veril” e “as rosas que abrem à Primavera”, “desenrolaram as suas melodias”, “a orla da floresta” “que o Inverno se dispa do seu frio”, “o emaranhado das árvores”, “as florestas”, “as cansadas planuras”, “o jardim viçoso”, “a trepadeira”, “as azinheiras”, “as ramagens mais altaneiras da macieira”, “os túmidos frutos”, “a semente que volteia”, “as inesperadas águas que surgem das fragas”, “o céu azul longínquo”, “as neblinas e imprecisões”, “quando o sol se obscurece”, “que o olor se mantenha pelas veredas”, “a terra envergara a sua túnica”. Todo um longo capítulo seria necessário para pôr em evidência todo esse universo lexical e verbal que faz apelo à Natureza, procurar delimitar os respectivos campos semânticos, proceder à tipologia das metáforas vegetais ou “naturais” utilizadas, do tipo “cansadas planuras”, circunscrever as tipologias linguísticas associadas à Natureza em termos de percepção sensorial: percepção visual (“as ramagens mais altaneiras”, “o céu azul longínquo”, túmidos frutos ); auditiva (“desenrolaram as suas melodias”, “o som da água primaveril”); olfactiva (“que o olor se mantenha pelas veredas”); térmica (“que o Inverno se dispa do frio”); proxémicovisual (“a orla da floresta”) ou ainda na fronteira da sensação visual e gustativa em “túmidos frutos”. Estamos perante todo um leque de valências que poderia ajudar a melhor vislumbrar a poesia oculta do texto a que acima me referia e a procurar compreender, por outro lado, quanto a Natureza é, para António Salvado, ao mesmo tempo intérprete da sua interioridade, cúmplice e confidente, em suma quanto a Natureza é, talvez e sobretudo, um interlocutor privilegiado, o que o próprio poeta explicita quando demanda as florestas ou quando por elas pergunta (“Elegia fúnebre”) G * Edição Estudos Castelo Branco, 2005. 108 “O Canto das Sereias” de Odette Branco Daniel Lacerda erá difícil encontrar uma filiação literária a este romance* nas épocas mais próximas e teremos de regressar ao background movimentado e trágico da obra de Camilo Castelo Branco para encontrarmos um universo humano tão marcado pela violência física e sobretudo por uma mentalidade alienada à traficância dos laços de sangue. Embora de intriga datada entre meados dos anos 60 até ao dealbar deste séc. XXI, os vínculos sociais que a gerem, dependente das ambições de notabilidade do clã provinciano dos Rosmaninho, explicam-se mal pelo recurso a atavismos de aldeia, pela permanência do sobrenatural das casas assombradas, almas errantes e locais de expiação. Este mecanismo central que faz mover a intriga tem herança num fixismo metafísico sob o qual se erguem personagens duma só face, ou bem os mais angélicos, ou bem manipuladores diabólicos, num esquema simplista que o desenvolvimento da compreensão da psicologia humana havia arredado da literatura (pelo menos desde o psicologismo que tanto agitou os presencistas). O mundo que Odette Branco recria neste romance, para lá da presença do sobrenatural, choca-nos pelos seus excessos, que seriam mais adequados ao universo de transposição em excesso da banda desenhada. Todavia, hoje, os géneros literários e expressivos tendem a interferir-se. Vejamos o entrecho deste Canto das Sereias: o chefe da família Rosmaninho, Sebastião, tem duas filhas, Carlota e Catarina. Esta seduz, por uma noite, o namorado da irmã ficando prenhe. Rodrigo, o pretendente, morre num acidente de cavalo provocado pelo seu rival, Tomás. Para evitar o escândalo, Sebastião faz-lhe S oferta do solar dos Rosmaninho e da mão de Catarina se ele aceitar a paternidade que a filha desflorada encobre. Interesseiro, Tomás aceita e esquece Carlota. Catarina dá à luz duas gémeas, Ângela e Flor, vivendo martirizadas pelo mastronço Tomás, um incapaz ambicioso, refugiandose a mãe nos antidepressores. Por volta dos 15 anos, Ângela é violada pelo padrasto. Apercebendo-se disso, Catarina desfecha a pistola contra o marido agressor e suicidase a seguir. As duas meninas são levadas para Paris pela tia Carlota, que reivindica para elas o solar, opondo-se à negociata que o irmão Luís empreendia com o pai, Sebastião. Carlota, uma boa alma, triunfa com restaurantes em Paris e decide fazer-se passar por mãe da criança (Théo), que cresceu no ventre de Ângela. Esta publica com sucesso um livro e aprende as regras do vedetismo people, cuidando da aparência imagética. Revigorada pelo triunfo, vem a Portugal fechar o negócio do solar com um estranho, esquivando as intenções dos tios e do avô. A este LATITUDES n° 27 - septembre 2006 descobre-lhe ainda um filho ilegítimo, Simão, nascido duma criada, de generosidade mal retribuída. A coroar o sucesso dessa viagem de reparação, numa praia minhota, Ângela encontra Pedro, um amigo de infância, e ambos escutam vindo do mar longínquo o canto embalador das sereias que lhes incendeia a interrompida afeição. Três crimes, duas violações, três nascimentos de paternidade recusada ou transferida, tal é o balanço da estabilidade regressiva do clã patriarcal dos Rosmaninho. Todavia, a ruptura com a imoralidade não parece assegurada, pois a cândida Carlota, que operou a reviravolta expatriando-se para Paris, assentou o seu gesto solidário em idêntica falsidade ao atribuir-se a maternidade do filho da escritora, Ângela. Este leit-motiv do drama literário do séc. XIX reaparece aqui - em duplicação - como que a compensar a inexistência de autênticos personagens. Efectivamente, à parte Sebastião que atinge alguma complexidade no quadro dum patriarcalismo grotesco, os demais parecem-se a títeres duma só face. Odette Branco, porém, não nos faz descobrir as qualidades deles, de Carlota como de Catarina ou Tomás, de Luís ou Vânia, narrando as suas acções. É a narradora que julga e rotula os seus actos e afectos, levando bem longe a pior técnica de Agustina Bessa Luís. A principal lição da lost generation americana, dando predominância ao estilo narrativo (os personagens afirmam-se por aquilo que fazem), uma conquista da escrita moderna, que bem se assinalou nos romancistas portugueses, foi aqui preterida. A escritora não coloca o leitor no centro da acção romanesca, descrevendo o desenrolar da intriga e deixando-o captar o sentido dos comportamentos. Antes indica os enredos malévolos que comandam as intenções de certos personagens, enquanto outros nos diz sofrerem do seu poder e natureza. O Canto das Sereias, mito romântico, cuja referência apenas se concretiza no final deste romance, esconde repetidos crimes impunes sobre os quais se ergue a n° 27 - septembre 2006 LATITUDES estabilidade do clã Rosmaninho, encabeçado por um pequeno industrial do Norte do país. Que paralelo terá esta intriga com os conflitos que caracterizam a sociedade portuguesa de hoje? A inverosimilhança social também se pode constatar no fulgurante triunfo literário de Ângela em Paris, de que apenas conhecemos ecos nos artifícios duma cena de comunicação. A tendência para descolar do real social, relevando um imaginário idealizado, aproxima-o da produção das colecções cor-de-rosa e da chamada literatura light. Da mesma maneira se explica que a narrativa proposta neste livro evolua entre o drama tenebroso, provocado pela manipulação de indivíduos dependentes e arrimados a superstições arcaicas, para desembocar numa superação idílica, maravilhosa, com casamento e notoriedade (escritora best-seller) como nos contos de fadas! Odette Branco nasceu em França, no seio de uma família portuguesa do Minho, mas estudou e viveu a sua juventude em Portugal, regressando aqui mais tarde. O imaginário conturbado que recriou neste primeiro livro inspirase dessa dupla vivência, desempenhando o espaço francês o contraponto idílico. Como na sua heroína Ângela, a sua escrita é simples, directa não evitando as frases feitas, sendo escassa em linguagem imagética. Não se verifica a preocupação de dotar a frase de densidade, antes se apresentando sem rotundidade nem artifício e de parcas descrições de atmosfera ou de ambientes. A agilidade da romancista concentrase no enovelamento das desmedidas ambições dos personagens e bem assim na revelação dos intuitos malévolos em que assentam, à maneira das intrigas enredadas duma Agathe Christie G * Odette Branco, O Canto das Sereias, Guimarães, Editora Cidade Berço, 2005, 171 p. Revue transdisciplinaire sur le secret Publiée par l’association GRIS-FRANCE (Groupe de Recherches Interdisciplinaires sur le Secret) 21 rue Saint-Médard - 75005 Paris [email protected] http : //www.sigila.msh-paris.fr N° 17 : En cachette - Às escondidas Printemps-été 2006 Préface de : Préface de Jean-Pierre CAVAILLE : Tous les secrets du monde Jean COCTEAU : L’anamorphose - un phénomène de réflexion (dessin) Marie-France TRISTAN : Anamorphose(s) Véronique BRUEZ : Le cabinet secret du musée archéologique de Naples : hic habitat felicitas Sébastien FARAUT : Neige fine (poème) Georges AILLAUD : Aragon et le secret. Le mentir-vrai, l’anonymat, les pseudonymes Claude LÉGER : “La fosse une fois recouverte...” Maria PATRINI : Na escritura de campo uma voz “en cachette” Odile JOURNET-DIALLO : De l’art et des contraintes de la dissimulation en village jóola (Sénégal/Guinée-Bissau) Baltasar GRACIÁN : Les passions sont les brèches de l’âme... Cécile RASTOIN : Le secret du panopticon : l’individu face à l’État moderne Carsten Lorenz WILKE : Le rapport d’un espion du Saint-Office sur sa mission auprès des crypto-juifs de Saint-Jean-de-Luz (1611) André PAUL : La guénizah, tombeau juif des écrits et objets sacrés Isabel ALMEIDA : La partie cachée d’un iceberg de lumière : la recherche de la kabbale Bernard SESÉ : En cachette (poème) Eliane VASCONCELLOS : Ghost writers bem-sucedidos: relações extraconjugais em Lima Barreto Octave LOTHAR : No interior do harém Celina MARTINS : Amours clandestines : “Le dernier amour du prince Genghi” de Marguerite Yourcenar et Os Anjos de Teolinda Gersão Marie-Antoinette DESCARGUES-WÉRY : L’esquive adolescente Claudie BOLZINGER : Au carrefour de trois langues Gaston BACHELARD : Le travail du secret... Anthologie du secret Théophile DE VIAU : La solitude • Jean de LA FONTAINE : L’Homme et son Image • CASTRO ALVES : Meu Segredo / Mon secret (trad. de Monique Le Moing) • Juan Ramón JIMÉNEZ : Desvelo / Insomnie (trad. de Bernard Sesé) ; Alberto CAEIRO : O mistério das coisas, onde está ele ? / Le mystère des choses, où est-il ? (trad. de Patrick Quillier) Lectures Antonio APARICIO, Corazón sin descanso (Poesia reunida) • Giselda LEIRNER, La Fille de Kafka • Bernard LÉVI, X BIS. Un juif à l’École polytechnique. Mémoires 1939-1945 • André PAUL : La Bible avant la Bible. La grande révélation des manuscrits de la Mer Morte • António RAMOS ROSA, O Aprendiz secreto • Ce que j’ai vu et appris au Goulag, d’après Jacques Rossi • Caché, film de Michael HANEKE • Va, vis et deviens, film de Radu MIHAILEANU. Publications et actualité du secret La revue Sigila est éditée par Gris-France, 21, rue Saint-Médard - 75005 Paris [email protected] Vente au n° : U.E. : 16 euros - Hors U.E. : 17 euros Abonnement aux n° 15 et 16 : U.E. : 28 euros - Hors U.E. : 17 euros Adhésion à Gris-France : 34 euros Site Internet : http://www.sigila.msh-paris.fr 109