho capaz de construir parcerias criativas na direção do sonho de vida abundante e, como dizemos teologicamente, do Reino de Deus. Talvez, procurando sintetizar essa presença e ação das pastorais escolares e universitárias nas Instituições Metodistas de Educação, podemos lançar mão da declaração feita pelo documento “Referências da Pastoral do Instituto Educacional Piracicabano”, que diz: 20 ○ Referências da Pastoral do IEP IEP, 1997. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Referências bibliográficas Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista. In: Vida e missão missão: decisões do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista e Credo Social da Igreja Metodista. 2.ed. Piracicaba: Editora Unimep, 1982. Igreja Metodista. Plano para a vida e missão de igreja - Decisões do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista. Piracicaba: Editora UNIMEP, 1982. LIBÂNIO, João Batista. O que é pastoral pastoral. São Paulo: Brasiliense, 1982. Plano Quadrienal. In: Atas e documentos do XI Concílio Geral Geral. São Paulo: Igreja Metodista, 1974. 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