Universidade Estadual de Feira de Santana Programa de Pós-Graduação Graduação em História Da Assistência à Resistência: ecumenismo presbiteriano, mendicância, migração e luta pela terra na Bahia (1968-1990). (1968 Charlene José de Brito Feira de Santana 2013 Universidade Estadual de Feira de Santana Programa de Pós-Graduação Pós em História Da Assistência à Resistência: ecumenismo presbiteriano, mendicância, migração e luta pela terra na Bahia (1968-1990). (1968 Charlene José de Brito Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Graduação em História da Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em História, sob a orientação da Prof.ª Drª Elizete da Silva. Feira de Santana 2013 Termo de Aprovação Data de avaliação: 17/06/2013 Banca Examinadora ________________________________________________________ Prof. Drª. Elizete da Silva PGH/UEFS – Orientadora ________________________________________________________ Prof. Dr. Clóvis Frederico Ramaiana Moraes Oliveira PGH/UEFS, UNEB ________________________________________________________ Prof. Dr. Muniz Gonçalves Ferreira UFRRJ Ficha Catalográfica – Biblioteca Central Julieta Carteado B875a Brito, Charlene José de Da assistência à resistência: ecumenismo presbiteriano, mendicância, migração e luta pela terra na Bahia (1968-1990) / Charlene José de Brito. – Feira de Santana, 2013. 149 f. : il. Orientadora: Elizete da Silva. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Feira de Santana, Programa de Pós-Graduação em História, 2013. 1. Assistência social – Feira de Santana. 2. Projetos sociais. 3. Presbiterianismo. I. Silva, Elizete da, orient. II. Universidade Estadual de Feira de Santana. III. Título. CDU: 364.442:93 Trem da Morte (João Dias de Araújo) Vamos entrar, amigo, nesse trem Mas cuidado, não vá sujar o terno Porque há muita lama nesse carro Esse vagão é o limiar do inferno Mas, contemple melhor sua visão Porque vamos entrar na horrenda pista da miséria Veja, pois, quantas faces desgraçadas Quanta dor nessas almas torturadas Na Central do Brasil E o trem segue sua marcha trepidante Homens, mulheres, velhos e crianças Espremidos no aperto da sujeira Vão matando no peito as esperanças Em cada face o pranto de derrota Em cada olhar a solidão remota Da terra que ficou Filho da amarga fome e a seca agreste Caveiras seminuas do Nordeste Que o deserto gerou Ali está um homem carregando o filho Magro, débil, raquítico e doente Não há lugar, por isso, vai em pé Com o filhinho a chorar, impertinente Depois de tantos dias de cansaço Esse que mal suporta no seu braço o peso da criança Em meio aquela gente tão medonha, abraça o filho E suspirando, sonha com o dia de abastança E o trem segue nos trilhos do infinito Trepidando, enfim, na vastidão E aquele homem cansado, aos empurrões Se encosta na janela do vagão E pensa nas futuras plantações, no dinheiro, no lar sem as aflições, a vida a prosperar O nortista a pensar dessa maneira Sem perceber, por causa da canseira Estava cochilando Mas, súbito, num solavanco enorme, A criança caiu pela janela E o pai louco, chorando, desvairado Sentindo na alma a dor que o esfacela Salta do trem em busca da criança A sua dor e última esperança Que caiu do seu braço Como a pomba que deixa o ninho Ela saiu das mãos naquele arranco, naquele estardalhaço O trem para Um soluço atravessa a alma daquela multidão faminta As mães chorando, abraçam seus filhos Oh dor, que a mente humana jamais sinta Lá estava triste o pai chorando astuto Nos braços, contemplando o filho morto O filho estraçalhado Naqueles trilhos, pelas assassinas rodas Que sufocaram as boninas de um sonho sem pecado Oh, Senhor Deus, E o trem da morte segue, Ceifando tantas vidas inocentes Quantos trilhos, Senhor, sem punição, Contra os filhos das secas inclementes Oh Pátria, é do poente a uma aurora Um lábio que sorri, outro que chora És liberta, ou servil? E nos trilhos manchados pelo sangue Ainda passarão Nordestes antes E o Norte do Brasil 1 1 Poema do Rev. João Dias de Araújo – Lido pela Professora Ithamar Bueno de Araújo em Entrevista concedida à autora em 07 de maio de 2007, Feira de Santana/Ba. Agradecimentos Aos meus familiares (meus pais, irmãs e irmão, filha e sobrinhas) por apoiarem minhas escolhas, sejam elas corretas ou não. Aos (as) companheiros (as), David Costa Rehem, Flaviane Ribeiro Nascimento, Flávio Dantas Martins e Mayara Pláscido Silva por me incentivarem e insistirem para que eu participasse da seleção do mestrado, quando eu estava desencantada com o meio acadêmico. A David Costa Rehem e a Flaviane Ribeiro Nascimento estendo minha gratidão, pois foram responsáveis pela leitura do projeto, sugestões e discussão da bibliografia, via Messenger. Mesmo quando a distância teimava em nos separar a tecnologia nos unia. Ao Programa de Bolsas Cotas Institucionais – Mestrado, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), responsável pelo apoio financeiro à pesquisa. Com a bolsa pude me dedicar exclusivamente aos estudos. À minha orientadora, Drª Elizete da Silva por todos esses anos de orientação, paciência e desvelo na leitura dos meus textos inconclusos ou fora do prazo. Além de professora e orientadora competente, uma grande amiga. Foi através dela que comecei a trilhar os caminhos da pesquisa sobre o campo religioso, em particular o protestante. Não há palavras para expressar o tamanho da minha gratidão. Obrigada, Clio! Aos docentes que fizeram parte dessa trajetória acadêmica: o Prof. Dr. Erivaldo Fagundes Neves, o Prof. Dr. Eurelino Teixeira Coelho Neto, o Prof. Dr. Jacques Depelchin e a Profª. Drª Lucilene Reginaldo, pelas contribuições acerca da pesquisa em História e do fazer historiográfico. À Profª. Drª. Acácia Batista Dias pelas informações sobre o trabalho feminino e empréstimo de material. Embora com a agenda lotada, sempre arrumava um espacinho para me encaixar nos seus horários. Aos (as) colegas de turma que compartilharam comigo, uns mais, outros menos, as alegrias e tristezas do mestrado. Gratidão estendida à Flávia Amorim (Juanita), Nayara Fernandes e Yolanda Leony, com estas compartilhei ótimos momentos em viagens para eventos e/ou convescotes crepusculares. Aos (as) camaradas do Centro de Pesquisas da Religião (CPR), pelas tardes produtivas de discussão de projetos e de bibliografia sobre a Pesquisa no Campo Religioso. Possuo uma dívida impagável com o CPR, pois foi nesse núcleo que esta dissertação que ora apresento nasceu, ainda como uma pequena intenção de pesquisa, que foi ganhando corpo até se tornar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação e agora o resultado dos dois anos de mestrado. Aos (as) companheiros (as) do Centro de Estudos Feirenses (CENEF), por me acolherem no núcleo, enquanto estrangeira e iniciante nos estudos sobre Feira de Santana. Além das ótimas tardes de sexta-feira, de muita discussão sobre a História feirense, no Museu Casa do Sertão, que eu costumava classificar de sexta do Ensino e Pesquisa, levo comigo as boas lembranças da Extensão, que ocorria logo após as reuniões. Aos professores Ana Maria Carvalho dos S. Oliveira e Clóvis Frederico R. M. Oliveira pela paciência na leitura da primeira versão deste texto e pelas muitas sugestões no período de qualificação. Ao colega Eider Silva e a colega Lizandra Silva pelas conversas descontraídas, quando o estresse batia à porta, pelo apoio durante o mestrado e, principalmente, na fase final, período em que precisei me afastar de Feira de Santana. Aos funcionários do Mestrado Andrei Valente e Julival Cruz (Julí), sempre solícitos quando a burocracia teimava em nos atormentar. Aos (as) funcionários (as) da Biblioteca Setorial Monsenhor Renato de Andrade Galvão – Museu Casa do Sertão e da Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra (CEDITER), pela disponibilidade e solicitude durante o período de digitalização das fontes para a pesquisa. Vocês facilitaram de maneira significativa o árduo trabalho de catalogação dos documentos. Minha gratidão é maior à Ana Lúcia Souza, secretária da CEDITER, que viu a sua rotina ser transformada com a intromissão de uma pesquisadora teimosa que ligava até durante os seus momentos com os familiares. Aos sujeitos de pesquisa que me concederam entrevistas e documentos particulares. Destaco o sociólogo Ildes Ferreira de Oliveira, a Professora Ithamar Bueno de Araújo, os Reverendos João Dias de Araújo e Josué da Silva Mello, o professor Raimundo dos Santos. Com o Rev. João Dias de Araújo e a Professora Ithamar Bueno, fugindo aos rigores da pesquisa histórica e contrariando a orientação de que o pesquisador não deve se envolver com os sujeitos de pesquisa, mantive uma ótima relação e hoje me atrevo a chamá-los de amigos. Sempre me receberam carinhosamente em sua residência e concederam mais de uma entrevista, além de documentos para este trabalho. Muito obrigada, a todos e todas! Resumo Esta dissertação analisa os projetos sociais desenvolvidos por Presbiterianos Ecumênicos no Estado da Bahia, através de três instituições, a Associação Feirense de Assistência Social (AFAS), o Serviço de Integração de Migrantes (SIM) e a Comissão Evangélica dos Direitos da Terra (CEDITER), durante os anos de 1968 e 1990. Tais entidades possuíam atividades circunscritas à Feira de Santana até o inicio de 1980, com exceção da CEDITER que nasceu com uma proposta direcionada para o campo e tinha como áreas de abrangência as regiões da Chapada Diamantina e do Vale do Médio São Francisco, voltando-se também, no decorrer da década, para Feira de Santana e o Recôncavo Baiano. Fundadas após o golpe civil-militar, período em que prevalecia a supremacia dos círculos conservadores, tiveram suas ações voltadas para homens e mulheres excluídos social e economicamente. Estudamos as relações mantidas entre os Evangélicos Ecumênicos, outros grupos religiosos, o poder público municipal e os grupos dominantes, na criação dessas instituições, o trabalho de capacitação de mendigos e migrantes no interior das entidades, o assessoramento nos conflitos envolvendo a posse da terra e as aproximações decorrentes destes, entre uma Teologia da Terra e a Teologia da Libertação. Palavras-Chave: Presbiterianos Ecumênicos – Projetos Sociais – Golpe civil-militar – Feira de Santana – Chapada Diamantina – Recôncavo Baiano. Abstract This Master’s thesis examines the social projects developed by Ecumenical Presbyterian in the Brazilian state of Bahia, through three institutions: the Associação Feirense de Assistência Social (AFAS – Social Assistance Association of Feira de Santana), the Serviço de Integração de Migrantes (SIM - Migrant Integration Service) and the Comissão Evangélica dos Direitos da Terra (CEDITER – Protestant Committee of Land Rights) during the 1968 and 1990 decades. Such entities developed social activities in Feira de Santana until the early 1980s. The exception is CEDITER that was thought for acting in the countryside of the state, specially the regions of Chapada Diamantina and Vale do Médio São Francisco, but that had also turned to Feira de Santana city and the Recôncavo area during that decade. These institutions were established after the civilmilitary coup, during which the supremacy of conservative circles prevailed, and worked with socially and economically excluded men and women. We studied the relationships among the Ecumenical Presbyterians, other religious groups, the Municipality and other ruling groups of that time in the creation of these institutions. We examine their work with the professional training of homeless and migrants; also, their assistance in conflicts involving land ownership and its developments, all under the light of a Land Theology and the Liberation Theology. Keywords: Ecumenical Presbyterian – Social Projects – Civil-Military Coup – Feira de Santana – Chapada Diamantina – Recôncavo Baiano. Lista de Imagens, Tabelas e Gráficos Figuras Figura 1 - Migrantes recolhidos pelo SIM. .................................................................... 71 Figura 2 - Migrantes recém-chegados – Rodoviária: Feira de Santana ......................... 85 Figura 3 - Migrantes recém-chegados/as à Feira de Santana ......................................... 87 Figura 4 - Gráfico 1 – Migrantes por Nível de Instrução. ............................................. 91 Figura 5 - Gráfico 2 – Nível de Instrução do Grupo Familiar dos Migrantes. ............... 91 Figura 6 - Migrante em Capacitação no SIM. .............................................................. 100 Figura 7 - Migrantes em Capacitação no SIM - Manicures. ........................................ 100 Figura 8 – Manifestação sobre Pedra do Cavalo – Assembleia Legislativa, Governadoria e Praça da Piedade, 11/09/1990 – Salvador/Bahia .......................................................130 Índice de Tabelas Tabela 1 - Crescimento Populacional de Feira de Santana, Censos demográficos (19601991)............................................................................................................................. 78 Tabela 2 - Migração por Sexo (Dados SIM/SETRABES)..............................................79 Tabela 3 - Migrantes por nível de instrução....................................................................89 Tabela 4 -Migrantes por Nível de Instrução (1975)........................................................90 Tabela 5 – Conflitos pela posse da terra ocorridos na Bahia entre 1930 a 1986.......122 Glossário de Siglas e Abreviaturas AATC – Associação de Apoio aos Trabalhadores da Chapada ABIN – Agência Brasileira de Inteligência ABRA – Associação Brasileira de Reforma Agrária ACM – Antônio Carlos Magalhães AFAS – Associação Feirense de Assistência Social ARENA – Aliança Renovadora Nacional ASPLAN – Assessoria de Planejamento e Controle ATR – Associação de Trabalhadores Rurais BCJC – Biblioteca Central Julieta Carteado CEAS – Centro de Estudos e Ação Social CEBs – Comunidades Eclesiais de Base CEDITER – Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra CEDITER – Comissão Evangélica dos Direitos da Terra CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço CIA – Centro Industrial do Aratu CIS – Centro Industrial do Subaé CMI – Conselho Mundial de Igrejas CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs COPEC – Complexo Petroquímico de Camaçari CPT – Comissão Pastoral da Terra CSU – Centro Social Urbano CUT – Central Única dos Trabalhadores DEOPS – Departamento Estadual de Ordem Política e Social DOI/CODI – Destacamento de Operações e Informações /Centro de Operações de Defesa Interna. EFAs – Escolas de Famílias Agrícolas EUA – Estados Unidos da América EZE – Central Evangélica de Ajuda ao Desenvolvimento (Alemanha) FENIP - Federação Nacional de Igrejas Presbiterianas FETAG/BA – Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia IBBNE – Instituto Bíblico Batista do Nordeste IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária INED – Instituto de Educação e Desenvolvimento IPB – Igreja Presbiteriana do Brasil IPU – Igreja Presbiteriana Unida INM – Instituto Nacional de Migración ISAL - Iglesia y Sociedad em América Latina LBA - Legião Brasileira de Assistência MEP – Movimento Evangélico Progressista MOC – Movimento de Organização Comunitária MPBC – Missão Presbiteriana do Brasil Central MST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra PCB – Partido Comunista PDLI – Plano de Desenvolvimento Local e Integrado PFL – Partido da Frente Liberal PIPMO - Programa Intensivo de Preparação de Mão de Obra PPM – Pão Para o Mundo (Alemanha) PROALCOOL – Programa Nacional do Álcool PROGEBA – Programa de Educação Básica PSVD – Presbitério de Salvador PT – Partido dos Trabalhadores RMS – Região Metropolitana de Salvador SAF – Sociedade Auxiliadora Feminina SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SETAL – Setor de Alimentação SETED – Setor de Educação SETOP – Setor de Treinamento Profissional SETRABES – Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social SIM – Serviço de Integração de Migrantes SNI – Serviço Nacional de Informações SPN – Seminário Presbiteriano do Norte (Recife) STBNE – Seminário Teológico Batista do Nordeste STR – Sindicato de Trabalhadores Rurais SUDENE - Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste UDN – União Democrática Nacional UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas Sumário Introdução ....................................................................................................................... 16 Capítulo 01- Primeiros esforços ecumênicos em prol dos mendigos e migrantes em Feira de Santana.............................................................................................................. 25 Presbiterianos no Brasil e na Bahia .................................................................... 25 Protestantes Ecumênicos em Feira de Santana ................................................... 32 Projetos Sociais em um contexto de transformação da realidade feirense ......... 41 A “Afas precisa de Feira e Feira precisa da Afas”: ideologias díspares, alianças necessárias .......................................................................................................... 51 Capítulo 02 - Migração, Educação e Trabalho: um Centro de Capacitação de Migrantes para Feira de Santana...................................................................................................... 66 “O SIM veio para a luta da sobrevivência” ........................................................ 66 O desafio de migrar: “Lá não há ‘recurso’, a vida é ‘fraca’, veio caçar lugar mais ‘forte’”. .............................................................................................................. 75 “Escola do SIM dá profissão”: uma Universidade Popular para o migrante ..... 89 O processo de profissionalização do SIM: trabalho como via de mobilidade social ................................................................................................................... 96 Capítulo 03 - Ameaças, Conflitos e Expulsões: a luta pela terra na Bahia e as áreas de abrangência do projeto da CEDITER ........................................................................... 106 O contexto baiano da década de 1980 – áreas de alcance da CEDITER .......... 107 Presbiterianos Ecumênicos: aproximações entre a Teologia da Libertação e a Teologia da Terra ............................................................................................. 113 A Comissão Pastoral da Terra: uma realidade em pleno Regime Militar ........ 117 “A terra é minha, diz o Senhor, e vós sois como migrantes e posseiros” (Lv 25,23) ................................................................................................................ 121 CEDITER: em favor da terra e contra a exploração ......................................... 128 Considerações Finais .................................................................................................... 135 Lista de Fontes .............................................................................................................. 139 Referências ................................................................................................................... 144 Anexos .......................................................................................................................... 150 Introdução Esta dissertação tem por objetivo analisar a atuação dos presbiterianos ecumênicos em três instituições, a Associação Feirense de Assistência Social (AFAS), 2 o Serviço de Integração de Migrantes (SIM) e a Comissão Evangélica dos Direitos da Terra (CEDITER). As primeiras atividades, no final da década de 1960, estiveram ligadas à capacitação de mendigos e migrantes através da AFAS e do SIM em Feira de Santana. No limiar dos anos de 1980, os trabalhos foram direcionados para os homens e mulheres do campo, por meio da CEDITER, que atuou nos conflitos pela posse da terra nas regiões da Chapada Diamantina e do Vale do Médio São Francisco, para em seguida, em 1985, estender suas intervenções para outras regiões do Estado da Bahia, como o município de Feira de Santana, no qual os presbiterianos ecumênicos já vinham desenvolvendo projetos sociais e em algumas cidades do Recôncavo Baiano. Os sujeitos da pesquisa, os presbiterianos ecumênicos, surgiram no seio da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), como um grupo de jovens com ideias inovadoras, com posicionamentos que iam de encontro ao pietismo3, que sempre fora propalado nos púlpitos evangélicos. Esses presbiterianos começaram a questionar o papel social e político da igreja na sociedade. Criticavam a teologia praticada até então, por esta se encontrar descontextualizada, sem qualquer envolvimento com os problemas que atingiam a maioria da população. Reivindicavam de forma veemente um protestantismo mais engajado, capaz de modificar a situação daqueles que habitavam os países tidos como subdesenvolvidos ou das populações que ocupavam as periferias das áreas desenvolvidas. Influenciados pelas transformações que estavam ocorrendo no meio evangélico, de forma mais evidente entre alguns presbiterianos, congregacionais e metodistas, desde a primeira metade do século XX, quando se discutia a possibilidade de cooperação entre cristãos a partir da criação da Aliança Evangélica (1903) – no Brasil – e das conferências ecumênicas de Edimburgo (1910), do Panamá (1916), de Estolcomo 2 As abreviaturas só aparecerão escritas por extenso uma única vez no texto. Mencionadas novamente, serão em forma de sigla. 3 O pietismo foi um movimento de intensificação da fé, nascido na Igreja Luterana Alemã no século XVII, também chamado de Movimento Pietista. No meio presbiteriano ele foi usado para afirmar a superioridade das verdades da fé sobre as verdades da razão. Esta era uma das críticas feitas pela vertente progressista àqueles que viam a fé e a religião como algo transcendente que está além dos limites da razão e dos problemas sociais. 16 (1925) de Oxford (1937), e de movimentos como Vida e Terra, esses religiosos deram os primeiros passos em direção ao que se convencionou chamar movimento ecumênico. Após a Segunda Grande Guerra, mais precisamente em 1948, com a fundação do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), com sede em Genebra – Suíça –, além da perspectiva de unionismo, puderam ampliar a sua visão acerca do envolvimento da igreja nos problemas sociais e propuseram trabalhar em prol da educação e em favor de uma transformação das estruturas econômicas e sociais que repercutisse de modo positivo na vida dos despossuídos.4 Até os anos de 1950, os presbiterianos, em grande parte, se mantiveram alheios a qualquer movimento que propunha uma discussão sobre os problemas que afligiam a maioria da população empobrecida dos países subdesenvolvidos. *** A problemática central investiga as relações entre esse grupo evangélico ecumênico e o poder público feirense, tendo em vista que em outras localidades do País os presbiterianos ecumênicos foram perseguidos e expulsos da IPB, denunciados ao Regime Militar e em muitos momentos tiveram que prestar esclarecimentos aos órgãos da repressão. No entanto, em Feira de Santana, esses presbiterianos ecumênicos, ou ao menos, alguns expoentes do grupo, se aliaram aos políticos locais e puderam desenvolver trabalhos de cunho social. Como isso foi possível? Havia interesse por parte do Poder Local na criação de entidades para acolher mendigos e migrantes? Que interesses eram esses? O que os grupos dominantes e os comerciantes pretendiam ao apoiarem a criação das entidades assistenciais? Quais as convergências e divergências nas práticas e nos discursos dos presbiterianos ecumênicos e dos grupos dominantes que formavam o campo político local? Tais aproximações, para nós, instigantes, sobretudo quando nos anos de 1980, entre os participantes das entidades, existiram pessoas que se envolveram mais na política partidária vista na época como de direita. Não era dissonante se participar ativamente de um partido político, o que nos soou inusitado foram as alianças entre membros de uma vertente progressista com um grupo político conservador. Como era 4 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010. 17 possível lutar pela redemocratização do País, questionar o sistema de governo vigente até 1985, criticar o autoritarismo deste, e após o fim do Governo Militar, se aproximar justamente daqueles que estiveram intimamente ligados a ele, neste caso Antônio Carlos Magalhães (ACM) e o Partido da Frente Liberal (PFL)? São caminhos que nortearam esta pesquisa. A atuação desse segmento ecumênico no trabalho educacional e profissionalizante da AFAS e do SIM, também nos pareceu bastante complexa, sobretudo a forma como a educação era desenvolvida na Escola SIM. Se por um lado propunham um ensino libertador, contestatório, de caráter freireano, por outro, capacitavam migrantes e encaminhavam para as fábricas, grandes representantes do capitalismo. Criticavam as estruturas econômicas, políticas e sociais, mas firmavam parcerias com industriais e produziam mão de obra de acordo com a exigência destes. Que elementos fizeram a mediação unindo em projetos convergentes grupos tão díspares do ponto de vista ideológico/político? Em outros termos, esse jogo da dissimulação dos líderes ecumênicos, por um lado, e o desenvolvimentismo, por outro, serviram como elementos articuladores de um ideário progressista? O contexto brasileiro e baiano do período era marcado por várias agitações envolvendo a questão da posse da terra. Coube-nos aqui, a tarefa de analisar a atuação dos presbiterianos ecumênicos nesse novo projeto. Interessa-nos a forma de intervenção do grupo nos conflitos do campo, na formação de líderes sindicais, na criação de sindicatos, na prestação de serviços jurídicos, na fixação do homem à terra, evitando assim a migração. Tentamos, a partir de alguns indícios, perceber se de fato houve a ruptura com o modelo de projeto posto em prática até então – tanto a AFAS quanto o SIM foram duramente criticadas por não irem à raiz do problema (êxodo rural), por promoverem um trabalho assistencial e que favorecia os comerciantes e industriais, respectivamente –, bem como com as estruturas agrárias. A CEDITER coseguiu trabalhar com a conscientização dos pequenos proprietários de terra, dos expropriados, dos sem terra, e assim fugir do assistencialismo? O projeto coadunava com o que era defendido pelo movimento presbiteriano progressista? São questões que serão desenvolvidas ao longo do texto. *** 18 Feitas essas considerações acerca da problemática, é necessário identificar o referencial teórico-metodológico. Como foi exposto, o trabalho envolve as três instituições e para nortear a discussão, usamos conceitos de alguns teóricos que nos ajudarão a melhor analisar a temática proposta. Percebemos em torno do trabalho social desenvolvido pelos presbiterianos ecumênicos em Feira de Santana a influência da ética protestante, tão cara aos herdeiros de João Calvino, apesar de buscarem um afastamento dos preceitos religiosos, ou em outras palavras, procurarem viver em harmonia com os diversos grupos religiosos, independente das diferenças religiosas. Não foi incomum na profissionalização dos retirantes a introdução de uma disciplina típica do protestantismo histórico, vista como necessária para se conseguir uma ocupação no mercado de trabalho e consequentemente, ascensão econômica e social. A capacitação voltada para o trabalho, este entendido como uma vocação, um serviço a ser prestado a Deus, remete às concepções de Max Weber (2004), em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Para Weber, a centralidade do trabalho só seria adquirida através de um “longo processo educativo”, de uma ética ascética, “como se fosse um fim absoluto em si mesmo – como ‘vocação’”, tal visão, é comum entre os protestantes, sobretudo, os calvinistas.5 O ascetismo vivenciado pelos presbiterianos ecumênicos no processo de profissionalização da mão de obra no SIM foi crucial na aquisição da disciplina necessária para o trabalho fabril. No SIM, semelhante ao que ocorreu no contexto inglês do século XVIII, o poder transformador da cruz, 6 – termo utilizado por E. P. Thompson (1987) quando se referia ao trabalho de disciplinarização imposto pelos metodistas aos operários fabris na Inglaterra –, cumpriu a função moralizante, impondo ao migrante uma nova forma de agir e trabalhar. Partindo desse princípio, e levando em consideração que além de se pautar na disciplina, a educação prestada pelo SIM tinha como preocupação a libertação dos despossuídos, notamos que a religião seria portadora de duas funções, por um lado, de legitimação da ordem, que visava à disciplina do trabalhador, e por outro lado, a de contestadora dessa ordem, quando criticava as estruturas econômicas, políticas e sociais. O intuito era trabalhar com a conscientização do migrante, apresentar as principais diferenças da vida e do trabalho no campo para o trabalho nas áreas urbanas e, por 5 WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Pioneira, 2004, p.54. O termo foi utilizado pelo historiador inglês E. P. Thompson em a Formação da Classe Operária Inglesa em um capítulo dedicado à temática. Conferir, THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa. Vol. II. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 6 19 conseguinte, ensinar uma profissão e encaminhá-lo ao mercado de trabalho, quando possível. Analisamos a dualidade da religião à guisa das apreciações que Michael Löwy (1997) fez dos escritos de Karl Marx e Friedrich Engels, interpretações estas presentes na obra Marx e Engels como sociólogos da religião. Löwy tomou como ponto de partida a concepção de que em alguns momentos, a religião pode desempenhar um papel duplo, ao mesmo tempo ser “o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, tal como é o espírito de condições sociais de que o espírito está excluído. Ela é o opium do povo”, 7 e buscou, ancorado em outros trabalhos desses intelectuais alemães, fugir das análises apressadas, para, a partir do método dialético, explicitar esse duplo caráter da religião, “às vezes, legitimação da sociedade existente, às vezes protesto contra tal sociedade”.8 Entendemos que esses religiosos agiram em um campo religioso e político permeado por disputas pelo poder, pela abertura de espaços. Para compreender a dinâmica nesses campos, bem como as interações entre eles, usaremos as interpretações do sociólogo francês Pierre Bourdieu em torno da relação entre ordem simbólica e ordem política, além do conceito de campo. Segundo Bourdieu (2005), esse poder simbólico exercido pela religião e pela política, muitas vezes como legitimador da ordem, é “estabelecid[o] na medida em que a manutenção da ordem simbólica contribui diretamente para a manutenção da ordem política”. Os poderes, tanto o religioso, quanto o político são exercidos dentro do campo. Um campo permeado por disputas, pela concorrência, voltadas, principalmente, para a formação do consenso. Ainda, segundo o autor, essas relações opostas no interior do campo “constituem o princípio da dinâmica do campo”. 9 *** Este trabalho está ancorado em três tipos de fontes: as impressas, as orais e as iconográficas. Dos documentos impressos temos os periódicos: Jornal Feira Hoje e o Jornal Folha do Norte, ambos de circulação local; Revistas: Panorama da Bahia, 7 MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In: MARX, Karl; ENGELS, Frederich. Sobre a Religião. Lisboa: Edições 70, 1976, p. 46. 8 LÖWY, Michael. Marx e Engels como sociólogos da religião. In: Revista de Ciências Sociais – Lua Nova. nº 1, vol. 40, Rio de Janeiro, 1997, p. 158. 9 BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2005, p. 50-69. 20 também de tiragem local, Tempo e Presença e Reforma Agrária, de alcance nacional. Além dessas publicações, usamos os cadernos produzidos pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conflitos no Campo, coletâneas lançadas em Genebra, pelo CMI: Las Migraciones Internas e Migration Today: current, problems and cristhian responsibility, organizadas pelo sociólogo Jether Perreira Ramalho. Memórias de presbiterianos/as ecumênicos/as, entre eles Richard Shaull (teólogo norte-americano), De dentro do Furacão: Richard Shaull e os primórdios da Teologia da Libertação (1985) e Surpreendido pela graça: memórias de um teólogo – Estados Unidos, América Latina, Brasil (2003); João Dias de Araújo (teólogo brasileiro) Inquisição sem Fogueiras: A História sombria da Igreja Presbiteriana do Brasil (2010); Edetina Lima Cavalcante (membro da Igreja Presbiteriana de Feira de Santana), A semente que caiu na terra boa (s.d.) e Vidas Consagradas: Sociedade Feminina Presbiteriana – 1947 a 1997 (1997); Joel Ferreira Silva (membro da Igreja Presbiteriana de Feira de Santana), Breve Histórico da Primeira Igreja Presbiteriana de Feira de Santana (2002); Belamy Macêdo de Almeida (membro da Igreja Presbiteriana de Wagner-Ba). Ponte-Nova: construindo o futuro olhando no retrovisor. Gráfica Salobro, s.d.. Da documentação produzida pela AFAS, SIM e CEDITER, destacamos: Relatórios Anuais (1973-1988), Relatórios Estatísticos (1973-1975), Atas (1983-1985), Boletins Informativos (1986-1987), Cartilhas – Polo Sindical (1989- 1990), Um relato de 23 anos (1991), Carta de Recomendação do Projeto SIM (1969). Como os documentos impressos são as mais variadas e por não existir uma metodologia específica para todas essas fontes optamos por tratá-las da mesma forma como os periódicos serão analisados. Inicialmente observamos para que e para quem foi produzida essa documentação, qual público pretendia alcançar, ou qual imagem queria transmitir. A imprensa local, por exemplo, foi responsável pela disseminação de um discurso de modernização e industrialização, que destacava Feira de Santana com um futuro grandioso do qual não poderia se furtar. De acordo com o que foi noticiado, a cidade teria “forçosamente” que trilhar os caminhos do progresso. Destacava-se o passado pastoril do município, em seguida o comercial, e nos anos de 1970, apontava o avanço iminente a partir da criação do CIS. Portanto, para se estudar a realidade feirense dessa década, os periódicos serão as fontes principais, visto que, de acordo com Neves (1985) “enquanto fonte de pesquisa histórica, o jornal possibilita ao pesquisador a compreensão 21 do contexto sócio-cultural e político-econômico da época estudada, colocando-o em contato com os usos e costumes, além do noticiário conjuntural”. 10 Em um segundo momento, o que e quem estava nos bastidores da produção. Quem eram os responsáveis pela elaboração dos mesmos. No caso dos jornais, se haviam pessoas influentes por trás das reportagens, ou se haviam interesses particulares. Quando nos reportamos aos relatórios, precisamos atentar para o que os diretores das entidades queriam apresentar aos órgãos internacionais, os principais financiadores. Parte significativa dos relatórios foi preparada considerando os dados qualitativos alcançados durante um dado período, porém a quantitatividade também se faz presente, ao elencar os atendidos, destacar a procedência, a idade, o sexo, entre outros aspectos. No processo de análise dos relatórios foi imperante a comparação com outros tipos de fontes, bem como avaliar o qualitativo descrito, com o quantitativo. O intuito foi perceber como a linguagem técnica instaura a realidade. As entrevistas realizadas são de pessoas que estiveram intimamente ligadas ao ecumenismo em Feira de Santana e aos projetos sociais desenvolvidos. Entre os entrevistados elencamos: o Reverendo Josué Mello (Diretor Executivo do SIM), o Reverendo João Dias de Araújo (envolvido no projeto do SIM e um dos idealizadores da CEDITER), a Professora Ithamar Bueno (presbiteriana ecumênica e atuante no SIM e na CEDITER), a Professora Tecla Dias de Oliveira Mello (ecumênica e responsável pela escola do SIM), o Sociólogo Ildes Ferreira de Oliveira (assessor do SIM e da CEDITER), o Professor Raimundo dos Santos (responsável por alguns cursos profissionalizantes oferecidos pelo SIM) e o Padre Albertino Carneiro (fez parte do Conselho Fiscal do SIM). As fontes orais, diferente das fontes oficiais e impressas, não estão prontas, precisam ser produzidas. Para tal, o pesquisador e interessado em usá-las, antes de qualquer procedimento, deve ter consciência de que a produção e a utilização das mesmas necessitam de alguns cuidados. Todavia, apesar de serem produzidas pelo próprio estudioso, isso não as descredibilizam ou mesmo as tornam inferiores diante dos documentos escritos. As críticas que muitos historiadores faziam (ou fazem) à oralidade estavam relacionadas, geralmente, a falibilidade da memória do depoente ou a descrença no subjetivo, porém para Sônia Freitas (1992) “a subjetividade é um dado real em todas as fontes históricas, sejam elas orais, escritas ou visuais”. Portanto, o 10 NEVES, Erivaldo Fagundes. Invasões em Salvador: Um movimento de Conquista do Espaço para Morar (1946-1950). São Paulo: Dissertação de Mestrado – PUC, 1985, p.18. 22 pesquisador que emprega a metodologia da História Oral deve sempre estar atento para os equívocos ainda existentes no uso da mesma, como por exemplo, “considerar que o relato que resulta da entrevista de História oral já é a própria ‘História’” e ao invés de problematizá-lo, o aponta como verdade absoluta. 11 Quanto às fontes iconográficas, estas fazem parte dos acervos do SIM e da CEDITER. Para apreciação tomamos as fotos nas quais foram registrados os momentos da inauguração das entidades, da chegada dos migrantes, a situação de moradia, cursos e solenidades de encerramento, encontros de membros de cooperativas, treinamento dos retirantes, entre outras. O intento ao explorá-las foi compreender as relações dos dirigentes presbiterianos com autoridades locais, visto que em contexto nacional, não eram possíveis as aproximações, além disso, observar as representações sobre os migrantes atendidos, como se vestiam, captar semblantes. Em poucas fontes foi possível identificar essas questões, entre elas citamos as que foram produzidas pelo próprio pesquisador, neste caso, as entrevistas. *** A dissertação está dividida em três capítulos. No primeiro deles, fizemos uma breve apresentação acerca da introdução dos protestantes em solo brasileiro, para em seguida tratarmos da sua chegada à Feira de Santana. Analisamos a realidade do município feirense do final da década de 1960 e início da década de 1970 e as relações que os presbiterianos mantiveram com o poder público municipal, os grupos dominantes, comerciantes e outras instituições religiosas, em torno dos projetos sociais da Associação Feirense de Assistência Social (AFAS) e do Serviço de Integração de Migrantes (SIM). O segundo capítulo é reservado ao trabalho social desenvolvido pelos presbiterianos ecumênicos no SIM, a fundação da entidade, os primeiros atendimentos, os financiadores e a forma como a profissionalização da mão de obra acontecia. Buscamos, embora com um número pequeno de Relatórios Estatísticos, traçar um perfil dos assistidos pela entidade, a procedência, o nível de instrução, o estado civil, o sexo, o local para onde se deslocavam e o porquê da migração. Analisamos como a educação foi ministrada na escola da entidade, como era organizado o processo de capacitação e a 11 ALBERTI, Verena. Fontes Orais: Histórias dentro da História. In: PINSKY, Carla B. (org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005, p.158-159. 23 influência dos preceitos protestantes, tanto na área pedagógica, quanto na profissionalizante. Interessou-nos também a diferenciação que foi dada às atividades do SIM, o que era considerado trabalho feminino, e o que se destinava apenas aos homens. No terceiro capítulo, iniciamos com uma breve análise sobre o contexto baiano dos anos de 1980, o número crescente de conflitos pela posse da terra, a situação dos expropriados, a atuação da entidade na resolução dessas agitações, o alcance do projeto, e os principais envolvidos. Em seguida, analisamos as aproximações dos presbiterianos ecumênicos com uma Teologia da Terra e Teologia do Povo, e o diálogo destas, com a Teologia da Libertação. E por último, as parcerias da Comissão Evangélica dos Direitos da Terra (CEDITER) com outras instituições como o SIM, o Movimento de Organização Comunitária (MOC) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), no desenvolvimento de atividades nas regiões da Chapada Diamantina, do Médio São Francisco, do Recôncavo Baiano e de Feira de Santana. Por último temos as considerações finais, na qual fizemos um pequeno balanço das conclusões que chegamos após a análise das fontes. Buscamos perceber a trajetória dos protestantes ecumênicos em Feira de Santana, através dos projetos de intervenção social, desenvolvidos durante os anos de 1968 e 1990, em pleno período de Regime Militar. 24 Capítulo 01- Primeiros esforços ecumênicos em prol dos mendigos e migrantes em Feira de Santana Presbiterianos no Brasil e na Bahia As primeiras investidas de protestantes em solo brasileiro ocorreram no período colonial, nos séculos XVI e XVII. Huguenotes e Calvinistas, protagonistas dessas incursões, fundaram em Rio de Janeiro e em Pernambuco, respectivamente, a França Antártica e a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, nas quais estabeleceram as primeiras comunidades evangélicas. Embora efêmera, as presenças francesa e holandesa representaram a possibilidade de incremento de uma política mercantilista na colônia portuguesa e a instituição de um possível refúgio em terras brasileiras para os franceses convertidos ao protestantismo, após o acirramento das lutas religiosas na França, decorrentes da Reforma e os Calvinistas em decorrência da união das coroas ibéricas. 12 No século XIX, após a transferência da Família Real para o Brasil, com a abertura dos portos à Nação Amiga, a penetração do protestantismo em terras brasileiras se deu de forma gradativa e sob restrições, não sendo permitida a construção de templos e a pregação em espaços públicos. As relações amistosas entre Portugal e Inglaterra, ocasionadas pela dependência econômica lusa à potência britânica e o alargamento dos interesses políticos e comerciais desses, nas benesses que adviriam da negociação direta com a colônia portuguesa, facilitaram o ingresso dos reformados no País. Além dos privilégios que foram concedidos aos britânicos, o fortalecimento dos laços com os portugueses foi substancial no estabelecimento de uma política migratória que deu margem para o fluxo de comunidades anglicanas e posteriormente dos protestantes originários dos EUA. 13 Com a instalação sistemática dos protestantes nas primeiras décadas do século XIX, afora anglicanos de origem britânica, luteranos alemães também adentraram no Brasil. Alguns viajantes protestantes começaram a agir como colportores intensificando as atividades da Sociedade Bíblica Britânica (1804) e da Sociedade Bíblica Americana 12 Sobre a presença protestante no Brasil ver os trabalhos de TEIXEIRA, Marli Geralda. “... nós os batistas...”: um estudo de história das mentalidades. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 1983; SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra Pátria: anglicanos e batistas na Bahia. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 1998. SANTOS, Lyndon de Araújo. As outras faces do sagrado: protestantismo e cultura na Primeira República Brasileira. Tese de Doutorado. São Paulo: UNESP/ASSIS, 2004. 13 Ver SILVA, Elizete da. Anglicanismo no Brasil: a Igreja dos Ingleses. In: SILVA, Elizete da; SANTOS, Lyndon Araújo dos; ALMEIDA, Vasni. (Orgs.). “Fiel é a Palavra”: leituras históricas dos evangélicos protestantes no Brasil. Feira de Santana: UEFS Editora, 2011. 25 (1816) “que se valiam especialmente dos bons ofícios de comerciantes em viagem que colocavam caixas de Escrituras Sagradas à disposição de quem as desejasse”. 14 O protestantismo inicialmente esteve voltado à assistência espiritual dos estrangeiros residentes no País, que consistia inicialmente na realização de cultos privados, realizados nas residências dos imigrantes. Esses grupos praticavam um protestantismo de imigração e apesar da distribuição de Bíblias, não havia atividades voltadas para a evangelização. Posteriormente, com a construção de templos anglicanos e luteranos, ao longo do território nacional e com a chegada de protestantes de missão, na segunda metade do século XIX, esse cenário começou a ser modificado. 15 Os protestantes que desembarcaram no Brasil a partir de 1858, estiveram ligados a uma segunda corrente missionária, advinda dos EUA, composta por reformados “de origem congregacional, metodista, presbiteriana, batista e episcopal [e] fundaram suas igrejas no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul”. De aguerrido fervor proselitista, esses missionários não se contentaram com a simples distribuição das Escrituras Sagradas, desenvolveram na nova terra um intenso trabalho evangelístico visando à adesão de fiéis e a propagação da fé reformada por todo o território nacional. 16 Dentre os protestantes de missão, os presbiterianos, a obra de evangelização foi iniciada a partir de 1859 com uma atuação mais voltada para a conquista de novos adeptos que engrossariam numericamente o rebanho evangélico. Com a chegada do missionário Ashbel Green Simonton, o pioneiro na divulgação das doutrinas presbiterianas, organizou-se a Primeira Igreja Presbiteriana no País e “ordenou o primeiro pastor protestante brasileiro, o ex-padre José Manuel da Conceição” 17 , além de iniciar um trabalho voltado para a educação de adultos. Em um ambiente de maioria católica, os presbiterianos enfrentaram dificuldades para professar a fé reformada, sofreram perseguições e em muitos momentos tiveram a tolerância de culto cerceada. No enfretamento dessas adversidades 14 LEONARD. Émile G. Op. Cit., 2002, p. 48. Ver SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010; SILVA, Elizete da. Cidadãos de Outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. São Paulo: Tese de Doutorado, USP, 1998, p. 24; MENDONÇA, Antônio Gouvêa & VELASQUES FILHO, Prócoro. Introdução ao Protestantismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1990, p.12. 16 SILVA, Elizete da. Cidadãos de Outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. São Paulo: Tese de Doutorado, USP, 1998, p. 24. 17 ARAÚJO, João Dias de. Inquisição sem Fogueiras (Vinte Anos de História da Igreja Presbiteriana do Brasil: 1954-1974). Rio de Janeiro: ISER, 1985, p. 05. 15 26 contaram com o apoio do missionário britânico Robert Kalley, fundador da Igreja Evangélica Fluminense, de origem Congregacional, um grande diplomata, que se tornou amigo do Imperador D. Pedro II, aplainando, assim, os primeiros passos do protestantismo missionário no Brasil. 18 O catolicismo não foi a único empecilho encontrado pelos protestantes no processo de evangelização. Apesar do incessante trabalho proselitista dos missionários e do aguerrido fervor evangelístico, tiveram pela frente diversos problemas, entre eles o de lidar com “uma nova língua que muitos deles não chegaram nunca a dominar, a diferença de costumes, as extenuantes viagens a cavalo (...), humilhações e sevícias por parte de populações fanatizadas”. 19 Acrescia-se a essas dificuldades o alto índice de analfabetismo dos brasileiros, que obstruía a divulgação dos princípios fundamentais defendidos pelos reformados, como a importância das Escrituras Sagradas tidas como norma suprema da fé, ou ainda o sacerdócio universal de todos os cristãos, segundo o qual o cristão não necessitaria de sacerdotes quando desejasse uma aproximação com Deus, cada pessoa seria sacerdote de si mesmo, teria liberdade para ler e interpretar os escritos bíblicos, muito diferente dos princípios católicos, que elegiam as autoridades eclesiásticas como mediadoras entre o fiel e a divindade. 20 Uma população iletrada, apesar de compreender tais princípios, dificilmente poderia pô-los em prática sem antes ser alfabetizada. Tornar-se sacerdote de si mesmo, um princípio protestante, era antes de qualquer coisa, aprender a ler e interpretar a Bíblia sem a mediação de uma autoridade eclesiástica. Esse primeiro impulso missionário foi marcado pela preocupação com o empreendimento educacional, mas o ensino não abarcava a totalidade das camadas populares brasileiras. Desde a sua instalação no Brasil, os presbiterianos, assim como os protestantes de outras denominações, “organizaram colégios de grande porte que ofereciam formação primária e secundária, extensiva a toda a população, ou seja, aqueles que pudessem pagar as suas mensalidades”. 21 Era uma educação voltada apenas para os 18 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 46. 19 LEONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. São Paulo: ASTE, 2002, p. 88. 20 Segundo esse princípio, o cristão não necessitaria de sacerdotes quando desejasse uma aproximação com Deus, cada pessoa seria sacerdote de si mesmo, teria liberdade para ler e interpretar os escritos bíblicos, muito diferente dos princípios católicos, que elegiam as autoridades eclesiásticas como mediadoras entre o fiel e a divindade. 21 SILVA, Elizete Op.Cit., 2010, p. 49. 27 filhos dos missionários ou dos grupos dominantes. Fundaram também, escolas anexas aos templos, Batistas e Presbiterianos, que possuíam entre a membrezia um número significativo de analfabetos, e estenderam o ensino para os filhos dos crentes de famílias humildes e aos adultos. Além do ensino oferecido nas residências dos missionários, como foi o caso do Rev. Chamberlain. 22 Os colégios foram, em certa medida, utilizados como mecanismos de divulgação das doutrinas evangélicas. Através dessas instituições educacionais os protestantes pleiteavam uma aproximação com os grupos dominantes, ao vincularem seus métodos de ensino a uma pedagogia que era apresentada como moderna. Interessados em difundir um protestantismo atrelado ao desenvolvimento e consequentemente, uma alfabetização advinda desse progresso, buscavam “demonstrar concretamente que os protestantes estavam contribuindo para solucionar, indiretamente, um problema sério que atingia a maioria da população brasileira, o analfabetismo”. 23 Estrategicamente, relacionavam suas atividades aos ideais de modernização e apresentavam os preceitos protestantes como superiores aos católicos e aos ligados às religiões de matriz africana. Em terras baianas, “mais precisamente em Salvador, o presbiterianismo só foi introduzido em 1871 com a chegada do missionário Francis Schneider. Este clérigo presbiteriano teve muita dificuldade, sobretudo por adentrar em um ambiente majoritariamente católico”. 24 Ante essa predominância do catolicismo os reformados encontraram um cenário ainda mais difícil para professar a doutrina protestante. Tiveram que atuar em uma “ambiência, extremamente eivada de tradições religiosas, responsáveis pela ligação indelével da cultura baiana ao catolicismo nas suas diversas feições – do ortodoxo ao popular – e às religiões afro-brasileiras”. 25 Além da resistência da Igreja Católica, precisavam agir contra as crenças tradicionais, enraizadas na cultura religiosa baiana. Não possuindo o mesmo fervor dos batistas na conquista de prosélitos, o trabalho evangelístico dos presbiterianos não alcançou o objetivo esperado e esta missão acabou por apresentar um fraco crescimento numérico. Entretanto, mesmo sofrendo dificuldades e perseguições, puderam fundar igrejas em outras cidades da Bahia, como 22 SILVA, Elizete da. Cidadãos de Outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. São Paulo: Tese de Doutorado, USP, 1998. 23 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 50. 24 BRITO, Charlene José de. Presença Protestante Progressista em Feira de Santana: um trabalho ecumênico de ação social. Feira de Santana: Trabalho de Conclusão de Curso, 2008, p.22. 25 TEIXEIRA, Marli Geralda. “... nós, os batistas...”: um estudo de história das mentalidades. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 1983, p. 14. 28 Cachoeira (1875), João Dourado (1905) e Canavieiras (1906), e somente mais tarde, a partir de 1950, em Feira de Santana. Estiveram bastante engajados na criação de colégios em Ponte Nova (1900) – o Instituto Ponte Nova –, e em Salvador (1927) – o Colégio 2 de Julho. 26 Em Ponte Nova, além da Igreja Presbiteriana, do Colégio, fundaram também um hospital, o Grace Memorial Hospital, que atendia a população da Chapada Diamantina. O Colégio Ponte Nova, que funcionava em regime de internato, atendia a população de Campo Formoso, Irecê, Ponte Nova, de áreas já evangelizadas pelos presbiterianos, além de discentes de outros Estados. Esse educandário seguia os princípios adotados por “todos os educandários de 2º grau da Missão”, com uma perspectiva de valorização do trabalho. 27 De acordo com Ester Nascimento (2012), “Educação e trabalho caminhavam juntos, pois eram vistos como produtos de um longo processo de preparação, e como uma vocação.” Os missionários buscavam reproduzir o cotidiano norte-americano nas escolas e nas casas dos protestantes através do controle do tempo e de uma rígida disciplina. 28 Os estudantes custeavam as suas despesas, trabalhando na Fazenda, na qual estava instalado o Instituto Educacional. Cabia também aos estudantes o preparo das refeições e as atividades de limpeza das instalações. O Grace Memorial Hospital atendia a esse mesmo público Na cidade de Feira de Santana, apesar de existir a presença dos presbiterianos desde o século XIX, eles só se estabeleceram enquanto congregação na segunda metade do século XX. O missionário George W. Chamberlain, em 1898, já desenvolvia trabalhos evangelísticos, “distribuía Bíblias e folhetos evangélicos e realizava cultos públicos”. Residindo na cidade de 1896 a 1899, sofreu perseguições e agressões na tentativa de propagar a fé protestante entre os feirenses, além de perder parte da sua família vitimada por um surto epidêmico. Finalizou suas atividades no município transferindo-se para Cachoeira, município no qual já havia atuado em décadas anteriores e desenvolvido um trabalho considerado entre os protestantes como bastante profícuo. 29 26 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 50. 27 ALMEIDA, Belamy Macêdo de. Ponte-Nova: construindo o futuro olhando no retrovisor. Gráfica Salobro, s.d, 24. Conferir também, Histórico de Wagner, sem editora, s.n, s,d, p. 2. 28 NASCIMENTO, Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do. Sergipanas na Escola Normal do Instituto Ponte Nova – Bahia. In: SOUSA, Ione Celeste Jesus de; CRUZ, Antonio Roberto Seixas da. Escolas Normais da Bahia: olhares e abordagens. Feira de Santana: UEFS Editora, 2012, p. 88. 29 ALMEIDA, Belamy Macêdo de. Ponte-Nova: construindo o futuro olhando no retrovisor. Gráfica Salobro, s.d, 24. Conferir também, Histórico de Wagner, sem editora, s.n, s,d, p. 166-167. 29 Até aquele momento os presbiterianos não possuíam um templo próprio em Feira de Santana. Os irmãos congregavam na Igreja Evangélica Unida, pastoreada pelo neozelandês Rev. Roderico Gilanders, que abrigava os evangélicos, por não existirem outras igrejas evangélicas na cidade. Assim permaneceram até 1947, quando resolverem juntos formar uma Congregação na qual as reuniões se realizavam na residência do irmão Simão Carvalho. Com a chegada de novas famílias, o grupo resolveu alugar uma casa na avenida Senhor dos Passos nº 94, onde a Congregação se reunia na sala grande da frente, ficando o restante da casa disponível para residência de um futuro obreiro. O número de membros foi sendo acrescido por novas famílias provenientes das cidades de Campo Formoso, Ponte Nova outrora Cachoeirinha, (depois Itacira, hoje Wagner), Piritiba, Monte Alegre (atual Mairi) e outras cidades do Estado. O Presbitério BahiaSergipe determinou então, a organização de uma Congregação Presbiteriana, trabalho que foi realizado pelo Rev. Eudaldo Silva Lima, então pastor da Igreja Presbiteriana da Bahia em Salvador e alguns presbíteros da sua igreja. A Congregação passou a ser visitada periodicamente pelo Rev. Eudaldo e pelo Rev. Abmael Lima, pastor da Igreja de Itabuna (BA). 30 Diante do crescimento da Congregação, em 1º de maio de 1950 decidiram organizar a Igreja Cristã Presbiteriana de Feira de Santana. Pastoreada pelo Rev. Ananias James de Oliveira, que intercalava o trabalho pastoral com o ensino de matemática no Colégio Santanópolis, do qual advinha o seu sustento. A igreja recebia novos fiéis que ao procurarem Feira de Santana para residir acabavam por reforçar o rebanho presbiteriano. A Igreja Presbiteriana foi pastoreada pelo Rev. Ananias por dois anos consecutivos, sendo substituído em 1952 pelo “Pastor Manoel Cavalcante – recém formado pelo presbitério de Recife. Era homem de temperamento um pouco difícil. Porém sua esposa Odete quebrava as arestas, visto que a mesma era muito amável”, relatou Edetina Cavalcante. A Igreja Presbiteriana permaneceu sob sua direção até 1954 e durante esse período foi transferida da Av. Senhor dos Passos para o bairro denominado Kalilândia 31 e já contava com um número considerável de membros. 32 Com o término das atividades do Rev. Cavalcante, a Igreja Presbiteriana de Feira de Santana passou quatro anos sem um pastor local, contando apenas com as visitas dos Reverendos Eudaldo Silva Lima e Sebastião Gomes. Em 1958, assumiu a 30 ALMEIDA, Belamy Macêdo de. Ponte-Nova: construindo o futuro olhando no retrovisor. Gráfica Salobro, s.d, 24. Conferir também, Histórico de Wagner, sem editora, s.n, s,d, p. 166-167. 31 A Kalilândia é um bairro de Feira de Santana localizado no centro da cidade, próximo a Avenida Getúlio Vargas. Ver mapa de Feira de Santana em anexo. 32 CAVALCANTE, Edetina Lima. “A semente que caiu na boa terra”. (memórias da inserção presbiteriana em Feira de Santana). Feira de Santana: s.n. s.d. 30 Igreja Presbiteriana de Feira de Santana, já reconhecida oficialmente como pessoa jurídica desde 17 de dezembro de 1956, o Rev. norte-americano, Dr. Rodger Wallace Perkins, responsável pela idealização da sede própria da instituição religiosa, quando estimulou e fez campanha para a aquisição de terrenos com esta finalidade. Nesse período os presbiterianos fundaram a Escola George Chamberlain, voltada para o ensino primário e contou com a direção da irmã Sylvia Martins Prado. O pastorado ficou sob os desígnios de outro missionário da mesma origem, o Rev. Ricardo Waddell, filho do Rev. Waddel e de Laura Chamberlain, filha do Rev. George Chamberlain, após a partida do Rev. Perkins, em 1963. 33 O Rev.Waddell permaneceu por dois anos dirigindo a Igreja Presbiteriana de Feira de Santana, e nesse ínterim foram inaugurados novos templos na região, um na Rua Nova, bairro do Calumbi, e outro em São Gonçalo dos Campos (BA), cidade limítrofe com Feira de Santana. Permaneceu até 1965 como líder religioso da comunidade feirense, até a chegada do Rev. Josué da Silva Mello e sua companheira, a Professora Tecla Dias de Oliveira Mello, os iniciadores do movimento ecumênico na Igreja Presbiteriana deste município. O protestantismo praticado até aquele momento era apenas proselitista, sem envolvimento com os problemas sociais que atingiam a população. A proposta do casal Mello, que recebeu formação ecumênica e progressista em décadas anteriores, como membros da Mocidade Presbiteriana, ia de encontro a essa forma de protestantismo, o que a levou a ser classificada como inovadora e o Rev. Mello considerado “um Pastor de mente aberta e sem preconceitos”. O seu pastorado “Foi um período abençoado por Deus”, conforme relatou em suas memórias a irmã Edetina Cavalcante. 34 A tranquilidade que marcou o início do pastorado do Rev. Mello, não pode ser percebida nos anos subsequentes. As divergências entre os defensores de um Cristianismo mais engajado e àqueles que não viam com bons olhos o envolvimento de cristãos na política, nos problemas sociais e nos movimentos populares foram substanciais na quebra dos vínculos com a IPB, no final da década de 1970 e prejudicaram não apenas os trabalhos do Rev. Mello, mas se estenderam nos pastorados dos Reverendos Nilton Moacir Nunes Loula e João Dias de Araújo. Com a dissolução do Sínodo Bahia/Sergipe e do Presbitério de Salvador (PSVD), a Igreja Presbiteriana de 33 SILVA, Joel Ferreira. Breve Histórico da Primeira Igreja Presbiteriana de Feira de Santana. Feira de Santana, 2002, p. 05. 34 CAVALCANTE, Op. Cit., s.n. 31 Feira de Santana se tornou independente, e entre os anos de 1974 e 1978, manteve-se desvinculada de qualquer instituição superior. Na década de 1980 passou a compor a IPU. Protestantes Ecumênicos em Feira de Santana No momento em que os presbiterianos estavam conquistando espaços em solo feirense, chegava ao País Richard Shaull, um missionário de origem norte-americana e com ideias inovadoras sobre as formas de ser igreja. Esse teólogo já havia passado pela Colômbia e experimentado o “confronto com a esmagadora realidade da pobreza e do sofrimento”, 35 que durante aquele período alcançava a maioria dos países da América Latina. Encontrou nos Seminários de Campinas (SP) e de Vitória (ES), jovens presbiterianos como Josué da Silva Mello, Celso Loula Dourado, Rubem Alves, entre outros, os quais já questionavam a forma como as Escrituras Sagradas eram interpretadas e a verdadeira atuação cristã no mundo. A partir do contato com Shaull, esses estudantes intensificaram as críticas à sociedade que os circundava e à postura da Igreja Presbiteriana à luz das novas concepções teológicas. O pensamento desses estudantes coadunava com o que era defendido pelo missionário norte-americano, Richard Shaull. Richard Shaull, profundamente influenciado pela neo-ortodoxia de Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer, teólogos e especialistas da Bíblia, ou ainda professores como Josef Hromadka e John A. Mackay 36 – presidente do Seminário no qual foi estudante –, começou a questionar o papel da Igreja e do cristão no mundo, criticando, sobretudo a procrastinação dos problemas deste mundo para outro plano, além vida terrena. Através de Hromadka, Shaull compreendeu a “necessidade de entender o marxismo e seu papel no mundo revolucionário” e teve contato com “vários pensadores russos” e com a “ortodoxia oriental” 37. O contexto mundial em que essas mudanças se apresentaram também foi bastante propício. No decorrer do século XX duas guerras mundiais aconteceram desestabilizando os países detentores do poder e nesse ínterim, novas potências 35 SHAULL, Richard. Surpreendido pela graça: memórias de um teólogo – Estados Unidos, América Latina, Brasil. Rio de Janeiro, Record, 2003, p.38. 36 Ver BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão. São Leopoldo: Sinodal; EST; 2003. BARTH, Karl. Carta aos Romanos. São Paulo: Fonte Editorial, 2005; ALVES, Rubem. Religião e Repressão. São Paulo: Edições Loyola, 2004. 37 SHAULL, Richard. Op. Cit., p.30. 32 emergiram – Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Revoluções como a chinesa e a cubana, movimentos como o Maio de 68 francês, ou a instauração de governos ditatoriais na América Latina, tiveram forte repercussão, sobretudo nos países subdesenvolvidos, e o temor do bloco capitalista da possibilidade do comunismo se alastrar pelo mundo. Enquanto vários países disputavam o domínio da economia mundial, parte significativa da população, em particular dos países empobrecidos, estava submetida a todo tipo de miséria e exploração. Não existiam políticas públicas direcionadas a esses setores que se encontravam à margem da sociedade. Richard Shaull ao se referir a esse período, destacou que vivemos à beira de um vulcão, que já começou a sua erupção. A “libertação” comunista da China, a revolta dos Mau Mau no Kenya, a agitação permanente em que vivem o Sudoeste da Ásia e a América do Sul, estes nada mais são do que línguas de um fogo revolucionário que arde nas profundidades do vulcão, que ameaça explodir e nos engolir 38. Além de denunciar a exploração por parte dos países desenvolvidos e apontá-la como responsável pelas desigualdades sociais que assolavam algumas áreas do mundo, essas insurreições representaram a possibilidade de se lutar contra o sistema vigente e ao mesmo tempo, significaram uma tomada de consciência da população desassistida. O período não era de calmaria. A desconfiança nos governantes, a descrença nas religiões que já sentia o abalo em suas estruturas, eram apenas alguns dos pontos em voga à época. Diante dessa nova conjuntura mundial, de “revolução, que é global, e que é, na realidade, a primeira e verdadeira revolução mundial na história”, muitos jovens encontraram sua bandeira de luta. A instabilidade era latente, e pela “primeira vez (...), em todos os lugares e em todas as instituições, simultaneamente, se faz sentir inadequação e inadaptação”, 39 e era a primeira vez também que os missionários protestantes no País questionaram, de forma sistemática, a atuação e objetivos das missões. No Brasil, a partir da década de 1960, o cenário era bastante conturbado. Um clima geral de insatisfação pairava na sociedade brasileira. Divergências entre os grupos que apoiavam o Regime Militar e seus opositores, dentro da IPB as tensões também 38 SHAULL, Richard. De dentro do Furacão: Richard Shaull e os primórdios da Teologia da Libertação. São Paulo: Sagarana 1985, p.53-54. 39 Idem., p.54. 33 eram perceptíveis. Os que pensavam diferente dos militares ou mesmo dos líderes da IPB, foram denominados progressistas, no sentido de possuírem um comprometimento com a realidade e os problemas sociais. Esses protestantes progressistas “seria[m] aquele[s] com uma visão aberta, não necessariamente modernista em termos teológicos, que admite[m] novas ideias e novas perspectivas na interpretação das doutrinas e nas práticas religiosas”. Além de uma olhar mais crítico, havia entre eles “um engajamento na sociedade circundante”. 40 Foi esse grupo que ousou ir além e divergir do que a IPB pensava, principalmente quando a mesma se mostrou oficialmente partidária dos ideais políticos dos militares golpistas. Os setores progressistas, de acordo com Muniz Ferreira (2010), “se deparavam com a necessidade de animar novas ou redivivas experiências de organização e movimentação na defesa de seus interesses materiais, algumas vezes sequer percebidos conscientemente até então”. Contrários a essa linha de atuação, aos conservadores, ainda segundo o autor, cabia reforçar a condição de desmobilização, atraso político e déficit de consciência social junto aos contingentes amplamente majoritários das classes populares do país; mais do que isso, se esforçavam por unificar aos atores mais significativos das classes dirigentes urbanas e rurais, das elites políticas e das cúpulas militares. 41 Os embates entre conservadores e progressistas, também foram percebidos entre os batistas baianos. Congregações como a Igreja Batista Dois de Julho, a Igreja Batista do Sião e a Igreja Evangélica de Feira de Santana, após dissensões entre irmãos foram divididas. De acordo com Luciane Almeida (2011), “Estes eventos, apesar de seguirem trajetórias distintas estiveram diretamente ligados e influenciados pela atmosfera fortemente conservadora que virou a tônica da Denominação Batista Baiana”. Batistas, expulsos de suas igrejas de origem, se viram obrigados a se associarem em outros grupos religiosos ou fundarem novas instituições. 42 As dissensões entre esses segmentos presbiterianos levaram a perseguição e expulsão dos progressistas da IPB. A vertente progressista foi reprimida de maneira 40 SILVA, Op. Cit., 2010, p. 35. FERREIRA, Muniz. Insurgência, conciliação e resistência na trajetória do protestantismo ecumênico brasileiro. In: DIAS, COELHO NETO & LEITE (Orgs.). História, Cultura e Poder. Feira de Santana, UEFS Editora; Salvador: EDUFBA, 2010, p.83-84. 42 ALMEIDA, Luciane Silva de. O Comunismo é o Ópio do Povo: Representações dos Batistas sobre o Comunismo, o Ecumenismo e o Governo Militar na Bahia (1963-1975). Feira de Santana: Dissertação de Mestrado, UEFS: 2011, p. 160. 41 34 enérgica pela ala mais conservadora, os espaços eclesiásticos foram cada vez mais cerceados. Tanto na perspectiva dos irmãos da IPB, quanto junto aos militares, os presbiterianos ecumênicos eram tidos como comunistas, marxistas e subversivos. Esses presbiterianos “não concordaram com a posição da IPB e dos vinte e tantos anos de Ditadura Militar – 64 a 85”. Vários pastores, “entre eles o Reverendo Josué Mello, o Reverendo Celso Dourado e eu [Reverendo João Dias de Araújo] estávamos entre os três mais perigosos daquela época”, relatou o Rev. Araújo, 43 e por isso foram vigiados tão de perto, compareceram diante dos militares, tiveram os familiares ameaçados. O Rev. João Dias de Araújo, juntamente com sua família, quando ainda residia em Recife, ele atuando como professor de Teologia e Deão do Seminário Presbiteriano do Norte (SPN) e a professora Ithamar Bueno de Araújo, sua esposa, exercendo a função de bibliotecária sofreram represálias por parte da hierarquia da IPB e dos militares. A professora Ithamar Bueno de Araújo relatou a intimidação a que foram submetidos, logo após o Golpe de 1964, e como tiveram que se precaver contra as investidas do grupo conservador presbiteriano Foi durante o Golpe Militar. Aí veio o bombardeio em cima de nós, de tudo quanto foi gente. Sofremos, viu!? A família toda. Porque João [Dias de Araújo] foi o mais perseguido, a ponto dos missionários, amigos nossos americanos, oferecerem um avião pra nós fugirmos para o estrangeiro. Mas ele falou assim: - pra que, eu não devo nada? Não foi nada do que estão dizendo aí. Se eu fugir, eu estou comprovando que eu sou, mas eu vou ficar aqui. Não foi. Fomos para uma praia. Eu deixei as crianças com um casal, com um rapaz, um seminarista amigo nosso e a esposa dele ia pra nossa casa. Ficou uma empregada tomando conta das outras coisas e esses amigos tomaram conta das crianças. Eu fiquei uma semana nessa praia com João, em Recife. Quando nós fomos, eu era bibliotecária e João professor. 44 Após esse incidente, no final dos anos de 1970, ambos foram demitidos de seus cargos no Seminário Presbiteriano em Recife. Inicialmente, o Rev. João Dias de Araújo perdeu a cátedra no SPN e logo em seguida a Professora Ithamar Bueno recebeu o aviso de que não mais poderia trabalhar na biblioteca do Seminário Presbiteriano. Proibido pela direção nacional da IPB de ministrar aulas, o Reverendo Araújo foi avisado de que 43 Entrevista com o Reverendo João Dias de Araújo, concedida a autora em 07 de maio de 2007, em Feira de Santana/Ba. 44 Entrevista com a professora Ithamar Bueno de Araújo, concedida à autora em 07 de maio de 2007, em Feira de Santana/Ba. 35 também precisaria sair da residência na qual vivia com a família, pois a mesma era “de propriedade do Seminário, que era da IPB, portanto pertencia a Igreja Nacional”. A expulsão se daria sem que fossem exercidos os trâmites legais. Inconformado com tamanha tirania “eu disse que eu só sairia da casa quando cumprissem a justiça, que a justiça era clara tanto na lei trabalhista, quanto na lei do inquilinato”, relatou Araújo. 45 Diante das perseguições os dissidentes da IPB acabaram se organizando em torno de uma nova instituição religiosa, a Igreja Presbiteriana Unida (IPU), atuante nas questões sociais e aberta à cooperação interdenominacional e ecumênica. Foi no seio da IPU que os presbiterianos, membros da Igreja Presbiteriana de Feira de Santana (BA), encontraram apoio após os quatro primeiros anos em que permaneceram desvinculados de IPB e de outras instituições superiores, de 1974 a 1978. Ainda enquanto Federação Nacional de Igrejas Presbiterianas (FENIP), a instituição que veio a ser a IPU em meados de 1983, se transformou no berço das comunidades que se aproximaram do movimento ecumênico. A FENIP, fundada em 10 de setembro de 1978, logo após um encontro realizado em Atibaia (SP), no qual estiveram presentes de pastores e lideranças perseguidos pelos irmãos da IPB, foi determinante no rompimento do conflito que fora instaurado no seio dessa Igreja em anos anteriores. De um lado os jovens que ansiavam por transformações, que aspiravam um maior engajamento cristão, uma Igreja mais sensível aos problemas dos menos favorecidos. No outro extremo, àqueles que percebiam essas mudanças como ultrajantes a fé cristã. No Manifesto de Atibaia, fruto da reunião, os pilares de uma Igreja Reformada, sempre se reformando, mais aberta, solidária, democrática, ecumênica, que valorizava o sacerdócio universal dos cristãos, foram erigidos. 46 As divergências entre presbiterianos ecumênicos e os setores conservadores da IPB, se tornaram gritantes nos anos de 1970. Após tentativas fracassadas de convivência pacífica, não havia mais possibilidade de congregarem na mesma instituição. A alta cúpula da IPB utilizava de todos os meios cabíveis para abafar o movimento dos jovens presbiterianos em favor da união cristã. Nas eleições para os concílios não eram incomuns a realização de conciliábulos com intento de arregimentar votos, presbitérios e sínodos foram divididos com o mesmo propósito. O jornal oficial 45 Entrevista com o Reverendo João Dias de Araújo, concedida a autora em 07 de maio de 2007, em Feira de Santana/Ba.. 46 ACERVO DO REV. JOÃO DIAS DE ARAÚJO. IPU (Histórico). s.d. 36 da instituição, Brasil Presbiteriano, passou a proferir apenas as ideias dos segmentos dominantes, pastores e membros da IPB, eram acusados e perseguidos, até mesmo o Instituto Mackenzie não saiu incólume desse processo. Os mais altos cargos administrativos foram ocupados pela ala conservadora, que excluiu de imediato os irmãos ecumênicos. 47 Esse posicionamento da hierarquia da IPB só ratificava a impossibilidade de convivência fraterna. Ante uma situação que se percebia “insolúvel, nada mais poderíamos fazer. Nem protestos, nem recursos encontram encaminhamentos para solução pacífica”, restando apenas a separação. Desse rompimento surgiu a FENIP, com sede e foro em Vitória (ES), federação a qual a Igreja Presbiteriana de Feira de Santana se uniu. A partir da mudança de nomenclatura, em 08 de julho de 1983, a FENIP passou a ser reconhecida como Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, associada à Aliança Mundial de Igrejas Reformadas e a Igreja Presbiteriana de Feira de Santana foi denominada Igreja Presbiteriana Unida de Feira de Santana, integrada ao PSVD. 48 Institucionalmente, era evidente a impossibilidade de convergência dos presbiterianos ecumênicos e dos conservadores no interior de uma mesma denominação. As atividades do setor ecumênico, embora questionadas e em alguns momentos reprimidas, não cessaram durante os anos de perseguição. Em Feira de Santana, por exemplo, as ações do Rev. Josué da Silva Mello após assumir o pastorado, destoavam do que era apregoado pela IPB. O Reverendo Mello, mesmo divulgando as doutrinas protestantes e inaugurando templos, a realização de um casamento ecumênico não passou despercebida. Foi uma afronta à instituição religiosa e algo impensado entre os fiéis da Igreja Presbiteriana. A chegada do Rev. Josué da Silva Mello e da professora Tecla Dias de Oliveira Mello foi um marco do movimento ecumênico em Feira de Santana. Ele, um jovem recém-ordenado, líder nacional da União de Mocidade Presbiteriana, tendo vivido intensamente toda a movimentação eclesial e teológica da década de 1950 e início dos anos 1960. Natural de Sergipe, mas concluiu a formação colegial no Colégio 2 de Julho, em Salvador, tradicional instituição presbiteriana. Sua esposa, [Tecla Dias de Oliveira Mello] 47 48 ACERVO DO REV. JOÃO DIAS DE ARAÚJO. IPU (Manifesto de Atibaia). s.d. ACERVO DO REV. JOÃO DIAS DE ARAÚJO. IPU (Manifesto de Atibaia). s.d. 37 (...) também participou da mocidade presbiteriana e completou a sua formação superior no Instituto Metodista, em São Paulo. 49 O casal, de forma sistemática, implementou práticas ecumênicas uma visão teológica mais próxima das ações sociais na Igreja Presbiteriana de Feira de Santana. Havia, antes da nomeação do Rev. Josué da Silva Mello, o interesse da irmã Edetina Cavalcante, face ao crescimento da mendicância no município, em desenvolver atividades voltadas para a resolução do problema. Entretanto, esses trabalhos não passavam de campanhas de auxílio ao mendigo e de distribuição de alimentos pela paz, postos em ação com a ajuda das irmãs da Sociedade Auxiliadora Feminina (SAF). 50 Essa distribuição de alimentos se tornou comum a partir da implantação do programa norte-americano, Aliança para o Progresso, nos anos de 1960, idealizado durante a gestão do Presidente John F. Kennedy e apoiado por igrejas evangélicas. De acordo com Muniz Ferreira (2010), essa aliança tratava de um “programa de ação adotado pelo governo dos Estados Unidos da América (...), com o objetivo de fortalecer os laços com os governos latino-americanos”. Gestado durante a Guerra Fria “ambicionava uma ‘revolução pacífica na região’, promovendo o desenvolvimento econômico, a justiça social e a democracia política, evitando assim uma ‘revolução violenta’”. Com práticas clientelistas e assistenciais, o projeto perdeu força em meados de 1963, após o falecimento do Presidente Kennedy. 51 O programa foi, em certa medida, mais uma estratégia ianque para demarcar território e evitar a introdução do monstro vermelho comunista em áreas subdesenvolvidas e uma tentativa de fortalecimento de regimes ditatoriais no continente americano. Até a segunda metade da década de 1960, em Feira de Santana, os benefícios recebidos pelos mendigos foram apenas a distribuição de alimentos por parte das instituições religiosas, ou uma espécie de auxílio-passagem, doado pela Prefeitura do município, com intuito de encaminhar o mendigo ou o migrante para a cidade mais próxima. Ações concretas, direcionadas para a retirada das pessoas das ruas, capacitação e encaminhamento ao mercado de trabalho, só foram testadas a partir da criação da AFAS em 1967, quando a Igreja foi pastoreada pelo Rev. Josué da Silva Mello. 49 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 170. 50 CAVALCANTE, Edetina Lima. Vidas Consagradas: Sociedade Feminina Presbiteriana (1947-1997). Feira de Santana: 1997, p. 21. 51 FERREIRA, Muniz Gonçalves. Insurgência, conciliação e resistência na trajetória do protestantismo ecumênico brasileiro. In: DIAS, COELHO NETO & LEITE (Orgs.). História, Cultura e Poder. Feira de Santana, UEFS Editora; Salvador: EDUFBA, 2010, p. 88. 38 O Rev. Josué da Silva Mello liderou o rebanho da Igreja Presbiteriana de Feira de Santana por dez anos consecutivos e nesse ínterim, além do tratamento dispensado aos mendigos com a fundação da AFAS, os presbiterianos que apoiaram sua iniciativa também desenvolveram atividades com migrantes através do SIM, entidade criada no início dos anos de 1970 e financiada por órgãos internacionais ecumênicos. De 1975 a 1981 a Igreja ficou sob os cuidados do Rev. Nilton Moacir Nunes Loula, considerado um pastor de mente aberta. O Rev. Loula recebeu uma Igreja já desligada de outras instituições superiores e presenciou sua aproximação com a FENIP. Muito criticado por sua forma de agir, pela aproximação com pessoas fora do âmbito religioso, “Conquistou muitos jovens, fazendo uma mocidade forte e inteligente durante cinco anos de seu pastorado”. 52 Com a saída do Rev. Loula, a Igreja Presbiteriana de Feira de Santana continuou até 1984 contando apenas com visitas esporádicas de pastores indicados pelo PSVD. Em agosto desse mesmo ano o Rev. João Dias de Araújo assumiu o rebanho feirense, permanecendo como pastor até 1991. Engajado no movimento ecumênico, com uma vasta experiência de pastorado, principalmente na cidade de Ponte Nova (atualmente Wagner), localizada na Chapada Diamantina, esteve durante os primeiros anos da década de 1980 atuando no SIM e na CEDITER, essa última entidade foi um dos idealizadores, também foi diretor e professor do Colégio Presbiteriano de Ponte Nova, fundado no início do século passado por missionários norteamericanos. Não só compositor Reverendo Araújo, escreveu vários textos teológicos, artigos e um livro memória [atualmente possui novas obras publicadas] intitulado Inquisição sem Fogueiras, narrando os problemas da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), nas décadas de 1950 a 1980, que se tornou uma fonte inestimável para os historiadores futuros. (...) Estudou no Seminário Presbiteriano de Princeton, onde fez pós-graduação, sob a orientação de Richard Shaull. 53 Como era de se esperar de um pastor ecumênico, não estava na ordem do dia do Rev. João Dias de Araújo a conquista de prosélitos para o rebanho da Igreja Presbiteriana Unida de Feira de Santana. Enquanto muitos membros imaginaram que com o trabalho de um “Pastor de cultura internacional. (...) o crescimento [da igreja] 52 CAVALCANTE, Edetina Lima. Vidas Consagradas: Sociedade Feminina Presbiteriana (1947-1997). Feira de Santana: 1997, p. 21. 53 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 195-196. 39 seria inevitável. Ledo engano. Junto com ele veio o ecumenismo e o povo não aceitou. Por mais estudos que houve sobre o assunto, não se obteve êxito”. Nos anos subsequentes não foi possível assistir a esse aumento de irmãos e a Igreja começou a perder fiéis, alguns deles acabaram retornando para IPB. 54 O ecumenismo praticado por esses cristãos tinha limites. Eram muitos os impasses que não permitiam um maior florescimento do movimento ecumênico. Em alguns depoimentos dos envolvidos, conforme apresentou Silva (2010), é possível perceber as barreiras ao diálogo inter-religioso. Ao entrevistar o Rev. Celso Loula Dourado, por exemplo, este, apesar de mencionar a necessidade do respeito, se mostrou bastante arredio às religiões de matriz africana, classificando-as como primitivas. O mesmo pode ser notado na fala de uma das irmãs de fé, D. Sílvia Prado, que via com bons olhos a aproximação com os católicos, no entanto, não conseguia compreender o porquê da adoração de ídolos pelo catolicismo. As críticas ao número reduzido de fiéis eram constantes e representaram um empecilho na continuidade da IPU. Não era comum para os membros, sobretudo os mais velhos, uma comunidade que não apresentava crescimento quantitativo. 55 Os trabalhos ecumênicos, embora criticados na IPU, ganharam outra tônica na AFAS, SIM e CEDITER. O Rev. João Dias de Araújo, enquanto líder religioso, dividia o seu tempo com as atividades da CEDITER. Não realizava um trabalho apenas pastoral, assumia sua formação na área jurídica para prestar assessoria aos que estavam envolvidos em conflitos com grandes latifundiários na Bahia. Eram nas entidades que as aproximações entre cristãos se mostravam mais intrínsecas. Afora as atividades sociais no interior dessas instituições, o ecumenismo se mostrava bastante limitado resumindo-se a casamentos com a presença de pastores e padres realizando as cerimônias. Albertino Carneiro, ex-padre, um dos idealizadores do MOC e organicamente ligado a AFAS e ao SIM, inclusive desempenhou a função de diretor em ambos os projetos, em entrevista concedida a Elizete da Silva, ao analisar o impacto do movimento ecumênico em Feira de Santana ratificou a nossa afirmação e acrescentou a sua insatisfação com os rumos e interpretações que o ecumenismo tomou. 54 CAVALCANTE, Edetina Lima. A semente que caiu na terra boa (memória da inserção presbiteriana em Feira de Santana). s.n. s.d. 55 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 205-208. 40 Na década de 60, a gente tinha uma tese de que o ecumenismo devia começar pelo ecumenismo temporal e não religioso, seria uma relação interconfessional, mas com uma prática social, essa prática social precedia a reflexão teológica e nesse sentido, nesse período houve... não sei se chamaria bons, mas houve alguns traços desses, por exemplo, a fundação do MOC, a fundação da AFAS, a fundação do SIM, que foram estatutariamente numa linha ecumênica, agora a relação religiosa não aconteceu muito... agora uma coisa que eu não engulo é transformar o ecumenismo num ato burocrático de formatura, quase toda formatura teve um ato ecumênico... às vezes é um desfile de moda, é um ato vazio, eu não gosto. 56 Embora tais traços de uma relação inter-religiosa sejam notados nas instituições, não podemos afirmar que estes se aproximassem da práxis ecumênica defendida pelos jovens entusiastas das décadas de 1950 e 1960, estudantes preocupados com a transformação da realidade brasileira, protestantes ou não. De certa forma, os limites que citamos anteriormente, podem ter facilitado o não desenvolvimento dessa maneira de ser cristão ou impedido o fortalecimento de laços entre igrejas e denominações, bem como contribuído para o distanciamento entre os trabalhos sociais e o fazer teológico. A rigor, os ecumênicos conseguiam apoio de membros de igrejas e denominações que não tinham quaisquer ligações com o ecumenismo, a exemplo os batistas, quando se tratava de realizar trabalhos sociais, mas não podiam esperar uma relação além dessas atividades, devido à fidelidade que estes tinham às doutrinas específicas, mesmo entre aqueles que abraçaram o movimento ecumênico. Durante os vinte e dois anos que compreende o recorte cronológico deste trabalho, os presbiterianos, ainda que almejassem viver o verdadeiro ecumenismo, ou ecumenismo de base, que conjugava as questões teológico-doutrinárias com o envolvimento nos problemas que circundavam a sociedade, sejam eles sociais ou políticos, o mais próximo que conseguiram chegar desse projeto foi através da execução de atividades direcionadas aos mendigos, migrantes, sem-terra e pequenos proprietários, na AFAS, SIM e CEDITER. Tratava-se de tentar modificar a realidade da população que não era beneficiada pelas transformações que ocorriam no município, advindas, sobretudo, da industrialização e urbanização, através de projetos de intervenção social. Projetos Sociais em um contexto de transformação da realidade feirense 56 Entrevista com Antônio Albertino Carneiro, concedida a Elizete da Silva, 25 de fevereiro de 2007, em Feira de Santana/Ba. Apud SILVA, Op. Cit., 2010, p. 212. 41 Em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, distante de Salvador aproximadamente 109 km, esses presbiterianos ecumênicos começaram suas atividades sociais no final dos anos de 1960, através da idealização da AFAS, que agia diretamente na retirada dos mendigos das ruas para sua posterior inserção no mercado de trabalho. Em 1965, quando o Rev. Josué da Silva Mello e sua esposa, a professora Tecla Dias de Oliveira Mello, chegaram a este município, se depararam com um cenário marcado pela mendicância. Apesar de já existir por parte de presbiterianos, como a irmã Edetina Cavalcante, a preocupação em realizar um trabalho em prol dos mendigos, não havia sido feito, até aquele momento, nada de mais efetivo, além de campanhas de arrecadação de alimentos e agasalhos, ações tipicamente assistencialistas. Não obstante os esforços desses irmãos que buscavam fazer algo para modificar o quadro social feirense, as tentativas não passaram de paliativos, visto que o problema permanecia. Enquanto as autoridades locais estavam investindo em um projeto voltado para a urbanização e industrialização, não consideraram as demandas da maioria da população que vivia em bairros periféricos e sem estrutura, ou mesmo, não empenharam esforços para diminuir a quantidade de mendigos que tinham as ruas como residência. A Prefeitura de Feira de Santana, em anos posteriores, logo após a fundação da AFAS, criou um departamento encarregado de receber os migrantes que passavam pelo município, o próprio Rev. Josué da Silva Mello, foi por um tempo o Diretor Social, que foi o período que criamos aqui [o SIM]. O governo de João Durval teve essa importância, primeiro a desenvolver o Plano de Desenvolvimento Local e Integrado, foi o primeiro governo a desenvolver, a se preocupar com o planejamento integrado do município. Desse planejamento nasceu a UEFS, estava nascendo a universidade, desse planejamento nasceu o CIS, o Centro Industrial do Subaé. (...) Nisso o prefeito João Durval, levando em consideração o serviço que eu estava fazendo na AFAS, me convidou para exercer o cargo de diretor social. Existia a Secretaria de Saúde, na Secretaria de Saúde tinha o secretário e dois diretores. Um Diretor de Saúde e um Diretor Social. O Secretário de Saúde na época era Ângelo Mário de Carvalho Silva e o Diretor de Saúde era Érico Renato da Silva e eu, o Diretor Social. E como Diretor Social o que eu tinha que fazer era pegar esses migrantes, cadastrá-los, ouvi-los e dar uma passagem para ir ao município mais próximo. 57 Todavia, o intento da Prefeitura não era desenvolver trabalhos com os migrantes, era evitar que esses engrossassem as fileiras da mendicância e contribuíssem para 57 Entrevista com o Reverendo Josué da Silva Mello, concedida a autora em 22 de dezembro de 2007, em Feira de Santana/Ba. 42 intensificar ainda mais o problema de Feira de Santana, o que tornava mais fácil encaminhar o migrante para a cidade seguinte. Em solo feirense a primeira tentativa do grupo ecumênico foi pôr em prática o que havia apreendido durante os anos de Seminário em Campinas e/ou Vitória. Nos projetos, tanto do SIM, quanto da AFAS, contaram com o apoio de católicos, espíritas, profissionais liberais, o poder público municipal, alguns comerciantes, entre outros. O objetivo era, a partir de uma teologia mais contextualizada, de uma aproximação com outros grupos, religiosos ou não, realizar atividades capazes de melhorar a situação da população que vivia da mendicância. A proposta para a criação da AFAS que foi entregue ao prefeito João Durval Carneiro previa a capacitação dos mendigos por um tempo determinado sem abrigá-lo na instituição, até porque o interesse não era criar um albergue para acomodá-los e sim capacitá-los para um possível retorno ao mercado de trabalho. A tônica que movia as atividades na instituição era o trabalho, “o mendigo vai ser recuperado através do trabalho. Nós precisamos convencê-lo de que ele é gente, ele tem potencialidades. Ele vai poder defender a vida dele através do trabalho (grifos nossos).” Trabalhariam com o mendigo e em muitos casos com sua família, sem retirá-lo do seu habitat. Apresentariam a essa população a importância de uma profissão, o valor do trabalho, a necessidade da capacitação para modificar a forma de vida que até então estavam levando, era se tornar gente. Essa centralidade do trabalho pode ser percebida tanto na AFAS, quanto no SIM, o que veremos mais adiante, como mola propulsora do processo de capacitação nas entidades. 58 A princípio a AFAS funcionou na Rua Senador Quintino em Feira de Santana, uma sede disponibilizada pela Prefeitura que colaborou com a aquisição de uma Kombi e com a parte financeira. “A primeira parceria foi com a prefeitura, depois a segunda, com esse trabalho da AFAS, foi com o comércio”. Nos anos subsequentes, a AFAS ampliou sua atuação, incluindo entre os assistidos, além dos mendigos, muitos migrantes. Enquanto que a atuação do SIM esteve mais ligada aos retirantes e suas famílias, bem como a população que residia nos bairros próximos ao Centro de Capacitação. 59 58 Entrevista com o Reverendo Josué da Silva Mello, concedida à autora em 22 de dezembro de 2007, em Feira de Santana/Ba. 59 Idem. 43 A AFAS recebeu os migrantes após os anos de 1968, no entanto, a instituição não tinha apoio financeiro suficiente para lidar com o problema migratório. Nesse mesmo período, como já foi exposto, membros da entidade perceberam “que o grande problema social de Feira, o fenômeno da mendicância, era ocasionado, sobretudo, pela migração”. 60 O contexto em que as atividades dos projetos sociais começaram a ser desenvolvidas foi marcado por profundas transformações. Desde os primeiros anos do século XX, com maior intensidade na segunda metade do período, os ideais de progresso, industrialização e modernização passaram a fazer parte das discussões das autoridades governamentais brasileiras em níveis nacional, regional e local. O período de auge do milagre econômico brasileiro, entre 1970-1973, propiciou ao País um maior crescimento, especialmente no setor industrial de transformação centralizado na região Sudeste. No entanto, a partir desse ‘dinamismo’ apresentado no limiar dos anos de 1970, novos projetos foram idealizados para o Brasil, pensados de forma que estes trouxessem crescimento acelerado a partir da desconcentração econômica e integração produtiva do Nordeste. 61 Foi nessa conjuntura que Feira de Santana antecipou a entrada no circuito industrializante com a elaboração do Plano de Desenvolvimento Local e Integrado (PDLI) – um projeto inovador para a cidade. Nos objetivos havia o anseio de incluir Feira de Santana no circuito nacional de desenvolvimento industrial. Criado na gestão de João Durval Carneiro em fins de 1960, este plano, antecipou a entrada do município no mundo da industrialização moderna – 62 , que posteriormente impulsionou a criação do CIS. O governo local pode contar com isenções fiscais e “apoio do governo federal para instalação de infra-estrutura necessária para o desenvolvimento urbanístico de Feira”, investimentos estes, utilizados na “montagem de secretarias específicas para o controle das ações do centro da cidade, financiamentos e equipamentos (...), organização do sistema viário, iluminação elétrica e abastecimento de água”.63 Com esse financiamento, o município deu seus primeiros passos rumo à industrialização e através das “linhas de crédito, subsídios e facilidades oferecidos pelos organismos 60 Entrevista com o Reverendo Josué da Silva Mello, concedida à autora em 22 de dezembro de 2007, em Feira de Santana/Ba. 61 CRUZ, Rossine Cerqueira da. A Inserção de Feira de Santana nos Processos de Integração Produtiva e de Desconcentração Econômica Nacional. Campinas: Tese de Doutorado, UNICAMP, 1999, p. 99. 62 Ver PDLI, p.11. 63 PACHECO, Larissa Penelu Bittencourt. A feira e a nova Feira: tradição, costume e conflito em Feira de Santana – Ba (1967-1977). Feira de Santana: Monografia de Especialização, UEFS, 2008, p.10. 44 estaduais e municipais”, grupos de industriais – “nacionais e internacionais” – se estabeleceram no CIS, contribuindo dessa forma para acelerar o crescimento populacional da cidade. A antecipação na criação do PDLI, a construção do CIS, a retirada dos feirantes do centro da cidade e posterior instalação no Centro de Abastecimento, criado também nesse período, são apenas alguns dos acontecimentos que eram noticiados constantemente no Jornal Feira Hoje, e que demonstravam os caminhos do progresso trilhados por Feira de Santana, ao menos era o que os grupos dominantes e o poder público local acreditavam ou queriam que a população acreditasse. Em uma reportagem do referido jornal, intitulada Feira, um pólo de desenvolvimento, de maio de 1972, o periódico destacava o passado grandioso da cidade enquanto centro comercial e apontava a vocação para o desenvolvimento, evidenciada na sua localização privilegiada, na “disponibilidade de fatôres infra-estruturais”, aliados “às suas condições de expansão”. Essa vocação defendida pelo periódico era utilizada como meio de apresentar uma cidade que há muito havia abandonado o passado pastoril para dar espaço ao comércio e que à época possuía um destino já traçado, teria “forçosamente, que seguir o caminho da industrialização” 64 . Não havia qualquer preocupação no impacto que tais transformações poderiam acarretar, principalmente na vida da população mais carente. No jornal Feira Hoje, foram muitas as matérias que previam o futuro de Feira de Santana como grandioso, ou que a classificavam como um pólo de desenvolvimento. Esse tipo de pensamento perdurou por toda a década e prosseguiu nos anos de 1980, não apenas nesse periódico, como também fez parte da mentalidade de religiosos, a exemplo do Rev. Josué da Silva Mello, que em palestra proferida na Câmara de Vereadores, em junho de 1984 e publicada no mesmo ano pela Revista Sitientibus da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), fez o mesmo prognóstico e percebia a vocação de Feira de Santana em se tornar um dos maiores pólos de desenvolvimento. Eis um trecho do discurso: Os dados da realidade me induzem a ver o futuro da Feira não como preocupante, mas como um desafio. Um grande desafio para os que vivendo hoje, plantem e prevejam para o amanhã, com fé, amplitude de visão, com perspectiva, na dimensão própria que vem da força da terra, da tenacidade do seu povo, da determinada vocação dessa 64 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE, Feira, um pólo de desenvolvimento. Feira de Santana: Maio de 1972, 92, p.01. 45 comunidade de ser um dos maiores pólos de desenvolvimento e de convivência fraterna e ecumênica da Bahia e do Nordeste (grifos nossos). 65 O anseio dos grupos dominantes, conjugado com o interesse do poder público em dar a cidade ares de progresso não foram suficientes para livrá-la dos problemas sociais existentes e que só se acentuaram após esse ‘surto industrializante’. Eram constantes também, as investidas do referido Jornal, direcionadas às autoridades competentes e a comunidade em geral, na tentativa de chamar atenção para questões relativas à mendicância e a migração. De acordo com Igor Santos (2007), “para essa nova fração de classe, o atraso daquele momento era o comércio, em oposição ao moderno, representado na indústria e nos ideais, novamente, de uma cidade mais urbanizada, definitivamente, não rural”. 66 Uma Feira que se queria Princesa e que há muito o poder público, juntamente com os grupos dominantes, lutava contra um passado pastoril, ligado ao atraso, não poderia e nem esperava permanecer com a herança rural e comercial. Mudanças que aconteciam desde a primeira metade do século, como a criação “dos Currais Modelo” já possuíam o propósito de afastá-la cada vez mais do que fosse caracterizado como arcaico. Esses currais eram uma estratégia do poder público em apresentar “uma imagem de Feira como a cidade mais importante do interior do Estado, por um lado, e, por outro, uma urbe que retirasse de cena os rastros do passado pastoril, guardando-os em lugar seguro, preferencialmente longe do centro urbano”. 67 Esses Currais Modelo não permaneceriam por muito tempo nas adjacências do centro de Feira de Santana. À medida que o processo de modernização foi se intensificando, isso Entre 1959 e 1962, durante a segunda gestão do prefeito Arnold Ferreira da Silva, os Currais Modelo foram transferidos dos arredores da zona central (atual quarteirão onde se situam o Museu de Arte Contemporânea, o Ginásio Municipal, a Biblioteca Municipal, o Fórum Filinto Bastos, a SUCAM e uma Loja Maçônica) para um local 65 MELLO, Josué da S. Feira de Santana: cidade de futuro. Sitientibus: Revista da Uefs, Feira de Santana: Ano II, nº4, jan/jun, 1984, p.77-78. 66 SANTOS, Igor Gomes dos. Na Contramão do Sentido: Origens e Trajetórias do PT de Feira de Santana – Bahia (1979-2000). Niterói, Dissertação de Mestrado: UFF, 2007, p.50. 67 OLIVEIRA, Clóvis Frederico Ramaiana Moraes de. “Canções da cidade amanhecente”: urbanização, memórias e silenciamentos em Feira de Santana (1920-1960). Brasília: Tese de Doutorado, UNB, 2011, p. 236. 46 mais distante, no bairro da Queimadinha, no cruzamento da rua principal com a Avenida Maria Quitéria. 68 No final da década de 1960 esse projeto de modernização ganharia um novo impulso com a campanha em prol da industrialização. O que não se enquadrasse nesse modelo teria que ser transferido para as áreas periféricas do município ou adaptado a nova Feira que surgia. Foi o que ocorreu com os Currais Modelo, com a população que ocupava o centro da cidade, com os feirantes que foram realocados para o Centro de Abastecimento. Esse desejo de mudança também pode ser visto na urbanização, impulsionada igualmente nesse período, sobretudo pelos rumores da criação do Polo Industrial. Como relatou Nacelice Freitas (1998) essa “industrialização foi importante fator de crescimento nas três últimas décadas, contribuindo evidentemente para a evolução urbana, (...) se constitui também como elemento impulsionador da expansão”. 69 Porém, com o crescimento populacional, provocado pela implantação do CIS, do Centro Industrial do Aratu (CIA) e do Complexo Petroquímico de Camaçari (COPEC), e das possibilidades de empregos, Feira de Santana, por ser um entroncamento rodoviário, sofreu as consequências desse processo – o que não excluiu a Região Metropolitana de Salvador (RMS) dos mesmos impactos. Como divulgou a Revista Panorama da Bahia a notícia se espalhou facilmente sertão afora. Vítimas da seca e da recessão econômica, atraídas pelo anúncio da “duplicação” do Pólo Petroquímico, vêm tornando, desde o começo do ano, cada vez maior o número de desempregados e de flagelados que chegam à região Metropolitana de Salvador em busca de empregos 70. As dificuldades sentidas não eram peculiaridades desse município, no entanto, para chegar à Camaçari, muitos desses migrantes passavam por Feira de Santana, alguns apenas pernoitavam, outros acabavam por se estabelecer na cidade. Como era crescente o número de migrantes que chegavam diariamente à Feira de Santana, as políticas de urbanização não foram suficientes para abarcar todo o contingente e o CIS não 68 OLIVEIRA, Ana Maria Carvalho dos Santos. Feira de Santana em Tempos de Modernidade: olhares, imagens e práticas do cotidiano. (1950-1960). Recife: Tese de Doutorado, UFPE, 2008, p.43. 69 FREITAS, N. B. Urbanização em Feira de Santana: Influência da Industrialização - 1970-1996. Salvador: Dissertação de Mestrado, UFBA, 1998, p.163-164. 70 ARQUIVO DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE FEIRA DE SANTANA – REVISTA PANORAMA DA BAHIA, O outro lado da moeda. Feira de Santana, 25 de set. de 1987, Ano 5, nº 89, p.4. 47 conseguia absorver, por completo, a mão de obra e mais uma vez a imprensa local fez o papel de exigir uma atitude das autoridades locais, ou mesmo da AFAS. No Jornal Feira Hoje eram constantes as investidas em favor da erradicação da mendicância, por vezes em favor da AFAS, quando insistia com o slogan, “não dê esmolas, seja mais um sócio da AFAS” 71 , ou mesmo, cobrando uma atitude por parte da instituição no controle da mendicância, quando dizia “fazemos um apelo a AFAS para que verifique porque o número de pedintes aumentou nos últimos dias. Sabemos das dificuldades que a entidade passa, mas ela pode fazer um trabalho de verificação”. Além disso, o intuito de tal verificação era “saber se são mendigos locais, ou se estão vindo de outras localidades” 72 . De posse dessas informações, provavelmente, seria possível analisar se o fenômeno era causado pela migração ou se o trabalho da entidade não estava sendo de fato eficaz. A Revista Panorama da Bahia, exerceu o mesmo papel quando a questão era a miséria nas ruas de Feira de Santana. Por um lado relatava que a cidade não tinha “estrutura para resolver problemas desse tipo” e “até mesmo, aquelas entidades responsáveis por este problema, não estão preparadas para erradicar esse mal”, mas por outro, criticava a sociedade feirense, que deixava de atuar frente à mendicância, e delegava a responsabilidade na resolução do problema para a AFAS, “baseada neste fato faz uma intensa cobrança sem se preocupar em cumprir com sua parte” 73. Apesar desse periódico apresentar uma realidade da década de 1980, posterior a criação da AFAS, percebemos que os problemas sociais observados no início de 1970, só se acirraram nas décadas seguintes e que o poder público local, juntamente com a fração dominante da cidade apesar de buscar a erradicação de tais adversidades, não obtiveram êxito. A migração, que como veremos mais adiante, tornou-se um dos fatores responsáveis pelo aumento dos mendigos nas ruas da urbe, cresceu sobremaneira durante os anos em que o CIS era considerado uma promessa de desenvolvimento para a cidade. Em entrevista ao Jornal Feira Hoje em 1983, Alfredo Falcão, um dos dirigentes industriais feirenses, ao ser inquirido sobre os impactos provocados no 71 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE, Não dê esmolas, seja mais um sócio da AFAS. Feira de Santana: Jan. de 1974, nº 267, p.05 72 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE, ETC & TAL – Mendigos – 29/01. Feira de Santana: Jan. de 1974, nº 267, p.02. 73 ARQUIVO DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE FEIRA DE SANTANA – REVISTA PANORAMA DA BAHIA, A miséria nas ruas. Feira de Santana, 05 a 19 de set. de 1985, Ano 3, nº 45, p.13. 48 município, após a criação do CIS, apontou justamente o processo migratório 74 e a expectativa de emprego como fatores que contribuíram para o aumento da miséria no município. Eis um trecho da entrevista: FEIRA HOJE – Você concorda que a industrialização em Feira criou uma grande expectativa de emprego, provocando uma grande migração e em consequência gerando uma série de problemas sociais, a exemplo do aumento do número de invasões e favelas? ALFREDO FALCÃO – Houve isso mesmo. Feira era uma cidade que há 15 anos dificilmente você via uma sub-habitação. Também a cidade era administrada por bons governos que se preocupavam com a habitação. Com o êxodo rural em função da expectativa de emprego na indústria, o município não pôde mais suportar essa demanda. Surgiram sub-habitações, surgiram invasões e sobre este aspecto houve um prejuízo, mas sobretudo porque o CIS não teve o desenvolvimento que deveria ter (grifos nossos). 75 No depoimento de Alfredo Falcão, além do descontentamento com os rumos que a cidade tomou nos 15 anos que antecederam a entrevista, nos quais a cidade ainda não tinha por prefeito João Durval Carneiro, notamos um saudosismo dos anos em que Feira de Santana era administrada pelo que ele caracterizou como bons governos. Estranhamente, o governo anterior ao de Carneiro, foi derrubado após o Golpe, e não contava com a simpatia de outros políticos feirenses. Francisco Pinto, prefeito nos anos de 1963/1964, foi deposto logo após o Golpe civil-militar e substituído por Joselito Falcão Amorim. As reformas sociais que este propunha não foram levadas adiante após a sua substituição na Prefeitura de Feira de Santana. 76 As críticas direcionadas às gestões dos prefeitos que governaram Feira de Santana a partir de 1968, entre elas a de João Durval Carneiro, são realmente cabíveis, tendo em vista que nas referidas administrações os problemas habitacionais que já eram vividos no município, só se alastraram no decorrer do tempo. As ocupações passaram a ser cada vez mais constantes, bem como as desocupações de forma conflituosa das áreas invadidas. 77 A década de 1980, que é o período retratado na entrevista do empresário Alfredo Falcão, começou marcada por disputas por moradia, área para construção de 74 Sobre migração em Feira de Santana, ver o trabalho de FREITAS, N. B. Urbanização em Feira de Santana: Influência da Industrialização - 1970-1996. Salvador: Dissertação de Mestrado, UFBA, 1998. 75 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. O Processo de industrialização de Feira, segundo Alfredo Falcão. Feira de Santana: 16 de junho de 1983, p. 03. 76 Ver SANTOS, Igor Gomes dos. Na Contramão do Sentido: Origens e Trajetórias do PT de Feira de Santana – Bahia (1979-2000). Niterói, Dissertação de Mestrado, UFF, 2007. 77 Ver também, SILVA, Igor José Trabuco da. “Meu Reino não é desse mundo”: a Assembleia de Deus e a Política em Feira de Santana (1972-1990). Salvador: Dissertação de Mestrado, UFBA, 2009. 49 casas, rede de esgoto, desapropriações. No Jornal Feira Hoje, já se noticiava nesse período a existência de cerca de mais de mil famílias vivendo em invasões. Mesmo com o trabalho da Prefeitura através do PLANOLAR 78 e de “vários projetos no órgão visando a construção de núcleos habitacionais para onde os invasores serão relocados”. O diretor do PLANOLAR, Albertino Carneiro, em 17/01/1981, admitia que nem todas as invasões seriam extintas, pois o projeto não abarcava a totalidade de desabrigados. 79 Apesar de considerarmos oportunas as críticas ao descaso por parte dos governantes feirenses em relação à maioria da população carente, não podemos deixar de mencionar os fatores externos que corroboravam para o agravamento dos problemas sociais da cidade e para o aumento do número de despossuídos. O planejamento industrial e urbano da década de 1970 pensou em vários aspectos, menos no crescimento demográfico acelerado e desordenado que a criação do CIS poderia ocasionar. As dificuldades que o município enfrentou com o acirramento do êxodo rural e principalmente com a dificuldade do CIS em abarcar a mão de obra disponível, mão de obra esta, muitas vezes sem qualificação profissional, não eram fáceis para serem sanadas a curto prazo. Sem uma organização anterior, o que a cidade assistiu foi mais uma promessa de desenvolvimento capitalista que propunha uma transformação nas estruturas econômicas, com produção acelerada de riquezas. Tais mudanças não chegaram à raiz do problema, ou seja, as benesses advindas da produção industrial não foram compartilhadas com os mais carentes, pelo contrário, permaneceram nas mãos dos grandes investidores, do mesmo modo, como relatou ao Jornal Feira Hoje, o CIS não teve o desenvolvimento que deveria ter. Notamos que o contexto feirense realmente foi marcado por algumas transformações após a implantação do CIS, entretanto, essas mudanças vieram acompanhadas de problemas estruturais e sociais, impossíveis de serem amenizados apenas com a atuação do poder local, através do PLANOLAR e da Secretaria de Saúde, 78 O PLANOLAR foi uma secretaria criada pela prefeitura de Feira de Santana com a pretensão de resolver o problema habitacional da cidade, ocasionado, sobretudo, pela migração. Com o surto migratório, o município não conseguiu abarcar todo o contingente populacional, dando início um processo de favelização, desencadeado por invasões e construções inabitáveis. Foram diretores do PLANOLAR figuras influentes no cenário feirense como o ex-padre Albertino Carneiro e o sociólogo Ildes Ferreira de Oliveira. Igor Gomes Santos (2007), menciona essa secretaria sendo ocupada por Albertino Carneiro e por Ildes Oliveira durante as duas gestões do Prefeito Colbert Martins, em 1976 e em 1988. Conferir, SANTOS, Igor Gomes dos. Na Contramão do Sentido: Origens e Trajetórias do PT de Feira de Santana – Bahia (1979-2000). Niterói, Dissertação de Mestrado: UFF, 2007. 79 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. Mais de Mil famílias moram em invasões sem qualquer condição. Feira de Santana: 8 de abril de 1981, p. 3. 50 sob a supervisão do Diretor Social, Josué da Silva Mello, e sua atuação junto aos migrantes, no auxílio para compra de passagens, abrindo espaços para o trabalho que fora desenvolvido nas instituições organizadas pelos presbiterianos ecumênicos, a AFAS e o SIM. O PLANOLAR, assim como seu diretor Albertino Carneiro relatou, não tinha condições de resolver o déficit habitacional por completo. Do mesmo modo, o método utilizado para resolver a situação migratória não conseguia dar conta do total de migrantes, os quais sem assistência contribuíam sobremaneira para o aumento dos pedintes nas vias públicas da cidade. Diante das dificuldades enfrentadas pelo poder público local em resolver esses problemas, os presbiterianos ecumênicos deram sua parcela de contribuição. Veremos adiante como aconteceram as relações desses ecumênicos e as autoridades feirenses e o alcance das atividades nas instituições, concorrendo para as aproximações desses protestantes com as autoridades municipais. A “Afas precisa de Feira e Feira precisa da Afas”: ideologias díspares, alianças necessárias Partimos da assertiva presente no Jornal Feira Hoje de julho de 1976, de que a “Afas precisa de Feira e Feira precisa da Afas” para analisarmos as relações entre o poder público local, os grupos dominantes e os presbiterianos idealizadores da AFAS. Como foi exposto, o contexto em que a entidade começou a funcionar era bastante conturbado e restrito os espaços democráticos, muitos dos presbiterianos tidos como progressistas, eram perseguidos pelos militares e pelos irmãos da IPB, todavia, em Feira de Santana conseguiram criar e pôr em funcionamento essas instituições sociais. Como tais aproximações foram possíveis, já que o governo municipal fazia parte da Ditadura Militar? A rigor, o apoio de presbiterianos ligados a IPB à materialização do governo civil-militar foi crucial no rompimento com os presbiterianos de visão ecumênica. Enquanto a alta cúpula eclesiástica se aproximava dos militares e estreitava as relações, ao mesmo tempo, denunciava os irmãos que possuíam uma visão diferente daquela defendida por eles. A princípio, o movimento ecumênico não era visto com bons olhos pela ala mais conservadora da Igreja, no entanto, com o desenrolar do governo dos militares, o que não era bem aceito se tornou providencial para concretizar a expulsão dos progressistas do seio da IPB. Esses jovens de visão crítica se tornaram indesejáveis 51 na instituição religiosa e perigosos para o País por serem associados aos comunistas, principais inimigos da ordem estabelecida. 80 Após o Golpe de 1964, as tendências renovadoras do presbiterianismo assistiram a um acirramento da vigilância principalmente sobre os órgãos interdenominacionais como a União Cristã de Estudantes do Brasil (UCEB) e a Confederação Evangélica do Brasil (CEB). A Mocidade Presbiteriana, a Comissão Igreja e Sociedade que pertencia a CEB, haviam organizado estudos acerca da Responsabilidade Social da Igreja e foi promotora de quatro Conferências que além de refletirem sobre a atuação cristã na transformação da sociedade, buscavam um diálogo com cientistas sociais em torno da conjuntura nacional e internacional do período, não passaram incólumes por esse processo. Por parte dos setores mais conservadores as aproximações com o governo militar não apenas contribuiu para eliminar do seio da IPB os presbiterianos ecumênicos, como também proporcionou dividendos significativos aos seus protagonistas. A fidelidade manifestada de forma individual ou coletiva qualificaria os protestantes conservadores brasileiros para o exercício de funções de responsabilidade político-administrativa no processo de consolidação de um regime político congenitamente carente de legitimidade social. De forma que o Brasil, país de esmagadora maioria católica, experimentou, pela primeira vez em sua história, a ascensão de um segmento de cristãos protestantes em postos de elevada responsabilidade política. Tal foi o caso da nomeação, pelo governo dos militares em alguns estados da federação, de representantes de tradicionais famílias protestantes, como os Gueiros no nordeste, Jeremias Fontes no Rio de Janeiro, Erasmo Martins Pedro (vicegovernador) na Guanabara e do próprio Ernesto Geisel, luterano gaúcho, ao posto de primeiro mandatário da República. 81 Notamos que as investidas dos presbiterianos conservadores após o golpe perpetrado pelos militares, enquanto setores dominantes e religiosos influentes, só vieram a somar para esses evangélicos que tentavam angariar espaços na sociedade brasileira. Sabemos que houve mudanças acerca da profissão de fé e celebração de cultos protestantes a partir dos tratados firmados entre as Nações Amigas e Portugal desde 1808, entretanto, conquistar fiéis e se afirmar enquanto protestantes em uma 80 Ver ARAÚJO, João Dias de. Inquisição sem Fogueiras: A História sombria da Igreja Presbiteriana do Brasil. São Paulo: Fonte Editorial, 2010. 81 FERREIRA, Muniz. Insurgência, conciliação e resistência na trajetória do protestantismo ecumênico brasileiro. In: DIAS, COELHO NETO & LEITE (Orgs.). História, Cultura e Poder. Feira de Santana, UEFS Editora; Salvador: EDUFBA, 2010, p. 87. 52 sociedade na qual o catolicismo estava entranhado desde meados do século XVI não era uma tarefa fácil. Na segunda metade do século XX, os reformados ainda se deparavam com dificuldades. A participação de protestantes na política brasileira, embora tenha se dado de forma bastante questionável, em certa medida representou um alargamento nos espaços de atuação desses grupos no Brasil. Essa via de mão dupla, quando por um lado os evangélicos adeptos do conservadorismo prestavam serviços ao governo militar e por outro, usufruíam o bônus advindo de tais atividades, custou um preço bastante alto para os protestantes ecumênicos que foram denunciados e entregues aos organismos de repressão como subversivos. Os jovens presbiterianos ecumênicos e progressistas, não comungavam do mesmo posicionamento dos irmãos conservadores. Os Reverendos Rubem Alves, Zwinglio Mota Dias, Josué da Silva Mello e João Dias de Araújo, após as muitas denúncias, foram submetidos a averiguações e eram observados de perto pelos órgãos da repressão. O metodista Anivaldo Padilha, também ligado ao movimento ecumênico, quando aprisionado pelos militares sofreu as mais duras torturas e assistiu outros/as irmãos, a exemplo de Celso e Fernando Cardoso, passarem pelas mesmas adversidades. Padilha traz consigo, até os dias atuais, os traumas dos choques elétricos, dos socos no estômago, dos golpes de palmatória e de telefone (golpe nos ouvidos com as duas mãos) impossíveis de serem aplacados com o passar do tempo ou apagados da memória, conforme seu relato. 82 Em depoimento durante o Congresso realizado pela Faculdade Unida em Vitória, no Espírito Santo, em comemoração ao quinquagésimo aniversário da Conferência do Nordeste, intitulado Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro: a Conferência do Nordeste 50 anos depois (1962-2012), Anivaldo Padilha, de forma emocionada proferiu Em 1970, fui preso pelo DOI/CODI em São Paulo juntamente com dois jovens da Igreja Metodista Central e uma companheira católica. O DOI/CODI era o principal centro de torturas montado pela ditadura no país. Durante uma das sessões de torturas a que fui submetido, os torturadores queriam me forçar a confessar que eu pertencia a uma organização comunista clandestina. Diante da minha negativa, um torturador me disse: “você quer eu acredite em você ou no pastor que diz que você é comunista”? Somente há cerca de oito anos, 82 Ver Depoimento de Anivaldo Padilha. Ato Público de Repatriação dos Documentos do Projeto Brasil Nunca Mais – Reflexões sobre medidas de verdade: do Brasil Nunca Mais a uma Comissão da Verdade. Disponível em http://www.metodista.br/fateo/noticias/Anivaldo_Padilha_Depoimento.pdf. Acesso em: 25 de out. de 2012. 53 quando tive acesso aos documentos a meu respeito constantes nos arquivos dos DEOPS em São Paulo e na ABIN (antigo SNI), é que descobri que o tal pastor não era um, mas dois. Eram o bispo Isaias Sucasas e seu irmão o rev. José Sucasas Jr., ambos metodistas. (...) estive preso por onze meses, vinte dois dias dos quais sob torturas, e depois libertado por ordem da Justiça Militar. Depois de quatro meses na clandestinidade fui forçado a deixar o país, retornando ao Brasil treze anos depois, em 1984 (grifos nossos). 83 Anivaldo Padilha foi denunciado por irmãos metodistas influentes, como o bispo Isaias Sucasas e o rev. José Sucasas Jr., acusado de pertencer a uma organização comunista clandestina, preso e torturado para confessar o seu envolvimento com o comunismo, viu sua vida mudar completamente, ao ter que abandonar o País com a ajuda do CMI e de redes ecumênicas, e se afastar dos familiares, a esposa grávida e o filho que nasceu durante os anos de exílio e que só veio a conhecer oito anos depois, o atual Ministro da Saúde do Brasil, Alexandre Rocha Santos Padilha. Seu filho foi privado da presença paterna em nome da segurança nacional. 84 Os metodistas e católicos, presos juntamente com Padilha, sob acusações similares, vivenciaram de perto a perseguição, as torturas, em muitos casos, o desaparecimento. Companheiros de luta sucumbiram nos porões da ditadura ou sofreram acidentes inexplicáveis, a exemplo de Willie Humphreys Gammon (a Billy Gammon), uma das fundadoras da Mocidade Presbiteriana, mais uma das vítimas de atropelamento misterioso, comum nos anos de 1960 e 1970; Heleni Telles Ferreira Guariba, professora, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), torturada e desaparecida; Paulo Stuart Wright, sociólogo, dirigente da Ação Popular MarxistaLeninista (APML), preso e desaparecido até os dias de hoje; Ivan Mota Dias, líder estudantil, historiador, foi detido e sucumbiu nos porões da Ditadura, a família não pôde sepultar o seu corpo, assim como ocorreu com Paulo Wright e muitos outros que não mencionamos aqui. 85 83 PADILHA, Anivaldo. Quando a Ditadura bate à porta. In: ROSA, Vanderley Pereira da; FILHO, José Adriano (Orgs.). Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro: a Conferência do Nordeste 50 anos depois (1962-2012). Rio de Janeiro: Mauad X, 2012, p. 82-85. 84 Conferir Depoimento de Anivaldo Padilha. Ato Público de Repatriação dos Documentos do Projeto Brasil Nunca Mais – Reflexões sobre medidas de verdade: do Brasil Nunca Mais a uma Comissão da Verdade. Disponível em http://www.metodista.br/fateo/noticias/Anivaldo_Padilha_Depoimento.pdf. Acesso em: 25 de out. de 2012. 85 Conferir ARAÚJO, João Dias de. Inquisição sem Fogueiras: A História sombria da Igreja Presbiteriana do Brasil. São Paulo: Fonte Editorial, 2010; ROSA, Vanderley Pereira da; FILHO, José Adriano (Orgs.). Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro: a Conferência do Nordeste 50 anos depois (1962-2012). Rio de Janeiro: Mauad X, 2012. 54 Essa adesão dos setores conservadores da Igreja ao Regime Militar não nos causa tanto estranhamento quanto as relações entre os segmentos progressistas e os políticos conservadores. No entanto, convém salientar que esses protestantes avessos ao modernismo implantado pelo movimento ecumênico, são os frutos de gerações convertidas por missionários, homens e mulheres do século XIX. A geração dos anos 50 e 60 do século passado, da qual fazia parte a hierarquia da IPB não conseguiu ir além das interpretações ortodoxas das Escrituras Sagradas, em outras palavras, não puderam ou não quiseram avançar na leitura que se fazia da Bíblia à luz de novas concepções teológicas, mais próximas das questões sociais, econômicas e políticas que afligiam a população dos países tidos como subdesenvolvidos, tal qual propunha a juventude presbiteriana que seguia uma linha ecumênica. Entretanto, após essas perseguições, expulsões, exílios e extermínios, consideramos, se não estranhas, ao menos divergentes as atitudes de alguns jovens ecumênicos, protestantes ou não, que para realizarem atividades sociais em Feira de Santana se aproximaram de um governo apoiado pelos militares. Esses laços firmados no final dos anos de 1960 revelam que, não obstante as opções políticas e religiosas desse grupo, em determinados momentos tiveram que aderir ao programa de um governo tido como de direita, na época. Se, por um lado, tais relações permitiu a viabilização de projetos, por outro, estabeleceu, desde o início, certos limites na atuação política contrária ao governo de exceção, limites de posturas pragmáticas. Se considerarmos, em primeiro lugar, que a própria estratégia utilizada para conquistar espaços em solo feirense para a fundação das instituições ecumênicas, mesmo que involuntariamente, cerceava a liberdade de ação em outras instâncias, ou melhor, impossibilitava um engajamento em movimentos sociais em favor da liberdade de expressão, do direito de ir e vir, da redemocratização, quando estes precisariam manter as alianças necessárias com um governo responsável pela extinção dessas prerrogativas, chegaremos a conclusão de que agir de forma pragmática talvez fosse necessário, na ótica desses protagonistas, desejosos de pôr em prática seus projetos e planos sociais. A máxima de que os fins justificam os meios, embora incompreensível quando analisada a guisa dos ideais presentes no movimento ecumênico, vista de outro ângulo, por alguns líderes, protestantes ou não, era entendida como necessária para que pudessem levar adiante os projetos sociais. De acordo com o sociólogo Ildes Ferreira de Oliveira 55 Essas entidades, o MOC, o SIM, que tinham um caráter mais progressista, eles precisaram ter algum seguro desse tipo, que pudesse dar, digamos assim, um certo apoio político, senão a ditadura fechava. Não foi só João Durval não, outras figuras do regime com o seu espírito assistencial, religioso, etc, eram importantes para a sobrevivência das entidades. 86 Precisavam se aliar a um governo que criticavam de maneira veemente e se calar ante o autoritarismo imposto pelo Regime Militar. Em situação similar estava o poder público local e os grupos dominantes, ao apoiarem os projetos sociais de um grupo que estava sob suspeita. Para Ildes Ferreira de Oliveira “João Durval e outros aí entenderam que havia uma proposta social que se sobrepôs aos interesses ideológicos”. 87 O projeto modernizador da Ditadura, em Feira de Santana encontrou obstáculos como a mendicância e a migração. Enquanto buscava implantar as inovações industriais, os problemas sociais cada vez mais se acirravam, pois a população aumentava em ritmo acelerado. Os presbiterianos ecumênicos com seus projetos sociais, poderiam contribuir na superação dessas barreiras. Essas aproximações com líderes políticos e religiosos locais foram fundamentais na realização dos projetos sociais dos presbiterianos ecumênicos. Tal estratégia pode ser evidenciada nas relações mantidas entre o Rev. Josué da Silva Mello e o Monsenhor Renato de Andrade Galvão, clérigo católico influente em Feira de Santana, embora tido como conservador e grande aliado das autoridades políticas locais e dos grupos dominantes, o qual apoiou a fundação das entidades ligadas ao ecumenismo. Esses laços com o clérigo católico contribuíram até no momento em que o Rev. Mello precisou comparecer frente aos militares acusado de comunista: porque ecumenismo e comunismo era confundido até no nome. Tinham esses irmãos e amigos que encarregavam de denunciar junto aos militares. Eram eles mesmos que denunciavam a gente. (...) Eu não cheguei a ser preso, eu tive sempre minha salvaguarda. Eu cheguei a ter uma aproximação muito grande como Monsenhor Galvão. Fiz um ecumenismo forte com ele. Ele era padre conservador, influente, insuspeito. Ninguém poderia suspeitar que ele viesse a apoiar comunista. A minha amizade com ele, no início, foi até interesseira, por causa do apoio, depois se tornou uma amizade fraterna, amiga. Nós fizemos um bom ecumenismo (inaudível) [independente] do conservadorismo dele. Mas nós chegamos até a permutar púlpito. Ele confiava o púlpito da Matriz pra que eu pregasse 86 Entrevista com o Ildes Ferreira de Oliveira, concedida à autora em 11 de julho de 2012, em Feira de Santana/Ba 87 Idem 56 e ele ia pregar na minha Igreja. Não era tão conservador. Mas ele dizia: meu ecumenismo é só com você (grifos nossos). 88 Um ecumenismo pragmático, distante da proposta inicial, daqueles que suportaram as torturas, ou dos que tiveram suas vidas ceifadas por acreditarem e lutarem por um projeto de País melhor, democrático e mais igualitário. O que não quer dizer que o fato de se aproximar de setores conservadores e manter uma relação amistosa com eles, implique em se afastar dessa corrente de pensamento. No entanto, ser ecumênico naquele período era assumir posições políticas e religiosas, era engajar em uma luta contra qualquer forma de dominação, ou melhor, de exploração do homem pelo homem, como fizeram os jovens contrários ao governo de exceção. O Rev. Josué da Silva Mello, através do seu jogo de interesses, ou melhor, de uma amizade interesseira, pôde trabalhar livremente em Feira de Santana e pôr em prática os projetos sociais que almejava, porém, para isso precisou usar de barganhas, ser mais flexível. Seu “pragmatismo (...) não permitiu que titubeasse em buscar a parceria do governo, mesmo que fossem representantes da ditadura militar, que espancava os membros de sua congregação e exilava os seus antigos irmãos da mocidade presbiteriana”. 89 O Rev. Mello, apesar de conhecer de perto as posições defendidas pelos seus antigos irmãos e ecumênicos, que ele convencionou chamar de radicais por serem fiéis a uma ideologia ou por tomarem partido em determinadas circunstâncias, não percebia como necessária essa fidelidade ideológica. Quando questionado, em entrevista, sobre a sua ligação com um governo que massacrava os irmãos de fé, àqueles que estiveram desde o início do movimento ecumênico ao seu lado e se essa prática era condizente com o ecumenismo, ele assim respondeu: A minha aproximação foi mais uma questão mais do meu estilo. Não é que o ecumenismo leve a isso não. O ecumenismo também leva a assumir posições políticas muito definidas. Mas o meu, eu nunca fui radical nessa questão da política. Não quer dizer porque é ecumênico na Igreja, na religião, que se deva a ser ecumênico politicamente, não. Muitos dos meus companheiros de trabalho, colegas não são. São ecumênicos, mas na vida partidária são muito radicais em relação a 88 Entrevista com o Reverendo Josué da Silva Mello, concedida à autora em 14 de julho de 2008, em Salvador/Ba. Sobre a vinculação arbitrária que militares e pastores faziam entre Ecumenismo e Comunismo, ver: ALMEIDA, Luciane Silva de. O Comunismo é o Ópio do Povo: Representações dos Batistas sobre o Comunismo, o Ecumenismo e o Governo Militar na Bahia (1963-1975). Feira de Santana: Dissertação de Mestrado, UEFS: 2011. 89 SILVA, Op.cit., 2010, p. 172. 57 sua ideologia. Eu sempre evitei, até mesmo pra me dar suporte pra desenvolver os trabalhos que eu fiz em Feira. 90 Não queremos fazer juízo de valor quanto aos posicionamentos do Rev. Mello, se houve ou não um distanciamento do movimento ecumênico dos primórdios. Precisamos considerar que apesar das ideologias díspares, as alianças foram necessárias, como em outros grupos políticos e conjunturas. Não era fácil agir em uma sociedade com poucos espaços democráticos. Ser mais rigoroso em alguns momentos e mais flexível em outros talvez fosse indispensável. Do mesmo modo, não podemos afirmar que muitos dos seus interesses não coadunavam com o projeto dos militares. O golpe civil-militar em seu nascedouro já apresentava uma política desenvolvimentista para o País, herança esta de governos anteriores, como o caso da era Juscelino Kubitschek que pretendia com o slogan 50 anos em 5, dinamizar a indústria brasileira, sobretudo a automobilística. Entre os protestantes, esse projeto provavelmente não se distanciava dos seus ideais, já que entre os preceitos calvinistas vigorava uma visão positiva em torno do progresso e do desenvolvimento. Os missionários protestantes que adentraram o solo brasileiro traziam consigo uma visão de que o catolicismo, além de avesso aos reformados, era a religião responsável pela “ignorância e atraso do povo”. De acordo com Lyndon Santos (2004), ao analisar a Primeira República, percebeu que “A configuração dos modos de ser evangélico na sociedade brasileira estava em consonância com o imperativo do período relativo à modernização, à modernidade e ao moderno”. O protestantismo “Mesmo minoritário, construiu a consciência de ser a religião do progresso”. Os evangélicos viam a si mesmos como difusores de um ideal de civilidade e progresso, conquistado, principalmente, pelo elevado nível de instrução que possuíam. A educação era, acima de tudo, o alicerce desse progresso e o catolicismo por não desenvolver um trabalho educacional mais aguerrido, era alvo de duras críticas. 91 Não obstante esta pesquisa abordar o século XX, e lidar com protestantes de terceira geração, ainda é possível perceber de forma bastante evidente, a influência de uma cultura permeada pela civilidade, progresso e modernização, tanto no discurso, quando na prática. Portanto, as aproximações de presbiterianos ecumênicos com 90 Entrevista com o Reverendo Josué da Silva Mello, concedida à autora em 14 de julho de 2008, em Salvador/Ba. 91 SANTOS, Lyndon de Araújo. As outras faces do sagrado: protestantismo e cultura na Primeira República Brasileira. Tese de Doutorado. São Paulo: UNESP/ASSIS, 2004, p. 170-173. 58 governos aliados dos militares nos pareceram inicialmente equivocadas, em parte podem ser compreendidas, ou ao menos percebidas sem tamanho estranhamento, se considerarmos os princípios da herança calvinista de prosperidade e civilização. Para o protestante presbiteriano, vida e trabalho não se dissociavam, a dedicação a uma atividade laboral, a prática de exercícios físicos, o comportamento, o empreendedorismo, eram os pilares para se conquistar o sucesso e para a edificação de uma sociedade civilizada. O projeto modernizador da ditadura, criticado por muitos militantes, se aproximava do ideal de progresso atávico, elaborado a partir dos valores puritanos calvinistas. Aos ecumênicos cabiam as alternativas de romper de vez com o sistema vigente, ou acatar a reforma capitalista proposta pelos militares e vislumbrada como algo positivo entre conservadores e alguns segmentos protestantes. Alguns jovens ecumênicos optaram pelo distanciamento do projeto militar e pagaram com a liberdade ou com a vida, a exemplo, a radicalidade de Paulo Wright. Também existiram os que optaram pelo caminho do meio, o da neutralidade, que os afastava da luta pela transformação social, através da mudança nas estruturas políticas e econômicas. Entre eles haviam os que diziam avessos à Ditadura Militar, mas em várias oportunidades mantiveram alianças, o que os afastava dos primórdios do movimento ecumênico. No que pese todas as justificativas quanto ao distanciamento da essência desse movimento, não podemos deixar de admitir que, ao se aproximarem das autoridades influentes do município, os líderes ecumênicos em Feira de Santana tiveram que abraçar o projeto industrial e desenvolvimentista do poder municipal e dos grupos dominantes, e consequentemente, dos militares. Dessas alianças, procede a necessidade de fazer vista grossa a posicionamentos outrora criticados. Essa atitude nos remete a um excerto extraído de uma crônica de Valério Arcary (2000), acerca da impassibilidade ante situações adversas, em que o silenciamento não seria a melhor escolha. “Em uma luta entre desiguais, a indiferença é sempre a cumplicidade com o mais forte”. 92 Entre os protestantes ecumênicos existiram os que souberam fazer o jogo da dissimulação e em certa medida, contribuíram para um governo antidemocrático. Agir nas brechas, como disse o Rev. Josué, fazer o jogo da dissimulação, ou da oração ambígua, não era algo incomum no meio reformado. Durante o período em que 92 Pegamos de empréstimo o pequeno excerto de Valério Arcary, extraído da sua tese de doutoramento e que se refere a outro contexto, distante do feirense, mas consideramos pertinente para analisarmos o comportamento de presbiterianos ecumênicos em Feira de Santana, quando. Ver: ARCARY, Valério. As esquinas perigosas da história: um estudo sobre a história dos conceitos de época, situação e crise revolucionária no debate marxista. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 2000, p. 01. 59 a Alemanha esteve sob o jugo nazista (Segunda Grande Guerra), protestantes envolvidos com a união entre cristãos e a luta contra o regime, precisaram utilizar desses artifícios. Conforme mencionou o teólogo protestante ecumênico alemão Dietrich Bonhoeffer (2003), preso e executado no início de 1945, no pequeno texto intitulado prestação de contas, ele explicou que essas estratégias ocorreram em um ambiente de repressão. “Temos sido testemunhas mudas de atos criminosos; tivemos que recorrer a muitas artimanhas; aprendemos as artes da dissimulação e da fala ambígua”, afirmou Bonhoeffer. 93 Isso não implica em dizer que os fins justificam os meios, pelo contrário, agir dissimuladamente quando os espaços democráticos são ínfimos e usar de artimanhas quando se fizer imperativo, por um lado. Mas não se distanciar da ideologia que acreditava ou se esquecer dos princípios defendidos pelo movimento o qual era defensor, por outro. Questionamos-nos diversas vezes se tais alianças seriam possíveis durante o Regime Militar brasileiro e na conjuntura feirense pós 1964. Se de fato o Rev. Josué da Silva Mello não tivesse alternativa, ao se aliar com autoridades ligadas ao conservadorismo. Entendemos que o agir nas brechas era algo inevitável à época, entretanto, em favor dessa possibilidade de ação, afastar-se da essência do movimento ecumênico, e justificar a escolha através da necessidade de se desenvolver projetos sociais, não nos pareceu suficiente para explicar tal decisão. Seria um distanciamento forçoso ou na verdade houve uma identificação de alguns líderes com o projeto desenvolvimentista e industrial, dos militares em âmbito nacional e de João Durval Carneiro, para Feira de Santana? A realidade é múltipla e nem sempre segue a linearidade desejada pelos militantes ditos radicais, religiosos ou políticos. Em primeiro lugar, o cenário marcado por transformações urbanas e industriais, no qual Feira de Santana se encontrava em meados dos anos de 1970, era perfeito para justificar o autoritarismo implementado pelos militares. A modernização e industrialização passaram a ser um discurso comum, propalado em solenidades, nos jornais de circulação local e regional. As inovações apresentadas pela imprensa local, advindas da criação do CIS, já mencionadas anteriormente, não apenas contribuíram para reforçar o sucesso que o plano de Integração Produtiva do Nordeste e Desconcentração Econômica Nacional estava proporcionando para os municípios do interior, como também serviam de subterfúgio diante dos problemas ocasionados por 93 BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão: cartas e anotações escritas na prisão. Rio Grande do Sul: Sinodal, 2003. 60 uma industrialização imposta, vinda de cima, sem qualquer preocupação com os grupos subalternos. 94 Em segundo lugar, concomitante a implantação do CIS, notou-se uma aceleração do crescimento populacional de Feira de Santana. Não podemos cair no determinismo e afirmar que esse boom demográfico tenha se dado devido apenas a propagação de oportunidades de empregos que adviriam após a implantação de indústrias no centro industrial. Fatores externos, como a seca, a desapropriação, a falta de frentes de serviços, podem ter contribuído para o aumento de migrantes que desembarcavam ou que chegavam a pé a esta cidade. Os retirantes passaram a ser um problema para a Prefeitura de Feira de Santana que começou a trabalhar em conjunto com presbiterianos, católicos, espíritas, profissionais liberais, comerciantes, grupos dominantes, através das instituições sociais e ecumênicas, no sentido de dirimir os problemas ocasionados pela migração. Desse modo, entendemos que de fato a “Afas precisa[va] de Feira e Feira precisa[va] da Afas”, que os propósitos presentes nos projetos dos ecumênicos coadunavam perfeitamente com os interesses modernizantes da Prefeitura de Feira de Santana, na pessoa do prefeito João Durval Carneiro, e dos setores dominantes. A AFAS, por exemplo, contribuiu sobremaneira para a retirada dos mendigos das ruas e consequentemente, de forma indireta, com o tipo de modernização que tentavam implantar em Feira de Santana. A imprensa local, também interessada na divulgação de um ideal de modernização e progresso pelo qual passava a cidade, ou quiçá, que ansiava que a população acreditasse que o município estava passando, esteve ativamente ligada a difusão da importância da AFAS nesse processo de mudanças. O apoio dado pelo Prefeito João Durval Carneiro, do partido aliado dos militares, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), porém eleito pelo voto direto, ao projeto da AFAS, idealizado por um grupo contrário ao Regime Militar, como mencionamos, pode causar estranheza. O pacto entre a Prefeitura e os ecumênicos pode ter sido firmado por diversos motivos. Podemos imaginar que o poder local e setores dominantes não conseguiam ir muito além no trabalho com os mendigos e portanto, precisavam da contribuição da instituição. Não possuíam verbas para levar adiante um projeto de tamanha envergadura e, portanto, tornava-se imperativo o apoio dos ecumênicos, que por sua vez, contavam com o financiamento de órgãos internacionais 94 Ver CRUZ, Op. Cit., 1999. 61 ecumênicos como Pão Para o Mundo da Igreja Luterana da Alemanha e o CMI, isso mais visível no SIM. A AFAS necessitava de apoio financeiro e de espaço político para levar adiante o projeto, o que só foi possível através da parceria com a Prefeitura, os comerciantes e a sociedade em geral, além das contribuições externas. Ao tempo em que a Prefeitura e os grupos dominantes encontravam nos migrantes e mendigos um obstáculo à modernização, ao progresso, à industrialização, um casamento de interesses aproximou ecumênicos progressistas e o poder local. O que Salvador assistiu no final do século XIX e início do XX, após o fim do Regime Escravista e Proclamação da República, nos governos de J.J. Seabra (19121916) e Francisco Marques de Góes Calmon (1924-1928), calcados em ideais de modernidade e progresso social, com a expulsão da população pobre e de pele negra, das ruas, através de um projeto disciplinar de intervenção sanitarista, que Alberto Ferreira Filho (1998-1999), em seus estudos, convencionou chamar de desafricanizar as ruas, 95 Feira de Santana, quando se buscava a construção moderna do município, talvez em mesma intensidade, serviu de cenário para medidas similares, no decorrer do século XX, que iam desde a proibição aos cultos afro-brasileiros e a necessidade de regulamentação de tais práticas, o controle das construções urbanas, a desmontagem simbólica do vaqueiro, que segundo Clóvis Oliveira (2011), consistia no impedimento destes em circular pelas ruas com suas indumentárias, conduzir ou amarrar animais em vias públicas, ou mesmo andar à cavalo, entre outros, 96 passando, após os anos de 1960, pela retirada dos feirantes, dos mendigos e de moradores do centro da cidade ou de bairros próximos. 97 As atividades desenvolvidas pelos presbiterianos progressistas, ao retirar os mendigos das ruas, estavam ao mesmo tempo colaborando com o projeto da Prefeitura de Feira de Santana em andamento no período, que visava a limpeza das ruas, retirada dos indivíduos tidos como indesejados, das portas das lojas no centro da cidade, enfim, que buscava apresentar uma cidade com ares modernos. Era, portanto, contundente a crítica do ex-padre Albertino Carneiro à AFAS, de que o trabalho desenvolvido não atingia a raiz do problema, estavam tirando mendigos da rua para não incomodar os 95 FERREIRA FILHO, Alberto Heráclito. Desafricanizar as ruas: elites letradas, mulheres pobres e cultura popular em Salvador (1890-1937). In: Afro-Ásia. Salvador, 21-22, 1998-1999, p. 239-256. 96 OLIVEIRA, Clóvis Frederico Ramaiana Moraes de. “Canções da cidade amanhecente”: urbanização, memórias e silenciamentos em Feira de Santana (1920-1960). Brasília: Tese de Doutorado, UNB, 2011. 97 Ver PACHECO, Larissa Penelu Bittencourt . Trabalho e Costume de Feirantes de Alimentos: pequenos comerciantes e regulamentações do mercado em Feira de Santana (1960-1990). Feira de Santana: Dissertação de Mestrado, UEFS, 2009. 62 comerciantes. 98 Como as autoridades governamentais não tinham conseguido resolver o problema da mendicância e, por conseguinte, do migrante, era de fundamental importância o esforço dos ecumênicos, e evidente a convergência de interesses, entre esses líderes e o poder público municipal. João Durval Carneiro (1967-1971) assumiu a Prefeitura logo após o prefeito biônico, Joselito Amorim (1964-1966) e de acordo com Diego Corrêa (2011), foi na gestão deste que as bases para a política desenvolvimentista e modernizadora do governo de Carneiro começaram a ser erigidas. Os pilares “se assentaram na expansão da rede elétrica, no combate ao comunismo, na ampliação do sistema de abastecimento de água, na central telefônica, aumento do funcionalismo público, na chegada do SESI entre outros aspectos”. O novo governo era uma promessa para o grandioso futuro de Feira de Santana e representava a continuidade dos projetos em voga a partir do golpe civil-militar. 99 Carneiro, além de se apresentar enquanto prefeito das transformações tinha a necessidade de desconstruir o ideário estabelecido na gestão de Francisco Pinto, que havia sido deposto pelos militares e vinha realizando uma administração popular, pautada na participação dos grupos subalternos nas decisões políticas. Francisco Pinto havia iniciado sua administração com uma renovação na forma de administrar. O slogan usado na campanha Francisco Pinto na prefeitura é o povo governando, se tornou a marca do seu governo durante os anos de 1963 e 1964, ou melhor, onze meses, quando esteve à frente da Prefeitura de Feira de Santana e ousou inserir as camadas populares na política feirense através de uma gestão participativa. 100 A forma de gerir de Francisco Pinto, se por um lado fez com que este ganhasse notoriedade junto à população carente, por outro foi determinante no avanço da insatisfação entre os seus opositores, principalmente os udenistas. O crescimento da popularidade de Pinto foi usado como um artifício no momento da deposição deste. Uma liderança popular era tudo que os militares não precisavam naquele momento, portanto, não demorou para que os apoiadores da Ditadura o associassem aos comunistas. 101 98 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010. 99 CORRÊA, Diego Carvalho. O futuro do passado: uma cidade para o progresso e, o progresso para cidade em João Durval Carneiro. (1967-1971). Feira de Santana: Dissertação de Mestrado, UEFS, 2011, p. 65. 100 Idem, p. 38. 101 Conferir OLIVEIRA, Ana Maria Carvalho dos Santos. Feira de Santana em tempos de modernidade: imagens, olhares e práticas do cotidiano (1950-1960). Tese de Doutorado. Recife: UFPE, 2008; 63 O resultado prático desse golpe para a Bahia e para Feira de Santana, logo nos primeiros anos, no decorrer de 1964, foi o endurecimento das posições, sobretudo, da União Democrática Nacional (UDN) em relação aos prefeitos que haviam sido eleitos pelo voto direto nas eleições de 1962, militantes e inimigos da política militar. Segundo Diego Corrêa (2011), Foi da UDN local que saiu a deposição de Francisco Pinto, caso normal em todo país no período. Na Bahia o golpe também criou a possibilidade de afastamento de inimigos políticos em prefeituras, como as deposições do prefeito de Vitória da Conquista, Pedral Sampaio e de Salvador, Vigildásio Senna, e também em câmaras de vereadores, além claro de militantes de oposição. É com o golpe que os quadros da UDN poderiam, enfim, afastar o mal da administração local (...). Era a tão sonhada oportunidade da UDN local de voltar ao poder e interromper a participação popular nas atividades políticas da cidade. 102 Caberia, então, a Joselito Amorim e aliados, afastar a imagem positiva de Pinto da política feirense, do mesmo modo as utopias de esquerda e atrelá-lo ao comunismo, ou apresentá-lo como um inimigo a ser combatido. À medida que buscavam o distanciamento do passado, uma nova imagem era criada e apresentada à população, a de um prefeito do futuro. João Durval Carneiro era a promessa de um novo presente. Enquanto gestor do desenvolvimento, do progresso, do futuro, João Durval Carneiro, ao constituir seu projeto político para Feira de Santana, teve de desenvolver uma série de táticas e mecanismos para consolidação de novos objetivos para a cidade, articulando o passado comercial e pecuarista em que a cidade vivia com novas perspectivas de higienização, modernização acelerada, com reforma urbana, industrialização e reorganização econômica (grifos nossos). 103 Suas propostas eram articuladas com o programa nacional do governo militar, que apesar de buscarem a modernização para o País e inclusão do Nordeste no projeto desenvolvimentista, não consideraram os grupos subalternos que viviam à margem da sociedade. Enquanto apresentavam Feira de Santana sob novas perspectivas, de CORRÊA, Diego Carvalho. O futuro do passado: uma cidade para o progresso e, o progresso para a cidade em João Durval Carneiro (1967-1991). Dissertação de Mestrado. Feira de Santana: UEFS, 2011. 102 Idem, p.52. 103 Idem, p.67. 64 higienização, modernização acelerada, com reforma urbana, industrialização e reorganização econômica, viam essas propostas se esbarrarem em problemas sociais como a mendicância e migração. A Prefeitura buscava meios para diminuir o número de pedintes e evitar que migrantes em trânsito permanecessem por muito tempo no município e agravasse ainda mais a situação. Como já expomos, o Rev. Josué da Silva Mello trabalhava como Diretor Social, em uma secretaria criada na gestão de João Durval Carneiro, voltada para a resolução do problema desses retirantes, o que na opinião do Rev. Mello, não surtia efeito. 65 Capítulo 02 - Migração, Educação e Trabalho: um Centro de Capacitação de Migrantes para Feira de Santana “O SIM veio para a luta da sobrevivência” No início de 1970, com o objetivo de ampliação das atividades da AFAS e após constatarem que a mendicância no município era decorrente da migração, criaram o SIM, direcionado para a capacitação de migrantes. 104 Um centro de capacitação para migrantes, com atividades bem próximas do que já faziam os líderes ecumênicos com os mendigos, ainda sem sede própria, as atividades foram iniciadas no interior da AFAS. Visando conseguir apoio financeiro para a construção de um centro de treinamento, um projeto foi enviado ao CMI. O projeto recomendado pelo Prefeito Durval Carneiro, que em carta ao Secretário Geral do CMI, o Rev. Dr. Eugene C. Blake, datada de 22 de outubro de 1969, apontou as razões principais que o levaram a apoiar a proposta dos presbiterianos ecumênicos 1) Atende à migração – um dos maiores problemas sociais da região e do Brasil – de modo racional e humano, capacitando profissionalmente o migrante e dando-lhe as necessárias condições de integração no mercado de trabalho e na comunidade humana. 2) Prepara mão de obra para a agricultura e principalmente para a indústria que surge dinâmica em nossa região, vindo assim atender a uma real necessidade a curto e longo prazo. 3) O projeto é apreciável também pelo seu sentido ecumênico. O SIM reúne católicos e protestantes, pessoas preocupadas e responsáveis que garantem a execução do projeto. 105 A fundação de uma nova entidade, com recursos oriundos de órgãos internacionais e ecumênicos, sem ônus para a Prefeitura de Feira de Santana, além do apoio já concedido com a doação da área de 70.000 m² para a sua construção, seria substancial naquele momento em que a cidade passava por essa fase de modernização dos espaços urbanos. Sabemos que havia o interesse de João Durval Carneiro em se firmar enquanto um prefeito do desenvolvimento, ou do futuro, como expôs Diego Corrêa (2011), e que tal projeto era a promessa na resolução do problema ocasionado 104 ACERVO SIM. SIM. Projeto de Triagem, atendimento, capacitação e integração de migrantes na comunidade, e de análise e estudo sobre o fenômeno migratório brasileiro notadamente o nordestino. Feira de Santana, Bahia-Brasil, dez.1973, p.18. 105 ACERVO DO SIM. Correspondência do Prefeito João Durval Carneiro ao CMI. Feira de Santana: 22 de outubro de 1969. 66 pela migração. Carneiro, um prefeito da ARENA, apoiar um projeto idealizado por um grupo perseguido e mantido sob vigilância como foi o caso dos líderes ecumênicos, e ainda recomendá-lo, não era algo comum. Havia convergência nas intenções, embora os posicionamentos políticos e ideológicos não fossem os mesmos. Talvez Ildes Ferreira de Oliveira tivesse razão ao dizer que “João Durval e outros aí entenderam que havia uma proposta social que se sobrepôs aos interesses ideológicos”. 106 A indústria, nas palavras de João Durval Carneiro, aparecia como dinâmica em Feira de Santana, e o SIM contribuiria para o treinamento da mão de obra sem qualificação profissional. Do mesmo modo, apontava a migração como um dos maiores problemas sociais da região e do Brasil. A construção do SIM seria ao mesmo tempo uma inovação no trabalho com o migrante, uma intervenção social na tentativa de solucionar o problema e acima de tudo, a solução encontrada pelos gestores municipais de levar o projeto desenvolvimentista adiante, sem os impasses da mendicância e da migração. O trabalho social dos presbiterianos ecumênicos adquiriu amplitude a partir da idealização da nova entidade, que nasceu da necessidade de abranger o atendimento prestado ao mendigo de modo a alcançar a população migrante. O projeto surgiu no final dos anos de 1960, como ainda não possuía sede própria, funcionou “provisoriamente (...) numa das salas cedidas pela AFAS” e representou o primeiro esforço dos protestantes ecumênicos em trabalhar com migrantes. Durante essa primeira etapa, de 1969-1972, “foram cadastrados inúmeros migrantes de passagem por Feira de Santana, que receberam diversos auxílios, onde a maioria era para compra de passagem (ônibus), a fim de seguirem seu destino” 107. Foram elaborados, Tratamentos Estatísticos “em convênio com o Governo do Estado, através da Secretaria do Trabalho e Bem-Estar Social”, com os dados que foram levantados nos anos de 1970, 1971 e 1972. O primeiro deles, publicado somente em 1973, baseado nas “2.320 fichas de migrantes atendidos pelo SIM”, tinha como pretensão analisar o fenômeno migratório em Feira de Santana. 108 Além disso, os resultados ali colhidos serviram de base para a elaboração de uma proposta mais 106 Entrevista com o Ildes Ferreira de Oliveira, concedida à autora em 11 de julho de 2012, em Feira de Santana/Ba 107 ACERVO SIM – SIM: um projeto de triagem, atendimento, capacitação e integração de migrantes, e de análises e estudo sobre o fenômeno migratório, notadamente nordestino, Feira de Santana: dezembro de 1972, p. 26. 108 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. Técnico do Ministério Interior viu o SIM. Feira de Santana: nov. 1973, nº 238, p. 01. 67 ambiciosa, a criação de uma entidade capaz de atender e capacitar retirantes como mão de obra potencial. Dispostos a pôr em prática esse projeto, protestantes, católicos e espíritas buscaram a parceria do poder local e os grupos dominantes feirenses. Acreditavam que a instituição, além de contribuir para a promoção humana, atuaria junto aos migrantes evitaria que estes viessem a engrossar as fileiras da mendicância. Os líderes ecumênicos, provavelmente, pretendiam com essas alianças adquirir o terreno que seria utilizado no desenvolvimento do projeto, além de conquistar novos parceiros dispostos a colaborar. 109 O apoio dado pela Prefeitura de Feira de Santana foi primordial para o início do projeto. Ao considerar a visibilidade da proposta e a importância desta para a cidade, cedeu a área na qual a entidade começou a ser construída, uma “doação de 16 tarefas e meia de terra na Lagoa Salgada (...), para ser usada no plano de capacitação profissional e integração do homem migrante”. Em oficio endereçado ao Prefeito do Município, João Durval Carneiro, no qual mencionava a proposta do SIM e esperava a contribuição do município, “o Pastor Josué destac[ou] a administração humana e desenvolvimentista do Govêrno Municipal” e reiterou a importância do SIM para a cidade, pois “contribuirá para o equacionamento de um dos maiores problemas sociais e para o desenvolvimento sócio-econômico em que o Prefeito de Feira está verdadeiramente empenhado”. O Rev. Mello usou o discurso do desenvolvimentismo, comum à época, para apresentar as possíveis contribuições que o projeto traria para a cidade, do mesmo modo não poupou elogios à administração municipal. 110 Erigir um Centro de Capacitação de Migrantes do porte como fora imaginado pelos Presbiterianos Ecumênicos, com dormitórios, espaços para profissionalização, ambulatório, escola, biblioteca, refeitório, áreas administrativas, entre outras, seria necessário uma quantia vultosa de recursos financeiros, os quais, estes não possuíam. Há que se considerar que essa verba precisaria ser fixa, já que não havia possibilidade do SIM iniciar suas atividades sem possuir um capital que pudesse mantê-la em funcionamento. Essa contribuição foi adquirida junto a órgãos públicos e privados e a organismos nacionais e internacionais ecumênicos como o CMI (Genebra), a Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE (Brasil) o Pão Para o Mundo - PPM 109 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FOLHA DO NORTE. Agradecimento do “SIM” ao Município. Feira de Santana: 18 de ago. 1969, Ano 60, nº 3148, p. 2. 110 Idem, p. 2. 68 (Alemanha), a Central Evangélica de Ajuda ao Desenvolvimento – EZE (Alemanha), Christian Aid (Inglaterra), Desenvolvimento e Paz (Canadá), dentre outros apoios financeiros. Essas parcerias foram fundamentais para o funcionamento da entidade, visto que estes órgãos eram os responsáveis por “mais de 80% dos recursos financeiros” aplicados, sem os quais não seria possível a execução dos programas de alfabetização e educação básica, de treinamento profissional, de saúde comunitária, de apoio às comunidades e o programa agrícola. A proposta visava “beneficia[r] milhares de pessoas, contribuindo significativamente com o desenvolvimento da sociedade, sem onerar os cofres do Município, do Estado ou da União e, sem sobrecarregar a comunidade feirense”, portanto, os subsídios nacionais, os convênios firmados com a Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social (SETRABES), com o Programa Intensivo de Preparação de Mão de Obra (PIPMO), com a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e a Legião Brasileira de Assistência (LBA), além da parceria com a Secretaria de Educação do Estado da Bahia, não contabilizavam mais de 20% do total investido na instituição. 111 Esse percentual embora ínfimo, se comparado com os investimentos das instituições estrangeiras, foi crucial para o funcionamento tanto da AFAS, quanto do SIM. Encontramos nos Relatórios Anuais, agradecimentos ao apoio prestado pelo Programa Intensivo de Preparação de Mão de Obra (PIPMO), pela SUDENE e principalmente pela SETRABES. No periódico Feira Hoje, essas parcerias foram frequentemente noticiadas, seja na doação de verbas para a compra de equipamentos, transportes, ou mesmo no financiamento de cursos oferecidos. A SETRABES, por exemplo, anunciou após reunião realizada nas dependências do órgão, em julho de 1978, que a parceria com SIM continuaria. Nessa ocasião a secretária da SETRABES, Maria Ivete Oliveira, que cogitava transferir os cursos que ocorriam no SIM para o Centro Social Urbano (CSU), localizado no bairro Cidade Nova, deliberou pela continuidade do “programa de atendimento a migrantes e população de baixa renda” no mesmo local e apenas seria direcionado para o CSU o “serviço de fotografia e documentação”. 112 111 ACERVO SIM. SIM – Um Relato de 23 anos. Feira de Santana, 1º de maio de 1991. ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. O convênio da SETRABES com o SIM vai continuar. Feira de Santana: 16 de jul. 1978, Ano VIII, nº 1230, p. 01. 112 69 Durante toda a década de 1970, os diretores que estiveram à frente da entidade não cessaram os esforços em busca de financiamentos. Foram frequentes as publicações no jornal Feira Hoje, sempre mencionando as viagens e reuniões realizadas com essa finalidade. Em abril de 1978 o Diretor Executivo do SIM, Josué da Silva Mello, esteve em Brasília com a missão de obter “o reconhecimento da entidade como de utilidade pública”, junto ao Ministério da Justiça. Na oportunidade, Mello “buscou acompanhar no Ministério do Trabalho o projeto visando conseguir recursos para a aquisição de equipamentos para a área de profissionalização”. 113 Esses esforços foram constantes também, por parte de Antônio Gomes, Diretor Executivo da AFAS, em setembro de 1977, de viagem à Salvador (Bahia), buscou a contribuição da LBA para “Os projetos (...) de promoção da família, pré-escolar, unidade de proteção ao pré-escolar, instalação de um mini-posto, horticultura, arte culinária, artesanato, corte e costura e floricultura” para serem executados no ano subsequente. Na mesma ocasião entregou projetos para entidades filantrópicas internacionais, também na tentativa de firmar parcerias e adquirir ajuda financeira. Essa busca incessante se deu desde a criação dos projetos das entidades, quando ainda buscavam apoio para construir as primeiras instalações e não cessaram no decorrer dos anos. 114 Além das parcerias já citadas, os laços entre o SIM e os governos federal e estadual, durante todo o período de funcionamento, se tornaram bastante estreitos. Não foram poucos os momentos em que o diretor executivo do SIM, Rev. Josué da Silva Mello, se deslocou até a capital federal com intuito de manter “contatos com o Ministério do Interior, [INM], Central de Medicamentos e outros órgãos”. O Rev. Mello pretendia com essas aproximações, em um primeiro momento, “informar-se da política de migração do Governo Federal”, para em seguida, “conseguir a participação direta desses órgãos no projeto do SIM”. 115 Com o funcionamento do SIM na nova localidade, isso em meados de 1974, após “inaugurar sua sede própria, num conjunto de oito prédios, em área superior a 113 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. Diretor tenta que o SIM seja de utilidade pública. Feira de Santana: 04 de abril de 1978, Ano VIII, nº 1170, p. 03. 114 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. Afas leva projeto a LBA. Feira de Santana: 30 de set. 1977, Ano VIII, nº s.n., p. 03. 115 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. A Construção do SIM. Feira de Santana: set. 1973, nº 211, p. 03. 70 100.000 Ms² situada, (...) na Avenida Centenário”, 116 o trabalho com os migrantes foi intensificado. Centenas de retirantes que chegavam à cidade foram incluídos ao projeto através dos postos de atendimento ao migrante, instalados em pontos estratégicos da cidade, ou através do encaminhamento feito pela população de Feira de Santana, amplamente informada sobre os serviços do SIM, ou até mesmo por informações de migrantes que já tinham passado pelo Projeto. 117 Nos primeiros anos de funcionamento do SIM, muitos dos migrantes que foram direcionados à profissionalização chegavam à entidade no transporte cedido pela AFAS. Ao firmar parcerias com a SUDENE, além do financiamento para a profissionalização dos migrantes e das verbas direcionadas a instituição, esta pôde adquirir meios para transportar os desassistidos. Vide fotografia. Figura 1 - Migrantes recolhidos pelo SIM. Fonte: ARQUIVO SIM Além das relações entre SIM e SUDENE, podemos obter outras informações da fonte. Nota-se que o fotógrafo ao capturar a imagem, buscou apresentar, além da marca 116 117 ACERVO SIM. SIM – Um Relato de 23 anos. Feira de Santana: 1º de maio de 1991. JORNAL FEIRA HOJE, Op. Cit., p.8. 71 do SIM e da SUDENE que aparecem em relevo, a forma como a chegada dos migrantes à instituição foi solenizada. Acreditamos que a maioria dos retirantes que chegaram ao SIM possuíam condições similares ao exposto: migravam com pouca, ou nenhuma bagagem, com pequenas bolsas ou sacola de loja, a Clark (loja de calçados), por exemplo, em número reduzido, ou seja, não migrou com a família e eram em maioria homens. A forma como esses migrantes estão posicionados, bem como o modo em que estão vestidos, nos levou a algumas suposições. Cabe ressaltar que são apenas elucubrações, haja vista não ter encontrado em nas fontes, indícios que atestem os nossos questionamentos. Entre as possibilidades temos: 1) foram preparados para o momento, se pensarmos que não era unanimidade entre os retirantes o uso de vestimentas e calçados conforme o apresentado. O segundo migrante, da esquerda para a direita, trajando uma camisa listrada, nos pareceu bem à vontade, encostado na Kombi o que nos faz acreditar que este não estava a descer do transporte e sim posicionado para a fotografia; 2) foram surpreendidos no desembarque e a imagem captada de pronto, a hipótese possível de se considerar, visto que, ainda da esquerda para a direita, por detrás do quarto homem usando uma camisa preta e bermuda, há um sétimo migrante se preparando para descer do transporte. Outro fator é o posicionamento do primeiro homem que se encontra da direita para a esquerda. Consideramos que este não fazia parte do grupo que chegava ao SIM para atendimento, por se tratar do motorista. Ele é o único que não aparece carregando consigo bagagem e se encontrava disposto como que aguardasse a descida dos passageiros, isso após ter aberto a porta. 3) pelas vestes inteiras e limpas, também podemos deduzir que não migraram a pé, provavelmente faziam parte dos recepcionados na rodoviária e direcionados à sede da entidade. Além da rodoviária, região onde havia um posto de recepção de retirantes, os carros a serviço do SIM percorriam as ruas de Feira de Santana, os bairros os quais alguns dos recém-chegados estavam vivendo em barracões feitos de lona, todo esse percurso em busca daqueles que precisavam de atendimento. Encontravam nesse trajeto todos os tipos de migrantes, desde aqueles que ao migrar utilizavam um transporte, possuíam vestimentas, sapatos, alguma economia e um local determinado para o qual se destinava. Não era incomum o oposto, mulheres e homens com suas famílias que 72 chegavam à cidade a pé, sem possuir quaisquer meios que propiciasse a continuidade da viagem, muitos em situação de pobreza extrema, com fraturas e machucados. 118 Esses migrantes, em sua maioria do sexo masculino, estavam expostos a toda sorte, tanto na viagem, quanto na cidade que os recepcionasse. Dificuldades como a falta de alimentos, de meios de locomoção, de moradia, até o desemprego após chegarem ao local de destino eram bastante comuns. Cenas como a apresentada na imagem, com pessoas aparentemente bem vestidas, ou que tenham usado algum meio de transporte para migrar, não correspondia a realidade do conjunto dos migrantes. Nem todos que chegavam à cidade eram encontrados em boas condições. Havia aqueles que não possuíam dinheiro para a compra de passagem e se deslocavam a pé, aventuravam caronas nas encostas das estradas, muitos chegavam em condições subumanas, completamente machucados. Entretanto, se considerarmos que a imagem ao ser produzida ela recebeu influência de quem a registrou, também podemos inferir que esta deve ter sido pensada para apresentar a SUDENE o trabalho que vinha sendo desenvolvido com a verba investida na instituição. Não que fosse impossível encontrar retirantes em situações menos vexatórias, ou com algum dinheiro para a viagem, pelo contrário, dos migrantes analisados nos Relatórios Estatísticos, o maior percentual estava entre os que utilizaram um transporte rodoviário para migrar. No Tratamento Estatístico de 1973, por exemplo, na tabela XIV, temos um número significativo, embora não em maioria, de migrantes que saíram de suas cidades a pé. Dos 2.320 retirantes registrados, 1.664 utilizaram o transporte rodoviário, 169 intercalaram o transporte rodoviário com a migração a pé e 55 não tiveram a mesma oportunidade, fizeram todo o trajeto caminhando. Os 432 restantes foram distribuídos nas categorias: a) ferroviário; b) rodoviário e ferroviário; c) rodoviário, ferroviário e a pé; d) rodoviário, aéreo e ferroviário; e) aéreo e rodoviário; f) ferroviário e a pé; g) rodoviário e marítimo; h) marítimo, rodoviário e ferroviário; i) não especificado; j) não declarado. Cabe ressaltar que não explicitamos os que migraram a pé e que se encontram inclusos nas categorias aéreo e ferroviário. 119 O grupo de migrantes, provavelmente que acabara de chegar à Feira de Santana e que fora encaminhado para o SIM através de uma Kombi, adquirida com os subsídios desprendidos pela SUDENE, passaria pelo processo de triagem e só em seguida 118 BRITO, Charlene José de. Presença Protestante Progressista em Feira de Santana: um trabalho ecumênico de ação social. Feira de Santana: Monografia, UEFS, 2008, p. 54. 119 Conferir Tratamentos Estatísticos, para os anos de 1973, 1974 e 1975. 73 “receb[er]ia abrigo, assistência médica, documentação, treinamento profissional, colocação no mercado de trabalho e/ou uma passagem para o local de destino”.120 No que dizia respeito à educação e capacitação profissional, o “enfoque fundamental [era] a valorização da cultura de origem do aluno e a sua efetiva participação na construção de um processo de aprendizagem mais significativo”. O intuito era preparar “profissionalmente [o migrante], com vistas à melhoria de suas condições de vida, procurando evitar o assistencialismo e a dependência” 121. O SIM se preocupou também em oferecer cursos de acordo com a demanda do “mercado de trabalho local e regional”. O objetivo era “engajar o pessoal qualificado, sempre que possível, na própria região” 122 . Implantou um Banco de Trabalho “objetivando detectar a capacidade de absorção de mão-de-obra, assim como a oferta de trabalho existente em Feira de Santana” e só a partir da análise inicial desses dados, é que abririam novas turmas. O primeiro ano em sede própria, dos 1.595 retirantes que procuraram ou foram encaminhados ao SIM, 1.327 foram atendidos. Entre os filhos e/ou acompanhantes, dos 1.948 maiores e 1.754 menores, foram acolhidos 1.635 e 1.479, respectivamente, totalizando 3.702 pessoas que passaram pela triagem, e com 3.114 atendimentos, ou seja, que se adequaram à proposta da entidade. 123 De acordo com esses números, percebemos que o resultado das atividades do SIM nesse primeiro momento, foi mais que satisfatório, se levarmos em consideração a meta estabelecida para o período que era o de treinar em torno de 1.000 adultos e desenvolver trabalhos educacionais com 250 crianças 124. A experiência do projeto era considerada inovadora, não apenas para a Bahia, mas para outras localidades do País. Autoridades de diferentes estados enviavam equipes interessadas em “ver e estudar o plano de recuperação da mendicância adotado pela AFAS e o projeto do SIM”, como foi o caso do governador de Sergipe que visava “implantar o mesmo serviço naquele Estado” 125 . Impressão semelhante teve Waldo César, “sociólogo e jornalista conceituado no País e internacionalmente”, quando da 120 BRITO, Charlene J. de. Presença Protestante Progressista em Feira de Santana: um Trabalho Ecumênico de Ação Social. Feira de Santana: Monografia, UEFS, 2008, p.54. 121 Idem., p.10. 122 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. SIM já coloca migrante no trabalho. Feira de Santana. Fevereiro de 1975, nº 418, p.03. 123 ACERVO SIM – Relatório Anual SIM – Um ano de Trabalho. Feira de Santana, 1975, p. 9-11. 124 Ver previsão no RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO SIM. Feira de Santana: 1973, p.10. 125 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE, Sergipe viu a AFAS. Feira de Santana: Julho de 1973, nº 192, p.03. 74 visita ao SIM, no qual “prestou assessoria sociológica e teológica (...) a pedido do Conselho Mundial de Igrejas e da coordenação local”. César ficou entusiasmado e classificou o SIM como “um novo e revolucionário elemento do itinerário do migrante”. 126 Não temos como analisar o impacto da criação do SIM para o País em geral ou mesmo o Nordeste, como noticiou o Jornal Feira Hoje. Sabemos apenas que em Feira de Santana o projeto teve o caráter, de fato, inovador. Mas, se considerarmos a atenção e assistência dada por instituições estrangeiras ao projeto, durante os anos de 1970 e 1980, podemos arriscar a dizer que realmente ele tinha reconhecimento. Não cabe aqui analisar o respaldo, ou não, da entidade. O que nos interessa no momento é análise dos trabalhos desenvolvidos durante os anos de atuação. Por ser um projeto elaborado com o propósito de analisar o fenômeno migratório e pôr em prática um serviço que teria como concepção norteadora “a humanização e integração do homem marginado”, ou ainda, que defendia uma “filosofia de ação com o homem e não apenas para o homem” 127 , constituiu em marco inicial no entendimento dos problemas sociais que afligiam Feira de Santana. O SIM já “surgiu como uma proposta de ação”, de luta pela sobrevivência, de integração, de transformação através do trabalho, entre outras, “quer seja atuando diretamente com a população migrante marginalizada na cidade, quer seja estudando o problema da migração”. Para pôr em prática esse plano, buscou “somar esforços a outros grupos e instituições (públicas ou privadas) que se preocupam com o homem. O homem aí visto, não como um ser isolado, mas, como integrante do contexto social”. 128 O desafio de migrar: “Lá não há ‘recurso’, a vida é ‘fraca’, veio caçar lugar mais ‘forte’” Entre os anos de 1970 e 1990, Feira de Santana recebeu um número significativo de migrantes, alguns só de passagem, outros com a intenção de fixar residência na localidade. Fugindo de secas, do desemprego provocado, sobretudo, pela recessão econômica, ou atraídos pelas possibilidades de emprego após a criação do COPEC, do 126 SILVA, Op. Cit., 2010, p.180. ACERVO SIM – SIM: um projeto de triagem, atendimento, capacitação e integração de migrantes, e de análises e estudo sobre o fenômeno migratório, notadamente nordestino, Feira de Santana: dezembro de 1972, p. 8. 128 MELLO, Tecla Dias de Oliveira. Uma Experiência de Dez Anos da Escola SIM. Dissertação de Mestrado, Salvador: UFBA, 1986, p.8 127 75 CIA e do CIS. Esses migrantes, na maioria das vezes, despreparados para o trabalho nos centros urbanos, quer seja na indústria, ou mesmo na construção civil, acabavam por aumentar “os bolsões de miséria e consequentemente da marginalidade e da violência”. Muitas das “famílias de retirantes”, aos poucos, “vão perdendo o sentido de esperança que carregavam durante a viagem. Vivem então um desencanto e, geralmente, (...) o desespero”, ao se depararem com a falta de emprego. 129 Esse deslocamento de pessoas, que foi mais perceptível, principalmente após os anos de 1970, para todo o País, foi tema de estudo de vários especialistas e preocupação de alguns órgãos, nacionais e internacionais, que analisar o fenômeno, como o Departamento de Imigração e Colonização (São Paulo), a SETRABES, a Iglesia y Sociedad em América Latina (ISAL) – responsável pela interlocução entre os cristãos e a sociedade latino-americana –, entre outros. Baseado no levantamento do Departamento de Imigração e Colonização, o sociólogo Waldo Cesar (1989) – que a pedido do CMI esteve em Feira de Santana nos idos de 1975 para prestar assessoria ao SIM e saiu da cidade impressionado com as atividades que eram desenvolvidas pela instituição. Esse presbiteriano, mentor intelectual e líder ecumênico, foi Secretário Executivo do Setor de Responsabilidade Social da Igreja da Confederação Evangélica do Brasil, um dos fundadores da revista Paz e Terra –,130 elencou algumas das principais causas da migração, que não destoaram daquelas encontradas pelo SIM. Eram sempre pessoas que ousavam sair de suas terras em busca de melhores oportunidades de emprego, cansados de viver na miséria, outras vezes fugindo das secas ou ainda, para se juntar aos familiares que já haviam saído em intempéries naturais anteriores. Não eram poucos os que tomavam o trem da morte, que entravam “na horrenda pista da miséria”, sozinhos ou acompanhados pelos familiares, todos com as “faces desgraçadas”, de bagagem só levavam a “dor [de](...) almas torturadas”. 131 Ousavam migrar por não suportarem mais a dura vida no sertão nordestino, sem chuva, sem trabalho, sem perspectiva. Buscavam sempre melhores condições de vida para si e para seus filhos. Ao serem questionados no setor de triagem do SIM quanto aos motivos que os levaram a abandonar suas raízes, as respostas eram quase sempre as mesmas, em 129 ARQUIVO DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE FEIRA DE SANTANA. REVISTA PANORAMA DA BAHIA. O outro lado da moeda. Ano 5, nº 89, 25 de set. de 1987, p. 4. 130 Para mais informações, ver SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: Evangélicos Progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 180; ou acesse a Entrevista realizada pela Editora Novos Diálogos em 20/06/2011. Disponível em: http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=596. Acesso: 20/01/2012. 131 Poema do Rev. João Dias de Araújo – Lido pela Professora Ithamar Bueno de Araújo em Entrevista concedida à autora em 07 de maio de 2007, Feira de Santana/Ba. 76 primeiro lugar, arriscavam tudo, que era quase nada, em busca de uma vida melhor, em segundo estava o desemprego ou a seca. 132 Os estudos do historiador Charles Santana (1998) sobre a migração na Bahia estabelecem como marco para esse processo de abandono da cidade de origem os anos de 1960 e 1970. “Na verdade, até a década de 1960, os trabalhadores rurais não costumavam afastar-se de seu canto ‘vivia num lugar reservado’”. Quando ousavam se aventurar por terras estranhas, assim faziam devido a “situações particulares provocadas por desentendimentos com ameaças de morte, por exemplo, ou por personalidades aventureiras individuais, casos raros seguramente.” Para uma população do campo, que conseguia da terra tudo que necessitava para sobreviver, “conhecer outras cidades fora da região não se constituía em preocupação” não consistia em algo comum. Nas áreas rurais eles tinham todas as “suas necessidades físicas e espirituais satisfeitas”. 133 Convém ressaltar que para Feira de Santana o crescimento demográfico causado pela chegada ou passagem de “migrantes nordestinos que buscavam, na Princesa do Sertão, o maná do céu para mitigar as necessidades básicas, trabalhar e até enriquecer no comércio” já era registrado desde os idos de 1930.134 O avanço do comércio, de certa forma, contribuiu para que houvesse uma procura maior pela cidade. O aumento no número de pessoas foi tão expressivo que para essa década a população sofreu um acréscimo na “ordem de 50%, contrastando com os dois decênios imediatamente anteriores”.135 Todavia, para o período proposto neste trabalho, essa média foi ultrapassada. De 1960 até 1991, os habitantes da área urbana saltaram de 69.884 para 349.557. 136 Um avanço mais que significativo. Entre os retirantes que ousavam migrar, nem todos tinham um local de destino especificado, o que não era uma particularidade apenas dos migrantes que chegavam à Feira de Santana. Waldo Cesar (1989), por exemplo, em seu artigo As migrações internas no Brasil cita o caso de uma família que estava se deslocando a pé pela RioBahia, rodovia que liga o Nordeste às regiões do Sul e Sudeste, ao ser inquirida para qual destino pretendia seguir disse: 132 Ver Tratamentos Estatísticos de 1973, 1974 e 1975. Nesses relatórios os Nordestinos aparecem em número maior entre aqueles que chegavam ou estavam de passagem por Feira de Santana. 133 SANTANA, Charles D’ Almeida. Fartura e Ventura Camponesas: trabalho, cotidiano e migrações – Bahia (1950-1980). São Paulo: Annablume, 1998, p. 86. 134 SILVA, Op. Cit., 2010, p. 135. 135 OLIVEIRA, Clóvis Frederico Ramaiana Moraes de. Um poeta contra a ordem. In: MORAIS. Ana Angélica V. de.; PORTO, Cristiane de M.; ASSUNÇÃO, Lucidalva Correia. (Orgs.). Aloisio Resende: poemas; com ensaios críticos e dossiê. Feira de Santana: UEFS Editora, 2000, p. 111. 136 Vide tabela 1, página 79. 77 -Para onde vão? - Não sabemos não. Onde dé para ficá e trabaiá. - Por que saíram de onde estavam? - Ah, o patrão num deixava a gente nem plantá quiabo. Assim num dianta. 137 Todavia, apesar de não possuírem um destino especificado, sabiam muito bem o que almejavam. Eram comuns entre os migrantes as respostas sobre as pretensões ao migrar. Quase todos tinham como foco uma cidade que propiciasse oportunidades para o trabalho, educação dos filhos, quando estes eram acompanhantes, e melhores condições de moradia, apesar de não saberem em qual localidade fariam pouso. Dos retirantes analisados no Tratamento Estatístico (SIM/SETRABES) em Feira de Santana, o interesse era chegar a outras localidades do Nordeste e ao Sudeste. Aqueles que tinham como pretensão alcançar as cidades do Nordeste, temos um percentual de 19,27% para 1973, 17,19% para 1974 e 41,60% no ano de 1975. 138 Todavia, a preferência pelo Sudeste era bem maior. Entre os que “sonha[vam] com o dia de abastança”, que pensavam “no dinheiro, no lar sem aflições, [n]a vida a prosperar”, 139 ou melhor, que viam essa região como um Oasis, os números são mais expressivos, 37,16% em 1973, 33,14% em 1974 e 41,60% em 1975. 140 Cabe ressaltar que os dados para os anos de 1973 e 1974 referentes ao Nordeste não são tão precisos quanto para 1975, pois o SIM/SETRABES, nos dois períodos anteriores a 1975, utilizou outra forma de categorização. Enquanto na última análise, todos que migravam no Nordeste foram classificados na mesma categoria, como sempre ocorreu para o Sudeste, nos Relatórios anteriores, os que migravam na Bahia não eram contabilizados entre os nordestinos, seguiam a mesma divisão regional utilizada pelo IBGE até meados de 1970, quando esse estado estava localizado na região Leste, juntamente com Sergipe, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O percentual quatro vezes maior da população feirense entre os decênios de 1960 a 1991, provavelmente, foi mais efetivo devido a cidade se encontrar localizada em uma “posição geograficamente estratégica”, um entroncamento rodoviário, o que segundo Cruz (1999) “facilitou tanto o crescimento de atividades produtivas e terciárias 137 CESAR, Waldo. As migrações internas no Brasil. In: Migraciones Internas em America Latina. Iglesia y Sociedad en América Latina – ISAL, Montevideo – Uruguay, 1968, p. 29. 138 Ver Tratamentos Estatísticos de 1973 (tabela XV, s.p.), 1974 (tabela XV, s.p.) e 1975 (tabela XV, p. 23). 139 Poema do Rev. João Dias de Araújo. Op. Cit. 140 Tratamentos Estatísticos. Op. Cit. 78 (...), quanto [esse](...) crescimento populacional”, já que para se chegar a outras regiões do Brasil, era necessário antes, passar por Feira de Santana. 141 Se levarmos em consideração que esse crescimento iniciado na década de 1960, permaneceu no mesmo ritmo nas décadas subsequentes, e “dêsse crescimento demográfico”, as “consequências negativas” foram tamanhas, não apenas para o município referido, mas para outras cidades que passaram pelo mesmo processo, verificaremos que nas áreas de migração mais acentuada, foi recorrente “o aumento da mendicância, multiplicação de habitações insalubres, desemprêgo, prostituição, marginalização do menor, etc”. 142 Outrossim, nessas décadas, foi possível perceber certo recrudescimento nos números referentes à população residente no campo. Enquanto os habitantes urbanos quadriplicavam, os moradores das áreas rurais decaíam de 71.873 nos anos de 1960, para 56.890 em 1991. Mesmo não mantendo um decréscimo similar ao índice de crescimento urbano, podemos notar que as pessoas que habitavam os arredores de Feira de Santana começaram, ainda que timidamente, a procurar as cidades. Vide tabela Tabela 1 - Crescimento Populacional de Feira de Santana, Censos demográficos (1960-1991). 1960 1970 1980 1991 Total 141.757 190.076 291.504 406.447 População Urbana 69.884 134.263 233.905 349.557 População Rural 71.873 55.813 57.599 56.890 Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diante desses números, podemos inferir que a população que chegou ou que passou pelo município feirense no decorrer dos trinta anos exemplificados na tabela, em quase totalidade, não era nascida na localidade. A população feirense era composta por 141 CRUZ, Rossine Cerqueira da. A Inserção de Feira de Santana nos Processos de Integração Produtiva e de Desconcentração Econômica Nacional. Campinas: Tese de Doutorado, UNICAMP, 1999, p. 277. 142 TANAAMI, Tomiko. Serviço de Assistência ao Migrante. In: Migraciones Internas em America Latina. Iglesia y Sociedad en América Latina – ISAL, Montevideo – Uruguay, 1968, p. 93. Tomiko Tanaami foi uma das colaboradoras do SIM ainda na elaboração do projeto para a fundação da entidade. 79 homens e mulheres de várias áreas do Brasil, de outras cidades do Nordeste. De acordo com os dados do SIM, a maioria era nordestina, ao menos no início da década de 1970, 52,09% (1973), 46,81% (1974) e 29,58% (1975). Esses números tenderiam a aumentar caso incluíssemos a Bahia ao Nordeste, já que nos relatórios, esse Estado foi separado da sua região, conforme as definições do IBGE, anteriores a 1970. A partir desses Tratamentos Estatísticos, foi possível perceber os fatores que levavam as pessoas a abandonarem suas cidades, traçar um perfil dos migrantes e de suas famílias de acordo com a faixa etária, o nível de instrução, sexo, estado civil, procedência, última profissão exercida, entre outros. Das análises para os anos de 1973, 1974 e 1975 143 , podemos concluir que a maioria dos que migravam eram do sexo SIM/SETR ABES masculino, conforme a tabela abaixo: Tabela 2 - Migração por Sexo (Dados SIM/SETRABES). Total de Entrevistados Sexo Masculino Feminino Total Masculino (%) Feminino (%) 1973 1.989 331 2.320 85,73 14,27 1974 251 63 314 79,93 20,07 1975 330 69 399 82,71 17,29 Fonte: Relatórios Estatísticos, SIM/SETRABES (1973,1974 e 1975). Nos relatórios anuais não há uma explicação dessa tendência entre os homens pela migração, porém, no de 1975, Um ano de Trabalho, por exemplo, percebemos uma tentativa de explicar o baixo índice feminino. As prováveis razões estariam ligadas à desqualificação profissional, o que não pode ser considerada uma característica válida somente para as mulheres, já que os homens também não possuíam experiência nos trabalhos que eram ofertados nas áreas urbanas. Classificavam a timidez para enfrentar situações novas como outra possibilidade, um pensamento sexista se analisamos à luz 143 Temos conhecimento de apenas três números de Tratamentos Estatísticos. Não sabemos se a conclusão se deu após a publicação dos três ou se ainda existiram outros relatórios similares. Na documentação analisada não encontramos nenhuma menção ao período em que a parceria SIM/SETRABES foi extinta. Cabe ressaltar que os dados para tais análises eram conseguidos a partir dos levantamentos realizados no ano anterior à publicação. O Tratamento Estatístico de 1973, por exemplo, o primeiro que foi produzido teve os dados extraídos a partir dos questionários aplicados no decorrer do triênio 1970, 1971 e 1972. Nos anos seguintes, a mesma metodologia foi adotada. 80 do movimento feminista que ganhava espaço no Brasil nesse período, mesmo sob o domínio militar. Outro fator seria a maternidade, que também adiaria ou cancelaria a possibilidade de deslocamento. A única chance para a mulher seria migrar quando já possuísse uma oportunidade de emprego em vista e ligada aos afazeres domésticos. Não é de se estranhar esse tipo de pensamento em uma entidade de maioria masculina, em que os ambientes eram delimitados, assim como os cursos profissionalizantes. Havia atividades masculinas e as tipicamente femininas. 144 Os números publicados em1973 apontaram 85,73% de homens, contra um total de apenas 14,27 % de mulheres. Nos anos seguintes a mesma situação foi percebida, as pessoas do sexo masculino entre aqueles que mais estavam propensos à migração. Para os três anos a tendência ao deslocamento era mais comum entre os casados, apenas em 1975 percebemos uma inversão nesses números. Para 1973, por exemplo, os casados estavam entre os que mais deixavam suas cidades, correspondendo um total de 62,59%, enquanto que os solteiros contabilizavam 22,68%. Em 1974, os casados permaneceram com maior índice, 47,76%, diante de 28,02% de solteiros. Já em 1975 o número de casados decresceu para 37,09%, ao passo que o número de solteiros sofreu um aumento significativo, passando a ser 40,85%. 145 Apesar dos relatórios apresentarem o crescimento expressivo de solteiros para o ano de 1975 e certo decréscimo entre os casados, precisamos estudar com cautela esses dados. O primeiro ponto que devemos ponderar diz respeito às categorias utilizadas pelo SIM/SETRABES no processo de análise. Para estes, assim como para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), só eram considerados casados àqueles que viviam em união civil e as uniões consensuais eram registradas, em 1973 e 1974, no grupo vive maritalmente. Em 1975 a categoria ganhou uma nova nomenclatura, as pessoas que antes viviam maritalmente, passaram a ser amasiadas. Se deixarmos de lado tais formalidades e somarmos os números relativos às variáveis casado e vive maritalmente/amasiado, para todo o período temos a predominância de migrantes que possuíam algum compromisso com outrem, provavelmente, com esposa e filhos. Outro fator importante se refere à migração entre as pessoas do sexo feminino. De acordo com um dos diretores da entidade, o Rev. Josué da Silva Mello, em 1977, no texto Internal Migration in Brazil and the teaching of minimum professional skills, está 144 Conferir Relatório Anual - Um Ano de Trabalho. Feira de Santana, 1975, p. 10. Dados extraídos dos Tratamentos Estatísticos de 1973 (tabela III, s.p.), 1974 (tabela III, s.p.) e 1975 (tabela III, p. 09). 145 81 registrado que dos dez mil migrantes que passaram pelo processo de triagem do SIM, 80% deles eram homens e apenas uma pequena porcentagem era composta por mulheres. Estas eram esposas que foram abandonadas por seus companheiros, algumas viúvas, ou jovens que se tornariam empregadas domésticas ou prostitutas nas cidades. Nas palavras do Reverendo Mello, Of the ten thousand who answered the questionnaires, 80% were men and 87% in the 17 to 41 age bracket. The migrant is, therefore, predominantly young, a potential labor force who migrates in search of better opportunities. The small percentage of women is composed of wives abandoned by their husbands, of widows or single women who become prostitutes in the cities or domestic servants. 146 Todavia, os Tratamentos Estatísticos dizem o contrário. Quanto à quantidade de mulheres, realmente, os dados indicam que estas estavam em minoria, todavia, não é possível relativizar e com isso afirmar que elas eram viúvas, abandonadas, ou propensas à prostituição. Encontramos a mesma dedução no Relatório Anual - Um Ano de Trabalho, porém, nesse documento há apenas suposições que não são evidenciadas em momento algum, nem mesmo no relatório citado ou outro dos anos posteriores. 147 Nos Tratamentos Estatísticos, os migrantes eram divididos em dois grupos, entrevistados e composição do grupo familiar dos entrevistados. Das informações presentes por grupo familiar temos na categoria sem idade ativa, ou seja, menores de 13 anos, um número significativo de crianças para as três décadas analisadas: 65,85% (1973), 61,69% (1974) e 41,05% (1975), sendo assim, precisamos de prudência diante dos números, tendo em mente não ser tão comum os pais (os homens) ao se aventurarem em terras estranhas levarem consigo os filhos menores. Nesses casos, esses migrantes não saiam sozinhas, as mães, provavelmente, se encontravam presentes, portanto, não podemos cair no deducionismo de que as mulheres eram quase em totalidade, divorciadas, viúvas ou solteiras. Isso não implica que entre elas não tenha existido aquelas que cuidavam sozinhas dos filhos. 146 ACERVO SIM. MELLO, Josué da Silva. Internal Migration in Brazil and the teaching of minimum professional skills. In: Migration Today: corrent, problems and Christian responsibility. nº 21, 1977. Este estudo publicado pela Secretaria para Migração, Unidade de Justiça e Serviço, contou com uma produção do Rev. Mello, que afirmava ser o número de mulheres sem parceiro, as que mais migraram no período, p. 29-30. Tradução livre do excerto: Dos dez mil que responderam aos questionários, 80 % são homens e 87% na faixa etária entre 17 a 41 anos. O migrante é, portanto, predominantemente jovem, uma força de trabalho em potencial que migra a procura de melhores oportunidades. A pequena porcentagem de mulheres é formada por esposas abandonadas por seus maridos, de viúvas ou mulheres solteiras que se tornariam prostitutas nas cidades ou trabalhadoras domésticas. 147 Relatório Anual - Um Ano de Trabalho. Feira de Santana, 1975, p. 10. 82 Caso optemos por tratar apenas as mulheres do grupo entrevistados, sem qualquer relação com o grupo familiar, e englobarmos as categorias viúvo, separado, desquitado e não declarado, nem assim teremos um valor que corresponda a essa maioria declarada pelo Rev. Mello, posto que os dados são referentes aos homens e não às mulheres que foram entrevistadas pela entidade. Não há qualquer diferenciação entre os sexos quando o quesito a ser percebido é o estado civil. Apesar de estarmos mencionando somente dados dos Tratamentos Estatísticos referentes a três anos, e não sabermos quais os membros declarados no grupo familiar eram filhos de mães separadas, viúvas e solteiras, nos pareceu bastante exageradas as afirmações do autor. De acordo com o Sociólogo Ildes Oliveira, que trabalhou no SIM no período, “não teve mulheres sozinhas, ou elas estavam com a família ou eram homens”. Entre os migrantes “a maioria era de casais, vinha a família toda. Agora, tinha muitos jovens, homens”. 148 Não temos informações suficientes para todo o período que abrange a pesquisa, porém, ao menos nos quatro primeiros anos em que o SIM começou a atuar, período do qual possuímos dados, a afirmação do Rev. Mello não pode ser aplicada. Nos Relatórios Anuais, produzidos pela instituição, dos treze anos que tivemos acesso 149 , somente em 1975 consta o estado civil dos que passaram pela triagem. Não houve em nenhum deles a relação dos dados estatísticos declarados. Neste levantamento correspondente ao ano citado, os solteiros apareceram como o grupo em que a migração foi mais acentuada. Dos 1.595 entrevistados, 996 eram solteiros, ou seja, 62,45%. Os números para os casados giraram em torno de 498, o que correspondeu a 31,22%. Um dado interessante presente no relatório de 1975 está nas suposições acerca dos motivos que levaram mais os solteiros a se aventurarem, em detrimento dos casados. a) O migrante solteiro está mais livre para cortar os laços familiares e culturais e partir à procura dos Centros que lhe possam oferecer melhores oportunidades de trabalho. b) Por outro lado, os casados, com maiores encargos familiares, migram, as vezes só ou acompanhados, na tentativa de conseguir aumentar a renda para proporcionar um melhor bem-estar a si e à família. 150 148 Entrevista com o Sociólogo Ildes Ferreira de Oliveira, concedida à autora em 12 de julho de 2012, em Feira de Santana/BA. 149 Tivemos acesso aos Relatórios Anuais para os anos de 1973, 1975, 1977, 1978, 1979, 1981, 1983, 1984, 1985, 1986, 1987, 1988, 1989. 150 Relatório Anual - Um Ano de Trabalho. Feira de Santana, 1975, p. 13. 83 Conforme o Relatório, os solteiros estavam mais propensos a migrar, enquanto que os casados se encontravam mais presos à terra de origem devido às responsabilidades com os familiares. Entretanto, nos Tratamentos Estatísticos, não existe qualquer indício de que entre aqueles que não possuíam vínculos familiares a migração tenderia a ser mais intensificada. Percebemos, pelo contrário, certa oscilação para cada ano, enquanto em 1973 e 1974, o número de casados retirantes era maior, em 1975 ocorre o oposto. Cabe ressaltar que os dados para 1973 correspondem ao triênio 1970, 1971 e 1972, portanto, três anos em que os casados permaneceram no mesmo patamar. Diante dessas evidências, consideramos difícil afirmar que havia um grupo que estava mais disposto a migrar. Nas imagens dos migrantes produzidas pela instituição, também não nos apresentaram indícios de que em maioria os que saiam em busca de melhores condições de vida, eram solteiros ou casados. Essa documentação também evidencia a impossibilidade de classificar os retirantes como de uma ou outra categoria. Dos recémchegados retratados pelo SIM, em aproximadamente 150 fotos, percebemos a existência daqueles que migravam com seus familiares, bem como dos que ousavam partir sozinhos. Muitos dos recepcionados na rodoviária do município de Feira de Santana, ou que eram encaminhados para a entidade, também chegavam com crianças pequenas, conforme já apontamos nos dados dos Tratamentos Estatísticos, menores de 13 anos, provavelmente eram homens acompanhados por suas esposas. 84 Figura 2 - Migrantes recém-chegados – Rodoviária: Feira de Santana Fonte: ACERVO SIM A família em desembarque no Terminal Rodoviário, observadas pelas estudantes, que provavelmente faziam parte do corpo discente do Colégio Gastão Guimarães, localizado próximo à rodoviária, não era composta por poucos membros. Notemos que seis das sete pessoas que se encontram na área de desembarque parecem pertencer ao mesmo grupo familiar. Portanto, não eram homens sozinhos que migraram, muitos saiam de suas cidades acompanhados das esposas e de filhos, como pode se observar na imagem. Como se tratava de garotas ainda com pouca idade, provavelmente a mãe estava a acompanhá-los, embora não apareça no momento em que o fotógrafo capturou a cena. Diante dos dados apresentados podemos deduzir algumas possibilidades: 1) essa disposição maior entre os casados à migração estava em possuírem uma família para prover, dessa forma, precisavam sair em busca de novas oportunidades de emprego; 2) é mais fácil para um solteiro, quando não decidia por migrar, resistir às intempéries naturais ou as recessões econômicas, tendo em vista que não existiam outras pessoas que dependiam dele, por isso, nem sempre necessitava sair da cidade de origem nos momentos de crise; 3) as mulheres mencionadas nos relatórios, apesar de não haver a 85 distinção entre os homens e as mulheres de acordo com o estado civil, provavelmente eram as esposas e filhas dos retirantes. Estas precisavam acompanhar o cônjuge ou o pai quando este optava por sair em busca de oportunidades; 4) como o número de mulheres é bem menor, podemos considerar também que entre os casados haviam aqueles que deixavam as suas famílias e saiam em busca de trabalho, portanto, era um migrante que pretendia voltar assim que a situação melhorasse ou ainda, procuraria se estabilizar antes de retirar a família da cidade de origem. Percebemos também que essa população migrante era quase em totalidade de pele negra, apesar de termos selecionado entre as imagens produzidas em eventos promovidos pelo SIM, algumas que apontam uma população branca o que não era sua totalidade. Isso atesta o que tem sido discutido nos dias atuais com relação às oportunidades de educação e emprego para as pessoas negras, quando em pleno século XXI eles ainda figuram entre os que ganham menos, poucos estudaram, não são muitos os que ingressaram no Ensino Superior e estão em ocupações tidas como inferiores no mercado de trabalho. Durante as décadas discutidas neste estudo, percebemos que os que mais partiam em busca de melhores condições de vida, eram homens e mulheres de cor negra e que não possuíam instrução. Tanto os adultos, quanto às crianças em idade escolar, eram analfabetos ou analfabetos funcionais. Eram raros aqueles que haviam completado o Ensino Médio. Apenas 14 tinham concluído o Colegial em 1973, 1 em 1974 e em 1975 não foi possível encontrar nenhum. 151 Voltaremos a falar sobre a instrução nas páginas seguintes. Ainda segundo a composição familiar e os que estavam mais propensos à migração, percebemos na imagem a abaixo, que apresenta retirantes enfileirados na chegada ao SIM, não a presença de solteiros, mas uma família completa se aventurando por terras estrangeiras. A disposição com que estes se encontram organizados, aponta para a normatização da entidade, visto que os migrantes eram ordenados, para passarem pelo processo de triagem, no qual seriam selecionados aqueles que seriam atendidos e os que deveriam seguir viagem, por não se enquadrarem na proposta do programa de capacitação, geralmente os que não tinham disposição para ficar por três meses na instituição. 151 Vide tabela por nível de instrução. 86 Figura 3 - Migrantes recém-chegados/as à Feira de Santana Fonte: ACERVO SIM A imagem parece ter sido captada de improviso, sem qualquer organização anterior. Esses retirantes, com semblantes tristes, de maioria negra, provavelmente formavam uma mesma família, o que comprova o que temos defendido até então, a ideia de que não era comum mulheres migrarem sozinhas, ou os homens levarem consigo os filhos menores sem as esposas. O que nos faz pensar que se tratava de parentes, em primeiro lugar é a cor da pele, quase todos, com exceção da quarta mulher, contando da esquerda para a direita, possui cútis mais clara e cabelos lisos. Pela aliança no dedo da mão direita, imaginamos que esta, estivesse noiva do homem que aparece na fotografia ao lado da qual imaginamos ser a matriarca do grupo familiar e já vivia maritalmente, pois traz consigo um filho de aparentemente, um ano e meio ou dois anos de idade. Em segundo lugar, as bolsas, da terceira e quarta mulher, ainda da direita para a esquerda, compradas, provavelmente, no mesmo lugar por se diferenciarem apenas pelo formato da fivela e pelos detalhes metálicos. O estado de conservação nos induz a pensar que foram adquiridas dias antes de decidirem por migrar. Outro fator que demonstra não se tratar de mulheres solteiras, é a aliança na mão esquerda da terceira 87 mulher, que também migrou acompanhada da sua prole, um filho pequeno e filha que aparecem na frente na imagem. A semelhança no formato do rosto e corpo nos fez chegar a tais elocubrações. Além da evidência demonstrada na fotografia da predominância de negros entre a população migrante atendida pelo SIM, essa mesma constatação foi notada por Jorge Santana (2010), para os decênios de 1960 e 1970 ao estudar o Seminário Teológico Batista do Nordeste (STBNE) em Feira de Santana. Entre os seminaristas que ingressaram no Instituto Bíblico Batista do Nordeste (IBBNE), a maioria possuía a pela negra, procedentes de outras cidades do Nordeste, portanto, uma população em trânsito, “refém da ausência de política públicas e entregues ao oportunismo político das oligarquias, do mandonismo político e da indústria da seca”. 152 Eram “homens, mulheres, velhos e crianças”, cansados dos maus-tratos da vida, seguindo no trem da morte, “espremidos no aperto da sujeira”, sem muitas perspectivas, “filho[s] da amarga fome e da seca agreste”. 153 Uma população desassistida, de maioria negra, empobrecida, levando consigo o peso de anos de exploração, em suas faces a herança execrável da servidão, o corpo já cansado da peleja diária, da luta pelo pão, pela terra, pelo emprego, pelo respeito, pelo direito de ir e vir. Conforme percebemos nos dados já apresentados sobre os motivos que os encorajaram a migrar, essas pessoas ainda sonhavam com melhores condições de vida, e pasmem, pois esse desejo, em muitos casos, não ia muito além da vontade de ter as necessidades básicas atendidas. Idealizavam um mundo com mais oportunidades para si e para os filhos. Almejavam um futuro diferente para a família, mesmo que em terras estranhas. Dos estudantes do STBNE em Feira de Santana, analisados por Santana (2010), convêm acrescentar que apesar da condição sócio-étnica estar muito próxima da evidenciada entre os migrantes atendidos pelo SIM, ousamos dizer que eles se encontravam em condições mais favoráveis, visto que possuíam alguma instrução. Trabuco (2009), que analisou mais a fundo os dados acerca da escolaridade dos ingressantes no Instituto Bíblico Batista do Nordeste (IBBNE), para as décadas de 1970 e 1990, percebeu que entre eles, alguns estavam concluindo o primeiro grau, outros possuíam o primeiro ou o segundo graus completos. Os dados, embora reveladores, não 152 SANTANA, Jorge Luiz Nery de. Práticas e Representações Étnicas nas Narrativas Religiosas dos Batistas em Feira de Santana (1947-1988). Feira de Santana: Dissertação de Mestrado, UEFS, 2010, p. 116. 153 Poema do Rev. João Dias de Araújo – Lido pela Professora Ithamar Bueno de Araújo em Entrevista concedida à autora em 07 de maio de 2007, Feira de Santana/Ba. 88 são suficientes para afirmarmos que entre esses migrantes batistas havia um número significativo de letrados, já que para os decênios de boom populacional, apenas 167 homens fizeram o pedido de admissão. Quantitativo ainda mais irrisório de mulheres, apenas 85. 154 Enquanto, que anualmente o SIM recebia uma quantia superior a mil migrantes. Ante o que foi exposto até então, arriscamos traçar um perfil da população atendida pelo SIM, caracterizando-a como de maioria nordestina, negra ou mestiça, em totalidade masculina, empobrecida, desempregada e/ou fugindo das intempéries naturais, quase sempre migrava usando transportes rodoviários ou a pé, sabia apenas o ponto de partida, mas desconhecia a localidade a qual se destinavam, apesar de pretenderem chegar ao Sudeste. Partia em busca de melhores condições de vida, era composta por um número significativo de iletrados, e além de tudo, sem qualificação profissional para os trabalhos ofertados nos centros urbanos. Foi pensando nessa clientela em busca de “oportunidades de estudo, de aprendizagem de uma profissão e de regularização da sua documentação” que a escola do SIM elaborou seu programa de alfabetização. 155 “Escola do SIM dá profissão”: uma Universidade Popular para o migrante Com essa chamada o jornal Feira Hoje, em maio de 1975, divulgou a notícia referente ao trabalho realizado pela Escola do SIM. A mesma dizia: “está em pleno funcionamento a Escola SIM, sob a direção da professora Tecla Mello, em convênio com a Secretaria de Educação do Estado, contando com a colaboração de outros professores”. Este jornal noticiava os primeiros resultados alcançados pelo SIM após a implantação, não deixando de enfatizar que entre os assistidos, “todos os matriculados, participam de cursos profissionalizantes, inclusive as mulheres e menores” 156 . Tal informação aponta para o fato de que os que estavam em processo de treinamento, tinham que participar das aulas na Escola do SIM e não apenas aprender uma profissão, aprender a assinar o próprio nome era prioritário. 154 TRABUCO, Zózimo Antônio Passos. O Instituto Bíblico Batista do Nordeste e a Construção da Identidade Batista em Feira de Santana (1960-1990). Salvador: Dissertação de Mestrado, UFBA, 2009, p. 116. 155 MELLO, Tecla Dias de Oliveira. Uma Experiência de Dez anos da Escola SIM. Salvador: Dissertação de Mestrado, 1986, p. 12-13. 156 ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. Escola do SIM dá profissão. Feira de Santana: Maio de 1975, nº 453, p.03. 89 A partir do levantamento do perfil dos assistidos, verificou-se que a maioria dos que ali chegavam, de acordo com o levantamento de 1973, dos 314 analisados a princípio, por nível de instrução, 156 eram analfabetos (44,68%), 85 semi-analfabetos (27,07%), 28 tinham o primário completo (8,91%), 17 o ginasial 157 completo (6,05%), 11 o ginasial incompleto (3,50%), 10 o ginasial incompleto (3,19%), o colegial, apenas 1 (0,32%), e não declarado 4 (1,28%). 158 Nota-se que a maioria dos migrantes não possuía instrução ou eram semi-analfabetos. Os números não são diferentes para aqueles que tiveram que interromper seus estudos, conseguindo concluir apenas o primário. Conforme tabela abaixo: Tabela 3 - Migrantes por nível de instrução. Total Não Declarado Colegial Outros Ginasial Incomplet o Ginasial Completo SemiAnalfabet o Primário Incomplet o Primário Completo Nível de Instrução Analfabet o SIM/SETRABES Total de Entrevistados 1973 1.292 - 633 209 34 18 - 14 16 2.320 1974 156 85 28 19 11 10 - 1 4 314 1975 160 109 51 41 21 7 4 - 6 399 Fonte: Relatórios Estatísticos, SIM/SETRABES (1973,1974 e 1975). Como o relatório de 1973 abrangia três anos (1970, 1971 e 1972), temos nos cinco anos iniciais do SIM um público carente de educação, sem muitas expectativas e com uma imagem negativa da escola, “uns por já terem passado por ela, outros por informações”. Percebiam-na como “algo indiferente a seu mundo”, ao alcance de quem pudesse pagar ou tivesse tempo disponível para se dedicar, o que não era o caso deles, que precisaram trabalhar para sobreviver desde muito cedo. 159 Em 1975, um ano após a inauguração da entidade e seu funcionamento em sede própria, iniciaram as atividades na Escola SIM. Esta surgiu como parte complementar do Projeto SIM e com uma metodologia que buscava dialogar com a realidade dos 157 O Ginasial é o que hoje denominamos Ensino Fundamental II, ou seja, do 6º ao 9º ano de Primeiro Grau. O Colegial é o mesmo que Ensino Médio, atualmente. 158 ACERVO SIM – TRATAMENTO ESTATÍSTICO II. Migrações Internas: Estudos e Pesquisas. 1974, tabela IV. Dados baseados em Relatórios do SIM de 1973, p. 14. 159 MELLO, 1986, Op.Cit. 90 assistidos. No decorrer desse período, a instituição recebeu uma clientela de 1.595 migrantes, porém, percebemos um decréscimo na quantidade de analfabetos e semianalfabetos se comparado aos anos anteriores. Do mesmo modo, notamos um crescimento, embora relativo, no número de pessoas com o primeiro e o segundo graus completos. Vejamos esses índices: Tabela 4 - Migrantes por Nível de Instrução (1975) Nível de Instrução nº % Analfabetos 191 11,95% Semi-analfabetos 86 5,40% 1º Grau Nível I Incompleto 670 42,00% 1º Grau Nível I Completo 169 10,60% 1º Grau Nível II Incompleto 255 15,99% 1º Grau Nível II Completo 128 8,03% 2º Grau 83 5,20% Fonte: Relatório Anual – Um Ano de Trabalho (Setor de Triagem) Ao visualizarmos os dados da Tabela 3 graficamente, verificaremos o quanto é mínima a cifra de migrantes que havia chegado ao Curso Colegial, imperceptível ante as estatísticas dos analfabetos, semi-analfabetos ou que possuíam apenas o Primário incompleto. Mesmo para aqueles que tinham concluído o Ginasial, as números são ínfimos, se comparados aos dos sem instrução. Confrontando esses números com os percentuais anteriores, da Tabela 4, veremos que de fato houve uma diminuição ano a ano no número de analfabetos, enquanto que em 1973 chegava em torno de 80%, no ano de 1975 o total foi de apenas 11,95%. Não podemos esquecer que o número de retirantes para cada período foi diferente, principalmente no primeiro ano funcionando na sua própria sede, quando foi ampliada a capacidade do SIM e a amostra foi maior. 91 Figura 4 - Gráfico 1 – Migrantes por Nível de Instrução. 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% Não Declarado Colegial Outros Ginasial Completo Ginasial Incompleto Primário Completo Primário Incompleto Semi-Analfabeto 1973 1974 1975 Analfabeto Fonte: Relatórios Estatísticos, SIM/SETRABES (1973,1974 e 1975). Sabemos que esse levantamento foi apenas uma amostragem, não temos informações que indiquem a continuidade dessas estatísticas para todo o período proposto para esta pesquisa, no entanto, como ainda hoje o País sofre com o drama do analfabetismo, e o Nordeste até então figura entre as regiões na qual esse problema se encontra mais acirrado, esses números, com algumas ponderações, ainda permanecem atuais. Não eram apenas entre os adultos que esses índices eram altos, nos relatórios também encontramos entre o grupo familiar dos entrevistados as mesmas cifras para analfabetos e os semi-analfabetos. Figura 5 - Gráfico 2 – Nível de Instrução do Grupo Familiar dos Migrantes. 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% Não Declarado Outros Ginasial Completo Ginasial Incompleto Primário Completo Primário Incompleto Semi-Analfabeto Analfabeto 1973 1974 1975 Sem Idade Escolar Fonte: Relatórios Estatísticos, SIM/SETRABES (1973,1974 e 1975). 92 Dentre esses entrevistados, de maioria analfabeta, e pais de filhos igualmente sem instrução, parte significativa era proveniente da área rural ou tinha como última atividade exercida, o trabalho no campo. O SIM teria, portanto, duas tarefas, uma seria a alfabetização e a outra a capacitação para um tipo de trabalho que muitos não tinham o treinamento exigido. Ao Setor de Educação (SETED), cabia a função de realizar “todas as atividades de educação formal e informal para a população migrante e a população da comunidade onde se localiza[va] o SIM”, através de “Cursos (Alfabetização, 1º grau, Supletivo, Artesanatos, outros), Oficinas, Outros”. Já ao Setor de Treinamento Profissional (SETOP), cabia a tarefa de “desenvolver cursos de iniciação profissional para os migrantes internos e população de baixa renda moradora na comunidade”.160 Vale ressaltar que eram oito os sistemas de prestação de serviços do SIM, todos integrados pela Assessoria de Planejamento e Controle (ASPLAN), citamos apenas dois que nos interessam nesse momento. Diariamente, antes de chegar ao SETOP, o migrante teria um cronograma a cumprir. “Eles levantavam, tinha o café da manhã [Setor Alimentar (SETAL)], depois do café da manhã eles tinham o encontro comigo [professora Tecla Mello - SETED] e depois da escola que era a continuação”. Percebe-se que a todos os que não possuíam escolarização, era necessário o comparecimento à escola e “depois, à tarde, eles tinham o treinamento profissional. (...) À tarde e a noite tinha [curso] profissionalizante, a depender do turno que o migrante escolhia” 161. Essa escolarização não era apenas para ensinar a ler e a escrever. De acordo com o professor Raimundo dos Santos – responsável pela profissionalização dos migrantes, era com ele que os retirantes aprendiam uma profissão, a exemplo de, serralheiro, soldador, armador, entre outras – havia toda uma “preparação, que discutiam de onde eles vinham e pra onde eles iam entrar, o que eles iam enfrentar”, para só depois chegar de fato a capacitação, na qual, além do trabalho prático, aprenderiam “como era a situação dentro de uma empresa. Era totalmente diferente do trabalho deles na zona rural” 162. Essa forma de treinamento era comum para o período. Não apenas Feira de Santana, através do SIM, o SENAI e o SESI, incluíam em suas atividades de 160 ACERVO SIM – SIM: um projeto de triagem, atendimento, capacitação e integração de migrantes, e de análises e estudo sobre o fenômeno migratório, notadamente nordestino, Feira de Santana: dezembro de 1972, p. 34-35. 161 Entrevista com a Professora Tecla Mello, concedida à autora em 14 de julho de 2008, em Salvador/Ba. 162 Entrevista com o Professor Raimundo dos Santos, concedida à autora em 12de agosto de 2008, em Feira de Santana/Ba. 93 capacitação a tônica do sistema capitalista de controle do tempo e disciplina. O tipo de atividade oferecida pelo SIM nos remeteu ao longa-metragem O homem que virou suco, dirigido por João Batista de Andrade. Em vários momentos da obra percebemos a forma como os trabalhos realizados pelo SIM possuem semelhanças com os caminhos que tomaram as vidas de milhares de nordestinos, entre eles Deraldo José da Silva (paraibano) e José Severino da Silva (cearense), representados no filme pelo mesmo ator, José Dumont, o que nos leva a crer que essa semelhança tenha sido proposital, ao mostrar os caminhos que o nordestino tem na cidade grande, ou ele insurge contra a ordem, ou vira suco. Ambos, Deraldo e José Severino, como muitos migrantes, partiram do Nordeste com o intento de fugir da miséria, da falta de terra própria para cultivar, dos grandes proprietários que acabavam sufocando os pequenos produtores, obrigando-os a desfazer dos poucos bens que possuíam e partir, ou das intempéries da natureza. Todos possuíam, além de uma história em comum, um sonho, o de vencer na vida. Foram muitos os Deraldos e Josés Severinos que chegaram à Feira de Santana ou que passaram pelo município à caminho do Sudeste. Muitos insurgiram, outros foram espremidos como laranja. O Deraldo de João Batista de Andrade, um poeta, crítico, usava sua arte para criticar o sistema vigente, imaginava poder viver do que produzia. Por não se enquadrar nessa dinâmica da cidade, era considerado um vagabundo, avesso ao trabalho e aprendeu da forma mais dura – perseguido, teve seus livretos apreendidos, ameaçado – que povo é quem tem documentos. O fato de ter migrado sem documentação, o impossibilitava de vender a sua arte. Por diversas vezes precisou ouvir dos fiscais que a vida na cidade não era fácil, como ele era acostumado enquanto vivia no campo, como se o trabalho nas áreas rurais fossem mais leves que no espaço urbano. Os Deraldos que desembarcaram em Feira de Santana, necessitavam de documento para ser povo e de trabalho para ser gente. Foram capacitados de modo a compreender que precisavam adquirir uma nova forma de viver na cidade, diferente do que faziam no campo. José Severino, contrário a Deraldo, para se adequar ao novo modelo de sociedade, desenvolvida, excludente e industrializada, traiu o movimento dos operários e demonstrou não possuir qualquer interesse em pertencer a esta classe, ao se aliar ao patrão e ao modelo norte-americano de progresso, de bem estar social, primeiro crescer, para depois distribuir. Provavelmente existiram Josés Severinos em Feira de Santana que aceitaram a forma de capacitação no SIM, a desconstrução do passado e aos poucos 94 se aproximaram de uma nova realidade idealizada a partir do desejo de ascensão social, seguindo caminhos análogos aos apresentados em O homem que virou suco. Um ideal civilizador era apresentado ao retirante através da criação de uma rotina diária, com horários determinados para cada atividade. Todo o treinamento era intercalado com aulas teóricas acerca das mudanças que ocorreriam na vida dos migrantes a partir do ingresso em uma indústria e as diferenças entre o viver no campo e o morar na cidade. Até mesmo a dinâmica como o SIM estava organizado, tinha o propósito de incutir no retirante uma nova forma de vida, ordenada e limitada pelo tempo. A princípio, de acordo com a professora Tecla Mello (1986), a Escola SIM atendeu uma “clientela de 26 alunos, entre 18 e 35 anos de idade, vindos da zona rural, dos mais diversos estados do Nordeste e do Sul do País, desencantados com a realidade do campo, para enfrentar, pela primeira vez, uma nova situação de vida” 163 . Nesse processo de escolarização, a metodologia era pensada de modo que “os alunos migrantes pudessem refletir a sua realidade de vida, abrindo espaços para uma visão crítica do contexto sócio-econômico do país” 164 . A intenção era fugir do modelo de educação oferecido pelas escolas brasileiras do período, nas quais a experiência cultural do estudante não era levada em consideração, ou melhor, era simplesmente descartada. Para tal, optaram por uma pedagogia de caráter freireano, libertadora, “que busca a restauração da intersubjetividade, [e] se apresenta como pedagogia do Homem. Somente ela, que se anima de generosidade autêntica, humanista e não “humanitarista”, poderia alcançar este objetivo”.165 A aproximação com essa ‘pedagogia do oprimido’ no meio protestante ecumênico se deu por diversos fatores, entre eles temos a aproximação do grupo com cientistas e intelectuais brasileiros, fato que ocorria desde a década de 1950. Além disso, houve contatos de Paulo Freire com o missionário presbiteriano Richard Shaull, durante os anos de exílio do educador brasileiro em Genebra, período em que também trabalhou para o CMI.166 O próprio Shaull, em suas memórias destacou a importância do encontro com esse intelectual e sua obra ainda não publicada no período (1966). Encontro este, frutífero para ambos, pois Shaull teve acesso aos manuscritos da obra A Pedagogia do 163 MELLO, op.cit., p.12. Não encontramos no relatório anual de 1975 os dados referentes aos que passaram pela escola nesse primeiro momento. Há dados gerais, mas sem qualquer especificação quanto a primeira turma. 164 MELLO, op.cit., p.14. 165 FREIRE, Paulo. A Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p.22. 166 SILVA, Op. Cit., 2010. 95 Oprimido que a classificou como “revolucionária quanto ao seu impacto na educação e na política” 167, e Freire viu a possibilidade de publicá-la. Eis o relato desse encontro Em 1966, em Boston, participei de um encontro de bispos católicos da América do Norte e do Sul. Estava numa fila à espera de meu sobretudo, quando percebi que alguém me fitava. “Você é o Shaull?”, finalmente perguntou. Ao responder afirmativamente, apresentou-se: “Eu sou Paulo Freire”. E antes que dissesse qualquer coisa, desapareceu, para retornar alguns minutos depois com um pacote que revelava um manuscrito. Deu-me o material e disse: “Estou exilado no Chile e acabo de terminar um livro que não pode ser publicado no Brasil. E desde que você é o único norte-americano a quem posso confiar esse manuscrito, tome-o e consiga sua tradução e publicação. E uma vez que não sou conhecido nos Estados Unidos, escreva uma introdução para o livro.” 168 O interesse por uma transformação social através da educação sempre esteve presente entre os presbiterianos progressistas, e a Pedagogia do Oprimido oferecia os aportes para o tipo de ensino que eles almejavam. Tanto que em outros momentos, Shaull buscou organizar oficinas e cursos direcionados a educadores, ou mesmo líderes religiosos, não apenas nos Estados Unidos. Os responsáveis pelo SIM, também adotaram essa mesma metodologia e buscaram pôr em prática os ensinamentos de Freire. De acordo com a professora Tecla Mello, “o conhecimento da proposta de Paulo Freire, estimulou o grupo e ajudou a aprofundar a visão dos homens como seres ontologicamente iguais, finitos, inacabados, capazes de procederem crítica autêntica”. Esses homens, “sofrendo os condicionamentos da realidade, mas sendo capazes de transformá-la” 169. O processo de profissionalização do SIM: trabalho como via de mobilidade social A capacitação promovida pelo SIM, mesmo adotando uma visão libertadora, não conseguiu escapar da influência que os interesses religiosos dos idealizadores exerciam no processo. De fato, na leitura das fontes, percebemos essa preocupação com um ensino humanista, mas o mesmo não conseguiu se desvencilhar por completo da 167 SHAULL, 2003, p. 263. Idem, p. 263. 169 MELLO, Op.cit., p.20. 168 96 religião. Tanto presbiterianos, quanto católicos, introduziram um pouco das doutrinas que acreditavam. Eram ecumênicos, mas continuavam fiéis às matrizes presbiterianas. Nas cartilhas elaboradas pelos mesmos encontramos, principalmente, a presença de características da ética protestante. Muitos dos textos versam sobre o valor do trabalho, a necessidade de se possuir uma ocupação para evitar a vadiagem, o trabalho como via para ascensão social, ou ainda como algo dignificante. Percebemos tal visão em trechos que relatam que “é com o trabalho que o homem constrói o mundo”, e através do “trabalho nós nos realizamos, aprendemos e lutamos pela sobrevivência” 170 , ou ainda “o trabalho nos dá vida, saúde e devemos trabalhar com muita disposição”, pois “a pessoa que trabalha consegue dinheiro para comprar (...) tudo que precisa para viver” 171. Em outros trechos da cartilha destaca que “as pessoas que não gostam de trabalhar só pensam em pegar as coisas alheias” 172 . Encontramos nos depoimentos dos migrantes que passaram pela Escola do SIM em um debate realizado em 05 de março de 1975 essa mesma concepção quando diz, “um dia a gente pode subir a escada. Tem uns que sobem mais rápido, sobem de uma vez, tem outros que sobem aos poucos, e uns, às vezes nunca sobem” 173 . Nessas cartilhas apresentavam ao migrante o valor do trabalho e a necessidade de esforço pessoal para conseguir qualquer melhoria da vida. Os textos sempre continham um ensinamento quer seja sobre o trabalho e sua importância, ou mesmo, a necessidade de possuir documentos, de agir com ética, da diferenciação no modo de vida do campo para as áreas urbanas, como se adequar à cidade. Conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho urbano não dependeria apenas da disposição para exercer a atividade. Antes de qualquer coisa, o trabalhador precisaria estar preparado, ter feito algum curso e possuir documentos. Seu André, por exemplo, teve dificuldade para arrumar um emprego que proporcionasse uma vida melhor para a sua família justamente por não preencher os requisitos necessários. Acompanhemos a trajetória de Seu André, vejamos a importância da qualificação profissional para transformar a realidade. Seu André, todos os dias, sai para o trabalho e no final do dia chega cansado e vai descansar. Quando chega o sábado, dia de receber 170 ACERVO SIM – SIM – UNIVERSIDADE POPULAR. Construindo o Conhecimento. Feira de Santana: 1989, p.09. 171 MELLO, Op.cit., p.07 [anexo 6 - cartilha]. 172 MELLO, Op.cit., p.8 [anexo 6 - cartilha]. 173 MELLO, Op.cit., p.5 [anexo I]. 97 dinheiro, a mulher fica reclamando que o dinheiro não dá para as despesas da casa. Mas não tem jeito. Seu André não tem uma profissão, nem documentos e não consegue um emprego melhor. Certo dia, Seu André resolve fazer um curso e tirar seus documentos para ver ser assim melhorava de vida. Pois ele sabe que o trabalho é muito importante e que é através dele que o homem consegue sua alimentação, lugar para morar, educação, saúde, enfim, as coisas mais necessárias para viver (grifos nossos). 174 Seu André é uma personagem fictícia, porém com uma história similar a da maioria dos retirantes que eram capacitados pelo SIM. Muitos Andrés, provavelmente passaram pela instituição e com o sonho de conseguir condições de trabalho na cidade. Aprendiam, assim como seu André, que não existia outra maneira para obter um emprego melhor se não fosse através da profissionalização e sem documentos, isso não seria possível. O atendimento das necessidades básicas à sobrevivência passava antes de tudo, pelo sucesso no trabalho. Para se ter paz, por exemplo, “é preciso ter amor, ter trabalho, ter alimentação, ter estudo e acabar com a violência”. 175 A Saúde estava condicionada a “ter um trabalho que dê para comprar o alimento necessário, ter direitos garantidos para melhorar a nossa saúde, viver em paz com os outros e disposição para viver”. 176 A felicidade no casamento dependia do trabalho, em primeiro lugar. “Lúcia e João formam um casal que vive feliz. (...) sabe por que? porque eles têm tudo: trabalho, alimentação, etc...”. 177 Até mesmo a transformação no meio ambiente, que além de proporcionar bem-estar, possuía a mesma finalidade, pois “O homem modifica a natureza para o seu próprio bem e rendimento. Ele constrói fábricas, indústrias para ter trabalho”. 178 Percebemos que toda a metodologia empregada no SIM, passava, antes de tudo, pela centralidade do trabalho, o trabalho como uma vocação, a ser desempenhado com afinco para se obter sucesso. Todavia, esse trabalho era diferenciado de acordo com o sexo. Eram evidentes as assimetrias nas relações de gênero. Não há registros de mulheres capacitadas para a indústria. O labor fabril era atividade eminentemente masculina. Os homens eram 174 ACERVO SIM. A Vida do Trabalhador. In: SIM – Universidade Popular, Construindo o Conhecimento, Escola do SIM. Feira de Santana, 1989, p.11. 175 Ter Paz. Op. Cit., p. 20. 176 Saúde e Bem Estar. Op. Cit., p. 37. 177 Um Casal Feliz . Op. Cit., p. 21. 178 A Natureza e a Saúde. Op. Cit. p. 35. 98 preparados para trabalhar como carpinteiro, serralheiro, torneiro mecânico, eletricista, encanador, entre outras atividades. Às mulheres restavam as atividades domésticas, a costura, a datilografia, o artesanato, ou mesmo o treinamento para se tornarem manicures. Nas imagens 6 e 7, apresentadas na página seguinte, produzidas, possivelmente, para expor aos financiadores do projeto o sucesso do SIM, nos fez retornar mais uma vez ao filme O homem que virou suco. Enquanto, no longa-metragem, a condessa demonstrava a sua preocupação com os desassistidos através da imprensa, no SIM da década de 1970, talvez sem intenção, os/as migrantes eram fotografados no exercício do tornar-se gente, sem sequer perceber a delimitação dos espaços masculino e feminino. Mesmo as mulheres que atuavam no processo educativo e utilizavam um método que se dizia libertador, em um período em que o movimento feminista ganhava força no Brasil, não questionaram essa demarcação, pelo contrário, o silêncio diante da questão, nos faz crer que também comungavam do pensamento dos homens que estavam à frente na entidade. Enquanto os homens eram preparados nos galpões, lidar com trabalhos externos, com salário fixo e direitos trabalhistas, as mulheres aprendiam entre si a ser doméstica, conforme era permitido à época. Dividiriam seu tempo com os afazeres do lar, o ser mãe, a costura e o trabalho como manicure. Mesmo as solteiras que aceitaram permanecer no SIM pelo período de três meses, não couberam alternativas a não ser aprender os trabalhos qualificados como femininos. 99 Figura 6 - Migrante em Capacitação no SIM. Fonte: ACERVO SIM Figura 7 - Migrantes em Capacitação no SIM – Manicures. Fonte: ACERVO SIM Os espaços eram bastante distintos, até mesmo nos altos cargos da entidade. Durante todos os anos de atuação do SIM, não houve uma mulher sequer ocupando o cargo de Diretor Executivo ou fazendo parte do Conselho Fiscal da instituição. Encontramos uma única representante feminina fazendo parte do Conselho Diretor, o caso da Secretária Sra. Sylvia Martins Prado. Em outras ocupações encontramos psicólogas, professoras, assistentes sociais, nutricionista, copeira e cozinheira, mas na parte administrativa, apenas Sylvia Prado. Essas delimitações não eram incomuns para as décadas analisadas. Apesar da expansão do movimento feminista, da luta pela igualdade de gênero, as mulheres ainda se encontram ocupando os “empregos de mais baixo prestígio e remuneração, como o emprego doméstico”. 179 Nas imagens 6 e 7, além dessa delimitação dos papéis masculino e feminino, elas vêm reafirmar o que já dissemos nas páginas anteriores, com relação a cor da pele dos retirantes. Mais uma vez as fotografias evidenciaram a predominância de pessoas de pele negra entre os migrantes que foram atendidos pelo SIM. Para os homens negros as dificuldades de inserção no mercado de trabalho sempre foram difíceis, para essas 179 SAFFIOTI, Heleieth, I.B.; MUNÕZ-VARGAS, Mônica (Orgs.). Mulher Brasileira é Assim. Rio de Janeiro: Rosas dos Tempos: NIPAS; Brasília: UNICEF, 1994, p. 73-75. 100 mulheres, que além de terem papéis subalternos, eram negras, os problemas se avolumavam. Provavelmente, teriam o mesmo destino de Rita, que sonhava em ser uma enfermeira, entretanto, se casou e retornou para o campo, como se não fosse possível ser enfermeira e casada. Mais uma vez, estamos nos referindo a um exemplo das Cartilhas usadas pelo SIM, mas que se encaixaria perfeitamente como a trajetória de vida de muitas dessas mulheres. Essa história começa com um sonho, o sonho de Pedro, irmão de Rita que também tinha um sonho, mas foi cerceado pela não possibilidade de conjugar profissão e casamento. Nem mesmo o direito de ser incluída no título do texto Rita teve. Vejamos o texto da Cartilha Pedro e Rita moram na roça. Na roça eles ajudam o seu pai e a sua mãe plantar feijão, milho, mandioca e batata. Em casa Rita lava os pratos, varre a casa, o terreiro, faz café e dá comida ao irmão mais novo. Pedro puxa água, molha as plantas, debulha feijão e descasca milho. Os pais de Pedro e Rita lutam com muita dificuldade para manter a família, não podem colocar os filhos para estudar na idade certa. Pedro tem 18 anos e Rita tem 13. Eles estudam numa escola longe da sua casa. Gostam de estudar porque querem ser gente. Ainda estão no primeiro ano porque não tiveram condição de estudar quando eram menores. Pedro andava triste porque aos 12 anos ainda não sabia ler nem escrever. Agora eles estão felizes porque vão estudar. Pedro quer ser professor e Rita quer ser enfermeira. Para realizar o sonho de Pedro era preciso que ele fosse para a escola continuar seus estudos. Isso ele conseguiu com o dinheiro que ganhou na venda de farinha, beiju e goma. Depois de muita luta, Rita se casou e voltou para morar na roça. Pedro terminou o seu curso e arranjou uma escola para trabalhar. Com isso Pedro realizou o seu sonho de ensinar as crianças a ler, escrever e pensar (grifos nossos). 180 Essa história faz parte da mesma Cartilha em que estão presentes os textos que falam sobre a importância do trabalho. Elaboradas com a finalidade de alfabetizar os migrantes, fugindo do ensino da época, caracterizado como tradicional e preso aos livros didáticos, essas Cartilhas tinham a preocupação em se aproximar da trajetória dos indivíduos que eram atendidos pelo SIM, porém, seguiam o principio de diferenciação de atividades entre os sexos. Não havia, por exemplo, mulheres sendo capacitadas para o trabalho fabril, pelo contrário, elas eram encaminhadas para os trabalhos domésticos. Esses livros, uma produção coordenada por uma mulher, a professora Tecla Dias de Oliveira Mello, também Diretora da Escola SIM, mas que delegou a Rita, o mesmo lugar que era reservado às mulheres migrantes. A Rita, “depois de muita luta”, restou- 180 O sonho de Pedro. Op.Cit., p.43-51. 101 lhe apenas o casamento e, por conseguinte, o retorno à roça e não a realização do sonho de ser enfermeira. Isso não quer dizer que o casamento seja algo ruim, da mesma forma que a volta para as origens não representa sinônimo de fracasso. Nessas Cartilhas destinadas aos homens, mulheres e crianças, matriculados na entidade, percebemos que a mulher sempre aparece desempenhando papéis tradicionalmente reservados ao sexo feminino na divisão social do trabalho. Rita, talvez seria o exemplo da dificuldade do sexo feminino em se afirmar na cidade e Pedro mais uma vez reforça a importância do trabalho para se obter sucesso. Mas voltemos a discussão sobre o trabalho. Convém observar que partimos do princípio de que nenhum material, texto, livro ou imagem, é isento de influência daquele que o produziu e do contexto histórico. Como as cartilhas que apresentamos foram produzidas por presbiterianos, acreditamos existir resquícios da ética que permeava o mundo evangélico calvinista, da valoração do trabalho, bem como da conjuntura da época, sobretudo, acerca do lugar da mulher na sociedade. Isso não quer dizer que os católicos ou outros envolvidos não tinham uma visão similar ou que exista algum problema em enfatizar o trabalho em detrimento de qualquer outra atividade. No entanto, foi entre os protestantes herdeiros de João Calvino, que o trabalho foi posto da forma tão enfática, “como um fim absoluto (...), como uma ‘vocação’”, um serviço que se presta a Deus. Essa centralidade do trabalho como vocação não era “produto da natureza”, era algo que só poderia ser conquistado após “um longo e árduo processo de educação”.181 Os presbiterianos ecumênicos seguiram rigorosamente os preceitos de Calvino, quando introjetaram a ética intramundana e adotaram como princípio fundamental a dedicação ao trabalho. O trabalho não como um sacrifício, mas como algo grandioso, “regenerador (...), concebido não como maldição, mas como atividade que poderia proporcionar o sustento, e ser feito com alegria como um serviço a Deus”.182 Os migrantes no SIM precisavam perceber o trabalho como única via de mobilidade social, como meio de modificar a realidade de miséria a qual estavam submetidos. Os católicos também tiveram sua parcela de contribuição, no que chamamos de vertente religiosa no trabalho do SIM. Nos cânticos, nas cartilhas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entre outros, que fizeram parte das discussões nas aulas da instituição. Portanto, essa educação prestada aos retirantes pela Escola do 181 WEBER, Op. Cit., 2004, p. 54. SILVA, Elizete da. Cidadãos de Outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. São Paulo: Tese de Doutorado, USP, 1998, p 250. 182 102 SIM, não foi efetivamente laica, da mesma forma a religião não teve a função apenas de libertar, como a metodologia apresentada supõe. A educação também não foi isenta de subordinação ao contexto do capitalismo de Feira de Santana. 183 O diálogo inter- religioso possibilitou a fundação da entidade, no entanto, na execução do treinamento, essas relações não tiveram tanta força, prevalecendo uma maior influência dos princípios protestantes em detrimento dos demais grupos religiosos. Esses preceitos serviram para fortalecer a relação entre os campos religioso e político, que durante o período de funcionamento do SIM, convergiam em vários interesses, entre eles, resolver ou amenizar o problema migratório, transformar a cidade em um polo de desenvolvimento e produzir mão de obra em potencial. A entidade que foi pensada para amparar o migrante, realizar uma educação libertadora, centrada na realidade do dia a dia e nos problemas enfrentados pela maioria dos migrantes, como: emprego, trabalho e seu valor, sindicato, saúde, campo, cidade, entre outros, não conseguiu escapar da influência religiosa. Ao incluir nos componentes curriculares as temáticas expostas, adotou entre o material de apoio cartilhas da CNBB, poemas para rezar – Michel Quoist (1966) e do mesmo autor Construir o homem e o mundo, que apesar de refletir sobre o papel do homem na sociedade, não deixou de apresentar uma interpretação de visão religiosa e de tentar mostrar a importância da espiritualidade e de um Deus, diante das transformações e progresso pelo qual o mundo passava. No SIM a ênfase era dada à escola, especialmente a profissionalizante, na qual o processo pedagógico considerava as experiências de vida dos assistidos, possibilitando o desenvolvimento da consciência crítica sobre a realidade e o poder de cada um para transformá-la, tais intervenções pensadas a partir do paradigma freireano. Percebemos entre a proposta e a ação processos antagônicos, no momento em que apresentavam ao retirante uma análise da conjuntura do período, sempre questionando os motivos das desigualdades do País, e ao mesmo tempo, se deixavam levar pelas ideias de progresso comum aos protestantes calvinistas, que não percebiam a fábrica como inimigo desses trabalhadores que eles estavam a capacitar. Seria talvez, o que Löwy (1997) classificou 183 Sobre o capitalismo periférico, ver CRUZ, Rossine. C. da. A Inserção de Feira de Santana nos Processos de Integração Produtiva e de Desconcentração Econômica Nacional. Campinas: Tese de Doutorado, UNICAMP, 1999. 103 como formas de consciência, “condicionadas pela produção material e pelas relações sociais correspondentes”. 184 Causou-nos estranhamento, exatamente, o fato da entidade promover uma educação transformadora por um lado, e por outro usar, como imperativo, de uma ética metódica, disciplinada, não apenas nas atividades dentro do SIM, mas para os enfrentamentos após a profissionalização. O sucesso, não dependia somente do trabalho, mas do modo como este era realizado. A presteza e a dedicação eram fundamentais para serem recompensados no esforço laboral. Essa prédica sempre foi comum entre os protestantes e os donos de fábricas que almejavam a disciplina fabril. Essa abordagem teórica que norteia a discussão sobre a dualidade ou centralidade do trabalho na Escola do SIM e da possível presença de preceitos religiosos na mesma reforça o que defendemos: quando a entidade foi pensada pelos protestantes ecumênicos havia a preocupação em apresentá-la como ecumênica, sem enfatizar a opção religiosa ou mesmo o ateísmo. Apesar do diálogo inter-religioso, e entre o grupo existir um comprometimento com a realidade social, percebemos a influência das raízes protestantes, especialmente a calvinista, comum ao presbiterianismo, como já foi exposto, nos trabalhos desenvolvidos pela entidade, nas cartilhas usadas na educação dos internos e nas falas de alguns dos que participaram ativamente na instituição. Nessa perspectiva, compreendemos que a religião apareceu como mecanismo moral na entidade. O poder transformador da cruz,185 impôs aos assistidos uma obediência que favorecia os industriais e que foi responsável por profissionalizar o migrante para um tipo de atividade, até então desconhecida por grande parte deles. Cabe ressalvar que os capacitados não foram passivos diante do treinamento. Houve os que não aceitaram permanecer no SIM, ou aqueles que nem chegaram a fazer parte do programa, por não verem com bons olhos o trabalho prestado pela instituição. Apesar de mencionados em entrevistas com a professora Tecla Dias de Oliveira Mello e com o Rev. Josué da Silva Mello, não tivemos acesso à documentação particular sobre o migrante. Ambos citaram o dia em que alguns retirantes, desconfiados do processo de capacitação, organizaram um motim a fim de serem liberados da instituição e de outros momentos em que os migrantes não se adequaram à dinâmica da instituição. 186 184 LÖWY, Op. Cit., 1997, p. 158. THOMPSON, Op. Cit., 1987. 186 Entrevista com o Reverendo Josué da Silva Mello, concedida à autora em 22 de dezembro de 2007, em Feira de Santana/Ba; Entrevista com a Professora Tecla Mello, concedida à autora em 14 de julho de 2008, em Salvador/Ba. Os dois apontam para a desconfiança que alguns migrantes tiveram ao serem 185 104 Os dirigentes das atividades do SIM se diziam progressistas e contrários ao sistema capitalista, divulgavam uma pedagogia do oprimido, que denunciava a exploração, a organização do trabalho fabril, os parcos salários, entre outros, e ao mesmo tempo treinavam os migrantes nos moldes dos opressores capitalistas. Pode parecer aparentemente incoerente, como também, nos mostra conflitante a presença da religião em uma entidade que tentava apresentar uma concepção laicizada. Ou ainda, uma religião que aparecia com um duplo papel, progressista ao propor a libertação do migrante, e conservadora quando capacitava migrantes nos moldes capitalistas. No SETED, o retirante aprendia na teoria como transformar a sua vida e consequentemente a sociedade. Enquanto que no SETOP, na prática, conhecia a realidade da fábrica e como devia comportar-se dentro dela. Provavelmente, os presbiterianos ecumênicos envolvidos nas atividades do SIM, não viam incompatibilidade na forma como a profissionalização era praticada na instituição. Sabemos que nas raízes da ética protestante, além do trabalho entendido como algo digno, o progresso também emergia como desígnio divino. Portanto, as transformações que ocorriam em Feira de Santana em meados dos anos de 1970, com a instalação do CIS, com o alargamento das ruas, a criação de locais específicos para o comércio que antes era realizado pelos feirantes na feira livre, entre outras, como também, a disciplinarização da mão de obra para o trabalho fabril, não eram percebidas como negativas, pelo contrário, eram necessárias em um município em processo de expansão, com vocação para o progresso, como se reportou o Rev. Josué Mello, o idealizador do SIM. Os migrantes capacitados pelos SIM estavam se adequando ao novo tipo de cidade que estava surgindo no período, uma Feira de Santana que se queria Princesa, que estava trilhando os caminhos da industrialização. 187 O crescimento industrial cria demanda por mão de obra qualificada e como esses trabalhadores não surgem naturalmente, precisam ser criados, coube ao SIM a tarefa de incluir os migrantes nesse cotidiano capitalista do trabalho. Ao incutir nos mesmos uma ética do trabalho voltada encaminhados para o SIM. Estes resistiram à proposta da instituição e optaram por partir, isso tudo no meio da noite, o que gerou certo tumulto. Tecla Mello e Josué Mello foram chamados às pressas para contornar a situação. 187 Conferir Palestra proferida por Josué da Silva Mello na Câmara de Vereadores de Feira de Santana em 16 de junho de 1984, quando este fez um balanço do crescimento feirense a partir do advento do CIS. MELLO, Josué da Silva. Feira de Santana: Cidade de Futuro. In: Sitientibus. Feira de Santana: Ano II, nº 4, jan/jun, 1984, p. 77-84; ARQUIVO DA BIBLIOTECA SETORIAL MONSENHOR RENATO DE ANDRADE GALVÃO – JORNAL FEIRA HOJE. O Dia da Indústria (Caderno Especial). Feira de Santana, maio de 1972, p. 01-02. 105 para a ascensão social – o que Thompson considerava na Inglaterra do século XVIII, em processo de industrialização, o mesmo que transformar “o trabalhador (...) ‘no seu próprio feitor’”188 através de um processo moralizante – o SIM produziu um número significativo de mão de obra capacitada para o CIS, o CIA e o COPEC. Trabalhadores estes que conjugavam a preocupação com o tempo e a disciplina, com o sonho de vencer na vida. Foram muitas as críticas a essa forma de atuação que o SIM passou a ter. O Sociólogo Ildes Oliveira, assessor técnico da entidade, ao se reportar a mesma, via como “uma grande proposta, inovadora, que dava resultados, mas [que] depois se perdeu. Perdeu os objetivos do início” 189 . Outro integrante do projeto, o ex-padre Albertino Carneiro, comungava do mesmo pensamento. O foco anterior era a libertação do homem passou a ser a subordinação por meio de um processo disciplinarizante. Os grandes beneficiados eram os empresários do setor fabril e os comerciantes. Para Carneiro, “estamos tirando mendigos da rua para não incomodar os comerciantes, não se ia na raiz do problema” e essa raiz era o campo. 190 Resolver os problemas da posse terra, preocupação esta presente no meio ecumênico desde a criação das CEBs, era, ao mesmo tempo, fixar o homem no campo e evitar, assim, o êxodo rural. A CEDITER surge com esse propósito, além de se preocupar com a resolução dos conflitos desencadeados pela posse da terra. 188 THOMPSON, Op. Cit., 1987, p.234. Entrevista com Ildes Ferreira realizada em 26 de fevereiro de 2007, apud SILVA, 2007, Op.cit., p.181. 190 Entrevista com o Ex-Padre Albertino Carneiro realizada em 15 de dezembro de 2006, apud SILVA, 2007, Op.cit., p.173. 189 106 Capítulo 03 - Ameaças, Conflitos e Expulsões: a luta pela terra na Bahia e as áreas de abrangência do projeto da CEDITER O contexto baiano da década de 1980 – áreas de alcance da CEDITER Na análise realizada pela Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), para o período de 80/81, a Bahia, juntamente com o Pará e o Maranhão foram considerados os estados em que os conflitos no campo estiveram mais acentuados, acompanhados pelo Paraná, Goiás e Minas Gerais. 191 Em 1985, quando a CPT publicou seu caderno Conflitos no Campo, os dados demonstraram “que todas as regiões do País (...) [estavam] bastante infectadas pela “praga” dos conflitos de terra”, e os mesmos estados que no início da década se encontravam entre as áreas nas quais a violência contra camponeses e trabalhadores era mais aguda, ainda permaneciam no topo da lista.192 A maioria dos projetos governamentais implantados nas décadas de 1970 e 1980 na Bahia, que visavam o desenvolvimento do capitalismo, não consideraram as necessidades das populações carentes que ocupavam as áreas em que os investimentos seriam mais acentuados. Em várias cidades do Estado as condições de vida dos homens e mulheres do campo e dos atingidos por barragens eram alarmantes. Grandes obras eram realizadas, mas estas tinham como objetivo atender aos "interesses de setores do capital internacional e (...) monopolistas da burguesia”, intimamente ligados à área da construção civil e ao campo energético. Em todo o território nacional as obras dos Programas Nucleares e Energéticos do Governo Federal, “Tucuruí, Itaipu, Sobradinho e tantas outras”, tiveram esse perfil. 193 Foram utilizadas grandes somas de dinheiro que pouco ou quase nada chegaram às mãos daqueles que viram suas vidas transformadas, negativamente, após a implantação das barragens. As consequências foram drásticas tanto para os que viviam à beira do rio e retiravam o sustento dele, seja da pesca ou da agricultura, quanto para o meio ambiente, quando crimes ecológicos foram cometidos com a devastação de áreas. O reassentamento da população não fora planejado, como foi o caso da barragem Pedra do Cavalo – localizada próximo à Feira de Santana e região do Recôncavo Baiano: 191 Revista Reforma Agrária. n. 5, v. 13, Campinas – São Paulo, set/out., 1983, 46-48. Dados da Associação Brasileira de Reforma Agrária, p. 46. 192 ACERVO CEDITER – HERBERS, Raul G. Conflitos no Campo: o que dizem os dados. In: Revista Reforma Agrária. n. 2, Ano 19, Campinas – São Paulo, ago/nov. 1989, p. 52. 193 JOSÉ, Emiliano. A Barragem de Pedra do Cavalo na Bahia. In: Caderno do Centro de Estudos e Ação Social – CEAS. Salvador: nº 86, jul/ago, 1983, p. 8. 107 Cachoeira, Muritiba, entre outras –, e nas áreas em que se buscou seguir um projeto de transferência, este não se deu de forma adequada, a exemplo das Agrovilas criadas a partir do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. Esses núcleos de reassentamento, de Serra do Ramalho, “concebidos pela empresa particular de engenharia e planejamento Hidroservice e implantados pelo INCRA [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], através de gerentesexecutores”, foram antes um meio de intervenção do Estado em função da necessidade de modernização de áreas ocupadas por populações consideradas atrasadas, do que uma intervenção voltada para a resolução dos problemas dos trabalhadores. As agências governamentais apresentavam um novo modus vivendi através das Agrovilas que não considerava a heterogeneidade das famílias, muito ao contrário, forçaram a convivência de pessoas advindas de áreas distintas, sem laços sanguíneos, que só conheciam o labor no rio e na agricultura e precisavam descobrir outros meios de sobrevivência. O viver em comunidade ganhava outro contorno, agora planejado e tutelado pelo Estado, diferente do que ocorria nas margens do rio, antes do alagamento. 194 A limpeza das áreas em que seriam construídas as barragens, e a instalação da população nos núcleos de reassentamento gerenciadas pela equipe social, contou com o silêncio e, às vezes, a conivência declarada das elites políticas locais. (...) [A equipe social] soube muito bem explorar as contradições e limitações das opções oferecidas ou criadas pelos beraderos, de modo a produzir entre eles uma disputa surda, que resultou na divisão de algumas comunidades. 195 As divergências entre os membros das comunidades que culminaram nas suas divisões, em certa medida, facilitaram o processo de realocação, já que as tensões estavam situadas, sobretudo, em torno da permanência ou não, na zona que seria inundada pela represa. Aqueles que estavam dispostos a partir acabaram por discordar dos que pretendiam resistir à desocupação. Essas tensões também eram comuns entre os próprios membros da equipe social. Havia certa heterogeneidade dentro do grupo, pois muitos se sensibilizaram com a causa dos beraderos e ribeirinhos e viam a retirada da população, do modo como estava sendo feito, ou melhor, imposto, como uma afronta aos direitos daqueles e conseguiam enxergar a destruição dos costumes, das formas de sociabilidades, dos pequenos grupos sociais. Iam além, entendiam as Agrovilas como 194 195 ESTRELA, Ely Souza. Sobradinho: retirada de um povo. Salvador: EDUNEB, 2010, p. 145. Idem, p. 131. 108 um meio de forçá-los a um estilo de vida que destoava da maneira em que haviam vivido até aquele momento. O cabedal cultural construído durante os anos de convivência e reciprocidade, as relações de trabalho, os laços de parentesco das populações sanfranciscanas e dos pequenos proprietários atingidos pela construção da barragem Pedra do Cavalo, eram imediatamente relegados ao esquecimento, em outras palavras, não eram considerados durante a retirada da população desalojada, nem mesmo na transição para as Agrovilas, como foi o caso dos sanfranciscanos. Eram apenas deslocados de suas pequenas propriedades, nas quais viviam organizados a sua maneira, para um modelo de vida padronizado, inventado pelas agências governamentais. Quando indenizados, os valores eram tão ínfimos que mal davam para as primeiras necessidades, ficando cada vez mais distante a possibilidade de aquisição de um terreno e/ou uma moradia. Eram realmente contrastantes os investimentos nessas obras e o retorno para os atingidos pela sua construção. Tão dispendiosa quanto a edificação da Represa do Sobradinho, nos anos de 1970, foi a da barragem de Pedra do Cavalo, na década de 1980. O desastre ecológico e os dissabores e dificuldades enfrentados pelos trabalhadores expulsos de suas propriedades, também ganharam proporções, se não de mesma magnitude, bem próxima aquela. Diante da experiência catastrófica do Sobradinho, ao menos para a população desalojada, não houve qualquer alternativa por parte do Governo do Estado quando da execução do projeto elaborado para o Recôncavo Baiano na construção de Pedra do Cavalo. Utilizaram como justificativa o fornecimento de água para Salvador e a campanha de valorização dos recursos hídricos e aproveitamento do solo, que fixaria o trabalhador à terra e evitaria a saída desordenada para a capital baiana. 196 Tal investimento em programas de desenvolvimento voltados para a fixação do homem ao solo, prometidos no limiar do projeto, ao ser executado foram deixados de lado ou abandonados por completo. Enquanto que entre os sanfraciscanos, muitos foram encaminhados para Agrovilas e/ou receberam uma mísera indenização, o que não indica que esse processo tenha ganhado uma conotação positiva, a população próxima a Pedra do Cavalo ficou completamente desassistida. Enquanto o Governo Estadual discutia o abastecimento ou não de Salvador e o aumento energético, e mesmo com a pressão por parte da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia (FETAG-BA), 196 Conferir JOSÉ, Emiliano. A Barragem de Pedra do Cavalo na Bahia. In: Caderno do Centro de Estudos e Ação Social – CEAS. Salvador: nº 86, jul/ago, 1983, p. 9. 109 e de alguns sindicatos de trabalhadores da região e da CPT, mais de 20 mil pessoas continuavam sem saber para onde seriam relocadas e como buscariam o seu sustento após a abertura das comportas e o alagamento da área em que viviam há anos. 197 Beradeiros e ribeirinhos 198 sanfranciscanos e os desalojados pela Pedra do Cavalo, enfrentaram vários problemas, entre eles a falta de moradia, pois o reassentamento não se deu como o prometido pelo Governo do Estado. Além disso, após a inundação das áreas das quais tiravam seu sustento, essas populações ficaram totalmente desassistidas. Mesmo com a criação do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho em Bom Jesus da Lapa que recebeu os desalojados do Sobradinho, da luta da CPT para que aqueles que tiveram seus espaços alagados fossem indenizados, a situação de muitas famílias ainda era bastante precária e tensa, por não se adequarem a organização da colônia ou não receberem qualquer auxílio indenizatório. 199 No território baiano as desocupações para a edificação de barragens, as desapropriações de pequenos proprietários, as ameaças, os conflitos, as emboscadas decorrentes da luta pela terra se tornaram constantes. Na cidade de Canavieiras, no Sul da Bahia, no ano de 1985, posseiros da Fazenda Sarampo foram mortos por pistoleiros. Em Porto Seguro, também no sul do Estado, trabalhadores rurais foram assassinados na Fazenda Santa Luzia pelo caseiro e parente do dono da propriedade. No mesmo ano, em Ibotirama, município situado à margem direita do Rio São Francisco, posseiros da comunidade de Cipó perdiam a vida. 200 Na Chapada Diamantina, em Sítio do Mato e em Rio das Rãs, situados na região de Bom Jesus da Lapa (no Vale do Médio São Francisco), foram constantes as intimidações sofridas pelos que lutavam pelo direito à propriedade. Líderes Presbiterianos que pastoreavam nessas localidades clamavam por uma intervenção do Presbitério de Salvador e da IPU frente aos conflitos. O Reverendo José Moreira Cardoso, responsável pela comunidade de Sítio do Mato, figurava entre os religiosos ameaçados. 197 Idem, p. 19. Há uma diferenciação entre os termos beradeiros e ribeirinhos, usados pelos membros da CEDITER. Enquanto os ribeirinhos seriam aqueles que viviam nas margens dos rios, os beradeiros eram os que viviam nas encostas das estradas, das rodagens, das estradas de ferro. Ely Estrela classificou o termo ‘beraderos’ como pessoas que vivem dos rios, mas com um modus vivendi baseado em um fazer, em um saber fazer e num sentir específico. Ver: ESTRELA, Ely Souza. Sobradinho: retirada de um povo. Salvador: EDUNEB, 2010, p. 31. 199 ESTRELA, Ely Souza. Sobradinho: retirada de um povo. Salvador: EDUNEB, 2010. 200 COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Cadernos Conflitos no Campo. Goiânia: Setor de Documentação – CPT, 1985, Anexos, quadro 11. 198 110 Desde o início da década de 1980 alguns católicos ligados à Diocese de Ruy Barbosa se encontravam engajados na luta pela terra e haviam iniciado um trabalho com os pequenos lavradores através da CPT, com intuito de organizá-los. Até aquele momento, não havia qualquer intervenção nessa área por parte dos presbiterianos na Bahia. As experiências práticas mais significativas, desenvolvidas por esses evangélicos, haviam sido realizadas pela Missão Presbiteriana do Norte, no Estado do Maranhão através do Projeto Gurupi, “que pretendia adquirir terrenos para o desenvolvimento de um programa de fixação à terra de populações rurais do Nordeste do Brasil, através do empreendimento de uma política de colonização de áreas devolutas”. Outras propostas de desenvolvimento agrícola, apoiadas pela Confederação Evangélica do Brasil (CEB), foram postas em prática nas regiões do Vale do Rio Apodi (RN) e Propriá (SE). 201 Entretanto, no Estado baiano, apenas na década de 1980 essas atividades começaram a ser desenvolvidas por presbiterianos. Preocupados, diante dos clamores de pastores vinculados à IPU, da solicitação dos Reverendos João Dias de Araújo e José Moreira Cardoso e de Presbíteros, levando em consideração o contexto baiano e a necessidade de apoio sinalizada pela Diocese de Ruy Barbosa, membros da IPU, juntamente com o Presbitério de Salvador apoiaram a criação da CEDITER. Contaram com o apoio de alguns membros da Igreja Católica, da Igreja Metodista e da Denominação Batista e iniciaram de pronto suas atividades na Chapada Diamantina, nas áreas pastoreadas pela IPU, em Feira de Santana e regiões limítrofes. Em algumas das localidades em que a CEDITER começou a atuar, a Diocese Católica de Ruy Barbosa já estava desenvolvendo ou tentando realizar atividades, mas devido à demanda, não conseguia atender a todos que necessitavam de auxílio. Além de Sítio do Mato, na comunidade de Rio das Rãs, “com cerca de 38.000 ha, situada à margem direita do Médio São Francisco, município de Bom Jesus da Lapa, distante 970 km de Salvador”, eram constantes os conflitos pela posse da terra. Valdélio Silva (2000), apontou o ano de 1981 como o provável ponto de partida para esse embate entre a população quilombola, liderada pelo negro Tomé, 202 e o “fazendeiro Carlos Bonfim à 201 FERREIRA, Muniz G. Insurgência, Conciliação e Resistência na trajetória do protestantismo brasileiro. In: DIAS, COELHO NETO & LEITE (Orgs.) História, Cultura e Poder. Feira de Santana: UEFS Editora; Salvador: EDUFBA, 2010, p. 89. 202 Tomé é mencionado pelo Reverendo João Dias de Araújo como líder dos quilombolas em Rio das Rãs em entrevista concedida a autora em 16 de junho de 2011. O Rev. João Dias de Araújo não entra em detalhes sobre a vida de Tomé, e não chega a falar do seu nome completo. No trabalho de Valdélio Santos Silva (2000), publicado pela Revista Afro-Ásia, o autor faz menção a Chico Tomé, também ligado ao 111 frente de um vultoso empreendimento agropecuário”. 203 Tomé também vinha sofrendo ameaças e perseguições por parte de grileiros. Eram recorrentes as expulsões de trabalhadores e trabalhadoras rurais das terras e estes/as serem encontrados/as vagando pelas estradas. 204 Segundo a Revista da ABRA, Reforma Agrária e os cadernos da CPT, Conflitos no Campo, esse cenário foi comum em toda a década de 1980 na Bahia. Não foi difícil encontrar nos levantamentos realizados pela CPT a presença de autoridades religiosas, Bispos, Pastores, Padres, entre outras, que eram ameaçadas por estarem diretamente envolvidos, juntamente com os pequenos produtores, os posseiros, os sem-terra, em agitações pela propriedade do solo. Nomes como o do Rev. José Moreira Cardoso (Bom Jesus da Lapa), Pe. Juraci (Sento Sé), Pe. Perino Moreira Jordão (Lençóis), Pe. José Herenberger (Jacobina), Pe. Eugênio Molini (Andaraí), Pe. Antônio Tamarri (Saúde) figuraram sempre entre os ameaçados de morte, intimidações estas, articuladas por fazendeiros, delegados, pistoleiros, Polícia Militar e empresas multinacionais. 205 Além dessas autoridades religiosas envolvidas na luta em favor das comunidades rurais, encontramos também a participação de alguns jesuítas da Companhia de Jesus, comprometidos com as demandas pela terra. Apesar de existir certo isolacionismo e individualismo por parte de membros da Companhia, e da polêmica em torno da participação, ou não, destes, no trabalho pastoral, houve inserção de segmentos dessa ordem religiosa em defesa dos direitos à terra.206 Nos anos de 1960, após “transformações porque passava a Companhia de Jesus como um todo e de suas preocupações com as questões sociais”, os inacianos fundaram o CEAS, que se tornou um dos centros de resistência ao Regime Militar. 207 Através da publicação da Revista Caderno dos CEAS, no final da década de 1960, temas que analisavam a conjuntura do momento começaram a ser constantemente veiculados. O periódico se tornou um dos difusores das críticas à Ditadura Militar, por Mocambo dos Pretos, atual Rio das Rãs. Provavelmente, Tomé e Chico Tomé correspondem a mesma pessoa. 203 SILVA, Valdélio Santos. Rio das Rãs à luz da noção de quilombo. In: Revista Afro-Ásia. Salvador: UFBA, nº 23, 2000, p. 4-15. 204 Conferir entrevista com o Reverendo João Dias de Araújo, concedida à autora em 16 de junho de 2011, Feira de Santana/Ba. 205 Ver COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Cadernos Conflitos no Campo. Goiânia: Setor de Documentação – CPT, 1985-1990. 206 COSTA, Iraneidson Santos. Que papo é esse? Igreja Católica, Movimentos Populares e Política no Brasil (1974-1985). Feira de Santana, UEFS Editora, 2011. 207 ZACHARIADHES, Grimaldo Carneiro. CEAS: Jesuítas e a questão social durante a Ditadura Militar. Dissertação (Mestrado em História Social), UFBA, Salvador, 2007, p. 39-40. 112 este violar os Direitos Humanos e suprimir as liberdades individuais. Muitos dos problemas que afetavam a maioria da população pobre do País, como a desapropriação para a construção de barragens, violência no campo, ameaças e assassinatos nas áreas rurais, estiveram entre as principais temáticas das publicações do CEAS. A Revista apresentava uma realidade que era mascarada pelos militares, quando proibiram a liberdade de imprensa. Esse contexto conturbado, permeado por conflitos, não era uma particularidade da Bahia. Em todo o Brasil eclodiam agitações, a maioria delas motivada pelo desrespeito dos proprietários das fazendas em relação ao limite de propriedade. Esses latifundiários expropriavam os pequenos produtores, exploravam os meeiros e rendeiros, e ameaçavam aqueles que ousassem contestar suas ações. Na Paraíba, por exemplo, após a criação do Programa Nacional do Álcool (PROALCOOL), na década de 1970, os minifúndios foram sendo substituídos pelas grandes extensões de terra para o cultivo da cana-de-açúcar e consequentemente, as famílias que extraíam seu sustento nessas áreas, foram expulsas. 208 Diante de tantos infortúnios e percebendo a necessidade de se criar uma instituição que fosse solidária com a causa dos homens e mulheres do campo, bem como dos desalojados pela construção de represas, os presbiterianos ecumênicos deram os primeiros passos nos anos de 1980 para pôr em prática o projeto da CEDITER. Essa entidade surgiu com a missão de “educar, formar e capacitar trabalhadores: homens, mulheres e jovens rurais para o fortalecimento de suas próprias organizações e ajudá-los a exercer a sua cidadania plena”. 209 A instituição tinha como princípio básico, a luta pela posse da terra. Presbiterianos Ecumênicos: aproximações entre a Teologia da Libertação e a Teologia da Terra Conquanto a CEDITER tenha seguido a mesma linha ecumênica da AFAS e do SIM, esta buscou se afastar de ações que acreditava destoar dos preceitos fundamentais do movimento ecumênico. Ser ecumênico era, antes de tudo, assumir uma posição definida com relação a política e a religião, em outros termos, era agir de forma coerente, sem parcialidade. Entretanto, a campanha em prol de um trabalho de 208 SANTOS, Marcos Roberto Brito dos. Os Missionários e a caminhada dos pobres no Nordeste. Dissertação (Mestrado em História Social), UFBA, Salvador, 2007. 209 ACERVO CEDITER – Boletim Informativo – CEDITER. Feira de Santana: 2001, s.n.. 113 capacitação de mendigos e migrantes que visava a emancipação destes, como era defendido, a princípio pela AFAS e pelo SIM, foi, aos poucos, seguindo os rumos de organizações com o perfil do SENAI e cada vez mais se distanciando dos objetivos primeiros. Tanto a AFAS, quanto o SIM, surgiram amparadas, por setores dominantes, comerciantes e a administração municipal, além do auxílio financeiro dos órgãos internacionais, em um contexto tumultuado da política feirense, pós 1964, com o Golpe civil-militar, a deposição do prefeito Francisco José Pinto e a administração passada às mãos do biônico Joselito Falcão Amorim, o que, de certa forma, contribuiu para que as entidades se aproximassem mais de um modelo aceito pelos militares e se afastassem do projeto inicial. Nos anos de 1980 surgiu a CEDITER, com uma visão diferenciada dos rumos que tomaram o SIM, buscando resgatar os interesses primeiros do movimento ecumênico, ao propor a conscientização e emancipação do homem. De acordo com o Rev. João Dias de Araújo, “indiretamente o plano da CEDITER era a favor da política defendida pelo SIM, embora de uma maneira diferente.” Voltada para o campo, “era desejo nosso de fixar a pessoa na sua terra” e consequentemente, evitar o êxodo rural. 210 A entidade já nasceu ecumênica, ainda que a iniciativa tivesse partido de presbiterianos, pois havia a participação dos Rev. João Dias de Araújo e José Moreira Cardoso, de Presbíteros, bem como de católicos que já se encontravam envolvidos na luta pela terra através da CPT no município baiano de Ruy Barbosa. Amparada por uma Teologia da Terra, a CEDITER surgiu como uma espécie de CPT, com atividades direcionadas para as Regiões da Chapada Diamantina e o Vale do São Francisco. Essa fase de implantação, que vai de 1982 a 1984 a “pequena equipe da CEDITER deu ênfase aos encontros locais e regionais e à criação de Delegacias Sindicais visando a sensibilização dos trabalhadores (as) rurais sobre a Reforma Agrária e a necessidade (...) da criação de (...) [Sindicato de Trabalhadores Rurais] STRs”. 211 Com base na Teologia da Terra, uma teologia específica que utilizava as Escrituras Sagradas para justificar a luta pela posse da terra, os presbiterianos ecumênicos erigiram as bases para a fundação da CEDITER. Não era uma novidade 210 Entrevista com o Rev. João Dias de Araújo, concedida à autora em 16 de junho de 2011, em Feira de Santana/Ba. 211 ACERVO DO REVERENDO JOÃO DIAS DE ARAÚJO. 20 anos: histórico da CEDITER. Feira de Santana, 2012. 114 entre os cristãos a introdução da terra nas discussões litúrgicas, no entanto, a partir dos anos de 1962, com a Teologia da Libertação ganhando força entre os católicos, “a terra entrou na igreja, subiu ao altar, fez-se eucaristia”. 212 Essa teologia buscava responder aos desafios da humanidade, através da práxis, do envolvimento cristão na luta dos despossuídos. Era antes de tudo “uma teologia do homem da terra” e não simplesmente da terra enquanto espaço geográfico, mas “a terra como lugar antropológico, sócioeconômico, político e religioso; terra como espaço onde a vida se produz e reproduz continuamente”. 213 A proposta da CEDITER buscava relacionar as experiências bíblicas ligadas a terra com a situação dos pequenos trabalhadores do interior baiano, essa proposta visava estimular o pequeno produtor a lutar pela posse da terra e sua regularização, ao mesmo tempo incentivar o cuidado e o cultivo dessa propriedade. 214 Ao propor um diálogo com a Teologia da Libertação, que trazia no seu cerne a “opção profética e solidária com a vida, com a causa e as lutas destes milhões de humilhados e ofendidos em vista da superação dessa iniquidade histórico-social”, 215 buscou ir à raiz do problema, ou seja, a expulsão do pequeno trabalhador e suas famílias do campo, responsável por desencadear uma rede de sofrimentos que passava pela migração, o desemprego, a fome, a falta de moradia, a exclusão social, a criação de ocupações e favelas nos centros urbanos, com construções inabitáveis e condições de vida sub-humanas. Entre as primeiras ações da CEDITER, ainda em 1982, podemos destacar: 1) a criação da AATC em Itaberaba, que reunia 8 STRs; 2) o socorro prestado às famílias da cidade de Wagner e Lajedinho, que não possuíam o que comer. Para essa atividade a instituição teve como parceria a CESE; 3) a luta pelas terras doadas pela Missão Presbiteriana do Brasil Central (MPBC) às 92 famílias de Sítio do Mato e que haviam sido tomadas por grileiros. 216 212 ARQUIVO CESE. CASALDÁLIGA, Pedro. A Teologia se fez Terra – uma apresentação. In: A Teologia se fez Terra. CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação, Rio de Janeiro: Editora Sinodal, 1991, p. 7. 213 ARQUIVO CESE. MEDINA, Alfredo Ferro. Abordagem de uma Teologia da Terra. In: A Teologia se fez Terra. CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação, Rio de Janeiro: Editora Sinodal, 1991, p. 27. 214 Ver:ACERVO DO REVERENDO JOÃO DIAS DE ARAÚJO. CEDITER: Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra – em favor da dignidade humana dos trabalhadores rurais. Feira de Santana, s.d. 215 BOFF, Leonardo; BOFF, Clodovis. Como fazer Teologia da Libertação. Rio de Janeiro: Petrópolis, 1986. 216 ACERVO DO REVERENDO JOÃO DIAS DE ARAÚJO. 20 anos: histórico da CEDITER. Feira de Santana, 2012. 115 Nessa fase de implantação a CEDITER ainda não possuía sede própria, só a partir de 1985 com a transferência do coordenador da instituição, o Rev. João Dias de Araújo, para Feira de Santana, a sua atuação enquanto coordenador do SIM após a saída do Rev. Mello para assumir a Reitoria da UEFS, esta passou a funcionar em uma sala cedida pela entidade e pode ampliar sua área de abrangência, passando a desenvolver trabalhos nesta cidade e na região do Recôncavo Baiano. A CEDITER encontrou na Teologia da Terra, a base para erigir um trabalho com os mais necessitados. Percebia que a miséria que assolava a maioria da população brasileira e em particular a do Nordeste, estava ligada a exploração do pequeno trabalhador, por parte dos grandes proprietários de terra, dos políticos que não estavam interessados em administrar para os pobres, mas apenas enriquecer a si e aos seus e dos grupos dominantes. Segundo os organizadores da CEDITER, o verdadeiro teólogo era antes de tudo um adversário da injustiça, da pobreza, da exploração e de toda forma de dominação e a fixação das famílias à terra e em consonância o trato com esta, era uma das estratégias de libertação. O desafio para as igrejas, de acordo com a Teologia da Terra, era levar o cristão ao engajamento em todas as formas de luta em favor dos empobrecidos, era tornar os ensinamentos bíblicos em práxis. Já os desafios da Teologia da Terra, consistiam em: trabalhar ecumenicamente, promover a preservação ambiental, atuar junto aos povos indígenas, valorizar a mulher na pastoral da terra, desenvolver uma espiritualidade da terra, aprofundar o conhecimento acerca do campesinato, sua lógica e tipologia, entre outros. 217 Essa Teologia da Terra teve como base a ação eclesial nas áreas rurais, surgiu como uma teologia engajada, à medida que o trabalho desenvolvido pelas CEBs se expandia por todo o País. Uma teologia em diálogo com a Teologia da Libertação, aliada a população pobre e desassistida das áreas rurais, buscava através de uma práxis de caráter dinâmico, transformar a realidade agrária do Brasil. Fazer uma Teologia da Terra, era não ser conivente com um sistema econômico que explorava os mais empobrecidos, era denunciar a situação vigente, o clamor da população e ao mesmo tempo, professar uma palavra de fé e esperança a esses camponeses expropriados. Segundo Alfredo Medina (1991), a Teologia da Terra revolucionava o método da Teologia da Libertação, pois tomava “por ponto de partida a 217 Para mais informações sobre os desafios da Teologia da Terra, ver: ARQUIVO CESE. MEDINA, Alfredo Ferro. Primeiro Encontro Latino-americano de Teologia da Terra. In: A Teologia se fez Terra. CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação, Rio de Janeiro: Editora Sinodal, 1991, p. 13. 116 realidade em que o povo está imerso”. Esse método, contido no documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que analisou a relação entre igreja e os problemas da terra, tinha como primeiro passo, conhecer a realidade dos fatos e denunciá-la; o segundo propunha uma análise conjuntural a partir de uma fundamentação bíblica, introduzindo “a diferença entre terra de trabalho e terra de exploração” e por último, assumia “os desafios de uma pastoral da terra”, não apenas de apontar os problemas, mas o de buscar meios para solucioná-los. 218 Entre os presbiterianos, a Teologia da Terra teve o Rev. João Dias de Araújo como seu maior defensor. O Rev. Araújo defendia um maior engajamento cristão na luta pela posse terra, mas acima de tudo uma teologia que dialogasse com essa população do campo, uma Teologia do Povo. A proposta não fugia do principio teórico do sacerdócio universal de que todo homem e toda mulher são sacerdotes de si mesmos. Em uma Teologia do Povo é o próprio “povo que faz teologia a partir do lugar social que ocupa”. Fazer uma Teologia da Terra e/ou uma Teologia do Povo, era refletir teologicamente sobre a questão da terra, juntamente com a população, era agir nas áreas em que os conflitos estavam mais acirrados. 219 A CEDITER, através desses pilares, se aproximou mais das pastorais católicas, das CEBs e da Teologia da Libertação, e consequentemente, da práxis teológica tão cara ao movimento ecumênico. O diálogo com os católicos fez ressurgir no interior do presbiterianismo ecumênico baiano, o trabalho social com o homem e não para o homem, como fora proposto na criação do SIM. Foi um afastamento, talvez não proposital, do assistencialismo que só beneficiava os comerciantes e industriais, como mencionara o ex-padre Albertino Carneiro, citado no capítulo segundo. Fazer uma Teologia da Terra, era estar onde os problemas surgissem, era lutar com o povo e pelo povo, era resistir ante as pressões dos grandes proprietários de terra. A Comissão Pastoral da Terra: uma realidade em pleno Regime Militar As Pastorais da Terra, realidade no Brasil nos anos de 1970, nasceram da soma de esforços de Católicos ligados a CNBB. Preocupados com a situação da população rural, sobretudo os trabalhadores e trabalhadoras do campo, estes religiosos puseram em 218 ARQUIVO CESE. MEDINA, Alfredo Ferro. Abordagem de uma Teologia da Terra. In: A Teologia se fez Terra. CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação, Rio de Janeiro: Editora Sinodal, 1991, p. 29. 219 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 201. 117 prática um plano de ação que visava amparar o pequeno produtor, “posseiros, meeiros, arrendatários, sem-terra, acampados e assentados, assalariados rurais e (...) [as] diversas e diferentes comunidades ribeirinhas, extrativistas, quilombolas e povos indígenas”, 220 entre outros, quer seja judicialmente, ou mesmo no trabalho pastoral que estava muitas vezes ligado a organização e articulação do desassistido frente às injustiças cometidas principalmente pelos grandes proprietários de terras. O contexto em que a CPT surgiu, estava marcado pelo autoritarismo do Governo Militar. Nessa mesma conjuntura, pós golpe de 1964, as Ligas Camponesas, apoiadas pelo advogado Francisco Julião, já haviam deixado de ser uma associação de trabalhadores rurais de âmbito local, que abrangia o Sertão Pernambucano, para se expandir por outros estados do País e repercutir “na imprensa nacional e mesmo internacional”.221 Com a instauração da Ditadura Militar, estas organizações de camponeses sofreram forte represálias por parte dos militares e como desfecho dessa repressão, além da prisão das principais lideranças e mais uma vez a procrastinação de uma Reforma Agrária, aconteceu finalmente a extinção do movimento. A difusão da bandeira de luta das Ligas Camponesas, que tinha como foco principal a distribuição de terras devolutas foi a mola propulsora para a criação de “uma lei de reforma agrária e de desenvolvimento agrícola” no limiar do governo do presidente Mal. Castelo Branco.222 A insatisfação reinante no meio rural brasileiro e a dimensão que os movimentos de trabalhadores/as rurais estavam ganhando no Brasil fez com que as lideranças militares, logo após o golpe de 1964, adotassem medidas urgentes e estas vieram na forma de metas estabelecidas a partir da elaboração do Estatuto da Terra que previa solucionar os problemas referentes à posse da terra, sua distribuição e as questões relacionadas à agricultura e seu desenvolvimento. Todavia, um regime que recebeu o apoio dos grandes latifundiários, avessos à qualquer transformação no campo, não tinha a pretensão de modificar a situação dos pequenos lavradores. Se em algum momento houve a intenção de pôr em prática esse tipo de plano, esta foi relegada ao esquecimento a partir das pressões dos proprietários fundiários, que não possuindo mais o argumento do comunismo como ameaça, ou 220 COMISSÃO PASTORAL DA TERRA (CPT). Os Pobres possuirão a Terra (Sl 37,11): pronunciamentos de bispos e pastores sinodais sobre a terra. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, CEBI – Centro de Estudos Bíblicos, 2006. p. 10. 221 MONTENEGRO, Antônio Torres. As Ligas Camponesas e os Conflitos no Campo. In: Saeculum – Revista de História, n. 18, João Pessoa, jan/jun. 2008, p. 17. 222 RAMOS, Carolina. O Estatuto da Terra e as Federações da Agricultura do Sul e Sudeste do Estado. In: Segundas Jornadas de História Regional Comparada. Rio Grande do Sul, 2005. Disponível em: <http://www.fee.tche.br/sitefee/download/jornadas/2/h10-08.pdf>. Acesso em: 18 de abril 2012, p. 02. 118 melhor, “não mais podia[m] afirmar que a reforma agrária de Castelo Branco significava a instauração do comunismo no Brasil”, haja vista eles próprios terem “defendido e apoiado publicamente uma reforma agrária “democrática e cristã” contra o que consideravam a opção socialista”, utilizaram de outros subterfúgios, como a inexistência de um problema agrário no País.223 O Estatuto da Terra em seu Artigo 1º, dos Princípios e Definições aspirava “regula[r] os direitos e obrigações concernentes aos bens imóveis rurais, para os fins de execução da Reforma Agrária e promoção da Política Agrícola”, 224 porém, nos idos de 1964 este serviu mais como uma estratégia para apaziguar os ânimos dos envolvidos na luta pela terra e conter os avanços das Ligas Camponesas, do que uma intenção do novo governo em atender as demandas oriundas do campo e propiciar de fato o acesso à terra. 225 Destarte se tornou bastante contraditório “criar uma legislação agrária durante um regime militar, caracterizado pela rearticulação das forças políticas em prol de um capitalismo monopolista associado ao capital estrangeiro” e que ao mesmo tempo “contou com o apoio das classes proprietárias rurais”. 226 Nada mais contraditório do que pensar em distribuição do solo de forma equitativa e ao mesmo tempo assumir a necessidade de permanência dos grandes latifúndios nas mãos de uns poucos. Ao considerarem incoerente esse processo, os idealizadores da CPT tinham em mente atuar frente à população ligada ao trabalho do campo, que após a proibição das Ligas Camponesas ficaram a mercê dos proprietários de amplas extensões de terra e dos militares ancorados em seu Estatuto da Terra. A forma como a CPT começou a atuar, e tendo como principais agentes alguns padres católicos comprometidos com a causa dos camponeses, fez com que em seu nascedouro fossem vistas com bons olhos pelas autoridades governamentais que percebiam qualquer organização de trabalhadores como perigosa, por colocar em xeque a ordem e a segurança da nação. A possibilidade de 223 BRUNO, Regina. O Estatuto da Terra: entre a conciliação e o confronto. In: Estudos Sociedade e Agricultura – Revista Semestral de Ciências Sociais Aplicadas ao Estudo do Mundo Rural, n. 5, Rio de Janeiro, nov. 1995. 224 Ver Estatuto da Terra, Lei nº 4.504, sancionada em 30 de novembro de 1964, que estabelecia entre suas medidas referentes à terra, a realização da Reforma Agrária. Cabe ressaltar que muitas das disposições foram modificadas outras revogadas no decorrer dos anos. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4504.htm>. Acesso em: 16 de abril 2012. 225 Para mais informações ver FERREIRA, Muniz. Insurgência, Conciliação e Resistência na Trajetória do Protestantismo Ecumênico Brasileiro. In: DIAS, André Luis; COELHO NETO, Eurelino; LEITE, Márcia Maria (Orgs.). História, Cultura e Poder. Feira de Santana: UEFS Editora; Salvador: EDUFBA, 2010, p. 91. 226 RAMOS, Carolina. O Estatuto da Terra e as Federações da Agricultura do Sul e Sudeste do Estado. In: Segundas Jornadas de História Regional Comparada. Rio Grande do Sul, 2005. Disponível em: <http://www.fee.tche.br/sitefee/download/jornadas/2/h10-08.pdf>. Acesso em: 18 de abril 2012, p. 02. 119 desenvolver esse tipo de atividade por parte dos religiosos foi possível devido à influência política e intelectual que estes exerciam e “[e]m virtude do prestígio social da Igreja” no período. 227 Este quadro não permaneceu estável todo o tempo. Como as possibilidades de organização e politização de trabalhadores eram constantemente cerceadas pelas desconfianças dos militares, não tardou para que a CPT também se tornasse alvo de suspeitas e fosse mantida sob vigilância. Entre os bispos e padres católicos, foi comum a crítica a ação daqueles religiosos mais engajados com as lutas sociais. Esse grupo mais conservador, do qual faziam parte “muitos bispos”, optou por “estar mais próximos às autoridades políticas” e “a imensa maioria [desses] eclesiásticos achavam que o grande perigo para o mundo e para a Igreja era o comunismo”, não conseguiam, ou não queriam analisar a conjuntura política, econômica e social criticamente ou se envolver com os problemas deste mundo. 228 Esse posicionamento tomado pela cúpula da Igreja Católica tornava-se ainda mais inflexível quando a discussão se estendia para a união entre cristãos de instituições religiosas díspares. Apesar da aproximação e identificação de católicos ligados à Teologia da Libertação com o movimento ecumênico, não podemos dizer que a adesão era unânime entre os clérigos. Os teólogos da libertação, assim como os padres e bispos mais engajados, foram atores isolados se levarmos em consideração o alcance dessa instituição no Brasil. A CPT, mesmo idealizada por católicos, houve aproximação destes com evangélicos, entre eles, os membros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), sendo possível afirmar que a instituição ganhou um caráter ecumênico logo após a sua fundação. 229 A CPT se espalhou por todo o País, durante as décadas de 1970 e 1980, período em que eram constantes as mortes de trabalhadores e trabalhadoras do campo envolvidos em conflitos por terra, da mesma forma, como foi exposto, também não era incomum encontrar padres e pastores que abraçavam a causa dos despossuídos sofrerem ameaças por parte dos grandes latifundiários. Os militares chegaram a acusar a CPT de responsável pelas subversões dos camponeses, dos militantes sociais e assalariados, de 227 SANTOS, Igor Gomes dos. Na Contramão do Sentido: Origens e Trajetórias do PT de Feira de Santana – Bahia (1979-2000). Niterói, Dissertação de Mestrado: UFF, 2007, p. 102. 228 BARROS, Marcelo. Dom Hélder Câmara: profeta para os nossos dias. São Paulo: Paulus, 2011, 4851. 229 COMISSÃO PASTORAL DA TERRA (CPT). Os Pobres possuirão a Terra (Sl 37,11): pronunciamentos de bispos e pastores sinodais sobre a terra. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, CEBI – Centro de Estudos Bíblicos, 2006. 120 incitar esses pobres contra os patrões e a questionarem a situação de miséria a qual estavam submetidos. “De fato, foi a partir da atuação das Igrejas que os conflitos, as violências, os assassinatos de trabalhadores passaram a ser conhecidos, tornados públicos, denunciados.” Até então não era de conhecimento da sociedade tais atrocidades, “nesse sentido, pode-se dizer que a CPT colaborou para a visibilidade “política” dos conflitos e violências”. 230 O Governo Federal ao acusar a Igreja Católica de subversiva, de disseminadora de ideais ateus, comunistas, não agiu de forma mais enérgica contra os religiosos devido à cobertura institucional que estes possuíam. No entanto, no meio eclesiástico muitos bispos e padres sofreram retaliações por parte dos próprios irmãos de fé, a exemplo de Dom Hélder Câmara, considerado “durante muito tempo (...) o único bispo católico que tinha um pensamento crítico em relação ao capitalismo vigente” e a situação a que estava exposta a população pobre.231 As escolhas políticas de Dom Hélder, a opção pelos despossuídos fez com que fosse visto como perigoso e estivesse sempre sob os olhares dos superiores religiosos e dos militares. Inclusive, durante os anos em que o Rev. João Dias de Araújo assumiu ministério em Recife, este manteve estreitas ligações com D. Hélder, na realização de atividades em prol da população carente, bem como com Francisco Julião e a experiência das Ligas Camponesas. 232 “A terra é minha, diz o Senhor, e vós sois como migrantes e posseiros” (Lv 25,23) Reabramos a Ata – História da CEDITER, de 01 de junho de 1985. Das finalidades: “1ª dar apoio aos trabalhadores rurais na luta pela posse e manutenção de suas terras”. 233 Este desígnio primeiro da CEDITER foi pensado a partir das dificuldades enfrentadas por homens e mulheres do campo frente ao crescimento do monopólio da terra e da expropriação desordenada dos pequenos produtores. Sob ameaças cada vez mais frequentes, seguidas quase sempre de assassinatos, essa população encontrava-se desamparada e submetida à exploração capitalista, a um 230 COMISSÃO PASTORAL DA TERRA (CPT). Os Pobres possuirão a Terra (Sl 37,11): pronunciamentos de bispos e pastores sinodais sobre a terra. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, CEBI – Centro de Estudos Bíblicos, 2006, p. 14. 231 BARROS, Marcelo. Dom Hélder Câmara: profeta para os nossos dias. São Paulo: Paulus, 2011, p. 51. 232 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010. 233 ACERVO CEDITER – Ata nº 1 – História da CEDITER. Feira de Santana: 01 de jun. 1985, p. 01. Localização 1.H. 121 sistema defensor do individualismo e que sempre sobreviveu graças à miséria e à injustiça de parte significativa de trabalhadores. Entretanto, esses temas, tão caros para os homens e mulheres da década de 1970 e 1980, não apareceram na Bíblia como algo aceito por Deus. Contrário a isso, encontramos a impossibilidade de se desfazer da terra através da venda, pois esta não a pertence. Do mesmo modo não é possível afirmar a perpetuidade sobre um determinado terreno, porque diz o Senhor, “a terra é minha”. Aqueles que nela estiverem usufruirão e 234 tirarão o seu sustento, não esquecendo que “sois como migrantes e posseiros”. Diante do exposto, esse segmento cristão ecumênico, condenou a concentração especulativa, a acumulação, a exploração e a expropriação de pequenas propriedades. Considerando esses questionamentos como fundamentais para a vida do cristão, eram nos princípios bíblicos que os idealizadores da CEDITER buscavam embasamento para suas ações e justificativas para sua bandeira de luta. Como os espaços democráticos eram poucos, eles precisaram ancorar seus trabalhos em uma Teologia da Terra, “(...) para justificar biblicamente as ações de todos os cristãos engajados (...) [na] fronteira da práxis cristã”. 235 De acordo com Silva essa teologia defendida pelos presbiterianos ecumênicos estava muito próxima das propostas da CPT e da Teologia da Libertação, era “Uma práxis de intensa colaboração com as CEBs e a Igreja Católica feirense”.236 Essa práxis presbiteriana ecumênica apresentou a religião não como mera devoção, mas como responsável pela mudança na vida de muitas pessoas, sejam os beneficiados pelos trabalhos da CEDITER, ou ainda as lideranças que dirigiam o projeto. A CEDITER “não dava a coisa pronta [...] fazíamos várias reuniões para conscientizar o pessoal que eles é que tinham de lutar, não era pra esperar por ninguém”. 237 Ao se permitirem um maior envolvimento com os problemas deste mundo, com as questões sociais, ao se engajarem na luta contra as dificuldades dos menos favorecidos estes evangélicos demonstraram que não aceitavam a realidade da forma como estava posta, que não era mais possível admitir que pessoas fossem 234 BÍBLIA SAGRADA. 2 ed. Barueri – São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993, p. 91. ACERVO DO REV. JOÃO DIAS DE ARAÚJO. ARAÚJO, João Dias. A Teologia da Terra (O “Adamacentrismo” Bíblico), p. 02. Não Publicado. 236 SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: evangélicos progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 202. 237 Trecho extraído da Entrevista com a Professora Linda Breda presente no livro de Elizete da Silva, Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: Evangélicos Progressistas em Feira de Santana, realizada em 7 de fevereiro de 2007. Linda Breda foi estagiária da CEDITER, fez parte do Projeto Estagiários desenvolvido pela entidade e que contava com vários estudantes universitários. Após a conclusão do projeto a mesma continuou como assessora da instituição. Mais informações recorrer à obra citada, p. 202. 235 122 injustiçadas para que outras possam se beneficiar. Este pensamento é muito próximo da interpretação que Löwy (1997) deu aos escritos de Marx e de Engels. Este percebeu na concepção desses estudiosos uma visão diferenciada da religião, uma possibilidade de contestação contra uma sociedade excludente. 238 Se pensarmos a religião fora da realidade, como algo transcendente, de fato ela servirá apenas para legitimar a sociedade e as mazelas do sistema econômico, visto que transfere para outro plano a resolução dos problemas terrenos. Ao ir de encontro a essa concepção religiosa os Presbiterianos Ecumênicos transformaram “a crítica da religião (...) na crítica deste vale de lágrimas e a crítica da teologia em crítica da política”, 239 perceberam que podiam trabalhar como verdadeiros cristãos em favor do irmão injustiçado e contra os responsáveis por tais mazelas. Ao iniciarem suas atividades na Bahia, encontraram um cenário desolador, marcado por “graves conflitos de terra, com a presença truculenta dos grileiros que perturbavam pequenos agricultores”, além disso, o Estado sofria com catástrofes naturais como “a forte seca de 5 anos que assolava o Nordeste”. 240 Se analisarmos quantitativamente esses conflitos de terra ocorridos na Bahia da década de 1930 até 1986, observaremos que para todo esse período temos uma linha ascendente. Vide Tabela: Tabela 5 – Conflitos pela posse da terra ocorridos na Bahia entre 1930 a 1986 1930195019701982 1983 1984 1985 1986 1950 1960 1980 - 1 10 2 2 4 5 48 Fonte: Cadernos Conflitos no Campo - CPT Enquanto de 1930 a 1950 não havia nenhum caso registrado no Estado, tendo o primeiro registro ocorrido apenas de 1950 a 1960, a partir dos anos de 1970 o cenário começou a ser modificado, sendo assinalado 10 conflitos de 1970 a 1980 e daí em diante, 2 em 1982, 2 em 1983, 4 em 1984, 5 em 1985 e 48 em 1986. Cabe ressaltar que em 1986, ano apontado como o de maior número de disputas no campo, a Bahia ocupava a quarta posição entre os Estados com maior índice de conflitos atrelados à 238 LÖWY, Michael. Marx e Engels como sociólogos da religião. In: Revista de Ciências Sociais – Lua Nova. nº 1, vol. 40, Rio de Janeiro, 1997. 239 Op. Cit., 1997, p. 159. 240 ACERVO CEDITER – BOLETIM INFORMATIVO – 20 ANOS: HISTÓRICO DA CEDITER. 2002, p. 01. 123 posse do solo, ficando atrás apenas do Ceará com 96 casos, o Pará com 80 e o Maranhão com 52. 241 Entretanto esses números da CPT podem ser modificados se considerarmos os dados de um levantamento feito pela Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), a partir de notícias presentes em jornais. Para os anos de 1980 foram registrados 38 conflitos e 1981 foram 97, totalizando 135 casos. Não podemos deixar de mencionar que no relatório da CPT não existem dados referentes a 1981, todavia, os casos levantados pela ABRA para 1980, ultrapassam os 10 conflitos assinalados pela CPT para toda a década de 1970 a 1980. Tanto nos dados da CPT, quanto no levantamento da ABRA, a Bahia continuou figurando entre os Estados com o maior índice de problemas no campo. Um ponto crucial, que provavelmente ocasionou essa divergência de dados entre a CPT e a ABRA, está na diferenciação dos conflitos. A CPT distingue as agitações no campo em várias categorias: 1ª conflitos de terra, 2ª trabalho, 3ª garimpo, 4ª acidentes, 5ª sindical, 6ª seca, 7ª outros. Já nos dados da ABRA não é possível notar tal divisão. Todos os problemas referentes à disputa territorial se encontram em um único grupo. Nos dados de 1985, por exemplo, nos cadernos da CPT temos um total de 768 agitações, 636 tinham a terra como foco e 76 causas trabalhistas, apenas 4 ligadas ao garimpo e 9 a seca. 242 Em 1986 dos 759 casos catalogados, 634 estavam ligados à terra e 95 à causas trabalhistas, 7 ao garimpo e 8 se referiam a causas sindicais e nenhum a seca. 243 Informações detalhadas dessa forma não foram localizadas nos relatórios da ABRA. Da mesma forma não encontramos registros anteriores a 1970. O decréscimo, silenciamento, ou não catalogação dos conflitos pós-64 pode ser entendido se tomarmos como base o contexto do período. Sabemos que não deixaram de existir, embora em menor alcance e em número reduzido. Nos primeiros seis anos de Governo Militar, as dificuldades de organização eram maiores, sobretudo a partir da criação do Ato Institucional nº 5. As denúncias da situação dos trabalhadores e trabalhadoras do campo só vieram a público a partir da mediação dessas agitações por parte da CPT, isso nos anos de 1970. No entanto, os registros que possuímos e os disponibilizados pelo órgão 241 COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Cadernos Conflitos no Campo. Goiânia: Setor de Documentação – CPT, 1986, tabela 1, p.. 12, tabela 5, p. 28. 242 COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Cadernos Conflitos no Campo. Goiânia: Setor de Documentação – CPT, 1985, tabela 1, p. 23. 243 COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Cadernos Conflitos no Campo. Goiânia: Setor de Documentação – CPT, 1986, tabela 4, p. 27. 124 só dão conta da segunda metade da década de 80, o que nos leva a crer que os dados, se catalogados pela CPT antes desse período, não puderam ser veiculados. Coincidentemente, só após o fim do Governo Militar é que são tabeladas informações acerca dos conflitos de terra, com destaque para as regiões mais afetadas, os nomes dos envolvidos, as ameaças e assassinatos. De acordo com Oliveira (1988), nos idos de 1975, homens e mulheres do campo voltaram a se organizar em sindicatos de trabalhadores/as rurais, o que nesse período, influenciados pelas greves gerais do ABC paulista, se convencionou chamar de “novo sindicalismo”, com “novas lideranças que ensaiam passos novos, com uma prática voltada para os interesses dos trabalhadores, dando uma nova feição ao sindicalismo rural”. 244 Algumas dessas organizações se caracterizaram a partir de aproximações com entidades de perfil ecumênico. Apesar da mediação de religiosos em movimentos sociais relacionados a terra, segundo Poletto (1988), as igrejas conseguiram atuar em pouco mais de um terço dos conflitos registrados. Para o autor este era o verdadeiro desafio das igrejas cristãs, buscar um envolvimento com os problemas sociais, abraçar a luta dos pobres pela terra, contra a exploração e a exclusão, em outras palavras, pôr em prática o que é propalado nas instituições religiosas. 245 Nesse contexto, a editora Tempo e Presença, fundada em 1968 por um grupo de jovens ecumênicos ligados ao Centro Evangélico de Informação (CEI), que se tornaria, logo em seguida, o Centro Ecumênico de Informação, mesmo após o AI-5, desenvolvia um trabalho voltado para a conscientização da população através de publicações que criticavam o sistema vigente e o estado em que se encontrava a maioria da população carente do País, vivendo na extrema pobreza. Com o acirramento da repressão dos militares, passaram a publicar reportagens internacionais, estrategicamente, utilizando a conjuntura externa, análoga à brasileira, para tecer críticas indiretas à Ditadura Militar e a realidade brasileira. Nota-se que protestantes ligados ao movimento ecumênico, 244 ACERVO CEDITER – OLIVEIRA, Ildes Ferreira. Movimento sindical Rural e Estado. In: Revista Tempo e Presença. s.n., Rio de Janeiro, jun., 1988, p. 4. 245 ACERVO CEDITER – POLETTO, Ivo. Luta pela Terra: novos desafios as igrejas cristãs. In: Revista Tempo e Presença. s.n., Rio de Janeiro, jun., 1988, p. 20. Alguns dados citados por Poletto fazem parte do levantamento realizado pela CPT em 1987 acerca dos conflitos no campo ocorridos no Brasil. A afirmação que este faz sobre o envolvimento das igrejas cristãs nos movimentos pela terra são referenciados nesses dados. 125 perseguidos e vigiados, não se calaram ou se esconderam, pelo contrário, resistiram, agiram nas brechas, nos poucos espaços que lhes eram permitidos. 246 A CEDITER surgiu nesse contexto como a Pastoral da Terra da IPU, idealizada por protestantes ligados ao movimento ecumênico. Nas palavras de um dos envolvidos no projeto de criação da entidade, o Rev. João Dias de Araújo, “a IPU tinha a CEDITER como a primeira organização da Pastoral da Terra dentro da IPU. Não surgiu depois outra”. Foi a partir de uma reunião realizada em Feira de Santana em janeiro de 1982 que o Rev. João Dias de Araújo, juntamente com “o Reverendo Zé Cardoso e os Presbíteros (...) pediram ao Presbitério pra começar uma espécie de Pastoral da Terra no Presbitério”, tendo em vista as dificuldades encontradas pelos “trabalhadores rurais [que] estavam sofrendo muito com a atividade dos grileiros”. 247 O Rev. José Moreira Cardoso, que pastoreava em Bom Jesus da Lapa/BA, já havia sido ameaçado várias vezes, ameaças que se estenderam por toda a década de 1980, conforme os dados da CPT. Nos cadernos Conflitos no Campo de 1985 seu nome figurou como o primeiro da lista, seguido pelos lavradores Valdir Fernandes, Belizo, e os Padres Lino Allegri, Luis Sartonel, para citar apenas alguns. Em 1986 além do Reverendo presbiteriano, foram incluídos na lista dos desafetos, Francisco Joaquim Lima, que era Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barreiras, Epifânio Demerval Almeida, um lavrador do município de Pintados, Ricardo Camellini, Padre em Senhor do Bonfim, entre outros. Nos anos seguintes não foi diferente, incluindo na lista em 1988 o Bispo de Itabuna, D. Paulo Lopes. 248 Além da finalidade primeira já apontada, que era a de apoiar os homens e mulheres do campo nas disputas pela terra e manutenção das mesmas, a CEDITER, seguindo a sua 2ª finalidade, começou suas atividades dando suporte para “a criação de uma assistência jurídica para dirimir as injustiças sofridas pelos trabalhadores rurais, principalmente os líderes rurais dos diversos sindicatos”, 249 neste segundo objetivo 246 Conferir FERREIRA, Muniz Gonçalves. Insurgência, conciliação e resistência na trajetória do protestantismo ecumênico brasileiro. In: DIAS, COELHO NETO & LEITE (Orgs.). História, Cultura e Poder. Feira de Santana, UEFS Editora; Salvador: EDUFBA, 2010. 247 Entrevista com o Reverendo João Dias de Araújo, Op. Cit. 248 COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Cadernos Conflitos no Campo. Goiânia: Setor de Documentação – CPT, 1985-1990. Nos Cadernos elaborados pela CPT existem dados quantitativos referentes aos conflitos pela terra no Brasil, os envolvidos nas querelas, o número e nome dos assassinados, os nomes dos responsáveis pela morte e o motivo de tal atrocidade, entre outras informações. Sobre o Rev. José Moreira Cardoso, este é mencionado em todos os cadernos da década de 80, de 1985 a 1989. Anterior a isso, em 1982, de acordo com o depoimento do Rev. João Dias de Araújo, já eram constantes as ameaças ao Rev. José Moreira Cardoso. 249 ACERVO CEDITER – Ata nº 1 – História da CEDITER. Op. Cit., p. 01. 126 contaram com a experiência do Rev. João Dias de Araújo que havia pastoreado em Wagner, na Chapada Diamantina, e após se aposentar das suas atividades como Pastor escolheu a mesma região para prestar assessoria jurídica. O Reverendo como advogado tinha “preferência pelo Direito Trabalhista” e havia se especializado “no Direito Agrário”. 250 Quanto a 3ª e última finalidade que era a de pôr em prática um plano de ação voltado para a “educação sindical de organização comunitária com o objetivo de fortalecer a mobilização e a organização dos trabalhadores rurais”, 251 esta se tornou realidade a partir da criação da Associação de Apoio aos Trabalhadores da Chapada (AATC), meses após a fundação da CEDITER. Participavam da AATC oito sindicatos e entre os seus membros além dos líderes sindicais da Chapada Diamantina, faziam parte os Reverendos João Dias de Araújo e José Moreira Cardoso, o representante da CPT de Ruy Barbosa, entre outros. Essa associação foi responsável pela realização de cursos e encontros, organização de campanhas de ajuda aos atingidos pelas secas e formação de líderes sindicais. Próximo a Pedra do Cavalo, em Cachoeira, São Félix, Governador Mangabeira, e Muritiba, a CEDITER atuou junto à população que havia sido desalojada de suas casas e expulsas de suas terras, para áreas mais distantes do rio Paraguaçu e sem acesso a água, após a construção da Barragem Pedra do Cavalo, intermediando a disputa dessa população com o Estado que além de expropriar os ribeirinhos, vendeu parte do terreno para fazendeiros. Já na área rural de Feira de Santana vale ressaltar o incentivo dado à agricultura familiar, a organização de Associações de Mulheres e a formação de STR. O intento da entidade era realizar um trabalho em favor da dignidade humana, como foi explicitado na Cartilha comemorativa dos 19 anos da entidade. Os trabalhadores e trabalhadoras que lutavam por uma vida mais decente e digna, encontraram na CEDITER o amparo que precisavam. A entidade, por sua vez, buscou “difundir e praticar os princípios e as metodologias do diálogo ecumênico, educando, formando e capacitando trabalhadores: homens, mulheres e jovens rurais para o fortalecimento de suas próprias organizações e para ajudá-los a crescer sua cidadania 250 251 Entrevista com o Reverendo João Dias de Araújo, Op.Cit. ACERVO CEDITER – Ata nº 1 – História da CEDITER. Op. Cit., p. 01. 127 plena”. Cada participante do projeto, segundo a impressão dos envolvidos na entidade, era como uma semente plantada na esperança de vê-la germinar e produzir frutos. 252 CEDITER: em favor da terra e contra a exploração Quando a CEDITER foi idealizada, em janeiro de 1982, além do contexto conturbado já exposto nas páginas anteriores, o Presbitério de Salvador tinha como motivação para a criação da entidade a “existência de Igrejas Presbiterianas em áreas de conflitos pela posse da terra no interior do Estado da Bahia”. A IPU já se encontrava atuante na Chapada Diamantina, Bom Jesus da Lapa e em Feira de Santana e há muito seus “pastores, presbíteros e leigos” estavam envolvidos “no problema agrário da[s] regi[ões]”. Afora isso, enquanto a Igreja Católica, através da CPT, se encontrava na luta, lado a lado com os trabalhadores e trabalhadoras pela posse do solo, não havia “participação oficial de Igrejas Protestantes no sentido de colaborar para a solução desse problema grave”. 253 Em um contexto em que era difícil se trabalhar com a conscientização de trabalhadoras e trabalhadores, quer seja urbanos, ou mesmo rurais, devido à vigilância acirrada por parte dos militares, algumas instituições eclesiásticas desempenhariam essa função. Nessas circunstâncias se torna coerente a assertiva, de Marx e de Engels, de “suspiro da criatura oprimida” que “em determinadas condições, a religião pode realmente desempenhar o papel principal na vida de uma sociedade”. 254 Com a CPT Católica e com a CEDITER, o Cristianismo brasileiro assumiu seu papel crítico e contestatório, e aos poucos foi abrindo caminho em meio a uma sociedade que se encontrava governada por militares e com poucos espaços democráticos. No distrito de Sítio do Mato e Rio das Rãs, em Iaçu, Itaberaba, Ruy Barbosa, Boa Vista do Tupim, entre outros, a CEDITER prestou assistência jurídica nos conflitos com os patrões que exploravam os meeiros e com grileiros que invadiam as terras dos pequenos agricultores. A situação era caótica em todo o Estado e a presença da CEDITER nesses espaços de luta se fazia cada vez mais frequente. Em Boa Vista do 252 ACERVO CEDITER - Cartilha: 19 anos em favor da dignidade humana. Feira de Santana: CEDITER, 2001, p. 3. 253 ACERVO CEDITER – Ata nº 1 – História da CEDITER. Feira de Santana: 01 de jun. 1985, p. 01. Localização 1.H. 254 LÖWY, Michael. Marx e Engels como sociólogos da religião. In: Revista de Ciências Sociais – Lua Nova. nº 1, vol. 40, Rio de Janeiro, 1997, p. 159. 128 Tupim, foram muitas as intervenções da entidade, que através da AATC, em parceria com a CPT, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sindicatos dos Trabalhadores Rurais da Região e o Pólo Sindical, no final da década de 1980, exigiram medidas mais efetivas do Governo naquela área. Denunciavam a tirania do fazendeiro João Mascarenhas e a situação de miséria dos posseiros que habitavam a área em questão, a Fazenda Serrania. O Senhor João Mascarenhas havia dado ordens aos seus jagunços para atear fogo nas residências dos posseiros e expulsá-los da terra. Porém, o problema estava apenas começando, Após as primeiras destruições, os posseiros e o sr. João Mascarenhas, negociaram um acordo entre sí por 60 dias, que era o de nenhuma das partes penetrarem na área em litígio, no entanto SOMENTE os POSSEIROS RESPEITARAM. João Mascarenhas, desrespeitando o acordo, permitiu que seus jagunços Diva e Aristóteles colhessem frutos das lavouras plantadas pelos posseiros, queimassem as casas restantes, bem como que fossem tiradas as madeiras da mata para comercialização, fato que motivou a volta dos posseiros à área , uma vez que desesperados viam seus frutos roubados pelo inimigo, enquanto eles passavam fome. 255 Já haviam buscado soluções via meios legais. O INCRA, representante do Governo Federal, tinha conhecimento da situação, no entanto, não havia qualquer providência para a resolução do problema. Diante do silenciamento do governo, as atrocidades do fazendeiro só aumentavam, os atos violentos voltaram a ocorrer e vieram acompanhados pelo desmatamento da área. Em folhetim distribuído pelos posseiros, relatavam o fato em questão e exigiam do INCRA uma Reforma Agrária urgente e medidas severas contra os crimes cometidos pelos jagunços, a mando de João Mascarenhas. Esse tipo de situação ocorrida em Boa Vista do Tupim, era comum nas áreas de abrangência da CEDITER. Na realidade, a instituição chegava aos círculos em que os problemas ligados à terra estavam mais acentuados. Na região do Recôncavo Baiano, a CEDITER atuou junto à população que havia sido desalojada de suas casas e expulsas de suas terras, para áreas mais distantes do Rio Paraguaçu e sem acesso a água, após a construção da Barragem Pedra do Cavalo, intermediando a disputa dessa população com o Estado que além de expropriar os ribeirinhos, vendeu parte do terreno para 255 ACERVO CEDITER. Continua a miséria na Faz. Serrania: Boa Vista do Tupim – Responsável: João Mascarenhas. Boa Vista do Tupim, 1987. 129 fazendeiros. Uma barragem pensada “para o fornecimento de energia elétrica, irrigação e o abastecimento de energia elétrica de Feira de Santana e do Recôncavo”, e para o “aproveitamento dos recursos hídricos e naturais da área no sentido de implantar programas de desenvolvimento com os objetivos de fixar o homem na terra e diminuir o êxodo para Salvador”, tornou-se para os atingidos um verdadeiro vale de lágrimas. 256 O Governo Estadual, não considerou a existência de famílias “de milhares de lavradores, especialmente posseiros e pequenos e médios proprietários” nas áreas que seriam alagadas. Não houve qualquer coerência com o projeto inicial do Plano de Valorização dos Recursos Hídricos da Bacia do Paraguaçu ou planejamento para a relocação da população ribeirinha que viu suas pequenas propriedades serem inundadas. 257 Repetia com essas famílias o mesmo que ocorreu com os desapropriados pela Barragem do Sobradinho. Com os ribeirinhos desalojados após a construção da barragem Pedra do Cavalo, por exemplo, além de buscar soluções através de negociações com Governo do Estado, a entidade ecumênica, organizou manifestações que visavam, além de pressionar as instâncias governamentais, informar a população sobre a forma como havia sido feita a desocupação do espaço que seria alagado e ao mesmo tempo sensibilizá-la. Na terça-feira, 11 de setembro de 1990, manifestantes saíram às ruas de Salvador e marcharam até a Assembleia Legislativa, Governadoria e Praça da Piedade, carregando faixas, e exigindo o reassentamento da população atingida pela barragem. Vide imagem 256 JOSÉ, Emiliano. A Barragem de Pedra do Cavalo na Bahia. In: Caderno do Centro de Estudos e Ação Social – CEAS. Salvador: nº 86, jul/ago, 1983, p. 9-15. 257 Idem, p. 9-15. 130 Figura 8 – Manifestação sobre Pedra do Cavalo – Assembleia Legislativa, Governadoria e Praça da Piedade, 11/09/1990 – Salvador/Bahia. Fonte: Acervo CEDITER Apesar da imagem não possuir uma boa qualidade, como as produzidas pelo SIM, o que demonstra que não foi captada por um profissional, podemos ler na faixa principal os dizeres: “O povo massacrado pela barragem Pedra do Cavalo exige reassentamento urgente”, o que provavelmente também era tema dos pequenos cartazes levados pela população. Não conseguimos compreender na íntegra o conteúdo da segunda faixa, porém a impressão que temos é que ela traz uma mensagem de apoio dos trabalhadores rurais de cidades próximas à Feira de Santana, visto que em outras fontes iconográficas, notamos a adesão dos trabalhadores rurais de Santo Estevão. Cabe ressaltar que as pressões por parte da CEDITER já existiam e até aquela data ainda havia cerca de 200 famílias desalojadas. Em janeiro de 1989, a entidade desenvolveu o Projeto para agilização do reassentamento das famílias atingidas pela construção da barragem de pedra do cavalo, que visava, a partir da contratação de técnicos da área social, realizar um levantamento da situação dessa população ainda sem moradia. Esses técnicos ampliariam as atividades que já vinham sendo efetivadas por jovens ligados ao Projeto Estagiários – que era mais uma iniciativa da instituição, a de 131 manter estudantes das universidades baianas nos Pólos Sindicais, prestando serviços educativos e jurídicos. 258 Na região de Sítio do Mato eram constantes as “expulsões de posseiros por meio de incêndios criminosos de suas casas, derrubadas de cercas, destruição de roças, derrubadas de casas a machado e envenenamentos de aguadas”. Um agricultor relatou que “apesar de ter sido fundado há dois anos o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município ainda não conseguiu, até hoje, dar andamento numa única questão tendo a situação se agravado depois da morte do advogado Eugênio Lyra”. E até mesmo o advogado substituto “abandonou a região há vários meses também ameaçado de morte por um fazendeiro”. 259 A data citada por Flomigli (1978), destacando os dois anos da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a não atuação deste, diverge do Relatório do Trabalho de Educação Sindical de 1989, elaborado pelo líder sindical Argemiro Martins dos Anjos e encaminhado à CEDITER. No referido, Argemiro dos Anjos destacou as dificuldades em conscientizar os trabalhadores e pedia o apoio da instituição para fundar os sindicatos de Sítio do Mato e Serra do Ramalho, região do São Francisco, em Bom Jesus da Lapa, município que já contava com seis mil sócios no sindicato. Assim dizia: Se for da vontade de Deus avançar todo este trabalho junto com a Equipe da CEDITER, para fundação de 2 sindicatos de Sítio do Mato e Serra do Ramalho que necessita de muita assistência das entidades de apoio, porque a assessoria jurídica tem sido precária. 260 No período em que Flomigli se refere ao Sindicato de Trabalhadores Rurais, este ainda nem existia em Sítio do Mato. Mais uma vez percebemos a atuação da CEDITER nessa região, iniciada ainda no início dos anos de 1980 e o resultado das ações através do relatório de Agnaldo dos Anjos. Um município com conflitos registrados por toda a década e conseguiu aglutinar seis mil trabalhadores em torno de um mesmo objetivo. Em 1990 pede apoio para fundar mais dois sindicatos e em áreas nas quais os conflitos eram frequentes. 258 ACERVO CEDITER. Projeto para agilização do reassentamento das famílias atingidas pela construção da barragem de pedra do cavalo. Feira de Santana, 1989. 259 FLOMIGLI, Pedro. Missão da Terra na Lapa. In: Caderno do Centro de Estudos e Ação Social – CEAS. Salvador: nº 57, set/out, 1978, p. 51. Ver também: COSTA, Iraneidson Santos. Que Papo é Esse? Igreja Católica, movimentos populares e política no Brasil (1974-1985). Feira de Santana: UEFS Editora, 2011. 260 ACERVO CEDITER. Relatório de Trabalho de Educação Sindical – Argemiro Martins dos Anjos. Sítio do Mato, 1989. Transcrevemos o manuscrito obedecendo as regras ortográficas. 132 Em Rio das Rãs, devido à perseguição sofrida pelo líder quilombola, Tomé, que era ameaçado pelos grileiros “porque ele queria que aquelas terras dos quilombolas fossem oficializadas (...) fossem registradas em cartório e com os nomes das 300 famílias daquela área”, Peter Kemerli, um sociólogo norte-americano que prestou assessoria a CEDITER por alguns anos, juntamente com a sua esposa, a mexicana Maria Arroyo, trabalharam na oficialização dessa propriedade. A CEDITER, conjuntamente com a Pastoral da Terra Católica de Bom Jesus da Lapa e “vários movimentos sindicais da região, (...) [foram] a Brasília e [conseguiram] que aquelas terras fossem colocadas em nome dos quilombolas que moravam ali há muito tempo”. 261 A CEDITER também atuou na mediação para que a entrada do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) na Bahia, na região da Chapada Diamantina, fosse concretizada. A entidade contou com a ajuda da CPT de Ruy Barbosa para organizar o núcleo dos trabalhadores sem-terra. Juntas planejaram encontros de líderes do movimento com “um grupo jogado fora de uma fazenda” que já havia formado “acampamento (...) na estrada, perto de Itaberaba, entre Itaberaba e Ruy Barbosa”. Como o Bispo Dom Matias, responsável pela Diocese de Ruy Barbosa não permitia o MST naquela área, por considerar o grupo com uma postura bastante radical, coube a CEDITER e a CPT convencê-lo do contrário. 262 A CEDITER tinha como proposta uma transformação social, baseada na conscientização de homens e mulheres, à luz de uma Teologia da Terra, que considerava ser “direito de todos os seres humanos de tirarem seu alimento da terra”, haja vista este se tratar do “primeiro direito do homem que aparece na bíblia”.263 Entendia que a religião não poderia ter amarras, presa nos templos. Esta precisava ganhar o mundo, chegar aos lugares mais longínquos, participar ativamente das transformações econômicas, sociais e políticas e abandonar a função de apenas legitimadora da ordem, para se tornar contestadora da sociedade existente. Para realizar os projetos contou com o apoio da entidade Pão Para o Mundo (PPM), órgão ecumênico de origem alemã, ligado à Igreja Evangélica Luterana Alemã, da Coordenadoria 261 Entrevista com o Reverendo João Dias de Araújo, concedida à autora em 16 de junho de 2011, Feira de Santana/Ba. 262 Idem. 263 ARAÚJO, João Dias de. Teologia do Povo e Teologia da Terra. In: MATEUS, Odair. Teologia no Brasil: teoria e prática. São Bernardo do Campo: ASTE, 1985, p. 39. Apud SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e Realidade Brasileira: Evangélicos Progressistas em Feira de Santana. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010, p. 202. 133 Ecumênica de Serviço (CESE) e da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos. Firmou parcerias com a CPT, com o Movimento de Ação Comunitária (MOC) e com o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). Buscou nesses anos de atuação, fugir do assistencialismo e promover um projeto contestatório e libertador, conscientizando, trabalhadores e trabalhadoras rurais, famílias inteiras atingidas por problemas que envolviam a terra. 134 Considerações Finais Os presbiterianos ecumênicos conseguiram por várias décadas desenvolver atividades sociais em Feira de Santana. Iniciaram os projetos em uma fase conturbada da História Brasileira, em 1968 com a AFAS, e conseguiram, com o apoio de órgãos nacionais e internacionais, levar adiante a proposta e fundar novas instituições nas décadas seguintes, nos anos de 1970 o SIM e na década de 1980 a CEDITER. Enquanto muitos irmãos da IPB eram perseguidos e presos, estes ousaram, mesmo rompendo com a Igreja da qual faziam parte desde o nascimento, criticar a não intervenção dessa instituição religiosa nos principais problemas que atingiam a população carente, tanto da cidade, quando do campo. Foram corajosos, assumiram riscos, alguns pagaram com a vida. Esses jovens, entusiasmados com as transformações que poderiam fazer na sociedade e influenciados por novas concepções teológicas que preconizava uma igreja mais aberta, em diálogo constante com outros grupos religiosos, viram o que aprenderam, teoricamente, com o mestre Richard Shaull, nos Seminários de Campinas e Vitória, se transformar em realidade concreta através de intervenções sociais em Feira de Santana. Conseguiram realizar atividades com mendigos e migrantes, na profissionalização destes e colocação no mercado de trabalho. Enquanto eram criticados pelos irmãos de fé, devido aos posicionamentos assumidos quando aderiram ao movimento ecumênico, recebiam elogios de profissionais enviados de outros estados da federação e de outros países devido ao serviço prestado à comunidade feirense e em particular, aos desassistidos. Apesar da forte pressão dos segmentos conservadores da IPB e do rígido controle militar, esses presbiterianos se mantiveram irredutíveis no propósito de ver florescer os projetos de intervenção social. Além de duramente criticados pelos irmãos de fé, ou mesmo por alguns daqueles que aderiram às propostas ecumênicas, assistiram na década de 1980 o declínio das atividades do SIM, o que para o grupo não foi interpretado como um fracasso, mas como a concretização de mais uma etapa, iniciada com a idealização da AFAS e que seguia adiante com a criação da CEDITER, que já se encontrava em funcionamento quando o SIM começou a ser desativado e deu lugar ao Instituto de Educação e Desenvolvimento INED, um instituto educacional que com apoio do governo estadual, atendia aos/as estudantes do bairro SIM, que recebeu o mesmo nome da entidade, e áreas próximas. 135 A CEDITER surgiu, concomitante a uma onda de avaliações negativas das entidades, SIM e AFAS. As entidades, primeiro a AFAS, que conforme o ex-padre Albertino Carneiro, servia mais aos comerciantes ao retirar das ruas a figura do mendigo, sem, no entanto, acabar com o problema da mendicância que afetava o município, como vimos em páginas anteriores, e, posteriormente o SIM, que contribuía de maneira substancial com os setores ligados ao comércio, à indústria e a política partidária, ao afastar os migrantes, desempregados e sem moradia, do centro da cidade e dos pontos comerciais, que por não encontrarem ocupação no mercado de trabalho poderiam se transformar em mendigos. Ambas, ao invés de desenvolverem atividades libertadoras como primavam, acabaram por se distanciar das propostas iniciais. A campanha em prol de um trabalho de capacitação de mendigos e migrantes que visava a emancipação destes foi, aos poucos, seguindo os rumos de organizações com o perfil do SENAI e cada vez mais se distanciando dos objetivos idealizados não conseguiu fugir do assistencialismo com a AFAS e talvez com o SIM o trabalho de capacitação tenha sido mais tutelado do que emancipatório. Percebemos que as propostas dos presbiterianos ecumênicos eram consideradas inovadoras, concebidas por jovens progressistas, entretanto, na prática esse progressismo se mostrou limitado, haja vista não destoar em nada das ações dos conservadores. Defendiam a libertação do homem, propunham uma educação libertadora, mas na prática, promoviam uma educação voltada para o trabalho, para a disciplina, distinguiam papéis de acordo com o sexo e formavam mão de obra para o setor fabril. Na própria direção da entidade não há registros da participação feminina, a não ser a presença de Sylvia Prado exercendo a função de Secretária. A ala presbiteriana ecumênica e alguns envolvidos nos projetos, com interesses díspares dos apresentados, passaram a ver os projetos inicias da AFAS e do SIM com um olhar mais crítico. Apesar de acreditarem na proposta inicial, não percebiam mais as entidades com os mesmos propósitos. Se a princípio eram objetivos inovadores, que visavam a libertação do homem, passaram a ser, ao menos na visão de um certo grupo, para a acomodação. Muitas dessas críticas foram direcionadas à aproximação do Rev. Mello de políticos conservadores durante a execução dos projetos sociais. Diante do cenário antidemocrático e das perseguições sofridas pelos jovens ecumênicos em todo o território nacional, fundamentadas em denúncias perpetradas pelos próprios irmãos de Igreja Presbiteriana soava estranha para alguns membros do movimento ecumênico a aproximação do Rev. Mello com as autoridades locais em 136 Feira de Santana, justamente por considerá-la destoante dos princípios defendidos pelo que se convencionou chamar de ecumenismo. Não era comum um líder ecumênico manter estreitas relações com um governo que abafava a participação popular, tendo em vista a atuação junto às camadas mais injustiçadas figurarem entre uma das bandeiras defendidas pelo grupo. Participar do jogo político, mesmo que indiretamente, da UDN e dos segmentos dominantes, era distanciar-se dos preceitos ecumênicos, era ao mesmo tempo assumir um papel duplo e contrastante. Como era possível, criticar a política autoritária e excludente que figurava no País no período, lutar contra esse poder e ao mesmo tempo apoiar-se nele para desenvolver projetos sociais e em determinadas situações dividir os mesmos espaços, questionavam os opositores. Obedecendo aos rumos que a política feirense tomava, Josué da Silva Mello buscou apoio no prefeito João Durval Carneiro, que esteve à frente do município entre os anos de 1967 e 1970, na execução dos projetos sociais. Já havia trabalhado como Diretor Social no início da gestão de Carneiro e conseguido certo estreitamento nos laços a partir dessa aproximação. Não entendia esse enlace como um afastamento dos princípios defendidos pelo movimento ecumênico. Pelo contrário, percebia que seu posicionamento o fazia ecumênico também na política, a partir do momento que conseguia transitar entre os grupos com visões mais à esquerda, na clandestinidade no período, e manter-se, ao mesmo tempo, entre os setores de direita, que perseguia os jovens protestantes ecumênicos. Esse ecumenismo defendido pelo Rev. Mello, com a capacidade de transitar pelos mais diversos âmbitos durante a Ditadura Militar, não foi entendido da mesma forma pelos irmãos que defendiam um movimento ecumênico engajado com as lutas em favor dos excluídos e contra um governo opressivo que mantinha seu sustentáculo na exploração da maioria da população carente. O próprio Rev. Mello, mesmo entendendo que o verdadeiro ecumenismo exige um posicionamento político bem definido, diz não ser um ecumênico radical do tipo que na religião é mais flexível e se relaciona com os diversos grupos, mas na política partidária só dialoga com grupos de esquerda. Desenvolver projetos da magnitude da AFAS e do SIM, em uma atmosfera persecutória, como foi o contexto em que essas entidades estavam em funcionamento, era necessário criar estratégias, como mencionou o sociólogo Ildes Ferreira de Oliveira. Entre os meios encontrados estava a aproximação com pessoas influentes e insuspeitas como o Monsenhor Renato de Andrade Galvão. Eles sabiam que devido ao respeito e a confiança depositada no Monsenhor Galvão, pelos militares, dificilmente desaprovariam 137 uma instituição da qual este fizesse parte. Homens de direita, defensores do regime como o prefeito João Durval Carneiro, e o médico Joaquim Pondé Filho, talvez não fossem bem vistos em outras circunstâncias, em uma conjuntura mais aberta, entre os membros das instituições, entretanto em um cenário repressivo, o posicionamento político-ideológico destes, foram, se não esquecidos, ao menos deixados de lado, no momento em que precisavam de apoio irrestrito, serviam de escudo. Em meados de 1982, quando as divergências de ideias se tornaram mais evidentes, alguns protestantes ecumênicos já estavam mais próximos de segmentos católicos ligados à Teologia da Libertação e de comissões na luta pela terra. Com a intenção de intervir nos conflitos do campo, propuseram a criação da CEDITER, pensada para romper com o modelo de propriedade brasileiro, o qual prevalece os grandes latifúndios nas mãos de poucos. Com a dinâmica dirigida para homens e mulheres do campo, a CEDITER, pautada em uma Teologia da Terra, ou como convencionou designar o Rev. João Dias de Araújo, uma Teologia do Povo, em diálogo com a Teologia da Libertação, buscou fixar esses/as trabalhadores/as em seu lugar de origem, fixar para não migrar. A entidade atuou em diversas áreas da Bahia, prestando assessoria jurídica aos desalojados por barragens e aos posseiros expulsos de suas terras, e na formação de líderes sindicais. Buscou apresentar a essa população desassistida o poder que possuíam para transformar a sociedade, através da resistência e a luta. A atuação desta extrapola o nosso limite cronológico, pois ainda hoje se mantém atuante. Em 1992, se tornou uma ONG e passou a receber subsídios governamentais. A sua atuação também se limita a áreas próximas à Feira de Santana, distritos e municípios vizinhos. Os jovens entusiastas presbiterianos ecumênicos das décadas de 1950 e 1960 que queriam fazer a revolução a partir dos valores do Reino de Deus se transformavam nas décadas subsequentes em líderes eclesiásticos pragmáticos que não revolucionavam as estruturas brasileiras, baianos ou feirenses, mas realizavam experiências e projetos sociais inovadores, se levarmos em conta a omissão e o assistencialismo que grassava entre outros grupos protestantes, especialmente na Igreja Presbeteriana doBrasil, à qual os ecumênicos faziam oposição 138 Lista de Fontes Fontes Impressas I – Biblioteca Setorial Monsenhor Renato de Andrade Galvão – Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). - Jornal Feira Hoje. - Jornal Folha do Norte. II – Biblioteca Municipal de Feira de Santana. - Revista Panorama da Bahia. III – Biblioteca Central Julieta Carteado (BCJC) – UEFS. - MELLO, Tecla Dias de Oliveira. Uma Experiência de Dez Anos da Escola SIM. Dissertação de Mestrado, Salvador: UFBA, 1986. - Palestra do Reverendo Josué Mello na Câmara de Vereadores de Feira de Santana, publicado na Sitientibus. MELLO. Josué da Silva. Feira de Santana: Cidade de Futuro (Palestra proferida na Câmara de Vereadores de Feira de Santana em 16 de junho de 1984). Sitientibus, Feira de Santana, Ano II, nº 4, jan/jun, 1984, p. 77-84. - Projeto Cabana (1968). - Plano de Desenvolvimento Local e Integrado de Feira de Santana (1967). - Plano Diretor do Centro Industrial do Subaé. IV – Acervo do SIM. - Carta de Recomendação do Projeto do SIM, escrita pelo Prefeito João Durval Carneiro e endereçada ao Rev. Dr. Eugene C. Blake, Secretário Geral do Conselho Mundial de Igrejas. - Convênio SIM – CEDITER – MOC (1985). - Proposta de criação de um Centro de Capacitação – MOC – SIM. - Relatórios Anuais AFAS (1973 e 1977). - Relatório AFAS – Sete anos de Atividades (1974). - Relatório Anual MOC (1985). - Relatórios Anuais SIM (1973, 1975, 1977, 1978, 1979, 1983, 1984, 1985, 1986, 1987, 1988). - Relatórios Estatísticos (1973, 1974 e 1975). 139 - Relatório de Execução – SIM. - RAMALHO, Jether Pereira (Org.). Las Migraciones Internas. ISAL, Uruguay, 1968. - RAMALHO, Jether Pereira (Org.). Migration Today: current, problems and christian responsibility. Geneva, 1977. - SIM. Projeto de Triagem, atendimento, capacitação e integração de migrantes na comunidade, e de análise e estudo sobre o fenômeno migratório brasileiro notadamente o nordestino. Feira de Santana, Bahia-Brasil, dez.1973. - SIM – UNIVERSIDADE POPULAR. Construindo o Conhecimento. Feira de Santana: 1989. - SIM – Um Relato de 23 anos. Feira de Santana: 1º de maio de 1991. V – Outros (fontes particulares, memórias, entre outras). - ALMEIDA, Belamy Macêdo de. Ponte-Nova: construindo o futuro olhando no retrovisor. Gráfica Salobro, s.d.. - ARAÚJO, João Dias. A Teologia da Terra (O “Adamacentrismo” Bíblico). Não Publicado. - ARAÚJO, João Dias de. Inquisição sem Fogueiras (Vinte Anos de História da Igreja Presbiteriana do Brasil: 1954-1974). Rio de Janeiro: ISER, 1985. - ARAÚJO, João Dias de. Inquisição sem Fogueiras: A História sombria da Igreja Presbiteriana do Brasil. São Paulo: Fonte Editorial, 2010. - ARAÚJO, João Dias de. Memória da década de 1960. In: In: ROSA, Vanderley Pereira da; FILHO, José Adriano (Orgs.). Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro: a Conferência do Nordeste 50 anos depois (1962-2012). Rio d Janeiro: Mauad X, 2012 - ARAÚJO, João Dias de Araújo. Teologia do povo e Teologia da terra. In: MATEUS, Odair. Teologia no Brasil: teoria e prática. 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