A fórmula “desenvolvimento sustentável”1:
um operador de neutralização de conflitos
Por Alice KRIEG-PLANQUE (Université Paris-Est Créteil (UPEC)/Céditec (EA 3119))
Plano do artigo:
1. “Desenvolvimento sustentável”: uma fórmula
1.1. Análise do discurso e abordagens sobre fórmulas
1.2. Um referente social: o sucesso da expressão
1.3. Uma semantização heterogênea: a diversidade das significações
1.4. A fórmula e suas variantes: “desenvolvimento sustentável”, “turismo sustentável”,
“sustentabilidade urbana”...
1.5. A fórmula e seus contextos: slogans, relatos, topoi, ícones
2. A fórmula “desenvolvimento sustentável”: um operador de neutralização de conflitos
2.1. Discurso sobre o desenvolvimento sustentável e consenso
2.2. A concessão: operador interdiscursivamente constitutivo da fórmula “desenvolvimento
sustentável”
2.3. A fórmula “desenvolvimento sustentável”: suturar a concessiva para neutralizar o
conflito
3. Quebrar o consenso ou reconstruí-lo: fenômenos de dialogismo e de conflito discursivo
3.1) Resistências ao consenso: repolitizar o debate
3.2) Antecipações das resistências e reações aos conflitos: assegurar o reestabelecimento
3.3) Discursos institucionais e apagamento: um elo necessário
1) “Desenvolvimento sustentável”: uma fórmula
1.1) Análise do discurso e abordagens sobre a fórmula
Desde meados da década de 90, o desenvolvimento sustentável suscitou uma profusão
de publicações. Proveniente de horizontes disciplinares variados, e intervindo em diferentes
níveis de especialização e de normatização, esses trabalhos enfatizam, segundo o caso, por
exemplo: a história da noção (Zaccaï 2002), os seus usos políticos (Brunel 2008), as abordagens
1
N de T. Em francês développement durable, traduzimos pela fórmula em português: “desenvolvimento
sustentável” e não durável, como era de se esperar de uma tradução mais literal. Na página 5 tratamos
desta distinção. A versão francesa deste texto “La formule “développement durable”: un opérateur de
neutralisation de la conflictualité”, foi publicada na Revista Langage et Société, Paris, Editions de la
Maison des Sciences de l‟Homme, n°135, p. 05 a 29, dezembro de 2010.
econômicas do objeto (Bürgenmeier 2005), o recurso ao desenvolvimento sustentável nas
estratégias de comunicação das empresas e das marcas (Tixier dir. 2005), as modelizações e
práticas do desenvolvimento sustentável no management ou na gestão (Capron e QuairelLanoizelée 2004; Reynaud et alii 2006), ou ainda a sociologia do engajamento militante que dá
lugar ao desenvolvimento sustentável ou a questões relacionadas (ambientalismo, consumo
engajado, anticonsumismo, altermundialismo...) (Fillieule, Agrikoliansky, Meyer 2004;
Ollitrault 2008). Além desses estudos, é preciso acrescentar os que examinam as ideias e as
correntes da ecologia política, seja desde uma postura de filósofo, de sociólogo ou de politólogo
(Sainteny 2000), seja desde um posicionamento que combina os do analista e os do ator (Yves
Cochet, Alain Lipietz, Serge Latouche...).
Neste caso, da mesma forma que em outros domínios, uma abordagem discursiva dos
fatos sociais propõe um esclarecimento particular. No tocante ao desenvolvimento sustentável
como em outras temáticas, a análise do discurso não tem como finalidade comentar as pesquisas
que estão sendo realizadas nas ciências humanas e sociais (ainda menos de “ilustrá-las”, de
“verificá-las”, ou de superá-las), mas sim de tomar o discurso ele mesmo como objeto,
questionando-o com base em conceitos e categorias específicas. O fato de apreender o discurso
relativo ao desenvolvimento sustentável sob o ângulo da fórmula, como é aqui proposto, se
constitui num procedimento próprio da análise do discurso. A noção de “fórmula” foi objeto de
publicações as quais remetemos2. Gostaríamos de lembrar que entendemos por fórmula “um
conjunto de formulações que, pelo seu emprego em um momento e em um espaço público
dados, cristalizam interesses políticos e sociais que estas formulações contribuem ao mesmo
tempo para construir” (Krieg-Planque 2009a, p. 7). Considerando “desenvolvimento
sustentável” como uma fórmula, empreendemos um projeto que visa a alcançar os discursos
políticos, midiáticos e institucionais por meio das diferentes formas de fixação que estes
discursos modelam e fazem circular: trata-se de “transgredir as fronteiras estabelecidas pelos
discursos e por seus produtores para tornar visíveis fatos de retomada, de reformulação, de
regularidade, de circulação, de dispersão e de eco” (Krieg-Planque 2007, p. 58).
1.2) Um referente social: o sucesso da expressão
Uma fórmula se caracteriza especialmente pelo fato que se torna um referente social: ela
significa alguma coisa para todos. No caso de “desenvolvimento sustentável”, numerosos são os
indícios de circulação do termo que manifestam o seu sucesso. O sintagma “desenvolvimento
sustentável” vem sendo utilizado nos mais diversos setores: transportes, distribuição, energia,
2
NT Alguns dos trabalhos sobre fórmulas elaborados em português podem ser vistos no livro MOTTA,
A. R. & SALGADO, L. S. Fórmulas discursivas. São Paulo, Contexto, 2011.
construção, arquitetura e urbanismo, turismo, educação, agricultura, pesca, têxtil... Nessas
práticas discursivas, entrecruzam-se facilmente temáticas trans-setoriais politicamente
encorajadoras, tais como a cidade, a mobilidade, as tecnologias numéricas, ou ainda a
participação. Quem gostar de descrever com precisão a disseminação do sintagma
“desenvolvimento sustentável” não lhe faltará, então, nem campo, nem corpus.
No domínio da ação pública, a aparição do sintagma “desenvolvimento sustentável” no
nome de um ministério é particularmente digno de nota. Na França, a criação em maio de 2002
de uma Secretaria de Estado de Desenvolvimento Sustentável e de um Ministério de Ecologia e
do Desenvolvimento Sustentável (substituindo o que tinha sido um Ministério do Planejamento
do Território e do Meio Ambiente) demonstra como as políticas públicas levam em conta tudo o
que remete à fórmula “desenvolvimento sustentável”, enquanto algo construído na ordem das
representações. A aparição de um programa “Ecologia e Desenvolvimento Sustentável”
colocado em funcionamento pela LOLF3 promulgada em 2001, ou ainda o lançamento de uma
“Semana do Desenvolvimento Sustentável” em 2003, testemunham um agendamento do que a
fórmula supostamente designa, no quadro mais amplo da potencialização das problemáticas
sanitárias e ambientais. Nos organogramas das empresas, ao longo dos anos 2000, a adição de
“desenvolvimento sustentável” às denominações de funções dirigentes torna visível a
importância que a organização atribui à fórmula, ao ponto nodal do estratégico e do
comunicacional (“Direção da Comunicação e do Desenvolvimento Sustentável”, “Direção do
Desenvolvimento Sustentável e dos Assuntos Públicos”, “Direção de Estratégia e do
Desenvolvimento Sustentável”...). Em complemento a sua acepção fortemente conceitual, o
desenvolvimento sustentável aparece em diferentes percepções como um fato objetivável,
quantificável, mensurável, cartografável, que se torna desta forma disponível por uma “forma de
governo pelos números”. É o que sugere, por exemplo, a aparição inicial em 2002 de um Atlas
Mundial do Desenvolvimento Sustentável (Editions Autrement), ou ainda, em outro nível, os
indicadores de desenvolvimento sustentável aceleraram-se com a lei relativa às novas
regulamentações econômicas (NRE) de 2001. Esta lei, por sua vez, ajudou na proliferação do
termo, reforçando a profissionalização dos empregos ligados ao conselho estratégico de
desenvolvimento sustentável, na redação de relatórios anuais sobre o desenvolvimento
sustentável e na responsabilidade social das empresas. Outros fenômenos ainda mostram o
caráter invasivo do “desenvolvimento sustentável” no espaço público a partir de meados dos
anos 90: aumento da frequência do sintagma em corpora midiáticos, criação de formações
dedicadas ao ensino superior, lançamentos de títulos da imprensa incluindo variantes da
fórmula...
3
N de T. Lei Orgânica Relativa às Leis de Finanças (LOLF).
O emprego da fórmula é feito por locutores heterogêneos e às vezes antagonistas.
Ademais, “desenvolvimento sustentável” aparece em gêneros e tipos de suportes textuais
extremamente variados. Isto lembra que as fórmulas são objetos transgenéricos, destacando o
que Dominique Maingueneau (2005) chama “unidades não-tópicas”. Se a fórmula circula, é
porque carrega nela interesses múltiplos, eventualmente contraditórios. Mas também é porque o
uso da expressão constitui, nele mesmo, um jogo. De fato, não é somente os empregos dos
termos em si mesmos que fazem do “desenvolvimento sustentável” uma fórmula, mas também
sua capacidade de acompanhar as palavras de ordem. Este valor de injunção é muito
concretamente observável em situações em que o uso dessa expressão condiciona a existência
das estruturas, dos projetos ou das ações, por exemplo, porque determina os créditos (o
“desenvolvimento sustentável” faz parte das temáticas explícitas de financiamento da pesquisa,
por exemplo, na França o financiamento da ANR4), ou porque legitima certas práticas (por
exemplo, a desmaterialização dos procedimentos apresentada especialmente em nome das
economias de papel que ela engendrava, enquanto poderia ser vista sob o ângulo ilegalidades
que ela ratifica e das degradações sociais que ocasiona).
1.3) Uma semantização heterogênea: a diversidade das significações
O caráter dominante de uma fórmula não implica de nenhuma forma a homogeneidade:
o fato de que “desenvolvimento sustentável” seja uma passagem obrigatória por numerosas
produções textuais não supõe – muito ao contrário - a estabilidade ou a univocidade do termo.
“Constata-se que as palavras podem mudar de sentido segundo as posições defendidas por
quem as empregam”, escrevia Pêcheux (1990 [1971]: 140). O estudo da fórmula
“desenvolvimento sustentável” permite mais uma vez observar a pertinência da afirmação de
Pêcheux.
Mesmo que nos limitássemos às definições canônicas, “desenvolvimento sustentável”
aparece investido em formas diversas. A definição autorizada segundo a qual o
desenvolvimento sustentável repousaria sobre três pilares (“social”, “ambiental”, “econômico”),
na intersecção dos quais se situaria por sua vez os três componentes do “equitativo”, do “viável”
e do “vivível”, é na realidade o objeto de variações múltiplas, identificáveis em discurso e mais
notável ainda nas representações visuais que recorreram a um diagrama de Venn com três
conjuntos5. Alguns atores institucionais militam explicitamente para mobilizar esta definição em
benefício de seus próprios interesses, os quais são mobilizados pelo léxico. Por exemplo, no
quadro das ações ligadas a Agenda 21, algumas coletividades territoriais asseguram a promoção
conjunta do “desenvolvimento sustentável” e da “cultura” (e/ou da “diversidade cultural”)
4
N de T. Agência Nacional de Pesquisa.
O leitor poderá ter uma visão geral da variedade das modalizações do desenvolvimento sustentável
visualizando os resultados da seleção “esquema do desenvolvimento sustentável” na função imagem de
um motor de pesquisa.
5
propondo que a “cultura” (ou que a “diversidade cultural”) seja reconhecida como um “quarto
pilar” do desenvolvimento sustentável. Outros atores defendem que a “comunicação”, a
“comunicação pública”, a “governança” ou ainda também o “conhecimento” deveria ser objeto
de um reconhecimento tal como “quarto pilar”. Tais esforços testemunham o duplo desafio de
legitimação de um valor de injunção que cristaliza a fórmula “desenvolvimento sustentável”,
sendo também, indícios da plasticidade semântica característica das fórmulas.
Além dos enunciados com caráter de definição, as ocorrências do sintagma
“desenvolvimento sustentável” em uso fazem aparecer uma grande diversidade de acepções
ainda. É explícito que as realidades designadas e os traços de significação implicados são
somente parcialmente compartilhados segundo o espaço em que a expressão aparece, por
exemplo, em trabalhos produzidos em sessões das Semanas Sociais da França, em documentos
da organização Oxfam, ou em suportes de comunicação institucional de Air France. Neste
último tipo de locutor, a sinonímia parcial – ou também, a sinonímia explicitamente colocada
entre “desenvolvimento sustentável” e “responsabilidade social das empresas” (que é reforçada
pela pluralidade de formações vocabulares de “RES”6), ressalta a capacidade dos atores de se
apropriar do sintagma “desenvolvimento sustentável” (ou considerado a partir de outro ponto de
vista: a capacidade da fórmula “desenvolvimento sustentável” de se integrar nas categorias
simples e nos raciocínios práticos).
O sentido de “desenvolvimento sustentável” se constrói, também, por meio das
múltiplas variantes que utilizando a fórmula a transformam. Sobre estes aspectos diremos umas
palavras a seguir.
1.4) A fórmula e suas variantes: “desenvolvimento sustentável”, “turismo sustentável”,
“sustentabilidade urbana”...
A fórmula “desenvolvimento sustentável” é o sintagma “desenvolvimento sustentável”
ele mesmo, mas também é o conjunto das suas variantes, derivadas, compostas e
descristalizadas como tal em contexto7. Tivemos a oportunidade de realizar minuciosamente
este tipo de inventário no tocante à fórmula "purificação étnica” (Krieg-Planque, 2003): este
estudo demonstrou quanto a produtividade lexicológica está associada a um funcionamento da
fórmula. “Desenvolvimento sustentável”, também, prolifera em uma série de formulações que
constituem tantas transformações que atestam o sucesso da fórmula, formulações das quais
participam e as colocam em circulação.
6
“RSE” é principalmente interpretado como sendo a sigla da “responsabilidade social (ou societal) das
empresas” ou de “responsabilidade social da empresa”, mas é frequentemente desenvolvido por
“responsabilidade social e ambiental (da/das empresa(s))”, o que aumenta o parentesco entre “RSE” e
“desenvolvimento sustentável”.
7
Sobre esta questão, que implica a noção de “interpretante razoável”, ver Krieg-Planque 2006, p. 36-8.
Quem se interessar em detalhe no inventário da fórmula “desenvolvimento sustentável”
será levado a perceber, em corpus circunscritos, diferentes formulações, sejam produzidas por
comutação nominal (“alimentação sustentável”, “modo de vida sustentável”, “bairros
sustentáveis”), por comutação adjetiva (“desenvolvimento viável”, “desenvolvimento ético”,
“desenvolvimento próprio”), por coordenação (“desenvolvimento sustentável e solidário”,
“desenvolvimento e crescimento sustentáveis”), por inserção (“desenvolvimento urbano
sustentável”, “desenvolvimento humano sustentável”), ou ainda por uma base adjetival por
derivação imprópria (“o sustentável”, “o durável”), ou por nominalização (“a sustentabilidade”,
“a durabilidade”). As formulações produzidas por combinação de várias destas operações
linguísticas figuram também no inventário, geralmente em relação estreita com a
“responsabilidade social da empresa”, “sustentabilidade débil”, “economia responsável”,
“políticas de sustentabilidade”, “gestão sustentável e equitativa de água”, “planejamento
responsável e sustentável dos territórios e do meio ambiente”...
Ademais, a análise das variantes da fórmula deve levar em conta os fenômenos da
tradução, da coabitação de versões documentárias e textuais, e, mais globalmente, do
colingüismo. Por um lado, “desenvolvimento sustentável” é antes de tudo o produto das
instituições políticas e públicas caracterizadas por sua dimensão supranacional ou internacional,
portanto marcadas pelo colinguismo; por outro lado, as variantes da fórmula em uma língua
determinada são só parcialmente dissociáveis das traduções com as quais elas estão em contato.
Não podemos deixar de ressaltar, por exemplo, que a língua francesa é a única a privilegiar o
elemento “durável” em detrimento de “sustentável” pela tradução do termo em inglês
“sustainable”8. Algo que como constata Paola Paissa, implica custos “ao mesmo tempo no plano
da coerência linguística e no plano da comunicação internacional” (Paissa, 2008, p. 557).
Como evocamos no item precedente deste texto, existe uma ligação forte entre a questão
das variantes e a da significação. O jogo da substituição de certos elementos de um paradigma
em certos contextos e de sua não-substituição em outros faz com que a retomada seja possível
(às vezes apenas apreensível, às vezes bem visível) de uma formulação por uma outra na
responsabilidade enunciativa. Neste contexto, o uso de “crescimento durável” como variante
frequente da fórmula na literatura das grandes empresas e das firmas transnacionais (mas
também como tradução francesa de “sustainable development” às vezes retido pela OCDE)
autoriza deslizamentos que servem como opções políticas dos atores. É esse uso, por exemplo,
8
Para traduzir a expressão inglesa “sustainable development”, as línguas da União Européia favoreceram
“sustentável”: “svilupposostenibile” (italiano), “desarrollosostenible” (espanhol), “desenvolvimento
sustentável” (português)... Sobre as questões de tradução e de definição de “desenvolvimento
sustentável”, ver também Vivien 2007. Sobre a tradução da fórmula em relação aos seus três “pilares”,
ver Jeanneret.
que permite à EDF colocar no interior de um mesmo documento, uma sequência que vai de um
“crescimento durável e solidário” a um “crescimento rentável e durável do Grupo”9.
1.5) A fórmula e seus contextos: slogans, relatos, topoi, ícones
No sentido em que entendemos o contexto de uma fórmula não pertence a uma ordem
da realidade mundana na qual a descrição feita pelo pesquisador forneceria a conjuntura
esclarecedora da fórmula. Mas esse contexto pertence à ordem do real discursivo e simbólico
que a própria fórmula revela. Na pesquisa que realizamos em torno de “purificação étnica”, a
análise fez aparecer designantes, acontecimentos, pequenas frases ou ainda slogans como
contextos da fórmula. No que concerne à fórmula “desenvolvimento sustentável”, a
documentação analisada permite observar contextos de uma grande riqueza, dos quais
evocaremos somente alguns pontos. Entendemos que cada um deles mereceria uma pesquisa
específica.
Os nomes próprios de acontecimentos10 constituem um tipo de contexto notável da
fórmula. Na narração pública, esta é apresentada segundo uma trajetória ascendente paralela a
de acontecimentos que denominam topônimos empregados para designar acontecimentos, como
são frequentemente os nomes de cúpulas e de conferências: “Conferência de Stockholm”,
“Cúpula do Rio”, “Cúpula de Kyoto”, “Cúpula de Johannesbourg”, “Conferência de
Copenhague”... Pertencem também a este tipo de contexto denominações de acontecimentos que
podem ser apreendidas como metonímias de nomes próprios de acontecimentos formados sobre
um topônimo, tal como “Grenelle do meio ambiente”11.
O contexto da fórmula é igualmente constituído por “textos-chaves”, no sentido em que
o entendemos12, isto é, no presente caso, de relatos, declarações e documentos nos quais os
comentadores acreditam poder identificar o sentido profundo ou as intenções inaugurais da
fórmula. O “Relatório Brundtland de 1987” é neste aspecto o mais notável dos textos-chaves:
além dos usos variados, funciona constantemente como texto fundador da noção e como fonte
legítima da definição. Funcionam também como “texto-chave” o “Apelo de Haye” de 1989, o
“Apelo de Heidelberg” de 199213, o “Discurso de Chirac em Johannesbourg” em 2002
(regularmente apresentado como o discurso pelo qual é enfim liberada a expressão política da
9
EDF-Delegaçao a ética e à deontología, CA de 22 de maio de 2005, documento de trabalho, “Valeursdu
Groupe EDF”, p. 97-98. Na sua análise sobre o desenvolvimento sustentável da sociedade Hydro Québec,
Marie Anne Caron e Marie- François Turcotte observam fenômenos similares (2006, p. 163).
10
Sobre esta questão ver Krieg-Planque 2009b.
11
Sobre esta denominação ver Barbet 2010.
12
Ver Krieg-Planque 2003, p. 105 a 133.
13
Sobre este texto ver Vignes 1994.
culpabilidade moral e do dever de ação14), ou ainda o “Pacto Ecológico de Nicolas Hulot”,
lançado em 2006. Os relatos aos quais os comentadores outorgam o estatuto de mito ou de
legenda contam também entre os “textos-chaves” por intermédio dos quais a fórmula toma
consistência: desta forma se dá na “História do Colibri”, relato exemplar atribuído a uma lenda
ameríndia, e a partir da qual circulam as mais variadas versões.
Na sua colocação em discurso, “desenvolvimento sustentável” encontra igualmente
citações de autoridade. É desta forma que funciona, por exemplo, o enunciado “Não herdamos a
terra dos nossos ancestrais, nós a pedimos emprestado de nossas crianças”, geralmente atribuído
a Antoine Saint-Exupéry, mas também frequentemente a um chefe indígena da região de
Seattle, ou ainda mencionado como sendo um provérbio africano. Aqui também, a questão
mereceria um estudo mais amplo.
Continuando na discussão de como se dá o apoio na construção da legitimidade da
fórmula, levantamos alguns topoi, dos quais dois merecem ser assinalados. Um aciona em
primeiro lugar a dimensão temporal: esse topoi coloca que tudo o que fazemos hoje determina o
que será feito amanhã. O outro tipo de argumento combina o lugar da quantidade e das relações
de causalidade: ele coloca que muitas ações pequenas têm um grande efeito. É esse topos que é
mobilizado na estratégia dos “ecogestos”, adotada na comunicação pública, destinada ao grande
público, e utilizada por numerosas associações e fundações. É sobre este topos que repousa um
slogan como “Façamos rápido, cada gesto conta!”, mas também “a História do Colibri”, já
evocada.
Diferentes elementos que implicam o estrato gráfico e icónico, assim como o estrato
verbal, devem ser igualmente levados em conta no contexto da fórmula. Pensamos
evidentemente nos diagramas (Diagrama de Venn representando o “desenvolvimento
sustentável” e colocando eventualmente a contribuição “o triplo P15”, bem como a “roda de
Deming” e diferentes esquemas do procedimento de qualidade) e às temáticas icónicas (eólica,
bicicleta, urso polar, banquisa e iceberg...). Também pensamos nas diferentes representações
associadas à normalização e à gestão do desenvolvimento sustentável: rótulos, logos, etiquetas,
certificações, índices, notações, avaliações, indicadores...
Essa última dimensão ao mesmo tempo normativa e de gestão lembra que o contexto
discursivo da fórmula “desenvolvimento sustentável” não poderia ser descrito sem levar em
consideração os gêneros e tipos de textos que implica. Queremos dizer com isto que estudar
14
Sobre este ponto ver nossa análise do enunciado “Não poderemos dizer que não sabíamos” em KriegPlanque 2010.
15
Em inglês: “People, Planet, Profit” (“Triple Bottom Line”)
uma fórmula consiste também no fato de se interrogar sobre os gêneros e tipos de textos que
esta produz. No presente caso, são principalmente implicados os estatutos e códigos de conduta,
os balanços e diagnósticos, e os relatórios anuais e outros documentos de “reporting”.
Em um nível mais lexical, o contexto da fórmula pode ser apreendido em termos de coocorrência. As explorações lexicométricas permitem identificar, em corpus determinados, as
colocações e os sintagmas associados. No contexto de “desenvolvimento sustentável”, tomam
lugar as formulações como “respeitoso do meio ambiente”, “boas práticas ambientais” ou “pelo
planeta”, mas também fórmulas como “comércio equitativo”, “economia social e solidária” ou
“mudança climática”, ou ainda a vasta série de compostos neológicos prefixados em “éco-” e
em “bio-”.
Finalmente, a análise dos contextos de uma fórmula permitem, frequentemente,
identificar operações sintáticas ou léxico-semânticas características. De fato, por meio de
diferentes leituras de textos de caráter institucional referentes ao desenvolvimento sustentável,
identificamos a recorrência de um tipo de operação lingüística intervindo na proximidade
contextual da fórmula “desenvolvimento sustentável”: a concessão. Isto nos permitiu sugerir
que um estudo do discurso que remete a esta fórmula poderia se organizar notadamente ao redor
da concessão. Desta forma, esboçamos os passos do seguinte trabalho: “Observamos que as
contradições postas em evidência – também retoricamente combatidas - pelos discursos que
remetem ao “desenvolvimento sustentável” tomam notadamente apoio nas concessivas.”
(Krieg-Planque 2007, p. 67). Esta é a ideia que exploraremos nas páginas a seguir.
2) A fórmula “desenvolvimento sustentável”: um operador de neutralização de
conflitos
2.1) Discurso sobre o desenvolvimento sustentável e consenso
Na ampla literatura consagrada ao desenvolvimento sustentável, não é estranho observar
que os autores pressentem, de uma maneira ou de outra, a relação estreita que mantém esta
noção com algo que se revelaria a partir do “consenso” ou do “compromisso”. Desde 1994, em
uma crônica lexical consagrada à expressão “desenvolvimento sustentável”, Michel Chansu
sustentava que este “novo termo chave nos discursos políticos” está apto a exprimir uma
“conciliação entre o desenvolvimento e a proteção do meio ambiente” (1994, p. 104). Dez anos
mais tarde, na mesma revista, Christophe Beaurain (2003) observa que o desenvolvimento
sustentável é uma noção suficientemente imprecisa para ser objeto de retomadas sucessivas
pelos atores locais da aglomeração que estuda. No contexto das ciências econômicas e da gestão
especializadas em responsabilidade social e meio ambiente das empresas, Marie-Andrée Caron
e Marie-France Turcotte buscam analisar “o papel mediador do conceito desenvolvimento
sustentável” (2006, p. 159) e identificam com uma intuição sustentada, que elas chamam uma
“alegoria da reconciliação” (2006, p. 161) nos relatórios anuais produzidos por empresas
canadenses. De forma convergente, o trabalho realizado em análise do discurso por Nathalie
Garric, Isabelle Léglise e Sébastien Point (2006) coloca em evidência o caráter legitimamente
dos relatórios da “RSE”, publicados por algumas grandes empresas internacionais. Como jurista
especializado no direito do meio ambiente, Chantal Cans (2003) ressalta a debilidade jurídica da
noção desenvolvimento sustentável, que em contrapartida, apresenta também importância
política, em particular na sua função legitimadora. Ou ainda, se interessando pela comunicação
das organizações e concebendo a questão sob a ótica das estratégias e dos conteúdos, Nicole
D‟Almeida (2004) evoca a noção desenvolvimento sustentável na medida em que esse elemento
“torna possível a inclusão de numerosos atores em um debate onde se atenua a dimensão de
conflito”.
Todavia, pelo que sabemos nenhum trabalho levanta a questão da existência da
concessão (nem de outras formas possíveis de expressão da contradição e da oposição). Mesmo
entre as pesquisas que analisam de bem perto os enunciados, nenhuma sugere que a dimensão
consensual e legitimante observada, passa por operações precisas e linguisticamente
descritíveis. De nossa parte, continuando a nos inscrever em uma análise do discurso que opera
pelas vertentes estruturantes da língua, nos parece que a concessão é constitutiva do discurso
sobre o desenvolvimento sustentável que ela é um modo de acesso à compreensão da fórmula
“desenvolvimento sustentável”.
2.2)
A
concessão:
operação
interdiscursivamente
constitutiva
da
fórmula
“desenvolvimento sustentável”
Observamos que os discursos que recorrem à fórmula “desenvolvimento
sustentável” estão embasados,
em
grande
parte, nas
concessivas
e,
mais
especificamente, nas concessivas reduzidas de gerúndio (permanecendo, por exemplo),
ou nas concessivas reduzidas acrescidas da preposição sem + o verbo no infinitivo (sem
comprometer, por exemplo) ou GN, ou ainda nas concessivas reduzidas acrescidas da
preposição sem + verbo no infinitivo + advérbio ou GN (sem reduzir indevidamente ou
sem efeitos adversos, por exemplo)16.
16
Para um panorama geral das concessivas em francês, nos referimos principalmente a Morel 1996. Não
há espaço disponível aqui para analisar as especificidades das concessivas associadas ao desenvolvimento
sustentável, onde é expressa uma forma de continuidade, mais do que de ruptura.
Tais construções podem ser identificadas nas definições do desenvolvimento
sustentável apresentadas como tal, a começar pelo Relatório de Brundtland que evoca
um:
“... modo de desenvolvimento que responde às necessidades presentes sem
comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias”.
Relatório Nosso Futuro Comum, ONU, Comissão Mundial do Meio ambiente e
do Desenvolvimento, 1987, versão francesa17.
ou naquela do Relatório Salvar o Planeta:
“Na presente estratégia, entendemos por “desenvolvimento sustentável” o fato de
melhorar a vida das comunidades humanas, permanecendo dentro da capacidade
de suporte dos ecossistemas”.
UICN, PNUE, WWF, Salvar o planeta: estratégias para o futuro da vida. Gland,
Suiça, 1991, p.9, 250p.
Tais construções são também encontradas em diferentes documentos
institucionais, políticos, industriais e/ou comerciais, eis aqui, em ordem cronológica,
alguns exemplos de dezenas possíveis:
“A adaptação sustentável das florestas é um processo de planejamento de terras
florestais permanentes, o que faz com que seja possível alcançar um ou mais
objetivos claramente definidos para planejar a produção de fornecimento
contínuo
de
produtos
e
serviços
florestais
necessários,
sem
reduzir
indevidamente seus valores inerentes e futura produtividade e sem efeitos
adversos sobre o ambiente físico e social”.
Conselho Internacional de Madeiras Tropicais (ITTO). “Planejamento sustentável
das florestas”. Decisão 6 (XI), 4 de dezembro de 1991.
“O desenvolvimento sustentável é uma forma de desenvolvimento que responde às
necessidades atuais da população, mantendo as necessidades das futuras
gerações. No desenvolvimento sustentável, as empresas encontram um modelo de
17
A versão inglesa é assim formulada: “development that meets the needs of the present without
compromising the ability of future generations to meet their own needs”. Relatório Our Common Future,
ONU, Comissão Mundial de Meio ambiente e Desenvolvimento (WCED), 1987. Para o presente artigo,
nos limitaremos aos enunciados de língua francesa. Mas, como já salientamos acima, a formação e
circulação das fórmulas nos discursos institucionais estão intimamente ligadas ao colinguismo.
crescimento mais equilibrado, com base no desenvolvimento econômico em longo
prazo, na proteção ambiental e na responsabilidade social”.
JourPost Ile-de-France, jornal de comunicação interna do Grupo La Poste, edição
do Departamento de Val-de-Marne, dezembro de 2004, página 1 do Caderno Valde-Marne, “Pensar, realizar „desenvolvimento sustentável‟”.
“A melhora do transporte público é um dos principais objetivos do município
parisiense. A ação de Bertrand Delanoё visa reduzir a poluição e o barulho,
mantendo o dinamismo econômico de Paris”.
O Jornal do Partido Socialista Paris 12ª, nº1, março de 2006, Emmanuel
Grégorie, “Melhor circular, melhor respirar”, página 2.
“Rede Cultural / Terra Catalão, envolvida numa experiência nacional de turismo
sustentável, está ansiosa por desenvolver um turismo cultural de qualidade
preservando os recursos patrimoniais”.
Rede Cultural – Pirineus Orientais / Terra Catalão. Documento público: “Pass
inter-sites 2008”, página 2, texto de apresentação institucional da Rede Cultural.
“Para fornecer energia a nossos clientes, minimizando o impacto de sua
produção no meio ambiente e no clima, a GDS SUEX escolhe garantir-lhes um
mix energético equilibrado a partir de todas as fontes disponíveis”.
Caderno de Apresentação Institucional da GDF SUEZ, “A energia, fonte do
progresso”, 2008, produzido por Verbe – Consultores Publicis. Título: “A eficácia
da energia sustentável”
“Nossa missão: oferecer aos consumidores uma solução completa para
aperfeiçoar o brilho de sua casa respeitando o meio ambiente. Mais suave para o
planeta, nossos produtos também fornecem uma limpeza menos tóxica e um
interior mais saudável”.
Publicidade da Marca Vileda para sua linha de produtos de limpeza EcoVer.
Publicado na LSA, 15 de outubro de 2009, p.70.
Além da concessão propriamente dita como operação característica (e
historicamente fundadora) da fórmula “desenvolvimento sustentável”, são geralmente
expressões variadas de contradição e de oposição que constituem, no interdiscurso, o
apoio para a definição de “desenvolvimento sustentável”. Os verbos “conjugar”,
“concordar”, “aliar” e “conciliar” são parte dessas expressões, que encontramos, por
exemplo, na Carta do Meio Ambiente de 2004 (anexada no Preâmbulo da Constituição
de 4 de outubro de 1958):
“Artigo 6 – As políticas públicas devem promover o desenvolvimento sustentável.
Para este objetivo, elas conciliam a proteção e a valorização do meio ambiente, o
desenvolvimento econômico e o progresso social”.
ou ainda no texto de apresentação da operação “Parlamento dos Empreendedores do
Futuro”, realizado na Assembleia Nacional em 4 de junho de 2009:
“O Parlamento dos Empreendedores do futuro faz as honras do PME-PMI,
associações, pioneiros de uma economia mais humana e sustentável, que pode
conciliar eficácia e responsabilidade social, desempenho e compromisso ético e
ambiental”.
Nos enunciados apresentados, a concessão estabelece, em geral, um contraste
entre as categorias temporais. Tal tensão geralmente opõe “hoje” e “amanhã”, como é
também o caso de muitos slogans relacionados ao desenvolvimento sustentável (“Agir
hoje para melhor viver amanhã”, “No presente, a Copenhague para o futuro”). Nessa
formulação, a mais canônica, a concessão coloca em jogo também os actantes do
processo: as gerações humanas (atuais e futuras); o planeta (no seu estado atual e no seu
estado futuro); as necessidades (atuais e futuras), como condições de ação; os interesses
(atuais e futuros), como ações móveis.
Quaisquer que sejam os tratamentos propostos (lógico, argumentativo, retórico,
sintático, enunciativo, discursivo), as pesquisas sobre a concessão tendem a concentrar a
atenção nas marcas lingüísticas (“mas”, “contudo”, “no entanto”...). Entretanto, muitas
delas convergem para enfatizar a importância das dimensões argumentativas e
enunciativas nas realizações discursivas. Depois de analisar um relatório de tese,
Dominique Ducard concluiu que, “a partir de um confronto entre representações
conflitantes”, a concessão opera, nesse tipo de documento, como “uma verdadeira
operação enunciativa garantindo a passagem que rege as relações intersubjetivas e o
contrato institucional” (Ducard, 2002, p. 118). Sylvie Garnier (2008) elabora
observações semelhantes ao estudar outro gênero de escrita institucional de caráter
avaliativo: os relatórios da descrição da criança em perigo. Nessa análise, Frédérique
Sitri e Sylvie Garnier vêem na forma concessiva “um lugar privilegiado de inscrição do
discurso outro no discurso que está sendo realizado” (2004, p. 570), e põem em
evidência os diferentes tipos de dialogismo, em que um marcador concessivo como
“certamente” pode garantir a colocação em discurso (2009).
No nosso entendimento, deve-se enfatizar a importância da concessão para a
análise dos discursos sobre o desenvolvimento sustentável. Por um lado, a concessão
permite que, sejam expressas diversas mensagens, suscetíveis de funcionar tanto como
atos de linguagem produzidos concomitantemente por diferentes categorias de
destinatários (por exemplo, “eu me comprometo a proteger o meio ambiente” – “eu me
comprometo a promover o desenvolvimento econômico”). Encontra-se aqui o caráter
pluri-endereçado dos discursos políticos e institucionais. Por outro lado, a concessão
tem como característica argumentativa apresentar como passíveis de superação os
elementos que ela mesma coloca em tensão. De fato, em sua orientação argumentativa,
a concessão apresenta os elementos como podendo ser contraditórios, mas que não o
são. Dessa forma, nos enunciados que definem, parafraseiam ou
reformulam,
a
fórmula “desenvolvimento sustentável” aparece como um termo que expressa uma
contradição, no entanto, uma contradição passiva de ser superada.
No interdiscurso, a fórmula “desenvolvimento sustentável” permanece em
contato com enunciados de definição que expressam uma contradição superável: os
variados enunciados de definição ordinários, relativas apositivas, aposições, retomadas,
reformulações e paráfrases em torno do discurso sobre a fórmula “desenvolvimento
sustentável”, são os alicerces sob os quais o termo elabora sua capacidade de incluir
uma tensão que pode ser superada.
2.3) A fórmula “desenvolvimento sustentável”: suturar a concessiva para neutralizar o
conflito
Como vimos, o sintagma “desenvolvimento sustentável” simboliza, em função
dos laços que mantém no interdiscurso, uma contradição que pode ser resolvida. Mas,
ao mesmo tempo, este sintagma tende a dissimular tal contradição pela dimensão
formulaica que adquire: a fórmula “desenvolvimento sustentável” tem na sua
constituição uma contradição. No entanto, essa contradição é representada apenas de
uma maneira simulada. “Na transparência do sentido que ele se forma” (Pêcheux, 1990
[1975]: 227), absorvendo-a sob a concessão que a funda, a fórmula faz desaparecer os
motivos da discórdia que os enunciados de definição apresentariam. A fórmula
“desenvolvimento sustentável” aparece então, no discurso, como o que produz uma
sutura na oposição. A sutura em questão aqui deve ser entendida sob o ângulo da
cristalização linguística: a impossibilidade de abertura da combinatória na ordem da
língua (incapacidade de inserir, incapacidade de alternar) se desloca para a suspensão da
contradição na ordem dos argumentos e dos conteúdos do discurso (incapacidade de
contradizer).
Compreendemos melhor agora, como o “desenvolvimento sustentável” contribui
para a elaboração do consenso: a concessiva, que passa a ser constitutiva do
“desenvolvimento sustentável”, expressa uma tensão que a fórmula, por sua vez,
permite neutralizar. É desse modo que podemos apreender “desenvolvimento
sustentável” como um sintagma que, em razão do seu funcionamento discursivo, tende a
evitar a divergência de pontos de vista, para despolitizar os temas nos quais se inscreve,
para negar os conflitos de interesse, para ser um operador de neutralização de conflitos,
como apresentado no título deste artigo. Ainda tomando de empréstimo o vocabulário
estimulante da conjuntura dos anos 70, pode-se dizer que “desenvolvimento
sustentável” participa intensamente de um funcionamento ideológico, no sentido de que
a ideologia faz esquecer o que a funda: a fórmula “desenvolvimento sustentável”
permite fazer esquecer a contradição na qual está apoiada. Recorrendo a um termo um
pouco diferente, podemos dizer igualmente que a fórmula “desenvolvimento
sustentável” toma uma dimensão dôxica, no sentido em que ela inibe os contradiscursos e marginaliza os contra-argumentos.
Anteriormente, a noção de interdiscurso permitia compreender como a
concessão é uma operação constitutiva da fórmula “desenvolvimento sustentável”. De
maneira complementar, de acordo com os pressupostos elaborados por Paul Henry e
Michel Pêcheux, a noção de pré-construído ajuda a apreender a dimensão dôxica da
fórmula: por meio de diferentes efeitos de anterioridade que ela produz (a
nominalização, aqui, tem papel crucial18) e nos numerosos contextos de emprego (artigo
definido, principalmente), a fórmula “desenvolvimento sustentável” se dá a ler como
construída no intradiscurso. No “funcionamento do discurso em relação a si mesmo”
(Pêcheux, 1990 [1975], p. 230), essa fórmula se inscreve produzindo os efeitos de
evidência, não sem antes ocultar a contradição, que constitui sua fundação. Assim,
18
Sobre as particularidades semânticas e argumentativas sustentadas por “desenvolvimento”, incluindo a
ligação com o adjetivo “sustentável”, consultar Dufour 2010.
totalmente constituída do que pode desencorajar as objeções num discurso, o sintagma
“desenvolvimento sustentável” impõe sua consistência formulaica no espaço público.
3) Quebrar o consenso ou reconstruí-lo: fenômenos do dialogismo e do conflito
discursivo
Embora tenha uma tendência a expulsar o conflito, a fórmula “desenvolvimento
sustentável” é tomada nos fenômenos complexos do dialogismo. Nesse sentido, dois
movimentos dialógicos principais parecem ser identificáveis. Primeiro, nos interessa os
discursos que respondem ao “desenvolvimento sustentável” como instrumento do
consenso e que consistem em refutar o caráter superável da contradição: esses que são
os contra-discursos ao “desenvolvimento sustentável”. Em seguida, notamos a
existência do discurso que – ao contrário, e como em reposta aos anteriores – tenta
preservar o “desenvolvimento sustentável” de ameaças que possam colocá-lo em
questionamento: esses são os discursos que visam garantir a sua estabilidade.
3.1) Resistência ao consenso: re-politizar o debate
Certo número de locutores vê no “desenvolvimento sustentável” uma fórmula
própria a iludir, na medida em que ela apresenta como óbvias as posições que os atores
acreditam que devem ser debatidas, criticadas, e, geralmente, condenadas. Trata-se,
pois, para esses atores resistir ao discurso percebido como dôxico, de re-politizar as
questões que outros atores têm procurado despolitizar. Como um slogan relacionado à
“moralização do capitalismo” com os quais eles também têm um parentesco, os
discursos que defendem o “desenvolvimento sustentável” suscitam claramente algumas
reações hostis, o que, da perspectiva da análise do discurso, podemos apreender como
reveladoras de fenômenos do dialogismo interdiscursivo.
Essa resistência ao consenso é expressa de diversos modos. Ela se manifesta
construída e teorizada por um número de atores que militam explicitamente contra o
“desenvolvimento sustentável” como cristalização de uma doutrina que rejeitam ou
como conjunto de práticas vistas como inoportunas. Os discursos que defendem o
“decrescimento” são, a esse respeito, particularmente explícitos e organizados: podemos
identificar seus autores legítimos, os textos-chave, as estruturas, as publicações e as
correntes. O “decrescimento” aparece essencialmente como um contra-discurso. Como
sugerimos num texto anterior, entendemos “desenvolvimento sustentável” como uma
fórmula e o “decrescimento” como contra-discurso, assim, temos uma ilustração clara
do que pode ser o dialogismo. Por um lado, o discurso do “desenvolvimento
sustentável” se apresenta como uma reação (mas, uma reação de alguma forma
progressista, ou pelo menos, “em progresso”), ao que seriam os “excessos”, os
“defeitos”, os “efeitos perversos” do modelo sócio-econômico do “crescimento”. Por
outro lado, o discurso do “decrescimento” se dá a ver como um contra-discurso: aqueles
que se inscrevem nesse tipo de discurso, têm claramente identificado como o
“desenvolvimento sustentável” poderia transformar, pela via do “crescimento
sustentável” ou do “crescimento verde”, as formas do “crescimento industrial” e do
“crescimento econômico”, induzidas por um modelo produtivista. O discurso do
“desenvolvimento sustentável” e o do “decrescimento”, escrevemos em outro texto,
“ambos seriamente reivindicam salvar o mundo, o homem e o planeta. Aqui temos os
dois
fortes polos
ideológicos
encarnados
nas
unidades
lexicais
elaboradas
dialogicamente” (Krieg-Planque, 2006, p. 44).
A resistência ao consenso reflete-se assim eventualmente de forma mais limitada
ou intuitiva, geralmente nos mesmos locutores (Serge Latouche, Yves Cochet, Paul
Ariès, Vincent Cheynet…), pelas desqualificações da expressão “desenvolvimento
sustentável”.
Tais
desqualificações
passam,
principalmente,
por
enunciados
metadiscursivos e, em particular, pelos comentários que qualificam o “desenvolvimento
sustentável” como “oxímoro” ou como “contradição”. Os enunciados citados aqui
devem ser lidos sob o duplo prisma dos trabalhos sobre metadiscurso (Authier-Revuz,
1995), e também com base naqueles que se interessam pelo uso comum das palavras
metalinguísticas, tal como “eufemismo” (Krieg-Planque, 2004) ou “sinônimo” (Lecolle,
2009). Em certos casos, esses enunciados também devem ser abordados na medida em
que participam de forma mais ampla de uma denúncia do caráter manipulatório dos
discursos políticos em geral, cujo oxímoro seria uma das figuras típicas do espaço
público contemporâneo.
O ensaio de Bertrand Méheust, A política do oxímoro.
Como aqueles que nos governam mascaram a realidade do mundo, amplamente
comentado quando da sua publicação em 2009, evidencia tal movimento de denúncia
geral, e coloca a fórmula “desenvolvimento sustentável” na vanguarda desse tipo de uso
deturpado da linguagem.
Aqui estão alguns exemplos dessa re-politização do debate que permite a
desqualificação do “desenvolvimento sustentável” de modo que ele seria um oxímoro:
“Desenvolvimento sustentável. Essa expressão, na qual se unem nos últimos
anos todos os grandes poluidores do planeta, justamente ganhou a ira de Serge
Latouche, que o vê como um oxímoro notável* ”.
“*Cf. Le Monde Diplomatique, maio de 2001. Para Serge Latouche, o mito do “desenvolvimento”
na maioria das vezes resultando nos países do terceiro mundo de uma regressão de fato, uma vez
que querer torná-lo sustentável é uma contradição notória. Falar de desenvolvimento, portanto, é
exaltar uma progressão... regressiva!”.
François Brune, Da ideologia, hoje. Análises, às vezes depreciativas, do
“discurso” midiático-publicitário, Paris, Parangon, 2003, p.109.
“Enquanto „desenvolvimento sustentável‟ já é um oxímoro desprovido de sentido
– qualquer um sabe hoje! -, associá-lo ao „crescimento sustentável‟ me parece
totalmente grotesco! „Crescimento‟ realmente significa – não é. M. Muet que me
contradiga – que a economia é afetada, a cada ano, de uma taxa, embora mais ou
menos variável, mas sempre positiva! É uma forma, portanto de crescimento
exponencial. Acrescentar „sustentável‟ a „crescimento‟ fingindo acreditar que
será o mesmo em 2100, em 2500 ou em 3000, é completamente idiota! Senhor
Ministro, adotar uma lei que contém essas duas frases que ridicularizam na
Europa!
Yves Cochet (Grupo Esquerda Democrática e Republicana). Assembléia
Nacional, debates em sessão pública, sessão ordinária de 2008-09.
Segunda
reunião de quarta-feira, 10 de junho de 2009. Após a discussão, segunda leitura do
projeto de lei.
Pela caracterização do “desenvolvimento sustentável” como sendo um
“oximoro”, a dimensão paradoxal do desenvolvimento sustentável que é enfatizada.
Mais precisamente: o que a concessiva mostra como contraditório em aparência, esses
comentários mostram realmente como contraditório. Para seus autores, é, por
conseguinte, por meio desses comentários de recusa da sutura da concessiva que opera a
fórmula “desenvolvimento sustentável”. Trata-se frequentemente, também, ao mesmo
tempo, de denunciar o caráter falacioso da retórica do adversário.
3.2) Antecipações de resistências e reações ao conflito: assegurar o restabelecimento
O segundo movimento dialógico que nos interessa no momento consiste nas
antecipações das resistências. Trata-se para os locutores envolvidos de se resguardar de
discursos que ameaçam o desenvolvimento sustentável, e, antecipadamente, de
assegurar a reabilitação de um “desenvolvimento sustentável” que esses atores têm
criticado. Tais reações ao conflito são encontradas nos discursos favoráveis ao
“desenvolvimento sustentável, em que esses discursos visam fazer uma recaptura
positiva. Dito de outra maneira, frente aos atores que realçam as incoerências e as
contradições do “desenvolvimento sustentável”, trata-se, para esse segundo conjunto de
locutores, de recriar uma coerência de valores – coerência de valores que a fórmula
“desenvolvimento sustentável”, pela sutura que a concessiva opera, pretende garantir.
Sobre o fundo e no plano argumentativo, esses discursos são constituídos pela
dissociação das noções que opõem o “falso desenvolvimento sustentável” (um
desenvolvimento sustentável fictício, usurpado, fingido, desviado, inautêntico, merecido
de ser condenado) ao “verdadeiro desenvolvimento sustentável” (o desenvolvimento
sustentável autêntico, que deve ser promovido e praticado).
Na materialização dos enunciados, esse apoio ao desenvolvimento sustentável
passa por várias formulações. Ele se exprime livremente pela refutação ou pela negação
do “greenwashing”19. O “greenwashing” é então encenado como prática a ser refutada
(que deve ser “buscada”, “capturada” ou “caçada”), como o que trai a causa de um
desenvolvimento sustentável que permaneceria, por ele mesmo, profundamente
positivo. É desse modo, por exemplo, que se expressa a jornalista de um cotidiano
gratuito:
“Explorado o ambiente, o conceito de desenvolvimento sustentável – que tem
como objetivo articular melhor o desenvolvimento econômico, o social e o
ambiental - está na boca de todos. É preciso, pois, separar o trigo (orgânico) do
joio (geneticamente modificado), perseguir o “greenwashing”, essa propensão a
a tornar tudo verde para melhor vender ou restaurar sua reputação. Daí a
importância dos rótulos – orgânico, ecológico ou equitativo - que garantem
maior respeito ao meio ambiente e/ou aos produtores. O comércio justo, que é um
19
NT. Greenwashing é uma palavra-valise criada para designar um procedimento de marketing utilizado
por uma organização com o objetivo de prover uma imagem ecologicamente responsável dos seus
produtos ou serviços.
bom exemplo de desenvolvimento sustentável, recria o vínculo social e a
esperança”.
Catherine Levesque, “Surto de crescimento para o desenvolvimento sustentável”,
cotidiano gratuito 20 minutes, edição especial Semana do Desenvolvimento
Sustentável, terça-feira 31 de março de 2009, p.15.
Os profissionais da comunicação são produtores especialmente ativos desse tipo
de discurso que garante a defesa do “desenvolvimento sustentável” por meio de uma
condenação do “greenwashing”. Veja, por exemplo, como se apresenta AdWiser, um
grupo de profissionais da comunicação:
“Nós pensamos, por exemplo, que a forma (o suporte) é tão importante quanto o
fundo (transparência e ética de suas mensagens), que a reparação de carbono
não é um fim em si mesmo, que a caça ao greenwashing deveria ser um reflexo
natural (fazemos tudo o que ele se tornou), ou ainda, que a regulamentação
deveria ser acompanhada de acordos voluntários”.
Texto de apresentação e de intenção de 2 de junho de 2008 da “AdWiser. Por
uma comunicação responsável, grupo de profissionais da comunicação. Página do
site da AdWiser (www.blog-adwiser.com/2008/06/cest-quoi.html), consultada em
22 de fevereiro de 2010.
A ARPP (Autoridade Reguladora Profissional da Publicidade, antigamente
BVP), em parceria com a ADEME (Agência do Meio Ambiente e Gestão de Energia),
se instituiu entre os porta-vozes autorizados desse discurso de condenação do
greenwashing em nome da defesa do desenvolvimento sustentável. Por meio do
estabelecimento de indicadores que permitiriam fazer a separação das publicidades
realmente ecologistas daquelas que não seriam, a ARPP se coloca como guardiã do
desenvolvimento sustentável autêntico e fiel. É pelo menos, desse modo que a
organização tem se apresentado em seu Balanço Publicidade e Meio ambiente20, ou
ainda, no Guia de anti-greenwashing, em preparação21 atualmente. Outras organizações
de representação ou da auto-regulação do setor da comunicação são igualmente
20
Este relatório de pesquisa foi editado pela primeira vez em 2006, sob a proteção do BVP (Agência de
Verificação da Publicidade). Depois, numa segunda edição em 2007, o relatório foi renovado em 2009,
dessa vez sob a proteção conjunta da ARPP e da ADEME.
21
Co-publicado pela ARPP e pela ADEME, este guia é uma extensão do Guia da eco-comunicação. Por
uma comunicação mais responsável; publicado pela ADEME em 2007.
promotoras desse tipo de discurso: UDA (União de Anunciantes), AACC (Associação
das Agências-Conselho em Comunicação), UJJEF (União de Jornais e de Jornalistas das
Empresas da França)...
As razões para esse apoio são compreensíveis: o setor da comunicação é ao
mesmo tempo um dos que mais se beneficiam com a existência de uma imposição ao
“desenvolvimento sustentável” (uma vez que este setor é responsável por implementar a
publicidade das demandas dessa injunção), e que é principalmente encarregada de
efetuar as operações de “branqueamento”, ocasionando a existência de tal palavra de
ordem (uma vez que, o greenwashing consiste em recorrer à comunicação para
apresentar as marcas, empresas, instituições, produtos ou serviços em um dia
excessivamente favorável do ponto de vista ambiental e/ou social).
Como vimos, o discurso de condenação do greenwashing contribui na
legitimação das atividades (aquelas dos comunicadores, bem como dos atores para
quem os comunicadores trabalham): ele visa reforçar o consenso, assegurar a junção em
torno do “desenvolvimento sustentável”, cujo caráter problemático e questionável de
fundo é sempre suscetível de ser recordado. De reforços de uma fórmula cuja
característica mais clara é que ela neutraliza o conflito, tais discursos operam-se, por sua
vez, favorecendo apagamento das asperezas.
3.3) Discurso institucional e apagamentos: um elo necessário
Em conclusão, menos sobre a fórmula “desenvolvimento sustentável” em si,
queremos enfatizar a maneira sob a qual ela se mostra, de modo mais geral, falar acerca
de certos funcionamentos discursivos. Vários autores notaram a estreita relação entre o
discurso institucional e as diversas formas de apagamento.
Nos textos que permanecem atuais, Patrick Sériot (1986a e 1986b) mostrou
como a nominalização produz um apagamento dos modos e dos tempos verbais, bem
como da identidade dos actantes do processo, ajudando a tornar o objeto do discurso
soviético um objeto referencialmente subdeterminado, deixando pouco espaço para a
contradição. Em sua análise dos discursos humanitários, Philippe Juhem (2001) destaca
a falta de oposição e de contra-argumento que tais discursos encontram, tornando-se
“discursos sem adversários”.
Durante seu trabalho sobre a fábrica de discursos
institucionais, Claire Oger e Caroline Ollivier-Yaniv (2006) se interessam, por sua
parte, sobre os processos de “suavização” que visam a “afastar a desordem discursiva”.
No estudo que apresentamos aqui, o apagamento reside na sutura que a
concessiva opera pela fórmula. As tentativas de tornar visíveis essas tensões ocultas
conseguem se exprimir: observamos aqui tais efeitos por meio de enunciados
constituídos a partir do dialogismo interdiscursivo mostrado e do metadiscurso
ordinário sustentado em palavras metalinguísticas. Mas, estas tentativas são
confrontadas a uma recaptura positiva do “desenvolvimento sustentável”, fórmula em
que os promotores heterogêneos concordam em não abandonar a capacidade de impedir
a contradição. É nesse contexto mais amplo da análise dos discursos institucionais,
praticando diferentes formas de apagamento, de eufemismo e de negação do conflito
(Krieg-Planque e Oger, 2010) que pode se inscrever essa análise da fórmula
“desenvolvimento sustentável” como operadora da neutralização do conflito.
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Tradução: Roberto Leiser Baronas; Júlia Lourenço Costa e Virgínia Rúbio Scola.
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A fórmula “desenvolvimento sustentável”1: um operador de