Indicador de justiça ambiental para empreendimentos hidrelétricos Temática envolvida: Justiça ambiental é definida por Herculano (2002) como “conjunto de princípios que asseguram que nenhum grupo de pessoas, sejam grupos étnicos, raciais ou de classes, suporte uma parcela desproporcional das conseqüências negativas de operações econômicas, de políticas e programas federais estaduais e locais, bem como as conseqüências resultantes da ausência ou omissão de tais políticas”. Sendo que se relaciona com a discussão da desproporcionalidade na distribuição dos efeitos socioambientais, negativos e positivos, entre diferentes atores envolvidos em uma mesma situação. Esse enfoque pode ser aplicado no contexto de ampliação da disponibilidade de energia elétrica, em especial para subsídio dos processos produtivos, e do conjunto significativo de impactos associados à principal forma de geração de energia elétrica no Brasil, o aproveitamento hidrelétrico. Assim, se busca esclarecer em que medida a construção de grades usinas hidrelétricas, sob forma de estratégia de desenvolvimento nacional e regional, afeta de maneira desproporcional os diversos atores afetos ao processo de construção da usina. Afinal, os impactos são sentidos de maneira mais intensa no âmbito local, enquanto que os benefícios são quase sempre direcionados para longe do espaço impactado, demonstrando uma situação de injustiça ambiental. A população local sofre direta e indiretamente durante todas as fases do empreendimento, sendo que o deslocamento compulsório da população para o represamento é visto como o principal impacto social do planejamento de usinas hidrelétricas (VAINER, 2007). De acordo com o relatório da Comissão Mundial de Barragens, o processo de deslocamento compulsório induz um processo de exclusão física, econômica e social da população diretamente afetada pela construção da usina (WCD, 2000). Esse processo resulta na perda da identidade sociocultural das populações locais, para as quais a relação com a terra transcende a idéia de rentabilidade por área em termos puramente econômico (MARTINS, 1991). Objetivo: O trabalho teve o objetivo de elaborar um indicador que pudesse representar a injustiça ambiental em empreendimentos hidrelétricos devido ao deslocamento compulsório da população do local, buscando acoplar questões sociais, econômicas e ambientais em um mesmo indicador. Metodologia: Foi pensado um indicador que pudesse expressar a relação entre aspectos ambientais, sociais e econômicos referente ao processo de inundação de áreas e deslocamento compulsório para a geração de energia elétrica. Nesse contexto, o indicador foi elaborado de modo a expressar a quantidade de energia gerada, em giga ou megawatt hora em função do número de pessoas e/ou famílias deslocadas. O indicador construído está dentro do modelo “Força Motriz-PressãoEstado-Impacto-Resposta”. Em que a atividade relacionada à geração de energia elétrica configura-se como força motriz dentro da cadeia de interações do indicador proposto. A pressão corresponde à construção do reservatório, sendo necessária a aquisição de grandes parcelas de terras para inundação. O estado refere-se à condição atual do território que será alagado, ou seja, a região onde se encontra a população ribeirinha residente na área diretamente afetada pela construção da represa e a composição vegetal e animal da região. O impacto está relacionado à supressão da vegetação e ao deslocamento compulsório da população para o alagamento e conseqüente formação do reservatório. E, por último, a resposta pode ser representada pela capacidade da população, direta ou indiretamente afetada ou interessada, em influenciar nas decisões acerca da escolha das alternativas locacionais e tecnológicas, favorecendo a elaboração de políticas para a construção de hidrelétricas nas quais estejam internalizados os aspectos mencionados acima. Resultados e discussão: O indicador foi calculado com base em dados oficiais obtidos do Ministério de Minas e Energia e de outras fontes bibliográficas reconhecidas. Inicialmente, calculou-se o indicador para escala do país, no Brasil cerca de 800000 pessoas foram deslocadas compulsoriamente por esse tipo de atividade enquanto a área alagada é de aproximadamente 34.000 Km2. Confrontado com a produção hidráulica brasileira, 374.015 Gwh, obteve-se aproximadamente 2,14, que representa o número de pessoas deslocadas por GW gerado por Km2. Ou seja, para cada quilômetro quadrado alagado a geração é de aproximadamente 11 GW, enquanto foi necessário deslocar cerca de 23,52 pessoas. Também foi calculado o indicador para quatro casos específicos, como mostra a tabela a seguir: Tabela 1: Número de deslocados por quilômetro alagado e por megawatt produzido Usina Hidrelétrica Km2 alagados Total de deslocados Tucuruí/PA Tijuco Alto/SP Lajeado/TO Porto Primavera/SP 2430 56,5 603 2250 32871 2720 Pessoas deslocadas por 1 Km2 alagado 13,52 48,14 MW produzido por 1 Km2 alagado 3,29 2,12 Pessoas deslocadas por 1 MW produzido 4,1 22,66 12000 6916 19,9 3,07 1,41 0,68 14,11 4,49 A partir da análise dos dados, é possível perceber que o número de deslocados por quilômetro quadrado alagado pode ser considerado elevado observando que a energia produzida por cada quilômetro alagado é pequena frente ao número de pessoas deslocadas para tal. Estando a produção de energia elétrica no Brasil assentada na produção por hidrelétricas e com possibilidade de sua manutenção para os próximos anos, pondera-se que a mesma deva ser menos impactante do ponto de vista dos deslocamentos. Assim, há uma necessidade de investimentos em outras fontes de energia e também de alternativas locacionais para hidrelétricas, possibilitando reduzir consideravelmente o intenso processo de interferência atual no modus vivendi das populações residentes em locais pretendidos por empreendimentos de aproveitamentos hidrelétricos. Considerações finais: O indicador apresenta um potencial de ser utilizado no momento de tomada de decisão, pois, apresenta de forma simplificada e clara a situação dos deslocamentos de população para produção de energia. Sendo que ao mostrar em termos econômicos a quantidade de energia que foi gerada por unidade territorial, apresenta a relação desse fator econômico com os aspectos ambientais, referentes ao represamento, e sociais com conseqüente deslocamento compulsório. Referências Bibliográficas HERCULANO, S. Riscos e desigualdade social: a temática da Justiça Ambiental e sua construção no Brasil. I Encontro da ANPASS. Indaiatuba:SP, 2002. MARTINS, J.S. Migrações temporárias: problemas para quem? In.: Migrações temporárias: peregrinos da resistência. Serviço Pastoral dos Imigrantes, 1991. MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Balanço energético nacional. 2008. VAINER, C. B. Recursos Hidráulicos: questões sociais e ambientais. Estudos Avançados, (21), 2007. WCD – WORLD COMMISSION ON DAMS. Dams and development a new framework for decision-making. London: Earthscan, 2000. Disponível em: <http://www.dams.org//docs/report/wcdreport.pdf>. Acesso em maio de 2009.