OVNI / ET REPRESENTAÇÕES GRÁFICAS DE CRIANÇAS E JOVENS Mário Neves Silva * Resumo O estudo dos denominados fenómenos aéreos não identificados, iniciado, de uma forma sistemática, na década de 1970, em Portugal, revela uma particularidade pouco (re)conhecida, quer por uma parte significativa dos investigadores/inquiridores, quer pela população em geral, pouco afoita, aliás, para uma análise mais detalhada deste tipo de fenómenos. É assim que procuramos apresentar um conjunto de representações gráficas, realizadas por crianças e jovens, recolhidas no território continental português, tendo como suporte o respectivo relato, sempre que possível em primeira-mão, de molde a facilitar o entendimento do contexto, em que os referidos registos gráficos foram elaborados, para além de um conhecimento mínimo sobre os seus actores, nomeadamente a idade e o género, pois a sua identidade foi preservada, por não nos parecer fundamental no âmbito desta análise. 1. Introdução No âmbito do projecto pioneiro do CTEC (Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, da Universidade Fernando Pessoa), sobre as representações iconográficas OVNI / ET, do séc. XX, em Portugal, cujos resultados preliminares foram apresentados na palestra realizada no dia 1 de Junho de 2006, no auditório da referida Universidade, uma das suas componentes mais curiosas é a que diz respeito aos registos gráficos produzidos por crianças e jovens, até aos 13 anos, nem sempre valorizados no contexto de uma fenomenologia que teima em desafiar os parâmetros científicos vigentes. Nesta pequena amostra (17 registos de observação, com um total de 25 testemunhas, que ilustraram graficamente o conteúdo das suas narrativas), a possível, pois na maioria dos casos investigados, tendo como protagonistas os mais novos, poucas vezes estes eram solicitados para ilustrarem o acontecimento, damos conta de cerca de 20 esboços e desenhos, a maioria originais, mas também algumas reinterpretações baseadas nas narrativas das testemunhas, que abrangem o universo cronológico entre 1918 e 1994. Apesar do carácter subjectivo, que não pode deixar de ser considerado neste trabalho, julgamos, contudo, ser importante dar a conhecer os mesmos, pois são raras as abordagens, a nível mundial, acerca da forma como os mais novos vêem e registam este tipo de fenómenos. Mesmo que nos questionemos sobre as características representadas (forma, dimensões, pormenores, cores, etc.), a partir duma observação relatada por um rapaz ou rapariga, as quais podem não corresponder exactamente ao que realmente foi observado, pensamos que não podíamos adiar por mais tempo o conhecimento da situação portuguesa, que, pela primeira vez, é apresentada neste trabalho. 2 - Materiais e Métodos A informação que a seguir se apresenta foi recolhida, principalmente, ao longo das décadas de 1970 e 80, pelo que não podemos deixar de lembrar o facto de, no momento da recolha de parte dos testemunhos, a idade já não corresponder àquela considerada neste estudo. Contudo, como a base do trabalho são as representações referentes à idade no momento do evento, resolvemos considerar todos os casos situados dentro do limite abaixo referido. Felizmente que, na maior parte dos casos, foi possível realizar os registos gráficos em tempo real (trabalho meritório, que se reconhece aos vários inquiridores / investigadores que estiveram em contacto directo com as testemunhas), pelo que, aí, as representações são mais verdadeiras, ou seja, correspondem a uma idade da testemunha, contida dentro dos limites estabelecidos (6 a 13 anos, inclusive). Assim, atentemos na breve síntese dos vários relatos considerados neste trabalho e narrados pelas testemunhas, uns sendo a transcrição real das suas palavras, outros apenas excertos elaborados pelos inquiridores, a partir dos relatos, no terreno, no momento da investigação de campo. Registo 1 Agosto de 1918 Vassal, Valpaços menina de 12 anos “… a certa altura reparei que em vez de uma Lua, havia duas! Estava distanciada da Lua e dava a impressão que estava mais próxima de mim. Estavam uma longe da outra”. “… Não calcula o medo que tive … inesperadamente a segunda “Lua” começou a rodopiar sobre si com grande velocidade e no mesmo lugar, parada. Não vi como aquilo desapareceu porque fugi para casa, pensando que era o fim do mundo. Nem sentia os pés na terra, de correr tão depressa” (ver Figura 1). Figura 1 Registo 2 Verão ou Outono de 1943 S. Cosme do Vale, Famalicão menino de 6 anos “… vi deslocar-se em direcção à minha casa, um vulto branco, de forma humana … principiei a sentir-me alterado quando o vulto se aproximava da minha janela. Estupefacto, acabara de me aperceber de algo de anormal. O seu andar não produzia ruído. Parecia deslizar…Cheio de medo e em pânico, consegui perguntar à minha mãe o que era aquilo, apontando-lhe simultaneamente o estranho ser que, no momento deslizava ainda debaixo da minha janela, prosseguindo na sua lenta deslocação. Minha mãe, olhando bem no local que eu lhe apontava, dizia bem alto: “- Aquilo quê?” E insisto: Aquilo branco!” “… - Aquilo não é nada” (ver Figura 2). Figura 2 Registo 3 Verão de 1953 Monte Grande, Vila do Conde menina de 10 anos A testemunha brincava com outras crianças no exterior de uma residência, quando a sua atenção foi despertada pelo aparecimento de um “objecto” tipo prato invertido, ainda visto em movimento sobre uma mata de eucaliptos, situada do lado contrário da estrada e sobre o lado direito da testemunha . O “objecto” permaneceu muito tempo imóvel mesmo sobre a copa dos eucaliptos. Era prateado, reflectindo talvez o brilho do sol, mais do que a própria luz. A testemunha associou a forma do “objecto” a “um prato de sobremesa à sua beira”, e recorda-se que ele se manteve sempre numa posição horizontal e não fazia ruído (ver Figura 3). Figura 3 Registo 4 1953 ou 1954 Aldeia de Valongo, Cernache, Coimbra menino de 6 anos Primeira experiência: “Estava eu numa eira a brincar e ouço um silvo. Naturalmente, olho na direcção donde me parece que ele provém e vejo passar muito rapidamente um objecto. A distância não sei exactamente, mas seria relativamente perto. O objecto era pequeno. Pensava que aquilo era um avião teleguiado, de que se falava na altura. Só muito mais tarde me apercebi que podia ser outra coisa”. (ver Figura 4) Registo 5 Idem - Segunda experiência: “… o dia estava claro, sem nuvens … eu paro e apercebo-me de qualquer coisa que estava parada sobre mim… Levantei um pouco os olhos porque vi um vulto sobre mim. Estava relativamente baixo e parado, à altura de um poste de energia eléctrica, sensivelmente a meio da vertical da estrada. Era circular, com uma pequena cúpula (comparei essa parte superior a um pião), mas na parte de baixo era lisa… Não havia ruído nenhum, nem qualquer movimento. Estava a poucos metros de distância (talvez uns quinze) e outros quinze de altura. Assim que o vejo, no momento imediato, o objecto fez uma deslocação instantânea, afastando-se em direcção a um campo. Antes de descer ali, vi o objecto abrandar a velocidade e acabar por descer. O deslocamento foi muito brusco e só me apercebi dele de novo quando abrandou sobre o campo… Teria um máximo de três metros de diâmetro, isto em função da largura da rua… Não vi luzes nem ouvi sons… Por toda a superfície do objecto havia cores, várias, não reflectidas do sol, mas cores próprias. Era uma distribuição uniforme que dava um tom que não era brilhante. Mas sei que não era algo de nebuloso ou gasoso. Era uma estrutura como se fosse um automóvel”. (ver Figura 5) Figura 4 Figura 5 Registo 6 Fevereiro ou Março de 1955 Estrada Torres Vedras Lisboa (a partir do interior de uma camioneta) menino de 8 anos Por volta das 18,00 horas (ainda havia claridade), a testemunha e sua mãe viram um objecto não convencional de forma ovóide, com cúpula, cruzar em sentido contrário ao andamento da camioneta e a uma distância da ordem dos 50 metros. A sua trajectória era ligeiramente curvilínea, tendo rasado o solo a uma distância de 5 metros, para em seguida voltar a subir. O objecto não tinha luzes, mas apenas uma cor metalizada, tipo alumínio, com um diâmetro entre 10 e 15 metros e uma altura de 3 ou 4 metros. A sua forma, vista de um plano superior, era circular (ver Figura 6). Figura 6 Registo 7 Janeiro de 1977 Vila das Aves três rapazes de 13 anos Curiosamente, a importância deste caso resume-se, quase exclusivamente, às representações gráficas que as testemunhas realizaram, na presença do respectivo professor (ver Figuras 7 e 8). De qualquer forma, aqui fica o pequeno relato de um dos rapazes: “Foi em Janeiro de 1977. Eram cerca de 3 horas (da tarde), de um sábado, na Vila das Aves. Eram uns objectos em forma de disco. Os observadores fugiram, pois tiveram medo” (ver Figuras 7 e 8). Figura 7 Figura 8 Registo 8 - 14 de Janeiro de 1977 Padronelo, Amarante uma menina com 10 anos e dois meninos de 10 e 9 anos, respectivamente “Havia umas nuvens à volta e a “figura” aparece num espaço azul, um pouco acima daquele monte… A “figura” não era como nós. Tinha a cabeça um bocado alta e sem cabelo. Usava um manto branco até aos pés, mas estes não os vi. Não vi nada na cabeça. Nos braços vimos umas mangas um pouco largas e as mãos eram avermelhadas ou cor de laranja, assim como a cara. Quando olhei vi-o já parado e com os braços um pouco abertos. À volta dele não vi nada a não ser as tais nuvens… A senhora professora depois até me perguntou se víamos através da “figura”, se ela era transparente. Mas não era”. “Sei que era de tarde e estávamos a fazer ginástica… Tinha uma cabeça grande, maior que a nossa. Todo ele era muito grande, parecia um gigante. Quando olhei estava parado. Vi um manto branco pelas costas. Na cabeça não vi nada… Era de cor alaranjada escura. Não reparei se tinha mãos. Aquilo esteve para aí uns cinco minutos e depois desapareceu de repente, mas não vi para onde. Estive sempre a olhar para lá”. “A “figura” foi aparecendo até ficar completa. Começou por cima, pela cabeça, até ficar inteira. Eu acho que era um pouco transparente… Tinha uma cabeça muito alta, um manto e as mãos também eram avermelhadas. Na cabeça não se viu nada. Era diferente da nossa. Tinha um queixo meio redondo e não tinha cabelo. A “figura” era muito grande. As mãos pareceramme fechadas. O manto era um tipo de vestido até ao fundo… Aquilo estava parado no ar. Não vi pés assentes em nenhum lado. Quando desapareceu foi ao contrário. Começou pelo fundo até desaparecer a cabeça” (ver Figura 9). Figura 9 Registo 9 6 de Abril de 1978 Escola Preparatória Escultor Fernandes de Sá Gervide, V. N. de Gaia duas meninas e dois rapazes de 11 anos “… Estava a fazer um desenho da paisagem à minha frente quando, de repente, olhei subitamente para os prédios em frente, em construção e reparei numa coisa preta … aquilo começou a vir pelo ar e então aquilo transformou-se em fumo preto… Aquilo preto, mesmo um homem pequenino (não se via mãos nem nada), estava em cima, de pé, sobre um bico do telhado da casa em ruínas. Pareceu-me mesmo pequeno porque quando ele se aproximou vi que era mesmo parecido com um anão. Veio a voar, em linha recta, na minha direcção, “esticadinho” … Era pequeno, pouco mais de um metro, um metro e dez. À medida que se aproximava, essa coisa preta ia ficando mais clara, até que desapareceu, como quem apaga uma fogueira e fica um fumo ligeiro. Contei em casa aos meus pais mas eles disseram que tinha sido imaginação minha. Mas não. Eu vi mesmo aquilo. Mas aquilo não era uma pessoa igual a nós, porque era tudo em redondo. Fizemos logo uns desenhos que entregamos à nossa professora” (ver Figura 10). Figura 10 Registo 10 19 de Abril de 1978 Colégio dos Órfãos, Porto um rapaz de 13 anos “Calculo que aconteceu cerca das duas horas da madrugada. Acordei subitamente e vi um homem de que não reconheci a cara. Levantei a cabeça mas não tive tempo de perguntar quem era. Estava imóvel; depois virou-se e passou entre as cortinas. Fiquei a pensar naquilo e ainda me custou a adormecer. Não tive pesadelos. Acho que mais ninguém viu. Não fez ruído algum. Não se conhecia a cara, talvez por causa do escuro. Era um tipo comprido, tinha um cabelo normal, parecendo-me ter um aspecto azulado no tronco. Ele estava aos pés da minha cama. Levantei a cabeça e vi-o durante uns 15 segundos. Ele afastou-se para o meu lado direito” (ver Figura 11). Figura 11 Registo 11 20 de Abril de 1978 Colégio dos Órfãos, Porto dois rapazes de 13 anos Primeiro testemunho: “Estava na cama e acordei para ir à casa de banho. Ao levantar-me, vi um homem à minha frente. Tive medo e já não me levantei. Limitei-me a observar o que fazia. Dava umas voltas, mexendo nas toalhas que temos e ao passar pelas cortinas estas não se mexiam. Não fazia ruído. Passado uma hora, deu-me a ideia que ele foi atingido por um feixe de luz e foi desaparecendo. Eram três e meia da manhã … Fiquei nervoso, na altura, com o coração a bater muito. A altura era entre 1,80m e 2 metros. Coberto por uma capa que calculo ia até ao joelho. As luzes de vigia são fracas, mas era tudo um tom escuro. Trazia um capucho na cabeça, mas não consegui ver o rosto. Apenas umas palas levantadas dos lados. A capa era larga, não ajustada ao corpo. Vi-lhe o que seria um braço, mexendo normalmente. Vi dedos normais com uma luva, porque havia algo mais escuro. Para baixo não vi mais nada, porque a cama cortava essa parte. Andava normalmente, com passos lentos, com um leve ruído, tipo sapatilhas, que não acordava ninguém. Vi-o tocar nas toalhas e no altifalante que está colocado no interior do dormitório. Ao desaparecer, não sei se saiu uma luz do peito dele, ou se, pelo contrário, veio de fora, do lado de uma das janelas que dá para o exterior. A cor da luz era alaranjada escura. Era um raio luminoso, instantâneo, que se propaga e a figura desaparece subitamente”. Segundo testemunho: “Estava nessa noite meio desperto. Senti um ruído ligeiro, que me fez despertar, e vi uma figura a caminhar entre as camas. Quase um ser humano. Trazia um capuz e uma capa para baixo. A luz da vigia estava acima de mim e pude ver que tudo era de um azul-escuro. Não reparei em braços nem rosto e outros detalhes. Tinha um caminhar suave, com passos leves e prolongados. Via-se umas coisas a mexer no lugar dos braços. Para baixo, ao ver as passadas, vi que ele teria vestuário por baixo da capa. O tipo caminhava como quem tivesse joelhos. Ouvi, a dada altura, um som metálico, como quem bate numa cama. Eu estava a olhar para a frente. Pouco antes, o assistente tinha saído do dormitório. O ruído era de um choque. Ouvi-o antes de ver a figura, que não se compara com a do assistente. A figura começou logo a movimentar-se entre as camas, tendo entrado na cela de um dos assistentes, que me parece não estava lá. A última imagem que tenho é a dele a caminhar no sentido da porta” (ver Figura 12). Figura 12 Registo 12 31 de Agosto de 1978 Lisboa menino de 7 anos “Objecto” escuro, com luzes à volta que o iluminavam, dando-lhe uma forma arredondada. “… eu sei muito bem o que é um avião… De minha casa, que fica perto do aeroporto, vejo passar muitos de noite e nenhum se pareceu com aquilo. Os aviões têm luzinhas nas pontas das asas e fazem pisca-pisca e aquilo tinha muitas luzinhas brancas à volta”. Fez um desenho espontâneo, logo após a observação (ver Figura 13). Figura 13 Registo 13 - 30 de Dezembro de 1983 Armamar, Viseu um rapaz de 10 anos “O objecto tinha forma circular …, apresentava uma espécie de disco luminoso muito intenso, avermelhado, de grandes dimensões… Lateralmente eram visíveis várias janelas donde sobressaía uma luminosidade esverdeada em todas elas. Por cima, nas extremidades circundantes, em espaços intervalados das referidas janelas, a configuração de pequenas estrelas azuladas” (ver Figura 14). Figura 14 Registo 14 10 de Setembro de 1990 Alfena, Valongo dois rapazes de 10 e 12 anos Tudo começa quando um grupo de crianças, que se dirigiam para a escola, alerta para um “balão” que se deslocava no céu. O objecto voador parecia uma “tartaruga com pernas”, pois segundo a expressão de uma das muitas testemunhas, para além da forma circular, apresentava alguns “apêndices”, na parte inferior. Teria entre 1 e 3 metros de diâmetro e dava a ideia de reflectir os raios do sol, que ainda se encontrava baixo. Um fotógrafo amador, alertado para a observação, registou uma sequência de 4 fotografias do objecto. É um dos registos portugueses mais bem documentados (ver Figuras 15 e 16). Figura 15 Figura 16 Registo 15 Outubro / Dezembro de 1993 Antas, Esposende duas meninas de 11 anos Observação efectuada de dois locais diferentes. Sensações de contentamento (por verem algo inédito) e de medo (acentuado por uma aproximação súbita do “objecto”). Movimentos rectilíneos irregulares, incluindo a referida aproximação. Contudo, foram as mudanças súbitas de direcção na trajectória do “objecto” que convenceram as testemunhas de que “aquilo não podia ser feito pelo Homem”. Os movimentos eram rápidos, já que o “objecto” deixava um rasto avermelhado, similar ao de um cigarro aceso, que se move no escuro. O “objecto” ao deslocar-se parecia dar “cambalhotas” sobre si próprio, como um prato de sopa atirado ao acaso pelo ar. Havia uma face que nunca era vista (ver Figura 17). Figura 17 Registo 16 12 de Outubro de 1994 Ilha Terceira, Açores rapaz de 13 anos “… eu e o meu pai avistamos por cima da serra de Santa Bárbara… uma coisa redonda e muito iluminada, a passar rente à serra. O meu pai parou o carro e dali a uns vinte segundos ele desapareceu. As luzes, muito fortes, não deixaram ver tudo e também a cor” (ver Figura 18). Figura 18 Registo 17 19 de Outubro de 1994 Ilha Terceira, Açores rapaz de 13 anos “… à frente era redondo e branco e atrás deixava um raio cinzento. Estava parado. Ficou mais ou menos vinte minutos e depois andou e foi desaparecendo devagarinho” (ver Figura 19). % Por Género Figura 19 3 - Discussão Os dados disponíveis, referentes às crianças e jovens, não sendo deveras significativos, no universo de todos os registos nacionais, respeitantes aos fenómenos aéreos não identificados, como já afirmamos anteriormente, apresentam aspectos que importa realçar. Assim, desde logo, ressalta o facto dos rapazes estarem em grande maioria (mais do dobro), em relação às raparigas (19 para 8, ou se preferirmos, em termos percentuais, 70% para 30%, respectivamente), sendo que são os rapazes mais velhos (13 anos), aqueles que registam o maior número de observações (7), ao passo que em relação às raparigas, são as de 11 anos as que apresentam um maior número de relatos (4) ver Quadro 1 e Gráficos 1 e 2. Quadro 1 N.º Testemunhas / Idade Rapazes Rapazes Raparigas % por género 3 1 1 1 3 2 1 6 7 8 9 10 11 12 7 13 Raparigas 2 4 1 1 10 11 12 13 30 Rapazes 70 Raparigas Gráfico 1 Talvez seja também interessante referir que, sendo a capacidade de imaginação e o sonho, duas componentes fundamentais no desenvolvimento da personalidade das crianças e jovens, aquelas não retiram credibilidade aos seus testemunhos, antes lhes dão um cunho muito próprio. Aqui, gostaríamos de abrir um parêntesis, para dar nota de um trabalho deveras curioso, desenvolvido no ano de 1989 (“Ovnis em Braga e outra histórias”), por um professor de Línguas e Cultura Portuguesas, no Luxemburgo, com alunos de três turmas do 7.º ano de escolaridade (faixa etária dos 12/13 anos), que lhes lançou o desafio de escreverem e ilustrarem uma história, a partir de um sonho narrado por uma das alunas, que acaba por abordar o fenómeno das chamadas “abduções”, que é, também, desenvolvido de uma forma muito concreta nesta antologia. Aliás, algumas das expressões que podemos encontrar, no referido trabalho, reforçam esta ideia, como seja, “ECET” (Encontro com Extraterrestres), “nave”, “objectos voadores doutras galáxias”, “ovnis”, “insólito mundo dos viajantes do espaço, que querem manter relações de amizade com os humanos”, “invadida por extraterrestres” e ainda “Estamos perdidos!” “Estamos perdidos!” “Eles vão atacar!” “Eles vão atacar!” Seguidamente, apresenta-se uma das imagens que ilustram o referido trabalho. No caso particular da faixa etária que aqui consideramos, digamos que é aquela “em que a objectividade substitui o sincretismo” (H. Wallon, 1995, 214), logo, devemos entender as representações apresentadas como a tentativa de expressar factos que para eles corresponderam a algo de concreto, ou se quisermos, a situações vividas, portanto, passíveis de registos gráficos consistentes e de acordo com a objectividade referida. Claro que exceptuamos as representações efectuadas já em idade adulta (em quatro registos - ainda que acerca de acontecimentos ocorridos enquanto crianças / jovens) e as reconstituições realizadas pelos investigadores (presentes em três registos). Outro dado interessante tem a ver com a distribuição geográfica dos registos de observação. Desde logo, é evidente que é na região norte de Portugal que se concentra o maior número de casos (precisamente, 11), em oposição ao número reduzido de registos nas restantes zonas (2 em cada uma delas), o que não deixa de ser uma coincidência curiosa (ver Quadro 2). A explicação para este facto poderá dever-se, por um lado, porque era na zona norte que se concentravam a maioria dos investigadores destes fenómenos e também, provavelmente, porque aqueles que estiveram no terreno revelaram um pouco mais de sensibilidade para a recolha dos grafismos dos testemunhos, mesmo quando eles eram apenas crianças ou jovens de tenra idade. Quadro 2 Número de registos Norte Centro Sul Açores 11 2 2 2 4. Conclusão Este trabalho é, essencialmente, uma compilação de dados e, só por isso, despretensioso, para quem o elaborou. Ele é uma pequena peça de um puzzle mais vasto, que configura o conjunto das representações dos portugueses acerca dos denominados OVNI e ET, que são, antes de mais, um fenómeno humano, logo, em que “o contributo científico das Ciências Sociais e Humanas, nestes domínios, será crucial para a compreensão e explicação das dimensões sociais e psicológicas destes fenómenos” (N. Lima Santos, 1997, 83). Seguramente que estas dimensões mais se evidenciam tratando-se de crianças e jovens, como é o caso presente. Claro que as representações têm, todas elas, uma grande carga de subjectividade, embora também exista uma parte que é objectiva. Difícil é, seguramente, saber onde acaba uma e onde começa a outra. No âmbito deste estudo não era fácil ir muito mais longe, até pela falta de grandes referências, noutras paragens, que nos permitam estabelecer comparações fidedignas. Julgamos, contudo, que outros contributos mais avalizados, que poderão também ser apreciados nesta antologia, permitirão ter uma perspectiva mais abrangente e elucidativa, em relação a um assunto que merece, indubitavelmente, ser analisado com os meios que as ciências dos homens têm ao seu alcance. Se pelo menos fomos capazes de despertar mais algumas consciências, para uma fenomenologia, que não é de hoje, mas continuará, provavelmente, ainda por muito tempo, a desafiar os padrões científicos vigentes, então talvez tenha valido a pena este pequeno contributo. * Licenciado em Ensino de Educação Tecnológica. Investigador associado do CTEC. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS - Anomalia, Porto, CNIFO, 1993, Vol. 1, pp.173-181. - DUBORGEL, Bruno Pedagógicos, 1995. Imaginário e Pedagogia, Lisboa, Instituto Piaget, Horizontes - SANTOS, Nelson L. «Estudo Exploratório Sobre As Crenças E As Representações Dos Portugueses Acerca Dos Fenómenos “OVNI” e “ET”», Anomalia, Volume 5, pp.79-83. Porto, SPEC, 2001. - HAINES, Richard F., KERTH, Linda How Children Portray Ufos, Journal of UFO Studies, n.s. 4, pp.39-77, CUFOS, Chicago, 1992. - VICENTE, Carlos Alberto Guerra Ovnis em Braga e Outras Histórias, pp.9-29, Braga, 1989. - WALLON, Henri A Evolução Psicológica da Criança, Lisboa, Edições 70, 1998. - http://aliensandchildren.org/