UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ
PROGRAMA DE MESTRADO PROFISSIONAL EM SAÚDE E GESTÃO
DO TRABALHO
ODAIR JOSÉ COLAÇO
AS NECESSIDADES DE CUIDADO NO AMBIENTE DOMICILIAR AO IDOSO NO
PÓS-ALTA HOSPITALAR: UM GUIA INSTRUCIONAL
ITAJAÍ
2013
ODAIR JOSÉ COLAÇO
AS NECESSIDADES DE CUIDADO NO AMBIENTE DOMICILIAR AO IDOSO NO
PÓS-ALTA HOSPITALAR: UM GUIA INSTRUCIONAL
Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado
Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho da
Universidade do Vale do Itajaí como requisito para
obtenção do título de mestre.
Grupo de Pesquisa: ARGOS
Linha de Pesquisa: Promoção da Saúde
Orientadora: Profa. Dra. Juliana Vieira de Araújo
Sandri
ITAJAÍ
2013
Dedico este trabalho aos meus pais Carmine
Cardoso e Felício Colaço, pelo carinho e incentivo
constante.
AGRADECIMENTOS
Manifesto aqui meus eternos agradecimentos a todas as pessoas que direta ou
indiretamente contribuíram para a realização deste trabalho, em especial aos colegas de
trabalho e familiares cuidadores dos idosos, sem os quais não seria possível a realização deste
estudo. Agradeço pelos momentos vivenciados, pela experiência e pelos conhecimentos
compartilhados.
Agradeço à professora Dra. Juliana Vieira de Araujo Sandri, pela sua orientação, por
ter-me propiciado grande aprendizado no âmbito profissional e pessoal.
Agradeço aos demais professores do Programa de Mestrado Profissional em Saúde e
Gestão do Trabalho da Universidade do Vale do Itajaí pelos ensinamentos e por sua
dedicação.
Muito obrigado aos colegas do mestrado, pelo companheirismo e aprendizado
compartilhados. Às minhas amigas Dalila, Suzamar, Cristiane, pelo incentivo, disponibilidade
e estímulo nos momentos em que mais necessitava de apoio.
Agradeço aos meus ex-colegas de trabalho por terem facilitado a realização deste
estudo. À instituição na qual trabalhei, Hospital Beatriz Ramos, de Indaial, Santa Catarina,
por permitir a realização da pesquisa.
E, principalmente agradeço a Deus pela saúde e por permitir a concretização de mais
esta etapa de minha vida.
―Sonhamos com um mundo ainda por vir, aonde não
vamos mais precisar de aparelhos eletrônicos com seres
virtuais para superar nossa solidão e realizar nossa
essência humana de cuidado e de gentileza. Sonhamos
com uma sociedade mundializada, na grande casa comum,
a Terra, onde os valores estruturantes se construirão ao
redor do cuidado com as pessoas, sobretudo com os
diferentes culturalmente, com os penalizados pela natureza
ou pela história, cuidado com os espoliados e excluídos, as
crianças, os velhos, os moribundos, cuidado com as
plantas, os animais, as paisagens queridas e especialmente
cuidado com a nossa grande e generosa Mãe, a Terra.
Sonhamos com o cuidado assumido como o ethos
fundamental do humano e como compaixão
imprescindível para com todos os seres da criação.‖
Leonardo Boff
COLAÇO, Odair José. As necessidades de cuidado no ambiente domiciliar ao idoso no
pós-alta hospitalar: um guia instrucional. Dissertação (Mestrado Profissional em Saúde e
Gestão do Trabalho) – Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, 2013.
Orientadora: Profa. Dra. Juliana Vieira de Araújo Sandri
RESUMO
Com o aumento da expectativa de vida, observa-se o crescimento do número de idosos
dependentes e a necessidade de assistência domiciliar para esses pacientes no pós-alta
hospitalar. Os cuidados integrais no domicílio são fundamentais para a recuperação e a
reabilitação da saúde do paciente idoso dependente. Por mais que se tenham políticas de
proteção social ao idoso, nota-se um déficit, tanto de programas voltados para esse fim como
de orientações sobre cuidados básicos e pertinentes aos cuidadores. A partir dessas
constatações, buscou-se identificar as necessidades que os familiares cuidadores apresentam
com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no
pós-alta hospitalar com o propósito de construir um guia instrucional a eles direcionado.
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa com adoção do método construtivista,
segundo o qual o conhecimento não provém só dos objetos externos nem só dos sujeitos, mas
da interação entre eles. A pesquisa se desenvolveu no setor de clínica médica cirúrgica de
uma instituição hospitalar da região do Médio Vale de Itajaí em Santa Catarina. Participaram
do estudo, familiares cuidadores e enfermeiros, divididos em dois grupos distintos. O grupo
de familiares apontou as necessidades de cuidados, mostrando as dificuldades de cuidar no
domicílio, e o grupo de enfermeiros contribuiu na elaboração técnica das orientações a serem
realizadas e na reflexão sobre a importância de se ter instrumentos práticos constituídos. A
partir das falas foram elencadas as temáticas mais pertinentes que nortearam as
recomendações de orientação de cuidados aos idosos na ambiência domiciliar. Constatou-se a
necessidade de expor as temáticas em dois blocos: 1) Cuidados específicos: higiene (oral,
íntima e corporal); alimentação e hidratação (oral e por dispositivo); cuidados cutâneos: pele,
queimadura, úlceras de decúbito e de perna; medicação; quedas, fraturas e ambiência; 2)
Cuidados gerais: cuidado com o cuidador; aspectos emocionais do idoso; despreparo da
família para o cuidado e referência e contrarreferência. Essas temáticas foram contempladas
no guia instrucional proposto. Quanto aos conhecimentos e às estratégias de cuidado relatados
pelos familiares, verificou-se que estes têm muitas dificuldades de execução, associadas à
falta de orientações básicas para o cuidado com os idosos na ambiência domiciliar,
especialmente após a alta hospitalar. Os enfermeiros confirmaram esse achado. Portanto,
fazem-se necessárias rotinas de alta hospitalar nas quais se insiram informações sobre o
cuidado a ser dispensado no domicílio, evitando assim a reincidência hospitalar. A construção
de instrumentos informativos, a exemplo do guia instrucional, pode se tornar uma tecnologia
educativa que venha a favorecer o desempenho dos cuidadores familiares nos cuidados com o
idoso no domicílio.
Palavras-chave: Saúde do idoso. Família. Assistência domiciliar.
COLAÇO, Odair José. Care needs of the elderly in the home environment after hospital
discharge: an instructional guide. Dissertation (Master’s Degree in health and Work
Management) – University of Vale do Itajaí, Itajaí, 2013.
Supervisor: Professor Dr. Juliana Vieira de Araújo Sandri
ABSTRACT
With the increase in life expectancy, a growth is seen in the number of dependent
elderly people, and the needs for home care for these patients after hospital discharge. Integral
care home care is essential for the recovery and rehabilitation of health of the dependent
elderly patient. Despite policies for social protection of the elderly, it is noted that there is a
lack of programs for this purpose, and guidance on basic and relevant care for the carers.
Based on these observations, this study seeks to identify the needs of family carers in regard
to the integral care for the elderly person to be given in the home environment after hospital
discharge, in order to construct an institutional guide for these carers. This research uses a
qualitative approach, adopting the constructivist method whereby knowledge does not come
from external objects or from the subjects alone, but from the interaction between them. The
research was developed in the surgical medical clinical department of a hospital region in the
Médio Vale de Itajaí region of Santa Catarina. Family carers and nurses took part in the study,
divided into two separate groups. The groups of family members indicated the care needs,
showing the difficulties of home care, while the group of nurses contributed to elaborating the
technique of guidance to be given, and to reflection on the importance of having practical
tools. Based on the statements, the most relevant themes were drawn out for the guidance
recommendations for carers of elderly people in the home environment. It was found
necessary to categorize the themes into two groups: 1) Specific care: hygiene (oral, intimate,
bodily); diet and fluids (oral and by device); skin care: burns, bedsores and leg sores;
medication; falls; fractures and the environment; 2) General care: care for the carer; emotional
aspects of the elderly; lack of preparedness of the family to give the care, and reference and
counter reference. These themes were all included in the proposed instructional guide.
Regarding the knowledge and care strategies reported by the family members, it was seen that
these themes are quite difficult to execute, associated with a lack of basic guidance for carers
of the elderly in the home environment, particularly after hospital discharge. The nurses
confirmed this finding. Hospital discharge routines are therefore necessary that include
information about the care to be given in the home environment, avoiding a return to hospital.
The construction of informative tools, like the instructional guide, could become an
educational technology for improving the home care given by family carers, to elderly family
members.
Keywords: Care of the elderly. Family. Home Care.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 9
1.1 OBJETIVOS .............................................................................................................. 11
1.1.1 Objetivo geral ........................................................................................................ 11
1.1.2 Objetivos específicos ............................................................................................. 11
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ............................................................................ 12
2.1 FAMÍLIA .................................................................................................................. 12
2.2 IDOSO ....................................................................................................................... 14
2.3 IDOSO HOSPITALIZADO ...................................................................................... 16
2.4 CUIDADOR FAMILIAR .......................................................................................... 18
2.5 TECNOLOGIAS ....................................................................................................... 20
3 METODOLOGIA DA PESQUISA .......................................................................... 23
4 CONSTRUINDO AS TEMÁTICAS PARA O CUIDADO AO IDOSO NO
DOMICÍLIO ................................................................................................................. 29
4.1 CUIDADOS ESPECÍFICOS ..................................................................................... 29
4.1.1 Higiene: oral, íntima e corporal ............................................................................. 29
4.1.2 Alimentação e hidratação: oral e por dispositivo .................................................. 33
4.1.3 Cuidados cutâneos: pele, queimadura, úlceras de decúbito e de perna ................. 37
4.1.4 Medicação .............................................................................................................. 40
4.1.5 Quedas, fraturas e ambiência..................................................................................43
4.2 CUIDADOS GERAIS ............................................................................................... 46
4.2.1 Cuidado com o cuidador ........................................................................................ 46
4.2.2 Aspectos emocionais do idoso............................................................................... 48
4.2.3 Despreparo da família para o cuidado ................................................................... 50
4.2.4 Referência e contrarreferência ............................................................................... 56
5 TECNOLOGIA PARA O CUIDADO AO IDOSO NO PÓS-ALTA
HOSPITALAR .............................................................................................................. 60
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 61
REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 63
APÊNDICES ................................................................................................................. 75
9
1 INTRODUÇÃO
A saúde do idoso exige um trabalho interdisciplinar que envolve a família. Ao sair do
hospital, após um período de internação, o idoso estará sob a responsabilidade de seu cuidador
familiar. Desse modo, é imprescindível que este esteja habituado ou tenha conhecimentos
mínimos com a assistência a ser prestada para que possa oferecer um cuidado digno e
humanizado, minimizando os riscos à saúde do idoso.
Para Elsen, Marcon e Santos (2002), os familiares são aqueles que irão completar, na
maioria das vezes, o tratamento, os cuidados e/ou atuar de forma sinérgica com os
profissionais da saúde durante todo o período hospitalar e pós-alta hospitalar. As autoras
compreendem o cuidado familial como uma proposta de sistematização conceitual do que
representa o processo apreendido e construído pela família, definido a partir da cultura
familial, das interações sociais intrafamiliares e extrafamiliares, ao longo do processo de vida
da família e nas diferentes etapas de vida do ser humano.
É certo que estamos vivendo momentos de importantes transformações na composição
etária da população, fenômeno que exige mudanças na organização dos serviços de saúde e da
sociedade. De acordo com os dados do censo demográfico de 2010, diminuiu a proporção de
jovens e aumentou a de idosos na população brasileira, havendo um alargamento do topo da
pirâmide etária relativa à população com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em 1991,
passando a 5,9% em 2000 e chegando a 7,4% em 2010. De forma conclusiva, o crescimento
absoluto da população do Brasil, nesses últimos dez anos, deu-se principalmente em função
do crescimento da população adulta, com destaque também para o aumento da participação da
população idosa (IBGE, 2012).
Esse cenário de crescimento da população idosa e dos cuidados que a cercam
representa o ambiente deste trabalho, que parte do pressuposto de que a promoção em saúde
com o foco mais global requer educação e oferecimento de informações sobre esses cuidados,
de forma efetiva e simples, às pessoas que convivem e atendem idosos.
Diferentemente da prevenção, que se encontra em um ponto bem mais longe da
enfermidade propriamente dita, o cuidado se relaciona a um panorama mais emergencial em
saúde. Sendo assim, esta pesquisa responde a uma necessidade de se ter instrumentos e
tecnologias de cuidados em saúde que ofereçam, aos familiares e cuidadores, informações que
englobem os principais cuidados com o idoso nos domicílios após a alta hospitalar.
Considera-se que a família, quando da hospitalização de um idoso, passa a ser a
10
responsável pelos cuidados subsequentes de tratamento e para tanto necessita de apoio e
entendimento claro de seu papel na integralidade da assistência a ser dada antes, durante e
após a intervenção hospitalar, por meio de instrumentos e de uma tecnologia educativa que
possam auxiliar no esclarecimento de dúvidas básicas acerca da atuação no âmbito domiciliar.
Essa formulação de tecnologia se concilia aos direcionamentos do Sistema Único de
Saúde (SUS) e às diretrizes operacionais do Pacto pela Saúde, que contemplam o Pacto pela
Vida, estabelecidas em 2006 por meio da Portaria Ministerial 399/GM (BRASIL, 2006a).
Dentre os objetivos de implementação da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, consta
recuperar, manter e promover a autonomia e a independência dos indivíduos idosos,
direcionando medidas coletivas e individuais de saúde para esse fim, em consonância com os
princípios e diretrizes do SUS, sendo alvo dessa política todo cidadão e cidadã brasileiros com
60 anos ou mais de idade (BRASIL, 2006a).
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2012), há um
contínuo e intenso processo de envelhecimento populacional brasileiro, surgindo daí a
necessidade de buscar a qualidade da atenção aos indivíduos idosos por meio de ações
fundamentadas no paradigma da promoção da saúde. Essa promoção envolve a necessidade
de se criar estruturas que possibilitem à família executar o cuidado ao idoso, tendo um suporte
de tecnologias que permitam, de forma qualificada e constante, o atendimento integral e, no
caso específico desta pesquisa, após a alta hospitalar no ambiente domiciliar.
No entanto, evidencia-se a dificuldade de familiares qualificados para o cuidado ao
idoso, em todos os níveis de atenção com suporte social, enfatizado nesta pesquisa, que
propõe a criação de um guia de cuidados que venha acrescentar e suprir a integralidade do
atendimento, respeitando as particularidades do idoso, com sua história de vida, com seu grau
de independência funcional e com a demanda por serviços mais ou menos específicos.
Cabe ressaltar que toda tecnologia criada ou sugerida necessita de uma avaliação
pautada no conhecimento do processo de envelhecimento e de suas peculiaridades e adaptada
à realidade sociocultural em que os idosos estão inseridos. É preciso, portanto, que as
tecnologias propostas respondam a necessidades específicas e se diferenciem pela natureza da
intensidade dos serviços que ofereçam no ambiente familiar, envolvendo a família e o idoso
no pós-alta hospitalar.
A partir dessas considerações, formulou-se a seguinte pergunta de pesquisa: Quais são
as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores apresentam com relação aos
cuidados integrais a serem conduzidos, no ambiente domiciliar, ao idoso no pós-alta
hospitalar?
11
Essa questão traz embutido o pressuposto de que há pouco conhecimento
sistematizado no preparo das famílias para o cuidado com o idoso em seu ambiente domiciliar
e que essa situação requer instrumentos de suporte para minimizar essa carência.
A fragilidade do cuidado familiar com o idoso precisa ser considerada e merece
atenção especial dos profissionais da saúde, pois faz parte dos cuidados integrais e pressupõe
a necessidade de definir ferramentas capazes de criar mecanismos de acolhimento adequado
ao idoso após a alta hospitalar.
A definição de uma ferramenta como uma tecnologia de tratamento deve se pautar na
utilidade e no entendimento das pessoas às quais se destina. Deve ter clareza e objetividade
para permitir o uso por indivíduos com diferentes graus de instrução.
1.1 OBJETIVOS
1.1.1 Objetivo geral
Investigar as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores apresentam com
relação aos cuidados integrais a serem conduzidos, no ambiente domiciliar, ao idoso no pósalta hospitalar.
1.1.2 Objetivos específicos
– Verificar o conhecimento e as estratégias de cuidado prestado pela família ao idoso.
– Levantar as fragilidade e potencialidades da família para a execução do cuidado com
o idoso.
– Construir uma tecnologia de cuidado que contemple as necessidades dos familiares
cuidadores para o cuidado com os idosos.
Neste estudo, a tecnologia de cuidado corresponde à construção de um guia
instrucional (Apêndice E), o qual tem como foco a orientação para o cuidado dentro de cada
uma das temáticas apontadas pelos familiares cuidadores e que dizem respeito às dificuldades
para a execução do cuidado com o idoso no domicílio após a alta hospitalar.
12
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Neste capítulo apresenta-se uma revisão de literatura como resultado da interlocução
com diversos autores e suas formulações sobre o tema trabalhado nesta dissertação. Esta
fundamentação teórica foi elaborada a partir da leitura de múltiplas fontes, das quais foram
extraídas ideias essenciais dos autores consultados para sustentar a argumentação aqui
construída. Vários enfoques são agrupados em blocos textuais e colocados numa sequência
lógica para facilitar a leitura e a compreensão do tema.
2.1 FAMÍLIA
Segundo Petrini (2003), a família permanece como matriz do processo civilizatório,
como condição para a humanização e para a socialização das pessoas. Nessa perspectiva, a
família é parte integrante de um ambiente sociocultural. Isso significa que crenças, valores,
símbolos, significados, práticas e saberes são construídos, compartilhados e ressignificados
nas interações sociais, que influenciam e são influenciadas pelas famílias (ELSEN;
MARCON; SANTOS, 2002).
A família é um grupo cujos integrantes compartilham valores comuns, ocupam
posições específicas e interagem entre si com o passar do tempo. Pressupõe-se que ―os adultos
criam seus filhos, engajam-se na cooperação e política e cuidam dos idosos‖ (CRAVEN;
HIRLENE, 2006, p. 303).
Com relação ao cuidado em saúde, tem-se, de acordo com Elsen (1984), o sistema
familial de saúde inserido num contexto sociocultural que inclui os sistemas profissional e
popular de cuidados, com os quais faz trocas, influenciando-os e sendo influenciado por eles.
Entende-se que a família é o primeiro grupo social no qual somos inseridos e, como
unidade nuclear do indivíduo, deve acolhê-lo e permitir que ele desenvolva habilidades,
experiências, vivências e novas relações humanas. É nesse ambiente familiar que a pessoa
recebe todo o apoio afetivo, psicológico, valores humanos e éticos, além de outras
ferramentas necessárias para seu pleno desenvolvimento físico e mental. Para que se alcance o
equilíbrio familiar, há a necessidade de desenvolvimento saudável de cada um de seus
membros (OLIVEIRA; JORGE, 1998).
Segundo Althoff (2001), a convivência é uma das formas para promover a inclusão na
família e pode ser traduzida por respeito à individualidade, aceitação das diferenças,
reconhecimento dos direitos de cada um, estímulo ao diálogo e garantia de um espaço físico,
13
social e emocional que incentive a participação e a troca.
Oliveira e Bastos (2000, p. 24) argumentam que tomar a família como objeto de
investigação e intervenção em saúde requer, como ponto de partida, focalizar seus modos de
organização e funcionamento nos aspectos mais cotidianos de sua existência. É nesse contexto
que faz sentido analisar a influência dos valores e costumes de uma comunidade humana
sobre a percepção dos sintomas, da enfermidade, sua interpretação e técnicas de tratamento
como um todo. Enfim, não se pode compreender as reações das pessoas frente às questões
ligadas ao binômio saúde-doença sem considerar a cultura em que foram educados e as
formas culturais específicas de organização social nessa área.
De acordo com Elsen (2002), a família é um sistema de saúde para seus membros.
Esse sistema possui um processo de cuidar no qual a família supervisiona o estado de saúde
de seus membros, toma decisões quanto aos caminhos que deve seguir nos casos de queixas,
acompanha e avalia constantemente a saúde e a doença de seus componentes, pedindo ajuda a
seus significantes e profissionais quando há necessidade para tal intervenção.
Litman (1974) define a família como uma unidade básica de saúde, considerando o
domicílio como produtor de saúde, pois, nele, recursos internos da família se somam aos
externos, objetivando manter ou restaurar a saúde de seus membros.
Sobre a diversidade dos modelos de famílias, destacam-se os seis tipos de família
identificados por Craven e Hirlene (2006):
- A família nuclear inclui um homem e uma mulher adultos casados e seus filhos, que
geralmente convivem na mesma casa até que os filhos saiam para viver sozinhos. Os
papéis tradicionais nessa estrutura familiar consistem em o homem como sendo o
arrimo da família fora de casa e a mulher como responsável pelo cuidado físico da
casa e dos filhos.
- A família de pais solteiros, composta somente por um dos pais e um ou mais filhos.
A morte de um dos cônjuges, o abandono ou a gravidez na fase de solteira resultam
nesse grupo familiar. Esse tipo de família pode encontrar dificuldades financeiras em
função da sobrecarga do pai/da mãe e também por causa do apoio deficiente que seus
membros recebem. Predomina nesse tipo de estrutura familiar a mãe solteira, sendo a
mulher a responsável do grupo familiar.
- A família mista, composta por crianças que vivem com um dos pais biológicos bem
como com o filho do padrasto ou madrasta. Esse grupo de pessoas é desafiado a
formar novos relacionamentos com os novos membros com os quais vai conviver dali
em diante.
14
- A família coabitada, composta de pessoas que vivem juntas como tentativa ou
mesmo como alternativa de casamento. Pode ser formada por casais de homossexuais,
tanto masculinos como femininos.
- A família estendida inclui, além dos membros já citados nos grupos familiares
anteriores, avós tias, tios e primos, que podem viver sob o mesmo teto ou não. É
geralmente formada por três ou mais gerações.
- A família comunitária, composta por inúmeros membros que compartilham uma
ligação comum, como afiliação religiosa, ideologia ou até mesmo por necessidades
econômicas. Esse tipo familiar pode ser formado também por adultos jovens que
compartilham quartos enquanto frequentam a universidade. Essa composição pode ser
vivenciada por curto espaço de tempo, criando instabilidade na unidade familiar.
A partir dessa classificação de tipos de família, cabe considerar a afirmação de
Kaloustian e Ferrario (1994) de que a família é o espaço indispensável para a garantia da
sobrevivência e da proteção integral dos filhos e demais membros, independentemente do
arranjo familiar ou da forma como vem se estruturando.
É importante também destacar as mudanças na legislação que regula as relações
conjugais e de filiação; a ruptura da dicotomia entre papéis públicos e privados, segundo o
gênero; o crescente processo de individualização econômico e cultural dos sujeitos; a
pluralização dos estilos de vida; a igualdade entre os sexos e a consequente ruptura de
casamentos sentidos como insatisfatórios (DONATI; DI NICOLA, 1996; VAITSMAN,
1999).
Nesse mesmo sentido, Petrini (2003) salienta que a família se apresenta com novas
formas de estruturação que, de alguma maneira, a reconstituem, sendo reconhecida como
estrutura básica permanente da experiência humana. Para Donati e Di Nicola (1996), a família
deve ser entendida seja como relação intersubjetiva do mundo da vida, seja como uma
instituição. Sendo parte integrante da família em determinado tempo de vida, o idoso tem suas
particularidades de vida e cuidados que se desenvolvem no ambiente familial no qual ele está
inserido.
2.2 IDOSO
O conceito de idoso é diferenciado para países em desenvolvimento e para países
desenvolvidos. Nos primeiros, são consideradas idosas as pessoas com 60 anos ou mais, e nos
países desenvolvidos são idosas as pessoas com 65 anos ou mais. Essa definição foi
15
estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) por meio da Resolução 39/125,
durante a Primeira Assembleia Mundial das Nações Unidas sobre o envelhecimento da
população, relacionando-se com a expectativa de vida ao nascer e com a qualidade de vida
que as nações propiciam aos seus cidadãos (ONU, 1982).
Já a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) define envelhecimento como:
Um processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível, não
patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os
membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne menos capaz de
fazer frente ao estresse do meio-ambiente e, portanto, aumente sua
possibilidade de morte (OPAS, 2003, p. 26).
Em 2002, quase 400 milhões de pessoas com 60 anos ou mais vivia no mundo em
desenvolvimento. A expectativa é que até 2025 esse número aumente para aproximadamente
840 milhões, representando 70% das pessoas idosas em todo mundo (OMS, 2005).
Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), até 2025 o Brasil será
o sexto país do mundo em número de idosos, mas ainda é grande a desinformação sobre a
saúde do idoso e as particularidades e desafios do envelhecimento populacional para a saúde
pública em nosso contexto social. Entre 1980 e 2000 a população com 60 anos ou mais
cresceu 7,3 milhões, totalizando mais de 14,5 milhões em 2000. O aumento da expectativa
média de vida também aumentou acentuadamente no país. Esse aumento do número de anos
de vida, no entanto, precisa ser acompanhado pela melhoria ou manutenção da saúde e
qualidade de vida (OMS, 2005).
Conforme a Constituição brasileira (BRASIL, 1988), a família, a sociedade e o Estado
têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade,
defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. Os programas de
amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares.
Ramos (1993) utilizou a técnica de desenvolvimento de escalas proposta por Guttman
(1950) e validou uma escala com 12 indicadores de dependência para o idoso que considera as
atividades instrumentais de vida diária (fazer compras, pegar ônibus, administrar as finanças e
tomar os medicamentos adequadamente) e as atividades de vida diária básica (continência,
vestir-se, tomar banho, comer, pentear-se, ir ao banheiro, passar para a cama e sair dela), as
quais estão organizadas hierarquicamente de modo a classificar a dependência nos idosos.
De acordo com as doze atividades de vida diária citadas, Ramos (1993) classifica os
idosos em quatro categorias: 1) independente totalmente – idoso capaz de realizar todas as
atividades; 2) dependente leve – idoso que necessita de ajuda para realizar de uma a três
16
atividades de vida diária; 3) dependente moderado – idoso que necessita de ajuda para realizar
de quatro a seis atividades de vida diária; 4) dependente severo – aquele que necessita de
ajuda para realizar sete ou mais dessas atividades.
Pressupõe-se que, a partir de certo grau de dependência, o idoso passa a necessitar e a
requerer mais serviços de saúde, as internações hospitalares são mais frequentes e o tempo de
ocupação do leito é maior do que o de outras faixas etárias sem que isso se reverta em seu
benefício (MINAS GERAIS, 2006). Geralmente as doenças dos idosos são crônicas e
múltiplas, perduram por vários anos e exigem acompanhamento médico e de equipes
multidisciplinares permanentes e internações frequentes.
Acentua-se que a maioria dos quadros de dependência da população idosa está
associada a condições crônicas que podem ser adequadamente manipuladas, muitas vezes,
fora de instituições hospitalares ou asilares (MINAS GERAIS, 2006).
Para Caldas (1998), a determinação da capacidade funcional do idoso é um indicador
imprescindível para adequar os cuidados de enfermagem tanto ao paciente como ao familiar.
A família é fundamental nesse processo de prestação de cuidados ao idoso e deve ser
compreendida quando os cuidados excedem as suas capacidades no âmbito domiciliar.
Os idosos apresentam condições peculiares que condicionam o seu estado nutricional.
Alguns desses condicionantes estão relacionados às alterações fisiológicas próprias do
envelhecimento, enquanto outros são influenciados pelas enfermidades presentes e por fatores
relacionados com a situação socioeconômica e familiar (NOGUÉS, 1995).
2.3 IDOSO HOSPITALIZADO
Tendo em vista o contexto histórico do hospital, antes como espaço de exclusão social
e a partir do século XVIII como cenário terapêutico e de cura, as relações hierarquizadas e
normatizadas nele engendradas se tornam compatíveis com suas novas características e os
espaços devidamente ocupados, considerando a posição que cada um assume dentro deles
(FOUCAULT, 2005).
Acredita-se que diante da hospitalização de um familiar, os acompanhantes se
deparam com um ambiente que lhes é estranho, com horários determinados, protocolos
institucionais, pessoas que ora informam, ora manipulam ou omitem informações sobre o que
deve, pode ou não fazer. Nessas circunstâncias, esse familiar nem sempre respeita a disciplina
normativa, criando atritos que resultam, por vezes, em conflitos na relação que estabelece,
principalmente com a equipe de enfermagem, que normalmente é formada por profissionais
17
que permanecem ininterruptamente no hospital e, por isso, são aqueles com os quais o
familiar mais se relaciona e aos quais mais tem acesso (SQUASSANTE; ALVIM, 2009).
No entendimento de Paim (1994), assistir a saúde da família tem sido um desafio para
profissionais de saúde. Contudo, na busca de uma abordagem com enfoque abrangente do ser
humano, é necessário envolver a família como parte integrante da prática de cuidado em
nosso dia-a-dia.
A equipe de enfermagem deposita no familiar acompanhante a responsabilidade pela
vigilância ao idoso. Como exemplo, tem-se o idoso que necessita de contenção no leito e,
nesse caso, não há necessidade de intervenção da equipe de enfermagem quando da presença
do familiar acompanhante, pois este estará ao lado do cliente, evitando que tenha
complicações ou sofra algum tipo de acidente (NÓBREGA-THERRIEN, 2004).
Ocorre que os acompanhantes não são informados explicitamente sobre quais cuidados
ou tarefas passarão a desenvolver com o idoso. Não se estabelece um diálogo com a família
para tentar uma negociação na divisão do trabalho. A negociação não é feita de modo claro,
mas é implícita. Os acordos não são abertamente discutidos, mas velados; a família se sente
responsável e vai assumindo determinados cuidados que se estendem após a alta hospitalar
(COLLET; ROCHA, 2004).
No entanto, nem sempre o acompanhante age da maneira esperada pela equipe de
enfermagem, podendo surgir conflitos na relação. No espaço hospitalar, a equipe de
enfermagem assume postura de monitorar e vigiar o familiar acompanhante, dele esperando
atitudes de cooperação com o trabalho de enfermagem (NÓBREGA-THERRIEN, 2004).
A respeito dessas particularidades, Collet e Rocha (2004) salientam que se
estabelecem relações de ajuda e compromisso de cuidado já no ato de hospitalização entre os
familiares e a equipe de enfermagem e que de certa forma continuam somente com a família
na pós-alta hospitalar. Nesse sentido, a família passa a acreditar que possui um papel
importante na assistência, durante o período hospitalar, em consequência de ser concedida
permissão para o convívio com os cuidados profissionais. Sendo assim, a responsabilidade da
assistência e o atendimento integral ao cliente são atribuídos aos profissionais de saúde,
cabendo à família ser orientada e educada para os cuidados futuros no pós-alta hospitalar.
Entende-se que a família, em qualquer de suas constituições estabelecidas, quando da
hospitalização de um idoso, passa a ser um contribuinte nos cuidados subsequentes de
tratamento e para tanto necessita de apoio e entendimento claro de seu papel na integralidade
do tratamento a ser executado antes, durante e após intervenção hospitalar. Nesse contexto há
necessidade de proporcionar instrumentos de tecnologia de cuidados pós-alta hospitalar ao
18
idoso, haja vista que a enfermagem brasileira enfoca pouco a família em sua prática, estando
voltada fundamentalmente ao indivíduo, na relação pessoa a pessoa, com enfoque de
assistência curativa (PATRÍCIO, 1994).
Tem-se observado que os cuidados do idoso pós-alta hospitalar provocam vários
movimentos de crise na família. Sobre isso, Petrini (2003) afirma que à medida que a família
encontra dificuldades para cumprir satisfatoriamente suas tarefas básicas de socialização e de
amparo/serviços aos seus membros, criam-se situações de vulnerabilidade e, sendo assim, a
vida familiar, para ser efetiva e eficaz, depende de condições para sua sustentação e
manutenção de seus vínculos.
Ribeiro (1999) salienta que o convívio da família com doença grave ou hospitalização
prolongada de um de seus membros pode afetar o cuidado dos demais. Da mesma forma,
Walters (1987) reconhece que a assistência oferecida ao idoso no ambiente hospitalar cria
dependências que dificultam o retorno ao lar. Para Siqueira et al. (1994), as hospitalizações do
idoso tendem a aumentar o grau de dependência e prolongar o período de reabilitação.
No período de internação, os idosos fragilizados ficam vulneráveis a iatrogenias que,
em muitos casos, são passíveis de ações preventivas, tendo em vista que seu conceito pode
ainda abranger circunstâncias relacionadas ao tempo de permanência e/ou ao ambiente
hospitalar, tais como úlceras de pressão, quedas e fraturas (CARVALHO-FILHO et al., 1998).
Diante desse quadro, Zoboli (2009) afirma que as peculiaridades da promoção da
saúde no âmbito do SUS requerem o redirecionamento da prática clínica e também do
equacionamento ético. Ambos têm de ser desfocados do hospitalocentrismo e da alta
especialização que marcam a conformação do sistema de saúde e a formação dos profissionais
deve incorporar a riqueza das histórias de vida dos protagonistas do cuidado: as pessoas.
2.4 CUIDADOR FAMILIAR
Tradicionalmente a família é entendida como a cuidadora dos seus entes. Essas
atividades são pouco visíveis porque não se fazem no marco de relações trabalhistas e são
caracterizadas por sua dimensão moral e afetiva (COMAS D’ARGEMIR, 1997).
O Ministério da Saúde define cuidador como a pessoa que mais diretamente presta
cuidados, de maneira contínua e regular, podendo ou não ser alguém da família. Suas
atribuições devem ser pactuadas entre indivíduo, família, equipe e cuidador, democratizando
saberes, poderes e responsabilidades (BRASIL, 2004).
Para Duarte (1996), independentemente de o cuidador estar inserido na rede formal ou
19
informal de prestação de cuidados, ele convive diariamente com a pessoa doente, auxiliando
nos cuidados de higiene, alimentação, gestão do regime terapêutico e atividades
reabilitadoras, interagindo com os outros profissionais no cuidar.
Os membros da família são os principais cuidadores informais, geralmente filhas ou
esposa, predominando o sexo feminino na escolha (GRUNFELD et al., 1997; KRASCH,
2003). Caldas (2002) salienta que a influência histórica, os imperativos culturais e os
preceitos religiosos também influenciam a família a cuidar dos seus idosos. Em outras
situações, como acrescentam Fernandes et al. (2002), os cuidadores assumem esse papel pelas
circunstâncias e não por escolha, mesmo tendo o reconhecimento que essa deve ser a sua nova
missão.
No entendimento de Krasch (2003), o cuidado no domicílio proporciona o convívio
familiar, o apoio e a proteção que o idoso necessita. No entanto, em virtude de difíceis
situações econômicas, o custo/benefício se torna oneroso, e isso, associado às condições
sociais no contexto familiar, torna fundamental a existência concreta de uma rede de apoio ao
idoso e à família de forma sistematizada. A Política Nacional do Idoso tem como pressuposto
básico a permanência do idoso com a família; no entanto, o Ministério da Saúde reconhece
que isso só é possível com recursos, infraestrutura e apoio disponível, definindo, para tanto,
diretrizes que devem nortear todas as ações da saúde e indicando a responsabilidade
institucional (BRASIL, 1996).
Garcia (2001) salienta que o cotidiano permite tornar a educação significativa, pois
conjuga a vivência de situações ao processo do conhecimento, possibilitando o
questionamento de práticas sociais e a instrumentalização para ―o conhecer‖ e ―o agir‖.
Griffiths (1988) recomenda aos serviços públicos desempenharem um forte papel de
suporte a favor dos recursos de cuidado informal: famílias, amigos, vizinhos e outras pessoas.
Para Giarelli (2003), o grande desafio é conseguir formas de entrelaçamento, em âmbito local,
entre assistência formal e informal para garantir, seja um mínimo de coordenação necessária,
seja o respeito e o reconhecimento da lógica diversa e das diferentes peculiaridades de cada
uma.
Paulo et al. (2008, p. 29) classificam o cuidador em primário ou secundário. O
primário ―é o responsável pelo cuidado diário do idoso, sendo a única pessoa a desempenhar
esta tarefa. O cuidador secundário realiza a atividade ocasionalmente, de modo restrito‖.
As atividades realizadas pelos cuidadores familiares, como a higiene corporal no leito
ou de aspersão, a alimentação, a integridade da pele e física do idoso e as medicações são
consideradas cuidados fundamentais para a vida. Ser cuidador familiar de um idoso é uma
20
tarefa árdua e difícil que limita a vida de quem cuida, principalmente quando esse idoso é
acometido por uma doença crônica, o que revela a necessidade de atenção, para os familiares,
por parte dos serviços de saúde e da sociedade (MENDONÇA; GARANHANI; MARTINS,
2008).
Segundo Braithwaite (1992), a sobrecarga que o cuidador informal experimenta
advém da falta de conhecimento no cuidar e da incapacidade mental do doente, que torna o
quadro irreversível e de completa dependência. A doença prolongada torna a situação
geradora de estresse, o que afeta o equilíbrio normal do funcionamento familiar nos aspectos
pessoal e social (RABOW; HAUSER; ADAMS, 2004).
A Academia Brasileira de Neurologia recomenda programas educacionais e
treinamento do cuidador, somados ao suporte psicológico e dos serviços de saúde, e afirma
que esse tipo de intervenção melhora os níveis de estresse, retarda a institucionalização e
evita, muitas vezes, o uso de fármacos (ENGELHARDT, 2005).
Nunes (1995, p. 238) acentua que a formação é útil na preparação para situações novas
ou inesperadas da vida, dado que permite a ―aquisição de conhecimentos e de valores,
desenvolvimento de capacidades e atitudes, mudança de representações, preparação para
intervenção social, modificação de perfis sociais e profissionais e desenvolvimento de
identidades‖.
Assim, a formação dos cuidadores poderá promover um processo de reflexão sobre a
experiência do cuidar, novas formas e técnicas, maior socialização entre o profissional de
saúde e o doente e, por fim, um reconstruir de intenção e vontade de produzir efeitos em si e
nos indivíduos. Isso repercute positivamente na garantia da integridade física e emocional dos
cuidadores (PADILLA, 2008).
2.5 TECNOLOGIA
Tecnologia é o termo que, por metonímia, vem frequentemente substituir o termo
técnica, o qual designa o conjunto dos procedimentos bem definidos e transmissíveis,
destinados a produzir certos resultados considerados úteis. São tradições que se legam de
geração em geração pelo ensino individual, pela aprendizagem, pela transmissão oral dos
segredos de oficio e de processos (LALANDE, 1999). Tecnologias em saúde são todas as
formas de conhecimento que podem ser aplicadas para a solução ou a redução dos problemas
de saúde de indivíduos ou populações (PANERAI; PENA-MOHR, 1989).
Para Silva, Alvim e Figueiredo (2008), a tecnologia é um conjunto de conhecimentos,
21
especialmente princípios científicos que se aplicam a determinado ramo de atividade. Não
está ligada somente a equipamentos tecnológicos, mas também ao saber-fazer. Mehry (2002)
apresenta a definição de tecnologia, incluindo os saberes utilizados na produção dos produtos
singulares nos serviços de saúde, bem como os saberes que operam para organizar as ações
humanas e inter-humanas nos processos produtivos.
Para o conceito de cuidado, existem várias acepções de tecnologia. O termo tecnologia
possui como definição etimológica: ―tecno‖, que vem de techné, que é o saber fazer, e
―logia‖, que vem de logos com significado de razão, ou seja, significa a razão do saber fazer
(RODRIGUES, 2001).
Gonçalves (2006) não restringe o significado de tecnologia ao conjunto de
instrumentos materiais do trabalho, e sim o amplia para os saberes e seus desdobramentos
materiais e não materiais na produção de serviços de saúde, afirmando que as tecnologias
carregam a expressão das relações entre os homens e entre os objetos com os quais trabalham.
A tecnologia, segundo Rocha et al. (2008, p. 114),
permeia o processo de trabalho em saúde, contribuindo na construção do
saber (e na sua própria expressão); ela se apresenta desde o momento da
idéia inicial, da elaboração e da implementação do conhecimento, como
também, é resultado dessa mesma construção. Ou seja, ela é, ao mesmo
tempo, processo e produto.
As tecnologias são classificadas por Merhy (2002) em duras, leve-duras e leves.
Tecnologias duras são entendidas como aquelas constituídas por equipamentos do tipo
máquinas, normas e rotinas. As leve-duras são os saberes estruturados, como a fisiologia, a
clínica médica e cirúrgica e tantos outros saberes que atuam no processo de trabalho. As
tecnologias leves são as implicadas com o conhecimento da produção das relações entre
sujeitos. São as tecnologias de acesso, acolhimento, produção de vínculo, de subjetividades.
De acordo com o mesmo autor, produzir tecnologias é buscar produzir coisas que tanto podem
ser materiais como produtos simbólicos que satisfaçam necessidades.
Em paralelo, tem-se ―o cuidar‖, que é um processo interativo, que envolve um
movimento no sentido de conduzir a transformação, entendido nas dimensões física,
psicológica, social, ambiental e cultural (WALDOW, 1998). Cuidar, então, compreende, para
Souza et al. (2005), aspectos pessoais e sociais, sensibilidade, respeito, solidariedade,
interesse. Implica, portanto, colocar-se no lugar do outro, interagir e responsabilizar-se com o
outro no intento de aliviar seu sofrimento ou proporcionar seu bem-estar.
A partir desses conceitos, pode-se perceber a complexidade do cuidado e que ele
22
somente se estabelece quando há a utilização das duas esferas concomitantemente e a
utilização adequada da tecnologia. A tecnologia, portanto, pode ser compreendida como um
mediador da racionalidade e da subjetividade, da intuição, da emoção e das sensações,
fazendo da razão e da sensibilidade instrumentos para fortalecer e qualificar o cuidado de
enfermagem (PRADO et al., 2006).
A tecnologia é a maneira de conhecer e se relaciona ao domínio ético, uma vez que
sua utilização sempre envolve escolhas com relação à finalidade de seu uso, aos interesses que
irá servir, aos desejos que irá satisfazer, ao status que ocupará, como meio ou fim
(SANDELOWSKI, 1996).
Para Merhy (1997), a tecnologia encontra-se nos diferentes saberes que procuram ler o
nosso mundo humano do ponto de vista da saúde e da doença, do normal e do patológico, da
vida e da morte, buscando construir procedimentos eficazes de intervenção nesses processos.
Em síntese, o saber tecnológico é o saber fazer.
Para se repensar novas modelagens assistenciais, assentadas em diretrizes como a
integralidade do cuidado, há que se aprofundar o debate sobre novos fundamentos teóricos,
particularmente sobre a natureza do processo de trabalho, sua micropolítica e a importância da
compreensão da organização da assistência à saúde. Frente ao quadro atual de transição
epidemiológica e demográfica, com a predominância das doenças crônicas não transmissíveis
e a ampliação da população de idosos, cresce a demanda por agregação de tecnologias
(MALTA et al., 2006).
Por conseguinte, o que se busca é potencializar o trabalho cuidador, no qual o
profissional, ao se relacionar com o usuário, no momento da assistência ou no espaço
intercessor, que é o espaço do encontro entre o usuário e o profissional de saúde, libere
trabalho vivo, em ato, nesse momento singular e cuidador (MALTA; MERHY, 2003).
De acordo com Merhy et al. (2006), a humanização do atendimento, como tecnologia
leve, é uma forma de gerenciamento do trabalho nas relações, enquanto a atenção integral é
tida como gerenciadora dos processos de trabalho humanizado.
De modo geral, todas as tecnologias se fazem necessárias nos processos de produção
em saúde e, nessa perspectiva, Pereira (2001) afirma que não cabe haver hierarquização de
valor das tecnologias; a depender da situação, todas são importantes, porém, não se deve
esquecer que, em todas as situações, as tecnologias leves precisam estar sendo operadas.
Assim, o cuidado e a tecnologia aqui considerada como guia possuem aproximações
que fazem com que se obtenham subsídios para desenvolver o cuidado de forma organizada e
fundamentada cientificamente.
23
3 METODOLOGIA DA PESQUISA
A estratégica metodológica numa investigação científica corresponde ao instrumento
para o enfrentamento da realidade. A abordagem qualitativa foi a escolhida para esta pesquisa,
por responder questões particulares, preocupando-se com aspectos que não podem ser
quantificados, pois se trabalha com um universo de significados, valores e atitudes. Ela requer
como atitudes fundamentais a abertura, a flexibilidade, a capacidade de observação e de
interação com o grupo de investigadores e com os atores sociais envolvidos. Seus
instrumentos costumam ser facilmente corrigidos e readaptados durante o processo de
trabalho de campo, visando às finalidades da investigação (MINAYO, 2000).
Além da abordagem qualitativa, esta pesquisa é caracterizada como construtivista,
sendo que nela o ser humano, como ser social e histórico, é responsável por manter ou
transformar o contexto no qual se insere. Assim, é rejeitada a possibilidade de neutralidade
por parte do investigador, bem como do ambiente pesquisado (VIGOTSKY, 2011). No
construtivismo, o rigor e a qualidade dependem da confiabilidade, da autenticidade e
obrigatoriamente devem beneficiar a todos os envolvidos na investigação (RODWELL,
1994).
O construtivismo foi à opção escolhida por ser um método de construção do
conhecimento que também se aplica à pesquisa que busca flexibilidade e adaptação, que
expõe a sensibilidade da relação entre o investigador e os pesquisados, partindo da interação
entre o racional e o intuitivo na análise do fenômeno (VIGOTSKY, 2011). Para fins
científicos, esse método de pesquisa oferece também uma reflexão acerca do comportamento
humano em constante influência e inter-relações com o contexto histórico, cultural e social,
identificando o trabalho como um importante meio de relacionamento entre as pessoas e a
natureza, determinando linhas alternativas de investigação de um fenômeno (RODWELL,
1994).
De forma complementar o construtivismo é definido como método interacionista e
epistemológico (MATUÍ, 1995). Sendo assim, o conhecimento não provém só dos objetos
externos nem só do sujeito, mas da interação existente entre o sujeito e objeto.
A abordagem construtivista, como método emergente de pesquisa, considera o ser
humano como o centro do seu percurso em direção à construção do conhecimento. Isso
significa que o ser humano constrói, ao longo dos anos, o seu mundo, sua história de vida, de
maneira própria, única, baseado nas experiências pessoais, na interação com o outro, com os
grupos, assim como com a organização/instituição e o ambiente. Ele traz consigo valores,
24
sentimentos, crenças, atitudes, comportamentos, habilidades, competências, conhecimentos
que interferem, de forma positiva e/ou negativa, na sua práxis e, consequentemente, na
construção do saber expresso ou velado no seu ser, viver e fazer (SIQUEIRA; ERDMANN,
2007).
O construtivismo é uma teoria do conhecimento que estabelece uma estrutura com
dois polos, o sujeito histórico e o objeto cultural em interação recíproca, num movimento
dialético e sem interrupção das construções já acabadas, para sanar as lacunas ou
necessidades. O construtivismo é dialético e supõe uma visão de totalidade integradora. É
movimento de mudança e transformação. Por ser dialético, supera os conflitos e
desequilíbrios para atingir níveis estruturais qualitativamente superiores (MATUÍ, 1995).
A elaboração desta proposta de construção do guia instrucional de cuidados integrais
foi concebida por meio da técnica de grupo focal — ―um tipo de entrevista em profundidade
realizada em grupo. Tem como objetivo a discussão de um tópico em grupo. O grupo focal é
também chamado de entrevista focalizada de grupo, entrevista profunda em grupos e reuniões
de grupos‖ (MARTINS; THEÓPHILO, 2007, p. 88).
A técnica do grupo permite ao pesquisador não só examinar as diferentes análises das
pessoas em relação a um tema. Ela também proporciona explorar como os fatos são
articulados, censurados, confrontados e alterados por meio da interação grupal e, ainda, como
isso se relaciona à comunicação de pares e às normas grupais (KITZINGER; BARBOUR,
1999).
Nesta investigação, o foco foi à construção de um guia instrucional de cuidados que
contemple as necessidades dos familiares cuidadores com relação aos cuidados integrais a
serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar.
A pesquisa se desenvolveu no setor de clínica médica cirúrgica de uma instituição
hospitalar localizada na região do Médio Vale do Itajaí (SC). Trata-se de um hospital geral de
médio porte, filantrópico, inaugurado em 30 de setembro de 1951, tendo a seguinte missão:
Oferecer avançada e inovadora atenção à saúde, proporcionando
conforto, segurança e crescente humanização dentro dos padrões
científicos e tecnológicos melhorando a qualidade de vida dos clientes
internos e externos em uma estrutura auto-sustentável (HOSPITAL
BEATRIZ RAMOS, 2006).
Fizeram parte desse processo investigativo: os familiares dos idosos considerados,
neste contexto, como cuidadores com diferentes graus de parentescos, e os profissionais da
área de enfermagem da instituição hospitalar que compõem o corpo técnico da área de clínica
25
médica.
Com relação aos cuidadores, consideraram-se os vínculos estabelecidos, que vêm ao
encontro dos vários tipos de famílias constituídas (CRAVEN; HIRLENE, 2006). Nesta
pesquisa foram considerados os filhos, esposos e pessoas com outros graus de parentesco,
como sobrinhos, sobrinhas, tias, tios, irmãos, noras, demais integrantes da família e
cuidadores contratados. Fizeram parte do estudo os familiares que estavam com o idoso com
mais de cinco dias de internação e com alta hospitalar prescrita. Em relação aos profissionais
da área de enfermagem, foram convidados os de nível superior que atuam no local de
internação dos idosos, a clínica médica.
Portanto, os integrantes do estudo corresponderam aos familiares e enfermeiros.
Embora o convite tenha sido extensivo a outros profissionais da saúde, não houve adesão
destes por motivos particulares e/ou profissionais. Participaram espontaneamente cinco
familiares e quatro enfermeiros, além do moderador (pesquisador). Foram constituídos dois
grupos distintos.
O grupo de familiares apontou as necessidades de cuidados, mostrando as dificuldades
de cuidar no domicílio, haja vista que vivencia cotidianamente os cuidados com os idosos
depois da alta hospitalar e, logo, tem elementos e argumentos expressivos. O grupo de
enfermeiros contribuiu na elaboração técnica das orientações para comporem o guia
instrucional e na reflexão sobre a importância de se ter instrumentos práticos constituídos que
facilitem o ato de cuidar no domicílio pelos cuidadores familiares.
As entrevistas foram programadas para o período diurno, coincidente com o horário de
trabalho dos enfermeiros. Coube ao pesquisador negociar com a administração hospitalar a
liberação dos profissionais para participarem do grupo focal sem que houvesse prejuízo
pessoal e profissional.
Os encontros do grupo ocorreram em horários predeterminados e negociados. De
maneira didática, optou-se por não misturar os dois grupos para que cada um pudesse se
expressar livremente durante os encontros, considerando-se os distintos propósitos. Os
encontros foram promovidos em duas etapas de uma hora e trinta minutos, totalizando dois
encontros para cada grupo.
O primeiro encontro reuniu os profissionais de saúde e o segundo, os familiares
cuidadores, com reunião no mesmo dia em horários diferentes. Os outros dois encontros
ocorreram num intervalo de dois dias com os mesmos componentes. Os quatro encontros
foram gravados para que não se perdesse o conteúdo discutido.
Os sujeitos participantes desta pesquisa indicaram os caminhos para a elaboração do
26
guia instrucional na intenção de orientar atitudes estratégicas dialógicas e reflexivas para o
desenvolvimento do processo de cuidar do idoso no domicílio.
Partindo-se da perspectiva construtivista, cada grupo foi considerado legítimo e teve
autonomia para decidir, haja vista que o guia instrucional de cuidado integral construído deve
atender às necessidades de seus componentes dentro do seu contexto sociocultural sem a
preocupação da generalidade.
Inicialmente foi feita a apresentação do moderador, dos objetivos da pesquisa e dos
participantes: enfermeiros e familiares cuidadores. Optou-se por realizar uma dinâmica de
apresentação na qual cada participante apresentava outro, mesmo que não o conhecesse. Foi
interessante essa atividade porque houve quebra da formalidade do trabalho e socialização dos
grupos, favorecendo a relação de troca.
Com a apresentação dos objetivos foram surgindo questionamentos e percepções entre
os profissionais enfermeiros, principalmente no que se refere aos fatores de orientações e
déficits de cuidados que as famílias cuidadoras apresentam e que, posteriormente, são as
causas da internação e reinternação hospitalar.
Para o grupo de enfermeiros, o moderador lançou o questionamento: Vocês estão
presentes no ato e no momento da alta do idoso e orientam os familiares quanto aos cuidados
que devem ser prestados no domicílio?
Os enfermeiros assumiram a dificuldade em estarem presentes durante a alta do
idoso, justificando-a pelas várias atividades que desempenham no trabalho diário, mas
reconheceram a importância da proposta no sentido de contribuir para a redução dos casos de
reinternação hospitalar.
Embora a educação de pacientes e familiares seja reconhecida como importante
componente de uma boa prática na reabilitação, relativamente pouco se tem estudado sobre as
suas necessidades de aprendizado durante a alta hospitalar. Portanto, compreender as dúvidas
e interesses que os cuidadores possuem pode garantir que a informação dada seja relevante
(MCLENNAN; ANDERSON; PAIN, 1996).
O primeiro encontro com os enfermeiros serviu para contextualizar o método
investigativo, recolher a opinião deles quanto à situação dos idosos na ambiência hospitalar e
estimular a reflexão acerca da atuação do profissional de saúde durante o processo de alta
hospitalar.
Os familiares cuidadores, componentes do segundo grupo, falaram sobre as
orientações pertinentes às patologias dos idosos, porém, argumentaram que as orientações de
cuidados recebidas na alta hospitalar para o domicílio são poucas. Declararam temer não
27
saber realizar os cuidados simples da vida diária dos idosos e ressaltaram a falta de um
instrumento que os auxilie nos cuidados básicos, o que, na maioria das vezes, acaba fazendo
com que o idoso seja levado para o serviço de emergência e, posteriormente, reinternado. Nos
dois encontros com esse grupo teve-se a intenção de coletar informações sobre as dificuldades
sem a preocupação de construir com ele o guia instrucional.
Depois dos dois encontros com os cuidadores e de um com os enfermeiros, o
moderador ouviu várias vezes as gravações das falas e levantou as semelhanças ou
similaridades de ambos os grupos com relação às dificuldades de execução dos cuidados no
domicílio.
Com as informações já assinaladas, o moderador elaborou um esboço dos temas a
serem abordados no guia instrucional com as devidas orientações descritas para serem
apresentadas no segundo encontro com os enfermeiros. Vale destacar que essa proposta prévia
teve como único propósito instigar a reflexão para impulsionar a discussão durante o encontro
e os enfermeiros poderiam já trazer sugestões de acréscimo ou exclusão. Foram fornecidos
materiais de apoio, como textos teóricos e folhas para anotação, quadro flip chart e canetas.
Durante a reflexão do grupo, os enfermeiros foram unânimes em afirmar que a
elaboração de um guia instrucional para o cuidado do idoso no pós-alta hospitalar pode ser
uma ferramenta de auxílio aos cuidadores familiares para que estes realizem com maior
segurança os cuidados necessários e possíveis no âmbito domiciliar. Ao final da atividade, o
grupo concordou com os resultados e encaminhamentos realizados, ressaltando a importância
dessas orientações de cuidados para os familiares cuidadores.
Dessa forma, o construtivismo foi utilizado como ancoragem de metodologia, mas não
se confirmou em sua plenitude metodológica devido ao tempo e à disponibilidade das pessoas
no processo para a construção.
Com a finalidade de proporcionar momentos de descontração e como forma de
agradecimento pela participação, ao final de cada encontro foi oferecido um lanche.
O diálogo ocorrido durante os encontros de ambos os grupos estão apresentados no
capítulo de apresentação e análise dos resultados e a partir dele foram construídas as
orientações para a pós-alta hospitalar do idoso, que constituem o corpus da tecnologia. A
análise deste estudo foi feita de modo a relatar todo o processo de construção até a sua
finalização alicerçada no embasamento teórico. Não se pretende analisar a aplicabilidade em
lócus do produto, pois se considera que isso implica a realização de nova pesquisa.
Na consecução desta pesquisa foram respeitados os preceitos estabelecidos pela
Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, segundo a qual as pesquisas que
28
envolvem seres humanos devem atender exigências éticas e científicas fundamentais. Essa
Resolução incorpora, sob a ótica do indivíduo e da coletividade, os referenciais básicos da
bioética: autonomia, não maleficência e justiça, dentre outros, e visa assegurar os direitos e
deveres que dizem respeito à comunidade científica, aos sujeitos da pesquisa e ao Estado
(BRASIL, 2012).
Nesta pesquisa, todos os participantes assinaram previamente o termo de
consentimento livre e esclarecido (apêndices B e C). Eles foram informados sobre a
possibilidade de desistirem do estudo a qualquer tempo se assim desejassem e sobre a garantia
do anonimato e sigilo das informações colhidas, além do acesso aos resultados da pesquisa.
Como as reuniões dos grupos focais ocorreram dentro de uma instituição hospitalar, a
coordenação do hospital também assinou um termo de consentimento, autorizando o uso das
instalações e a liberação dos profissionais, após ter sido informada sobre os objetivos e
procedimentos da pesquisa pela coordenação do mestrado (Apêndice A). O projeto de
pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Itajaí
(Univali) e aprovado sob o Parecer nº 115.175, em 28 de setembro de 2012.
29
4 CONSTRUINDO AS TEMÁTICAS PARA O CUIDADO AO IDOSO NO
DOMICÍLIO
Essa construção ocorreu a partir do diálogo realizado entre os participantes de ambos
os grupos: enfermeiros e familiares cuidadores. Optou-se em apresentar as falas em conjunto,
sem separação por grupo, identificando-se os participantes com a abreviatura Enf.
(enfermeiro) e as letras FC (familiar cuidador), seguidas de um numeral, para garantir seu
anonimato.
A partir das falas foram elencadas as temáticas mais pertinentes que nortearam as
recomendações de orientação de cuidados aos idosos na ambiência domiciliar. Constatou-se a
necessidade de expor as temáticas em duas partes: 1) Cuidados específicos: higiene (oral,
íntima e corporal); alimentação e hidratação (oral e por dispositivo); cuidados cutâneos: pele,
queimadura, úlceras de decúbito e de perna; medicação; quedas, fraturas e ambiência; 2)
Cuidados gerais: cuidado com o cuidador; aspectos emocionais do idoso; despreparo da
família para o cuidado e referência e contrarreferência.
4.1 CUIDADOS ESPECÍFICOS
4.1.1 Higiene: oral, íntima e corporal
Verificou-se que a higienização dos idosos no tocante à higiene oral, íntima e corporal
foi um dos pontos de grande preocupação tanto para os enfermeiros quanto para os familiares
cuidadores. Destaca-se que, durante a hospitalização, a equipe de enfermagem tem a
preocupação de ensinar procedimentos e tirar dúvidas dos familiares.
Com referência à higiene oral, os enfermeiros comentaram:
―Cuidados com próteses dentárias, às vezes ele já não traz, por que às vezes ele quer usar a
dentadura, mais ele não está em situação. [...] E a gente percebe que a família também tem muito nojo
da prótese dentária, então quando a gente faz a remoção, realmente vem num estado deplorável de
higiene‖ (Enf. 1).
―E esta falta de higiene oral, é o que dificulta às vezes a deglutição. Estão sendo ofertados pra
esse tipo de paciente, esse idoso, alimentos que ele na verdade não poderia estar comendo‖ (Enf. 2).
―[...] verbalizam mesmo que eles têm nojo da dentadura do paciente, e a gente realmente
quando retira, percebe que não está sendo feita à higiene da prótese‖ (Enf. 1).
30
―A higiene oral é um dos maiores déficits que a gente vê‖ (Enf. 5).
A educação em saúde prestada aos familiares durante a hospitalização é uma das
estratégias que deveriam ser adotadas de modo contínuo, evitando assim à re-hospitalização.
Orientações nesse sentido são relevantes na tentativa de solucionar os déficits de cuidados
salientados pela Organização Mundial da Saúde, no documento publicado em 2005 e
intitulado Oral heath in ageing societies (WHO, 2005). Esse documento enfatiza que a saúde
oral é essencial para a saúde geral, sendo fator determinante para a qualidade de vida, ou seja,
saúde oral e saúde geral estão fortemente associadas.
De acordo com o levantamento epidemiológico em saúde bucal realizado no Brasil
pelo Ministério da Saúde de 2002 a 2003, o edentulismo se apresenta como um grave
problema no grupo etário de 65 a 74 anos, constituindo, assim, um aspecto importante a ser
considerado nos cuidados quando de uma internação hospitalar no que se refere à limpeza de
próteses e dentes de forma adequada (BRASIL, 2005).
Agrava-se essa preocupação quando se constata que os problemas odontológicos são
bem comuns, podendo ser relatados os seguintes: atrição dentária; perda dos dentes; atrofia do
osso alveolar e osso basal; alterações na mucosa bucal, língua, glândulas salivares, articulação
têmporo-mandibular, flora microbiana e incidência de neoplasias malignas (FEIJÓ, 1993;
LINDLE, 1992).
Ainda aprofundando essa questão, a ausência de dentes e de uso de próteses totais por
pessoas idosas são decorrentes de cáries não tratadas e da periodontite, embora essas causas
possam ser preveníveis com a tecnologia atual. A perda de apetite em idosos tem sido
geralmente relacionada com ausência de elementos dentários e com o uso de próteses
(CORMACK, 1998).
O edentulismo pode também ser oriundo da falta de coordenação motora para a
realização das técnicas corretas de higiene e da capacidade de autopercepção do indivíduo
quanto às alterações presentes na cavidade oral (PASSERO; MOREIRA, 2003).
A higiene oral do idoso é um fator indispensável para o envelhecimento saudável e
uma boa qualidade de vida. O quadro de saúde bucal do idoso reflete nitidamente as
condições desiguais em que as pessoas vivem e trabalham (PUCCA JÚNIOR, 2002). A
higiene oral é uma prática utilizada para limpar a cavidade bucal, em especial os dentes e a
língua. Tal higiene deve incluir a escovação dos dentes, limpeza da língua, o uso do fio
dental, além de cuidados com dentaduras e pontes móveis (TIMBY, 2001).
De acordo com Gil-Montoya et al. (2006), os idosos funcionalmente dependentes
31
demandam protocolos de higiene bucal adaptados e adequados às limitações apresentadas,
preconizando a remoção diária de placa bacteriana dos dentes e próteses, higienização da
mucosa bucal e contínua hidratação bucal, utilizando-se de instrumentos especiais, como
escovas dentais elétricas, soluções contendo clorexidina, dentifrícios fluoretados e géis para
hidratação bucal (no caso de redução do fluxo salivar).
De outro modo, a higiene oral desses idosos dependentes deve ser feita com a
cabeceira do leito elevada, após cada refeição, observando-se se há sangramentos. As próteses
devem ser escovadas com cerdas duras, seguindo-se de limpeza da gengiva e língua com gaze
umedecida em água filtrada e solução antisséptica, envolvida em uma espátula, três vezes ao
dia. A prótese, quando não estiver em uso, deve ser guardada em recipiente fechado com
tampa (CONCEIÇÃO, 2010).
Com referência à higiene íntima, destacam-se as seguintes falas:
―Isso mesmo, eles acabam limpando, sabem trocar a fralda e tal, mais eles acabam
esquecendo‖ (Enf. 1).
―A gente fez a higiene íntima, vai ser utilizada tal pomada pra prevenção da assadura. Esse
vermelhão, essa dermatite de fralda, dá pra deixar sem a fralda ou não dá, dá pra pegar sol ou não dá‖
(Enf. 3).
―Cuidar da higiene íntima dele, quando ele não puder fazer sozinho, e quando ele estiver
fazendo sozinho, tem que ver, porque o idoso é teimoso. Eles querem tomar banho sozinho, eles estão
usando fralda, mas sabe. Então vai da família estar observando aquele idoso, observando como ele
está‖ (Enf. 5).
Potter e Perry (2004) referem que a higiene íntima faz parte do banho completo,
consistindo na limpeza meticulosa da região perineal. Essa limpeza pode e deve ser realizada
isoladamente, conforme a necessidade do utente, principalmente quando acamado.
A higiene íntima, quando realizada de forma correta, pode evitar complicações
complementares ao paciente idoso, além de sua enfermidade principal — neste caso, têm-se
as complicações provenientes de infecções do trato urinário, sendo as infecções bacterianas
mais comuns em populações idosas (NICOLLE, 2000).
É de conhecimento prévio que os idosos que apresentam infecção urinária utilizam
fraldas geriátricas durante todo o dia impreterivelmente. Porém, a fralda molhada no corpo
por muito tempo pode provocar assaduras e feridas na pele (LEE, 1996). Portanto, a
orientação da troca das fraldas, limpeza e desinfecção de toda a área íntima, a cada troca, faz-
32
se necessária tanto quando da internação como no tratamento no pós-alta hospitalar que será
realizado por um cuidador.
Tanto enfermeiros como cuidadores familiares mostraram sua preocupação quanto aos
cuidados com a higiene corporal:
―Cuidados com a higiene corporal também, isso é fundamental‖ (Enf. 5).
―Minhas dúvidas, até mesmo pra eu ver de que forma que eles agem ali, pra eu ter um
exemplo de como agir em casa, por exemplo, de que forma que eles levam para o banho, às vezes em
casa eu estou fazendo de uma forma incorreta‖ (FC2).
O relato dos profissionais de enfermagem e dos cuidadores revelam as dificuldades e a
importância da higiene corporal como parte do tratamento do idoso internado no hospital e
também no pós-alta hospitalar.
Para Maciel e Bocchi (2006), o banho no leito é uma experiência que se configura
como de difícil superação, envolta de estresse e de comprometimento da autoestima, causados
pela perda da autonomia para os cuidados de higiene, pelo constrangimento da exposição
corporal, bem como por não serem conferidas as mesmas sensações de limpeza e de conforto
proporcionadas pelo banho no chuveiro.
Portanto, sempre que possível, o banho deve ser dado no chuveiro. O banho no leito,
quando necessário, requer o uso de sabonete neutro, sem bucha para esfregar a pele, que já é
bem afilada, com preferência para o uso de água morna. A pele deve ser logo secada após o
banho, seguida de hidratação com creme ou vaselina líquida, e as vestimentas devem ser
adequadas à temperatura ambiente (CONCEIÇÃO, 2010).
A higiene corporal, de acordo com Silva (1998), tem como finalidade o conforto do
paciente, bem como a estimulação da circulação sanguínea. Manter o corpo limpo contribui
para a integridade da pele e para a defesa do corpo da invasão de organismo patógenos.
Quando realizada, estimula a circulação, proporciona bem-estar e mantém o paciente livre de
impurezas.
Nesse caso, nota-se que, além da técnica do banho, que deve ser repassada aos
cuidadores, há que se considerar a possibilidade de constrangimento do idoso e de seu
cuidador, em razão de a pessoa se sentir ―invadida‖ em sua privacidade, requerendo atenção
ao seu estado emocional — aspecto que será abordado no decorrer desta análise.
A higiene dos pacientes constitui um aspecto fundamental no tratamento hospitalar e
nos cuidados domiciliares posteriores. Por isso, há sempre a necessidade de esclarecimento e
33
ensinamentos para todo o corpo técnico responsável por esse cuidado, a fim de que tal
procedimento seja feito de forma correta, assim como de orientação aos cuidadores para
também o fazerem, posteriormente, de forma adequada.
4.1.2 Alimentação e hidratação: oral e por dispositivo
A alimentação e hidratação oral ou por dispositivos invasivos são fundamentais para o
pronto restabelecimento do paciente idoso quando do adoecimento, assim como para levar
uma vida normal e saudável. É imprescindível, portanto, que profissionais de saúde e
cuidadores tenham conhecimento sobre a forma correta de utilizar esses meios de ingestão e
sobre as dificuldades de deglutição dos idosos. Nesse ponto, acentua-se a necessidade de
repasse de informações, durante a hospitalização, por parte da enfermagem, e a preocupação
de aprender dos cuidadores para agirem em situações de ajuda ao idoso no pós-alta hospitalar.
As falas transcritas a seguir demonstram a importância de uma alimentação correta e
saudável:
―Oferecer uma alimentação adequada rica em vitaminas, carboidratos adequados e saudáveis
pode melhorar inclusive nas cicatrizações mais rápidas‖ (Enf. 2).
―É onde vão faltar as vitaminas, os carboidratos e os sais minerais. [...] começa a ficar pálida, e
a emagrecer‖ (Enf. 4).
―Aquela diabetes, difícil de compensar. Quando eles dizem – Eu não como doçura. Hoje só
comi três fatias de pão. Então, eles não entendem que o carboidrato também vai virar açúcar‖ (Enf. 5).
―Então a nutrição tem que fazer parte, com certeza, da orientação‖ (Enf. 3).
―Que estratégia que o acompanhante ou o familiar deste idoso deve ter na hora da
alimentação‖ (Enf. 2).
―No verão não modifica muito a alimentação deles, continua sendo a polenta, um pouco de
feijão, então você não vê que tem frutas, sucos, hidratação‖ (Enf. 1).
―E às vezes eles acham que a alimentação que a paciente precisa é cara, e não é. Pelo
contrário, são as frutas, o legume e as verduras que é acessível, por que isso ele pode até ter em casa‖
(Enf. 3).
―Por exemplo, fazer uma comida sem sal, tenta tirar o doce que a gente sabe que não pode...
Mas a gente também tem que ter orientação porque às vezes nem a gente sabe o que fazer‖ (FC2).
―Minha mãe tem dificuldade para deglutir. Que tipo de alimentação é melhor oferecer para
ela? Minha mãe se alimentava sozinha até certo tempo, depois nós passamos a alimentar com a sonda,
pois é importante o idoso se alimentar‖ (FC3).
34
―Eu já tenho certa dificuldade neste sentido. Estou a maior parte do tempo ausente, então por
mais que eu o oriente, eu não estou ali presente pra ver se ele está fazendo realmente a coisa certa na
alimentação‖ (FC2).
―Vai ter que fazer como a gente fazia. Chegava com a alimentação pertinho, colocava para ela
na posição certa. Sentava ela‖ (FC4).
O envelhecimento é um processo comum a todos os seres vivos, sendo influenciado
por múltiplos fatores (biológicos, psicológicos, econômicos, sociais, culturais). É um
fenômeno dinâmico e progressivo, no qual modificações morfológicas, funcionais e
bioquímicas podem interferir na capacidade de adaptação do indivíduo ao meio social em que
vive, tornando-o mais vulnerável aos agravos e doenças e comprometendo sua qualidade de
vida (SOUZA; SKUBS; BRÊTAS, 2007).
Várias são as teorias que procuram explicar o envelhecimento do ponto de vista
biológico. Algumas enfatizam o possível controle genético do envelhecimento celular, outras
se referem a agressões externas às quais as pessoas estão permanentemente expostas, como a
alimentação e a hábitos alimentares inadequados ao longo de suas vidas. Em ambos os casos,
o resultado seria uma síntese proteica deficiente, com consequente disfunção dos tecidos e dos
sistemas que compõem o organismo humano (FARINATTI, 2002).
Acredita-se que o processo de envelhecimento natural, quando aliado a uma
deficiência alimentar ao longo da vida, pode causar danos e consequências nas fases mais
avançadas da vida. Dentre essas decorrências estão a institucionalização dos idosos em
clínicas e acompanhamento necessário de cuidadores em seu dia-dia.
Entre os fatores que podem contribuir para a institucionalização do idoso estão a
ausência de familiares ou pessoas disponíveis para cuidar de sujeitos mais velhos em situação
de dependência, o aumento na proporção de pessoas idosas com declínio da capacidade
funcional, a escassez de serviços de apoio social formal de saúde e da rede de suporte social
informal ao idoso e o alto investimento do cuidado domiciliar (CREUTZBERG;
GONÇALVES; SOBOTTKA, 2008).
Diante das dificuldades encontradas e que levam para a institucionalização do idoso, o
Ministério da Saúde (BRASIL, 2010) recomenda a alimentação diária em cinco ou seis
refeições durante o dia e orienta que três refeições básicas devem ser feitas: desjejum, almoço
e jantar, intercaladas com dois ou três pequenos lanches: colação (lanche leve pela manhã),
lanche da tarde e ceia (lanche noturno leve). Essa distribuição estimula o funcionamento do
intestino e evita que se coma fora de hora.
35
Todavia, é importante estabelecer horários regulares para as refeições, com intervalos
para atender às peculiaridades da fisiologia digestiva da pessoa idosa, considerando que sua
digestão é mais lenta. O ajuste dos horários de refeição contribui para garantir o fornecimento
de nutrientes e energia, maior conforto e apetite para a pessoa idosa.
Outro ponto salientado como importante para o idoso na pesquisa é a hidratação oral:
―A gente percebe que a maior dificuldade que a família tem é de manter o idoso hidratado,
então o idoso já vem desidratado por falta de ingesta hídrica‖ (Enf. 1).
―Eles se desidratam facilmente, pela dificuldade da deglutição, né, que eles têm e também por
falta de orientação das famílias né, do cuidador que está ali direto com esta paciente‖ (Enf. 2).
―Às vezes, além de desidratados, [...], que além da falta de tomar água, eles se desidratam pelo
período no sol‖ (Enf. 1).
―Ele não gosta de tomar água, mas ele tem que tomar água, então, estar estimulando a ingesta
hídrica daquele idoso‖ (Enf. 1).
―Fico em dúvidas sobre a alimentação adequada de líquidos para o paciente idoso‖ (FC 2).
O estado de hidratação é fator de relevância em geriatria. No idoso, a desidratação se
torna frequente, podendo desencadear outras doenças como enfermidades infecciosas e
cerebrovasculares, que, neste último caso, muitas vezes, apresenta-se como um quadro de
delirium (NOGUÉS, 1995; MORIGUTI et al.,1998).
Segundo Moraes (2008), as mudanças que ocorrem no metabolismo hidroeletrolítico
predispõem o idoso à desidratação. A redução da água corporal é acompanhada da diminuição
da massa muscular e massa óssea causada por alterações neuroendócrinas, sendo mais
evidentes no sexo masculino. Isso contribui para uma maior tendência à redução do peso
corporal, redução na força muscular, mobilidade, equilíbrio, com maior predisposição a
quedas e imobilidade física (MORAES, 2008).
Para mitigar esses problemas causados pela falta de ingesta líquida e incentivar a
reposição de líquidos, tão importante nessa faixa etária, alguns autores sugerem o consumo de
água e sucos de frutas variados e atrativos, além de chás digestivos e calmantes (CAMPOS;
COELHO, 2003).
No processo de envelhecimento natural do ser humano, de acordo com Akhtar, Shaikh
e Funnye (2002), os seguintes fatores podem agir juntos ou isoladamente: problemas de
mastigação por deficiência da arcada dentária ou por próteses inadequadas; diminuição do
volume de saliva por uso de medicações e doenças associadas; diminuição da força máxima
36
da língua; diminuição da pressão da parte oral da faringe; redução do limiar de excitabilidade
de deglutição; presença de penetração no vestíbulo laríngeo; diminuição dos reflexos
protetivos; aumento da incidência de refluxo gastroesofágico e de enervação senil do esôfago.
Esses fatores são agravados durante o processo de doença e apresentam complicações
no período de internação no que tange à necessidade de alimentação por meio de dispositivos
invasivos. Acredita-se que os episódios de aspiração são frequentes entre idosos e têm
consequências graves, sendo considerada uma das maiores causas de morbimortalidade nessa
população (LANGMORE, 1998).
Os idosos impossibilitados de se alimentar por via oral, devido à dificuldade de
deglutição, ou que necessitam aumentar o suporte nutricional por causa de baixas ingestas,
passam a se alimentar por meio de dispositivos invasivos; em termo técnico, é a alimentação
por sondas (enteral ou gástrica).
Esse assunto foi discutido pelos grupos focais:
―Um das outras causas desse processo de reinternação é a retirada de sonda, de troca de sonda,
daí acaba vindo pro pronto-socorro, e o médico acaba internando por que acaba visualizando outros
problemas deste paciente idoso que estava em casa e que volta pro hospital‖ (Enf. 1).
―Como ele vai pegar essa seringa, que a cada 24 horas tem que ser trocada, pra não obstruir a
sonda‖ (Enf. 2).
―Às vezes tem cuidados com sondas né, então a gente durante a internação está manipulando,
mais estar chamando o acompanhante, olha é assim que passa uma dieta, quando termina uma dieta é
assim que se passa a água‖ (Enf. 3).
―Aí quando não, a gente passava a sonda em casa, por que ela fez cirurgia e tudo [...] sendo
importante pra ela nesse momento‖ (FC4).
―Minha mãe tem dificuldade para deglutir. Que tipo de alimentação é melhor oferecer para
ela? Minha mãe se alimentava sozinha até certo tempo, depois nós passamos a alimentar com a sonda,
pois é importante o idoso se alimentar‖ (FC3).
A sonda enteral é um dispositivo invasivo, inserido no nariz, com a finalidade de se
administrar alimentos sempre que houver contraindicação ou impossibilidade de se utilizar a
via oral fisiológica. Ressalta-se, porém, que o tubo digestivo deve estar presente, com
capacidade de absorção, total ou parcial, conservada (UNAMUNO; MARCHINI, 2002).
Já a sonda nasogástrica é aquela inserida no nariz, alcançado o estômago. As sondas
nasogástricas são menores em diâmetro do que as orogástricas, embora sejam maiores e mais
curtas do que as nasoentéricas. Algumas possuem mais de um canal, ou lúmen, em seu
37
interior (TIMBY, 2001).
A infusão da dieta por via enteral ou por sonda nasogástrica sempre deve ser feita com
o paciente sentado ou na posição semissentado pelo menos a 45 graus. Essa posição deve ser
mantida durante uma hora após a administração da dieta. Tal cuidado previne o refluxo,
oferecendo mais conforto ao paciente (METHENY; EINSENBERG; Mc SWEENEY, 1988).
Para eliminar os resíduos de gordura e restos de dieta, que podem obstruir a luz da
sonda, ela deve ser irrigada com 20 ml de água, de preferência morna, após cada
administração de dieta ou medicamentos (METHENY; EINSENBERG; Mc SWEENEY,
1988).
Esses meios de ingestão, para serem usados de forma correta, requerem entendimento
de sua importância e de técnicas para adotá-los, caso o idoso esteja sendo alimentado por
dispositivos. Também as dificuldades em deglutição devem ser compreendidas.
Evidencia-se, assim, a necessidade de repasse de conhecimentos, pelos enfermeiros
aos cuidadores, durante a hospitalização e do interesse de aprender dos cuidadores quando
tiverem em situações de ajuda ao idoso na pós-alta hospitalar.
4.1.3 Cuidados cutâneos: pele, queimadura, úlceras de decúbito e de perna
Os problemas de pele do idoso são reflexos característicos da elasticidade da pele
diminuída que se torna sensível a fatores externos que podem surgir das mais variadas fontes,
dentre elas os déficits de cuidados no processo do envelhecimento e também ao adoecer.
No
envelhecimento
ocorrem
mudanças
estruturais
no
sistema
tegumentar
caracterizadas pelo achatamento da articulação dermoepidérmica, variação no tamanho das
células epiteliais, forma e corante das células basais, menores números de células e
melanócitos (HUDAK; GALLO, 1997).
Da mesma forma que as demais temáticas já descritas, os cuidados com a pele
precisam ser esclarecidos aos cuidadores na pós-alta hospitalar dos pacientes idosos. Esses
cuidados podem ser repassados pela área de enfermagem para que não se agravem o
desconforto do paciente idoso e outras doenças pré-existentes. Os relatos apontam:
―Hidratações com loções mesmo na pele, pra evitar fissuras e ressecamentos‖ (Enf. 1).
―Esse vermelhão, essa dermatite de fralda, dá pra deixar sem a fralda ou não dá, dá pra pegar
sol ou não dá‖ (Enf. 3).
―Deixou fezes ainda em contato com a pele daquele paciente, vai ter assadura, vai ter infecção
38
urinária‖ (Enf. 3).
―É, minha mãe mesmo, ela está toda roxa nos braços assim, ela bate e fica roxo‖ (FC2).
Entende-se que os cuidados cutâneos durante a vida poderão facilitar e propiciar ao
idoso uma condição melhor ao adoecer, assim como os cuidados com o sol e a exposição
diária aos raios ultravioletas.
Nesse contexto, salienta-se o uso necessário das fraldas geriátricas e o conhecimento
sobre as complicações do seu uso inadequado, provocando dermatites de pele ou
simplesmente dermatite de fralda. A dermatite da fralda ou erupção das fraldas é uma
desordem multifatorial dermatológica caracterizada por inflamação na área da fralda
(PRASAD; SRIVASTAVA; VERMA, 2003; GUPTA; SKINNER, 2004). Essa dermatite
tipicamente se apresenta sobre as áreas da pele que estão em maior contato com a fralda
(ZANINI et al., 2003; SHIN, 2005).
Sobre esse aspecto, acentua-se a necessidade imediata de os cuidadores saberem quais
as implicações de uso da fralda no paciente idoso, visto que a pele já se encontra em estado
frágil, proveniente do próprio processo de envelhecimento.
É importante também entender que a pele do paciente idoso permite que qualquer
choque provoque hematomas que devem ser analisados com cuidado para evitar julgamentos
precipitados de agressão ou maus tratos. O risco de lesão da pele aumenta em virtude da
diminuição da função de barreira. Por outro lado, há maior dificuldade em perceber estímulos
traumáticos e agressivos devido à capacidade reduzida dos receptores sensoriais (DUARTE;
DIOGO, 2000).
De forma complementar, têm-se os cuidados com as queimaduras:
―Têm queimaduras do sol, não queimaduras graves, queimaduras de primeiro grau‖ (Enf. 1).
Apesar da pouca citação, durante a pesquisa, com referência à queimadura em idosos,
os estágios de queimadura do paciente idoso merecem atenção especial não somente para
fatores intrínsecos da doença, mas também para outros fatores, como a vida que o paciente
leva.
O envelhecimento cutâneo é determinado por fatores intrínsecos, como a idade do
indivíduo e sua genética, e extrínsecos, como exposição solar, agentes químicos e tabagismo.
O envelhecimento intrínseco da pele se expressa como uma pele seca, enrugada e flácida,
característica do idoso (BRANDÃO; BRANDÃO, 2006).
39
Os fatores externos têm relação com queimaduras comuns nessa fase de vida. São
lesões cutâneas causadas pela ação direta ou indireta do calor e as principais causas são a
chama direta, o contato com água fervente ou líquidos quentes (chamado de escaldamento), o
contato com superfície aquecida, corrente elétrica e agentes químicos (VALE, 2005).
Salienta-se a importância do cuidado da pele do paciente idoso que sofreu
queimaduras, pois ele deve ser submetido à higiene corporal, limpeza da área atingida pela
queimadura, uso de curativos adequados, e estimulado a realizar exercícios fisioterápicos,
mesmo que esses procedimentos gerem dor e desconforto temporário (COST; ROSSI, 2003).
Todo paciente que se encontra acamado pode a vir sofrer de úlceras de decúbito,
caracterizadas por contato prolongado da pele em uma única posição, causando lesões nela.
Essa situação no paciente idoso é agravada pela presença de déficit de mobilidade e pele já
prejudicada. As falas dos enfermeiros refletem essa observação:
―E tem também a questão da úlcera de pressão que já vem de casa, um risco para infecção,
que o familiar acha que não tem orientação de como cuidar em casa, de estar virando né‖ (Enf. 3).
―Mudanças de decúbito para pacientes que são acamados. Hidratações com loções mesmo na
pele, pra evitar fissuras e ressecamentos‖ (Enf. 1).
Com referência à úlcera de decúbito, sabe-se que a tolerância da pele à pressão é
influenciada por fatores extrínsecos, como exposição da pele à umidade excessiva, fricção e
cisalhamento, e fatores intrínsecos, entre eles: deficiência nutricional, idade avançada e
diminuição da pressão arteriolar (BERGSTROM et al., 1987; FERNANDES, 2006).
As lesões ocasionadas pela úlcera de pressão, também definidas como áreas de
necrose tissular, tendem a se desenvolver quando o tecido mole é comprimido, entre uma
proeminência óssea e uma superfície externa, por longo período de tempo (CARDOSO;
CALIRI; HASS, 2004).
Os fatores para a úlcera de decúbito estão associados às fragilidades decorrentes do
processo de envelhecimento da pele e das condições peculiares de cada idoso, aliados ao
tempo de imobilidade no leito, demandando planejamento de ações de reabilitação e
recuperação do idoso (CARDOSO; CALIRI; HASS, 2004).
O cuidado da lesão implica manutenção da perfusão tissular e preservação dos tecidos
viáveis (MCCAIN; SUTHERLAND, 1998). Inclui a manutenção da ferida limpa e úmida,
prevenção de infecções e proteção contra traumas, promoção da cicatrização, mantendo a
mobilidade e funcionamento da parte afetada (HELVIG, 2002). Além dos cuidados citados,
40
Smeltzer e Bare (2005) asseveram que, independentemente do estágio da úlcera, deve-se
eliminar a pressão sobre a área.
Há outros tipos de lesões cutâneas além das úlceras de pressão, que merecem
destaque, a exemplo, das úlceras de perna.
―Eu tenho a minha mãe também que internou só que assim eu fico bem preocupada, ela tem
uma ferida na perna também que quando vou pra casa eu não sei como cuidar‖ (FC4).
Apesar de poucos familiares apontarem a presença de úlcera de perna, cabe ressaltar
que, quando associada a doenças pré-existentes, pode haver complicações mais graves.
As úlceras de perna podem ser desencadeadas por diversos fatores, como alterações
vasculares, metabólicas e hematológicas, mas a principal causa é a insuficiência venosa
crônica. É importante usar coberturas protetoras para evitar o atrito à lesão e procurar
soluções ou programas para melhor suporte nutricional, atividades e mobilidade (JOHNSON;
PAUSTRIAN, 2005).
Para os pacientes em que a cicatrização não é uma meta possível, o tratamento da
úlcera de perna deve prevenir a infecção e futura deterioração da lesão na tentativa de
propiciar conforto, preservando a sua qualidade de vida (CHAVES; GRYPDONOK;
DEFLOOR, 2006).
Segundo Bergstrom et al. (1994), os idosos dependentes e os cuidadores devem seguir
cuidados e avaliação como: inspecionar a pele regularmente; realizar o banho individualizado
e usar agente de limpeza suave, evitando água quente e fricção; usar barreira tópica para a
umidade e absorventes higiênicos que absorvam a umidade e deixem a superfície seca; usar
hidratantes adequados, evitando o frio e calor excessivos (podem causar ressecamento da
pele); adotar o posicionamento correto, aliviando a pressão.
Nesse sentido, os cuidados cutâneos são importantes para o não agravamento das
enfermidades já instaladas, bem como para a manutenção da integridade cutânea dos idosos,
proporcionando qualidade e bem-estar ao paciente.
4.1.4 Medicação
A administração de medicamentos para o idoso no domicílio é responsabilidade do
familiar cuidador ou até do próprio idoso. Quando feita de modo incorreto — em dose maior
que a recomendada, por exemplo — pode causar uma série de problemas, inclusive
41
reinternação.
Para diminuir possíveis erros é necessário que os profissionais de enfermagem estejam
preparados para orientar familiares e cuidadores sobre o tratamento fora do ambiente
controlado do hospital quando da alta do idoso.
A medicação foi um dos itens que se destacou nos relatos, notadamente em razão das
dúvidas, tanto de enfermeiros como de cuidadores, e da preocupação deles em relação ao
cuidado com o idoso:
―Às vezes a orientação da medicação que seja pra tomar em casa ou alguma coisa assim, nem
eles às vezes não entendem bem‖ (Enf. 5).
―[...] às vezes este cuidador em casa não está de olho nas medicações e o idoso acaba não
tomando as medicações. Ele acha que o idoso já está bem e não precisa mais tomar aquele remédio.
Então se não tiver aquele cuidador pra estar ali orientando e vendo o que ele precisa tomar e tal, ele
vai acabar não tomando e internando de novo‖ (Enf. 3).
―É também toda a orientação quanto à medicação. Ele faz uso de medicação contínua, são
vários tipos de medicação‖ (FC2).
―Simplesmente falta bastante essa orientação, então cabe a nós cuidadores estar dando a
orientação em casa. Estar dando o medicamento, fazendo a divisão dos horários, estarem dando para
ele, às vezes vai ter momentos que ele vai estar sozinho em casa. Pra ele poder identificar os horários,
os tipos da melhor forma possível‖ (FC1).
―E o medicamento é fundamental ter o controle. Porque é ele que vai ter o tratamento curativo
no nível do organismo desta pessoa, então se não orientar bem este acompanhante e der uma
orientação certa para esses idosos, de quais são os horários, isso também é uma causa bastante comum
de reinternações destes pacientes idosos né‖ (Enf. 2).
Infere-se que a maior possibilidade de erros e descontroles no ato de ministrar
medicamentos está fora do ambiente do hospital, considerado este último como um ambiente
controlado.
O erro de medicação é definido por Rosa e Perini (2003, p. 337) como:
Qualquer evento evitável que, de fato ou potencialmente, possa levar ao uso
inadequado de medicamento. Este conceito implica que o uso inadequado
pode ou não lesar o paciente, não importando se o medicamento encontra-se
sob controle de profissionais de saúde, do paciente ou consumidor.
Considera-se os idosos o grupo etário mais medicalizado, o que evidencia a prática da
polifarmácia. Além disso, esse grupo apresenta os maiores indicadores de prevalência e
42
incidência de comorbidades (LOYOLA FILHO et al., 2005).
A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2006) assevera que mais de 50% dos
medicamentos são prescritos ou dispensados de forma inadequada e que 50% dos pacientes
tomam medicamentos de maneira incorreta, levando a alto índice de morbidade e mortalidade.
Acrescenta que os tipos mais comuns de uso irracional de medicamentos estão relacionados às
pessoas que utilizam polifarmácia — no caso desta pesquisa, o idoso — e ao uso inapropriado
de antibiótico e de medicamento injetável, à automedicação e à prescrição em desacordo com
as diretrizes clínicas.
Para a Organização, a forma mais efetiva de melhorar o uso de medicamentos é a
combinação de educação e supervisão dos profissionais de saúde, educação do consumidor e
garantia de adequado acesso a medicamentos apropriados. Todavia, qualquer uma dessas
estratégias, isoladamente, logra impacto limitado.
Essas constatações corroboram pesquisas que mencionam existir baixas taxas de
adesão dos idosos à terapêutica, constituindo um dos grandes problemas de saúde no mundo,
face à elevada prevalência de doenças crônicas. O risco de baixa adesão aumenta com a
duração e a complexidade do regime terapêutico e ambos são inerentes em situações de
doença crônica (OMS, 2003). Isso inclui, entre outras causas, a falta de aconselhamento
individualizado, a carência de informação escrita personalizada e reforço das instruções orais,
inabilidade para recordar as informações previamente apresentadas e a falta de um ajudante
ou auxiliar na hora de tomar a medicação (O'CONNELL; JOHNSON, 1992).
Portanto, durante a hospitalização, a sessão de orientação deve incluir informações
sobre cada medicamento que será utilizado após a alta. Sugestões sobre o conteúdo que deve
ser abordado nas sessões foram publicadas em 1997 pela American Societyof Health-System
Pharmacists (ASHP) — Sociedade Americana de Farmacêuticos do Sistema de Saúde —, e
reavaliadas pela mesma instituição em 2006, tendo sido consideradas ainda apropriadas,
sendo estas: nome do medicamento (comercial e genérico), sinônimo, e, quando apropriado,
sua classe terapêutica e eficácia, indicação, benefícios esperados e ação (ASHP, 1997). Pode
orientar se o medicamento deverá curar a doença, eliminar ou reduzir os sintomas,
interromper ou retardar o processo da doença ou prevenir uma doença ou sintoma; a
expectativa de início de ação e o que fazer se a ação não ocorrer; a via de administração, a
apresentação, a dose e o esquema de administração (incluindo a duração do tratamento);
orientações para preparo e uso ou administração (pode incluir adaptação ao estilo de vida)
(ASHP, 1997).
A ASHP (1997) ainda demonstra o que fazer se perder uma dose; precauções a serem
43
observadas durante o uso ou administração do medicamento e riscos potenciais em relação
aos benefícios; potenciais efeitos adversos (os comuns e os graves) que podem ocorrer e como
prevenir ou minimizar sua ocorrência; técnicas de automonitorização da farmacoterapia;
interações potenciais (com medicamentos, alimentos e doenças), contraindicações;
interferência com a interpretação de resultados laboratoriais; informações para obtenção dos
medicamentos prescritos. Também se refere a instruções para acesso 24 horas a um
farmacêutico; armazenamento adequado do medicamento; descarte adequado e qualquer outra
informação específica sobre o tratamento para aquele paciente (ASHP, 1997).
A adequada orientação ao paciente em alta hospitalar é necessária para evitar,
minimizar ou detectar precocemente eventos adversos, contribuindo para o sucesso na
continuidade do tratamento no domicílio. Porém, estudos têm demonstrado que os pacientes
saem do hospital com baixo nível de conhecimento sobre a terapia medicamentosa e os
cuidados para reabilitação e independência em casa (KERZMAN; BARON-EPEL; TOREN,
2005; POMPEO et al., 2007).
4.1.5 Quedas, fraturas e ambiência
As quedas, em qualquer idade do ser humano, causam transtornos dos mais variados.
Em idades avançadas esses transtornos se tornam ainda maiores, pois as formas de
recuperação são mais difíceis e são conjugadas, em muitos casos, com doenças pré-existentes.
Sabe-se que a idade avançada aumenta o risco de quedas e de fraturas graves que
tendem a reduzir a mobilidade dos idosos, afetando suas atividades cotidianas. Por isso é
necessário redobrar a atenção para evitar que os idosos sofram tombos na rua ou em casa.
Com referência a quedas, os participantes da pesquisa destacaram:
―Estes incidentes de queda se repetem. Oh! ela caiu faz três semanas atrás e agora caiu de
novo, mas também acontece bastante‖ (Enf. 3).
―O próprio idoso cuidando da vozinha. Então o risco de queda pra estes dois idosos quando
está se movimentando. Isto é uma coisa que também tem que se atentar quando se for fazer uma
orientação neste sentido pra família‖ (Enf. 2).
―Que ele esteja observando o que é o idoso, ele tem dificuldade de se movimentar, então eu
vou fazer de tudo pra que facilite pra que ele não caia, mais que o que ele puder fazer por ele, que
estimule o idoso a fazer‖ (Enf. 4).
―Pra tomar banho ele pode ir e pode escorregar ou cair, e pode acontecer coisa bem pior.
44
Então é tudo dependência que às vezes até pela privacidade deles é difícil de eles aceitarem, mas aí tu
tens que achar um jeitinho de lidar com esta situação‖ (FC3).
Estudos apontam que a segurança dos idosos deve ser motivo de preocupação para a
sociedade, pois, para essas pessoas, as quedas podem ter repercussões desastrosas, uma vez
que idosos com traumas têm perda na sua autonomia e aumento da sua dependência,
refletindo em acréscimo de trabalho e estresse para o cuidador e familiares (COUTINHO;
SILVA, 2002).
Segundo Coutinho e Silva (2002), as quedas, além de produzirem importante perda de
autonomia e de qualidade de vida entre os idosos, podem ainda repercutir entre os seus
cuidadores, principalmente os familiares, que devem se mobilizar em torno de cuidados
especiais, adaptando toda a rotina em função da recuperação ou adaptação após a queda.
Queda pode ser definida como ―um evento não intencional que tem como resultado a
mudança de posição do indivíduo para um nível mais baixo, em relação a sua posição inicial‖
(MOURA et al., 1999, p. 68). Com o avançar da idade, os passos se tornam mais curtos e
lentos e o tronco tende a se projetar para frente para proporcionar estabilidade, mas em
contrapartida pode interferir nas reações automáticas de equilíbrio (PAPALÉO NETTO,
2002).
Segundo pesquisa realizada nos serviços de emergência dos Estados Unidos, as quedas
são eventos frequentes causadores de lesões, constituindo a principal etiologia de morte
acidental em pessoas com idade acima de 65 anos (FULLER, 2000). Estudos desenvolvidos
no Brasil mostram que cerca de 30% dos idosos caem ao menos uma vez ao ano e, para os
idosos acima de 80 anos, essa proporção se eleva para aproximadamente 50% (PERRACINI;
RAMOS, 2002).
Após a primeira queda, aumenta muito o risco de cair novamente e, por medo de
caírem, os idosos diminuem sua mobilidade e sociabilidade e sabe-se que em torno de 13%
das pessoas idosas são ―caidores‖ recorrentes (PERRACINI; RAMOS, 2002).
A consequência pior de uma queda é a fratura, pois esta irá acarretar cuidados
intensivos e mobilizações de membros já prejudicados.
―Aqui a gente percebe que vem muita gente com fraturas, eles aparecem com bastantes
fraturas e lesões, isso porque a família não tem este cuidado de tirar objetos, tapetes, então, falta
percepção da família de que isto pode estar ocasionando o acidente para aquele idoso‖ (Enf. 1).
45
Entre os idosos, de modo geral, o dano mais comum resultante das quedas é a fratura,
com incidência de 64%. O trauma de fêmur ocorre com maior frequência (62%), seguido pelo
trauma de rádio (12,5%) e clavícula (6,25%) (FABRÍCIO; RODRIGUES; COSTA JÚNIOR,
2004). Nessa fase da vida, a probabilidade de queda é maior e a incidência de fraturas de
quadril tem alcançado índices alarmantes (SILVEIRA et al., 2005).
Os idosos que vivem em asilos, casas geriátricas e clínicas apresentam características
importantes, como aumento de sedentarismo, perda de autonomia, ausência de familiares, que
contribuem para o aumento das prevalências das morbidades e comorbidades relacionadas à
autonomia. Um dos agravos mais importantes nessa faixa etária é a ocorrência de quedas com
fraturas (FABRÍCIO; RODRIGUES; COSTA JÚNIOR, 2004).
Os estudos sobre quedas e fraturas remetem a situações que devem ser evitadas. A
pesquisa mostrou a preocupação dos profissionais de enfermagem e de cuidadores com a
prevenção no âmbito domiciliar:
―Até esta estratégia de cuidado em casa, são as casas adaptadas para pessoa idosa. Isso
também é uma coisa importante. Às vezes, um simples apoio lá no banheiro evitaria quantas fraturas‖
(Enf. 3).
―Um dos principais perigos está em móveis danificados, degraus, quinas‖ (Enf.1).
―Tem muitos idosos que estão com a casa cheia de tapetes, vai tirar um você tem que saber
como fazer isso. Ah, quanto mais idoso, mais risco de queda ele tem, então tudo isso é pra ser evitado.
[...] Aí eu fico preocupada, eu não fico em casa o dia inteiro, eu trabalho e ela fica sozinha, então eu
fico preocupada que ela pode escorregar no banheiro, cair sozinha, se machucar [...]‖ (FC1).
―Por exemplo, a minha mãe, tem uma escada onde ela mora, e ela sempre gosta de salto, foi
descer rapidinho e caiu e não se machucou. [...] foi descer e caiu não se machucou, mas tem a
possibilidade de cair sim‖ (FC2).
―Até o próprio piso né, que a gente tem em casa que, por exemplo, é muito escorregadio‖
(FC4).
De acordo os estudos de Rubenstein (2006), é possível diminuir a ocorrência de
quedas e fraturas com cuidados simples como: a) promoção da saúde e prevenção de quedas;
b) revisão das medicações; c) modificações nos domicílios; d) promoção da segurança no
domicílio; e) promoção da segurança fora do domicílio.
Carvalhaes et al. (1998, p. 102) afirmam que ―a maioria das quedas acidentais ocorre
dentro de casa ou nos arredores‖. Para prevenir esses acontecimentos, cuidadores e familiares
devem se mobilizar em torno de cuidados especiais, adaptando o ambiente em que o idoso
46
vive e tendo o cuidado de observar alguns itens de segurança, como o uso de calçados
adequados, tapetes antiderrapantes e disposição da mobília em casa (COUTINHO; SILVA,
2002).
Para Maciel (2010), as medidas preventivas para evitar quedas de idosos envolvem
orientações a seus familiares sobre os riscos das quedas, bem como das suas consequências; a
segurança do ambiente em que vive e circula; o estilo de vida no que se refere à dieta e
exercício físico; a avaliação da situação global e periódica, incluindo a função cognitiva,
distúrbios de humor e capacidade de realização de atividades de vida diária e condições
sociais; a racionalização de prescrição e correção de polifarmácia; avaliação oftalmológica
anual; a avaliação nutricional; a indicação de fisioterapia e exercícios físicos; a correção de
fatores de risco ambiental; as medidas de promoção da saúde com orientação para a
prevenção e tratamento de osteoporose.
Portanto, a prevenção é importante no sentido de reduzir problemas secundários
decorrente de quedas e fraturas que devem ser minimizadas com a atuação estruturante no
ambiente domiciliar com a orientação dos profissionais da área da saúde (DAS; JOSEPH,
2005).
Neste contexto de análise, pode-se notar que os problemas até aqui analisados podem
ter seus impactos e efeitos minimizados a partir do cuidado com o cuidador, da compreensão
de aspectos emocionais relacionados ao idoso, da reverão do quadro de despreparo da família
para o cuidado e do correto funcionamento do sistema de referência e contrarreferência.
4.2 CUIDADOS GERAIS
4.2.1 Cuidado com o cuidador
O cuidador é um dos agentes mais envolvidos no cuidado com o paciente idoso; por
isso ele requer atenção dos profissionais de saúde — dos enfermeiros nos hospitais e dos
médicos que estão direcionando os tratamentos em saúde.
A preocupação com o cuidador é evidenciada nas falas:
―Geralmente é só um acompanhante, só um responsável da família. Um irmão, a mãe, o pai ou
a tia, que está ali cuidando neste momento. Pergunto-me: como que ela vai fazer pra virar pra colocar
a comadre em casa? Como vai fazer pra trocar a fralda em casa? Essas coisas são fundamentais. Todo
este cuidado e orientação é bom pra ajudar este acompanhante a futuramente não ficar doente também.
47
Porque está deixando toda a força dele ali pra essa pessoa‖ (Enf. 1).
―Porque se às vezes o cuidador que está cuidando em casa, ele adoece também ou em algum
final de semana ele não vai poder estar, os outros não vão saber o que se deve ser feito com ele, quais
os cuidados em casa com ele. Então acho que falta comunicação entre os familiares também, porque
tem muito disso aqui‖ (Enf. 5).
―A movimentação adequada não forçava tanto a minha coluna [do cuidador]‖ (FC3).
―E às vezes a gente também acaba se sentindo melhor por saber que eles [os cuidadores] estão
se sentindo seguros porque aí a gente não se sente inseguros com eles‖ (FC2).
Nota-se que os cuidadores estão presentes em todas as etapas do tratamento de saúde e
que o cuidado com eles deve ser uma questão a ser evidenciada nos estudos acerca dos idosos
na pós-alta hospitalar, tendo em vista a sobrecarga de trabalho e de preocupações na vida
cotidiana dos cuidadores. Caldas (2004) acentua que o familiar vivencia uma sobrecarga
física, emocional e socioeconômica, sendo fundamental um treinamento adequado para que
ele se torne mais seguro e preparado para assumir as responsabilidades no cuidado do familiar
dependente.
Na Política Nacional de Saúde do Idoso, no item que se refere ao apoio ao
desenvolvimento de cuidados informais, sugere-se a formação de parcerias entre os
profissionais de saúde e as pessoas (nesta pesquisa, de forma privilegiada, os familiares)
responsáveis pelas atividades da vida diária e pelo seguimento de orientações emitidas pelos
profissionais (BRASIL, 1999).
Os cuidadores participam menos de atividades sociais, têm mais problemas no
trabalho e apresentam maior frequência de conflitos familiares, tendo como foco a forma
como eles cuidam do parente comum. Algumas pessoas chegam a apresentar o que tem sido
chamado de ―erosão do self‖, pela forma como submergem no papel de cuidadores (ZARIT,
1997).
A interação entre os componentes da família é fator importante para a saúde do grupo
familiar e influencia na adesão individual em caso de tratamento (GRUDTNER, 2001). Para
Caldas (1998), a família deve ser preparada para lidar com os sentimentos de culpa,
frustração, raiva, depressão e outros que acompanham essa responsabilidade.
O funcionamento da dinâmica familiar pode afetar positiva ou negativamente a saúde
individual do doente, pois as alterações na estrutura familiar e suas necessidades em face do
adoecimento giram em torno da busca de respostas em relação à doença vivenciada
(GRUDTNER, 2001).
48
Soma-se a essa problemática a observação que nem sempre a necessidade da família
advém da doença e, sim, do significado que esta produz, especialmente no sentido da
impotência em aliviar o sofrimento do seu familiar (GRUDTNER, 2001).
De modo geral, a família é fundamental no processo de prestação de cuidado ao idoso,
contribuindo para a humanização da assistência e a construção de um ambiente favorável para
a recuperação da saúde do idoso, evitando, na medida do possível, hospitalizações,
asilamentos ou outras institucionalizações (BRASIL, 2001).
4.2.2 Aspectos emocionais do idoso
A preparação para o envelhecimento passa pela aceitação de ser este um processo
natural de todas as vidas. Nesse sentido, os aspectos emocionais da transição para a fase de
velhice envolvem o reconhecimento de limitações e dificuldades de mobilidade antes não
observáveis, a busca da autoestima e a preocupação com a aparência física.
Durante os encontros dos grupos focais, enfermeiros e cuidadores fizeram
considerações sobre esse assunto:
―O idoso tem uma tendência a ser depressivo, a ser carente, então, também estimular a
autoestima daquele idoso, se ele gosta de ir à missa, então leve este idoso pra sair. Eu acho que o que
falta na família do idoso é se colocar no lugar do idoso‖ (Enf. 5).
―Eu acho que tem que ver o lado emocional do paciente também. Além de todo o cuidado tem
também o emocional, porque às vezes o idoso gosta de passear, ou assistir televisão, um determinado
programa, ler pra ele. Então acho que não só aquele lado, mas também o emocional‖ (Enf. 2).
―Este lado emocional é o que pode acabar trazendo doenças pra este paciente idoso?‖ (Enf. 1).
―Ela que tinha o carinho em casa né, mas muitos não têm. Aí no hospital na hora da alta ele já
chora antes de ir embora, porque não tem uma família do lado em casa‖ (Enf. 5).
―Eles têm esta carência né, o idoso mais do que a gente eles têm muita carência. E a gente vê
em alguns casos o descaso da família. Às vezes vem um, deixa aqui, aí liga para o pronto-socorro, e
cadê o acompanhante? Já saiu e não volta. Aí tem que ligar [...] eles acabam achando refúgio dentro do
hospital, onde eles têm a enfermagem pra estar conversando, pra ter atenção. Isso é bastante comum, e
é o que a gente percebe bastante também‖ (Enf. 3).
―E com muitos assim, pela minha mãe eu vejo que eles assim, cuidado no falar, também
porque ela sempre se sente ofendida, porque tem certa idade. Às vezes eu não quero que ela pegue
determinado peso, e ela se sente ofendida porque ela tá podendo fazer as coisas ainda‖ (FC4).
―Tem que partir deles na verdade né. Eles têm que querer. Aí a gente pode ajudar, por que se
49
eles não quiserem como agente pode ajudar?‖ (FC1).
―Eu percebo que ela gosta muito de conversar, e eu percebo que ela passou a tarde toda só, e
sente realmente a necessidade e às vezes eu percebo que ela está mais assim, por qualquer motivo ela
está chorando sabe? Chora de depressiva sabe?‖ (FC2).
―Em relação ao meu tio eu também vejo essa certa falta de ter alguém junto para conversar né.
Fica mais tempo sozinho então fica mais carente de ter alguém ali‖ (FC3).
―A gente percebe que as famílias são pequenas, então tem pouca gente pra cuidar, o cansaço
da família que está cuidando. [...] Falta de percepção da família de que aquele idoso precisa de um
pouquinho mais de cuidado‖ (Enf. 1).
Apesar de ser um processo natural, o envelhecimento submete o organismo a
alterações anatômicas e funcionais, com repercussões nas condições de saúde do idoso e,
consequentemente, na sua qualidade de vida (VECCHIA et al., 2005).
As alterações que ocorrem no sistema nervoso acarretam a diminuição da liberação de
neurotransmissores, principalmente da dopamina, provocando alterações sensoriais,
intelectuais e psicológicas (FARO JÚNIOR et al., 1996). O tempo de reação torna-se mais
lento e a velocidade de condução nervosa fica de 10 a 15% mais lenta aos 70 anos, com
prejuízo na sensibilidade e na resposta motora aos estímulos e ocorre a queda da perfusão
tecidual e redução da massa encefálica em torno de 14% por volta dos 80 anos (FARO
JÚNIOR et al., 1996).
Essas alterações orgânicas e motoras podem ser atenuadas por atividades físicas
durante todas as etapas da vida. Para Samulski e Lustosa (1996), a influência do exercício no
processo de envelhecimento afeta diretamente a qualidade, se não a quantidade de vida,
ficando evidente que a atividade física regular melhora os estados psicológicos de humor e
alivia as tensões de natureza psicológica, exercendo uma influência benéfica nos aspectos
psicológicos e no bem-estar mental.
Segundo Nunes e Peixoto (1994), os programas de idosos operam mudanças em seus
participantes quanto ao resgate da autoestima, superação de doenças, recuperação da
memória, propiciando novos conhecimentos e o desenvolvimento da sociabilidade.
A qualidade de vida em idosos está diretamente ligada ao seu bem-estar
biopsicossocial, ou seja, não só a sua saúde biológica, mas a sua saúde mental e a aceitação
como membro ativo da sociedade são fatores que promovem a qualidade de vida dessa
população (TOMASINI, 2008).
O bem-estar dessas pessoas também depende da qualidade do espaço onde elas
50
residem, do contato que elas têm com seus familiares e do lazer a que elas têm acesso
(TOMASINI, 2008). De acordo com Capitanini (2000), a solidão inclui experiências de
isolamento, tristeza e insatisfação com a vida. Esse estado emocional não é causado
simplesmente pelo fato de a pessoa estar fisicamente só, mas de estar sendo privada de
relacionamentos que gostaria de ter, causando evidências de problemas de depressão.
Estima-se que em 2030 o transtorno depressivo unipolar venha a assumir a segunda
posição como causa de incapacidade em todo o mundo e a primeira causa nos países de renda
per capita elevada (GONZALEZ et al., 2010). Para quantificar essa depressão existem
mecanismos como a escala de depressão mais utilizada em idosos: ―Escala de Depressão
Geriátrica‖ (Geriatric Depression Scale – GDS), desenvolvida por Brink e Yesavage, em
1982 (versão 30 itens) (BRINK; YESAVAGE, 1982).
Em âmbito institucional, o Estatuto do Idoso expressa o resultado das mudanças
históricas, políticas e sociais que o Brasil vem atravessando e exalta as conquistas feitas e, por
muitos, esquecidas. Mas todas as leis ou estatutos precisam ser amplamente divulgados,
integrando todas as camadas da sociedade e os próprios idosos, com os seus direitos previstos
em lei, não só valorizando conquistas de direitos, mas também elaborando mecanismos de
controle que garantam a sua aplicação (SILVA, 2005).
Assim, faz-se necessário e urgente a produção de conhecimentos que visem apontar os
diagnósticos mais frequentes entre os idosos para que, a partir deles, seja possível a
elaboração de um plano de intervenção e desenvolvimento de cuidados efetivos, capaz de
promover o conforto, o bem-estar e a melhoria na qualidade de vida dos idosos (RESTA;
BUDÓ, 2004).
4.2.3 Despreparo da família para o cuidado
Em todos os estágios de convivência familiar há sempre pessoas que apoiam uma às
outras. Na infância, na maioria dos casos, há o comprometimento dos responsáveis pela
criança e com a vida que está sendo encaminhada. Nas fases mais avançadas da vida, os
familiares, em qualquer condição de existência e com quaisquer características, apoiam-se
mutuamente. Em muitas situações, laços de amizade suprem a falta de vínculos familiares.
Os idosos geralmente se apoiam também nos familiares e amigos ou em cuidadores
contratados. Mas, em muitos casos, esses cuidadores desconhecem sua função, cuidando do
idoso da maneira que melhor entendem, seguindo os conhecimentos que lhes são repassados.
Os relatos apontaram o despreparo da família para o cuidado:
51
―Somos leigos e não entendemos direito, mas aos pouquinhos vemos o médico e o enfermeiro
fala com nós, e a gente acaba percebendo. Por outro lado eu como cuidador procuro adquirir
conhecimento também sobre a doença‖ (FC1).
“É que agente é leigo, não entende direito, mas aos pouquinhos tu vê o médico fala, e tem
enfermeiro que fala com a gente também, e a gente acaba percebendo em volta ali também‖ (FC2).
―A minha mãe tinha muita náusea depois que fazia a quimioterapia, então neste caso a gente já
colaborava, colocando uma vasilha próxima caso fosse vomitar‖ (FC3).
―Então eu saio do hospital e vou pra casa e fico insegura‖ (FC1).
―Às vezes a gente pergunta aqui: O que aquele idoso toma em casa? E o filho? Ah, eu não sei
porque não sou eu que fico em casa o dia todo com ele e cuido. Então eu acho que existe uma falta de
comunicação entre os familiares pra estar cuidando deste idoso em casa‖ (Enf. 2).
―Os cuidados básicos em casa. Eles não chegam a tentar. Eles têm medo do que eles podem
fazer em casa, então eles trazem o idoso para o hospital‖ (Enf. 4).
―A medicação vem certa no hospital, o médico vai passar todos os dias e vai orientar‖ (FC4).
O aumento da necessidade de apoio a famílias com um idoso dependente emerge
como um problema prioritário nas políticas educativas, de saúde, sociais e econômicas dos
países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001).
Casos como os que foram identificados demonstram reincidências de atendimento:
―Eles [os idosos] vivem voltando porque não sabem cuidar em casa. Então eles vêm para o
pronto-socorro direto, eles vêm, a família traz. Eles não sabem o que fazer com aquele idoso, o
paciente, o velhinho vomitou uma vez e a família já traz pra cá‖ (Enf.1).
―Até pelo medo de cuidar em casa, eles acabam trazendo para o hospital de novo. Eles se
sentem inseguros em casa de estar cuidando‖ (Enf. 3).
―Tontura, que é um sinal e sintoma da pressão alta, que ele tinha, mas que por falta de
orientação eles acabam trazendo para o hospital‖ (Enf. 5).
―Às vezes instruções básicas. Como por exemplo, estes dias, um senhor que havia tido alta faz
poucos dias, ele tinha problemas pra respirar, e quando deitava ele tinha aquela dispneia, então ele
voltava. Então ele disse: – Como seria bom se eu tivesse uma maca dessas. Porque a maca levantava‖
(Enf. 1).
―É o paciente que fica acamado, que às vezes não passa pela fisioterapia, a família também
não sabe fazer nenhuma manobra pra facilitar a remoção daquela secreção do tórax, isso vem bastante
também né, paciente acamado com pneumonia né, que podia estar passando por algum processo em
casa né, ter a presença de um fisioterapeuta a gente sabe que não é a realidade do município. Mas estar
fazendo uma tapotagem a gente sabe né‖ (Enf. 2).
52
Não existem serviços específicos de apoio às famílias prestadoras de cuidados aos
idosos. Em muitos casos, a rede primária de atendimento básico não oferece condições de
atendimento adequadas e, como consequência, ocorrem as reincidências de atendimentos nas
unidades de saúde de referência (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001).
Algumas medidas e equipamentos existentes constituem apenas formas indiretas de
apoio, na medida em que tentam criar condições conducentes à manutenção do idoso no seu
ambiente familiar (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001).
Os participantes da pesquisa relataram dificuldades em relação ao cuidado com o
familiar idoso:
―No meu caso com a minha mãe é quase sempre eu, mas quando eu não posso, aí o meu irmão
também fica. Aí neste tempo, ao menos orientar um pouco ele também, porque também ele não sabe
nada, ele não entende nada. Então assim, eu tento ajudar a passar um pouco dela, para que ele possa
estar me ajudando ali‖ (FC2).
―A gente precisa trabalhar né. Todo mundo tem os seus compromissos. O ideal seria ficar mais
tempo em casa, eu queria ficar dando atenção para a minha mãe o tempo inteiro, mas como eu vou
fazer se eu tenho que trabalhar?‖ (FC4).
―[...] 93 anos e a filha, também, já com setenta e pouquinho. Então ela não era uma senhora
tão pequena, tinha certo peso né, e aquela família que cuida é idoso também [...]‖ (Enf. 2).
Nesse contexto, apesar de a família ser apontada como fonte primária de suporte social
e informal e de se almejar uma atmosfera afetiva comum de aquisição de competência e de
interação entre os membros, há que se ressaltar que o processo de cuidar da pessoa idosa, por
parte de familiares e cuidadores, depende da integração das relações, da disponibilidade de
recursos pessoais e externos, em diferentes momentos e situações da história anterior de
relacionamento com o idoso (TORRES; SÉ; QUEIROZ, 2004).
Para Luzardo e Waldman (2004), os principais enfrentamentos do cuidador são
dificuldades financeiras, com sobrecarga de tarefas e de compromissos (cuidar
ininterruptamente), ausência de apoio institucional, da própria família e da sociedade, bem
como a dificuldade maior de lidar com a doença por não compreender a sua magnitude.
A falta de informações e do repasse destas são também déficits a serem suplantados
nos atendimentos aos idosos e aos cuidadores responsáveis. Há pouca informação sobre os
cuidados e falta de conhecimentos considerados como básicos para um atendimento adequado
ao idoso na pós-alta hospitalar:
53
―É até uma orientação pra família em casa, como que ela vai movimentar esse paciente
sozinho‖ (Enf. 2).
―Porque o acompanhante, o familiar é leigo, não acaba sabendo que a pessoa lá na mesma
posição por mais de três ou quatro horas, ela vai perder a expansão torácica, o pulmão vai ficar com
um acúmulo de secreção ali, e vai ocasionar essa pneumonia né‖ (Enf. 5).
―A gente vê que ele não tem a colaboração de outro familiar em casa pra estar fazendo o
cuidado, pra estar ajudando, pra estar dando banho né, eu acho que isso acontece bastante aqui na
clínica‖ (Enf. 2).
―Até no momento de se engasgar, de colocar o dedo pra tirar o alimento que está obstruindo as
vias aéreas no momento. Isto tudo se torna pra família uma coisa apavorante. O que fazer no
momento?‖ (Enf. 1).
―Não consegue mais deglutir corretamente, então ele já, ou às vezes a dentadura ou aquela
prótese pode estar colaborando com o sufocamento né‖ (Enf. 1).
―Ela faz uso de medicação contínua também, quando no hospital, vem aqui ele dá a
medicação certinha, ela sabe os horários certinhos, mas quando ela vai pra casa eu não tenho muita
experiência, aí eu fico meio perdida. Eu não sei ao certo que medicação‖ (FC3).
Nesses casos se evidencia o fato de que os acompanhantes e cuidadores não são
informados de maneira explícita sobre quais cuidados ou tarefas passarão a desenvolver com
o idoso. A família se sente responsável e vai assumindo determinados cuidados que se
estendem após a alta hospitalar (COLLET; ROCHA, 2004).
Os cuidadores mencionaram que, no momento da alta hospitalar, geralmente recebem
poucas informações claras a respeito da doença ou de um serviço para prosseguir o
tratamento. Ainda comentaram que as orientações quanto ao uso de medicamentos
imprescindíveis para a continuidade do tratamento nem sempre são realizadas. Assim, o
cuidado se torna difícil, aumentando ainda mais a sobrecarga para o cuidador (CALDAS,
1998).
Essas constatações de Caldas (1998) são confirmadas nas falas dos enfermeiros:
―É, isso que é importante, a gente conseguir passar para o cuidador o máximo de informações
possível, para ele poder cuidar em casa e não precisar trazer para o hospital. Por que trazer para o
hospital é somente em últimos casos mesmo, somente quando houver necessidade‖ (Enf. 4).
―É, durante a internação não é que a gente tenha que passar esta responsabilidade pra família,
mas durante a internação a gente precisa que a família perceba o quanto aquilo é importante para
aquele paciente idoso‖ (Enf. 5).
―Eu acho assim que uma coisa importante é o familiar estar ciente dos cuidados do paciente,
54
claro ele tem que estar ciente de tudo que ele tem que fazer em casa com esse paciente. Aí que
desempenha o nosso papel. [...] Falta uma estratégia de cuidado, a que orientação que eu vou passar
pra esta pessoa que está ali, não toma água na hora que está vomitando, aí a família é leiga no
momento, e oferece mais água para ver se passa esta náusea, ou estes enjoos‖ (Enf. 1).
―Então é importante que eles estejam juntos na hora que a gente esteja fazendo a higiene da
pessoa, na prótese do paciente, na hora que a gente faz a higiene íntima do paciente, pra que ele
perceba como é feito um banho de leito, pra quando o paciente não possa mais estar indo fazer aquele
banho por aspersão‖ (Enf. 5).
―Um paciente estava internado, e a família recém tinha trocado, ele tinha evacuado. Mas eles
limparam e só tiraram o grosso, então não tem senso de higiene‖ (Enf. 2).
―Queda de cama, aqui a gente tem pacientes que caem da cama. Pacientes agitados que
precisam cuidar deles na cama. Este tipo de orientação é bem básico assim‖ (Enf. 3).
Ao abordar esse assunto, Padilla (2008) enfatiza as necessidades de formação dos
cuidadores, o que poderá promover um processo de reflexão sobre a experiência do cuidar,
possibilitando apreender novas formas e técnicas, de maior socialização entre o profissional
de saúde e o doente e, por fim, de um reconstruir de intenção e vontade de produzir efeitos em
si e nos indivíduos, a fim de que o cuidado seja realizado de forma correta, como nestes casos:
―Orientar como que lava o cabelo do paciente, como fazer pra proteger as orelhas, pra não
entrar água no ouvido, neste caso a gente pode estar orientando, fazendo com que eles percebam, nesta
hospitalização. O acompanhante precisa perceber os cuidados com o paciente né, porque na hora da
alta é muita informação. Se ele não conseguir visualizar, e não visualizou nenhuma vez, ele não vai
conseguir fazer sozinho em casa. Ele precisa ver‖ (Enf. 1).
―Minhas dúvidas, até mesmo pra eu ver de que forma que eles agem ali, pra eu ter um
exemplo de como agir em casa, por exemplo, de que forma que eles levam para o banho, às vezes em
casa eu estou fazendo de uma forma incorreta‖ (FC2).
―Troca o medicamento. A superdosagem. Então uma orientação de como deixar armazenado,
qual vai ser a escalinha pra que a cada horário estar sendo administrado este medicamento. Até uma
orientação pro acompanhante, porque às vezes troca, tem pai e a mãe, e trocou o medicamento. Então
a medicação ali no cuidado desse paciente que recebe alta‖ (Enf. 2).
―Eu procuro os enfermeiros antes de ir pra casa para pegar informações deles, para que aí a
gente em casa consiga continuar este tratamento [...]. Como vou administrar esta medicação pra ela?‖
(FC1).
―É também toda a orientação quanto à medicação. Ele faz uso de medicação contínua, são
vários tipos de medicação‖ (FC2).
55
A respeito desse tema, Patrício (1994) salienta que a família e o cuidador passam a ser
contribuintes nos cuidados subsequentes de tratamento e para tanto necessitam de apoio e
entendimento claro de seu papel na integralidade do tratamento a ser executado antes, durante
a após intervenção hospitalar.
O papel da enfermagem vai além do cuidado somente com o paciente e se volta para a
integralidade do atendimento, englobando as famílias e os cuidadores, requerendo, assim, a
construção de tecnologias educativas focadas no pós-alta hospitalar do idoso e nos seus
cuidadores (PATRÍCIO, 1994).
Essas pessoas deverão também receber atenção médica pessoal, considerando que a
atividade de cuidar de um adulto dependente é desgastante e implica riscos à saúde do
cuidador. Por conseguinte, a função de prevenir perdas e agravos à saúde abrangerá,
igualmente, a pessoa do cuidador (BRASIL, 1999).
O uso de uma tecnologia de cuidados integrais com os idosos poderia diminuir os
déficits, evitando, assim, dúvidas e necessidades levantadas na pesquisa, como:
―Eu acho que no hospital o que está faltando é uma cartilha. Porque é muita informação para
aquela pessoa que já esta se preocupando, ter que levar pra minha casa‖ (Enf. 5).
―Se tivesse alguma coisa escrita, como orientações; acho que seria mais fácil para o cuidador
em casa. Uma carta de ajuda‖ (Enf. 3).
―O estímulo da tosse, coisas básicas que eles não sabem que aquele paciente acamado precisa.
Mais eu acho que aquela cartilha [...] seria importante se a gente fizesse uma cartilha direcionada para
os acompanhantes. Pelo tipo de acompanhante que ele tem, do cuidador e, também, pelo tipo de
cuidado, se ele é totalmente dependente, se ele é parcialmente dependente. Isso ajuda a direcionar um
pouco o cuidado‖ (Enf. 1).
―[...] sentimos falta de instruções de cuidados por escrito. Precisamos de orientações e se tiver
algum tipo de manual em casa que nos oriente seria adequado‖ (FC2).
―Com cuidados profissionais, porque eles também sentem às vezes esta insegurança de que a
gente não está sabendo cuidar direito né, talvez precise de um cuidado maior né, de instruções por
escrito‖ (FC3).
―Eu sei que eu levei minha mãe para o hospital e fui para casa, mas ainda fiquei muito
insegura quanto aos cuidados com ela‖ (FC4).
―Por mais que você fala, fala, tem-se a necessidade de se ter um manual pra esse paciente, pra
esse familiar em casa, que tipo de medida e cuidado ele vai seguir para determinada situação de alta
hospitalar‖ (Enf. 3).
56
Esses déficits, de alguma forma, já são diminuídos com as iniciativas, por meio de
oficinas de apoio e aprendizagem, determinadas pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2008, p.
17): ―as oficinas pedagógicas de cuidadores são espaços que possibilitam trocas de
experiências, onde os cuidadores conversam, aprendem e ensinam e constroem juntos na arte
do cuidar‖.
Assim, essas oficinas devem ser abertas a todos que estão envolvidos, tais como
cuidadores, familiares e amigos. Compartilhar experiências traz alívio. O cuidador percebe
que não está sozinho e que outros podem ter dúvidas e dificuldades do mesmo modo como ele
e, também, as experiências podem ser valiosas para outros cuidadores.
Entende-se que esses ambientes possibilitam conversar sobre as boas experiências e
também sobre as angústias, medos e dificuldades. As pessoas do grupo formam uma rede de
apoio social, já que todos estão unidos pelo mesmo motivo.
Segundo Santos (2003), é primordial que se ofereçam condições de infraestrutura e de
suporte para que os familiares possam efetivamente exercer o papel de cuidadores informais.
É relevante que, além de se conhecerem as necessidades de cuidado da pessoa dependente,
também se conheça a situação dessas famílias, suas demandas, suas crenças, seus valores e
suas práticas socioculturais.
4.2.4 Referência e contrarreferência
No ato de cuidar do idoso surgem dúvidas referentes ao conhecimento dos papéis, das
particularidades e das hierarquias de promoção à saúde já estabelecidas, ou seja, sobre quais
são as funções de cada setor de saúde. Isso gera diferentes interpretações de responsabilidades
e sobrecarrega de setores de referências em detrimento do atendimento adequado em esferas
primárias de atendimento.
―Na verdade falta um fluxo. Apresentou determinado sinal ou sintoma, eu vou focalizar na
unidade básica de saúde ou eu levo para o pronto-socorro ou é um cuidado que pode ser feito em
casa?‖ (Enf. 3).
―Se fizéssemos um trabalho aqui dentro de estar ligando lá pra unidade daquele bairro daquele
paciente, e estar avisando que o paciente é idoso e este indo de alta, e o problema dele é esse, esse e
esse, para estar acompanhando‖ (Enf. 3).
―Cuidar com hematomas, quais as situações que se precisa trazer para o hospital e quais as
situações de postinho? Isso sim precisaria estar bem adotado em uma cartilha e a gente está dando essa
57
referência que seria bem importante pra evitar que o paciente viesse para cá‖ (Enf. 1).
―Outro ponto importante que a gente vê é qual o fluxo de movimentação do paciente –
movimentação eu digo. Pra onde eu vou encaminhar? Vai pro hospital novamente, vai pra estratégia
da saúde da família, precisa somente de uma avaliação de uma psicóloga da saúde ou uma avaliação
de um enfermeiro, pra orientar esta família? Qual é o fluxo? Num momento de emergência, quem eu
vou chamar? O SAMU [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência]? O Bombeiro? Isso também é
uma coisa importante no cuidado‖ (Enf. 2).
―Tem certos momentos que você fica preocupada, eu fico preocupada com a minha mãe assim.
Tem horas que eu acho que eu não consigo mais, que eu estou com dúvidas, se vou para o posto ou
levo para o hospital‖ (FC3).
―Deixa-me ir lá porque lá eu sei que eu vou ser bem tratada. Eu já fui várias vezes lá, lá ela
chega e fica mais contente, porque lá ela sabe que vai vir um médico atender ela‖ (FC2).
Vale lembrar que a Constituição Federal (BRASL, 1988, p. 235), em seu artigo 196,
define que
a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas
sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros
agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua
promoção, proteção e recuperação.
A Lei nº. 8.080/1990 (BRASIL, 1990), que regulamentou o SUS, prevê, em seu artigo
7º, como princípios do sistema, universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os
níveis de assistência; integralidade de assistência, entendida como conjunto articulado e
contínuo das ações e dos serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos
para cada caso, em todos os níveis de complexidade do sistema; equidade e garantia de acesso
de qualquer pessoa em igualdade de condições aos diferentes níveis de complexidade do
sistema, de acordo com a necessidade que o caso requeira.
A referência representa o maior grau de complexidade, para onde o usuário é
encaminhado a um atendimento com níveis de especialização mais complexos, por exemplo,
os hospitais e as clínicas especializadas (MAEDA, 2002). A contrarreferência diz respeito ao
menor grau de complexidade, quando a necessidade do usuário, em relação aos serviços de
saúde, é mais simples, ou seja, ―o cidadão pode ser contra referenciado, isto é, conduzido para
um atendimento em nível mais primário‖ (BRASIL, 2003, p. 45), devendo ser este a unidade
de saúde mais próxima de seu domicílio.
De acordo o Ministério da Saúde, sistema de referência e contrarreferência é o modo
de organização dos serviços configurados em redes sustentadas por critérios, fluxos e
58
mecanismos de pactuação de funcionamento, para assegurar a atenção integral aos usuários
(BRASIL, 2011).
Na compreensão de rede deve-se reafirmar a perspectiva de seu desenho
lógico, que prevê a hierarquização dos níveis de complexidade, viabilizando
encaminhamentos resolutivos (dentre os diferentes equipamentos de saúde),
porém reforçando a sua concepção central de fomentar e assegurar vínculos
em diferentes dimensões: inter-equipes de saúde, inter-equipes/serviços,
entre trabalhadores e gestores e entre usuários e serviços/equipes (BRASIL,
2011, p. 87).
Para Mattos (2004), em qualquer nível de atenção, é preciso ter uma articulação entre
a lógica da prevenção e da assistência. A integralidade não é simplesmente sinônimo do
acesso a todos os níveis do sistema; as práticas de integralidade devem permear todos os
níveis de atenção, caracterizadas pela apreensão ampliada das necessidades e a habilidade de
reconhecer a adequação das ofertas ao contexto específico da situação em que transcorre o
encontro entre uma equipe de saúde e o usuário, este como sujeito portador de várias
necessidades (FRATINI; SAUPE; MASSAROLI, 2008).
Infere-se que, de modo geral, referência e contrarreferência são entendidas como
estratégias para a integralidade da atenção à saúde e que, no âmbito da saúde do idoso, a
Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa ―define que a atenção à saúde dessa população
terá como porta de entrada a Atenção Básica/Saúde da Família, tendo como referência a rede
de serviços especializada de média e alta complexidade‖ (BRASIL, 2006c, p. 12).
A atenção básica deve estar voltada para o envelhecimento e a saúde da pessoa idosa,
sendo desenvolvida
por meio do exercício de práticas gerenciais e sanitárias democráticas e
participativas e sob a forma de trabalho em equipe dirigido às populações de
territórios bem delimitados, pelas quais assume a responsabilidade sanitária,
considerando a dinamicidade existente no território em que vivem essas
populações (BRASIL, 2006c, p. 12).
A integralidade vem como fator primordial; é um termo polissêmico que tem vários
significados (MATTOS, 2001, 2004; PAIM, 2004). Para esses autores, a integralidade é vista
sob pelo menos quatro perspectivas: a) como integração das ações de promoção, proteção,
recuperação e reabilitação, compondo níveis de atenção primária, secundária e terciária; b)
como forma de atuação profissional, abrangendo as dimensões biológica, psicológica e social;
c) como garantia de continuidade da atenção nos diversos níveis de complexidade do sistema,
que demanda uma articulação entre serviços; d) como um conjunto de articulação de políticas
59
públicas.
No caso do idoso, ele precisa de maior agilidade no sistema de saúde porque o
processo de envelhecimento traz como consequência menor expediente para o idoso procurar
os serviços de saúde e deslocar-se nos diferentes níveis de atenção. Para o idoso,
principalmente os mais carentes, qualquer dificuldade torna-se um mote para bloquear ou
interromper a continuidade da assistência à sua saúde (COSTA, CIOSAK, 2010).
As dificuldades e os conhecimentos dos cuidadores, assim como a eficácia do
atendimento das instituições de referência e contrarreferência, remetem à necessidade de
construção de meios para diminuir os gaps (lacunas) entre os cuidados mais diários. Esta
pesquisa então sugere a construção e validação de uma tecnologia de cuidados integrais ao
idoso no domicílio na pós-alta hospitalar.
60
5
TECNOLOGIA
PARA
O
CUIDADO
COM
O
IDOSO
NO
PÓS-ALTA
HOSPITALAR
A tecnologia de cuidados, entendida neste estudo como um guia instrucional para
guiar os familiares cuidadores no cuidado com o idoso no pós-alta hospitalar, foi construída a
partir do construtivismo, conceituado na metodologia desta dissertação. Trata-se de um
método interacionista entre sujeitos e objeto da pesquisa.
Esse guia instrucional (apresentado no Apêndice E) foi construído de modo ilustrativo
e na medida do possível utilizou-se uma linguagem acessível para facilitar a compreensão dos
cuidadores familiares. Não se tem a pretensão de que ele seja o único instrumento de
orientação, mas poderá ser o norte para os familiares quando tiverem dúvidas sobre como
proceder em cada uma das situações correspondentes às categorias temáticas analisadas, haja
vista que elas retratam as dificuldades do ato de cuidar no cotidiano domiciliar, apresentadas
pelos próprios cuidadores.
61
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quanto aos conhecimentos e às estratégias de cuidado pela família ao idoso,
verificaram-se déficits desses conhecimentos no que se refere a cuidados específicos de
higiene (oral, íntima e corporal); alimentação e hidratação (oral e por dispositivo); cuidados
cutâneos, queimadura, úlceras de decúbito e de perna; medicação; quedas, fraturas e
ambiência, e a cuidados gerais como: cuidado com o cuidador; aspectos emocionais do idoso;
despreparo da família para o cuidado, referência e contrarreferência.
Observou-se na pesquisa que os familiares cuidadores apresentam dificuldades e
sentem falta de orientações básicas e necessárias aos cuidados que devem prestar aos seus
familiares idosos no âmbito domiciliar após a alta hospitalar. Essas carências foram também
expostas pelos profissionais enfermeiros.
Infere-se que as pessoas são preparadas para o nascimento e não para o
envelhecimento. Isso demonstra as fragilidades das famílias na execução dos cuidados com os
idosos, ocasionando aumento nos índices de internação e custos elevados nos tratamentos fora
e dentro das instituições hospitalares e nas unidades de referência e contrarreferência do SUS.
Portanto, fazem-se necessárias e importantes todas as informações transmitidas aos
familiares durante a internação do idoso. Mas nem sempre os profissionais que prestam os
cuidados conseguem repassar e proporcionar esse serviço aos familiares. Evidenciou-se que
pouca informação — ou quase nenhuma em alguns casos — sobre esses cuidados foi
repassada. Essa situação foi justificada pela falta de tempo e das várias atribuições desses
profissionais, ou até mesmo pela falta desses conhecimentos básicos, principalmente no
momento ou nas horas que antecedem a alta hospitalar do idoso.
Paim (1994) considera que assistir a saúde da família tem sido um desafio para
profissionais de saúde. Contudo, na busca de uma abordagem com enfoque abrangente do ser
humano, é necessário envolver a família como parte integrante da prática de cuidado integral
durante e após a alta hospitalar.
Os familiares, quando se deparam com a necessidade de realizar os cuidados no
domicílio no pós-alta hospitalar, acabam ficando com dúvida e insegurança de como
proceder. No entanto, se houvesse uma instrução clara e demonstrativa que direcionasse esses
atos cuidativos, certamente as ações seriam facilitadas e se incorreria em menores riscos à
saúde e à vida dos idosos.
A consequência da falta de informação é a reinternação recorrente dos idosos no
hospital. A família se sente mais segura com o idoso internado do com ele no domicílio. Os
62
familiares acreditam que o hospital é o espaço para adquirir a saúde perdida, mas não têm a
ideia de que um ambiente como esse pode ser tão ou mais insalubre ao idoso quanto o
domicílio. Se houvesse esse entendimento, provavelmente procurariam outras formas para
resolver os problemas e o ambiente hospitalar seria o último recurso a ser buscado.
Espera-se que este guia instrucional possa ser uma fonte de orientação e de
ordenamento para os familiares cuidadores na prestação do cuidado aos seus idosos
necessitados e fragilizados. Certamente haverá necessidade de reformular e de atualizar este
instrumento, pois se presume que, com o tempo de uso, as pessoas irão verificar que ele
poderá ser mais ilustrativo do que descritivo, bem como mudanças de estratégias poderão ser
inseridas.
Com a ampliação da população idosa haverá o aumento de morbidades consideradas
crônicas não transmissíveis e será emergente a obtenção de meios que possam orientar, educar
e instruir sobre os cuidados necessários no domicílio. Ressalta-se que nem todas as famílias
têm condições financeiras de contratar um cuidador formal para a execução dos cuidados
diários, cabendo essa tarefa aos familiares. Desse modo, é imprescindível que eles tenham
acesso a orientações de cuidados e que estas possam acompanhar o familiar, a exemplo deste
guia, que poderá ser utilizado como rotina de orientação para o pós-alta hospitalar, com cada
cuidador levando consigo um exemplar impresso.
A participação de ambos os grupos, tanto dos enfermeiros quanto dos familiares
cuidadores, foi fundamental para a conclusão deste estudo. Do contrário, ficaria somente sob
a ótica do pesquisador sem que fossem averiguadas as necessidades dos familiares para o
cuidado ao idoso. Cuidar do idoso fragilizado exige muita paciência, dedicação, atenção,
carinho, afeto, mas sobretudo amor. Todavia, estes por si só não bastam. É necessário que se
tenha o mínimo de conhecimento e orientação para a execução do cuidado.
Desenvolver uma tecnologia de cuidados que abrangem a multidimensionalidade do
cuidado é um desafio que não se encerra nesta pesquisa. Dessa forma, a construção de
tecnologia de cuidados integrais aos idosos no pós-alta hospitalar se direciona para futuras
pesquisas e estudos quantitativos complementares no âmbito de cuidados mais específicos e
relacionados a cada ambiente a ser analisado em seu contexto.
63
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75
APÊNDICES
76
APÊNDICE A – Solicitação para autorização da pesquisa encaminhada ao Hospital
Beneficente Beatriz Ramos de Indaial
Ilma Sra.
Maria Bernadete Tomazini
Solicito, através deste, campo de pesquisa Hospital Beneficente Beatriz Ramos de Indaial
(SC), para coleta de dados da pesquisa através de oficinas de discussão, em até três encontros
previstos.
A abordagem dos temas será por meio de discussão, através do método construtivista, em
que o primeiro encontro, o moderador levará um arcabouço da proposta tecnológica de cuidados
conforme a sua percepção e pesquisa teórica, a fim de ter um instrumento inicial para desencadear
a discussão e os demais serão para a construção da tecnologia de cuidados integrais ao idoso no
domicílio.
Em todos os encontros será utilizada a gravação digital e fotos viabilizando transcrever os
dados de forma fidedigna. Ressaltamos que a pesquisa cumprirá as determinações do Conselho
Nacional de Ética 196/96, assegurando o sigilo e a proteção da imagem, garantindo a não
utilização das informações em prejuízo das pessoas envolvidas. A todos os envolvidos nessa
pesquisa será apresentado o termo de consentimento livre e esclarecido e será garantido o retorno
dos resultados tanto para a instituição quanto para os sujeitos.
A referida coleta faz parte da pesquisa realizada pelo aluno do Curso de Pós-graduação da
Universidade do Vale do Itajaí, nível de mestrado, sob o título de: Tecnologia de cuidados
integrais aos idosos no domicílio. Tendo como objetivo o de investigar as necessidades de
cuidado que os familiares cuidadores apresentam com relação aos cuidados integrais a serem
conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar.
Ainda, solicitamos anuência para citar o nome desta instituição na publicação dos
resultados em trabalhos e/ou eventos científicos.
Informamos que a aluno é orientando da docente enfermeira Doutora Juliana Vieira de
Araújo Sandri, pertencente ao quadro de orientadores do Programa de Pós Graduação da
Universidade do Vale do Itajaí-SC, do Mestrado em Saúde e Gestão do Trabalho. Currículo lattes:
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/busca.do
Sendo o que tínhamos para o momento.
Atenciosamente,
Elisete Navas Sanches Próspero
Coordenadora do Mestrado Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho
77
APÊNDICE B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (familiares cuidadores)
Você está sendo convidado(a) para participar, como voluntário, em uma pesquisa. Após ser
esclarecido(a) sobre as informações a seguir, no caso de aceitar fazer parte do estudo, assine
ao final deste documento, que está em duas vias. Uma delas é sua e a outra é do pesquisador
responsável. Em caso de recusa você não será penalizado(a) de forma alguma.
INFORMAÇÕES SOBRE A PESQUISA
Título do Projeto: Tecnologia educativa para os cuidados integrais aos idosos no domicílio.
Pesquisador Responsável: Juliana Vieira de Araujo Sandri
Telefone para contato: (47) 3341-7932 e 9987-3129
Pesquisador colaborar: Odair José Colaço
Telefone para contato: (47)3384-0934 e (47) 9156 1271
Tem como objetivo investigar as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores
apresentam com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao
idoso no pós-alta hospitalar. Farão parte desta pesquisa, aqueles familiares dos idosos com
mais de cinco dias de internação e com alta hospitalar prescrita e, os profissionais de saúde,
com nível superior, que atuam no local da internação. Será utilizado como método de
pesquisa o construtivismo. A sua atuação neste estudo consiste em participar em até dois
grupos que terão como propósito o de auxiliar na construção de tecnologia de cuidados que
venha auxiliá-los nos cuidados integrais de seus familiares idosos. Os grupos serão gravadas
para que não percamos o produto discutido e serão realizadas no período de outubro a
dezembro de 2012, em um espaço a ser destinado no próprio hospital. A sua participação é
importante para a concretização desse estudo porque partiremos das dificuldades e
necessidade apontadas por vocês, do contrário, não conseguiremos êxito na construção dessa
tecnologia proposta. Poderá ocorrer o constrangimento dos familiares durante a participação,
porém o moderador explicará que não há necessidade de ter um conhecimento teórico. O
beneficio do produto irá contribuir para que os familiares cuidadores tenham um
direcionamento teórico prático que auxilie e direcione os cuidados integrais aos seus idosos
familiares no domicílio após alta hospitalar evitando com isso as reinternações hospitalares
desnecessárias. A sua participação é voluntária, portanto sem remuneração. O sigilo e
anonimato serão mantidos em caráter confidencial de todas as informações obtidas. Poderá
fazer questionamentos a respeito do processo a qualquer momento para ambos os
pesquisadores acima, bem como sair da pesquisa sem que haja prejuízo do atendimento ao seu
familiar e a você mesmo. Os dados serão utilizados para fins acadêmicos, tais como:
relatórios, trabalhos de conclusão de curso, artigos, livros e resumos. Contudo, poderá haver a
reprodução e registro autoral dessa tecnologia, porém sem que haja retorno financeiro tanto
para os participantes quanto para os pesquisadores e instituição hospitalar. Caso aceite
participar, solicito que assine esse termo.
Nome do pesquisador: Juliana Vieira de Araujo Sandri e Odair José Colaço
Assinatura do pesquisador:_____________________________________
78
CONSENTIMENTO DE PARTICIPAÇÃO DO SUJEITO
Eu,________________________________________________________________________
__, RG_______________________________,CPF________________________ abaixo
assinado concordo em participar do presente estudo como sujeito. Fui devidamente informado
e esclarecido sobre a pesquisa, os procedimentos nela envolvidos, assim como os possíveis
riscos e benefícios decorrentes de minha participação. Foi-me garantido que posso retirar meu
consentimento a qualquer momento, sem isto leve à qualquer penalidade ou interrupção de
meu acompanhamento, assistência e tratamento.
Local
e
data:__________________________________________________________________
Assinatura
do
sujeito
ou
responsável:______________________________________________
Telefone
para
contato:__________________________________________________________
79
APÊNDICE C – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (profissionais de saúde)
Você está sendo convidado(a) para participar, como voluntário, em uma pesquisa. Após ser
esclarecido(a) sobre as informações a seguir, no caso de aceitar fazer parte do estudo, assine
ao final deste documento, que está em duas vias. Uma delas é sua e a outra é do pesquisador
responsável. Em caso de recusa você não será penalizado(a) de forma alguma.
INFORMAÇÕES SOBRE A PESQUISA
Título do Projeto: Tecnologia de cuidados integrais aos idosos no domicílio.
Pesquisador Responsável: Juliana Vieira de Araujo Sandri
Telefone para contato: (47) 3341-7932 e 9987-3129
Pesquisador colaborar: Odair José Colaço
Telefone para contato: (47)3384-0934 e (47) 9156 1271
Tem como objetivo investigar as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores
apresentam com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao
idoso no pós-alta hospitalar. Farão parte desta pesquisa, aqueles familiares dos idosos com
mais de cinco dias de internação e com alta hospitalar prescrita e, vocês, profissionais de
saúde com nível superior que atuam no local da internação. Será utilizando como método de
pesquisa o construtivismo. A sua atuação neste estudo consiste em participar em até dois
grupos, onde irão contribuir na elaboração técnica desta proposta. Os grupos serão gravados
para que não percamos o produto discutido e serão realizadas no período de outubro a
dezembro de 2012, em um espaço a ser destinado no próprio hospital. A sua participação é
importante para a concretização desse estudo porque partiremos das dificuldades e
necessidade apontadas pelos familiares e vocês serão aqueles que auxiliarão na construção
teórica do produto através do seu conhecimento teórico e prático. O risco está relacionado à
possibilidade da perda dos dados gravados ou escritos respectivamente, portanto será tomada
todas as precauções necessárias para que isso não ocorra. O produto final tem como beneficio
que essa formulação de tecnologia de cuidados responde aos direcionamentos do SUS que a
partir de fevereiro de 2006, publicou por meio da portaria n. 399/GM, o documento das
diretrizes do pacto pela saúde que contempla o pacto pela vida. Esta tecnologia a ser
construída, assim como, sua aplicabilidade e relevância será um subsidio de ajuda aos
familiares com relação aos cuidados integrais a ser conduzido no ambiente domiciliar ao idos
no pós-alta hospitalar e poderá ser disseminada a varias instituições de cuidado ao idoso,
correspondendo à uma ferramenta auxiliar para a educação em saúde nessa área.m A sua
participação é voluntária, portanto sem remuneração. O sigilo e anonimato serão mantidos em
caráter confidencial de todas as informações obtidas. Poderá fazer questionamentos a respeito
do processo a qualquer momento para ambos os pesquisadores acima, bem como sair da
pesquisa se assim achar necessário. Como os horários das oficinas acontecerão durante o
horário de trabalho cabe aos pesquisadores negociar junto à administração hospitalar negociar
sua participação, sem que haja prejuízo pessoal e profissional. Os dados serão utilizados para
fins acadêmicos, tais como: relatórios, trabalhos de conclusão de curso, artigos, livros e
resumos. Contudo, poderá haver a reprodução e registro autoral dessa tecnologia, porém sem
que haja retorno financeiro tanto para os participantes quanto para os pesquisadores e
instituição hospitalar. Caso aceite participar, solicito que assine esse termo.
Nome do pesquisador: Juliana Vieira de Araujo Sandri e Odair José Colaço
Assinatura do pesquisador:_____________________________________
80
CONSENTIMENTO DE PARTICIPAÇÃO DO SUJEITO
Eu,___________________________________________________,
RG________________________,
CPF________________________ abaixo assinado concordo em participar do presente estudo
como sujeito. Fui devidamente informado e esclarecido sobre a pesquisa, os procedimentos
nela envolvidos, assim como os possíveis riscos e benefícios decorrentes de minha
participação. Foi-me garantido que posso retirar meu consentimento a qualquer momento,
sem isto leve à qualquer penalidade ou interrupção de meu acompanhamento, assistência e
tratamento.
Local e data:_________________________________________________________________
Assinatura
do
sujeito
ou
responsável:_______________________________________________
Telefone
para
contato:___________________________________________________________
81
APÊNDICE D - Artigo elaborado para publicação em revista
Necessidades de cuidado no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar
Home health care requirements for seniors after a hospitalization period
Odair José Colaço1
Juliana Vieira de Araújo Sandri2
1
Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho da Universidade do Vale do
Itajaí em Saúde e Gestão do Trabalho. [email protected]
2
Doutora em Enfermagem pela UFSC. Professora titular do Curso de Enfermagem e do Programa de Mestrado
Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho da Universidade do Vale do Itajaí. Orientadora da Pesquisa.
[email protected]
82
Necessidades de cuidado no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar
Resumo
Com o aumento da expectativa de vida, observa-se o crescimento do número de idosos
dependentes e a necessidade de assistência domiciliar para estes, principalmente no pós-alta
hospitalar. Os cuidados integrais no domicílio são fundamentais para a recuperação e a
reabilitação da saúde do idoso. Este artigo aborda essas questões e apresenta os resultados de
investigação sobre as necessidades que os familiares cuidadores apresentam com relação aos
cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar.
Foi desenvolvido estudo qualitativo, adotando-se o método construtivista e a técnica de grupo
focal. Fizeram parte do estudo os familiares cuidadores que estavam presentes na
hospitalização e os enfermeiros da instituição hospitalar onde foi realizada a pesquisa,
divididos em dois grupos formados com finalidades distintas: o de cuidadores familiares, para
apontar as suas dificuldades e as estratégias de cuidado que utilizam com o idoso no
domicílio, e o dos enfermeiros, para refletir sobre os cuidados no pós-alta hospitalar e ajudar
na elaboração de um guia instrucional. Com os relatos de ambos os grupos foram elencadas as
temáticas e a partir delas elaboraram-se as recomendações de orientação de cuidados aos
idosos na ambiência domiciliar para comporem um guia instrucional.
Palavras-chave: Saúde do idoso. Cuidados. Assistência domiciliar.
Introdução
Estamos vivendo momentos de importantes transformações na composição etária da
população, fenômeno que exige mudanças na organização dos serviços de saúde e da
sociedade. De acordo com os dados do censo demográfico de 2010, diminuiu a proporção de
jovens e aumentou a de idosos na população brasileira, havendo um alargamento do topo da
83
pirâmide etária relativa à população com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em 1991,
passando a 5,9% em 2000 e chegando a 7,4% em 2010. De forma conclusiva, o crescimento
absoluto da população do Brasil, nesses últimos dez anos, deu-se principalmente em função
do crescimento da população adulta, com destaque também para o aumento da participação da
população idosa (IBGE, 2012).
Com a ampliação da expectativa de vida, observa-se aumento das doenças crônicas
não transmissíveis e com elas a necessidade de internação hospitalar de modo frequente e
recorrente de idosos, o que pode ocasionar agravos maiores à saúde dessas pessoas. Destacase que as doenças crônicas e suas comorbidades podem influenciar na capacidade funcional,
que é parâmetro para diagnosticar a autonomia e a independência de indivíduos com idade
mais avançada para tomar decisões e executar atividades básicas e instrumentais da vida
diária.
A perda da capacidade funcional pode ocasionar síndromes geriátricas que levam à
hospitalização. A permanência do idoso no hospital representa risco à sua saúde por causa da
exposição a outras enfermidades, polifarmácia, ambiente estranho e, às vezes, hostil,
contribuindo para o agravamento de seu estado de saúde. Outro fator danoso da hospitalização
prolongada e recorrente do idoso é o desencadeamento de conflitos de ordem pessoal, física,
mental e social, ocasionados por confinamento no leito, falta de estímulos físicos e mentais,
dificuldade de adaptação ao ambiente em função dos ruídos, medo da doença e da morte.
Desse modo, é importante que se evite a hospitalização do idoso, mas, quando ela é
necessária, cabe à enfermagem investir na educação para a saúde, envolvendo a família
cuidadora no processo de cuidar durante o período de internação para que ela possa melhor
atender o idoso depois da alta hospitalar. A presença do familiar na hospitalização encontra
amparo na legislação brasileira e em políticas públicas de atenção à saúde do idoso, porém,
nem sempre os profissionais de enfermagem estão esclarecidos sobre o papel do
84
acompanhante e a sua própria atuação no que tange ao atendimento do idoso e da família.
Todavia, a partir do diálogo entre enfermagem e cuidador familiar é possível estimular o
intercâmbio de saberes e conhecer as práticas adotadas por ambos no cuidado ao idoso.
Portanto, cabe investigar as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores
apresentam com relação aos cuidados a serem prestados no ambiente domiciliar,
principalmente no processo de pós-alta hospitalar.
O domicílio é visto como um espaço de cuidado, seja em situações agudas ou crônicas
ou em qualquer uma das etapas da vida. Atender o idoso no domicílio exige dedicação,
tempo, amorosidade, mas, sobretudo, segurança e conhecimento do ato de cuidar do idoso
fragilizado. A atenção ao idoso no domicílio passa por cuidados gerais que podem ser
orientados com o uso de um guia instrucional, elaborado com linguagem simples e clara que
permita o entendimento de qualquer pessoa, independentemente do grau de instrução.
Neste artigo são apresentadas as necessidades de cuidado relatadas pelos familiares, as
quais foram categorizadas como cuidados gerais com o idoso, de acordo com as seguintes
temáticas: cuidado com o cuidador; aspectos emocionais do idoso; despreparo da família para
o cuidado; referência e contrarreferência — todas respaldadas e analisadas teoricamente.
Destaca-se que essa análise teórica permitirá elaborar um guia instrucional para servir como
instrumento orientador ao familiar cuidador no processo de cuidar do idoso no pós-alta
hospitalar. Contudo, não cabe neste momento detalhar a sua construção, mas sim apresentar
uma parte da sua base teórica.
Metodologia da pesquisa
A abordagem qualitativa construtivista foi a escolhida para esta pesquisa por
responder questões particulares, preocupando-se com aspectos que não podem ser
quantificados, pois se trabalha com um universo de significados, valores e atitudes
85
(MINAYO, 2000), e por considerar o ser humano como o centro do seu percurso em direção à
construção do conhecimento (SIQUEIRA; ERDMANN, 2007).
A técnica de grupo focal adotada possibilitou ao pesquisador não só examinar as
diferentes análises das pessoas em relação ao tema proposto, como também permitiu explorar
como os fatos são articulados, censurados, confrontados e alterados por meio da interação
grupal (KITZINGER; BARBOUR, 1999).
A pesquisa foi desenvolvida em uma instituição hospitalar filantrópica de médio porte
situada na região do Médio Vale de Itajaí (SC), mais especificamente no setor de clínica
médica cirúrgica. Participaram do estudo dois grupos distintos: cuidadores familiares e
enfermeiros. Com relação aos cuidadores, considerou-se a proximidade de parentesco e os
vários tipos de famílias constituídas (CRAVEN; HIRLENE, 2006), estabelecendo-se como
requisito o acompanhamento de idosos com mais de cinco dias de hospitalização e com alta
hospitalar prescrita. Quanto aos enfermeiros, fizeram parte do estudo os que aceitaram
participar dos encontros do grupo focal.
O grupo de familiares apontou as necessidades de cuidados, mostrando as dificuldades
de cuidar no domicílio, e o grupo de enfermeiros contribuiu na elaboração técnica das
orientações para comporem o guia instrucional e na reflexão sobre a importância de se ter
instrumentos práticos constituídos. A análise dos dados ocorreu a partir dos relatos feitos por
ambos os grupos. Optou-se por apresentar as falas em conjunto, sem separação por grupo,
identificando-se os participantes com a abreviatura Enf. (enfermeiro) e com as letras CF
(cuidador familiar), seguidas de um numeral.
O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade
do Vale do Itajaí (Univali) e aprovado sob o Parecer n. 115.175, em 28 de setembro de 2012.
Foram respeitados todos os preceitos éticos determinados na Resolução 466/2012 do
Conselho Nacional de Saúde.
86
Necessidades de cuidados gerais com o idoso no pós-alta hospitalar
O cuidador é o um dos agentes mais envolvidos no cuidado com o paciente idoso e por
isso necessita de atenção dos profissionais de saúde, tanto de enfermeiros nos hospitais como
de médicos que estão direcionando os tratamentos em saúde.
A preocupação com o cuidador é evidenciada nas seguintes falas:
―Porque se às vezes o cuidador que está cuidando em casa, ele adoece também ou em
algum final de semana ele não vai poder estar, os outros não vão saber o que se deve ser feito
com ele, quais os cuidados em casa com ele‖ (Enf. 5).
―A movimentação adequada não forçava tanto a minha coluna‖ (FC3).
―E às vezes a gente também acaba se sentindo melhor por saber que eles [os
cuidadores] estão se sentindo seguros, porque a gente não se sente inseguros com eles‖ (FC2).
Nota-se que o cuidador está presente em todas as etapas do tratamento de saúde e que
a preocupação com ele deve ser evidenciada nos estudos acerca dos idosos no pós-alta
hospitalar, tendo em vista a sobrecarga de trabalho e de preocupações na rotina de cuidados.
Para Caldas (2004), o familiar vivencia a sobrecarga física, emocional e socioeconômica. É
fundamental o treinamento adequado para que ele se torne mais seguro e preparado para
assumir as responsabilidades no cuidado do familiar dependente.
Os cuidadores participam menos de atividades sociais, têm mais problemas no
trabalho e apresentam maior frequência de conflitos familiares, tendo como foco a forma
como eles cuidam do parente comum. Algumas pessoas chegam a apresentar o que tem sido
chamado de ―erosão do self‖, pela forma como submergem no papel de cuidadores (ZARIT,
1997).
De modo geral, a família é fundamental no processo de prestação de cuidado ao
idoso, contribuindo para a humanização da assistência e a construção de um ambiente
favorável para a recuperação da saúde do idoso, evitando, na medida do possível,
87
hospitalizações, asilamentos ou outras institucionalizações (BRASIL, 2001). Nas fases mais
avançadas da vida, os familiares, em qualquer condição de existência e com quaisquer
características, apoiam-se mutuamente. Em muitas situações, laços de amizade suprem a falta
de vínculos familiares.
Os idosos geralmente se apoiam também nos familiares e amigos ou em cuidadores
contratados. Mas, em muitos casos, esses cuidadores desconhecem sua função, cuidando do
idoso da maneira que melhor entendem, seguindo os conhecimentos que lhes são repassados.
Os relatos apontam o despreparo da família para o cuidado:
―Somos leigos e não entendemos direito, mas aos pouquinhos o médico e o enfermeiro
falam com nós, e a gente acaba percebendo. Por outro lado, como cuidador, procuro adquirir
conhecimento também sobre a doença‖ (FC1).
―Então quando saio do hospital e vou pra casa [...] fico insegura‖ (FC1).
―Às vezes a gente pergunta aqui. O que aquele idoso toma em casa? E o filho: Ah, eu
não sei porque não sou eu que fico em casa o dia todo com ele e cuido. Então eu acho que
existe uma falta de comunicação entre os familiares pra estar cuidando deste idoso em casa‖
(Enf. 2).
―Os cuidados básicos em casa. Eles não chegam a tentar. Eles têm medo do que eles
podem fazer em casa, então eles trazem o idoso para o hospital‖ (Enf. 4).
O aumento da necessidade de apoio a famílias com um idoso dependente emerge
como um problema prioritário nas políticas educativas, de saúde, sociais e econômicas dos
países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001).
Foram identificados casos que demonstram reincidências de atendimento:
―Eles vivem voltando porque não sabem cuidar em casa. Então eles vêm para o
pronto-socorro direto, eles vêm, a família traz. Eles não sabem o que fazer com aquele idoso,
o paciente, o velhinho vomitou uma vez e a família já traz pra cá‖ (Enf1).
88
―Até pelo medo de cuidar em casa, eles acabam trazendo para o hospital de novo. Eles
se sentem inseguros em casa de estar cuidando‖ (Enf. 3).
Não existem serviços específicos de apoio às famílias prestadoras de cuidados aos
idosos. Em muitos casos, a rede primária de atendimento básico não oferece condições de
atendimento adequadas e, portanto, ocorrem as reincidências de atendimentos nas unidades de
saúde de referência (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001). Algumas medidas e equipamentos
existentes constituem apenas formas indiretas de apoio, na medida em que tentam criar
condições conducentes à manutenção do idoso no seu ambiente familiar (FIGUEIREDO;
SOUSA, 2001).
Os participantes da pesquisa relataram dificuldades em relação ao cuidado com o
familiar idoso:
―A gente precisa trabalhar. Todo mundo tem os seus compromissos. O ideal seria ficar
mais tempo em casa, eu queria ficar dando atenção para a minha mãe o tempo inteiro, mas
como vou fazer se tenho que trabalhar?‖ (FC4).
―[...] 93 anos e a filha, também, já com setenta e pouquinho. Então ela não era uma
senhora tão pequena, tinha certo peso né, e aquela família que cuida é idoso também‖ (Enf.
2).
―No meu caso com a minha mãe é quase sempre eu, mas quando não posso, aí o meu
irmão também fica. Aí neste tempo, ao menos orientar um pouco ele também, porque também
ele não sabe nada, ele não entende nada. Então assim, tento ajudar a passar um pouco sobre
ela para que ele possa estar me ajudando‖ (FC2).
Nesse contexto, apesar de a família ser apontada como fonte primária de suporte social
e informal em que se almeja uma atmosfera afetiva comum de aquisição de competência e de
interação entre os membros, há que se ressaltar que o processo de cuidar da pessoa idosa, por
parte de familiares e cuidadores, depende da integração das relações, da disponibilidade de
89
recursos pessoais e externos, em diferentes momentos e situações da história anterior de
relacionamento com o idoso (TORRES; SÉ; QUEIROZ, 2004).
Para Luzardo e Waldman (2004), os principais enfrentamentos do cuidador são:
dificuldades financeiras, com sobrecarga de tarefas e de compromissos (cuidar
ininterruptamente); ausência de apoio institucional, da própria família e da sociedade, bem
como a dificuldade maior de lidar com a doença por não compreender a sua magnitude. A
falta de informações e do repasse destas são também déficits a serem suplantados nos
atendimentos aos idosos e, por consequência, aos cuidadores responsáveis. Há pouca
informação sobre os cuidados e falta de conhecimentos considerados como básicos para um
atendimento adequado ao idoso na pós-alta hospitalar, como apontam as seguintes falas:
―Porque o acompanhante, o familiar é leigo, não acaba sabendo que a pessoa lá na
mesma posição por mais de três ou quatro horas, ela vai perder a expansão torácica, o pulmão
vai ficar com um acúmulo de secreção ali, e vai ocasionar essa pneumonia né‖ (Enf. 5).
―A gente vê que ele não tem a colaboração de outro familiar em casa pra estar fazendo
o cuidado, pra estar ajudando, pra estar dando banho [...] acho que isso acontece bastante aqui
na clínica‖ (Enf. 2)
―Ela faz uso de medicação contínua também, quando no hospital, vem aqui ele dá à
medicação certinha, ela sabe os horários certinhos, mas quando ela vai pra casa eu não tenho
muita experiência, aí eu fico meio perdida. Eu não sei ao certo que medicação dar‖ (FC3).
Ocorre que os acompanhantes não são informados explicitamente sobre quais cuidados
ou tarefas passarão a desenvolver com o idoso; esses vão sendo naturalmente repassados para
os familiares. Não se estabelece um diálogo com a família para tentar uma negociação na
divisão do trabalho. Os acordos não são abertamente discutidos, mas velados. A família se
sente responsável e vai assumindo determinados cuidados que se estendem após a alta
hospitalar (COLLET; ROCHA, 2004).
90
Os cuidadores mencionam que, no momento da alta hospitalar, geralmente recebem
poucas informações claras a respeito da doença ou de um serviço para prosseguir o
tratamento. Comentam que até as orientações quanto ao uso de medicamentos imprescindíveis
para a continuidade do tratamento nem sempre são realizadas. Assim, o cuidado se torna
difícil, aumentando ainda mais a sobrecarga para o cuidador (CALDAS, 1998). Essas
constatações de Caldas (1998) são confirmadas nas falas dos enfermeiros:
―Aqui a gente tem pacientes que caem da cama. Pacientes agitados correm este risco e
a família é informada sobre isso. Este tipo de orientação é bem básico‖ (Enf. 3).
―É, isso que é importante, a gente conseguir passar para o cuidador o máximo de
informações possível, para ele poder cuidar em casa e não precisar trazer para o hospital‖
(Enf. 4).
―[...] é importante que eles [familiares] estejam juntos na hora que a gente está fazendo
a higiene da pessoa, na prótese do paciente, na hora que a gente faz a higiene íntima, para que
perceba como é feito um banho de leito para quando o paciente não puder mais fazer aquele
banho por aspersão‖ (Enf. 5).
Ao abordar esse assunto, Padilla (2008) enfatiza a necessidade de formação dos
cuidadores, que poderão promover um processo de reflexão sobre a experiência do cuidar e
apreender novas formas e técnicas, de maior socialização entre o profissional de saúde e o
doente e, por fim, de um reconstruir de intenção e vontade de produzir efeitos em si e nos
indivíduos, a fim de que o cuidado seja realizado de forma correta, como nestes casos:
―Minhas dúvidas, até mesmo pra eu ver de que forma que eles agem ali, pra eu ter um
exemplo de como agir em casa. De que forma que eles levam para o banho, às vezes em casa
eu estou fazendo de uma forma incorreta‖ (FC2).
―Eu procuro os enfermeiros antes de ir pra casa para pegar informações deles, para que
aí a gente em casa consiga continuar este tratamento [...]. Como vou administrar esta
91
medicação pra ela?‖ (FC1).
―Eles têm medo de trocar o medicamento, dar uma superdosagem. Então uma
orientação de como deixar armazenado, qual vai ser a escalinha de horário para administrar
este medicamento é importante. Até uma orientação para o acompanhante, às vezes eles
trocam a medicação se não cuidar, tem pai e a mãe para cuidar e quando percebem o
medicamento foi trocado. Então a medicação desse paciente que recebe alta precisa ser bem
informada‖ (Enf. 2).
A respeito desse tema, Patrício (1994) salienta que a família e o cuidador passam a ser
contribuintes nos cuidados subsequentes de tratamento e para tanto necessitam de apoio e
entendimento claro de seu papel na integralidade do tratamento a ser executado antes, durante
a após intervenção hospitalar. O papel da enfermagem vai além do cuidado com o paciente e
se volta para a integralidade do atendimento, englobando as famílias e os cuidadores,
requerendo a construção de tecnologias educativas focadas no pós-alta hospitalar do idoso e
nos seus cuidadores.
Os cuidadores deverão também receber atenção médica pessoal, considerando que a
atividade de cuidar de um adulto dependente é desgastante e implica riscos à saúde do
cuidador. Por conseguinte, a função de prevenir perdas e agravos à saúde abrangerá,
igualmente, a pessoa do cuidador (BRASIL, 1999). O uso de uma tecnologia de cuidados
integrais com os idosos, a exemplo de um guia instrucional, poderia diminuir os déficits,
evitando assim dúvidas e necessidades levantadas na pesquisa, como:
―Eu acho que no hospital o que está faltando é uma cartilha, porque é muita
informação para aquela pessoa que já está se preocupando, tiver que levar pra minha casa‖
(Enf. 5).
―Se tivesse alguma coisa escrita, como orientações; acho que seria mais fácil para o
cuidador em casa. Uma carta já ajuda‖ (Enf. 3).
92
―Sentimos falta de instruções de cuidados por escrito. Precisamos de orientações e se
tiver algum tipo de manual em casa que nos oriente seria adequado‖ (FC2).
―Eu sei que eu levei minha mãe para o hospital e fui para casa, mas ainda fiquei muito
insegura quanto aos cuidados com ela‖ (FC4).
―Por mais que você fala, fala, tem-se a necessidade de se ter um manual pra esse
paciente, pra esse familiar em casa, que tipo de medida e cuidado ele vai seguir para
determinada situação de alta hospitalar‖ (Enf. 3).
Esses déficits, de alguma forma, já são diminuídos com as iniciativas, por meio de
oficinas de apoio e aprendizagem, determinadas pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2008, p.
17): ―as oficinas pedagógicas de cuidadores são espaços que possibilitam trocas de
experiências, onde os cuidadores conversam, aprendem e ensinam e constroem juntos na arte
do cuidar.‖ Assim, essas oficinas devem ser abertas a todos que estão envolvidos, tais como
cuidadores, familiares e amigos. Compartilhar experiências traz alívio. O cuidador percebe
que não está sozinho e que outros podem ter dúvidas e dificuldades do mesmo modo como
ele.
Entende-se que esses ambientes possibilitam conversar sobre as boas experiências e
também sobre as angústias, medos e dificuldades. As pessoas do grupo formam uma rede de
apoio social, já que todos estão unidos pelo mesmo motivo. Segundo Santos (2003), é
primordial que se ofereçam condições de infraestrutura e de suporte para que os familiares
possam efetivamente exercer o papel de cuidadores informais. É relevante que, além de se
conhecerem as necessidades de cuidado da pessoa dependente, também se conheça a situação
dessas famílias, suas demandas, suas crenças, seus valores e suas práticas socioculturais. É
importante que o cuidador peça ajuda, evitando a sobrecarga de trabalho, quando possível.
Ter uma vida normal e estar de bem consigo mesmo é condição necessária para atender bem o
idoso, principalmente quando este manifesta sofrimento psíquico.
93
Aceitar a condição humana de ser idoso exige aceitação de que a velhice é um
processo natural no ciclo vital; do contrário, essa etapa da vida pode levar a um sofrimento
psíquico sem tamanho. Acolher as limitações, as dificuldades de mobilidade antes não
observáveis, a busca da autoestima e da inserção social são aspectos que podem interferir na
senescência. Durante os encontros dos grupos focais, enfermeiros e cuidadores fizeram
considerações sobre esse assunto:
―Este lado emocional é o que pode acabar trazendo doenças pra este paciente idoso‖
(Enf. 1).
―No hospital, na hora da alta já chora antes de ir embora, porque não tem uma família
do lado, em casa. [...] Entra em sofrimento emocional‖ (Enf. 5).
―Pela minha mãe eu vejo que eles têm cuidado no falar, [...] ela sempre se sente
ofendida, por que tem certa idade‖ (FC4).
―Eu percebo que ela gosta muito de conversar [...] ela passou a tarde toda só. Solidão
[...] por qualquer motivo ela está chorando. Chora de depressiva que é‖ (FC2).
―Em relação ao meu tio eu também vejo essa certa falta de ter alguém junto para
conversar. Fica mais tempo sozinho então fica mais carente de ter alguém ali‖ (FC3).
Apesar de ser um processo natural, o envelhecimento submete o organismo a
alterações anatômicas e funcionais, com repercussões nas condições de saúde do idoso e,
consequentemente, na sua qualidade de vida (VECCHIA et al., 2005). As alterações que
ocorrem no sistema nervoso acarretam a diminuição da liberação de neurotransmissores,
principalmente da dopamina, provocando alterações sensoriais, intelectuais e psicológicas
(FARO JÚNIOR et al., 1996). O tempo de reação torna-se mais lento e a velocidade de
condução nervosa fica de 10 a 15% mais lento aos 70 anos, com prejuízo na sensibilidade e na
resposta motora aos estímulos e ocorre a queda da perfusão tecidual e redução da massa
encefálica em torno de 14% por volta dos 80 anos (FARO JÚNIOR et al., 1996).
94
Essas alterações orgânicas e motoras podem ser atenuadas por atividades físicas
durante todas as etapas da vida. Para Samulski e Lustosa (1996), a influência do exercício no
processo de envelhecimento afeta diretamente a qualidade, se não a quantidade de vida,
ficando evidente que a atividade física regular melhora os estados psicológicos de humor e
alivia as tensões de natureza psicológica, exercendo uma influência benéfica nos aspectos
psicológicos e no bem-estar mental. Segundo Nunes e Peixoto (1994), os programas de idosos
operam mudanças em seus participantes quanto ao resgate da autoestima, superação de
doenças, recuperação da memória, propiciando novos conhecimentos e o desenvolvimento da
sociabilidade.
A qualidade de vida em idosos está diretamente ligada ao seu bem-estar
biopsicossocial, ou seja, não só a sua saúde biológica, mas a sua saúde mental e a aceitação
como membro ativo da sociedade são fatores que promovem a qualidade de vida dessa
população (TOMASINI, 2008). O bem-estar dessas pessoas também depende da qualidade do
espaço onde elas residem, do contato que elas têm com seus familiares e do lazer a que elas
têm acesso (TOMASINI, 2008). De acordo com Capitanini (2000), a solidão inclui
experiências de isolamento, tristeza e insatisfação com a vida. Esse estado emocional não é
causado simplesmente pelo fato de a pessoa estar fisicamente só, mas de estar sendo privada
de relacionamentos que gostaria de ter, causando evidências de problemas de depressão.
Estima-se que em 2030 o transtorno depressivo unipolar venha a assumir a segunda
posição como causa de incapacidade em todo o mundo e a primeira causa nos países de renda
per capita elevada (GONZALEZ et al., 2010). Assim, faz-se necessária a produção de
conhecimentos que visem apontar os diagnósticos mais frequentes entre os idosos para que, a
partir deles, seja possível a elaboração de um plano de intervenção e desenvolvimento de
cuidados efetivos, capaz de promover o conforto, o bem-estar e a melhoria na qualidade de
vida dos idosos (RESTA; BUDÓ, 2004).
95
Outro tema elencado diz respeito à referência e à contrarreferência em relação ao
cuidado com o idoso. No ato de cuidar do idoso surgem dúvidas relativas ao conhecimento
dos papéis, das particularidades e das hierarquias de promoção à saúde já estabelecidas, ou
seja, sobre quais são as funções de cada setor de saúde. Isso gera diferentes interpretações de
responsabilidades e sobrecarrega de setores de referências em detrimento do atendimento
adequado em esferas primárias de atendimento, como revelam os seguintes comentários:
―Na verdade falta um fluxo. Apresentou determinado sinal ou sintoma, eu vou
focalizar na unidade básica de saúde ou eu levo para o pronto-socorro ou é um cuidado que
pode ser feito em casa?‖ (Enf. 3).
―Se fizéssemos um trabalho aqui dentro de estar ligando lá pra unidade do bairro
daquele paciente avisando que o paciente é idoso e que está de alta, informando o problema
dele, para que acompanhe a sua evolução [...]‖ (Enf. 3).
―Tem certos momentos que você fica preocupada, eu fico preocupada com a minha
mãe. Tem horas que eu acho que eu não consigo mais, que eu estou com dúvidas, se vou para
o posto ou levo para o hospital‖ (FC3).
―Deixa-me ir lá porque lá eu sei que eu vou ser bem tratada. Eu já fui várias vezes lá,
lá ela chega e fica mais contente, porque lá ela sabe que vai vir um médico atender ela‖
(FC2).
―Outro ponto importante que a gente vê é qual o fluxo de movimentação do paciente –
movimentação eu digo. Pra onde eu vou encaminhar? Vai pra hospital novamente, vai pra
estratégia da saúde da família, precisa somente de uma avaliação de uma psicóloga da saúde
ou uma avaliação de um enfermeiro, pra orientar esta família? Qual é o fluxo? Num momento
de emergência, quem eu vou chamar? O SAMU? O Bombeiro? Isso também é uma coisa
importante no cuidado‖ (Enf. 2).
Vale lembrar que a Constituição Federal (BRASIL, 1988), em seu artigo 196, define
96
que a saúde ―é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e
econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal
e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação‖.
A
Lei
nº.
8.080/1990 (BRASIL, 1990), que regulamentou o SUS, prevê, como princípios do sistema,
universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência;
integralidade de assistência, equidade e garantia de acesso de qualquer pessoa em igualdade
de condições aos diferentes níveis de complexidade do sistema, de acordo com a necessidade
que o caso requeira.
A referência representa o maior grau de complexidade, para onde o usuário é
encaminhado a um atendimento com níveis de especialização mais complexos, por exemplo,
os hospitais e as clínicas especializadas (MAEDA, 2002). A contrarreferência diz respeito ao
menor grau de complexidade, quando a necessidade do usuário, em relação aos serviços de
saúde, é mais simples, ou seja, ―o cidadão pode ser contra referenciado, isto é conduzido para
um atendimento em nível mais primário‖ (BRASIL, 2003, p. 45), devendo ser este a unidade
de saúde mais próxima de seu domicílio.
Importa ressaltar que a integralidade não é simplesmente sinônimo do acesso a todos
os níveis do sistema; as práticas de integralidade devem permear todos os níveis de atenção,
caracterizadas pela apreensão ampliada das necessidades e a habilidade de reconhecer a
adequação das ofertas ao contexto específico da situação em que transcorre o encontro entre
uma equipe de saúde e o usuário, como sujeito portador de várias necessidades (FRATINI;
SAUPE; MASSAROLI, 2008).
A atenção básica deve estar voltada para o envelhecimento e a saúde da pessoa idosa,
sendo desenvolvida ―por meio do exercício de práticas gerenciais e sanitárias democráticas e
participativas‖ (BRASIL, 2006, p. 12). No caso do idoso, ele precisa de maior agilidade no
sistema de saúde porque o processo de envelhecimento traz como consequência menor
97
expediente para o idoso procurar os serviços de saúde e deslocar-se nos diferentes níveis de
atenção. Para o idoso, principalmente os mais carentes, qualquer dificuldade torna-se um mote
para bloquear ou interromper a continuidade da assistência à sua saúde (COSTA, CIOSAK,
2010).
As dificuldades e os conhecimentos dos cuidadores, assim como a eficácia do
atendimento das instituições de referência e contrarreferência, remetem à necessidade de
construção de meios para diminuir os gaps (lacunas) entre os cuidados mais diários. Esta
pesquisa então sugere a construção e validação de uma tecnologia de cuidados integrais ao
idoso no domicílio na pós-alta hospitalar.
Considerações finais
A pesquisa revelou que, em relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no
ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar, existem déficits de conhecimentos que
apontam necessidades emergentes a serem supridas por meio de instrumentos informacionais.
Observou-se que os familiares cuidadores apresentam dificuldades e sentem falta de
orientações básicas e necessárias sobre os cuidados que devem prestar aos seus familiares
idosos no âmbito domiciliar após a alta hospitalar. Essas carências foram também expostas
pelos enfermeiros participantes do estudo.
Portanto, fazem-se necessárias e importantes todas as informações transmitidas aos
familiares durante a internação do idoso. Evidenciou-se que pouca informação — ou quase
nenhuma em alguns casos — sobre os cuidados com o idoso foi repassada pelos profissionais
de saúde do hospital. Essa situação foi justificada pela falta de tempo e das várias atribuições
desses profissionais, ou até mesmo pela falta desses conhecimentos básicos, principalmente
no momento ou nas horas que antecedem a alta hospitalar do idoso. Sem um instrumento que
os direcione, os familiares, quando se deparam com a necessidade de realizar os cuidados no
98
domicílio após a alta hospitalar, acabam ficando com dúvida e insegurança de como proceder.
As consequências da falta de informação são os processos de reinternação dos idosos
no hospital. Muitos buscam este serviço para receber instruções no serviço de prontoatendimento, pois, na visão dos familiares cuidadores, somente nesse ambiente podem-se
obter os cuidados adequados. Essa atitude provoca sobrecarga de trabalho para a equipe de
enfermagem; afinal, há situações que podem ser resolvidas ou atenuadas com cuidados
adequados no domicílio. Contudo, só será possível materializar essa atitude quando o familiar
cuidador sentir-se seguro do que está fazendo. A enfermagem tem um importante papel que é
o de promover ações de educação em saúde no ambiente hospitalar, orientando e educando o
familiar para a manutenção do cuidado no domicílio, evitando assim as reinternações
desnecessárias e perniciosas ao idoso.
O atributo de um cuidador está no saber cuidar de si para poder cuidar do outro. Cabe
a ele pedir ajuda e dividir responsabilidades entre os familiares ou dentro de sua rede social. O
cuidar exige devoção, paciência, dedicação, disponibilidade, mas sobretudo conhecimento.
Porém, não é saudável deixar de viver a sua vida para dedicar-se inteiramente ao cuidado do
outro. É importante que o cuidador mantenha seus vínculos afetivos e busque alternativas de
lazer, evitando a exaustão e a depressão causadas pela sobrecarga de trabalho e
responsabilidade. Cuidar de si antes de cuidar do outro é um ato de promoção da sua própria
saúde.
Defende-se a necessidade de elaborar instrumentos informativos, a exemplo de um
guia instrucional, que possa nortear os familiares cuidadores nos seus atos cuidativos,
principalmente quando estes estão sob a responsabilidade de leigos.
Home health care requirements for seniors after a hospitalization period
ABSTRACT
With the increase of life expectation, an increase can be seen on the number of dependent
99
seniors and the need to care for them at their homes, particularly when they come from a
hospitalization period. Full health care at home for seniors is essential for their health
recovery and physical rehabilitation. This study has been aimed to investigate what needs do
the seniors’ caring family members have when dealing with full health care at home after a
hospitalization period. It is a qualitative study using a constructive method by means of a
group-aimed technique. The parties involved in this study were caring family members, who
were present at the hospitalization, and the nursery staff of the referred hospital, thus divided
in two groups because of their different purposes: the group of family members, who would
point out their difficulties and the care strategies they use on their seniors at home, and the
group of nursery staff, who would reflect about what cares would be necessary after the
hospitalization period and help in preparing an instruction guide. After obtaining reports from
both groups, subjects were casted from which recommended procedures were prepared for the
health care of seniors at home as described in the instruction guide.
Key-words: Health of seniors, Care, Health care at home.
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APÊNDICE E – Guia instrucional de cuidados integrais aos idosos no pós-hospilatar. As
fotos e imagens ilustrativas são de domínio público.
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UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ