REALIZAÇÃO PROMOÇÃO Índice Apresentação........................................................ pág.03 Filmes Exibidos......................................................pág.05 Leituras................................................................. pág.11 À Beira do Caminho.............................................. pág.12 Os Incompreendidos............................................. pág.21 Garapa.................................................................. pág.29 APRESENTAÇÃO Este ano inaugura a segunda década do projeto “Cinema: Eis a Questão – O Janela Indiscreta no Vestibular”. Desde 2004, a sétima arte faz parte dos conteúdos do Vestibular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). A cada ano, são três obras, duas brasileiras (uma ficção e um documentário) e uma estrangeira, criteriosamente selecionadas pela equipe do Programa Janela Indiscreta Cine-Vídeo Uesb, no amplo e riquíssimo universo da produção nacional e mundial. Além da escolha dos filmes, fazem parte do projeto as exibições comentadas nas três cidades- sedes da Uesb – Vitória da Conquista, Jequié e Itapetinga. Cada obra é comentada por três convidados, geralmente professores e/ou pesquisadores de áreas afins às temáticas, que abordam os mais distintos aspectos dos filmes e depois debatem com a plateia. Em 11 anos, são 33 filmes exibidos, comentados por quase 100 convidados e vistos por cerca de 32 mil vestibulandos. Podemos dizer que são tantas leituras possíveis quantas pessoas presentes nas sessões, pois cada olhar é diferenciado, entrelaçando-se a acervos e afetos que são de cada um, mas que enriquecem a partilha de conhecimentos. E é no sentido dessa partilha de olhares e saberes que são propostos os comentários não só nas sessões, mas também nesta publicação e nos vídeos que são produzidos pela equipe, pois consideramos importante que os vestibulandos que não podem participar das exibições possam ter outras formas de acesso às reflexões, disponibilizadas, então, de forma irrestrita e gratuita na internet. Desejamos – e aqui deixamos o nosso convite – que esse projeto seja, além dessa janela para as inúmeras possibilidades de olhar que a sétima arte nos oferece, uma porta de entrada para muitas outras atividades de cinema que a universidade realiza, pois acreditamos no importante papel que ele tem para o desenvolvimento humano nas suas mais distintas vertentes e amplitudes. Raquel Costa - Pela equipe do Programa Janela Indiscreta Cine-Vídeo Uesb FILMES EXIBIDOS A cada edição do projeto “Cinema: Eis a Questão”, são selecionados três filmes, dois nacionais, sendo uma ficção e um documentário, e um estrangeiro. Para a seleção das obras, feita criteriosamente pela equipe do Janela Indiscreta Cine-Vídeo Uesb, observam-se as críticas, a relevância dos temas abordados, a qualidade estética e narrativa e a possibilidade de acesso, uma vez que as obras podem ser encontradas facilmente. 2014 Filme: “À Beira do Caminho” Direção: Breno Silveira Duração/Ano/País: 90 min., 2012, Brasil Filme: “Os Incompreendidos” Direção: François Truffaut Duração/Ano/País: 94 min., 1959, França Filme: “Garapa” Direção: José Padilha Duração/Ano/País: 90 min., 2009, Brasil Sessões comentadas Jequié 29, 30, 31 de outubro/2014 Auditório do CEEPRP (antigo IERP) Itapetinga 12, 13, 14 de novembro/2014 Auditório Juvino Oliveira – Uesb Vitória da Conquista 26, 27 e 28 de novembro/2014 Teatro Glauber Rocha – Uesb 04 05 FILMES EXIBIDOS FILMES EXIBIDOS 2013 Filme: “O ano em que meus pais saíram de férias” Direção: Cao Hamburguer Duração/Ano/País: 110 min., 2006, Brasil Filme: “Infância Clandestina” Direção: Benjamin Ávila D u r a ç ã o / A n o / Pa í s : 1 1 0 m i n . , 2 0 1 2 , Argentina/Espanha/Brasil Filme: “Marighella” Direção: Isa Grinspum Ferraz Duração/Ano/País: 90 min., 2012, Brasil 06 2011 Filme: “Terra Estrangeira” Direção: Walter Salles e Daniela Thomas Duração/Ano/País: 100 min., 1995, Brasil Filme: “A Cor do Paraíso” Direção: Majid Majidi Duração/Ano/País: 90 min., 1999, Irã Filme: “O Homem que Engarrafava Nuvens“ Direção: Lírio Ferreira Duração/Ano/País: 106 min., 2010, Brasil 2012 Filme: “Capitães da Areia” Direção: Cecília Amado e Guy Gonçalves Duração/Ano/País: 96 min., 2011, Brasil 2010 Filme: “Linha de Passe” Direção: Walter Salles e Daniela Thomas Duração/Ano/País: 113 min., 2008, Brasil Filme: “Persépolis” Direção: Vicent Paronnaud e Marjane Satrapi Duração/Ano/País: 95 min., 2007, França/EUA Filme: “A Onda” Direção: Dennis Gansel Duração/Ano/País: 106 min., 2008, Alemanha Filme: “Utopia e Barbárie” Direção: Silvio Tendler Duração/Ano/País: 120 min., 2010, Brasil Filme:“Pro Dia Nascer Feliz” Direção: João Jardim Duração/Ano/País: 88 min., 2007, Brasil 07 FILMES EXIBIDOS FILMES EXIBIDOS 2009 2007 Filme: “Mutum” Direção: Sandra Kogut Duração/Ano/País: 95 min., 2007, Brasil Filme: “Macunaíma” Filme: “Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá” Direção: Silvio Tendler Duração/Ano/País: 87 min., 2007, Brasil Filme: “Ensaio Sobre a Cegueira” Direção: Fernando Meirelles Duração/Ano/País: 120 min., 2008, Brasil/Canadá/Japão 2008 Filme: “Zuzu Angel” Direção: Sérgio Rezende Duração/Ano/País: 110 min., 2006, Brasil Filme: “Babel” Direção: Alejandro González Iñarritu Duração/Ano/País: 142 min., 2006, Estados Unidos Filme: “Estamira” Direção: Marcos Prado Duração/Ano/País: 115 min., 2006, Brasil 08 Direção: Joaquim Pedro de Andrade Duração/Ano/País: 108 min., 1969, Brasil Filme: “Anjos do Sol” Direção: Rudi Lagemann Duração/Ano/País: 90 min., 2006, Brasil Filme: “Balzac e a Costureirinha Chinesa” Direção: Dai Sijie Duração/Ano/País: 116 min., 2002, China/França 2006 Filme: “A Marvada Carne” Direção: André Klotzel Duração/Ano/País: 77 min., 1985, Brasil Filme: “Hotel Ruanda” Direção: Terry George Duração/Ano/País: 121 min., 2004, Itália/África do Sul/Estados Unidos Filme: “Terra em Transe” Direção: Glauber Rocha Duração/Ano/País: 115 min., 1967, Brasil 09 FILMES EXIBIDOS LEITURAS... 2005 Filme: “Deus e o Diabo na Terra do Sol” Direção: Glauber Rocha Duração/Ano/País: 115 min., 1964, Brasil Filme: “Cidade de Deus” Direção: Fernando Meirelles Duração/Ano/País: 135 min., 2002, Brasil Filme: “A Excêntrica Família de Antônia” Direção: Marleen Gorris Duração/Ano/País: 102 min., 1995, Bélgica/Inglaterra/ Holanda 2004 Filme: “Cinema Paradiso” Uma das características que marcam a atuação do Programa Janela Indiscreta, desde que nasceu, em 1992, é a leitura coletiva das obras que são exibidas. No projeto “Cinema: Eis a Questão”, cada filme indicado para o Vestibular Uesb é comentado por três professores e/ou pesquisadores convidados, que, além de apresentarem suas leituras durante as sessões realizadas em Vitória da Conquista, Jequié e Itapetinga, também contribuem com um texto para este livreto Leituras de Cinema. As abordagens feitas por esses “leitores-guias” trazem distintos olhares, que, somados aos de cada vestibulando, podem ajudá-lo a refletir sobre diversos aspectos possíveis de serem percebidos e interpretados nos filmes. Nesta publicação, temos a contribuição de Aline de Caldas Costa dos Santos, Glauber Lacerda, Márcio Venâncio (“À beira do caminho”), Eder Amaral, João Diogenes, Rafael Carvalho (“Os incompreendidos”), Dayse Maria Souza, Filipe Brito e Veruska Anacirema Santos da Silva (“Garapa”). Boa leitura! Direção: Giuseppe Tornatore Duração/Ano/País: 123 min., 1988, Itália/França Filme: “Abril Despedaçado” Direção: Walter Salles Duração/Ano/País: 95 min., 2001, Brasil Filme: “Bicho de Sete Cabeças” Direção: Laís Bodanzky Duração/Ano/País: 80 min., 2000, Brasil 10 10 11 ACHADOS E PERDIDOS À BEIRA DO CAMINHO Aline de Caldas Costa dos Santos* Das perdas Filme: “À Beira do Caminho” Direção: Breno Silveira Roteiro: Patrícia Andrade Ano: 2012 Gênero: Drama Origem: Brasil Duração: 90 minutos Sinopse O caminhoneiro João mudará completamente seu destino ao dar uma carona ao menino Duda, órfão de mãe que sonha em encontrar o pai em São Paulo Uma traição, um acidente, uma morte, um abandono. João é um caminhoneiro solitário. Melhor dizendo, João está o tempo inteiro acompanhado por um conjunto de acontecimentos do passado que não o permite interagir com as pessoas, chegando a recusar até a oportunidade de compartilhar uma mesa para uma refeição com outro caminhoneiro. Entre lembranças, mágoas e um presente descolorido, João encontra Duda escondido na caçamba de seu caminhão, exatamente no meio de uma estrada deserta, no escuro da noite alta. Essa também é a imagem do seu estado emocional – sombreado pela dor e pela culpa, desprovido de qualquer forma de acolhida –, mas ele não pode seguir viagem e deixar aquela criança ali. João tenta, muitas vezes, desligar-se de Duda, mas as circunstâncias fazem com que o garoto esteja cada vez mais presente, e, aos poucos, a revelação das perdas que o menino sofreu gera em João certa preocupação e identificação afetiva. Um abandono, uma morte, uma fuga. Duda é um menino de aproximadamente 12 anos que quer chegar a São Paulo para conhecer o pai. Ele fugiu de um abrigo para menores onde foi deixado após a morte de sua mãe. Como pista para encontrar seu pai, Duda tem uma fotografia com um nome e um endereço. Somado a isso, ele sabe que seu pai trabalha em um restaurante. Mas Duda, representando bem o olhar da criança sobre a rotina, é alegre, motivado e companheiro. Ele é capaz de fazer de uma garrafa pet um brinquedo; esconder uma arma para salvar João em uma blitz; criticar a sujeira da caçamba do caminhão, mas se propor a limpá-la; é capaz até de cuidar de João quando, bêbado, ele se vê incapaz de enfrentar sua família. Dos encontros e desencontros Na convivência com Duda, João, que não conseguia se aproximar de ninguém, dispõe-se a encontrar Rosa, que conhece toda a trama dramática das dores de João. Em seguida, propõe-se a rever sua mãe. Desde quando encontrou Duda, João tentava escrever uma carta com um pedido de desculpas para sua filha 12 13 a quem abandonou depois do grave acidente que levou sua esposa à morte. O encontro de João com Duda foi o mote para disparar em seu coração endurecido a necessidade de superar o passado, de reavivar os laços familiares impactados por conta daquela fatalidade. À medida que João se abre para rever seus familiares, Duda se aproxima de São Paulo. A iminência do encontro com seu único parentesco sanguíneo o deixa cheio de dúvidas: “Será que meu pai vai gostar de mim?”, “Por que será que meu pai me abandonou?”. Preocupado com o que Duda encontraria, João decide procurar Afonso durante a noite, enquanto Duda dorme em uma pousada. Mas aquela busca era vã: Afonso não era pai de Duda, que se vê sozinho no mundo. Dos achados e perdidos Duda perdeu a esperança de conhecer seu pai, mas achou em João um laço de afeto. João, que estava perdido até de si, achou em Duda “um amigo de fé, um irmão camarada”. Esse afeto sensibilizou João e o levou a buscar por sua filha, estabelecendo com ela uma relação familiar, superando o passado e seguindo em companhia das duas crianças para o que, pela primeira vez, aparece no filme como uma “perspectiva de futuro”. Entrecortado pela sabedoria popular das frases de para-choque de caminhão e pela trilha sonora de Roberto Carlos, o filme aborda com sensibilidade o élan que dá sentido às relações humanas. João era pai, por consanguinidade, mas não vivia a paternidade. Duda era órfão, mas despertou em João o cuidado, o carinho e a alegria de educar e conviver com uma criança. À beira do caminho mostra, por uma metáfora de “achados e perdidos”, a verdadeira disposição que une as pessoas – seja em laços de amizade ou de família –, que é, antes de tudo, o afeto. * Professora substituta do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Doutoranda em Memória: Linguagem e Sociedade pela mesma universidade. 14 AS CANÇÕES QUE ELE FEZ PRA MIM Glauber Lacerda* Quem já saiu com um fone de ouvido durante uma viagem muito provavelmente já foi acometido pela sensação de estar dentro de um road movie¹. Ao mesmo tempo, quantas vezes uma cena do cotidiano nos faz lembrar uma canção e nos pegamos sussurrando a letra? A partir desse movimento quase instintivo de pensar músicas para as imagens que vemos, Breno Silveira vem construindo seu cinema, que sempre faz da sala de exibição um coral de sussurros e lágrimas. Assim fez o diretor em 2 filhos de Francisco, Gonzaga – de pai pra filho e À beira do caminho. Enquanto os dois primeiros são cinebiografias de grandes nomes da MPB – o primeiro, da dupla Zezé Di Camargo e Luciano; e o segundo, de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha –, o último é uma história fictícia, baseada nas músicas de Roberto Carlos; portanto, é facilmente identificado como a biografia de muitos brasileiros. As canções no cinema É curioso saber que o uso de canções no cinema brasileiro começou ainda quando o cinema era mudo. Já na primeira década do século XX, os cantores cujos discos faziam sucesso eram convidados por produtores de “filmes cantantes” para realizar o que seria o tataravô dos videoclipes. Esses números musicais filmados nada mais eram que a imagem do cantor dublando a si próprio. Como ainda não existiam os mecanismos de reprodução de som para cinema, o filme era exibido ao mesmo tempo em que se colocava o disco para tocar num gramofone². As músicas não batiam com os lábios do cantor, como nas mais toscas dublagens de filmes televisivos. Entre as décadas de 1930 e 1950, um novo gênero de filme, tipicamente brasileiro, levava multidões para o cinema: as chanchadas. Eram comédias preenchidas por sambas e marchinhas de carnaval, cantadas ora por artistas que arrebatavam multidões nos rádios, ora por grandes astros do cinema nacional, como Oscarito e Grande Otelo. A exibição dos filmes era um acontecimento ¹Filmes que se passam numa estrada. ²Gravador e reprodutor de disco, criado pelo alemão Emil Berliner, em 1888. 15 apoteótico, e, muitas vezes, era ali que os brasileiros sabiam quais as tendências para o próximo carnaval. Nas décadas de 1960 e 1970, foi a vez de Roberto Carlos e sua turma fazerem das telas de cinema tupiniquim “uma brasa, mora?” Robertão e seus parceiros do Programa Jovem Guarda³ protagonizaram três filmes recheados de muita música e aventura: Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968), Roberto Carlos e o diamante cor de rosa (1970) e Roberto Carlos a 300 por hora (1972). As canções de Roberto não saíram das telas nos últimos 50 anos. Além do seu especial de fim de ano na Rede Globo, que vai ao ar desde 1974, são inúmeras as novelas e filmes com cenas cujo ritmo é ditado pelas melodias de Robertão. Além do mais, uma parcela significativa dos brasileiros já acordou numa manhã de domingo com um parente ou um vizinho ouvindo o Rei no último volume. Dizem por aí que foi Chico Buarque quem melhor traduziu a alma feminina; então, foi Roberto o decodificador da alma do homem comum: que sente ciúme do novo vestido da esposa, lembra à ex-mulher detalhes agradáveis da relação falida e diz, sem nenhuma modéstia, que o cara que ela sempre sonhou é ele. O Rei e o súdito-diretor compartilhamos a angústia de Rosa (Dira Paes), quando ela faz amor com João e percebe que ele não se entrega à relação. A canção Esqueça soa na cena como nossa voz clemente a sussurrar no ouvido da moça, aconselhando-a a deixar aquela relação, pois o cara ainda não conseguiu curar as feridas do passado e ainda não é capaz de viver uma paixão. O mesmo ocorre quando Duda canta, vacilante, verso da canção Amigo: ficamos querendo adiantar o próximo verso para que ele cante com mais firmeza e, de repente, o carrancudo João começa a abrir o coração, fazendo isso por nós, ao corrigir o canto impreciso do garoto. Sentimo-nos aliviados. Já na cena final, somos tomados pela catarse. Queremos cantar juntos, em coro, o refrão de O portão: “Eu voltei, agora pra ficar...”, torcendo para que o drama dos personagens tenha se resolvido para sempre. À beira do caminho é um filme para ver e cantar. Parece nossa vida ou de gente que nos é muito próxima. É parte do nosso cotidiano. A participação do público que canta junto com o filme traz para a obra um clima de show, ou melhor, tratando-se de Roberto Carlos, de um especial de fim de ano. * Professor do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade pela mesma universidade. Breno Silveira é um declarado fã de Roberto Carlos desde a adolescência, e seu filme À beira do caminho é um reflexo disso. Toda narrativa é permeada por músicas do filho de Lady Laura. "Sou um diretor que não tem medo de emoção”, afirma o cineasta. Todos os momentos de clímax do filme são intensificados pela presença de Roberto – seja na sua própria voz ou na de outro intérprete – cantando temas que se encaixam perfeitamente na vida de João (João Miguel) e Duda (Vinícius Nascimento) e, ao mesmo tempo, marcaram a vida de muitos brasileiros, por amor, alegria ou angústia. 4 Assim, o uso de canções populares no filme é um recurso muito eficiente para criar empatia entre o espectador e os personagens. Em À beira do caminho, ³Programa da TV Record (1965-1974), apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. O 16 4 Em entrevista ao G1, em 7 de agosto de 2012. Link: http://g1.globo.com/poparte/cinema/noticia/2012/08/sou-diretor-que-nao-tem-vergonha-da-emocao-diz-breno-silveira.html. 17 À BEIRA DO CAMINHO: DOR, RESIGNAÇÃO E REDENÇÃO Márcio Venâncio* O filme À beira do caminho (Breno Silveira, 2012) cruza as desventuras da vida de dois personagens, devidamente pontuadas por diferentes dizeres de placas de caminhões e músicas de Roberto Carlos que inspiram até o título da obra. É numa atmosfera interiorana e solitária pelas estradas do Brasil que é apresentado o primeiro personagem, João, um caminhoneiro rabugento que se isola do mundo por não conseguir superar seu luto. E Duda, um garoto desamparado que acaba de perder a mãe e que busca sair da solidão se lançando em uma jornada para encontrar seu pai, que nem chegou a conhecer; uma infeliz realidade facilmente encontrada no país. O ponto de encontro das histórias ocorre quando a carona, até o momento escondida, de Duda é descoberta. João, enfurecido, mas ainda influenciado pelo bom senso, há tempo encoberto pela tristeza, vê-se no dilema de deixar o menino numa estrada erma, largado à própria sorte, ou ajudá-lo e ter seu universo amargo e hermético invadido por um estranho. A insólita situação somada a uma pequena ajuda da polícia, ora omissa, ora truculenta, consegue convencer João a ajudar (ou aturar) Duda até a cidade de Petrolina-PE, onde possa sozinho continuar sua busca. “Uma mão lava a outra”, diz Duda ao livrar João de sérios problemas com a polícia. O caminhoneiro, então, aproveita a oportunidade de trabalho para ajudá-lo a encontrar seu pai, que se supõe morar em São Paulo. No decorrer da estrada, fica cada vez mais evidente a necessidade de João tentar consertar seus erros e recuperar sua vida. Apesar das reclamações e dos rompantes furiosos, ainda há algo nobre no caminhoneiro. Seja arremessando de qualquer jeito o garoto para o outro lado do açude para não se afogar ou dandolhe um tapa de força desproporcional, João, à sua tosca maneira, demonstra um resquício de bondade e cuidado com o menino, muito motivado pela identificação com sua história. 18 Durante a viagem, surge, de maneira paulatina, uma parceria entre os dois. Talvez a simpatia, a vivacidade e a maneira tão resoluta com que um garoto de aproximadamente 12 anos lida com sua dor tenham feito João repensar suas atitudes e enfrentar seu doloroso e obscuro passado. A frase “Não há mal que perdure, nem há dor que não se cure”, escrita na placa do caminhão, resume bem a situação. Daí, João tenta reconstruir seu caminho. Ora temeroso, ora angustiado, busca em Rosa, antiga namorada e amiga, ajuda para encarar seu desafio de redenção. A frase repetida por Rosa, “Ela vai te perdoar”, incomoda e também machuca muito, por trazer lembranças que forçam João a se retirar de sua zona de conforto, de sua eterna fuga. O bilhete todo rabiscado representa bem a mistura de ansiedade e angústia daquele momento tão difícil. Duda, por sua vez, também tenta se proteger da realidade, seja mentindo ou fantasiando. Medo e frustração se misturam para revelar a verdade. João chega ao fundo do poço: bêbado e sem ter mais como se esquivar da situação, finalmente admite seu erro. Àquela altura dos acontecimentos, os dois só têm a opção de continuar suas jornadas. Cada um com sua dor. Reestabelecidos do conturbado dia anterior, os dois finalmente conseguem estabelecer um diálogo que, mesmo de poucas palavras, torna revelador o companheirismo. “Foi mulher?”, pergunta Duda. “Duas”, responde João, que, finalmente, consegue tocar em seu passado sem raiva ou descontrole. Chegados a São Paulo, João busca o suposto pai de Duda para que possa verificar a história e eventualmente preservá-lo de alguma decepção que se revele talvez dura demais para o garoto. Já sabendo do que aconteceu, João decide tomar uma difícil decisão para preservá-lo. A dureza da realidade irrefutável os liberta de suas dores. Duda agora pode seguir sua vida, mesmo que, no momento, não haja destino ou perspectiva. E João, que, explicitamente, rasga suas amarras, permite-se consertar seus erros. Livres, finalmente, podem fazer suas escolhas. E João pode recuperar aquilo que 19 OS INCOMPREENDIDOS havia perdido e que tanto lhe causava dor, sua filha. Nesse contexto, a música O portão, de Roberto Carlos, arremata a história de forma clara e magistral: “Eu voltei, agora pra ficar. Porque aqui, aqui é meu lugar. Eu voltei pras coisas que eu deixei. Eu voltei.” * Professor do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Graduado em Rádio e Televisão pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e especialista em Gestão de Comunicação Integrada pela Universidade Tiradentes (UNIT/SE). Filme: “Os Incompreendidos” Direção: François Truffaut Roteiro: François Truffaut, Marcel Moussy Ano: 1959 Gênero: Drama Origem: França Duração: 94 minutos Sinopse Antoine Doinel é um garoto de 14 anos. Seus pais não lhe dão muita atenção, então ele mata aula para ir ao cinema e sair com seus amigos. Certo dia, ele descobre que sua mãe tem um amante. Este é o primeiro longa de Truffaut, considerado um dos diretores europeus mais importantes de todos os tempos. 20 21 EM CADA PALAVRA DE ORDEM HÁ UMA PEQUENA SENTENÇA DE MORTE¹ Eder Amaral* Marchar Vista a farda. Chegue às 7h. Cante o hino. Entre em fila. Siga os pontos. Arme. Efetue. Fique em silêncio. Sublinhe. Copie o ditado. Calcule. Justifique. Marque um xis. Vá ao recreio. Faça o dever. Acoplados a cada conteúdo, informação ou conduta escolar, esses – e tantos outros – imperativos aparentemente inofensivos só evidenciam que a função da educação moderna é, antes de qualquer coisa, tornar-nos capazes de obedecer. Enquanto lá fora as máquinas roncam à espera de quem as alimente, a máquina-escola fabrica, com suas palavras de ordem, os pequenos protótipos do ser humano médio, mediano, medíocre, premiado por ritmar seus passos sob a marcha de um mundo cuja infância só pode adoecer. Muito da beleza e da força d'Os incompreendidos, de François Truffaut, está em nos fazer ver a família e a escola, a cidade ou a polícia, sob os olhos do menino-problema, curioso portador de tantos nomes quantas são as instituições que dele dependem para existir (é preciso lembrar que o indisciplinado, o delinquente ou o jovem infrator só se produzem na medida em que funciona um pacto prévio entre família-escola-polícia-justiça). Não sabendo o que quer, Antoine (Jean-Pierre Léaud) está muito convicto do que repudia: o lento e sofrível caminho que conduz à miséria de uma vida estável (leia-se: sem intensidade), responsável (leia-se: adimplente), séria (leia-se: triste), adulta (leia-se: adulta). Diz-se que a adolescência merece atenção por ser um tempo de crise. Mas o adolescente não seria, antes e sobretudo, aquele que se inquieta por pressentir o que lhe espera em seguida? Fugir Antoine foge. Dos pais, do professor, da polícia, do juiz, da psicóloga. Certa moral do homem corajoso nos ensina que fugir é uma atitude vergonhosa e passiva. Compreendemos mal aquilo que a fuga carrega com ela em seu ato. O próprio Truffaut, numa entrevista, é cristalino: “O que substitui a violência é a fuga, não para evitar o essencial, mas para obtê-lo².” Quando foge, Antoine não teme. Ele deseja, procura, experimenta. Sua esquiva é o gesto criador de uma vida trágica, amiga do perigo. Daí que ele não ressinta seu passado nem culpe a si mesmo; daí que não se arrependa nem lamente. Não é a renúncia (a um presumível futuro?) que impulsiona sua escapada, mas um desejo de presente. Errar Cena final, Antoine escapa e corre pela estrada. Pelo incerto caminho, o menino arrasta nossos olhos para dentro da tela. Só nos resta ir junto. Em silêncio, sua solidão é povoada de cúmplices. Para onde vai o menino? Para onde vamos? A estrada tem a tranquilidade de Antoine, esse sereno meninoproblema. É que a estrada está nele, seu destino é a errância. Seu sossego está em ir embora daqui, onde só pode estar cativo. Para onde vai Antoine? Onde ele quer chegar? Antoine teima em não se entregar: ele simplesmente vai, sem para onde. Estado de espírito tão infantil, a teimosia é essa potência de existir sem obedecer. Não por acaso, desde muito cedo e ao longo da vida, ela é tão combatida em Antoine. Em nós. A teimosia do menino não quer nada que se lhe ofereça em troca desse desejo inquieto, vagabundo, errante. A maré baixa faz da beira do mundo um deserto. Antoine sabe que o difícil não é atravessá-lo, mas ter nascido nele. O menino vaga, a franja das ondas lambe seus pés erradios. Num relance, Antoine se volta para o continente. Num lampejo, olha o horizonte à beira do seu mundo. Vertigem, o menino mira fora da tela, olha para nós. O que vê Antoine? Com a sutileza que fez deste filme um dos mais belos do século XX, o menino hesita ao ser tocado pelas águas, seus passos titubeiam, seu corpo divaga. O mar nunca antes visto desmancha o Antoineproblema, banha os olhos com um menino-mar, à deriva da moral escrava que faz de toda criança um projeto de vida governada. * Professor do Instituto Federal da Bahia, campus de Vitória da Conquista; professor do Curso de Psicologia da Faculdade Juvêncio Terra/Maurício de Nassau. Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e doutorando em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). ² INGRAM, Robert; DUNCAN, Paul. François Truffaut: a filmografia completa, Lisboa: Taschen, 2004, p.21. 22 ¹A frase que dá título a este texto foi retirada do livro Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, v. 2 (Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 13), escrito por Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992). 23 NAS TRILHAS DO FILME OS INCOMPREENDIDOS: UMA RELAÇÃO ENTRE FICÇÃO E REALIDADE João Diogenes Ferreira dos Santos* Os incompreendidos, que se intitula originalmente como Les quatre cents coups, é um filme francês do diretor François Truffaut e foi lançando em 1959. Essa obra clássica e emocionante narra o cotidiano de um adolescente francês, Antoine Doinel, na Paris da década de 50 do século XX. O filme conduz, por meio de uma belíssima fotografia e uma trilha sonora instigante, o espectador a conhecer a história de Antoine Doinel, que é negligenciado pela família, com uma mãe, Gilberte Doinel, indiferente e com um padrasto, Julien Doinel, que só se responsabiliza por prover a casa, sem nenhuma obrigação com o adolescente. Como se percebe nas cenas, Antoine é estorvo para os pais; entretanto, ele possui tarefas a serem realizadas diariamente, sem espaço para manifestar a ludicidade e as angústias da adolescência. A mãe não estabelece diálogo com ele, só os gritos e a impaciência se fazem presentes nessa relação; já o pai torna-se omisso em relação a esses maus-tratos. No entanto, quando o protagonista, Antoine, ao faltar à aula, descobre que sua genitora tem um amante, cria-se, então, forçosamente, uma vivência diferenciada da habitual, onde ele encontra diálogo, afeto e cuidado por parte dos seus familiares. Ou seja, metamorfoseia-se, momentaneamente, em sujeito. Além dessa convivência conflituosa no espaço doméstico, Antoine enfrenta uma estrutura escolar conservadora e autoritária, cujo cerne central é, lembrando o filósofo francês Michel Foucault (2001), de vigiar e punir, com objetivo de disciplinar, ou seja, domesticar os corpos dentro de um padrão comportamental. Eis a engrenagem essencial do processo educacional daquele período histórico. A cena do professor jogando giz, pegando na gola do estudante, constrangendo, negando o recreio, representa esse processo disciplinar, por meio da violência, que se manifesta de forma física, simbólica e psicológica. Por outro lado, o personagem principal da película resiste a essas duas realidades distintas, a casa e a escola, que se relacionam, alicerçadas nas várias formas de 24 manifestação da violência, quando inscreve, na parede da sala de aula, a sua indignação, ou quando foge para vivenciar momentos efêmeros de arte e ludicidade, no cinema e no parque de diversão. No esteio do filme em questão e com base na discussão teórica de Antonio Candido (1985), quando sublinha que toda obra de ficção, de forma dialética, reflete a realidade social e histórica, pode-se pensar na situação das crianças e dos adolescentes brasileiros, nos tempos atuais. A realidade vivida por uma significativa parcela da população infanto-juvenil – as crianças e os adolescentes em situação de risco pessoal e social – agravou-se de forma insustentável. Tal situação intensificou-se devido à conjugação da desigualdade econômica com uma cultura política erigida ao longo da formação histórica do país, que persiste em projetar seus traços no presente e delineia um processo de negação quase permanente dos direitos, ensejando, assim, um grupo social de “vulneráveis” ou “descartáveis”, que, segundo as análises de Loic Wacquant (2001), estão condenados a uma “vida de riscos”. São milhares de crianças e adolescentes que, assim como o personagem ficcional, Antoine Doinel, experimentam, em seu cotidiano, várias formas e manifestações de violência, que vão desde a violência no âmbito doméstico à violência estrutural, sem acesso às condições elementares de sobrevivência (alimentação, saúde, moradia, educação, transporte, lazer, entre outras). Essa realidade revela a costumeira omissão do Estado, que não implantou, ou o fez de forma restrita, políticas de atenção integral às crianças e aos adolescentes. Em vez disso, oferece a esse contingente populacional o descaso, a negligência, o espancamento, a tortura, as agressões físicas e até a morte. Dessa forma, uma grande parcela da população infanto-juvenil no Brasil enfrenta inúmeras formas de violência em seus cotidianos. Nesse cenário trágico, as imagens de Antoine Doinel no reformatório, na ficção, conduzem a refletir sobre as práticas de tortura que se inscrevem em uma orientação política das instituições socioeducativas para os adolescentes de 12 a 18 anos que estão em conflito com a lei, como determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). Os castigos violentos e sádicos têm como objetivo transformar os internos em obedientes à ordem estabelecida e “regenerar as condutas natas”. 25 Além disso, é assustador o índice de mortes de adolescentes e jovens das periferias das médias e grandes cidades brasileiras, que, novamente, remete-nos ao filme, quando tecemos uma relação entre o incompreendido da ficção, que busca a liberdade no mar, e os incompreendidos reais, que têm os seus corpos violentados e até mesmo são assassinados por balas oficiais ou do narcotráfico. Portanto, é no encontro entre a obra emocionante de François Truffaut com as diferentes situações trágicas de boa parte da população infanto-juvenil brasileira que se pode criar pontes interpretativas para entender a realidade deste lado do oceano. OS INCOMPREENDIDOS Rafael Carvalho* Toda a ternura e a paixão que François Truffaut depositou em seu longametragem de estreia permanecem como um dos retratos mais sinceros e bonitos da vida adolescente com propensão à delinquência. Tido não só como ícone da Nouvelle Vague, mas também obra-prima na história do cinema mundial, Os *Professor do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade, da mesma instituição. Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). incompreendidos mantém, ainda hoje, sua força no intimismo de uma história que segue os rumos tortos do protagonista, sabidamente um grande alter ego do próprio cineasta. Antoine Doinel (personagem que vai ser retratado em outros filmes de Truffaut, compondo uma série que acompanhará o desenvolvimento pessoal e emocional do jovem até a fase adulta) é esse garoto-problema que apronta descaradamente na escola, em companhia de um amigo também encrenqueiro. A relação com a família é um tanto conturbada, equilibrada por uma aparente normalidade. Mais do que contar a história desse personagem, o filme procura fazer um retrato sincero de uma juventude que poucas vezes foi mostrada com tanta crueza no cinema àquela época. É um filme direcionado para adultos sobre crianças e adolescentes e sua maneira de enxergar as coisas ao redor. Porque a moral da adolescência é não se importar com o mundo responsável e cheio de regras da “gente grande”, ainda que ela seja um espelho ou um status pretendido. Mas quando um jovem é marcado pela rejeição familiar, a coisa pode se tornar bem mais difícil, e a delinquência surge como um caminho atrativo. Truffaut cresceu, mas não se esqueceu das agruras de sua infância e coloca no filme muito do que ele mesmo passou. A arte cinematográfica surge aqui como expurgo, mas há muito de uma docilidade ingênua e carinhosa, porque, na vida real, as coisas 26 27 GARAPA são mais complexas e repletas de arestas. Truffaut parecia entender isso muito bem. O cineasta filma com um senso de liberdade incrível as travessuras de Antoine e encontra no ritmo do filme um crescendo que vai das traquinagens mais bobas no colégio até chegar a momentos decisivos na vida do garoto, quando a desobediência não tem mais volta. Alia-se a isso um roteiro direto, claro, com diálogos sem firulas, na busca de um retrato fiel do cotidiano, que inclui os problemas familiares do personagem, sem peso excessivamente dramático. A fotografia naturalista dá conta de filmar a cidade de Paris, belissimamente, como um espaço de descobertas e (novas) interações. Sem atuações caricatas das crianças, é interessante perceber a naturalidade com que todas elas surgem em cena. O protagonista, Jean-Pierre Léaud, é a mais pura encarnação dessa simplicidade tão espontânea. Mesmo nas cenas mais densas, como a da prisão do garoto e a conversa com um psicólogo no reformatório, Léaud demonstra uma maturidade sem igual diante das câmeras. Diferente de outros cineastas da Nouvelle Vague francesa, donos de tom um tanto mais intelectualizado e/ou anárquico na forma de lidar com a narrativa, Truffaut parece falar com o coração, da forma mais simples e humana possível, traço da excelência de grande parte de sua filmografia. Os incompreendidos é o tipo de filme feito com paixão e carinho, realismo e sinceridade, em que ternura e dureza mesclam-se na tela. *Mestre e doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Crítico de cinema. 28 Filme: “Garapa” Direção: José Padilha Roteiro: José Padilha, Felipe Lacerda Ano: 2009 Gênero: Documentário Origem: Brasil Duração: 110 minutos Sinopse Segundo a ONU, mais de 920 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo. O significado desses números depende da nossa compreensão do que significa passar fome. Geralmente, os meios de comunicação discutem a fome a partir de uma perspectiva macroscópica. Fornecem-nos números e debates sobre as suas causas ambientais, geográficas, econômicas e políticas. No entanto, deixam-nos sem saber como vivem as pessoas que passam fome. Para que se possa compreender o real significado da fome, é necessário conviver com as pessoas que lutam contra a própria fome por algum tempo. É necessário acompanhar o seu dia a dia. 29 “CEGOS QUE VÊEM, CEGOS QUE VENDO NÃO VÊEM” Dayse Maria Souza* Iniciar um breve diálogo a respeito dos olhares sobre o filme Garapa, de José Padilha, é, sobretudo, tentar ir além das aparências e alcançar uma luz em meio à “cegueira” que nos cobre neste mundo tão desigual. Lançado em 2009, o filme tem como tema a fome e tem um autor que busca, a partir de imagens do real concreto, acompanhar o dia a dia de três famílias no estado do Ceará. O cenário ocorre simultaneamente em três lugares: vila Olho D'água, comunidade Santa Rita e bairro São João, localizado na periferia da cidade de Fortaleza. A trama gira em torno de três personagens, Lúcia, Rosa e Robertina, que, ao lado dos filhos e maridos, dão vida à labuta diária. A narrativa é guiada a partir de um olhar sobre a vida – vida que, à maneira de Sebastião Salgado, é registrada em preto e branco, a partir de mulheres, crianças e homens que buscam sobreviver à pobreza. São problematizados os discursos acerca da situação de carência absoluta dos meios de subsistência em um Brasil que atualmente apresenta 3,4 milhões de brasileiros em estado de insegurança alimentar. A leitura da fome exige um entendimento da própria espacialização da miséria posta historicamente pelo modelo de nossa sociedade. Nas décadas de 1960 e 1970, o Brasil passa por grandes alterações tanto no campo quanto na cidade, por um processo de expansão capitalista no país. Enquanto o urbano era considerado o espaço da concentração de pobreza por conta dos efeitos da migração, o campo era sinônimo de pobreza e atraso devido à estrutura agrária tradicional. A partir desse processo, as denominadas políticas públicas surgem a fim de corrigir os espaços desiguais via planejamento, tendo o Estado como responsável por diminuir as mazelas sociais e a pobreza crescente. Com a política de desregulamentação e a privatização dos mercados e do Estado, marcados pelos ajustes neoliberais, há uma acelerada concentração de miséria em favor da financeirização da economia mundial. A inserção dos países denominados de Terceiro Mundo nas estratégias de atuação das empresas e dos bancos multinacionais intensifica a concentração de riqueza. Posteriormente, esse processo culmina com a estruturação de uma nova economia no mundo, baseada na acumulação flexível, no fenômeno da “Globalização”. Este último trouxe 30 o discurso do fim das desigualdades e de um acelerado crescimento econômico. A tendência inicial e efetiva era a instrumentalização do mercado sobre o Estado, e a este caberia uma política restrita de combate à miséria a partir de doação de bolsa de estudo, bolsa-escola, bolsa-alimentação, entre outras. É a partir desse contexto que surgem as políticas públicas de combate à pobreza no país, que atualmente são representadas principalmente pelo programa Bolsa Família. O documentário de Padilha se inicia com os filhos de Rosa a brincar no terreiro em meio ao sol escaldante do sertão cearense; a tarefa do dia é buscar o leite que faltou para as crianças; como é época de carnaval, não houve abastecimento do leite que vem da região de Choró; o recurso para sanar a fome é a garapa, mistura com água e açúcar, preparada no fogo a lenha e que é dada às crianças em mais um dia de sobrevivência. A família participa do programa Bolsa Família, do governo. Na fala do marido, a ajuda não é suficiente para as necessidades durante o mês, já que o valor da bolsa é de cinquenta reais; com o pouco que consegue a partir do incentivo das políticas mais o pouco que retira do trabalho quando encontra, garante uma refeição por dia, o jantar ou o almoço. A prioridade é comprar o feijão e o açúcar para preparar a garapa dos meninos, já que o custo do leite é mais caro. Todas as crianças da família sofrem com problemas de desnutrição. Na comunidade Santa Rita, a família de Robertina segue o dia abastecendo a casa com água. O caminho é percorrido a pé pelo marido acompanhado de um burro carregado de tonéis; a água é então retirada do córrego que fica a alguns metros de distância da moradia. Com o abastecimento, os afazeres de casa são retomados. Depois de banhar os filhos, Robertina serve o pouco de feijão com farinha advindo de doação. Suspira um pouco aliviada e observa as crianças se alimentarem no chão da casa. A cesta chega na hora certa, porque já não havia nada para comer, apenas a garapa, que, na maior parte das vezes, é o que alimenta as crianças. A família não participa de nenhum programa do governo; segundo ela, houve problemas com as documentações enviadas ao Conselho Tutelar. Em Fortaleza, no bairro São João, a família de Lúcia segue na mesma labuta; o marido Flávio é alcoólatra e catador de latinha, nasceu na cidade que mora, possui três filhos e mais dois do último casamento. A casa é apresentada por Lúcia; não há muitos móveis, apenas um colchão mofado, fogão de lenha no chão, algumas tábuas espalhadas, sem água encanada. Com a falta de dinheiro, Lúcia segue com seus três filhos para outra parte da cidade e consegue, a partir 31 de doação, uma cesta básica com feijão, macarrão e arroz; há problemas com a duração da comida, pois, além de ser pouca, o marido vende para sanar o vício do álcool. Ao buscar o centro de nutrição do bairro, as crianças são examinadas pela assistente social e é detectado um problema de desnutrição moderada; a orientação é que Lúcia faça o acompanhamento das crianças na creche para serem alimentadas durante alguns dias. A família não recebe benefício do governo. Ao narrar a realidade do problema da fome no país, as histórias evidenciadas no filme- documentário transcendem a abrangência local e nos fazem refletir sobre um problema mais amplo e global – a concentração de riqueza ao lado da produção de pobreza no mundo. Segundo dados da Organização das Nações Unidades divulgados recentemente, 805 milhões de pessoas passam fome no mundo. No Brasil, 3,4 milhões de brasileiros passam por insegurança alimentar, o que representa 1,7% da população. Se, por um lado, o diretor revela, na prática, como as ações de programas de combate à fome no país são postas no dia a dia das famílias, por outro, elabora provocações que nos permitem pensar como está posta a condição humana na sociedade desigual em que vivemos, a partir do problema da “insegurança alimentar”. Cegar-se diante das condições de fome no mundo é desconsiderar que, historicamente, a produção de riqueza sempre esteve aliada à produção de miséria. A distribuição diferente de riqueza na sociedade em que o alimento é transformado em mercadoria será sempre a produção de espaços desiguais, apropriação desigual que leva à própria espacialização da miséria no mundo. Não devemos nos omitir diante da perversa condição daqueles que têm fome; é necessário buscar a superação na luta pelo fim do lucro, em favor da socialização da riqueza. Como questiona José Saramago em seu livro Ensaio Sobre a Cegueira: “Por que foi que cegamos? Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem, Cegos que vendo não vêem”¹. * Professora do Departamento de Geografia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e doutoranda pela mesma universidade. ¹SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo.Companhia das Letras, 1995. 32 GARAPA: A OBSERVAÇÃO DA FOME Filipe Brito Gama* Com a realização de longas-metragens de significativo destaque no Brasil e no exterior, José Padilha se consolidou como um cineasta importante no cenário nacional e internacional. Suas obras costumam promover intenso debate no público e na crítica, não só pelas temáticas centrais abordadas, mas principalmente pela forma como são representados os temas e seus personagens. Em seus filmes, Padilha aponta para assuntos que envolvem problemas sociais graves e recorrentes da sociedade brasileira. Observando sua trajetória como diretor, roteirista e produtor, destacam-se os documentários Os Carvoeiros (1999), que toca no ponto da exploração do trabalho, Ônibus 174 (2002), tratando da violência e da exclusão social, além das ficções Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro (2010), abordando tópicos como a violência urbana e a segurança pública. Garapa (2009), documentário objeto de nosso interesse, está em sintonia com a trajetória do realizador, ao apontar para mais um grave problema, a fome. O processo de realização de Garapa se constituiu a partir da imersão de uma pequena equipe de filmagem no ambiente doméstico de três famílias residentes no estado do Ceará. Essas famílias, que se enquadram no grupo de pessoas que estão em situação de insegurança alimentar grave, residem em regiões geográficas distintas. Lúcia e suas filhas moram na periferia de Fortaleza, capital do estado; Robertina e família moram em uma localidade próxima à pequena cidade de Choró, no semiárido cearense; e Rosa e a sua família se encontram nos arredores da vila Olho D'água, extremo sertão do estado, região árida e longe de centros urbanos. Mesmo se tratando de três grupos familiares em locais muito diferentes, portanto nos apresentando situações específicas decorrentes de cada um desses espaços, o que se destaca na narrativa do documentário é o conjunto de circunstâncias compartilhadas entre as três realidades. Nas três situações, observamos a miséria e a fome em primeiro plano, expostos na imagem e nas falas dos personagens. Mas outras questões são enfatizadas no decorrer da película, tais como a representação da mulher/mãe como figura central e protetora dos filhos, a imagem do pai como personagem omisso e problemático (o caso do alcoolismo, por exemplo) e a busca por alternativas para sobreviver àquela situação de abandono e miséria extrema. 33 O filme se inicia com uma cartela ou intertítulo com a citação de um texto de Josué de Castro, autor de Geografia da fome e outras obras, indicando duas maneiras de morrer de fome. Uma é não comer nada e definhar até o fim. A outra é comer de maneira inadequada e entrar em um regime de carência de nutrientes básicos. Mesmo comendo todos os dias, a alimentação acontece de maneira inadequada, apresentando um quadro de “subnutrição crônica”. Esse quadro, que também pode levar à morte, é o foco da narrativa. É a substituição do leite, necessário para o desenvolvimento das crianças, pela garapa, mistura de água com açúcar ou rapadura. Em determinado momento do filme, uma das personagens diz: “No dia que a gente almoça, não tem janta. No dia que a gente janta, não tem almoço [...]. Para merendar, almoçar e jantar, nunca na minha vida.” As gravações aconteceram durante cerca de 30 dias, totalizando mais de 45 horas de material bruto captados em bitola de 16 mm. O processo de realização desse documentário se deu a partir da representação das situações concretas, da tentativa de observar de maneira direta, com o mínimo de interferência, as condições daquelas realidades. O filme, portanto, tem um tratamento próximo ao do documentário direto, com a observação das situações com o mínimo de intervenção por parte da equipe de filmagem na ação filmada, captando as imagens no espaço e tempo determinado por aquele momento. * Professor do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Graduado em Arte e Mídia pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e mestre em Imagem e Som pelo Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). GARAPA: A AMARGURA DA POBREZA SEM FIM Veruska Anacirema Santos da Silva* São três as famílias dilaceradas pelo drama da miséria extrema retratadas no documentário do renomado diretor José Padilha. Mas poderiam ser mais. Também poderia ser apenas uma. O número de pessoas aqui não faz a menor diferença, pois o que salta da tela é a fome. Ela é a personagem principal, forte, dura, apresentada sem concessões nas cruas imagens captadas pelo cineasta. Garapa é drama, é testemunho de uma história secular de pobreza e fome que assola o Nordeste do Brasil. É história de luta de mulheres firmes, Rosa, Lúcia e Robertina, que encarnam centenas de outras mães sertanejas. Mulheres cujo único propósito é obter uma refeição, qualquer que seja ela, sobreviver ao dia. E, no outro dia, a mesma coisa. A vida circular sustentada por mamadeiras com água e açúcar, um esforço para suprir a falta do leite, do feijão com arroz. As imagens em preto e branco, por vezes granuladas, e o uso recorrente de planos próximos (principalmente dos corpos das crianças rodeados por moscas, ou dos pratos de comida) intensificam a dramaticidade das tomadas. Pouco se utiliza da entrevista, apenas em algumas circunstâncias específicas, a partir de perguntas do realizador para as pessoas “observadas”. O som não possui trilha musical ou de locução (narração em voz over) para criar uma atmosfera dramática ou explicar as situações captadas pela câmera. Enfatiza o som direto obtido na cena, em sincronia com a imagem, aumentando o caráter naturalista da tomada. Também é registro do abandono em que vive boa parte da população brasileira, da ausência do Estado, da falta de políticas públicas, da tremenda desumanidade daqueles que são responsáveis por assegurar os direitos básicos das pessoas. A escassez rodeia as famílias, expressa em casebres pobres, em caminhos áridos, no colchão sem estrado, na falta de saneamento básico e água encanada, na inexistência de tudo. As moscas, que perturbam as crianças, parecem mais vivas que elas. Uma pobreza que vai além do material. Os planos enquadrados impactam por sua crueza e pela exposição de casos reais, situações concretas, tratando da temática “fome” não através de estatísticas e discursos generalistas. O intuito é tocar no assunto a partir da observação de realidades específicas, procurando confirmar a tese de que mesmo pessoas vivendo em espaços diferentes, em contextos variados, compartilham problemas semelhantes. Rosa, Lúcia e Robertina são mulheres sem ambição, de riso forçado e conformista. Os homens que aparecem no filme são fracos, abandonados à impotência de prover a família, violentos, praticamente um peso a mais na rotina de miséria. Garapa é tristeza, é falta de perspectiva que, a certa altura, também contamina o espectador. Somos, inevitavelmente, levados a fazer perguntas, que também são as mesmas de sempre: Por que isso ainda acontece? Como, em um 34 35 país como o nosso, as pessoas se debatem para ter apenas uma refeição por dia? E mesmo esta não atende às necessidades básicas de um ser humano? Embora já tenhamos visto, no cinema ou na televisão, imagens como aquelas exibidas no documentário, ficamos com uma sensação muito ruim quando terminamos de assisti-lo, um amargo que toma o corpo. Garapa também é discurso, uma forma de dizer sobre a pobreza que está dada desde o início do filme, no diálogo com um trecho da obra Geografia da fome, de Josué de Castro, na opção da filmagem em preto e branco, que realça a miséria e não esconde as feridas. Algumas opções estéticas do diretor reforçam a escassez da vida daquelas pessoas: cortes secos, nada de filtros ou efeitos sonoros, poucos movimentos de câmera, sem música. A interferência do diretor nas falas das famílias é mínima. Nenhum desses recursos no documentário parece aleatório. Eles fazem parte da maneira como o diretor pensa e aborda essa mazela social. Esse modo de realizar o filme, no qual a miséria norteia a própria forma de filmar a trajetória das três famílias, insere-se numa longa tradição do cinema nacional em registrar e denunciar a fome no país, na qual se destacam, por exemplo, Aruanda (Linduarte Noronha, 1960) e Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963). Está presente no Cinema Novo, um dos mais importantes movimentos da história do cinema brasileiro e, de um jeito particular, na Estética da Fome, idealizada por Glauber Rocha, em 1965, para quem a fome não era somente sintoma, mas o nervo da sociedade, que, mesmo sentida, não é compreendida. Essa linha temporal e temática ligando os filmes demonstra a persistência da fome no Brasil, da repetição de vidas dissolvidas no abandono e no contraditório do doce da cana de açúcar, que, embora símbolo de riqueza do Nordeste, aqui é mais sentida como torpor, da mistura rala que anestesia a fome ao álcool que embriaga a mente. Assistir a Garapa é entrelaçar-se nessa história de pobreza dessas três famílias, que parece apenas uma; é solidarizar-se com o esforço do cineasta em denunciar a situação; é conscientizar-se desse flagelo que assola não apenas brasileiros, mas também milhares de pessoas no mundo. Uma narrativa bastante realista, dolorida, que mostra que a fome continua a devorar as pessoas. Não dá para ignorar. *Professora da Rede Estadual de Ensino, articuladora do Programa de Educação em Tempo Integral (ProEI), da Secretaria Estadual de Educação da Bahia. Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). 36 CRÉDITOS Esta é uma publicação especial da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), referente ao projeto “Cinema: Eis a Questão – O Janela Indiscreta no Vestibular”, realizado pelo Programa Janela Indiscreta Cine-Vídeo Uesb, em parceria com a Pró-Reitoria de Graduação, a Comissão Permanente de Vestibular, a Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários e o Programa Universidade Para Todos. Disponibilização on line e gratuita. Permitida a reprodução dos textos ou parte deles, desde que citados os autores e a fonte. Cinema: Eis a Questão – O Janela Indiscreta no Vestibular/Ano 11/2014 Coordenação-geral: Milene Gusmão Produção Executiva: Rayssa Coelho Assistentes de Produção Executiva: Tamara Chéquer Sérgio O. Silva Assistente de Produção Técnica: Georgen Pereira Apresentador / Moderador: Robério Stone Organização e Revisão do Livreto: Raquel Costa Programação Visual: Ana Luiza Dias Produção de Vídeo: Renato Fernandes UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA PRÓ-REITORIA DE EXTENSÃO E ASSUNTOS COMUNITÁRIOS PROGRAMA JANELA INDISCRETA CINE-VÍDEO UESB Estrada do Bem-Querer, km 04 – Campus Universitário Vitória da Conquista-Bahia – CEP 45.083-900 | Tel.: (77) 3425.9330 E-mail: [email protected] Site: www.janelaindiscretauesb.com.br 37