A fórmula “desenvolvimento sustentável”1: um operador de neutralização de conflitos Por Alice KRIEG-PLANQUE (Université Paris-Est Créteil (UPEC)/Céditec (EA 3119)) Plano do artigo: 1. “Desenvolvimento sustentável”: uma fórmula 1.1. Análise do discurso e abordagens sobre fórmulas 1.2. Um referente social: o sucesso da expressão 1.3. Uma semantização heterogênea: a diversidade das significações 1.4. A fórmula e suas variantes: “desenvolvimento sustentável”, “turismo sustentável”, “sustentabilidade urbana”... 1.5. A fórmula e seus contextos: slogans, relatos, topoi, ícones 2. A fórmula “desenvolvimento sustentável”: um operador de neutralização de conflitos 2.1. Discurso sobre o desenvolvimento sustentável e consenso 2.2. A concessão: operador interdiscursivamente constitutivo da fórmula “desenvolvimento sustentável” 2.3. A fórmula “desenvolvimento sustentável”: suturar a concessiva para neutralizar o conflito 3. Quebrar o consenso ou reconstruí-lo: fenômenos de dialogismo e de conflito discursivo 3.1) Resistências ao consenso: repolitizar o debate 3.2) Antecipações das resistências e reações aos conflitos: assegurar o reestabelecimento 3.3) Discursos institucionais e apagamento: um elo necessário 1) “Desenvolvimento sustentável”: uma fórmula 1.1) Análise do discurso e abordagens sobre a fórmula Desde meados da década de 90, o desenvolvimento sustentável suscitou uma profusão de publicações. Proveniente de horizontes disciplinares variados, e intervindo em diferentes níveis de especialização e de normatização, esses trabalhos enfatizam, segundo o caso, por exemplo: a história da noção (Zaccaï 2002), os seus usos políticos (Brunel 2008), as abordagens 1 N de T. Em francês développement durable, traduzimos pela fórmula em português: “desenvolvimento sustentável” e não durável, como era de se esperar de uma tradução mais literal. Na página 5 tratamos desta distinção. A versão francesa deste texto “La formule “développement durable”: un opérateur de neutralisation de la conflictualité”, foi publicada na Revista Langage et Société, Paris, Editions de la Maison des Sciences de l‟Homme, n°135, p. 05 a 29, dezembro de 2010. econômicas do objeto (Bürgenmeier 2005), o recurso ao desenvolvimento sustentável nas estratégias de comunicação das empresas e das marcas (Tixier dir. 2005), as modelizações e práticas do desenvolvimento sustentável no management ou na gestão (Capron e QuairelLanoizelée 2004; Reynaud et alii 2006), ou ainda a sociologia do engajamento militante que dá lugar ao desenvolvimento sustentável ou a questões relacionadas (ambientalismo, consumo engajado, anticonsumismo, altermundialismo...) (Fillieule, Agrikoliansky, Meyer 2004; Ollitrault 2008). Além desses estudos, é preciso acrescentar os que examinam as ideias e as correntes da ecologia política, seja desde uma postura de filósofo, de sociólogo ou de politólogo (Sainteny 2000), seja desde um posicionamento que combina os do analista e os do ator (Yves Cochet, Alain Lipietz, Serge Latouche...). Neste caso, da mesma forma que em outros domínios, uma abordagem discursiva dos fatos sociais propõe um esclarecimento particular. No tocante ao desenvolvimento sustentável como em outras temáticas, a análise do discurso não tem como finalidade comentar as pesquisas que estão sendo realizadas nas ciências humanas e sociais (ainda menos de “ilustrá-las”, de “verificá-las”, ou de superá-las), mas sim de tomar o discurso ele mesmo como objeto, questionando-o com base em conceitos e categorias específicas. O fato de apreender o discurso relativo ao desenvolvimento sustentável sob o ângulo da fórmula, como é aqui proposto, se constitui num procedimento próprio da análise do discurso. A noção de “fórmula” foi objeto de publicações as quais remetemos2. Gostaríamos de lembrar que entendemos por fórmula “um conjunto de formulações que, pelo seu emprego em um momento e em um espaço público dados, cristalizam interesses políticos e sociais que estas formulações contribuem ao mesmo tempo para construir” (Krieg-Planque 2009a, p. 7). Considerando “desenvolvimento sustentável” como uma fórmula, empreendemos um projeto que visa a alcançar os discursos políticos, midiáticos e institucionais por meio das diferentes formas de fixação que estes discursos modelam e fazem circular: trata-se de “transgredir as fronteiras estabelecidas pelos discursos e por seus produtores para tornar visíveis fatos de retomada, de reformulação, de regularidade, de circulação, de dispersão e de eco” (Krieg-Planque 2007, p. 58). 1.2) Um referente social: o sucesso da expressão Uma fórmula se caracteriza especialmente pelo fato que se torna um referente social: ela significa alguma coisa para todos. No caso de “desenvolvimento sustentável”, numerosos são os indícios de circulação do termo que manifestam o seu sucesso. O sintagma “desenvolvimento sustentável” vem sendo utilizado nos mais diversos setores: transportes, distribuição, energia, 2 NT Alguns dos trabalhos sobre fórmulas elaborados em português podem ser vistos no livro MOTTA, A. R. & SALGADO, L. S. Fórmulas discursivas. São Paulo, Contexto, 2011. construção, arquitetura e urbanismo, turismo, educação, agricultura, pesca, têxtil... Nessas práticas discursivas, entrecruzam-se facilmente temáticas trans-setoriais politicamente encorajadoras, tais como a cidade, a mobilidade, as tecnologias numéricas, ou ainda a participação. Quem gostar de descrever com precisão a disseminação do sintagma “desenvolvimento sustentável” não lhe faltará, então, nem campo, nem corpus. No domínio da ação pública, a aparição do sintagma “desenvolvimento sustentável” no nome de um ministério é particularmente digno de nota. Na França, a criação em maio de 2002 de uma Secretaria de Estado de Desenvolvimento Sustentável e de um Ministério de Ecologia e do Desenvolvimento Sustentável (substituindo o que tinha sido um Ministério do Planejamento do Território e do Meio Ambiente) demonstra como as políticas públicas levam em conta tudo o que remete à fórmula “desenvolvimento sustentável”, enquanto algo construído na ordem das representações. A aparição de um programa “Ecologia e Desenvolvimento Sustentável” colocado em funcionamento pela LOLF3 promulgada em 2001, ou ainda o lançamento de uma “Semana do Desenvolvimento Sustentável” em 2003, testemunham um agendamento do que a fórmula supostamente designa, no quadro mais amplo da potencialização das problemáticas sanitárias e ambientais. Nos organogramas das empresas, ao longo dos anos 2000, a adição de “desenvolvimento sustentável” às denominações de funções dirigentes torna visível a importância que a organização atribui à fórmula, ao ponto nodal do estratégico e do comunicacional (“Direção da Comunicação e do Desenvolvimento Sustentável”, “Direção do Desenvolvimento Sustentável e dos Assuntos Públicos”, “Direção de Estratégia e do Desenvolvimento Sustentável”...). Em complemento a sua acepção fortemente conceitual, o desenvolvimento sustentável aparece em diferentes percepções como um fato objetivável, quantificável, mensurável, cartografável, que se torna desta forma disponível por uma “forma de governo pelos números”. É o que sugere, por exemplo, a aparição inicial em 2002 de um Atlas Mundial do Desenvolvimento Sustentável (Editions Autrement), ou ainda, em outro nível, os indicadores de desenvolvimento sustentável aceleraram-se com a lei relativa às novas regulamentações econômicas (NRE) de 2001. Esta lei, por sua vez, ajudou na proliferação do termo, reforçando a profissionalização dos empregos ligados ao conselho estratégico de desenvolvimento sustentável, na redação de relatórios anuais sobre o desenvolvimento sustentável e na responsabilidade social das empresas. Outros fenômenos ainda mostram o caráter invasivo do “desenvolvimento sustentável” no espaço público a partir de meados dos anos 90: aumento da frequência do sintagma em corpora midiáticos, criação de formações dedicadas ao ensino superior, lançamentos de títulos da imprensa incluindo variantes da fórmula... 3 N de T. Lei Orgânica Relativa às Leis de Finanças (LOLF). O emprego da fórmula é feito por locutores heterogêneos e às vezes antagonistas. Ademais, “desenvolvimento sustentável” aparece em gêneros e tipos de suportes textuais extremamente variados. Isto lembra que as fórmulas são objetos transgenéricos, destacando o que Dominique Maingueneau (2005) chama “unidades não-tópicas”. Se a fórmula circula, é porque carrega nela interesses múltiplos, eventualmente contraditórios. Mas também é porque o uso da expressão constitui, nele mesmo, um jogo. De fato, não é somente os empregos dos termos em si mesmos que fazem do “desenvolvimento sustentável” uma fórmula, mas também sua capacidade de acompanhar as palavras de ordem. Este valor de injunção é muito concretamente observável em situações em que o uso dessa expressão condiciona a existência das estruturas, dos projetos ou das ações, por exemplo, porque determina os créditos (o “desenvolvimento sustentável” faz parte das temáticas explícitas de financiamento da pesquisa, por exemplo, na França o financiamento da ANR4), ou porque legitima certas práticas (por exemplo, a desmaterialização dos procedimentos apresentada especialmente em nome das economias de papel que ela engendrava, enquanto poderia ser vista sob o ângulo ilegalidades que ela ratifica e das degradações sociais que ocasiona). 1.3) Uma semantização heterogênea: a diversidade das significações O caráter dominante de uma fórmula não implica de nenhuma forma a homogeneidade: o fato de que “desenvolvimento sustentável” seja uma passagem obrigatória por numerosas produções textuais não supõe – muito ao contrário - a estabilidade ou a univocidade do termo. “Constata-se que as palavras podem mudar de sentido segundo as posições defendidas por quem as empregam”, escrevia Pêcheux (1990 [1971]: 140). O estudo da fórmula “desenvolvimento sustentável” permite mais uma vez observar a pertinência da afirmação de Pêcheux. Mesmo que nos limitássemos às definições canônicas, “desenvolvimento sustentável” aparece investido em formas diversas. A definição autorizada segundo a qual o desenvolvimento sustentável repousaria sobre três pilares (“social”, “ambiental”, “econômico”), na intersecção dos quais se situaria por sua vez os três componentes do “equitativo”, do “viável” e do “vivível”, é na realidade o objeto de variações múltiplas, identificáveis em discurso e mais notável ainda nas representações visuais que recorreram a um diagrama de Venn com três conjuntos5. Alguns atores institucionais militam explicitamente para mobilizar esta definição em benefício de seus próprios interesses, os quais são mobilizados pelo léxico. Por exemplo, no quadro das ações ligadas a Agenda 21, algumas coletividades territoriais asseguram a promoção conjunta do “desenvolvimento sustentável” e da “cultura” (e/ou da “diversidade cultural”) 4 N de T. Agência Nacional de Pesquisa. O leitor poderá ter uma visão geral da variedade das modalizações do desenvolvimento sustentável visualizando os resultados da seleção “esquema do desenvolvimento sustentável” na função imagem de um motor de pesquisa. 5 propondo que a “cultura” (ou que a “diversidade cultural”) seja reconhecida como um “quarto pilar” do desenvolvimento sustentável. Outros atores defendem que a “comunicação”, a “comunicação pública”, a “governança” ou ainda também o “conhecimento” deveria ser objeto de um reconhecimento tal como “quarto pilar”. Tais esforços testemunham o duplo desafio de legitimação de um valor de injunção que cristaliza a fórmula “desenvolvimento sustentável”, sendo também, indícios da plasticidade semântica característica das fórmulas. Além dos enunciados com caráter de definição, as ocorrências do sintagma “desenvolvimento sustentável” em uso fazem aparecer uma grande diversidade de acepções ainda. É explícito que as realidades designadas e os traços de significação implicados são somente parcialmente compartilhados segundo o espaço em que a expressão aparece, por exemplo, em trabalhos produzidos em sessões das Semanas Sociais da França, em documentos da organização Oxfam, ou em suportes de comunicação institucional de Air France. Neste último tipo de locutor, a sinonímia parcial – ou também, a sinonímia explicitamente colocada entre “desenvolvimento sustentável” e “responsabilidade social das empresas” (que é reforçada pela pluralidade de formações vocabulares de “RES”6), ressalta a capacidade dos atores de se apropriar do sintagma “desenvolvimento sustentável” (ou considerado a partir de outro ponto de vista: a capacidade da fórmula “desenvolvimento sustentável” de se integrar nas categorias simples e nos raciocínios práticos). O sentido de “desenvolvimento sustentável” se constrói, também, por meio das múltiplas variantes que utilizando a fórmula a transformam. Sobre estes aspectos diremos umas palavras a seguir. 1.4) A fórmula e suas variantes: “desenvolvimento sustentável”, “turismo sustentável”, “sustentabilidade urbana”... A fórmula “desenvolvimento sustentável” é o sintagma “desenvolvimento sustentável” ele mesmo, mas também é o conjunto das suas variantes, derivadas, compostas e descristalizadas como tal em contexto7. Tivemos a oportunidade de realizar minuciosamente este tipo de inventário no tocante à fórmula "purificação étnica” (Krieg-Planque, 2003): este estudo demonstrou quanto a produtividade lexicológica está associada a um funcionamento da fórmula. “Desenvolvimento sustentável”, também, prolifera em uma série de formulações que constituem tantas transformações que atestam o sucesso da fórmula, formulações das quais participam e as colocam em circulação. 6 “RSE” é principalmente interpretado como sendo a sigla da “responsabilidade social (ou societal) das empresas” ou de “responsabilidade social da empresa”, mas é frequentemente desenvolvido por “responsabilidade social e ambiental (da/das empresa(s))”, o que aumenta o parentesco entre “RSE” e “desenvolvimento sustentável”. 7 Sobre esta questão, que implica a noção de “interpretante razoável”, ver Krieg-Planque 2006, p. 36-8. Quem se interessar em detalhe no inventário da fórmula “desenvolvimento sustentável” será levado a perceber, em corpus circunscritos, diferentes formulações, sejam produzidas por comutação nominal (“alimentação sustentável”, “modo de vida sustentável”, “bairros sustentáveis”), por comutação adjetiva (“desenvolvimento viável”, “desenvolvimento ético”, “desenvolvimento próprio”), por coordenação (“desenvolvimento sustentável e solidário”, “desenvolvimento e crescimento sustentáveis”), por inserção (“desenvolvimento urbano sustentável”, “desenvolvimento humano sustentável”), ou ainda por uma base adjetival por derivação imprópria (“o sustentável”, “o durável”), ou por nominalização (“a sustentabilidade”, “a durabilidade”). As formulações produzidas por combinação de várias destas operações linguísticas figuram também no inventário, geralmente em relação estreita com a “responsabilidade social da empresa”, “sustentabilidade débil”, “economia responsável”, “políticas de sustentabilidade”, “gestão sustentável e equitativa de água”, “planejamento responsável e sustentável dos territórios e do meio ambiente”... Ademais, a análise das variantes da fórmula deve levar em conta os fenômenos da tradução, da coabitação de versões documentárias e textuais, e, mais globalmente, do colingüismo. Por um lado, “desenvolvimento sustentável” é antes de tudo o produto das instituições políticas e públicas caracterizadas por sua dimensão supranacional ou internacional, portanto marcadas pelo colinguismo; por outro lado, as variantes da fórmula em uma língua determinada são só parcialmente dissociáveis das traduções com as quais elas estão em contato. Não podemos deixar de ressaltar, por exemplo, que a língua francesa é a única a privilegiar o elemento “durável” em detrimento de “sustentável” pela tradução do termo em inglês “sustainable”8. Algo que como constata Paola Paissa, implica custos “ao mesmo tempo no plano da coerência linguística e no plano da comunicação internacional” (Paissa, 2008, p. 557). Como evocamos no item precedente deste texto, existe uma ligação forte entre a questão das variantes e a da significação. O jogo da substituição de certos elementos de um paradigma em certos contextos e de sua não-substituição em outros faz com que a retomada seja possível (às vezes apenas apreensível, às vezes bem visível) de uma formulação por uma outra na responsabilidade enunciativa. Neste contexto, o uso de “crescimento durável” como variante frequente da fórmula na literatura das grandes empresas e das firmas transnacionais (mas também como tradução francesa de “sustainable development” às vezes retido pela OCDE) autoriza deslizamentos que servem como opções políticas dos atores. É esse uso, por exemplo, 8 Para traduzir a expressão inglesa “sustainable development”, as línguas da União Européia favoreceram “sustentável”: “svilupposostenibile” (italiano), “desarrollosostenible” (espanhol), “desenvolvimento sustentável” (português)... Sobre as questões de tradução e de definição de “desenvolvimento sustentável”, ver também Vivien 2007. Sobre a tradução da fórmula em relação aos seus três “pilares”, ver Jeanneret. que permite à EDF colocar no interior de um mesmo documento, uma sequência que vai de um “crescimento durável e solidário” a um “crescimento rentável e durável do Grupo”9. 1.5) A fórmula e seus contextos: slogans, relatos, topoi, ícones No sentido em que entendemos o contexto de uma fórmula não pertence a uma ordem da realidade mundana na qual a descrição feita pelo pesquisador forneceria a conjuntura esclarecedora da fórmula. Mas esse contexto pertence à ordem do real discursivo e simbólico que a própria fórmula revela. Na pesquisa que realizamos em torno de “purificação étnica”, a análise fez aparecer designantes, acontecimentos, pequenas frases ou ainda slogans como contextos da fórmula. No que concerne à fórmula “desenvolvimento sustentável”, a documentação analisada permite observar contextos de uma grande riqueza, dos quais evocaremos somente alguns pontos. Entendemos que cada um deles mereceria uma pesquisa específica. Os nomes próprios de acontecimentos10 constituem um tipo de contexto notável da fórmula. Na narração pública, esta é apresentada segundo uma trajetória ascendente paralela a de acontecimentos que denominam topônimos empregados para designar acontecimentos, como são frequentemente os nomes de cúpulas e de conferências: “Conferência de Stockholm”, “Cúpula do Rio”, “Cúpula de Kyoto”, “Cúpula de Johannesbourg”, “Conferência de Copenhague”... Pertencem também a este tipo de contexto denominações de acontecimentos que podem ser apreendidas como metonímias de nomes próprios de acontecimentos formados sobre um topônimo, tal como “Grenelle do meio ambiente”11. O contexto da fórmula é igualmente constituído por “textos-chaves”, no sentido em que o entendemos12, isto é, no presente caso, de relatos, declarações e documentos nos quais os comentadores acreditam poder identificar o sentido profundo ou as intenções inaugurais da fórmula. O “Relatório Brundtland de 1987” é neste aspecto o mais notável dos textos-chaves: além dos usos variados, funciona constantemente como texto fundador da noção e como fonte legítima da definição. Funcionam também como “texto-chave” o “Apelo de Haye” de 1989, o “Apelo de Heidelberg” de 199213, o “Discurso de Chirac em Johannesbourg” em 2002 (regularmente apresentado como o discurso pelo qual é enfim liberada a expressão política da 9 EDF-Delegaçao a ética e à deontología, CA de 22 de maio de 2005, documento de trabalho, “Valeursdu Groupe EDF”, p. 97-98. Na sua análise sobre o desenvolvimento sustentável da sociedade Hydro Québec, Marie Anne Caron e Marie- François Turcotte observam fenômenos similares (2006, p. 163). 10 Sobre esta questão ver Krieg-Planque 2009b. 11 Sobre esta denominação ver Barbet 2010. 12 Ver Krieg-Planque 2003, p. 105 a 133. 13 Sobre este texto ver Vignes 1994. culpabilidade moral e do dever de ação14), ou ainda o “Pacto Ecológico de Nicolas Hulot”, lançado em 2006. Os relatos aos quais os comentadores outorgam o estatuto de mito ou de legenda contam também entre os “textos-chaves” por intermédio dos quais a fórmula toma consistência: desta forma se dá na “História do Colibri”, relato exemplar atribuído a uma lenda ameríndia, e a partir da qual circulam as mais variadas versões. Na sua colocação em discurso, “desenvolvimento sustentável” encontra igualmente citações de autoridade. É desta forma que funciona, por exemplo, o enunciado “Não herdamos a terra dos nossos ancestrais, nós a pedimos emprestado de nossas crianças”, geralmente atribuído a Antoine Saint-Exupéry, mas também frequentemente a um chefe indígena da região de Seattle, ou ainda mencionado como sendo um provérbio africano. Aqui também, a questão mereceria um estudo mais amplo. Continuando na discussão de como se dá o apoio na construção da legitimidade da fórmula, levantamos alguns topoi, dos quais dois merecem ser assinalados. Um aciona em primeiro lugar a dimensão temporal: esse topoi coloca que tudo o que fazemos hoje determina o que será feito amanhã. O outro tipo de argumento combina o lugar da quantidade e das relações de causalidade: ele coloca que muitas ações pequenas têm um grande efeito. É esse topos que é mobilizado na estratégia dos “ecogestos”, adotada na comunicação pública, destinada ao grande público, e utilizada por numerosas associações e fundações. É sobre este topos que repousa um slogan como “Façamos rápido, cada gesto conta!”, mas também “a História do Colibri”, já evocada. Diferentes elementos que implicam o estrato gráfico e icónico, assim como o estrato verbal, devem ser igualmente levados em conta no contexto da fórmula. Pensamos evidentemente nos diagramas (Diagrama de Venn representando o “desenvolvimento sustentável” e colocando eventualmente a contribuição “o triplo P15”, bem como a “roda de Deming” e diferentes esquemas do procedimento de qualidade) e às temáticas icónicas (eólica, bicicleta, urso polar, banquisa e iceberg...). Também pensamos nas diferentes representações associadas à normalização e à gestão do desenvolvimento sustentável: rótulos, logos, etiquetas, certificações, índices, notações, avaliações, indicadores... Essa última dimensão ao mesmo tempo normativa e de gestão lembra que o contexto discursivo da fórmula “desenvolvimento sustentável” não poderia ser descrito sem levar em consideração os gêneros e tipos de textos que implica. Queremos dizer com isto que estudar 14 Sobre este ponto ver nossa análise do enunciado “Não poderemos dizer que não sabíamos” em KriegPlanque 2010. 15 Em inglês: “People, Planet, Profit” (“Triple Bottom Line”) uma fórmula consiste também no fato de se interrogar sobre os gêneros e tipos de textos que esta produz. No presente caso, são principalmente implicados os estatutos e códigos de conduta, os balanços e diagnósticos, e os relatórios anuais e outros documentos de “reporting”. Em um nível mais lexical, o contexto da fórmula pode ser apreendido em termos de coocorrência. As explorações lexicométricas permitem identificar, em corpus determinados, as colocações e os sintagmas associados. No contexto de “desenvolvimento sustentável”, tomam lugar as formulações como “respeitoso do meio ambiente”, “boas práticas ambientais” ou “pelo planeta”, mas também fórmulas como “comércio equitativo”, “economia social e solidária” ou “mudança climática”, ou ainda a vasta série de compostos neológicos prefixados em “éco-” e em “bio-”. Finalmente, a análise dos contextos de uma fórmula permitem, frequentemente, identificar operações sintáticas ou léxico-semânticas características. De fato, por meio de diferentes leituras de textos de caráter institucional referentes ao desenvolvimento sustentável, identificamos a recorrência de um tipo de operação lingüística intervindo na proximidade contextual da fórmula “desenvolvimento sustentável”: a concessão. Isto nos permitiu sugerir que um estudo do discurso que remete a esta fórmula poderia se organizar notadamente ao redor da concessão. Desta forma, esboçamos os passos do seguinte trabalho: “Observamos que as contradições postas em evidência – também retoricamente combatidas - pelos discursos que remetem ao “desenvolvimento sustentável” tomam notadamente apoio nas concessivas.” (Krieg-Planque 2007, p. 67). Esta é a ideia que exploraremos nas páginas a seguir. 2) A fórmula “desenvolvimento sustentável”: um operador de neutralização de conflitos 2.1) Discurso sobre o desenvolvimento sustentável e consenso Na ampla literatura consagrada ao desenvolvimento sustentável, não é estranho observar que os autores pressentem, de uma maneira ou de outra, a relação estreita que mantém esta noção com algo que se revelaria a partir do “consenso” ou do “compromisso”. Desde 1994, em uma crônica lexical consagrada à expressão “desenvolvimento sustentável”, Michel Chansu sustentava que este “novo termo chave nos discursos políticos” está apto a exprimir uma “conciliação entre o desenvolvimento e a proteção do meio ambiente” (1994, p. 104). Dez anos mais tarde, na mesma revista, Christophe Beaurain (2003) observa que o desenvolvimento sustentável é uma noção suficientemente imprecisa para ser objeto de retomadas sucessivas pelos atores locais da aglomeração que estuda. No contexto das ciências econômicas e da gestão especializadas em responsabilidade social e meio ambiente das empresas, Marie-Andrée Caron e Marie-France Turcotte buscam analisar “o papel mediador do conceito desenvolvimento sustentável” (2006, p. 159) e identificam com uma intuição sustentada, que elas chamam uma “alegoria da reconciliação” (2006, p. 161) nos relatórios anuais produzidos por empresas canadenses. De forma convergente, o trabalho realizado em análise do discurso por Nathalie Garric, Isabelle Léglise e Sébastien Point (2006) coloca em evidência o caráter legitimamente dos relatórios da “RSE”, publicados por algumas grandes empresas internacionais. Como jurista especializado no direito do meio ambiente, Chantal Cans (2003) ressalta a debilidade jurídica da noção desenvolvimento sustentável, que em contrapartida, apresenta também importância política, em particular na sua função legitimadora. Ou ainda, se interessando pela comunicação das organizações e concebendo a questão sob a ótica das estratégias e dos conteúdos, Nicole D‟Almeida (2004) evoca a noção desenvolvimento sustentável na medida em que esse elemento “torna possível a inclusão de numerosos atores em um debate onde se atenua a dimensão de conflito”. Todavia, pelo que sabemos nenhum trabalho levanta a questão da existência da concessão (nem de outras formas possíveis de expressão da contradição e da oposição). Mesmo entre as pesquisas que analisam de bem perto os enunciados, nenhuma sugere que a dimensão consensual e legitimante observada, passa por operações precisas e linguisticamente descritíveis. De nossa parte, continuando a nos inscrever em uma análise do discurso que opera pelas vertentes estruturantes da língua, nos parece que a concessão é constitutiva do discurso sobre o desenvolvimento sustentável que ela é um modo de acesso à compreensão da fórmula “desenvolvimento sustentável”. 2.2) A concessão: operação interdiscursivamente constitutiva da fórmula “desenvolvimento sustentável” Observamos que os discursos que recorrem à fórmula “desenvolvimento sustentável” estão embasados, em grande parte, nas concessivas e, mais especificamente, nas concessivas reduzidas de gerúndio (permanecendo, por exemplo), ou nas concessivas reduzidas acrescidas da preposição sem + o verbo no infinitivo (sem comprometer, por exemplo) ou GN, ou ainda nas concessivas reduzidas acrescidas da preposição sem + verbo no infinitivo + advérbio ou GN (sem reduzir indevidamente ou sem efeitos adversos, por exemplo)16. 16 Para um panorama geral das concessivas em francês, nos referimos principalmente a Morel 1996. Não há espaço disponível aqui para analisar as especificidades das concessivas associadas ao desenvolvimento sustentável, onde é expressa uma forma de continuidade, mais do que de ruptura. Tais construções podem ser identificadas nas definições do desenvolvimento sustentável apresentadas como tal, a começar pelo Relatório de Brundtland que evoca um: “... modo de desenvolvimento que responde às necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias”. Relatório Nosso Futuro Comum, ONU, Comissão Mundial do Meio ambiente e do Desenvolvimento, 1987, versão francesa17. ou naquela do Relatório Salvar o Planeta: “Na presente estratégia, entendemos por “desenvolvimento sustentável” o fato de melhorar a vida das comunidades humanas, permanecendo dentro da capacidade de suporte dos ecossistemas”. UICN, PNUE, WWF, Salvar o planeta: estratégias para o futuro da vida. Gland, Suiça, 1991, p.9, 250p. Tais construções são também encontradas em diferentes documentos institucionais, políticos, industriais e/ou comerciais, eis aqui, em ordem cronológica, alguns exemplos de dezenas possíveis: “A adaptação sustentável das florestas é um processo de planejamento de terras florestais permanentes, o que faz com que seja possível alcançar um ou mais objetivos claramente definidos para planejar a produção de fornecimento contínuo de produtos e serviços florestais necessários, sem reduzir indevidamente seus valores inerentes e futura produtividade e sem efeitos adversos sobre o ambiente físico e social”. Conselho Internacional de Madeiras Tropicais (ITTO). “Planejamento sustentável das florestas”. Decisão 6 (XI), 4 de dezembro de 1991. “O desenvolvimento sustentável é uma forma de desenvolvimento que responde às necessidades atuais da população, mantendo as necessidades das futuras gerações. No desenvolvimento sustentável, as empresas encontram um modelo de 17 A versão inglesa é assim formulada: “development that meets the needs of the present without compromising the ability of future generations to meet their own needs”. Relatório Our Common Future, ONU, Comissão Mundial de Meio ambiente e Desenvolvimento (WCED), 1987. Para o presente artigo, nos limitaremos aos enunciados de língua francesa. Mas, como já salientamos acima, a formação e circulação das fórmulas nos discursos institucionais estão intimamente ligadas ao colinguismo. crescimento mais equilibrado, com base no desenvolvimento econômico em longo prazo, na proteção ambiental e na responsabilidade social”. JourPost Ile-de-France, jornal de comunicação interna do Grupo La Poste, edição do Departamento de Val-de-Marne, dezembro de 2004, página 1 do Caderno Valde-Marne, “Pensar, realizar „desenvolvimento sustentável‟”. “A melhora do transporte público é um dos principais objetivos do município parisiense. A ação de Bertrand Delanoё visa reduzir a poluição e o barulho, mantendo o dinamismo econômico de Paris”. O Jornal do Partido Socialista Paris 12ª, nº1, março de 2006, Emmanuel Grégorie, “Melhor circular, melhor respirar”, página 2. “Rede Cultural / Terra Catalão, envolvida numa experiência nacional de turismo sustentável, está ansiosa por desenvolver um turismo cultural de qualidade preservando os recursos patrimoniais”. Rede Cultural – Pirineus Orientais / Terra Catalão. Documento público: “Pass inter-sites 2008”, página 2, texto de apresentação institucional da Rede Cultural. “Para fornecer energia a nossos clientes, minimizando o impacto de sua produção no meio ambiente e no clima, a GDS SUEX escolhe garantir-lhes um mix energético equilibrado a partir de todas as fontes disponíveis”. Caderno de Apresentação Institucional da GDF SUEZ, “A energia, fonte do progresso”, 2008, produzido por Verbe – Consultores Publicis. Título: “A eficácia da energia sustentável” “Nossa missão: oferecer aos consumidores uma solução completa para aperfeiçoar o brilho de sua casa respeitando o meio ambiente. Mais suave para o planeta, nossos produtos também fornecem uma limpeza menos tóxica e um interior mais saudável”. Publicidade da Marca Vileda para sua linha de produtos de limpeza EcoVer. Publicado na LSA, 15 de outubro de 2009, p.70. Além da concessão propriamente dita como operação característica (e historicamente fundadora) da fórmula “desenvolvimento sustentável”, são geralmente expressões variadas de contradição e de oposição que constituem, no interdiscurso, o apoio para a definição de “desenvolvimento sustentável”. Os verbos “conjugar”, “concordar”, “aliar” e “conciliar” são parte dessas expressões, que encontramos, por exemplo, na Carta do Meio Ambiente de 2004 (anexada no Preâmbulo da Constituição de 4 de outubro de 1958): “Artigo 6 – As políticas públicas devem promover o desenvolvimento sustentável. Para este objetivo, elas conciliam a proteção e a valorização do meio ambiente, o desenvolvimento econômico e o progresso social”. ou ainda no texto de apresentação da operação “Parlamento dos Empreendedores do Futuro”, realizado na Assembleia Nacional em 4 de junho de 2009: “O Parlamento dos Empreendedores do futuro faz as honras do PME-PMI, associações, pioneiros de uma economia mais humana e sustentável, que pode conciliar eficácia e responsabilidade social, desempenho e compromisso ético e ambiental”. Nos enunciados apresentados, a concessão estabelece, em geral, um contraste entre as categorias temporais. Tal tensão geralmente opõe “hoje” e “amanhã”, como é também o caso de muitos slogans relacionados ao desenvolvimento sustentável (“Agir hoje para melhor viver amanhã”, “No presente, a Copenhague para o futuro”). Nessa formulação, a mais canônica, a concessão coloca em jogo também os actantes do processo: as gerações humanas (atuais e futuras); o planeta (no seu estado atual e no seu estado futuro); as necessidades (atuais e futuras), como condições de ação; os interesses (atuais e futuros), como ações móveis. Quaisquer que sejam os tratamentos propostos (lógico, argumentativo, retórico, sintático, enunciativo, discursivo), as pesquisas sobre a concessão tendem a concentrar a atenção nas marcas lingüísticas (“mas”, “contudo”, “no entanto”...). Entretanto, muitas delas convergem para enfatizar a importância das dimensões argumentativas e enunciativas nas realizações discursivas. Depois de analisar um relatório de tese, Dominique Ducard concluiu que, “a partir de um confronto entre representações conflitantes”, a concessão opera, nesse tipo de documento, como “uma verdadeira operação enunciativa garantindo a passagem que rege as relações intersubjetivas e o contrato institucional” (Ducard, 2002, p. 118). Sylvie Garnier (2008) elabora observações semelhantes ao estudar outro gênero de escrita institucional de caráter avaliativo: os relatórios da descrição da criança em perigo. Nessa análise, Frédérique Sitri e Sylvie Garnier vêem na forma concessiva “um lugar privilegiado de inscrição do discurso outro no discurso que está sendo realizado” (2004, p. 570), e põem em evidência os diferentes tipos de dialogismo, em que um marcador concessivo como “certamente” pode garantir a colocação em discurso (2009). No nosso entendimento, deve-se enfatizar a importância da concessão para a análise dos discursos sobre o desenvolvimento sustentável. Por um lado, a concessão permite que, sejam expressas diversas mensagens, suscetíveis de funcionar tanto como atos de linguagem produzidos concomitantemente por diferentes categorias de destinatários (por exemplo, “eu me comprometo a proteger o meio ambiente” – “eu me comprometo a promover o desenvolvimento econômico”). Encontra-se aqui o caráter pluri-endereçado dos discursos políticos e institucionais. Por outro lado, a concessão tem como característica argumentativa apresentar como passíveis de superação os elementos que ela mesma coloca em tensão. De fato, em sua orientação argumentativa, a concessão apresenta os elementos como podendo ser contraditórios, mas que não o são. Dessa forma, nos enunciados que definem, parafraseiam ou reformulam, a fórmula “desenvolvimento sustentável” aparece como um termo que expressa uma contradição, no entanto, uma contradição passiva de ser superada. No interdiscurso, a fórmula “desenvolvimento sustentável” permanece em contato com enunciados de definição que expressam uma contradição superável: os variados enunciados de definição ordinários, relativas apositivas, aposições, retomadas, reformulações e paráfrases em torno do discurso sobre a fórmula “desenvolvimento sustentável”, são os alicerces sob os quais o termo elabora sua capacidade de incluir uma tensão que pode ser superada. 2.3) A fórmula “desenvolvimento sustentável”: suturar a concessiva para neutralizar o conflito Como vimos, o sintagma “desenvolvimento sustentável” simboliza, em função dos laços que mantém no interdiscurso, uma contradição que pode ser resolvida. Mas, ao mesmo tempo, este sintagma tende a dissimular tal contradição pela dimensão formulaica que adquire: a fórmula “desenvolvimento sustentável” tem na sua constituição uma contradição. No entanto, essa contradição é representada apenas de uma maneira simulada. “Na transparência do sentido que ele se forma” (Pêcheux, 1990 [1975]: 227), absorvendo-a sob a concessão que a funda, a fórmula faz desaparecer os motivos da discórdia que os enunciados de definição apresentariam. A fórmula “desenvolvimento sustentável” aparece então, no discurso, como o que produz uma sutura na oposição. A sutura em questão aqui deve ser entendida sob o ângulo da cristalização linguística: a impossibilidade de abertura da combinatória na ordem da língua (incapacidade de inserir, incapacidade de alternar) se desloca para a suspensão da contradição na ordem dos argumentos e dos conteúdos do discurso (incapacidade de contradizer). Compreendemos melhor agora, como o “desenvolvimento sustentável” contribui para a elaboração do consenso: a concessiva, que passa a ser constitutiva do “desenvolvimento sustentável”, expressa uma tensão que a fórmula, por sua vez, permite neutralizar. É desse modo que podemos apreender “desenvolvimento sustentável” como um sintagma que, em razão do seu funcionamento discursivo, tende a evitar a divergência de pontos de vista, para despolitizar os temas nos quais se inscreve, para negar os conflitos de interesse, para ser um operador de neutralização de conflitos, como apresentado no título deste artigo. Ainda tomando de empréstimo o vocabulário estimulante da conjuntura dos anos 70, pode-se dizer que “desenvolvimento sustentável” participa intensamente de um funcionamento ideológico, no sentido de que a ideologia faz esquecer o que a funda: a fórmula “desenvolvimento sustentável” permite fazer esquecer a contradição na qual está apoiada. Recorrendo a um termo um pouco diferente, podemos dizer igualmente que a fórmula “desenvolvimento sustentável” toma uma dimensão dôxica, no sentido em que ela inibe os contradiscursos e marginaliza os contra-argumentos. Anteriormente, a noção de interdiscurso permitia compreender como a concessão é uma operação constitutiva da fórmula “desenvolvimento sustentável”. De maneira complementar, de acordo com os pressupostos elaborados por Paul Henry e Michel Pêcheux, a noção de pré-construído ajuda a apreender a dimensão dôxica da fórmula: por meio de diferentes efeitos de anterioridade que ela produz (a nominalização, aqui, tem papel crucial18) e nos numerosos contextos de emprego (artigo definido, principalmente), a fórmula “desenvolvimento sustentável” se dá a ler como construída no intradiscurso. No “funcionamento do discurso em relação a si mesmo” (Pêcheux, 1990 [1975], p. 230), essa fórmula se inscreve produzindo os efeitos de evidência, não sem antes ocultar a contradição, que constitui sua fundação. Assim, 18 Sobre as particularidades semânticas e argumentativas sustentadas por “desenvolvimento”, incluindo a ligação com o adjetivo “sustentável”, consultar Dufour 2010. totalmente constituída do que pode desencorajar as objeções num discurso, o sintagma “desenvolvimento sustentável” impõe sua consistência formulaica no espaço público. 3) Quebrar o consenso ou reconstruí-lo: fenômenos do dialogismo e do conflito discursivo Embora tenha uma tendência a expulsar o conflito, a fórmula “desenvolvimento sustentável” é tomada nos fenômenos complexos do dialogismo. Nesse sentido, dois movimentos dialógicos principais parecem ser identificáveis. Primeiro, nos interessa os discursos que respondem ao “desenvolvimento sustentável” como instrumento do consenso e que consistem em refutar o caráter superável da contradição: esses que são os contra-discursos ao “desenvolvimento sustentável”. Em seguida, notamos a existência do discurso que – ao contrário, e como em reposta aos anteriores – tenta preservar o “desenvolvimento sustentável” de ameaças que possam colocá-lo em questionamento: esses são os discursos que visam garantir a sua estabilidade. 3.1) Resistência ao consenso: re-politizar o debate Certo número de locutores vê no “desenvolvimento sustentável” uma fórmula própria a iludir, na medida em que ela apresenta como óbvias as posições que os atores acreditam que devem ser debatidas, criticadas, e, geralmente, condenadas. Trata-se, pois, para esses atores resistir ao discurso percebido como dôxico, de re-politizar as questões que outros atores têm procurado despolitizar. Como um slogan relacionado à “moralização do capitalismo” com os quais eles também têm um parentesco, os discursos que defendem o “desenvolvimento sustentável” suscitam claramente algumas reações hostis, o que, da perspectiva da análise do discurso, podemos apreender como reveladoras de fenômenos do dialogismo interdiscursivo. Essa resistência ao consenso é expressa de diversos modos. Ela se manifesta construída e teorizada por um número de atores que militam explicitamente contra o “desenvolvimento sustentável” como cristalização de uma doutrina que rejeitam ou como conjunto de práticas vistas como inoportunas. Os discursos que defendem o “decrescimento” são, a esse respeito, particularmente explícitos e organizados: podemos identificar seus autores legítimos, os textos-chave, as estruturas, as publicações e as correntes. O “decrescimento” aparece essencialmente como um contra-discurso. Como sugerimos num texto anterior, entendemos “desenvolvimento sustentável” como uma fórmula e o “decrescimento” como contra-discurso, assim, temos uma ilustração clara do que pode ser o dialogismo. Por um lado, o discurso do “desenvolvimento sustentável” se apresenta como uma reação (mas, uma reação de alguma forma progressista, ou pelo menos, “em progresso”), ao que seriam os “excessos”, os “defeitos”, os “efeitos perversos” do modelo sócio-econômico do “crescimento”. Por outro lado, o discurso do “decrescimento” se dá a ver como um contra-discurso: aqueles que se inscrevem nesse tipo de discurso, têm claramente identificado como o “desenvolvimento sustentável” poderia transformar, pela via do “crescimento sustentável” ou do “crescimento verde”, as formas do “crescimento industrial” e do “crescimento econômico”, induzidas por um modelo produtivista. O discurso do “desenvolvimento sustentável” e o do “decrescimento”, escrevemos em outro texto, “ambos seriamente reivindicam salvar o mundo, o homem e o planeta. Aqui temos os dois fortes polos ideológicos encarnados nas unidades lexicais elaboradas dialogicamente” (Krieg-Planque, 2006, p. 44). A resistência ao consenso reflete-se assim eventualmente de forma mais limitada ou intuitiva, geralmente nos mesmos locutores (Serge Latouche, Yves Cochet, Paul Ariès, Vincent Cheynet…), pelas desqualificações da expressão “desenvolvimento sustentável”. Tais desqualificações passam, principalmente, por enunciados metadiscursivos e, em particular, pelos comentários que qualificam o “desenvolvimento sustentável” como “oxímoro” ou como “contradição”. Os enunciados citados aqui devem ser lidos sob o duplo prisma dos trabalhos sobre metadiscurso (Authier-Revuz, 1995), e também com base naqueles que se interessam pelo uso comum das palavras metalinguísticas, tal como “eufemismo” (Krieg-Planque, 2004) ou “sinônimo” (Lecolle, 2009). Em certos casos, esses enunciados também devem ser abordados na medida em que participam de forma mais ampla de uma denúncia do caráter manipulatório dos discursos políticos em geral, cujo oxímoro seria uma das figuras típicas do espaço público contemporâneo. O ensaio de Bertrand Méheust, A política do oxímoro. Como aqueles que nos governam mascaram a realidade do mundo, amplamente comentado quando da sua publicação em 2009, evidencia tal movimento de denúncia geral, e coloca a fórmula “desenvolvimento sustentável” na vanguarda desse tipo de uso deturpado da linguagem. Aqui estão alguns exemplos dessa re-politização do debate que permite a desqualificação do “desenvolvimento sustentável” de modo que ele seria um oxímoro: “Desenvolvimento sustentável. Essa expressão, na qual se unem nos últimos anos todos os grandes poluidores do planeta, justamente ganhou a ira de Serge Latouche, que o vê como um oxímoro notável* ”. “*Cf. Le Monde Diplomatique, maio de 2001. Para Serge Latouche, o mito do “desenvolvimento” na maioria das vezes resultando nos países do terceiro mundo de uma regressão de fato, uma vez que querer torná-lo sustentável é uma contradição notória. Falar de desenvolvimento, portanto, é exaltar uma progressão... regressiva!”. François Brune, Da ideologia, hoje. Análises, às vezes depreciativas, do “discurso” midiático-publicitário, Paris, Parangon, 2003, p.109. “Enquanto „desenvolvimento sustentável‟ já é um oxímoro desprovido de sentido – qualquer um sabe hoje! -, associá-lo ao „crescimento sustentável‟ me parece totalmente grotesco! „Crescimento‟ realmente significa – não é. M. Muet que me contradiga – que a economia é afetada, a cada ano, de uma taxa, embora mais ou menos variável, mas sempre positiva! É uma forma, portanto de crescimento exponencial. Acrescentar „sustentável‟ a „crescimento‟ fingindo acreditar que será o mesmo em 2100, em 2500 ou em 3000, é completamente idiota! Senhor Ministro, adotar uma lei que contém essas duas frases que ridicularizam na Europa! Yves Cochet (Grupo Esquerda Democrática e Republicana). Assembléia Nacional, debates em sessão pública, sessão ordinária de 2008-09. Segunda reunião de quarta-feira, 10 de junho de 2009. Após a discussão, segunda leitura do projeto de lei. Pela caracterização do “desenvolvimento sustentável” como sendo um “oximoro”, a dimensão paradoxal do desenvolvimento sustentável que é enfatizada. Mais precisamente: o que a concessiva mostra como contraditório em aparência, esses comentários mostram realmente como contraditório. Para seus autores, é, por conseguinte, por meio desses comentários de recusa da sutura da concessiva que opera a fórmula “desenvolvimento sustentável”. Trata-se frequentemente, também, ao mesmo tempo, de denunciar o caráter falacioso da retórica do adversário. 3.2) Antecipações de resistências e reações ao conflito: assegurar o restabelecimento O segundo movimento dialógico que nos interessa no momento consiste nas antecipações das resistências. Trata-se para os locutores envolvidos de se resguardar de discursos que ameaçam o desenvolvimento sustentável, e, antecipadamente, de assegurar a reabilitação de um “desenvolvimento sustentável” que esses atores têm criticado. Tais reações ao conflito são encontradas nos discursos favoráveis ao “desenvolvimento sustentável, em que esses discursos visam fazer uma recaptura positiva. Dito de outra maneira, frente aos atores que realçam as incoerências e as contradições do “desenvolvimento sustentável”, trata-se, para esse segundo conjunto de locutores, de recriar uma coerência de valores – coerência de valores que a fórmula “desenvolvimento sustentável”, pela sutura que a concessiva opera, pretende garantir. Sobre o fundo e no plano argumentativo, esses discursos são constituídos pela dissociação das noções que opõem o “falso desenvolvimento sustentável” (um desenvolvimento sustentável fictício, usurpado, fingido, desviado, inautêntico, merecido de ser condenado) ao “verdadeiro desenvolvimento sustentável” (o desenvolvimento sustentável autêntico, que deve ser promovido e praticado). Na materialização dos enunciados, esse apoio ao desenvolvimento sustentável passa por várias formulações. Ele se exprime livremente pela refutação ou pela negação do “greenwashing”19. O “greenwashing” é então encenado como prática a ser refutada (que deve ser “buscada”, “capturada” ou “caçada”), como o que trai a causa de um desenvolvimento sustentável que permaneceria, por ele mesmo, profundamente positivo. É desse modo, por exemplo, que se expressa a jornalista de um cotidiano gratuito: “Explorado o ambiente, o conceito de desenvolvimento sustentável – que tem como objetivo articular melhor o desenvolvimento econômico, o social e o ambiental - está na boca de todos. É preciso, pois, separar o trigo (orgânico) do joio (geneticamente modificado), perseguir o “greenwashing”, essa propensão a a tornar tudo verde para melhor vender ou restaurar sua reputação. Daí a importância dos rótulos – orgânico, ecológico ou equitativo - que garantem maior respeito ao meio ambiente e/ou aos produtores. O comércio justo, que é um 19 NT. Greenwashing é uma palavra-valise criada para designar um procedimento de marketing utilizado por uma organização com o objetivo de prover uma imagem ecologicamente responsável dos seus produtos ou serviços. bom exemplo de desenvolvimento sustentável, recria o vínculo social e a esperança”. Catherine Levesque, “Surto de crescimento para o desenvolvimento sustentável”, cotidiano gratuito 20 minutes, edição especial Semana do Desenvolvimento Sustentável, terça-feira 31 de março de 2009, p.15. Os profissionais da comunicação são produtores especialmente ativos desse tipo de discurso que garante a defesa do “desenvolvimento sustentável” por meio de uma condenação do “greenwashing”. Veja, por exemplo, como se apresenta AdWiser, um grupo de profissionais da comunicação: “Nós pensamos, por exemplo, que a forma (o suporte) é tão importante quanto o fundo (transparência e ética de suas mensagens), que a reparação de carbono não é um fim em si mesmo, que a caça ao greenwashing deveria ser um reflexo natural (fazemos tudo o que ele se tornou), ou ainda, que a regulamentação deveria ser acompanhada de acordos voluntários”. Texto de apresentação e de intenção de 2 de junho de 2008 da “AdWiser. Por uma comunicação responsável, grupo de profissionais da comunicação. Página do site da AdWiser (www.blog-adwiser.com/2008/06/cest-quoi.html), consultada em 22 de fevereiro de 2010. A ARPP (Autoridade Reguladora Profissional da Publicidade, antigamente BVP), em parceria com a ADEME (Agência do Meio Ambiente e Gestão de Energia), se instituiu entre os porta-vozes autorizados desse discurso de condenação do greenwashing em nome da defesa do desenvolvimento sustentável. Por meio do estabelecimento de indicadores que permitiriam fazer a separação das publicidades realmente ecologistas daquelas que não seriam, a ARPP se coloca como guardiã do desenvolvimento sustentável autêntico e fiel. É pelo menos, desse modo que a organização tem se apresentado em seu Balanço Publicidade e Meio ambiente20, ou ainda, no Guia de anti-greenwashing, em preparação21 atualmente. Outras organizações de representação ou da auto-regulação do setor da comunicação são igualmente 20 Este relatório de pesquisa foi editado pela primeira vez em 2006, sob a proteção do BVP (Agência de Verificação da Publicidade). Depois, numa segunda edição em 2007, o relatório foi renovado em 2009, dessa vez sob a proteção conjunta da ARPP e da ADEME. 21 Co-publicado pela ARPP e pela ADEME, este guia é uma extensão do Guia da eco-comunicação. Por uma comunicação mais responsável; publicado pela ADEME em 2007. promotoras desse tipo de discurso: UDA (União de Anunciantes), AACC (Associação das Agências-Conselho em Comunicação), UJJEF (União de Jornais e de Jornalistas das Empresas da França)... As razões para esse apoio são compreensíveis: o setor da comunicação é ao mesmo tempo um dos que mais se beneficiam com a existência de uma imposição ao “desenvolvimento sustentável” (uma vez que este setor é responsável por implementar a publicidade das demandas dessa injunção), e que é principalmente encarregada de efetuar as operações de “branqueamento”, ocasionando a existência de tal palavra de ordem (uma vez que, o greenwashing consiste em recorrer à comunicação para apresentar as marcas, empresas, instituições, produtos ou serviços em um dia excessivamente favorável do ponto de vista ambiental e/ou social). Como vimos, o discurso de condenação do greenwashing contribui na legitimação das atividades (aquelas dos comunicadores, bem como dos atores para quem os comunicadores trabalham): ele visa reforçar o consenso, assegurar a junção em torno do “desenvolvimento sustentável”, cujo caráter problemático e questionável de fundo é sempre suscetível de ser recordado. De reforços de uma fórmula cuja característica mais clara é que ela neutraliza o conflito, tais discursos operam-se, por sua vez, favorecendo apagamento das asperezas. 3.3) Discurso institucional e apagamentos: um elo necessário Em conclusão, menos sobre a fórmula “desenvolvimento sustentável” em si, queremos enfatizar a maneira sob a qual ela se mostra, de modo mais geral, falar acerca de certos funcionamentos discursivos. Vários autores notaram a estreita relação entre o discurso institucional e as diversas formas de apagamento. Nos textos que permanecem atuais, Patrick Sériot (1986a e 1986b) mostrou como a nominalização produz um apagamento dos modos e dos tempos verbais, bem como da identidade dos actantes do processo, ajudando a tornar o objeto do discurso soviético um objeto referencialmente subdeterminado, deixando pouco espaço para a contradição. Em sua análise dos discursos humanitários, Philippe Juhem (2001) destaca a falta de oposição e de contra-argumento que tais discursos encontram, tornando-se “discursos sem adversários”. Durante seu trabalho sobre a fábrica de discursos institucionais, Claire Oger e Caroline Ollivier-Yaniv (2006) se interessam, por sua parte, sobre os processos de “suavização” que visam a “afastar a desordem discursiva”. No estudo que apresentamos aqui, o apagamento reside na sutura que a concessiva opera pela fórmula. As tentativas de tornar visíveis essas tensões ocultas conseguem se exprimir: observamos aqui tais efeitos por meio de enunciados constituídos a partir do dialogismo interdiscursivo mostrado e do metadiscurso ordinário sustentado em palavras metalinguísticas. Mas, estas tentativas são confrontadas a uma recaptura positiva do “desenvolvimento sustentável”, fórmula em que os promotores heterogêneos concordam em não abandonar a capacidade de impedir a contradição. É nesse contexto mais amplo da análise dos discursos institucionais, praticando diferentes formas de apagamento, de eufemismo e de negação do conflito (Krieg-Planque e Oger, 2010) que pode se inscrever essa análise da fórmula “desenvolvimento sustentável” como operadora da neutralização do conflito. 4 Referências Bibliográficas AUTHIER-REVUZ Jacqueline, 1995, Ces mots qui ne vont pas de soi. Boucles réflexives et noncoïncidences du dire, Paris, Larousse. BARBET Denis, 2010, “Grenelle”. Histoire politique d‟un mot, Rennes, Presses Universitaires de Rennes, coll. Res Publica. BEAURAIN Christophe, 2003, “Economie et développement durable dans les discours de la production territoriale”, Mots. Les langages du politique, n°72, pp. 45-59. BRUNEL Sylvie, 2008, A qui profite le développement durable ?, Larousse, coll. A dire vrai. BÜRGENMEIER Beat, 2005, Economie du développement durable, Bruxelles, De Boeck, coll. Questions d‟économie et de gestion. CANS Chantal, 2003, “Le développement durable en droit interne : apparence du droit et droit des apparences”, L‟Actualité juridique. Droit administratif (AJDA), Dalloz, n°5, pp. 210-218. CAPRON Michel et QUAIREL-LANOIZELEE Françoise, 2004, Mythes et réalités de l‟entreprise responsable, Paris, La Découverte, coll. Entreprise & société. CARON Marie-Andrée, TURCOTTE Marie-France, 2006, “La métaphore de la mesure: étude du potentiel régulatoire des pratiques de divulgation en matière de développement durable”, dans DE LA BROISE Patrice et LAMARCHE Thomas (dir.), Responsabilité sociale : vers une nouvelle communication des entreprises ?, Villeneuve d‟Ascq, Presses Universitaire du Septentrion ; pp. 155-175. CHANSOU Michel, 1994, “Développement durable, un nouveau terme clé dans les discours politiques”, Mots. Les langages du politique, Paris, Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, n°39, pp. 99-105. D‟ALMEIDA Nicole, 2004, “De l‟environnement au développement durable, l‟institution d‟un objet et la configuration d‟une question”, Communication et Organisation, GREC/O, Université Michel de Montaigne Bordeaux 3, n°26. DUCARD Dominique, 2002, “Représentations et énonciation”, dans DARDY Claudine, DUCARD Dominique, MAINGUENEAU Dominique, Un genre universitaire : le rapport de soutenance de thèse, Villeneuve d‟Ascq, Presses universitaires du Septentrion ; pp. 87-118. DUFOUR Françoise, 2010, De l‟idéologie coloniale à celle du développement : une analyse du discours France-Afrique, Paris, L‟Harmattan, coll. Espaces discursifs. 18 FILLIEULE Olivier, AGRIKOLIANSKY Eric, MEYER Nonna coord., 2004, “Militants de l‟altermondialisation” (dossier), Politix, Paris, Hermès Sciences, n°68. GARNIER Sylvie et SITRI Frédérique, 2004, “Le discours autre dans l‟énoncé concessif”, dans LOPEZ MUÑOZ Juan Manuel, MARNETTE Sophie, ROSIER Laurence (textes réunis par), Le discours rapporté dans tous ses états, Paris, L‟Harmattan. GARNIER Sylvie et SITRI Frédérique, 2009, “Certes, un marqueur dialogique?”, Langue française, Paris, Armand Colin, n°163, pp. 121-136. GARNIER Sylvie, 2008, “L‟évaluation dans les écrits de signalement”, dans CISLARU Georgeta, SITRI Frédérique, PUGNIERE-SAAVEDRA Frédéric coord., “Analyse de discours et demande sociale. Le cas des écrits de signalement”, Les Carnets du Cediscor, Paris, Presses de la Sorbonne Nouvelle, n°10, pp. 79-01. GARRIC Nathalie, LEGLISE Isabelle et POINT Sébastien, 2006, “Le rapport RSE, outil de légitimation ? Le cas Total à la lumière d‟une analyse de discours”, Revue de l‟Organisation Responsable, Paris, Editions Eska, vol. 2, n°1, pp. 5-19. JEANNERET Yves, à paraître, “L‟optique du sustainable : territoires médiatisés et savoirs visibles”, Questions de communication, Metz, Université Paul Verlaine. JUHEM Philippe, 2001, “La légitimation de la cause humanitaire : un discours sans adversaire”, Mots. Les langages du politique, Lyon, ENS Editions, n°65, pp. 9-27. KRIEG-PLANQUE Alice et OGER Claire, 2010, “Discours institutionnels : perspectives pour les sciences de la communication”, Mots. Les langages du politique, Lyon, ENS Editions, n°94. KRIEG-PLANQUE Alice, 2003, “Purification ethnique”. Une formule et son histoire, Paris, CNRS Editions, coll. Communication. KRIEG-PLANQUE Alice, 2004, “Souligner l‟euphémisme : opération savante ou acte d‟engagement? Analyse du „jugement d‟euphémisation‟ dans le discours politique”, Semen. Revue de sémiolinguistique des textes et discours, Besançon, Presses Universitaires de Franche-Comté, n°17, pp. 59-79. KRIEG-PLANQUE Alice, 2006, “ „Formules‟ et „lieux discursifs‟ : propositions pour l‟analyse du discours politique”, Semen. Revue de sémio-linguistique des textes et discours, Besançon, Presses Universitaires de Franche-Comté, n°21, pp. 19-47. KRIEG-PLANQUE Alice, 2007, “Travailler les discours dans la pluridisciplinarité. Exemples d‟une „manière de faire‟ en analyse du discours”, dans BONNAFOUS Simone et TEMMAR Malika (dir.), Analyse du discours et sciences humaines et sociales, Paris, Ophrys, coll. Les chemins du discours ; pp. 57-71. KRIEG-PLANQUE Alice, 2009a, La notion de “formule” en analyse du discours. Cadre théorique et méthodologique, Besançon, Presses Universitaires de FrancheComté. KRIEG-PLANQUE Alice, 2009b, “A propos des „noms propres d‟événement‟. Evénementialité et discursivité”, Les Carnets du Cediscor, Paris, Presses de la Sorbonne nouvelle, n°11, pp. 77-90. KRIEG-PLANQUE Alice, 2010, “Un lieu discursif : „Nous ne pourrons pas dire que nous ne savions pas‟. Etude d‟une mise en discours de la morale”, Mots. Les langages du politique, Lyon, ENS Editions, n°92, pp. 103-120. 19 LECOLLE Michelle, 2009, “De la synonymie, vue à travers les emplois des mots synonyme, synonymie et synonymique dans les textes”, Pratiques. Linguistique, littérature, didactique, Cresef - Metz, n°141-142, pp. 121-136. MAINGUENEAU Dominique, 2005, “L‟analyse du discours et ses frontières”, Marges linguistiques. Langages. Représentations. Communication, n°9, pp. 64-75. MOREL Mary-Annick, 1996, La concession en français, Paris, Ophrys, coll. L‟essentiel français. OGER Claire et OLLIVIER-YANIV Caroline, 2006, “Conjurer le désordre discursif. Les procédés de „lissage‟ dans la fabrication du discours institutionnel”, Mots. Les langages du politique, Lyon, ENS Editions, n°81, pp. 63-77. OLLITRAULT Sylvie, 2008, Militer pour la planète. Sociologie des écologistes, Rennes, Presses Universitaires de Rennes, coll. Res Publica. PAISSA Paola, 2008, “Parasynonymes et euphémismes dans la médiatisation de quelques notions de l‟économie de l‟environnement. Le cas de développement durable/soutenable”, dans CIGADA Sara et VERNA Marisa, La Sinonimia tra langue e parole nei codici francese e italiano, Atti Del Convegno Università Cattolica 24-27 ottobre 2007, Milano, Vita e pensiero, pp. 551-572. PECHEUX Michel, 1990 [1971], “La sémantique et la coupure saussurienne: langue, langage, discours”, dans textes choisis et présentés par MALDIDIER Denise, L‟inquiétude du discours, Paris, Editions des Cendres, pp. 133-153. PECHEUX Michel, 1990 [1975], Les vérités de La Palice. Linguistique, sémantique, philosophie, dans textes choisis et présentés par MALDIDIER Denise, L‟inquiétude du discours, Paris, Editions des Cendres, pp. 175-244. REYNAUD Emmanuelle, DEPOERS Florence, GAUTHIER Caroline, GOND JeanPascal, SCHNEIDERMAUNOURY Grégory, 2006, Le développement durable au coeur de l‟entreprise : pour une approche transversale du développement durable, Paris, Dunod, coll. Stratégies et management. SAINTENY Guillaume, 2000, L‟introuvable écologisme français?, Paris, Presses Universitaires de France. SERIOT Patrick, 1986a, “Langue russe et discours politique soviétique : analyse des nominalisations”, Langages, Paris, Larousse, n°81, pp. 11-41. SERIOT Patrick, 1986b, “La langue de bois et son double”, Langage et Société, Paris, Maison des Sciences de l‟Homme, n°35, pp. 7-32. TIXIER Maud dir., 2005, Communiquer sur le développement durable: enjeux et impacts pour l‟entreprise, Paris, Editions d‟Organisation. VIGNES Laurence, 1994, “Heidelberg, appel ou rappel?”, Mots. Les langages du politique, Paris, Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, n°39, pp. 7990. VIVIEN Franck-Dominique, 2007, “ „Sustainable development‟ : un problème de traduction”, Les Annales des Mines, série Responsabilité & Environnement, Paris, n°48, octobre 2007, pp. 58-61. ZACCAÏ Edwin, 2002, Le développement durable. Dynamique et constitution d‟un projet, Bern / Bruxelles, Peter Lang. Tradução: Roberto Leiser Baronas; Júlia Lourenço Costa e Virgínia Rúbio Scola.