QUEBRA
NOZES
QUEBRA
NOZES
QUEBRA
NOZES
QUEBRA
NOZES
para a Rafaela, Beatriz,
Miguel, Mercedes e Artur.
ANDRÉ e. TEODÓSIO
ÉCARTÉ
PRÓLOGO: EUSSOCIALIDADE
(Local: Colmeia)
As abelhas voam. Mas também estão quietas. Trabalham. E comem. E veem com muitos olhos. Olhos em
favo. Se escutares o bater das suas asas, elas evitarão escutar os teus assobios para as afastares. Estão
em paz. Livres em comunidade. Multiplicando-se. Porque as abelhas são boas a matemática. Multiplicam
tudo. Multiplicam flores, por exemplo. Como se fossem bombas, transportam pólen e TRAU… as flores
levam com um grão na corola! E lá vão elas rápidas. Reguladas pelas antenas que transportam no topo da
sua cabeça. No fim do corpo, ferrões como lemes. Sim, que por vezes as abelhas picam e deixam pontos,
ponto. Fios por ligar. Mas não é assim tão comum. Elas estão sempre preocupadas e em paz na convivência de mundos. Só querem produzir mel, o doce dos doces para adoçar a amarga vida, e cera para velas
a fim de iluminar os negócios da escuridão. As abelhas sabem. E assim regulam o ambiente. Juntas no
mundo. Sim, porque as abelhas partilham casa.
Como nós no mundo…
BRAS CROISÉ
1ª PARTE: CO-CULTURA
(Local: Hipstúrbio)
Todas as casas já foram de alguém. De uns filhos que já tiveram uns pais. De uns pais que já tiveram uns
pais. De uns pais que já foram filhos. Todas as casas já foram de alguém e a de Maria Clara e dos seus
dois irmãos não era exceção.
Suspensa numa nogueira que a atravessava com vigor centenário, e isolada de todos os perigos, aquela
casa era uma verdadeira representação de genealogia. Nela, Maria Clara, Luísa e Fritz conviviam diariamente com os seus pais, avós e Tia. Com eles aprendiam, era lá que a escola se fazia, com eles cresciam,
era lá que o mundo se descobria, com eles se construíam, por lá ficariam como os seus antepassados.
Raro era o dia em que alguém se lançasse na imprudência de perturbar a sua paz. Raro mas não impossível, como estará prestes a acontecer segundo os binóculos da Tia que avistam os forasteiros a entrar
na floresta. Neste dia, no de hoje, no dia de reunião da família e amigos, a que muitos dão o nome de
Natal, era uma alegria ver aquele presépio animado com tantas visitas sortidas. Chegavam aos magotes
de bicicleta, patins, skates, automóveis elétricos e tudo o que não deixasse rasto para que os inimigos não
os seguissem, em verdadeira ecologia e simbiose com a terra. Pais e filhos sorriam e lançavam abraços
ao chegar. Elas não ostentavam os sinais brutais de uma sociedade dilaceradora de costumes e eles, de
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barba e gorro, exibiam o verdadeiro espírito natalício. Todos partilhavam doces e brinquedos naturais,
mesclavam-se em repetição naquele que era definido como o núcleo familiar. Bebia-se, dançava-se, cozinhava-se, brincava-se, trocavam-se presentes artesanais embrulhados em papel pardo numa atividade
típica de reserva conservada. Muita coisa acontecia naquela festa pagã. Sabemos pelos registos fotográficos e selfies tirados pela Tia durante o encontro que:
Foto 1: muitas vezes se deslizou pelo escorrega abaixo e nunca acima;
Foto 2: enquanto adultos dançavam músicas sintonizadas num rádio pela própria Tia, Maria Clara tentava-se imiscuir no mundo dos adultos e nunca o contrário;
Foto 3: os doces eram comidos às escondidas por algumas crianças, cópia chapada dos seus pais sendo
que estes não eram cópia chapada dos seus filhos;
Foto 4: enquanto Fritz recorria às suas traquinices bélicas e niilistas para irritar as pessoas (levantar as
saias às meninas, jogar à espada com o avô, atiçar a colmeia com os seus amigos...) já Luísa, agarrada a
um urso de peluche com um pote de mel, procurava relaxar amuada debaixo de uma colmeia, de modo a
vencer e controlar o seu medo antropocêntrico de abelhas que não queriam saber dela para nada;
Foto 5: um bebé chorão acalmava-se nos braços dos avós da casa-mestra mascarados de burro e de vaca;
Foto 6: tanto se jogava às escondidas e ao macaquinho do chinês como se faziam visitas guiadas à casa
de madeira que ia aumentando de ano para ano vezes e vezes sem conta ao passo que a árvore, essa, ia
diminuindo;
Foto 7: enquanto alguém se abraçava a uma árvore por tempo indeterminado, alguém baloiçava no pneu
até marear.
Tudo corria às mil maravilhas sobre aquela toalha de piquenique lançada sobre a relva e coberta de pratos
e canecas de esmalte e biscoitos de gengibre. Tudo corria às mil maravilhas… até à chegada inesperada
de uma figura distante, um tio misterioso perdido pelo mundo. Talvez um artista, quem sabe, uma espécie
de mágico para os mais ingénuos. Assim que se sussurrar o seu nome, ‘Drosselmeyer’, tudo parará nesse
mundo... – exceto o pneu que continuará a baloiçar ao vento e as nozes que vão continuar a cair por terra.
O verde tornou-se subitamente mais artificial com a presença daquele tio cujas tatuagens na pele eram
inscrições de outras experiências, entendidas por alguns como sendo o espelho de um outro mundo. Mas
para as crianças e para a Tia, que não era sua irmã mas que simplesmente tinha decidido ficar para Tia,
que procuravam fugir daquela impostura com a ajuda de outras linguagens, por vezes mais bélicas ou mais
dançadas, menos centradas na figura humana ou simplesmente mais desconexas, a chegada do familiar
misterioso era mais do que bem vinda.
– Por onde tens estado tu?, perguntavam.
– Por todo o lado e em lado algum, respondia Drosselmeyer. Sou a existência interna
da existência externa….
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Que misterioso... Para demonstrar as suas teorias doidas, Drosselmeyer pede a atenção de todos para
uns vídeos curiosos sobre as suas andanças por “todo o lado”, aquilo a que alguns dão o nome de Terra.
Em jeito de magia, utiliza o verde da floresta como fundo para projetar a delícia do mundo das imagens
diversas. Por vezes anacrónicas, outras vezes psicadélicas e tanto falsas como reais. Fritz filmava e ele
coordenava a montagem do filme.
Que pessoas! Que roupas! Que estilos!
Um Arlequim perdido no meio do carnaval no brasil a fazer coisas loucas no meio dos insetostropicais (é neste instante que Luísa, vestida de abelha em furry fandom puro, atravessa o vídeo
agarrada ao seu urso) encontra uma Columbina perdida de mapa na mão. Apaixonam-se de imediato e ele dá-lhe o seu coração a comer, o que a transforma numa figura aos losangos. Esta história de amor corria pelo melhor quando é interrompida por um oficial alemão. E mudamos de lugar em
dois frames. Agora estamos no meio de uma mata africana. O soldado está a dançar folclore quando é surpreendido numa emboscada por uma vivandière que lhe aponta uma arma feita de vegetais.
Ele parte a sua própria arma ao meio e come a cenoura que está na ponta da arma dela. Apaixonam-se e,
como paisagem de fundo, sinais de paz alternados com… uma marca de automóveis!?!
Que loucura! Até dá vontade de gritar e fazer uma manifestação pela paz.
“Ásia, África, América ou Portugal / a imaginação é internacional”.
Na ficção que Drosselmeyer criara naqueles vídeos o que importava era o tu e eu, eu e tu. Mesmo que tu
e eu sejamos muitos. O amor é sempre < 3 (o que quer que isto queira dizer)!
Com os espectadores ainda aturdidos pelas imagens, sem saber o que pensar sobre elas, Drosselmeyer decide
avançar para o golpe de mestre encantador distribuindo, contra a vontade dos pais, os seus presentes que
fazem a delícia de alguns.
Totems e gadgets mundiais, tais como:
[Lista de compras de Drosselmeyer]
Um computador ✓
Latas de spray para grafiti ✓
Um tablet ✓
Um peluche em forma de mota ✓
Uma playstation ✓
Uma guitarra elétrica ✓
E lá foram os mais novos (exceto o bebé com o seu peluche em forma de mota) a correr, dentro do perímetro autorizado, para brincar com as novas aquisições debaixo da supervisão dos mais velhos que
acenavam negativamente estupefactos com a ousadia daquele indutor de más influências.
Por entre gritos e discussões que emergiam como lava de um vulcão, Maria Clara, a mais anafada dos
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meninos, aguardava a sua vez. O seu presente, por estranho que pareça, e como veremos já a seguir, seria
o elemento apaziguador da azáfama dos adultos mas criador de conflito entre os mais novos. A saber: um
quebra-nozes Pez. Um quebra-nozes Pez? Que raio!
Um curto-circuito entre um objeto antigo e um objeto contemporâneo. A ubiquidade tal como a conhecemos. Que esperto era este tio! Oferecer um objeto para partir nozes mas que sorrateiramente lhe daria
um daqueles doces sintéticos que por ali não se encontrava e que em excesso prometem cáries seguras.
Haveria de estudar para dentista! Era um incentivo!
E então, em excelsa felicidade, Maria Clara dança. E dança, dança e dança com o quebra-nozes, partindo
nozes e levando os doces à boca. A sua linguagem, a dança, é a da felicidade. Enquanto Luísa a acompanha com uma música na guitarra elétrica para que dance ainda mais e sem parar, vislumbra-se um grupo
de crianças curiosas a aproximar-se daquela ‘coisa em forma de assim’.Fritz, o rebelde, destaca-se investindo. A salivar com tão deliciosa visão, arranca o quebra-nozes de Maria Clara e, devorando sem cessar
os retângulos de açúcar e corantes, parte sem querer a cabeça do boneco.
O início de uma tragédia é sempre de se perder a cabeça.
Snifff………..
Nos minutos seguintes, Maria Clara desata num pranto de maria parva não se animando nem com o consolo das visitas, nem com as repreensões dadas ao grupo rebelde choroso (que entretanto voltara à sua
atividade interpassiva diante de um jogo de computador), nem tão pouco com a compensação do velho
quebra-nozes da casa que os avós lhe tentam oferecer, decoração sazonal pousado mesmo em frente à
moldura com a árvore genealógica. Nesses minutos de snifffff, que parecem horas que parecem dias que
parecem anos, Drosselmeyer aproveita para reparar o presente com pensos coloridos.
Findas as lágrimas…
Maria Clara volta a dançar com os olhos a apontar para lá das fronteiras, tanto assim que teve de ser presa
a uma guita de maneira a não se perder no arvoredo denso.
Findas as lágrimas…
O grupo rebelde ganha cada vez mais energia e arranja maneira de animar o que lhes parece ser uma
verdadeira seca monotemática.
Pulam, partem, discutem, provam vinho às escondidas, dizem asneiras, a bem dizer vão crescendo como a
noite. O bater de tampas de tachos do avô, general de tranças e traças, para tentar colocar ordem naquela
balbúrdia, desencadeia o choro de um bébé prestes a fugir numa mota e o fim inevitável da festa.
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Faz-se tarde.
É hora de partir, hora das despedidas, hora do sono. Uns já dormem, outros gastam a última energia que
têm a tentar não fechar os olhos.
Faz-se tarde.
É hora dos agradecimentos, hora dos abraços, hora dos beijos, embora Drosselmeyer e a Tia há muito se
beijem atrás da árvore. E partem, mas não sem antes ajudar Maria Clara a soltar-se das fitas que a atam.
E isto não é uma metáfora.
(Silêncio cai.)
Sobre a tolha de piquenique que está a ser arrumada pelos pais e avós, Maria Clara veste o quebra-nozes
com roupas de bonecas que encontrou no seu quarto. A Tia fuma e bebe enquanto coloca fotos nas redes
sociais seguidas de #estáumsilencioquenãoseaguenta. Luísa e Fritz, já sonolentos, são enviados para a
cama. Maria Clara não. A pedido da Tia que a vê tão calma a brincar, é autorizada a ficar até mais tarde.
– Uma vez sem exemplo.
Isso sabemos nós!
Com os pais e avós, também Drosselmeyer se despede indicando sorrateiramente à Tia que fique atenta
ao telemóvel.
Todos dormem quando:
3
2
1
Plim (mensagem recebida de imediato no visor): Aqui do outro lado não está um silêncio que não se
aguenta!
Curiosa com a rapidez da mensagem de Drosselmeyer, a Tia afasta-se para lhe ligar tentando não perder
de vista Maria Clara. Mas acontece que, imbuída do romance palavroso, vai-se afastando sem se dar
conta de que a sua sobrinha se entrega aos poucos ao mundo dos sonhos.
Não sem antes dar um gole da garrafinha da Tia.
UAU, QUE DELÍCIA…
Debaixo de um lençol de cinquenta estrelas a que chamamos céu, Maria Clara adormece entre biscoitos
de gengibre.
Se acordar, será para comer um deles.
É gulosa.
Só que os doces são doces para todos.
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O açúcar intensifica o sabor.
É um vício.
Para ratos também.
Ratos que aparecem aos poucos, cobertos de estrelas como o lençol de Maria Clara.
Estremunhada, no início nem se dá conta. Mas assim que os vê, estranhas figuras de um batalhão por vir,
levanta-se pé ante pé para regressar a casa.
Com o campo de ação livre, os ratos então indecisos sobre escolher biscoitos caseiros ou rebuçados
sintéticos, decidem apoderar-se do quebra-nozes ao som da meia-noite dado porDrosselmeyer que parece
vigiar como um mocho.
Que parvoíce foram fazer! É que, no mesmíssimo instante, Maria Clara lembrou-se do seu estimado objeto
e voltou atrás para o levar para casa. Ao ver aqueles ratos tão bélicos apoderarem-se do seu objeto de
estimação, Maria Clara roda a cabeça com nojo e dá de caras com o seu tio escondido num ramo feito
Tarzan. Implora-lhe para que faça alguma coisa, mas não em bom tom. Nervosa que estava, desata aos
berros. Com ele, com os ratos, com todos os deuses e mais algum.
Nisto aparece a Tia e aparece também luz na casa.
– Chiu!, pede Drosselemeyer indicando a todos para se acalmarem
(Silêncio cai. Desta vez num trambolhão.).
As luzes da casa apagam-se e Maria Clara aproveita a distracção para arrancar das manápulas dos ratos o
seu quebra-nozes, acção que os deixou tão furiosos que resolveram chamar os seus reis, os reis dos ratos.
Para Maria Clara, que dançava, tudo aquilo parecia ter chegado ao fim. Mas era um falso final.
Por mais que Drosselmeyer tentasse remediar o conflito, nada demovia os ratos choramingas que se
artilhavam de bastões encimados de estrelas pontiagudas atiçados por uns reis disneylescos de outras
fantasias. De longe, abraçada ao quebra-nozes e consolada pela Tia, Maria Clara viaDrosselmeyer a gesticular com gestos cada vez maiores. Gestos tão grandes que diminuíam o tamanho da árvore, da casa,
daquele seu sítio que antes lhe parecia imenso.
Que estranho. Tudo diminuiu.
Maria Clara parecia ser dona do mundo.
Tudo diminuía exceto, esperem, exceto o tamanho de Maria Clara, da tia, daquele batalhão de ratos que
parecia a cada momento estender-se até ao infinito e, ai não é possível!... de um outro batalhão que a vem
proteger caso aquilo dê para o torto: um batalhão de biscoitos de gengibre.
Aquela situação começou a tomar conta dos nervos de toda a gente. Que raios se estaria ali a passar?
Quem é que estava a dar ordens? Talvez um tio misterioso, outrora perdido pelo mundo, talvez um artista
dir-se-ia, uma espécie de mágico para os mais ingénuos. Deve ser ele.
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Atentem na seguinte ‘Crónica da Batalha Não-vale’ feita por um dos biscoitos-relatores de gengibre de
muletas :
[fragmento]
“ (…) No ido ano de não sei quantos (não sei porque me comeram o calendário), el-ReyDrosselmeyer, tio misterioso e distante, talvez um artista dir-se-ia, parecia controlar tudo o que se passava. Diminuíra o tamanho
da reserva (para que sabeis, casa e árvore com nozes incluídas) e aumentara tudo o que parecia ser improvável a olhos cartesianos. Construiu dois batalhões. No entanto, ao observar a assimetria dos batalhões, uma
vez que os biscoitos de gengibre, graças aos dentes da festa, se encontravam na sua grande maioria estropiados, ou seja, sem um braço, sem uma perna e até mesmo sem cabeça, Drosselmeyer decide aumentar
também o quebra-nozes a fim de proteger sua muy leal sobrinha, a anafada princesa Maria de Clara. E assim,
num simples abrir e fechar de olhos, se desencadeou uma batalha que ficou conhecida como a “Batalha Não-Vale”. Não vale porque, como o leitor poderá verificar mais adiante, não valia a pena esta confusão toda!
Ergueram-se bandeiras: umas em forma de queijo ratado e outras de cuecas.
Puxaram-se cabelos, partiram-se pernas, entraram e saíram macas, arrancaram-se saias. Uma verdadeira
luta livre marcada a compasso num tambor pela Tia instruída por el-ReyDrosselmeyer.
Fugiram uns, depois outros, depois todos! Atiraram-se baldes de água num dia de céu limpo. Uma confusão
maior do que a desorganização de nós, biscoitos de gengibre, que a esta batalha chegáramos tão debilitados.
A Rainha dos Ratos discutia com a princesa Maria de Clara que discutia com o Rei dos Ratos que discutia
com todos que não discutiam com ninguém, só queriam traulitada. Mais gritos, mais acusações, a princesa
Maria de Clara procura ajuda externa, mas sem sucesso, numa Tia que discute agora com el-Rey Drosselmeyer que não a deixa tocar tambor à sua maneira. Que chinfrineira!, tanta que Maria de Clara também
discute por sua vez com o seu aio protetorquebra-nozes e a Rainha dos Ratos com o seu par Rei dos Ratos.
Pelo ar, armas em esgrima. Estrelinhas e bengalas de açúcar que se vão partindo ao toque. E eis que senão
quando, vendo que tudo estaria a correr mais ou menos bem para o batalhão débil dos gengibre, a Rainha
dos Ratos decide fazer a emboscada final da Batalha Não-vale. Avançaram pelos nossos costados, no nosso
ângulo morto, o que resultou num monte de biscoitos de gengibre deitados por terra dilacerados e num
quebra-nozes de volta às garras daqueles bichos.
A princesa Maria de Clara, sentindo que mais uma vez poderia perder aquele por quem se tinha perdido de
delicias sintéticas, decidiu, num ato de doidice intuída, tirar o sapato à Tia e, ao jeito daquele jornalista que
um dia não gostou das palavras de um presidente americano, atirá-lo à cabeça do Rei dos Ratos.
Foi gesto fatal, knock-out final para aquele certame de wrestling entre desportistas e majorettes. E não
valia a pena porque (…)”
O final deste longo relato, que por direitos de autor não podemos aqui transcrever na integra, dá-nos conta
de como os ratos fugiram com o corpo do seu Rei seguidos por uma Rainha voluntariosa e decidida a fazer
o luto do seu irmão-de-armas como uma antiga Antígona.
08
Definitivamente, tinha sido Drosselmeyer a engendrar aquela situação. Para quê?, eis o enigma que terá irado a Tia que, farta daquilo tudo, decide arrancar a cabeça do quebra-nozes para então surgir o inesperado.
Nem há tempo para Maria Clara entrar no sniffff de novo!
Do quebra-nozes sem cabeça começa a sair uma estranha figura que se escondia lá dentro: uma metamorfose!
Será que era uma Matriosca? Haveria mais dentro dele? Há sempre mais dentro de nós! Está? Está lá?
Estás a ouvir? Allôôôôôô!!!!
Estava a nascer um ser. A preto e branco. Um desenho pontilhado por preencher e colorir.
No seu peito, uma insígnia: QN.
Era um príncipe. É um príncipe!, pensava Maria Clara. Um príncipe a que daremos o nome, a partir de
agora, de Príncipe QN (de quebra-nozes, a sua ex-profissão).
Maria Clara olha em redor. Não encontra Tia. Não encontra tio. Não encontra biscoitos de gengibre. Não
encontra ratos. Só a sua casa na árvore em miniatura de luzes apagada, um céu estrelado e um príncipe
inanimado com traços de um quebra-nozes que se começa a mexer e lhe dá a mão.
Reconhecem-se. Apaixonam-se. Naquele caso era mesmo amor à primeira vista!, e dançam tanto………
CHASSÉ
TRANSIÇÃO: CENTRO DO RETICULADO
(Local: Detrás de um outdoor)
… dançam e dançam e dançam, para além do perímetro, sem guitas, sem controlo, fora dopanóptico da
reserva, dançam e dançam e dançam até se encontrarem perto de uma autoestrada! Que horror. Esta cena
estava a ser tão romântica, tão pastoral, tão vitoriana, tão verdejante, e de repente saem de um sítio
que as conserva para um sítio tão… nem há palavras, julgavam! Pois ao espreitar o outdoor sentem-se
impelidos a ler por cima de uma imagem flashante de uma montanha coberta de neve entalada entre um
céu e árvores azuis: Branca das Neves - Super Fina - Farinha para bolos. Nunca Maria Clara tinha visto
uma coisa assim.
– É um anúncio, diz-lhe o príncipe.
Ela não era feita daquilo. Aquelas cores, aquelas letras, a crueza da disposição da informação, e tudo isto à
beira de uma estrada exposta aos olhos de todos, como se estivesse num teatro, mas num teatro de guerra…
Que excesso! Tinha sido protegida de situações daquelas. E no entanto, tudo lhe parecia belo. O branco
entrava-lhe pelos olhos como flocos de neve. A princípio, aos poucos. Dois flocos. Depois outros tantos e
quando deu por si dançava na neve. Pelo chão, riscas de neve limpas por varredores com…
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– São cartões multibanco.
– Multi-quê? Dá para sentar muita gente, é isso?, pergunta Maria Clara ao príncipe QN.
– Esquece e dança comigo.
Há coisas em que não vale a pena perder muito tempo. Quando vierem, vêm. E dançam e dançam e dançam, porque a dança é a sua linguagem, acompanhadas por flocos de neve que derretem na boca como
rebuçados bola-de-neve da Nazaré. Que delícia! Cada vez mais numerosos, os flocos dançam e cantam
em coro, dirigindo-se em grupo para o mesmo lado coreografadas delicadamente por uma rainha-branca-de-neve-super-fina e livre como a dança. Ao passar pelo par amoroso, a rainha das neve não os ignora.
Cuida-lhes do coração oferecendo-lhes uma maçã-do-amor.
– Cuidado com os dentes Maria Clara, diz-lhe o príncipe QN.
– Não te preocupes, o meu tio diz que posso ser dentista se quiser.
E no justo momento em que Maria Clara tenta acertar os passos enquanto especula tanto sobre o seu futuro como sobre a beleza do sitio para onde as neves se dirigem a dançar surge Drosselemeyer empurrando
um boneco-de-neve que está deitado de papo para o ar, cenoura como haste na proa de um barco. É um
trenó que os levará para o tal sitio encantando para onde o branco vai. E, montados no trenós, lá vão eles.
[Pequena nota: ninguém reparou, com tanta informação e entusiasmo, que por entre limpadores de neve,
outdoor colorido, neves a cantarolar e a bailar, um par enamorado, uma branca de neveimaculada e um
tio misterioso e distante, talvez um artista dir-se-ia, que teima em aparecer e desaparecer sem avisar,
também a Rainha dos Ratos se enfiou às escondidas no trenó boneco-de-neve. Ela segue com eles! É só
para dizer que não foram avisados. Fim de transição]
EN DEHORS
2ª PARTE: CULTURA.
(Local: Parque de diversões)
Ao virar da esquina, para além do mar de troncos nunca antes navegado, escondida por trás do outdoor,
no sopé da montanha branca junto à autoestrada, existe um lugar frequentado por muitas pessoas mas
nunca por Maria Clara. Um lugar maravilhoso onde tudo é imagem. Não há espaço para volumetrias naquele hiper-mundo, é tudo liso. Lisura aparente, no entanto. Trata-se de um parque de diversões chamado
“Mundo dos Doces”, para todas as idades, cores e feitios. Está quase na hora de abrir portas, daí a azáfama que para ali vai. Os trabalhadores suam enquanto arrumam, limpam, enchem balões ou organizam
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latas de sopa Campbell para serem derrubadas por uma mão mais pop(ular). Não páram. As suas gotas
de suor são um pingo doce Ei-los agora a abrir e fechar chapéus de chuva de chocolate para afastar uma
abelha desnorteada sem brevete de piloto.
“Está quase na hora de abrir portas!”, entoa o Xerife, amante da Fada do Açúcar, uma baiana coberta de
doces que ali nasceu e que ali vai morrer e que dá ordens a tudo e todos.
“Está quase na hora de abrir portas!”, repete o Xerife dirigindo-se aos algodões-doce que saltitam agarrados a uma barra de dança em forma de fartura, e que ao ouvirem o aviso aumentam a intensidade dos
movimentos. Ligam-se e desligam-se as luzes que enfeitam o parque, testam-se os carrocéis em velocidades cada vez mais olímpicas, colocam-se fogões e batedeiras em polvorosa.
A abelha perdida mas cada vez mais frenética, perigosa para os alérgicos a ferrões, é enxotada em definitivo pelo Xerife vestido de apicultor.
– Agora sim, abram-se portas!
E entra uma revoada de bolas-de-neve seguida por um trenó boneco-de-neve empurrado por Drosselmeyer, que traz sobre o seu peito derretido Maria Clara e o príncipe QN. “Que maravilha, até fico tonta!”,
pensa Maria Clara ao contrário de Drosselmeyer que conhece aquele lugar de outros regabofes.
Tanta cor, tantos desenhos, tantos slogans, tanta imagem, tanta referência, tanta contingência! Ali diz
Merci, acolá Mon Cheri. Ouve-se uma voz alta espantada: “After Eighteen.” Tantas palavras, tantas línguas, tantas opções, tanto ruído e sons, tantos produtos. Sumos, gelados, gomas, chupa-chupas, frutas,
gelatinas e até cervejas ali se encontram. (Ai os meus dentes!) Que mundo, que histeria!
É aqui que mergulha Maria Clara ao sair do trenó e ao ser recebida por uma Fada do Açúcar e por um
Xerife, que lhe lembram os seus tios.
Mas há mais, tanto mais! Aguente aí os cavalos, menina, vamos seguir os anfitriões…
… e eis que no meio da visita guiada por entre gelatinas, cereais, mel, marcas, eis que por entre as danças de Maria Clara com algodões-doce gigantes, surgem os trabalhadores com a abelha detida.
Maria Clara cai em si num lugar pouco dado a quedas. Lembra-se dos seus irmãos que ficaram para trás e
que tantas vezes se meteram em querelas por causa de abelhas. Lembra-se deles e sorri. O sorriso é uma
confirmação do que já se conhece. Pede com carinho que libertem a abelha porque lhe dá descanso à alma
ter qualquer coisa a que se possa agarrar. Concedem-lhe o pedido.
Como uma desgraça nunca vem só, surge o pior do pior: um rato naquele sítio de perdição de roedores.
É que a Rainha dos Ratos ao aperceber-se que a última estação, a paragem terminal, tinha correspondência com uma barriga farta e umas veias entupidas por colesterol, decide saltar do trenó para tragar tudo o
que lhe viesse à pata nem que para isso tivesse de infernizar aquele paraíso. Pois acontece que sem se dar
conta, cai nas redes dos algodões-doce que a fecham numa caixa de pipocas de onde não irá sair tão cedo.
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– Ai os meus dentes! Que mundo, que histeria!, exclama Maria Clara à medida que
avança pelo parque…
…E ainda falta tanta coisa… Aguente aí os cavalos, menina, ora siga os anfitriões. O Xerife, de tocha
olímpica na mão, cavalga pilotando os seus funcionários que empunham seis bandeiras. Maria Clara conhecia cinco graças a um atlas lá de casa. As bandeiras eram a de Espanha, a etíope, a russa, a francesa
e a chinesa. A sexta, a bandeira do mundo dos doces, foi Drosselmeyerque lhe segredou o que era quando
a sentava num cupcake ao lado do príncipe sentado de perna cruzada sobre um donut.
Maria Clara via assim o mundo, porque era o global que ali se via e não o particular, aquele de onde vinha.
Agora sim, parecia entender por onde andava o tio.
– Não te enganes, adverte Drosselmeyer. Isto é tudo em geral e nada em particular.
Maria Clara levanta-se e corre pelo mundo. Passa por terras e lugares onde tudo se repete. As bandeiras,
os conflitos e batalhas, a procura de uma vida em sociedade, os preconceitos e tabus, as proibições e os
deveres, os amores, as crenças, os castelos, a doçura de uma vida variada.
Em Espanha, encontra um ovo de chocolate com uma surpresa lá dentro. UAU, QUE DELÍCIA: uma sevilhana de leque e panero feitos de waffle e, no lugar das pintas do vestido, smarties. Avança um pouco mais
e acha-se num deserto com uma pirâmide que é um triângulo de Toblerone onde alguém se abriga vestido
de burqua feita de sacos de Café Camelo. Medita sobre tudo isto, pé-ante-pé para não incomodar, quando,
UAU, QUE DELÍCIA! São moedas de chocolate a tilintar numa dançarina do ventre descascada! E eis que
ao longe, UAU, QUE DELÍCIA, uma cristã que aparece mas que afinal é uma pirâmide de chocolate. Esta
sim com uma cereja no topo do bolo! Chocolate e café, UAU, QUE DELÍCIA. Para ser mesmo perfeito só
faltava uma bolacha. E eis que ao dizê-lo... UAU, QUE DELÍCIA. Eis um hassidi vestido de Kiss com um Oreo
na cabeça! UAU, QUE DELÍCIA. Os três, a muçulmana, a cristã e o judeu a conviver tão bem com as suas
bandeirinhas brancas numa dança da paz. Maria Clara está comovida e o babada com tudo aquilo, mais
ei-la de repente empurrada por uns cossacos vestidos de pudim com as cores da Ucrânia, alcoolizados
por vodka. A Maria Clara só interessava o pudim mas os movimentos eram tão ágeis e escorregadios que
ela não lhes conseguia pôr a mão em cima. Antes que escorregasse, Maria Clara avança para se cruzar
com um monte de batatas fritas. Uns Mirlitons tão deliciosos e chiques que até as abelhas cuidavam ver
o néctar sagrado no seu amarelo.
Oh não, a Maria Clara está tão doida que até lhe pareceu ver a tia e a Luísa no meio das abelhas!
Está Maria Clara a matutar nas parecenças enquanto tenta arrancar uma batata quando POW,UAU, QUE
DELÍCIA, as flautas das francesas transformam-se em poppers coloridos que a deixam desnorteada! Num
ápice encontra-se no meio de uma trip com chávenas de chá de ‘smileys’. A experiência do milénio! Será
real? Será para a sua idade? Terá bebido demais da garrafa da Tia?
O que é certo é que a Tia aparece, a comer doces e a dançar feliz. O Xerife tentar detê-la mas é impedido
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pela Fada do Açúcar que gosta de ver a Tia dançar com Drosselmeyer. Dá-lhe uma paz doce.
Paz essa que é interrompida por Luísa que aparece agora sabe-se lá de onde! Afinal ela estava mesmo ali.
Curiosa, vendo que Drosselmeyer não lhe presta grande atenção, Luísa decide puxar à parte o príncipe QN
que arrasta consigo Maria Clara pela mão. Luísa quer um espaço real para as abelhas que ela considera
serem uma boa metáfora para o estado do mundo.
– Metáfora é muit’fora, responde-lhe o príncipe QN.
Maria Clara reitera o pedido de Luísa e insiste com o príncipe QN para que faça alguma coisa. Mesmo que
o resultado não fosse um universo como o das abelhas, onde todos são livres e ninguém chateia ninguém,
ao menos que ele pudesse fazer com que não se perdessem todas as personagens dos dois mundos que
ela entretanto conhecera.
E eis que o príncipe QN avança.
E tudo se torna claro.
Lentamente o mundo começa a mudar.
Vê-se tudo. A casa, o outdoor, o parque de diversões.
Mas em pontinhos numerados por preencher. Figuras a preto e branco por colorir.
Afinal as coisas estavam todas umas ao lado das outras! É esse o segredo!
– Observar o padrão. É esse o mundo QN. Lentamente o mundo começa a mudar.
Vê-se tudo. A casa, o outdoor, o parque de diversões.
Mas em pontinhos numerados por preencher.
Figuras a preto e branco por colorir.
Afinal as coisas estavam todas umas ao lado das outras! É esse o segredo!
– Observar o padrão. É esse o mundo QN.
CABRIOLA
TRANSIÇÃO: MUNDO QN
(Local: QN)
Rainha dos ratos, livre. O mundo da imagem, livre. As geografias, livre. Os trabalhadores e as abelhas, livres. Tudo liberto duma clausura conservadora. E eis-nos a entrar no mundo do ouro doce. Abelhas dançam
com flores. Flores dançam com abelhas. Abelhas dançam com abelhas. E flores com flores.
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Drosselmeyer, a tia, o príncipe, Maria Clara, o Xerife, a Fada do açúcar, e até mesmo Luísa encontram-se
no meio daquele jardim e celebram uns com os outros, dançando em rodopio. Trocam olhares e pares de
dança. Transformam-se todos em preto e branco aos pontinhos.
Estamos tão distantes dos mundos anteriores que ali vemos a casa, acolá a montanha e mais à direita
o mundo dos doces. O mundo QN é isso tudo. É o mundo onde só interessa a totalidade. Onde tudo tem
importância. Onde unimos os pontos. Porque a nossa vida é feita de muitas coisas. Partilhamos mundos.
Somos complexos. Ou melhor, não somos! Em QN ninguém é, estamos a ser. Maria Clara estava a ser. Era
este o seu rito de passagem. Como a dança é um rito de passagem. Uma outra linguagem fora do verbo.
Quem lhe dera que os seus pais, avós e irmão pudessem ver, ou sentir, viver, perceber.
Estariam ainda a dormir? Estariam zangados?
Maria Clara espreita para dentro da casa… mas só se vê a si própria.
Ela estava a ser. E estava a ser Maria Clara. Sem obrigações de ser genuinamente qualquer coisa.
Entusiasmada, arranca o príncipe QN que dança agora nos braços do Xerife, e beija-o nos lábios doces.
Sente-se como uma abelha na flor.
E o bater das pestanas acorda os seus pais que lhe vêm fazer uma visita.
Acordam desorientados com tanta informação por preencher.
Depois de o príncipe QN os receber com afabilidade, Maria Clara, surpreendida mas calma, explica aos
pais as suas experiências que são só experiências. Sem objetivos para além da viagem na experiência.
– Eu estou bem. Ou melhor, eu estou a ser do belo e do bom.
Todos corroboram o relato e a família agradece a todos o facto de terem cuidado dela.
SAUTÉ
FIM: QN
(Local: Um favo)
Afinal é sempre tudo mais simples, Maria Clara. Estava tudo na tua cabeça, Maria Clara. Como nas nossas. Cabeças por preencher. Olhos que apreendem as coisas sempre à sua maneira, pestanas batidas a
ritmos diferentes. Porque cada um faz o seu mundo. Os mundos são líquidos, instáveis, mutantes. Cabeças
em transformação. Por vezes vazias, por vezes cheias. Os nossos corpos em transformação. Por vezes
aeroportos de abelhas, outras vezes sofás para gatos. Os nossos sentimentos em transformação. Por
vezes dedicados a rapazes, outras vezes a raparigas, outras vezes a todos e até borboletas.
QN é transformação.
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Para além de BoBos, hippies, hipsters, nipsters, modernos, chiques radicais a valer, furry fandom,renaissance fandom, gender benders, cosplayers, punks, atletas, cibergóticos, hooligans, nerds, hackers, ursos,
betos e betas, leathers, militares, mods, animes, naturistas, rockers de glam e tudo mais, skaters, surfistas, satânicos, e para completar os quatro famosos S, os straight edge,tribais, vitorianos, novos nómadas,
etc. e etecetera.
QN é isto e mais.
É chamar para vir para a mesa e ao som do ruído ver uma árvore caída coberta de baba de bicho-da-seda.
– Vem para a mesa, já disse.
QN é estar vestida de princesa com barba de flores.
Mistura de animal e vegetal.
Que potência tem QN!
É ser estranho.
É como… é ser queer.
Queer Natioooooooooooooooooon.
Da próxima vez que lhe perguntarem de onde vem, responderá: QN.
Da próxima vez que lhe perguntarem quem é, responderá: eu não sou, eu estou a ser. E a ser, vírgula dois
pontos, QN.
Da próxima vez… que digo eu!
Não há próxima vez! Só há QN!
Então, por entre todos os seus mundos, Maria Clara decide colocar um arco de luz de natal.
E cantarola “Let it bee” dançando ao som de uma melodia que tantas vezes escutara no vinil do avô.
No seu próprio ritmo dança, dança e dança. Como as abelhas. UAU, que doçura, QUE DELÍCIA. Dança como
as abelhas comunicam pela dança. A dança waggle. Ela estava certa! A sua lógica de vida, a sua ecologia,
estava presente desde o início. Intuíra desde o princípio. A vida, a sua vida, a sua subjetividade, e a sua
dança são linguagens que não têm de estar sujeitas a outras por obrigação. Como ela não tem de estar
sujeita à circunscrição da linguagem dos outros.
O mundo faz-se fazendo. Traçando pontos. Colorindo falhas.
À sua volta só há passado.
Resta-lhe, abelhuda, especular sobre o futuro.
E que assim seja: “Cumpra-se em mim” Maria [Lucas 1.38]
Que sejamos QN.
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DIREÇÃO ARTÍSTICA
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