Edição 3 | Setembro | 2014 revista engenharia brasil alemanha Energia 2030 Tendências e Tecnologias do Amanhã Exemplo de Sucesso Eficiência Energética Energia Solar Smart Grid: eficiência e confiabilidade ao sistema elétrico Energia continua a ser um dos maiores desafios da indústria O desafio das células solares de terceira geração Editorial Precisão alemã. Energia brasileira. Há mais de 100 anos a Allianz Seguros oferece soluções locais com expertise global a seus clientes em todo o Brasil. Tanto tempo de trabalho nos deu a experiência necessária para apoiar seus negócios no país e fazer com que você se sinta em casa, com total segurança. Conte com a Allianz e aproveite todas as oportunidades. Acesse www.allianz.com.br e saiba mais. Carta ao Leitor Caros amigos da VDI-Brasil, A energia é essencial para a qualidade de vida de qualquer habitante da Terra. Tanto as grandes cidades, quanto pequenos vilarejos precisam de energia no dia a dia. Atualmente, energia não é luxo; é uma das necessidades básicas de nossa economia, do crescimento do PIB de cada nação e é, também, um assunto que está na pauta de todos os governos. Interessante é que somente sentimos a “presença da energia” quando ela não está presente. Aí sabemos que ela não é luxo, e sim uma necessidade! O assunto energia está em constante desenvolvimento e mudança. O mundo está se voltando cada vez mais para as energias renováveis e sustentáveis. A ONU, por exemplo, iniciou em 2014 a década da “Energia Sustentável para Todos”. Com essa campanha, a ONU quer que, em 2030, todos os países tenham acesso às tecnologias modernas para a geração de energia, que consigam dobrar a eficiência energética e, finalmente, que consigam duplicar a quantidade de energia gerada por fontes renováveis. Quando se fala de energia renovável, pode-se dizer que o Brasil é um país abençoado “por natureza”. Estima-se que 70,6% da energia elétrica gerada no Brasil provém de fonte hidráulica. Temos a alegria de poder dizer que possuímos uma das maiores, mais eficientes e mais modernas hidrelétricas do mundo: a usina de Itaipu. Somando-se energia hidráulica, energia proveniente da biomassa (7,6%) e eólica (1,1%), chegamos a quase 80% da energia elétrica nacional gerada por meio de fontes renováveis. No mundo, para vocês terem um comparativo, a geração de energia com fontes renováveis chega somente a 20%. E o Brasil quer mais: temos importantes “megaprojetos” que, juntos, devem aumentar de forma considerável a capacidade instalada no Brasil, reduzindo a dependência das termoelétricas. Dentre os “megaprojetos” gostaria de destacar três importantes investimentos: a nova usina hidrelétrica de Belo Monte; o investimento no maior parque eólico do Brasil no Rio Grande do Sul; e Angra III, a terceira usina da Central Nucelar Almirante Álvaro Alberto em Angra dos Reis. Já na Alemanha, a aposta é na “Virada Energética”, que se refere à transformação do abastecimento alemão de energia, abandonando petróleo, carvão, gás e energia atômica, rumo às energias renováveis. Até 2050, pelo menos 80% do abastecimento elétrico e 60% de todo o abastecimento energético deverão vir de fontes renováveis de energia. Assim como nas edições anteriores, o tema da nossa revista alinha-se ao nosso principal evento, o “Dia da Engenharia Alemã”, que, neste ano, tem a alegria de poder apresentar as mais importantes tendências e tecnologias existentes na geração energética. Não deixe de participar deste evento que acontecerá no dia 16 de outubro de 2014, em São Paulo. A Revista Engenharia Brasil-Alemanha resume, por fim, com alta qualidade, o que há de mais moderno no universo da energia. Trabalhamos com muito entusiasmo e “energia” para fazer desta revista um high-light tecnológico! Boa leitura! Com você de A a Z Christian Müller Presidente da VDI-Brasil Índice 06 Dependência hidráulica ainda mostra fragilidade do sistema energético 10 14 A energia do Oiapoque ao Chuí 19 Modelo de compra e venda de energia completa dez anos 22 Caminho da energia elétrica: da geração ao consumo Itaipu: a energia em recordes 32 Energia eólica mostra expansão espetacular 48 36 Hamburgo, alicerce da revolução energética alemã 40 46 Goldisthal: a reserva do ouro 56 58 62 68 72 78 82 86 Eficiência Energética no lar O papel da eficiência energética na sociedade Tecnologias de armazenagem deixam marcas na natureza O que se deve saber sobre a Virada Energética Cientistas estudam energia regenerativa e eletricidade do futuro Viver na casa do futuro Cogeração, jeito inteligente de produzir energia Smart Grid: eficiência e confiabilidade ao sistema elétrico O desafio das células solares da terceira geração Biomassa: a energia verde Energia continua a ser um dos maiores desafios da indústria 90 www.vdibrasil.com Revista Brasil-Alemanha é uma publicação da VDI-Brasil - Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha. CONSELHO EDITORIAL: Edgar Horny (Presidente de Honra VDI-Brasil), Christian Müller (Presidente VDI-Brasil), Matthias Neisser (Diretor Executivo VDI-Brasil), Thomas Timm (Tesoureiro) | JORNALISTA RESPONSÁVEL: Ana Paula Calegari - MTB 13477 | REDAÇÃO: Vladimir Goitia (Reportagens e Textos), Ana Paula Calegari e Priscila Kesselring (Textos, Reportagens e Revisão) | TRADUÇÃO: Renata Dias Mundt | FOTOS DE CAPA: Istockphoto e Divulgação | EQUIPE DE CRIAÇÃO: Flávia Viana, Willian Marcucci, Stella Braga e Elivelto de Paula | IMPRESSÃO: IMPRESSUL Indústria Gráfica Ltda. | TIRAGEM: 20.000 | COORDENAÇÃO COMERCIAL/ ADMINISTRATIVO: Tatiane Milani/ Giselle Botelho Soares Energia na Europa fatores, o preço de varejo da eletricidade no setor industrial subiu 3,5% ao ano entre 2008 e 2012. Isso significa que, no bloco europeu, as companhias pagam duas vezes mais pela eletricidade do que seus concorrentes nos Estados Unidos, por exemplo. Em relação ao gás, o setor produtivo ainda tem que arcar com valores entre três a quatro vezes maiores. Isso não é sustentável para as indústrias de alto consumo energético que enfrentam forte concorrência mundial. Por essa razão, a Europa precisa agir. Precisamos garantir pelo menos que a diferença dos preços do gás e da eletricidade não continue a aumentar. O estudo de preço demonstra como é importante atingir nossas metas de energia e clima com uma boa relação custo-benefício. Voltando à questão do clima, já existe uma posição comum? Durante um encontro em março deste ano, os chefes de Estado e de governo da União Europeia discutiram a proposta da Comissão Europeia sobre esse tema. E um acordo referente à estratégia política de 2030 deverá ser conseguido assim que possível, o mais tardar em outubro de 2014, a tempo das discussões sobre o clima em Paris, previsto para 2015. É importante que a União Europeia aja imediatamente e, dessa forma, ofereça um quadro previsível para as companhias. Os investidores no setor de energia consideram que o ano de 2020 foi ontem e 2030 será amanhã. Mercado e subsídios também estão em discussão? Não se pode discutir sobre concorrência industrial e política de energia na Europa sem destacar a necessidade de melhorias no mercado interno de energia. Mercados abertos são essenciais para incentivar os preços e a inovação nesse setor. Eles estimulam a entrada de novos concorrentes no mercado e, dessa forma, permitem que os consumidores encontrem melhores serviços e preços mais acessíveis. A União Europeia está tomando providências para garantir que o mercado interno possa funcionar melhor, por O abastecimento energético é um dos maiores desafios que a Europa enfrenta atualmente. A perspectiva de um aumento do preço da energia e a dependência crescente das importações ameaçam o fornecimento e põem em risco a economia do bloco. Existe também a necessidade de reduzir as emissões de gases do efeito estufa para limitar as alterações climáticas. Nos próximos anos, deverão ser feitos enormes investimentos para adaptar as infraestruturas energéticas da Europa às futuras necessidades. A seguir, leia a entrevista de Günther Oettinger, Vice-Presidente da Comissão Europeia de Energia, concedida à equipe VDI-Brasil. Qual a importância e o papel da energia na indústria europeia? Na União Europeia, a energia elétrica e a indústria são dois lados da mesma moeda. Uma base industrial sólida é a pré-condição para o fortalecimento da nossa economia, para a excelência de nossas pesquisas e para a quantidade e qualidade de empregos que oferecemos. A indústria responde por mais de 80% das exportações do bloco europeu e por 80% das pesquisas privadas e inovações. Ao mesmo tempo, a eletricidade afeta 90% da atividade econômica, especialmente as indústrias de alta intensidade, em segmentos como aço, produtos químicos, cimento, vidro, papel, automóveis e aeronáutica. Essa estreita relação entre os dois setores precisa ser refletida tanto na política de energia quanto na estratégia industrial da Comissão Europeia. Reafirmo que uma base industrial sólida tem extrema importância para nosso modelo econômico e social. Isso deve ser refletido na forma como definimos nossas políticas de energia e clima. 4 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Nessa política de energia e clima, como se insere a questão de emissão de gases? Em 22 de janeiro deste ano, a Comissão Europeia (CE), órgão executivo da União Europeia, apresentou planos para uma estratégia de clima e energia para o ano de 2030. Um dos principais objetivos é reduzir, até 2030, as emissões de gases de efeito estufa em 40%, em comparação ao nível registrado em 1990. Trata-se de um plano muito ambicioso, pois implica a triplicação da velocidade de redução nas emissões entre 2020 e 2030, em comparação com a velocidade a ser adotada até o ano de 2020. Além disso, precisamos ter em mente que a União Europeia é responsável por aproximadamente 11% das emissões de gases do efeito estufa em todo o mundo. Portanto, ela não conseguirá progredir sem apoio, caso queira preservar sua competitividade industrial. Precisamos da participação de parceiros globais na nossa luta contra as mudanças climáticas. E como anda o uso de fontes alternativas de energia? Em relação às quotas de renováveis no consumo de energia, a Comissão Europeia busca uma meta vinculativa de, no mínimo, 27% no âmbito da União Europeia. Um novo sistema de governança deverá garantir que esse ambicioso objetivo possa ser atingido. É importante estabelecer metas claras para proporcionar segurança jurídica e confiança que permitam garantir e gerar investimentos necessários em energias renováveis e na respectiva tecnologia. Além disso, precisamos renovar nossos esforços em relação à eficiência energética. A Comissão está analisando o avanço dos Estados-membros para alcançar as metas atuais de eficiência energética. Vale ressaltar que medidas eficazes de eficiência energética serão essenciais para atingir os objetivos até 2030. Como vem sendo administrada a política de preços? Junto à estratégia de clima e energia elétrica para 2030, a Comissão Europeia apresentou um estudo sobre custos e preços da energia na União Europeia. Esse levantamento mostra que, entre outros Foto: Istockphoto Foto: Divulgação Fornecimento de energia: um dos maiores desafios da UE exemplo, ao lidar com os efeitos de distorção dos subsídios de energia e controles de preço. Entretanto, um pré-requisito para que um mercado interno funcione adequadamente é uma infraestrutura bem desenvolvida. E o que vem sendo feito para isso? Com o objetivo de acelerar a conclusão das redes de gás e eletricidade, a Comissão Europeia apresentou, em outubro do ano passado, uma lista dos chamados “Projetos de Interesse Comum”. São cerca de 250 projetos que se beneficiam de procedimentos acelerados de licenciamento e de melhorias nas condições regulamentares, além da possibilidade de ter acesso a financiamentos da Connecting Europe Facility. A partir dessa linha de crédito, 5,85 bilhões de euros foram disponibilizados à infraestrutura de energia transeuropeia para o período de 2014 a 2020. O desenvolvimento da infraestrutura também é um fator importante da nossa estratégia para aumentar a segurança de energia. A crise do gás em 2009 mostrou como é importante que os Estados-membros estejam bem conectados, de modo a poderem ajudar uns aos outros nos momentos de necessidade. Considerando os recentes acontecimentos na Ucrânia, a segurança energética é um fator de extrema relevância na Europa. Recentemente, a Comissão Europeia realizou um estudo detalhado sobre isso e apresentou uma nova Estratégia Europeia de Segurança de Energia. Qual a principal conclusão sobre esses acontecimentos? Precisamos promover uma maior integração entre os nossos mercados para que possamos superar os desafios que a União Europeia enfrenta atualmente no setor de energia. Uma abordagem fragmentada não nos levará muito mais longe, considerando que uma verdadeira “europeização” da política de energia trará benefícios a longo prazo, tanto para a população do bloco quanto para os negócios europeus. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 5 Planejamento Perspectivas do setor contrastam com a situação atual; até 2022, estimam-se investimentos de R$ 260 bilhões em geração e transmissão de eletricidade no País Por Vladimir Goitia Da usina de Marmelos a Belo Monte, de Henry Borden a Itaipu, passando por Paulo Afonso, Furnas, Tucuruí, Xingó, Jirau e Santo Antônio, as grandes hidrelétricas em operação e as que estão em construção são os pilares que sustentam - e ainda devem sustentar - o sistema elétrico brasileiro. Pior é que parece ser uma tendência ainda a ser adotada em projetos futuros, em especial aqueles localizados na Amazônia, onde ainda se concentra o grande potencial hidrelétrico. Foto: Istockphoto Há muito tempo o Brasil não ficava tão dependente de chuvas como agora, por conta das usinas hidrelétricas construídas a fio d’água, aquelas que não dispõem de reservatórios ou os têm, mas em dimensões menores do que deveriam ter. Para especialistas do setor, a exploração intensiva do potencial hidráulico brasileiro nas últimas décadas mostrou a vulnerabilidade e a limitação desses empreendimentos no que diz respeito à capacidade de gerar energia elétrica. 6 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 “Estamos bastante tranquilos apesar do problema da falta de chuvas, além de estarmos bem preparados para enfrentar qualquer adversidade”, afirma Tolmasquim, o presidente da EPE. Na avaliação dele, o momento nem se compara ao de 2001, quando houve necessidade de racionar eletricidade. “A energia acumulada nos reservatórios em 2001 chegava a 72,7%, e este ano caiu para 39%”, compara. Mesmo assim, de acordo com Tolmasquim, o risco de racionamento é “muito baixo” e “muito menor” quando comparado ao daquele ano. No início de maio, durante um evento sobre o setor energético, Tolmasquim declarou, entretanto, que o governo “não pestanejaria” caso fosse necessário racionalizar ou até mesmo racionar energia. “Estamos bastante tranquilos apesar do problema da falta de chuvas, além de estarmos bem preparados para enfrentar qualquer adversidade”, afirma o presidente da EPE. Ele lembra que, entre 1996 e 2000, o consumo de energia no País cresceu 26,5% e a capacidade instalada, 24,6%. Ou seja, praticamente no mesmo patamar. “Já entre 2001 e 2013, o consumo aumentou 58%, mas a capacidade instalada para gerar energia teve uma expansão muito mais expressiva, de 72,4%”, argumenta Tolmasquim. Indagado sobre se a aposta que o governo federal fez na geração hídrica teria sido equivocada ou não, o presidente da EPE esquivou-se e disse que hoje há uma diversificação significativa da matriz energética brasileira. Segundo ele, em 2001, a dependência hidrelétrica era de 82%, e hoje caiu para 65%. E pode até ser menor. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 7 Foto: Divulgação Dependência hidráulica ainda mostra fragilidade do sistema energético Entretanto, o cenário não é tão animador como estima o governo federal. Roberto D’Araújo, diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético (Ilumina), lembra que, nas décadas de 1970 e 1980, os reservatórios construídos na região Amazônica armazenavam volume de água equivalente a pelo menos dois anos de consumo de energia. Hoje, na avaliação dele, não passam de cinco meses. “É impossível fazer mais reservatórios de água na Amazônia”, adverte D’Araújo, também fundador do Ilumina e um dos maiores especialistas brasileiros na área. “Se quisermos, por exemplo, aumentar em mais um mês o equivalente do consumo de energia, teríamos de ampliar em 20% a capacidade dos reservatórios. Isso significa um Rio São Francisco inteiro, mas não existe mais lugar para isso”, acrescenta. Embora o País tenha reforçado seu sistema de transmissão nos últimos 12 anos e aumentado sua base de geração térmica, o momento energético nacional é de extrema fragilidade, na opinião de D’Araújo. Primeiro, porque não está chovendo e, depois, porque o consumo de eletricidade continua alto. Assim, ainda de acordo com o diretor do Ilumina, o risco de decretar racionamento, como em 2001, vem aumentando. Em recente levantamento, a PSR, uma das consultorias mais respeitadas no setor, também adverte sobre esse risco. O estudo da consultora mostra que chegaram a quase 50% as chances de que os estoques de água nos reservatórios caiam abaixo de um décimo de sua capacidade até o fim do ano. Se isso de fato ocorrer, o Brasil terá mesmo de iniciar o racionamento. A PSR lembra que o limite de 10% de estoque de água é considerado o mínimo para que as hidrelétricas possam operar com segurança. D’Araújo afirma ainda ser impossível determinar quanto tempo poderá durar a fragilidade do sistema à qual chegou o Brasil. “O que é possível afirmar é que o governo sabia que a situação tomava esse rumo, e não foi por falta de alerta. Desde 2010, informávamos sistematicamente sobre o decréscimo da capacidade dos reservatórios das hidrelétricas”, diz o consultor do Ilumina. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, reconhece que o Brasil enfrentou nos dois primeiros meses deste ano a “pior situação hidrológica desde 1931, principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste”. Perspectivas otimistas Apesar das dificuldades e da vulnerabilidade do sistema, as perspectivas do setor são invejáveis e contrastam com a situação atual. Até 2022, o governo estima investimentos de R$ 260 bilhões em obras de geração e transmissão de energia elétrica. Esse montante representa, de acordo com o PDE 2022, 22,6% do total dos cerca de R$ 1,15 trilhão (cerca de US$ 520 bilhões) esperado para investimentos em energia como um todo, que inclui também toda a cadeia de petróleo e gás. O PDE 2022, usado como referência para cálculos pelo setor energético sobre aquilo que se planeja de expansão para os próximos dez anos, projeta ainda que a capacidade instalada do País salte dos 8 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 atuais 135 mil MW (inclui a potência outorgada) para pouco mais de 183 mil MW em 2022. Vale ressaltar que o Brasil possui hoje 3.152 empreendimentos energéticos em operação, que conseguem gerar 128.286 MW de potência instalada. Para os próximos anos está prevista uma adição de 35.950 MW na capacidade de geração, provenientes de 191 empreendimentos em construção e outros 525 que foram outorgados pelo governo. O PDE 2022, aprovado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) no início deste ano, aponta ainda que, ao longo dos próximos dez anos, a participação das fontes renováveis na capacidade instalada de geração elétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN) crescerá de 83,8%, em 2012, para 85,8% em 2022. Esse aumento expressivo, segundo a EPE, deve ocorrer principalmente devido ao crescimento da participação do parque eólico, que sairá de 1,5%, no final de 2012, para 9,5% em 2022. “O aumento reflete a manutenção da competitividade desta fonte no horizonte decenal. Assim, estima-se uma capacidade instalada de usinas eólicas de 17,4 mil MW em 2022, significativamente acima dos 1,8 mil MW verificados ao final de 2012”, informa a EPE no estudo. A estimativa do governo está aquém do que a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), entidade que congrega e representa o setor, estima, que é 21.800 MW. Apesar da perda de participação relativa das hidrelétricas, que deverá cair de 71%, em 2012, para Petróleo e gás Já a cadeia de petróleo e gás natural (exploração e produção, refino, oferta de derivados e infraestrutura de transporte) pode abocanhar pouco mais de 72,5% desse montante, ou cerca de R$ 835 bilhões (US$ 380 bilhões). De acordo com o PDE 2022, apenas em exploração e produção de petróleo os investimentos previstos podem alcançar R$ 625 bilhões. Ainda segundo as estimativas da EPE, a produção nacional de petróleo, atualmente na casa dos 2 milhões de barris por dia (bpd), pode mais do que dobrar nesse mesmo período e pular para 5 milhões de bpd, sendo a demanda projetada para o final do período de aproximadamente 3 milhões de bpd. A quase totalidade do excedente, em torno de 2 milhões de bpd, deverá ser direcionada à exportação. Mesmo com o significativo aumento da produção, prevê-se mais que a duplicação das reservas provadas, chegando-se a cerca de 40 bilhões de barris de petróleo e 1,5 trilhão de metros cúbicos de gás natural no horizonte do plano. O órgão estatal projeta também uma ampliação do gás nacional na oferta, de um patamar de 47 milhões de metros cúbicos por dia (m³/dia), este ano, para 112 milhões de m³/dia em 2021, excluindo a região Norte do país. Somando as importações de 30 milhões de m³/dia de gás da Bolívia e de 41 milhões de m³/dia de gás natural liquefeito (GNL), a oferta total de cerca de 98 milhões de m³/ dia, em 2012, pularia para 183 milhões de m³/dia em 2021. Esses cenários, traçados tanto por órgãos públicos como por consultoras privadas, mostram que a área de petróleo e gás no Brasil pode mesmo apresentar a maior movimentação de recursos nos próximos dez anos. “Esse setor reúne todas as condições para isso”, avalia Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), empresa de consultoria e informação especializada e gestão de negócios no mercado de energia. Mas, alerta o consultor, “a concretização dessas projeções dependerá do cenário econômico internacional e dos planos do governo nesse campo, principalmente se levarmos em conta a forte intervenção que vem exercendo nesse setor, que acabou praticamente sendo politizado”. Pires acredita que, para atrair os recursos necessários para desenvolver a área de petróleo e gás, além do pré-sal, o governo terá de abrir mão de um pacote que permita colocar o Brasil de novo na rota do interesse dos investidores. Foto: Istockphoto Foto: Istockphoto O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2022), elaborado pelo órgão que ele preside, deixou de fora pelo menos 17 usinas de aproveitamento hidrelétrico previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A exclusão indica que o próprio governo não acredita nessas obras no horizonte dos próximos dez anos. Isso porque existem problemas complexos que precisam ser contornados para que esses projetos se tornem viáveis. Alguns deles estão ainda em fase de estudo de viabilidade ou de inventário e, dentro do horizonte do PDE, não se pode considerar que ficarão prontos. O PDE 2022, aponta que, ao longo dos próximos dez anos, a participação das fontes renováveis na capacidade instalada de geração elétrica no sistema Interligado Nacional (SIN) crescerá 83,8%, em 2012, para 85,8% em 2022. 65% em 2022, projeta-se uma expansão significativa de mais de 34 mil MW de geração hídrica no horizonte decenal – sendo este o maior crescimento absoluto em termos de capacidade instalada. No âmbito regional, a maior expansão hidrelétrica deve ocorrer na região Norte, devido à entrada em operação de grandes empreendimentos, com destaque para a usina de Belo Monte, cuja motorização deve levar três anos com a entrada em operação de seis máquinas de 611,1 MW por ano. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 9 Distribuição Sistema Interligado Nacional (SIN) A energia do Oiapoque ao Chuí Centros de Operação 5 Realizam a coordenação, supervisão e controle de toda matriz energética brasileira Por Vladimir Goitia 50 mil O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) lembra que o Brasil possuía sistemas elétricos desconectados, o que impedia uma operação eficiente das bacias hidrográficas regionais e de transmissão de energia elétrica entre as principais usinas geradoras. Hoje, o Sistema Interligado Nacional (SIN) de eletrificação permite que as diferentes regiões permutem energia entre si, quando uma delas apresenta queda no nível de reservatórios. Como o regime de chuvas é diferente nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste, os grandes troncos (linhas de transmissão de alta tensão) permitem que regiões com produção insuficiente de energia sejam abastecidas por centros de geração em situação favorável. Essa coordenação é feita pelo ONS, cuja função básica é controlar a operação física das instalações de geração e de transmissão de energia elétrica no SIN, onde a predominância é de usinas hidrelétricas, privilégio restrito ao Brasil no mundo todo. Para operar o SIN, o ONS conta com 5 Centros de Operação espalhados pelo País, que realizam, ininterruptamente, a coordenação, supervisão e controle de toda a matriz energética brasileira. Para ter uma ideia desse trabalho, esses Centros controlam mais de 50 mil ocorrências diárias; recebem, a cada 4 segundos, mais de 40 mil informações; gravam mais de 10 milhões de registros por dia; e têm à disposição quase 800 instruções de operação e mais mil diagramas atualizados. A cada 04 segundos + 40 mil Informações 800 Instruções de operação 10 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Foto : Isto ckph oto Gravam mais 10 milhões registros por dia Smart Grid Foto: Istockphoto Do extremo Norte ao extremo Sul do País existem quase 5.600 cidades, algumas no meio da floresta, outras em regiões onde pode se chegar apenas a pé. Não importa o tamanho, mas todas precisam de energia elétrica. Não é à toa que as linhas de transmissão no Brasil somam mais de duas vezes a volta ao redor da Terra. São cerca de 900 linhas que, se emendadas, chegariam a 100 mil quilômetros. As empresas da Eletrobras, estatal de capital aberto, controlada pelo governo, são responsáveis por quase 60 mil quilômetros delas. Até 2018, outros 13 mil quilômetros de novas linhas de transmissão e 39 subestações vão absorver quase R$ 18 bilhões em investimentos, de acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Isso, segundo a EPE, deve garantir as condições para atender às necessidades de intercâmbio entre as regiões do País, até porque as maiores e principais usinas hidrelétricas estão situadas a distâncias consideráveis dos centros consumidores. Vale ressaltar que, depois de deixar a usina, independentemente do tipo da fonte geradora, a energia elétrica exige infraestrutura suficiente para o tráfego de energia de tensões que variam de 88 kV (quilovolts) a 750 kV. E é somente ao chegar às subestações das distribuidoras que a tensão é rebaixada. Depois, por meio de um sistema composto por fios, postes e transformadores, ela vai para as unidades finais em 127 volts ou 220 volts. Ocorrências Diárias O sistema brasileiro de transmissão de energia ainda difere daquele em operação ou em fase de experimentação em alguns países europeus e nos Estados Unidos, onde prevalece o chamado Smart Grid, ou rede inteligente. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já regulamentou esse sistema, no qual é aplicada a tecnologia da informação para automatizar a rede elétrica e torná-la mais ágil e eficiente. Em tempos de escassez de chuvas, como a que o Brasil vem vivenciando este ano em algumas regiões de alto consumo energético, o uso dos Smart Grids poderia poupar a população de apagões ou racionamento. Contudo, esse sistema ainda está em fase de experiência em algumas distribuidoras. “É um caminho sem volta”, diz Djalma Mosqueira Falcão, professor titular do Programa de Energia Elétrica da COPPE/UFRJ, ao se referir à eficácia do sistema, que permitirá aos brasileiros acompanharem, em tempo real, o consumo de energia, o preço em determinado horário do dia e até vender energia gerada em casa para as concessionárias. Distribuição O sistema de distribuição de energia elétrica no Brasil, regulado por regras dispostas em resoluções da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), é operado por 63 concessionárias, entre as quais nove estão no Norte, 11 no Nordeste, cinco no Centro- Oeste, 21 no Sudeste e 17 no Sul do País. Essas distribuidoras são agrupadas por critérios regionais e número de consumidores. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 11 Foto: Istockphoto O sistema brasileiro de transmissão de energia ainda difere daquele em operação ou em fase de experimentação em alguns países europeus e nos Estados Unidos, onde prevalece o Smart Grid. Antes da privatização do setor no início da década de 2000, as empresas eram verticalizadas e não havia separação dos negócios da cadeia produtiva (geração, transmissão e distribuição). Hoje independentes, as distribuidoras são o elo entre o setor de energia elétrica e a sociedade, visto que suas instalações recebem das companhias de transmissão todo o suprimento destinado ao abastecimento no País. O documento denominado Procedimentos de Distribuição (Prodist) dispõe disciplinas, condições, responsabilidades e penalidades relativas à conexão, planejamento da expansão, operação e medição da energia elétrica. Estabelece ainda critérios e indicadores de qualidade para consumidores e produtores, distribuidores e agentes importadores e exportadores de energia. De acordo com dados da Aneel, o Brasil conta com mais de 72 milhões de Unidades Consumidoras (UC), em 99% dos municípios brasileiros. São chamadas UCs os conjuntos de instalações e equipamentos elétricos caracterizados pelo recebimento de energia elétrica em um só ponto de entrega, com medição individualizada e correspondente a um único consumidor. Do total de UCs espalhados no território nacional, 85% são residenciais. O setor de distribuição é um dos mais regulados e fiscalizados do setor elétrico; além de prestar serviço público sob contrato com o órgão regulador do setor. A conexão e o atendimento ao consumidor, qualquer que seja o seu porte, são realizados pelas distribuidoras de energia. Além delas, as cooperativas de eletrificação rural - entidades de pequeno porte - transmitem e distribuem energia elétrica exclusivamente para os associados. Subestações alteram a tensão da energia elétrica recebida. Essas instalações são mantidas tanto por companhias transmissoras quanto distribuidoras. Energia distribuída é a energia efetivamente entregue aos consumidores conectados à rede elétrica de uma determinada empresa de distribuição. Essa rede pode ser aérea, suportada por postes, ou por dutos subterrâneos com cabos, fios ou fibras ópticas. Do total da energia distribuída, o setor privado é responsável por 67% dela. Principais empresas de transmissão Total de linhas em km Furnas 20.000 18.588 Chesf 12.316 CTEEP 11.300 Eletrosul Eletronorte 9.888 Cemig 7.506 6.055 CEEE Copel 1.913 12 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Foto: Istockphoto Caminho da energia elétrica: da geração ao consumo Passo a passo da energia elétrica, da geração até o consumidor final, seja este residencial, industrial, comercial ou de serviços. Geração Energia termelétrica Unidades geradoras O primeiro passo para produzir energia elétrica é obter a força necessária e suficiente para fazer girar turbinas de usinas de eletricidade. Essa força pode ser obtida de diversas fontes de energia primária. No Brasil, a energia elétrica vem, em primeiro lugar, de usinas hidrelétricas. Depois, de termelétricas (gás, petróleo, biomassa e carvão mineral, entre outros), eólica e, por último, de usinas nucleares. Em regiões com poucos recursos hidrográficos, mas com boas reservas de óleo, carvão mineral, biomassa e de gás, é possível girar as hélices das turbinas com a força do vapor resultante da queima desses combustíveis. Para isso, são construídas usinas termelétricas. A maioria delas usa fontes primárias consideradas não renováveis, mas em alguns lugares do Brasil já é possível gerar energia queimando combustíveis alternativos, como a biomassa (bagaço de cana, casca de arroz e celulose). Até maio deste ano, as termelétricas geravam 39 mil MW. ção CP Foto: Divulga FL Energia hidrelétrica Em países como o Brasil, que possui inúmeros rios com grandes desníveis, uma das soluções mais econômicas encontradas para fazer girar turbinas foi aproveitar a força das águas. Para isso, foram - e ainda são - construídas usinas hidrelétricas. Nelas, uma barragem ou represa controla a força das águas do rio. Até maio, as mais de mil hidrelétricas geravam quase 87 mil MW. Construída e administrada pelo Brasil e Paraguai, Itaipu, no Rio Paraná, é a segunda maior do mundo em potência instalada, com 14 mil MW de capacidade de geração, atrás apenas de Três Gargantas, na China. 14 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 çã Foto: Divulga o CPFL Energia eólica A transformação da energia do vento em energia útil está entre as mais limpas e renováveis. A energia eólica no Brasil começou em 1992, com o início da operação comercial do primeiro aerogerador, de apenas 225 kW de potência, instalado no arquipélago de Fernando de Noronha (Pernambuco). De lá para cá muita coisa mudou. E as perspectivas para gerar energia com a força dos ventos é promissora. Ao todo, já são quase 150 parques eólicos funcionando no Energia nuclear País, que geram cerca de 4 mil MW. Em 2018, as usinas eólicas devem gerar pelo menos 14 mil Na natureza, algumas substâncias, como o MW, energia suficiente para abastecer 20 milhões urânio, têm núcleos atômicos extremamente de residências. pesados e instáveis, que podem ser divididos em partículas menores se forem bombardeados por nêutrons. Os nêutrons, ao atingir um núcleo de urânio, provocam sua quebra em dois núcleos menores e a liberação de mais Transmissão nêutrons, que, por sua vez, irão atingir outros núcleos de urânio e provocar novas quebras. Subestações Essa é uma reação em cadeia que gera energia. A energia sai da usina direto para estações de transAs usinas nucleares brasileiras em operação – missão, onde passa por transformadores que aumenAngra 1 e Angra 2 –ficam em Angra dos Reis, tam sua voltagem. Em seguida, segue pelas linhas de no Rio de Janeiro, e pertencem à Eletronuclealta tensão. Como as usinas são, geralmente, consar. As duas geram menos de 2.000 MW. A tertruídas longe dos centros consumidores (cidades e ceira usina deve entrar em operação em 2016. indústrias), a eletricidade precisa viajar por longas distâncias, em um complexo sistema de transmissão. Ela é transportada através de cabos aéreos, revestidos por camadas isolantes e fixados em grandes torres de rede de transmissão. Outros elementos importantes abaixam a sua tensão, para que possa ser iniciado das redes de transmissão são os isolantes de vidro ou o processo de distribuição. Apesar de mais baixa, a porcelana, que sustentam os cabos e impedem destensão ainda não é adequada para o consumo imecargas elétricas durante o trajeto. diato. Por isso, transformadores menores são instaNo caminho, a eletricidade passa por diversas sulados nos postes das ruas. bestações, onde aparelhos transformadores aumentam ou diminuem sua voltagem, alterando o que Sistema Interligado Nacional (SIN) chamamos de tensão elétrica. No início do percurO sistema de transmissão brasileiro, consideraso, os transformadores elevam a tensão, evitando a do um dos maiores do mundo, é controlado pelo perda excessiva de energia. Quando a eletricidade chega perto dos centros de consumo, as subestações diminuem a tensão elétrica, para que ela possa chegar às residências, empresas e indústrias. A partir daí, os cabos prosseguem por via aérea ou subterrânea, formando as redes de distribuição. Depois de percorrer o longo caminho entre as usinas e os centros consumidores nas redes de transmissão, a energia elétrica chega a subestações que Foto: Istockphoto Distribuição setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 15 Eletricidade, o serviço mais universalizado do Brasil A eletricidade, que chega até o consumidor final, pode ter viajado centenas ou milhares de quilômetros em linhas de transmissão. Além disso, pode ter sido gerada por diferentes usinas ao longo do ano. Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que engloba empresas de todo o País que trabalham de forma interligada. A estatal Eletrobras possui mais da metade das linhas de transmissão. O Sistema Interligado Nacional (SIN), formado basicamente por empresas de geração, transmissão e distribuição do país, permite o intercâmbio de energia elétrica entre as diversas regiões brasileiras. Isso significa que a eletricidade que chega até o consumidor final pode ter viajado centenas ou milhares de quilômetros em linhas de transmissão. Além disso, pode ter sido gerada por diferentes usinas ao longo do ano. Apesar de o SIN abastecer a maior parte do País, alguns sistemas menores e isolados também são utilizados, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Os sistemas isolados geram a energia que vai ser consumida apenas em uma determinada localidade ou até mesmo por uma só indústria. Distribuição Atualmente, o Brasil possui 63 concessionárias do serviço público de distribuição de energia elétrica, além de um conjunto de permissionárias (cooperativas de eletrificação rural que passaram pelo processo de enquadramento como permissionária de serviço publico de distribuição de energia elétrica). As empresas responsáveis pela distribuição também 16 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 instalam, em cada local de consumo, um pequeno aparelho que consegue medir a quantidade de energia por eles utilizada. A medição é feita por hora e chamamos de horário de pico o momento em que uma localidade utiliza maior quantidade de energia elétrica. Nos centros urbanos, o horário de pico se dá por volta das 18 horas, quando escurece e, normalmente, as pessoas chegam do trabalho acendendo as luzes, ligando os condicionadores de ar e a televisão e tomando banho com a água aquecida por chuveiros elétricos. Subestações de distribuição A eletricidade passa pelos transformadores de tensão nas subestações, que diminuem a voltagem dela. Só então segue pela rede de distribuição. Fiação dos postes A energia passa pelos transformadores de distribuição, que rebaixam a voltagem de novo. Depois, passa pela fiação - aérea ou subterrânea -, que a leva até as ruas. Consumidor final Nas tomadas do consumidor final, a energia está disponível para utilização no mesmo momento em que é gerada. Fotos: Divulgação CPFL Por Helio Viana Pereira* Ao contrário do que se pode imaginar, o serviço público mais universalizado do Brasil é o de eletricidade. Mesmo em lugares remotos, milhares de brasileiros têm acesso à energia necessária para assistir TV, armazenar alimentos na geladeira ou utilizar o ar-condicionado. São mais de 74 milhões de unidades consumidoras atendidas por 63 distribuidoras em todo o País, com um nível de penetração próximo a 100% da população. Essa conquista do setor elétrico brasileiro tornase ainda mais grandiosa quando se recorda que o Brasil é o quinto maior país do mundo em área territorial e em população, cuja demanda por energia cresce ano a ano com a expansão do crédito habitacional, o aumento da renda das famílias e a ampliação do consumo de bens duráveis. A energia elétrica é, sobretudo, um vetor primordial para o desenvolvimento de uma nação. As características geoeconômicas particulares do Brasil moldaram os sistemas de geração, transmissão e distribuição de energia. O esforço do Governo Federal e das empresas de energia elétrica para atender adequadamente as necessidades energéticas do País resultou na constituição do Sistema Interligado Nacional (SIN), composto por usinas de geração, linhas de transmissão e ativos de distribuição. É graças ao SIN, por exemplo, que o Brasil tem sido capaz de enfrentar, neste ano, a pior seca já registrada na história da região Sudeste sem que faltasse um KWh sequer para as indústrias ou para as residências. É o SIN também que possibilita que o grande potencial energético na região Amazônica abasteça milhões de pessoas no Rio de Janeiro ou em São Paulo, ou que o potencial eólico do vento minuano no Rio Grande do Sul vire a fonte de eletricidade que abastece inúmeras cidades no Nordeste. No Brasil, energia não tem carimbo. Por meio de enormes troncos de transmissão, o SIN é como se fosse uma grande “rodovia elétrica” pelo qual a energia flui de uma região para a outra, interligando todo o território nacional. O SIN tam- bém pode ser comparado com um organismo vivo que nunca para de crescer. A título de ilustração, o parque de geração de energia do Brasil cresceu 69,2% de 2001 a 2013, de 74,876 mil MW para 126,574 mil MW, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Se as projeções do regulador estiverem certas, a capacidade de produção nacional deverá crescer mais 21,2% até 2020, para 153,638 mil MW. A mesma lógica vale para a malha de transmissão, que cresceu 40,9% de 2007 a 2013, para 118,356 mil quilômetros, ainda de acordo com dados da Aneel. O tamanho atual da rede brasileira seria capaz de interligar quase todo continente europeu, de Lisboa a Moscou. Até 2016, as projeções do Ministério de Minas e Energia (MME) indicam que a expansão do sistema deve ser de 24,9%, alcançando 147,904 mil quilômetros de extensão. Grandes desafios permanecem na construção do sistema elétrico brasileiro. A decisão de não se construírem hidrelétricas com reservatórios certamente merece ser revisitada, sobretudo em razão das mudanças climáticas que tornarão os eventos hidrológicos mais extremados e imprevisíveis. Ao mesmo tempo, é fundamental estimular a maior inserção das termelétricas na base da matriz elétrica, em especial as usinas a gás natural. Em que pese a conjuntura desafiadora, governo e empresas estão trabalhando fortemente para diversificar a matriz elétrica brasileira. Nos últimos anos, as usinas, a biomassa e os projetos eólicos tiveram avanços notáveis, e agora tudo indica que a energia solar pode trilhar o mesmo caminho de sucesso com a realização do primeiro leilão exclusivo para a fonte, ainda este ano. Deste modo, o Brasil preserva o caráter limpo e renovável de sua matriz energética ao mesmo tempo em que amplia a segurança energética por meio da diversificação das fontes de geração. * Vice-presidente de Operações da CPFL Energia e presidente do Conselho de Administração da CPFL Paulista, CPFL Piratininga, RGE e CPFL Geração setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 17 Mercado Modelo de compra e venda de energia completa dez anos Por Vladimir Goitia Ganha aquele que oferecer energia elétrica pelo menor preço por megawatt/ hora para atendimento da demanda prevista pelas distribuidoras. Há exatamente dez anos, entrou em vigor um modelo que determinou as bases de comercialização (compra e venda) e de contratação de energia elétrica no Brasil. Desde então, as concessionárias de distribuição de energia são obrigadas a garantir o atendimento a 100% de seus mercados, além de potência suficiente, sob o risco de serem penalizadas, conforme estabelecido no Decreto Federal nº 5.163/2004 e Lei 10.848/2004. Isso quer dizer que as distribuidoras precisam conseguir um nível suficiente de assertividade de sua previsão de consumo para atender a demanda do público em geral, das empresas, das indústrias e dos setores de comércio e serviços. Para tornar isso viável, foi definido que a comercialização de energia elétrica seja realizada em dois tipos de ambientes de mercado: Ambiente de Contratação Regulada (ACR) e de Ambiente de Contratação Livre (ACL). ACR ou mercado regulado to: Fo to ho kp oc Ist No Ambiente de Contratação Regulada (ACR), vendedores (geradores, produtores independentes, autoprodutores ou comercializadores) e distribuidores de energia elétrica precisam se submeter a leilões de compra e venda de energia elétrica proveniente de grandes empreendimentos de geração existentes e de novos empreendimentos de geração, chamados de Geração Centralizada (GC). Os leilões são regulados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e promovidos pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). É aqui que o critério de menor tarifa é utilizado para definir os vencedores de cada leilão, de acordo com a Aneel. Ou seja, ganha aquele que oferecer energia elétrica pelo menor preço por megawatt/ hora para atendimento da demanda prevista pelas distribuidoras. A compra e venda de energia é formalizada por meio de contratos bilaterais, denominados Contratos de Comercialização de Energia Elétrica no Ambiente Regulado (CCEAR). Para cada tipo de leilão, há CCEARs com prazos específicos de duração. Mas as distribuidoras têm ainda outras opções de compra de energia. Uma delas refere-se à aquisição de energia da chamada Geração Distribuída (GD), que se caracteriza pela geração de usinas de pequeno porte conectadas a redes locais de distribuição. A vantagem sobre a compra de energia de usinas que fazem parte do grupo da GC é a economia na transmissão e na redução de perdas, justamente por estarem localizadas em áreas próximas ao distribuidor. É bom ressaltar que essa opção é incentivada pelo Ministério de Minas e Energia, uma vez que ela pode ser contratada diretamente pela distribuidora até o limite de 10% de sua carga total, a partir somente de chamadas públicas promovidas diretamente pelas distribuidoras. De acordo com o superintendente de Estudos do Mercado da Aneel, Frederico Rodrigues, “as distribuidoras podem ainda adquirir de usinas que produzem energia elétrica a partir de fontes alternativas – usinas eólicas, pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e termelétricas a partir de biomassa – contratadas já na primeira etapa do Programa setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 19 A Câmara de Comercialização de energia elétrica (CCEE), que define as regras e procedimentos de comercialização nesse ambiente, explica que o consumidor livre precisa apresentar cobertura de atendimento de 100% de seu consumo de energia. oto kph stoc o: I Fot de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa)”. Essa modalidade tem o objetivo de aumentar a participação dessas fontes no Sistema Interligado Nacional (SIN). E, finalmente, as distribuidoras podem adquirir energia da usina de Itaipu Binacional. ACL ou mercado livre O Ambiente de Contratação Livre (ACL) ou Mercado Livre é o segmento do setor elétrico no qual se realizam as operações de compra e venda de energia elétrica por meio de contratos bilaterais. Esses contratos contêm condições, preços e volumes livremente negociados entre geradores, comercializadores, importadores e exportadores de energia e consumidores livres convencionais. Entre estes, estão os segmentos industriais eletro-intensivos, além de grandes plantas industriais, como a automobilística, alimentícia, siderúrgica e química. De acordo com a Aneel, as distribuidoras de energia que atuam no ACR não têm como participar desse ambiente, uma vez que as características de compra e venda em ambos os ambientes são diferentes. “Em síntese, as distribuidoras atuam somente no ACR, ao passo que os comercializadores, consumidores livres e especiais atuam exclusivamente no ACL. E somente aos geradores é facultado optar em qual segmento desejam vender sua energia”, explica o superintendente de Estudos do Mercado da Aneel, Frederico Rodrigues. A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), que define as regras e procedimentos 20 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 de comercialização nesse ambiente, explica que o consumidor livre precisa apresentar cobertura para atendimento de 100% de seu consumo de energia. Para evitar problemas, essa verificação é realizada mensalmente com base nos dados de consumo e contratos de compra dos últimos doze meses. A não comprovação de cobertura do consumo, por exemplo, sujeita esse tipo de consumidor a penalidades. Vale ressaltar que os agentes geradores - entre eles, concessionárias de serviço público de geração -, produtores independentes de energia, autoprodutores ou comercializadores podem vender energia elétrica nos dois ambientes, mantendo o caráter competitivo da geração. Todos os contratos, sejam do ACR ou do ACL, são registrados na CCEE e servem de base para a contabilização e liquidação das diferenças no mercado de curto prazo. A principal vantagem nesse ambiente é a possibilidade de negociar produtos customizados e a segurança contratual com relação ao preço. Esse diferencial possibilita ao consumidor convencional escolher entre os diversos tipos de contratos, aquele que melhor atende às suas expectativas de custo e benefício. Além disso, é possível ainda o mercado livre de energia para consumidores atendidos por fontes alternativas de geração (eólica, biomassa e PCHs) em qualquer tensão, em cuja unidade consumidora a demanda contratada totalize, em qualquer segmento horo sazonal (contratos e tarifas diferenciadas), no mínimo 500 kW. Isto é, os consumidores horo sazonais que optem por esse mercado, por exemplo, são beneficiados com uma redução de 50% nas tarifas do uso de sistemas de transmissão e de distribuição. Hidrelétrica Itaipu: a energia em recordes Itaipu poderia abastecer, sozinha, a demanda de uma metrópole como São Quando o relógio marcou meia-noite no dia 31 de dezembro de 2013, a usina hidrelétrica de Itaipu, instalada no Rio Paraná, exatamente na divisa do Brasil com o Paraguai, fechava o ano com a produção histórica de 98.630.035 megawatts/hora (MWh). Pelo segundo ano consecutivo, o empreendimento binacional, administrado em sociedade por brasileiros e paraguaios, estabelecia um novo recorde mundial de produção. Nenhuma outra usina do planeta jamais havia gerado tanta energia. “Foi o melhor ano da nossa história”, salienta o diretor-geral brasileiro de Itaipu, Jorge Samek. Para se ter uma ideia, com os 98,630 milhões de MWh, Itaipu poderia abastecer, sozinha, a demanda de uma metrópole como São Paulo, por três anos e quatro meses; o atual consumo de energia elétrica da Alemanha, por dois meses; ou de todo o mundo, por dois dias. Com 20 unidades geradoras e 14.000 MW de potência instalada, a usina foi responsável, em 2013, por 17% da energia elétrica consumida no Brasil; 22 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 no Paraguai, o índice chegou a 75%. Nem mesmo a gigante Três Gargantas, inaugurada em 2003 no Rio Yang-tsé, na China, com 32 unidades geradoras e 22.500 MW de capacidade instalada, supera Itaipu no quesito produção. Mas como uma usina com 40 anos de idade - completados em maio de 2014 - e 30 anos de operação (a primeira unidade geradora foi acionada em 1984) consegue manter a produtividade em ascensão, acumulando recorde atrás de recorde? Jorge Samek cita alguns fatores que ajudam a explicar o desempenho; entre eles, o regime hídrico favorável, o sistema de transmissão eficiente, a manutenção rigorosa dos equipamentos, a atualização permanente e a equipe motivada e com alto nível técnico. Uma estratégia recente, que combina disponibilidade de água e maior articulação das áreas técnicas e os parceiros externos de Itaipu (Eletrobras, ONS, Furnas, Copel e a estatal paraguaia Ande), também teve impacto na produção. Entretanto, Samek diz que é do consumidor – quando ele liga o aparelho Fotos: Caio Coronel/ Itaipu Binacional Aos 40 anos de idade, Itaipu permanece no topo da produção mundial de energia de ar condicionado, para aliviar o calor, ou aumenta a produção na indústria – a decisão sobre o quanto a usina vai produzir durante o ano. “As economias do Brasil e do Paraguai passam por excelentes momentos, e isso reflete diretamente no consumo de energia”, salienta o diretor-geral de Itaipu, lembrando que o país vizinho, no ano passado, registrou o terceiro maior crescimento econômico do mundo, superior a 14%. A combinação desses fatores leva a direção de Itaipu a projetar um novo feito: romper, nos próximos anos, a barreira dos 100.000 MWh. “Esse é um sonho e vamos buscar mais esse recorde histórico”, assegura Samek. Exemplo de sustentabilidade Quando assumiu a direção-geral brasileira de Itaipu, em 2003, Jorge Samek recebeu um desafio a mais do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além de produzir energia elétrica com qualidade, a empresa deveria se converter em uma Paulo, por três anos e quatro meses; o atual consumo de energia elétrica da Alemanha, por dois meses; ou de todo o mundo, por dois dias. poderosa ferramenta de desenvolvimento local e regional. Dessa orientação resultou a mudança da missão estratégica de Itaipu, que incorporou conceitos de sustentabilidade, responsabilidade social e ambiental, desenvolvimento econômico, turístico e tecnológico. As mudanças não ficaram no papel. Na última década, inúmeros programas voltados ao meio ambiente e às comunidades localizadas no entorno da usina foram lançados por Itaipu, beneficiando milhares de pessoas. O Programa Cultivando Água Boa (CAB), por exemplo, desenvolve ações nos 29 municípios que integram a Bacia do Paraná 3 (BP3), área conectada ao reservatório da usina. São iniciativas voltadas à educação ambiental, à recuperação de passivos sociais e ambientais e à adoção de meios de produção e consumo mais sustentáveis. Itaipu também articulou a criação do Parque Tecnológico Itaipu (PTI), que hoje abriga o campus de ciências exatas da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e laboratórios e setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 23 Foto: Nilton Rolin/ Itaipu Binacional Itaipu também lidera estudos para desenvolver o aproveitamento da biomassa na geração de energia e transformar o carro elétrico em realidade no Brasil. desenvolvidas foi a campanha para eleger as Cataratas do Iguaçu uma das Novas 7 Maravilhas da Natureza. Internamente, a empresa implantou uma política de gênero que hoje é referência para o governo brasileiro e o setor elétrico e também adotou o Sistema de Gestão da Sustentabilidade (SGS). O objetivo do SGS é incorporar a cultura da sustentabilidade às práticas cotidianas da empresa. “A sustentabilidade passou a ser o eixo do modelo de gestão adotado por Itaipu”, explica Jorge Samek. Além dessas ações, desde que a usina começou a gerar energia, já foram distribuídos mais de US$ 8 bilhões em royalties. A maior parte do benefício vai para as prefeituras que tiveram áreas alagadas para a formação do reservatório. São recursos que ajudaram a transformar o oeste do Paraná em um das regiões mais desenvolvidas do País. Foto: Alexandre Marchetti/ Itaipu Binacional centros de referência na pesquisa de energias renováveis, tecnologias do artesanato, segurança de barragens, entre outros. Outra conquista foi a criação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, a Unila, hoje em funcionamento no PTI. Quando estiver pronto, o campus da nova universidade – com projeto assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer – terá 10 mil alunos, metade brasileiros, metade vinda de países da América Latina. Itaipu também lidera estudos para desenvolver o aproveitamento da biomassa na geração de energia e transformar o carro elétrico em realidade no Brasil. Ações como o GT Saúde, para melhorar as condições de saúde na região da tríplice fronteira, e o Programa de Combate à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, mobilizam diferentes instituições. A binacional também é signatária de diversos compromissos nacionais e internacionais, como o Pacto Global, a Carta da Terra, o Protocolo de Kyoto, entre outros. Na área do turismo, Itaipu aproximou os diferentes segmentos do setor e propôs uma política de gestão integrada, com foco na valorização e na promoção do destino. Uma das ações ! " # $ % & ' () * +# & ) * ' * ,, - ) . # * # . ' , , . ! 24 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 , # / * & # ! & ,* ' (- '! 0#1 , * ' 2 1 333,' 333 ,' Hidrelétrica chegar a soluções a serem adotadas. É em função dessas informações preliminares no inventário e no estudo de viabilidade que serão definidos os dados suficientes para a elaboração de um projeto básico e, posteriormente, para o projeto executivo da obra. Isto é, o que deve ser construído. essenciais para gerar energia Por José Roberto Martins Brandão / Odebrecht Infraestrutura Brasil – Energia A matéria-prima de uma usina hidrelétrica é a água. Por isso, ela precisa ser represada, formando uma espécie de estoque. Variáveis As principais variáveis utilizadas na classificação de uma usina hidrelétrica são: altura da queda d’água, vazão, capacidade ou potência instalada, tipo de turbina empregada, localização, tipo de barragem e reservatório. Todos são fatores interdependentes. Assim, a altura da queda d’água e a vazão, dependendo do local de construção da usina, determinarão qual será a capacidade instalada, que, por sua vez, definirá o tipo de turbina, barragem e reservatório. Também fazem parte essencial das hidrelétricas a estrutura de captação de água (tomada d’água), sua condução até a casa de força, a própria casa de for- 26 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Uma das mais importantes tarefas na construção de uma barragem é o manejo do rio. Ou seja, como lidar com o curso d’água durante a obra. É necessário desviar o curso d’água por meio de ensecadeiras, túneis e canais para, depois, dispor de um recinto onde possa ser ensecado por bombeamento. Aí, já com uma área accessível, passa-se para a escavação até o nível da fundação, com condições de capacidade de carga adequada e de deformações aceitáveis sob o peso da futura barragem. A partir deste ponto, é necessário garantir que o maciço abaixo da barragem esteja íntegro e com permeabilidade muito baixa e controlada. Para tal, é necessária a construção de “cortinas” que interceptarão os possíveis fluxos de água subterrânea. Estas “cortinas”, dependendo das condições do maciço, são feitas por meio de injeções de caldas de cimento, por meio de paredes diafragmas e por outros métodos. O tratamento da fundação também inclui a regularização da superfície e o preenchimento das cavidades que se encontrem com concreto “dental”. Normalmente, o corpo das barragens pode ser executado: • em solo homogêneo ou não • em enrocamento com núcleo impermeável de argila ou asfalto • em enrocamento, e tendo como impermeabilização uma laje de concreto na face de montante • em concreto convencional vibrado (barragens de peso) • em concreto em arco simples ou com dupla curvatura • em concreto compactado a rolo Algumas obras têm soluções que combinam algumas das modalidades acima. Para a execução do corpo do barramento é indispensável um planejamento detalhado, considerando os meios necessários para cada camada de lançamento do aterro. Sempre levando em conta os diferentes componentes. Entre eles, enrocamentos, filtros, transições e proteções que devem ser lançados simultaneamente camada a camada. No caso das barragens de concreto, o planejamento precisa considerar os diferentes blocos, definidos por juntas, e analisar o sequenciamento da construção. Precisa levar em conta ainda o lançamento do concreto em cada camada frente aos blocos já executados para compatibilizar os tempos, a retração do concreto, a temperatura dos mesmos, assim como a temperatura do concreto fresco a ser lança- Foto: Divulgação Odebrecht Paredões que represam água, Foto: Istockphoto Manejo do rio Corpo das barragens ça onde o potencial hidráulico é transformado em energia elétrica e a estrutura de recondução da água até o leito natural do rio. É indispensável ainda a construção de vertedouros que garantem a segurança da barragem contra cheias extraordinárias, vertendo os volumes excedentes ao rio, evitando níveis acima do previamente estabelecido. Estudos Para a construção de barragens, são necessárias algumas atividades e estudos prévios de engenharia de projeto, que inclui uma investigação geológicogeotécnica detalhada, que, por sua vez, permitirá UHE Baixo Iguaçu em construção. No primeiro plano, as ensecadeiras para construção do vertedouro. Ao centro, as escavações para a casa de força e, à direita, as instalações industriais (britagem, centrais de concreto, de aço e de forma). setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 27 Sinergia do. Todo este planejamento deve ser feito em base a estudos térmicos executados por especialistas. Completam o corpo da barragem filtros e drenos que conduzam eventuais fluxos d’água com segurança ao leito do rio e à jusante do barramento. Este processo protege também taludes de montante e jusante contra erosões por variações do nível d’água de montante e pela ação das chuvas no talude de jusante. Vale ressaltar que, para a construção deste tipo de obras de grande envergadura, são necessários equipamentos de terraplenagem pesados. Já para a execução das estruturas de concreto, são instaladas centrais de britagem e de fabricação de concreto, assim como equipamentos especiais de transporte e de lançamento. Também é importante a instalação de uma série de equipamentos que indicam o comportamento do barramento durante e depois da construção, e antes e depois do enchimento do reservatório. Estes instrumentos monitoram não somente o corpo do barramento, mas também o maciço sobre o qual se constrói. As outras estruturas são normalmente concebidas de concreto armado e dotadas de equipamentos eletromecânicos específicos. Na tomada d’água são instaladas grades que evitam que corpos estranhos flutuantes alcancem os equipamentos de geração, assim como comportas de acionamento manual e automático que cortam o fluxo d’água quando necessário. Nos vertedouros são instaladas comportas que controlam a vazão a ser vertida e, na casa de força, encontram-se os equipamentos de geração. Casa de força A depender dos tipos de turbinas a serem instalados, os fluxos hidráulicos serão conduzidos à casa de força por meio de condutos forçados, que nada mais são do que tubos submetidos a grande pressão da água. Os tubos que estão sendo instalados na Hidrelétrica Teles Pires, atualmente em construção pelo Odebrecht Infraestrutura Brasil na divisa entre o Pará (PA) e Mato Grosso (MT), têm um diâmetro de 12 metros. A fabricação dos equipamentos eletromecânicos e sua montagem requerem tecnologia e capacidade de produção pesada e de muita precisão, que envolve também uma imensa gama de fornecedores de componentes. Isso que faz com que a coordenação da produção seja fundamental. Como geralmente as hidrelétricas estão localizadas em sítios remotos e muitas vezes de difícil acesso, a logística é de extrema relevância. A construção de estradas de acesso para o transporte dos equipamentos, materiais e de pessoas é quase sempre necessário. Em muitos casos, a logística é complexa e a construção de portos fluviais para grandes cargas é indispensável. O esforço para construção de uma hidrelétrica é muito grande considerando todos os agentes envolvidos, de entidades públicas a empreendedores, de projetistas a empresas construtoras, além de um grande contingente de mão de obra. Por isso, uma usina hidrelétrica pode ser definida resumidamente como um conjunto de obras e equipamentos cuja finalidade é a geração de energia elétrica, através de aproveitamento do potencial hidráulico existente num rio. Atualmente, um dos grandes problemas é a gestão da mão de obra que esbarra na identificação de pessoal qualificado. Obras desta magnitude chegam a empregar 30 mil pessoas de diversos níveis de qualificação, como é o caso da UHE de Belo Monte. A UHE Teles Pires, no meio da floresta Amazônia, na divisa do Mato Grosso e Pará, requer alojamento para os 6 mil trabalhadores, que necessitam de uma infraestrutura completa de acomodações, lazer, serviços de telefonia, lojas de conveniência, serviços religiosos e atividades esportivas, enfim meios para a socialização dos milhares de homens e mulheres que realizam o “milagre” de transformar água em energia elétrica. UHE Teles Pires. À direita, a tomada d’água, com os condutos forçados, em processo de montagem. Ao centro, a Casa de Força em construção. Ao fundo, as áreas de apoio e pré-montagem dos componentes hidromecânicos. Foto: Divulgação Odebrecht Seção da barragem de enrocamento com núcleo de argila da UHE Baixo Iguaçu, no Paraná, em construção pela Odebrecht Infraestrutura-Brasil. Na casa de força, o “coração” da usina, é feita a transformação da energia potencial hidráulica em cinética rotacional, que impulsiona o gerador de energia elétrica. Perto dos geradores são instalados transformadores. Trata-se de uma instalação de alta tecnologia que, associada a sistemas de automação e controle, permite entregar a eletricidade às linhas de transmissão e destas até os centros de consumo. Casa de força da UHE Teles Pires, em construção pela Odebrecht Infraestrutura Brasil na divisa dos estados de MT e PA. 28 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 29 Barragens com reservatórios ou a fio d’ água? Surgiu, recentemente, uma grande polêmica nos meios técnicos sobre a utilização de barragens com reservatório de acumulação, já que existe uma grande pressão dos ambientalistas contra tal prática. A justificativa desse setor é o impacto gerado com a criação de lagos artificiais. Mas esses impactos podem ser mitigados, e trazer benefícios para a sociedade. Um deles, sempre citado, é a remoção das populações ribeirinhas para outras áreas. Vale ressaltar que a ocupação das margens dos rios é irregular e imprópria. Além disso, durante as cheias essas populações são quase sempre atingidas. A remoção ordenada e tecnicamente organizada pode resolver esse problema. Uma barragem com reservatório acumula água nos períodos de cheia e a utiliza durante todo o ano na medida da necessidade para os objetivos a que se destina. Já uma barragem a fio d’água é simplesmente um barramento no qual a vazão da agua que entra é igual à que sai. Ou seja, não existe reservatório e não há qualquer alteração na vazão do rio, que fica com sua vazão natural. Em ambos os casos, o barramento ou represamento d’água tem como objetivo ganhar altura de queda que propiciará a geração de energia elétrica. Não custa lembrar que nos reservatórios de acumulação se pode armazenar água em grandes quantidades para irrigação, consumo e geração elétrica. Neste caso, é a única maneira de acumular energia e controlar enchentes. Os documentos oficiais de planejamento energético mostram que o Brasil vem perdendo sua capacidade de acumulação de energia em função da política de não reservar água para os períodos de seca. Assim o governo se vê obrigado a complementar a geração de eletricidade com outras fontes de energia, principalmente termelétricas, que são mais poluentes. Saga logística Rotor Francis sobre a carreta no último trecho Cáceres-Hidrelétrica Teles Pires. 30 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Primeiro, seguirão por rodovia de Taubaté, interior de São Paulo, até o porto de Santos. Depois, de navio até o porto de Nueva Palmeira, no Uruguai, e, a continuação, de balsa pela hidrovia ParaguaiParaná, cruzando a Argentina e o Paraguai, até o município de Cáceres, no Mato Grosso. O último trecho será feito por rodovia até o canteiro de obras no Rio Teles Pires, na fronteira entre Mato Grosso e Pará. Assim que for finalizada, a hidrelétrica terá capacidade instalada de 1.820 MW. Foto: Divulgação Odebrecht Cada um dos rotores das cinco turbinas que farão parte da Hidrelétrica Teles Pires, que está sendo construída pela Odebrecht Infraestrutura Brasil na divisa entre o Pará (PA) e Mato Grosso (MT), pesa 267 toneladas, o equivalente a 60 elefantes adultos. E ainda 8,5 metros de diâmetro. Tal a complexidade do transporte que eles chegarão ao canteiro de obras por meio de transporte rodoviário, marítimo e fluvial, passando por três países da América do Sul, num período que deve durar pelo menos quatro meses. SEM FIO s BAIXO RUÍDO SEM EMISSÃO DE GASES Energia Eólica Energia Eólica mostra expansão espetacular Fotos: Divulgação ABEEólica Por Vladimir Goitia Em pouco menos de uma década, a geração de energia elétrica por meio da força dos ventos no Brasil mostra enorme expansão, superando todas as fontes de energia renováveis. Se alguém tinha dúvidas sobre a sua competitividade, agora pode ter certeza de que é uma das mais baratas, perdendo apenas para as hidrelétricas e superando, inclusive, a biomassa e as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Os quase 150 parques eólicos instalados geram hoje 4.000 MW, ou 3% da matriz energética brasileira, potência infinitamente superior aos pouco mais de 25 MW em 2005. Em mais quatro anos, a capacidade instalada deve chegar a 14.000 MW, ou 8% da capacidade total do País, de acordo com perspectivas reais da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). Será energia suficiente para abastecer mais de 20 milhões de casas. E lá para 2022, a força dos ventos vai gerar pelo menos 21.800 MW, ainda 32 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 segundo a ABEEólica, entidade que congrega e representa o setor. Essa radiografia sobre o poder dos ventos pode ficar ainda mais impressionante assim que o novo Atlas do Potencial Eólico Brasileiro ficar pronto. O atual e único, de 2001, indica um potencial gerador de energia eólica de 143.000 MW, o equivalente à produção de dez usinas hidrelétricas de Itaipu. Isso levando em conta as condições daquela época. Isto é, com torres de 50 metros de altura e máquinas menos potentes. “De 2000 para cá muita coisa mudou, como a altura das torres, que chegam a 150 metros, e uma potência de 3 MW das máquinas”, explica Elbia Melo, presidente executiva da ABEEólica. O que a executiva da entidade quer dizer é que, nestas novas condições, o potencial eólico do Brasil pode passar de 350.000 MW, ou 2,5 vezes a mais da matriz energé- tica instalada atualmente no País (136.281 MW), que inclui todas as fontes de energia, e pode superar inclusive o que poderá ser alcançado com novas hidrelétricas. O cenário é tão positivo, que os quase 500 projetos de usinas eólicas que mais ofereceram energia para habilitação pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no leilão realizado em junho deste ano, somam 12.286 MW. “Mais uma vez as eólicas foram o grande destaque do leilão, com uma oferta de capacidade instalada maior que da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (PA)”, disse Maurício Tolmasquim, presidente da EPE, ao anunciar no início deste ano o leilão de energia para suprimento em 2017. O Estado que mais concentra projetos eólicos é a Bahia (187), com capacidade para 4.732 MW, seguido pelo Rio Grande do Sul (98), com capacidade para 2.155 MW. Em terceiro lugar ficou o Ceará, que teve 88 projetos inscritos com capacidade total de 2.197 MW. Tolmasquim lembrou ainda que a geração eólica é a fonte que mais cresceu no País em participação nos leilões desde 2009. De lá para cá foram 11.700 MW. Para EPE, as contratações dos últimos anos demonstraram que as usinas eólicas atingiram preços bastante competitivos e alavancaram a instalação de uma indústria nacional de equipamentos para atender a esse mercado. De fato, a geração eólica é a segunda fonte mais barata, com R$ 120,00 o MWh, e perde apenas para a geração das hidrelétricas, cujo custo médio do MWh é de R$ 100,00. “No Brasil, a energia dos ventos é a mais barata do mundo”, comemora Elbia, ao informar que o setor superou, inclusive, a biomassa e as PCHs, cujo custo estimado de geração é de R$ 140,00 o MWh. “Crescemos porque somos competitivos, e não por essa ou aquela política do governo para o setor”, arremata Elbia. A executiva ressalta ainda que os investimentos do setor entre 2005 e 2018 devem atingir R$ 51 bilhões. Apenas no ano passado, o setor investiu R$ 21,2 bilhões e contribui com a geração de mais de 70 mil empregos, com 8,5 milhões de casas abastecidas e com 4 milhões de toneladas de CO2 evitadas. O maior desafio do setor, entretanto, está no aperfeiçoamento regulatório para a cadeia produtiva, a carga tributária do setor e suas respectivas políticas de incentivos fiscais – como o REIDI (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura). “Os tributos são uma questão fundamental que precisa ser discutida, explorada e amadurecida com o governo”, avalia Eduardo Lopes, superintendente comercial da Wobben Windpower. Pioneira desde dezembro de 1995, quando começou a fabricar os primeiros aerogeradores no Brasil, a Wobben instalou praticamente 25% (1.000 MW) de tudo que é gerado atualmente com a força dos ventos. A empresa é, no momento, uma das únicas que produz aqui no Brasil suas próprias pás. Nos próximos anos, deve concluir a instalação de novos parques eólicos. De nove projetos aprovados no povoado de Sento-Sé, região de São Pedro, na Bahia, cinco são do consórcio Brennand Energia e Chesf, dos quais três devem entrar em operação em 2015 e outros dois em 2018. Os investimentos somam R$ 1 bilhão. Outro desafio é a ampliação da capacidade de escoamento dessa energia para o Sudeste e Sul do País, por meio da construção de “linhas estruturantes” ou específicas para atender a demanda de todo o setor eólico, já que as linhas em funcionamento não são capazes de suportar o potencial energético do segmento. O governo federal ficou de estudar a proposta. Vale ressaltar que, em julho do ano passado, quase 50 parques eólicos não funcionaram por falta de linhas de transmissão. Apesar disso, as empresas não param de investir em novos parques eólicos. O empresário cearen- setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 33 Explorando a Ciência Estados campeões em energia eólica 1 Gerando Inovações Ceará Capacidade instalada: 661,0 MW Parques em operação: 22 Parques em construção: 70 Potência total até 2018: 2.325,7 MW (inclui o que está em construção e contratada) 2 1 2 Rio Grande do Norte Capacidade instalada: 1.339 MW Parques em operação: 46 Parques em construção: 88 Potência total até 2018: 3.654,2 MW (inclui o que está em construção e contratada) 3 3 Bahia Fo to: Ist oc kp ho to Capacidade instalada: 587.6 MW Parques em operação: 24 Parques em construção: 109 Potência total até 2018: 1.978,9 MW (inclui o que está em construção e contratada) se Mario Araripe, que ganhou notoriedade por ter vendido em 2007 sua fábrica de jipes Troller para a Ford, está investindo pesado na Chapada do Araripe, no interior do Piauí, na construção de um parque eólico de R$ 5 bilhões. O Complexo Eólico da Chapada do Araripe envolve os municípios de Caldeirão Grande, Padre Marcos, Simões, Curral Novo, Marcolândia e Betânia. Terá a capacidade de produzir até quinze vezes mais energia que a Usina de Boa Esperança, que gera 237 MW. 34 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 No Rio Grande do Sul, a Eletrosul, subsidiária da estatal Eletrobrás, está investindo R$ 3,5 bilhões em dois complexos eólicos que vão entrar em plena operação até 2016 na região próxima à fronteira com o Uruguai. O dos Campos Neutrais, entre Santa Vitória do Palmar e Chuí, será o maior parque eólico da América Latina, com 583 MW de capacidade instalada. Uma linha de transmissão está sendo construída simultaneamente e deve ficar pronta junto com o parque. Mais de sete bilhões de pessoas habitam o nosso planeta, e este número cresce a cada dia. Como prover comida para a população sem degradar o meio ambiente? Como melhorar a saúde da sociedade e prevenir doenças? Como desenvolver novos materiais que ajudam a conservar os recursos naturais? Para trazer estas respostas, aproximadamente 14 mil cientistas da Bayer trabalham diariamente em busca de inovações. Isso significa, para nós, um incentivo para o futuro – no sentido exato da nossa missão Bayer: Science For A Better Life (Ciência Para Uma Vida Melhor). www.bayer.com.br www.bayerjovens.com.br Fotos: Divulgação Exemplo de Sucesso Hamburgo, alicerce da revolução energética alemã Hamburgo Por Frank Horch Senador de Economia, Tráfego e Inovação da Cidade Livre e Hanseática de Hamburgo do país, às margens do Rio Elba, Hamburgo não se transformou apenas no centro estratégico de planejamento integrado e participativo, como também já é considerada a “Capital Verde” da Europa. Em praticamente nenhuma outra região da Alemanha existe tanta competitividade e dinamismo concentrados. Conglomerados industriais e multinacionais como a Nordex, Senvion e Siemens estão presentes na cidade. Hamburgo abriga ainda mais de 300 empresas de energia renovável (solar, eólica, hidroeletricidade, geotermal e a proveniente de biomassa). Todas elas desenvolvem tecnologias de ponta, soluções para cadeias de suprimento, certificação, financiamento, seguro, provimento de energia, instalação e logística. Enquanto grandes centros empresariais e setores de pesquisa internacionais se estabelecem em Hamburgo, pouco mais para cima, na costa do Mar do Norte e do Báltico, surgem e crescem centros de produção em Cuxhaven, Stade e Brunsbüttel, entre outros. E é justamente o porto de base marítimo de Cuxhaven que passou a ser ideal para o transporte de parques eólicos marítimos e seus componentes Ventos constantes e amplos espaços abertos entre o Elba e mares do Norte e o Báltico oferecem as condições ideais para a energia eólica. Não em vão, Hamburgo tem quase triplicado o uso de fontes renováveis nos últimos 12 anos. Atualmente, elas representam 17% da produção nacional de energia. Em dez anos, espera-se alcançar o percentual de, no mínimo, 50%. Força conjunta por meio de cluster ativo A Alemanha, o país mais rico e populoso da Europa, persegue um cenário energético sem usinas nucleares e com mais fontes de energia limpas e renováveis. A “Virada Energética” é um dos principais e mais ambiciosos objetivos perseguidos por todos os Estados da Alemanha. A maior economia da União Europeia, com mais de 82 milhões de habitantes, indústria competitiva, forte 36 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 potencial de inovação, conhecimento científico e invernos rigorosos, aposta nessa revolução sem precedentes. Há cerca de quatro anos, o país montou um plano ambicioso para antecipar, de 2036 para 2022, o prazo para abandonar de vez o uso da energia atômica. Hamburgo, cidade-Estado que, por sua vez, estabeleceu metas de proteção do clima, tais como a redução de suas emissões de CO2 em 40% até 2020 e em 80% até o ano de 2050, está no centro desse projeto energético. Localizada ao norte O Parlamento de Hamburgo é um dos que mais promove e incentiva o ramo mais relevante da Liga Hanseática (aliança de cidades mercantis que estabeleceu e manteve um monopólio comercial sobre quase todo norte da Europa e o Báltico ao final da Idade Média e começo da Idade Moderna), com uma política específica para clusters. O cluster Erneuerbare Energien Hamburg (EEHH – Energias Renováveis de Hamburgo), por exemplo, foi fundado em 2010 como parceria público-privada. Ele recebe apoio político, es- Hamburgo tem quase triplicado o uso de fontes renováveis nos últimos 12 anos. tratégico e financeiro ativo do governo da cidade livre e Hanseática. A administração do cluster reúne competências amplamente diversificadas das empresas, institutos de pesquisa e instituições. Além disso, o Erneuerbare Energien Hamburg vem criando plataformas de diálogos: fóruns especializados, encontros em rede, conferências e workshops para delegações internacionais. Além da conexão interna, o Erneuerbare Energien Hamburg tem buscado também o intercâmbio com outras regiões da Alemanha, da Europa e do mundo. Por isso, o EEHH faz parte do International Cleantech Network (ICN), uma reunião de clusters de tecnologias verdes. Dentro da Alemanha, o cluster EEHH é parceiro da Offshore Wind Industrie Allianz (OWIA) junto com redes do Estado de Schleswig-Holstein (windcomm schleswig-holstein e.V.), Bremen (Windenergie-Agentur WAB e.V.) e Mecklenburg-Vorpommern (WindEnergy Network e.V.). O EEHH tem, ainda, um estreito contato com setores tradicionais de Hamburgo, como os de logística, de aviação e economia marítima. Na indústria de aviação existem cooperações com institutos de pesquisa, entre eles o Centro de Pesquisas Aplicadas em Aviação (ZAL) e o CFK Valley em Stade. A tecnologia de compostos de carvão e fibra de vidro aqui pesquisada pode ser aplicada tanto no setor de aviação quanto nos parques de energia eólica. Este ano, Hamburgo realiza pela primeira vez a WindEnergy Hamburg. A feira, que representa setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 37 Geração de energia eólica dentro do Porto de Hamburgo. toda a cadeia de valor da indústria eólica, deve ser realizada bienalmente. Durante a WindEnergy Hamburg, o cluster EEHH vai entregar, pela terceira vez, o German Renewable Award para inovações e desempenhos de destaque no setor de energias renováveis. Economia e ciência lado a lado A combinação do potencial econômico com a alta qualidade de vida faz de Hamburgo uma das cidades mais dinâmicas da Europa. Inúmeras faculdades e institutos de pesquisa instalados na cidade criam constantemente inovações tecnológicas na área de energias renováveis, além de formar novos profissionais para as empresas locais. Há mais de 300 na região. São mais de 9 mil pesquisadores, que se somam a mais de 85 mil estudantes. Ou seja, as possibilidades de qualificação profissional são amplamente diversificadas. Na própria cidade de Hamburgo estão instaladas, entre outras, a Universidade HafenCity de Hamburgo, a Universidade Helmut-Schmidt das Forças Armadas de Hamburgo, a Escola Técnica de Ciências Aplicadas (HAW), a Universidade Técnica de Hamburg-Harburg (TUHH) e a Universidade de Hamburgo. Além disso, institutos de pesquisa de renome como o Climate Service Centre (Helmholtz), o Centro de Nanotecnologia Aplicada e o Instituto de Economia Mundial de Hamburgo também fornecem conhecimentos técnicos nessa área. 38 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Por sua vez, o Parlamento de Hamburgo continua a promover a conexão entre os interesses da economia e da ciência com o objetivo de criar um grande movimento de competitividade na área de pesquisas aplicadas. Em maio de 2012, por exemplo, foi inaugurada na Universidade Técnica de Hamburg-Harburg, uma planta única em larga escala para testes mecânicos em componentes estruturais de grandes dimensões fabricados com composto de fibra. O testador hexápode (Hexapod-Prüfstand em alemão) pode, entre outros, verificar os componentes de uma usina eólica com um peso de até cinco toneladas. Atualmente, está sendo construído em Bergedorf, um bairro de Hamburgo, o “Energie Campus”, um projeto do Centro de Competência para Energias Renováveis e Eficiência Energética da Escola Técnica de Ciências Aplicadas. O projeto tem apoio do governo municipal. Além de um laboratório de pesquisas e formação em energia eólica e de redes de energia inteligentes com um parque eólico integrado, o “Energie Campus” deve tanto promover a implantação de empresas e o desenvolvimento de procedimentos inovadores, quanto assumir um papel de apoio na educação de formandos em cursos de bacharelado e master. Com isso, jovens cientistas e pesquisadores poderão desenvolver seus projetos de energias renováveis de forma não convencional no “Science Slam”. ‘Vento em popa’ para energias renováveis Hamburgo, muitas vezes denominada como “porta para o mundo”, avança a largos passos na direção da “Virada Energética”. As empresas altamente inovadoras, a área científica, um cluster ativo e o Parlamento de Hamburgo vêm trabalhando juntos para traçar o caminho correto para o futuro. Hoje, Hamburgo é um dos principais e mais importantes centros europeus de energia eólica e realiza uma importante contribuição para a revolução energética alemã, que prevê metas que mudarão seu padrão energético. E uma dessas metas estabelece que a participação das energias renováveis será de 35% na produção de eletricidade já em 2020 e de 80% em 2050. Atualmente, a Alemanha gera pouco mais de 25% de sua eletricidade com fontes limpas. Exemplo de Sucesso Goldisthal: a reserva do ouro Maior hidrelétrica alemã: usina reversível de Goldisthal (1.060 MW) A Goldisthal, maior usina hidrelétrica da Alemanha, é um retrato da engenharia e da sociedade alemã em ação: é uma usina hidrelétrica reversível; foi construída em caverna; opera com uma combinação de máquinas geradoras síncronas e assíncronas; exigiu o corte do topo de uma montanha para funcionar como seu reservatório superior; e foi marcada pelo diálogo e consenso com as partes interessadas no projeto. Usinas hidrelétricas reversíveis funcionam deslocando água entre dois reservatórios: um superior e um inferior. Quando a água flui no sentido descendente, a usina funciona como uma usina hidrelétrica normal, acionando uma turbina ligada a um gerador que produz eletricidade. Nesse primeiro caso, a usina despacha energia para a rede. Já quando a água flui no sentido oposto, a usina funciona como uma estação de bombeamento, em que uma bomba recalca a água para um reservatório superior, armazenando-a para sua posterior utilização no sentido inverso. Nesse segundo caso, a usina absorve energia da rede. Essa versatilidade é a razão de ser da usina reversível. Em momentos de carga de ponta, as usinas reversíveis podem ser operadas para a geração de eletricidade, complementando, assim, a oferta de eletricidade do sistema. Já em momentos de excedentes de carga de base, como as madrugadas, as usinas reversíveis podem ser utilizadas como verdadeiras baterias de energia, armazenando água com alta energia potencial em seu reservatório superior como uma fonte de energia que pode ser rapidamente transformada em eletricidade. Diferente- 40 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 mente da denominação “usina reversível”, o termo em alemão e inglês para estas usinas (pumped storage power plant) reflete essa função de armazenamento de energia. No caso de Goldisthal, localizada na Turíngia, região da antiga Alemanha comunista, o reservatório superior da usina está localizado a uma cota cerca de 300 metros acima de seu reservatório inferior. O reservatório superior é uma represa artificial, e sua construção exigiu o corte do topo da montanha de Wurzelberg. Com uma área de 55.000 metros quadrados, um perímetro de 3,4 quilômetros e um volume total de 12 milhões de metros cúbicos, o reservatório superior proporciona uma autonomia de 8 horas de geração hidrelétrica para a usina. Já o reservatório inferior de Goldisthal é alimentado por uma represa construída no rio Schwarza. Com uma capacidade de armazenamento cerca de 50% maior do que o reservatório superior, esse reservatório cumpre as funções tanto de armazenar água para alimentar o reservatório superior da usina como de contribuir para o controle de enchentes na região. A procura do local para a construção da usina foi iniciada em 1965, mas os trabalhos preparatórios para a sua construção começaram apenas em 1975, ainda durante o governo comunista. Por falta de recursos financeiros, as obras foram suspensas no início dos anos 80, sendo retomadas em 1988, apenas três anos antes da reunificação alemã. Com a reunificação, em 1991, coube à VEAG (conglomerado que assumiu os ativos elétricos da Alemanha Oriental) avaliar novamente a viabilidade do projeto. Embora o resultado da análise tenha sido positivo, desta vez foram as controvérsias ambientais que paralisaram o projeto até 1997. O impasse foi resolvido com a assinatura de um acordo com a BUND (ONG Foto: Voith Por Marcos Blumer, Presidente e CEO da Voith Hydro América Latina Vista geral da maior hidrelétrica alemã: a usina reversível de Goldisthal. O reservatório superior da usina está localizado cerca de 300 metros acima do reservatório inferior. ambiental alemã) para a criação da fundação Naturstiftung David, uma entidade dedicada à preservação da natureza, economia de energia e energias renováveis. Em 2002, a VEAG foi adquirida pela empresa sueca de energia Vatenfall, que passou a administrar o projeto. Depois de retomadas as obras, a construção da usina de Goldisthal foi finalmente concluída sete anos depois, em 2004. Com uma potência instalada de 1.060 MW, sua construção consumiu € 620 milhões (R$ 1,88 bilhão). O maquinário clássico utilizado em usinas reversíveis é constituído de um motor-gerador instalado entre duas máquinas hidráulicas: uma turbina, de um lado, e uma bomba, do outro. Quando o fluxo da água se dá no sentido descendente, o motor-gerador é operado como gerador e a água do reservatório superior é canalizada para a turbina, que aciona o gerador para gerar energia. Já o sentido inverso exige que o motor-gerador seja operado como motor, fazendo com que a água seja canalizada do reservatório inferior para a bomba, que é acionada pelo motor-gerador, com o objetivo de recalcar água para o reservatório superior. Além dessa disposição, existem usinas reversíveis em que uma única máquina hidráulica (denominada turbina-bomba) substitui as duas máquinas hidráulicas citadas acima. Esse tipo de solução costuma proporcionar menor rendimento hidráulico (devido à menor especialização da turbina-bomba quando comparada a uma turbina e uma bomba), além de menor flexibilidade para o sistema (já que o sentido de rotação do conjunto precisa ser invertido para alternar o sentido de operação da usina, o que não é necessário na disposição anterior). Embora Goldisthal seja uma usina desse último tipo, sua flexibilidade é mais do que compensada pela utilização de máquinas assíncronas. Por serem alimentadas por reservatórios relativamente pequenos em comparação com usinas hidrelétricas convencionais, as usinas reversíveis apresentam uma maior riqueza de condições operacionais (combinações de vazão e queda). Esse tipo de condição é desvantajoso para máquinas síncronas (convencionais), que são dimensionadas para operarem em um único ponto ótimo (combinação específica de vazão, queda e rotação). setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 41 Foto: Voith Foto: Voith Já as máquinas síncronas apresentam diferentes pontos ótimos de funcionamento para cada combinação de altura e queda graças à sua capacidade de modificar a sua rotação. Para ilustrar essa flexibilidade, no caso de Goldisthal, os grupos assíncronos operam com potências de 40 a 265 MW, enquanto a faixa de operação das máquinas síncronas vai de 100 a 265 MW. Essa é certamente uma vantagem para uma usina que cumpre a função de regulação de carga e frequência na rede. Máquinas assíncronas também podem despachar energia à rede com maior velocidade, já que seus conversores de frequência lhes permitem começar a despachar energia a partir de 95% da velocidade síncrona da máquina. Além disso, a capacidade dessas máquinas em suprir picos de demanda em curtos espaços de tempo é incrível: pela aplicação de freios regenerativos, essas unidades podem ser desaceleradas para gerar cargas imediatas de energia para a rede. Pelos motivos expostos acima, o projeto da usina de Goldisthal optou pela instalação de máquinas assíncronas. Mas como nunca haviam sido utilizados geradores assíncronos de grande porte em nenhuma usina europeia, essa opção parecia muito arriscada como única configuração da usina. Além disso, diferentemente de máquinas síncronas, geradores assíncronos não têm a capacidade de retomar sozinhos a sua operação em caso de apagões, 42 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Foto: Tobias Rosenbaum Acima: vista do reservatório superior da usina que é considerada um retrato da engenharia e da sociedade alemã. A flexibilidade operacional de Goldisthal é um dos seus grandes trunfos. uma inconveniência que poderia ser resolvida pela instalação de máquinas síncronas para realizar essa função. Assim, optou-se por dividir a usina de Goldisthal em duas metades iguais: cada uma com um gerador síncrono e um assíncrono, sendo cada metade alimentada por seu próprio conduto forçado. Isso também permitiria continuar operando metade da usina normalmente em caso de manutenção em sua outra metade. As máquinas hidráulicas de Goldisthal são turbinas-bombas de 4,59 metros de diâmetro e 265 megawatts de potência. Fabricadas pela Voith, essas máquinas trabalham com uma queda de 301,65 metros e uma vazão de 103 m3/s (operando como turbina), e de 80 m3/s (operando como bomba). A flexibilidade operacional de Goldisthal é um de seus grandes trunfos. Com seus curtos tempos de partida (75 segundos para o modo turbina e 185 segundos para modo bomba) e de inversão do modo bomba para o modo turbina (85 segundos), suas unidades podem fornecer ou absorver carga da rede com enorme rapidez. E a usina deve grande parte dessa flexibilidade ao seu sistema de automação, e em especial à otimização da sequencia de partida e parada de suas unidades geradoras e de seus reguladores de velocidade e de tensão. A usina de Goldisthal foi construída em caverna, isto é, no subterrâneo da montanha de Wurzelberg. Seu reservatório superior está ligado à casa de força por dois condutos forçados de 6,2 metros de diâmetro e 870 metros de comprimento escavados dentro da rocha. Da casa de força, a água segue para o reservatório inferior por dois condutos, também escavados, com 8,2 metros de diâmetro e 346 metros de comprimento. A casa de força inclui a caverna das máquinas e a caverna dos transformadores, que podem ser acessadas por uma galeria de acesso construída na lateral da montanha. Apenas para efeito de comparação, embora Goldisthal seja a maior usina hidrelétrica da Alemanha (com uma potência instalada de 1.060 megawatts), essa usina corresponde a meras 1,5 máquinas (de um total de 20) instaladas em Itaipu. Além disso, no Brasil existem cerca de 40 usinas hidrelétricas com potências superiores à usina de Goldisthal. Vista por sua potência, Goldisthal parece não oferecer grandes lições ao setor hidrelétrico brasileiro. Por outro lado, enquanto a Alemanha ostenta 36 usinas hidrelétricas reversíveis (com uma potência total instalada de 6.500 megawatts), simplesmente não existem usinas reversíveis no Brasil. Até mesmo o modelo do setor elétrico brasileiro é impeditivo à instalação de usinas hidrelétricas reversíveis no País. Isso implica que as cargas de ponta no Brasil têm de ser supridas primordialmente por usinas térmicas, alternativas mais caras e poluentes quando comparadas à hidreletricidade. Esse é o ponto em que o setor hidrelétrico brasileiro tem muito a aprender com Goldisthal: no planejamento de sua infraestrutura, ou melhor, na construção do presente levando em conta o futuro. Pode parecer paradoxal, mas o velho continente está muito empenhado em garantir um grande futuro. O Brasil também está comprometido, mas com a diferença de que o projeto ainda não saiu do papel. Depois de passar pela novela do apagão em 2001, o Brasil agora reexibe capítulos da mesma novela em 2014. E parece que a maior lição aprendida com o episódio foi a da aplicação da palavra apagão propriamente dita, que agora é utilizada como forma padrão de descrever tudo o que não funciona no Brasil. Ao dizer que “(...) o Brasil tem um enorme passado pela frente (...)”, Millôr Fernandes retrata com perfeição esse país que parece não aprender com a história. O que mais impressiona nas construções históricas da Europa não é o seu estado de conservação, mas, sim, o fato anterior de se tratarem de obras As máquinas hidráulicas de Goldisthal são turbinas-bombas de 4,59 metros de diâmetro e 265 megawatts de potência. notáveis em si – prefeituras, catedrais, museus, palácios, muitas vezes alinhados por centenas de metros em inúmeras cidades europeias. Vistas com o desapego que só a história é capaz de proporcionar, ninguém questiona o fato de essas obras constituírem um inestimável patrimônio histórico da humanidade. Mais ainda nos surpreendemos quando adotamos uma ótica antropológica para enxergarmos essas obras como verdadeiros testemunhos do gênio de nossos antepassados. De forma análoga, futuras gerações da humanidade poderão olhar para a obra de Goldisthal como um desses representantes da engenhosidade e capacidade humanas: com suas extensas galerias e condutos construídos em caverna, sua represa artificial escavada no cume de uma montanha ou a tecnologia de ponta utilizada em seu maquinário, Goldisthal beneficia milhões de pessoas diariamente pela segurança que proporciona ao sistema elétrico europeu. Como herdeira da tradição que deu origem à primeira usina reversível da Alemanha - instalada por nosso fundador em Heidenheim, berço de nossa empresa -, a Voith trabalha com a certeza de estar levando adiante a tradição de engenhosidade e dedicação legada pelos fundadores desta grande em-presa familiar. Não resta dúvida de que, dentro de alguns séculos, o grande projeto hidrelétrico de Goldisthal constituirá semelhante testemunho do gênio humano, que orgulhará nossas futuras gerações da mesma forma como hoje podemos nos orgulhar do legado deixado por nossos fundadores. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 43 Cogeração, jeito inteligente de produzir energia Por Robert Madersdorfer Executive Manager da unidade da LANXESS em Porto Feliz (SP) 46 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Foto: Istockphoto Foto: Istockphoto Foto: Divulgação Foi-se o tempo em que energia elétrica era um peso para a fábrica de pigmentos inorgânicos da LANXESS, instalada em Porto Feliz, interior de São Paulo. Naquela época, essa fonte, essencial a qualquer atividade industrial, representava uma parcela significativa nos custos de produção. É bom lembrar que a energia elétrica no Brasil é a terceira mais cara do mundo. Não bastasse isso, o risco de fornecimento, devido às deficiências de infraestrutura no território brasileiro, também era latente. Após uma série de estudos, a LANXESS optou então pela construção de uma usina de cogeração de energia à base de biomassa como alternativa viável de autossuficiência energética. O objetivo era uma projetada redução de custos e, principalmente, a mitigação das incertezas de abastecimento em momentos de crise. Um dos fatores levados em consideração para levar adiante esse projeto foi o fato de o Brasil contar com vasta matéria-prima (bagaço de cana, casca de arroz, licor negro, resíduos de madeira e agrícolas, restos de alimentos e esterco, entre outros). O projeto, lançado em 2008 e finalizado em 2010 – conforme planejamento inicial, apesar da crise econômica global naquele período – custou cerca de € 8 milhões (cerca de R$ 24 milhões ao câmbio de Foto: Lanxess Foto: Lanxess Exemplo de Sucesso hoje). Desde então, a usina tem se mostrado como alternativa energética das mais eficientes para a produção de eletricidade e vapor, ambas utilizadas durante o processo produtivo de pigmentos de óxido de ferro. A capacidade de geração é de 4,5 MW e pode alcançar uma eficiência de até 90%. Além disso, a LANXESS conta com um melhor controle e previsibilidade de custos e de suprimento de energia. Esses fatores são importantes para manter a competitividade da empresa, já que impactam diretamente os custos operacionais e a produção ininterrupta da fábrica. Outro ponto que merece destaque é a redução substancial da emissão de gás carbônico na atmosfera. As emissões de CO2 na unidade de Porto Feliz são praticamente zero, aumentando a compatibilidade ambiental no processo de produção de pigmentos de óxido de ferro, comercializados mundialmente sob a marca líder Bayferrox®. Até mesmo as cinzas residuais resultantes do processo de queima podem ser aproveitadas como fertilizante. A implementação de processos de produção que preservam recursos é parte fundamental da estratégia global de sustentabilidade da LANXESS. Com a construção da usina em Porto Feliz, foi estabelecido um equilíbrio ideal entre fatores ecológicos e econômicos. Para a LANXESS, a sustentabilidade econômica e ecológica são fatores inseparáveis. Por exemplo, a empresa cumpre com os mais recentes padrões de segurança em todas as suas plantas produtivas. A LANXESS optou pela construção de uma usina de cogeração de energia à base de biomassa como alternativa viável de autossuficiência energética. A LANXESS também evita emissões em grande parte das vezes e, quando isto não é possível, as neutraliza. Como resultado, a empresa oferece valor agregado a seus clientes, entre eles a indústria de construção civil, o setor de tintas e revestimentos e as indústrias de plásticos e papel. O óxido de ferro também é utilizado em pastilhas de freio e airbags, além de purificar a água de poços. A unidade de negócios de Pigmentos Inorgânicos da LANXESS é a maior fabricante de pigmentos de óxido de ferro do mundo e conta com uma linha de produtos abrangente e inovadora, além de competência técnica e expertise de consultoria de alta qualidade. A maior planta de produção de óxido de ferro no mundo está em operação em Krefeld-Uerdingen, na Alemanha. Junto às plantas de Jinshan, na China, e de Porto Feliz, no Brasil, a LANXESS possui capacidade de sintetização de mais de 350 mil toneladas métricas/ano. Sobre a Lanxess A LANXESS (www.lanxess.com.br) é líder em especialidades químicas, com volume de vendas de 8,3 bilhões de Euros em 2013. Atualmente conta com cerca de 17.300 funcionários distribuídos em 31 países. A companhia possui 52 unidades de produção ao redor do mundo. O core business da LANXESS é o desenvolvimento, produção e venda de especialidades químicas, plásticos, borracha e intermediários. LANXESS é uma companhia membro do Dow Jones Sustainability Index (DJSI) World e FTSE4Good. No Brasil, a LANXESS está representada por meio de suas 14 unidades de negócio, possui aproximadamente 1.200 funcionários, 7 unidades produtivas, laboratórios e escritórios, distribuídos pelas cidades de São Paulo e Porto Feliz (SP), São Leopoldo e Triunfo (RS), Duque de Caxias (RJ), Cabo de Santo Agostinho e Recife (PE). setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 47 Smart Grid: eficiência e confiabilidade ao sistema elétrico Por Marcelo Borowski Gomes CEO da divisão de Smart Grid da Siemens Brasil Fotos: Siemens Exemplo de Sucesso As redes inteligentes oferecem, ainda, uma melhor qualidade de energia nos vários níveis de tensão, ganhos de segurança, monitoramento e estabilidade para o sistema. Smart Grids, ou redes inteligentes, são a aplicação de TI dentro da rede elétrica de modo a torná-la inteligente e automatizada por meio de seus sistemas de comunicação. As redes inteligentes do futuro devem fornecer o que há de mais inovador. 48 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 O mundo em que vivemos está em constante mudança. Acompanhamos, nos últimos anos, alterações significativas nos meios de gerar, transmitir, distribuir e consumir energia. Diante deste cenário, nos deparamos com uma crescente demanda por fontes de energia renováveis, menos poluidoras, com geração distribuída e maior eficiência e confiabilidade nas redes de fornecimento de energia. Todas essas novas tendências deparam-se com uma infraestrutura defasada, projetada para um mercado com menos consumidores, poucos dispositivos, além de cidades e níveis de produção menores. Muitas vezes, essa infraestrutura já antiga é inflexível e apresenta problemas de capacidade, suscitando riscos econômicos para o futuro. Contamos, também, com mudanças de paradigmas na matriz energética mundial: usinas nucleares estão sendo amplamente debatidas, tendendo a se esvair, e os recursos fósseis estão perdendo força. Para esses desafios, buscamos respostas inteligentes e sustentáveis. Neste momento, o conceito de Smart Grid torna-se uma das soluções inovadoras. Smart Grids, ou redes inteligentes, são a aplicação de TI dentro da rede elétrica de modo a torná-la inteligente e automatizada por meio de seus sistemas setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 49 nucleotcm www.zf.com Na visão da Siemens, o conceito vai desde o controle de geração intermitente até o consumo inteligente, passando pela transmissão eficiente e distribuição flexível da energia elétrica. de comunicação. Na visão da Siemens, o conceito vai desde o controle de geração intermitente até o consumo inteligente, passando pela transmissão eficiente e distribuição flexível da energia elétrica. As redes inteligentes do futuro devem fornecer o que há de mais inovador em termos de soluções de tecnologia da informação, possibilitando a integração vertical e horizontal de todos os elementos da rede. Além disso, deve prover a cobertura de toda a cadeia de conversão, passando por concessionárias de energia, indústrias e cidades, até operadores ferroviários. Diferentes países e mercados podem usufruir dessa tecnologia para enfrentar os mais específicos desafios. As vantagens da aplicação do Smart Grid abrangem diversos participantes da cadeia de conversão, partindo da redução das emissões de CO2 relativas à geração de energia por meio do acesso às grandes centrais de energia eólica, hidro e solar até a redução nas perdas de transmissão e distribuição. As redes inteligentes oferecem, ainda, uma melhor qualidade de energia nos vários níveis de tensão, ganhos de segurança, monitoramento e estabilidade para o sistema. Os benefícios englobam, também, redução nos custos com energia e melhoria no desempenho da rede pelos operadores e concessionárias por meio de uma integração do sistema de informação inteligente e tecnologias de comunicação. 50 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 De acordo com um estudo elaborado pela GlobalData, consultoria norte-americana especializada no setor de energia, o mercado brasileiro de Smart Grid deverá apresentar uma taxa composta de crescimento anual de 43% até 2020, garantindo o desenvolvimento da infraestrutura interna de modo a alcançar os padrões internacionais e reduzir as perdas de energia, que ultrapassam a casa dos 20% em algumas regiões do país e geram prejuízos às distribuidoras. Atualmente, o Brasil conta com um dos mais avançados e confiáveis sistemas de gerenciamento de energia no mundo. Desenvolvido pelo consórcio Siemens-Cepel, o novo sistema de supervisão e controle do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), responsável pelo gerenciamento de energia do País, passa a contar com tecnologia Smart Grid que estabelece uma plataforma unificada nos centros de operação da companhia. Este importante projeto desenvolvido em parceria com o Cepel reforça o compromisso que a Siemens tem com a inovação e com o crescimento do País. Foi um trabalho desafiador que resultou em mais eficiência e confiabilidade ao sistema elétrico brasileiro. A companhia conta com uma vasta experiência em aplicações Smart Grid em todo o mundo e o Brasil dá um passo definitivo em direção ao conceito de redes inteligentes com o Reger (Rede de Gerenciamento de Energia). PARA A ZF, EFICIÊNCIA, SUSTENTABILIDADE E TECNOLOGIA GERAM JUNTAS A ENERGIA DO FUTURO Mais do que oferecer inovações tecnológicas e soluções modernas para diversos segmentos, a ZF trabalha dia a dia, pelo uso eficiente de energia e recursos naturais e, consequentemente, por um futuro mais sustentável. Atualmente, o Brasil possui a sexta maior reserva de urânio do mundo – eram 310 mil toneladas há dois anos. Esse fato garantiria o suprimento de pelo menos dez usinas nucleares de 1MW de potência instalada – o equivalente ao consumo médio de seis mil pessoas – por um período de 100 anos. Entretanto, o futuro dessa fonte de energia elétrica no País é desconhecido e incerto. Não apenas porque nele confluem uma ampla rejeição da sociedade, mas também devido aos rumos pelo quais caminham as pesquisas de usinas de quarta geração. Ao ponderar os benefícios ou prejuízos que a energia nuclear poderia trazer para os consumidores, a balança parece se inclinar mais para o lado dos benefícios. Tanto pelo potencial energético, como pelo impacto ao meio ambiente no curto prazo isso quando o problema da acumulação de resíduos radiativos das usinas nucleares for resolvido. Não é demais lembrar que a disposição desse lixo ainda é um problema mundial, e a maioria dos países usa 52 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 depósitos provisórios, solução que também está sendo utilizada no Brasil. “Acho inevitável que, a médio ou longo prazo, a energia nuclear venha a ser considerada aqui no País como alternativa para evitar problemas de abastecimento. Infelizmente, hoje não há mais tempo útil para ser usada”, lamenta Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ e ex-presidente da Eletrobras, ao se referir ao alto risco de racionamento que o Brasil enfrenta, fato que até influenciou no rebaixamento da nota de crédito soberano pela Standard & Poor’s. Hoje, a participação dessa fonte na matriz energética brasileira se resume a meros 1.990 MW, ou apenas 1,55% dos pouco mais de 128.000 MW da capacidade instalada do País. E mesmo com a eventual entrada em operação de Angra III, prevista para maio de 2018, essa fatia não deve passar de 3%. Esta poderá ficar diluída com a ampliação de outras fontes de energia, principalmente as geradas com combustíveis renováveis, limpos e mais baratos. Ist oc kp ho to Foto: Istockphoto Por Vladimir Goitia Vários países, como a Alemanha, Bélgica, Suíça e França, decidiram acelerar seu processo de redução gradual de suas centrais nucleares e, a médio prazo, devem abandoná-las. “Nos Estados Unidos não se inicia a construção de novos reatores nucleares há mais de 25 anos. Os países que ainda estão investindo nesta tecnologia são a China, Rússia, a Coreia do Sul e uns poucos outros no Oriente Médio”, afirma Goldemberg. “Estes países não são bons exemplos para o Brasil porque não têm outras opções como tem o nosso país”, arremata. Montalvão discorda. Ele reconhece que o acidente de Fukushima estimulou estudos, debates e posicionamentos que estão retardando eventuais tomadas de decisão sobre novos empreendimentos nucleares. Entretanto, ele afirma serem essas as mesmas razões que estão levando o mundo a planejar o aumento da participação nuclear na matriz de geração de eletricidade. De acordo com ele, o acidente nuclear no Japão não implica elementos objetivos que possam alterar os rumos atuais do programa nuclear brasileiro. “Antes do acidente no Japão, a Eletronuclear já tinha dado início ao procedimento de seleção de locais candidatos para as futuras centrais nucleares brasileiras, a partir das diretrizes de planejamento Fo to: Energia nuclear tem futuro incerto São justamente esses os argumentos de quem se posiciona contra a energia nuclear. Para eles, os principais e mais influentes fatores na limitação da expansão da energia nuclear no Brasil são os altos custos de construção das usinas e a disponibilidade de fontes alternativas muito melhores do ponto de vista econômico e ambiental. “O Brasil tem ainda amplas oportunidades de expandir, por exemplo, a geração hidroelétrica além de outras energias renováveis, como as eólicas e a biomassa”, argumenta José Goldemberg, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro das pastas de Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente entre 1990 e 1992. A questão, entretanto, é que, com o contínuo esgotamento de expansão do potencial hidroelétrico, há uma necessidade de acionamento cada vez maior de usinas termelétricas a óleo e gás para suprir a crescente demanda de energia. O problema é que esses dois combustíveis são considerados caros e, vez ou outra, enfrentam risco de suprimento. Wilson Montalvão, assistente da presidência da Eletronuclear, lembra que o sistema elétrico nacional, que até o ano 2000 poderia operar baseado unicamente em hidrelétricas, nos últimos anos necessitou de uma contribuição mensal de geração termoelétrica superior a 2.000 MW médios. E isso tem provocado custos altíssimos para o governo, que, inevitavelmente, os repassará para a população. Montalvão lembra também que, enquanto a energia das usinas nucleares Angra I e Angra II é vendida a R$ 135,69 o MWh (base de dezembro de 2013), a eletricidade gerada por 15 usinas térmicas despachadas na base pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) - composto por usinas a carvão, biomassa, gás natural, óleo combustível e óleo diesel - vem sendo vendida nos últimos dois anos a R$ 410,00, em média. Isto é, as termoelétricas convencionais produzem energia a preços que variam entre R$ 270,00 e R$ 1.000 o MWh. Mas nem mesmo essa gritante diferença de preços seduz quem poderia se beneficiar com energia mais barata. Os investidores, arrefecidos ainda mais depois do acidente de Fukushima, há exatamente três anos, parecem também estar abalados com as ondas de choque geradas pelo terremoto e o tsunami que atingiram o Japão. Até a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) avalia que a expansão global da energia nuclear depois desses fatos sofreu desaceleração moderada. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 53 Foto: Divulgação Energia Nuclear 54 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Areva aposta na ampliação nucelar no Brasil 436 reatores em operação País Unid. Total MW(e) África do Sul 2 1860 Alemanha 9 12068 Argentina 2 935 Armênia 1 375 Bélgica 7 5927 Brasil 2 1884 Bulgária 2 1906 Canadá 19 13500 China/ Taiwan 24 18888 Coréia do Sul 23 20739 Eslováquia 4 1816 Eslovênia 1 688 Espanha 8 7560 Finlândia 4 2752 França 58 63130 Holanda 1 482 Hungria 4 1889 Índia 20 4391 Irã 1 915 Japão 50 44215 México 2 1530 Paquistão 3 725 Reino Unido 16 9231 Rep. Checa 6 3804 Romênia 2 1300 Rússia 33 23643 Suécia 10 9408 Suiça 5 3308 Ucrânia 15 13107 USA 102 100710 TOTAL 436 372.686 Foto: Divulgação Panorama dos países com centrais nucleares e potência instalada em 2013: Fonte: AIEA, 2013 Foto: Divulgação estabelecidas pelo Plano Nacional de Energia 2030 (PNE 2030), que considerava a expansão da oferta nuclear em 4.000 MW, sendo 2.000 MW na região Nordeste e 2.000 MW na região Sudeste”, diz. Montalvão explica ainda que, no momento, o setor aguarda o lançamento do Plano Nacional de Energia 2050 (PNE 2050), previsto para este ano. “Esse documento vai determinar o planejamento energético brasileiro para as próximas décadas e dizer qual será a contribuição futura da energia nuclear. Estamos aguardando essa definição para dar continuidade ao trabalho de prospecção de sítios para sediar novas usinas nucleares. Já fizemos um levantamento de 40 áreas aptas em todo o país”, informa. Segundo Montalvão, o PNE 2050 indicará as áreas prioritárias para prosseguir com a escolha dos sítios finalistas. Goldemberg avalia, entretanto, que, como em muitos outros países, a iniciativa privada não tem interesse em investir em energia nuclear, devido ao elevado e crescente custo de instalação. O que o professor da USP quer dizer é que a eventual expansão do parque nuclear brasileiro caberia quase que exclusivamente ao setor público. Cálculos da própria Eletronuclear mostram que o investimento previsto para a implantação de novas usinas seria de aproximadamente US$ 5 bilhões para uma unidade de 1.000 MW. “Esse valor é overnight, ou seja, seria o montante a ser pago se a usina fosse quitada de uma única vez”, explica Montalvão. Entretanto, o pagamento se daria ao longo de 15 anos, com acréscimo de juros. O investimento poderia ser amortizado durante esse período a partir da geração de caixa da própria usina, segundo o funcionário da Eletronuclear. Como a vida útil do empreendimento supera os 60 anos, uma nova usina nuclear produziria eletricidade e se apropriaria de significativos montantes de lucro durante quase meio século após a amortização do investimento inicial. A Areva, líder mundial na construção de reatores, concepção e fabricação de equipamentos nucleares e sistema de controle e comando digital, entre outros, avalia que as diretrizes do planejamento energético brasileiro para as próximas décadas, que preveem a ampliação da energia nuclear na matriz energética nacional, permitirá à companhia francesa ganhar maior espaço no País. “Sabemos que o Brasil tem planos para implementar entre quatro e oito novas unidades nucleares até 2030. Então, a Areva considera que usina de Angra III é um marco importante na direção do nosso objetivo de ganhar mais espaço no Brasil”, diz Bernard Bastide, diretor da Areva para o Brasil e América Latina, ao lembrar recente contrato entre a estatal francesa e a Eletronuclear. O contrato ao qual o executivo se refere prevê o fornecimento de serviços de engenharia, componentes, sistemas de controle e comando digital da central, além da assistência na supervisão dos trabalhos de instalação de equipamentos na usina de Angra III, prevista para entrar em operação em maio de 2018. O valor do contrato, assinado em novembro do ano passado, é de 1,25 bilhão de euros (R$3,75 bilhões). Angra III terá capacidade para gerar 1.405 MW e tem orçamento total estimado em cerca de R$ 14 bilhões, com base em números de dezembro de 2012. Ela será capaz de gerar mais de 12 milhões de MWh/ano, energia suficiente para abastecer Brasília e Belo Horizonte durante o mesmo período. Com Angra III, o setor passará a gerar o equivalente a 50% do consumo do Estado do Rio de Janeiro. “Esperamos que esse projeto posicione a Areva - e a sua joint venture Atmea - como candidata a participar na implantação de futuras unidades nucleares no Brasil”, completa, entusiasmado, o diretor da companhia. Não é para menos. O contrato com a Eletronuclear elevará para quase 105 o número de reatores nucleares construídos pelo grupo francês ao redor do mundo. Como líder mundial do setor nuclear, onde também domina toda a cadeia de fornecimento – mineração, química, enriquecimento de urânio, fabricação de combustível, reatores e reciclagem de combustível –, a Areva é responsável também pela prestação de serviços de Ensaios Não Destrutivos (END) e testes especiais para várias centrais nucleares em diversos países, entre elas Angra I e Angra II. Vale ressaltar que Ensaios Não Destrutivos aplicados em centrais nucleares têm a mesma finalidade de quando aplicados no setor industrial como um todo. Levando em conta, entretanto, as particularidades das inspeções que devem ser feitas nas áreas controladas da usina, que exigem equipamentos especiais automatizados ou semi-automatizados, além de pessoal altamente treinado para sua execução. O grupo francês está também presente na área de bioenergia no País. Por meio da Areva Renewable Brasil, que hoje conta com cerca de 200 pessoas trabalhando no setor, projeta e fornece unidades de geração de energia com biomassa (bagaço de cana e eucalipto, entre outras fontes, dependendo da viabilidade comercial). De acordo com Bastide, a Areva Renewables está capacitada para fornecer qualquer tipo de unidades. “Temos histórico importante nessa área. Já construímos 100 unidades de biomassa no País, somando mais de 2.000 MW em mais de 20 anos”, conta. Além do Brasil, a Areva está presente em outros países da América Latina, como Chile e Colômbia. “Vendemos projetos, engenharia e tecnologia. Também queremos fornecer outros tipos de energia renovável, especificamente a energia solar”, diz. Ele ressalta que o grupo está apto a desenvolver e comercializar projetos de energia solar concentrada (CSP, na sigla em inglês). “É um tipo de energia solar muito mais estável que a fotovoltaica, porque conta com um sistema que não está tão sujeito a períodos nublados”, afirma. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 55 Devido a uma necessidade crescente de energia elétrica e à redução dos recursos fósseis, as energias de fontes renováveis têm se tornado cada vez mais relevantes. Diante disso, as pesquisas na área fotovoltaica também vêm se concentrando, há alguns anos, nas células solares orgânicas, conhecidas como células solares de terceira geração – as de silício foram as de primeira geração e as de filmes finos inorgânicos, de segunda. Comparadas às tradicionais células solares de silício, as células solares orgânicas têm inúmeras vantagens: elas são flexíveis, leves e sua produção é barata. Essa flexibilidade cria novas possibilidades de uso, como a integração de módulos de vidro em vidraças de janelas. Por isso, a produção mais barata a torna interessante para a fabricação em massa. Os módulos solares orgânicos (OPVs, sigla em inglês para organic photovoltaic) já estão sendo parcialmente utilizados em aparelhos eletrônicos. As células OPV levam esse nome porque usam materiais semicondutores a base de carbono para fazer a conversão de energia luminosa em energia elétrica. Os OPVs vêm sendo produzidos por meio de novas técnicas de fabricação por processo contínuo, conhecida como técnica roll-to-roll, que é bem mais rápida e eficiente do que os complicados processos necessários para a fabricação de componentes inorgânicos. 56 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Diferentemente dos métodos tradicionais, nos quais cada elemento é fabricado separadamente, esse se assemelha a uma esteira rolante. No sistema roll-to-roll, as camadas são impressas consecutivamente sobre uma camada-base flexível, a qual se desloca continuamente sobre rolos, como uma esteira rolante sem fim. Em uma última etapa, as camadas ainda são encapsuladas hermeticamente sobre a esteira para serem protegidas principalmente do oxigênio. A condição prévia necessária para a fabricação com o método roll-to-roll é usar um material de base flexível com características de substrato. Até agora, foram utilizados filmes de polímeros, os quais, no entanto, apresentam a seguinte desvantagem: os filmes são permeáveis, até certo grau, ao vapor de água e ao oxigênio, que afetam o sensível módulo solar, reduzindo consideravelmente sua vida útil. Por isso, vêm sendo utilizados substratos com camadas que servem de barreiras para proteger os módulos OPV. Para temperaturas de processo mais altas e uma vida útil mais longa, é necessário utilizar outros substratos de base. Pesquisadores do Instituto Fraunhofer para Pesquisas Aplicadas em Polímeros (IAP), da Alemanha, trabalham atualmente com um novo material de base: um vidro extremamente fino. Vidro não é apenas o material ideal para o encapsulamento, mas também Parceria para produzir OPVs no Brasil No momento, o Brasil investe fortemente em energias alternativas. A conversão da energia solar em energia elétrica é um importante componente dessa estratégia, pois, futuramente, a fotovoltaica orgânica deve possibilitar, também, que se obtenha Foto: Fraunhofer IAP - Armin Wedel O desafio das células solares de terceira geração para suportar temperaturas de processamento até 400 graus de temperatura. Graças às suas características físicas especiais, é possível obter camadas de apenas 100 micrômetros de espessura, o que corresponde aproximadamente a uma folha de papel. Esse vidro especial não tem muita semelhança com o vidro dos copos que usamos diariamente para beber água. Ele não só é extremamente forte e resistente à quebra, como também é altamente flexível, mesmo no estado sólido, podendo ser levemente arqueado. Atualmente, o seu processamento ainda é feito com camadas empilhadas. O objetivo é produzir esses módulos também com equipamentos roll-to-roll. De forma semelhante ao processo de impressão de jornais, o substrato de base é enrolado em um rolo. Na outra extremidade encontra-se um rolo vazio e, entre os dois rolos, as camadas fotoativas e os eletrodos são impressos em vários processos. Com essa tecnologia de produção, é possível fabricar grandes superfícies em série e de forma eficaz. Essa tecnologia também possibilita criar OPVs robustos e eficientes por longo prazo para as mais diversas aplicações: de minúsculas células solares para telefone celular até módulos fotovoltaicos de ampla dimensão. Demonstração de prédio com células solares de 3ª geração. Foto: Bernard Schmidt/ Flexsolar Foto: Istockphoto Energia Solar Células solares: fácil, flexíveis, inquebráveis e com preços razoáveis. energia elétrica em regiões do Brasil com pouca infraestrutura. Nesse caso, a energia elétrica significa não apenas iluminação, mas também o acesso a modernos meios de comunicação, como computadores e smartphones. Os elementos fotovoltaicos necessários, porém, precisam ser leves, baratos e, em muitos casos, flexíveis, para que possam ser instalados, por exemplo, em mochilas escolares. Também estão previstos elementos para superfícies mais amplas por meio das quais as baterias de laptops poderão ser carregadas. Para tanto, a empresa brasileira FlexSolar e o Instituto Fraunhofer para Pesquisas Aplicadas em Polímeros (IAP) irão desenvolver células solares orgânicas flexíveis. Em 2012, as duas assinaram um acordo para desenvolver essas células de terceira geração. O projeto, estimado em 4,8 milhões de euros (R$ cerca de R$ 14,5 milhões), prevê que a produção, num primeiro momento, será concentrada na Alemanha, mas, depois, os dispositivos deverão ser fabricados também em Joinville (SC), sede da Flex Solar. A empresa brasileira pretende produzir a quantidade necessária de elementos fotovoltaicos em um processo de impressão contínua com equipamentos roll-to-roll. As tecnologias e os processos necessários para tanto serão desenvolvidos pelo IAP. A FlexSolar, criada para transferir esse know-how para a área de fotovoltaicos, já que a fabricação das células solares orgânicas utiliza métodos de impressão similares aos da indústria gráfica, será responsável pelo desenvolvimento do produto e pela sua comercialização na América do Sul. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 57 Biomassa Biomassa: a energia verde Por Vladimir Goitia Foto: Divulgação Foto: Istockphoto Bioenergia dá um salto, mas ainda é “primo pobre” do setor A capacidade instalada do Brasil para produção de eletricidade com bagaço de cana, casca de arroz, licor negro, resíduos de madeira e agrícolas, restos de alimentos e esterco, entre outros, deu um salto impressionante nos últimos cinco anos, passando de pouco menos de 1.000 MW, em 2010, para 11.423 MW em abril deste ano, marca que supera a Usina Belo Monte, estimada em 11.233 MW assim que entrar em operação. Apesar dessa expansão, a potência da bioeletricidade equivale apenas a 8,4% de toda a capacidade de geração do Brasil, estimada hoje em 136.281 MW (potência outorgada) pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Ao todo, são 477 usinas em operação, sendo que o bagaço de cana é responsável pela produção de 9.340 MW. Estima-se que, no ano passado, a bioeletricidade produzida pelo bagaço tenha sido responsável por uma oferta de 15 milhões de MWh ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Essa oferta à rede representou poupar pelo menos 7% da água nos reservatórios da região Sudeste/Centro-oeste, justamente porque essa geração ocorre na época críti- 58 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 ca do setor elétrico (período seco), que se agravou ainda mais no início deste ano. O maior potencial de geração está em São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná, os maiores centros de consumo de energia elétrica. De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão de planejamento energético do governo brasileiro, as quase 480 usinas térmicas movidas com biomassa constituem mais uma fonte renovável disponível para compor a expansão da oferta de geração no País. Não em vão elas já superam em mais de quatro vezes a capacidade instalada de outra fonte importante de produção de energia limpa: a eólica, que responde por 2.704 MW, ou 1,98% do total geral. Vale ressaltar que a biomassa é considerada uma das fontes mais renováveis, capaz de gerar energia elétrica 24 horas por dia, já que não depende do sol, do vento ou da água. Em outras palavras, é a aposta mais limpa, mais barata e mais eficiente, razão pela qual o setor continua a se expandir aqui e lá fora, e cresce a um ritmo mais veloz do que a economia global, segundo o Pew Environment Group, braço ambiental da organização sem fins lucrativos The Pew Charitable Trust, sediada nos Estados Unidos. Além disso, é possível ainda comercializar créditos no mercado de carbono e reduzir os valores necessários para investimento, em comparação a outros tipos de energia limpa. Para o gerente em bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), Zilmar de Souza, esse quadro mostra o potencial que tem a fonte biomassa em geral, particularmente o bagaço e a palha da cana-de-açúcar. “O novo patamar atingido é motivo de orgulho, mas não podemos comemorar como deveríamos, pois ainda temos dúvidas sobre as perspectivas de longo prazo e o avanço dessa fonte na matriz elétrica”, pondera Souza. Ele explica ainda que, apesar de o potencial ser reconhecido pelo próprio governo, a expansão ainda depende muito da comercialização de energia no ambiente regulado (leilões regulados), aspecto que causa preocupação por não haver continuidade na contratação da bioeletricidade. Além disso, há entraves que impedem a ampliação da geração por meio de biomassa, que, segundo Souza, deveriam ser tratados com a adoção de uma política setorial específica para a bioenergia. Estima-se que, das quase 480 usinas, apenas entre 170 e 180 usinas exportam para o SIN. Ou seja, quase 300 usinas produzem vapor e eletricidade apenas para o consumo próprio, mas seria possível transformá-las em termelétricas produtoras de energia elétrica renovável excedente para a rede elétrica. “Para isso, seria necessário uma política setorial de longo prazo capaz de promover a eficiência energética nessas usinas, trocando caldeiras, reduzindo o consumo de vapor, gerando mais energia com o mesmo bagaço da cana”, explica Souza. Suani Coelho, professora do programa de Pós Graduação em Energia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Centro Nacional de Referência em Biomassa (Cenbio/IEE/USP), avalia que a participação da biomassa na matriz energética brasileira é ainda muito reduzida. Mas acredita que as vantagens econômicas para quem produz eletricidade por meio da biomassa devem incentivar investimentos que permitam ampliar e até dobrar a fatia na capacidade instalada brasileira. Entre essas vantagens, ela cita a utilização de equi- pamentos e matéria-prima nacionais e o aproveitamento de resíduos ambientalmente corretos, além, claro, da geração de empregos em zonas rurais. É o caso da MPC Bioenergia do Brasil, subsidiária do grupo alemão MPC Münchemeyer Petersen & Co, que administra algumas dezenas de bilhões de euros em fundos e tem investimentos nas áreas de energia, imóveis e navegação. Há dois anos, a empresa produz 12,3 MW de energia em uma usina própria movimentada com casca de arroz em São Borja, no Rio Grande do Sul. Dessa capacidade, a MPC exporta para o SIN 10,8 MW, energia suficiente para abastecer uma cidade com 60 mil casas, ou de 180 mil habitantes. O restante é para consumo próprio. O resultado desse projeto foi tão promissor que a MPC tem outras duas usinas prontas para sair do papel: uma em Itaqui, a mais 100 km de São Borja, e outra em Pelotas. A primeira deve começar a ser erguida no segundo semestre e pode entrar em operação em meados de 2016, de acordo com Johann Albert Ramcke, diretor executivo da MPC. “A segunda está em fase de licenciamento ambiental, com perspectivas de começar a gerar energia já em meados de 2017”, informa Ramcke. Tanto uma como a outra terão capacidade de geração entre 16 MW e 17 MW. O executivo prefere não falar em investimentos, mas lembra que a primeira usina de São Borja da empresa movida a casca de arroz custou cerca de R$ 70 milhões. E dentro da filosofia de que tudo pode ser reaproveitado de forma sustentável, Ramcke conta que as cinzas das quase 100 mil toneladas de casca de arroz queimadas para fazer funcionar a usina estão Foto: Istockphoto setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 59 sendo aproveitadas para a impermeabilização de concreto. O mesmo deve ocorrer com as cinzas que serão geradas nas outras duas usinas. A Guarani, que em abril de 2011 recebeu investimentos volumosos da Tereos para ampliar a sua capacidade de produção de energia de cogeração, vai quadruplicar a venda de energia, passando de 259 GWh, em 2011, para 1.2 GWh em 2016. Na safra 2013/14, a companhia produziu 720 GWh para o sistema elétrico e estima comercializar mais de 1 GWh na safra 2014/15, o que representa um aumento de 40% em relação à safra anterior. A empresa informa que as sete unidades industriais da Guarani são autossuficientes em energia elétrica gerada da queima do bagaço de cana. Das sete unidades, seis geram energia excedente para a venda. Na safra 2015/16, a Companhia terá quadruplicado a sua capacidade de cogerar energia chegando a 1.2 GWh. Os projetos de cogeração de energia elétrica para a venda tiveram início na Guarani em 2003. A Roland Berger Strategy Consultants é uma das principais consultorias estratégicas no mundo. Com mais de 2.700 funcionários e 51 escritórios em 36 países, operamos com sucesso em todos os mercados internacionais. Etanol 2G, aposta do futuro Os gargalos para a produção de etanol de segunda geração (2G), obtido a partir da biomassa (bagaço e palha de cana-de-açúcar), praticamente foram superados, e o aproveitamento sustentável da massa verde (celulose) deve permitir um aumento de mais de 40% na produção, sem necessidade de ampliar as áreas plantadas com canavial. Daí que essa matéria-prima vem ganhando cada vez mais espaço no setor sucroalcooleiro por ser uma alternativa para a produção de bioenergia e etanol 2G. A Raízen, maior produtora de açúcar e etanol do mundo, controlada pela Cosan e Shell, está em processo de conclusão da sua primeira unidade industrial de etanol 2G ao lado da Usina Costa Pinto, em Piracicaba (SP), com capacidade de produção de 40 milhões de litros anuais. De acordo com Rodrigo Pacheco, diretor de Projetos Industriais EAB da Raízen, a unidade industrial que ficará acoplada à usina de cana para o aproveitamento da biomassa deve entrar em operação ao final deste ano. A empresa, que está investindo R$ 230 milhões no projeto, estuda erguer o mesmo tipo de fábrica de etanol celulósico em outras nove usinas nos próximos dez anos para aproveitar a logística da palha e do bagaço de cana. “A capacidade de produção de etanol 2G vai variar de usina a usina, já que isso dependerá da biomassa disponível”, explica Pacheco. A ideia da companhia é aumentar a produtividade sem aumentar a área cultivada, aproveitando 100% da matéria-prima já existente. A empresa lembra que são cerca de 25 milhões de toneladas de bio- 60 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 It's character that creates impact! massa por ano-safra. A expectativa é que, operando com capacidade máxima, essas novas unidades industriais produzam pelo menos 1 bilhão de litros de etanol 2G por ano. A Raízen lembra que, desde 2012, mantém, em parceria com a canadense Iogen Corporation, uma planta-teste de etanol celulósico em de Ottawa. A ideia é adquirir experiência suficiente e colocar em operação a primeira unidade industrial de etanol celulósico da empresa. Até o momento, a companhia já enviou mais de mil toneladas de bagaço de cana-de-açúcar para o Canadá, onde uma equipe da Raízen acompanha o desenvolvimento do projeto do etanol 2G. A Raízen também ocupa posição de destaque como a maior produtora de energia elétrica a partir da biomassa de cana-de-açúcar. A empresa conta com 13 termelétricas associadas a suas unidades produtoras de açúcar e álcool. A capacidade total instalada chega a 940 MW nas 24 usinas, das quais 22 estão em São Paulo. O potencial representa uma comercialização anual de energia elétrica de aproximadamente 1,8 milhão de MWh, o suficiente para suprir, por exemplo, uma cidade de cinco milhões de habitantes. A energia produzida pela Raízen a deixou autossuficiente e, agora, lhe permite exportar o excedente – não utilizado em seus processos – para o mercado. A geração de energia oferece a destinação adequada aos resíduos da produção de açúcar e etanol e ainda reduz a emissão de CO2 com a queima desses materiais no campo. Apoiamos empresas industriais e de serviços assim como instituições públicas em todos os setores da economia em gestão e estratégia. Nossos serviços abrangem: planejamento estratégico, novos modelos de negócio, gestão por processos, estrutura organizacional, estratégia tecnológica e operacional. Atuamos fortemente no setor de energia atendendo as principais empresas mundiais. No Brasil, somos líderes no segmento de energia elétrica. Atuamos em toda a cadeia de valor: geração tradicional e renovável, transmissão, distribuição e comercialização. Ajudamos nossos clientes a superar desafios em estratégia corporativa, entrada em novos mercados, gestão regulatória, transformações organizacionais, programas de melhoria de performance e de otimização operacional. Colocamos toda nossa energia para garantir um futuro brilhante para nossos clientes. Para maiores informações, por favor contatar: Marcelo Aude +55 11 3046 7111 [email protected] Roland Berger Strategy Consultants www.rolandberger.com XXXXXXX Energética Eficiência Um dos maiores desafios diários da Linde é equilibrar as demandas energéticas de nossas unidades industriais com a geração de economias que promovam eficiência e produtividade. Entre ações e estratégias implantadas nesse sentido, estão o monitoramento online das máquinas de grande porte, um benchmarking global com o objetivo de buscar melhores práticas e técnicas de inspeção, além do envolvimento de todos os nossos colaboradores na busca da melhoria contínua de índices de produção. Por meio do nosso Centro de Controle de Operações, acompanhamos full time os processos de todas as plantas da Linde no Brasil, atentando a qualquer oportunidade que possa gerar melhor aproveitamento energético. A ideia é construir uma cultura de alto desempenho. Além disso, trabalhamos com a hipótese do desperdício inadmissível, aquele que poderia ser previsto e evitado. Caso ele ocorra, realizamos o que chamamos de exercícios de lições aprendidas para evitar a recorrência. Vale ressaltar que, ao investir em padrões que asseguram processos de baixo custo e alta confiabilidade, a Linde não é a única que sai ganhando, já que pode oferecer aos clientes produtos com melhor custo/benefício. Ou seja, a eficiência produtiva garante um mercado mais competitivo. Assim, todos saem ganhando. Energia continua a ser um dos maiores desafios da indústria 62 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Por Magnus Karlson Head de Processos e Operações Globais de Healthcare na Linde ZF cria comissão para monitorar uso racional de energia Foto: Divulgação se paga lá fora pela energia. Isso é assustador”, lamenta o executivo da Abrace. De acordo com ele, o Brasil já vem perdendo alguns segmentos industriais importantes, como é o caso da cadeia do alumínio. Para abastecer o mercado interno, o setor teve de importar alumínio. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, de janeiro a maio, as importações de alumínio bruto cresceram 888% em relação a igual período de 2013. Algumas áreas da indústria química, como a produção de cloro, também enfrentam problema similar, de acordo com o presidente da Abrace. A PSR, uma das maiores e mais respeitadas consultorias do setor energético, aponta que em 2015 as tarifas deverão voltar ao nível de dezembro de 2012, quando estavam em média a R$ 313,00 por MWh. Essa volatilidade e a tendência de preços caros, que devem se estender até 2016, continuam a preocupar a indústria. Vale ressaltar que a energia elétrica é um insumo essencial, e, portanto, representa custos maiores. Para driblar esse problema, a indústria tem lançado mão de medidas e estratégias de sustentabilidade importantes para reduzir o consumo de energia. Logo a seguir, veja alguns depoimentos de altos executivos sobre este tema. Por Wilson Bricio Presidente ZF América do Sul Foto: Istockphoto Duas décadas atrás, o Brasil tinha uma das melhores posições entre os países que conseguiam oferecer energia elétrica a preços competitivos. Em 1995, as tarifas brasileiras eram comparáveis às do Canadá e da Noruega, campeões nesse setor. Desde então, porém, as tarifas de energia elétrica para a indústria subiram, em média, 108% em termos reais, ou seja, descontada a inflação. “A pergunta é quando e como vamos sair dessa situação tão grave”, indaga Paulo Pedrosa, presidente-executivo da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace). Levantamento da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) mostra que o custo médio da energia elétrica para a indústria brasileira hoje está em quase em R$ 313,16 por MWh. Esse valor é 144% superior à media do custo nos Estados Unidos, fato que impede a competição do País com o exterior. “Nos Estados Unidos, a indústria intensiva em energia paga, em média US$ 40,00 (R$ 88,00) por MWh. Na Europa, o custo final da energia é de 46 euros (R$ 138,00). Na Alemanha há isenção de custos na transmissão. E nós aqui estamos pagando entre o dobro e o triplo do que Foto: Divulgação Linde trabalha com a ideia do “desperdício inadmissível” A energia elétrica representa, aproximadamente, 73% do consumo energético das cinco unidades industriais da ZF na América do Sul. Com o objetivo de implementar estratégias para aumentar a eficiência energética de suas fábricas, a ZF América do Sul instituiu uma comissão interna cuja função é identificar, avaliar, propor, aplicar e controlar medidas que permitam a redução e o uso racional e consciente de energia elétrica nos seus processos produtivos. Algumas dessas ações são específicas para otimizar o consumo, como por exemplo: a substituição de compressores de ar-comprimido convencionais por compressores de última geração com velocidade variável de funcionamento; a substituição de motores elétricos convencionais por motores de alta eficiência nas estações de bombeamento de água industrial; o desligamento automático de máquinas nos intervalos de operação; e campanhas internas frequentes de conscientização dos funcionários sobre o bom uso da energia elétrica nas dependências das unidades industriais. Além disso, já existem outras ações que estão em estudo e em fase de implementação, entre elas a troca de lâmpadas convencionais por iluminação em LED nos escritórios e fábricas da empresa. Como resultado dessas medidas, o consumo de energia elétrica foi reduzido em 10% no ano passado (2013). setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 63 Por Marcelo Lacerda Presidente da LANXESS no Brasil Fábrica da BMW no Brasil segue padrões de sustentabilidade A LANXESS acredita que a utilização de fontes de energia renováveis, como a biomassa e a energia solar, tenham cada vez mais importância na preservação do meio ambiente. A usina de cogeração de energia, movida a bagaço de cana ou cavaco de madeira, instalada em Porto Feliz, interior de São Paulo, produz toda a energia utilizada para a produção de pigmentos de óxido de ferro. A geração própria de energia tornou a fábrica mais independente, dando maior segurança para a produção. Ou seja, a LANXESS pode produzir sem depender das oscilações das redes elétricas. A usina de cogeração, com capacidade instalada de 4,5 MW, permite à empresa reduzir as emissões de CO2 para praticamente zero. E a eficiência alcançada no processo é de até 90%, considerada muito alta para este tipo de usina. As cinzas formadas no processo de produção de eletricidade, ricas em fósforo, potássio e nitrogênio, são utilizadas como fertilizante para o solo. A LANXESS também investiu em uma ferramenta, a X_Energy, que é usada globalmente para analisar sistematicamente a eficiência energética de fábricas individuais e, assim, mostrar onde existe potencial para otimização. Isso garante que o custo primário seja o menor possível. Com o objetivo de seguir princípios de sustentabilidade, a primeira fábrica de automóveis da BMW no Brasil, na cidade de Araquari (SC), está sendo construída com estruturas prontas de cimento armado e com componentes de cimento pré-fabricados em escala industrial. Quando comparada à produção dos componentes de cimento no canteiro de obras, a produção em série significa um menor gasto de energia elétrica, sem geração de resíduos e com produtos uniformes. Considerando as condições climáticas subtropicais de Araquari, as paredes externas de cimento do edifício contarão com isolamento especial, que elimina a necessidade de aquecedor ou de ar-condicionado. Para reduzir o consumo de energia elétrica e recursos na unidade de pintura, será utilizado o chamado “integrated paint process”, sistema moderno no qual as três etapas do processo de “enchimento” serão integradas ao “revestimento”. Além disso, estamos priorizando a utilização de luz natural para iluminar os pavilhões de produção, os quais serão adicionalmente providos de um equipamento que possibilita o controle da iluminação de acordo com o horário de trabalho, a ocupação e a luminosidade. Acreditamos que a partir dessas ações lançamos a pedra fundamental para uma fábrica energeticamente eficiente. 64 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Foto: Divulgação Foto: Divulgação Por Thomas Schmall Presidente da Volkswagen do Brasil Por Klaus Gaertner Diretor de Operações da BMW-Brasil Voith em sintonia com a sustentabilidade Sustentabilidade na Volks não se limita apenas a carros A Volkswagen do Brasil desenvolve a sustentabilidade como princípio de gestão. Apoiada na meta “Think Blue. Factory”, com ações que incentivam os empregados a terem uma atitude ambientalmente consciente e com esforços mensuráveis para a redução na utilização de recursos naturais, a empresa tem o compromisso de reduzir, até 2018, em 25% a utilização de energia elétrica e água, a emissão de solventes e CO2 e também a geração de resíduos sólidos. Um dos mais recentes destaques é a fábrica de Taubaté (SP), que recebeu investimentos de R$ 1,2 bilhão para produzir o recém-lançado Up!. Nessa fábrica, foi implementada uma nova Unidade de Pintura, que estabelece novos padrões de tecnologia e proteção ambiental e que permite uma redução de 30% no consumo de energia por veículo produzido, em comparação a um processo de pintura convencional. Também investimos na geração de energia limpa e renovável. Numa iniciativa pioneira entre as fabricantes de automóveis instaladas no Brasil, a Volkswagen do Brasil inaugurou em 2010 a Pequena Central Hidrelétrica Anhanguera (PCH), com um investimento de R$ 140 milhões. Localizada no interior do Estado de São Paulo, a usina hidrelétrica é capaz de gerar cerca de 18% de toda a energia elétrica consumida pela Volkswagen do Brasil. Foto: Divulgação Foto: Divulgação LANXESS em Porto Feliz (SP) produz sua própria energia Por Marcos Blumer Presidente e CEO da Voith Hydro América Latina O ditado diz que “em casa de ferreiro, o espeto é de pau”. Mas no tema de sustentabilidade e economia de recursos, essa máxima não se aplica à Voith. Recentemente, a Voith reduziu o seu descarte de areia de fundição em até 97%, graças à recuperação e reciclagem da areia utilizada em seus moldes. Além disso, a torre de resfriamento de sua fundição passou a ser alimentada com água de reuso proveniente da estação de tratamento de efluentes da empresa, ao invés de água encanada. A Voith também vem melhorando a iluminação de suas áreas fabris, especialmente na fundição. Neste caso, algumas telhas desse galpão foram substituídas por telhas translúcidas, que permitem a passagem da luz, e são capazes de iluminar praticamente todo o galpão sem a utilização de luzes elétricas durante o dia. Um dos próximos projetos focará a redução do consumo de eletricidade nos fornos de indução da fundição. Dado o elevado consumo desses fornos, esta será uma iniciativa estratégica para a empresa. Outras iniciativas incluem ainda redução do consumo de água e da geração de resíduos em Manaus. E é exatamente por isso que a Voith inclui soluções de sustentabilidade e economia de recursos em seu portfólio: porque sabe que ações concretas são o melhor exemplo – e argumento – que alguém pode dar. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 65 Sistemas inovadores Bosch para motores a gasolina, perfeitamente sincronizados, reduzem a emissão de CO2. Foto: Divulgação Bosch Brasil reduz em 35% seu consumo de energia Por Theóphilo Arruda Neto Gerente de Engenharia de Segurança e Meio Ambiente da Robert Bosch América Latina Para cumprir a meta de reduzir 25% das emissões de CO2 do Grupo Bosch até 2020, a Bosch Brasil adotou uma série de medidas para diminuir o consumo de energia elétrica e, consequentemente, reduzir a emissão de gás carbônico. São medidas técnicas que envolveram mudanças de processos, melhorias em máquinas, equipamentos e infraestrutura predial. Entre elas estão: instalação de mantas térmicas em máquinas injetoras com o objetivo de reduzir o consumo de energia elétrica e aumentar a vida útil dos componentes elétricos do sistema de aquecimento; desligamento da exaustão e iluminação das áreas internas livres; substituição do sistema de lâmpadas fluorescentes por sistema de leds; substituição de máquinas e motores de baixo desempenho por outros de maior e melhor desempenho; eliminação de vazamentos nos sistemas de ar comprimido. Além disso, promovemos: instalação de programadores de horário em prensas e injetoras; desligamento parcial dos sistemas de exaustão e máquinas ociosas; substituição de esteiras motorizadas por roletes, eliminando a utilização de motores e a substituição de prensas hidráulicas utilizadas no processo de montagem de motores por prensas hidro-pneumáticas. Os resultados conseguidos mostram que o projeto está no caminho. Até agora, conseguimos redução de 45% nas emissões de CO2 e de 35% no consumo de energia elétrica nos processos industriais. Ser ou mais ou menos eficiente energeticamente é uma diferença estratégica que vai definir quais empresas serão bem ou malsucedidas. Esse tema é prioridade para a Siemens. Consideramos essa questão tão importante que, em 2012/2013, o Brasil foi o primeiro país de todo o continente americano a receber o Caminhão da Eficiência Energética da Siemens, uma completa estrutura de soluções e tecnologias da companhia voltadas ao diagnóstico do consumo da energia elétrica em grandes indústrias. Cada caso é um caso. Mas, por nossa experiência, sabemos que é possível alcançar substanciais reduções de consumo, produzindo mais com menos. Com o objetivo de oferecer a solução mais adequada, é feita uma análise do cenário de produção para cada cliente. Trabalhamos com eles de maneira colaborativa, buscando criar maneiras de aperfeiçoar a utilização de energia com melhores resultados na operação. Nossa abordagem reflete o alcance do nosso portfólio e tecnologia: de tecnologias prediais até montagens de subestações, de sistemas de automação industrial eficientes e motores a medidores inteligentes. Com a metodologia Energy Optimization of Drive Systems, por exemplo, registramos em alguns de nossos clientes um aumento de aproximadamente 30% da eficiência energética de todos os sistemas de acionamento de motores elétricos. 66 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Foto: Divulgação Brasil é primeiro a receber Caminhão de Eficiência da Siemens Por Paulo Stark CEO e Presidente da Siemens no Brasil Inovações Bosch protegem o meio ambiente e conservam os recursos naturais. Tecnologia para a vida” é a nossa missão: nós desenvolvemos inovações que respondem hoje aos problemas globais do futuro. A Bosch desenvolve sistemas automotivos, como Flex-Start e Start/Stop que, integrados, reduzem o consumo de combustível e a emissão de CO2. Essa é uma das nossas contribuições para um futuro melhor. www.bosch.com.br Eficiência Energética no lar Por Vladimir Goitia Fotos: Osram Tecnologia permite reduzir consumo em até 70% A lista de itens e equipamentos para economizar energia elétrica em residências é tão imensa que os resultados em termos de eficiência energética são impressionantes. 68 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Isolamentos térmicos para paredes, telhados, sótãos e porões; opções modernas e versáteis para janelas com vidros duplos que isolam o ambiente; sistemas de aquecimento ambiental conectados a algum tipo de energia renovável; ventilação natural ao máximo; água quente produzida com energia solar; painéis fotovoltaicos; telhados verdes; chuveiros e vasos com caixas acopladas inteligentes; pisos de massa térmica; pisos radiantes; lâmpadas fluorescentes ou à base de LED. E por aí vai. A lista de itens e equipamentos para economizar energia elétrica em residências é tão imensa que os resultados em termos de eficiência energética são impressionantes, podendo chegar, segundo especialistas, a uma redução no consumo de energia em até 70%. Não é de hoje que indústrias, empresas da área de energia, a sociedade e o setor público vêm se esforçando para encontrar medidas e soluções tecnológicas que permitam aumentar a eficiência energética no setor residencial, responsável pelo consumo de quase 25% de toda a energia gerada no Brasil, de acordo com o Laboratório de Eficiência Energética em Edificações da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Todos esses setores avaliam que é possível, sim, reduzir consideravelmente a energia consumida dentro de casa. Mas isso requer também uma mudança de comportamento das pessoas, cujo resultado fará bem não só ao meio ambiente como também ao bolso. Ou seja, dá para viver com menos impacto e ainda economizar dinheiro. Não é demais lembrar, ainda, que a perda e desperdício de eletricidade no Brasil são altíssimos. De acordo com Marcos Santos, gerente de Produtos para a linha profissional da OSRAM, que cita dados do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), o total desperdiçado chega a 40 milhões de kW, ou US$ 2,8 bilhões por ano. Isso equivale a mais de 10% de tudo o que foi produzido em termos energéticos. “Os consumidores [indústrias, residências e comércio] desperdiçam 22 milhões de kW. As concessionárias de energia, por sua vez, com perdas técnicas e problemas na distribuição, são responsáveis pelos 18 milhões de kW restantes”, explica Santos. Na avaliação dele, o volume perdido conseguiria abastecer o Rio de Janeiro e o Ceará por um ano. Diante disso, as distribuidoras de energia investem em programas de eficiência energética que ajudem a atenuar o problema e reduzir os excessos de perda e desperdício. Por exemplo, a AES Eletropaulo, companhia responsável pela distribuição a mais de 20 milhões de pessoas na capital e Grande São Paulo, promove uma série de ações para um consumo de energia mais inteligente. No segmento residencial, tem um projeto voltado a famílias de baixa renda. A empresa não apenas revisa toda a instalação elétrica, como troca geladeiras em mau estado de conservação por uma nova. Desde o início do programa, em 2004, já foram doadas cerca de 30 mil geladeiras, e o projeto em si já consumiu quase R$ 20 milhões. A empresa instalou ainda quase 13 mil chuveiros inteligentes em substituição aos convencionais. Os aparelhos diminuem o consumo de energia e funcionam integrados com recuperadores de calor que pré-aquecem a água do banho antes de chegar ao chuveiro. Outro objetivo do programa de eficiência energética da AES Eletropaulo visa à substituição de lâmpadas incandescentes por fluorescentes compactas de 20W para cada residência. A maioria das lâmpadas retiradas é de 60W ou 100W de potência, o que possibilita analisar uma redução no consumo de energia das residências beneficiadas, além da oportunidade de conscientizar esses clientes a manterem as lâmpadas acesas somente quando necessário. Desde 2004, foram substituídas quase 1 milhão de lâmpadas. Esse projeto já absorveu mais de R$ 7 milhões. “Nos últimos dez anos, desde que esses programas foram iniciados, a empresa investiu mais de R$ 300 milhões nos vários segmentos em que ela atua. Dos quais R$ 80 milhões em residências de famílias de baixa renda e R$ 230 milhões em prédios públicos e iluminação viária, entre outros”, informa Fernando Bacellar, coordenador de Usos Finais de Energia da AES Eletropaulo. A OSRAM não divulga os valores de investimento específicos, mas Santos afirma que a empresa reserva aproximadamente 6% do seu faturamento O total de desperdício chega a 40 milhões de kW, ou US$ 2,8 bilhões por ano, segundo dados da Procel. para pesquisa e desenvolvimento de novos produtos que, na avaliação dele, contribuem significativamente para seu programa de eficiência. “A maior parte desses investimentos tem recaído em produtos inovadores e de alta eficiência a base de LED, que consomem até 90% menos de energia em relação a lâmpadas incandescentes”, explica o executivo da companhia. A BASF, uma das líderes mundiais em produtos e soluções que contribuem para a preservação de recursos, colocou no mercado microcápsulas poliméricas para massas e argamassas que ajudam a manter a temperatura do ambiente, reduzindo em um terço o uso de ar-condicionado. Produz ainda pigmentos para o gerenciamento de calor que permitem a não absorção da radiação solar, mantendo fria a superfície pintada. Além disso, o mercado pode contar ainda com poliestireno expansível (EPS) que funcionam como absorvedores de raios infravermelhos, reduzindo drasticamente o consumo de energia ao resfriar casas em climas quentes e úmidos. Esse produto apresenta desempenho de isolamento térmico acima de 20% em relação ao EPS convencional. Na página seguinte seguem algumas dicas para apagar o desperdício no lar. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 69 Fotos: Osram Eficiência Energética Lâmpadas Chuveiro elétrico • É o campeão de consumo • Representa 35% na conta de luz dos brasileiros • Banhos mais curtos economizam, além de energia, água • Coloque, sempre que possível, em posição de “verão” • Limpe periodicamente os furos de saída de água 30% • • • • Iluminação representa 15% a 25% do valor da conta Durante o dia, abra janelas e cortinas, deixe o sol entrar Evite deixar luzes acesas em cômodos onde não tem ninguém Instale lâmpadas, halógenas, fluorescentes compactas ou a base de LED, que duram mais e gastam menos energia • Nos horários de pico, evite usar equipamentos de alto consumo, como ferro de passar roupa e chuveito elétrico • Use cores claras nos tetos e nas paredes internas, refletem melhor a luminosidade Andritz Hydro Seu parceiro para energia limpa e renovável Dicas que É o que você economiza deixando a chave do chuveiro na posição “inverno” irão ajudar seu bolso Geladeira • Vice-campeã do consumo, com média que varia entre 25% a 30% na conta • Evite encostá-la em paredes e móveis • Mantenha longe de raios solares e fontes de calor, como fogões ou estufas • Não secar nada na grade de trás da geladeira • Limpe com frequência e mantenha as borrachas de vedação em bom estado • Compre sempre no tamanho adequado para o número de pessoas e com etiqueta de eficiência energética 70 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Televisão • Representa por 10% a 15% da conta • Evite deixar o aparelho em modo stand-by (aquela luzinha acesa), isso também gasta energia • Evite excessos e deixar o aparelho ligado Ferro elétrico • É responsável por 5% a 7% da conta • Acumule o máximo de roupas para que o ferro seja ligado o mínimo de vezes possível • Comece a passar a roupa pelos tecidos que exigem temperaturas mais baixas Ar-condicionado • Responde por 2% a 5% da conta • Instale o aparelho em local com boa circulação de ar • Mantenhas as portas e janelas fechadas para evitar a entrada de ar do ambiente externo • Limpe os filtros com freqüência • Não deixe o ar ligado se ficar pouco tempo no cômodo Lavadora • É responsável por 5% da conta • Ligue a máquina só quando ela estiver com a capacidade máxima de roupas indicada pelo fabricante • Limpe frequentemente o filtro da máquina e leia o manual para otimizar o uso máximo que puder Para nós da ANDRITZ HYDRO, água FRQKHFLGRV PXQGLDOPHQWH SHOR QRVVR VROXo}HVSDUDJHUDomRGHHQHUJLDGH VLJQL¿FDPXLWRPDLVGRTXHDSHQDVXP NQRZKRZFRPPDLVGH DQRVGH JUDQGHV PpGLDV H SHTXHQDV FHQWUDLV HOHPHQWRGDQDWXUH]D&RQVWLWXLVHQD H[SHULrQFLDHPLO0:GHHTXLSD KLGUHOpWULFDV FRP WXUELQDV GRV WLSRV YHUGDGH QXP FRQVWDQWH GHVD¿R SDUD PHQWRVLQVWDODGRVQRPXQGR&RPSUR )UDQFLV.DSODQ3HOWRQ% XOERH7XEX LQRYDUHPHOKRUDUDFDGDGLDDQRVVD PLVVRUHVSRQVDELOLGDGHHUHVSHLWRSHORV ODUHVDOpPGHLQRYDGRUHVVLVWHPDVGH WHFQRORJLDGHSRQWDHPHTXLSDPHQWRV QRVVRVFOLHQWHVHSHODQDWXUH]DID]HP DXWRPDomRFRQKHFLGRVFRPR1(3781 GHJHUDomRGHHQHUJLDKLGUiXOLFD6RPRV SDUWH GD QRVVD ¿ORVR¿D 2IHUHFHPRV We focus on the best solution – from water to wire ANDRITZ HYDRO DO BRASIL LTDA. ANDRITZ HYDRO INEPAR DO BRASIL S.A. Av. Juruá, 747 - Alphaville Industrial 06455-010 - Barueri SP - 55.11.4133-0000 [email protected] www.andritz.com Eficiência Energética 01 02 Mobilidade sustentável Fo to: Ist ock ph oto O transporte é responsável por 28% da demanda de energia global e o número de veículos nas rodovias no mundo tende a aumentar. Assim, precisamos usar uma gama de tecnologias para melhorar a eficiência energética e reduzir as emissões de CO2. Nos próximos anos, os motores de combustão interna contribuirão de forma notável para isso. Mas apesar desse potencial em relação às reduções de gases nocivos, o futuro pertence à mobilidade elétrica. Com isso, as e-bikes, ou bicicletas elétricas, se tornaram um grande sucesso em um curto período de tempo. Ainda temos um longo caminho a percorrer com veículos totalmente elétricos. Portanto, os motores híbridos inovadores têm que acompanhar essa evolução. Especialmente os motores híbridos plug-in oferecem uma excelente combinação de dirigibilidade puramente elétrica em áreas urbanas e a mobilidade de longa distância no mesmo veículo. O papel da eficiência energética na sociedade Por Wolfram Anders* Como o planeta poderá satisfazer a sede por energia nas próximas décadas é uma das questões mais importantes da atualidade. A expansão mundial das energias renováveis e o futuro da geração de energia elétrica têm configurado, nesses últimos anos, o centro da discussão energética. Entretanto, proponho adotar aqui uma visão mais global, colocando o aumento da eficiência energética em compasso com a reestruturação da geração mundial de energia. De acordo com a IEA (International Energy Agency), a participação global de eletricidade gerada a partir de fontes renováveis aumentará para 30% até 2035. Os demais 70% terão de ser atendidos por fontes de energia convencionais. No entanto, essas fontes são finitas, os custos estão aumentando 72 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 e o impacto causado por sua utilização é prejudicial ao meio ambiente. Somente ao aprimorar radicalmente o nosso histórico em eficiência energética poderemos reduzir o consumo de energia, assegurar o fornecimento, reduzir o preço da implantação de energias renováveis, reduzir as emissões de CO2 e atenuar o aumento do custo da energia para consumidores e empresas. A base para o sucesso da eficiência energética A tecnologia avançada é um pré-requisito para a eficiência energética, bem como uma fonte de oportunidades econômicas. Vejamos alguns exemplos práticos: 03 Pesquisa e desenvolvimento As empresas devem investir continuamente na pesquisa e desenvolvimento de soluções que estejam em linha com a preservação do meio ambiente e dos recursos naturais. Nesse sentido, estamos confiantes de que as tecnologias que a Bosch e outras empresas propõem podem contribuir de forma significativa para a eficiência energética. No entanto, as tecnologias precisam de incentivos políticos massivos para serem adotadas amplamente pela sociedade. Um relatório de 2013 da IEA diz que as soluções de eficiência não estão sendo promovidas com rapidez suficiente, de forma a contribuir de maneira substancial para garantir o fornecimento, acessibilidade e proteção climática. A eficiência energética tem que ser essencialmente levada em consideração nas milhares de decisões diárias de investimentos realizados pelas empresas e pelos consumidores. Só então a sociedade vai colher os frutos do uso eficiente da energia. Tecnologia de produção eficiente Como quase todos os produtos de uso diário, veículos de passeio e comerciais são fabricados todos os dias. No final das contas, as indústrias são responsáveis por 32% do consumo da energia mundial. Por exemplo, a adoção de soluções tecnológicas modernas permite que os sistemas industriais sejam otimizados por meio de um projeto integrado de sistema de energia, componentes eficientes, recuperação e armazenamento de energia, e energia gerada sob demanda. 04 Tecnologia de construção eficiente e novos projetos de construção As edificações são atualmente responsáveis por 40% da demanda de energia global. Por esse motivo, precisamos melhorar a eficiência dos edifícios existentes, bem como desenvolver projetos inovadores para os novos empreendimentos. Com modernas tecnologias de aquecimento, caldeiras de água quente e sistemas de controle, já podemos economizar muita energia. Especialmente nos edifícios comerciais com automação e climatização de baixo custo, observamos grandes possibilidades ao envolver prestadores de serviços que oferecem serviços de gestão. Olhando para o futuro, existe a casa energy-plus, ou seja, uma residência que gera mais energia do que consome. Em projetos recentes, pudemos verificar que tal residência é possível e viável economicamente já com as tecnologias existentes. Assim como na indústria, contamos com sistemas integrados, que incluem novos conceitos para a geração de calor (como aquecimento de água e bombas de calor elétricas), e também outras tecnologias eficientes de construção (como aquelas que garantem a melhor ventilação possível), além de eletrodomésticos eficientes com classificação A+++. Há ainda dispositivos de armazenamento de energia econômicos, que podem otimizar ainda mais o consumo, sendo outra razão para aumentar os investimentos em pesquisas em tecnologias de bateria. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 73 Venha para o Mundo Mackenzie. Venha conhecer o Mundo Mackenzie e descubra porque somos uma das mais inovadoras e conceituadas universidades do Brasil. Conheça os cursos de Engenharia e T.I. do Mackenzie SÃO PAULO: Vencendo os obstáculos Para possibilitar que o maior número de consumidores faça o uso inteligente das tecnologias de eficiência energética existentes, é preciso que governos criem condições estruturais positivas. Mas o objetivo não pode ser um regime abrangente de normas de eficiência energética. Vantagem econômica é o mecanismo mais importante para o desenvolvimento de tecnologias eficientes. Soluções de eficiência trazem ganhos para todos, de empresas a clientes, uma vez que economizam com os custos da energia - assim como para o meio ambiente, já que evitam emissões. A discussão sobre as formas e meios de conseguir mais eficiência energética deve se tornar ainda mais intensa em todos os níveis nos próximos anos – na política, na indústria e na sociedade. Contudo, a adoção imediata de diversas estratégias derrubaria os obstáculos financeiros e políticos que impedem que a eficiência energética ganhe força e esteja na pauta do dia nas diversas esferas. 74 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Fotos: Siemens Novos projetos de construção com modernas tecnologias de aquecimento, caldeiras de água quente e sistemas de controle, os quais possibilitam economizar muita energia. E mobilidade elétrica: reduções de gases nocivos. Nesse sentido, é preciso criar transparência e disseminar informações qualificadas e precisas sobre o tema e estabelecer padrões inteligentes para produtos eficientes, além de estabelecer novos modelos de financiamento dessas tecnologias por meio de parcerias público-privadas. Quando estivermos em um processo maduro em relação a todos esses quesitos, estaremos preparados para utilizar e nos beneficiar em larga escala de soluções energeticamente eficientes em todos os momentos do nosso dia, contribuindo para uma relação mais saudável com o meio ambiente. Sendo assim, essa preocupação tem de conquistar um lugar estratégico junto à sociedade. Caso contrário, o uso generalizado das tecnologias avançadas não se estabelecerá. A indústria pode contribuir como um exemplo, mas os governos também têm de desempenhar o seu papel. * Wolfram Anders é Vice-presidente executivo da Robert Bosch para a América Latina &LrQFLDGD&RPSXWDomR (QJHQKDULD&LYLO (QJHQKDULDGH0DWHULDLV (QJHQKDULDGH3URGXomR (QJHQKDULD(OpWULFD(OHWU{QLFD (QJHQKDULD0HFkQLFDOLQKDGH IRUPDomRHP0HFkQLFDRXHP 0HFDWU{QLFD 0DWHPiWLFD/ 6LVWHPDVGH,QIRUPDomR 7HFQRORJLDHP$ QiOLVHH 'HVHQYROYLPHQWRGH6LVWHPDV 4XtPLFD/% CAMPINAS: (QJHQKDULD&LYLO (QJHQKDULDGH3URGXomR / /LFHQFLDWXUD% % DFKDUHODGR Informacões: mundomackenzie.com.br Campu m us São Paulo: Rua da Consolação, 930 Consola ação Campu m us Campinas: A nida Brasil, 1.220 Ave Jd. Guanabara r IDFHERRNFRPPDFNHQ]LH1870 Foto: Istockphoto Parceria Um parceiro de importância - AHK São Paulo Por Thomas Timm, Vice-Presidente Executivo da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo O sucesso pede fortes aliados! A Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK São Paulo) encontrou esse parceiro ideal na Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha (VDI-Brasil). Ambas as instituições compartilham o mesmo objetivo: fomentar a relação entre a Alemanha e o Brasil, tanto no ramo econômico quanto no tecnológico. Enquanto a AHK São Paulo atua no fortalecimento da relação comercial bilateral entre os dois países e no apoio aos negócios das mais de 1.700 empresas associadas, a VDI-Brasil preocupa-se em complementar o lado técnico. Diferentemente da AHK, a VDI é voltada para as pessoas físicas, ou seja, os engenheiros no Brasil. A Associação informa sobre inovações alemãs e se coloca como uma plataforma de intercâmbio tecnológico, por meio de projetos de cooperação, serviços de informação, eventos, simpósios e cursos. Desde 2008, e após uma nova orientação conceitual, as atividades da VDI receberam o apoio da AHK São Paulo. As formas de cooperação são as mais diversas e geraram bons resultados. Particularmente, podemos citar os eventos realizados em parceria 76 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 com a AHK que fortalecem a presença da Câmara na economia brasileira – com destaque para o “Dia da Engenharia Alemã”, que em 2014 terá sua 6ª edição, o “Encontro Tecnológico Brasil-Alemanha”, bem como diferentes congressos apoiados por ambas as instituições. Além disso, bem-sucedidas são as visitas técnicas organizadas com a AHK e os mensais “Eventos no Interior”, no Estado de São Paulo. Só neste ano, serão realizadas dez programações que promovem intercâmbio de experiências e networking nas áreas de Tecnologia, Infraestrutura e Sustentabilidade. Por meio das atividades da VDI, a AHK aumentou seu quadro associativo e criou um Departamento de Inovação. Indiretamente, as empresas associadas da Câmara também se beneficiaram dos eventos da VDI-Brasil, adquirindo uma plataforma na qual se tornou possível apresentar a companhia e seus produtos aos engenheiros. Uma vantagem é o escritório da VDI no German Business Center próximo à Câmara e o contato e a troca diários entre os funcionários. A colaboração de sucesso resultou, em maio de 2013, na parceria firmada entre a VDI-Brasil e a AHK Santa Catarina. Para o futuro, a Câmara e a VDI desejam juntar forças, a fim de criar novas soluções para seus associados. Virada Energética Tecnologias de armazenagem deixam marcas na natureza Por Marcus Franken – VDI Nachrichten Parte de montanhas removidas, turbinas eólicas sobre tanques de água e pipas soltas no ar. Tudo em nome da produção e armazenagem de energia. Com isso, paisagens vão mudar. Para Revolução Energética, fachadas construídas com algas podem gerar energia. De planejador a realizador Jörg Müller mora em Nechlin, um pequeno vilarejo que fica cerca de 130 km ao nordeste de Berlim. O vento balança as copas das árvores em frente Fotos: Markus Franken Eduard Heindl quer mover montanhas na floresta da Baviera, na região montanhosa do Harz ou na Floresta Negra. Nessas regiões, a Heindl Energy GmbH, empresa de sua propriedade e sediada em Stuttgart, encontrou, já para 2015, locais para um projeto-piloto verdadeiramente titânico: recortar do solo dessa região um cilindro maciço de granito de até 1.000 m de diâmetro e 1.000 m de altura para, depois, ser levantado por meio de pressão de água para armazenar energia. Heindl, físico e professor de e-business, pretende utilizar a energia elétrica gerada de forma regenerativa para elevar esse cilindro gigantesco. Para tanto, a água deve ser injetada por baixo dele. E quando o sol e o vento não tiverem o desempenho necessário, a água passará através de geradores, gerando energia elétrica. Energia renovável já existe em quase todo lugar na Alemanha. Um décimo de todos os 320 GW de energia eólica instalados no mundo todo no final de 2013 e um quinto dos 140 GW da energia fotovoltaica estão na Alemanha, e a tendência é que isso aumente. Mas hoje a grande questão é: como podemos armazenar a energia obtida do vento e do sol? Com um bloco de pedra flutuante? Pelo menos a visão é atraente. Com um diâmetro de 250 m, pode ser gerado 100 MW de energia por mais de 80 horas. E isso nem seria tão caro. Os investimentos para o armazenamento de 1 kWh, por exemplo, são estimados entre 19 e 27 euros. “A armazenagem com bombas custa em torno de 100 euros por kWh”, compara Robert Werner, gerente comercial da Heindl Energy GmbH. 78 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 à casa antiga de Müller, ao mesmo tempo em que rotores de um parque eólico giram. “Eu quero lhe mostrar uma coisa”, diz Müller, chefe da empresa de energia eólica Enertrag, fundada por ele em 1990 e transformada em uma empresa com 400 funcionários. Müller leva seus visitantes até a entrada do porão do antigo reservatório da vila. A escada leva a um salão arqueado cheio de pequenas instalações de aquecimento. Óleo e diesel de canola e pellets de madeira são queimados para produzir energia elétrica e calor, que será utilizado na rede de aquecimento local. “Atualmente, abastecemos 24 casas”, explica Müller. Com isso, 90 dos 100 habitantes de Nechlin, segundo ele, estariam conectados à rede de água quente para o chuveiro, para a banheira e para o aquecimento das residências desses moradores. O próximo passo é fazer com que as caldeiras de água aqueçam por meio de uma imersão especial para ajustar a temperatura da água com energia elétrica, substituindo assim o forno a lenha. “Aquecer com energia de carvão é bobagem, mas utilizar energia eólica excedente faz sentido”, acrescenta Müller. Aquecer com energia ecológica Essa ideia está se propagando. Na Dinamarca, onde a energia eólica tem uma participação de mais de 20% no mix energético, a operadora de rede elétrica Energinet.dk construiu 39 instalações para aquecimento de água com um potencial de 300 MW em redes de aquecimento locais. Na rede urbana de aquecimento de Flensburg também há atualmente uma “caldeira de eletrodos”. Quando a energia elétrica está com um bom preço na bolsa, as companhias municipais de energia ligam a instalação de 30 MW e aquecem uma caldeira com capacidade de 29.000 m³ a cerca de 100ºC. No Natal de 2012, por exemplo, o preço da energia elétrica ficou negativo, e as companhias municipais receberam até 200 euros por MWh pela utilização da energia para aquecimento. Em Flensburg, calcula-se que, em média, vale a pena utilizar a caldeira de aquecimento quando a energia está cotada a menos de 10 euros por MWh. Para Jörg Müller, porém, a rede de aquecimento local do vilarejo não é nada além de um treinamento ecológico. Para ele, a grande experiência é a usina híbrida com tecnologia eólica e de hidrogênio de sua empresa em Prenzlau, a 20 km de distância. Ali, a energia eólica de um parque da Enertrag é transformada em hidrogênio por ele- setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 79 “Automóveis e caminhões vão se locomover no futuro com hidrogênio.” Jörg Müller, fundador e chefe da Enertrag AG. trólise. Para Müller, esse é o caminho real da revolução energética. Ou seja, armazenar o hidrogênio na rede de gás já existente ou transportá-lo diretamente para tanques de hidrogênio. “No futuro, os automóveis e caminhões vão se locomover com hidrogênio”, diz Müller. Isso porque, acrescenta ele, os trajetos a serem percorridos, principalmente no interior do país, serão mais longos e as baterias elétricas para realizar essa tarefa seriam quase impagáveis. De fato, a transformação de energia eólica em hidrogênio é testada hoje em pelo menos 17 usinas em toda a Alemanha. E a maior delas, de 6 MW, não por acaso fica na Audi AG em Werlte, no estado da Baixa Saxônia. Lá, o hidrogênio é metanizado e serve como combustível para o Audi A3 g-tron, um veículo a gás. De acordo com a Associação Alemã Técnica e Científica de Gás e Água (DVGW - Deutscher Verein des Gas - und Wasserfaches e.V.), cinco outras usinas estão sendo planejadas. Para Müller, esse hidrogênio será produzido por turbinas eólicas com capacidade de 10 MW a 20 MW, muito maiores do que as instaladas hoje nas usinas. Em média, elas contam com turbinas de 3 80 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 MW, sendo que as maiores chegam a 7,5 MW. “Em compensação, haverá menos turbinas eólicas”, prevê Müller. Em vez das quase 24 mil usinas atuais, seriam necessárias apenas de 10 mil a 20 mil em toda a Alemanha a longo prazo. Entretanto, a produção de energia a partir de fontes renováveis só pode ser prevista sob certas condições, embora não faltem ideias para reservatórios de energia. Com o apoio da Voith Hydro, que fica em Heidenheim, e da construtora espanhola de usinas eólicas Gamesa, foi planejada a instalação de quatro turbinas eólicas com um tanque de água no centro da cidadezinha de Gaildorf, a uma hora e meia de carro de Nuremberg. A energia eólica excedente nessa cidade será utilizada para bombear água para os reservatórios na parte inferior das turbinas eólicas de até 224m de altura. Essa energia, suficiente para quatro horas de duração, em períodos de poucos ventos, será gerada por uma turbina de 16 MW. A operadora, a MBS Naturstromspeicher GmbH, espera iniciar logo a sua construção. Alexander Schechner, responsável pelo projeto, está confiante. “Queremos começar com os fundamentos em outubro”, diz. Fotos: Markus Franken Marcas na paisagem No campo, o céu pode ser conquistado por pipas energéticas. Um dos produtores líderes é a empresa de Berlim EnerKite GmbH. O seu fundador, Alexander Bormann, associou-se a especialistas das áreas de tecnologias de controle, aviação, TI e design industrial para esse projeto. Suas pipas tipo kite puxam uma corda comandada por um guincho gerador no solo. Se a corda não puxa mais, então o guincho leva a pipa, com baixo gasto de energia, até a próxima rajada de vento. Voos autônomos de 24 horas já foram possíveis graças à sofisticada tecnologia de controle. A equipe ainda usa um carro carregado de equipamentos como base de voo, mas futuramente podem ser usadas plataformas em alto mar. As pipas ainda são uma visão do futuro. Primeiro, vamos redimensionar nossos sistemas em terra”, explica Bormann. Neste caso também é possível obter 5.000 horas ou mais de plena carga por ano em ventos fortes, utilizando 95% menos material do que com as turbinas eólicas tradicionais. Os fundadores querem atingir custos de geração de energia próximos a 10 centavos de euro por kWh. Então, a solução será interessante tanto para fábricas de médio porte quanto para o abastecimento de zonas até hoje sem eletricidade. A empresa Heindl Energy e seu Projeto-Piloto A empresa alemã Heindl Energy GmbH, sediada em Stuttgart, definiu, já para 2015, locais para um projeto-piloto verdadeiramente titânico: recortar do solo dessa região um cilindro maciço de granito de até 1.000 m de diâmetro e 1.000 m de altura para, depois, ser levantado por meio de pressão de água para armazenar energia. Com um diâmetro de 250 m, pode ser gerado 100 MW de energia por mais de 80 horas. A ideia é utilizar a energia elétrica gerada de forma regenerativa para elevar esse cilindro gigantesco. Para tanto, a água deve ser injetada por baixo dele. E quando o sol e o vento não tiverem o desempenho necessário, a água passará através de geradores, gerando energia elétrica. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 81 O que se deve saber sobre a Foto: Agora Energiewende/ Detlef Eden Virada Energética 10 respostas do Dr. Patrick Graichen, diretor do renomado “think tank” Agora Energiewende, de Berlim sobre o tema da Virada Energética. 1. A Alemanha aposta na “Virada Energética”. O que significa isso concretamente? “Virada Energética’ refere-se à transformação do abastecimento alemão de energia, abandonando petróleo, carvão, gás e energia atômica, rumo às energias renováveis. Até, no mais tardar, 2050, pelo menos 80% do abastecimento elétrico e 60% de todo o abastecimento energético deverão vir de fontes renováveis de energia. Como próximo passo, serão desativadas todas as usinas nucleares até o ano de 2022. Além disso, de 40 a 45 % do fornecimento de eletricidade deverá ser proveniente de energias renováveis até 2025 (hoje são 25 %). Ambas as metas dispõem de amplo apoio político e da sociedade”. 2. Que tecnologias são importantes para a Virada Energética? “As energias renováveis de mais baixo custo de que dispomos são a força eólica e a energia solar. Por meio da ampliação industrial e do desenvolvimento técnico dos últimos 20 anos na Alemanha, os custos reais de produção pelo vento e pelo Sol atingiram cerca de 6 a 9 cêntimos de euro por quilowatt/hora. Entretanto, isso corresponde também aos custos de produção de eletricidade das novas usinas a carvão e a gás, sendo ainda bem mais em conta que a eletricidade de novas usinas atômicas. Mas no centro da virada energética estão as energias eólica e solar!”. 3. Uma nação industrializada como a Alemanha pode confiar no sol e no vento como as suas únicas fontes de energia? Ou existe perigo de apagões? “A Alemanha tem a menor cota de apagões na Europa e 82 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 isso deve permanecer assim. Fazem parte das energias eólica e solar, obrigatoriamente, também as tecnologias de ‘backup’, que fornecem eletricidade nos momentos em que não houver suficientes ventos e raios solares. Para as próximas décadas, serão inicialmente as usinas a carvão e a gás que produzirão eletricidade de forma flexível, sempre que a demanda for maior que a geração de corrente elétrica pelas fontes de energias renováveis. A perspectiva é de que outras energias renováveis (hidrelétrica, instalações de biomassa, geotermia) e acumuladores de eletricidade também assumam essa tarefa”. 4. Muitas vezes, as energias eólica e solar não são consumidas onde são geradas. Quais são as soluções tecnológicas viáveis para o problema? “As redes elétricas existentes são robustas e, por meio de uma administração eficiente, podem transportar ainda mais energia renovável. Em partes da Alemanha, já temos cerca de 40 % a mais de energia eólica e solar, sem que a rede precise ser reforçada para isso. Assim, a ampliação da rede não é inicialmente um empecilho para novas ampliações das energias renováveis. Em médio prazo, porém, vamos necessitar também de novas redes de alto desempenho, que transportem a eletricidade eólica do Mar do Norte para os lugares mais pobres em vento. Uma segunda opção é a de construir instalações eólicas e solares nos lugares onde a eletricidade seja mais consumida – ainda existe ainda muito potencial inaproveitado nesse sentido”. 5. Como a Alemanha pode reagir às reservas manifestadas por alguns países vizinhos em relação à Virada Energética? “A Virada Energética é a res- Foto: Istockphoto Virada Energética posta a dois desafios: a escassez cada vez maior dos combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás e a transformação climática que ameaça as nossas sociedades. As energias renováveis são a solução tecnológica para os dois problemas e são, além disso, fontes energéticas de baixo custo e autóctones (próprias do lugar). A transformação rumo a uma economia de baixa emissão de carbono, que deliberamos conjuntamente na Europa, leva inexoravelmente ao claro aumento das energias renováveis, já que elas são muito mais vantajosas do que novas usinas atômicas ou usinas a carvão, com emissões de CO2. O decisivo é agora que a Alemanha promova um diálogo com seus vizinhos para decidir a melhor forma de integrar as instalações eólicas e solares no sistema de eletricidade”. 6. Que incentivos devem ser criados para concretizar a Virada Energética e regular de maneira sensata o mercado da eletricidade? “A Lei das Energias Renováveis (EEG) gerou uma concorrência das tecnologias no ano 2000. As vencedoras dessa concorrência foram a força eólica e a eletricidade solar. Na segunda fase, agora iniciada, trata-se de construir um sistema energético seguro e a custos eficientes, com base nas energias renováveis. Isso significa que o fomento tem de se voltar para as instalações eólicas e solares. Ao mesmo tempo, as bases legais do mercado de eletricidade devem ser configuradas de tal forma que as usinas a carvão e gás, a demanda elétrica e os acumuladores elétricos reajam flexivelmente à produção de eletricidade do vento e do Sol, garantindo, conjuntamente, a segurança no abastecimento”. 7. A Alemanha está entre os países líderes na tecnologia ambiental. A Virada Energética vai dar impulso às inovações? “A Virada Energética é um projeto de futuro para a indústria alemã, pois as energias renováveis deverão se tornar um mercado de massa mundial. Se na Alemanha as energias eólica e solar já são de custos aproximadamente tão módicos como as novas usinas a carvão e a gás, então isso vale ainda mais para muitas regiões do mundo, nas quais existem mais luz solar e vento à disposição. Neste ponto, a virada energética produz um grande número de inovações, que serão procuradas mundialmente nos próximos anos – não apenas no setor energético, mas também na área da técnica da informação e da comunicação, bem como na tecnologia de substâncias e materiais”. 8. A Virada Energética é um projeto bilionário. Como ele pode ser financiado a preços acessíveis para o consumidor? E qual é a relação de custo e benefício? “A Alemanha gasta anualmente mais de 80 bilhões de euros com a importação de carvão, petróleo e gás. Essa soma será substituída paulatinamente, nos próximos anos, pela geração interna de valores nas energias renováveis – com os correspondentes efeitos positivos para crescimento e ocupação. O balanço de custo e benefício é, por isso, claramente positivo. Em curto prazo, a Virada Energética exige investimentos adicionais, levando assim também a custos mais altos para o consumidor. Já que os custos de eletricidade perfazem, no entanto, apenas 3% das despesas dos domicílios privados, eles são em seu todo suportáveis”. 9. Uma redução do consumo de eletricidade é o mais sustentável. Que significado tem a eficiência energética para a Virada Energética? “A eficiência da energia é o segundo pilar da Virada Energética, ao lado da ampliação das energias renováveis. Cada quilowatt/hora de eletricidade que não é consumido poupa os combustíveis fósseis, evitando também a construção de usinas e de redes. Por isso, é importante que se faça mais nessa área. O consumo de eletricidade na Alemanha teve uma leve redução desde 2007. Mas até a meta formulada inicialmente no conceito energético - uma redução do consumo elétrico em 10 % até 2020 -, há ainda um longo percurso. Para isso, a política ainda tem que decidir novas medidas”. 10. Qual é o papel do abandono atômico na Virada? “Frequentemente atribui-se a Virada Energética a uma reação da Alemanha à catástrofe do reator de Fukushima, em 2011. No entanto, ela já tinha começado muito antes: o fomento das energias renováveis teve início na Alemanha já no ano de 1990. Em 2000, isso foi fixado na Lei das Energias Renováveis. No mesmo ano, o governo federal alemão acertou com as empresas energéticas alemãs o abandono da energia atômica até o ano de 2022. Assim, as resoluções da Virada Energética pelo governo Merkel, no ano de 2011, são parte de uma longa tradição de reforma do abastecimento energético – cortes de carvão, petróleo, gás e energia atômica, favorecendo as fontes sustentáveis de energia, como vento, Sol, força hídrica, de biomassa e fonte geotérmica”. © .de - Deutschland.de, www.deutschland.de setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 83 Antes da crise do petróleo de 1973, a energia eólica já era uma possibilidade de diminuir a dependência das energias fósseis. Como em 1976 deveria haver um avanço tecnológico, o Ministério da Pesquisa decide construir a usina eólica de Growian, de 100 metros de altura e 340 toneladas, no norte da Alemanha. A instalação fica pronta em 1983, mas fracassa e é demolida em 1988. É iniciado o chamado “Programa de 1000 telhados”, para o desenvolvimento da energia solar. Em todo o território nacional são instalados 2550 telhados com células fotovoltaicas e uma potência total de 6 megawatts. Em março de 2011, logo após a catástrofe dos reatores em Fukushima, o governo federal alemão decide o abandono acelerado do uso da energia nuclear. Previsão até 2050 Em setembro de 2010, o governo federal delibera um amplo programa energético, indica os mais importantes objetivos estratégicos e medidas da política de energia e clima, definindo, assim, o âmbito de uma reforma básica do abastecimento energético na Alemanha até 2050. Trata-se do seguinte: menos gás de efeito estufa, maior eficiência e as energias renováveis como fundamento. Passa a vigorar a Lei sobre o Aprovisionamento da Rede Pública de Eletricidade que, pela primeira vez, obriga as grandes empresas fornecedoras de eletricidade a aproveitarem a energia elétrica de processos regenerativos de transformação. Essa lei é a precursora da Lei das Energias Renováveis, que entra em vigor no ano 2000. Em 1984, o inventor Aloys Wobben constrói no seu barracão um motor eólico. Sua firma Enercon avança para uma empresa de médio porte, até que Wobben desenvolve, em 1992, uma máquina eólica sem motor, com a qual os novos cata-ventos são mais confiáveis e funcionam melhor. A firma é hoje uma das mais importantes empresas do mercado mundial. No seu contrato de coalizão, os partidos governamentais CDU/CSU e SPD fixam que a “Virada Energética” é o projeto central da legislatura. Primeiro parque eólico no mar Em 27 de abril de 2010, começa a funcionar o primeiro parque eólico alemão em alto mar, o alpha ventus, que fornece 267 GWh por ano, o correspondente ao consumo anual de 70 000 casas. 2000 1991 1992 1990 1987 Foto: Istockphoto 1976 1984 84 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Projeto central As sete usinas nucleares, postas em funcionamento antes de 1980, podem continuar funcionando por oito anos; as demais, por 14 anos. A cúpula mundial de 1992 no Brasil faz da ameaça do clima um tema global. Até fins da década de 1990, o número dos cata-ventos se decuplica na Alemanha, surgindo ainda usinas solares e novos modelos de financiamento. O primeiro parque eólico alemão entra em funcionamento no pôlder Kaiser Wilhelm, na costa oeste do estado de SchleswigHolstein, onde 32 instalações começam a produzir entre 10 e 25 quilowatts, transformando o vento do Mar do Norte em eletricidade. Atualmente, as energias renováveis estão produzindo cerca de 23,5 % de toda a eletricidade na Alemanha (eram apenas 6,2% em 2000). Por meio da energia renovável, promovida pela EEG, mais de 146 toneladas de gases de efeito estufa puderam ser economizadas. Mesmo após revisão em 2012, a EEG continua sendo criticada, principalmente por seu dinamismo de custos. Energia nuclear como ponte Cúpula no Rio Primeiro parque eólico Entra em funcionamento o maior parque solar da Alemanha, situado no sul de Brandemburgo, com uma capacidade de 70 MW. Ele ocupa uma área de 150 hectares, o que corresponde a cerca de 220 campos de futebol. A EEG no banco de prova Lei das renováveis O começo de Enercon O maior parque solar EEG 2.0 No âmbito da reforma da EEG, os pontos centrais devem ser a eficiência de custos e a capacidade de planejamento. A cota da eletricidade ecológica deve aumentar para 40 % a 45 % até 2025. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 85 © .de - Deutschland.de, www.deutschland.de Energia do telhado No âmbito do “consenso atômico”, o governo federal acerta, com as quatro empresas operadoras de usinas nucleares, que os reatores alemães serão desligados após a produção de um determinado volume de eletricidade. Em 1º de abril de 2000 entra em vigor a Lei das Energias Renováveis (EEG). 2013 2014 A energia eólica Reação a Fukushima 2012 O abastecimento energético sustentável é tema na Alemanha desde a década de 1970. Veja abaixo: EEG – a pedra básica 2010 2011 O caminho da Virada Energética Tendência 3 Cientistas estudam energia regenerativa e eletricidade do futuro A energia renovável produzida a partir do sol, vento e biomassa tem avançado no mundo todo. Na Europa, discute-se a interconexão elétrica entre a Europa e a África do Norte. Na América do Sul, especificamente no Chile, estudam-se as chances de uma integração entre duas grandes redes, a SNG e SING. Segundo especialistas, o importante é uma boa coordenação entre a geração e a distribuição. 86 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Principalmente no que diz respeito à ordem cronológica, tanto diária quanto sazonal, pois as perdas na rede durante a distribuição de eletricidade são relevantes para os custos energéticos. No Brasil, a energia também é transportada a grandes distâncias. A gerada em hidrelétricas, a obtida a partir de gás, do vento e da biomassa são a base principal do sistema energético do País. Mas, Fotos: 1, 2 e 4: Fraunhofer ISE 4 no futuro, haverá também usinas de energia solar com tecnologia fotovoltaica, assim como usinas elétricas com sistema solar térmico (CSP). O planejamento dessa fatia de eletricidade regenerativa na matriz energética de uma nação está associado à possibilidade de seu armazenamento, o que torna evidente que, atualmente, apenas a armazenagem de energia térmica possibilita um planejamento barato de geração. Dentro desse contexto, o Instituto Fraunhofer estuda soluções para o setor energético. De acordo com cientistas do instituto, para transportar eletricidade a grandes distâncias é necessária uma rede local segura. Por isso, o Fraunhofer-Institut für Solare Energiesysteme ISE (Instituto Fraunhofer de Sistemas de Energia Solar) vem desenvolvendo, com outros Institutos Fraunhofer, diversos aspectos de um supergrid. Isto é, um sistema energético adequado e soluções tecnológicas para a armazenagem, para redes de corrente contínua, para geração e distribuição de eletricidade. O primeiro exemplo disso é um sistema de energia elétrica entre a Europa e a África do Norte (Desertec-Idee). A aplicação desses métodos em outras regiões do mundo também pode ser interessante. Modelo de um sistema ideal Cientistas do Instituto Fraunhofer ISE elaboraram modelos de um sistema energético adequado, antes de se aterem a soluções de detalhes técnicos. Inicialmente, foi reproduzida a interação entre usinas elétricas baseadas em energias renováveis e usinas elétricas convencionais com base em um modelo do sistema elétrico da África do Norte e do sul da Europa. Com a ajuda de um sistema energético (RESlion), que foi implementado como modelo de otimização, procedeu-se à busca do local para novas usinas elétricas, levando em conta todos os sistemas geradores e de armazenagem existentes, assim como a infraestrutura da rede. Segundo esse modelo, na África do Norte são ideais as centrais de energia fotovoltaica (PV) instala- das próximas aos locais de consumo, mesmo que ali haja uma irradiação mais baixa. Usinas solares térmicas (Concentrated Solar Power/CSP) são utilizadas principalmente nos locais onde é necessária uma grande capacidade de armazenagem térmica para assegurar a estabilidade do sistema na rede. “É importante que recebamos eletricidade de fontes renováveis de forma planejada. A energia elétrica da África do Norte pode, por exemplo, preencher lacunas na geração de energia europeia com energias renováveis. Conseguir um equilíbrio entre a necessidade e o excesso de energia elétrica em diversos locais é um dos princípios fundamentais do supergrid”, explica o Dr. Werner Platzer, diretor da área de Energia Solar, Térmica e Ótica do Fraunhofer- Institut für Solare Energiesysteme ISE e coordenador do Projeto Supergrid. Usinas eficientes por meio de acumuladores otimizados Diferentemente de outras usinas elétricas baseadas em energias renováveis, as usinas solares térmicas são capazes de fornecer energia barata de forma regulável. Isso ocorre devido a acumuladores de calor térmicos que armazenam o calor em períodos de superprodução e, quando necessário, transformam-no em energia elétrica por meio de turbinas a vapor. No Instituto Fraunhofer ISE, diversos conceitos são estudados e avaliados em simulações para a integração e otimização desses acumuladores térmicos. Para tanto, utiliza-se uma ferramenta de software do instituto, o “ColSim-CSP”. Os diversos conceitos de usinas elétricas não se diferenciam apenas visualmente (coletor Fresnel, coletor cilíndrico parabólico ou torre), mas também pelos meios utilizados para transferência do calor. Para as usinas de evaporação direta que utilizam a água como um transportador de calor, o instituto 1 As usinas solares térmicas são capazes de fornecer energia barata de forma regulável. 3 Usinas solares térmicas são utilizadas nos locais onde é necessária uma grande capacidade de armazenagem térmica. 2 O Instituto Fraunhofer ISE está desenvolvendo o demonstrador de um conversor de corrente compacto e de alta qualidade. 4 O transporte de energia no supergrid também oferece um potencial de otimização. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 87 Foto: Divulgação 2 Foto 3: SOITEC Solar GmbH 1 está estudando, entre outras coisas, um acumulador de calor latente com um permutador de calor em rosca. Com essa tecnologia, a capacidade de armazenagem e a superfície permutadora de calor podem ser desvinculadas, já que o sal utilizado como meio de armazenagem é deslocado por congelamento e derretimento. Outros conceitos dos pesquisadores de Freiburg têm como objetivo utilizar sais tanto como meio de armazenagem quanto como meio de transferência de calor. O acumulador pode, então, ser composto por dois tanques separados ou, para economizar material de armazenagem e de construção, por um único tanque com corpos de enchimento no qual fusões salinas quentes e frias são colocadas em camadas. A fim de se avaliar o potencial de um acumulador de estratificação como esse, um protótipo está sendo estudado experimentalmente. A interação corrosiva dos sais quentes com diferentes aços também está sendo analisada. e consumidor aumentam as perdas na transmissão e nos custos da rede inteira. Por isso, é mais eficaz reunir inicialmente a energia vinda de várias usinas em uma rede local de corrente contínua de média tensão e, eventualmente, armazená-la em baterias. Em seguida, uma rede de alta tensão é alimentada em um local central pela energia elétrica para que esta seja transportada para outros locais. Nessas interfaces, uma eletrônica de potência de alta eficiência desempenha um importante papel. O Instituto Fraunhofer ISE está desenvolvendo o demonstrador de um conversor de corrente (DC/ DC) compacto e de alta qualidade. O uso de um novo semicondutor de carbeto de silício (SiC) possibilita um sistema eletrônico de potência com uma tensão de bloqueio acima de 10 KV e baixa energia comutada, o que torna possível também uma ligação direta com a rede de distribuição de média tensão. Foto: Neoenergia - Shirley Stolze Foto: SOITEC Solar GmbH A capacidade solar fotovoltaica é uma fonte alternativa que começa a despertar interesse no Brasil, a exemplo do que já vem ocorrendo em centenas de países. Segundo um relatório da United Nations Environment Programme (UNEP) Collaborating Centre for Climate and Sustainable Energy Finance, a geração solar no mundo ultrapassou aquela produzida pela força dos ventos (eólica) para se tornar uma das preferências dos investidores globais já em 2011. No Brasil, um sistema solar fotovoltaico com capacidade de geração de 400 KWp - medida específica de geração de energia solar - começou a operar em abril de 2012 na cobertura e nos estacionamentos do Estádio Governador Roberto Santos (o Pituaçu), em Salvador (BA). Ele se tornou o primeiro “estádio solar” da América Latina. O custo foi de R$ 5,5 milhões, mas garante uma economia anual equivalente a R$ 200 mil em gastos com energia elétrica. O projeto, da Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba) e do governo do Estado, teve apoio institucional do Instituto Ideal, apoio O Supergrid Menos perdas em redes de corrente contínua O transporte de energia no supergrid também oferece um potencial de otimização. Grandes usinas regeneradoras ou agrupamentos regionais de usinas frequentemente estão espalhados por grandes áreas, e vários conversores eletrônicos de potência estão distribuídos por toda a rede. Em um sistema energético como esse, o ideal é que nem toda usina alimente a rede com eletricidade cogerada e que os conversores sejam os mais eficientes possíveis. Pois a cada interface entre gerador, rede 88 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 O Projeto “Supergrid” da Sociedade Fraunhofer é coordenado pelo Instituto Fraunhofer de Sistemas de Energia Solar ISE. O objetivo é desenvolver tecnologias-chave para as interfaces entre a geração e a alimentação da rede e otimizá-las com uma abordagem integrada e baseada na teoria de sistemas. Outros parceiros do projeto são os Institutos Fraunhofer de Optoeletrônica, Engenharia de Sistemas e Interpretação de Imagens (IOSB), de Mecânica dos Materiais (IWM), de Sistemas Integrados e Tecnologia de Componentes (IISB) e de Pesquisas em Sistemas e Inovação (ISI). O Mineirão, em Belo Horizonte (MG), que recebeu seis jogos da Copa do Mundo, também possui sistema semelhante ao do Pituaçu. Foto: Cemig Energia solar entra em campo Pituaçu, em Salvador (BA), é o primeiro “estádio solar” da América Latina. técnico da Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável, por meio da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), e coordenação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O trabalho de consultoria técnica no Estádio Pituaçu recebeu verbas em torno de 60 mil euros do Programa de Energias Renováveis da GIZ, encargado pelo Ministério Federal da Cooperação Económica e do Desenvolvimento. Para a instalação do sistema, a Coelba contratou o consórcio formado pela alemã Gehrlicher e a brasileira Ecoluz. O Mineirão, em Belo Horizonte (MG), que recebeu seis jogos da Copa do Mundo, também possui sistema semelhante ao do Pituaçu. As 6 mil placas de silício captam a energia do sol e a transformam em energia elétrica para abastecer cerca de 1,2 mil residências de médio porte ao seu redor. A chamada Usina Solar Fotovoltaica (USF) do Mineirão tem uma potência instalada de 1,42 MWp. A Arena Pernambuco, que também recebeu jogos da Copa, tem o mesmo sistema, mas ele está localizado a 500 metros do estádio. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 89 Os cientistas do Centro TUM para a Construção Sustentável querem, sob a liderança do professor Werner Lang, testar o sistema de gestão de energia na residência de pesquisa. Uma particularidade é o fato de o projeto também incluir um automóvel elétrico. O sistema fotovoltaico da casa gera energia elétrica; uma parte dessa energia será imediatamente utilizada para alimentar o veículo elétrico e outros aparelhos movidos a eletricidade. O excedente energético será utilizado por uma bomba de calor para gerar energia térmica, que poderá ser armazenada e utilizada para o processo de aquecimento. O perfil de utilização deverá ser observado ao longo de um ano Viver na casa do futuro TUM constrói edifício armazenador de energia em Hallbergmoos 90 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Uma casa que produz energia e a gera de forma inteligente soa muito bem. Mas como será o dia a dia de uma família que vive em um ambiente desse tipo? É o que os cientistas da Universidade Técnica de Munique (TUM) querem descobrir, a partir da construção de um edifício para pesquisa, em Hallbergmoos. Sobre o telhado plano do edifício está instalado um sistema fotovoltaico; em frente à entrada há um veículo elétrico a ser carregado. A casa “Energia Mais”, em Hallbergmoos, só existe, por enquanto, em imagens virtuais e planos de construção. Mas, em janeiro de 2015, os 140 metros quadrados da casa já deverão ser habitados por uma família. O plano arquitetônico inclui cinco aposentos, cozinha, banheiro e WC social, um terraço e um jardim. O sistema inteligente reconhece a forma mais rentável de utilização de energia. “Isso significa que, por exemplo, a máquina de lavar roupa só será ligada quando o veículo elétrico estiver carregado e a energia máxima do sistema fotovoltaico estiver disponível”, explica o engenheiro Michael Huith. Ou seja, o sistema de gestão de energia determina a utilização ideal da energia elétrica produzida pela casa. É claro que, em última análise, serão os habitantes que decidirão quando utilizar determinados aparelhos ou carregar o veículo elétrico. E é exatamente esse comportamento (perfil de utilização) que os cientistas querem observar ao longo de um ano. Em janeiro de 2015, os 140 m2 da casa já deverão ser habitados por uma família. Fotos: TUM/ Uli Benz Tendência A casa terá 5 aposentos, cozinha, banheiro e WC social, um terraço e um jardim. Assim, a partir de janeiro de 2015, o modelo de investigação será habitado por uma família. “Queremos testar se o sistema também será aceito pelos habitantes”, afirma Huith. “Para nós, é importante observar se o conforto habitacional será afetado e até que ponto as pessoas estão dispostas a fazer pequenas adaptações ao seu estilo de vida”. Representação da casa Energia Mais, em Hallbergmoos. setembro 2014 | revista engenharia brasil alemanha | 91 Vista do jardim da casa Energia Mais. # 120 dados de medição. Entre eles estão incluídos os valores de temperatura ambiente, de umidade do ar, de transferência térmica entre o espaço interior e exterior ou de radiação solar. É claro que os pesquisadores darão a máxima atenção à proteção de dados, não divulgando quaisquer informações sobre o comportamento de consumo energético da família. Com base nisto, por exemplo, poderiam ser interpretados períodos em que a família está de férias. Para a comunicação entre a casa e o veículo elétrico será utilizado um sistema de gestão de energia central. Isso significa que este programa determina, com base em informações disponibilizadas e em prioridades definidas, quais aparelhos deverão ser alimentados com energia. enteFaz PROJETOS QUE FORTALECEM A MATRIZ ENERGÉTICA E TORNAM CIDADES MAIS PRODUTIVAS. Todo empreendimento da AG tem o poder de transformar vidas e escrever novas histórias. A gente constrói usinas eólicas, hidrelétricas, térmicas e nucleares para produzir mais energia, abastecer as cidades e contribuir para o crescimento do país. E, claro, levar conforto e qualidade de vida para o seu dia a dia. Para nós, todo projeto sempre começa e termina com o mesmo objetivo: fazer a diferença na vida das pessoas. Serão registrados 120 dados de medição No início do projeto, os habitantes da casa estarão fortemente motivados a utilizar o sistema da melhor forma possível e, portanto, a economizar energia. Mas, com o passar do tempo, essa predisposição poderá diminuir. Vejamos um exemplo: o motorista do veículo elétrico deseja utilizá-lo num certo momento e, por isso, não aguarda o nível ideal de carregamento do veículo determinado pelo sistema de gestão de energia. Isso significa que a energia da rede elétrica voltará a ser fornecida. O objetivo do projeto é aperfeiçoar o sistema de modo a não limitar o conforto e, ainda assim, economizar energia. A família não será perturbada ao longo destas pesquisas. Será efetuado o registro digital de cerca de “Mercado de energia” permite uma utilização eficiente ANÚNCIO Contudo, os cientistas já estão trabalhando em um sistema descentralizado, que deverá funcionar como um “mercado”. Os aparelhos dos diferentes fabricantes comunicam-se entre si numa plataforma virtual. Eles têm determinadas demandas e ofertas, que serão então satisfeitas ou adiadas com base em configurações prévias. Por exemplo, a prioridade máxima poderá ser a de nunca deixar a temperatura ambiente cair abaixo de 21 graus. A máquina de lavar roupa perderia a prioridade em relação ao aquecimento. Mas, nesse contexto, também poderão ser levados em consideração os sistemas de tarifas de energia variáveis. Sobre o projeto A casa “Energia Mais”, em Hallbergmoos, faz parte do projeto de pesquisa “e.MOBILie – Mobilidade Elétrica Energeticamente Autossuficiente em Smart-Micro-Grid”, em colaboração com os construtores Dynahaus, BMW AG e SMA Solar Technology AG. O Centro para Construção Sustentável faz parte do programa prioritário da TUM. Energy, iniciativa de pesquisa da Escola de Engenharia de Munique. andradegutierrez.com 92 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Investimentos em infraestrutura VDI-Brasil VDI-Brasil em sintonia com as tendências tecnológicas Ser engenheiro é muito mais do que exercer uma profissão. É a arte e a ciência de adquirir, aplicar e transformar conhecimentos matemáticos, técnicos e científicos em utilidades para a sociedade. A engenharia possibilita, assim, o avanço da nação a partir de criações que fazem a diferença, seja no setor automotivo, de saúde, civil, energético, entre outros. Neste universo, a VDI-Brasil (Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha) vem, ano a ano, deixando a sua marca de propagadora de novas tecnologias. Além de agir como interlocutora de tendências tecnológicas entre o Brasil e a Alemanha, tendo como foco as empresas e engenheiros no Brasil, contribui também para o desenvolvimento e sucesso profissional dos engenheiros. Uma luz em direção ao sucesso A VDI é reconhecida mundialmente e conta com mais de 153 mil associados na Alemanha. No Brasil, em parceria com a Câmara Brasil-Alemanha e com um alcance de mais de 100 mil engenheiros, a organização possibilita o acesso às mais novas tecnologias alemãs. Além de contribuir com o aperfeiçoamento profissional do engenheiro, traz também temas voltados à formação gerencial e possibilidades de networking, um importante ingrediente no mundo corporativo atual. Para fomentar o conhecimento e expertise do engenheiro no Brasil, a Associação oferece várias atividades. Dentre elas, destacam-se: Simpósios Internacionais para Cooperação Tecnológica; Dia da Engenharia Alemã com tema técnico atual; Information Days em renomadas universidades brasileiras; Cursos focados no desenvolvimento profissional; Visitas técnicas a empresas com tecnologia de ponta e Canais de Comunicação como estratégia de troca de informação e conhecimento. 94 | revista engenharia brasil alemanha | setembro 2014 Escaneie o QR Code para ter acesso ao site da VDI-Brasil Engenheiro, siga nesta escalada rumo ao sucesso! www.vdibrasil.com Uma rede de parceiros: a janela para o mundo Um dos pontos fortes da VDI-Brasil é a sua rede de parceiros, que possibilita e fortalece a realização das atividades. Buscando ampliar ainda mais essa rede no País, a Associação iniciou, em 2012, a expansão de eventos e ações para o interior de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2013, estabeleceu um acordo de cooperação com uma vasta agenda de atividades em Santa Catarina. Está nos planos da VDI-Brasil chegar também a outros estados. De olhos bem abertos para as tendências Em 2013, a VDI-Brasil apresentou novidades que têm como objetivo beneficiar os engenheiros e futuros profissionais da área, a fim de potencializar e incentivar o sucesso profissional. Entre as ações, destacam-se: Campanha +ProPro - Mais Produtividade na Produção (maispropro.com.br) e Emprego E2 VDI: uma plataforma de emprego de engenheiros para engenheiros (empregos.vdibrasil.com). Engenheiro: o sucesso começa aqui! A VDI-Brasil abre as portas a todos os engenheiros, estudantes de engenharia, executivos de áreas de liderança e interessados, para que façam parte deste universo rumo ao conhecimento tecnológico e ao sucesso profissional. Ser associado VDI significa, entre outros, estar à frente das principais tecnologias e tendências do setor, além de desfrutar de benefícios e redes de contatos com líderes da indústria, ciência, pesquisa e tecnologia (www.vdibrasil. com/cadastro). Venha você também fazer parte desta grande família. Associe-se! A VDI-Brasil (Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha) é um competente centro para esclarecimento de dúvidas tecnológicas e incentiva a transferência de tecnologia entre o Brasil e a Alemanha. 6ª edição Dia da Engenharia Alemã O Dia da Engenharia Alemã, tradicional evento da VDI-Brasil, tem como objetivo evidenciar a contribuição da indústria alemã para o progresso econômico e tecnológico brasileiro. Este ano, em sua 6ª edição, abordará o tema: Energia 2030 - Tendências e Tecnologias do Amanhã Programação 13h30 Credenciamento 14h00 Abertura Solene Christian Müller, Presidente da VDI-Brasil 14h10 Saudações Thomas Schmall, Presidente da Câmara Brasil-Alemanha Murilo Celso de Campos Pinheiro, Presidente da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) Marcio Zimmermann, Secretário Executivo do Ministério de Minas e Energia (MME) Friedrich Däuble, Consul Geral da Alemanha no Brasil 14h50 Diversas facetas da Itaipu Jorge Samek, Diretor Geral Brasileiro da Itaipu Binacional 15h20 Da Alemanha para o Brasil Roel van der Stok, Diretor Executivo de Operações da Concessionária E.ON 16 de outubro de 2014 das 13:30 às 19:30 www.ddea.com.br (Inscrições) 15h50 Coffee-break 16h10 Mesa redonda – Perspectivas Energéticas para o Brasil Moderador: Ralph Lima Terra, Vice-presidente Executivo da ABDIB Debatedores: Wilson Ferreira Júnior, Presidente da CPFL Energia Paulo Ricardo Stark, Presidente e CEO da Siemens Ltda. Othon Luiz Pinheiro da Silva, Presidente da Eletrobras Eletronuclear José C. Carvalho Neto, Presidente da Eletrobras Benedicto B. da Silva Júnior, Presidente da Odebrecht Infraestrutura (tbc) 18h25 Encerramento Christian Müller, Presidente da VDI-Brasil 18h30 Coquetel de Encerramento Club Transatlântico - R. José Guerra, 130 - São Paulo (11) 5180-2316 (Informações) Organização: Patrocinador Diamante: [email protected] Apoio: Patrocinadores Ouro: