UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ PROGRAMA DE MESTRADO PROFISSIONAL EM SAÚDE E GESTÃO DO TRABALHO ODAIR JOSÉ COLAÇO AS NECESSIDADES DE CUIDADO NO AMBIENTE DOMICILIAR AO IDOSO NO PÓS-ALTA HOSPITALAR: UM GUIA INSTRUCIONAL ITAJAÍ 2013 ODAIR JOSÉ COLAÇO AS NECESSIDADES DE CUIDADO NO AMBIENTE DOMICILIAR AO IDOSO NO PÓS-ALTA HOSPITALAR: UM GUIA INSTRUCIONAL Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho da Universidade do Vale do Itajaí como requisito para obtenção do título de mestre. Grupo de Pesquisa: ARGOS Linha de Pesquisa: Promoção da Saúde Orientadora: Profa. Dra. Juliana Vieira de Araújo Sandri ITAJAÍ 2013 Dedico este trabalho aos meus pais Carmine Cardoso e Felício Colaço, pelo carinho e incentivo constante. AGRADECIMENTOS Manifesto aqui meus eternos agradecimentos a todas as pessoas que direta ou indiretamente contribuíram para a realização deste trabalho, em especial aos colegas de trabalho e familiares cuidadores dos idosos, sem os quais não seria possível a realização deste estudo. Agradeço pelos momentos vivenciados, pela experiência e pelos conhecimentos compartilhados. Agradeço à professora Dra. Juliana Vieira de Araujo Sandri, pela sua orientação, por ter-me propiciado grande aprendizado no âmbito profissional e pessoal. Agradeço aos demais professores do Programa de Mestrado Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho da Universidade do Vale do Itajaí pelos ensinamentos e por sua dedicação. Muito obrigado aos colegas do mestrado, pelo companheirismo e aprendizado compartilhados. Às minhas amigas Dalila, Suzamar, Cristiane, pelo incentivo, disponibilidade e estímulo nos momentos em que mais necessitava de apoio. Agradeço aos meus ex-colegas de trabalho por terem facilitado a realização deste estudo. À instituição na qual trabalhei, Hospital Beatriz Ramos, de Indaial, Santa Catarina, por permitir a realização da pesquisa. E, principalmente agradeço a Deus pela saúde e por permitir a concretização de mais esta etapa de minha vida. ―Sonhamos com um mundo ainda por vir, aonde não vamos mais precisar de aparelhos eletrônicos com seres virtuais para superar nossa solidão e realizar nossa essência humana de cuidado e de gentileza. Sonhamos com uma sociedade mundializada, na grande casa comum, a Terra, onde os valores estruturantes se construirão ao redor do cuidado com as pessoas, sobretudo com os diferentes culturalmente, com os penalizados pela natureza ou pela história, cuidado com os espoliados e excluídos, as crianças, os velhos, os moribundos, cuidado com as plantas, os animais, as paisagens queridas e especialmente cuidado com a nossa grande e generosa Mãe, a Terra. Sonhamos com o cuidado assumido como o ethos fundamental do humano e como compaixão imprescindível para com todos os seres da criação.‖ Leonardo Boff COLAÇO, Odair José. As necessidades de cuidado no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar: um guia instrucional. Dissertação (Mestrado Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho) – Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, 2013. Orientadora: Profa. Dra. Juliana Vieira de Araújo Sandri RESUMO Com o aumento da expectativa de vida, observa-se o crescimento do número de idosos dependentes e a necessidade de assistência domiciliar para esses pacientes no pós-alta hospitalar. Os cuidados integrais no domicílio são fundamentais para a recuperação e a reabilitação da saúde do paciente idoso dependente. Por mais que se tenham políticas de proteção social ao idoso, nota-se um déficit, tanto de programas voltados para esse fim como de orientações sobre cuidados básicos e pertinentes aos cuidadores. A partir dessas constatações, buscou-se identificar as necessidades que os familiares cuidadores apresentam com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar com o propósito de construir um guia instrucional a eles direcionado. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa com adoção do método construtivista, segundo o qual o conhecimento não provém só dos objetos externos nem só dos sujeitos, mas da interação entre eles. A pesquisa se desenvolveu no setor de clínica médica cirúrgica de uma instituição hospitalar da região do Médio Vale de Itajaí em Santa Catarina. Participaram do estudo, familiares cuidadores e enfermeiros, divididos em dois grupos distintos. O grupo de familiares apontou as necessidades de cuidados, mostrando as dificuldades de cuidar no domicílio, e o grupo de enfermeiros contribuiu na elaboração técnica das orientações a serem realizadas e na reflexão sobre a importância de se ter instrumentos práticos constituídos. A partir das falas foram elencadas as temáticas mais pertinentes que nortearam as recomendações de orientação de cuidados aos idosos na ambiência domiciliar. Constatou-se a necessidade de expor as temáticas em dois blocos: 1) Cuidados específicos: higiene (oral, íntima e corporal); alimentação e hidratação (oral e por dispositivo); cuidados cutâneos: pele, queimadura, úlceras de decúbito e de perna; medicação; quedas, fraturas e ambiência; 2) Cuidados gerais: cuidado com o cuidador; aspectos emocionais do idoso; despreparo da família para o cuidado e referência e contrarreferência. Essas temáticas foram contempladas no guia instrucional proposto. Quanto aos conhecimentos e às estratégias de cuidado relatados pelos familiares, verificou-se que estes têm muitas dificuldades de execução, associadas à falta de orientações básicas para o cuidado com os idosos na ambiência domiciliar, especialmente após a alta hospitalar. Os enfermeiros confirmaram esse achado. Portanto, fazem-se necessárias rotinas de alta hospitalar nas quais se insiram informações sobre o cuidado a ser dispensado no domicílio, evitando assim a reincidência hospitalar. A construção de instrumentos informativos, a exemplo do guia instrucional, pode se tornar uma tecnologia educativa que venha a favorecer o desempenho dos cuidadores familiares nos cuidados com o idoso no domicílio. Palavras-chave: Saúde do idoso. Família. Assistência domiciliar. COLAÇO, Odair José. Care needs of the elderly in the home environment after hospital discharge: an instructional guide. Dissertation (Master’s Degree in health and Work Management) – University of Vale do Itajaí, Itajaí, 2013. Supervisor: Professor Dr. Juliana Vieira de Araújo Sandri ABSTRACT With the increase in life expectancy, a growth is seen in the number of dependent elderly people, and the needs for home care for these patients after hospital discharge. Integral care home care is essential for the recovery and rehabilitation of health of the dependent elderly patient. Despite policies for social protection of the elderly, it is noted that there is a lack of programs for this purpose, and guidance on basic and relevant care for the carers. Based on these observations, this study seeks to identify the needs of family carers in regard to the integral care for the elderly person to be given in the home environment after hospital discharge, in order to construct an institutional guide for these carers. This research uses a qualitative approach, adopting the constructivist method whereby knowledge does not come from external objects or from the subjects alone, but from the interaction between them. The research was developed in the surgical medical clinical department of a hospital region in the Médio Vale de Itajaí region of Santa Catarina. Family carers and nurses took part in the study, divided into two separate groups. The groups of family members indicated the care needs, showing the difficulties of home care, while the group of nurses contributed to elaborating the technique of guidance to be given, and to reflection on the importance of having practical tools. Based on the statements, the most relevant themes were drawn out for the guidance recommendations for carers of elderly people in the home environment. It was found necessary to categorize the themes into two groups: 1) Specific care: hygiene (oral, intimate, bodily); diet and fluids (oral and by device); skin care: burns, bedsores and leg sores; medication; falls; fractures and the environment; 2) General care: care for the carer; emotional aspects of the elderly; lack of preparedness of the family to give the care, and reference and counter reference. These themes were all included in the proposed instructional guide. Regarding the knowledge and care strategies reported by the family members, it was seen that these themes are quite difficult to execute, associated with a lack of basic guidance for carers of the elderly in the home environment, particularly after hospital discharge. The nurses confirmed this finding. Hospital discharge routines are therefore necessary that include information about the care to be given in the home environment, avoiding a return to hospital. The construction of informative tools, like the instructional guide, could become an educational technology for improving the home care given by family carers, to elderly family members. Keywords: Care of the elderly. Family. Home Care. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 9 1.1 OBJETIVOS .............................................................................................................. 11 1.1.1 Objetivo geral ........................................................................................................ 11 1.1.2 Objetivos específicos ............................................................................................. 11 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ............................................................................ 12 2.1 FAMÍLIA .................................................................................................................. 12 2.2 IDOSO ....................................................................................................................... 14 2.3 IDOSO HOSPITALIZADO ...................................................................................... 16 2.4 CUIDADOR FAMILIAR .......................................................................................... 18 2.5 TECNOLOGIAS ....................................................................................................... 20 3 METODOLOGIA DA PESQUISA .......................................................................... 23 4 CONSTRUINDO AS TEMÁTICAS PARA O CUIDADO AO IDOSO NO DOMICÍLIO ................................................................................................................. 29 4.1 CUIDADOS ESPECÍFICOS ..................................................................................... 29 4.1.1 Higiene: oral, íntima e corporal ............................................................................. 29 4.1.2 Alimentação e hidratação: oral e por dispositivo .................................................. 33 4.1.3 Cuidados cutâneos: pele, queimadura, úlceras de decúbito e de perna ................. 37 4.1.4 Medicação .............................................................................................................. 40 4.1.5 Quedas, fraturas e ambiência..................................................................................43 4.2 CUIDADOS GERAIS ............................................................................................... 46 4.2.1 Cuidado com o cuidador ........................................................................................ 46 4.2.2 Aspectos emocionais do idoso............................................................................... 48 4.2.3 Despreparo da família para o cuidado ................................................................... 50 4.2.4 Referência e contrarreferência ............................................................................... 56 5 TECNOLOGIA PARA O CUIDADO AO IDOSO NO PÓS-ALTA HOSPITALAR .............................................................................................................. 60 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 61 REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 63 APÊNDICES ................................................................................................................. 75 9 1 INTRODUÇÃO A saúde do idoso exige um trabalho interdisciplinar que envolve a família. Ao sair do hospital, após um período de internação, o idoso estará sob a responsabilidade de seu cuidador familiar. Desse modo, é imprescindível que este esteja habituado ou tenha conhecimentos mínimos com a assistência a ser prestada para que possa oferecer um cuidado digno e humanizado, minimizando os riscos à saúde do idoso. Para Elsen, Marcon e Santos (2002), os familiares são aqueles que irão completar, na maioria das vezes, o tratamento, os cuidados e/ou atuar de forma sinérgica com os profissionais da saúde durante todo o período hospitalar e pós-alta hospitalar. As autoras compreendem o cuidado familial como uma proposta de sistematização conceitual do que representa o processo apreendido e construído pela família, definido a partir da cultura familial, das interações sociais intrafamiliares e extrafamiliares, ao longo do processo de vida da família e nas diferentes etapas de vida do ser humano. É certo que estamos vivendo momentos de importantes transformações na composição etária da população, fenômeno que exige mudanças na organização dos serviços de saúde e da sociedade. De acordo com os dados do censo demográfico de 2010, diminuiu a proporção de jovens e aumentou a de idosos na população brasileira, havendo um alargamento do topo da pirâmide etária relativa à população com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em 1991, passando a 5,9% em 2000 e chegando a 7,4% em 2010. De forma conclusiva, o crescimento absoluto da população do Brasil, nesses últimos dez anos, deu-se principalmente em função do crescimento da população adulta, com destaque também para o aumento da participação da população idosa (IBGE, 2012). Esse cenário de crescimento da população idosa e dos cuidados que a cercam representa o ambiente deste trabalho, que parte do pressuposto de que a promoção em saúde com o foco mais global requer educação e oferecimento de informações sobre esses cuidados, de forma efetiva e simples, às pessoas que convivem e atendem idosos. Diferentemente da prevenção, que se encontra em um ponto bem mais longe da enfermidade propriamente dita, o cuidado se relaciona a um panorama mais emergencial em saúde. Sendo assim, esta pesquisa responde a uma necessidade de se ter instrumentos e tecnologias de cuidados em saúde que ofereçam, aos familiares e cuidadores, informações que englobem os principais cuidados com o idoso nos domicílios após a alta hospitalar. Considera-se que a família, quando da hospitalização de um idoso, passa a ser a 10 responsável pelos cuidados subsequentes de tratamento e para tanto necessita de apoio e entendimento claro de seu papel na integralidade da assistência a ser dada antes, durante e após a intervenção hospitalar, por meio de instrumentos e de uma tecnologia educativa que possam auxiliar no esclarecimento de dúvidas básicas acerca da atuação no âmbito domiciliar. Essa formulação de tecnologia se concilia aos direcionamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) e às diretrizes operacionais do Pacto pela Saúde, que contemplam o Pacto pela Vida, estabelecidas em 2006 por meio da Portaria Ministerial 399/GM (BRASIL, 2006a). Dentre os objetivos de implementação da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, consta recuperar, manter e promover a autonomia e a independência dos indivíduos idosos, direcionando medidas coletivas e individuais de saúde para esse fim, em consonância com os princípios e diretrizes do SUS, sendo alvo dessa política todo cidadão e cidadã brasileiros com 60 anos ou mais de idade (BRASIL, 2006a). De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2012), há um contínuo e intenso processo de envelhecimento populacional brasileiro, surgindo daí a necessidade de buscar a qualidade da atenção aos indivíduos idosos por meio de ações fundamentadas no paradigma da promoção da saúde. Essa promoção envolve a necessidade de se criar estruturas que possibilitem à família executar o cuidado ao idoso, tendo um suporte de tecnologias que permitam, de forma qualificada e constante, o atendimento integral e, no caso específico desta pesquisa, após a alta hospitalar no ambiente domiciliar. No entanto, evidencia-se a dificuldade de familiares qualificados para o cuidado ao idoso, em todos os níveis de atenção com suporte social, enfatizado nesta pesquisa, que propõe a criação de um guia de cuidados que venha acrescentar e suprir a integralidade do atendimento, respeitando as particularidades do idoso, com sua história de vida, com seu grau de independência funcional e com a demanda por serviços mais ou menos específicos. Cabe ressaltar que toda tecnologia criada ou sugerida necessita de uma avaliação pautada no conhecimento do processo de envelhecimento e de suas peculiaridades e adaptada à realidade sociocultural em que os idosos estão inseridos. É preciso, portanto, que as tecnologias propostas respondam a necessidades específicas e se diferenciem pela natureza da intensidade dos serviços que ofereçam no ambiente familiar, envolvendo a família e o idoso no pós-alta hospitalar. A partir dessas considerações, formulou-se a seguinte pergunta de pesquisa: Quais são as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores apresentam com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos, no ambiente domiciliar, ao idoso no pós-alta hospitalar? 11 Essa questão traz embutido o pressuposto de que há pouco conhecimento sistematizado no preparo das famílias para o cuidado com o idoso em seu ambiente domiciliar e que essa situação requer instrumentos de suporte para minimizar essa carência. A fragilidade do cuidado familiar com o idoso precisa ser considerada e merece atenção especial dos profissionais da saúde, pois faz parte dos cuidados integrais e pressupõe a necessidade de definir ferramentas capazes de criar mecanismos de acolhimento adequado ao idoso após a alta hospitalar. A definição de uma ferramenta como uma tecnologia de tratamento deve se pautar na utilidade e no entendimento das pessoas às quais se destina. Deve ter clareza e objetividade para permitir o uso por indivíduos com diferentes graus de instrução. 1.1 OBJETIVOS 1.1.1 Objetivo geral Investigar as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores apresentam com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos, no ambiente domiciliar, ao idoso no pósalta hospitalar. 1.1.2 Objetivos específicos – Verificar o conhecimento e as estratégias de cuidado prestado pela família ao idoso. – Levantar as fragilidade e potencialidades da família para a execução do cuidado com o idoso. – Construir uma tecnologia de cuidado que contemple as necessidades dos familiares cuidadores para o cuidado com os idosos. Neste estudo, a tecnologia de cuidado corresponde à construção de um guia instrucional (Apêndice E), o qual tem como foco a orientação para o cuidado dentro de cada uma das temáticas apontadas pelos familiares cuidadores e que dizem respeito às dificuldades para a execução do cuidado com o idoso no domicílio após a alta hospitalar. 12 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Neste capítulo apresenta-se uma revisão de literatura como resultado da interlocução com diversos autores e suas formulações sobre o tema trabalhado nesta dissertação. Esta fundamentação teórica foi elaborada a partir da leitura de múltiplas fontes, das quais foram extraídas ideias essenciais dos autores consultados para sustentar a argumentação aqui construída. Vários enfoques são agrupados em blocos textuais e colocados numa sequência lógica para facilitar a leitura e a compreensão do tema. 2.1 FAMÍLIA Segundo Petrini (2003), a família permanece como matriz do processo civilizatório, como condição para a humanização e para a socialização das pessoas. Nessa perspectiva, a família é parte integrante de um ambiente sociocultural. Isso significa que crenças, valores, símbolos, significados, práticas e saberes são construídos, compartilhados e ressignificados nas interações sociais, que influenciam e são influenciadas pelas famílias (ELSEN; MARCON; SANTOS, 2002). A família é um grupo cujos integrantes compartilham valores comuns, ocupam posições específicas e interagem entre si com o passar do tempo. Pressupõe-se que ―os adultos criam seus filhos, engajam-se na cooperação e política e cuidam dos idosos‖ (CRAVEN; HIRLENE, 2006, p. 303). Com relação ao cuidado em saúde, tem-se, de acordo com Elsen (1984), o sistema familial de saúde inserido num contexto sociocultural que inclui os sistemas profissional e popular de cuidados, com os quais faz trocas, influenciando-os e sendo influenciado por eles. Entende-se que a família é o primeiro grupo social no qual somos inseridos e, como unidade nuclear do indivíduo, deve acolhê-lo e permitir que ele desenvolva habilidades, experiências, vivências e novas relações humanas. É nesse ambiente familiar que a pessoa recebe todo o apoio afetivo, psicológico, valores humanos e éticos, além de outras ferramentas necessárias para seu pleno desenvolvimento físico e mental. Para que se alcance o equilíbrio familiar, há a necessidade de desenvolvimento saudável de cada um de seus membros (OLIVEIRA; JORGE, 1998). Segundo Althoff (2001), a convivência é uma das formas para promover a inclusão na família e pode ser traduzida por respeito à individualidade, aceitação das diferenças, reconhecimento dos direitos de cada um, estímulo ao diálogo e garantia de um espaço físico, 13 social e emocional que incentive a participação e a troca. Oliveira e Bastos (2000, p. 24) argumentam que tomar a família como objeto de investigação e intervenção em saúde requer, como ponto de partida, focalizar seus modos de organização e funcionamento nos aspectos mais cotidianos de sua existência. É nesse contexto que faz sentido analisar a influência dos valores e costumes de uma comunidade humana sobre a percepção dos sintomas, da enfermidade, sua interpretação e técnicas de tratamento como um todo. Enfim, não se pode compreender as reações das pessoas frente às questões ligadas ao binômio saúde-doença sem considerar a cultura em que foram educados e as formas culturais específicas de organização social nessa área. De acordo com Elsen (2002), a família é um sistema de saúde para seus membros. Esse sistema possui um processo de cuidar no qual a família supervisiona o estado de saúde de seus membros, toma decisões quanto aos caminhos que deve seguir nos casos de queixas, acompanha e avalia constantemente a saúde e a doença de seus componentes, pedindo ajuda a seus significantes e profissionais quando há necessidade para tal intervenção. Litman (1974) define a família como uma unidade básica de saúde, considerando o domicílio como produtor de saúde, pois, nele, recursos internos da família se somam aos externos, objetivando manter ou restaurar a saúde de seus membros. Sobre a diversidade dos modelos de famílias, destacam-se os seis tipos de família identificados por Craven e Hirlene (2006): - A família nuclear inclui um homem e uma mulher adultos casados e seus filhos, que geralmente convivem na mesma casa até que os filhos saiam para viver sozinhos. Os papéis tradicionais nessa estrutura familiar consistem em o homem como sendo o arrimo da família fora de casa e a mulher como responsável pelo cuidado físico da casa e dos filhos. - A família de pais solteiros, composta somente por um dos pais e um ou mais filhos. A morte de um dos cônjuges, o abandono ou a gravidez na fase de solteira resultam nesse grupo familiar. Esse tipo de família pode encontrar dificuldades financeiras em função da sobrecarga do pai/da mãe e também por causa do apoio deficiente que seus membros recebem. Predomina nesse tipo de estrutura familiar a mãe solteira, sendo a mulher a responsável do grupo familiar. - A família mista, composta por crianças que vivem com um dos pais biológicos bem como com o filho do padrasto ou madrasta. Esse grupo de pessoas é desafiado a formar novos relacionamentos com os novos membros com os quais vai conviver dali em diante. 14 - A família coabitada, composta de pessoas que vivem juntas como tentativa ou mesmo como alternativa de casamento. Pode ser formada por casais de homossexuais, tanto masculinos como femininos. - A família estendida inclui, além dos membros já citados nos grupos familiares anteriores, avós tias, tios e primos, que podem viver sob o mesmo teto ou não. É geralmente formada por três ou mais gerações. - A família comunitária, composta por inúmeros membros que compartilham uma ligação comum, como afiliação religiosa, ideologia ou até mesmo por necessidades econômicas. Esse tipo familiar pode ser formado também por adultos jovens que compartilham quartos enquanto frequentam a universidade. Essa composição pode ser vivenciada por curto espaço de tempo, criando instabilidade na unidade familiar. A partir dessa classificação de tipos de família, cabe considerar a afirmação de Kaloustian e Ferrario (1994) de que a família é o espaço indispensável para a garantia da sobrevivência e da proteção integral dos filhos e demais membros, independentemente do arranjo familiar ou da forma como vem se estruturando. É importante também destacar as mudanças na legislação que regula as relações conjugais e de filiação; a ruptura da dicotomia entre papéis públicos e privados, segundo o gênero; o crescente processo de individualização econômico e cultural dos sujeitos; a pluralização dos estilos de vida; a igualdade entre os sexos e a consequente ruptura de casamentos sentidos como insatisfatórios (DONATI; DI NICOLA, 1996; VAITSMAN, 1999). Nesse mesmo sentido, Petrini (2003) salienta que a família se apresenta com novas formas de estruturação que, de alguma maneira, a reconstituem, sendo reconhecida como estrutura básica permanente da experiência humana. Para Donati e Di Nicola (1996), a família deve ser entendida seja como relação intersubjetiva do mundo da vida, seja como uma instituição. Sendo parte integrante da família em determinado tempo de vida, o idoso tem suas particularidades de vida e cuidados que se desenvolvem no ambiente familial no qual ele está inserido. 2.2 IDOSO O conceito de idoso é diferenciado para países em desenvolvimento e para países desenvolvidos. Nos primeiros, são consideradas idosas as pessoas com 60 anos ou mais, e nos países desenvolvidos são idosas as pessoas com 65 anos ou mais. Essa definição foi 15 estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) por meio da Resolução 39/125, durante a Primeira Assembleia Mundial das Nações Unidas sobre o envelhecimento da população, relacionando-se com a expectativa de vida ao nascer e com a qualidade de vida que as nações propiciam aos seus cidadãos (ONU, 1982). Já a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) define envelhecimento como: Um processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível, não patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne menos capaz de fazer frente ao estresse do meio-ambiente e, portanto, aumente sua possibilidade de morte (OPAS, 2003, p. 26). Em 2002, quase 400 milhões de pessoas com 60 anos ou mais vivia no mundo em desenvolvimento. A expectativa é que até 2025 esse número aumente para aproximadamente 840 milhões, representando 70% das pessoas idosas em todo mundo (OMS, 2005). Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), até 2025 o Brasil será o sexto país do mundo em número de idosos, mas ainda é grande a desinformação sobre a saúde do idoso e as particularidades e desafios do envelhecimento populacional para a saúde pública em nosso contexto social. Entre 1980 e 2000 a população com 60 anos ou mais cresceu 7,3 milhões, totalizando mais de 14,5 milhões em 2000. O aumento da expectativa média de vida também aumentou acentuadamente no país. Esse aumento do número de anos de vida, no entanto, precisa ser acompanhado pela melhoria ou manutenção da saúde e qualidade de vida (OMS, 2005). Conforme a Constituição brasileira (BRASIL, 1988), a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares. Ramos (1993) utilizou a técnica de desenvolvimento de escalas proposta por Guttman (1950) e validou uma escala com 12 indicadores de dependência para o idoso que considera as atividades instrumentais de vida diária (fazer compras, pegar ônibus, administrar as finanças e tomar os medicamentos adequadamente) e as atividades de vida diária básica (continência, vestir-se, tomar banho, comer, pentear-se, ir ao banheiro, passar para a cama e sair dela), as quais estão organizadas hierarquicamente de modo a classificar a dependência nos idosos. De acordo com as doze atividades de vida diária citadas, Ramos (1993) classifica os idosos em quatro categorias: 1) independente totalmente – idoso capaz de realizar todas as atividades; 2) dependente leve – idoso que necessita de ajuda para realizar de uma a três 16 atividades de vida diária; 3) dependente moderado – idoso que necessita de ajuda para realizar de quatro a seis atividades de vida diária; 4) dependente severo – aquele que necessita de ajuda para realizar sete ou mais dessas atividades. Pressupõe-se que, a partir de certo grau de dependência, o idoso passa a necessitar e a requerer mais serviços de saúde, as internações hospitalares são mais frequentes e o tempo de ocupação do leito é maior do que o de outras faixas etárias sem que isso se reverta em seu benefício (MINAS GERAIS, 2006). Geralmente as doenças dos idosos são crônicas e múltiplas, perduram por vários anos e exigem acompanhamento médico e de equipes multidisciplinares permanentes e internações frequentes. Acentua-se que a maioria dos quadros de dependência da população idosa está associada a condições crônicas que podem ser adequadamente manipuladas, muitas vezes, fora de instituições hospitalares ou asilares (MINAS GERAIS, 2006). Para Caldas (1998), a determinação da capacidade funcional do idoso é um indicador imprescindível para adequar os cuidados de enfermagem tanto ao paciente como ao familiar. A família é fundamental nesse processo de prestação de cuidados ao idoso e deve ser compreendida quando os cuidados excedem as suas capacidades no âmbito domiciliar. Os idosos apresentam condições peculiares que condicionam o seu estado nutricional. Alguns desses condicionantes estão relacionados às alterações fisiológicas próprias do envelhecimento, enquanto outros são influenciados pelas enfermidades presentes e por fatores relacionados com a situação socioeconômica e familiar (NOGUÉS, 1995). 2.3 IDOSO HOSPITALIZADO Tendo em vista o contexto histórico do hospital, antes como espaço de exclusão social e a partir do século XVIII como cenário terapêutico e de cura, as relações hierarquizadas e normatizadas nele engendradas se tornam compatíveis com suas novas características e os espaços devidamente ocupados, considerando a posição que cada um assume dentro deles (FOUCAULT, 2005). Acredita-se que diante da hospitalização de um familiar, os acompanhantes se deparam com um ambiente que lhes é estranho, com horários determinados, protocolos institucionais, pessoas que ora informam, ora manipulam ou omitem informações sobre o que deve, pode ou não fazer. Nessas circunstâncias, esse familiar nem sempre respeita a disciplina normativa, criando atritos que resultam, por vezes, em conflitos na relação que estabelece, principalmente com a equipe de enfermagem, que normalmente é formada por profissionais 17 que permanecem ininterruptamente no hospital e, por isso, são aqueles com os quais o familiar mais se relaciona e aos quais mais tem acesso (SQUASSANTE; ALVIM, 2009). No entendimento de Paim (1994), assistir a saúde da família tem sido um desafio para profissionais de saúde. Contudo, na busca de uma abordagem com enfoque abrangente do ser humano, é necessário envolver a família como parte integrante da prática de cuidado em nosso dia-a-dia. A equipe de enfermagem deposita no familiar acompanhante a responsabilidade pela vigilância ao idoso. Como exemplo, tem-se o idoso que necessita de contenção no leito e, nesse caso, não há necessidade de intervenção da equipe de enfermagem quando da presença do familiar acompanhante, pois este estará ao lado do cliente, evitando que tenha complicações ou sofra algum tipo de acidente (NÓBREGA-THERRIEN, 2004). Ocorre que os acompanhantes não são informados explicitamente sobre quais cuidados ou tarefas passarão a desenvolver com o idoso. Não se estabelece um diálogo com a família para tentar uma negociação na divisão do trabalho. A negociação não é feita de modo claro, mas é implícita. Os acordos não são abertamente discutidos, mas velados; a família se sente responsável e vai assumindo determinados cuidados que se estendem após a alta hospitalar (COLLET; ROCHA, 2004). No entanto, nem sempre o acompanhante age da maneira esperada pela equipe de enfermagem, podendo surgir conflitos na relação. No espaço hospitalar, a equipe de enfermagem assume postura de monitorar e vigiar o familiar acompanhante, dele esperando atitudes de cooperação com o trabalho de enfermagem (NÓBREGA-THERRIEN, 2004). A respeito dessas particularidades, Collet e Rocha (2004) salientam que se estabelecem relações de ajuda e compromisso de cuidado já no ato de hospitalização entre os familiares e a equipe de enfermagem e que de certa forma continuam somente com a família na pós-alta hospitalar. Nesse sentido, a família passa a acreditar que possui um papel importante na assistência, durante o período hospitalar, em consequência de ser concedida permissão para o convívio com os cuidados profissionais. Sendo assim, a responsabilidade da assistência e o atendimento integral ao cliente são atribuídos aos profissionais de saúde, cabendo à família ser orientada e educada para os cuidados futuros no pós-alta hospitalar. Entende-se que a família, em qualquer de suas constituições estabelecidas, quando da hospitalização de um idoso, passa a ser um contribuinte nos cuidados subsequentes de tratamento e para tanto necessita de apoio e entendimento claro de seu papel na integralidade do tratamento a ser executado antes, durante e após intervenção hospitalar. Nesse contexto há necessidade de proporcionar instrumentos de tecnologia de cuidados pós-alta hospitalar ao 18 idoso, haja vista que a enfermagem brasileira enfoca pouco a família em sua prática, estando voltada fundamentalmente ao indivíduo, na relação pessoa a pessoa, com enfoque de assistência curativa (PATRÍCIO, 1994). Tem-se observado que os cuidados do idoso pós-alta hospitalar provocam vários movimentos de crise na família. Sobre isso, Petrini (2003) afirma que à medida que a família encontra dificuldades para cumprir satisfatoriamente suas tarefas básicas de socialização e de amparo/serviços aos seus membros, criam-se situações de vulnerabilidade e, sendo assim, a vida familiar, para ser efetiva e eficaz, depende de condições para sua sustentação e manutenção de seus vínculos. Ribeiro (1999) salienta que o convívio da família com doença grave ou hospitalização prolongada de um de seus membros pode afetar o cuidado dos demais. Da mesma forma, Walters (1987) reconhece que a assistência oferecida ao idoso no ambiente hospitalar cria dependências que dificultam o retorno ao lar. Para Siqueira et al. (1994), as hospitalizações do idoso tendem a aumentar o grau de dependência e prolongar o período de reabilitação. No período de internação, os idosos fragilizados ficam vulneráveis a iatrogenias que, em muitos casos, são passíveis de ações preventivas, tendo em vista que seu conceito pode ainda abranger circunstâncias relacionadas ao tempo de permanência e/ou ao ambiente hospitalar, tais como úlceras de pressão, quedas e fraturas (CARVALHO-FILHO et al., 1998). Diante desse quadro, Zoboli (2009) afirma que as peculiaridades da promoção da saúde no âmbito do SUS requerem o redirecionamento da prática clínica e também do equacionamento ético. Ambos têm de ser desfocados do hospitalocentrismo e da alta especialização que marcam a conformação do sistema de saúde e a formação dos profissionais deve incorporar a riqueza das histórias de vida dos protagonistas do cuidado: as pessoas. 2.4 CUIDADOR FAMILIAR Tradicionalmente a família é entendida como a cuidadora dos seus entes. Essas atividades são pouco visíveis porque não se fazem no marco de relações trabalhistas e são caracterizadas por sua dimensão moral e afetiva (COMAS D’ARGEMIR, 1997). O Ministério da Saúde define cuidador como a pessoa que mais diretamente presta cuidados, de maneira contínua e regular, podendo ou não ser alguém da família. Suas atribuições devem ser pactuadas entre indivíduo, família, equipe e cuidador, democratizando saberes, poderes e responsabilidades (BRASIL, 2004). Para Duarte (1996), independentemente de o cuidador estar inserido na rede formal ou 19 informal de prestação de cuidados, ele convive diariamente com a pessoa doente, auxiliando nos cuidados de higiene, alimentação, gestão do regime terapêutico e atividades reabilitadoras, interagindo com os outros profissionais no cuidar. Os membros da família são os principais cuidadores informais, geralmente filhas ou esposa, predominando o sexo feminino na escolha (GRUNFELD et al., 1997; KRASCH, 2003). Caldas (2002) salienta que a influência histórica, os imperativos culturais e os preceitos religiosos também influenciam a família a cuidar dos seus idosos. Em outras situações, como acrescentam Fernandes et al. (2002), os cuidadores assumem esse papel pelas circunstâncias e não por escolha, mesmo tendo o reconhecimento que essa deve ser a sua nova missão. No entendimento de Krasch (2003), o cuidado no domicílio proporciona o convívio familiar, o apoio e a proteção que o idoso necessita. No entanto, em virtude de difíceis situações econômicas, o custo/benefício se torna oneroso, e isso, associado às condições sociais no contexto familiar, torna fundamental a existência concreta de uma rede de apoio ao idoso e à família de forma sistematizada. A Política Nacional do Idoso tem como pressuposto básico a permanência do idoso com a família; no entanto, o Ministério da Saúde reconhece que isso só é possível com recursos, infraestrutura e apoio disponível, definindo, para tanto, diretrizes que devem nortear todas as ações da saúde e indicando a responsabilidade institucional (BRASIL, 1996). Garcia (2001) salienta que o cotidiano permite tornar a educação significativa, pois conjuga a vivência de situações ao processo do conhecimento, possibilitando o questionamento de práticas sociais e a instrumentalização para ―o conhecer‖ e ―o agir‖. Griffiths (1988) recomenda aos serviços públicos desempenharem um forte papel de suporte a favor dos recursos de cuidado informal: famílias, amigos, vizinhos e outras pessoas. Para Giarelli (2003), o grande desafio é conseguir formas de entrelaçamento, em âmbito local, entre assistência formal e informal para garantir, seja um mínimo de coordenação necessária, seja o respeito e o reconhecimento da lógica diversa e das diferentes peculiaridades de cada uma. Paulo et al. (2008, p. 29) classificam o cuidador em primário ou secundário. O primário ―é o responsável pelo cuidado diário do idoso, sendo a única pessoa a desempenhar esta tarefa. O cuidador secundário realiza a atividade ocasionalmente, de modo restrito‖. As atividades realizadas pelos cuidadores familiares, como a higiene corporal no leito ou de aspersão, a alimentação, a integridade da pele e física do idoso e as medicações são consideradas cuidados fundamentais para a vida. Ser cuidador familiar de um idoso é uma 20 tarefa árdua e difícil que limita a vida de quem cuida, principalmente quando esse idoso é acometido por uma doença crônica, o que revela a necessidade de atenção, para os familiares, por parte dos serviços de saúde e da sociedade (MENDONÇA; GARANHANI; MARTINS, 2008). Segundo Braithwaite (1992), a sobrecarga que o cuidador informal experimenta advém da falta de conhecimento no cuidar e da incapacidade mental do doente, que torna o quadro irreversível e de completa dependência. A doença prolongada torna a situação geradora de estresse, o que afeta o equilíbrio normal do funcionamento familiar nos aspectos pessoal e social (RABOW; HAUSER; ADAMS, 2004). A Academia Brasileira de Neurologia recomenda programas educacionais e treinamento do cuidador, somados ao suporte psicológico e dos serviços de saúde, e afirma que esse tipo de intervenção melhora os níveis de estresse, retarda a institucionalização e evita, muitas vezes, o uso de fármacos (ENGELHARDT, 2005). Nunes (1995, p. 238) acentua que a formação é útil na preparação para situações novas ou inesperadas da vida, dado que permite a ―aquisição de conhecimentos e de valores, desenvolvimento de capacidades e atitudes, mudança de representações, preparação para intervenção social, modificação de perfis sociais e profissionais e desenvolvimento de identidades‖. Assim, a formação dos cuidadores poderá promover um processo de reflexão sobre a experiência do cuidar, novas formas e técnicas, maior socialização entre o profissional de saúde e o doente e, por fim, um reconstruir de intenção e vontade de produzir efeitos em si e nos indivíduos. Isso repercute positivamente na garantia da integridade física e emocional dos cuidadores (PADILLA, 2008). 2.5 TECNOLOGIA Tecnologia é o termo que, por metonímia, vem frequentemente substituir o termo técnica, o qual designa o conjunto dos procedimentos bem definidos e transmissíveis, destinados a produzir certos resultados considerados úteis. São tradições que se legam de geração em geração pelo ensino individual, pela aprendizagem, pela transmissão oral dos segredos de oficio e de processos (LALANDE, 1999). Tecnologias em saúde são todas as formas de conhecimento que podem ser aplicadas para a solução ou a redução dos problemas de saúde de indivíduos ou populações (PANERAI; PENA-MOHR, 1989). Para Silva, Alvim e Figueiredo (2008), a tecnologia é um conjunto de conhecimentos, 21 especialmente princípios científicos que se aplicam a determinado ramo de atividade. Não está ligada somente a equipamentos tecnológicos, mas também ao saber-fazer. Mehry (2002) apresenta a definição de tecnologia, incluindo os saberes utilizados na produção dos produtos singulares nos serviços de saúde, bem como os saberes que operam para organizar as ações humanas e inter-humanas nos processos produtivos. Para o conceito de cuidado, existem várias acepções de tecnologia. O termo tecnologia possui como definição etimológica: ―tecno‖, que vem de techné, que é o saber fazer, e ―logia‖, que vem de logos com significado de razão, ou seja, significa a razão do saber fazer (RODRIGUES, 2001). Gonçalves (2006) não restringe o significado de tecnologia ao conjunto de instrumentos materiais do trabalho, e sim o amplia para os saberes e seus desdobramentos materiais e não materiais na produção de serviços de saúde, afirmando que as tecnologias carregam a expressão das relações entre os homens e entre os objetos com os quais trabalham. A tecnologia, segundo Rocha et al. (2008, p. 114), permeia o processo de trabalho em saúde, contribuindo na construção do saber (e na sua própria expressão); ela se apresenta desde o momento da idéia inicial, da elaboração e da implementação do conhecimento, como também, é resultado dessa mesma construção. Ou seja, ela é, ao mesmo tempo, processo e produto. As tecnologias são classificadas por Merhy (2002) em duras, leve-duras e leves. Tecnologias duras são entendidas como aquelas constituídas por equipamentos do tipo máquinas, normas e rotinas. As leve-duras são os saberes estruturados, como a fisiologia, a clínica médica e cirúrgica e tantos outros saberes que atuam no processo de trabalho. As tecnologias leves são as implicadas com o conhecimento da produção das relações entre sujeitos. São as tecnologias de acesso, acolhimento, produção de vínculo, de subjetividades. De acordo com o mesmo autor, produzir tecnologias é buscar produzir coisas que tanto podem ser materiais como produtos simbólicos que satisfaçam necessidades. Em paralelo, tem-se ―o cuidar‖, que é um processo interativo, que envolve um movimento no sentido de conduzir a transformação, entendido nas dimensões física, psicológica, social, ambiental e cultural (WALDOW, 1998). Cuidar, então, compreende, para Souza et al. (2005), aspectos pessoais e sociais, sensibilidade, respeito, solidariedade, interesse. Implica, portanto, colocar-se no lugar do outro, interagir e responsabilizar-se com o outro no intento de aliviar seu sofrimento ou proporcionar seu bem-estar. A partir desses conceitos, pode-se perceber a complexidade do cuidado e que ele 22 somente se estabelece quando há a utilização das duas esferas concomitantemente e a utilização adequada da tecnologia. A tecnologia, portanto, pode ser compreendida como um mediador da racionalidade e da subjetividade, da intuição, da emoção e das sensações, fazendo da razão e da sensibilidade instrumentos para fortalecer e qualificar o cuidado de enfermagem (PRADO et al., 2006). A tecnologia é a maneira de conhecer e se relaciona ao domínio ético, uma vez que sua utilização sempre envolve escolhas com relação à finalidade de seu uso, aos interesses que irá servir, aos desejos que irá satisfazer, ao status que ocupará, como meio ou fim (SANDELOWSKI, 1996). Para Merhy (1997), a tecnologia encontra-se nos diferentes saberes que procuram ler o nosso mundo humano do ponto de vista da saúde e da doença, do normal e do patológico, da vida e da morte, buscando construir procedimentos eficazes de intervenção nesses processos. Em síntese, o saber tecnológico é o saber fazer. Para se repensar novas modelagens assistenciais, assentadas em diretrizes como a integralidade do cuidado, há que se aprofundar o debate sobre novos fundamentos teóricos, particularmente sobre a natureza do processo de trabalho, sua micropolítica e a importância da compreensão da organização da assistência à saúde. Frente ao quadro atual de transição epidemiológica e demográfica, com a predominância das doenças crônicas não transmissíveis e a ampliação da população de idosos, cresce a demanda por agregação de tecnologias (MALTA et al., 2006). Por conseguinte, o que se busca é potencializar o trabalho cuidador, no qual o profissional, ao se relacionar com o usuário, no momento da assistência ou no espaço intercessor, que é o espaço do encontro entre o usuário e o profissional de saúde, libere trabalho vivo, em ato, nesse momento singular e cuidador (MALTA; MERHY, 2003). De acordo com Merhy et al. (2006), a humanização do atendimento, como tecnologia leve, é uma forma de gerenciamento do trabalho nas relações, enquanto a atenção integral é tida como gerenciadora dos processos de trabalho humanizado. De modo geral, todas as tecnologias se fazem necessárias nos processos de produção em saúde e, nessa perspectiva, Pereira (2001) afirma que não cabe haver hierarquização de valor das tecnologias; a depender da situação, todas são importantes, porém, não se deve esquecer que, em todas as situações, as tecnologias leves precisam estar sendo operadas. Assim, o cuidado e a tecnologia aqui considerada como guia possuem aproximações que fazem com que se obtenham subsídios para desenvolver o cuidado de forma organizada e fundamentada cientificamente. 23 3 METODOLOGIA DA PESQUISA A estratégica metodológica numa investigação científica corresponde ao instrumento para o enfrentamento da realidade. A abordagem qualitativa foi a escolhida para esta pesquisa, por responder questões particulares, preocupando-se com aspectos que não podem ser quantificados, pois se trabalha com um universo de significados, valores e atitudes. Ela requer como atitudes fundamentais a abertura, a flexibilidade, a capacidade de observação e de interação com o grupo de investigadores e com os atores sociais envolvidos. Seus instrumentos costumam ser facilmente corrigidos e readaptados durante o processo de trabalho de campo, visando às finalidades da investigação (MINAYO, 2000). Além da abordagem qualitativa, esta pesquisa é caracterizada como construtivista, sendo que nela o ser humano, como ser social e histórico, é responsável por manter ou transformar o contexto no qual se insere. Assim, é rejeitada a possibilidade de neutralidade por parte do investigador, bem como do ambiente pesquisado (VIGOTSKY, 2011). No construtivismo, o rigor e a qualidade dependem da confiabilidade, da autenticidade e obrigatoriamente devem beneficiar a todos os envolvidos na investigação (RODWELL, 1994). O construtivismo foi à opção escolhida por ser um método de construção do conhecimento que também se aplica à pesquisa que busca flexibilidade e adaptação, que expõe a sensibilidade da relação entre o investigador e os pesquisados, partindo da interação entre o racional e o intuitivo na análise do fenômeno (VIGOTSKY, 2011). Para fins científicos, esse método de pesquisa oferece também uma reflexão acerca do comportamento humano em constante influência e inter-relações com o contexto histórico, cultural e social, identificando o trabalho como um importante meio de relacionamento entre as pessoas e a natureza, determinando linhas alternativas de investigação de um fenômeno (RODWELL, 1994). De forma complementar o construtivismo é definido como método interacionista e epistemológico (MATUÍ, 1995). Sendo assim, o conhecimento não provém só dos objetos externos nem só do sujeito, mas da interação existente entre o sujeito e objeto. A abordagem construtivista, como método emergente de pesquisa, considera o ser humano como o centro do seu percurso em direção à construção do conhecimento. Isso significa que o ser humano constrói, ao longo dos anos, o seu mundo, sua história de vida, de maneira própria, única, baseado nas experiências pessoais, na interação com o outro, com os grupos, assim como com a organização/instituição e o ambiente. Ele traz consigo valores, 24 sentimentos, crenças, atitudes, comportamentos, habilidades, competências, conhecimentos que interferem, de forma positiva e/ou negativa, na sua práxis e, consequentemente, na construção do saber expresso ou velado no seu ser, viver e fazer (SIQUEIRA; ERDMANN, 2007). O construtivismo é uma teoria do conhecimento que estabelece uma estrutura com dois polos, o sujeito histórico e o objeto cultural em interação recíproca, num movimento dialético e sem interrupção das construções já acabadas, para sanar as lacunas ou necessidades. O construtivismo é dialético e supõe uma visão de totalidade integradora. É movimento de mudança e transformação. Por ser dialético, supera os conflitos e desequilíbrios para atingir níveis estruturais qualitativamente superiores (MATUÍ, 1995). A elaboração desta proposta de construção do guia instrucional de cuidados integrais foi concebida por meio da técnica de grupo focal — ―um tipo de entrevista em profundidade realizada em grupo. Tem como objetivo a discussão de um tópico em grupo. O grupo focal é também chamado de entrevista focalizada de grupo, entrevista profunda em grupos e reuniões de grupos‖ (MARTINS; THEÓPHILO, 2007, p. 88). A técnica do grupo permite ao pesquisador não só examinar as diferentes análises das pessoas em relação a um tema. Ela também proporciona explorar como os fatos são articulados, censurados, confrontados e alterados por meio da interação grupal e, ainda, como isso se relaciona à comunicação de pares e às normas grupais (KITZINGER; BARBOUR, 1999). Nesta investigação, o foco foi à construção de um guia instrucional de cuidados que contemple as necessidades dos familiares cuidadores com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar. A pesquisa se desenvolveu no setor de clínica médica cirúrgica de uma instituição hospitalar localizada na região do Médio Vale do Itajaí (SC). Trata-se de um hospital geral de médio porte, filantrópico, inaugurado em 30 de setembro de 1951, tendo a seguinte missão: Oferecer avançada e inovadora atenção à saúde, proporcionando conforto, segurança e crescente humanização dentro dos padrões científicos e tecnológicos melhorando a qualidade de vida dos clientes internos e externos em uma estrutura auto-sustentável (HOSPITAL BEATRIZ RAMOS, 2006). Fizeram parte desse processo investigativo: os familiares dos idosos considerados, neste contexto, como cuidadores com diferentes graus de parentescos, e os profissionais da área de enfermagem da instituição hospitalar que compõem o corpo técnico da área de clínica 25 médica. Com relação aos cuidadores, consideraram-se os vínculos estabelecidos, que vêm ao encontro dos vários tipos de famílias constituídas (CRAVEN; HIRLENE, 2006). Nesta pesquisa foram considerados os filhos, esposos e pessoas com outros graus de parentesco, como sobrinhos, sobrinhas, tias, tios, irmãos, noras, demais integrantes da família e cuidadores contratados. Fizeram parte do estudo os familiares que estavam com o idoso com mais de cinco dias de internação e com alta hospitalar prescrita. Em relação aos profissionais da área de enfermagem, foram convidados os de nível superior que atuam no local de internação dos idosos, a clínica médica. Portanto, os integrantes do estudo corresponderam aos familiares e enfermeiros. Embora o convite tenha sido extensivo a outros profissionais da saúde, não houve adesão destes por motivos particulares e/ou profissionais. Participaram espontaneamente cinco familiares e quatro enfermeiros, além do moderador (pesquisador). Foram constituídos dois grupos distintos. O grupo de familiares apontou as necessidades de cuidados, mostrando as dificuldades de cuidar no domicílio, haja vista que vivencia cotidianamente os cuidados com os idosos depois da alta hospitalar e, logo, tem elementos e argumentos expressivos. O grupo de enfermeiros contribuiu na elaboração técnica das orientações para comporem o guia instrucional e na reflexão sobre a importância de se ter instrumentos práticos constituídos que facilitem o ato de cuidar no domicílio pelos cuidadores familiares. As entrevistas foram programadas para o período diurno, coincidente com o horário de trabalho dos enfermeiros. Coube ao pesquisador negociar com a administração hospitalar a liberação dos profissionais para participarem do grupo focal sem que houvesse prejuízo pessoal e profissional. Os encontros do grupo ocorreram em horários predeterminados e negociados. De maneira didática, optou-se por não misturar os dois grupos para que cada um pudesse se expressar livremente durante os encontros, considerando-se os distintos propósitos. Os encontros foram promovidos em duas etapas de uma hora e trinta minutos, totalizando dois encontros para cada grupo. O primeiro encontro reuniu os profissionais de saúde e o segundo, os familiares cuidadores, com reunião no mesmo dia em horários diferentes. Os outros dois encontros ocorreram num intervalo de dois dias com os mesmos componentes. Os quatro encontros foram gravados para que não se perdesse o conteúdo discutido. Os sujeitos participantes desta pesquisa indicaram os caminhos para a elaboração do 26 guia instrucional na intenção de orientar atitudes estratégicas dialógicas e reflexivas para o desenvolvimento do processo de cuidar do idoso no domicílio. Partindo-se da perspectiva construtivista, cada grupo foi considerado legítimo e teve autonomia para decidir, haja vista que o guia instrucional de cuidado integral construído deve atender às necessidades de seus componentes dentro do seu contexto sociocultural sem a preocupação da generalidade. Inicialmente foi feita a apresentação do moderador, dos objetivos da pesquisa e dos participantes: enfermeiros e familiares cuidadores. Optou-se por realizar uma dinâmica de apresentação na qual cada participante apresentava outro, mesmo que não o conhecesse. Foi interessante essa atividade porque houve quebra da formalidade do trabalho e socialização dos grupos, favorecendo a relação de troca. Com a apresentação dos objetivos foram surgindo questionamentos e percepções entre os profissionais enfermeiros, principalmente no que se refere aos fatores de orientações e déficits de cuidados que as famílias cuidadoras apresentam e que, posteriormente, são as causas da internação e reinternação hospitalar. Para o grupo de enfermeiros, o moderador lançou o questionamento: Vocês estão presentes no ato e no momento da alta do idoso e orientam os familiares quanto aos cuidados que devem ser prestados no domicílio? Os enfermeiros assumiram a dificuldade em estarem presentes durante a alta do idoso, justificando-a pelas várias atividades que desempenham no trabalho diário, mas reconheceram a importância da proposta no sentido de contribuir para a redução dos casos de reinternação hospitalar. Embora a educação de pacientes e familiares seja reconhecida como importante componente de uma boa prática na reabilitação, relativamente pouco se tem estudado sobre as suas necessidades de aprendizado durante a alta hospitalar. Portanto, compreender as dúvidas e interesses que os cuidadores possuem pode garantir que a informação dada seja relevante (MCLENNAN; ANDERSON; PAIN, 1996). O primeiro encontro com os enfermeiros serviu para contextualizar o método investigativo, recolher a opinião deles quanto à situação dos idosos na ambiência hospitalar e estimular a reflexão acerca da atuação do profissional de saúde durante o processo de alta hospitalar. Os familiares cuidadores, componentes do segundo grupo, falaram sobre as orientações pertinentes às patologias dos idosos, porém, argumentaram que as orientações de cuidados recebidas na alta hospitalar para o domicílio são poucas. Declararam temer não 27 saber realizar os cuidados simples da vida diária dos idosos e ressaltaram a falta de um instrumento que os auxilie nos cuidados básicos, o que, na maioria das vezes, acaba fazendo com que o idoso seja levado para o serviço de emergência e, posteriormente, reinternado. Nos dois encontros com esse grupo teve-se a intenção de coletar informações sobre as dificuldades sem a preocupação de construir com ele o guia instrucional. Depois dos dois encontros com os cuidadores e de um com os enfermeiros, o moderador ouviu várias vezes as gravações das falas e levantou as semelhanças ou similaridades de ambos os grupos com relação às dificuldades de execução dos cuidados no domicílio. Com as informações já assinaladas, o moderador elaborou um esboço dos temas a serem abordados no guia instrucional com as devidas orientações descritas para serem apresentadas no segundo encontro com os enfermeiros. Vale destacar que essa proposta prévia teve como único propósito instigar a reflexão para impulsionar a discussão durante o encontro e os enfermeiros poderiam já trazer sugestões de acréscimo ou exclusão. Foram fornecidos materiais de apoio, como textos teóricos e folhas para anotação, quadro flip chart e canetas. Durante a reflexão do grupo, os enfermeiros foram unânimes em afirmar que a elaboração de um guia instrucional para o cuidado do idoso no pós-alta hospitalar pode ser uma ferramenta de auxílio aos cuidadores familiares para que estes realizem com maior segurança os cuidados necessários e possíveis no âmbito domiciliar. Ao final da atividade, o grupo concordou com os resultados e encaminhamentos realizados, ressaltando a importância dessas orientações de cuidados para os familiares cuidadores. Dessa forma, o construtivismo foi utilizado como ancoragem de metodologia, mas não se confirmou em sua plenitude metodológica devido ao tempo e à disponibilidade das pessoas no processo para a construção. Com a finalidade de proporcionar momentos de descontração e como forma de agradecimento pela participação, ao final de cada encontro foi oferecido um lanche. O diálogo ocorrido durante os encontros de ambos os grupos estão apresentados no capítulo de apresentação e análise dos resultados e a partir dele foram construídas as orientações para a pós-alta hospitalar do idoso, que constituem o corpus da tecnologia. A análise deste estudo foi feita de modo a relatar todo o processo de construção até a sua finalização alicerçada no embasamento teórico. Não se pretende analisar a aplicabilidade em lócus do produto, pois se considera que isso implica a realização de nova pesquisa. Na consecução desta pesquisa foram respeitados os preceitos estabelecidos pela Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, segundo a qual as pesquisas que 28 envolvem seres humanos devem atender exigências éticas e científicas fundamentais. Essa Resolução incorpora, sob a ótica do indivíduo e da coletividade, os referenciais básicos da bioética: autonomia, não maleficência e justiça, dentre outros, e visa assegurar os direitos e deveres que dizem respeito à comunidade científica, aos sujeitos da pesquisa e ao Estado (BRASIL, 2012). Nesta pesquisa, todos os participantes assinaram previamente o termo de consentimento livre e esclarecido (apêndices B e C). Eles foram informados sobre a possibilidade de desistirem do estudo a qualquer tempo se assim desejassem e sobre a garantia do anonimato e sigilo das informações colhidas, além do acesso aos resultados da pesquisa. Como as reuniões dos grupos focais ocorreram dentro de uma instituição hospitalar, a coordenação do hospital também assinou um termo de consentimento, autorizando o uso das instalações e a liberação dos profissionais, após ter sido informada sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa pela coordenação do mestrado (Apêndice A). O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e aprovado sob o Parecer nº 115.175, em 28 de setembro de 2012. 29 4 CONSTRUINDO AS TEMÁTICAS PARA O CUIDADO AO IDOSO NO DOMICÍLIO Essa construção ocorreu a partir do diálogo realizado entre os participantes de ambos os grupos: enfermeiros e familiares cuidadores. Optou-se em apresentar as falas em conjunto, sem separação por grupo, identificando-se os participantes com a abreviatura Enf. (enfermeiro) e as letras FC (familiar cuidador), seguidas de um numeral, para garantir seu anonimato. A partir das falas foram elencadas as temáticas mais pertinentes que nortearam as recomendações de orientação de cuidados aos idosos na ambiência domiciliar. Constatou-se a necessidade de expor as temáticas em duas partes: 1) Cuidados específicos: higiene (oral, íntima e corporal); alimentação e hidratação (oral e por dispositivo); cuidados cutâneos: pele, queimadura, úlceras de decúbito e de perna; medicação; quedas, fraturas e ambiência; 2) Cuidados gerais: cuidado com o cuidador; aspectos emocionais do idoso; despreparo da família para o cuidado e referência e contrarreferência. 4.1 CUIDADOS ESPECÍFICOS 4.1.1 Higiene: oral, íntima e corporal Verificou-se que a higienização dos idosos no tocante à higiene oral, íntima e corporal foi um dos pontos de grande preocupação tanto para os enfermeiros quanto para os familiares cuidadores. Destaca-se que, durante a hospitalização, a equipe de enfermagem tem a preocupação de ensinar procedimentos e tirar dúvidas dos familiares. Com referência à higiene oral, os enfermeiros comentaram: ―Cuidados com próteses dentárias, às vezes ele já não traz, por que às vezes ele quer usar a dentadura, mais ele não está em situação. [...] E a gente percebe que a família também tem muito nojo da prótese dentária, então quando a gente faz a remoção, realmente vem num estado deplorável de higiene‖ (Enf. 1). ―E esta falta de higiene oral, é o que dificulta às vezes a deglutição. Estão sendo ofertados pra esse tipo de paciente, esse idoso, alimentos que ele na verdade não poderia estar comendo‖ (Enf. 2). ―[...] verbalizam mesmo que eles têm nojo da dentadura do paciente, e a gente realmente quando retira, percebe que não está sendo feita à higiene da prótese‖ (Enf. 1). 30 ―A higiene oral é um dos maiores déficits que a gente vê‖ (Enf. 5). A educação em saúde prestada aos familiares durante a hospitalização é uma das estratégias que deveriam ser adotadas de modo contínuo, evitando assim à re-hospitalização. Orientações nesse sentido são relevantes na tentativa de solucionar os déficits de cuidados salientados pela Organização Mundial da Saúde, no documento publicado em 2005 e intitulado Oral heath in ageing societies (WHO, 2005). Esse documento enfatiza que a saúde oral é essencial para a saúde geral, sendo fator determinante para a qualidade de vida, ou seja, saúde oral e saúde geral estão fortemente associadas. De acordo com o levantamento epidemiológico em saúde bucal realizado no Brasil pelo Ministério da Saúde de 2002 a 2003, o edentulismo se apresenta como um grave problema no grupo etário de 65 a 74 anos, constituindo, assim, um aspecto importante a ser considerado nos cuidados quando de uma internação hospitalar no que se refere à limpeza de próteses e dentes de forma adequada (BRASIL, 2005). Agrava-se essa preocupação quando se constata que os problemas odontológicos são bem comuns, podendo ser relatados os seguintes: atrição dentária; perda dos dentes; atrofia do osso alveolar e osso basal; alterações na mucosa bucal, língua, glândulas salivares, articulação têmporo-mandibular, flora microbiana e incidência de neoplasias malignas (FEIJÓ, 1993; LINDLE, 1992). Ainda aprofundando essa questão, a ausência de dentes e de uso de próteses totais por pessoas idosas são decorrentes de cáries não tratadas e da periodontite, embora essas causas possam ser preveníveis com a tecnologia atual. A perda de apetite em idosos tem sido geralmente relacionada com ausência de elementos dentários e com o uso de próteses (CORMACK, 1998). O edentulismo pode também ser oriundo da falta de coordenação motora para a realização das técnicas corretas de higiene e da capacidade de autopercepção do indivíduo quanto às alterações presentes na cavidade oral (PASSERO; MOREIRA, 2003). A higiene oral do idoso é um fator indispensável para o envelhecimento saudável e uma boa qualidade de vida. O quadro de saúde bucal do idoso reflete nitidamente as condições desiguais em que as pessoas vivem e trabalham (PUCCA JÚNIOR, 2002). A higiene oral é uma prática utilizada para limpar a cavidade bucal, em especial os dentes e a língua. Tal higiene deve incluir a escovação dos dentes, limpeza da língua, o uso do fio dental, além de cuidados com dentaduras e pontes móveis (TIMBY, 2001). De acordo com Gil-Montoya et al. (2006), os idosos funcionalmente dependentes 31 demandam protocolos de higiene bucal adaptados e adequados às limitações apresentadas, preconizando a remoção diária de placa bacteriana dos dentes e próteses, higienização da mucosa bucal e contínua hidratação bucal, utilizando-se de instrumentos especiais, como escovas dentais elétricas, soluções contendo clorexidina, dentifrícios fluoretados e géis para hidratação bucal (no caso de redução do fluxo salivar). De outro modo, a higiene oral desses idosos dependentes deve ser feita com a cabeceira do leito elevada, após cada refeição, observando-se se há sangramentos. As próteses devem ser escovadas com cerdas duras, seguindo-se de limpeza da gengiva e língua com gaze umedecida em água filtrada e solução antisséptica, envolvida em uma espátula, três vezes ao dia. A prótese, quando não estiver em uso, deve ser guardada em recipiente fechado com tampa (CONCEIÇÃO, 2010). Com referência à higiene íntima, destacam-se as seguintes falas: ―Isso mesmo, eles acabam limpando, sabem trocar a fralda e tal, mais eles acabam esquecendo‖ (Enf. 1). ―A gente fez a higiene íntima, vai ser utilizada tal pomada pra prevenção da assadura. Esse vermelhão, essa dermatite de fralda, dá pra deixar sem a fralda ou não dá, dá pra pegar sol ou não dá‖ (Enf. 3). ―Cuidar da higiene íntima dele, quando ele não puder fazer sozinho, e quando ele estiver fazendo sozinho, tem que ver, porque o idoso é teimoso. Eles querem tomar banho sozinho, eles estão usando fralda, mas sabe. Então vai da família estar observando aquele idoso, observando como ele está‖ (Enf. 5). Potter e Perry (2004) referem que a higiene íntima faz parte do banho completo, consistindo na limpeza meticulosa da região perineal. Essa limpeza pode e deve ser realizada isoladamente, conforme a necessidade do utente, principalmente quando acamado. A higiene íntima, quando realizada de forma correta, pode evitar complicações complementares ao paciente idoso, além de sua enfermidade principal — neste caso, têm-se as complicações provenientes de infecções do trato urinário, sendo as infecções bacterianas mais comuns em populações idosas (NICOLLE, 2000). É de conhecimento prévio que os idosos que apresentam infecção urinária utilizam fraldas geriátricas durante todo o dia impreterivelmente. Porém, a fralda molhada no corpo por muito tempo pode provocar assaduras e feridas na pele (LEE, 1996). Portanto, a orientação da troca das fraldas, limpeza e desinfecção de toda a área íntima, a cada troca, faz- 32 se necessária tanto quando da internação como no tratamento no pós-alta hospitalar que será realizado por um cuidador. Tanto enfermeiros como cuidadores familiares mostraram sua preocupação quanto aos cuidados com a higiene corporal: ―Cuidados com a higiene corporal também, isso é fundamental‖ (Enf. 5). ―Minhas dúvidas, até mesmo pra eu ver de que forma que eles agem ali, pra eu ter um exemplo de como agir em casa, por exemplo, de que forma que eles levam para o banho, às vezes em casa eu estou fazendo de uma forma incorreta‖ (FC2). O relato dos profissionais de enfermagem e dos cuidadores revelam as dificuldades e a importância da higiene corporal como parte do tratamento do idoso internado no hospital e também no pós-alta hospitalar. Para Maciel e Bocchi (2006), o banho no leito é uma experiência que se configura como de difícil superação, envolta de estresse e de comprometimento da autoestima, causados pela perda da autonomia para os cuidados de higiene, pelo constrangimento da exposição corporal, bem como por não serem conferidas as mesmas sensações de limpeza e de conforto proporcionadas pelo banho no chuveiro. Portanto, sempre que possível, o banho deve ser dado no chuveiro. O banho no leito, quando necessário, requer o uso de sabonete neutro, sem bucha para esfregar a pele, que já é bem afilada, com preferência para o uso de água morna. A pele deve ser logo secada após o banho, seguida de hidratação com creme ou vaselina líquida, e as vestimentas devem ser adequadas à temperatura ambiente (CONCEIÇÃO, 2010). A higiene corporal, de acordo com Silva (1998), tem como finalidade o conforto do paciente, bem como a estimulação da circulação sanguínea. Manter o corpo limpo contribui para a integridade da pele e para a defesa do corpo da invasão de organismo patógenos. Quando realizada, estimula a circulação, proporciona bem-estar e mantém o paciente livre de impurezas. Nesse caso, nota-se que, além da técnica do banho, que deve ser repassada aos cuidadores, há que se considerar a possibilidade de constrangimento do idoso e de seu cuidador, em razão de a pessoa se sentir ―invadida‖ em sua privacidade, requerendo atenção ao seu estado emocional — aspecto que será abordado no decorrer desta análise. A higiene dos pacientes constitui um aspecto fundamental no tratamento hospitalar e nos cuidados domiciliares posteriores. Por isso, há sempre a necessidade de esclarecimento e 33 ensinamentos para todo o corpo técnico responsável por esse cuidado, a fim de que tal procedimento seja feito de forma correta, assim como de orientação aos cuidadores para também o fazerem, posteriormente, de forma adequada. 4.1.2 Alimentação e hidratação: oral e por dispositivo A alimentação e hidratação oral ou por dispositivos invasivos são fundamentais para o pronto restabelecimento do paciente idoso quando do adoecimento, assim como para levar uma vida normal e saudável. É imprescindível, portanto, que profissionais de saúde e cuidadores tenham conhecimento sobre a forma correta de utilizar esses meios de ingestão e sobre as dificuldades de deglutição dos idosos. Nesse ponto, acentua-se a necessidade de repasse de informações, durante a hospitalização, por parte da enfermagem, e a preocupação de aprender dos cuidadores para agirem em situações de ajuda ao idoso no pós-alta hospitalar. As falas transcritas a seguir demonstram a importância de uma alimentação correta e saudável: ―Oferecer uma alimentação adequada rica em vitaminas, carboidratos adequados e saudáveis pode melhorar inclusive nas cicatrizações mais rápidas‖ (Enf. 2). ―É onde vão faltar as vitaminas, os carboidratos e os sais minerais. [...] começa a ficar pálida, e a emagrecer‖ (Enf. 4). ―Aquela diabetes, difícil de compensar. Quando eles dizem – Eu não como doçura. Hoje só comi três fatias de pão. Então, eles não entendem que o carboidrato também vai virar açúcar‖ (Enf. 5). ―Então a nutrição tem que fazer parte, com certeza, da orientação‖ (Enf. 3). ―Que estratégia que o acompanhante ou o familiar deste idoso deve ter na hora da alimentação‖ (Enf. 2). ―No verão não modifica muito a alimentação deles, continua sendo a polenta, um pouco de feijão, então você não vê que tem frutas, sucos, hidratação‖ (Enf. 1). ―E às vezes eles acham que a alimentação que a paciente precisa é cara, e não é. Pelo contrário, são as frutas, o legume e as verduras que é acessível, por que isso ele pode até ter em casa‖ (Enf. 3). ―Por exemplo, fazer uma comida sem sal, tenta tirar o doce que a gente sabe que não pode... Mas a gente também tem que ter orientação porque às vezes nem a gente sabe o que fazer‖ (FC2). ―Minha mãe tem dificuldade para deglutir. Que tipo de alimentação é melhor oferecer para ela? Minha mãe se alimentava sozinha até certo tempo, depois nós passamos a alimentar com a sonda, pois é importante o idoso se alimentar‖ (FC3). 34 ―Eu já tenho certa dificuldade neste sentido. Estou a maior parte do tempo ausente, então por mais que eu o oriente, eu não estou ali presente pra ver se ele está fazendo realmente a coisa certa na alimentação‖ (FC2). ―Vai ter que fazer como a gente fazia. Chegava com a alimentação pertinho, colocava para ela na posição certa. Sentava ela‖ (FC4). O envelhecimento é um processo comum a todos os seres vivos, sendo influenciado por múltiplos fatores (biológicos, psicológicos, econômicos, sociais, culturais). É um fenômeno dinâmico e progressivo, no qual modificações morfológicas, funcionais e bioquímicas podem interferir na capacidade de adaptação do indivíduo ao meio social em que vive, tornando-o mais vulnerável aos agravos e doenças e comprometendo sua qualidade de vida (SOUZA; SKUBS; BRÊTAS, 2007). Várias são as teorias que procuram explicar o envelhecimento do ponto de vista biológico. Algumas enfatizam o possível controle genético do envelhecimento celular, outras se referem a agressões externas às quais as pessoas estão permanentemente expostas, como a alimentação e a hábitos alimentares inadequados ao longo de suas vidas. Em ambos os casos, o resultado seria uma síntese proteica deficiente, com consequente disfunção dos tecidos e dos sistemas que compõem o organismo humano (FARINATTI, 2002). Acredita-se que o processo de envelhecimento natural, quando aliado a uma deficiência alimentar ao longo da vida, pode causar danos e consequências nas fases mais avançadas da vida. Dentre essas decorrências estão a institucionalização dos idosos em clínicas e acompanhamento necessário de cuidadores em seu dia-dia. Entre os fatores que podem contribuir para a institucionalização do idoso estão a ausência de familiares ou pessoas disponíveis para cuidar de sujeitos mais velhos em situação de dependência, o aumento na proporção de pessoas idosas com declínio da capacidade funcional, a escassez de serviços de apoio social formal de saúde e da rede de suporte social informal ao idoso e o alto investimento do cuidado domiciliar (CREUTZBERG; GONÇALVES; SOBOTTKA, 2008). Diante das dificuldades encontradas e que levam para a institucionalização do idoso, o Ministério da Saúde (BRASIL, 2010) recomenda a alimentação diária em cinco ou seis refeições durante o dia e orienta que três refeições básicas devem ser feitas: desjejum, almoço e jantar, intercaladas com dois ou três pequenos lanches: colação (lanche leve pela manhã), lanche da tarde e ceia (lanche noturno leve). Essa distribuição estimula o funcionamento do intestino e evita que se coma fora de hora. 35 Todavia, é importante estabelecer horários regulares para as refeições, com intervalos para atender às peculiaridades da fisiologia digestiva da pessoa idosa, considerando que sua digestão é mais lenta. O ajuste dos horários de refeição contribui para garantir o fornecimento de nutrientes e energia, maior conforto e apetite para a pessoa idosa. Outro ponto salientado como importante para o idoso na pesquisa é a hidratação oral: ―A gente percebe que a maior dificuldade que a família tem é de manter o idoso hidratado, então o idoso já vem desidratado por falta de ingesta hídrica‖ (Enf. 1). ―Eles se desidratam facilmente, pela dificuldade da deglutição, né, que eles têm e também por falta de orientação das famílias né, do cuidador que está ali direto com esta paciente‖ (Enf. 2). ―Às vezes, além de desidratados, [...], que além da falta de tomar água, eles se desidratam pelo período no sol‖ (Enf. 1). ―Ele não gosta de tomar água, mas ele tem que tomar água, então, estar estimulando a ingesta hídrica daquele idoso‖ (Enf. 1). ―Fico em dúvidas sobre a alimentação adequada de líquidos para o paciente idoso‖ (FC 2). O estado de hidratação é fator de relevância em geriatria. No idoso, a desidratação se torna frequente, podendo desencadear outras doenças como enfermidades infecciosas e cerebrovasculares, que, neste último caso, muitas vezes, apresenta-se como um quadro de delirium (NOGUÉS, 1995; MORIGUTI et al.,1998). Segundo Moraes (2008), as mudanças que ocorrem no metabolismo hidroeletrolítico predispõem o idoso à desidratação. A redução da água corporal é acompanhada da diminuição da massa muscular e massa óssea causada por alterações neuroendócrinas, sendo mais evidentes no sexo masculino. Isso contribui para uma maior tendência à redução do peso corporal, redução na força muscular, mobilidade, equilíbrio, com maior predisposição a quedas e imobilidade física (MORAES, 2008). Para mitigar esses problemas causados pela falta de ingesta líquida e incentivar a reposição de líquidos, tão importante nessa faixa etária, alguns autores sugerem o consumo de água e sucos de frutas variados e atrativos, além de chás digestivos e calmantes (CAMPOS; COELHO, 2003). No processo de envelhecimento natural do ser humano, de acordo com Akhtar, Shaikh e Funnye (2002), os seguintes fatores podem agir juntos ou isoladamente: problemas de mastigação por deficiência da arcada dentária ou por próteses inadequadas; diminuição do volume de saliva por uso de medicações e doenças associadas; diminuição da força máxima 36 da língua; diminuição da pressão da parte oral da faringe; redução do limiar de excitabilidade de deglutição; presença de penetração no vestíbulo laríngeo; diminuição dos reflexos protetivos; aumento da incidência de refluxo gastroesofágico e de enervação senil do esôfago. Esses fatores são agravados durante o processo de doença e apresentam complicações no período de internação no que tange à necessidade de alimentação por meio de dispositivos invasivos. Acredita-se que os episódios de aspiração são frequentes entre idosos e têm consequências graves, sendo considerada uma das maiores causas de morbimortalidade nessa população (LANGMORE, 1998). Os idosos impossibilitados de se alimentar por via oral, devido à dificuldade de deglutição, ou que necessitam aumentar o suporte nutricional por causa de baixas ingestas, passam a se alimentar por meio de dispositivos invasivos; em termo técnico, é a alimentação por sondas (enteral ou gástrica). Esse assunto foi discutido pelos grupos focais: ―Um das outras causas desse processo de reinternação é a retirada de sonda, de troca de sonda, daí acaba vindo pro pronto-socorro, e o médico acaba internando por que acaba visualizando outros problemas deste paciente idoso que estava em casa e que volta pro hospital‖ (Enf. 1). ―Como ele vai pegar essa seringa, que a cada 24 horas tem que ser trocada, pra não obstruir a sonda‖ (Enf. 2). ―Às vezes tem cuidados com sondas né, então a gente durante a internação está manipulando, mais estar chamando o acompanhante, olha é assim que passa uma dieta, quando termina uma dieta é assim que se passa a água‖ (Enf. 3). ―Aí quando não, a gente passava a sonda em casa, por que ela fez cirurgia e tudo [...] sendo importante pra ela nesse momento‖ (FC4). ―Minha mãe tem dificuldade para deglutir. Que tipo de alimentação é melhor oferecer para ela? Minha mãe se alimentava sozinha até certo tempo, depois nós passamos a alimentar com a sonda, pois é importante o idoso se alimentar‖ (FC3). A sonda enteral é um dispositivo invasivo, inserido no nariz, com a finalidade de se administrar alimentos sempre que houver contraindicação ou impossibilidade de se utilizar a via oral fisiológica. Ressalta-se, porém, que o tubo digestivo deve estar presente, com capacidade de absorção, total ou parcial, conservada (UNAMUNO; MARCHINI, 2002). Já a sonda nasogástrica é aquela inserida no nariz, alcançado o estômago. As sondas nasogástricas são menores em diâmetro do que as orogástricas, embora sejam maiores e mais curtas do que as nasoentéricas. Algumas possuem mais de um canal, ou lúmen, em seu 37 interior (TIMBY, 2001). A infusão da dieta por via enteral ou por sonda nasogástrica sempre deve ser feita com o paciente sentado ou na posição semissentado pelo menos a 45 graus. Essa posição deve ser mantida durante uma hora após a administração da dieta. Tal cuidado previne o refluxo, oferecendo mais conforto ao paciente (METHENY; EINSENBERG; Mc SWEENEY, 1988). Para eliminar os resíduos de gordura e restos de dieta, que podem obstruir a luz da sonda, ela deve ser irrigada com 20 ml de água, de preferência morna, após cada administração de dieta ou medicamentos (METHENY; EINSENBERG; Mc SWEENEY, 1988). Esses meios de ingestão, para serem usados de forma correta, requerem entendimento de sua importância e de técnicas para adotá-los, caso o idoso esteja sendo alimentado por dispositivos. Também as dificuldades em deglutição devem ser compreendidas. Evidencia-se, assim, a necessidade de repasse de conhecimentos, pelos enfermeiros aos cuidadores, durante a hospitalização e do interesse de aprender dos cuidadores quando tiverem em situações de ajuda ao idoso na pós-alta hospitalar. 4.1.3 Cuidados cutâneos: pele, queimadura, úlceras de decúbito e de perna Os problemas de pele do idoso são reflexos característicos da elasticidade da pele diminuída que se torna sensível a fatores externos que podem surgir das mais variadas fontes, dentre elas os déficits de cuidados no processo do envelhecimento e também ao adoecer. No envelhecimento ocorrem mudanças estruturais no sistema tegumentar caracterizadas pelo achatamento da articulação dermoepidérmica, variação no tamanho das células epiteliais, forma e corante das células basais, menores números de células e melanócitos (HUDAK; GALLO, 1997). Da mesma forma que as demais temáticas já descritas, os cuidados com a pele precisam ser esclarecidos aos cuidadores na pós-alta hospitalar dos pacientes idosos. Esses cuidados podem ser repassados pela área de enfermagem para que não se agravem o desconforto do paciente idoso e outras doenças pré-existentes. Os relatos apontam: ―Hidratações com loções mesmo na pele, pra evitar fissuras e ressecamentos‖ (Enf. 1). ―Esse vermelhão, essa dermatite de fralda, dá pra deixar sem a fralda ou não dá, dá pra pegar sol ou não dá‖ (Enf. 3). ―Deixou fezes ainda em contato com a pele daquele paciente, vai ter assadura, vai ter infecção 38 urinária‖ (Enf. 3). ―É, minha mãe mesmo, ela está toda roxa nos braços assim, ela bate e fica roxo‖ (FC2). Entende-se que os cuidados cutâneos durante a vida poderão facilitar e propiciar ao idoso uma condição melhor ao adoecer, assim como os cuidados com o sol e a exposição diária aos raios ultravioletas. Nesse contexto, salienta-se o uso necessário das fraldas geriátricas e o conhecimento sobre as complicações do seu uso inadequado, provocando dermatites de pele ou simplesmente dermatite de fralda. A dermatite da fralda ou erupção das fraldas é uma desordem multifatorial dermatológica caracterizada por inflamação na área da fralda (PRASAD; SRIVASTAVA; VERMA, 2003; GUPTA; SKINNER, 2004). Essa dermatite tipicamente se apresenta sobre as áreas da pele que estão em maior contato com a fralda (ZANINI et al., 2003; SHIN, 2005). Sobre esse aspecto, acentua-se a necessidade imediata de os cuidadores saberem quais as implicações de uso da fralda no paciente idoso, visto que a pele já se encontra em estado frágil, proveniente do próprio processo de envelhecimento. É importante também entender que a pele do paciente idoso permite que qualquer choque provoque hematomas que devem ser analisados com cuidado para evitar julgamentos precipitados de agressão ou maus tratos. O risco de lesão da pele aumenta em virtude da diminuição da função de barreira. Por outro lado, há maior dificuldade em perceber estímulos traumáticos e agressivos devido à capacidade reduzida dos receptores sensoriais (DUARTE; DIOGO, 2000). De forma complementar, têm-se os cuidados com as queimaduras: ―Têm queimaduras do sol, não queimaduras graves, queimaduras de primeiro grau‖ (Enf. 1). Apesar da pouca citação, durante a pesquisa, com referência à queimadura em idosos, os estágios de queimadura do paciente idoso merecem atenção especial não somente para fatores intrínsecos da doença, mas também para outros fatores, como a vida que o paciente leva. O envelhecimento cutâneo é determinado por fatores intrínsecos, como a idade do indivíduo e sua genética, e extrínsecos, como exposição solar, agentes químicos e tabagismo. O envelhecimento intrínseco da pele se expressa como uma pele seca, enrugada e flácida, característica do idoso (BRANDÃO; BRANDÃO, 2006). 39 Os fatores externos têm relação com queimaduras comuns nessa fase de vida. São lesões cutâneas causadas pela ação direta ou indireta do calor e as principais causas são a chama direta, o contato com água fervente ou líquidos quentes (chamado de escaldamento), o contato com superfície aquecida, corrente elétrica e agentes químicos (VALE, 2005). Salienta-se a importância do cuidado da pele do paciente idoso que sofreu queimaduras, pois ele deve ser submetido à higiene corporal, limpeza da área atingida pela queimadura, uso de curativos adequados, e estimulado a realizar exercícios fisioterápicos, mesmo que esses procedimentos gerem dor e desconforto temporário (COST; ROSSI, 2003). Todo paciente que se encontra acamado pode a vir sofrer de úlceras de decúbito, caracterizadas por contato prolongado da pele em uma única posição, causando lesões nela. Essa situação no paciente idoso é agravada pela presença de déficit de mobilidade e pele já prejudicada. As falas dos enfermeiros refletem essa observação: ―E tem também a questão da úlcera de pressão que já vem de casa, um risco para infecção, que o familiar acha que não tem orientação de como cuidar em casa, de estar virando né‖ (Enf. 3). ―Mudanças de decúbito para pacientes que são acamados. Hidratações com loções mesmo na pele, pra evitar fissuras e ressecamentos‖ (Enf. 1). Com referência à úlcera de decúbito, sabe-se que a tolerância da pele à pressão é influenciada por fatores extrínsecos, como exposição da pele à umidade excessiva, fricção e cisalhamento, e fatores intrínsecos, entre eles: deficiência nutricional, idade avançada e diminuição da pressão arteriolar (BERGSTROM et al., 1987; FERNANDES, 2006). As lesões ocasionadas pela úlcera de pressão, também definidas como áreas de necrose tissular, tendem a se desenvolver quando o tecido mole é comprimido, entre uma proeminência óssea e uma superfície externa, por longo período de tempo (CARDOSO; CALIRI; HASS, 2004). Os fatores para a úlcera de decúbito estão associados às fragilidades decorrentes do processo de envelhecimento da pele e das condições peculiares de cada idoso, aliados ao tempo de imobilidade no leito, demandando planejamento de ações de reabilitação e recuperação do idoso (CARDOSO; CALIRI; HASS, 2004). O cuidado da lesão implica manutenção da perfusão tissular e preservação dos tecidos viáveis (MCCAIN; SUTHERLAND, 1998). Inclui a manutenção da ferida limpa e úmida, prevenção de infecções e proteção contra traumas, promoção da cicatrização, mantendo a mobilidade e funcionamento da parte afetada (HELVIG, 2002). Além dos cuidados citados, 40 Smeltzer e Bare (2005) asseveram que, independentemente do estágio da úlcera, deve-se eliminar a pressão sobre a área. Há outros tipos de lesões cutâneas além das úlceras de pressão, que merecem destaque, a exemplo, das úlceras de perna. ―Eu tenho a minha mãe também que internou só que assim eu fico bem preocupada, ela tem uma ferida na perna também que quando vou pra casa eu não sei como cuidar‖ (FC4). Apesar de poucos familiares apontarem a presença de úlcera de perna, cabe ressaltar que, quando associada a doenças pré-existentes, pode haver complicações mais graves. As úlceras de perna podem ser desencadeadas por diversos fatores, como alterações vasculares, metabólicas e hematológicas, mas a principal causa é a insuficiência venosa crônica. É importante usar coberturas protetoras para evitar o atrito à lesão e procurar soluções ou programas para melhor suporte nutricional, atividades e mobilidade (JOHNSON; PAUSTRIAN, 2005). Para os pacientes em que a cicatrização não é uma meta possível, o tratamento da úlcera de perna deve prevenir a infecção e futura deterioração da lesão na tentativa de propiciar conforto, preservando a sua qualidade de vida (CHAVES; GRYPDONOK; DEFLOOR, 2006). Segundo Bergstrom et al. (1994), os idosos dependentes e os cuidadores devem seguir cuidados e avaliação como: inspecionar a pele regularmente; realizar o banho individualizado e usar agente de limpeza suave, evitando água quente e fricção; usar barreira tópica para a umidade e absorventes higiênicos que absorvam a umidade e deixem a superfície seca; usar hidratantes adequados, evitando o frio e calor excessivos (podem causar ressecamento da pele); adotar o posicionamento correto, aliviando a pressão. Nesse sentido, os cuidados cutâneos são importantes para o não agravamento das enfermidades já instaladas, bem como para a manutenção da integridade cutânea dos idosos, proporcionando qualidade e bem-estar ao paciente. 4.1.4 Medicação A administração de medicamentos para o idoso no domicílio é responsabilidade do familiar cuidador ou até do próprio idoso. Quando feita de modo incorreto — em dose maior que a recomendada, por exemplo — pode causar uma série de problemas, inclusive 41 reinternação. Para diminuir possíveis erros é necessário que os profissionais de enfermagem estejam preparados para orientar familiares e cuidadores sobre o tratamento fora do ambiente controlado do hospital quando da alta do idoso. A medicação foi um dos itens que se destacou nos relatos, notadamente em razão das dúvidas, tanto de enfermeiros como de cuidadores, e da preocupação deles em relação ao cuidado com o idoso: ―Às vezes a orientação da medicação que seja pra tomar em casa ou alguma coisa assim, nem eles às vezes não entendem bem‖ (Enf. 5). ―[...] às vezes este cuidador em casa não está de olho nas medicações e o idoso acaba não tomando as medicações. Ele acha que o idoso já está bem e não precisa mais tomar aquele remédio. Então se não tiver aquele cuidador pra estar ali orientando e vendo o que ele precisa tomar e tal, ele vai acabar não tomando e internando de novo‖ (Enf. 3). ―É também toda a orientação quanto à medicação. Ele faz uso de medicação contínua, são vários tipos de medicação‖ (FC2). ―Simplesmente falta bastante essa orientação, então cabe a nós cuidadores estar dando a orientação em casa. Estar dando o medicamento, fazendo a divisão dos horários, estarem dando para ele, às vezes vai ter momentos que ele vai estar sozinho em casa. Pra ele poder identificar os horários, os tipos da melhor forma possível‖ (FC1). ―E o medicamento é fundamental ter o controle. Porque é ele que vai ter o tratamento curativo no nível do organismo desta pessoa, então se não orientar bem este acompanhante e der uma orientação certa para esses idosos, de quais são os horários, isso também é uma causa bastante comum de reinternações destes pacientes idosos né‖ (Enf. 2). Infere-se que a maior possibilidade de erros e descontroles no ato de ministrar medicamentos está fora do ambiente do hospital, considerado este último como um ambiente controlado. O erro de medicação é definido por Rosa e Perini (2003, p. 337) como: Qualquer evento evitável que, de fato ou potencialmente, possa levar ao uso inadequado de medicamento. Este conceito implica que o uso inadequado pode ou não lesar o paciente, não importando se o medicamento encontra-se sob controle de profissionais de saúde, do paciente ou consumidor. Considera-se os idosos o grupo etário mais medicalizado, o que evidencia a prática da polifarmácia. Além disso, esse grupo apresenta os maiores indicadores de prevalência e 42 incidência de comorbidades (LOYOLA FILHO et al., 2005). A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2006) assevera que mais de 50% dos medicamentos são prescritos ou dispensados de forma inadequada e que 50% dos pacientes tomam medicamentos de maneira incorreta, levando a alto índice de morbidade e mortalidade. Acrescenta que os tipos mais comuns de uso irracional de medicamentos estão relacionados às pessoas que utilizam polifarmácia — no caso desta pesquisa, o idoso — e ao uso inapropriado de antibiótico e de medicamento injetável, à automedicação e à prescrição em desacordo com as diretrizes clínicas. Para a Organização, a forma mais efetiva de melhorar o uso de medicamentos é a combinação de educação e supervisão dos profissionais de saúde, educação do consumidor e garantia de adequado acesso a medicamentos apropriados. Todavia, qualquer uma dessas estratégias, isoladamente, logra impacto limitado. Essas constatações corroboram pesquisas que mencionam existir baixas taxas de adesão dos idosos à terapêutica, constituindo um dos grandes problemas de saúde no mundo, face à elevada prevalência de doenças crônicas. O risco de baixa adesão aumenta com a duração e a complexidade do regime terapêutico e ambos são inerentes em situações de doença crônica (OMS, 2003). Isso inclui, entre outras causas, a falta de aconselhamento individualizado, a carência de informação escrita personalizada e reforço das instruções orais, inabilidade para recordar as informações previamente apresentadas e a falta de um ajudante ou auxiliar na hora de tomar a medicação (O'CONNELL; JOHNSON, 1992). Portanto, durante a hospitalização, a sessão de orientação deve incluir informações sobre cada medicamento que será utilizado após a alta. Sugestões sobre o conteúdo que deve ser abordado nas sessões foram publicadas em 1997 pela American Societyof Health-System Pharmacists (ASHP) — Sociedade Americana de Farmacêuticos do Sistema de Saúde —, e reavaliadas pela mesma instituição em 2006, tendo sido consideradas ainda apropriadas, sendo estas: nome do medicamento (comercial e genérico), sinônimo, e, quando apropriado, sua classe terapêutica e eficácia, indicação, benefícios esperados e ação (ASHP, 1997). Pode orientar se o medicamento deverá curar a doença, eliminar ou reduzir os sintomas, interromper ou retardar o processo da doença ou prevenir uma doença ou sintoma; a expectativa de início de ação e o que fazer se a ação não ocorrer; a via de administração, a apresentação, a dose e o esquema de administração (incluindo a duração do tratamento); orientações para preparo e uso ou administração (pode incluir adaptação ao estilo de vida) (ASHP, 1997). A ASHP (1997) ainda demonstra o que fazer se perder uma dose; precauções a serem 43 observadas durante o uso ou administração do medicamento e riscos potenciais em relação aos benefícios; potenciais efeitos adversos (os comuns e os graves) que podem ocorrer e como prevenir ou minimizar sua ocorrência; técnicas de automonitorização da farmacoterapia; interações potenciais (com medicamentos, alimentos e doenças), contraindicações; interferência com a interpretação de resultados laboratoriais; informações para obtenção dos medicamentos prescritos. Também se refere a instruções para acesso 24 horas a um farmacêutico; armazenamento adequado do medicamento; descarte adequado e qualquer outra informação específica sobre o tratamento para aquele paciente (ASHP, 1997). A adequada orientação ao paciente em alta hospitalar é necessária para evitar, minimizar ou detectar precocemente eventos adversos, contribuindo para o sucesso na continuidade do tratamento no domicílio. Porém, estudos têm demonstrado que os pacientes saem do hospital com baixo nível de conhecimento sobre a terapia medicamentosa e os cuidados para reabilitação e independência em casa (KERZMAN; BARON-EPEL; TOREN, 2005; POMPEO et al., 2007). 4.1.5 Quedas, fraturas e ambiência As quedas, em qualquer idade do ser humano, causam transtornos dos mais variados. Em idades avançadas esses transtornos se tornam ainda maiores, pois as formas de recuperação são mais difíceis e são conjugadas, em muitos casos, com doenças pré-existentes. Sabe-se que a idade avançada aumenta o risco de quedas e de fraturas graves que tendem a reduzir a mobilidade dos idosos, afetando suas atividades cotidianas. Por isso é necessário redobrar a atenção para evitar que os idosos sofram tombos na rua ou em casa. Com referência a quedas, os participantes da pesquisa destacaram: ―Estes incidentes de queda se repetem. Oh! ela caiu faz três semanas atrás e agora caiu de novo, mas também acontece bastante‖ (Enf. 3). ―O próprio idoso cuidando da vozinha. Então o risco de queda pra estes dois idosos quando está se movimentando. Isto é uma coisa que também tem que se atentar quando se for fazer uma orientação neste sentido pra família‖ (Enf. 2). ―Que ele esteja observando o que é o idoso, ele tem dificuldade de se movimentar, então eu vou fazer de tudo pra que facilite pra que ele não caia, mais que o que ele puder fazer por ele, que estimule o idoso a fazer‖ (Enf. 4). ―Pra tomar banho ele pode ir e pode escorregar ou cair, e pode acontecer coisa bem pior. 44 Então é tudo dependência que às vezes até pela privacidade deles é difícil de eles aceitarem, mas aí tu tens que achar um jeitinho de lidar com esta situação‖ (FC3). Estudos apontam que a segurança dos idosos deve ser motivo de preocupação para a sociedade, pois, para essas pessoas, as quedas podem ter repercussões desastrosas, uma vez que idosos com traumas têm perda na sua autonomia e aumento da sua dependência, refletindo em acréscimo de trabalho e estresse para o cuidador e familiares (COUTINHO; SILVA, 2002). Segundo Coutinho e Silva (2002), as quedas, além de produzirem importante perda de autonomia e de qualidade de vida entre os idosos, podem ainda repercutir entre os seus cuidadores, principalmente os familiares, que devem se mobilizar em torno de cuidados especiais, adaptando toda a rotina em função da recuperação ou adaptação após a queda. Queda pode ser definida como ―um evento não intencional que tem como resultado a mudança de posição do indivíduo para um nível mais baixo, em relação a sua posição inicial‖ (MOURA et al., 1999, p. 68). Com o avançar da idade, os passos se tornam mais curtos e lentos e o tronco tende a se projetar para frente para proporcionar estabilidade, mas em contrapartida pode interferir nas reações automáticas de equilíbrio (PAPALÉO NETTO, 2002). Segundo pesquisa realizada nos serviços de emergência dos Estados Unidos, as quedas são eventos frequentes causadores de lesões, constituindo a principal etiologia de morte acidental em pessoas com idade acima de 65 anos (FULLER, 2000). Estudos desenvolvidos no Brasil mostram que cerca de 30% dos idosos caem ao menos uma vez ao ano e, para os idosos acima de 80 anos, essa proporção se eleva para aproximadamente 50% (PERRACINI; RAMOS, 2002). Após a primeira queda, aumenta muito o risco de cair novamente e, por medo de caírem, os idosos diminuem sua mobilidade e sociabilidade e sabe-se que em torno de 13% das pessoas idosas são ―caidores‖ recorrentes (PERRACINI; RAMOS, 2002). A consequência pior de uma queda é a fratura, pois esta irá acarretar cuidados intensivos e mobilizações de membros já prejudicados. ―Aqui a gente percebe que vem muita gente com fraturas, eles aparecem com bastantes fraturas e lesões, isso porque a família não tem este cuidado de tirar objetos, tapetes, então, falta percepção da família de que isto pode estar ocasionando o acidente para aquele idoso‖ (Enf. 1). 45 Entre os idosos, de modo geral, o dano mais comum resultante das quedas é a fratura, com incidência de 64%. O trauma de fêmur ocorre com maior frequência (62%), seguido pelo trauma de rádio (12,5%) e clavícula (6,25%) (FABRÍCIO; RODRIGUES; COSTA JÚNIOR, 2004). Nessa fase da vida, a probabilidade de queda é maior e a incidência de fraturas de quadril tem alcançado índices alarmantes (SILVEIRA et al., 2005). Os idosos que vivem em asilos, casas geriátricas e clínicas apresentam características importantes, como aumento de sedentarismo, perda de autonomia, ausência de familiares, que contribuem para o aumento das prevalências das morbidades e comorbidades relacionadas à autonomia. Um dos agravos mais importantes nessa faixa etária é a ocorrência de quedas com fraturas (FABRÍCIO; RODRIGUES; COSTA JÚNIOR, 2004). Os estudos sobre quedas e fraturas remetem a situações que devem ser evitadas. A pesquisa mostrou a preocupação dos profissionais de enfermagem e de cuidadores com a prevenção no âmbito domiciliar: ―Até esta estratégia de cuidado em casa, são as casas adaptadas para pessoa idosa. Isso também é uma coisa importante. Às vezes, um simples apoio lá no banheiro evitaria quantas fraturas‖ (Enf. 3). ―Um dos principais perigos está em móveis danificados, degraus, quinas‖ (Enf.1). ―Tem muitos idosos que estão com a casa cheia de tapetes, vai tirar um você tem que saber como fazer isso. Ah, quanto mais idoso, mais risco de queda ele tem, então tudo isso é pra ser evitado. [...] Aí eu fico preocupada, eu não fico em casa o dia inteiro, eu trabalho e ela fica sozinha, então eu fico preocupada que ela pode escorregar no banheiro, cair sozinha, se machucar [...]‖ (FC1). ―Por exemplo, a minha mãe, tem uma escada onde ela mora, e ela sempre gosta de salto, foi descer rapidinho e caiu e não se machucou. [...] foi descer e caiu não se machucou, mas tem a possibilidade de cair sim‖ (FC2). ―Até o próprio piso né, que a gente tem em casa que, por exemplo, é muito escorregadio‖ (FC4). De acordo os estudos de Rubenstein (2006), é possível diminuir a ocorrência de quedas e fraturas com cuidados simples como: a) promoção da saúde e prevenção de quedas; b) revisão das medicações; c) modificações nos domicílios; d) promoção da segurança no domicílio; e) promoção da segurança fora do domicílio. Carvalhaes et al. (1998, p. 102) afirmam que ―a maioria das quedas acidentais ocorre dentro de casa ou nos arredores‖. Para prevenir esses acontecimentos, cuidadores e familiares devem se mobilizar em torno de cuidados especiais, adaptando o ambiente em que o idoso 46 vive e tendo o cuidado de observar alguns itens de segurança, como o uso de calçados adequados, tapetes antiderrapantes e disposição da mobília em casa (COUTINHO; SILVA, 2002). Para Maciel (2010), as medidas preventivas para evitar quedas de idosos envolvem orientações a seus familiares sobre os riscos das quedas, bem como das suas consequências; a segurança do ambiente em que vive e circula; o estilo de vida no que se refere à dieta e exercício físico; a avaliação da situação global e periódica, incluindo a função cognitiva, distúrbios de humor e capacidade de realização de atividades de vida diária e condições sociais; a racionalização de prescrição e correção de polifarmácia; avaliação oftalmológica anual; a avaliação nutricional; a indicação de fisioterapia e exercícios físicos; a correção de fatores de risco ambiental; as medidas de promoção da saúde com orientação para a prevenção e tratamento de osteoporose. Portanto, a prevenção é importante no sentido de reduzir problemas secundários decorrente de quedas e fraturas que devem ser minimizadas com a atuação estruturante no ambiente domiciliar com a orientação dos profissionais da área da saúde (DAS; JOSEPH, 2005). Neste contexto de análise, pode-se notar que os problemas até aqui analisados podem ter seus impactos e efeitos minimizados a partir do cuidado com o cuidador, da compreensão de aspectos emocionais relacionados ao idoso, da reverão do quadro de despreparo da família para o cuidado e do correto funcionamento do sistema de referência e contrarreferência. 4.2 CUIDADOS GERAIS 4.2.1 Cuidado com o cuidador O cuidador é um dos agentes mais envolvidos no cuidado com o paciente idoso; por isso ele requer atenção dos profissionais de saúde — dos enfermeiros nos hospitais e dos médicos que estão direcionando os tratamentos em saúde. A preocupação com o cuidador é evidenciada nas falas: ―Geralmente é só um acompanhante, só um responsável da família. Um irmão, a mãe, o pai ou a tia, que está ali cuidando neste momento. Pergunto-me: como que ela vai fazer pra virar pra colocar a comadre em casa? Como vai fazer pra trocar a fralda em casa? Essas coisas são fundamentais. Todo este cuidado e orientação é bom pra ajudar este acompanhante a futuramente não ficar doente também. 47 Porque está deixando toda a força dele ali pra essa pessoa‖ (Enf. 1). ―Porque se às vezes o cuidador que está cuidando em casa, ele adoece também ou em algum final de semana ele não vai poder estar, os outros não vão saber o que se deve ser feito com ele, quais os cuidados em casa com ele. Então acho que falta comunicação entre os familiares também, porque tem muito disso aqui‖ (Enf. 5). ―A movimentação adequada não forçava tanto a minha coluna [do cuidador]‖ (FC3). ―E às vezes a gente também acaba se sentindo melhor por saber que eles [os cuidadores] estão se sentindo seguros porque aí a gente não se sente inseguros com eles‖ (FC2). Nota-se que os cuidadores estão presentes em todas as etapas do tratamento de saúde e que o cuidado com eles deve ser uma questão a ser evidenciada nos estudos acerca dos idosos na pós-alta hospitalar, tendo em vista a sobrecarga de trabalho e de preocupações na vida cotidiana dos cuidadores. Caldas (2004) acentua que o familiar vivencia uma sobrecarga física, emocional e socioeconômica, sendo fundamental um treinamento adequado para que ele se torne mais seguro e preparado para assumir as responsabilidades no cuidado do familiar dependente. Na Política Nacional de Saúde do Idoso, no item que se refere ao apoio ao desenvolvimento de cuidados informais, sugere-se a formação de parcerias entre os profissionais de saúde e as pessoas (nesta pesquisa, de forma privilegiada, os familiares) responsáveis pelas atividades da vida diária e pelo seguimento de orientações emitidas pelos profissionais (BRASIL, 1999). Os cuidadores participam menos de atividades sociais, têm mais problemas no trabalho e apresentam maior frequência de conflitos familiares, tendo como foco a forma como eles cuidam do parente comum. Algumas pessoas chegam a apresentar o que tem sido chamado de ―erosão do self‖, pela forma como submergem no papel de cuidadores (ZARIT, 1997). A interação entre os componentes da família é fator importante para a saúde do grupo familiar e influencia na adesão individual em caso de tratamento (GRUDTNER, 2001). Para Caldas (1998), a família deve ser preparada para lidar com os sentimentos de culpa, frustração, raiva, depressão e outros que acompanham essa responsabilidade. O funcionamento da dinâmica familiar pode afetar positiva ou negativamente a saúde individual do doente, pois as alterações na estrutura familiar e suas necessidades em face do adoecimento giram em torno da busca de respostas em relação à doença vivenciada (GRUDTNER, 2001). 48 Soma-se a essa problemática a observação que nem sempre a necessidade da família advém da doença e, sim, do significado que esta produz, especialmente no sentido da impotência em aliviar o sofrimento do seu familiar (GRUDTNER, 2001). De modo geral, a família é fundamental no processo de prestação de cuidado ao idoso, contribuindo para a humanização da assistência e a construção de um ambiente favorável para a recuperação da saúde do idoso, evitando, na medida do possível, hospitalizações, asilamentos ou outras institucionalizações (BRASIL, 2001). 4.2.2 Aspectos emocionais do idoso A preparação para o envelhecimento passa pela aceitação de ser este um processo natural de todas as vidas. Nesse sentido, os aspectos emocionais da transição para a fase de velhice envolvem o reconhecimento de limitações e dificuldades de mobilidade antes não observáveis, a busca da autoestima e a preocupação com a aparência física. Durante os encontros dos grupos focais, enfermeiros e cuidadores fizeram considerações sobre esse assunto: ―O idoso tem uma tendência a ser depressivo, a ser carente, então, também estimular a autoestima daquele idoso, se ele gosta de ir à missa, então leve este idoso pra sair. Eu acho que o que falta na família do idoso é se colocar no lugar do idoso‖ (Enf. 5). ―Eu acho que tem que ver o lado emocional do paciente também. Além de todo o cuidado tem também o emocional, porque às vezes o idoso gosta de passear, ou assistir televisão, um determinado programa, ler pra ele. Então acho que não só aquele lado, mas também o emocional‖ (Enf. 2). ―Este lado emocional é o que pode acabar trazendo doenças pra este paciente idoso?‖ (Enf. 1). ―Ela que tinha o carinho em casa né, mas muitos não têm. Aí no hospital na hora da alta ele já chora antes de ir embora, porque não tem uma família do lado em casa‖ (Enf. 5). ―Eles têm esta carência né, o idoso mais do que a gente eles têm muita carência. E a gente vê em alguns casos o descaso da família. Às vezes vem um, deixa aqui, aí liga para o pronto-socorro, e cadê o acompanhante? Já saiu e não volta. Aí tem que ligar [...] eles acabam achando refúgio dentro do hospital, onde eles têm a enfermagem pra estar conversando, pra ter atenção. Isso é bastante comum, e é o que a gente percebe bastante também‖ (Enf. 3). ―E com muitos assim, pela minha mãe eu vejo que eles assim, cuidado no falar, também porque ela sempre se sente ofendida, porque tem certa idade. Às vezes eu não quero que ela pegue determinado peso, e ela se sente ofendida porque ela tá podendo fazer as coisas ainda‖ (FC4). ―Tem que partir deles na verdade né. Eles têm que querer. Aí a gente pode ajudar, por que se 49 eles não quiserem como agente pode ajudar?‖ (FC1). ―Eu percebo que ela gosta muito de conversar, e eu percebo que ela passou a tarde toda só, e sente realmente a necessidade e às vezes eu percebo que ela está mais assim, por qualquer motivo ela está chorando sabe? Chora de depressiva sabe?‖ (FC2). ―Em relação ao meu tio eu também vejo essa certa falta de ter alguém junto para conversar né. Fica mais tempo sozinho então fica mais carente de ter alguém ali‖ (FC3). ―A gente percebe que as famílias são pequenas, então tem pouca gente pra cuidar, o cansaço da família que está cuidando. [...] Falta de percepção da família de que aquele idoso precisa de um pouquinho mais de cuidado‖ (Enf. 1). Apesar de ser um processo natural, o envelhecimento submete o organismo a alterações anatômicas e funcionais, com repercussões nas condições de saúde do idoso e, consequentemente, na sua qualidade de vida (VECCHIA et al., 2005). As alterações que ocorrem no sistema nervoso acarretam a diminuição da liberação de neurotransmissores, principalmente da dopamina, provocando alterações sensoriais, intelectuais e psicológicas (FARO JÚNIOR et al., 1996). O tempo de reação torna-se mais lento e a velocidade de condução nervosa fica de 10 a 15% mais lenta aos 70 anos, com prejuízo na sensibilidade e na resposta motora aos estímulos e ocorre a queda da perfusão tecidual e redução da massa encefálica em torno de 14% por volta dos 80 anos (FARO JÚNIOR et al., 1996). Essas alterações orgânicas e motoras podem ser atenuadas por atividades físicas durante todas as etapas da vida. Para Samulski e Lustosa (1996), a influência do exercício no processo de envelhecimento afeta diretamente a qualidade, se não a quantidade de vida, ficando evidente que a atividade física regular melhora os estados psicológicos de humor e alivia as tensões de natureza psicológica, exercendo uma influência benéfica nos aspectos psicológicos e no bem-estar mental. Segundo Nunes e Peixoto (1994), os programas de idosos operam mudanças em seus participantes quanto ao resgate da autoestima, superação de doenças, recuperação da memória, propiciando novos conhecimentos e o desenvolvimento da sociabilidade. A qualidade de vida em idosos está diretamente ligada ao seu bem-estar biopsicossocial, ou seja, não só a sua saúde biológica, mas a sua saúde mental e a aceitação como membro ativo da sociedade são fatores que promovem a qualidade de vida dessa população (TOMASINI, 2008). O bem-estar dessas pessoas também depende da qualidade do espaço onde elas 50 residem, do contato que elas têm com seus familiares e do lazer a que elas têm acesso (TOMASINI, 2008). De acordo com Capitanini (2000), a solidão inclui experiências de isolamento, tristeza e insatisfação com a vida. Esse estado emocional não é causado simplesmente pelo fato de a pessoa estar fisicamente só, mas de estar sendo privada de relacionamentos que gostaria de ter, causando evidências de problemas de depressão. Estima-se que em 2030 o transtorno depressivo unipolar venha a assumir a segunda posição como causa de incapacidade em todo o mundo e a primeira causa nos países de renda per capita elevada (GONZALEZ et al., 2010). Para quantificar essa depressão existem mecanismos como a escala de depressão mais utilizada em idosos: ―Escala de Depressão Geriátrica‖ (Geriatric Depression Scale – GDS), desenvolvida por Brink e Yesavage, em 1982 (versão 30 itens) (BRINK; YESAVAGE, 1982). Em âmbito institucional, o Estatuto do Idoso expressa o resultado das mudanças históricas, políticas e sociais que o Brasil vem atravessando e exalta as conquistas feitas e, por muitos, esquecidas. Mas todas as leis ou estatutos precisam ser amplamente divulgados, integrando todas as camadas da sociedade e os próprios idosos, com os seus direitos previstos em lei, não só valorizando conquistas de direitos, mas também elaborando mecanismos de controle que garantam a sua aplicação (SILVA, 2005). Assim, faz-se necessário e urgente a produção de conhecimentos que visem apontar os diagnósticos mais frequentes entre os idosos para que, a partir deles, seja possível a elaboração de um plano de intervenção e desenvolvimento de cuidados efetivos, capaz de promover o conforto, o bem-estar e a melhoria na qualidade de vida dos idosos (RESTA; BUDÓ, 2004). 4.2.3 Despreparo da família para o cuidado Em todos os estágios de convivência familiar há sempre pessoas que apoiam uma às outras. Na infância, na maioria dos casos, há o comprometimento dos responsáveis pela criança e com a vida que está sendo encaminhada. Nas fases mais avançadas da vida, os familiares, em qualquer condição de existência e com quaisquer características, apoiam-se mutuamente. Em muitas situações, laços de amizade suprem a falta de vínculos familiares. Os idosos geralmente se apoiam também nos familiares e amigos ou em cuidadores contratados. Mas, em muitos casos, esses cuidadores desconhecem sua função, cuidando do idoso da maneira que melhor entendem, seguindo os conhecimentos que lhes são repassados. Os relatos apontaram o despreparo da família para o cuidado: 51 ―Somos leigos e não entendemos direito, mas aos pouquinhos vemos o médico e o enfermeiro fala com nós, e a gente acaba percebendo. Por outro lado eu como cuidador procuro adquirir conhecimento também sobre a doença‖ (FC1). “É que agente é leigo, não entende direito, mas aos pouquinhos tu vê o médico fala, e tem enfermeiro que fala com a gente também, e a gente acaba percebendo em volta ali também‖ (FC2). ―A minha mãe tinha muita náusea depois que fazia a quimioterapia, então neste caso a gente já colaborava, colocando uma vasilha próxima caso fosse vomitar‖ (FC3). ―Então eu saio do hospital e vou pra casa e fico insegura‖ (FC1). ―Às vezes a gente pergunta aqui: O que aquele idoso toma em casa? E o filho? Ah, eu não sei porque não sou eu que fico em casa o dia todo com ele e cuido. Então eu acho que existe uma falta de comunicação entre os familiares pra estar cuidando deste idoso em casa‖ (Enf. 2). ―Os cuidados básicos em casa. Eles não chegam a tentar. Eles têm medo do que eles podem fazer em casa, então eles trazem o idoso para o hospital‖ (Enf. 4). ―A medicação vem certa no hospital, o médico vai passar todos os dias e vai orientar‖ (FC4). O aumento da necessidade de apoio a famílias com um idoso dependente emerge como um problema prioritário nas políticas educativas, de saúde, sociais e econômicas dos países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001). Casos como os que foram identificados demonstram reincidências de atendimento: ―Eles [os idosos] vivem voltando porque não sabem cuidar em casa. Então eles vêm para o pronto-socorro direto, eles vêm, a família traz. Eles não sabem o que fazer com aquele idoso, o paciente, o velhinho vomitou uma vez e a família já traz pra cá‖ (Enf.1). ―Até pelo medo de cuidar em casa, eles acabam trazendo para o hospital de novo. Eles se sentem inseguros em casa de estar cuidando‖ (Enf. 3). ―Tontura, que é um sinal e sintoma da pressão alta, que ele tinha, mas que por falta de orientação eles acabam trazendo para o hospital‖ (Enf. 5). ―Às vezes instruções básicas. Como por exemplo, estes dias, um senhor que havia tido alta faz poucos dias, ele tinha problemas pra respirar, e quando deitava ele tinha aquela dispneia, então ele voltava. Então ele disse: – Como seria bom se eu tivesse uma maca dessas. Porque a maca levantava‖ (Enf. 1). ―É o paciente que fica acamado, que às vezes não passa pela fisioterapia, a família também não sabe fazer nenhuma manobra pra facilitar a remoção daquela secreção do tórax, isso vem bastante também né, paciente acamado com pneumonia né, que podia estar passando por algum processo em casa né, ter a presença de um fisioterapeuta a gente sabe que não é a realidade do município. Mas estar fazendo uma tapotagem a gente sabe né‖ (Enf. 2). 52 Não existem serviços específicos de apoio às famílias prestadoras de cuidados aos idosos. Em muitos casos, a rede primária de atendimento básico não oferece condições de atendimento adequadas e, como consequência, ocorrem as reincidências de atendimentos nas unidades de saúde de referência (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001). Algumas medidas e equipamentos existentes constituem apenas formas indiretas de apoio, na medida em que tentam criar condições conducentes à manutenção do idoso no seu ambiente familiar (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001). Os participantes da pesquisa relataram dificuldades em relação ao cuidado com o familiar idoso: ―No meu caso com a minha mãe é quase sempre eu, mas quando eu não posso, aí o meu irmão também fica. Aí neste tempo, ao menos orientar um pouco ele também, porque também ele não sabe nada, ele não entende nada. Então assim, eu tento ajudar a passar um pouco dela, para que ele possa estar me ajudando ali‖ (FC2). ―A gente precisa trabalhar né. Todo mundo tem os seus compromissos. O ideal seria ficar mais tempo em casa, eu queria ficar dando atenção para a minha mãe o tempo inteiro, mas como eu vou fazer se eu tenho que trabalhar?‖ (FC4). ―[...] 93 anos e a filha, também, já com setenta e pouquinho. Então ela não era uma senhora tão pequena, tinha certo peso né, e aquela família que cuida é idoso também [...]‖ (Enf. 2). Nesse contexto, apesar de a família ser apontada como fonte primária de suporte social e informal e de se almejar uma atmosfera afetiva comum de aquisição de competência e de interação entre os membros, há que se ressaltar que o processo de cuidar da pessoa idosa, por parte de familiares e cuidadores, depende da integração das relações, da disponibilidade de recursos pessoais e externos, em diferentes momentos e situações da história anterior de relacionamento com o idoso (TORRES; SÉ; QUEIROZ, 2004). Para Luzardo e Waldman (2004), os principais enfrentamentos do cuidador são dificuldades financeiras, com sobrecarga de tarefas e de compromissos (cuidar ininterruptamente), ausência de apoio institucional, da própria família e da sociedade, bem como a dificuldade maior de lidar com a doença por não compreender a sua magnitude. A falta de informações e do repasse destas são também déficits a serem suplantados nos atendimentos aos idosos e aos cuidadores responsáveis. Há pouca informação sobre os cuidados e falta de conhecimentos considerados como básicos para um atendimento adequado ao idoso na pós-alta hospitalar: 53 ―É até uma orientação pra família em casa, como que ela vai movimentar esse paciente sozinho‖ (Enf. 2). ―Porque o acompanhante, o familiar é leigo, não acaba sabendo que a pessoa lá na mesma posição por mais de três ou quatro horas, ela vai perder a expansão torácica, o pulmão vai ficar com um acúmulo de secreção ali, e vai ocasionar essa pneumonia né‖ (Enf. 5). ―A gente vê que ele não tem a colaboração de outro familiar em casa pra estar fazendo o cuidado, pra estar ajudando, pra estar dando banho né, eu acho que isso acontece bastante aqui na clínica‖ (Enf. 2). ―Até no momento de se engasgar, de colocar o dedo pra tirar o alimento que está obstruindo as vias aéreas no momento. Isto tudo se torna pra família uma coisa apavorante. O que fazer no momento?‖ (Enf. 1). ―Não consegue mais deglutir corretamente, então ele já, ou às vezes a dentadura ou aquela prótese pode estar colaborando com o sufocamento né‖ (Enf. 1). ―Ela faz uso de medicação contínua também, quando no hospital, vem aqui ele dá a medicação certinha, ela sabe os horários certinhos, mas quando ela vai pra casa eu não tenho muita experiência, aí eu fico meio perdida. Eu não sei ao certo que medicação‖ (FC3). Nesses casos se evidencia o fato de que os acompanhantes e cuidadores não são informados de maneira explícita sobre quais cuidados ou tarefas passarão a desenvolver com o idoso. A família se sente responsável e vai assumindo determinados cuidados que se estendem após a alta hospitalar (COLLET; ROCHA, 2004). Os cuidadores mencionaram que, no momento da alta hospitalar, geralmente recebem poucas informações claras a respeito da doença ou de um serviço para prosseguir o tratamento. Ainda comentaram que as orientações quanto ao uso de medicamentos imprescindíveis para a continuidade do tratamento nem sempre são realizadas. Assim, o cuidado se torna difícil, aumentando ainda mais a sobrecarga para o cuidador (CALDAS, 1998). Essas constatações de Caldas (1998) são confirmadas nas falas dos enfermeiros: ―É, isso que é importante, a gente conseguir passar para o cuidador o máximo de informações possível, para ele poder cuidar em casa e não precisar trazer para o hospital. Por que trazer para o hospital é somente em últimos casos mesmo, somente quando houver necessidade‖ (Enf. 4). ―É, durante a internação não é que a gente tenha que passar esta responsabilidade pra família, mas durante a internação a gente precisa que a família perceba o quanto aquilo é importante para aquele paciente idoso‖ (Enf. 5). ―Eu acho assim que uma coisa importante é o familiar estar ciente dos cuidados do paciente, 54 claro ele tem que estar ciente de tudo que ele tem que fazer em casa com esse paciente. Aí que desempenha o nosso papel. [...] Falta uma estratégia de cuidado, a que orientação que eu vou passar pra esta pessoa que está ali, não toma água na hora que está vomitando, aí a família é leiga no momento, e oferece mais água para ver se passa esta náusea, ou estes enjoos‖ (Enf. 1). ―Então é importante que eles estejam juntos na hora que a gente esteja fazendo a higiene da pessoa, na prótese do paciente, na hora que a gente faz a higiene íntima do paciente, pra que ele perceba como é feito um banho de leito, pra quando o paciente não possa mais estar indo fazer aquele banho por aspersão‖ (Enf. 5). ―Um paciente estava internado, e a família recém tinha trocado, ele tinha evacuado. Mas eles limparam e só tiraram o grosso, então não tem senso de higiene‖ (Enf. 2). ―Queda de cama, aqui a gente tem pacientes que caem da cama. Pacientes agitados que precisam cuidar deles na cama. Este tipo de orientação é bem básico assim‖ (Enf. 3). Ao abordar esse assunto, Padilla (2008) enfatiza as necessidades de formação dos cuidadores, o que poderá promover um processo de reflexão sobre a experiência do cuidar, possibilitando apreender novas formas e técnicas, de maior socialização entre o profissional de saúde e o doente e, por fim, de um reconstruir de intenção e vontade de produzir efeitos em si e nos indivíduos, a fim de que o cuidado seja realizado de forma correta, como nestes casos: ―Orientar como que lava o cabelo do paciente, como fazer pra proteger as orelhas, pra não entrar água no ouvido, neste caso a gente pode estar orientando, fazendo com que eles percebam, nesta hospitalização. O acompanhante precisa perceber os cuidados com o paciente né, porque na hora da alta é muita informação. Se ele não conseguir visualizar, e não visualizou nenhuma vez, ele não vai conseguir fazer sozinho em casa. Ele precisa ver‖ (Enf. 1). ―Minhas dúvidas, até mesmo pra eu ver de que forma que eles agem ali, pra eu ter um exemplo de como agir em casa, por exemplo, de que forma que eles levam para o banho, às vezes em casa eu estou fazendo de uma forma incorreta‖ (FC2). ―Troca o medicamento. A superdosagem. Então uma orientação de como deixar armazenado, qual vai ser a escalinha pra que a cada horário estar sendo administrado este medicamento. Até uma orientação pro acompanhante, porque às vezes troca, tem pai e a mãe, e trocou o medicamento. Então a medicação ali no cuidado desse paciente que recebe alta‖ (Enf. 2). ―Eu procuro os enfermeiros antes de ir pra casa para pegar informações deles, para que aí a gente em casa consiga continuar este tratamento [...]. Como vou administrar esta medicação pra ela?‖ (FC1). ―É também toda a orientação quanto à medicação. Ele faz uso de medicação contínua, são vários tipos de medicação‖ (FC2). 55 A respeito desse tema, Patrício (1994) salienta que a família e o cuidador passam a ser contribuintes nos cuidados subsequentes de tratamento e para tanto necessitam de apoio e entendimento claro de seu papel na integralidade do tratamento a ser executado antes, durante a após intervenção hospitalar. O papel da enfermagem vai além do cuidado somente com o paciente e se volta para a integralidade do atendimento, englobando as famílias e os cuidadores, requerendo, assim, a construção de tecnologias educativas focadas no pós-alta hospitalar do idoso e nos seus cuidadores (PATRÍCIO, 1994). Essas pessoas deverão também receber atenção médica pessoal, considerando que a atividade de cuidar de um adulto dependente é desgastante e implica riscos à saúde do cuidador. Por conseguinte, a função de prevenir perdas e agravos à saúde abrangerá, igualmente, a pessoa do cuidador (BRASIL, 1999). O uso de uma tecnologia de cuidados integrais com os idosos poderia diminuir os déficits, evitando, assim, dúvidas e necessidades levantadas na pesquisa, como: ―Eu acho que no hospital o que está faltando é uma cartilha. Porque é muita informação para aquela pessoa que já esta se preocupando, ter que levar pra minha casa‖ (Enf. 5). ―Se tivesse alguma coisa escrita, como orientações; acho que seria mais fácil para o cuidador em casa. Uma carta de ajuda‖ (Enf. 3). ―O estímulo da tosse, coisas básicas que eles não sabem que aquele paciente acamado precisa. Mais eu acho que aquela cartilha [...] seria importante se a gente fizesse uma cartilha direcionada para os acompanhantes. Pelo tipo de acompanhante que ele tem, do cuidador e, também, pelo tipo de cuidado, se ele é totalmente dependente, se ele é parcialmente dependente. Isso ajuda a direcionar um pouco o cuidado‖ (Enf. 1). ―[...] sentimos falta de instruções de cuidados por escrito. Precisamos de orientações e se tiver algum tipo de manual em casa que nos oriente seria adequado‖ (FC2). ―Com cuidados profissionais, porque eles também sentem às vezes esta insegurança de que a gente não está sabendo cuidar direito né, talvez precise de um cuidado maior né, de instruções por escrito‖ (FC3). ―Eu sei que eu levei minha mãe para o hospital e fui para casa, mas ainda fiquei muito insegura quanto aos cuidados com ela‖ (FC4). ―Por mais que você fala, fala, tem-se a necessidade de se ter um manual pra esse paciente, pra esse familiar em casa, que tipo de medida e cuidado ele vai seguir para determinada situação de alta hospitalar‖ (Enf. 3). 56 Esses déficits, de alguma forma, já são diminuídos com as iniciativas, por meio de oficinas de apoio e aprendizagem, determinadas pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2008, p. 17): ―as oficinas pedagógicas de cuidadores são espaços que possibilitam trocas de experiências, onde os cuidadores conversam, aprendem e ensinam e constroem juntos na arte do cuidar‖. Assim, essas oficinas devem ser abertas a todos que estão envolvidos, tais como cuidadores, familiares e amigos. Compartilhar experiências traz alívio. O cuidador percebe que não está sozinho e que outros podem ter dúvidas e dificuldades do mesmo modo como ele e, também, as experiências podem ser valiosas para outros cuidadores. Entende-se que esses ambientes possibilitam conversar sobre as boas experiências e também sobre as angústias, medos e dificuldades. As pessoas do grupo formam uma rede de apoio social, já que todos estão unidos pelo mesmo motivo. Segundo Santos (2003), é primordial que se ofereçam condições de infraestrutura e de suporte para que os familiares possam efetivamente exercer o papel de cuidadores informais. É relevante que, além de se conhecerem as necessidades de cuidado da pessoa dependente, também se conheça a situação dessas famílias, suas demandas, suas crenças, seus valores e suas práticas socioculturais. 4.2.4 Referência e contrarreferência No ato de cuidar do idoso surgem dúvidas referentes ao conhecimento dos papéis, das particularidades e das hierarquias de promoção à saúde já estabelecidas, ou seja, sobre quais são as funções de cada setor de saúde. Isso gera diferentes interpretações de responsabilidades e sobrecarrega de setores de referências em detrimento do atendimento adequado em esferas primárias de atendimento. ―Na verdade falta um fluxo. Apresentou determinado sinal ou sintoma, eu vou focalizar na unidade básica de saúde ou eu levo para o pronto-socorro ou é um cuidado que pode ser feito em casa?‖ (Enf. 3). ―Se fizéssemos um trabalho aqui dentro de estar ligando lá pra unidade daquele bairro daquele paciente, e estar avisando que o paciente é idoso e este indo de alta, e o problema dele é esse, esse e esse, para estar acompanhando‖ (Enf. 3). ―Cuidar com hematomas, quais as situações que se precisa trazer para o hospital e quais as situações de postinho? Isso sim precisaria estar bem adotado em uma cartilha e a gente está dando essa 57 referência que seria bem importante pra evitar que o paciente viesse para cá‖ (Enf. 1). ―Outro ponto importante que a gente vê é qual o fluxo de movimentação do paciente – movimentação eu digo. Pra onde eu vou encaminhar? Vai pro hospital novamente, vai pra estratégia da saúde da família, precisa somente de uma avaliação de uma psicóloga da saúde ou uma avaliação de um enfermeiro, pra orientar esta família? Qual é o fluxo? Num momento de emergência, quem eu vou chamar? O SAMU [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência]? O Bombeiro? Isso também é uma coisa importante no cuidado‖ (Enf. 2). ―Tem certos momentos que você fica preocupada, eu fico preocupada com a minha mãe assim. Tem horas que eu acho que eu não consigo mais, que eu estou com dúvidas, se vou para o posto ou levo para o hospital‖ (FC3). ―Deixa-me ir lá porque lá eu sei que eu vou ser bem tratada. Eu já fui várias vezes lá, lá ela chega e fica mais contente, porque lá ela sabe que vai vir um médico atender ela‖ (FC2). Vale lembrar que a Constituição Federal (BRASL, 1988, p. 235), em seu artigo 196, define que a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. A Lei nº. 8.080/1990 (BRASIL, 1990), que regulamentou o SUS, prevê, em seu artigo 7º, como princípios do sistema, universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência; integralidade de assistência, entendida como conjunto articulado e contínuo das ações e dos serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso, em todos os níveis de complexidade do sistema; equidade e garantia de acesso de qualquer pessoa em igualdade de condições aos diferentes níveis de complexidade do sistema, de acordo com a necessidade que o caso requeira. A referência representa o maior grau de complexidade, para onde o usuário é encaminhado a um atendimento com níveis de especialização mais complexos, por exemplo, os hospitais e as clínicas especializadas (MAEDA, 2002). A contrarreferência diz respeito ao menor grau de complexidade, quando a necessidade do usuário, em relação aos serviços de saúde, é mais simples, ou seja, ―o cidadão pode ser contra referenciado, isto é, conduzido para um atendimento em nível mais primário‖ (BRASIL, 2003, p. 45), devendo ser este a unidade de saúde mais próxima de seu domicílio. De acordo o Ministério da Saúde, sistema de referência e contrarreferência é o modo de organização dos serviços configurados em redes sustentadas por critérios, fluxos e 58 mecanismos de pactuação de funcionamento, para assegurar a atenção integral aos usuários (BRASIL, 2011). Na compreensão de rede deve-se reafirmar a perspectiva de seu desenho lógico, que prevê a hierarquização dos níveis de complexidade, viabilizando encaminhamentos resolutivos (dentre os diferentes equipamentos de saúde), porém reforçando a sua concepção central de fomentar e assegurar vínculos em diferentes dimensões: inter-equipes de saúde, inter-equipes/serviços, entre trabalhadores e gestores e entre usuários e serviços/equipes (BRASIL, 2011, p. 87). Para Mattos (2004), em qualquer nível de atenção, é preciso ter uma articulação entre a lógica da prevenção e da assistência. A integralidade não é simplesmente sinônimo do acesso a todos os níveis do sistema; as práticas de integralidade devem permear todos os níveis de atenção, caracterizadas pela apreensão ampliada das necessidades e a habilidade de reconhecer a adequação das ofertas ao contexto específico da situação em que transcorre o encontro entre uma equipe de saúde e o usuário, este como sujeito portador de várias necessidades (FRATINI; SAUPE; MASSAROLI, 2008). Infere-se que, de modo geral, referência e contrarreferência são entendidas como estratégias para a integralidade da atenção à saúde e que, no âmbito da saúde do idoso, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa ―define que a atenção à saúde dessa população terá como porta de entrada a Atenção Básica/Saúde da Família, tendo como referência a rede de serviços especializada de média e alta complexidade‖ (BRASIL, 2006c, p. 12). A atenção básica deve estar voltada para o envelhecimento e a saúde da pessoa idosa, sendo desenvolvida por meio do exercício de práticas gerenciais e sanitárias democráticas e participativas e sob a forma de trabalho em equipe dirigido às populações de territórios bem delimitados, pelas quais assume a responsabilidade sanitária, considerando a dinamicidade existente no território em que vivem essas populações (BRASIL, 2006c, p. 12). A integralidade vem como fator primordial; é um termo polissêmico que tem vários significados (MATTOS, 2001, 2004; PAIM, 2004). Para esses autores, a integralidade é vista sob pelo menos quatro perspectivas: a) como integração das ações de promoção, proteção, recuperação e reabilitação, compondo níveis de atenção primária, secundária e terciária; b) como forma de atuação profissional, abrangendo as dimensões biológica, psicológica e social; c) como garantia de continuidade da atenção nos diversos níveis de complexidade do sistema, que demanda uma articulação entre serviços; d) como um conjunto de articulação de políticas 59 públicas. No caso do idoso, ele precisa de maior agilidade no sistema de saúde porque o processo de envelhecimento traz como consequência menor expediente para o idoso procurar os serviços de saúde e deslocar-se nos diferentes níveis de atenção. Para o idoso, principalmente os mais carentes, qualquer dificuldade torna-se um mote para bloquear ou interromper a continuidade da assistência à sua saúde (COSTA, CIOSAK, 2010). As dificuldades e os conhecimentos dos cuidadores, assim como a eficácia do atendimento das instituições de referência e contrarreferência, remetem à necessidade de construção de meios para diminuir os gaps (lacunas) entre os cuidados mais diários. Esta pesquisa então sugere a construção e validação de uma tecnologia de cuidados integrais ao idoso no domicílio na pós-alta hospitalar. 60 5 TECNOLOGIA PARA O CUIDADO COM O IDOSO NO PÓS-ALTA HOSPITALAR A tecnologia de cuidados, entendida neste estudo como um guia instrucional para guiar os familiares cuidadores no cuidado com o idoso no pós-alta hospitalar, foi construída a partir do construtivismo, conceituado na metodologia desta dissertação. Trata-se de um método interacionista entre sujeitos e objeto da pesquisa. Esse guia instrucional (apresentado no Apêndice E) foi construído de modo ilustrativo e na medida do possível utilizou-se uma linguagem acessível para facilitar a compreensão dos cuidadores familiares. Não se tem a pretensão de que ele seja o único instrumento de orientação, mas poderá ser o norte para os familiares quando tiverem dúvidas sobre como proceder em cada uma das situações correspondentes às categorias temáticas analisadas, haja vista que elas retratam as dificuldades do ato de cuidar no cotidiano domiciliar, apresentadas pelos próprios cuidadores. 61 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Quanto aos conhecimentos e às estratégias de cuidado pela família ao idoso, verificaram-se déficits desses conhecimentos no que se refere a cuidados específicos de higiene (oral, íntima e corporal); alimentação e hidratação (oral e por dispositivo); cuidados cutâneos, queimadura, úlceras de decúbito e de perna; medicação; quedas, fraturas e ambiência, e a cuidados gerais como: cuidado com o cuidador; aspectos emocionais do idoso; despreparo da família para o cuidado, referência e contrarreferência. Observou-se na pesquisa que os familiares cuidadores apresentam dificuldades e sentem falta de orientações básicas e necessárias aos cuidados que devem prestar aos seus familiares idosos no âmbito domiciliar após a alta hospitalar. Essas carências foram também expostas pelos profissionais enfermeiros. Infere-se que as pessoas são preparadas para o nascimento e não para o envelhecimento. Isso demonstra as fragilidades das famílias na execução dos cuidados com os idosos, ocasionando aumento nos índices de internação e custos elevados nos tratamentos fora e dentro das instituições hospitalares e nas unidades de referência e contrarreferência do SUS. Portanto, fazem-se necessárias e importantes todas as informações transmitidas aos familiares durante a internação do idoso. Mas nem sempre os profissionais que prestam os cuidados conseguem repassar e proporcionar esse serviço aos familiares. Evidenciou-se que pouca informação — ou quase nenhuma em alguns casos — sobre esses cuidados foi repassada. Essa situação foi justificada pela falta de tempo e das várias atribuições desses profissionais, ou até mesmo pela falta desses conhecimentos básicos, principalmente no momento ou nas horas que antecedem a alta hospitalar do idoso. Paim (1994) considera que assistir a saúde da família tem sido um desafio para profissionais de saúde. Contudo, na busca de uma abordagem com enfoque abrangente do ser humano, é necessário envolver a família como parte integrante da prática de cuidado integral durante e após a alta hospitalar. Os familiares, quando se deparam com a necessidade de realizar os cuidados no domicílio no pós-alta hospitalar, acabam ficando com dúvida e insegurança de como proceder. No entanto, se houvesse uma instrução clara e demonstrativa que direcionasse esses atos cuidativos, certamente as ações seriam facilitadas e se incorreria em menores riscos à saúde e à vida dos idosos. A consequência da falta de informação é a reinternação recorrente dos idosos no hospital. A família se sente mais segura com o idoso internado do com ele no domicílio. Os 62 familiares acreditam que o hospital é o espaço para adquirir a saúde perdida, mas não têm a ideia de que um ambiente como esse pode ser tão ou mais insalubre ao idoso quanto o domicílio. Se houvesse esse entendimento, provavelmente procurariam outras formas para resolver os problemas e o ambiente hospitalar seria o último recurso a ser buscado. Espera-se que este guia instrucional possa ser uma fonte de orientação e de ordenamento para os familiares cuidadores na prestação do cuidado aos seus idosos necessitados e fragilizados. Certamente haverá necessidade de reformular e de atualizar este instrumento, pois se presume que, com o tempo de uso, as pessoas irão verificar que ele poderá ser mais ilustrativo do que descritivo, bem como mudanças de estratégias poderão ser inseridas. Com a ampliação da população idosa haverá o aumento de morbidades consideradas crônicas não transmissíveis e será emergente a obtenção de meios que possam orientar, educar e instruir sobre os cuidados necessários no domicílio. Ressalta-se que nem todas as famílias têm condições financeiras de contratar um cuidador formal para a execução dos cuidados diários, cabendo essa tarefa aos familiares. Desse modo, é imprescindível que eles tenham acesso a orientações de cuidados e que estas possam acompanhar o familiar, a exemplo deste guia, que poderá ser utilizado como rotina de orientação para o pós-alta hospitalar, com cada cuidador levando consigo um exemplar impresso. A participação de ambos os grupos, tanto dos enfermeiros quanto dos familiares cuidadores, foi fundamental para a conclusão deste estudo. Do contrário, ficaria somente sob a ótica do pesquisador sem que fossem averiguadas as necessidades dos familiares para o cuidado ao idoso. Cuidar do idoso fragilizado exige muita paciência, dedicação, atenção, carinho, afeto, mas sobretudo amor. Todavia, estes por si só não bastam. É necessário que se tenha o mínimo de conhecimento e orientação para a execução do cuidado. Desenvolver uma tecnologia de cuidados que abrangem a multidimensionalidade do cuidado é um desafio que não se encerra nesta pesquisa. Dessa forma, a construção de tecnologia de cuidados integrais aos idosos no pós-alta hospitalar se direciona para futuras pesquisas e estudos quantitativos complementares no âmbito de cuidados mais específicos e relacionados a cada ambiente a ser analisado em seu contexto. 63 REFERÊNCIAS AKHTAR, A. J.; SHAIKH, A.; FUNNYE, A. S. 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A abordagem dos temas será por meio de discussão, através do método construtivista, em que o primeiro encontro, o moderador levará um arcabouço da proposta tecnológica de cuidados conforme a sua percepção e pesquisa teórica, a fim de ter um instrumento inicial para desencadear a discussão e os demais serão para a construção da tecnologia de cuidados integrais ao idoso no domicílio. Em todos os encontros será utilizada a gravação digital e fotos viabilizando transcrever os dados de forma fidedigna. Ressaltamos que a pesquisa cumprirá as determinações do Conselho Nacional de Ética 196/96, assegurando o sigilo e a proteção da imagem, garantindo a não utilização das informações em prejuízo das pessoas envolvidas. A todos os envolvidos nessa pesquisa será apresentado o termo de consentimento livre e esclarecido e será garantido o retorno dos resultados tanto para a instituição quanto para os sujeitos. A referida coleta faz parte da pesquisa realizada pelo aluno do Curso de Pós-graduação da Universidade do Vale do Itajaí, nível de mestrado, sob o título de: Tecnologia de cuidados integrais aos idosos no domicílio. Tendo como objetivo o de investigar as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores apresentam com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar. Ainda, solicitamos anuência para citar o nome desta instituição na publicação dos resultados em trabalhos e/ou eventos científicos. Informamos que a aluno é orientando da docente enfermeira Doutora Juliana Vieira de Araújo Sandri, pertencente ao quadro de orientadores do Programa de Pós Graduação da Universidade do Vale do Itajaí-SC, do Mestrado em Saúde e Gestão do Trabalho. Currículo lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/busca.do Sendo o que tínhamos para o momento. Atenciosamente, Elisete Navas Sanches Próspero Coordenadora do Mestrado Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho 77 APÊNDICE B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (familiares cuidadores) Você está sendo convidado(a) para participar, como voluntário, em uma pesquisa. Após ser esclarecido(a) sobre as informações a seguir, no caso de aceitar fazer parte do estudo, assine ao final deste documento, que está em duas vias. Uma delas é sua e a outra é do pesquisador responsável. Em caso de recusa você não será penalizado(a) de forma alguma. INFORMAÇÕES SOBRE A PESQUISA Título do Projeto: Tecnologia educativa para os cuidados integrais aos idosos no domicílio. Pesquisador Responsável: Juliana Vieira de Araujo Sandri Telefone para contato: (47) 3341-7932 e 9987-3129 Pesquisador colaborar: Odair José Colaço Telefone para contato: (47)3384-0934 e (47) 9156 1271 Tem como objetivo investigar as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores apresentam com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar. Farão parte desta pesquisa, aqueles familiares dos idosos com mais de cinco dias de internação e com alta hospitalar prescrita e, os profissionais de saúde, com nível superior, que atuam no local da internação. Será utilizado como método de pesquisa o construtivismo. A sua atuação neste estudo consiste em participar em até dois grupos que terão como propósito o de auxiliar na construção de tecnologia de cuidados que venha auxiliá-los nos cuidados integrais de seus familiares idosos. Os grupos serão gravadas para que não percamos o produto discutido e serão realizadas no período de outubro a dezembro de 2012, em um espaço a ser destinado no próprio hospital. A sua participação é importante para a concretização desse estudo porque partiremos das dificuldades e necessidade apontadas por vocês, do contrário, não conseguiremos êxito na construção dessa tecnologia proposta. Poderá ocorrer o constrangimento dos familiares durante a participação, porém o moderador explicará que não há necessidade de ter um conhecimento teórico. O beneficio do produto irá contribuir para que os familiares cuidadores tenham um direcionamento teórico prático que auxilie e direcione os cuidados integrais aos seus idosos familiares no domicílio após alta hospitalar evitando com isso as reinternações hospitalares desnecessárias. A sua participação é voluntária, portanto sem remuneração. O sigilo e anonimato serão mantidos em caráter confidencial de todas as informações obtidas. Poderá fazer questionamentos a respeito do processo a qualquer momento para ambos os pesquisadores acima, bem como sair da pesquisa sem que haja prejuízo do atendimento ao seu familiar e a você mesmo. Os dados serão utilizados para fins acadêmicos, tais como: relatórios, trabalhos de conclusão de curso, artigos, livros e resumos. Contudo, poderá haver a reprodução e registro autoral dessa tecnologia, porém sem que haja retorno financeiro tanto para os participantes quanto para os pesquisadores e instituição hospitalar. Caso aceite participar, solicito que assine esse termo. Nome do pesquisador: Juliana Vieira de Araujo Sandri e Odair José Colaço Assinatura do pesquisador:_____________________________________ 78 CONSENTIMENTO DE PARTICIPAÇÃO DO SUJEITO Eu,________________________________________________________________________ __, RG_______________________________,CPF________________________ abaixo assinado concordo em participar do presente estudo como sujeito. Fui devidamente informado e esclarecido sobre a pesquisa, os procedimentos nela envolvidos, assim como os possíveis riscos e benefícios decorrentes de minha participação. Foi-me garantido que posso retirar meu consentimento a qualquer momento, sem isto leve à qualquer penalidade ou interrupção de meu acompanhamento, assistência e tratamento. Local e data:__________________________________________________________________ Assinatura do sujeito ou responsável:______________________________________________ Telefone para contato:__________________________________________________________ 79 APÊNDICE C – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (profissionais de saúde) Você está sendo convidado(a) para participar, como voluntário, em uma pesquisa. Após ser esclarecido(a) sobre as informações a seguir, no caso de aceitar fazer parte do estudo, assine ao final deste documento, que está em duas vias. Uma delas é sua e a outra é do pesquisador responsável. Em caso de recusa você não será penalizado(a) de forma alguma. INFORMAÇÕES SOBRE A PESQUISA Título do Projeto: Tecnologia de cuidados integrais aos idosos no domicílio. Pesquisador Responsável: Juliana Vieira de Araujo Sandri Telefone para contato: (47) 3341-7932 e 9987-3129 Pesquisador colaborar: Odair José Colaço Telefone para contato: (47)3384-0934 e (47) 9156 1271 Tem como objetivo investigar as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores apresentam com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar. Farão parte desta pesquisa, aqueles familiares dos idosos com mais de cinco dias de internação e com alta hospitalar prescrita e, vocês, profissionais de saúde com nível superior que atuam no local da internação. Será utilizando como método de pesquisa o construtivismo. A sua atuação neste estudo consiste em participar em até dois grupos, onde irão contribuir na elaboração técnica desta proposta. Os grupos serão gravados para que não percamos o produto discutido e serão realizadas no período de outubro a dezembro de 2012, em um espaço a ser destinado no próprio hospital. A sua participação é importante para a concretização desse estudo porque partiremos das dificuldades e necessidade apontadas pelos familiares e vocês serão aqueles que auxiliarão na construção teórica do produto através do seu conhecimento teórico e prático. O risco está relacionado à possibilidade da perda dos dados gravados ou escritos respectivamente, portanto será tomada todas as precauções necessárias para que isso não ocorra. O produto final tem como beneficio que essa formulação de tecnologia de cuidados responde aos direcionamentos do SUS que a partir de fevereiro de 2006, publicou por meio da portaria n. 399/GM, o documento das diretrizes do pacto pela saúde que contempla o pacto pela vida. Esta tecnologia a ser construída, assim como, sua aplicabilidade e relevância será um subsidio de ajuda aos familiares com relação aos cuidados integrais a ser conduzido no ambiente domiciliar ao idos no pós-alta hospitalar e poderá ser disseminada a varias instituições de cuidado ao idoso, correspondendo à uma ferramenta auxiliar para a educação em saúde nessa área.m A sua participação é voluntária, portanto sem remuneração. O sigilo e anonimato serão mantidos em caráter confidencial de todas as informações obtidas. Poderá fazer questionamentos a respeito do processo a qualquer momento para ambos os pesquisadores acima, bem como sair da pesquisa se assim achar necessário. Como os horários das oficinas acontecerão durante o horário de trabalho cabe aos pesquisadores negociar junto à administração hospitalar negociar sua participação, sem que haja prejuízo pessoal e profissional. Os dados serão utilizados para fins acadêmicos, tais como: relatórios, trabalhos de conclusão de curso, artigos, livros e resumos. Contudo, poderá haver a reprodução e registro autoral dessa tecnologia, porém sem que haja retorno financeiro tanto para os participantes quanto para os pesquisadores e instituição hospitalar. Caso aceite participar, solicito que assine esse termo. Nome do pesquisador: Juliana Vieira de Araujo Sandri e Odair José Colaço Assinatura do pesquisador:_____________________________________ 80 CONSENTIMENTO DE PARTICIPAÇÃO DO SUJEITO Eu,___________________________________________________, RG________________________, CPF________________________ abaixo assinado concordo em participar do presente estudo como sujeito. Fui devidamente informado e esclarecido sobre a pesquisa, os procedimentos nela envolvidos, assim como os possíveis riscos e benefícios decorrentes de minha participação. Foi-me garantido que posso retirar meu consentimento a qualquer momento, sem isto leve à qualquer penalidade ou interrupção de meu acompanhamento, assistência e tratamento. Local e data:_________________________________________________________________ Assinatura do sujeito ou responsável:_______________________________________________ Telefone para contato:___________________________________________________________ 81 APÊNDICE D - Artigo elaborado para publicação em revista Necessidades de cuidado no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar Home health care requirements for seniors after a hospitalization period Odair José Colaço1 Juliana Vieira de Araújo Sandri2 1 Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho da Universidade do Vale do Itajaí em Saúde e Gestão do Trabalho. [email protected] 2 Doutora em Enfermagem pela UFSC. Professora titular do Curso de Enfermagem e do Programa de Mestrado Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho da Universidade do Vale do Itajaí. Orientadora da Pesquisa. [email protected] 82 Necessidades de cuidado no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar Resumo Com o aumento da expectativa de vida, observa-se o crescimento do número de idosos dependentes e a necessidade de assistência domiciliar para estes, principalmente no pós-alta hospitalar. Os cuidados integrais no domicílio são fundamentais para a recuperação e a reabilitação da saúde do idoso. Este artigo aborda essas questões e apresenta os resultados de investigação sobre as necessidades que os familiares cuidadores apresentam com relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar. Foi desenvolvido estudo qualitativo, adotando-se o método construtivista e a técnica de grupo focal. Fizeram parte do estudo os familiares cuidadores que estavam presentes na hospitalização e os enfermeiros da instituição hospitalar onde foi realizada a pesquisa, divididos em dois grupos formados com finalidades distintas: o de cuidadores familiares, para apontar as suas dificuldades e as estratégias de cuidado que utilizam com o idoso no domicílio, e o dos enfermeiros, para refletir sobre os cuidados no pós-alta hospitalar e ajudar na elaboração de um guia instrucional. Com os relatos de ambos os grupos foram elencadas as temáticas e a partir delas elaboraram-se as recomendações de orientação de cuidados aos idosos na ambiência domiciliar para comporem um guia instrucional. Palavras-chave: Saúde do idoso. Cuidados. Assistência domiciliar. Introdução Estamos vivendo momentos de importantes transformações na composição etária da população, fenômeno que exige mudanças na organização dos serviços de saúde e da sociedade. De acordo com os dados do censo demográfico de 2010, diminuiu a proporção de jovens e aumentou a de idosos na população brasileira, havendo um alargamento do topo da 83 pirâmide etária relativa à população com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em 1991, passando a 5,9% em 2000 e chegando a 7,4% em 2010. De forma conclusiva, o crescimento absoluto da população do Brasil, nesses últimos dez anos, deu-se principalmente em função do crescimento da população adulta, com destaque também para o aumento da participação da população idosa (IBGE, 2012). Com a ampliação da expectativa de vida, observa-se aumento das doenças crônicas não transmissíveis e com elas a necessidade de internação hospitalar de modo frequente e recorrente de idosos, o que pode ocasionar agravos maiores à saúde dessas pessoas. Destacase que as doenças crônicas e suas comorbidades podem influenciar na capacidade funcional, que é parâmetro para diagnosticar a autonomia e a independência de indivíduos com idade mais avançada para tomar decisões e executar atividades básicas e instrumentais da vida diária. A perda da capacidade funcional pode ocasionar síndromes geriátricas que levam à hospitalização. A permanência do idoso no hospital representa risco à sua saúde por causa da exposição a outras enfermidades, polifarmácia, ambiente estranho e, às vezes, hostil, contribuindo para o agravamento de seu estado de saúde. Outro fator danoso da hospitalização prolongada e recorrente do idoso é o desencadeamento de conflitos de ordem pessoal, física, mental e social, ocasionados por confinamento no leito, falta de estímulos físicos e mentais, dificuldade de adaptação ao ambiente em função dos ruídos, medo da doença e da morte. Desse modo, é importante que se evite a hospitalização do idoso, mas, quando ela é necessária, cabe à enfermagem investir na educação para a saúde, envolvendo a família cuidadora no processo de cuidar durante o período de internação para que ela possa melhor atender o idoso depois da alta hospitalar. A presença do familiar na hospitalização encontra amparo na legislação brasileira e em políticas públicas de atenção à saúde do idoso, porém, nem sempre os profissionais de enfermagem estão esclarecidos sobre o papel do 84 acompanhante e a sua própria atuação no que tange ao atendimento do idoso e da família. Todavia, a partir do diálogo entre enfermagem e cuidador familiar é possível estimular o intercâmbio de saberes e conhecer as práticas adotadas por ambos no cuidado ao idoso. Portanto, cabe investigar as necessidades de cuidado que os familiares cuidadores apresentam com relação aos cuidados a serem prestados no ambiente domiciliar, principalmente no processo de pós-alta hospitalar. O domicílio é visto como um espaço de cuidado, seja em situações agudas ou crônicas ou em qualquer uma das etapas da vida. Atender o idoso no domicílio exige dedicação, tempo, amorosidade, mas, sobretudo, segurança e conhecimento do ato de cuidar do idoso fragilizado. A atenção ao idoso no domicílio passa por cuidados gerais que podem ser orientados com o uso de um guia instrucional, elaborado com linguagem simples e clara que permita o entendimento de qualquer pessoa, independentemente do grau de instrução. Neste artigo são apresentadas as necessidades de cuidado relatadas pelos familiares, as quais foram categorizadas como cuidados gerais com o idoso, de acordo com as seguintes temáticas: cuidado com o cuidador; aspectos emocionais do idoso; despreparo da família para o cuidado; referência e contrarreferência — todas respaldadas e analisadas teoricamente. Destaca-se que essa análise teórica permitirá elaborar um guia instrucional para servir como instrumento orientador ao familiar cuidador no processo de cuidar do idoso no pós-alta hospitalar. Contudo, não cabe neste momento detalhar a sua construção, mas sim apresentar uma parte da sua base teórica. Metodologia da pesquisa A abordagem qualitativa construtivista foi a escolhida para esta pesquisa por responder questões particulares, preocupando-se com aspectos que não podem ser quantificados, pois se trabalha com um universo de significados, valores e atitudes 85 (MINAYO, 2000), e por considerar o ser humano como o centro do seu percurso em direção à construção do conhecimento (SIQUEIRA; ERDMANN, 2007). A técnica de grupo focal adotada possibilitou ao pesquisador não só examinar as diferentes análises das pessoas em relação ao tema proposto, como também permitiu explorar como os fatos são articulados, censurados, confrontados e alterados por meio da interação grupal (KITZINGER; BARBOUR, 1999). A pesquisa foi desenvolvida em uma instituição hospitalar filantrópica de médio porte situada na região do Médio Vale de Itajaí (SC), mais especificamente no setor de clínica médica cirúrgica. Participaram do estudo dois grupos distintos: cuidadores familiares e enfermeiros. Com relação aos cuidadores, considerou-se a proximidade de parentesco e os vários tipos de famílias constituídas (CRAVEN; HIRLENE, 2006), estabelecendo-se como requisito o acompanhamento de idosos com mais de cinco dias de hospitalização e com alta hospitalar prescrita. Quanto aos enfermeiros, fizeram parte do estudo os que aceitaram participar dos encontros do grupo focal. O grupo de familiares apontou as necessidades de cuidados, mostrando as dificuldades de cuidar no domicílio, e o grupo de enfermeiros contribuiu na elaboração técnica das orientações para comporem o guia instrucional e na reflexão sobre a importância de se ter instrumentos práticos constituídos. A análise dos dados ocorreu a partir dos relatos feitos por ambos os grupos. Optou-se por apresentar as falas em conjunto, sem separação por grupo, identificando-se os participantes com a abreviatura Enf. (enfermeiro) e com as letras CF (cuidador familiar), seguidas de um numeral. O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e aprovado sob o Parecer n. 115.175, em 28 de setembro de 2012. Foram respeitados todos os preceitos éticos determinados na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. 86 Necessidades de cuidados gerais com o idoso no pós-alta hospitalar O cuidador é o um dos agentes mais envolvidos no cuidado com o paciente idoso e por isso necessita de atenção dos profissionais de saúde, tanto de enfermeiros nos hospitais como de médicos que estão direcionando os tratamentos em saúde. A preocupação com o cuidador é evidenciada nas seguintes falas: ―Porque se às vezes o cuidador que está cuidando em casa, ele adoece também ou em algum final de semana ele não vai poder estar, os outros não vão saber o que se deve ser feito com ele, quais os cuidados em casa com ele‖ (Enf. 5). ―A movimentação adequada não forçava tanto a minha coluna‖ (FC3). ―E às vezes a gente também acaba se sentindo melhor por saber que eles [os cuidadores] estão se sentindo seguros, porque a gente não se sente inseguros com eles‖ (FC2). Nota-se que o cuidador está presente em todas as etapas do tratamento de saúde e que a preocupação com ele deve ser evidenciada nos estudos acerca dos idosos no pós-alta hospitalar, tendo em vista a sobrecarga de trabalho e de preocupações na rotina de cuidados. Para Caldas (2004), o familiar vivencia a sobrecarga física, emocional e socioeconômica. É fundamental o treinamento adequado para que ele se torne mais seguro e preparado para assumir as responsabilidades no cuidado do familiar dependente. Os cuidadores participam menos de atividades sociais, têm mais problemas no trabalho e apresentam maior frequência de conflitos familiares, tendo como foco a forma como eles cuidam do parente comum. Algumas pessoas chegam a apresentar o que tem sido chamado de ―erosão do self‖, pela forma como submergem no papel de cuidadores (ZARIT, 1997). De modo geral, a família é fundamental no processo de prestação de cuidado ao idoso, contribuindo para a humanização da assistência e a construção de um ambiente favorável para a recuperação da saúde do idoso, evitando, na medida do possível, 87 hospitalizações, asilamentos ou outras institucionalizações (BRASIL, 2001). Nas fases mais avançadas da vida, os familiares, em qualquer condição de existência e com quaisquer características, apoiam-se mutuamente. Em muitas situações, laços de amizade suprem a falta de vínculos familiares. Os idosos geralmente se apoiam também nos familiares e amigos ou em cuidadores contratados. Mas, em muitos casos, esses cuidadores desconhecem sua função, cuidando do idoso da maneira que melhor entendem, seguindo os conhecimentos que lhes são repassados. Os relatos apontam o despreparo da família para o cuidado: ―Somos leigos e não entendemos direito, mas aos pouquinhos o médico e o enfermeiro falam com nós, e a gente acaba percebendo. Por outro lado, como cuidador, procuro adquirir conhecimento também sobre a doença‖ (FC1). ―Então quando saio do hospital e vou pra casa [...] fico insegura‖ (FC1). ―Às vezes a gente pergunta aqui. O que aquele idoso toma em casa? E o filho: Ah, eu não sei porque não sou eu que fico em casa o dia todo com ele e cuido. Então eu acho que existe uma falta de comunicação entre os familiares pra estar cuidando deste idoso em casa‖ (Enf. 2). ―Os cuidados básicos em casa. Eles não chegam a tentar. Eles têm medo do que eles podem fazer em casa, então eles trazem o idoso para o hospital‖ (Enf. 4). O aumento da necessidade de apoio a famílias com um idoso dependente emerge como um problema prioritário nas políticas educativas, de saúde, sociais e econômicas dos países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001). Foram identificados casos que demonstram reincidências de atendimento: ―Eles vivem voltando porque não sabem cuidar em casa. Então eles vêm para o pronto-socorro direto, eles vêm, a família traz. Eles não sabem o que fazer com aquele idoso, o paciente, o velhinho vomitou uma vez e a família já traz pra cá‖ (Enf1). 88 ―Até pelo medo de cuidar em casa, eles acabam trazendo para o hospital de novo. Eles se sentem inseguros em casa de estar cuidando‖ (Enf. 3). Não existem serviços específicos de apoio às famílias prestadoras de cuidados aos idosos. Em muitos casos, a rede primária de atendimento básico não oferece condições de atendimento adequadas e, portanto, ocorrem as reincidências de atendimentos nas unidades de saúde de referência (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001). Algumas medidas e equipamentos existentes constituem apenas formas indiretas de apoio, na medida em que tentam criar condições conducentes à manutenção do idoso no seu ambiente familiar (FIGUEIREDO; SOUSA, 2001). Os participantes da pesquisa relataram dificuldades em relação ao cuidado com o familiar idoso: ―A gente precisa trabalhar. Todo mundo tem os seus compromissos. O ideal seria ficar mais tempo em casa, eu queria ficar dando atenção para a minha mãe o tempo inteiro, mas como vou fazer se tenho que trabalhar?‖ (FC4). ―[...] 93 anos e a filha, também, já com setenta e pouquinho. Então ela não era uma senhora tão pequena, tinha certo peso né, e aquela família que cuida é idoso também‖ (Enf. 2). ―No meu caso com a minha mãe é quase sempre eu, mas quando não posso, aí o meu irmão também fica. Aí neste tempo, ao menos orientar um pouco ele também, porque também ele não sabe nada, ele não entende nada. Então assim, tento ajudar a passar um pouco sobre ela para que ele possa estar me ajudando‖ (FC2). Nesse contexto, apesar de a família ser apontada como fonte primária de suporte social e informal em que se almeja uma atmosfera afetiva comum de aquisição de competência e de interação entre os membros, há que se ressaltar que o processo de cuidar da pessoa idosa, por parte de familiares e cuidadores, depende da integração das relações, da disponibilidade de 89 recursos pessoais e externos, em diferentes momentos e situações da história anterior de relacionamento com o idoso (TORRES; SÉ; QUEIROZ, 2004). Para Luzardo e Waldman (2004), os principais enfrentamentos do cuidador são: dificuldades financeiras, com sobrecarga de tarefas e de compromissos (cuidar ininterruptamente); ausência de apoio institucional, da própria família e da sociedade, bem como a dificuldade maior de lidar com a doença por não compreender a sua magnitude. A falta de informações e do repasse destas são também déficits a serem suplantados nos atendimentos aos idosos e, por consequência, aos cuidadores responsáveis. Há pouca informação sobre os cuidados e falta de conhecimentos considerados como básicos para um atendimento adequado ao idoso na pós-alta hospitalar, como apontam as seguintes falas: ―Porque o acompanhante, o familiar é leigo, não acaba sabendo que a pessoa lá na mesma posição por mais de três ou quatro horas, ela vai perder a expansão torácica, o pulmão vai ficar com um acúmulo de secreção ali, e vai ocasionar essa pneumonia né‖ (Enf. 5). ―A gente vê que ele não tem a colaboração de outro familiar em casa pra estar fazendo o cuidado, pra estar ajudando, pra estar dando banho [...] acho que isso acontece bastante aqui na clínica‖ (Enf. 2) ―Ela faz uso de medicação contínua também, quando no hospital, vem aqui ele dá à medicação certinha, ela sabe os horários certinhos, mas quando ela vai pra casa eu não tenho muita experiência, aí eu fico meio perdida. Eu não sei ao certo que medicação dar‖ (FC3). Ocorre que os acompanhantes não são informados explicitamente sobre quais cuidados ou tarefas passarão a desenvolver com o idoso; esses vão sendo naturalmente repassados para os familiares. Não se estabelece um diálogo com a família para tentar uma negociação na divisão do trabalho. Os acordos não são abertamente discutidos, mas velados. A família se sente responsável e vai assumindo determinados cuidados que se estendem após a alta hospitalar (COLLET; ROCHA, 2004). 90 Os cuidadores mencionam que, no momento da alta hospitalar, geralmente recebem poucas informações claras a respeito da doença ou de um serviço para prosseguir o tratamento. Comentam que até as orientações quanto ao uso de medicamentos imprescindíveis para a continuidade do tratamento nem sempre são realizadas. Assim, o cuidado se torna difícil, aumentando ainda mais a sobrecarga para o cuidador (CALDAS, 1998). Essas constatações de Caldas (1998) são confirmadas nas falas dos enfermeiros: ―Aqui a gente tem pacientes que caem da cama. Pacientes agitados correm este risco e a família é informada sobre isso. Este tipo de orientação é bem básico‖ (Enf. 3). ―É, isso que é importante, a gente conseguir passar para o cuidador o máximo de informações possível, para ele poder cuidar em casa e não precisar trazer para o hospital‖ (Enf. 4). ―[...] é importante que eles [familiares] estejam juntos na hora que a gente está fazendo a higiene da pessoa, na prótese do paciente, na hora que a gente faz a higiene íntima, para que perceba como é feito um banho de leito para quando o paciente não puder mais fazer aquele banho por aspersão‖ (Enf. 5). Ao abordar esse assunto, Padilla (2008) enfatiza a necessidade de formação dos cuidadores, que poderão promover um processo de reflexão sobre a experiência do cuidar e apreender novas formas e técnicas, de maior socialização entre o profissional de saúde e o doente e, por fim, de um reconstruir de intenção e vontade de produzir efeitos em si e nos indivíduos, a fim de que o cuidado seja realizado de forma correta, como nestes casos: ―Minhas dúvidas, até mesmo pra eu ver de que forma que eles agem ali, pra eu ter um exemplo de como agir em casa. De que forma que eles levam para o banho, às vezes em casa eu estou fazendo de uma forma incorreta‖ (FC2). ―Eu procuro os enfermeiros antes de ir pra casa para pegar informações deles, para que aí a gente em casa consiga continuar este tratamento [...]. Como vou administrar esta 91 medicação pra ela?‖ (FC1). ―Eles têm medo de trocar o medicamento, dar uma superdosagem. Então uma orientação de como deixar armazenado, qual vai ser a escalinha de horário para administrar este medicamento é importante. Até uma orientação para o acompanhante, às vezes eles trocam a medicação se não cuidar, tem pai e a mãe para cuidar e quando percebem o medicamento foi trocado. Então a medicação desse paciente que recebe alta precisa ser bem informada‖ (Enf. 2). A respeito desse tema, Patrício (1994) salienta que a família e o cuidador passam a ser contribuintes nos cuidados subsequentes de tratamento e para tanto necessitam de apoio e entendimento claro de seu papel na integralidade do tratamento a ser executado antes, durante a após intervenção hospitalar. O papel da enfermagem vai além do cuidado com o paciente e se volta para a integralidade do atendimento, englobando as famílias e os cuidadores, requerendo a construção de tecnologias educativas focadas no pós-alta hospitalar do idoso e nos seus cuidadores. Os cuidadores deverão também receber atenção médica pessoal, considerando que a atividade de cuidar de um adulto dependente é desgastante e implica riscos à saúde do cuidador. Por conseguinte, a função de prevenir perdas e agravos à saúde abrangerá, igualmente, a pessoa do cuidador (BRASIL, 1999). O uso de uma tecnologia de cuidados integrais com os idosos, a exemplo de um guia instrucional, poderia diminuir os déficits, evitando assim dúvidas e necessidades levantadas na pesquisa, como: ―Eu acho que no hospital o que está faltando é uma cartilha, porque é muita informação para aquela pessoa que já está se preocupando, tiver que levar pra minha casa‖ (Enf. 5). ―Se tivesse alguma coisa escrita, como orientações; acho que seria mais fácil para o cuidador em casa. Uma carta já ajuda‖ (Enf. 3). 92 ―Sentimos falta de instruções de cuidados por escrito. Precisamos de orientações e se tiver algum tipo de manual em casa que nos oriente seria adequado‖ (FC2). ―Eu sei que eu levei minha mãe para o hospital e fui para casa, mas ainda fiquei muito insegura quanto aos cuidados com ela‖ (FC4). ―Por mais que você fala, fala, tem-se a necessidade de se ter um manual pra esse paciente, pra esse familiar em casa, que tipo de medida e cuidado ele vai seguir para determinada situação de alta hospitalar‖ (Enf. 3). Esses déficits, de alguma forma, já são diminuídos com as iniciativas, por meio de oficinas de apoio e aprendizagem, determinadas pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2008, p. 17): ―as oficinas pedagógicas de cuidadores são espaços que possibilitam trocas de experiências, onde os cuidadores conversam, aprendem e ensinam e constroem juntos na arte do cuidar.‖ Assim, essas oficinas devem ser abertas a todos que estão envolvidos, tais como cuidadores, familiares e amigos. Compartilhar experiências traz alívio. O cuidador percebe que não está sozinho e que outros podem ter dúvidas e dificuldades do mesmo modo como ele. Entende-se que esses ambientes possibilitam conversar sobre as boas experiências e também sobre as angústias, medos e dificuldades. As pessoas do grupo formam uma rede de apoio social, já que todos estão unidos pelo mesmo motivo. Segundo Santos (2003), é primordial que se ofereçam condições de infraestrutura e de suporte para que os familiares possam efetivamente exercer o papel de cuidadores informais. É relevante que, além de se conhecerem as necessidades de cuidado da pessoa dependente, também se conheça a situação dessas famílias, suas demandas, suas crenças, seus valores e suas práticas socioculturais. É importante que o cuidador peça ajuda, evitando a sobrecarga de trabalho, quando possível. Ter uma vida normal e estar de bem consigo mesmo é condição necessária para atender bem o idoso, principalmente quando este manifesta sofrimento psíquico. 93 Aceitar a condição humana de ser idoso exige aceitação de que a velhice é um processo natural no ciclo vital; do contrário, essa etapa da vida pode levar a um sofrimento psíquico sem tamanho. Acolher as limitações, as dificuldades de mobilidade antes não observáveis, a busca da autoestima e da inserção social são aspectos que podem interferir na senescência. Durante os encontros dos grupos focais, enfermeiros e cuidadores fizeram considerações sobre esse assunto: ―Este lado emocional é o que pode acabar trazendo doenças pra este paciente idoso‖ (Enf. 1). ―No hospital, na hora da alta já chora antes de ir embora, porque não tem uma família do lado, em casa. [...] Entra em sofrimento emocional‖ (Enf. 5). ―Pela minha mãe eu vejo que eles têm cuidado no falar, [...] ela sempre se sente ofendida, por que tem certa idade‖ (FC4). ―Eu percebo que ela gosta muito de conversar [...] ela passou a tarde toda só. Solidão [...] por qualquer motivo ela está chorando. Chora de depressiva que é‖ (FC2). ―Em relação ao meu tio eu também vejo essa certa falta de ter alguém junto para conversar. Fica mais tempo sozinho então fica mais carente de ter alguém ali‖ (FC3). Apesar de ser um processo natural, o envelhecimento submete o organismo a alterações anatômicas e funcionais, com repercussões nas condições de saúde do idoso e, consequentemente, na sua qualidade de vida (VECCHIA et al., 2005). As alterações que ocorrem no sistema nervoso acarretam a diminuição da liberação de neurotransmissores, principalmente da dopamina, provocando alterações sensoriais, intelectuais e psicológicas (FARO JÚNIOR et al., 1996). O tempo de reação torna-se mais lento e a velocidade de condução nervosa fica de 10 a 15% mais lento aos 70 anos, com prejuízo na sensibilidade e na resposta motora aos estímulos e ocorre a queda da perfusão tecidual e redução da massa encefálica em torno de 14% por volta dos 80 anos (FARO JÚNIOR et al., 1996). 94 Essas alterações orgânicas e motoras podem ser atenuadas por atividades físicas durante todas as etapas da vida. Para Samulski e Lustosa (1996), a influência do exercício no processo de envelhecimento afeta diretamente a qualidade, se não a quantidade de vida, ficando evidente que a atividade física regular melhora os estados psicológicos de humor e alivia as tensões de natureza psicológica, exercendo uma influência benéfica nos aspectos psicológicos e no bem-estar mental. Segundo Nunes e Peixoto (1994), os programas de idosos operam mudanças em seus participantes quanto ao resgate da autoestima, superação de doenças, recuperação da memória, propiciando novos conhecimentos e o desenvolvimento da sociabilidade. A qualidade de vida em idosos está diretamente ligada ao seu bem-estar biopsicossocial, ou seja, não só a sua saúde biológica, mas a sua saúde mental e a aceitação como membro ativo da sociedade são fatores que promovem a qualidade de vida dessa população (TOMASINI, 2008). O bem-estar dessas pessoas também depende da qualidade do espaço onde elas residem, do contato que elas têm com seus familiares e do lazer a que elas têm acesso (TOMASINI, 2008). De acordo com Capitanini (2000), a solidão inclui experiências de isolamento, tristeza e insatisfação com a vida. Esse estado emocional não é causado simplesmente pelo fato de a pessoa estar fisicamente só, mas de estar sendo privada de relacionamentos que gostaria de ter, causando evidências de problemas de depressão. Estima-se que em 2030 o transtorno depressivo unipolar venha a assumir a segunda posição como causa de incapacidade em todo o mundo e a primeira causa nos países de renda per capita elevada (GONZALEZ et al., 2010). Assim, faz-se necessária a produção de conhecimentos que visem apontar os diagnósticos mais frequentes entre os idosos para que, a partir deles, seja possível a elaboração de um plano de intervenção e desenvolvimento de cuidados efetivos, capaz de promover o conforto, o bem-estar e a melhoria na qualidade de vida dos idosos (RESTA; BUDÓ, 2004). 95 Outro tema elencado diz respeito à referência e à contrarreferência em relação ao cuidado com o idoso. No ato de cuidar do idoso surgem dúvidas relativas ao conhecimento dos papéis, das particularidades e das hierarquias de promoção à saúde já estabelecidas, ou seja, sobre quais são as funções de cada setor de saúde. Isso gera diferentes interpretações de responsabilidades e sobrecarrega de setores de referências em detrimento do atendimento adequado em esferas primárias de atendimento, como revelam os seguintes comentários: ―Na verdade falta um fluxo. Apresentou determinado sinal ou sintoma, eu vou focalizar na unidade básica de saúde ou eu levo para o pronto-socorro ou é um cuidado que pode ser feito em casa?‖ (Enf. 3). ―Se fizéssemos um trabalho aqui dentro de estar ligando lá pra unidade do bairro daquele paciente avisando que o paciente é idoso e que está de alta, informando o problema dele, para que acompanhe a sua evolução [...]‖ (Enf. 3). ―Tem certos momentos que você fica preocupada, eu fico preocupada com a minha mãe. Tem horas que eu acho que eu não consigo mais, que eu estou com dúvidas, se vou para o posto ou levo para o hospital‖ (FC3). ―Deixa-me ir lá porque lá eu sei que eu vou ser bem tratada. Eu já fui várias vezes lá, lá ela chega e fica mais contente, porque lá ela sabe que vai vir um médico atender ela‖ (FC2). ―Outro ponto importante que a gente vê é qual o fluxo de movimentação do paciente – movimentação eu digo. Pra onde eu vou encaminhar? Vai pra hospital novamente, vai pra estratégia da saúde da família, precisa somente de uma avaliação de uma psicóloga da saúde ou uma avaliação de um enfermeiro, pra orientar esta família? Qual é o fluxo? Num momento de emergência, quem eu vou chamar? O SAMU? O Bombeiro? Isso também é uma coisa importante no cuidado‖ (Enf. 2). Vale lembrar que a Constituição Federal (BRASIL, 1988), em seu artigo 196, define 96 que a saúde ―é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação‖. A Lei nº. 8.080/1990 (BRASIL, 1990), que regulamentou o SUS, prevê, como princípios do sistema, universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência; integralidade de assistência, equidade e garantia de acesso de qualquer pessoa em igualdade de condições aos diferentes níveis de complexidade do sistema, de acordo com a necessidade que o caso requeira. A referência representa o maior grau de complexidade, para onde o usuário é encaminhado a um atendimento com níveis de especialização mais complexos, por exemplo, os hospitais e as clínicas especializadas (MAEDA, 2002). A contrarreferência diz respeito ao menor grau de complexidade, quando a necessidade do usuário, em relação aos serviços de saúde, é mais simples, ou seja, ―o cidadão pode ser contra referenciado, isto é conduzido para um atendimento em nível mais primário‖ (BRASIL, 2003, p. 45), devendo ser este a unidade de saúde mais próxima de seu domicílio. Importa ressaltar que a integralidade não é simplesmente sinônimo do acesso a todos os níveis do sistema; as práticas de integralidade devem permear todos os níveis de atenção, caracterizadas pela apreensão ampliada das necessidades e a habilidade de reconhecer a adequação das ofertas ao contexto específico da situação em que transcorre o encontro entre uma equipe de saúde e o usuário, como sujeito portador de várias necessidades (FRATINI; SAUPE; MASSAROLI, 2008). A atenção básica deve estar voltada para o envelhecimento e a saúde da pessoa idosa, sendo desenvolvida ―por meio do exercício de práticas gerenciais e sanitárias democráticas e participativas‖ (BRASIL, 2006, p. 12). No caso do idoso, ele precisa de maior agilidade no sistema de saúde porque o processo de envelhecimento traz como consequência menor 97 expediente para o idoso procurar os serviços de saúde e deslocar-se nos diferentes níveis de atenção. Para o idoso, principalmente os mais carentes, qualquer dificuldade torna-se um mote para bloquear ou interromper a continuidade da assistência à sua saúde (COSTA, CIOSAK, 2010). As dificuldades e os conhecimentos dos cuidadores, assim como a eficácia do atendimento das instituições de referência e contrarreferência, remetem à necessidade de construção de meios para diminuir os gaps (lacunas) entre os cuidados mais diários. Esta pesquisa então sugere a construção e validação de uma tecnologia de cuidados integrais ao idoso no domicílio na pós-alta hospitalar. Considerações finais A pesquisa revelou que, em relação aos cuidados integrais a serem conduzidos no ambiente domiciliar ao idoso no pós-alta hospitalar, existem déficits de conhecimentos que apontam necessidades emergentes a serem supridas por meio de instrumentos informacionais. Observou-se que os familiares cuidadores apresentam dificuldades e sentem falta de orientações básicas e necessárias sobre os cuidados que devem prestar aos seus familiares idosos no âmbito domiciliar após a alta hospitalar. Essas carências foram também expostas pelos enfermeiros participantes do estudo. Portanto, fazem-se necessárias e importantes todas as informações transmitidas aos familiares durante a internação do idoso. Evidenciou-se que pouca informação — ou quase nenhuma em alguns casos — sobre os cuidados com o idoso foi repassada pelos profissionais de saúde do hospital. Essa situação foi justificada pela falta de tempo e das várias atribuições desses profissionais, ou até mesmo pela falta desses conhecimentos básicos, principalmente no momento ou nas horas que antecedem a alta hospitalar do idoso. Sem um instrumento que os direcione, os familiares, quando se deparam com a necessidade de realizar os cuidados no 98 domicílio após a alta hospitalar, acabam ficando com dúvida e insegurança de como proceder. As consequências da falta de informação são os processos de reinternação dos idosos no hospital. Muitos buscam este serviço para receber instruções no serviço de prontoatendimento, pois, na visão dos familiares cuidadores, somente nesse ambiente podem-se obter os cuidados adequados. Essa atitude provoca sobrecarga de trabalho para a equipe de enfermagem; afinal, há situações que podem ser resolvidas ou atenuadas com cuidados adequados no domicílio. Contudo, só será possível materializar essa atitude quando o familiar cuidador sentir-se seguro do que está fazendo. A enfermagem tem um importante papel que é o de promover ações de educação em saúde no ambiente hospitalar, orientando e educando o familiar para a manutenção do cuidado no domicílio, evitando assim as reinternações desnecessárias e perniciosas ao idoso. O atributo de um cuidador está no saber cuidar de si para poder cuidar do outro. Cabe a ele pedir ajuda e dividir responsabilidades entre os familiares ou dentro de sua rede social. O cuidar exige devoção, paciência, dedicação, disponibilidade, mas sobretudo conhecimento. Porém, não é saudável deixar de viver a sua vida para dedicar-se inteiramente ao cuidado do outro. É importante que o cuidador mantenha seus vínculos afetivos e busque alternativas de lazer, evitando a exaustão e a depressão causadas pela sobrecarga de trabalho e responsabilidade. Cuidar de si antes de cuidar do outro é um ato de promoção da sua própria saúde. Defende-se a necessidade de elaborar instrumentos informativos, a exemplo de um guia instrucional, que possa nortear os familiares cuidadores nos seus atos cuidativos, principalmente quando estes estão sob a responsabilidade de leigos. Home health care requirements for seniors after a hospitalization period ABSTRACT With the increase of life expectation, an increase can be seen on the number of dependent 99 seniors and the need to care for them at their homes, particularly when they come from a hospitalization period. Full health care at home for seniors is essential for their health recovery and physical rehabilitation. This study has been aimed to investigate what needs do the seniors’ caring family members have when dealing with full health care at home after a hospitalization period. It is a qualitative study using a constructive method by means of a group-aimed technique. The parties involved in this study were caring family members, who were present at the hospitalization, and the nursery staff of the referred hospital, thus divided in two groups because of their different purposes: the group of family members, who would point out their difficulties and the care strategies they use on their seniors at home, and the group of nursery staff, who would reflect about what cares would be necessary after the hospitalization period and help in preparing an instruction guide. After obtaining reports from both groups, subjects were casted from which recommended procedures were prepared for the health care of seniors at home as described in the instruction guide. Key-words: Health of seniors, Care, Health care at home. Referências BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. BRASIL. Lei 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes. Brasília, 1990. BRASIL. Ministério da Saúde. Gestão financeira do Sistema Único de Saúde: manual básico. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2003. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.528, de 19 de outubro de 2006. Aprova a política nacional de saúde da pessoa idosa. Brasília, Ministério da Saúde, 2006. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia prático do cuidador. Brasília: Ministério da Saúde, 2008. BRASIL. Ministério da Saúde. Violência intrafamiliar: orientações para a prática em serviço. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. CALDAS, C. P. A saúde do idoso: a arte de cuidar. Rio de Janeiro: UNRJ, 1998. 100 CALDAS, C. P. 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