AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA LEITURA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA (INGLÊS) POR ALUNOS DO CURSO DE MONTAGEM E MANUTENÇAO DE COMPUTADORES DO PROEJA – COLÉGIO PEDRO II Solange Garrido da Costa1 Rita de Cássia Pereira Lima2 A presente pesquisa, ainda em curso, objetiva identificar as representações sociais que os alunos, que ingressam no PROEJA, na modalidade de Técnico em Montagem e Manutenção de Computadores, têm da leitura de gêneros textuais específicos da área profissional em que se preparam para atuar. O estudo apóia-se na teoria moscoviciana das representações sociais, em sua abordagem processual. A concepção de leitura que norteará o estudo é a da teoria sócio-interacional. Quanto à metodologia, nesse artigo será apresentada a primeira fase da pesquisa, que se baseou em questionários distribuídos a 24 alunos ingressantes do PROEJA. Tal instrumento, com questões abertas e fechadas, abordou os seguintes aspectos: perfil sócio-econômico, hábitos de leitura, o significado de ler, compreender a diferença entre ler um texto em inglês e ler um texto em português, ler textos em inglês na sua área profissional, o papel do leitor ao ler um texto. Os resultados das questões fechadas foram tabulados e os das questões abertas analisados segundo a análise do conteúdo temática. As respostas a cada questão deram origem a sub-temas que apontam para: a correspondência entre ler e aprender, informar-se, distrair-se; ler em língua materna e em língua estrangeira remete a muitas dificuldades; a caracterização da leitura de textos em língua estrangeira na área profissional dos alunos como dificuldade, desespero e preocupação: e, finalmente, a interação entre leitor e texto cuja representação refere-se a interpretar o texto sem, no entanto, destacar a participação ativa do leitor. PALAVRAS-CHAVE: Teoria das Representações Sociais, aprendizagem de língua estrangeira em cursos profissionalizantes, ESP. 1- INTRODUÇÃO 2 Criado pelo Decreto no 5840, de 13 de julho de 2006 (Brasil, 2006), em tempos de ações afirmativas e pedagógicas inclusivas para compensar a discriminação sócioeconômica e histórica produzida pelo (ex)sistema capitalista, agora renomeado neoliberalista, o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional à Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA – tem trazido de volta aos bancos escolares alunos de faixas etárias diversas com graus variados de letramento. Com base na baixa expectativa de inclusão de alunos de classes populares no sistema público de educação profissional, o Programa pretende constituir-se numa política estável cujo foco é a elevação da escolaridade com profissionalização. Entretanto, o caráter profissionalizante do programa não pretende se restringir à formação para o mercado de trabalho. Seu escopo pressupõe a formação humana que “não atrele mecanicamente educação-economia, mas que expresse uma política pública de educação profissional integrada com a educação básica para jovens e adultos como direito, em um projeto nacional de desenvolvimento soberano, frente aos desafios de inclusão social e da globalização econômica” (Brasil, 2007, p.14). Com um corpo discente desprovido de experiência e insuficiência de saberes docentes específicos para esta modalidade de ensino, o curso de Montagem e Manutenção de Computadores foi implantado na unidade de ensino do Engenho Novo, do Colégio Pedro II, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Com base em questionamentos sobre conteúdos, grau de aprofundamento destes conteúdos em contraste com o ensino médio regular, essência do material didático, surgem inevitáveis questões envolvendo o Programa: os alunos do PROEJA receberão o mesmo certificado de conclusão de ensino médio que os alunos regulares? As provas de ingresso contemplarão os conteúdos cobertos no ensino fundamental? A novidade, a princípio, representava a impossibilidade de a escola, sem qualquer tradição em ensino técnico e centrada na cultura humanista, e com o ingresso de alunos tão atípicos, dar conta deste empreendimento. As incertezas quanto à exeqüibilidade do curso no colégio não destoaram daquelas dirigidas ao ensino de língua estrangeira – Inglês (doravante LE) nesta formação. A começar pela crença, tanto por parte do corpo docente como pelo discente, de que seja uma tarefa árdua senão impossível, já que nem na língua materna (doravante L1) os alunos demonstram habilidade satisfatória. 3 O foco do ensino de inglês proposto no Programa é o de ESP (English for Specific Purpose) que consistem em concentrar o ensino da LE, de um modo geral, em uma habilidade (leitura, escrita, fala ou compreensão auditiva). Como o contato que os alunos terão como técnicos em Montagem e Manutenção de Computadores será quase exclusivamente a leitura de manuais, especificações de peças e instruções em inglês, o ensino da língua é focado na habilidade da leitura. As dificuldades decorrentes desta abordagem ultrapassam aquelas de ordem lingüística e evidenciam problemas de ordem cognitiva na interação não apenas com os textos, mas com a própria aprendizagem e a escola. Nossa atuação como professora de inglês neste curso tem mostrado um conflito entre aquilo que os alunos creem que seja aprender uma LE e o que a escola propõe. O contexto das salas de aula envolvendo interação entre diversos grupos parece desvelar representações sociais que os alunos têm do seja aprender uma LE, o que pode refletir um conhecimento do senso comum elaborado e compartilhado por tais grupos. A pesquisa objetiva então investigar as representações sociais que os alunos ingressantes ao curso de Montagem e Manutenção de Computadores do PROEJA têm de aprender a ler textos em inglês. A fim de atingir este objetivo, o estudo seguirá os procedimentos teórico-metodológicos descritos a seguir. 2- QUADRO TEÓRICO-ANALÍTICO E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Descreveremos, sucintamente, a base teórica que fundamentou a abordagem do problema, os procedimentos metodológicos e a posterior análise dos dados. 2.1- O que é Representação Social? As representações sociais são fenômenos complexos sempre ativados e atuando na vida social. Na obra A Representação Social da Psicanálise, Moscovici (1978, p.26) define, resumidamente, a representação social por “uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos”. O autor descreve a formação da representação de um objeto social através de dois processos cognitivos fundamentais: a objetivação e a objetivação. Ancorar é transformar “algo estranho e perturbador, que nos intriga, em nosso sistema particular de categorias e o compara com um paradigma de uma categoria que nós pensamos ser apropriada” (op. cit. p. 61). O processo de objetivação nos remete à união de uma ideia 4 de não-familiaridade com a de realidade. A objetivação está relacionada a uma característica do pensamento social, a saber, a de tornar concreto o abstrato, de materializar a palavra. Objetivar “é descobrir a qualidade icônica de uma idéia, ou ser impreciso, é reproduzir um conceito em uma imagem” (op. cit. pp. 71-72). Jodelet (2001, p. 22) caracteriza a representação social como “uma forma de conhecimento, socialmente elaborado e partilhado, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”. A autora se refere às representações sociais como conhecimento “espontâneo”, “ingênuo”, chamado “conhecimento do senso comum”, ou “pensamento natural”, em oposição ao pensamento científico. Detentores do saber do senso comum como sujeitos sociais de uma sociedade globalizada e submetidos à exposição pelos meios de comunicação e, particularmente, à publicidade, os ingressantes do PROEJA tendem a reproduzir o clichê da importância de dominar uma LE. Porém, nossa prática mostra que eles se identificam como incapazes de aprender a ler em inglês porque não têm condições de pagar um curso ou porque já passaram da idade. Este saber ingênuo, porém não menos legítimo, se contrapõe ao saber científico sobre o processo de aprendizagem de uma LE e a idade ideal para fazê-lo. Como sistemas de representação que regem nossa relação com o mundo e com os outros, as representações que os alunos constroem sobre o aprendizado orientam e organizam suas condutas frente à nova situação em que se encontram. Daí a necessidade de se desconstruir tais crenças a fim de promover um processo genuinamente inclusivo e eficaz de aprendizagem. 2.2- O que se entende por leitura? A concepção de leitura tem variado ao longo dos anos, acompanhando o desenvolvimento da Lingüística (Kato, 1999). De acordo com a concepção estruturalista, a leitura se constitui na descodificação sonora da palavra escrita. Progressivamente, percebeu-se que a identificação da palavra levava em conta o conhecimento lexical do leitor. O leitor passa então a ser visto como antecipador da palavra que vai ler. Sob a influência da teoria lingüística gerativista, a leitura da palavra vinculou-se ao contexto da frase em que se inseria. A leitura dava-se, então, em nível sentencial. 5 Todavia, observou-se que não era apenas o contexto lingüístico a base para a compreensão do sentido. Ao fazer antecipações, levantar hipóteses e buscar informações no texto que as confirmem ou as refutem, o leitor faz uso de conhecimento prévio sobre o assunto veiculado no texto ou de informações extra textuais advindas de estruturas cognitivas ou esquemas. Tendo a Psicolingüística e a Teoria dos Esquemas ampliado o escopo da leitura para além da frase, a Pragmática inclui o autor na relação interativa leitor-texto. A leitura constitui-se, então, na busca pelo leitor do que o autor quis dizer, de seus propósitos ao fazer as afirmações constantes do texto. Podemos caracterizar a leitura como o processamento por leitores dos textos produzidos por um autor, que esteve em constante negociação com seu(s) leitor(es) no ato da produção. Este processamento dá-se numa relação essencialmente interativa e busca a depreensão de sentidos que podem variar com a motivação, a finalidade e a bagagem lingüística e cultural de cada leitor. 2.3- Procedimentos Metodológicos. Dessa primeira fase da pesquisa participou uma turma de ingressantes no PROEJA do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro em 2009, com 24 alunos. Primeiramente foi aplicado um questionário de questões fechadas a fim de traçar o perfil sócio-econômico e cultural dos alunos bem como sua relação com a leitura. Em seguida, foi solicitado aos alunos que respondessem um questionário de questões abertas abordando o significado de ler, compreender a diferença entre ler um texto em inglês e ler um texto em português, ler textos em inglês na sua área profissional, o papel do leitor ao ler um texto e a importância de ler textos em inglês para sua vida. Para fins de delimitar o escopo do presente estudo, a análise dos dados priorizou as questões relativas ao significado de ler, a diferença entre ler em L1 e LE, a leitura de textos específicos da área profissional e o papel do leitor ao ler um texto. Para cada uma destas questões foram listadas as ideias expressas pelos respondentes. Da análise emergiu uma categorização que será discutida a seguir. Inicialmente, porém, é importante esclarecer que, embora o questionário de questões abertas tenha sido respondido por escrito, as respostas refletem, em sua totalidade, a modalidade oral da língua. Deve-se destacar ainda que o critério para classificar as respostas em categorias semânticas não foi o sintático, mas o discursivo. 6 3- RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados da análise serão explicitados e comentados nos Quadros 1, 2, 3 e 4, descritos a seguir. À questão “O que quer dizer ler para você?” foram dadas doze diferentes categorias de respostas. QUADRO 1 – “O que quer dizer ler para você? CATEGORIAS COMENTÁRIOS 1- “aprender”, “conhecer o mundo”. 2- “aprender sempre mais”, “melhorar os conhecimentos”, “ler é sempre aprender”, “ler e Diferencia-se da categoria 1 pelo aspecto cumulativo entender”, “crescer”. 3 - “aprender a escrever melhor’, “ajuda a Diferencia-se das categorias 1 e 2 porque o compreender melhor as aulas”. “aprender” está associado a uma atividade ou habilidade desenvolvida no ambiente escolar 4- “ficar bem informada”. 5- “é importante para Leitura é informação. se tornar mais Ler é garantia de autonomia e poder. independente”, “tornar-se mais importante na hora de arrumar um emprego”. 6 e 7- ler como “é a base de tudo” associou-se a Considerando, no entanto, o conjunto das respostas outra categoria que a princípio seria incoerente: dadas pela respondente, é possível supor que ler é “não saber ler”. saber. 8- “é para se distrair” Finalidade de distração. 9 - “é sinônimo de saber”, “conhecimento”, Equiparação “sabedoria”. sabedoria, com elementos conhecimento, como saber, reconhecidos socialmente, o que conferiria valorização à leitura. 10 -“comunicar-se”, “ficar comunicativo”. Pode remeter a duas situações: o autor comunicase com o leitor e o leitor com mais experiência em leitura teria mais recursos para se comunicar. 11 - “não ler é errar muito” (parafraseada na Ler aparece em sua negação. versão afirmativa - “é cometer falhas grandes” e Há uma clara equiparação entre ler e exercer a “não conhecer seus direitos”. cidadania. 7 12 - “é fundamental para o trabalho”, “o convívio Ato de ler como uma função social. da família”, “cooperar com a sociedade”. Quanto à diferença entre ler em L1 e em LE, destaca-se a freqüente dificuldade expressa em dez categorias de respostas, conforme o Quadro 2. QUADRO 2 - Diferença entre ler em L1 e LE CATEGORIAS COMENTÁRIOS 1- “em LE tenho muitas dificuldades”, “em LE é Dificuldade na leitura em LE altamente complicado” 2- “em L1 é possível saber do que se trata”, em L1 Possibilidade de entendimento em L1 eu entendo” 3- “L1 não é nada fácil, não consigo assimilar Dificuldade na leitura em L1 de acordo com a verbo, substantivo” crença de que leitura está associada à conhecimento lingüístico e metalinguístico 4- “Ler em LE pode ser mais fácil pois nem Dificuldade na leitura em LE é relativizada sempre se sabe interpretar um texto em L1” comparando-a com a leitura de alguns textos em L1. 5- “pelo título do texto é mais fácil de identificar”, Conscientização do uso de estratégias cognitivas: “Texto em LE e em L1 são parecidos pela forma formulação de hipóteses com base no título, de cabeçalho” “Palavras transparentes, ou seja, identificação do gênero textual e reconhecimento palavras que muitas de palavras transparentes vezes têm o mesmo significado”. 6- “primeiro tem que saber muito bem a LE para A leitura em LE corresponderia à leitura em L1 e o depois ler em L1 é também saber o português” conhecimento lingüístico preponderaria sobre outros conhecimentos que são ativados no ato de ler. 7- “Texto normal: um é em LE e o outro em L1” Resposta ingênua ou descrença na diferença entre ler em L1 e em LE 8- “Em LE é bem mais divertido”, “O texto em Os adjetivos “divertido” e “desafiante” podem LE é mais desafiante por não saber todo o remeter à caracterização da leitura como um jogo vocabulário do inglês e conhecer bastante o de adivinhação, conforme descrito em Goodman vocabulário em L1”. (1970). 9- “É a interpretação; muito poucas palavras têm Referência às várias palavras que não são um sentido igual ao nosso”, e “Diferença muito transparentes, logo seus significados são mais grande não só no idioma, mas também em muitos difíceis de serem depreendidos. 8 significados” 10- “Não tenho mania de ler bastante. LE não é o Revela a rejeição em relação à leitura. Ao invés de meu favorito. L1 é a minha favorita” “hábito”, a palavra usada foi “mania” que remete a algo negativo, mentalmente doente. As respostas à questão relativa à leitura de textos específicos na área profissional em muito se assemelharam àquelas da pergunta sobre a diferença entre ler em L1 e ler em LE, suscitando sete categorias de respostas, conforme descrito no Quadro 3. QUADRO 3 - Leitura de textos específicos da área profissional CATEGORIAS COMENTÁRIOS 1- “Desespero: sei que na nossa área profissional”. 2- “Muita dificuldade”, “dificuldade de entender as palavras”, “encontro dificuldade”, “não entendo” 3- “Estar no escuro: não enxergo nada” Versão extrema das crenças anteriores 4- “Ponto essencial na vida profissional”, “O Reconhecimento da importância de ler uma LE em inglês está sempre nela (na minha área)”, “Tem sua área de atuação. sempre algo em inglês então faz diferença em ver texto em LE”, “Fundamental: “tudo” na sua vida profissional dependendo da área que você trabalha”. 5- “Quando isso ocorrer, eu estarei em um bom A importância do domínio desta habilidade emprego”, dificuldades”, evidencia-se ainda em respostas mais esperançosas “Tenho de saber mais o inglês (tradução)”. “Muito e com crenças passíveis de se concretizarem com bom algum investimento. “Bom, porque no apesar Estágio das será de melhor compreensão dos manuais que serão quase todos em inglês”, “No proeja é necessário saber ler em inglês, pois seremos técnicos em montagem e manutenção e nessa área é necessário”. 6- “Não sei ler” Pode-se atribuir esta fala à crença de que leitura é sinônimo de ler em voz alta. À questão sobre o papel do leitor na interação com o texto foram dadas respostas que majoritariamente evidenciam a crença de que cabe ao leitor interpretar e entender ou tentar entender o que lê (16 ocorrências), conforme exemplificado no item 1 do Quadro 4. A estas somaram-se três outras respostas enumeradas no referido quadro. 9 QUADRO 4 - Papel do leitor ao ler um texto CATEGORIAS COMENTÁRIOS 1- “entender e interpretá-lo”, “saber interpreta-lo muito bem”, “expor mais claramente possível o que o texto quer transmitir” 2- “se interagir” Conscientização da necessidade de haver interação entre leitor e texto. 3- “sem o leitor quem iria ler o texto” e “todo, pois Reconhecimento da importância do leitor no sem o leitor não existiria o texto”. processo de leitura, visto que ele constitui o alvo pretendido pelo autor. 4- CONSIDERAÇÕES FINAIS O fenômeno social da prática de leitura revela um conflito entre as crenças que os alunos têm acerca do aprendizado da leitura em LE na interação com os textos e a proposta oferecida na escola. Os dados obtidos evidenciam a consciência que os alunos têm da importância de aprender a ler uma LE para a área técnica e consequentemente de uma melhor colocação no mercado de trabalho. Como o aprendizado da leitura em L1 parece estar mais distante na vida desses alunos, a referência feita à L1 diz respeito a sua prática, particularmente a escolar. Nenhuma menção é feita aos textos que diariamente eles leem, mas saber interpretar muito bem os textos é a prática da leitura na escola, em que muitos falharam e continuam a falhar, porque parece ser dever deles saber sem que precisem receber instruções para fazê-lo. A posição de sujeitos cognocentes sobre seu aprendizado parece ser nova e assustadora. A escola sempre foi o espaço onde se desenvolve o aprendizado e, se eles não conseguiram aprender, a falha deve residir em sua aprendizagem. Como acreditar que na aprendizagem da habilidade de leitura em LE, em que é fundamental a participação ativa do leitor na interação com o texto, possa haver sucesso se os alunos falham em “interpretar” bem os textos em L1? A idéia de aprender somente a ler a LE parece impossível ou enganosa, pois aprender uma língua é, sobretudo, saber falá-la. Some-se a esta crença o fato de que, por experiência, no ensino fundamental os alunos tiveram quatro anos de estudo de uma língua estrangeira, e nada conseguiram aprender, 10 o que só vem a reiterar a crença de que somente num curso de inglês é possível aprender a falar. As respostas deixam claros os clichês de que se apropriaram ao ouvirem de seus professores. Nulificam-se como leitores que são de gêneros textuais diversos dos tradicionalmente trabalhados na escola. E como não estão familiarizados com o pensar criticamente sobre o que ouvem nas aulas e nada terem a contribuir na construção de seu aprendizado, sentem-se incapazes e descrentes que poderiam fazer a diferença justamente no aprendizado da leitura em uma LE. Outras respostas, ainda que timidamente, apontam a conscientização da necessidade de usar as estratégias, especialmente as cognitivas, pois as metacognitivas demandam uma maior familiaridade com a estrutura da língua (tanto a L1 quanto a LE), não para traduzir o texto, mas para dele extrair sentidos que devem ser relacionados à necessidade de informações sobre a montagem de um computador. A urgência em se colocar como sujeitos ativos de sua aprendizagem não está presente apenas no processo de aquisição da habilidade de leitura em LE. Esta atitude faz-se necessária também na aprendizagem de L1, uma vez que o processo é o mesmo. A interação entre leitor e texto é de importância indiscutível, particularmente na situação de leitura em que se encontram os ingressantes do PROEJA. Na busca de sentidos para o que leem, eles ainda estão muito atrelados ao modo bottom-up3 de leitura. O uso de estratégias cognitivas (conhecimento sobre o assunto do texto, o gênero textual e o conhecimento de mundo), ou seja, o modo de processamento da leitura top-down, os ajudaria muito a chegar a um equilíbrio para decodificar o texto com mais segurança. NOTAS 1- Mestre em Língua Inglesa – Universidade Federal Fluminense. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estácio de Sá. 2- Doutora em Educação – Universidade René Descartes/ParisV. Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estácio de Sá/RJ. 3- Processamento de informação bottom-up (ascendente) que se caracteriza pelo uso linear e indutivo das informações visuais, lingüísticas. O significado é construído através da análise e síntese do significado das partes. O processamento top-down (descendente) dá-se de forma não-linear, da macro para a microestrutura e da função para a forma e faz uso intensivo e dedutivo de informações não visuais. (Kato, 1999). 11 5- REFERÊNCIAS MOSCOVICI, Serge. A representação social da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar Ed. 1978. ________________. Representações sociais. Investigações em psicologia social. 5 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. _______________. Das representações coletivas às representações sociais: elementos para uma história. In: JODELET, D. (Org.) As representações sociais. Tradução de Lílian Ulup. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001. SÁ, Celso P. De. A construção do objeto de pesquisa em representações sociais. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998. KATO, Mary. O Aprendizado da Leitura. 5ª. Ed. São Paulo: Martins Fontes. 1999. GOODMAN, K.S. Reading: a psycholinguistic guessing game. In: GUNDERSON, D. (Org). Language and Reading. Washington: Center for Applied Linguistic, 1970. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. Brasília, agosto 2007.