– Os rapazes também são simpáticos – disse a mãe sorrindo.
Sydney Taylor
Die Mädchenfamilie
Munique, DTV Junior, 1988
Até o filho único do papá abriu a boquinha como se concordasse…
mas estava só a bocejar.
Todas acharam que a mãe tinha razão.
– Ele há-de integrar-se bem na família. Vocês vão gostar dele e vão
ter de lhe ensinar que o mais importante na família é o amor e não o ser
rapaz ou rapariga.
Ella.
– É estranho deixarmos de ser uma família só de meninas – disse
bonecas. Brincam aos bombeiros e aos soldados e a coisas dessas. Quer
dizer que também só vai ter brinquedos novos.
Alguma coisa estranha estava a acontecer em casa, naquela noite.
Já passava das dez, e habitualmente àquela hora os quartos já estavam às
escuras e os sete habitantes da casa a dormir profundamente. Naquela
noite, pelo contrário, havia luzes em todos os quartos e todos estavam
acordados.
Em 1912, a Lower East Side, uma zona pobre da cidade
de Nova Iorque densamente habitada, tinha, entre outras, a
maior comunidade de Judeus do mundo. Ali, num modesto
apartamento, vivem com a mãe e o pai, um comerciante de
coisas usadas, Ella, de doze anos, Henni, de dez, Sarah, de
oito, Charlotte, de seis e Gertie, de quatro anos. O dinheiro
não abunda, mas são uma família feliz.
Charlie
– É muito mais prático serem seis crianças em vez de cinco –
explicava Ella. – As coisas dividem-se muito melhor por seis do que por
cinco.
Era verdade! Um novo bebé vinha a caminho! As crianças estavam
entusiasmadas. Há cinco anos que não vinha nenhum. Gertie era a única
que não tinha a certeza se devia ou não estar contente com o novo bebé.
Um nó esquisito andou o dia todo a apertar-lhe a garganta, um nó de
“vou-começar-a-chorar”. Gertie tinha a impressão de que este nó tinha
alguma coisa a ver com a chegada do bebé.
Nessa noite, havia ainda mais alguém em casa, alguém que as
meninas conheciam muito bem: o Doutor Fuchs. Só que hoje não dava
atenção nenhuma às crianças, mas também não se ocupava da mãe, que
era a sua paciente. Deitado em mangas de camisa na cama que fora
armada de propósito para ele no quarto onde costumava estar a cama da
mãe, o médico esperava que o novo bebé nascesse.
A Tia estava sempre à mão quando a mãe precisava dela. Era a
irmã mais velha, viúva, e trabalhava numa fábrica para ganhar o seu
sustento, mas estava sempre pronta a deixá-la de cada vez que era
precisa. E agora era certamente muito precisa!
Quem era a Tia? Ora bem, a Tia era a Tia. Todas as outras tias
tinham um nome: tia Rivka, tia Leah, tia Frida ou tia Fanny. Mas a Tia
era simplesmente Tia. É certo que tinha um nome, mas ninguém a
tratava por ele. Era a Tia.
O pai andava de um lado para o outro. As filhas ouviam os passos
dele e os passos rápidos da Tia. Às vezes, o pai e a Tia falavam um com
o outro em voz baixa.
As irmãs falavam entre si, excitadas, e só se calavam quando algum
adulto, entrando ou saindo da sala, passava em frente do quarto delas.
As crianças estavam todas nas suas camas, mas não dormiam. O
pai andava na cozinha de um lado para o outro.
A mãe estava na cama, mas não no seu quarto. Ela e a cama tinham
passado para a sala e a porta estava fechada.
– Que palerma! – respondeu Henny. – Os rapazes não brincam com
– Achas que vai gostar de brincar com bonecas? – perguntou Gertie
– Vai vestir sempre roupas novas – comentou Sarah.
– Tem sorte! – acrescentou Henny. – Não vai ter de vestir as roupas
das irmãs mais velhas, como nós.
– Vai ser engraçado, quando uma criança vestida com roupas de rapaz
andar a correr pela casa. – disse Charlotte.
– Charlie pequenino – murmurou Gertie, afagando o irmãozinho
com o olhar. Parecia estar contente com a ideia de ser uma irmã mais
velha.
– Que ideia maravilhosa! – exclamou a mãe.
– Sobre isso ainda vamos ter de conversar – respondeu o pai.
– Eu pensei dar-lhe o nome do meu avô, Caim, se a mãe estiver de
acordo… e assim teríamos um novo Charlie.
– Que nome lhe vamos dar? – perguntou Ella, olhando maravilhada
para o irmão bebé.
– A mãe precisa de descanso! – explicou. – Agora ide perguntar à
Tia se podem ajudar nalguma coisa.
Bem gostariam de ter ficado para sempre à volta do berço, mas o
pai entrou e enxotou-as para fora da sala.
– Eu gostava era de pegar já nele!
– É um amor!
– Vejam as mãos minúsculas! Que amorosas!
– Que pele tão macia!
Tocavam suavemente na carinha do bebé.
– Não é amoroso?
As cinco meninas entraram na sala em bicos de pés. Sorriram à
mãe, que lhes sorriu também e, com um gesto, apontou-lhes o berço. As
cinco irmãs rodearam o bebé, que dormia, admiraram-no e exclamaram:
– Sim, já está acordada – respondeu a Tia da porta. – Podem entrar.
– Eu queria dizer-vos – defendia-se Ella – mas o pai e a Tia não
deixaram. Já o viram? Como está a mãe? Já acordou? Podemos ir vê-la?
– Pois! Soubeste muito mais cedo do que nós! Não foi justo! –
disse Charlotte indignada.
– Porque não nos acordaste, mazinha? – perguntou Henny.
Quando Ella tornou a abrir os olhos, descobriu que alguém já tinha
tido o prazer de contar a maravilha.
– Por que é que está a dormir? – perguntou Sarah. – Por que é que
não vai para a sala para a beira da mamã?
A cama desdobrável que o doutor tinha usado, fora feita de lavado
para a Tia, e em breve também ela adormeceu. Ella voltou para a cama e
aconchegou-se junto de Sarah. Por sua vontade tinha acordado toda a
gente e contado a novidade, mas o pai tinha-lhe pedido que esperasse até
de manhã.
As crianças faziam um esforço por adormecer, mas havia muitas
coisas que as impediam: o pai a falar, o tremer da chama do candeeiro, o
Deu a volta às camas e entalou-lhes a roupa.
o bebé tiver nascido.
– Ainda não estão a dormir? – perguntou a Tia. – A mãe não iria
gostar. Se adormecerem imediatamente, prometo acordar-vos quando
A Tia tornou a sair da sala e Ella chamou-a baixinho.
– Até parece que é ele que vai ter o bebé – resmungou Henny.
– Ouvi-o dizer à Tia que ainda ia demorar um pouco até o bebé
nascer – respondeu Ella. – Entretanto, está a descansar.
– O Dr. Fuchs fica tão engraçado sem colete! Vejam só como a
barriga treme quando ressona!
Henny começou a rir-se baixinho.
A Tia atravessou o quarto com uma chávena de chá na mão. As
meninas calaram-se. Passou rentinho à cama delas, depois pela do Dr.
Fuchs, e entrou na sala, fechando a porta atrás de si.
Tia deitou o bebé no berço. O pai deitou-se satisfeito no sofá para
dormir o seu primeiro sono dessa noite.
– Está tudo bem, mas eu torno a passar mais tarde – e foi embora.
Deu umas palmadinhas nas costas do pai:
– Parabéns – disse ao pai. – E o que estás a fazer aqui a estas horas,
senhorinha? A ver o bebé? Gostas? Tia, torne agora a deitá-lo no berço e
quero silêncio! A mãe está a dormir e não quero que a incomodem.
Entretanto o Dr. Fuchs tinha voltado à cozinha.
– Bem, eu tenho a certeza de que Deus me vai dar exactamente o
que eu quero – respondeu Charlotte. – Vou pensar com tanta, tanta força
que só quero meninas, que Deus nem se vai lembrar de me dar rapazes.
– Não se pode escolher os bebés – explicou Henny. – Tens de
aceitar o que vier.
O pai tirou o lenço do bolso, limpou os olhos e assoou-se:
– Às vezes também se chora de alegria, minha filha. Mas anda,
vamos vê-lo os dois – tomou a mão de Ella e juntos admiraram o
bebezinho cor-de-rosa que dormia nos braços da Tia.
um!
– Bem, por mim está óptimo – disse Charlotte. – Os rapazes são
horríveis. Querem sempre andar à bulha, e coisas dessas. Quando me
casar, só vou ter meninas.
– A mãe tem sempre meninas! – respondeu Henny.
– Ela? – exclamou Sarah. – Como é que estás tão certa de que vai
ser uma menina?
– Como é que vocês acham que ela se vai chamar? – perguntou
Henny.
– Não estás contente por ser um rapaz? Mas tu querias que fosse
Esgueirou-se da cama e correu à cozinha. Passou o braço pelos
ombros do pai e disse:
a soluçar. Ella não podia acreditar. O pai nunca chorava! E, além disso,
por que é que estava a chorar? Tinha finalmente o filho que tanto
desejava!
Henny deu mais umas voltas na cama até que adormeceu. Só Ella e
Sarah ficaram acordadas.
Os olhos de Charlotte estavam constantemente a fechar-se. Meteu a
mão na boca e passou os dedos molhados pelas pestanas, um bom
remédio para ficar acordada. Só que desta vez não deu resultado e
Charlotte também acabou por adormecer.
Os soluços de Gertie acalmaram-se e ela acabou por cair no sono.
– É verdade! – disse Ella. – Mas a Gertie não compreende como é
bom ser uma irmã mais velha. Uma irmã mais velha pode tomar conta
do bebé e quando uma pessoa toma conta dele, os outros não deixam de
gostar de nós. Até passam a gostar mais.
– Eu imagino que uma pessoa fique aborrecida quando foi o bebé
da família durante tanto tempo, como a Gertie… e de um momento para
o outro chega um bebé novo – disse-lhe Sarah. – Isto não aconteceu com
nenhuma de nós. Connosco, a irmã mais nova veio quando ainda éramos
muito pequenas.
Gertie enterrou a cabeça na almofada. Claro que não queria que a
mãe a ouvisse…
– Chiu, fala mais baixo, Gertie! – disse Ella. – Não queres que a
mãe te oiça, pois não?
As irmãs sentaram-se nas camas.
– Eu não quero que a mãe tenha outro bebé! – soluçou. – Eu é que
sou o bebé.
– Gertie! O que é que se passa? – perguntou Charlotte
surpreendida. Gertie revelou as suas preocupações.
De repente, o nó desfez-se e transformou-se em lágrimas salgadas
que lhe saltaram dos olhos. Gertie não queria chorar, mas os soluços
eram mais fortes do que ela.
Gertie virava-se de um lado para o outro. Durante muito tempo não
tinha dito uma palavra porque o nó na garganta era muito grande.
Dr. Fuchs a ressonar, a mãe que tornava a chamar pela Tia.
O pai não disse uma palavra. Tapou a cara com as mãos e começou
– Não queres vê-lo? – perguntou, estendendo-lhe o bebé.
O pai olhava-a, incrédulo.
– Aqui tens o teu filho – disse ao pai.
A porta da sala abriu-se. A Tia trazia nos braços uma pequena
trouxa embrulhada num cobertor. Vinha radiante, ao passar junto de
Ella.
Os passos na cozinha pararam. O pai também tinha ouvido o grito.
Um banco da cozinha fez barulho no chão. O pai devia ter-se sentado.
Ella inclinou-se para a frente e pôde vê-lo. O pai estava sentado à mesa
com a cabeça enterrada nas mãos.
Já perto da madrugada, Ella acordou de repente com a impressão de
que alguma coisa se estava a passar. O bebé!, pensou de repente. Se
calhar já cá está! Sentou-se na cama e pôs-se à escuta. Mas nada parecia
ter mudado. O pai continuava ou já estava a andar de um lado para o
outro. O médico… não! O médico já lá não estava! E onde estaria a Tia?
A Tia e o médico deviam estar junto da mãe. Foi então que ouviu o
choro do bebé.
Cochicharam ainda por mais algum tempo mas os olhos também se
lhes fecharam.
– Oh, o pai queria tanto ter um rapaz, não é? – murmurou a menina.
Ella e Sarah olharam uma para a outra. Tinham ouvido o que o pai
dissera.
– Eu sei – respondeu o pai. – Mas talvez desta vez seja um rapaz.
Um filho daria continuidade ao meu nome e, quando fosse maior, podia
ir comigo à sinagoga. Mas tu tens razão. Vou deitar-me por um minuto.
Vai tornar a ser uma menina.
– Por que não te deitas no sofá? – dizia a Tia ao pai, na cozinha. Já
passaste muitas vezes por isto. Já devias saber de uma vez por todas que
o que tu queres não adianta nada. Sabes muito bem que vai voltar a ser
uma menina!
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Charlie - Contos e Historias