Colunismo social e discurso: para quem e com quem a sociedade fala1 Autores Cárlida EMERIM2 Luciano COSTA3 Universidade Federal do Pampa, São Borja, RS Resumo O presente artigo prepõe-se a mapear o modo de produção das Colunas Sociais do jornal FOLHA DE SÃO BORJA no período compreendido entre 1970 e 1979, sob o regime da ditadura militar no Brasil, com vistas a investigar, a partir dos preceitos semióticos, quem são os “realizadores” destes textos e “quem são os receptores” discursivos, ou seja, para quem e com quem a sociedade fala através das colunas sociais da época. Palavras-chave História, colunismo social, ditadura, política, jornalismo. 1. Introdução: preparando-se para a festa O presente artigo dedica-se a mapear “o como” se fazia o colunismo social na cidade de São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, focando o interesse em quem as escrevia e para quem elas se dirigiam, na proposta de recuperar as marcas discursivas deste fazer jornalístico, num período inscrito entre 1970 e 1979, no jornal local Folha de São Borja (FSB). Este artigo se insere como parte de um projeto da recuperação histórica da mídia em São Borja, com o objetivo específico de a estudar as colunas sociais. Cabe organizar um percurso contextual que possa apresentar o ambiente/espaço em que se 1 Trabalho apresentado no 7º Encontro Nacional de Pesquisadores em História da Mídia, evento da Rede Alfredo de Carvalho (ALCAR). 2 Cárlida Emerim. Doutora em Comunicação e Processos Midiáticos pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos; Mestre em Ciências da Comunicação com ênfase em Semiótica pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos; Especialista no Ensino das Artes Visuais pela Universidade da Região da Campanha e Jornalista graduada em Comunicação Social na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Líder do Grupo de Pesquisa HISTÓRIA DA MÍDIA da UNIPAMPA Campus São Borja. Professora Adjunta II da Universidade Federal do Pampa, Campus São Borja (RS). [email protected] 3 Luciano Gonçalves da Costa. Acadêmico do 3ª semestre de Comunicação Social – habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Pampa – Campus São Borja. Bolsista de Iniciação à Pesquisa. luciano- [email protected] insere a pesquisa empreendida, os aspectos mais gerais sobre o período recortado para a análise bem como breves apontamentos históricos sobre o veículo a ser estudado, o jornal Folha de São Borja4. 2. Desenvolvimento: o local da festa A cidade de São Borja, localizada no interior do Rio Grande do Sul, às margens do Rio Uruguai, fica a 595 Km da capital Porto Alegre, perpassando cerca de oito horas de viagem de carro ou doze horas de ônibus de linha convencional. Faz divisa com a cidade argentina de Santo Tomé, na Província de Corrientes, sendo que elas são separadas pelo rio Uruguai, ligadas pela Ponte da Integração, construída em 1998 que, depois das balsas e pequenas embarcações, é o único modo de ligação entre as duas cidades. A cidade foi fundada em 1682 como um dos Sete Povos das Missões Jesuíticas, tendo muitos artefatos históricos que remontam a este período em museus e praças públicas na cidade, ainda hoje. É considerada a civilização mais velha do estado do Rio Grande do Sul sendo povoada ininterruptamente desde a sua fundação jesuítica. Por ser a terra natal de dois ex-presidentes do Brasil, Getúlio Dornelles Vargas e João Belchior Marques Goulart, há mais ou menos dez anos propõe-se a construir um pólo de turismo cultural evidenciando o slogan “Terra dos Presidentes”. Além dos túmulos dos dois expresidentes, a cidade conta também com o Mausoléu da família Brizola onde está enterrado Leonel de Moura Brizola, fundador do Partido Democrático Trabalhista (PDT) em 1981 e ex-Governador do estado do Rio de Janeiro em duas legislaturas, um político tão importante quanto polêmico na história recente do Brasil. A economia do município gira em torno da agricultura, sendo a monocultura do arroz o principal mercado de trabalho há cerca de 50 anos. Sabe-se que a cadeia produtiva deste tipo de cultura não oferece muitas opções e/ou alternativas de atividade e trabalho, o que condiciona a cidade a não oferecer muitas oportunidades de emprego. 4 Em 2009, a Folha de São Borja passou a transpor algumas de suas reportagens publicadas nas edições impressas para um site da cidade que se dedica a exibir as festas e os acontecimentos da região, o FLASH SB, disponível em http://www.flashsb.com.br/?pag=ler¬icia=649 Por um aspecto, esta realidade promove o êxodo em busca de oportunidades de trabalho e renda e, sob outro, transforma os órgãos públicos municipais e o comércio num grande espaço de inserção do mercado de trabalho local. Sua localização na fronteira oeste do Rio Grande do Sul impõe algumas características específicas, tais como a existência de muitos quartéis do exército e a representação de diferentes órgãos federais. Considerando que, desde sempre, qualquer governo têm tendência em organizar um forte esquema de segurança em cidades de fronteira com outros países, pois responde com a preocupação em manter a integridade dos territórios nacionais, São Borja vivenciou, na maior parte de sua história, uma alta concentração militar e política. A partir destas características, em relação a estruturação social, com exceção das pessoas que não tem perspectiva econômica de mudança, grande parte da população se faz por estrangeiros temporários, ou seja, pessoas que ocupam cargos e postos em quartéis ou órgãos públicos e que permanecem na cidade apenas por períodos definidos. Esta espécie de mobilidade social, estabelecida pelas transferências constantes oferece à São Borja uma outra rotina: a mobilidade constante dos grupos sociais. Esta condição impõe do ponto de vista social e cultural, duas situações bem claras: 1) um fechamento de espaços dos grupos sociais que são naturais da cidade que possuem como característica integradora a permanência; e, 2) um fechamento em relação a estes grupos sociais estrangeiros cuja característica de permanência é desintegradora. Assim, o estrangeiro, de modo geral, é recebido com desconfiança e estranhamento, sendo, ainda hoje, muito difícil mudar este comportamento que era, em poucos anos atrás, mais rígido e radical, segundo relatos de moradores mais antigos. Nos anos 70, a realidade cultural e social era ainda mais pobre, pois, nesta época, tinha Getúlio morto e Jango deposto, não podendo, nem mesmo, usufruir do status dos dois ex-presidentes para alavancar alguma possibilidade econômica, quiçá turística. O nível de analfabetismo era alto, haja vista as inúmeras propagandas de incentivo ao MOBRAL que aparecem no jornal estudado no período bem como as reportagens e comentários que incentivavam as senhoras da sociedade a engajarem-se na proposta como educadoras. Desta observação é possível, também, afirmar, que o jornal era um produto caro para a população da época e, portanto, um espaço de acesso para poucos: os que sabiam ler e que tinham dinheiro para investir na compra do exemplar. Esta realidade precisou ser explicitada neste trabalho porque ela ajuda a entender o contexto da análise empreendida sobre quem produzia e para quem as colunas sociais eram destinadas no jornal Folha de São Borja nos anos 70. 3. O buffet: quitutes e bebidas O golpe militar de 1964, com o objetivo de manter a segurança nacional contra o comunismo e a corrupção, instituiu ações de repressão e cerceamento das liberdades civis. O marco político do regime foi as várias edições dos ATOS INSTITUCIONAIS (AI) que fundaram a proposta de legitimação da governabilidade do regime militar. O primeiro, o AI 1, alterou a estrutura institucional do país sem a consulta do Congresso, suspendeu imunidades parlamentares e abriu caminho para a suspensão de mandatos de diversos políticos como João Goulart, Leonel Brizola, Jânio Quadros, Miguel Arraes entre outros. A partir deste, outros Atos foram se repetindo e acirrando, cada vez mais, o controle sobre a sociedade, ao longo de suas publicações. Em 13 de dezembro de 1968, a edição do AI 5 foi o mais forte golpe para a liberdade de expressão no país e inaugurou o início do apogeu da Ditadura que se dá por toda a década de 70. O AI 5 institucionalizou a censura e tinha o objetivo claro de silenciamento da mídia, o que não atingiu somente o jornalismo, pois buscou controlar as informações em todos os meios e ampliou as ações de censura através das práticas de perseguição político-ideológica. Segundo a bibliografia consultada, a forma de censurar as publicações jornalísticas era ampla, pois o regime procurou apoio jurídico através de brechas na legislação existente e, desta forma, conseguiu oferecer uma aparência de normalidade ao aparato repressivo. Mas, dentro deste contexto, as formas que mais aparecem de censura são a autocensura e a censura prévia. A primeira constituía-se da supressão, pelos próprios jornalistas, de assuntos anteriormente informados pela Polícia Federal. A segunda submetia os órgãos de imprensa a exames em suas publicações antes da impressão ou distribuição, ainda na redação ou gráfica, por censores que vetavam, liberava total ou com restrições os textos e imagens. Os assuntos mais vetados, segundo Romancine e Lago (2007), “era a corrupção no regime, crises políticas, protestos estudantis, as condições de vida dos cidadãos comuns, citações a determinados indivíduos (dom Hélder Câmara, por exemplo), além da própria informação sobre a existência da censura”(pág. 130). Como aponta a bibliografia, é neste contexto específico, que se fortalece e reproduz as colunas nos periódicos brasileiros, visto que estas eram definidas por temáticas e pelos seus autores, com mais facilidade de serem fiscalizadas pelo regime. E, mais ainda, há um entendimento deste artigo que a coluna social se torna mais eficaz e importante neste período, porque não só já trazia para si o conceito de não tratar sobre notícias “sérias” e, como tão pouco, o de comentar ou opinar sobre elas ou sobre a realidade social. Mas esta postura pode ser interpretada sob duas facetas: 1) poderia constituir-se de uma estratégia da empresa para manter o veículo e a publicação sem censura; 2) poderia constituir-se de uma estratégia do próprio regime que oportunizava, com o reforço de temáticas “amenas”, a reiteração do estado de aparente normalidade que lhe interessava. Em São Borja, os anos 70 marcam um período de poucas publicações jornalísticas e o fechamento de empresas de rádio na cidade que somente retornariam em 1976. No campo do jornalismo impresso, muitas empresas que vinham atuando a partir dos anos 50 e 60 fecharam as portas alguns anos depois do Golpe Militar de 1964, tais como o Jornal 7 dias que tinha nomes importantes em seu quadro como Aparício Silva Rillo, Artur Freire Nunes, Enrique Athaydes, Moacir Sempé e Florêncio Aquino Guimarães que assinou trechos como este: (...) Enganam-se os que pensam que a opressão e a violência são fatores capazes de matar a força sadia de um idealismo. Nada mais errado. E a História, prova no desencadear na vida dos povos isto que estamos afirmando. Quanto maior for a pressão do tacão, dos preponentes sobre a consciência popular, esta mais se levantará, mais irá arregimentar-se e maior ânimo adquirirá na luta pela libertação. (...) A força construtora de um idealismo sadio haverá de construir uma Pátria grande na justiça e no solidarismo de seus filhos. 5 Nesta turbulência de fechamento e acirramento dos meios repressivos de controle social surge, em 24 de fevereiro de 1970, o jornal Folha de São Borja (FSB). O fundador da publicação foi José Grisólia, que nasceu em São Borja, mas mudou-se ainda criança para São Luiz Gonzaga, onde exerceu várias profissões. E sua história de vida, deixa claro que ele era um homem de posses e de contatos. Juntamente com filhos e sobrinhos, fundou a Gráfica A Notícia que lhe possibilitou fundar várias outras empresas jornalísticas adquirindo, mais tarde, também o título de jornalista para seu vasto currículo profissional. O jornal Folha de São Borja, doravante denominado FSB, foi gerenciado pelo Grupo Grisólia até 1976 quando foi vendido para um grupo de sócios liderado pelo advogado Roque Andres. Nesta época, o jornal era montado em São Borja e enviado pelo ônibus para a cidade de Santana do Livramento, distante 398 quilômetros, onde era impresso na Editora Jornalística A Platéia6. Desde a sua fundação, o FSB circulava semanalmente, todas as terças-feiras, com quatro páginas em formato standard, dividido em colunas sobre cultura, sociedade, esportes e crônicas, além das notícias gerais e de polícia. Não sofreu mudanças com a passagem de comando, sendo reformulado apenas mais tarde, em função das mudanças tecnológicas gráficas. Depois de todas estas explicações contextuais, há questões muito relevantes a serem consideradas quando se fala em Ditadura Militar em São Borja. A simples digressão histórica que fez para este artigo nos ajuda a encontrar três aspectos importantes para a reflexão. O primeiro deles está ligado ao fato de que o golpe militar de 1964 depôs um presidente são-borjense, João Goulart, que trazia uma proposta de governo diferenciada. O segundo remete a questão geográfica da cidade localizada na 5 Esta citação foi retirada do Jornal 7 dias, exemplar de 1964, pesquisado pelos alunos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa em 2006, por ocasião do projeto “Prolegômenos da Imprensa em São Borja”, coordenado pelas professoras Cárlida Emerim e Joseline Pippi. O resultado deste projeto é o livro Memórias sobre a Imprensa em São Borja, editado pela Universidade Federal de Santa Maria, em 2006. 6 É um dos jornais mais antigos da fronteira oeste gaúcha e tem hoje uma rede de rádios AM e FM, jornais impressos e on line. fronteira com a Argentina, portanto, zona de segurança nacional e, por isso, uma cidade extremamente militarizada, com pelo menos três quartéis e várias guarnições do Exército. O terceiro se refere à cultura econômica da cidade e região, eminentemente rural, agrícola e oligárquica, com o domínio de poucas famílias sobre a cultura do arroz. Esses três aspectos propõem o entendimento de que o regime militar iniciado em 1964 no Brasil deve ter causado impactos em São Borja, cujas repercussões ainda não foram estudadas. Mas, pode-se perceber, num simples mapeamento deste período no FSB que ele repetia algumas das hierarquizações sociais propostas na época e a coluna social, era um espaço de visibilidade política, não só de visibilidade social. A partir dessa contextualização, é possível perceber nas publicações das colunas sociais da Folha de São Borja alguns aspectos fundantes que recorrem, em diferentes instâncias, a estas reflexões acima propostas, como se poderá ver, a seguir, nas análises empreendidas. 4. O buffet: quitutes e bebidas Para analisar as colunas sociais, é preciso antes fazer um breve histórico sobre este estilo de produção no Brasil bem como definir os conceitos desta modalidade de fazer jornalístico que, na maior parte de sua existência e, ainda hoje, não é produzida por profissionais de jornalismo. Do ponto de vista histórico, a bibliografia consultada aponta para o início dos anos 30 das notas curtas sobre os fatos sociais, destacando como um auge deste tipo de jornalismo durante a década de 50, pois é nesta época que surgem algumas propostas de modernização do jornalismo brasileiro: não só do ponto de vista industrial/tecnológico como também em termos de estilo. As colunas eram, na verdade, pequenas notas que tinham espaço definido no corpo das diagramações e, por muitos anos foram o formato privilegiado das colunas sociais. E, neste sentido: Segundo Ana Paula Goulart, o colunismo durante estes anos representou um verdadeiro movimento contrário frente ás novas técnicas de padronização e impessoalização do texto noticioso, calcadas na objetividade, que buscava a construção do anonimato do redator. (SOUZA:2005, pag.02). Assim, quando a industrialização começava a reforçar os conceitos de objetividade e impessoalidade do texto jornalístico, impondo um padrão americanizado de produção da imprensa escrita, estas colunas foram se solidificando e tornando-se um espaço de prestígio e de poder, consolidando seus autores e influenciando. As temáticas que comunicavam os eventos que iriam acontecer e reportavam algo que já tinha acontecido, sempre opinativas, passaram a se ocupar de festas e atividades que os mais ricos e poderosos podiam ostentar. Desta escrita, foram surgindo expressões bem conhecidas cunhadas nestes espaços e incorporadas ao cotidiano de muitas pessoas tais como grand monde, glamour, high society, happy few, entre outros. E, também, alguns outros termos que eram resultantes dos “abrasileiramentos”, tais como café-soçaite, alta sociedade, gente bem, etc. Especificamente, durante a ditadura militar, Souza afirma: (...) o colunismo social começa a se politizar: o jornalista Ibrahim Sued, que possuía ligações com setores ligados ao regime, publicava pequenas notas em sua coluna sobre o que acontecia nos bastidores do governo. Assim, enquanto a imprensa era submetida à censura prévia,o leitor ficava sabendo, ainda que a conta-gotas,do que se passava. (SOUZA:2005, pag.04) Esta história prevê, então, que neste jogo de visibilidade pública do poder e da influência que alimentava os acontecimentos noticiados pelas colunas sociais, que dependiam do estilo de seus autores para a definição do seu tom jornalístico, alternavam-se entre a publicização do consumo e do que não era “de acesso do povo” bem como pequenas notas informativas que demonstravam a inserção do próprio autor no espaço social. Pode-se afirmar, então, que, de qualquer modo, a coluna social é, desde sempre, um espaço privilegiado de visibilidade coletiva no qual “aparece quem pode” destinada aos leitores que não fazem parte, mas que querem fazer. Do ponto de vista da definição, parte-se do conceito comunicacional mais simplificado oferecido pelo Dicionário de Comunicação (2001) têm-se que coluna é a seção especializada de jornal ou revista, publicada com regularidade, redigida em estilo mais livre e pessoal e geralmente assinada7. Já no livro de Luiz Amaral (2001), coluna seria um espaço institucional no qual a empresa utilizaria como serviço de relações públicas para relacionar-se com seu público alvo e anunciantes. Unindo estas duas acepções, pode-se dizer que coluna é um espaço diferenciado na estrutura formativa dos periódicos que define um estilo e uma opinião, seja ela de quem a assina ou do veículo (embora, na maioria das vezes, elas sejam concomitantes). Tanto é verdade, que a definição mais usual de colunista remete a questão do comentário fixo: por colunista, comentarista, cronista ou crítico de jornal, revista, etc. entende-se aquele que mantém seção a cerca de política, arte, literatura, vida social e etc8. Deste modo, a coluna tanto pode ser entendida como um espaço de organização do que não é notícia, pois se mantém por comentários e opiniões a cerca de temas e assuntos diversos como também por uma estrutura formativa de espaço definido no periódico e no interior da página do mesmo periódico. Compreendida desta forma, pode-se entender como coluna social, o espaço definido no periódico nos quais tratamse os assuntos que não são notícia, mas que se referem a ações e repercussões de determinados acontecimentos na sociedade. Estas informações não seguem, então, os preceitos da prática noticiosa mais comum e têm na figura de seus autores, os colunistas, o tom e o modo de feitura que as caracteriza, sendo, portanto, redigida em estilo mais livre e pessoal, como destaca Muniz Sodré: O colunista era alguém que, efetivamente, contava depois alguma coisa. De seu acesso aos círculos mais fechados e,claro, de sua discrição bem dosada, provinha o seu prestígio junto às elites dirigentes e, daí, junto ao dono do jornal e seu público. (SODRÉ: 2003, pag. 02). 7 BARBOSA, Carlos Alberto RABACA e Gustavo (orgs). Dicionário de Comunicação. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2001. 8 HOLANDA, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. Numa referência direta ao modo de escrever e a função destas colunas, Marques de Melo aponta que a coluna social vai além da visibilidade, pois ela ocupa um espaço de substituição de uma realidade inacessível, ou seja: Já que a maioria das pessoas está excluída do reduzido círculo dos colunáveis (poder/estrelato), dá-se-lhe a sensação de participar desse mundo, através dos colunistas. Trata-se de uma forma de participação artificial, abstrata. Participam sem fazer parte. Acompanham à distância. (MELO: 1994, pag. 140)9 Outro conceito a ser definido é o de discurso. Partindo dos pressupostos oferecidos pela Lingüística, pode-se afirmar que discurso é a narrativa que traz consigo as escolhas do sujeito da enunciação que marcam as formas pelas quais a enunciação se relaciona com o discurso que enuncia10. Neste trabalho, entenderemos discurso como o espaço, o lugar onde se produz o sentido. Aplicando esse conceito e transportando-o para o objeto de estudo escolhido, propõe-se observar as marcas discursivas destas colunas escritas nos anos 70 no FSB mapeando os sentidos produzidos e suas variações. Para ajudar a entender estas marcas, traz-se o conceito de formação discursiva de Foucault, que a conceitua como “os princípios de individualização de um discurso” para qual existe uma regularidade, uma organização que caracteriza um sistema de formação de enunciados. Pois bem, entendo e categorizando esta regularidade e organização, pode-se demarcar a estrutura “formativa” do discurso, pois, para a Análise do Discurso moderna, a Formação Discursiva “materializa e manifesta as relações de contradição ideológica existente nas formações sociais”, segundo Vera Lúcia Pires. Com base nestas proposições, este trabalho irá inicialmente se deter em delimitar o Discurso Social a partir do entendimento do Discurso da Sociedade Popular e do Discurso da Sociedade Dominante – Elite que, segundo EMERIM (1999), podem ser assim definidos: 1) Discurso da Sociedade Popular – aquele que se forma no povo, na maioria da população e que traz elementos raciais e estéticos da formação do povo brasileiro; 2) Discurso da Sociedade Dominante – aquele que se forma na elite 9 MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo. Petrópolis, Vozes, 1994. BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria Semiótica do Texto – o conceito de discurso funda-se neste autor. 10 dominante, cultural e economicamente, originado na história dos saberes e adquiridos através das instituições oficiais11. Com o objetivo de verificar com quem e para quem a sociedade fala através das colunas sociais da Folha de São Borja nos anos 70, efetuou-se uma sistematização que contou com as seguintes categorias: 4.1 Cardápio: ou Sistematização SISTEMATIZAÇÃO DAS PRODUÇÕES DA FOLHA DE SÃO BORJA 1970 a 1979 1970 A coluna social era exibida no formato de “coluna de página inteira” funcionando como uma macro coluna, intitulada PANORAMA, tendo em seu interior cinco colunas, cada uma delas assinada por um colunista diferente. Cada coluna exibia um estilo próprio e mantinha-se em espaços indefinidos: ou seja, em cada edição do jornal colocava-se em espaços diferentes, mantendo regularidade apenas a página de publicação. Do formato conceitual, mantém o cabeçalho de página fixo mas não segue a diagramação padrão, alternando espaços e estilos. Não eram publicados assuntos sociais em nenhum outro espaço do jornal. Seção Nome da Coluna Colunista Temáticas Panorama Tânia Comenta Tânia Siqueira Casamentos, nascimentos, formaturas, bailes, festas, shows nos clubes e promoções do próprio Jornal. Claudius Claudius Moda, beleza, cuidados com a saúde, lojas de roupas da cidade. Quase não cita nenhuma personalidade. Sônia Sônia Koucher Festas, bailes e eventos. Carmem Carmem Festas, bailes e eventos. Zely Comenta Zely Espíndola Todos os assuntos tratados pelos outros colunistas, porém, com falas mais íntimas, tratando as personalidades com carinho e intimidade. 1971 Neste ano, deixam a coluna social Claudius, Sônia Koucher e Carmem. E Vera Marlene os substitui. Inicia aqui uma fase forte de textos de Zely Espíndola, através da coluna Zely Comenta, que vai durar até 1974, com maior espaço e em edições que somente ela assina a coluna social. Seção Nome da Coluna Colunista Temáticas Panorama Tânia Comenta Tânia Siqueira Assuntos como casamentos, nascimentos, formaturas, bailes, festas, shows nos clubes e promoções do Jornal. 11 EMERIM, Cárlida. O discurso Carla Perez. In: CASTRO, Leda MARTINS e Maria Lília Dias de. Comunicação e discurso. Série Cadernos de Comunicação (UNISINOS), v.05, p.01 - 175, 1999. Zely Comenta Zely Espíndola Todos os assuntos tratados pelos outros colunistas, porém, com falas mais íntimas, tratando as personalidades com carinho. Notas e coberturas opinativas. Vera Marlene Vera Marlene Os mesmos assuntos que Tânia e Zely, com estilo parecido com o de Zely, porém, sem uma característica de estilo. 1972, 1973 e 1974 Esta fase identifica-se com um colunista fixo, que organiza todas as notas sociais no mesmo espaço. Não há outras publicações fora deste espaço assinado. A seção Panorama começa a extinguir-se, aparecendo raramente, sendo substituído apenas pelo nome da colunista, Zely Espíndola. Seção Nome da Coluna Zely Comenta Panorama ( nem sempre a coluna aparece com esse título, as vezes somente com “Zely Comenta”). Colunista Temáticas Zely Espíndola Continua com o mesmo estilo de escrita, falando de festas, boates, restaurantes, formaturas, batizados, casamentos, nascimentos, lojas das amigas, viagens das amigas, viagens que fez, com falas íntimas, tratando as personalidades com carinho. 1975 e 1976 A seção “Panorama” extingue-se. Os colunistas possuem espaços próprios dentro da publicação. Nesta surge outra coluna, entitulada de “Sociedade”, que raramente possuía assinatura, e era eventualmente assinada por Jaury Medeiros, Nara Carvalho ou Sônia Koucher. Nome da Coluna Colunistas Temáticas Zely Comenta Zely Espíndola Mesmos assuntos, mesmo estilo. Sociedade Na maior parte sem assinatura. Assuntos como casamentos, nascimentos, formaturas, Quando possuía era de Jaury bailes, festas, shows nos clubes e promoções do Jornal. Medeiros, Nara Carvalho e Sônia Tudo de maneira impessoal. Notas informativas. Koucher 1977 Nesta fase Zely Espíndola tem sua coluna renomeada para “Ribalta”, surgem duas novas colunas nomeadas de “Escreve Malu” e “Escreve Verônica”. Nome da Coluna Colunistas Temáticas Ribalta Zely Espíndola Mesmos assuntos, mesmo estilo. Escreve Malu Malu Assuntos como casamentos, nascimentos, formaturas, bailes, festas, shows nos clubes e promoções do Jornal. Tudo de maneira impessoal, por vezes, cita personalidades, sem estilo próprio. Escreve Verônica Verônica Assuntos como casamentos, nascimentos, formaturas, bailes, festas, shows nos clubes e promoções do próprio Jornal. Tudo de maneira impessoal, por vezes, cita personalidades, sem estilo próprio. 1978 Esta fase identifica-se com um colunista fixo, que organiza todas as notas sociais no mesmo espaço. Nome da Coluna Colunista Temáticas Ribalta Zely Espíndola Mesmos assuntos, mesmo estilo. Panorama (ressurge) Pedro dos Santos Machado Temáticas sociais e comentários sobre os acontecimentos. Notas avaliativas e prospectivas, porém, não opinativas. 1979 Nesta fase, duas novas colunas surgem na publicação. Uma delas não possui assinatura e a outra é assinada por Roque Andres, diretor executivo do jornal. As três colunas possuem espaço próprio. Nome da Coluna Colunista Temática Ribalta Zely Espíndola Mesmos assuntos, mesmo estilo, porém, a mais duradoura dentre as escritas pela colunista. Sempre opinativas. Agenda Sem assinatura. Agenda dos eventos, festas, bailes que acontecerão na cidade, formada por pequenas notas informativas. Sociais Roque Andres Assuntos como casamentos, nascimentos, batizados, formaturas, principalmente de amigos do colunista, pois ficava evidente pelo texto escrito. Opinativos. 4.2 – Carta de vinhos e espumantes Nas publicações estudadas do jornal FSB nos anos 70, a coluna social apresentase com títulos diversos e sendo assinada por diferentes pessoas que dividiam a mesma página com espaços que não eram definidos: em cada edição considerava-se o tamanho e as temáticas para serem organizados na diagramação da página. Dentre os colunistas, tanto os fixos como os eventuais e esporádicos, destaca-se Zely Espíndola que está desde o início da publicação e manteve durante toda a década de 70 como a colunista referência, visto que as festas recobertas por ela eram as que envolviam as pessoas de maior destaque ao longo dos anos 70 e, também, as que possuíam sobrenomes mais tradicionais na sociedade saoborjense. As temáticas mais comuns que obtinham maior repercussão nas colunas de um modo geral eram as que tratavam sobre os bailes dos clubes mais tradicionais da cidade: Clube Comercial e Clube Recreativo Saoborjense. Eventos de ocorrência constante que mobilizavam toda a sociedade em torno de seu acontecimento. Como a cidade era (e é) muito pequena, os dois clubes tinham tendência em receber os dois grupos sociais: os sócios do Clube Comercial (formado pelos sobrenomes mais tradicionais da cidade) e pelos sócios do Clube Recreativo Saoborjense, (formado por sobrenomes menos conhecidos, mas que alcançavam reconhecimento social pela sua prosperidade nos negócios). 4.3 - O Grand Monde da fronteira: ou primeiros resultados A pesquisa nas colunas sociais da época12 demonstra que o discurso dominante era o do status adquirido pelo sobrenome (com base nas famílias formadoras da etnia e do povoamento em São Borja) o que poderia ser definido como Discurso da Sociedade Dominante. Este foi o retrato da coluna social apresentada nos anos 70 nas páginas da Folha de São Borja. Porém, há de se comentar que os sobrenomes escolhidos para fazerem parte desta “rotina” de visibilidade nas colunas tinham algumas características interessantes de serem observadas: 1) muitos deles não faziam parte da real história das famílias formadoras da cidade, mas eram amigos pessoais dos colunistas e, portanto, alçados ao lugar de “tradicionais” pela repercussão máxima de seus pequenos atos sociais (da gravidez ao batizado dos nenéns dos amigos, etc); 2) alguns sobrenomes são parte da elite financeira, mas não “das famílias tradicionais” da cidade, perfazendo um grupo dos que se inserem no meio social pelo poder de compra que exercem; 3) muitos eram de relações institucionais do jornal e, de certa forma, da sociedade como um todo, tais como Coronéis, Generais, Chefes de Polícia, Delegados Federais, Juízes, Gerentes de Bancos, entre outras funções que obtinham, pelo período em que as exerciam na cidade, status de importância social e inserção na comunidade. Sobra desta categorização, ainda, uma classe ampla, a dos pertencentes as origens da cidade, dividida socialmente em duas sub-classes bem distintas e que faziam, na verdade, o “grosso” noticioso destas colunas ao longo dos anos 70: os de famílias 12 Esta pesquisa está em fase inicial e tem o mês de dezembro de 2009 para responder a outros critérios que talvez aprofunde mais ainda as considerações ora levantadas. Esta primeira fase, mais de mapeamento, dedicou-se a organizar e sistematizar as informações, algumas delas transpostas para este artigo. Outra proposta que ainda quer ser observada diz respeito a própria história das colunas sociais em São Borja, quando iniciaram estes escritos e de que forma eles foram se configurando ao longo dos anos. Também faz parte deste mapeamento sistematizar a vida de quem dedicou-se a produzir estas colunas, através de depoimentos orais dos que ainda se encontram vivos e de familiares, reconstruindo um percurso importante da história da imprensa na cidade. geradoras de renda e de domínio do poder simbólico social e os dependentes destas famílias. O que não aparece, com certeza, nas colunas sociais no período estudado é a classe mais baixa nem mesmo nos espaços pagos ou dedicados a apresentação das sobras dos eventos sociais da elite, em suas diferentes instâncias. 6. Agradecimentos pela presença e apoio (Referências bibliográficas) AMARAL, Luiz. Técnica de Jornal e periódico. 5. ed. - Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; 2001. BARBOSA, Carlos Alberto RABAÇA e Gustavo. Dicionário de Comunicação. 2 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2001. BARROS, Diana Luz de. Teoria Semiótica do Texto. São Paulo: Ática, 1994. EMERIM, Cárlida. O discurso Carla Perez. In: CASTRO, Leda MARTINS e Maria Lília Dias de. Comunicação e discurso. Série Cadernos de Comunicação (UNISINOS), 1999. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo. Petrópolis, Vozes, 1994. EMERIM (orgs.), Joseline PIPPI e Cárlida. Memórias sobre a imprensa em São Borja. Santa Maria: Ed. PROGRAD/UFSM, 2007. ROMANCINE, Claudia LAGO e Richard. História do Jornalismo no Brasil. Florianópolis: Insular, 2007. Referências obtidas na Internet: RESENDE, Lino Geraldo. A censura contra a cidadania: o caso do Brasil. Disponível em: http://bocc.ubi.pt/pag/resende-lino-geraldo-censura-cidadania.pdf; acessado em 29 de Maio de 2009. SODRÉ, Muniz. Colunismo Social: Gente boa e gente fina. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/fd260820031.htm; acessado em 29 de Maio de 2009. SOUZA, Rogério Martins de. A sedução do colunismo: Uma análise das colunas de Ancelmo Gois e Ricardo Boechat. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/R0690-1.pdf; acessado em 27 de julho de 2009. TRAVANCAS, Isabel. A coluna de Ibrahim Sued: um gênero jornalístico. Disponível em: http://bocc.ubi.pt/pag/travancas-isabel-coluna-ibrahim-sued.html; acessado em 29 de Maio de 2009. Sites de jornais e emissoras de rádio de propriedade da família de José Grisólia; acessados em 9 de julho de 2009. Disponível em: http://www.anoticia.com/fixos/historia.html http://www.folhadaproducao.com.br/historico.html http://www.radiomissioneira.com/index.php?id_noticia=7124