SOBRE O USO DA ORGANIZAÇÃO PATOLÓGICA: REFLEXÕES CLINICAS.
Ana ARAUJO
I- Introdução
Este trabalho tem como objetivo discutir a presença e uso da organização
patológica na análise do paciente de 12 anos. Este paciente foi escolhido, pois
estudando sobre a temática relatada acima pensava no seus atendimentos e no
maneira como fazia uso da organização como “uma família de sintomas defensivos”
que o ajudavam a evitar a ansiedade. (Steiner, 1997a, p.18).
E, ainda, nas oscilações de organização e desorganização na vida e nas
sessões. Sobre isso, Steiner (1997b) comenta que “estas flutuações podem ocorrer
ao longo de meses e anos, durante o desenvolvimento de uma análise, mas podem
ser vistas nos detalhes de uma sessão, como mudanças momento a momento”
(p.45).
Para tanto, farei uma contextualização do histórico clínico e, na sequência,
apresentarei o relato da sessão que será utilizado para discussão teórico-clínica.
II- Histórico Clínico
GabrielI tem 12 anos e está em análise duas vezes por semana desde
fevereiro de 2013. Esta é sua segunda análise, a primeira foi de março de 2008 à
novembro de 2010 quando o pai interrompeu alegando dificuldades financeiras. Em
janeiro de 2013 me procurou para retomar os atendimentos.
Nasceu prematuro com 6 meses e 1 semana, fruto e uma gestação
complicada em que sua mãe passou 5 meses hospitalizada por conta de fortes
dores. Permaneceu por 3 meses na UTI Neonatal sem intercorrências. A mãe quem
cuidou de Gabriel até a idade de 2 anos quando ela descobriu um câncer de mama
avançado. A partir de então, passou por cirurgia, quimioterapia e radioterapia e
faleceu 10 meses após o diagnóstico.
Neste período em que sua mãe estava em tratamento, Gabriel ficou sob os
cuidados de sua avó e tia materna. Ambas tinham uma relação difícil com a mãe de
I
Gabriel é o nome fictício dado a paciente em função da maneira angelical como se apresenta.
Gabriel, sua avó era e ainda é muito autoritária e explosiva, assim a relação dele
com ela é difícil e mediada pela tia.
Após a morte da mãe o pai de Gabriel deprimiu e ficou sem condições de
assumir os cuidados do filho. Assim, ele continuou sob cuidados da família da mãe.
Quando Gabriel estava com 6 anos o pai se casou novamente e retirou o
menino dos cuidados da família da mãe, período que foi difícil porque foi proibido de
ver a tia e a avó. A madrasta pareceu acolhê-lo como filho e assumiu todos os
cuidados. O pai novamente ficou de fora. Mas, a relação entre os dois tornou-se
insustentável e ela acabou abandonando pai e filho. Mais uma perda para a coleção
de Gabriel.
A queixa que o trouxe para análise em 2013 foi dificuldade em obedecer
regras, limites, agressividade e intolerância à frustração. Já foi convidado a se retirar
de duas escolas e, atualmente, corre o risco de repetir de ano, principalmente, pela
dificuldade de se manter atento e concentrado em aula. É inteligente e pensa que
pode resolver tudo pela sorte! O fato de ser inteligente contribui para seu
pensamento mágico de que não precisa se esforçar para obter nada. Permanece
grande parte do tempo no videogame jogando online com pessoas que nomeia
como “amigos”, alguns são da sua escola e outros não conhece. Prefere o
Playstation ao contato social.
Não consegue entrar em contato com o sofrimento de ter perdido a mãe e
com qualquer realidade que se coloque como difícil para ele, sua saída é se
desligar: “tudo bem!” ou “tanto faz”. Tem dificuldade de estabelecer vínculo e,
quando estabelece, dificuldade em mantê-lo. É comum apresentar-se sonolento nas
sessões e dizer que as pessoas que cuidam dele o fazem porque o pai paga.
Sessão de 01 de novembro
Esta sessão acontece na semana em que as queixas de mau comportamento
explodem na escola, em casa com a cuidadora, com a família da mãe e com o pai.
Gabriel entra com sono na sessão e vai direto ao banheiro arrumar o cabelo e de lá
para o divã.
A: Hoje você está com cara de sono... parece que não está difícil vir aqui.
G: Não.
Sacode a cabeça para arrumar o cabelo que parece o do Justin Bieber. Gabriel é um
menino lindo com cara de anjo.
G: O que nós vamos fazer? O que você quer jogar?
A: Eu preciso desejar o que vamos fazer... E você, o que você quer?
G: O que você quer jogar, Ana?
A: Me parece que você precisa colocar o jogo entre nós para não conversamos e,
assim, ficamos mais distantes.
Gabriel sacode a cabeça e fica em silêncio.
A: Preciso te dizer que recebi uma ligação do seu pai e ele me contou sobre suas
notas e, também, do comportamento em casa, na escola e na tia (tia materna que
cuida dele desde os 2 anos).
G: Podemos jogar?
A: Ok! Sei que é difícil para você falar sobre isso, porque aparece aqui um lado seu
que tenta manter longe de mim, para não me contaminar. Como se isso fizesse com
que eu me estragasse e você ficasse sem analista.
Gabriel sacode a cabeça e fica em silêncio.
A: Tem uma lado seu que consegue conquistar coisas e seguir em frente, mas tem
um outro lado te deixa desconectado com a vida, como você disse para seu pai que
se você tivesse morrido com sua mãe nada disso estaria acontecendo.
G: Eu falei isso porque sei que quando falo da minha mãe, meu pai para de falar.
A: É um assunto que você sabe que fere seu pai e usa para que ele não converse
com você, como o jogo que coloca entre nós para não conversarmos. Apesar desse
assunto ser doloroso para vocês dois.
G: Eu não me importo. Podemos jogar e conversar?!
A: Sim, podemos! Eu topo estar com você.
Escolhe jogar cara a cara.
Observo que Gabriel tenta adivinhar qual a minha carta mesmo podendo utilizar
várias chances do jogo e diz:
G:Ah! Eu sou muito sortudo! Viu como eu adivinhei?!
A: Vi, sim! Realmente você tem bom raciocínio e é inteligente, mas será que você
poderá fazer isso sempre? Na prova você pode chutar e não estudar?
G: Às vezes dá certo! Mas, na prova de matemática não deu.
A: Então, este lado desligado e desconectado com a vida acaba te colocando em
situações difíceis que nem mesmo sua inteligência pode te socorrer.
G: Mas, eu consigo!
A: Parece mesmo que você não precisa de ninguém, né?! Bem, nosso tempo
acabou por hoje, nos vemos na próxima sessão!
Gabriel me dá uma abraço apertado e se despede já na porta do elevador.
III- Aproximações entre a teoria e a clínica
Gabriel é uma adolescente lindo e apresenta-se assim de modo sedutor para
disfarçar a agressividade que domina parte do seu self. Assim, a sedução como, por
exemplo: Ana, eu te amo e você é da minha família II funciona como uma defesa
contra a precariedade do seu funcionamento psíquico e “como uma defesa, não
apenas contra a fragmentação e a confusão, mas também contra a dor mental”
(Steiner, 1991, p.333). Para ele é melhor seduzir e encantar a analista para que ela
fique com a sensação de que está tudo bem com ele – um anjo – e, ficar
II
Os grifos em negrito são trechos de sessão.
onipotentemente sozinho não precisando de ninguém, do que correr o risco de ter e
perder como aconteceu com a mãe.
Gabriel tem poucos recursos de ego para lidar com a vida e, o fato de ter
perdido sua mãe e sentir-se inconscientemente responsável somado à sensação de
empecilho na vida do pai, faz sua agressividade dominar seus aspectos bons
anulando as boas experiências e conquistas.
Gabriel se coloca no mundo de modo agressivo, o seu mau comportamento
funciona como uma forma de existir, para ele “o melhor [na] vida (..) é ser mau”
(Colognese, 2003, p. 80). Neste sentido Gabriel tem um “falso prazer” em ser mau,
ele se relaciona com os colegas de sala os incomodando, agredindo verbalmente e
fisicamente. Não percebe que este comportamento afasta os colegas ao invés de
aproximá-los. Esta inversão me faz pensar na libidinização da pulsão de morte pela
pulsão de vida, em que a pulsão de morte controla a pulsão de vida (Rosenfeld,
1971/1988). Há uma perversão no modo como se relaciona consigo e com os
objetos ao seu redor, a agressão e o incômodo que causa nos objetos se justifica
porque o protege de entrar em contato com a possibilidade de perdê-los, fica
blindado e onipotentemente autossuficiente - narcisicamente protegido pela
agressividade.
Há o domínio da pulsão de vida pela pulsão de morte o que
Rosenfeld (1971/1988) nomeia como fusão patológica e, segundo Colognese Junior
(2003) nestes casos, “a pulsão de morte toma emprestado a energia da pulsão de
vida e passa a controlá-la, ou dito de outra forma, a pulsão de vida está a serviço da
pulsão de morte – libidinizando-a” (p.80).
Quando diz a IaraIII cuida de mim porque meu pai paga percebo a
desconfiança quanto aos vínculos com os objetos amorosos, ou seja, de todas as
pessoas que cuidam dele, inclusive da mãe analista. Não pode confiar e nem
depender dos bons objetos, pois eles não foram bem introjetados. Em análise
trabalho sua dificuldade de confiar em mim como “bom objeto” e na transferência
percebo dois movimentos. Um em que estou identificada com sua mãe morta que
ele destruiu em fantasia e que o abandonou. E o outro em que estou identificada
com a mãe viva que pode guardar seus bons objetos, pois há uma aspecto dele que
se liga à mim, à vida e pode se ligar à realidade, pois vem à análise e demonstra
preocupação e cuidado com seu espaço na analista como nestes recortes de
III
Iara é uma nome fictício. Ela é uma amiga da mãe de muitos anos e que ajuda o pai a cuidar de Gabriel o
levando nas atividades durante o dia.
sessão: Quem vem depois de mim? Você estava me esperando? Você está
melhor?
Pensando sobre isso, recorro ao texto de Joseph (1990/1992) quando afirma
que pacientes que não tiveram contato com as boas qualidades do objeto se
encaminham para a psicose. Gabriel vive “estados confusionais”, mas percebo que
teve contato com o bom objeto, uma contato precário, pois não fortaleceu as boas
qualidades do objeto em si. Por esta razão, é facilmente ameaçado por qualquer
coisa que aconteça no ambiente interno e externo. Considero que com este paciente
posso “rastrea[r] o movimento e o conflito dentro da transferência, [e] trazer de volta
à vida, dentro de uma relação, sentimentos contra os quais tenha havido uma
profunda defesa ou que tenham sido vivenciados de passagem, rapidamente”
(p.170).
Assim, estes bons objetos podem se fortalecer e ganhar “raízes mais firmes”
no contato comigo, pois estou identificada com sua mãe que por sinal tinha o mesmo
nome que a analista e, também, era psicóloga. Observo nas últimas sessões o
interesse de Gabriel sobre minha idade, pois estou perto da idade em que sua mãe
faleceu e, então, está preocupado que possa acontecer o mesmo com sua mãe
analista. Teme vivenciar novamente as perdas que fazem parte da sua história.
É preciso estar atenta aos movimentos em análise deste paciente, pois ele
tem uma “gangue mafiosa”, como diz Rosenfeld (1971/1991), em operação. Após as
férias de julho que foram vivenciadas por ele como uma separação definitiva, evitava
contato com a analista, e sua “gangue mafiosa” estava mais fortalecida, assim, nas
sessões emitia sons contínuos e que me irritavam, me convidando - penso eu - a
fazer intepretações que serviriam a atuações cruéis, fazendo o par sádico com ele. E
atacava o vínculo quando me paralisava com esses sons ou tentando colocar o jogo
entre nós. Nestes momentos, tinha dificuldade de interpretar/pensar me sentia sem
palavras, emudecida.
Gabriel está se relacionado melhor consigo e com o outro, mas o observo se
refugiando em atividades como o videogame. O jogo tornou-se “um amigo agradável
e até perfeito” (Steiner, 1997a, p.18). Me faz pensar que jogando a “gangue mafiosa”
graça à vontade e ele não fica com a sensação de perda ou ansiedade pela falta de
vínculo já que são “amigos virtuais”. Logo, fica protegido destas sensações,
percepções e emoções – seguro.
Este paciente me suscita a pensar também na passividade em análise (O que
você quer jogar?, Tanto faz; Não me importo; silêncio e o sono) que disfarça
sua intensa atividade de destruição interna, ele “aparentemente espera que o[a]
analista carregue toda a responsabilidade pelo interesse ou progresso na análise”
(Joseph, 1971/1992, p.78). Em muitos momentos percebo que Gabriel espera que
eu deseje por ele e que guarde a esperança que possa integrar este aspecto
agressivo à sua personalidade e que possa atravessar “períodos escuros” e sair
vivo. Dito em outras palavras, que possa ter nova gestão sobre si acompanhado
pela analista.
A passividade de Gabriel está ligada à identificação com sua mãe morta e
“aniquilada” e que o refúgio que a passividade lhe proporciona, foi a saída que
encontrou para tolerar viver para não vivenciar a culpa pela morte do objeto materno
e, ainda, pela tristeza profunda do pai. Embora observe este funcionamento, ao
mesmo tempo, percebo uma parte da personalidade dele que quer se ligar à vida
através da relação com a analista que em fica como depositária e guardião dos bons
objetos, como mencionado anteriormente. Também considero que o tanto faz, o
que você quer fazer?, o colocar o jogo entre nós também são defesas para
manter a mãe analista a salvo dos seus ataques sádico.
Há uma mudança na qualidade das relações com os objetos externos, tem
apresentado em análise o cuidado e proteção dos amigos na escola. Mas, com
relação a si ainda não é capaz de perceber e diferenciar quando é bem cuidado ou
mau cuidado. Quando está introjetando o bom o ou mau objeto. Saber oferecer
cuidado você está melhor?, mas ainda não sabe receber.
IV- Considerações Finais
Portanto, penso que Gabriel tem aspectos saudáveis, mas que são frágeis
frente à “gangue mafiosa” que também lhe habita. Assim, o trabalho analítico se
encaminha no sentido de ajudá-lo a desenvolver a crença no bom objeto e recursos
de ego para integrar sua agressividade. Percebo há um bom vínculo com a analista,
fato este que favorece a introjeção do bom objeto em segurança e, também, o
fortalecimento dos recursos do ego.
Acredito que se utilize do “refúgio psíquico” (Steiner, 1997a) para se aliviar da
ansiedade e da dor, mas que em análise poderá emergir desse lugar e progredir. É
um paciente para muitos anos de trabalho.
V- Referências Bibliográficas
Colognese Junior, A. Um estudo sobre a perversão. In: A trama e o equilíbrio
psíquico: a questão econômica e as relações objetais. São Paulo: Edições Rosari,
2003.
Joseph, B. Transferência: a situação total. In: Equilíbrio psíquico e mudança
psíquica: artigos selecionados de Betty Joseph. Rio de Janeiro: Imago, 1990/1992.
________. Sobre a passividade e agressividade: sua inter-relação. In: Equilíbrio
psíquico e mudança psíquica: artigos selecionados de Betty Joseph. Rio de Janeiro:
Imago, 1971/1992.
Rosenfelf, H. Da psicopatologia do narcisismo: uma aproximação clínica. In: Os
estados psicóticos. Rio de Janeiro: Zahar, 1964/1968.
__________. Uma Abordagem Clínica Para A Teoria Psicanalítica Das Pulsões de
Vida e de Morte: Uma Investigação dos Aspectos Agressivos do Narcisismo. In
Melanie Klein Hoje: desenvolvimento da teoria e da técnica. Rio de Janeiro: Imago,
1971/1991.
Steiner, J. Uma teoria dos refúgios psíquicos. In: Refúgios psíquicos. Rio de Janeiro:
Imago, 1997a.
________. As posições esquizo-paranóide e depressiva. In: Refúgios psíquicos. Rio
de Janeiro: Imago, 1997b
________. O interjogo entre as organizações patológicas e as posições esquizoparanóide e depressiva. In: Melanie Klein hoje: desenvolvimento da teoria e da
técnica. Rio de Janeiro: Imago,1987/1991.
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