Na fenda da letra, o gozo: da canção “Beatriz” aos confins do pas tout
Taina Cavalcanti Rocha
Mestranda em Pesquisa e Clínica em Psicanálise da UERJ
Rita Maria Manso de Barros
Professora Associada da UERJ e da UNIRIO
Programa de Pós-graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise da UERJ
Antes de iniciar a leitura da escrita do artigo que se segue, gostaríamos de
convidá-los à escuta e também à escrita da canção Beatriz, de Chico Buarque de
Hollanda e Edu Lobo (1983):
Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
A linguagem que humaniza é a mesma que, em psicanálise, subverte a
humanidade deslocando da anatomia o destino de homens e mulheres. Onde estará
então o traçado do caminho a seguir? Apostamos que o traço jaz ali na letra que traça a
um só tempo o sujeito e seu gozo. Do gozo resta apenas o matema, se assim podemos
ilustrar, de cada falasser entremeado em suas questões que, como Dora já nos avisara,
parecem sempre se imiscuir em meio aos manuais da vida, nos mistérios da morte ou,
até mesmo, e aqui com especial atenção, nos sabores da arte. Estamos, portanto, sempre
nos questionando: “Afinal, quem eu sou?”. Saber-se quem se é está longe das
afirmações calcadas de mestrias e verdades. Afinal, como nos instiga Lacan
(1972/2008), “aonde isso fala, isso goza e nada sabe” (p. 112). Fala-se para saber-se, no
entanto, o não saber ali se descobre em vias de gozo. No jogo de ser ou não ser –
homem ou mulher – a letra, “a face real do significante” (BARROS e CALDAS, p. 3),
ali se espelha: “Mas, afinal, como isso goza?”. Talvez “Beatriz” possa desvendar a
esfinge, ou vendá-la, mais ainda...
Faltam palavras para o gozo. Aonde a palavra falta, o gozo fala. Fala através da
linguagem, que é seu aparelho para abordar a realidade, como pontua Lacan (197273/2010). Mas fala de que modo? Pelo processo de ciframento e decifração de uma
escrita Outra, já nas malhas do inconsciente. O gozo fala pelas bordas de um corpo de
linguagem e, também, pela repetida presença do real (BARROS e CALDAS, 2013).
Jacques Lacan, na lição de 13 de fevereiro de 1973, de seu Seminário, livro 20, encore,
começa por transmitir que as necessidades do ser falante estão implicadas em uma
‘outra satisfação’. O gozo, por sua vez, depende dessa outra satisfação. Estamos aqui no
terreno de um gozo marcado em seu limite pela e na linguagem, ou melhor, através do
significante do desejo, o falo, em sua natureza finita. Reiteramos com Lacan (197273/2010, p. 128) que “o gozo, também, talvez em si mesmo ele também mostre que está
em falta”. Linguagem e gozo, portanto, estão em falta, já que a inserção da linguagem
do Outro, de antemão, desencadeia perda de gozo ao falante, pois a castração ali
desponta.
E o gozo que não se deixa capturar pela finitude? Aquele que se dá pelas vias da
infinitude, de um modo suplementar? Haveria, então, outro gozo que não o implicado
na ‘outra satisfação’? Na mesma lição, Lacan (1972-73/2010) afirma que não há outro
gozo senão o fálico. E a partir desta visada, o que se operará no falante, em termos de
gozo, será um posicionamento diante do gozo ‘todo’ ou diante do gozo ‘não-todo’,
sendo que este apresenta uma extensão fora da linguagem operada pela rede simbólica.
Há aí uma indicação fundamental para as questões que circundam a sexualidade em
psicanálise. Do gozo não-todo inscrito na linguagem, abre-se a via dos confins do
escuro de um continente, o feminino.
Da paridade homem/mulher, destacamos outro par: gozo fálico e gozo Outro (ou
gozo feminino). Como se diante destes dois pares - que definitivamente não se
encontram e que, pudera, nem se relacionam pois “não há relação sexual” (LACAN,
1972-73/2010, p.131) – estivéssemos tropeçando entre a finitude e a infinitude. Nas
fórmulas quânticas da sexuação, Lacan (1972-73) assinala que do lado homem o suporte
está no gozo fálico - ali habita o sujeito do discurso - enquanto que, do lado mulher, a
ancoragem é na ex-sistência, isto é, “uma existência inteiramente indeterminada”
(LACAN, 1972-73/2010, p. 221), que ultrapassa o próprio ser mulher, estando dentro e
fora a um só tempo, no intervalo do instante. Só se pode falar das mulheres uma a uma,
tendo em vista seu caráter inominável, de onde se extraem a castração, o furo, a falta, a
falha e, mais ainda, o objeto a, que nada obtura. A mulher desfila seu gozo sem nome e
sem face, mas não sem corpo! Há de se gozar de um corpo de pura escrita, na qual o
significante, ao avesso, revela sua face real de puro nonsense. Por assim dizer, as
mulheres são mais amigas do real, eterniza Lacan.
Entre o homem e a mulher há a radicalidade do gozo e, por fim, uma ‘escolha
forçada’ de ‘como isso goza’. O termo isso já nos remete à segunda tópica freudiana –
Es – e nos alerta para a potência inconsciente (FREUD, 1923/2006). Ou, com Lacan,
isso nos endereça ao inconsciente como o discurso do Outro. Portanto, como isso goza é
a chave-mestra de cada sujeito subsumida no real. Como encontrá-la? Nos efeitos da
escrita, uma vez que “[...] a escrita deixa pistas, vestígios do percurso da pulsão, rastros
do pensamento” (BARROS e CALDAS, 2013, p. 4). A escrita ressoa o real.
No artigo Écriture et sexuation, da revista Scilicet, o autor anônimo
admite que entre a escrita e o ato existe um espaço de distanciamento,
assim como entre aquele que escreve e aquele que lê. Questiona-se
sobre o que será uma literatura feita por homens e outra feita por
mulheres já que o escritor, como o analista, não pode escapar às
dificuldades da sexuação, isto é, de ser homem ou ser mulher
(LACAN, 1976, p. 343-344). Embora alguns pensem que não há uma
escrita feminina, já que quem escreve o faz sempre da posição fálica,
admitimos que há diferenças no conteúdo traçado por alguém
posicionado do lado masculino do de um sujeito posicionado do lado
feminino. A escrita produz assim esse espaço entre Um e Outro no
qual o jogo da identificação e da significação sexual é da maior
relevância (BARROS e CALDAS, 2013, p. 3).
O que há no ressoar de Beatriz pela escritura de Chico Buarque e Edu Lobo?
Qual é a escrita desta figura-mulher? Beatriz surge em corpo-poesia pela letra de uma
canção. O rosto da atriz está pintado, como uma persona de si mesma, pronto a encarar
as peças da vida. De seu drama, de suas narrativas, nada sabemos, apenas sentimos os
rastros de pés que não pisam no chão e se aventuram no arranha-céu. Beatriz nos
oferece apenas seu nome e seu rosto de atriz. Carregar a máscara da dramaturgia revela-
a não-toda. Por trás da mascarada “que só decora o seu papel” (HOLLANDA e LOBO,
1983) há de se enfeitar Outra mulher.
A Outra, a mulher barrada, será moça? Será triste? Será o contrário? Nada de
respostas, nada que nos possibilite alcançar seu fim. Sabe-se apenas que ela dança no
sétimo céu e, como a bailarina, confronta a materialidade do corpo, seu próprio limite.
A Outra Beatriz pode ser de louça, de éter, de loucura. Feita de arte, de evocações do
vazio, de criação, ela bem pode ser! Beatriz divide-se em duas ou mais, para além da
linguagem. Da linguagem, ela é atriz e admite um nome, um chamado. Do feminino, ela
é mais. Ela é aquela que mora no arranha-céu de paredes feitas de giz. Beatriz nasce do
significante e furta-se na letra.
Beatriz é uma arte encarnada, encenada e cantada por diversas vozes. A arte em
muito contribui ao campo da psicanálise e disto resulta em uma psicanálise aplicada à
arte (REGNAULT, 2001). A perspectiva de uma redução da arte à psicanálise subtrairia
a grandiosidade do universo artístico em seu vazio central que, por escapar às palavras,
revela-nos sua evanescência atemporal. O campo da arte demonstra, desta feita, a
criação do artista com o vazio, com o furo, com uma dimensão em que linguagem e toda
sua afirmação fálica não são suficientes, ao contrário, é como pensar que no meio da
palavra há a letra e seu fora do sentido. O artista é aquele que talvez possa trabalhar na
dimensão do gozo Outro em suas tramas e enlaces com o real. A canção Beatriz assim
nos invade com seu estatuto inominável.
A voz que enreda Beatriz lhe clama:
Sim, me leva para sempre, Beatriz/
Me ensina a não andar com os pés no chão/
Para sempre é sempre por um triz/
Aí, diz quantos desastres têm na minha mão/
Diz se é perigoso a gente ser feliz (HOLLANDA e LOBO, 1983).
Não somente a voz que canta e baila por Beatriz é quem lhe pede. Há, em uma
aposta nossa, uma voz que entoa o corpo de Beatriz e a conduz ao para sempre,
fazendo-a caminhar fora do chão, por dentre desastres e perigos. Seria a voz do gozo
feminino pronto a desaguar na devassidão da vida da atriz? Ah! Se eu pudesse entrar na
sua vida...
A letra que ressoa em “Beatriz” é escrita feminina. Sua atuação está de
passagem entre a lógica fálica e seu gozo - ilustrada pela própria persona da dona dos
versos – e as dimensões do gozo não-todo em seu fora do sentido. A escritura refaz a
história do sujeito, revendo e permitindo novas reinscrições. Isso leva o autor a dar à luz
a si próprio, e assim “o trabalho do escritor é trabalho de luto, no sentido freudiano do
termo” (LEMOINE-LUCCIONI, 1982, p. 117).
Criada por quatro mãos, Beatriz ganha o corpo de tantas indagações pela mestria
de Chico Buarque e Edu Lobo. Mas há de se ter uma mulher aí, afinal trata-se de uma
escrita feminina, ainda que Chico e Edu respondam por nomes masculinos. Em sua
excentricidade, Beatriz responde pela ex-sistência desta mulher na criação de dois
homens: “Para sempre é sempre por um triz!”. Beatriz está de passagem. Ela é breve,
efêmera e fugaz. É também letra e gozo. É Outra. É não-toda. As mulheres são loucas...
mas pas tout.
Referências bibliográficas:
BARROS, R. M. M.; CALDAS, H. Escrita no corpo: gozo e laço social. Ágora: Estudos
em
teoria
psicanalítica.
Vol.16,
p.
1-15,
abril,
2013.
Disponível
em:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-14982013000300008&script=sci_arttext.
Acesso em: 16/08/2013.
FREUD, S. (1923). O Ego e o Id. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud:
edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 2006, v. 19.
LACAN, J. (1972-73). Seminário, livro 20: Encore. Rio de Janeiro: Escola Letra
Freudiana, 2010.
LEMOINE-LUCIONI, E. El escrito. In: El grito: el sueño del cosmonauta. Barcelona,
Buenos Aires: Paidos, 1982, 101-124.
REGNAULT, F. Em torno do vazio: a arte à luz da psicanálise. Rio de Janeiro:
Contracapa, 2001.
HOLLANDA, C. B.; LOBO, E. Beatriz. In: O grande circo místico. LP. Gravadora
EMI. 1983.
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