CAPA
ISSN 1646-9046
Volume – 1
Número – 4
Novembro de 2008
Arquivos de Fisioterapia
Editorial
O Editor
Luís Eva Ferreira
Cibercondría: à semelhança da hipocondría é uma
perturbação comportamental que, neste caso, leva um indivíduo a
auto diagnosticar-se e tratar-se utilizando informação recolhida na
Internet.
Uma primeira referência parece ter vindo a lume na BBC em
Abril de 2001 onde o termo "internet print out syndrome" aparece
como alternativa à “cyberchondria”. O The New York Times noticia
(e discorre) em Novembro deste ano que a Microsoft vai publicar
um estudo sobre o assunto. A Wikipédia (anglofona) já tem para
este termo alguma informação e o Portal da Língua Portuguesa (da
responsabilidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino
Superior) contempla igualmente uma entrada para cibercondría.
Quando há cinco anos iniciámos a actividade editorial,
depositando na nossa página de Internet - de forma aberta - os
nossos conteúdos, estávamos longe de imaginar que tinhamos nas
mãos uma rosa cujos espinhos devemos de acautelar.
Claro que estamos expectantes quanto às reacções não só
da comunidade científica mas, sobretudo, da editorial.
Reservar-nos-á o futuro a afixação de avisos, nos nossos
artigos (qual maço de tabaco), sobre os possíveis efeitos nocivos
dos mesmos quando manuseados por mentes menos
esclarecidas? Vamos ver.
No nosso “N Reflexões” deste número chamamos à atenção
para uma nova perspectiva de intervenção da fisioterapia.
Um caso que tive oportunidade de acompanhar veio a
revelar-se o tema deste número. Há lugar para a nossa intervenção
num mundo de novos nómadas (administradores e gestores de
topo de empresas igualmente de topo), errantes semanas a fio pelo
mundo, vivendo em aviões e aeroportos?
Por último chamo a atenção para o artigo sobre a afasia,
onde o termo Comunicação nunca foi tão expressivo. Aplica-se às
nossas relações com os utentes e é simultaneamente uma ajuda
para dissipar algumas dificuldades de comunicação/trabalho com
colegas de outras disciplinas.
A todos uma boa leitura
O Editor
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº4, Ano 2008, Página I
Arquivos de Fisioterapia
Nota aos Autores e Leitores
Como é sabido, pois está na nossa Carta de Intenções, a
propriedade dos artigos publicados pela Arquivos de Fisioterapia (AF)
permanece dos seus autores.
Nesta filosofia de Imprensa de Acesso Livre (permita-se esta
“tradução livre” do conceito), os autores concedem à AF ape-nas a
autorização para publicar, guardar, distribuir na íntegra ou em parte,
os seus artigos.
Assim fazemos notar que, ainda que sendo nós uma fonte
para a recolha dessas peças, os seus autores, e não só a AF, devem
ser sempre contactados quando estiver em causa a utilização das
suas matérias, textos, imagens ou outros elementos,
Por outro lado, é sabido que a qualidade e utilidade dos artigos se encontra no local, forma e número de vezes que são citados.
Nesse intuito está já ao dispor de todos, Autores e Leitores,
na nossa página de Internet um formulário de preenchimento on-line,
para que possam ser averbadas as informações referentes às
citações dos nossos artigos. Assim podemos simultaneamente,
enriquecer o curriculum da comunidade, “completar” os temas por
nós publicados e fornecer aos leitores artigos relacionados com os
assuntos tratados.
Por isso pedimos a todos para que nos informem, através da
www.afisioterapia.com sempre que no decurso dos vossos trabalhos
citem os artigos da AF.
Só assim podemos construir bases sólidas e credíveis de
conhecimento.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº4, Ano 2008, Página II
Arquivos de Fisioterapia
Ficha Técnica
Director:
Luís Eva Ferreira
Editor:
Luís Eva Ferreira
Editores Adjuntos:
João Brites de Sousa
Paulo Gaspar
Acessoria de Edição:
SFC - Consultores
Colaboradores:
Fátima Belo; Lúcia Pedrosa; José Mata; Marta Freitas;
Ana Ferreira; Paulo Geraldo; Manuela Nogueira; Susana
Simão; Luís C. Pereira; Leonor Madureira; Ana Santos
Francisco; Elsa Silva, Isabel Coutinho.
Capa:
Fotografia - Lúcia Pedrosa
Endereços:
Rua Prof. Fernando Gonçalves da Silva, nº 3,
2300-398 Tomar
www.afisioterapia.com
[email protected]
[email protected]
ISSN 1646-9046
Tiragem 1000 exemplares
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº4, Ano 2008, Página III
Arquivos de Fisioterapia
Índice
Páginas
Editorial
I
Nota aos Autores e Leitores
II
Ficha Técnica
III
Índice
1
Eficácia do Exercício em Meio Aquático
Vs Exercício no Solo na Diminuição do
Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia
Destes Indivíduos
2 - 10
Correia, S.; Bárcia, S.
Fisioterapia na Saúde Escolar – dos
Modelos às Práticas
11 - 28
Uma História de Vida em Fisioterapia
29 - 38
Afasia: Um Problema de Comunicação
39 - 45
Noronha, T.; Vital E.
Nogueira, M.; Moreira, P.; Coutinho, I. M.
Colaço, D.
“N”- Reflexões
Há “saudinha” no ar...
46 - 49
Francisco, L.,S.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº4, Ano 2008, Página
1
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no
Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
Correia, S.; Bárcia, S.
Autores
- Correia, Sara
Fisioterapeuta
- Bárcia, Sónia
Fisioterapeuta
RESUMO
Enquadramento: A Fibromialgia afecta cerca de 2 a 4% da População
Portuguesa, e é uma condição sem cura. Contudo, a Fisioterapia
assume um papel importante na diminuição do seu impacto e na
melhoria da qualidade de vida destes utentes. O exercício físico
aeróbio surge como componente integrante da intervenção e
mostrou ser benéfico para estes indivíduos; no entanto, há divergência
sobre qual o tipo de exercício mais eficaz: programas em solo ou em
piscinas terapêuticas. Objectivo: comparar a eficácia do exercício em
meio aquático relativamente ao exercício em solo, na diminuição do
impacto da Fibromialgia no dia-a-dia dos indivíduos com esta
disfunção, medida através da escala de Fibromyalgia Impact
Questionnaire (FIQ). Metodologia: pesquisa de estudos datados de
1990 a 2006, nas bases de dados B-on, EBSCO, Medline, PEDro,
Science Direct. Resultados: Foram encontrados 36 artigos, dos
quais, foram incluídos 6 ensaios clínicos aleatórios com valores entre
4 e 7 na escala PEDro Em 2 dos 6 estudos incluídos, foram
contrapostos exercícios de solo com exercícios em meio aquático e
foram observadas melhorias em ambos os grupos. Nos restantes 4
estudos, analisados, 2 utilizaram um programa multidisciplinar onde
combinaram a realização de exercícios em solo e meio aquático, 1
realizou uma comparação entre exercício em meio aquático e
imersão sem exercício, e outro comparou o exercício aquático com
nenhum tipo de intervenção. Todos estes estudos mostraram um
resultado positivo em termos de diminuição do impacto da
Fibromialgia no dia-a-dia destes indivíduos. Conclusões: o exercício
físico é benéfico para indivíduos com Fibromialgia, contudo, quando
realizado em meio aquático oferece benefícios adicionais, revelando
ser superior ao exercício físico em solo, comprovando assim a sua
superioridade em termos de eficácia.
Palavras Chave: Fibromialgia; Exercício no Solo; Exercício em Meio
Aquático; Fisioterapia; Fibromyalgia Impact Questionaire.
WWW.AGFISICOS.COM
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 2
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
necessidade
Introdução
de
procurar/delinear
uma
Em Portugal, as doenças reumáticas
estratégia de intervenção (Vitorino, D., 2006)
constituem o grupo de doenças com maior
ou alternativas efectivas de tratamento que
prevalência, afectando cerca de 40% dos
minimizem o impacto da Fibromialgia sobre a
Portugueses, e são as maiores responsáveis
qualidade de vida destes pacientes (Marques,
pelo absentismo ao trabalho, ocupando um
A. P.,2002). O tratamento convencional para
lugar cimeiro no que respeita a custos de
esta
saúde, quer directos quer indirectos.(Cardoso,
inflamatórios, e antidepressivos, no entanto
A.,2005; Adams, N., Sim, J. 2005). A
estes
Fibromialgia faz parte deste grupo e pertence
ineficazes (Bailey, A.,1999). Assim, não é
ao
surpresa
sub-grupo
das
doenças
músculo-
síndrome
métodos
que
inclui
analgésicos,
ainda
estes
são
anti-
relativamente
utentes
procurem
esqueléticas dolorosas. (Helfenstein, M., 2002;
alternativas aos tratamentos tradicionais,
Gowans, S.,E., 1999) Afecta 2 a 4% da
recorrendo à Fisioterapia e Acupunctura,
População Portuguesa, sendo o sexo feminino
SPAS e Balneoterapia (Gowans, S. E., deHueck,
5 a 9 vezes mais afectado que o sexo
A. 2004).
masculino. (Cardoso, A.,2005; Helfenstein, M.,
2002; Dobkin, P. L., 2005).
A
importante,
Fisioterapia
perante
tem
esta
um
papel
condição,
Esta é uma síndrome reumática não
nomeadamente na melhoria do controlo da
articular (Cardoso, A.,2005; Marques, A. P.,
dor e no aumento ou manutenção da
2002; Gowans, S.,E., 1999) de dor não
funcionalidade do utente, assim como na
inflamatória complexa (Gowans, S.,E., 2004;
redução de outros sintomas (Marques, A.
Gowans, S.,E., 2001) e causa desconhecida,
P.,2002). Embora as opções de tratamento
caracterizada por dor generalizada e dor
sejam limitadas (Gowans, S. E.,1999; Gowans,
localizada nos tecidos moles, em pontos
S. E.,2004, Jentoft, E. S., 2001), estão
específicos, (Cardoso, A.,2005, Gowans, S.
indicados vários programas de intervenção
E.,2004; Gowans, S. E.,2004, Jentoft, E. S.,
que têm sido propostos para lidar com os
2001;, Gowans, S. E., deHueck, A. 2004;,
diferentes aspectos da síndrome (Marques, A.
Assis, M. R., et al. 2006), cujo diagnóstico
P., 2002; Altan, L., 2004). O exercício físico
clínico tem por base os critérios estabelecidos,
tem sido um componente integrante da
desde 1990, pelo Colégio Americano de
intervenção não farmacológica há cerca de
Reumatologia
vinte anos, (Zijlstra, T. R.,
(CAR)
(Cardoso,
A.,2005,
2005), e com o
Neumann, L., et al., 2001; Marques, A. P.,
decorrer do tempo, tem surgido evidência,
2002; Gowans, S. E., deHueck, A. 2004) .
moderada a forte, comprovando que o
Considerando que esta condição não
exercício é benéfico para estes indivíduos,
tem cura (Vitorino, D., 2006) e não há
(Bailey, A.,1999; Gowans, S. E.,1999; Gowans,
conhecimento de nenhuma estratégia de
S. E.,2004; Gowans, S. E.,2004, Neumann, L.,
tratamento que seja efectiva em todos os
et al., 2001; Ribeiro, L. S., 2005), uma vez que
pacientes,
(Bailey,
Arquivos de Fisioterapia
A.,1999),
surge
a
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 3
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
contribui para a melhoria da oxigenação dos
avaliação do estado de saúde e capacidade
tecidos, aumento da endurance muscular e
funcional
subida dos níveis de energia (Zijlstra, T. R.,
abordagem
2005).
resultados
Embora as consequências positivas do
exercício
aeróbio
estejam
comprovadas,
é
essencial
e
importante
das
tornou-se
na
várias
análise
uma
dos
intervenções
terapêuticas, devendo por isso basear-se na
utilização
de
instrumentos
adequados
dos sintomas a longo prazo, (Richards, S. C.
(Marques, A. P.,
M., 2006) razão pela qual, clinicamente, estes
Rosado et al (2006), Burckhardt e colegas
indivíduos são aconselhados a continuar a
desenvolveram em 1991 um instrumento
pratica de exercício (Gowans, S. E.,2004).
para
Segundo Gowans et al. (2002), os efeitos do
Fibromyalgia
exercício
períodos
(Marques, A. P., 2002). Este instrumento foi
superiores a dois anos, mas para isso é
desenvolvido para medir o estado de saúde e a
importante que os participantes continuem a
capacidade funcional dos doentes com esta
realizar actividade física de manutenção.
síndrome, para avaliar a sua progressão
persistir
por
indivíduos
condições
2002).
com
Impact
em
medida
nenhum estudo mostrou efectivamente o alívio
podem
às
de
questão
De acordo com
Fibromialgia:
Questionnaire,
o
FIQ
De acordo com Jentoft et al. (2001), os
clínica e os resultados terapêuticos. Um
pacientes com a Síndrome de Fibromialgia
estudo que avaliou a sensibilidade à mudança
preferem exercício em piscinas de água
de vários resultados medidos, concluiu que o
quente (hidroterapia), e outros autores têm
FIQ é a medida mais sensível à mudança no
também defendido este tipo de intervenção,
tratamento da Fibromialgia e é recomendada
bem
a sua utilização (Marques, A. P., 2002).
como
os
seus
benefícios
clínicos
(Neumann, L., et al., 2001). Este tipo de
exercício
nem
sempre
é
realizado
Metodologia
em
Esta revisão sistemática foi executada
combinação com programas de exercícios de
através de uma pesquisa de estudos datados
solo. Os estudos são inconclusivos em relação
de 1990 a 2006 nas bases de dados B-on,
aos efeitos que podem ser alcançados apenas
EBSCO, Medline, PEDro, Science Direct; que
através de exercícios em piscina aquecida,
reunissem os seguintes critérios de inclusão:
(Neumann, L., et al., 2001), no entanto, é
ensaios clínicos aleatórios; artigos científicos
aceite que a realização de exercício neste
completos; artigos publicados em inglês e
meio possa oferecer algumas vantagens
português; artigos que abordem o exercício
adicionais devido ao efeito das propriedades
aeróbio, em solo e/ou meio aquático; estudos
da água (Ribeiro, L. S., 2005).
cuja amostra seja exclusivamente constituída
isoladamente,
mas
geralmente
É certo que a estratégia de intervenção
por indivíduos com Fibromialgia; estudos em
é fundamental, contudo esta não pode ser
que o diagnóstico de Fibromialgia esteja de
delineada sem uma avaliação prévia. A
acordo com os critérios do CAR e artigos que
incluam o FIQ nos instrumentos de avaliação.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 4
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
Foram excluídos todos os estudos cujo
em ambos os grupos, na totalidade das
acesso na íntegra não foi possível através das
avaliações.
bases de dados utilizadas; artigos sobre
significante (F=3,810, p <0,025), e o grupo de
programas de intervenção para a Fibromialgia
água alcançou grandes melhorias na semana
que não incluem exercício; artigos sobre
15 (p=0,033, 95%). Ambos os grupos
programas de intervenção que comparam
mostraram
exercício com outra forma de tratamento;
ansiedade e depressão FIQ, embora só
artigos
houvessem
cujas
amostras
não
são
A
relação
melhorias
diferenças
tempo/grupo
nos
scores
notórias
no
foi
de
que
exclusivamente constituídas por mulheres com
respeita à depressão, apresentando o grupo
Fibromialgia.
de piscina melhorias mais significativas após a
Posteriormente,
todos
os
estudos
incluídos foram avaliados através da escala
segunda (p=0,28, 95%) e terceira avaliação
(p=0,025, 95%).
PEDro.
Nos restantes 4 estudos analisados, 2
utilizaram um programa multidisciplinar (onde
Resultados
o exercício aeróbio em solo e meio aquático
Foram encontrados 36 artigos, dos
quais, de acordo com a metodologia utilizada,
foram incluídos 6 ensaios clínicos aleatórios
(ver tabela 1) com valores entre 4 e 7 na
escala PEDRO. Em 2 dos 6 estudos incluídos,
foram contrapostos exercícios de solo com
exercícios
em
meio
aquático
e
foram
observadas melhorias em ambos os grupos.
No estudo levado a cabo por Jentoft et al
(2001), o grupo de piscina mostrou, e
manteve até à data do follow-up, melhorias
significativas intra grupo, no que respeita à
dor, fadiga durante o dia, rigidez (p=0,05), e
número de dias em que sentiam bem (p
<0,01); enquanto que o de solo apenas
melhorou nos parâmetros de fadiga durante o
dia e rigidez (p =0,05), ansiedade e depressão
(p<0,01), considerando que durante os 6
meses após o programa de exercícios, 85%
dos participantes realizavam actividade física
pelo menos uma vez por semana. Em 2006, o
estudo realizado por Assis et al (2006)
eram
um
factor
integrante),
e
ambos
mostraram resultados positivos. No final do
programa realizado por Gowans et al (1999;)
foram observados ganhos significativos na
sensação de bem-estar, dor, fadiga matinal e
geral (p <0,05). Os ganhos na sensação de
bem-estar foram observados imediatamente
após o programa e mantiveram-se sem
diminuições significativas até ao follow-up,
porém os ganhos em relação à fadiga matinal
foram perdidos. Na avaliação de follow-up,
cerca de 77% dos indivíduos, que concluíram o
programa, continuavam a realizar exercício
pelo menos 30 minutos por semana, tendo
sido identificada uma relação significativa
entre a manutenção de ganhos imediatos pósprograma e continuação de exercício no follow
up (p <0,05). De acordo com o estudo
realizado por Cedraschi et al (2004), o grupo
de
intervenção
apresentou
melhorias
significativas no score total da FIQ (p <0,001),
e nas sub escalas para a “fadiga” (p=0,001),
apresentou melhorias dos scores totais FIQ,
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 5
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
Amostra
Programa
Duração do
programa
(semanas)
Sessões
(semana)
Sessões de
piscina
(totais)
Período de
follow up
(meses)
Intensidade do exercício
Temp. da
água
Gowans, et al,
1999
45 ♀
Programa
multidisciplinar Vs
sedentarismo
6
2
12
3
60% - 75% do ritmo cardíaco máximo
para a idade de cada utente
33º a 35º
Jentoft, et al,
2001
44 ♀
Ex. aquático Vs ex.
solo
20
2
40
6
60% - 80% do ritmo cardíaco máximo
para a idade de cada utente
34º
Gowans, et al,
2001
57 ♀
Ex. aquático Vs
sedentarismo
23*
3
18
----------------
60% - 75% do ritmo cardíaco máximo
para a idade de cada utente
33º a 35º
Cedraschi, et al,
2004
164 ♀
Programa
multidisciplinar Vs
sedentarismo
6
2
8
----------------
Não referido
34º
Altan, et al,
2004
50 ♀
Ex. aquático Vs
imersão
24
3
36
3
Não referido
Não
referido
Assis, et al,
2006
60 ♀
Ex. piscina Vs Ex.
Solo
15
3
45
----------------
9 batimentos abaixo do ritmo medido no
limiar anaeróbio
28º a 31º
* Durante as primeiras 6 semanas as classes foram realizadas numa piscina terapêutica, e a partir da 7ª semana, os indivíduos passaram a realizar 2 classes em solo
e uma na piscina
Tabela 1
“cansaço matinal” (p=0,006), e “ansiedade”
com o programa realizado no estudo de
(p=0,002). Não foram observadas melhorias
Gowans et al (2004), todos os resultados
no grupo de controlo, e na sub escala de dor
totais da FIQ, aparentemente, diminuíram em
da FIQ houve uma deterioração significativa
ambos os grupos, embora tenham sido mais
(p=0,17).
acentuadas nos indivíduos de exercício, e as
A
comparação
entre
grupos
reflectiu melhorias significativas do grupo de
variações
intervenção comparativamente ao de controlo
significativamente diferentes às 23 semanas.
no score total da FIQ (p=0,025), e nas sub
escalas
de
“dor”
(p=0,025),
“fadiga”
(p=0,003), e “depressão” (p=0,031). Ao final
de 6 meses, 41/61 pacientes (67%) no grupo
de intervenção continuava a realizar exercícios
em piscina regularmente.
Dos últimos 2 estudos, 1 realizou uma
comparação entre exercício em meio aquático
e imersão sem exercício, e outro comparou o
exercício aquático com nenhum tipo de
intervenção. Contudo, ambos mostraram um
resultado positivo em termos de diminuição do
impacto da Fibromialgia no dia-a-dia destes
indivíduos. No estudo realizado por Altan et al
(2004) a comparação entre os valores totais
da FIQ nos 2 grupos, nos 3 momentos
avaliativos,
não
mostrou
diferenças
significativas entre eles (p ≤ 0,05). De acordo
Arquivos de Fisioterapia
dos
resultados
FIQ
foram
Discussão
Embora os estudos diferissem no que
respeita aos objectivos de investigação, a
convergência destes para com os objectivos
definidos para o presente trabalho, permitiu
comparações e considerações importantes
para as conclusões obtidas: o exercício físico é
fundamental
nesta
condição,
e
quando
realizado em meio aquático oferece benefícios
adicionais e revelou uma superioridade ao
exercício físico em solo, comprovando assim a
sua superioridade em termos de eficácia. Este
poderá ser combinado com outras estratégias
de intervenção, ou mesmo integrar um
programa
multidisciplinar,
apresentando
igualmente repercussões positivas em termos
de diminuição do impacto da Fibromialgia no
dia-a-dia destes indivíduos.
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 6
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
A duração do período de estudo variou
possibilita a aproximação dos resultados à
em todas as investigações, desde as 6 às 24
realidade populacional, o que seria difícil com
semanas. No que respeita à frequência, esta
pequenas representações amostrais. Por
variou entre as duas e três sessões semanais
outro lado, um ponto fraco nestes estudos foi
de exercício em piscina; no entanto o número
a falta de consenso em termos metodológicos
de sessões de exercício (solo e/ou piscina)
que, não permitiu comentar ou realizar
variou consideravelmente, entre 12 e 45
inferências, com certeza, sobre a duração e
sessões
do
frequência ideal deste tipo de programas e
programa). Contudo, os resultados obtidos não
sessões semanais, uma vez que todos os
diferiram entre os estudos, uma vez que todos
estudos variaram muito no que respeita a
apresentaram
estas variáveis.
totais
(devido
melhorias
à
na
duração
escala
FIQ
segundo os desenhos utilizados. Contudo, para
Já no que respeita à intensidade do
além de difícil, não é correcto sob o ponto de
exercício, os estudos analisados concordam e
vista metodológico, comentar ou realizar
recomendam que os programas de exercícios
inferências sobre a duração e frequência ideal
aeróbios, para indivíduos com Fibromialgia,
deste tipo de programas e sessões semanais,
iniciem em níveis inferiores à capacidade dos
uma vez que todos os estudos variaram muito
participantes e, gradualmente, aumentem a
no que respeita a estas variáveis, não
duração e intensidade até os pacientes
existindo, portanto, consenso metodológico.
estarem a realizar exercício perto do limite da
Dos seis artigos analisados, 50%
realizaram
uma
Os
minutos. Relativamente à temperatura da
resultados obtidos indicaram que algumas,
água, embora grande parte da literatura
mas não todas as melhorias na funcionalidade,
defenda que esta deva rondar os 32ºC/34ºC,
dor e humor, observadas no final dos
a verdade é que nestes estudos (apesar da
programas poderiam manter-se por um longo
amplitude
período de tempo (até pelo menos 6 meses
diferenças
depois). Em todos estes estudos houve uma
obtidos, nem foram realizadas qualquer tipo de
relação significativa entre a manutenção dos
observações referentes a este aspecto. Em
ganhos obtidos e a continuação de prática
termos de profundidade da piscina, este é um
actividade
a
factor importante em termos de efeitos
hipótese de que a manutenção do alívio dos
fisiológicos que ocorrem de acordo com o nível
sintomas a longo prazo seja possível através
de imersão, contudo este factor não foi
da continuidade da prática da actividade física.
referenciado em nenhum dos estudos, sendo
física.
avaliação
Este
facto
follow-up.
intensidade moderada, durante 20 a 30
sustenta
Com base nos dados interpretados, um
de
temperaturas)
significativas
nos
não
houve
resultados
assim um ponto fraco nestes.
ponto forte nos estudos incluídos foi a
Todos os estudos consideraram a
utilização de números amostrais próximos ou
variável dor, e a maioria focou também outras
superiores a 50 indivíduos, uma vez que
variáveis reunidas na escala FIQ, possibilitando
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 7
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
a observação de uma maior tendência para
piscina. Assim, poderão ser definidos pontos
melhorias mais frequentes nos parâmetros de
fundamentais
sensação
Fisioterapia
de
bem-estar,
rigidez,
dor
e
para
a
intervenção
perante
a
da
Fibromialgia,
depressão. Contudo, apenas através dos
beneficiando estes indivíduos de uma forma
estudos que realizaram follow-up, foi possível
mais eficaz.
comprovar a hipótese de que a manutenção
Por último, embora esteja comprovado
do alívio dos sintomas a longo prazo seja
que o exercício em meio aquático é mais eficaz
possível através da continuidade da prática da
que em solo, temos de considerar que estes
actividade física.
indivíduos vivem em solo e é neste meio que
Ainda no que respeita aos resultados, a
sentem as suas dificuldades. Assim, o ideal
análise estatística foi e é, sem dúvida, um item
será uma combinação do exercício em ambos
de extrema importância. É através desta
os meios, privilegiando o exercício em meio
análise que os resultados obtidos são ou não
aquático para uma redução da sintomatologia
traduzidos sob a forma de significância,
e recorrendo ao exercício em solo no sentido
conferindo assim credibilidade às estratégias
facilitar a adaptação destes indivíduos ao meio
interventivas utilizadas. Todos os estudos
em que se inserem, promovendo também a
utilizaram
preferencialmente
considerando,
regra
geral,
Testes
T
sua consciencialização de responsabilidade
intervalos
de
individual e papel activo em termos de
confiança de 95%, facultando assim um igual
recuperação.
nível de certeza na comparação entre todos
Conclusão
os resultados obtidos nos diferentes estudos.
Após a exposição e interligação dos
É importante salientar o facto de que estas
resultados obtidos nesta revisão, podemos
conclusões foram obtidas através da análise
confirmar que o exercício físico é benéfico
de estudos cuja classificação, através da
para indivíduos com Fibromialgia, contudo,
escala PEDro, traduziu uma média qualidade
quando realizado em meio aquático oferece
metodológica.
benefícios
adicionais
e
revelou
uma
Como forma de combater as lacunas
superioridade ao exercício físico em solo,
encontradas na realização desta revisão
comprovando assim a sua superioridade em
sistemática, fica a sugestão e alerta para a
termos de eficácia.
necessidade de realização de mais estudos
Embora o exercício seja fundamental
nesta área, com uma melhor definição de
nesta condição, não podemos olhar o indivíduo
parâmetros metodológicos, nomeadamente:
sob
duração
frequência
compreender que este é um ser bio-psico-
semanal (bem como o tempo de duração
social que, como tal, deverá ser abordado
destas)
como
tendo em conta todos os aspectos que o
mesmo
condicionam. Assim sendo, os programas
temperatura da água e profundidade da
multidisciplinares são mais indicados, e nos
(semanas/meses)
dos
intensidade
programas,
de
Arquivos de Fisioterapia
exercício
e
assim
e
um
ponto
de
vista
biomédico
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 8
e
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
quais a componente de exercício físico deverá
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Arquivos de Fisioterapia
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Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 9
Eficácia do Exercício em Meio Aquático Vs Exercício no Solo na Diminuição do Impacto da Fibromialgia no Dia-a-dia Destes Indivíduos
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Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 10
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
Fisioterapia na Saúde Escolar – dos
modelos às práticas
Noronha, T.; Vital E.
Autores
- Noronha, Teresinha
Fisioterapeuta
- Vital, Emanuel
Fisioterapeuta
RESUMO
Enquadramento: As queixas de dores nas costas constituem um
problema de saúde cada vez mais importante nas crianças em idade
escolar. São identificados factores biomecânicos na sua génese tais
como as posturas incorrectas prolongadas no tempo, e o manuseio
incorrecto das mochilas escolares. Objectivo: Descrever e avaliar
uma acção de educação para a saúde junto dos alunos do 1º ciclo
que visava promover boa postura e o uso correcto de mochila.
Materiais e Métodos: Análise descritiva de uma acção de educação
para a saúde. População-alvo: 209 crianças do 1º ciclo de
escolaridade. A intervenção era composta por três fases: 1) sessão
de educação para a saúde; 2) realização de concurso de composição
e colagem para os alunos do 3º e 4º ano; 3) realização de jogo por
etapas três meses depois da sessão de educação para a saúde.
Efectuaram-se dois testes de aferição de conhecimentos com três
meses de intervalo. Resultados: Cerca de 66% dos alunos obtiveram
uma classificação muito boa nos testes de aferição de conhecimentos
e nos jogos por etapas. Os alunos manifestaram crenças de saúde e
crenças
comportamentais
susceptíveis
de
modelarem
comportamentos saudáveis. Registaram-se cerca de 20% de
ocorrências referindo “locus de controlo externo”. Grupos de alunos
do 2º ano, e principalmente do 1º ano obtiveram pontuações mais
baixas na etapa 4 que avaliava a forma de transportar as mochilas.
Discussão e Conclusões: Os resultados sugerem que acção de
educação para a saúde teve um impacte positivo. Contudo, o
desempenho dos alunos mais novos revelou insuficiências ao nível do
manuseio e transporte da mochila. Conclui-se que os alunos mais
novos apresentam uma dependência importante da acção dos
encarregados de educação que parecem não estar informados e
sensibilizados sobre esta questão – a quase totalidade das mochilas
são desajustadas em relação à estatura daquelas crianças. Torna-se
necessário avaliar a necessidade de intervenção junto dos pais e
redefinir as estratégias de intervenção.
Palavras Chave: Raquialgias; Postura; Mochila; Crianças; Promoção
da Saúde.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 11
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
Chansirinukor et al. (Chansirinukor,
Introdução
A maior parte das crianças têm ao
Wilson, Grimmer, & Dansie, 2001), numa
nascer costas saudáveis, mas as crianças em
análise biomecânica do efeito do peso das
idade escolar queixam-se, cada vez mais de
mochilas numa amostra de treze estudantes,
dores nas costas e no pescoço. No inquérito
concluíram que cargas superiores a 15% da
nacional de 1998 sobre a saúde dos
massa
adolescentes
significativas da postura dos ombros e região
portugueses,
integrado
no
estudo nacional da Rede Europeia sobre os
corporal
provocavam
alterações
cervical.
comportamentos de saúde das crianças em
Muitas pastas e mochilas existentes no
idade escolar (Matos, Simões, Carvalhosa,
mercado não permitem uma distribuição
Reis, & Canha, 2000) revelou que as dores
homogénea do peso dos livros e material
nas costas afectam entre 25% a 40% dos
escolar, resultando em esforço para coluna,
jovens adolescentes. Outros estudos que se
desconforto e sério risco de lesão.
incluíam ou não no mesmo projecto europeu
A mochila para além da sua utilidade
apontavam valores semelhantes (Feldman,
funcional pode constituir-se como um objecto
Shrier, Rossignol, & Abenhaim, 2001; Hakala,
de adorno, sujeito por isso à influência da
Rimpela, Salminen, Virtanen, & Rimpela, 2002;
“moda”.
Kovacs et al., 2003; Kristjansdottir & Rhee,
personagens ilustres e os pares exercem uma
2002; McMeeken et al., 2001; Olsen et al.,
forte influência de modelagem junto das
1992; Palmer, Walsh, Bendall, Cooper, &
crianças e jovens. Conforme nota Milner,
Coggon,
2002;
1983 (cit. Lima, página 191 (Lima, 1993)) “…
Wedderkopp, Leboeuf-Yde, Andersen, Froberg,
as crianças encontram-se numa posição de
& Hansen, 2001; Weir, 2002; Widhe, 2001).
completa dependência da influência social no
2000;
Watson
et
al.,
A
família,
os
professores,
as
Estudos realizados em vários países da
seu processo de construção de atitudes (pais,
Europa e referidos pela agência britânica
professores, televisão), uma vez que não têm
“Backcare” revelam que as dores nas costas
acesso a outra fonte de informação mais
acontecem com cada vez maior frequência
directa”.
nas crianças, e as que transportam pastas de
Usar a mochila solta, repleta de
livros mais pesadas, são aquelas que mais
material e preferencialmente num só ombro é
referem problemas de dores nas costas. Uma
referido por muitos jovens como sendo mais
pesquisa da “Backcare” revela que 80% das
“cool”. Como consequência, os colegas que se
crianças carregam demasiado peso. Uma
preocupam mais com os aspectos funcionais
elevada percentagem transporta as mochilas
e transportam a mochila mais ajustada ao
de forma incorrecta (num só ombro, ou
tronco são, por vezes, alvo de troça pelos seus
pendurada até à anca), usa pastas impróprias,
pares. O desejo de copiar modelos e de se
e muitas crianças carregam pastas pesando
integrar nos grupos pode exercer influência
até 30% do seu peso.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 12
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
sobre o comportamento dos jovens (Lima,
de
Prochaska
e
Di
Clemente
sendo
1993).
desenvolvidas acções de sensibilização que
actuam ao nível da fase da “pré-contemplação”
Suporte teórico da intervenção
(Sutton, 1997b).
Intervir junto da população estudantil
para
a
promoção
da
saúde
implica
O
modelo
de
Crença
na
Saúde
(Bandura, 2001; Glanz, 1999) é utilizado para
desenvolver actividades que visem influenciar
veicular
acções e comportamentos. As acções e os
severidade que o uso incorrecto das mochilas
comportamentos não resultam apenas das
e as posturas inadequadas podem provocar
cognições,
dependem
de
na saúde e, simultaneamente, para favorecer
processos
afectivos
também
o desenvolvimento de comportamentos mais
igualmente
e
são
informação
relacionada
adequados
(Lima,
de
indicados os seus benefícios. Desta forma
comportamento que são favorecidas pelo
procura-se estimular e promover a “disposição
ambiente social e estrutural têm maior
para agir” e a adopção de comportamentos
probabilidade de ser mantidas do que aquelas
mais saudáveis.
As
mudanças
que não o são (Bennett & Murphy, 1999).
São
aos
implementadas
quais
a
controladas pelo ambiente percebido e real
1993).
relativamente
com
são
intervenções
Deste modo, as acções dirigidas às mudanças
suportadas em várias dimensões da “Teoria
de
Cognitiva Social” (Glanz, 1999), como por
comportamento
devem
ser
multidimensionais e abordar os vários factores
exemplo:
que podem afectar o comportamento.
- a apresentação de cenários em que os
É importante unir esforços entre o
alunos são estimulados a analisar e a
núcleo familiar, entidade escolar, entidade da
responder perguntas como “O que está mal?”,
saúde e, eventualmente, lançar uma “moda”
“Como podemos corrigir?” segundo o conceito
junto dos jovens estudantes que favoreça a
do “determinismo recíproco”;
adopção de estilos de vida mais saudáveis.
- adoptando o conceito da “aprendizagem
Reconhecendo
a
necessidade
e
comportamentos
interactivos em que os alunos são convidados
relacionados com as posturas e o correcto
a encenar situações e a participar em grupos
uso das mochilas em crianças do 1º ciclo de
de discussão para análise, observando os
escolaridade procedeu-se à realização desta
resultados das acções de outros colegas e
intervenção na área de educação para a
participando em actividades cujos resultados
saúde.
são premiados. Este conceito está relacionado
modelar
atitudes
de
Os modelos teóricos que suportam a
intervenção
são
são
usados
modelos
com aspectos de mudança comportamental
mas
mediada pela utilização de incentivos, prémios,
complementares. É adoptado o “Modelo
e diminuição de respostas negativas que se
Transteórico de Mudança Comportamental”
desviam de mudanças positivas;
Arquivos de Fisioterapia
variados
observacional”
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 13
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
- de acordo com o conceito da “capacidade
comportamento perante determinado objecto
comportamental”
ou situação;
é
implementada
a
transferência de informação e o treino de
- a “atitude”, que é a posição ou opinião
acções que se pretende sejam adoptadas;
relativamente a determinado objecto ou
- actuando ao nível da “auto-eficácia” é feito o
situação e que resulta das crenças que se
reforço das competências individuais através
tem, e da avaliação das crenças relativas a
da persuasão e encorajamento.
esse objecto ou situação;
A
“Teoria
Comportamento
- a “variabilidade das atitudes”, que permite
Planeado” (TCP) desenvolvida por Ajzen e
identificar o carácter constante ou consistente
Fisbein em 1988 (Ajzen, 1988) é outro dos
das atitudes relativas a determinado objecto
modelos teóricos que suporta a intervenção.
ou situação;
Agrega alguns dos conceitos dos modelos
- a “norma subjectiva”, que está relacionada
anteriores
podem
com a percepção que o indivíduo tem da
influenciar o comportamento. Foi testada e
pressão que o grupo/contexto social exerce
ampliada por vários autores (Armitage &
face
Conner, 1999; Conner & Norman, 1994;
comportamento, isto é a aprovação ou
Hausenblas, Carron, & Mack, 1997; Manstead
reprovação. Diz respeito também ao próprio
& Parker, 1995; Norman & Smith, 1995;
comportamento de indivíduos ou grupos
Parker, Manstead, & Stradling, 1995; Sutton,
significativos face a determinado objecto ou
1997a; Sutton, McVey, & Glanz, 1999;
situação;
Verplanken & Aarts, 1999; Verplanken, Aarts,
- o “controlo comportamental percepcionado”
Kinppenberg, & Moonen, 1998), resultando
e as “crenças de controlo” que nos indicam se
actualmente numa versão modificada pela
a
inclusão
o
determinados comportamentos depende do
controlo
próprio (locus de controlo interno) ou de
e
de
do
inclui
várias
comportamento
outros
que
dimensões
anterior,
o
como
à
manifestação
capacidade
mudar
ou
controlo
manter
outrem
de controlo e as crenças comportamentais.
respectivamente.
Em síntese, as dimensões da TCP que podem
factores podem influenciar directamente a
suportar as intervenções que visam influenciar
manifestação ou não do comportamento.
o comportamento são:
- as “crenças comportamentais”, que se
- o “comportamento anterior”, ou hábitos que
referem
se refere à forma como habitualmente se age
determinado objecto ou situação tem no
e reage a um determinado objecto ou
comportamento.
à
de
determinado
comportamental percepcionado, as crenças
situação;
(locus
de
de
Segundo
avaliação
a
do
externo),
TCP
impacte
estes
que
Por fim, no âmbito da divulgação das
- a “intenção comportamental”, que diz
actividades
desenvolvidas,
a
Escola
cria
respeito à vontade de mudar ou manter o
condições para que esta intervenção de
promoção da saúde possa chegar a toda à
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 14
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
sua comunidade educativa. A publicação de
influenciar o seu comportamento em matéria
reportagem e comentários no jornal da Escola
de saúde, admite-se que o grupo etário das
permite fazer uso da “Teoria da Difusão das
crianças do 1º ciclo é, ainda, relativamente
Inovações”,
mais fácil de modelar.
estimulando
os
leitores
a
contactarem e conhecerem práticas novas, ao
Foram realizadas intervenções dirigidas
mesmo tempo que reforça e premeia o
às dimensões cognitivas e comportamentais.
trabalho entretanto realizado (Glanz, 1999).
As acções orientadas para os aspectos
O presente trabalho insere-se na área
cognitivos tinham como objectivos:
da promoção da saúde em ambiente escolar e
- Aquisição de conhecimentos sobre as
é dirigido aos comportamentos relacionados
posturas que se deve adoptar para a
com a postura e a utilização de equipamento
realização de diferentes tarefas;
de transporte do material escolar.
- Aquisição de conhecimentos sobre a escolha
e modo de utilização da mochila de transporte
Objectivos
1. Descrever uma acção de educação para a
saúde que visava sensibilizar e promover a
boa postura e o uso correcto de mochila
nos alunos do 1º ciclo.
2. Avaliar a metodologia aplicada nesta acção
de sensibilização e o seu impacte nos
alunos do 1º ciclo.
parceria
- Desenvolvimento de competências que
permitissem aos alunos analisar e identificar
situações incorrectas e propor soluções
adequadas para redução de situações de risco
para a saúde das suas costas.
As acções dirigidas para os aspectos
comportamentais tinham como objectivo a
adopção de estratégias e acções de protecção
Material e Métodos
Em
de material escolar;
com
a
Escola
foi
da saúde relacionadas com a postura e uso da
implementada uma acção de educação para a
mochila, nomeadamente:
saúde relativa ao tema “Boa Postura e Uso
- Identificar posturas correctas e incorrectas;
Correcto da Mochila” cuja população-alvo foi os
- Escolher a mochila mais adequada;
alunos do 1º ciclo.
- Saber colocar o material escolar na mochila;
Local da intervenção e população alvo
- Transportar correctamente a mochila.
Foi escolhida como parceira uma
Esta acção decorreu ao longo do ano
escola com dinamismo e ao mesmo tempo
lectivo 2004/2005 e foi dividida em 3 fases.
preocupada com o bem-estar dos seus alunos.
A primeira fase consistiu numa sessão de
A população-alvo foi constituída por
sensibilização de 60 minutos, para grupos de
todos os alunos do 1º ciclo daquela escola.
20 a 26 alunos e o respectivo professor. Foi
Esta escolha fundamentou-se no facto de que,
realizado um total de 8 sessões tendo
apesar das crianças em escolaridade formal
participado 209 crianças.
terem sido já expostas a toda uma série de
Na sessão de sensibilização os alunos
factores pessoais e sociais capazes de
foram confrontados com imagens do tipo de
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 15
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
banda
desenhada
retratavam
várias
de
cores
posturas
vivas
que
correctas
A segunda fase decorreu depois da
e
sessão de sensibilização no final do 2º
incorrectas, de pé e sentado, e imagens
trimestre lectivo. Foi desenvolvida em sala de
relacionadas com o transporte do material
aula e orientada pelo respectivo professor e
escolar. Foram utilizadas 5 transparências e à
consistiu na realização de concursos de
medida que as imagens eram projectadas os
composição e de desenho sobre o tema, afim
alunos eram estimulados a analisar e a
de determinar os conhecimentos adquiridos
responder perguntas como “O que está mal?”,
pelos alunos, identificar as fases de mudança
“Como podemos corrigir?”. Foi mostrada ainda
comportamental e os processos utilizados.
uma imagem de uma coluna vertebral normal
A terceira fase teve lugar no terceiro
e imagens de colunas com três patologias
trimestre lectivo, cerca de três meses após a
diferentes.
uma
realização da sessão de sensibilização e
imagem duma radiografia dum indivíduo com
consistiu na realização de um jogo por etapas,
postura assimétrica transportando uma pasta
com dois níveis de dificuldade:
a tiracolo, assinalando o seu efeito nocivo
- nível 1 para alunos do 1º e 2º ano, e
sobre a coluna.
- nível 2 para os alunos do 3º e 4º ano.
Por
Nesta
fim,
sessão
apresentou-se
foi
realizada
uma
Esta
actividade
apresentava
uma
“passagem de modelos”. A alguns alunos foi
componente competitiva e os resultados eram
atribuída a tarefa de participar como “modelo”
registados para se apurarem os vencedores
transportando a mochila com o seu material
por cada nível de escolaridade. Procurou-se
escolar; os restantes alunos participavam num
com esta acção avaliar as capacidades dos
grupo de discussão que procurava analisar o
alunos
“modelo” nos aspectos relacionados com o
comportamentais e premiar os alunos que se
manuseamento e transporte da mochila. O
distinguiram com bons resultados.
objectivo desta tarefa era identificar os
A actividade dos jogos por etapas decorreu
aspectos positivos e negativos do “modelo” e
fora da sala de aula, mas no espaço da escola,
os alunos eram estimulados a apresentar
num circuito igual àquele que os alunos
soluções para corrigir os aspectos negativos.
percorriam diariamente para a sua sala de
Nos últimos 10 minutos da sessão todos os
aula; este espaço inclui 3 lances de escadas e
alunos do 3º e 4º ano preencheram um
um corredor com cerca de 15 metros. As
questionário a fim de aferir o seu nível de
estações das várias etapas ficavam situadas
conhecimento.
ao longo do corredor e na última etapa os
O
questionário
era
constituído
por
em
várias
dimensões
cognitiva-
8
participantes transportam a mochila com o
afirmações sobre o tema e era solicitado aos
material escolar, tentando reproduzir a tarefa
alunos para assinalar se as afirmações eram
num contexto real. O material escolar utilizado
falsas ou verdadeiras (anexo 1).
nas etapas 2, 3 e 4 era cedido pelos alunos.
Os jogos eram realizados por grupos de 5 a 6
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 16
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
alunos. Antes de cada jogo os grupos eram
testes com a classificação de 100% (todas as
informados das regras que deveriam respeitar
respostas certas). Na 2ª avaliação (número de
e da forma de pontuar.
testes: n=83), registaram-se 69,8% de testes
Nas etapas 1, 2 e 3, cada grupo
com 100% de respostas certas. Registou-se
indicava dois elementos para o representar; os
uma diminuição dos testes com classificações
restantes elementos apoiavam na resolução
inferiores (Gráfico 1).
das dificuldades. Na etapa 4 apenas um
elemento podia representar a equipa.
1ª Avaliação
2ª Avaliação
69,8%
n=91
n= 83
65,9
%
28,5
%
27,7%
5,4%
0
1,0%
1,2 1,2%
%
Clas s ificação
100
87,5
75
62,5
Classificação
50
87,5
100
75,5
62,5
50
Gráfico 1. Distribuição dos resultados dos testes por percentagem de respostas certas.
Participaram:
Concurso de Composição
- 11 grupos do 1º ano;
No concurso de composição que teve
- 8 grupos do 2º ano;
lugar no final do segundo trimestre lectivo
- 8 grupos do 3º ano;
foram seleccionados pelos professores 40
- 11 grupos do 4º ano.
trabalhos realizados pelos alunos do 3º e 4º
O protocolo utilizado para a realização
do jogo por etapas é apresentado no anexo 2.
ano.
Foi adoptada a análise de conteúdo como
No dia seguinte a estas actividades os
metodologia de avaliação das composições. Da
alunos do 3º e 4º ano respondiam ao mesmo
matriz construída para registar a frequência
questionário de aferição de conhecimentos
de
aplicado
dimensões com a distribuição de frequências
aquando
das
sessões
de
ocorrências
identificaram-se
sensibilização (3 meses antes).
que a Tabela 1 apresenta.
Resultados
Concurso de Colagem
Testes de aferição do conhecimento
Dos 91 testes da 1ª avaliação de
aferição de conhecimento obteve-se 65,9% de
Arquivos de Fisioterapia
seis
Na actividade das colagens todos os
trabalhos
realizados
pelos
alunos
apresentavam imagens de atletas famosos,
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 17
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
Dimensões identificadas nas composições
Os alunos…
Ocorrências
1- Recomendam o transporte de menos peso (10% do peso corporal)
30,5%
2- Mencionam que posturas correctas são uma forma de evitar dores nas costas
28,4%
3- Aconselham transportar o peso (mochila) junto ao corpo
12,6%
4- Sugerem dividir o peso (sacos de compras) por ambos os lados
10,5%
5- Apontam os erros (postura e uso da mochila) e apelam aos outros para corrigirem
9,5%
6- Reconhecem os erros, mas dizem que só conseguem mudar com ajuda
8,4%
Tabela 1. Resultados da análise de conteúdo das composições.
modelos
e
Conforme se pode verificar, de uma
saudável”. As colagens eram acompanhadas
forma geral, os alunos obtiveram bons
por texto que fazia referência a um conjunto
resultados, com um maior número de grupos
de recomendações sobre “Boa Postura e Uso
nas categorias mais elevadas de pontuação.
Correcto da Mochila”, tais como:
De registar a existência de grupos de alunos
•
•
•
internacionais,
“gente
fina
Não permanecer muito tempo na
do 2º ano, e principalmente do 1º ano com
mesma posição.
pontuações menos boas na etapa 4 que
Usar a mochila leve e ajustada às
avaliava a forma de transportar as mochilas.
nossas costas.
Os alunos do 4º ano apresentaram melhores
A
mochila
deve
ter
vários
compartimentos para possibilitar uma
boa arrumação das coisas.
•
A mochila deve ter alças almofadadas.
•
Praticar exercício físico faz bem à
saúde.
Jogo por Etapas
O jogo por etapas apresentava dois
resultados na 4ª etapa.
Na análise de resultados por ano de
escolaridade podemos constatar que os
alunos do 1º ano (crianças de 6-7 anos),
mostraram alguma dificuldade em arrumar o
material escolar (etapa 3). Mas é na etapa 4
referente ao transporte a mochila que
apresentaram muita dificuldade. Não houve
nenhum grupo que tenha conseguido realizar
níveis de dificuldade. O nível 1, de menor
aquela tarefa com uma boa postura.
dificuldade era dirigido aos alunos do 1º e 2º
Os alunos do 2º ano obtiveram resultados
ano; o nível 2, de maior dificuldade era dirigido
muito bons na 1ª, 2ª e 3ª etapas, mas vários
aos alunos do 3º e 4º ano.
grupos apresentaram resultados menos bons
A tabela 2 apresenta a distribuição dos
grupos dos quatro anos de escolaridade por
quando se tratou de transportar a mochila
(etapa 4).
etapas e por pontuação. O valor apresentado
Em relação aos alunos do 3º ano de
nas células a sombreado indica o número de
escolaridade, a etapa 1 - “Comparar as duas
grupos que obteve a respectiva pontuação.
imagens relativamente à postura” - exigia a
análise cuidadosa de vários segmentos do
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 18
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
Etapa 1 – Identificar posturas correctas e incorrectas
Pontuação
Anos
1º
2º
3º
4º
0 pontos
1 ponto
2 pontos
3 pontos
4 pontos
5 pontos
6 pontos
1
2
1
2
4
4
2
2
4
4
5
7
4 pontos
5 pontos
6 pontos
3
6
5
2
5
1
3
2
4
ano
ano
ano
ano
Etapa 2 - Escolher a melhor mochila
Pontuação
Anos
1º
2º
3º
4º
0 pontos
1 ponto
ano
ano
ano
ano
2 pontos
3 pontos
1
4
2
Etapa 3 – Colocar o material escolar na mochila
Pontuação
0 pontos
Anos
1º
2º
3º
4º
ano
ano
ano
ano
0,5 pontos
1 ponto
1,5 pontos
2 pontos
1
4
1
6
6
5
7
1
4
1
1
1
Etapa 4 – Transportar a mochila
Pontuação
Anos
0 pontos
1 ponto
2 pontos
3 pontos
1º ano
2
3
2º ano
3º ano
4º ano
1
Tabela 2. Distribuição dos grupos por etapas e por pontuação
4 pontos
3
3
3
2
3
1
5 pontos
6 pontos
2
3
3
1
2
6
corpo. Dos 8 grupos que concorreram, 5
bastante semelhante aos do 3º ano, tendo
obtiveram pontuação máxima (6 pontos), 2
demonstrado mais competência na tarefa de
grupos obtiveram 5 pontos e apenas um
arrumar o material escolar - etapa 3 - e
grupo obteve 4 pontos.
apresentado melhor postura no transporte da
A etapa 3 - “Arrumar o material escolar
segundo horário” - exigia capacidade e método
de trabalho com o objectivo de seleccionar
apenas o material necessário para aquele dia
de aulas. Esta capacidade é importante,
porquanto se tem observado a existência de
alunos que transportam mochilas pesadas,
com material escolar desnecessário. Os
alunos do 3º e 4º ano tiveram, globalmente,
um bom desempenho nesta etapa.
Na etapa da análise da postura, os
alunos do 4º ano obtiveram resultados
Arquivos de Fisioterapia
mochila - etapa 4.
Discussão
Os resultados apresentados sugerem
que a acção de sensibilização teve impacte
positivo. Os alunos de 1º e 2º ano, que apenas
foram expostos à sessão de sensibilização,
revelaram,
mesmo
assim,
bons
conhecimentos teóricos sobre a postura e
conhecimentos suficientes para a escolha da
mochila e sobre a forma de a transportar.
Estas competências foram aferidas apenas no
jogo
de
etapas,
porque
se
considerou
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 19
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
inadequado aplicar testes de aferição de
baixa estatura, estão expostas ao longo do dia
conhecimentos a este grupo de alunos.
a
Numa avaliação global da actividade
desenvolvida na área da educação para a
cargas
elevadas,
mal
ajustadas,
que
provocam alterações posturais e exigem um
esforço físico elevado.
saúde sobre o tema “Boa Postura e Bom Uso
A análise da quarta etapa mostrou
da Mochila”, consideramos que o jogo de
claramente que as crianças do 1º e 2º ano de
etapas foi um instrumento fulcral desta
escolaridade,
intervenção. Permitiu estimular duma forma
capacidades suficientes para o correcto
lúdica e competitiva a aplicação da teoria na
transporte da mochila. Estes dados sugerem
prática. Serviu ainda como instrumento de
que estas crianças necessitam nesta área de
avaliação das competências manifestadas. De
muito suporte parental, e de pais esclarecidos
facto, nos alunos mais jovens, em que a
relativamente a:
escrita e a leitura não estão suficientemente
- aquisição da mochila escolar;
desenvolvidas, este jogo constituiu a única
- arrumação do material escolar nas mochilas;
forma de aferir os seus conhecimentos. E
- ajustamento do tamanho da mochila escolar
serviu para avaliar a própria acção de
e das alças às costas dos seus filhos.
não
desenvolveram
ainda
sensibilização, não só nos aspectos teóricos
No que diz respeito aos conhecimentos
como também na prática. Foi útil, ainda, para
sobre a identificação de posturas incorrectas,
fornecer pistas que poderão servir para
escolha das mochilas e arrumação do material
redefinir as estratégias de intervenção futuras.
escolar nas mochilas, os alunos do 2º ano
Neste jogo, os alunos do 1º ano (crianças
mostravam
mais novas), mostraram alguma dificuldade
aplicando a teoria na prática com grande
em arrumar o material escolar. Mas foi no
facilidade.
já
capacidades
desenvolvidas
transporte da mochila até à sala de aula que
O jogo por etapas do nível 2 revelou ser
apresentaram muita dificuldade. Não houve
muito exigente em relação aos alunos do 3º
nenhum grupo que tenha conseguido realizar
ano (8-9 anos). Apesar de terem demonstrado
aquela tarefa com uma boa postura. Todas as
possuir conhecimentos sólidos acerca de boa
mochilas que os alunos utilizaram no jogo
postura, cerca de metade dos grupos revelou
apresentavam as alças soltas e as crianças
alguma dificuldade na tarefa de escolher uma
não conseguiam ou não sabiam ajustá-las.
mochila
Além disso havia muitas mochilas demasiado
escolheram mochilas mais pelo aspecto (cor e
grandes em relação ao tamanho do tronco
desenho) que pelas suas características
daquelas crianças o que levanta questões
funcionais.
adequada,
havendo
grupos
que
sobre os critérios que são utilizados no
O concurso de composição permitiu
momento da aquisição das mochilas, e sobre o
avaliar aspectos que as duas avaliações de
manuseio
Estas
conhecimento e o jogo por etapas não seriam
observações revelam que estas crianças, de
capazes de identificar. Assim, no concurso de
do
seu
Arquivos de Fisioterapia
ajustamento.
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 20
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
composição, os alunos do 3º e 4º anos
utilização de modelos poderosos que facilitam
revelaram a assimilação de algumas crenças
a criação e reforço das atitudes (Lima, 1993)
de saúde (“posturas correctas como forma de
e das normas subjectivas (Bennett & Murphy,
evitar
1999; Manstead & Parker, 1995; Sutton,
dores
nas
costas”)
e
crenças
comportamentais (“transportar menos peso”
1997a).
e transportar peso junto ao corpo”) que se
enquadram
na
Social
educação para a saúde, foi-se revelando com
do
cada vez mais intensidade a necessidade de
Comportamento Planeado (Sutton, 1997a),
integrar os encarregados de educação neste
respectivamente.
poderão
processo. Esta intervenção esteve planeada e
de
foram desenvolvidos instrumentos adequados
comportamentos saudáveis e revelam um
à sua finalidade, tendo sido programada para
estádio
mudança
ocorrer no final do ano. Contudo, factores
comportamental (fase de contemplação e fase
alheios à vontade da dinamizadora principal da
de
acção inviabilizaram que tal intervenção se
(Bandura,
Teoria
2001)
facilitar
e
na
Estas
o
Cognitiva
No decorrer destas actividades de
teoria
crenças
desenvolvimento
mais
avançado
determinação
(Glanz,
de
1999;
Sutton,
1997b)). Contudo o facto de “apelarem aos
concretizasse.
outros para corrigirem as posturas” e de
Um aspecto positivo que se destaca
“reconhecerem os erros, mas dizerem que só
nesta
conseguem mudar com ajuda”, é revelador de
envolvimento da Escola e de esta se ter
que os seus níveis de auto-eficácia necessitam
integrado
ser melhorados no sentido de se processar
intervenção. Além disso os resultados desta
uma transferência do “locus de controlo”. Esta
actividade foram reforçados, com a sua
avaliação
publicação no jornal escolar. Esta iniciativa,
aponta
necessárias
no
sentido
intervenções
que
de
serem
permitam
para
acção
está
relacionado
perfeitamente
além
de
no
valorizar
com
espírito
a
o
da
actividade
modificar um comportamento referenciado
desenvolvida, pode constituir um estímulo e
como dependendo de um “locus de controlo
incentivo para a participação dos alunos.
externo” para uma condição que dependa
mais do “locus de controlo interno”.
Análise dos custos envolvidos
O concurso de colagens forneceu uma
Os encargos financeiros relacionados com a
pista muito importante. As crianças que
implementação
executaram estes trabalhos associavam os
contemplaram
ídolos à prática de exercício físico e à condição
humanos, transportes e comunicações. O
de serem pessoas saudáveis. Esta actividade
custo estimado por criança foi cerca de
decorreu
actividades
€7,83. A componente principal destes custos
curriculares daquelas turmas tendo sido
teve a ver com o tempo despendido na
orientadas
pelos
concepção e logística do Jogo por Etapas que
Destaca-se,
contudo,
no
âmbito
Arquivos de Fisioterapia
das
respectivos
a
docentes.
importância
da
desta
as
rubricas
intervenção
de
recursos
necessitou de 105 horas. A multiplicação
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 21
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
desta intervenção tenderá a baixar os custos,
registada
nos
alunos
do
1º
ano,
que
prevendo-se uma redução dos encargos para
apresentaram limitações sobre a forma como
cerca de €1,55/criança se for mantido o
deve ser transportada a mochila.
No grupo dos alunos do 1º ano –
modelo actual.
alunos de baixa estatura -, chama-se a atenção
Conclusão
No âmbito da actividade de educação
para a saúde, a acção de sensibilização com a
sessão
teórica
constituiu
um
momento
importante de divulgação de informação sobre
os riscos das lesões que a má postura e a
incorrecta utilização da mochila pode causar.
Esta acção permitiu transmitir conhecimentos
relativos à escolha de mochila adequada e
sobre como manter as costas saudáveis.
Os
sucessivos
momentos
de
intervenção que dizem respeito ao concurso
de composições, colagens e jogos de etapas
serviram para prolongar o efeito da sessão de
sensibilização, dar oportunidade para passar à
prática conceitos teóricos e criar espaço para
o diálogo e discussão sobre este tema. Neste
aspecto foi possível obter-se a participação
activa de todos os alunos o que, em ambiente
de aula, nem sempre acontece.
Os resultados obtidos parecem ser
claramente positivos. Não se registou efeito de
perda
dos
conhecimentos.
mostraram
As
crianças
conhecimentos
sólidos
relacionados com boa postura, e sobre como
escolher a melhor mochila. Neste aspecto
notou-se
uma
características
relativamente
maior
valorização
funcionais
às
suas
da
das
mochila
características
decorativas. Por fim, houve um reforço das
competências sobre como a mochila deve ser
transportada, tanto na parte teórica como na
prática. Neste aspecto,
Arquivos de Fisioterapia
a excepção
foi
para as posturas incorrectas encontradas
durante a etapa do transporte das mochilas e
o facto destas serem demasiado grandes e
pesadas sendo que algumas incluíam ainda
armação de metal e rodas. As alças, de um
modo geral, estavam muito soltas. Estas
características
condicionam
o
transporte
assimétrico da mochila e uma alteração
acentuada do centro de gravidade e das
curvaturas fisiológicas da coluna vertebral.
Revela-se, de facto, que os mais novos
carecem
de
ajuda
e
supervisão
dos
encarregados de educação que deverão ser
devidamente
informados
e
sensibilizados
sobre esta questão.
Foi divulgado na imprensa local, antes
do início do ano lectivo 2003/2004, um texto
com informação relativa ao problema das
dores nas costas nas crianças e à escolha da
mochila adequada. A análise efectuada neste
momento aos alunos do 1º ciclo sugere que a
publicação de informação relativa a este tema
nos “média” tem resultados limitados. Uma
abordagem
abrangente
e
direccionada,
mobilizando os actores mais directamente
envolvidos com o problema parece ser mais
efectiva.
Sugestões para intervenções futuras
A confirmação da redução ou não das
lesões e das dores das costas por este tipo de
intervenção é difícil de calcular, assim como é
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 22
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
difícil avaliar os ganhos em saúde que
saúde escolar de modo a serem efectuadas
resultam de qualquer programa de educação
pelo técnico de saúde especializado – o
para a saúde (Bennett & Murphy, 1999). Tal
fisioterapeuta. Além da medida atrás proposta
só poderá ser concretizado com a replicação
julgamos
destas intervenções em maior escala e de
implementadas as seguintes medidas:
estudos de base populacional desenhados
- As crianças já sensibilizadas deveriam ter
para tal fim. Como referem Bennet e Murphy
algum acompanhamento e controlo ocasional
(Bennett & Murphy, 1999), relativamente aos
e sem aviso prévio, através da pesagem da
programas de educação e promoção da saúde
mochila e avaliação da colocação da mochila
“…quaisquer benefícios para a saúde em geral
nas costas.
só surgem alguns anos ou mesmo décadas
- Avaliação da necessidade de desenvolver
depois da mudança comportamental. Além
acções de sensibilização no grupo etário de
disso, as mudanças no comportamento da
maior risco que corresponde às crianças de
população
10 a 12 anos.
geral
são
frequentemente
que
deveriam
ser
ainda
cumulativas e difíceis de atribuir a uma
- Promoção da realização do concurso de
intervenção em particular.” (página 171).
composição, de desenho e de jogos por etapas
Torna-se,
por
isso,
importante
inter-escolares.
implementar abordagens a vários níveis (ESPS,
Estas
medidas
de
permitiriam
intervenções
o
2001; Redman, 2003). O envolvimento directo
desenvolvimento
dos encarregados de educação surge como
abrangentes, mais motivadoras para os
um dos aspectos essenciais, pois estes terão
alunos,
um papel preponderante sobre a formação
comportamentos mais saudáveis. Poderiam
das atitudes e comportamentos das crianças
eventualmente serem facilitadoras de novas
desta faixa etária. Julgamos que o momento
modas
comportamentais
mais oportuno para envolver os pais nesta
escolha
e
questão seria antes do início da escolaridade
passariam por critérios mais funcionais e a
formal. Um inquérito e um folheto informativo
adopção de boas posturas faria parte dos
entregue em mão, no momento da inscrição
automatismos comportamentais.
estimuladoras
de
mais
adopção
pelas
manuseamento
das
quais
de
a
mochilas
da criança na Escola, ou enquanto esperam
pela vacinação da criança no Centro de Saúde,
antes de matricular na Escola, poderiam
servir,
numa
primeira
fase,
para
a
Agradecimentos
consciencialização e avaliação dos níveis de
Os autores agradecem a colaboração
conhecimento dos pais e identificação das
dos docentes e a participação dos estudantes
necessidades de intervenção. Intervenções ao
nas actividades desenvolvidas.
nível de aconselhamento dos pais poderiam
Apresentam ainda um agradecimento
ser articuladas no âmbito das equipas de
especial à Dra. Clarisse Bento, médica de
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 23
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
saúde pública e Coordenadora dos Serviços de
Saúde Escolar da Sub-Região de Saúde de
Leiria pela sua prestimosa colaboração na
revisão do trabalho.
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Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 25
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
ANEXO 1
Ficha de Aferição de Conhecimentos
- Posturas Ficha de Revisão
1- Como se chamam os ossos que formam a nossa coluna vertebral?
a) Vértebras
b) Rádio
c) Fémur
d) Tíbia
Diz se são falsas ou verdadeiras as seguintes afirmações.
Verdadeiro
Falso
2- Não se deve estar muito tempo na mesma posição.
3- Devemos carregar todo o peso de um lado.
4- A mochila deve ser colocada apenas sobre um ombro.
5- As alças da mochila devem ser almofadadas
6- A mochila pesada faz mal às costas.
7- Não faz mal transportar a mochila solta.
8- O exercício físico faz bem à saúde.
Nome__________________________________
Arquivos de Fisioterapia
Data:_________
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 26
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
ANEXO 2
Procedimentos e Regulamentos do Jogo por Etapas
O jogo por etapas é composto por dois níveis e decorre em quatro etapas. Vence a equipa que
alcançar o maior número de pontos.
O jogo por etapas obedece aos seguintes regulamentos.
Nível 1 (1º e 2º ano)
Os jogos por etapas “Nível 1” constituem o único momento de avaliação para este grupo. O
desenvolvimento heterogéneo das competências cognitivas ao nível da escrita e literacia torna
inadequado a aplicação de questionário e dos concursos de composição para os alunos do 1º e 2º
ano do 1º ciclo de escolaridade. Os jogos incluem várias etapas.
Etapa 1
Objectivo: identificar posturas correctas e incorrectas.
Descrição: são apresentadas 6 imagens com posturas correctas e incorrectas (imagens
semelhantes às utilizadas na sessão de sensibilização).
Pontuação e tempo: 1 ponto por cada resposta certa; pontuação máxima 6; tempo limite -2
minutos.
Etapa 2
Objectivo: escolher a melhor mochila.
Descrição: são expostas 15 mochilas aos alunos. O grupo deve escolher aquela que no seu
entender é a melhor. A mochila é apresentada ao juiz de mesa que a avalia do ponto de vista
ergonómico e funcional: 1) ser leve; 2) ter tamanho ajustado ao aluno; 3) ter alças largas e
almofadadas; 4) ter alças ajustáveis; 5) ter almofadamento na parte da mochila que contacta as
costas; 6) ter mais que um compartimento que permita arrumar o material escolar.
Pontuação e tempo: cada característica positiva vale 1 ponto; pontuação máxima 6; tempo limite 4 minutos.
Etapa 3
Objectivo: colocar o material escolar na mochila.
Descrição: é apresentado ao grupo diverso material escolar que deve ser colocado dentro da
mochila. Depois de arrumado o material, a mochila é apresentada ao juiz de mesa que avalia o
modo como o material foi arrumado e como foram utilizados os compartimentos da mochila.
Pontuação e tempo: a arrumação vale um ponto por boa ordem de arrumação e 1 ponto por boa
utilização dos compartimentos; a má organização era penalizada em 0,5 ponto; pontuação máxima
2 pontos; tempo limite - 4 minutos.
Etapa 4
Objectivo: transportar a mochila até à sala de aula.
Descrição: o aluno transporta a mochila com o material ao longo do circuito estabelecido (corredor
e escadaria), sendo avaliado: 1) o peso e a colocação da mochila nas costas; 2) a alteração da
postura ao nível dos ombros, da coluna cervical, dorsal e lombar; e 3) o grau de deslocação do
centro de gravidade do aluno.
Pontuação e tempo: os pontos são atribuídos em função das características da mochila e da
postura do aluno que a transporta; pontuação máxima - 6 pontos; tempo limite - 5 minutos.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 27
Fisioterapia na Saúde Escolar - dos modelos às práticas
Nível 2 (3º e 4º ano)
Etapa 1
Objectivo: comparar as imagens em termos de postura correcta.
Descrição: são apresentadas duas imagens representando pessoas sentadas a uma secretária.
Pede-se que seja analisado o posicionamento 1) da cabeça; 2) do tronco; 3) dos braços; 4) das
coxas; 5) dos pés; e 6) o alinhamento da coluna.
Pontuação e tempo: cada aspecto identificado vale um ponto; pontuação máxima - 6 pontos; tempo
limite - 3 minutos.
Etapa 2
Objectivo: escolher a melhor mochila.
Descrição: são expostas 15 mochilas aos alunos. O grupo deve escolher aquela que no seu
entender é a melhor. A mochila é apresentada ao juiz de mesa que a avalia do ponto de vista
ergonómico e funcional: 1) ser leve; 2) ter tamanho ajustado ao aluno; 3) ter alças largas e
almofadadas; 4) ter alças ajustáveis; 5) ter almofadamento na parte que contacta as costas; 6) ter
mais que um compartimento que permita arrumar o material escolar.
Pontuação e tempo: cada característica positiva vale 1 ponto; pontuação máxima 6; tempo limite 2 minutos.
Etapa 3
Objectivo: colocar o material escolar na mochila, segundo o horário escolar do dia sorteado.
Descrição: os grupos realizam um sorteio na véspera do jogo, para obter um número que
corresponde a um dos dias da semana de aula (de 2ª a 6ª feira), mantendo-se oculta, porém, a
utilidade desse número. É apresentado ao grupo diverso material escolar que deve ser colocado
dentro da mochila em função do dia de semana (indicado pelo número sorteado). Depois de
arrumado o material, a mochila é apresentada ao juiz de mesa que avalia o modo como o material
foi arrumado e como foram utilizados os compartimentos da mochila.
Pontuação e tempo: a arrumação vale um ponto por boa ordem de arrumação e 1 ponto por boa
utilização dos compartimentos; a falta ou excesso de material e a má organização é penalizada em
0,5 ponto; pontuação máxima 2 pontos; tempo limite - 5 minutos.
Etapa 4
Objectivo: transportar a mochila até à sala de aula.
Descrição: o aluno transporta a mochila com o material ao longo do circuito estabelecido (corredor
e escadaria), sendo avaliado 1) o peso e a colocação da mochila nas costas; 2) a alteração da
postura ao nível dos ombros, da coluna cervical, dorsal e lombar; e 3) o grau de deslocação do
centro de gravidade do aluno.
Pontuação e tempo: os pontos são atribuídos em função das características da mochila e da
postura do aluno que a transportava; pontuação máxima - 6 pontos; tempo limite - 5 minutos.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 28
Uma História de Vida em Fisioterapia
Uma História de Vida em Fisioterapia
Nogueira, M.; Moreira, P.; Coutinho, I. M.
Autores
- Nogueira, Manuela
Fisioterapeuta
- Moreira, Paula
Fisioterapeuta
- Coutinho, Isabel Maria
Fisioterapeuta, Profª.
Coordenadora do Curso
Superior de Fisioterapia
da ESTeSL
RESUMO
As histórias de vida são um tipo de estudo de caso muito
utilizado nas ciências sociais. Têm como finalidade o registo da
história de vida para a compreensão de aspectos básicos do
comportamento humano. Procura reconstituir a carreira de sujeitos
dando relevo ao papel das organizações, acontecimentos marcantes
e indivíduos que tiveram nele influência significativa (Bogdan e Biklen,
1994, citado por Carmos e Ferreira, 1998).
Achámos relevante a realização deste estudo, visto o carácter
inovador da investigação de histórias de vida em fisioterapia.
Escolhemos fazer a história de vida de um fisioterapeuta que
tivesse ligação à Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa
(ESTeSL). A nossa escolha recaiu na Fisioterapeuta Olga Leão. O
nosso objectivo foi a recolha e registo do maior número de dados e
factos relacionados com o seu percurso profissional e de docência.
Identificamos várias limitações ao nosso estudo devido à sua
subjectividade, à subjectividade da análise dos dados, ao seu carácter
restritivo.
Palavras Chave: Histórias de Vida; Fisioterapia; Fisioterapeutas
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 29
Uma História de Vida em Fisioterapia
que corresponda a um sujeito realmente
Introdução
REVISÃO DA LITERATURA
singular (Munoz, 1992).
I - Histórias de vida
As histórias de vida, não são mais do
II - Fisioterapia
que um testemunho individual sobre um
A identidade de cada profissão é
determinado problema, sobre um determinado
construída com base na sua designação, na
grupo humano, uma função de primeira
família profissional a que pertence e na
magnitude
descrição
para
o
desenvolvimento
da
do
seu
perfil.
Deste
modo,
dimensão qualitativa das Ciências Sociais
Fisioterapia pode ser vista como a terapia
(Munoz, 1992).
(~terapia) física (fí~) pelo movimento (~sio~). A
A vida dos indivíduos é portadora de um
Fisioterapia pertence à carreira dos Técnicos
sentido que os ultrapassa. Interpretar uma
de Diagnóstico e Terapêutica possuindo como
história de vida é descobrir um grupo social ou
tal, objectivos de Diagnóstico, de Terapêutica,
mesmo uma sociedade. Cada indivíduo totaliza
de Prevenção e Promoção da Saúde e
a medição do seu contexto social, dado pelos
Investigação. Em relação ao perfil profissional
grupos restritos de pertença, os grupos como
torna-se necessário definir as competências e
a família, os grupos de trabalho, a vizinhança,
actividades realizadas pelo Fisioterapeuta.
etc.
As
Este tipo
de estudo
é o
relato
profissões
classificadas
no
existentes
que
respeita
ao
seu
autobiográfico, obtido pelo investigador através
características,
de entrevistas sucessivas, tendo por objectivo
funcionamento e organização.
mostrar o testemunho subjectivo de uma
são
às
suas
modo
de
Carr-Saunders e Wilson (Rodrigues,
pessoa. O investigador é somente o indutor da
2002),
narração, o seu transcritor e também o
permitiam distinguir as profissões do conjunto
encarregado de “retocar” o texto. Também é
das ocupações existentes. Uma profissão
responsável por sugerir ao entrevistado a
emerge quando um número definido de
necessidade de focar factos informativos
pessoas começa a praticar uma técnica
esquecidos por este.
assente sobre uma formação especializada,
O uso de relatos de vida é uma
estratégia indispensável à obtenção de dados
identificaram
os
atributos
que
dando resposta a necessidades sociais.
Muitas
alterações
ocorreram
na
num trabalho qualitativo (que pretende estudar
Fisioterapia, enquanto carreira de Técnico de
não só estruturas como os processos), o
Diagnóstico e Terapêutica, encontrando-se
principal
ultimamente em vigor o Decreto-Lei n.º
objectivo
na
obtenção
destas
narrativas não é normalmente a elaboração de
uma história de vida. Esta possibilidade
utilizamo-la somente no caso de dispormos de
um relato biográfico excepcionalmente rico e
Arquivos de Fisioterapia
564/99.
Segundo o disposto no Decreto-Lei n.º
564/99,
de
21
de
Dezembro,
o
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 30
Uma História de Vida em Fisioterapia
Fisioterapeuta,
enquanto
Técnico
de
Diagnóstico e Terapêutica, "centra-se na
uma
crescente
complexidade
e
responsabilização das funções exercidas.
análise e avaliação do movimento e da postura,
Na área do diagnóstico, o fisioterapeuta
baseadas na estrutura e função do corpo,
desenvolve actividades de análise e avaliação
utilizando
e
do doente identificando as suas necessidades
base,
através dos exames subjectivo e objectivo, de
modalidades
terapêuticas
educativas
específicas
com
essencialmente, no movimento, nas terapias
que
manipulativas e em meios físicos e naturais,
musculares, sensitivos, de coordenação, de
com a finalidade de promoção da saúde e
postura, de equilíbrio, do foro funcional e do
prevenção da doença, da deficiência, de
foro respiratório, construindo posteriormente
incapacidade e da inadaptação e de tratar,
um diagnóstico das incapacidades físicas do
habilitar ou reabilitar indivíduos com disfunções
doente, tendo em conta a sua situação a nível
de natureza física, mental, de desenvolvimento
emocional, habitacional e sócio-económico.
fazem
parte
testes
articulares,
ou outras, incluindo a dor com o objectivo de
os ajudar a atingir a máxima funcionalidade e
qualidade de vida.”
Assim,
podemos
dizer
que
o
Fisioterapeuta é um educador das atitudes e
comportamentos
dos
doentes
e
seus
familiares.
Em 1901, pelo Diário do Governo de
26 de Dezembro, surgem dados concretos em
relação ao início de um conjunto de profissões
de diagnóstico e terapêutica com a «criação e
organização de um laboratório de análise
A função do Fisioterapeuta é exclusiva,
incluindo avaliação, diagnóstico, planeamento,
intervenção, reavaliação e prognóstico, em
contextos como os da promoção da saúde,
prevenção
III - Escola Superior de Tecnologia da Saúde
da
doença
e
incapacidade,
tratamento da doença, lesões ou disfunções e
reabilitação
de
indivíduos,
grupos
ou
comunidades.
Assim Portaria n.º 709/80, de 23 de
Setembro, veio reestruturar os centros de
formação de técnicos auxiliares dos serviços
complementares de diagnóstico e terapêutica.
Enquanto não forem criadas as escolas
técnicas dos serviços de saúde, é aos Centros
de Lisboa, Porto e Coimbra que cabe
O Decreto-Lei acima referido veio
proporcionar aos Técnicos de Diagnóstico e
Terapêutica autonomia profissional, funcional e
técnica, bem como uma hierarquia própria,
processando-se
clínica no Hospital Real de São José”.
a
evolução
na
cadeia
hierárquica pelas categorias de técnico de 2ª
classe, técnico de 1ª classe, técnico principal,
técnico especialista, técnico especialista de 1ª
classe e técnico director, acompanhada por
Arquivos de Fisioterapia
desenvolver a formação e aperfeiçoamento do
pessoal técnico auxiliar dos serviços de saúde.
Em 1982 são criadas as Escolas Técnicas dos
Serviços de Saúde de Lisboa, Porto e Coimbra,
pelo Decreto-Lei n.º 371/82, de 10 de
Setembro, que sucedem aos centros de
formação; que juntamente com a Escola de
Reabilitação do Alcoitão, formam uma rede de
escolas para formação e aperfeiçoamento. O
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 31
Uma História de Vida em Fisioterapia
modelo curricular dos cursos apresenta uma
99/2001, de 28 de Março, que as integrou
duração de três anos.
nos Institutos Politécnico da Saúde de Lisboa,
São então publicadas os planos de
estudo e as disciplinas e, em 6 de Julho de
Porto e Coimbra respectivamente, o qual
nunca chegou a ser implementado.
1986 é publicada a Portaria n.º 549, que
As ESTeS, como estabelecimentos de
regulamenta o acesso às escolas, na qual se
ensino superior politécnico, regem-se pelos
exige o 12º ano para o ingresso nos cursos.
princípios fundamentais definidos para este
Esta
curso
nível de ensino, através da simbiose entre o
Complementar de Ensino e Administração,
ensino e a investigação das tecnologias da
como curso de Pós-graduação, com uma
saúde, na missão ímpar de qualificação de
duração de um ano. Este curso funcionou até
recursos humanos da saúde, contribuindo
1993.
para a melhoria dos padrões de qualidade do
portaria
cria
também
o
E em 1993, através do Decreto-Lei n.º
415/93, de 23 de Dezembro, dá-se a
integração das Escolas Técnicas dos Serviços
ensino e eficácia na prestação de cuidados de
saúde à comunidade.
Após um século de vivências das
de Saúde (ETSS) no sistema educativo, ao nível
tecnologias
da
saúde
em
Portugal
e
do ensino superior politécnico, passando à
decorridas mais de duas décadas sobre a sua
actual designação como estabelecimentos de
criação, a Escola Superior de Tecnologia da
ensino superior – Escolas Superiores de
Saúde de Lisboa, no ano lectivo de 2001-
Tecnologia da Saúde (ESTeS) – com o estatuto
2002, foi dotada de nova sede em instalações
jurídico de escola politécnica pública não
próprias, numa das zonas mais modernas da
integrada. Consagrou também, no seu artigo
cidade de Lisboa, em pleno Parque das
9º, a possibilidade dos cursos anteriormente
Nações.
ministrado nestas escolas conferirem o grau
Enquanto entidade orgânica, detentora
de bacharel desde que os respectivos planos
de uma estrutura científica e pedagógica
de estudo correspondessem aos planos de
adequadas, rege-se pelos presentes Estatutos
estudo
(Despacho n.º 20 786/2004; 2ª série), que
dos
bacharelatos
Posteriormente
o
criados.
Decreto-Lei
nº.
lhe permitem pôr fim ao regime de instalação
280/97, de 15 de Outubro, vem dar nova
em que tem vivido desde 1993, ao mesmo
redacção ao diploma anterior, clarificando o
tempo que a dotam de um modelo de gestão
seu alcance e competência para a aplicação
democrático, eficiente e dinâmico, assente na
do processo.
participação efectiva de toda a comunidade
As ESTeS passaram a depender da
tutela conjunta dos Ministérios da Educação e
da Saúde, até passar, em 1 de Janeiro de
académica – estudantes, docentes e pessoal
não docente.
Actualmente o Curso Superior de
2001, para a tutela exclusiva do Ministério da
Fisioterapia
Educação,
superiores, com uma duração de três a quatro
através
Arquivos de Fisioterapia
do
Decreto-Lei
n.º
é
ministrado
nas
escolas
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 32
Uma História de Vida em Fisioterapia
anos lectivos. Conferem aos profissionais o
Sempre
que
achámos
necessário
grau académico de Bacharel (3 anos) ou o
utilizámos perguntas mais fechadas para
grau de Licenciado (4 anos).
esclarecer algum assunto menos claro.
Metodologia
IV -Caracterização do suporte áudio
O suporte áudio utilizado por nós foi o
O objectivo do estudo foi a elaboração de
uma história de vida de um fisioterapeuta, para
tal recolhemos e analisamos entrevistas e o
curriculum vitae.
I - Amostra
A amostra
gravador de cassetes, visto este ser o meio
mais
acessível,
de
fácil
transporte
e
manuseamento. Tivemos o cuidado de ter
material suplente no que diz respeito a
cassetes e pilhas, para eventuais anomalias, e
uma
também para o caso da duração das
fisioterapeuta, a Fisioterapeuta Olga Leão,
entrevistas ser superior ao tempo de duração
formada pelo centro de Preparação de
destas.
foi
constituída
por
Técnicos e Auxiliares dos serviços Clínicos em
Lisboa no ano de 1976. Exerceu funções de
fisioterapeuta no Hospital Curry Cabral (HCC)
de 1979 a 2003, ano em que se aposentou.
Foi também docente e monitora de estágio da
ESTeSL.
II - Técnicas e Instrumentos de Recolha de
Dados
A recolha de dados foi baseada em quatro
V - Procedimentos e tratamento dos dados
Após
a
recolha
das
entrevistas
procedemos à sua transcrição dando-lhe
legibilidade. Fizemos também a reunião e
ordenamento
da
narrativa
ficando
esta
organizada por temas (motivação para a
profissão, curso de fisioterapia, carreira como
fisioterapeuta,
formação,
coordenação
e
ligação à Escola). Dentro de cada tema
entrevistas, gravadas em suporte áudio, e no
tivemos o cuidado de relatar os factos
curriculum Vitae.
cronologicamente.
Tivemos a preocupação também em não
III - Caracterização das entrevistas
As entrevistas realizaram-se com um
adulterar o sentido da narrativa, apenas
intervalo de duas semanas, mais ou menos.
de todo este trabalho e da análise do
Optámos por entrevistas semi-directivas,
dando espaço ao entrevistado para relatar a
retocando alguns elementos do texto. Depois
curriculum construímos assim a história de
vida profissional da Terapeuta Olga Leão.
sua história, intervindo somente quando houve
necessidade de reencaminhar a narrativa para
os factos importantes para a investigação.
Conclusão
A Terapeuta Olga Leão, o nosso objecto
de estudo tem vasta experiência profissional. A
sua fase profissional activa acompanhou
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 33
Uma História de Vida em Fisioterapia
muitas mudanças na fisioterapia assim como
difícil. Assim trabalhou em vários centros no
na ESTeSL.
privado antes de integrar uma equipa no
A sua entrada no mundo da fisioterapia
sector de Fisioterapia do Hospital Curry
deu-se devido à experiência enriquecedora, que
Cabral, em 1979. A sua opinião sobre o sector
teve nas suas estadias em Londres, num
privado não é muito abonatória pois acha que
hospital, para intervencionar a sua filha que
se privilegia os números em detrimento da
tinha uma patologia congénita. Foi o contacto
qualidade.
com a humanização, a eficácia e a eficiência
O seu percurso profissional foi bastante
dos serviços de saúde em Inglaterra, assim
generalista,
reflectindo
a
diversidade
de
como o seu papel activo na recuperação da
intervenção no exercício da sua profissão.
sua filha entre as duas cirurgias, que a motivou
Apesar de tudo, defende que os profissionais
para uma carreira na saúde.
devem especializar-se, com a certeza do que é
Ao ingressar no curso de fisioterapia já
pretendido, após terem tido a experiência de
tinha uma vasta experiência profissional,
trabalhar em várias áreas da fisioterapia. A
adquirida no estrangeiro, como por exemplo no
sua procura de formação e informação não
secretariado,
sofreu qualquer tipo de preconceito, levando-a
como
figurinista
e
como
a buscar outras técnicas menos aceites pela
assistente de bordo.
Todas
as
profissões
que
exerceu
maioria dos fisioterapeutas mas, que poderiam
ser coadjuvantes de outras mais ortodoxas.
privilegiaram o contacto humano.
sempre
Sempre se regeu pelo princípio de que
exerceram um fascínio sobre ela, indo ao
saber não ocupa lugar e que, para executar
encontro
uma determinada técnica, tem que se ter
As
relações
da
sua
humanas
natureza
aberta
e
conhecimentos para tal. A disponibilidade em
comunicativa.
Essas experiências permitiram-lhe abrir
horizontes, moldando a sua forma de pensar e
de estar na vida. Esta forma de estar foi
transposta para a sua vida profissional,
reflectindo-se
numa
abertura
para
as
situações novas, numa visão organizativa, na
forma como se relaciona com os outros e gere
orientar os profissionais mais novos levou-a a
colaborar com a escola de Lisboa, a convite da
Dra. Edite Ribeiro. O seu grande dinamismo e
interesse pela profissão foram a razão do
convite, feito em 1983/1984, para integrar a
ETSSL como monitora de estágio e professora
de algumas disciplinas do curso de fisioterapia.
algumas situações de conflito que surjam,
Quando ingressou no curso de fisioterapia em
raramente
1974, a entidade formadora era o Centro de
radicalizando
a
sua
posição,
Preparação de Técnicos e Auxiliares dos
optando quase sempre pela via diplomática.
Desde
fisioterapia
que
acabou
o
sempre
teve
como
curso
de
objectivo
Serviços dos Hospitais Civis de Lisboa. Este
centro de formação foi percursor da ESTeSL.
ingressar numa equipa de profissionais em
A Fisioterapeuta Olga Leão, assim como
contexto hospitalar, o que sempre foi muito
outros elementos ligados às Escolas Técnicas
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 34
Uma História de Vida em Fisioterapia
dos Serviços de Saúde de Lisboa, Porto e
O
alargamento
do
horário
de
Coimbra, tiveram um papel preponderante, em
funcionamento do sector da fisioterapia foi
1984/1985, na evolução e consolidação do
também uma das medidas tomadas pela
ensino da fisioterapia nas respectivas escolas.
Fisioterapeuta
Na altura, a Escola de Reabilitação do Alcoitão
coordenadora. Atendendo aos bons resultados
era a única escola de reabilitação em Portugal,
desta
sendo a primeira oponente à formação de
alargamento dos quadro da fisioterapia. À
fisioterapeutas em outras escolas. Em 1985
posteriori esta medida implicou a ampliação do
foram ultrapassados as resistências numa
quadro da fisiatria, da terapia da fala e da
reunião no Porto, entre as quatro escolas e o
terapia ocupacional colmatando a pluralidade
Ministério da Saúde, onde assinaram um
das necessidades dos utentes que frequentam
protocolo no qual ficou estabelecido que
o serviço da parte da tarde. Foi mais um
haveria uma uniformização dos conteúdos
desafio que enfrentou com diplomacia e
programáticos das disciplinas do curso de
perseverança.
fisioterapia.
Olga
medida
Leão,
conseguiu,
enquanto
também
o
Com o objectivo de rentabilizar os
como
recursos materiais e humanos existentes no
coordenadora do sector da fisioterapia do HCC
sector da fisioterapia, optou por fomentar a
teve a oportunidade de demonstrar as suas
polivalência de cada departamento deste
capacidades organizativas e de gestão de
sector. Ao possibilitar ao doente realizar todos
recursos humanos. Com o apoio das direcções
os tratamentos no mesmo local, sem ter de se
e dos conselhos de administração do HCC,
deslocar de um departamento para o outro,
implementou algumas medidas que vieram
propiciou-lhe uma maior comodidade. Esta
revelar-se inovadoras para a altura. A sua
medida veio também facilitar o planeamento
preocupação
dos doentes e a gestão da lista de espera.
Ao
exercer
em
funções
proporcionar
aos
fisioterapeutas por si coordenados, uma
Devemos
salientar
a
importância
equidade de conhecimentos básicos para o
destas medidas para a gestão do sector da
exercício da profissão, de forma a eliminar as
fisioterapia do HCC. Muito embora tenham
discrepâncias de conhecimentos entre os
sido o alvo de alguma resistência na sua
técnicos, levo-a a promover formação interna
implementação, foram mais tarde adoptadas
para os mesmos. O seu cuidado foi o de
por outros serviços e instituições.
contemplar
com
formação
todos
os
Verificámos,
pela
história
de
vida
fisioterapeutas do sector, e para tal dividiu o
relatada pela Fisioterapeuta Olga Leão, que
grupo em dois, com horários desfasados de
muitas mudanças aconteceram durante este
forma a assegurar o serviço. Isto levou a uma
período de cerca de 30 anos, compreendidos
necessidade de adaptação dos formadores
entre a sua entrada para o curso e a sua
convidados, para ir ao encontro das exigências
aposentação.
do sector.
privilégio de viver e testemunhar a maior parte
Arquivos de Fisioterapia
Esta
fisioterapeuta
teve
o
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 35
Uma História de Vida em Fisioterapia
das modificações na carreira, no ensino e no
forma a poder ajudar na realização de futuros
exercício da profissão de Fisioterapeuta.
trabalhos.
Poirier (1999) conta uma história passada
Considerações Finais
Por ser uma abordagem nunca feita em
investigação em Fisioterapia, e por se verificar
a necessidade de registar as histórias de vida
dos fisioterapeutas que já não exercem, ou que
estão a abandonar o exercício da profissão,
este trabalho de investigação tornou-se para
nós um desafio.
Desafio que aceitamos e que nos fez
contactar
com
conhecimentos,
um
mundo
interessante
e
novo
de
que
nos
enriqueceu à medida que avançámos.
Temos consciência de que ainda não
dominamos completamente o método das
histórias
de
vida,
mas
pensamos
ter
conseguido atingir o objectivo a que nos
propusemos.
com Lazarsfeld. Durante uma aula, em França,
sobre as técnicas de análise de contudo
aplicadas a diversas recolhas de textos, entre
os quais as histórias de vida, alguém lhe pediu
esclarecimentos
sobre
certos
problemas
práticos. Ele respondeu, sorrindo: “Diz-se e
escreve-se muita coisa, mas sobretudo faz-se
como se pode.”
Desde o início da nossa investigação
optámos por concentrarmo-nos somente no
percurso profissional do nosso objecto de
estudo, no entanto ao longo das entrevistas, e
da sua transcrição, surgiram algumas dúvidas.
Terá sido correcto diferenciar artificialmente
uma parte de uma existência global? Não
teremos no final uma visão muito parcial dos
factos? Concluímos que a globalidade que
Ao longo da realização deste trabalho
deparámo-nos
espontaneamente e, encadeada com a história
na
profissional. Assim não foi possível de todo
dificuldades,
ignorar alguns factos de âmbito pessoal, por
juntamente com a nossa falta de experiência,
terem sido bastante importantes e cruciais
revestiram
para o desenrolar da actividade profissional.
bibliografia
alguns
pelos
consultada.
a
paradoxos
escolhemos seccionar, começou a despontar
já
referenciadas
com
investigadores
Estas
investigação
de
grande
dificuldade de execução.
Durante as entrevistas optámos por deixar
Achamos importante, apesar de serem em
livre a narração do nosso entrevistado mas
grande número, enumerar algumas das
verificámos, logo de início que, o nosso
dificuldades com que nos deparámos durante
entrevistado
a execução deste trabalho. Em geral existe
orientadoras. Para além disso tornou-se
uma grande relutância em partilhar essas
necessário posteriormente a realização de
dificuldades, dissimulando-as, conservando só
algumas questões mais específicas para
o aspecto final, polido do trabalho. Optámos
clarificar algumas situações. Assim, optámos
por partilhar todos os aspectos da nossa
por entrevistas semi-directivas, dando espaço
investigação, os bons e os menos bons, de
para as anedotas e algumas divagações do
esperava
algumas
questões
narrador, permitindo-lhe narrar-se no seu
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 36
Uma História de Vida em Fisioterapia
próprio
ritmo,
mas
colocando
também
algumas questões para o impedir de continuar
em divagações estéreis.
para
o
discurso, etc.
Ao escolher como suporte para gravação
A repetição das entrevistas é condição
necessária
transcrito, a falta de contextualização do
aprofundamento
da
informação e seu controle.
das entrevistas o gravador de cassetes, por
ser o meio mais acessível e de fácil utilização,
posteriormente
na
fase
da
audição,
A recolha dos depoimentos está cheia de
verificámos que a qualidade da gravação não
ratoeiras para o entrevistador com pouca
era a melhor, dificultando a percepção do
experiência. Sendo a entrevista um encontro
discurso. O próprio manuseamento da fita pa-
de pessoas que na maioria das vezes,
ra audição contribuiu para a sua deterioração.
assumem papeis pouco precisos (Poirier,
A transcrição das entrevistas, por si só,
Valladon e Raybaut, 1999). Devido à evolução
não dá forma ao texto escrito de forma a ser
da relação entrevistador – entrevistado, ao
perceptível. Uma leitura seguida revelou um
longo das entrevistas, aconteceu por vezes
grande número de ”pois”, “portanto”, “bom”,
termos dificuldade em manter o nosso papel
“não é” e outros termos parasitas que
de entrevistador, caindo no erro de intervir na
caracterizam o discurso de qualquer pessoa,
narrativa dando a nossa opinião.
mesmo culta, que se exprima oralmente, sem
Deparámo-nos com uma situação, que à
prestar uma atenção especial às suas
priori seria favorável, que foi a grande
palavras. Tivemos que realizar o afinamento
facilidade de conversação e de narração da
das entrevistas de forma a dar legibilidade ao
nossa entrevistada, o que levou as nossas
discurso escrito.
entrevistas
a prolongarem-se no
tempo,
Relativamente à reunião e ordenamento da
permitindo muitas divagações, com conteúdos
narrativa as dificuldade encontradas foram
muito dispersos. Posteriormente, aquando da
minimizadas pelo facto de termos optado pela
transcrição, a dificuldade em passar da
transcrição das entrevistas, o que nos deu
oralidade à escrita foi uma realidade com a
uma visão mais abrangente do conteúdo das
qual perdemos muito tempo.
narrativas. A dispersão dos assuntos, a
No final da recolha deparámo-nos com a
quantidade
de
informação
seu
factores
que
encadeamento
entrevistas.
dificultaram a reunião e ordenamento da
opção
de
transcrever
todas
as
os
o
dificuldade em transcrever e analisar as
A
foram
e
narrativa.
entrevistas consumiu-nos muito do nosso
Na apresentação definitiva da história de
tempo. Deparámo-nos com situações em que
vida surgiu também a questão da composição
a transcrição não reflectia exactamente a
do texto definitivo na primeira pessoa ou na
oralidade, ou por dificuldade na pontuação, ou
terceira pessoa do singular. Optámos pela
por dificuldade em dar emoção ao discurso
primeira hipótese para colocar no corpo do
trabalho, embora também tivéssemos redigido
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 37
Uma História de Vida em Fisioterapia
uma história na terceira pessoa, que nos
terapêutica. Pois é uma forma de dar uma
ajudou a orientar a construção da primeira.
visão pessoal da profissão, e também uma
É frequente que a apresentação do texto
forma de construir a história viva de uma
se faça na primeira pessoa. Trata-se de um
profissão, ou conjunto de profissões. As
modo de escrever que aproxima o leitor da
histórias de vida individuais, para além de
fidelidade e da subjectividade da narrativa,
serem
onde o investigador se apaga diante da
memórias pessoais são também a construção
narrativa deixando lugar só para o narrador.
de uma visão mais concreta da dinâmica de
Por esta razão temos que ter precaução na
funcionamento
reprodução fiel da autobiografia falada. No
trajectória do grupo social ao qual pertencem
entanto esta apresentação não é obrigatória.
esses indivíduos.
uma
forma
e das
de
focalização
várias
etapas
das
da
Normalmente a utilização da terceira pessoa
Parece-nos pertinente sugerir a recolha e
do singular é feita com a finalidade de evitar a
reunião de mais relatos de vida, pois as
confusão entre o narrador e o autor (Poirier,
pessoas estão a aposentar-se, tendo algumas
Valladon e Raybaut, 1999).
já falecido, senão corremos o risco de saber a
Tivemos sempre, ao longo de todo o
processo de tratamento do material, o grande
cuidado em não desvirtuar nem deturpar o
sentido da narrativa.
Outro
obstáculo,
foi
a
escassez
de
bibliografia sobre este método que nos orientase de forma clara durante a investigação. A
legislação utilizada também não foi fácil de
reunir devido à quantidade de diplomas
específicos da Fisioterapia e da ESTeSL, assim
como
os
diplomas
mais
abrangentes;
conseguir encontrar os diplomas mais antigos
foi também uma tarefa difícil. Com toda a
certeza alguns diplomas terão escapado, mas
foi um ponto de partida, Esta compilação de
legislação poderá sempre vir a ser aumentada
e actualizada.
Após a conclusão deste estudo esperamos
suscitar a curiosidade de outros colegas,
desafiando-os a continuar a recolha de
testemunhos dos técnicos de diagnóstico e
Arquivos de Fisioterapia
nossa história somente através dos vários
diplomas publicados.
Bibliografia
- Carmos, H. Ferreira, M. M. (1998). Metodologia
da Investigação – Guia para Auto-Aprendizagem.
Lisboa: Universidade Moderna.
- Munoz, J. J. P. (1992): Colección “Cadernos
Metodológicos”, Nº 5 El método biográfico: El uso
de las historias de vida en ciencias sociales.
Madrid: CENTRO DE INVESTIGACIONES SOCIOLÓGICAS.
- Poirier, J.; Clapier-Valladon, S.; Raybaut, P. (1999):
Hstórias de Vida. Teoria e Prática (2ª Edição).
Oeiras: Celta Editora.
- Rodrigues, M. L. (2002): Sociologia das
Profissões 2ª Edição). Oeiras: Celta Editora.
- Diário da República; série I; n.º 220;
23/09/1980; Port. n.º 709/80
- Diário da República; série I; n.º 210;
10/09/1982; D.L. n.º 371/82
- Diário da República; série I; n.º 220;
24/09/1986; Port. n.º 549/86
- Dário da República; série I – A; n.º 298;
23/12/1993; D.L. n.º 415/93
- Diário da República; série I – A; n.º 239;
15/10/1997; D.L. n.º 280/97
- Diário da República; série I – A; n.º 295;
21/12/1999; D.L. n.º 564/99
- Diário da República; série I -A; n.º 74;
28/03/2001; D.L. n.º 99/2001
- Diário da República; série II; n.º 237;
08/10/2004;
- Despacho n.º 20 786/2004
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 38
Afasia: Um Problema de Comunicação
Afasia: Um Problema de Comunicação
Colaço, D.
RESUMO
A afasia afecta o indivíduo com dificuldades ao nível da
Autores
- Colaço, Dora
Terapeuta da Fala
linguagem mas também a inter-relação que este estabelece com os
seus parceiros de comunicação. Durante o processo de reabilitação,
todos os profissionais que interagem com o paciente afásico são,
portanto, responsáveis por lhe proporcionar uma comunicação eficaz.
A dúvida consiste na variedade de defeitos de linguagem que
estes pacientes apresentam. Na maioria dos casos é comum realçarse os problemas de “compreensão” ou de “expressão”. No entanto,
existem diversos tipos de afasia, dependendo da localização da lesão
cerebral, que serão descritos neste artigo segundo a classificação
actualmente aceite.
Este trabalho tem como objectivo a partilha de conhecimento
sobre o doente afásico do ponto de vista da Terapia da Fala,
permitindo uma melhor articulação e troca de informação entre
elementos
de
equipa,
facilitando
assim
uma
abordagem
multidisciplinar.
Palavras Chave: Afasia; Tipos de Afasia; Defeitos de Linguagem
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 39
Afasia: Um Problema de Comunicação
compreensão de material verbal, da leitura e
Introdução
A comunicação é uma actividade social,
da escrita (Chapey, 2008). Esta perturbação
rica e complexa, que envolve competências
exclui todas as perturbações associadas a
linguísticas,
défices motores e/ou sensoriais, deficiência
cognitivas
e
pragmáticas.
Relativamente às competências linguísticas
mental,
temos, então, a “linguagem”, que corresponde
demência (Leal, 2003).
perturbações
psiquiátricas
ou
a um sistema de sinais simbólicos utilizados
Tipos de Afasia
por uma pessoa para comunicar com outras.
Uma linguagem eficaz implica diversos
processos:
o
pensamentos
a
selecção,
desenvolvimento
serem
formulação
e
comunicados;
ordenação
Até há alguns anos pensava-se que as
dos
afasias resultavam exclusivamente de lesões
a
corticais. Estudos mais recentes revelam que
das
lesões subcorticais podem originar alterações
palavras; a aplicação das regras gramaticais; e
de
o início dos movimentos musculares para
subcorticais,
produzir discurso verbal (Hoeman, 1996). Na
2000). Considera-se, assim, a existência de
afasia,
dois grandes grupos de afasia: afasias típicas
muitos
destes
processos
estão
afectados. Por esta razão, o estudo da afasia
linguagem,
ou
denominadas
atípicas
afasias
(Castro-Caldas,
e afasias atípicas.
pode oferecer dados para uma melhor
As afasias típicas resultam de uma
compreensão do funcionamento cerebral da
lesão cortical e a etiologia é vascular. Podem
produção de linguagem.
ser classificadas em oito tipos diferentes:
A capacidade de linguagem é um
Afasia de Broca; Afasia de Wernicke; Afasia de
processo que envolve múltiplas estruturas do
condução; Afasia global; Afasia transcortical
hemisfério cerebral esquerdo (HE). No entanto,
motora; Afasia transcortical sensorial; Afasia
algumas capacidades linguísticas podem ser
transcortical mista; e Afasia anómica.
afectadas por lesões do hemisfério cerebral
Esta classificação é feita de acordo
direito (HD) – prosódia, compreensão de
com quatro parâmetros de avaliação: a
humor e provérbios, etc. –, o que pressupõe
capacidade de nomeação, a fluência do
que o seu controlo é efectuado por áreas aí
discurso, a capacidade de compreensão
localizadas. Uma lesão cerebral localizada em
auditiva de material verbal e a capacidade de
estruturas que se julgam estarem envolvidas
repetição. No quadro 1 estão enumerados os
no processamento da linguagem pode, então,
diferentes tipos de afasia e os sinais clínicos
provocar afasia (Castro-Caldas, 2000).
fundamentais.
Estes quadros repetem-se com alguma
Afasia
Afasia pode ser definida como uma
alteração adquirida da linguagem, de causa
neurológica,
caracterizada
pelo
comprometimento linguístico da produção e
Arquivos de Fisioterapia
regularidade na população de doentes que
sofreram
acidentes
vasculares
cerebrais
(AVC), reflectindo a perda da função cerebral
nas áreas irrigadas pelas diferentes artérias.
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 40
Afasia: Um Problema de Comunicação
NOMEAÇÃO
FLUÊNCIA
COMPREENSÃO
REPETIÇÃO
TIPO DE AFASIA
N
Anómica
P
Condução
N
Transcortical Sensorial
P
Wernicke
N
Transcortical Motora
P
Broca
N
Transcortical Mista
P
Global
N
Fluente
P
P
N
Não fluente
P
Legenda: P – Perturbado N – Normal
Quadro 1. Classificação dos quadros de afasia (Castro-Caldas, 2000).
Desta forma, importa fazer uma breve
entanto, será mais correcto falar-se em
caracterização sobre cada um dos quadros de
“incapacidade
afasia.
algumas das suas regras” (Castro-Caldas,
A afasia de Broca corresponde ao
quadro clínico de afasia cuja descrição é mais
Nestes
apresentam
caracterizada
casos,
uma
os
afasia
essencialmente
indivíduos
não
por
fluente,
uma
redução do débito verbal, levando ao uso
exclusivo de palavras isoladas, na maioria das
vezes substantivos, e em alguns casos, a
produção de uma única palavra ou sílaba,
utilizada em diferentes contextos e com
diferentes entoações (Habib, 2000), a que se
Frequentemente, esta redução incide
essencialmente na flexão dos verbos, no uso
palavras
discurso
gramaticais
indivíduos compreende as relações sintácticas
produzidas pelos outros.
A dificuldade em atribuir o nome
correcto a cada objecto encontra-se alterada
e pode ir desde uma incapacidade completa a
uma redução
ligeira na capacidade
evocação.
Estes
dificuldade
em
doentes
encontrar
de
apresentam
a
posição
articulatória correcta durante a produção
verbal, provocando erros e distorções (Leal,
2003).
(pronomes,
Broca):
TF (apontando para a imagem de uma
cadeira): Isto é uma…
preposições, etc.), por isso há autores que
Doente: Panela.
falam em agramatismo (Habib, 2000). No
TF: É uma cadeira.
1
no
Exemplo 1 (paciente com afasia de
chama estereótipo verbal1.
de
introduzir
2000), visto que a grande maioria destes
Afasia de Broca
antiga.
de
A designação deste processo foi iniciada por Paul
Doente: Uma cadela.
Broca que descreveu, em 1861, um caso de um
De forma geral, a compreensão de
homem, doente Leborgne, cujo estereótipo verbal era
material verbal simples e discurso coloquial
a produção “tan”. Daí surgiu a expressão, ainda
utilizada, “Ele está ‘tan-tan’.”.
Arquivos de Fisioterapia
encontra-se bem preservada.
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 41
Afasia: Um Problema de Comunicação
Em muitos casos, o discurso apresenta
uma
Afasia de Wernicke
estrutura
sintáctica
correcta
mas
De forma inversa, a afasia de Wernicke
desprovido de conteúdo semântico relativo ao
caracteriza-se por graves perturbações da
contexto, veja-se o seguinte exemplo do
compreensão, ao passo que a fluência do
discurso de uma paciente com afasia de
discurso é normal. Esta produção verbal é
Wernicke passado em contexto hospitalar.
marcada por certas alterações, designadas
Exemplo 2:
por parafasias. Quando a alteração é tão
Doente: Pode dar-me o casaco que
grande que torna a palavra ininteligível e, na
está ali? (apontando para a mala da
maioria dos casos são palavras que não têm
terapeuta)
nenhuma semelhança com a palavra-alvo
TF: Não é um casaco, é uma mala.
falamos em neologismos. Noutras ocasiões, o
Doente: Pois é, é a mala da do 1.º dir.
doente fixa-se numa determinada palavra
Doente: Que raios, tudo fechado.
produzida pelo próprio e, posteriormente, tem
TF: Quer que puxe a cortina?
dificuldade
Doente: Para mim tanto faz, com
em
abandonar
o
padrão
articulatório que o faz produzir essa palavra,
bocejo ou sem bocejo, tanto me dá.
ou seja, produz constantemente a palavra que
ficou como que “activada” no cérebro. Este tipo
de
perturbação
verbal
oral
denomina-se
perseveração verbal.
Relativamente
à
compreensão,
Hoeman (1996) refere que a compreensão de
ordens axiais, como “levante-se” ou “volte-se”
Tanto as parafasias como o fenómeno
está muitas vezes mantida e as “ordens
de perseveração podem ocorrer em qualquer
relativas às extremidades, como ‘aponte para
tipo de afasia. Porém, nos indivíduos com
a porta’ não são compreendidas”. No entanto,
afasia
destas
é necessário verificar o contexto e as pistas
discurso,
gestuais que são fornecidas ao doente, assim
de
Wernicke,
o
conjunto
perturbações
torna
o
frequentemente,
ininteligível.
Quando
o
discurso é totalmente constituído por palavras
como a diferença da complexidade sintáctica
entre estes dois tipos de ordens.
incompreensíveis, falamos em jargonafasia.
O
doente
produz
uma
grande
Afasia global
quantidade de discurso a débito normal mas
A afasia global evolve uma grande
com a sua estrutura morfológica muito
dificuldade de compreensão e produção de
alterada. O que se revela interessante é o
linguagem, correspondendo à forma mais
facto de, na maioria dos casos, o indivíduo ser
grave de afasia.
incapaz de reconhecer os seus erros, com a
Estes
doentes
praticamente
não
agravante de considerar que os não está a
produzem discurso e apresentam um grave
fazer (anosognosia).
défice de compreensão auditiva, apesar de
poderem
cumprir
ordens
devidamente
contextualizadas e muito frequentes.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 42
Afasia: Um Problema de Comunicação
Doente: Não, não consigo. Não vai, não
Afasia de condução
Tal como os indivíduos com afasia de
vai de repente, não vai.
Broca, estes doentes têm um bom nível de
TF: Frigideira.
compreensão de material verbal. A produção
Doente: Ah, pois, freligeira, freligeira.
do discurso é fluente, na qual estão presentes
Não, não é bem assim.
algumas formas sintácticas elementares. Ao
TF: É parecido. Frigideira.
contrário dos afásicos de Wernicke, os
Doente: Frigideira. Frigireira. Não, não
doentes
com
afasia
de
condução
não
vai bem.
cometem muitos erros na escolha das
palavras. Porém, cometem frequentemente
Este tipo de dificuldades na selecção da
erros de selecção e transposição de fonemas
palavra correcta pode ser aproximadamente
e sílabas (Goodglass, 1979), como se pode
comparado com o chamado fenómeno de
observar nos exemplos seguintes.
“palavra-debaixo-da-língua” que todos nós já
Exemplo 3: Perante a imagem de uma
experimentamos (Fromkin & Rodman, 1993).
Agora, pode-se imaginar a gravidade da
gilete:
situação
Doente: Ah isso… (sussurro).
se
raramente
se
conseguisse
encontrar a palavra pretendida.
TF: Diga mais alto.
Doente: Eu estou a ver se vejo. Estava a
Afasias transcorticais
ver se vinha, estava a ver se vinha pra…
A
característica
fundamental
das
Doente: Li-zete. Não! Li…
afasias transcorticais corresponde à boa
TF: É parecido.
capacidade
Doente: Pois, Lizete. Não!
Podem, em paralelo com as afasias de Broca,
Doente:
Fazer
a
barba.
Barbear.
Barbear. É…
de
repetição
de
linguagem.
apresentar um discurso não fluente, e por
isso,
motoras;
denominarem-se
se
Doente: Lá, lé… Ai não vai…
apresentarem
Doente: Gilete.
auditiva – semelhança com as afasias de
Doente: Gi-le-te. Gi-le-te. Não vinha…
Wernicke
–
defeitos
de
designam-se
compreensão
sensoriais.
Se
tiverem ambos os defeitos são chamadas de
Exemplo 4: Perante uma imagem de
uma frigideira:
Doente:
afasias transcorticais mistas (Castro-Caldas,
2000).
Um…
Pri,
soprassizeira.
Frizeira, frezeira. Não! Não é!
A
afasia
transcortical
motora
caracteriza-se por discurso espontâneo pouco
TF: É parecido.
fluente,
embora
Doente: É parecido, mas não é.
capacidades de articulação e a repetição
Doente: Frenizeira. Não, não é. Não vai.
estejam
TF: Quer que eu diga? Ou ainda
linguagem do indivíduo é estritamente normal,
mantidas.
a
compreensão,
Aparentemente,
as
a
consegue.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 43
Afasia: Um Problema de Comunicação
mas não a pode utilizar de forma espontânea
semelhanças com alguns dos tipos de afasias
(Habib, 2000).
típicas.
Na afasia transcortical sensorial ocorre
A utilidade da classificação das afasias
uma perturbação maciça da compreensão da
é
linguagem oral e escrita, ficando, porém,
organização e partilha de informação entre
conservada
profissionais, porque, na realidade, o que
a
repetição
(sem
valor
comunicativo espontâneo).
que se confina ao nível lexical da linguagem.
articulação
e
a
organização
sintáctica estejam intactas, estes doentes têm
uma dificuldade notável em produzir os
elementos
arquivo
e
de
de estratégias de intervenção adequadas a
A afasia anómica é uma perturbação
a
de
parece ser fundamental é o desenvolvimento
Afasia anómica
Embora
preferencialmente
lexicais
–
nomes
e
verbos
cada paciente e, através de investigação
científica perceber de que forma o estudo
desta patologia pode contribuir para o
aumento do conhecimento do processamento
da linguagem.
Bibliografia
principais. O conteúdo do seu discurso é,
- Castro-Caldas, A. (2000). A herança de
portanto, fluente embora vazio, com muitos
FranzJoseph Gall. Lisboa: McGraw-Hill
termos indefinidos – “isso”, “aquilo” “coiso”, etc.
- Chapey, R. (2008). Language intervention
– e circunlóquios que substituem os nomes
strategies in aphasia and related neurogenic
(Habib, 2000), por exemplo, poderão dizer
communication disorders, 5ª edição. Lippincott
“aquilo que serve para cortar” quando se
Williams & Wilkins
querem referir a uma faca.
- Fromkin, V. & Rodman, R. (1993). Introdução
Este tipo de afasia é o menos grave,
à linguagem. Coimbra: Livraria Almedina.
uma vez que os indivíduos apenas apresentam
-
maior dificuldade em encontrar os nomes
aspectos da clínica e da investigação. Análise
(perturbação presente em todos os tipos de
Psicológica, 4 (II), 465-480
afasia),
- Habib, M. (2000). Bases neurológicas dos
estando
poupadas
as
restantes
capacidades.
-
As afasias atípicas dividem-se em
cruzadas,
que
afectam
pessoas
dextras com lesão no HD, e em afasias
subcorticais, que resultam de lesões nas
estruturas subcorticais do HE (Habib, 2000).
As lesões subcorticais originam afasias com
características que não são passíveis de
agrupar,
embora
Arquivos de Fisioterapia
H.
(1979).
Neurolinguística:
comportamentos. Lisboa: Climepsi.
Afasias atípicas
afasias
Goodglass,
apresentem
Hoeman,
S.
(1996).
Enfermagem
de
reabilitação: processo e aplicação. Lisboa:
Lusociência.
- Leal, G. (2003). A influência da frequência de
uso das palavras na capacidade de nomeação
dos afásicos. Monografia final do curso de
licenciatura em Terapia da Fala. Alcoitão:
Escola Superior de Saúde do Alcoitão.
algumas
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 44
Afasia: Um Problema de Comunicação
Jakubovicz, R. & Cupello, R. (2005).
–
esforço
produtivo,
a
articulação,
o
prosódia,
as
Introdução à afasia: diagnóstico e terapia. Rio
comprimento
de Janeiro: Revinter.
características do léxico e as parafasias
frásico,
a
(Castro-Caldas, 2000).
Glossário
Capacidade de evocação – Produzir o nome
de algo que não se encontra no campo visual
do indivíduo. Pode corresponder à produção de
Jargonafasia – Todo o discurso é substituído
pela produção de neologismos (Castro-Caldas,
2000).
uma palavra durante o discurso espontâneo
Neologismo – Palavra muito alterada que não
ou através de exercícios de evocação como,
se assemelha a nenhuma palavra da língua do
por exemplo, produzir nomes de frutos
falante.
(evocação semântica) ou produzir nomes
Parafasia – Substituição da palavra-alvo por
começados
pela
letra
“p”
(evocação
outra palavra (Jakubovicz & Cupello, 2005).
fonológica).
Exemplos: Produzir “caneta” em vez de
Capacidade de nomeação – Produzir o nome
“lápis” (parafasia semântica) ou produzir
de
“cavinete” em vez de “canivete” (parafasia
um
objecto/imagem
através
da
fonológica).
confrontação visual.
Débito
verbal
–
Número
de
palavras
produzidas por unidade de tempo.
Estereótipo verbal – Substituição do discurso
por uma palavra ou por um neologismo. O
estereótipo substitui todo o discurso, com
diferentes entoações e acompanhado de
comunicação não-verbal (gestos, expressão
Perseveração verbal – Quando o paciente se
fixa numa determinada palavra produzida pelo
próprio e, posteriormente, tem dificuldade em
abandonar o padrão articulatório que o faz
produzir
essa
palavra,
ou
seja,
produz
constantemente a palavra que ficou como que
“activada” no cérebro.
facial), o que permite, muitas vezes, ao doente,
fazer-se entender.
Fluência do discurso – A fluência do discurso
depende de sete componentes: o débito, o
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 45
Há “saudinha”no ar...
Há “saudinha” no ar...
Francisco, L.,S.
RESUMO
«… estou todo partido…» Ora aqui está uma frase que os
Autores
- Francisco, Luís Santos
Consultor em turismo e
aviação; jurista
[email protected]
utilizadores de companhias aéreas de longa distância já não dizem,
nem sentem, antes pelo contrário.
O nível de qualidade, o luxo, a longa panóplia de serviços que as
companhias aéreas e aeroportos do médio e extremo Oriente
oferecem aos seus passageiros, é quase inimaginável.
Este artigo surgiu do interesse em conciliar toda essa
excelência com o facto de o seu autor ter, durante a viagem
inter-continental, sofrido uma pequena recaída de uma lombalgia ,
sequela de uma cirurgia lombar que o director desta
revista
acompanhou no pré e pós-operatório.
Creio que se compreende a preocupação que este episódio
gerou, uma vez que estava a 35 Kms de… altura e a voar para um
país completamente desconhecido.
Tudo se torna mais fácil quando à chegada, no terminal do
aeroporto está um… fisioterapeuta. Ah… pois faz!
Palavras Chave: Viagens aéreas; Fisioterapia; Oportunidades
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 46
Há “saudinha”no ar...
- «Que tal a viagem ao Porto?»
- «Correu tudo bem mas estou todo “partido”»
Ambas têm como objectivo, apenas, o elevado
padrão de qualidade e não a quantidade.
Estas companhias optaram pela Airbus, em
especial, pelas séries A330, A340 e A380, e
pelo Boing 777. Aviões com enorme espaço,
comodidade e alta tecnologia.
«… estou todo partido…» Ora aqui está
uma frase que os utilizadores de companhias
aéreas Long Haul (longa distância) já não
dizem, nem sentem, antes pelo contrário.
Mas, mesmo com todos os serviços que vos
vão deixar “de água na boca”, como puderam
ler no editorial, os Fisioterapeutas são
absolutamente fundamentais!
Em pleno voo
Enquanto na EU as companhias aéreas
seguem um modelo de Low Cost, ou seja, de
baixo custo porque se tratam de voos curtos,
de 2h a 2h30, as companhias que voam para
fora da Europa têm optado por aquilo a que
apelido de Healthy Quality.
Esta nova tendência verifica-se bastante
no Médio e Extremo Oriente. Companhias
aéreas como a Cathay Pacific, Singapore
Airlines, Malaysia Airlines, Thai, Emirates e
Qatar Airways preocupam-se cada vez mais
com a comodidade e saúde dos seus
passageiros.
Não podendo falar de todas, falarei da
Emirates e Qatar Airways, até porque tive a
oportunidade de viajar nelas há pouco tempo.
Estes aviões estão orientados para o
luxo, para uma forma sofisticada e saudável de
viajar: camarotes individuais com duche (em
1ª classe), espaçosas cadeiras que se
transformam em confortáveis camas, bares,
restaurantes, ginásios…
Possuem ainda closets particulares
para guardar os pertences e salas de reunião.
As viagens longas desgastam e entediam os
passageiros. Para que isso não aconteça a
bordo de um avião da Emirates ou Qatar
Airways, existe uma variedade de serviços de
alta qualidade no sector do entretenimento,
muito espaço para se esticar e ficar
confortável e, até, poltronas com massagem.
Poltronas reclináveis mais espaçosas e
confortáveis, que se transformam em camas
dignas desta denominação.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 47
Há “saudinha”no ar...
No lugar de simples cadeiras, a
Emirates disponibiliza um lounge cinco estrelas
Área de lazer sofisticada, com um
lounge e um bar decorado com sofás e
iluminação especial.
Luxo em todos os detalhes, desde o
tecido usado nas poltronas até o tamanho do
LCD individual de cristal líquido e enorme
listagem de filmes e programas.
Além disso, o ambiente é adequado para
transição de fusos horários, uma vez que
conta com um sistema de iluminação que
simula a hora no local de destino.
- "Emirates Terminal 3" - com espaços
individuais para que os seus clientes possam
relaxar e descansar.
Os espaços são variados, para
trabalhar, ler ou, até, meditar.
Espaços inspirados em temas árabes e
asiáticos, com água e plantas que reforçam o
sentimento de harmonia e bem-estar.
Sumptuosas instalações, dotadas de SPA Timeless SPA - com diversos terapeutas,
Terminais de aeroporto / Lounges
Mas não é só em pleno voo que se
verifica a comodidade e qualidade destas
companhias aéreas. Os lounges dos
aeroportos são autênticos locais de luxo e
saúde.
São espaços que, só de per si,
proporcionam grande relax e descanso, com
uma espectacular envolvente como atestam
algumas das fotos do terminal do Dubai.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 48
Há “saudinha”no ar...
oferece tratamentos de beleza, massagens
terapêuticas, num calmante e tranquilo
ambiente.
Dois jardins Zen fazem parte do design
exclusivo de criar um oásis de calma dentro do
ambiente movimentado de um aeroporto
internacional.
Todo este bem-estar, descanso e
qualidade só funciona porque as companhias
aéreas dispõem dos equipamentos e, muito
importante, dos profissionais certos.
Como não podia deixar de ser, em todos estes
lounges, estão ao dispor dos passageiros… os
Fisioterapeutas!
O terminal Premium da Qatar Airways
em Doha tem, para além do que é habitual,
jacuzzi, chuveiros, quartos com 2 camas,
vários tipos de massagens, refeições
completas, jogos de playstation e muitos
outros...
de
grande
qualidade
e...
absolutamente grátis (excepto as massagens).
Até agora estive a falar-vos de
companhias de topo que oferecem este tipo
de serviços aos seus clientes mas um pouco
pelas grandes capitais vai-se observando um
cuidado e preocupação com os passageiros,
embora com qualidade inferior.
Nos EUA, a empresa “Airport SPA” está
a instalar áreas em diversos aeroportos para
proporcionar aos passageiros diversos
serviços de saúde e relax.
Boas viagens!
Agradecimentos:
Imagens amavelmente cedidas pelas companhias aéreas Emirates www.emirates.com e
Qatar Airways www.qatarairways.com
Nota importante:
Todas as imagens são provenientes do interior
dos diversos aviões da Emirates e da Qatar
Airways, e dos lounges dos terminais das
companhias aéreas mencionadas: o "Emirates
Terminal 3", no Dubai e o “Premium Terminal”,
em Doha.
Arquivos de Fisioterapia
Volume 1, nº 4, Ano 2008, Página 49
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Arquivos de Fisioterapia Volume 1, Número 4