Nuno Portas
Diálogos entre teoria e prática [1957-1974]
Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura
por
Carlos Miguel Freire Campos
Apresentada ao Departamento de Arquitectura [Darq],
Faculdade Ciências Tecnologia Universidade Coimbra, 2011
Orientação do Prof. Doutor Nuno Alberto Leite Rodrigues Grande
Nuno Portas
Diálogos entre teoria e prática [1957-1974]
Agradecimentos,
Ao Professor Doutor Arquitecto Nuno Grande, pela generosa e paciente orientação.
Aos Pais, pela ajuda e apoio na caminhada até aqui.
Aos Amigos, pela amizade e companheirismo na minha odisseia universitária.
E à Carolina... um obrigado especial por tudo, e pelo mais que virá.
Índice
Introdução
3
1| O contexto
11
1.1. Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana
13
1.2. O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
27
2 | A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas
53
2.1. A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
61
2.2. A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBA Lisboa [1965-71]
89
2.3. Da A Arquitectura para Hoje [1964] para A Cidade como Arquitectura [1969]
105
2.4. A “via evolutiva” de investigação no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
113
3 | Obras
139
3.1. Olivais-Norte | Olivais-Sul
147
3.2. Casa Metelo | Casa Dr. Barata Santos | Casa Brás de Oliveira
161
3.3. Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada
175
3.4. Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
189
Conclusão
211
Bibliografia
221
Fontes das Imagens
231
INTRODUÇÃO
Viagem Nunca Feita
Foi por um crepúsculo de vago outono que eu parti para essa viagem que nunca
fiz. [...]
Eu não parti de um porto conhecido. Nem hoje sei que porto era, porque ainda
nunca lá estive. Também, igualmente, o propósito ritual da minha viagem era ir em
demanda de portos inexistentes – portos que fossem apenas entrar-para-portos;
enseadas esquecidas de rios, estreitos entre cidades irrepreensivelmente irreais.
Julgais, sem dúvida, ao ler-me, que as minhas palavras são absurdas. É que
nunca viajastes como eu. [...]
PESSOA, Fernando – Livro do Desassossego. 1982. p.90.
3
Figura 1| Nuno Portas
Introdução
Em “Viagem Nunca Feita”, Fernando Pessoa escreve que “o propósito
ritual da minha viagem era ir em demanda de portos inexistentes”. Nuno Portas
foi/é um pensador com o mesmo propósito.
A ânsia e a curiosidade do saber encetou-o, desde muito jovem, a partir
em busca do conhecimento que estava por descobrir, compilar ou associar, da
crítica que estava por escrever, da arquitectura que estava por redesenhar, das
lições que estavam por ensinar, da investigação que estava por desenvolver ou
das políticas que estavam por implementar... Nuno Portas foi/é um descobridor
de novos portos, e muitas das vezes, “por caminhos dantes nunca navegados”.
Entre o final dos anos 50 e os meados dos anos 70, Nuno Portas navegou
numa multiplicidade de mares na procura de descobrir novas rotas, resultante
de um inconformismo, característico duma época em que todas as
possibilidades estavam em aberto na arquitectura, perante um Movimento
Moderno em decadência, que não acompanhava as mudanças políticas,
sociais, económicas e culturais. Diriamos que Nuno Portas nasceu na época
certa, tomando para si as ânsias e frustrações da sua geração, sabendo acima
de tudo compreender o seu tempo, o contexto português e internacional onde
se movimentava, ou seja, “tomar a realidade como instância da génese
arquitectónica um princípio, pressentido como essencial, mas perigoso, vistos
os desequilíbrios e tanta imobilidade com que vivemos.”1
____________________
1| PORTAS, Nuno – A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal. 2008. p.19.
5
Introdução
Nuno Portas encarnou, assim, o génio português, na aventura de
descobrir o desconhecido, na generosidade e coragem com que desvendou a
imensa cultura internacional influenciando o contexto português. Falamos de
um arquitecto com vários “heterónimos”, que decobrimos ao analisar o
percurso, académico e profissional, errante [mas lúcido] e desassossegado que
o impulsionou a viajar, na literalidade do termo, para o bairro do Triburtino em
Roma, para os congressos da UIA em Paris, pelos vazios do The Economist,
em Londres, ou pelas barriadas de Lima, no Peru, na procura de “saber que
arquitectura vale a pena fazer.” 2
Do crítico na revista Arquitectura a professor na ESBAL, do investigador
no LNEC ao político dos Governos Provisórios... Nuno Portas desmultiplicou-se
no desenvolvimento de conhecimento teórico e conceptual, tendo como “porto
de abrigo”, entre 1957 e 1974, o Atelier da Rua da Alegria e o exercício
projectual na “realização de uma arquitectura que saiba «o que fazer».” 3
Qual foi, então, a arquitectura que valeu a pena fazer? Como e porquê
fazê-la? E quais os mares por onde Portas navegou para chegar a ela?
A dissertação que apresentamos incidiu, no estudo deste arco temporal
de 17 anos de Nuno Portas no atelier da Rua da Alegria, procurando perceber
de que forma os seus “heterónimos arquitectónicos” influíram na singularidade
da obra do atelier e na revisão da disciplina arquitectónica operada em
Portugal. Por outras palavras, utilizando termos da cibernética, tentamos
perceber como o software acumulado por Nuno Portas, influiu no hardware que
constituiu as obras do Atelier da Rua da Alegria.
Neste sentido, a investigação desenvolve-se em 3 capítulos, tendo como
o pano de fundo, as obras a analisar no último capítulo.
O capítulo I, desdobra-se em dois momentos entre a produção
arquitectónica internacional e nacional. Um primeiro momento onde desejamos
perceber de que forma, a crise gerada no debate da doutrina do Movimento
____________________
2| Ibidem, p.17.
3| Ibidem, p.17.
7
Introdução
Moderno, se desmultiplicou em diversas vias críticas europeias, focando-nos
nas vias inglesa e italiana, as mais influentes no contexto português.
O segundo momento descreve-nos um conjunto de transformações
arquitectónicas e urbanas operadas em Portugal ao longo das décadas 50, 60
e 70, despoletados com o Congresso Nacional de Arquitectura de 1948, e onde
a revista Arquitectura e o atelier da Rua da Alegria, tiveram um papel essencial
no desenrolar destas transformações.
No capítulo II, pretende-se analisar o percurso multidisciplinar de Nuno
Portas, que pautou o período de projectista no Atelier da Rua da Alegria entre
1957 e 1974. Nesse período Portas encontrou na revista Arquitectura, na
Divisão de Construção e Habitação do LNEC e na ESBAL, os espaços
complementares da prática projectual desenvolvida no atelier e que terminaria
com a sua passagem para Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo,
nos três primeiros Governos Provisórios, pós 25 de Abril de 1974.
No capítulo III, procede-se à análise e interpretação das obras mais
significativas do atelier da Rua da Alegria, no período abrangido, de modo a
perceber
como foram
influenciadas,
teórica
e
conceptualmente,
pela
investigação de Nuno Portas.
As obras selecionadas englobam quatros programas arquitectónicos: a
habitação social: Olivais Norte e Olivais Sul; a habitação unifamiliar: Casa
Metelo, Casa Brás de Oliveira e Casa Dr. Barata dos Santos; o equipamento
religioso: a Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus e a Igreja Paroquial
de Almada; e a finalizar a escala urbana: o Centro Comercial de São Sebastião
e o Plano de Pormenor do Restelo.
Pretendemos assim os diálogos entre teoria e prática de Nuno Portas.
9
Capítulo I
O Contexto
Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana
Nos anos de 1950, a situação político-cultural na Europa vivia marcada
pelo segundo pós-guerra. O rescaldo desse período difícil originou um
ambiente de grande agitação social onde a mudança dos sistemas políticos
para Estados-Providência [Welfare State] e o crescimento económico verificado
[com o binómio produção-consumo], caracterizavam a nova realidade
económico-social europeia. Foi um tempo de libertação, com um vivo debate
em todos os quadrantes da sociedade, marcado por uma elite, cultural e
intelectual, com nova consciência social e artística. Toda esta agitação reflectiase no campo da arquitectura.1
Nesse período a arquitectura debatia-se no seio dos importantes
encontros dos Congrés Internationaux d'Architecture Moderne [CIAM], onde ao
longo de três décadas, arquitectos de diversos países desenvolveriam e
propagariam os princípios programáticos do Movimento Moderno. Esta
instituição elitista defendia uma doutrina onde o Homem e o paradigma da
Máquina assumiam o protagonismo, e através de um ortodoxo e rigoroso
método projectual, procurava reformular a sociedade pela arquitectura e pelo
urbanismo2.
Segundo Kenneth Frampton, entre 1928 e 1956 os CIAM percorreram três
fases3. Em linhas gerais, numa primeira fase [1928-33] os encontros foram
dominados pelos arquitectos alemães socialistas da Neüe Sachlichkeit [Nova
Objectividade], centrados no debate do tema Existenzminimum, na procura dos
padrões mínimos para a habitação adaptados à vida do Homem Moderno. A
segunda fase [1933-47], foi dominada pela personagem de Le Corbusier, e pela
_______________
1| OLMO, Carlo – Themes and Realities of the Reconstruction. Rassegna 54. 1993. p.7.
2| MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.12.
3| FRAMPTON, Kenneth – História Crítica da Arquitetura Moderna. 2003. p.327.
13
Figura 2 | Participantes do CIAM IV em Atenas, 1933.
Figura 3 | Aldo van Eyck, Alison e Peter Smithson e Jaap Bakema, anunciando a dissolução dos C.I.A.M., Otterlo, 1959
Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana
doutrina urbana consagrada pela Carta de Atenas4. Na terceira e última fase,
além da temática do Habitat constituir o foco de debate, emergiu uma geração
de jovens arquitectos e estudantes presentes nestes concorridos encontros, os
quais, progressivamente, demonstraram a sua insatisfação com a rígida
doutrina dos mestres e com os princípios simplificadores da Carta de Atenas,
pretendendo introduzir uma ideologia heterodoxa que permitisse responder aos
complexos problemas sociais, culturais e urbanos.
É neste contexto de conflito entre gerações e de uma solicitada revisão
crítica no interior dos CIAM, que em Aix-en-Provence, no IX congresso [1953],
se formou um grupo de jovens constituído por Alison e Peter Smithson, Aldo
van Eyck, Jaap Bakema, George Candilis, Rolf Gutman, Jill Howell, Jonh
Voelcker e Shadrac Woods5. Este grupo de arquitectos, da chamada terceira
geração6, ficaria responsável pela organização do derradeiro CIAM X em 1956,
na cidade de Dubrovnik [Jugoslávia], e após a dispersão dos CIAM, passariam
a denominar-se como Team 10. Este comité criticava “o formalismo da Carta de
Atenas, reclamando para resolver o tema do Congresso – o Habitat – que fosse
introduzido o conceito de 'identidade' e investigado de acordo com os princípios
estruturais do crescimento urbano” 7, para o Team 10: “tratava-se de propor
uma utopia do possível, aceitando os gostos e as necessidades das pessoas”8,
contrariamente à doutrina dos CIAM, que defendia a mudança radical do modo
de vida das pessoas através duma arquitectura racional.
Iniciava-se, então, a lenta dissolução dos ortodoxos CIAM, consumada em
1959, contudo prevaleceria a vontade de reformular e enriquecer uma “nova
tradição moderna”
9
, como confirmaria a heterogeneidade das formas
arquitectónicas que emergiram na segunda metade do século XX, através de
grupos e personagens de diversos contextos culturais.
____________________
4| Redigida a bordo do cruzeiro SS Patris II, no CIAM IV [1933], a Carta de Atenas constituiu o documento mais
emblemático destes congressos. Era um manifesto para uma genérica Cidade Funcional, com quatro categorias bem
definidas: trabalho, residência, circulação e descanso. Foi traduzida para português, por Nuno Teotónio Pereira, e
publicada em 12 fascículos da revista Arquitectura 20, Fev. 1948, à Arquitectura 32, Out. 1949.
5| BOSMAN, Jas – CIAM After the War: a Balance of the Modern Movement. Rassegna 52. 1992. p.15.
6| Os arquitectos desta geração procurariam conciliar a continuidade com a revisão das ideias dos mestres do
Movimento Moderno. MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.36.
7| MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.30.
8| Ibidem, p.30.
9| Ibidem, p.30.
15
Figura 4 | “A via inglesa” - Alison e Peter Smithson, The Economist [1963-67]
Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana
O Team 10 seria o grupo mais influente no desenvolvimento desta “nova
tradição moderna”. Tratava-se de um grupo plural, que resultava da
multiplicidade de culturas e ideias dos seus membros, com um método de
trabalho
pragmático, empírico e antidogmático. O Team 10 centrava-se na
investigação dos princípios básicos do desenvolvimento urbano, que
representasse a verdadeira complexidade das relações humanas, na procura
de uma arquitectura onde ‘identidade’, ‘comunidade’ e ‘vizinhança’ fossem
conceitos presentes10.
Através dos elementos do seu ‘núcleo duro’, o Team 10 seria gerador de
diversas vias críticas europeias11 – na via holandesa, Aldo van Eyck e Jaap
Bakema; na francesa, Georges Candilis e Shadrach Woods; na italiana com
Giancarlo de Carlo; e na inglesa com o casal Alison e Peter Smithson –
procurando despoletar uma reinterpretação e revisão crítica do Movimento
Moderno. E apesar do contraste de visões que cada colectivo expunha, todos
estes arquitectos defendiam uma revisão que conciliasse os princípios
modernos com o contexto e a cultura onde se inseria; voltando a olhar para a
história, numa tentativa de reconciliação com o passado e colocando a
arquitectura novamente no trilho evolutivo da história com um ponto essencial:
a reformulação da cidade e do planeamento urbano, perante o falhanço da
cidade funcionalista. Centremo-nos, pois, nas vias críticas que, como veremos,
mais influência tiveram no contexto português.
A Inglaterra surgia na linha da frente da revisão crítica ao Funcionalismo,
expressas no academismo e nas obras de arquitectos como Leslie Martin,
Peter Moro, Denys Lasdun, Patrick Hodgkinson, James Stirling e o colectivo
Lyons, Israel e Ellis; com o despoletar do “New Brutalism”12, identificado pelo
crítico Reyner Banham, e nas propostas teóricas e práticas do casal Smithson.
____________________
10| COLQUHOUN, Alan – La arquitectura moderna, una historia desapasionada. 2005. p.218-219.
11| GRANDE, Nuno; PORTAS, Nuno – Entre a crise e a crítica da cidade moderna – a experiência portuguesa no
contexto internacional. In: Lisboscóspio. 2006. p.66.
12| A arquitectura do neo-brutalismo era caracterizada pelos elementos estruturais totalmente aparentes e pela
valorização dos materiais, nas suas qualidades inerentes. A Escola de Hunstanton [1949-54] seria a sua primeira
expressão prática e teria o seu epílogo com o projecto The Economist [1963-67], ambos pelo casal Smithson.
MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.73.
17
Figura 5 | Alison e Peter Smithson, o conceito de cluster e “the building as a street”, Golden Lane, 1952
Figura 6 | Alison e Peter Smithson, Robin Hood Gardens [1962-72]
Figura 7 | Candilis, Josic e Woods, em Toulouse-le-Mirail [1962-75]
Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana
Alison e Peter Smithson, em reacção às new towns13 inglesas, criticavam
a tábua rasa da Carta de Atenas e as suas categorias funcionais – trabalho,
residência, circulação e descanso – recuperando para o discurso disciplinar
uma hierarquização banida pela ortodoxia moderna – casa, rua, bairro e cidade
– que se adaptava ao contexto urbano e consequentemente à cidade histórica.
Repôs a criação de modelos de associação específicos para cada lugar, que
proporcionavam relações de vizinhança e de pertença, num complexo conceito
a que chamaram cluster 14, como o demonstraram no estudo para Golden Lane
em 1952. Neste conjunto habitacional, o casal Smithson, apresentavam a casa
como unidade principal, colocando a rua acima do nível do solo – the building
as a street; a ideia era criar extensas galerias que percorriam todo o edifício,
formando uma série de ‘lugares’ urbanos ao ar livre para a vida em
comunidade, e onde “o bairro e a cidade eram vistos como domínios váriáveis
que ficavam fora dos limites de definição física” 15.
No entanto, esta cidade de múltiplos níveis desenhada através desta
‘rede rizomática’ de percursos e plataformas aéreas – que seria construída em
Robin Hood Gardens [1962-72] e por propostas de outros arquitectos como em
Sheffield, Park Hill [1961-62] de Jack Lynn e Ivor Smith ou nas obras de
Candilis, Josic e Woods, em Toulouse-le-Mirail [1962-75] e na Universidade de
Berlim [1962-70] – tinha as suas limitações devido à difícil continuidade com as
ruas ao nível do chão. Um esboço do próprio casal Smithson demonstraria que
a partir do sexto andar, o contacto com o solo era inexistente, o que justificava
a aproximação aos modelos de ‘baixa altura, alta densidade’, nos anos 60, no
desenvolvimento da habitação familiar europeia16. Voltaremos a este tema na
abordagem ao contexto português e particularmente com o Plano Pormenor do
Restelo.
____________________
13| A new tows foi uma operação urbana despoletada pelo Welfare State britânico, em 1945, na reconstrução do II pósguerra, com o objectivo de controlar o crescimento de Londres, construindo novas cidades em seu redor, na
continuidade da tradição da cidade-jardim. Stevenage [1946] e Harlow [1947], constituíram os exemplos mais
significativos destas novas cidades. Ver: MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.72.
14| Este e outros conceitos, desenvolvidos no seio de reuniões do Team 10, foram compilados no texto Urban
Structuring, editado em 1967, pelo casal Smithson. TEAM 10 1953-81 – In Search of a Utopia of the Present. 2006.
15| FRAMPTON, Kenneth – História Crítica da Arquitetura Moderna. 2003. p.331.
16| FRAMPTON, Kenneth – História Crítica da Arquitetura Moderna. 2003. p.330-331.
19
Figura 8 | A “via italiana” – INA-Casa, Ludovico Quaroni e Mario Ridolfi, Bairro Triburtino [1950], Roma
Figura 9 e 10 | Bruno Zevi, Verso un’ Architettura Organica [1945] e Storia dell’ Architettura Moderna [1950]
Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana
Noutra “via”, a destruída Itália do pós-guerra, encontrava-se num
complexo processo de reestruturação política, económica e social. A este
panorama, e depois de duas décadas de compromisso com o fascismo de
Mussolini, os arquitectos italianos respondiam com debates ideológicos na
procura de novas interpretações para a tradição moderna, despoletando
diversas correntes pelo país, do neo-realismo de Roma ao neo-liberty entre
Milão e Turim17.
No Norte de Itália, surgia uma arquitectura elitista e delicada, baseada
num regresso à tradição, no sublinhar das qualidades dos materiais, num
universo artesanal e ornamental, disperso por várias cidades e personagens –
BBPR18, Ignazio Gardella, Franco Albini, ou posteriormente, Carlo Ayomino,
Gae Aulenti ou Aldo Rossi. Por outro lado, em Roma, surgia pela mão dos
arquitectos Ludovico Quaroni, Mario Ridolfi, Mario Fiorentino entre outros, uma
corrente neo-realista – expressa também nas artes plásticas, na literatura ou no
cinema – que propunha uma arquitectura com linguagem popular e acessível,
materializada a partir do “Piano Fanfani”, posto em prática em 1949, pelo
governo italiano para colmatar as carências de habitação e promover o
emprego. A construção dos bairros de habitação pelo programa INA-Casa
[Instituto Nazionale Assicurazione]19, constituiria um laboratório de investigação
tipológica e morfológica de cariz contextualista que influenciaria a produção
arquitectónica europeia, inclusive o contexto português.
No campo da teoria da arquitectura italiana, os livros e artigos de Ernesto
Nathan Rogers e Bruno Zevi, entre outros, resultariam numa referência da
cultura arquitectónica dos anos 50 e 60, influenciando várias personagens por
toda a Europa.
Em Roma, ainda em 1945, Bruno Zevi através dos seus editoriais na
revista Metron e com a publicação dos livros “Verso un’ Architettura Organica” e
“Storia dell’ Architettura Moderna” propõe uma arquitectura organicista
____________________
17| COLQUHOUN, Alan – La arquitectura moderna, una historia desapasionada. 2005. p.185-186.
18| Grupo de arquitectos milaneses, constítuido por Gian Luigi Banfi [1910-1945], Ludovico Barbiano Belgiojoso [19092004], Enrico Peressutti [1908-1976] e Ernesto Nathan Rogers [1909-1969]. De destacar, o projecto da Torre Velasca
[1951-57], construída em Milão. MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.100-101.
19| TAFURI, Manfredo – Architettura Contemporanea. 2005. p.288 e 326.
21
Figura 11 | Reyner Banham, Neoliberty. The Italian Retreat from Modern Architecture, Abril 1959.
Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana
e humanista, ao contrário do carácter racional e funcional apregoado pelo
Movimento Moderno, invocando os mestres Frank Lloyd Wright e Alvar Aalto, e
o “new empirism” da arquitectura nórdica como “vias” pós-racionalistas, a
seguir. Zevi anunciava assim, pela sua APAO [Associação para a Arquitectura
Orgânica], uma “arquitectura para o homem, moldada segundo a escala
humana e segundo as necessidades espirituais, psicológicas e actuais do
homem em actividade. A arquitectura orgânica, tem por objetivo, a antítese da
arquitectura monumental que serve a mitificação do Estado.” 20
Por seu lado, Ernesto N. Rogers, o R do colectivo BBPR, nos seus
editoriais da revista Casabella-Continuitá, definiu alguns dos pontos-chave do
pensamento arquitectónico italiano, defendendo uma Continuitá dos princípios
modernos, numa resposta formal ao contexto histórico e espacial italiano, com
o objectivo de resolver a relação com a história e a tradição, mas também com
a cidade existente. No entanto se Rogers defendia a continuidade do
movimento moderno, era o primeiro a despoletar a sua crise, no sentido
progressivo, na ânsia de construir uma nova teoria e prática arquitectónica.
Para Rogers era “preciso aprofundar as razões do Movimento Moderno,
distinguindo as que surgiram por motivos contingentes, e que tiveram assim
uma duração limitada, das que podem ambicionar a uma maior duração porque
implicam conteúdos essenciais.” 21
Em 1959, Rogers estaria envolvido num momento-chave do debate entre
os dois campos mais consequentes na Europa, o inglês e o italiano, quando
respondeu ao artigo de Reyner Banham, “Neoliberty. The Italian Retreat from
Modern Architecture”. Banham, defensor da integração dos inovadores
aspectos técnicos na arquitectura, acusou os arquitectos italianos de uma
atitude lamentável ao seguirem a via do revivalismo e que a arquitectura
italiana não havia correspondido às expectativas do pós-guerra, com o neoliberty mas também com o neo-realismo, terminando o artigo a afirmar: “mesmo
para os padrões puramente locais de Milão e Turim, o neo-liberty é uma
____________________
20| COLQUHOUN, Alan – La arquitectura moderna, una historia desapasionada. 2005. p.186 [tradução do autor].
21| ROGERS, Ernesto Nathan – Continuidade ou crise. In: Teoria e Crítica de Arquitectura Século XX. 2010. p.385.
23
Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana
regressão infantil”.22
Apesar de não estar completamente ao lado da neo-liberty, Rogers viria a
ripostar prontamente, em “L'evoluzione dell'Architettura. Risposta al custode dei
frigidaires”, na revista Casabella. Em defesa dos arquitectos italianos, Rogers
alegava que o regresso à tradição histórica era útil na reformulação dos
princípios modernos, para proceder a “uma revolução contínua”.23
A troca de artigos entre Rogers e Banham evidenciou o aceso debate
entre as duas principais e divergentes “vias” críticas europeias. Se por um lado
os arquitectos ingleses potenciavam uma visão tecnicista, propondo a revisão
dos princípios modernos com conceitos inovadores, como o cluster, e o neobrutalismo expresso nas obras do casal Smithson; por outro, os arquitectos
italianos assumem um compromisso com a tradição e a história, baseados no
neo-realismo, expresso numa arquitectura com uma linguagem popular e
facilmente inteligível. Para Jorge Figueira, “os caminhos divergentes que aqui
se anunciam são relevantes porque são as matrizes de desenvolvimentos
posteriores”.24
Portugal, como veremos, na viragem dos anos 50 até meados dos anos
60, estará mais próximo da “via italiana”, quando uma nova geração de
arquitectos, liderada por Nuno Portas, assume o controlo da revista
Arquitectura, orgão essencial para o debate do movimento moderno em
Portugal. Como afirmou Jorge Figueira, “estes sinais vindos de Itália, a chave
zeviana e a ‘continuidade’, encontram eco no jovem grupo de arquitectos e
críticos
que
está a
emergir em Portugal”,25 e
serão
decisivos no
“aggiornamento da arquitectura portuguesa”.26
____________________
22| BANHAM, Reyner – Neoliberty. The Italian retreat from modern architecture. The Architectural Review 747.
Apr. 1959. p.231-235 [tradução do autor].
23| FERREIRA, Jorge Manuel Figueira – A Periferia Perfeita: Pós-Modernidade na Arquitectura Portuguesa, Anos 60Anos 80. 2009. p.29.
24| Ibidem, p.29.
25| Ibidem, p.26.
26| Ibidem, p.48.
25
Figura 12 | Relatório do 1º Congresso Nacional de Arquitectura, 1948
Figura 13 | Intervenção de Keil do Amaral no 1º Congresso Nacional de Arquitectura, Instituto Superior Técnico, 1948
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
Com a derrota do fascismo na II Guerra Mundial, a ditadura salazarista,
na tentativa de sobrevivência, deixou de exercer influência na expressão
arquitectónica, após duas décadas marcadas por uma arquitectura ditatorial e
nacionalista,
contrária
aos
princípios
modernos
que
vinham
a
ser
desenvolvidos por toda a Europa desde os anos 20, como referimos.
É perante este cenário, que no I Congresso Nacional de Arquitectura, em
1948, emerge a vontade de uma mudança na arquitectura portuguesa, através
de uma nova geração, disposta a lutar pela liberdade de expressão dos
arquitectos e pela afirmação da arquitectura moderna.27
Esta nova geração fundamentou-se na actividade de duas organizações
de arquitectos, geradas nos pólos de ensino e debate de arquitectura em
Portugal. Dinamizadas pela figura de Keil do Amaral, as ICAT [Iniciativas
Culturais Arte e Técnica] de Lisboa, constituiam-se como um espaço de debate
da cultura e da arquitectura, realizada naquele período. Por seu lado, no Porto,
a ODAM [Organização dos Arquitectos Modernos], batia-se pela defesa de uma
arquitectura marcadamente modernista. Os dois grupos surgiriam aliados pela
primeira vez, “numa tomada de consciência colectiva da necessidade de
produzir obras verdadeiras e actuais”
28
, e teriam um papel preponderante no
sucesso da organização e desfecho do Congresso de 1948. A partir daqui, a
arquitectura portuguesa procurava um novo percurso.
Nesta procura de um novo caminho e em consequência do Congresso,
decorreu, entre 1955 e 1960, o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa
dirigido pelo então Sindicato Nacional dos Arquitectos. O Inquérito foi defendido
pela primeira vez, na revista Arquitectura em Abril de 1947, quando Keil do
Amaral, o visionário e impulsionador do Inquérito, escreveu “Uma Iniciativa
Necessária”. Neste artigo expôs a urgência da elaboração de um estudo sobre
____________________
27| PEREIRA, Nuno Teotónio – O que fazer com estes 50 anos. In: 1º Congresso Nacional de Arquitectos. 2008.
p.42-49.
28| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.33.
27
Figura 14| Arquitectura Popular em Portugal [1ªEdição], 1961
Figura 15| revista Arquitectura 59, 1957
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
a arquitectura regional portuguesa que desmitificasse a presença de um estilo
genuinamente português e evidenciasse que havia afinal tantas arquitecturas
como regiões, ao contrário do que o regime propagandeava.
A introdução da Arquitectura Popular em Portugal – título com que
publicaram o Inquérito em 1961 – foi categórica: “Portugal carece de unidade
em matéria de Arquitectura. Não existem, de todo, uma “Arquitectura
Portuguesa” ou uma “casa portuguesa”. Entre uma aldeia minhota e um “monte
alentejano”, há diferenças muito mais profundas do que entre certas
construções portuguesas e gregas.”
29
Esta afirmação, baseada nos resultados
publicados, permitiu aos arquitectos portugueses fundamentar o debate – na
linha neo-realista italiana – entre a revisão do movimento Moderno e a ligação
com a tradição, adequada à realidade nacional, “acabando finalmente por
validar o racionalismo dentro da esfera da arquitectura popular.” 30
As primeiras experiências retiradas deste Inquérito seriam transmitidas
por uma equipa do Porto, no CIAM X, realizado em Dubrovnik em 1956.
Fernando Távora com Viana de Lima e Arnaldo Araújo, apresentaram um
trabalho, intitulado “Plano de uma Comunidade Rural”, onde se propunha a
organização de um habitat rural, baseado numa nova abordagem metodológica
onde a comunidade teria um papel participativo.31 A apresentação deste
trabalho,
segundo
Fernando
Távora:
regionalizado e nada internacionalista”
“extremamente
referenciado,
32
, contribuiu para a revisão do
Movimento Moderno, por um país periférico como Portugal e constituiu o
primeiro passo para um aggiornamento da arquitectura portuguesa.
No entanto seria a revista Arquitectura, meio de difusão das ideias do
grupo ICAT, a despoletar a ‘actualização’ da arquitectura portuguesa, com a
refrescante entrada de um grupo de jovens arquitectos, em 1956, para
pertencer ao corpo editorial, onde se incluíam Carlos Duarte, Francisco Silva
Dias, Raúl Hestnes Ferreira, etc, e posteriormente em 1957, “o brilhante,
____________________
29| Arquitectura Popular em Portugal. 2004. p.XX.
30| FIGUEIRA, Jorge – Escola do Porto: Um Mapa Crítico. 2002. p.49.
31| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.164-165.
32| FERREIRA, Jorge Manuel Figueira – A Periferia Perfeita: Pós-Modernidade na Arquitectura Portuguesa, Anos 60Anos 80. 2009. p.21.
29
Figura 16 | Nuno Portas, A responsabilidade de uma novíssima geração no Movimento Moderno em Portugal,
Arquitectura 66, Dezembro 1959
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
informado e inteligente crítico Nuno Portas.” 33 Esta nova geração editorial
incutiu um pioneirismo à revista. Como afirmou Carlos Duarte, “uma das
nossas preocupações era iniciar uma coisa que nunca tinha existido em
Portugal: a crítica de arquitectura.” 34
Este grupo editorial originou uma nova fase de divulgação e crítica de
obras nacionais e internacionais, assente nos pressupostos anti-racionalistas
de Bruno Zevi, mas sobretudo numa ideia de ‘continuidade’ em relação à
herança do Movimento Moderno aliada com a tradição arquitectónica
portuguesa, próximo conceptualmente da linha italiana, como anteriormente
referimos. A revista Arquitectura iniciava, ainda que tardiamente, não lhe
chamamos revisão – dada a pouca arquitectura moderna para rever – mas sim
debate crítico do Movimento Moderno no contexto português.
Nuno Portas assumiu o protagonismo nesta nova estrutura da revista
Arquitectura. Num texto basilar, “A responsabilidade de uma novíssima geração
no Movimento Moderno em Portugal”,35 Portas comprometeu-se a debater “o
conteúdo e significação do próprio espírito moderno” e apontou a fórmula:
“pensamos que uma importante contribuição para esse debate – que constitui
uma das preocupações centrais da revista – seria precisamente o interrogar de
uma novíssima geração, não só nas suas ideias e intenções mas sobretudo
nas suas obras.”
36
Esta ideia foi materializada com a publicação e crítica de
projectos de nomes emergentes no panorama arquitectónico nacional: Álvaro
Siza, Vítor Figueiredo, Manuel Taínha... mas também de Nuno Teotónio Pereira
e do atelier da Rua da Alegria, onde Portas dava os primeiros passos como
projectista.
No artigo Portas alertou para a necessidade de resolver as questões de
lá de fora mas sobretudo em Portugal: “a responsabilidade deste momento é,
com efeito, duplamente grave: no conjunto dos problemas do Movimento
____________________
33| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.155.
34| DUARTE, Carlos – Os críticos não se inventaram de um dia para o outro. Jornal dos Arquitectos 211. 2010. p.38.
35| PORTAS, Nuno – A responsabilidade de uma novíssima geração no Movimento Moderno em Portugal.
Arquitectura 66. Dez. 1959. p.13-14.
36| Ibidem, p.13.
31
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
Moderno no Mundo, ou, pelo menos, na Europa e na situação particular que se
mostra entre nós.” 37
No plano internacional, os testemunhos do comité português no CIAM X,
levam-no a afirmar: “a intransigência acirrada de um Team X não explica
totalmente um impasse; de facto, a própria cultura italiana necessita de resolver
as recentes oposições internas, produto natural do aparecimento de obras às
vezes brilhantes mas cujo historicismo polémico não pode contribuir para uma
síntese da nova etapa do movimento”
38
, fazendo antever a dificuldade da
tarefa apontada.
E no plano nacional, a geração, onde Portas também se incluía, tinha a
responsabilidade: “de promover um diálogo fecundo, a de procurar um método
comum de interpretação da realidade complexa que a solicita, a de abdicar de
vocabulários feitos quando possam ser estes factores de abstracção formal”
porque “mais importante ainda do que uma unidade formal ou conceptual é,
certamente, a definição dos planos de actuação do arquitecto e do urbanista
em face das necessidades objectivas de cada país ou região.” 39
A partir de três moradias unifamiliares deste período e publicadas na
revista Arquitectura – a Casa Metelo [1957-59] na Praia das Maças, a Casa
Brás de Oliveira em Sesimbra [1957-64] e a Casa Dr. Barata dos Santos em
Vila Viçosa [1959-63] – tentaremos perceber, no capítulo III, como Portas
explanou estas questões no campo prático.
Num dos seus primeiros artigos “Arquitectura Religiosa Moderna em
Portugal”
40
de 1957, Nuno Portas abordou o paradigma da renovação da
arquitectura religiosa em Portugal, que anos mais tarde viria a constituir um dos
programas arquitectónicos desenvolvido pelo autor na prática do atelier de
Teotónio Pereira.
A Igreja Paroquial de Águas [1949-1955], de Teotónio Pereira, em
Penamacor e a Igreja Paroquial de S. António [1951-1956], de Freitas Leal, em
____________________
37| Ibidem, p.13.
38| Ibidem, p.13.
39| Ibidem, p.14.
40| PORTAS, Nuno – Arquitectura Religiosa Moderna em Portugal. Arquitectura 60. Out. 1957. p.20-23.
33
Figura 17 | Concurso de anteprojectos para a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, publicado na revista
Arquitectura 76, Outubro 1962
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
Moscavide, constituíram na altura um ponto de viragem na construção de
edifícios religiosos em Portugal, a partir da sua análise Portas refere que o
programa arquitectónico litúrgico “tornou-se, recentemente, obra dos melhores
arquitectos actuais e, talvez, a par da habitação popular, o programa que mais
profundamente tem permitido expressar o enriquecimento humanístico que a
crítica ao racionalismo significou.'' 41
Para esta mudança muito havia contríbuido o MRAR [Movimento de
Renovação da Arte Religiosa]. Recuando até 1953, este movimento surgiu para
lutar pela aceitação da Arte Moderna, por parte da Igreja até então associada
aos cânones oficiais do Estado Novo. Defendeu uma arquitectura autêntica e
sem contradições, à imagem do catolicismo, na “adopção de uma arquitectura
seriamente integrada no espírito do nosso tempo”
42
, reagindo contra a
manutenção dos modelos arquitectónicos de cariz tradicionalista nas novas
construções religiosas dos centros urbanos de Lisboa e do Porto.
O MRAR conseguiu que em 1962 fosse organizado um concurso público
para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no qual viriam a sair vencedores
Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. A igreja foi a expressão construída das
teses programáticas e espaciais que alguns dos autores desenvolviam no seio
do MRAR, acompanhando o Concílio do Vaticano II, ocorrido entre 1962 e
1965, que viria a revolucionar o espaço litúrgico. Para Nuno Portas “era a
ocasião para contestar uma certa linha moderna de fazer igrejas, mantendo-as
como edifícios isolados, rodeados de vazios, rompendo a continuidade do
espaço urbano” 43, como se demonstrará no Capítulo III com a referida Igreja.
No final da década de 50, o território português era povoado por más
condições de habitação, onde proliferavam bairros clandestinos e bairros de
lata; a escassez de casas económicas e o desnível entre os níveis de
rendimento das familias e os custos de habitação, eram situações urgentes a
resolver, num cenário de crise habitacional, fruto de um precipitado crescimento
____________________
41| Ibidem, p.20.
42| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.24.
43| PORTAS, Nuno – Testemunho de um dos autores. Arquitectura 123. Out. 1971. p.171.
35
Figura 18 | Inauguração da Exposição O Cooperativismo Habitacional no Mundo, Lisboa, 1957
Figura 19 | Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral,
Anteprojecto de conjunto de habitação cooperativa, vista parcial, 1957
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
e concentração urbana, principalmente em Lisboa e no Porto. Perante este
panorama e dada a falta de um plano e políticas habitacionais para
promoverem melhores condições de habitação surgem movimentos de
cooperação entre a população mais desfavorecida.44
Na sequência destes movimentos é organizada em 1957, a Exposição “O
Cooperativismo Habitacional no Mundo”, com o objectivo de demonstrar
soluções de cooperativismo habitacional dispersas pelo mundo. A exposição,
organizada pela Associação de Inquilinos Lisbonenses, contou com desenhos e
maquetas de um conjunto habitacional, projectado por Nuno Teotónio Pereira e
Bartolomeu da Costa Cabral – auxiliados pelo recém-chegado ao atelier da
Rua da Alegria, Nuno Portas – bem como o modelo à escala real de um dos
fogos,
equipado e mobilado, promovendo o contacto das pessoas com o
espaço habitacional como bem sintetizou José António Bandeirinha: “da
exposição, ficou a memória de uma das mais pertinentes tentativas de
mediatizar a questão da habitação através da divulgação das ríquissimas
experiências que o período do pós-guerra foi gerando, na Europa e um pouco
por todo o lado, chegando mesmo a aproximar a discussão a matérias bem
concretas como a do uso da habitação. […] Mas vale também, e sobretudo,
registar uma das primeiras experiências no campo da chamada participação
dos utentes, com o inquérito a funcionar à posteriori.” 45
No seguimento destas questões o decénio de 60, abria com o Colóquio
sobre o tema “Os Aspectos Sociais na Construção do Habitat”, em Fevereiro de
1960, no Sindicato Nacional dos Arquitectos, revelando uma “tomada de
consciência seguida de uma atitude consequente”
46
por parte da classe, em
resolver os problemas de habitação em Portugal.
Neste sentido Nuno Teotónio Pereira destacou duas personagens no
sucesso da iniciativa: Nuno Portas, participação que abordaremos no capítulo II
____________________
44| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.40-49.
45| BANDEIRINHA, José António – O Processo SAAL e a Arquitectura no 25 de Abril de 1974. 2007. p.65.
46| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.38.
37
Figura 20 | Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Federação das Caixas de Previdência, Barcelos, 1959-62
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
e o sociólogo francês Chombart de Lauwe. Lauwe expõe o seu relatório
“Sociologia da Habitação – Métodos e Perspectivas de Investigação”, publicado
na revista Arquitectura, onde defendia que não bastava aplicar as técnicas e os
materiais mais avançados para alojar os homens, era preciso conhecê-los para
dessa forma “resolver em comum os problemas de urgência, para maior
satisfação de todos […] reunindo nas mesmas equipas arquitectos e
engenheiros com representantes das ciências humanas”
47
, apresentando
casos específicos de construção massiva em França.
A Federação das Caixas de Previdência [Habitações Económicas],
desempenhou um papel fundamental no combate ao défice habitacional, que
se estende por todo o país entre 1947 e 1972, e onde Nuno Teotónio Pereira
teve um papel preponderante, elaborando um Conjunto de Casas de Renda
Económica considerável: Braga [1950-52], Póvoa de Santa Iria [1955-58],
Trancoso [1958-60]; e já com a colaboração de Nuno Portas: Vila do Conde
[1958-64], Barcelos [1959-62] e Caramulo [1959-63].
A Federação havia sido criada “com a incumbência de promover a
construção de edifícios plurifamiliares de carácter social em regime de
arrendamento”
48
e teve em 1947 com Alvalade [Faria da Costa] o modelo-tipo
que viria a ser reproduzido nas capitais de distrito e noutras localidades para
colmatar as carências habitacionais do país. Para além de Alvalade, o bairro da
Chamusca [Bartolomeu da Costa Cabral e Vasco Croft] em 1962; Barreiro,
Benavente, S. Estêvão e Torres Novas [Vítor Figueiredo] 1962-64, e
posteriormente, o conjunto habitacional do Funchal [Chorão Ramalho] em
1969, constituem exemplos do trabalho desenvolvido no âmbito da Federação.
Por sua vez, no Porto, o Bairro de Ramalde [1952], de Fernando Távora,
também para a Federação de Caixas de Previdência, constitui a primeira
proposta de organização urbana em resposta a Alvalade e em consonância
com a ideologia moderna da Carta de Atenas. Anos mais tarde, surge o Bairro
____________________
47| LAUWE, Chowbart de – Sociologia da Habitação – Métodos e Perspectivas de Investigação. Arquitectura 68.
Jul. 1960. p.41.
48| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.206.
39
Figura 21| Plano de Lisboa, onde estão delineadas, as 3 operações habitacionais de grande escala,
Olivais Norte [40 ha], Olivais Sul [187 ha] e Chelas [507ha]
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
da Pasteleira [1961], inserido no Plano de Melhoramentos, encetado pela
Câmara Municipal do Porto, em 1956, para extinção das Ilhas – construções
precárias de habitação –, destacando-se “da média geral pelo volume de obra
e a sua radicação na renovação urbanística e, sobretudo, pelo corajoso
programa administrativo e financeiro que a Câmara portuense conseguiu
angariar e efectivar”,49 inserindo-no num plano de cidade, algo inovador em
Portugal.
Entretanto, e por iniciativa municipal, é criado em Lisboa, o Gabinete
Técnico de Habitação [GTH] em 1959, para o lançamento de operações
habitacionais de grande escala – Olivais-Sul [1961] e Chelas [1966] –
aproveitando a experiência do bairro de Alvalade, ao englobar diferentes
modalidades de habitação social.
Neste contexto iniciou-se, assim, um extenso conjunto de habitação
social, o bairro de Olivais Sul [1961-68], plano de Rafael Botelho e Carlos
Duarte, e na continuação de Olivais Norte [1955-64], planeados pelo Gabinete
Estudos de Urbanização [GEU] da Câmara Municipal de Lisboa. Se o conjunto
de Olivais Norte assumira um planeamento consonante com os conceitos e a
doutrina urbana da cidade moderna explicitada na Carta de Atenas, o seu
vizinho a Sul, punha em causa essa doutrina, e pela mão de Nuno Portas e
Bartolomeu da Costa Cabral, retomou a rua como elemento agregador do
espaço arquitectónico, funcionando como um laboratório de produção
tipológica e urbanística, num processo de revisão arquitectónica que estava em
curso em Portugal.50 Olivais Norte e Olivais Sul serão alvo de análise e
confrontação no último capítulo.
Os anos 60 ficam também marcados pelo acréscimo da preocupação
teórica e pedagógica, com a Reforma do Ensino levada a cabo nas escolas do
Porto e Lisboa, paralelamente a uma revisão da arquitectura praticada.
____________________
49| CABRAL, Bartolomeu da Costa; PORTAS, Nuno – O novo conjunto habitacional da Pasteleira. Arquitectura 69.
Dez. 1960. p.31-47.
50| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.75-77.
41
Figura 22 | Fernando Távora, Da Organização do Espaço, 1963
Figura 23| Octávio Lixa Filgueiras, Da função social do arquitecto, 1963
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
Surgem então alguns escritos assinaláveis, resultantes da necessidade de
apresentação de provas académicas. Em 1959, Nuno Portas apresenta o seu
CODA [Concurso Obtenção Diploma Arquitecto], no Porto, “A Habitação Social,
Proposta para a metodologia da sua arquitectura”, e posteriormente, em 1963,
Pedro Vieira de Almeida o “Ensaio sobre o Espaço na Arquitectura”, onde
aborda a problemática filosófica do espaço arquitectónico. No mesmo ano e
ainda no Porto, seriam publicadas dissertações de concurso para professor:
“Da Organização do Espaço”, de Fernando Távora, reflexão crítica e acertiva
sobre os problemas da organização da cidade e do território, e “Da função
social do arquitecto”, de Octávio Lixa Filgueiras, uma abordagem sobre o papel
que o arquitecto desempenha na sociedade, constituem exemplos disso
mesmo. A revista Arquitectura já referida e a revista Binário, criada em 1958 e
dirigida por Manuel Taínha, contribuíam decisivamente, para a revisão.51
Nuno Portas, emerge como figura preponderante, na reflexão teórica
sobre os problemas na disciplina de arquitectura, através da autoria de dois
livros seminais, “A Arquitectura Para Hoje” em 1964, e posteriormente, “A
Cidade como Arquitectura” em 1969, como analisaremos no capítulo seguinte.
Também pela mão de Portas, a investigação, no quadro do LNEC [Laboratório
Nacional de Engenharia Nacional], recebia um forte e determinante impulso
com a criação da Divisão de Construção e Habitação, em 1962, onde uma
equipa de arquitectos e engenheiros, desenvolveu investigação na àrea da
tipologia da habitação colectiva, publicando diversos estudos.52
O ano de 1969, na transição para o que caracterizaria a década de 70,
ficou marcado pelo debate em plenário das questões habitacionais e políticas
em Portugal. Os três eventos: Colóquio sobre o Urbanismo [em Janeiro, no
Funchal], Colóquio sobre Política da Habitação [em Setembro, Lisboa] e o
Encontro Nacional de Arquitectos [em Dezembro, Lisboa] surgem já depois de
Marcelo Caetano assumir a liderança do poder em 1968, e passar haver uma
maior
abertura
política
para
os
grandes
problemas
nacionais,
sem
descriminações, através de uma alargada informação pública e uma aceitação
____________________
51| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.169-173.
52| FERNANDEZ, Sergio – Percurso. Arquitectura Portuguesa 1930/1974. 1985. p.179.
43
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
de propostas elaboradas pelos técnicos especializados.53
No Funchal, Nuno Teotónio Pereira apresenta o “Habitações para o maior
número”, um incisivo programa de política habitacional baseado na análise à
evolução da habitação social em grande escala dos últimos 40 anos – Alvalade
e Olivais, em Lisboa, e Plano de Melhoramentos, no Porto – e onde defende a
construção “não de somatórios exaustivos de habitações, mas conjuntos
urbanos equilibradamente organizados e equipados” para “o maior número”
54
que era constituído por uma larga população sem recursos individuais para
colmatar a sua precária situação habitacional, concluindo que o problema da
habitação não se resolvia com a construção de alguns bairros mas sim algo
mais abrangente e estruturante, remetendo para uma concisa intervenção do
poder político.
Por sua vez, o Colóquio sobre Política da Habitação, promovido pelo
Ministério das Obras Públicas [MOP], resulta num momento de charneira na
abordagem estatal dos problemas de habitação em Portugal, sucedendo
grandes reformas institucionais e administrativas, no combate as carências
habitacionais. Surge então, a criação do Fundo de Fomento da Habitação
[FFH], em 1969, um organismo oficial que agrupava as diversas formas de
intervenção estatal no sector da habitação social.
Por último, em Dezembro, realiza-se o Encontro Nacional de Arquitectura
[ENA], convocado por um grupo de arquitectos libertos de qualquer instituição
oficial, com o objectivo de estender o debate para fora dos círculos habituais,
fomentar o papel interventivo e social do arquitecto e, principalmente, defender
a participação das populações nos processos de construção das habitações.
Constitui-se, então, o Grupo de Intervenção no Meio Urbano [GRIMU], que
através de um texto, enuncia a necessidade e a urgência da “participação das
populações nas decisões que orientam e condicionam o fenómeno urbano”
defendendo a “formação de um grupo de estudo e intervenção, de carácter
interdisciplinar, estabelecendo ligações entre a urbanística e a arquitectura, por
____________________
53| BANDEIRINHA, José António – O Processo SAAL e a Arquitectura no 25 de Abril de 1974. 2007. p.70.
54| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.80.
45
Figura 24| Gonçalo Byrne e António Reis Cabrita, Conjunto da ‘Pantera Cor-de-Rosa’, Lisboa, 1972-74
Figura 25| Vítor Figueiredo, Conjunto dos ‘Cinco Dedos', Lisboa, 1973-80
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
um lado, e a promoção social e cívica, por outro.”
55
Surgia assim, pela
primeira vez, a ideia da criação de equipas de apoio local para intervir
directamente nas zonas carenciadas, que seriam postas em prática após o 25
de Abril de 74 com o processo de Serviço de Apoio Ambulatório Local [SAAL].
No entanto o debate decisivo que ocuparia o início dos anos 70 era a
relação da arquitectura com o espaço público urbano ou o impacto que esta
tinha no perfil da cidade. É o tempo da reinterpretação da rua [praça ou largo]
como elemento organizador da diversidade e da falta de homogeneidade das
intervenções arquitectónicas. O programa colectivo assumia-se como a solução
à falta de habitação social nos centros urbanos, provocando uma proliferação
de intervenções arquitectónicas de qualidade duvidosa, onde apenas algumas
pontuavam pela qualidade e pertinência na abordagem a esta questão. Assim é
com o Conjunto Habitacional Chelas [1972] da responsabilidade de Francisco
Silva Dias, o Conjunto da ‘Pantera Cor-de-Rosa’ [1972-74] de Gonçalo Byrne e
António Reis Cabrita, ou o Conjunto dos ‘Cinco Dedos' [1973-80] de Vítor
Figueiredo, personagens que tinham em comum a sua passagem pelo atelier
da Rua da Alegria antes de se afirmarem com ateliers próprios.
Atelier que viria a desenvolver pela mão de Nuno Teotónio Pereira, Nuno
Portas e Gonçalo Ribeiro Telles [arquitecto paisagista], em 1970-72, o Plano
Pormenor do Restelo, repondo a rua e a praça na linguagem urbana,
contrapondo aos princípios da Carta de Atenas que tinham sido adoptados nos
últimos anos. Ao plano anterior povoado por edifícios em altura, as chamadas
‘torres do Restelo’, Nuno Portas esboça um plano com construções mais
baixas, mas no entanto, com a mesma densidade do anterior. Segundo o autor
“julgo que através deste trabalho demos um passo importante no sentido de
conjugar e integrar coisas que desde o Movimento Moderno fomos ensinados a
separar”
56
, de facto, este plano distanciava-se da Carta de Atenas integrando
torres com bandas e moradias, a alta densidade e a baixa densidade, o tráfego
rodoviário com os caminhos para os peões, num retorno à escala humanizada
____________________
55| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.109.
56| PORTAS, Nuno – Dossier Restelo. Arquitectura 130. Mai. 1974. p.23.
47
O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria
constituindo o paradigma dos planos urbanísticos nos anos seguintes. Estas
questões serão desenvolvidas na análise ao Plano do Restelo, no capítulo III.
Como vimos ao longo deste capítulo, o desenrolar da arquitectura em
Portugal neste período é indissociável do atelier da Rua da Alegria, coordenado
por Nuno Teotónio Pereira. Não será certamente ocasional o facto de ali terem
colaborado algumas das personagens principais no debate arquitectónico da
época, como fomos evidenciando, sendo no entanto Nuno Portas aquele que
seguramente mais influência conceptual teve nos anos em que lá colaborou
[1957-1974], complementada com as suas outras vertentes: de crítica, de
investigação, de ensino e de concepção política que culminaria com a sua
nomeação para Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo dos III
primeiros Governos Provisórios, em Maio de 1974. Esta passagem de Nuno
Portas pela política teve na criação no Serviço de Apoio Ambulatório Local
[SAAL], a iniciativa mais consequente, questão que será alvo de uma
abordagem mais específica no capítulo seguinte.
49
Capítulo II
A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas
A crítica. A investigação. O ensino. A teoria. E a prática de Nuno Portas
Como referimos no capítulo I, o percurso da arquitectura portuguesa na
segunda metade do século XX, é indissociável do Atelier da Rua da Alegria e
da personagem singular de Nuno Teotónio Pereira. Sem nunca recusar a
ideologia
moderna,
Teotónio
Pereira,
embarcou
pelo
caminho
da
experimentação, ao “arriscar soluções, métodos, sistemas construtivos,
materiais e programas”
1
, e da contextualização do ambiente físico mas
também social, na procura de uma arquitectura que conciliasse o programa
moderno com a tradição, com a história, com o contexto e com as pessoas, o
que Ana Tostões designou como uma “Obra Aberta […], uma arquitectura
participada quando ainda não se falava nisso” 2.
A “sacristia”
3
formou-se baseada numa conduta crítica e experimental
sobre soluções ‘em cima do estirador’ através do mestre Teotónio Pereira mas
também com a contribuição das várias gerações de colaboradores 4 que por lá
passaram ao longo dos anos, num diálogo constante e entusiasmado como
método de trabalho. Teotónio Pereira descreve esse período: “de partilha do
trabalho com colaboradores que haviam estado a riscar sobre o estirador
durante todo o dia, deixando assim muitas vezes o desenho entregue a mãos
alheias, para além da discussão em comum de ideias e soluções. […] Com tal
prática, criavam-se condições para que os mais talentosos e assíduos
pudessem afirmar-se como co-autores, ou até, como veio a acontecer, como
autores principais” 5, o que sucederá com Nuno Portas.
____________________
1| TOSTÕES, Ana – Obra aberta: entre experimentalismo e contexto, um sentido de escola. In: Arquitectura e
Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.21.
2| Ibidem, p.22.
3| Nome atríbuido ao atelier pelos colaboradores, devido ao catolicismo ferveroso de Nuno Teotónio Pereira.
4| Nomes como Bartolomeu da Costa Cabral, Pedro Vieira de Almeida, Pedro Viana Botelho, João Paciência, Gonçalo
Byrne, Helena Roseta, entre tantos outros, colaboraram em determinado momento no Atelier.
5| PEREIRA, Nuno Teotónio Pereira – Um testemunho pessoal. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio
Pereira. 2004. p.45.
53
Figura 26 | Interior do Atelier da Rua da Alegria
A crítica. A investigação. O ensino. A teoria. E a prática de Nuno Portas
Foi um atelier de intervenção social, no combate pelo direito à
arquitectura e à cidade, através da personalidade reivindicativa de Nuno
Teotónio Pereira, mas também uma autêntica escola de arquitectura. Nesse
sentido Helena Roseta afirma “que o atelier Rua da Alegria formou
verdadeiramente mais gente do que a velha ESBAL.” 6
“Mas foi a entrada do jovem e fogoso Nuno Portas, em 1957, que
marcou decisivamente o atelier. Dotado de uma grande capacidade
de trabalho, de uma informação de ponta sempre actualizada e de
uma facilidade de concepção e criação muito ricas, foi um esteio
fundamental para todo o trabalho posterior. Estabeleceu-se entre
nós uma cumplicidade permanente, talvez fruto de uma certa
complementariedade de formações e de temperamento.” 7
As palavras de Teotónio Pereira reflectem fielmente o impacto e a
influência que a entrada de Nuno Portas produziu no atelier. O afastamento,
até então, que Teotónio demonstrou da vertente teórica e académica da
arquitectura, em prol do seu rigor de projecto, foi colmatada com Nuno Portas.
O próprio confessou que o apelidavam “de ‘empírico’, epíteto que plenamente
assumo, mas que por vezes me faz sentir algo desarmado diante do papel
vegetal, face à questão crucial de como dar forma às ideias que vão surgindo.
Foi esta insuficiência [além de outras] que Nuno Portas veio suprir ao longo
dos dezassete anos que trabalhámos juntos, no quadro das preocupações que
nos eram comuns.” 8
O ingresso de Nuno Portas, em 1957, constituiu então um ponto de
viragem na prática arquitectónica do Atelier. Portas “acarretou uma inflexão
crítica nas opções anteriores. Repensa-se a linguagem da arquitectura […],
esbatendo-se os conteúdos abstractos [modernos] que ainda subsistem,
____________________
6| Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.9.
7| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.159.
8| PEREIRA, Nuno Teotónio Pereira – Um testemunho pessoal. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio
Pereira. 2004. p.47.
55
Figura 27| Nuno Teotónio Pereira, Igreja Paroquial de Águas, Penamacor, 1949-1957
Figura 28| Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral, Edifício Bloco das Águas Livres, Lisboa, 1953-1956
A crítica. A investigação. O ensino. A teoria. E a prática de Nuno Portas
fazendo emergir o tom de maior ‘realismo’ ” 9, numa continuidade com as
preocupações e objectivos que Teotónio Pereira vinha desenvolvendo nas suas
primeiras obras, a Igreja Paroquial de Águas [1949-1957], em Penamacor e o
Edifício Bloco das Águas Livres [1953-1956], em Lisboa.
Portas, quando questionado sobre os trâmites da sua entrada para o
atelier, recordou que o seu papel “foi sempre uma contribuição de certo modo
mais teorizante e um pouco de prolongamento da actividade que como crítico
eu fazia [...], uma oportunidade para prolongar certas linhas que ele próprio,
Teotónio Pereira, tinha esboçado em obras anteriores e que eu, como crítico,
vinha estudando.” Assim sendo, desde o princípio que a colaboração “estava
orientada num certo sentido, o de irmos fazer uma certa pesquisa no campo da
tipologia e da linguagem arquitectónica.” 10
Nuno Portas, neste período de 17 anos desempenhou vários papéis
– cronista, crítico, investigador, professor e político – que complementaram e
influenciaram a prática de arquitecto no Atelier da Rua Alegria. O atelier
constituiu o ponto de convergência do conhecimento acumulado, partilhado e
discutido com todos, e em particular com Teotónio Pereira. Portas reconhece:
“encontrei no ‘NTP’, como lhe chamavamos, ‘o mestre’ que não tive na escola,
o patrão e, depois, o sócio, mas, sobretudo, o amigo incondicional e o parceiro
com mais experiência para esses vários papéis que, no meu caso, senti dever
desempenhar.” 11 Este sentimento de dever levou-o a percorrer “quase todas as
facetas do poliedro arquitectónico ou das habilidades dos arquitectos, por
vezes pisando os campos de outros não arquitectos”,
12
que resultou numa
multidisciplinaridade de conhecimento que poucos arquitectos portugueses
naquele período dispunham.
____________________
9| MILHEIRO, Ana Vaz – Nuno Teotónio Pereira. Á Procura da Manhã Clara. In: Arquitectos Portugueses
Contemporâneos. 2004.
10| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do
mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.61.
11| PORTAS, Nuno – Um testemunho, também pessoal. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira.
2004. p.51.
12| PORTAS, Nuno – Do Astro à Nebulosa, do Nó à Malha, da Malha aos Nós. In: Arquitectura[s], Teoria e Desenho,
Investigação e Projecto. 2005. p.75.
.
57
A crítica. A investigação. O ensino. A teoria. E a prática de Nuno Portas
Poderemos afirmar, perante o discurso directo de ambos os protagonistas,
que acabamos de descrever, que se Teotónio era a “cara” prática do atelier,
Portas viria a ser a “coroa” teórica, que contribuiu decisivamente para as obras
darem o salto para lá dos dogmas do Movimento Moderno que Teotónio Pereira
procurou desde o início, e que se verificou neste período de intensa prática
arquitectónica, no dobrar da década de 50 para 60.13
Se conciliarmos a entrada de Portas e de alguns novos elementos, às
variadas oportunidades de trabalho que surgiram, o Atelier vivia, nas palavras
de Portas “um clima de entusiasmo criativo centrado na resposta à crise da
linguagem modernista, que abria uma grande disponibilidade para experimentar
novos significantes e, com eles, novas significações.” 14 Nesse contexto, Portas
nomeia as obras que constituirão os casos de estudo no capítulo seguinte,
“duas ou três moradias em contextos opostos muito fortes – em tecido
histórico, uma, e em meio de paisagem ‘natural’, as outras –, um concurso
público para uma grande Igreja urbana integrada em quarteirão das Avenidas
Novas, […], logo seguida de outra igreja mais periférica. Para completar a
variedade temática, dois conjuntos de habitação social em Lisboa-Olivais.”
15
e
uma década mais tarde, acrescentamos, o projecto-plano para o Alto do
Restelo.
Percorramos, então, as várias “facetas do poliedro arquitectónico” de
Nuno Portas, tendo como pano de fundo a prática arquitectónica do Atelier da
Rua da Alegria.
____________________
13| Ver: FERREIRA, Joana Cunha – Nuno Teotónio Pereira. Um Homem na Cidade. 2009. Um filme sobre a vida e a
obra de Nuno Teotónio Pereira. De salientar o frente a frente informal entre Teotónio Pereira e Nuno Portas onde
vagueiam sobre o seu relacionamento pessoal e profissional, com o pano de fundo das obras do atelier da Rua da
Alegria.
14| PORTAS, Nuno – Um testemunho, também pessoal. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira.
2004. p.53.
15| Ibidem, p.53.
59
Figura 29| Concurso Obtenção Diploma de Arquitecto [CODA] de Nuno Portas,
A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Dezembro 1959
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
Como evidenciamos no capítulo anterior, Portugal padecia, na década de
60, de um grave problema de habitação e o atelier da Rua da Alegria contribuiu
pioneiramente com diversas iniciativas para alterar esse panorama. Para mais,
Teotónio Pereira colaborava na Federação das Caixas de Previdência e no
Inquérito Regional à Arquitectura Portuguesa, despertando para as questões
da sociologia do habitat aliada à arquitectura, como vimos na Exposição “O
Cooperativismo Habitacional no Mundo”, ocorrida em 1957. Por estes motivos,
não é de estranhar que a habitação social e unifamiliar, tenha constituído um
tema central de investigação no atelier da Rua da Alegria.
Neste contexto a iniciativa de Nuno Portas, em Fevereiro de 1960, num
Colóquio dedicado aos problemas habitacionais, “Aspectos sociais na
construção do habitat” projectou para um nível de maior visibilidade no campo
português, as preocupações sociológicas sobre o habitat, que naquele período
despoletavam na Europa e na América, e expostas, entre outros, por Chombart
de Lauwe.
A comunicação apresentada por Portas no Colóquio, com o tema
“Problemas da célula social”, derivada do seu CODA intitulado “A Habitação
Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura”
16
, defendido dois
meses antes, levantou muitas das questões debatidas na iniciativa e nas
palavras de Teotónio Pereira, “além do seu valor como trabalho de metodologia
e de sistematização, ele tem uma característica que lhe confere grande
importância: é que põe os problemas simultaneamente no campo da sociologia
e da crítica espacial.” 17
A primeira síntese na temática da habitação do jovem Nuno Portas, na
altura com 25 anos, “A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua
____________________
16| De referir que Nuno Portas frequentou o curso de Arquitectura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa
[ESBAL]. No entanto, como a ESBAL não aceitava trabalhos teóricos, foi na Escola Superior de Belas-Artes do Porto
[ESBAP], que apresentou o Concurso para Obtenção do Diploma de Arquitecto [CODA], em Dezembro de 1959.
Editado em 2004 pela Faup Publicações, em 2 volumes: um de texto e outro de fichas de casos de estudo.
17| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.36.
61
Figura 30| Fichas de casos de estudo,
Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
Arquitectura”, constituiu uma intensa pesquisa, de uma multiplicidade de
matérias, com o objectivo de obter uma estruturação metodológica para a
análise e construção da habitação social, na tentativa de aliar à capacidade
criativa dos arquitectos uma teoria que permitisse assimilar todos os dados do
problema. Para Portas, “o modo criativo do arquitecto tende a acentuar os
aspectos intuitivos, e a afastá-lo de uma autocrítica rigorosa, de um método de
análise que lhe pode parecer ameçar a unidade da obra.” 18
Neste ambicioso trabalho, Portas sintetizou e relacionou, pioneiramente,
vários estudos em curso, de uma extensa bibliografia de autores estrangeiros19
– de onde destacamos, Paul Chombart de Lauwe, mestre sociológico de Nuno
Portas – de modo a alcançar uma “espinha metodológica” teórica, “tentando ler
caminhos que se desenham e não criando caminhos a seguir – aclarar e não
inventar”
20
, que perante a mutabilidade constante de diversos factores,
constituía apenas uma base inicial para posterior actualização, dado “que
dentro de pouco tempo, a hierarquização de noções que nos esforçámos por
conseguir “revelar” poderá estar, estará, se Deus quiser, ultrapassada pela
incessante fertilização das novas contribuições.” 21
Ora as contribuições abrangiam também as experiências práticas – como
foi documentado nas mais de duzentas fichas de casos de estudo, num volume
em anexo ao CODA, com projectos de referências como Wright, Aalto, Le
Corbusier, Coderch, Lasdun, Candilis, entre tantos outros. A importância das
fichas de trabalho de Nuno Portas, e do seu perspicaz conteúdo informativo,
mereceriam um extenso e elogioso comentário de Pedro Vieira de Almeida:
“nesta altura discutia-se duramente a bondade das fichas de trabalho pessoais,
da mesma forma apaixonada como se avaliava da eficácia do nível
organizativo do ficheiro de cada um. […] Com todos os defeitos que se possam
____________________
18| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.13.
19| A sociologia aplicada ao habitat proliferava em vários países: na Inglaterra, nos Estados Unidos, nos Países
Nórdicos, e, posteriormente, na França e Itália. Só para referir os autores mais relevantes: os norte-americanos
Mumford, Sven Rimer, Festinger ou R.K.Merton; o nórdico Odd Brochman e o grupo parisiense que Chombart de
Lauwe e Paul Couvreur lideram no Centre National Recherche Scientifique [CNRS].
20| Ibidem, p.14.
21| Ibidem, p.14.
63
Figura 31| Fichas de casos de estudo sociológico,
Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
apontar contra o carácter rudimentar do sistema, efectivamente nele, cada “bit”
de informação registado correspondia a concreto trabalho de investigação
particular – sublinho de investigação – através de um exigente crivo de
selecção e avaliação críticas. Era certamente um processo moroso, um pouco
enervante até, mas que tinha desde logo a vantagem de não tomar a
informação como um valor em si, […] mas de a avaliar através da verdadeira
capacidade de estabelecer com ela, outros níveis de pensamento, outros
horizontes de teorização. Daí que toda a informação que podemos encontrar
em Nuno Portas seja toda ela, informação útil.” 22
De referir, que muitos dos casos de estudo – poucos deles portugueses –
foram estudadas in loco nas viagens de estudo que Portas realizou com Nuno
Teotónio Pereira. Em 1958, viajam por Espanha e Itália, onde travam
conhecimento com o veneziano Carlo Scarpa e visitam a construção dos
bairros de habitação pelo programa INA-Casa, referido no capítulo I, e que
constituiu uma das influências mais directas na prática arquitectónica do Atelier
da Rua da Alegria e tantas vezes mencionado na tese de Portas. 23
A colocação da tese de Nuno Portas no campo da sociologia, ficou
evidenciada na primeira parte, “O Sujeito da Habitação. A Família”. A análise ao
principal elemento social que ocupa o espaço da habitação, a família – no seu
modo de vida, necessidades e relacionamento entre os vários sujeitos desta –
possibilitaria assegurar uma qualidade espacial e um mínimo de condições
humanas de habitação, que estariam a ser desprezadas pelas políticas
habitacionais dos anos 50. Para Portas, “a sociologia aplicada permite-nos uma
observação mais aproximada da estrutura familiar na sociedade europeia dos
nossos dias – e esse conhecimento afigura-se-nos capital para a formulação de
um conteúdo actualizado do habitat, e pode servir de base a uma crítica das
suas diferentes formas.” 24
____________________
22| ALMEIDA, Pedro Vieira de – A “A Arquitectura para hoje”. A Arquitectura para Hoje seguido de Evolução da
Arquitectura Moderna em Portugal. 2008. p.14-15.
23| A exemplo, Nuno Portas refere o programa habitacional italiano INA-Casa, como modelo sociológico de habitação
a adoptar. PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p. 33.
24| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.22.
65
Figura 32| Nuno Teotónio Pereira, António Pinto Freitas e Nuno Portas,
Edifício de Habitação, Escritórios e Comércio na Rua de São Filipe Nery [não construído], 1957
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
O trabalho de Portas colocou-se assim, também no campo da política ao
despertar para políticas habitacionais que teriam de englobar a sociologia
aplicada ao habitat, e numa nova consciência de abertura social e cooperação,
as famílias participariam na elaboração dos programas habitacionais, à imagem
dos países socialmente mais desenvolvidos, dando como o exemplo o projecto
INA-Casa, em Itália, que seria uma das referências para a mais consequente
política habitacional portuguesa participada, o processo SAAL, onde Portas
viria a desempenhar um papel importante.
Para Nuno Portas a sociologia aplicada ao habitat tratava “de definir as
necessidades humanas em matéria de habitat [psicológicas e sociológicas],
segundo as regiões e condições de vida”,25 e para essa definição, Portas
encerra a primeira parte da tese, com um inovador esquema metodológico –
“Temas de investigação sociológica aplicada ao habitat” – que contribuiria para
a concepção da habitação a um nível, simultaneamente, mais realista e mais
progressivo.
A realização da tese entre 1958 e 1959, colocou Portas num plano
sociológico, político, histórico, económico e arquitectónico de vanguarda, neste
final dos anos 50, sendo por isso, com naturalidade, que muitas das reflexões,
ideias e casos de estudo, que expressou ao longo deste pioneiro trabalho,
começassem a reflectir-se nos primeiros anos de colaboração no atelier e na
sua faceta de crítico na revista Arquitectura e noutros meios de comunicação.
Assim sendo a influência crítica de Portas ficou desde logo patente na
evolução do primeiro, de 1955, para o segundo anteprojecto, em 1957, do
Edifício de Habitação, Escritórios e Comércio na Rua de São Filipe Nery [não
construído], numa das primeiras abordagens projectuais de Nuno Portas no
atelier.
O primeiro anteprojecto, um edifício de habitação em altura, perpendicular
a um de serviços implantado no terreno triangular, desenhado à imagem do
Edifício de Habitação, Escritórios e Comércio, Bloco das Águas Livres [1953____________________
25| Ibidem, p.42
67
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
1956]26, era um modelo considerado por Portas “como ultrapassado, a posição
essencialmente teórica do período racionalista, o qual concebia um tecido
urbanístico como uma malha estandardizada de unidades-tipo [como, por
exemplo, era entendida por Le Corbusier nos seus famosos planos de há duas
décadas].” 27 Temos, assim, o desenvolvimento para um segundo anteprojecto,
constituído
por
um
conjunto
fragmentado
de
edifícios
ordenados
organicamente no terreno, integrados no declive e atentos à exposição solar,
configurando uma plataforma ajardinada percorrível, num prenúncio daquilo
que será o modelo explorado pelo atelier ao longo dos anos 60.
A segunda parte da tese de Portas, “A Concepção da Habitação”, inicia-se
com o “Esboço de uma História do Movimento Moderno da Casa”, um relato
histórico que percorre a evolução da casa – na sua renovação formal e
conceptual – desde os finais do século XIX, nas primordiais reivindicações de
William Morris, para “uma casa de novo conteúdo destinada às massas
proletarizadas pela civilização industrial”,28 até meados do século XX, com os
mestres da Bauhaus – Mies van der Rohe, Walter Gropius, ou Adolf Loos – e a
sua rígida doutrina racionalista, que seria propagada nos CIAM, por Le
Corbusier e a Carta de Atenas, como referimos.
A análise da
casa,
enquanto
génese de
toda a
reformulação
arquitectónica e urbanística contemporânea, permitiu enriquecer espacialmente
a Tese, e transportou Nuno Portas para a linha evolutiva da arquitectura e a
descobrir os caminhos futuros, que seriam influência activa nos seus primeiros
anos de prática: “pela anterior crítica ao espírito racionalista, vimos que nele se
destacavam
alguns
pontos
que
as
alterações
estruturais
tornavam
particularmente vulneráveis e não tardariam em ser revistas no seu significado
ou mesmo substituídas. Assim, assistimos agora à afirmação do primado do
espaço interno, vulgarmente entendido como resultante e não como director;
____________________
26| Baseado no paradigma da Unidade de Habitação de Le Corbusier, o Bloco das Águas Livres procurou servir o
quotidiano duma comunidade numa inicial aproximação à arquitectura humanizada e integrada com as pessoas.
Inovou nas soluções programáticas, materiais, construtivas, espaciais e mesmo na pioneira integração das artes
plásticas nos espaços de uso colectivo. Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.148-157.
27| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.83.
28| Ibidem, p.58
69
Figura 33 | Fichas de caso de estudo: Frank Lloyd Wright,
Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
assim, a extensão do conceito de funcionalismo, pela adopção crítica de
exigências e particularidades reais dos indivíduos, e dos grupos, para além de
esquematismos intelectualistas; assim da vontade em interpretar intimamente a
fisionomia natural de um lugar, ou a persistência dos costumes e os modelos
formais e ecológicos a ela ligados, como de procurar o diálogo com todas as
raízes que possam conter sugestões para uma linguagem mais aderente e
directamente humana.” 29
Os valores da arquitectura a que Portas se referia neste parágrafo, tinham
sido deixados em suspenso 30 anos antes por Frank Lloyd Wright – mestre
académico de Portas – e como referido no “Esboço”, estariam a germinar
novamente, na tentativa de superação do racionalismo, através dos arquitectos
nórdicos, Asplund e Aalto, no movimento da história designado como “newempirism”, referido no capítulo I.
À importância do espaço interno na génese da arquitectura e a sua
relação com a natureza – pontos fundamentais na arquitectura de Wright –
juntava-se a relação da casa com o espaço exterior, enquanto espaço social e
o ponto essencial da arquitectura neo-empirista: um humanismo que
concedesse, “à nova noção de espaço que começava a delinear-se por sobre o
espírito anterior [orgulhoso no seu desenraizamento], a reintegração de uma
dimensão social, após essa conquista do ambiente natural. A realidade
preexistente, efectivamente, não era apenas de natureza paisagística ou
climática, mas humana – alicerçada em anos de história, história presente em
hábitos de vida e relações humanas profundamente enraizadas.” 30
Nuno Portas refere, então, a via crítica italiana, onde todas estas questões
foram prontamente adoptadas e reinterpretadas, entre a tradição da corrente
neo-realista, materializada com o INA-Casa, e a análise crítica da história de
Bruno Zevi.
Tal como na obra de Wright as habitações unifamiliares, constituíram o
leitmotiv do atelier da Rua da Alegria. Um programa mais acessível de ser
experimental e de abordar o conjunto de valores que Portas referiu, formando
____________________
29| Ibidem, p.68.
30| Ibidem, p.7.
71
Figura 34 | Fichas de casos de estudo: Concepção da Forma de Agrupamento,
Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959
Figura 35 | Fichas de casos de estudo: Organização Interna da Célula Familiar,
Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
um laboratório de soluções aplicadas a projectos com uma escala maior, que
nesse tempo também se iniciavam. Foi na habitação, unifamiliar e social, que o
atelier efectuou os saltos linguísticos que Teotónio Pereira sempre procurou, e
que com a pesquisa e aprendizagem de Portas do movimento arquitectónico e
urbanístico moderno, que acabamos de mencionar, viria a suceder. Aos
princípios ensaiados e seguros da escola wrightiana seriam articulados os
valores das tradições culturais e da arquitectura vernacular portuguesa – numa
evidente influência da via italiana – e desenvolvidos, como veremos na análise
no capítulo III, nas três casas deste período: a Casa Metelo [1958-59], Casa
Brás de Oliveira [1957-64], a Casa Dr. Barata dos Santos [1959-63].
“A Concepção da Habitação”, para lá do carácter histórico referido,
colocaria a tese, como referiu Teotónio Pereira, no campo da crítica espacial:
exterior, na análise da “Concepção da Forma de Agrupamento”, e interior na
“Organização Interna da Célula Familiar”, visto que “o problema de concepção
de um habitat, […] está na opção de agrupamento. Este vincula, talvez
irreversivelmente, a relação da célula com o espaço exterior, com as outras
células e, finalmente, o seu próprio espaço interno.” 31
Na análise do planeamento do espaço exterior, Portas alertou,
recordemos, em 1959, que “o problema das densidades, dos mais graves e
complexos que se põem à planificação, tem antes de ser encarado em função
do dimensionamento das comunidades e do seu equipamento, vistos não só á
escala local mas, antes, na sua inserção regional e nacional”
32
; ora este
problema poderia condicionar de modo decisivo a forma de dispôr os edifícios
e teriam consequências gravosas no plano económico e social se não fossem
coordenadas e controladas pelas precárias políticas nacionais de habitação.
Segundo o autor as ausências de uma legislação, de estudos rigorosos e
continuados sobre a morfologia dos tipos habitacionais, conjugadas com os
preconceitos e modelos ideológicos de um ‘modo de fazer’ com décadas de
enraizamento, como foi o exemplo falacioso da ‘casa portuguesa’, estariam na
origem da débil situação da habitação em Portugal e condicionaram o
____________________
31| Ibidem, p.53.
32| Ibidem, p.82.
73
Figura 36 | Fichas de caso de estudo: Quanto aos orgãos de acesso e distribuição como espaços de relação,
Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
desenvolvimento de uma arquitectura habitacional com valor social.
O jovem Nuno Portas revelava, então, ‘inconscientemente’, os motivos
condutores pessoais que acabariam por ocupá-lo ao longo das décadas
seguintes: “esta situação só corrobora a necessidade […] de coordenar,
inclusivamente no plano institucional, as coisas do urbanismo e da habitação,
de acertar critérios e métodos, de pôr estudos históricos, sociológicos e
económicos ao serviço síncrono dos vários planos de trabalho actualmente
pulverizados por ministérios e serviços vários, naturalmente divididos, cada um
no seu critério.” 33
Perante esta análise do cenário português, não será pois de estranhar que
o projecto de habitação social de Olivais-Norte, iniciado em 1957, e Olivais-Sul,
em 1961, constituíssem já uma reacção a todo este panorama crítico e muito
dos temas que Portas desenvolveu na sua Tese, tivessem a sua primeira
experimentação prática precisamente nestes projectos.
Em Olivais-Norte, o plano de conjunto estava já realizado de acordo com
a ideologia racionalista de blocos individualizados segundo o modelo da Carta
de Atenas que, como referimos, para Nuno Portas estava ultrapassado. A
intervenção do atelier da Rua da Alegria cingiu-se apenas ao desenho das
‘torres’ e ‘bandas’, num ensaio de edifícios que englobavam os valores
tradicionais – desenvolvidos paralelamente nas habitações unifamiliares – com
novas soluções para o corpo de entrada e distribuidor dos acessos verticais,
conjugadas com os estudos sociológicos e os novos pressupostos de custos e
áreas mínimas da habitação social, temas que Portas acabara de desenvolver
no seu CODA.
E se a Norte o modelo era o da Carta de Atenas, em Olivais-Sul a
novidade na intervenção do atelier, é que o desenho ia para lá dos edifícios,
constituindo o ensaio de um novo desenho urbano e de novos tipos de
edifícios que superassem a ideologia racionalista. As torres deixaram de ser
isoladas e foram integradas em conjunto e relacionadas com os edifícios em
____________________
33| Ibidem, p.82.
75
Figura 37 | Alguns dos Artigos de Nuno Portas na Revista Arquitectura
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
banda mais baixos e em maior número, com a introdução dos valores urbanos
da rua definida na continuidade das construções e com carácter de espaço
social ao ar livre – à imagem das últimas gerações das new towns inglesas e
com influência da experiência da revisão operada em Itália.
Procederemos à análise mais detalhada destas e doutras questões da
habitação social no capítulo III.
Se nos estendermos na análise de “A Habitação Social, Proposta para a
metodologia da sua arquitectura”, percebemos a atenção que Portas, desde
muito jovem, concedeu aos vários campos do conhecimento sociológico,
político e urbanístico, que constituíram os focos das suas investigações na
década de 60, e assim, como estas se reflectiram desde o princípio da sua
colaboração no atelier da Rua da Alegria.
Por outro lado, importa observar que muita da investigação que Portas
efectou para a realização do seu CODA permitiu-lhe escrever na revista
Arquitectura, de uma forma fundamentada e actualizada. De facto muitos dos
artigos escritos na Arquitectura, e noutros espaços de crítica, desenvolveram
os mesmos temas, sínteses e análises históricas desenvolvidas na sua Tese.34
Analisemos Nuno Portas na sua faceta de crítico de arquitectura.
Paralelamente à sua actividade no atelier da Rua da Alegria, Portas
colaborou na revista Arquitectura, na crítica e divulgação de arquitectura
portuguesa e internacional. Iniciado em 1956, enquanto estudante, o papel de
crítico, primeiro de cinema no Diário de Lisboa e no Diário Ilustrado e depois de
arquitectura, foi porventura naquele em que o autor mais se destacou,
individualmente. Portas chega mesmo a receber o Prémio de Crítica de Arte da
Fundação Gulbenkian, em 1963, por artigos escritos para o Jornal de Letras e
Artes na crónica “Pioneiros de uma Renovação”, onde também explanou o seu
pensamento arquitectónico.
____________________
34| Ver: Conceito de Casa-pátio como Célula Social. Arquitectura 64. Jan./Fev. 1959. p.32-34, 59-60; Considerações
sobre o Organismo Distributivo das Habitações. Arquitectura 69. Nov./Dez. 1960. p.48-52.
77
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
Numa entrevista35 bastante elucidativa sobre o seu projecto crítico e
teórico, Portas alertou para a ausência de uma crítica de arquitectura 36 mais
abrangente e com mais autores, que trouxesse para o quotidiano e para o
público em geral a discussão “das formas das cidades ou das casas em que
vive”
37
, destacando o papel da revista Arquitectura nesse sentido a partir de
1957, com a sua entrada e de outros críticos, como referimos no capítulo I.
Na referida entrevista de 1965, Portas sublinhou o ponto que
evidenciamos neste segundo capítulo, a importância de abordar diferentes
campos de conhecimento e modo como o aprofundamento multidisciplinar era
essencial no seu projecto teórico e na sua prática arquitectónica: “a minha
crítica e o meu próprio trabalho de concepção da arquitectura têm beneficiado,
dos contactos com obras ou estudos de outros sectores da criação, como a
crítica literária e os estudos linguísticos, como as preocupações espacialistas
na pintura, como toda a controvérsia sobre os modos e eficácias da
intervenção das formas artísticas na consciencialização social, política,
cultural... moral, dos seus consumidores. Pelo menos tanto como o que tem
beneficiado com o contacto de economistas, sociológos ou engenheiros.” 38
O projecto crítico e teórico de Nuno Portas, quando começou a escrever
na revista Arquitectura, teve como ponto de partida os pressupostos antiracionalistas de Bruno Zevi – mestre histórico e crítico de Portas – reflexo duma
maior proximidade conceptual com a via crítica italiana. Zevi elaborou um
trabalho historiográfico fundamental e através de uma releitura crítica da
___________________
35| PORTAS, Nuno – A Crítica da Arquitectura que Temos Ensaiado Não Está à Altura da Importância do que se
Constrói para a Vida Quotidiana. In: Arquitectura [s]. História e Crítica. Ensino e Profissão. 2005. p.32-36.
36| A falta de uma crítica e teoria arquitectónica a que Portas se referiu, era reflexo de uma ausente “escola
portuguesa” teórica, num campo pontuado por poucas personagens. Autores como Ramalho, que colaborou como
editor na revista Arquitectura, nos anos 20 e Raúl Lino com os ensaios A Nossa Casa [1919] e A Casa Portuguesa
[1929], eram a excepção no deserto teórico português da primeira metade do século XX; Nos anos 40, Keil do Amaral
tentou alterar este panorama, também como editor da revista Arquitectura e publicando Arquitectura e Vida [1942] e O
Problema da Casa Portuguesa [1947]. Sucedendo-lhe Fernando Távora no papel de dinamizador da teoria e crítica de
arquitectura em Portugal. Ver: PORTAS, Nuno – A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna
em Portugal. 2008. p.153-210.
37| PORTAS, Nuno – A Crítica da Arquitectura que Temos Ensaiado Não Está à Altura da Importância do que se
Constrói para a Vida Quotidiana. In: Arquitectura [s]. História e Crítica. Ensino e Profissão. p.33.
38| Ibidem, p.33
79
Figura 38| Bruno Zevi, História da Arquitectura Moderna, versão portuguesa, 1970
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
história descobriu novas perspectivas que viriam a ser incluídas no processo
de criação e na redefinição da arquitectura que ocorria nos anos 50 na Europa.
Se por um lado Zevi foi o responsável maior pela divulgação do conceito
de espaço interno – influenciado pela arquitectura de Wright e pela constatação
que a história da arquitectura é sobretudo feita pela história das concepções
espaciais – enquanto meio de análise e de valorização da arquitectura e da
urbanística, por outro lado revelou e evidenciou na sua Storia della Architettura
Moderna valores da arquitectura que foram ignorados na ideologia racionalista
nas décadas de 20 e 30, ao indicar o caminho para uma arquitectura que
respondesse às necessidades humanas e sociais, materializadas nas
anteriormente referidas correntes orgânicas. E como fomos referindo, eram
aspectos que Portas incutia na sua prática projectual.
Para lá dos seus artigos, o discurso de Nuno Portas revelam a sua
aproximação a Zevi: “assim, entendo a forma em arquitectura como a própria
organização e modelação do espaço e é em ordem a este poderoso meio
expressivo que tenho reduzido a descrição e a crítica dos diversos elementos
que intervêm numa obra – volumes, estrutura, superfícies, proporções, claroescuro, ornato, etc. – e que são, afinal, sinais que designam espaços sensíveis,
ambientes e, logo, experiências humanas.”
39
Encontraremos esta chiave
zeviana, vincada no esboço histórico do seu CODA e uma década mais tarde,
na ode ao arquitecto italiano que constituiu o Prefácio da primeira edição
portuguesa da História da Arquitectura Moderna de 1970, num texto onde
revemos Portas e no Posfácio da segunda edição em 1973, onde resume a
“evolução da arquitectura moderna em Portugal.” 40
Contudo para Portas “a crítica de arquitectura que temos ensaiado não
está à altura da importância do que se constrói para a nossa vida quotidiana” ,41
se até então a crítica operada tinha sido feita a obras isoladas de autores
____________________
39| Ibidem, p.34.
40| A síntese de Nuno Portas da arquitectura moderna em Portugal, viria a ser compilada com a 2ª edição de A
Arquitectura para Hoje, com o título: A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em
Portugal. 2008. p.149-235.
41| PORTAS, Nuno – A Crítica da Arquitectura que Temos Ensaiado Não Está à Altura da Importância do que se
Constrói para a Vida Quotidiana. In: Arquitectura [s]. História e Crítica. Ensino e Profissão. p.35.
81
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
portugueses – como Fernando Távora, Siza Vieira, Viana de Lima, entre outros
– que se fecharam sobre si mesmas e não acarretaram questões para serem
aplicadas a arquitectura em geral, para Portas era o momento para a mudança
de escala num plano crítico mais abrangente – não apenas o edifício mas a
cidade – e com um diferente método de análise, à imagem do que sucedeu no
plano prático. Nas palavras do crítico: “ora, assim como, nas obras de
arquitectura, há uma mudança de escala dos problemas pela qual se passa da
obra isolada, de âmbito quase individual, que caracterizou a fase difícil das
obras modernas [...] para o conceito actual da obra integrada – integrada no
plano, na repetibilidade das soluções em pontos diferentes, em resumo, na
exemplaridade de cada contribuição – assim também, dizia, há uma evolução
no papel da crítica [única que pode aclarar e difundir essa exemplaridade] que
se dilata, igualmente, do julgamento formal da peça isolada, para avaliar o que
em cada contribuição pode ser absorvido, desenvolvido ou contrariado, no que
se faça posteriormente ou noutros locais – e cabe-lhe, deste modo, alargar a
um uso mais geral, ao uso de toda a população, valores adquiridos na obra
investigada.” 42
Este apelo foi corroborado pela mudança de escala, que se efectuou no
plano prático, neste período no atelier da Rua da Alegria. De “obras isoladas”
com uma escala muito controlável, como as habitações unifamiliares, surgiu a
oportunidade de construir uma “obra integrada”, virada para a escala da cidade
como foi o projecto da Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus.
Paralelamente ao programa habitacional, que constítuia a grande fatia da
encomenda do atelier, foi desenvolvida uma arquitectura religiosa, relevante
para superar dogmas implantados e testar outras questões e escalas. Como
vimos, Nuno Teotónio Pereira foi um dos membros do MRAR, e contribuiu de
forma decisiva para a mudança do paradigma da arquitectura religiosa com a
Igreja Paroquial de Águas, em Penamacor [1949-55]. Mas foi com o concurso
ganho em 1962 para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus [1962-1976], e
posteriormente com a Igreja Paroquial de Almada [1963-1971], que houve uma
____________________
42| Ibidem, p.35.
83
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
ruptura definitiva com os equipamentos religiosos projectados ao longo das
décadas anteriores.
Como veremos, na análise a esta obra no capítulo seguinte, na
concepção do concurso para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, o espaço
interno constituiu o motor do projecto – algo sempre presente em toda a
arquitectura do atelier – no entanto, o protagonismo na discussão da Igreja
centrou-se no programa e no modo como foi desenvolvido no quarteirão do
coração de Lisboa. À tradição de fazer “igrejas no meio do nada” 43, o atelier da
Rua da Alegria respondeu com uma igreja integrada no quarteirão, onde
espaço religioso e espaço público se inter-relacionavam, num inovador
conceito de intervenção urbana da arquitectura portuguesa.
O atelier despertou, deste modo, para uma arquitectura articulada com o
espaço público e com a malha da cidade existente, no que Portas apelidou de
“fazer cidade.” 44
Retornando ao projecto teórico, se um primeiro período, diriamos ingénuo,
ficou marcada pelos pressupostos zevianos – na análise histórica e na adopção
dos princípios orgânicos – Nuno Portas rapidamente percebeu que o caminho
não terminaria aí. Este afastamento da chave zeviana, ficou precocemente
explícito no texto de 1959, referido no capítulo I, Portas expõe a necessidade
da procura de um ''plano de metodologia'' que permitisse um “modo de
conexão do acto criador com os processos de conhecimento da realidade”,
fundamentado
sociologia]”
“pelas
ciências
humanas
[fenomenologia,
psciologia,
45
, o que constituirá a base da sua pesquisa ao longo dos anos 60:
a procura de uma metodologia crítica e projectual baseada nas ciências sociais
e no trabalho multidisciplinar.
Anos mais tarde Portas, na entrevista de 1965, constatava que as
“condições dessa crítica estão ainda por realizar, pois carece de um
_______________
43| PORTAS, Nuno – Sobre o Método e os significados no Atelier Nuno Teotónio Pereira. In: Arquitectura[s], Teoria e
Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.234.
44| PORTAS, Nuno – A cidade como Arquitectura. 2007. p.13.
45| PORTAS, Nuno – A responsabilidade de uma novíssima geração no Movimento Moderno em Portugal.
Arquitectura 66. Dez. 1959. p.14.
85
A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71]
aperfeiçoamento do método para estruturar desde o programa da intervenção
aos domínios formais. Pessoalmente, vejo-a muito ligada à didáctica da
formação dos arquitectos, pois o seu ensino repousa, precisamente, em toda a
fase vital de projectar – no esclarecimento dos métodos – método de análise
das implicações, método de concepção, método crítico. E, agora, que me foi
dada a oportunidade de ensaiar por forma sistemática esta ideia, espero poder
avançar um pouco mais nos campos da teoria e da crítica.” 46
Ora as oportunidades concedidas foram a sua entrada no Laboratório
Nacional de Engenharia Civil [LNEC] para investigador na Divisão de
Construção e Habitação, e a de professor na ESBAL. Analisemos essas duas
vertentes de Portas.
____________________
46| PORTAS, Nuno – A Crítica da Arquitectura que Temos Ensaiado Não Está à Altura da Importância do que se
Constrói para a Vida Quotidiana. In: Arquitectura [s]. História e Crítica. Ensino e Profissão. 2005. p.36.
87
Figura 39| Laboratório Nacional de Engenharia Civil [LNEC], Lisboa
A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71]
Ao longo deste capítulo II, destacamos como Nuno Portas, misturou o
papel de crítico na revista Arquitectura com a intensa prática arquitectónica do
atelier da Rua da Alegria neste virar da década de 60. Portas confirmou-o:
“quando fiz crítica de arquitectura estava a fazer a mesma coisa que ao tentar
fazer no atelier uma experiência de arquitectura. Sempre defendi a crítica como
uma actividade de intervenção nos destinos da própria arquitectura.”
47
No
entanto, para Portas a crítica e a prática de atelier não eram os únicos
domínios da disciplina e para “uma arquitectura mais enraizada na sociedade e
que tenha mais impacto na vida das pessoas, portanto que se justifique social e
culturalmente, tem que se passar a níveis diversos e não só ao nível de
trabalho de atelier.” 48
Se o domínio projectual era fundamental, o domínio teórico não o era
menos e com a sua entrada para o Laboratório Nacional Engenharia Civil
[LNEC] em 1962 e para professor na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa
em 1965, dois papéis que se misturaram e complementaram, Portas obteve as
oportunidades para explorar a vertente teórica por que ansiou, apenas com o
prejuízo de um abrandamento no campo prático retomado de forma mais
constante no final dos anos 60, como veremos.
A passagem de Nuno Portas para o nível de investigação em arquitectura
aconteceu então no Departamento de Construção e Habitação do LNEC, criado
com a entrada de Portas, após aceitar o convite de Ruy J. Gomes, engenheiro
com sensibilidade arquitectónica que descobriu Portas na leitura do CODA
sobre habitação, anteriormente referido.
Portas comentou, quinze anos depois numa marcante entrevista à revista
Arquitectura, a sua entrada para o LNEC e o olhar desconfiado de outros
arquitectos para esta nova abordagem arquitectónica de investigação: “é-me
dada então no “santuário” dos engenheiros a possibilidade de começar a fazer,
____________________
47| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do
mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.61.
48| Ibidem, p.57.
89
A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71]
em paralelo com a actividade de projecto, uma actividade que chamavamos de
investigação, trabalho que, para muitos colegas não era arquitectura...” 49
Se para a generalidade dos arquitectos portugueses a investigação na
arquitectura cingiu-se a encontrar soluções na prática projectual, Portas teve a
ambição, a necessidade diriamos, de dar o salto para lá do isolamento da
prática de atelier, na tão desejada multidisciplinaridade de conhecimento: ''para
mim havia que utilizar métodos da investigação científica e tentar estabelecer
umas pontes com domínios do conhecimento arquitectónico, quer dizer fora da
disciplina da arquitectura […] o arquitecto não podia mais estar isolado a
inventar a cidade dos outros, como se outros não estivessem, ao mesmo
tempo, a estudá-la, a criticá-la...”
50
Deste modo, a investigação de
“Laboratório” foi o impulso que permitiu a Portas por um lado, superar os
pressupostos anti-racionalistas de Zevi – que marcaram os primeiros anos de
colaboração na revista Arquitectura – e por outro lado, desenvolver questões
que três anos antes expressou no seu CODA [1959], por exemplo, a questão
duma metodologia projectual baseada nos resultados da “investigação
sociológica aplicada ao habitat”.
De facto, Nuno Portas, sem se desprender da arquitectura orgânica,
evoluiu da chave zeviana de crítica ao racionalismo – um debate focalizado na
“forma” e no seu “significado” – para a discussão de questões metodológicas,
na concepção de arquitectura, com um carácter científico. Ou seja, passou da
arquitectura “formal” para uma arquitectura “metodológica ou programática”,
como o fez transparecer no seu primeiro livro, A Arquitectura Para Hoje, editado
em Outubro de 1964 e cinco anos mais tarde no A Cidade como Arquitectura.
Analisemos as diferentes “vias de investigação” que Nuno Portas explorou
neste período que integrou o LNEC, que terminaria com a sua entrada para o
Governo Provisório, como Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo,
após o 25 de Abril de 1974.
Quando Nuno Portas iniciou o seu percurso no LNEC, conjuntamente com
uma pequena equipa, o trabalho de investigação em arquitectura estava
____________________
49| Ibidem, p.57.
50| Ibidem, p.57-58.
91
A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71]
envolto em dúvidas e incertezas quanto às vias a seguir, “como era um trabalho
de tipo novo, mesmo no estrangeiro, havia que procurar várias linhas de
investigação para ver o que davam.” 51 Assim sendo, ao longo deste período de
doze anos vão surgindo “vias” de investigação sequenciais, como tão bem
Portas resumiu: “a seguir às incursões nos campos da sociologia e da
psicologia, das ciências humanas aplicadas ao espaço [via sociológica], e à
busca dos métodos explícitos, dos chamados métodos de design [via
metodológica], havia uma outra ponte a fazer, agora para os lados da economia
urbana e para os lados das políticas tout court. Essa passagem ainda a
tentámos dar a partir do LNEC, quando nos começamos a preocupar pelas
relações entre as políticas urbanas em geral e da habitação em particular e as
formas arquitectónicas. Antes de 74, lembro a abordagem dos sistemas
evolutivos e dos modelos urbanos [via evolutiva]; nos últimos anos o trabalho
sobre o sistema de planeamento e a descentralização.” 52
Sintetizando, a uma primeira “via sociológica” em estreita permutação com
uma outra “via metodológica”, surgiria na confluência das anteriores uma última
“via evolutiva”, no virar para a década de 70.
No início dos anos 60, a experiência em Portugal no domínio da sociologia
aplicada ao habitar era muito reduzida, o trabalho mais relevante cingia-se ao
capítulo do CODA de Nuno Portas que, como referimos, condensou, a partir de
uma extensa bibliografia de diversos autores, as experiências internacionais de
domínio sociológico, e portanto, na continuidade deste conhecimento, como
recordou o investigador, “aconteceu-me que, por contactos que tinha tido, com
homens como Chombart Lauwe ou Imbert e, mais tarde, com Lefebvre ou
Castells, vim a iniciar trabalhos de ponte entre as preocupações dos
arquitectos na concepção espacial da casa, do bairro e as preocupações que
sociológos e psicológos começavam nessa altura a ter sobre a organização do
espaço.” 53
____________________
51| Ibidem, p.58.
52| Ibidem, p.58.
53| Ibidem, p.58.
93
Figura 40| Nuno Portas, Relato Sucinto dos Contactos Estabelecidos por Ocasião do Congresso da U.I.A, Paris, Julho
1965, Lisboa, Outubro 1965
A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71]
A primária “via sociológica” de investigação veio então colmatar a
ausência de estudos nesta área em Portugal e pautou-se por um intenso
trabalho de campo, com um “Inquérito-Piloto sobre Necessidades Familiares
em Matéria de Habitação”
54
realizado em 1963, nos bairros de habitação
social, de Alvalade em Lisboa e no Plano das Ilhas no Porto. O objectivo deste
inquérito
experimental consistiu no processamento
do
feedback, das
necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais, do sujeito da habitação: a
família – através de métodos inovadores e progressivos, de análise ao modo
de vida dos habitantes – para posterior integração dos resultados e conclusões,
no processo da prática arquitectónica de habitação social, no que designamos
de “via metodológica”.
Contudo, perante a incerteza destas linhas de investigação, os estudos
realizados ou em curso na Divisão de Construção e Habitação, foram
confrontados em Paris por “Ocasião do Congresso da U.I.A. Julho 1965”, por
iniciativa pessoal de Nuno Portas, com outros organismos e personalidades –
onde se inseriam Lauwe e Imbert – que desenvolviam trabalhos similares nos
seus países, com o objectivo de perceber o grau de desenvolvimento dos
trabalhos estrangeiros e de assegurar futuros contactos e trocas de dados. De
salientar este constante contacto que Portas estabeleceu, através das suas
iniciativas e viagens, com o conhecimento de vanguarda desenvolvido na
Europa e, como veremos, também na América Latina, essencial para o
desenvolvimento da investigação da arquitectura em Portugal.
Nas páginas do relato do Congresso ao LNEC, Portas conclui que o
trabalho desenvolvido, neste período inicial tinha acertado nas vias seguidas:
“desta série de contactos pode tirar-se como conclusões para o trabalho […]
que se confirma a pertinência do programa estabelecido pelo LNEC seguindo a
dupla via: inquiração das necessidades humanas e preparação de métodos e
instrumentos que permitam integrar a crescente informação disponível num
processo mais objectivo de concepção de projectos.”
55
No entanto, se a “via
____________________
54| Além de Nuno Portas, de referir a equipa na elaboração deste inquérito: os sociológos Adérito Sedas Nunes e
J.C.Ferreira de Almeida [questionário e trabalho de campo] e a arquitecta Luz Valente Pereira [no tratamento de dados
ulterior]. Do Inquérito-piloto resultaram o Relatório I [Setembro 1963] e o Relatório II [Setembro 1967].
55| PORTAS, Nuno – Relato Sucinto dos Contactos Estabelecidos por Ocasião do Congresso da U.I.A, Paris, Julho
1965. 1965. p.9.
95
A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71]
sociológica” estava já bastante desenvolvida e fundamentada, dado que
“encontra já apoio sólido em múltiplos estudos concluídos e criticados em
países onde contam já bastante anos de trabalho, o segundo campo encontrase em fase inicial nas diversas instituições de investigação de que obtivemos
informação.” 56
De referir que, nos anos 50 e 60, surgiram na Europa, vários autores e
instituições com preocupações de desenvolver “métodos sistemáticos de
projecto” [design methods], de modo a conceder aos arquitectos maior controlo
sobre o processo criativo e de concepção na arquitectura e no desenho urbano.
Ainda no Congresso de 1965 em Paris, Portas reuniu-se para trocar
impressões sobre este tema com A.G.Atkinson [Building Research Station,
Londres], que “iniciou um estudo sobre o “design process” baseado nas
análises sistemáticas de programa iniciadas com a tese de C. Alexander 57
[Harvard 1964] cujos princípios têm apoiado o estudo de racionalização de
soluções do fogo iniciado na Divisão Construção e Habitação.” 58 A investigação
no LNEC, em meados de 60, enveredava então pela via da conexão entre a
arquitectura e outro mundo, “o das actividades racionais e da análise empírica,
que utilizavam formas lógicas explícitas: como a engenharia, a teoria de
sistemas, e da tomada de decisão e onde as preocupações de metodologia
eram dominantes.” 59
A “via metodológica” recebeu o trabalho de Christopher Alexander
desenvolvido em Harvard, mas sobretudo de destacar o influente papel da
interacção com a Escola de Cambridge, que Portas recordou nas primeiras
páginas de “Leslie Martin e a Escola de Cambridge” 60, décadas mais tarde. No
prefácio do livro de Mário Kruger, Portas resumiu o cenário que se viveu nos
anos sessenta – entre a investigação arquitectónica e a influência desta na
____________________
56| Ibidem, p.9.
57| A tese referida intitula-se Notes on the Synthesis of a Form [1964]. Christopher Alexander [1936-], publicou outros
ensaios de onde destacamos: City is not a Tree [1965] e A Pattern Language [1977].
58| Ibidem, p.9.
59| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do
mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.58.
60| Título da Prova de Agregação em Arquitectura, do arquitecto Mário Kruger pela Faculdade de Ciências e Tecnologia
da Universidade de Coimbra. Refira-se que Mário Krüger [1945-] realizou o PhD na Escola de Cambridge impulsionado
por Nuno Portas.
97
Figura 41| Leslie Martin e Lionel March, The Grid as Generator, Cambridge
A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71]
prática do atelier – e prestou a homenagem à Escola e a Leslie Martin que
“conseguiu reunir um grupo de jovens docentes dedicados à investigação que
produziram verdadeira inovação nos métodos e nas soluções dos problemas
urbanos e arquitectónicos, alargando e aprofundando a racionalidade de que o
modernismo reclamava – abrindo então as janelas da teoria aos domínios da
lógica e da matemática, da biofísica e das ciências humanas.” 61
Nuno Portas foi então o responsável, pela introdução da “escola
martiniana” no contexto português, reflectida nas linhas de investigação no
Departamento de Construção e Habitação do LNEC e caracterizado “pelo uso
da lógica e da computação na geração de tipos de organização espacial,
depois ampliadas para os modelos urbanos […] e implementados, por nós,
para a cidade de Lisboa, só possível de serem concretizados com os
instrumentos informáticos já disponíveis na época.” 62
No entanto, o que nos importa sublinhar, foi a preponderância que o
trabalho de Leslie Martin e seus discípulos, tiveram na prática arquitectónica de
Nuno Portas e consequentemente do atelier da Rua da Alegria. Recordemos
que no início dos anos 60, o atelier procurou uma linguagem arquitectónica que
conseguisse superar os princípios modernistas, na ligação com a história e
com as pessoas. Portas recordou o impacto da sua visita “ao projecto do Caius
College, em Cambridge, pela organização do edifício no sítio, em que Martin se
liberta dos “moldes” Corbusianos, tão presentes em Roehampton, para se
juntar à pesquisa de Aalto, maduro na relação empática, mas não mimética
com o contexto histórico e urbano, como na complexidade de espaços internos
e de transição para o exterior e tendo como referente a visão dos modos de
vida dos futuros utentes.” 63
Temas explorados nas primeiras obras, mas principalmente na Igreja do
Sagrado Coração de Jesus, obra de transição do atelier da Rua da Alegria para
uma arquitectura de dimensão urbana, num projecto inserido num quarteirão da
cidade construída, como referimos, questão que Leslie Martin evidenciou “no
____________________
61| PORTAS, Nuno – Prefácio. In: Leslie Martin e a Escola de Cambridge. 2005. p.11.
62| Ibidem, p.13.
63| Ibidem, p.12.
99
A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71]
seu ensaio seminal “The Grid as Generator”, e que hoje parece tão óbvio mas
na época tão provocativo, ou seja, de como a cidade se organizava e devia
continuar a organizar-se espacialmente, a partir dos traçados da malha de
suporte enquanto seu elemento mais perene e não como resultante de volumes
edificados, mas sensíveis aos momentos das decisões, dos processos ou dos
gostos.” 64
Ora foi precisamente a valorização e organização da cidade, a importância
consentida ao espaço público e aos valores das tipologias urbanas da cidade
tradicional – a rua, a praça, o quarteirão – que centrou as atenções no atelier
da Rua Alegria, em finais dos anos 70, depois do ensaio dos Olivais. Não foi,
certamente, por acaso o facto de Nuno Portas ter regressado à actividade de
atelier mais constantemente, após um período de focalização quase exclusiva
na investigação crítica dos modelos de habitação e formas urbanas
desenvolvida no âmbito do LNEC, como referimos. E se neste período Portas
ainda se encontrava a desenvolver investigação, houve contudo a oportunidade
de passar novamente à prática através de dois projectos: o Centro de Compras
de São Sebastião [1968-70] e o Plano de Pormenor do Restelo [1970-75], que
constituíram os últimos projectos de análise no capítulo III.
Em 1968, o projecto-estudo para o não construído Centro de Compras
de São Sebastião, constituiu o primeiro complexo de centro comercial
concebido para Lisboa. Foi um edifício de escala e programa inovadores, onde
se articulavam diferentes níveis de circulação: pedonal, rodoviário e de
metropolitano e onde as galerias comerciais se organizavam em vários planos,
criando novas formas de viver o espaço urbano, à imagem dum projecto
anterior, o Edifício de Comércio e Escritórios “Franjinhas” [1965-1969],
desenvolvido por Nuno Teotónio Pereira e João Braula Reis.
No entanto, o projecto emblemático do atelier, no repensar da cidade
tradicional em termos contemporâneos, revela-se no Plano de Pormenor do
Restelo, encomendado pela Câmara Municipal de Lisboa. A intervenção na
cidade consolidada, onde imperavam os blocos modernos e as torres de uma
____________________
64| Ibidem, p.12.
101
A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71]
elevada densidade habitacional, seria questionada e contrariada através do
traçado da malha ortogonal, retomando a rua, o quarteirão e a praça, como
matriz do desenho urbano, depois da hegemonia anterior da Carta de Atenas.
E foi também aqui, no ‘plano da arquitectura urbana’, que Portas recordou
a influência de Leslie Martin e os seus estudos sistemáticos de ocupação do
solo e de novas tipologias que levaria a uma passagem da construção em
altura para uma construção em perímetro: “também aqui fiquei a dever a estas
revelações os princípios do plano de pormenor do Restelo [69-71] que
justificava, apoiado nos relatórios – working papers – de Cambridge, a
possibilidade de competir em densidade de uso do solo com as recém
construídas “Torres do Restelo”, sem ultrapassar os 3 a 5 pisos, simplesmente
explorando a ocupação perimetral e não o miolo das quadras definidas pelas
ruas.” 65
Recapitulando, com o decorrer dos anos 60, o pensamento de Portas
evolui de um patamar doméstico para um patamar urbanístico, como
evidenciaremos no capítulo III com o aumento gradual da escala das obras
analisadas, e que culminaria com o Plano de Pormenor do Restelo, no início
dos anos 70. Se no princípio Portas incidiu a sua pesquisa na linguagem
arquitectónica, numa escala mais modesta – o edifício como objecto – uma
década mais tarde, as baterias estariam apontadas para uma escala mais
abrangente – a cidade como território – reflexo dos anos de investigação no
LNEC mas também da sua experiência pedagógica na Escola Superior de
Belas-Artes de Lisboa.
____________________
65| Ibidem, p.1.
103
Figura 42| Nuno Portas, Arquitectura para Hoje, 1ª edição, 1964
Figura 43| Nuno Portas, Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal,
2ª edição, 2008
Da A Arquitectura para Hoje para A Cidade como Arquitectura
Acerca da passagem de Nuno Portas pela Escola de Lisboa, e do trabalho
que desenvolveu ao nível da didáctica em arquitectura, há a explorar a
evolução denunciada no parágrafo anterior, explícita nos seus dois livros A
Arquitectura para Hoje [1964] e no A Cidade como Arquitectura [1969].
O livro A Arquitectura para Hoje, resultado de uma prova académica no
âmbito da ESBAL, surgiu como uma revisão da matéria dada por parte de
Portas até 1964, “numa época de encruzilhadas”, como lhe chamou no prólogo,
com temas que ao longo deste capítulo tomamos como referências. O autor
referiu-se a uma “sociedade em mutação” e onde era necessário, apesar de
perigoso, “tomar a realidade como instância da génese arquitectónica”
66
,
defendendo a urgência de incutir princípios metodológicos e científicos de
concepção na arquitectura, a partir do ensino da disciplina nas Escolas, mas
também enquanto estrutura de todo o pensamento interno da arquitectura.
Ora são estas as ideias que importam ressaltar, expressas nos últimos
capítulos do livro, relativos à “integração metodológica” e às “contribuições para
o ensino”, que concorriam para o objectivo principal de uma arquitectura como
reflexo da sociedade onde se inseria: “a insistência com que se fala num
método conceptual adequado não se justifica pela intenção de que venha a
fundamentar um esforço de progresso na pedagogia mas, antes ainda, de
fundamentar o lugar da própria produção de Arquitectura na sociedade que se
racionaliza.” 67
No entanto, Nuno Portas não deixou de sublinhar o sentido metodológico
que incutiu no ensino, que simultaneamente desenvolvia no LNEC, não tanto
empenhado em transmitir “formalários” – no sentido de uma colecção de
formas – mas métodos e instrumentos [design methods] para que os alunos
constituíssem ’motores’ e não ‘atrelados’ numa escola enquanto “lugar de
transmissão do melhor que sabemos mas também, desde logo, um lugar em
que didáctica e investigação se confundem, ou, por outras palavras, na qual a
didáctica da arquitectura é criadora, responsabilizando-se não apenas em
____________________
66| PORTAS, Nuno – A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em portugal. 2008. p.12.
67| Ibidem, p.101.
105
Figura 44| Nuno Portas, A Cidade como Arquitectura, 1ª edição, 1969
Figura 45| Nuno Portas, A Cidade como Arquitectura, 3ª edição, 2007
Da A Arquitectura para Hoje para A Cidade como Arquitectura
reflectir o melhor nível existente mas em acrescentar possibilidades ao futuro
exercício da profissão.” 68
Recordemos que a reforma do ensino em arquitectura nas Escolas
Superiores de Belas Artes de Lisboa e Porto69 que ocorreu na década de 60,
rompeu com o modelo de ensino centralizado na figura de mestre-arquitecto,
para um modelo caracterizado por uma atitude fundamental de interrelacionar
investigação com a prática profissional, e onde os estudos universitários tinham
um papel de dinamizador desta ligação, algo que a escola da Bauhaus já tinha
ensaiado e que neste período a Escola de Cambridge e Leslie Martin estavam
a desenvolver e dinamizar, como ressaltou Portas no prefácio sobre a escola
inglesa.
Por sua vez, o livro publicado em 1969, A Cidade como Arquitectura, no
âmbito de uma prova académica para a ESBAL, traduziu o evoluir da pesquisa
de Nuno Portas das metodologias de projecto [design methods], expressa no
livro anterior, para a pesquisa de uma arquitectura com a dimensão urbanística
[town-design], dado que para o autor, “sob o ponto de vista da arquitectura
urbana não pode haver edifício que não faça cidade ou seja, não há tipologia
que não esteja, por estrutura, penetrada por uma morfologia urbana.” 70
Para Portas tornara-se evidente, que tal como o somatório dos vários
componentes de um edifício não constituíam um edifício significativo, também a
soma de vários componentes da cidade – edifícios, estradas, parques – não
constituiriam uma cidade com carácter, alertando para a urgência de um
“estudo interdisciplinar sobre os conteúdos da cidade, devassando a evolução
das relações entre funções e entre estas e o meio territorial para as diversas
estruturas actuantes na cidade”
71
e ao encontro do imprescindível
planeamento territorial de índole política, inexistente em Portugal.
____________________
68| Ibidem, p.109.
69| Nuno Portas escreveu vários textos sobre o ensino, inclusive sobre a passagem pelas Escolas de Porto e Lisboa,
nos quais explorou as reformas que ambicionou fomentar na didáctica de arquitectura. Os textos foram compilados no
livro Arquitectura[s], História e Crítica, Ensino e Profissão, no capítulo Na Formação. p.353-444.
70| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura. 2007. p.15.
71| Ibidem, p.22.
107
Da A Arquitectura para Hoje para A Cidade como Arquitectura
Portas refere então o conceito de meta-projecto, enquanto solução para
interligar e estruturar todas as componentes que constituem a cidade: “o metaprojecto conterá, numa descida ao essencial, à estrutura das coisas, um metaprograma de funções [isto é, também não restringido a um local ou uma data
de execução] e uma meta-linguagem arquitectural [isto é, um reportório de
signos combinatórios e permutatórios, segundo uma sintaxe restrita mas
geradora de muitas relações novas possíveis a criar ao nível semântico, como
a língua o assegura antes das literaturas que sobre ela se criam].”
72
Para
Jorge Figueira os conceitos que Portas enunciou: “significam a formulação do
problema arquitectónico com todas as variantes colocadas em jogo, sem
resíduos formalistas, entendendo que, se a equação for bem formulada”, onde
a cidade era o denominador comum, “o resultado será o mais correcto.” 73
O ensino académico seria então o motor da criação desta metalinguagem, que facilitaria a relação dos vários intervenientes na cidade –
arquitectos, engenheiros, urbanistas – enquanto obra colectiva que se
ambicionava. No entanto, a implantação desta língua comum não se
pressupunha uma tarefa simplista e facilitista, antes pelo contrário, exigia “um
esforço de qualificação da língua – ou seja de adequação entre os tipos de
ambiente e as formas de uso – que permita institucionalizar uma sintaxe e uma
semântica, escrever uma prosa civicamente qualificada no decorrer da qual
surjam, como uma pontuação e um desafio, “palavras” ricas de conotações.” 74
Neste sentido, Portas apontava então para uma “etapa semiológica do
ensino que se abre agora, integrando os progressos tecnológicos no
refundamentar de um vocabulário [semiologia arquitectónica] e de um linguajar
[semântica arquitectónica] que sejam efectivamente domínio comum dos que
arquitectam e dos outros – que habitam significativamente” 75, ou seja, o ensino
seria o primeiro passo para a institucionalização de um código comum, com
variantes particulares que por si só não fariam sentido mas apenas quando
____________________
72| Ibidem, p.49.
73| FERREIRA, Jorge Manuel Figueira – A Periferia Perfeita: Pós-Modernidade na Arquitectura Portuguesa, Anos 60Anos 80. 2009. p.86.
74| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura. 2007. p.192.
75| Ibidem, p.193.
109
Figura 46| Nuno Portas, A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em portugal.
Experiências de Didáctica
Figura 47| Nuno Portas, A Cidade como Arquitectura.
Métodos Sistemáticos e Meta-Projectos
Da A Arquitectura para Hoje para A Cidade como Arquitectura
conjugadas entre si, produziriam um novo arquitectar, mais próximo da
realidade que o rodeava.
A Arquitectura para Hoje, essencialmente, aspirou a ser o gérmen do
caminho, no que o autor definia como uma “nova fronteira”, da renovação do
conceito de arquitectura, a partir dos princípios metodológicos propostos que
concediam aos arquitectos instrumentos para “saber que arquitectura vale a
pena fazer” 76, numa realidade cada vez mais complexa de servir.
Realidade que Portas encarou em A Cidade como Arquitectura numa
escala mais ampla, na cidade enquanto território, apontando como caminho “a
consciência de uma língua comum que assegure coerentes estruturas de
signos, ou uma base de sintaxe arquitectural”
77
, ficando evidente que o
importante para Nuno Portas era o “processo”. Para Jorge Figueira, esta
abordagem de Portas constituiu uma démarche de inspiração “estruturalista”,
“então em voga, e visa encontrar aquilo que é decisivo no interior daquilo que é
aparente, fixar uma estrutura que possa ser conhecida, dominada e
comunicada”
78
, em que a cidade era o ponto de encontro multidisciplinar
[sociológico, arquitectónico, urbanístico, político...].
E depois deste [extenso] parêntesis nas vias investigação de Portas no
LNEC, para abordarmos a pedagogia na Escola de Lisboa, os seus dois livros
seminais e as obras do epílogo na partipação de Portas no atelier da Rua da
Alegria, resta-nos finalizar este percurso pelas várias vertentes de Nuno Portas,
com a última fase de investigação durante os anos 70, que culiminaria com a
entrada do investigador no Governo Provisório, pós 25 de Abril de 1974.
____________________
76| PORTAS, Nuno – A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em portugal. 2008. p.17.
77| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura. 2007. p.32.
78| FERREIRA, Jorge Manuel Figueira – A Periferia Perfeita: Pós-Modernidade na Arquitectura Portuguesa, Anos 60Anos 80. 2009. p.91.
111
Figura 48| Nuno Portas, Desenho e Apropriação do Espaço da Habitação, 1968
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
Retomando a investigação no Departamento de Arquitectura e Urbanismo,
os resultados obtidos até então pelas vias “sociológica” e “metodológica” foram
transmitidos, no Outubro de 1967 em Estocolmo, numa comunicação intitulada
“Desenho e Apropriação do Espaço da Habitação”, apresentada por Nuno
Portas, representante português do LNEC, à reunião da Comissão W45 do
C.I.B..79 O texto era a síntese do Relatório II do Inquérito-piloto,80 que
mencionamos anteriormente, sobre o modo de apropriação do espaço da
habitação por parte das famílias, apresentado em quadros na forma de planta
de habitação.
A comunicação vinha na continuidade do trabalho anterior: “Definição e
evolução das normas da habitação”
81
, de Nuno Portas, em 1966, onde se
retiraram como mais importantes conclusões, tendo em vista os modelos
organizativos da habitação: a modificação do papel da mulher e dos jovens, a
intensificação e diversificação da vida familiar no lar e a procura de novas
formas de equilíbrio entre a privacidade e a vida de relação dos grupos, no
interior da família, mas também à escala da vizinhança.
Por outro lado, Portas denunciava os problemas metodológicos no
domínio da investigação na habitação social, onde ressaltamos uma das
alíneas que apontava como possível saída a “via evolutiva”: “a necessidade de
tipificação dos comportamentos como base para uma tipologia urbana”, que
originariam “hipóteses e vias de diversificação, afirmação e criação pessoal ou
de grupos, que possam a vir orientar uma arquitectura “aberta” futura.” 82
____________________
79| Conseil International du Batiment [CIB, Paris]. A Comissão W 45 fora criada pelo CIB para investigação
multidisciplinar no sector da habitação social. A comunicação foi publicada em Portugal na revista Arquitectura 103,
Jun. 1968, p.124-128.
80| Ver: Capítulo 2. A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas, p.95.
81| Trabalho exposto no colóquio do Habitat da UIA, Bucareste [1966], onde o delegado português foi Nuno Teotónio
Pereira, acompanhado de Nuno Portas, e publicado internacionalmente no Cahiers do CSTB 86, Jun. 1967, Paris.
Outro estudo a assinalar do mesmo ano: Racionalização de Soluções de Habitação, de Nuno Portas e Alexandre Alves
Costa. Os objectivos do estudo passavam pela racionalização e sistematização de projectos habitacionais, na
produção de uma série tipológica que optimizasse as relações espaciais de utilização. Na base do estudo estavam os
métodos de sistematização matemática e computorizada, influenciados pelas premissas analíticas desenvolvidas por
Christopher Alexander.
82| PORTAS, Nuno – Desenho e Apropriação do Espaço Urbano. Arquitectura 103. Jun. 1968. p.124.
113
Figura 49| Nuno Portas, Funções e Exigências de Áreas de Habitação, LNEC, 1969
Figura 50| Tabela de Áreas Úteis,
Funções e Exigências de Áreas de Habitação, LNEC, 1969
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
Nuno Portas terminava a comunicação de 1967, afirmando a necessidade
da continuação “dos esforços para o aperfeiçoamento dos métodos em estreita
ligação com a discussão dos estudos psico-sociológicos, e assim, tentar lançarse algumas pontes que permitam verdadeiras relações estruturais entre o
sistema dos comportamentos e o sistema dos espaços imaginados e
construídos.” 83
O resultado do esforço para uma investigação em contínua reformulação,
foi cristalizado com a publicação do caderno Funções e Exigências de Áreas de
Habitação, pelo LNEC em 1969. O dossier resumiu a meia dúzia de anos de
inquéritos e estudos, até então realizados – confrontados com estudos
estrangeiros – e condensou a experiência acumulada no âmbito da concepção
de habitação, e em particular a de finalidade social.
A análise monográfica foi orientada sobre 16 funções ou actividades 84
exercidas pelo agregado familiar, que permitiriam perceber através da
descrição de cada uma das acções no espaço habitável, as exigências de
funcionamento antropométrico articuladas com o equipamento móvel e fixo
existente. A metodologia adoptada procurou, assim, um feedback das famílias
fundamental para estabelecer um conjunto de medidas e áreas, consideradas
como os níveis mínimos de habitabilidade, traduzidas numa tabela de áreas
úteis, essencial para a definição das ausentes e urgentes políticas da
habitação.
No entanto, estes níveis mínimos eram apenas aceitáveis para um
determinado estádio de evolução – dada a mutabilidade económica e cultural,
procedente da mobilidade social –, motivo pelo qual o estudo “procurou os
pontos de mais provável incidência do processo evolutivo nas características e
exigências de qualidade da casa.” 85 A evolução da vida quotidiana das famílias
no espaço habitável, juntamente com os factores de custo económico e
____________________
83| Ibidem, p.128.
84| As actividades e funções foram denominadas como: [1] Dormir; [2] Alimentação-preparação; [3] e [4] Alimentaçãorefeições; [5] e [6] Estar – Reunião e Recepção; [7] Actividades Particulares – Recreio; [8] [9] Actividades particulares –
de estudo ou de outro trabalho; [10] [11] [12] Tratamento de roupa; [13] Higiene; [14] Permanência em Exterior; [15]
Separação – Comunicação de zonas; e [16] Arrumos interiores. PORTAS, Nuno – Funções e Exigências de Áreas de
Habitação. 1969. p.18.
85| PORTAS, Nuno – Funções e Exigências de Áreas de Habitação. 1969. p.1.
115
Figura 51| Francisco Silva Dias e Nuno Portas, Habitação Evolutiva, 1970
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
políticos, demonstrava, então, a necessidade de uma habitação de carácter
evolutivo.
Para Portas, anos mais tarde, quando confrontado a recordar as vias de
investigação no LNEC, um dos problemas daquele período [e continua a sê-lo
contemporaneamente] é o facto de a arquitectura não se submeter a um
“feedback cuidadoso” com a sociedade e vice-versa, no entanto, ressaltava: “se
não há a possibilidade de saber como os nossos edifícios vão ser usados,
devíamos voltar à lição da arquitectura vernacular e considerar que a habitação
é evolutiva. Mas sobre o evolutivo também, convém que nos ponhamos de
acordo, porque envolve opções de tipologia da edificação e sobre os graus de
liberdade que se deixam à evolução – à “obra mais ou menos aberta”...” 86
Nesta linha surgiu o relatório “Habitação Evolutiva”, em 1970, por Nuno
Portas e Francisco Silva Dias, que neste período desenvolviam as questões
relacionadas com formas evolutivas na habitação em agrupamentos de
carácter urbano. O estudo foi transmitido, no referido, “Colóquio sobre Política
da Habitação”, de 1969, organizado por Portas e Silva Dias, no LNEC: “fizemos
um relatório-base que foi muito explorado pelos jornais para atacar a política do
Governo, e o Laboratório aguentou esse impacte político. Desse trabalho saiu o
relatório da habitação evolutiva que foi publicado na revista Arquitectura, e que
foi depois divulgado a todas as equipas que depois do 25 de Abril trabalharam
no SAAL, com um sucesso relativo.”
87
Abordaremos de seguida o relatório-
base.
Antes importa referir que, as questões relacionadas com o carácter de
habitação evolutiva, são inerentes ao ethos dos anos 60. Um pouco por todo o
Mundo, mas sobretudo na América Latina e no Norte de África, debatiam-se as
experiências do “Housing” para o problema da escassez de alojamento, dada a
afluência desmedida de habitantes para as cidades emergentes. Na tentativa
de resolver o problema da construção clandestina – bairros de lata, favelas…–
emergem então, soluções baseadas na construção popular mas executadas
pelas autoridades administrativas, as denominadas experiências de auto____________________
86| PORTAS, Nuno – O Processo também Desenha. Arquitectura e Vida 51. Jul./Ago. 2004. p.35.
87| Ibidem, p.35-36.
117
Figura 52| Processo de autoconstrução de bairros periféricos, Lima, Peru
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
construção assistida.88
Neste processo de desenvolvimento de práticas habitacionais de carácter
informal destacaram-se duas personagens: Jonh Turner, que neste período
vivia em Lima [Peru], na assistência à auto-construção de barriadas e pueblos
jóvenes, e Carlos Nelson dos Santos, na reabilitação de favelas no Rio de
Janeiro [Brasil]. O trabalho e a teoria desenvolvida por ambos, acabaria por
influenciar o discurso de Nuno Portas, enquanto Secretário de Estado da
Habitação e Urbanismo, consequência do contacto directo com ambas as
personagens, na ponte entre a América Latina e Portugal que Portas
concretizou.
Nuno Portas relembrou o primeiro contacto que teve com a América do
Sul, aquando do concurso Previ Lima, no Peru, entre 1967-78: “fui para
acompanhar esse concurso que acabou por ser um fiasco para as Nações
Unidas. É aí que apanho o “banho” do urbanismo do Terceiro Mundo, pois é
diferente pensar as coisas para esses países ou para as sociais-democratas
europeias. Ainda hoje mostro nas minhas aulas projectos desse concurso
montado por gente das Nações Unidas que fui encontrar no Peru, em Lima,
para descobrir soluções alternativas aos pueblos jóvenes, que cá chamaríamos
“bairros clandestinos”. 89 Portas criticava o absurdo do concurso ao convidarem
o “star-system” daquele período: Chistopher Alexander, Vasques de Castro,
James Stirling... e o princípio de cada um propôr uma solução diferente, “o
segundo absurdo é que as Nações Unidas decidiram construir um bocadinho
de cada um. Não voltei lá para ver!” 90
Nuno Portas extraiu, então, in loco as lições de Jonh Turner
91
– seu
mestre em políticas habitacionais e segundo as palavras do Portas: “tornei-me
____________________
88| BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p.44-59.
89| PORTAS, Nuno – O Processo também Desenha. Arquitectura e Vida 51. Jul./Ago. 2004. p.35.
90| Ibidem, p.35.
91| Jonh Turner, desenvolveu uma vasta teorização – entre os quais Freedom to Build [1972] e Housing By People
[1976] – sobre o problema da habitação, “[...] previlegiando sempre a evolução dos conceitos em função das práticas
analisadas e não abdicando nunca da raiz libertária de pensamento. De resto, esse background anarquista foi
certamente determinante para a consignação dos aspectos essenciais da sua obra: a evolução permanente com lições
que se iam retirando das práticas sociais e o inconformismo para com os canônes pré-estabelecidos, que começaria
logo na revolucionária formulação dos problemas a resolver.” Ver: BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e
a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p. 44.
119
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
um paladino dele na península ibérica [...]. Jonh Turner dizia que o que o
Estado deve fazer em termos de habitação não é o que as famílias pobres
sabem e podem fazer por elas, mas é antes o que não podem fazer, ou seja, a
aquisição do solo, a concepção geral, as infra-estruturas, o que é comum, o
que é público, em vez da obsessão de fazer casas, muito arquitectónica com a
casa em si e para todos, que nos países do Terceiro Mundo está acima das
possibilidades do Estado, ao contrário da Europa em que o Estado-Providência
se tornou em Estado-construtor.” 92
No entanto, para Turner os ensinamentos que tinha retirado da análise das
cidades clandestinas do Terceiro Mundo, poderiam ser transpostos para os
países mais desenvolvidos de Estado-Providência. Propunha, então, que a
questão da habitação, não fosse apenas controlada pelas instituições estatais,
mas que se estabelecessem ligações orgânicas com as comunidades na
promoção da habitação, dada a triunfante revelação de autonomia e
capacidade da realização popular, sem a intervenção de governos, como foram
as barriadas. Por outro lado, a questão da habitação estava mais relacionada
com aquilo que oferecia as pessoas do que propriamente o objecto em si, o
que nos transporta para a grande lição extraída de Jonh Turner, e que
seguramente Portas a assimilou, é que as pessoas deveriam contribuir no
processo de concepção e construção das próprias casas, no contexto do seu
bairro, dos seus recursos económicos e locais.93
As teorias de Jonh Turner e as experiências de auto-construção assistida
latino-americanas,
viriam
a
influenciar,
pelo
menos
no
papel,
os
acontecimentos do ano de 1969, que como referimos no capítulo I, constituiu
um ponto de viragem na abordagem das políticas habitacionais, em Portugal.
No documento conclusivo, “Colóquio sobre Política da Habitação, Relato Final”,
do encontro de carácter estatal [MOP] – onde Nuno Portas foi o relator – foram
estabelecidas um conjunto de medidas, consideradas como essenciais para a
resolução dos problemas de habitação, consumando o primeiro passo
consequente, para assegurar o “direito à habitação” aos cidadãos, por parte
____________________
92| PORTAS, Nuno – O Processo também Desenha. Arquitectura e Vida 51. Jul./Ago. 2004. p.36.
93| BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p.47.
121
Figura 53| Francisco Silva Dias e Nuno Portas, Habitação Evolutiva, 1970
Classificação Tipológica das Soluções Evolutivas
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
das entidades estatais.
O governo deveria, então, através de uma “política de habitação”,
proporcionar as condições necessárias para o desenvolvimento de programas
do habitat: no controlo à especulação fundiária, questão central dos problemas
urbanos; na dinamização da habitação, através de fundos públicos, relegando
para outros promotores a construção; na reorganização de todos os serviços e
departamentos estatais de habitação, com a criação do Fundo Fomento
Habitação; e um dos pontos mais relevantes do Relato Final, a ideia da
participação das populações nas decisões do habitat, algo que se verteria, mais
tarde, com o processo SAAL.
Por detrás de todas estas medidas estaria, o relatório-base de Nuno
Portas e Francisco Silva Dias, em torno da “Habitação Evolutiva”. O relatório,
integrado posteriormente com elementos saídos do Colóquio, seria publicado e
divulgado na revista Arquitectura, em 1972, trazendo para a esfera pública o
debate urgente do tema. O relatório transmitia, assim, as possibilidades da
fórmula evolutiva: “a de constituir um sistema, baseado em regras simples de
projecto e execução, capaz de assegurar uma primeira fase de instalação mas
concebido por forma tal que não impeça a evolução quantitativa do ambiente
da casa e dos níveis das áreas, a par e passo com a evolução sócio-cultural
dos habitantes.”
94
Ou seja, consoante as possibilidades económicas e sociais,
a habitação acompanharia o desenvolvimento das comunidades, através das
tipologias de alojamento, também graficamente representadas no estudo. 95
Contudo, a questão evolutiva não permaneceria apenas na habitação mas
seria contaminada para o conceito de “urbanização evolutiva” – a escala de
cidade, que como analisamos, ocupava agora as ideias de Nuno Portas – onde
os equipamentos urbanos acompanhariam este desenrolar, assegurarando a
qualidade urbanística através “da definição de dimensão do ‘lote’ e suas regras
____________________
94| DIAS, Francisco Silva; PORTAS, Nuno – Habitação Evolutiva. Arquitectura 126. Out. 1972. p.100.
95| Em Abril de 1970, foi elaborada uma experiência-piloto de habitação evolutiva – Fogos Evolutivos para a
Autoconstrução – na Quinta do Pombal, por Nuno Portas e Margarida Sousa Lobo no Gabinete Técnico de Habitação
de Lisboa, englobando as ideias do Colóquio. No entanto, nenhum edifício foi construído, constituindo apenas uma
proposta de regulamentação processual e de uso para toda a operação habitacional que se viria a verificar
posteriormente em 1974. Ver: BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de
1974. 2007. p.93-95.
123
Figura 54| Francisco Silva Dias e Nuno Portas, Habitação Evolutiva, 1970
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
de associação – pois assim como prever um lote demasiado reduzido seria
negar a evolução da casa que se pretende, assim também uma ocupação
excessiva do solo com casas, cerceria as possibilidades de evolução de todo o
conjunto para os níveis de equipamento colectivo, áreas livres e disponibilidade
de aparcamento que já o são ou virão a ser exigidos como necessários.” 96
Meses mais tarde, em Dezembro, no Encontro Nacional de Arquitectura
[ENA], e apesar da ausência, Nuno Portas enviou uma importante e incisiva
mensagem, “Arquitectura e Sociedade Portuguesa”
97
, na continuidade das
ideias do Colóquio no LNEC, onde criticava o facto de os arquitectos se
esconderem atrás da débil estrutura política para justificar a sua inércia,
apelando para o carácter social da profissão de arquitecto.
Nuno Portas dava como exemplo a pesquisa que realizava em torno do
habitat evolutivo e apelava as acções mais do que as palavras para resolver o
problema da habitação. No fundo, aplicar a máxima de John Turner, que
afirmava: “Housing as a Verb”, a habitação enquanto verbo, enquanto acções
que promovam o desenvolvimento de uma sociedade melhor. Acções essas
centralizadas no arriscar de soluções que constituissem uma pedrada no
charco, como o tinham feito os CIAM, o Team X, etc... e que no contexto
português, o atelier da Rua da Alegria, de Nuno Teotónio Pereira e Nuno
Portas, havia iniciado no final da década de 50, com uma arquitectura de forte
carácter de inovação, mas sobretudo de cidadania.
____________________
96| DIAS, Francisco Silva; PORTAS, Nuno – Habitação Evolutiva. Arquitectura 126. Out. 1972. p.102.
97| Nas palavras de Nuno Portas: “[…] o campo decisivo onde se decide o destino social da arquitectura é o da
definição de prioridades socio-económicas e logo a seguir o das decisões sobre os programas. É aqui que terá de
começar o nosso plano de abordagem; ora, mesmo que a definição de prioridades entre os diversos sectores exceda
muito a nossa competência disciplinar [não a de cidadãos, naturalmente], a verdade é que a partir do momento em que
põe o problema da concretização dos problemas – estratégia das operações, aglutinação das actividades no espaço,
etc – o arquitecto competente pode dar contribuições decisivas a melhores rendimentos sociais e culturais dos
investimentos. Exemplos: a alternativa de operações de habitat evolutivo aos bairros acabados convencionais é uma
típica proposta cuja viabilidade compete ao arquitecto demonstrar, tomando sobre si os riscos da proposta; mostrar um
conceito de centro direcional pode conduzir à unificação dos transportes regionais e nós privilegiados e indicar pontos
prioritários para a instalação de edifícios até agora dispersos, pondo-os mais à mão da população do subúrbio com o
mesmo ou menor investimento; e mais profundamente saber que a ideia temos do território urbanizado e quais os
processos ou tácticas para chegar a soluções melhores que as que conhecemos, é uma responsabilidade indeclinável
que nos encontra demasiado desprevenidos. Adivinho as objecções a este desafio que me ponho a mim próprio: são
problemas complexos, precisamos de equipas interdisciplinares e de proceder a extensos inquéritos antes de tomar
decisões.” Ver: BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007.
p.87-88.
125
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
Para alterar o rumo de uma Arquitectura estagnada e sem intervenção na
sociedade, Portas propunha, então, por um lado, trazer o debate para o espaço
público, através dos meios de comunicação sociais, a televisão ou revistas
especializadas como a Arquitectura, sobre os caminhos que a arquitectura
tomava. Esta era uma medida há muito defendida por Nuno Portas que, como
analisamos, desde a sua entrada para a revista debatia-se por uma divulgação
e democratização da arquitectura.
Por outro lado, e na continuidade do ponto anterior, Portas afirmava que
este era o momento para que os técnicos competentes presentes no Encontro
– arquitectos, engenheiros, sociológos, juristas... – de assumirem o controlo
nos organismos governamentais. Portas chamava para os arquitectos a
responsabilidade de estabelecerem estratégias e planos para actuarem
eficazmente no campo de intervenção habitacional, através de uma entidade
[que acabaria por ser o Fundo Fomento Habitação] que impulsionasse a
concretização do conjunto de medidas que Portas anunciava e que o Colóquio
anterior, onde foi relator, havia estabelecido. 98
A relevância de referirmos estes acontecimentos de 1969, é que são eles
o esboço das reformulações administrativas que ocorreriam nos vários
sectores, e principalmente no da habitação, após o golpe de Estado que
constituiu o 25 de Abril de 1974.
Chegava, então a oportunidade única do atelier da Rua da Alegria, através
da nomeação de Nuno Portas, para Secretário de Estado da Habitação e
Urbanismo, pôr em prática os pressupostos teóricos e práticos adquiridos ao
longo destes anos de debate, iniciativas e movimentações, que como vimos no
capítulo I, o atelier da Rua da Alegria encetou. E nesta perspectiva, Nuno
Portas viria a ser a mão política, que por tanto, a personagem de Nuno
Teotónio Pereira havia lutado, com o seu carácter reivindicativo, através da sua
militância política ou textos clandestinos de denúncia, da “habitação para o
maior número” e pelo exercíco duma arquitectura comprometida socialmente.
____________________
98| BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p.88-89.
127
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
No período que nos propusemos a analisar [1957-74], esta era a última
etapa, culminando todo o trabalho realizado até então. Nuno Portas
enveredava pela última face do poliedro arquitectónico: a de político. Papel que
o levou a afastar-se de vez do atelier da rua da Alegria, num período atribulado
e de incerteza, que conduziu a suspensão das encomendas e consequente
dissolução do atelier em 1974.
Portas transitava da investigação do LNEC e da colaboração no atelier,
para o I Governo Provisório naturalmente, nomeado pelo ministro Manuel
Rocha, um velho conhecido do LNEC. A parceria era uma continuidade do
trabalho desenvolvido por ambos, na última década, agora posto ao serviço do
país. Estava consumado o passo para se aliarem as culturas arquitectónica,
científica e política. Aliança essa centrada na personagem de Nuno Portas.
Na entrevista, do final da década de 70, Portas refere a aspiração dos
arquitectos ao longo do tempo, de condensar a decisão política e o poder
projectual numa única personagem, referindo-se a actividade tipo “Marquês de
Pombal”, contudo numa escala ambiciosa, que abringiria todo o território
português. Portas criticava a sua classe: “os arquitectos habituaram-se a
pensar que o problema das formas é um problema dos seus ateliers, que se
inventam nos seus estiradores e que a obrigação da política é criar as
condições para fazer uma arquitectura tão livre de condicionamentos materiais
e institucionais que permitam uma expressão tão pessoal quanto os
projectistas a desejam. A minha opinião é que esses dois domínios não se
podem separar, o que, de resto, se liga à minha própria trajectória pessoal dos
últimos anos. Eu julgo que as políticas têm a ver com as arquitecturas que se
fazem, e as arquitecturas que se fazem estão muito ligadas às políticas, ao
próprio sistema administrativo. Uma arquitectura de grande desenho, de
grande intervenção na cidade, com uma enorme unidade formal supõe uma
administração extremamente potente, que disponha de todos os meios, de alto
a baixo, que possa condicionar e quase anular o contexto de tempo e espaço
que se põe numa intervenção desse tipo.” 99
____________________
99| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do
mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.59.
129
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
Foi, então, na ligação entre a arquitectura e a política, que se baseou a
actividade de Portas, na curta passagem de 11 meses pelo Governo. Portas
profundo conhecedor da realidade precária da situação habitacional do país
mas também das reformas que deveriam ser implementadas, que vinha
desenvolvendo e estudando ao longo do seu percurso de investigador,
desdobrou-se na definição de inovadoras políticas para habitação e na
actualização da legislação sobre o urbanismo: “o povo português precisava de
políticas de habitação diferentes, ou de políticas de urbanismo diferentes, mas
também porque essas novas condições, essas novas políticas e as novas
instituições democráticas iriam determinar um caminho diferente para a
arquitectura e para a intervenção urbana, em geral, em Portugal. […] São
essas mesmas preocupações as que me levam a aceitar ir para o Governo e a
propor certas políticas que, na minha opinião, viriam a traduzir-se mais cedo ou
mais tarde, em soluções de arquitectura diferentes daquelas que outras
políticas dariam.”
100
Esta visão precursora, em Portugal, teve um papel central
na estruturação do programa Serviço de Apoio Ambulatório Local – SAAL.
Contudo, mais do que desenvolvermos o que foi o SAAL 101, e as
vicissitudes várias que todo o processo desencandeou, importa referir,
sucintamente, o trabalho de Nuno Portas “na Secretaria de Estado, que foi o de
criar alguns instrumentos institucionais leis e medidas administrativas, que
permitissem uma arquitectura mais próxima das realidades concretas, mais
próxima, portanto, dos problemas e dos meios locais. Uma arquitectura que
faria aí a sua ligação com o contexto urbano e o contexto social e não através
da imposição das minhas ideias arquitectónicas, do mecenato-ditadura de
quem tem o poder político e ao mesmo tempo se considera culturalmente um
iluminado.” 102
Segundo Portas, o Estado deveria regular e apoiar, técnica e
economicamente, as movimentações das populações na vontade de resolução
dos problemas habitacionais, e para isso, defendia a descentralização e
____________________
100| Ibidem, p.59.
101| Remetemos o estudo do processo para a incontornável tese de Doutoramento de José António Bandeirinha, O
processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974.
102| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do
mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.59.
131
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
consequente simplificação dos poderes institucionais, para estarem mais
próximos dos problemas reais das pessoas, espalhando-se por todo o território
português, através de várias brigadas de actuação. No entanto, para Portas
todo o processo deveria desenvolver-se com um carácter experimental, de
várias possibilidades em aberto avaliadas e adaptadas ao longo do tempo, “a
obra aberta”, de que Teotónio Pereira e Nuno Portas eram defensores.
E foi então, criado um Despacho alguns meses após a Revolução, com
três premissas essenciais: “o princípio geral de edificar – para renovar – nas
próprias áreas degradadas em que habitavam os membros da associação de
moradores, retrata o critério de projecto que presidiu à maior parte das
realizações do SAAL, […] de dar preferência aos tipos e escala de edificação
existente, a qual correspondia, também, à preferência natural das populações;
[…] uma segunda particularidade daquele programa prende-se com a sua
própria definição, e que a distinguiu de outras políticas de alojamento do sector
público: o SAAL parte da organização social da procura, organização a que o
Estado
reconhece
personalidade
para
transferir
competências
que,
correntemente, eram detidas apenas pelos orgãos estatais: competências nas
decisões de escolha da localização, na definição do programa e seu
faseamento, na designação e acompanhamento dos técnicos que desenvolvem
os projectos da operação, na atribuição dos encargos financeiros e na
distribuição dos alojamentos. A proposta do SAAL é, assim, a de instaurar um
processo de “cooperação conflitual” entre o Estado e os habitantes, tendo em
conta que nem os segundos estão interessados em que o primeiro se demita
das suas competências fundamentais, nem o primeiro as pode desempenhar a
favor das classes subalternas, sem que estas se organizem para o controlo e
gestão dos empreendimentos que devem responder à suas necessidades.” E
por fim um terceiro princípio: “a procura de adequação da arquitectura ao
contexto social e físico constitui uma terceira particularidade na argumentação
do processo; argumentação metodológica que se quer liberta de preconceitos
de demiurgia formal, para fazer da procura social e da participação dos
moradores material de projecto.” 103
____________________
103| MENDES, Manuel; PORTAS, Nuno – Arquitectura Portuguesa Contemporânea, Anos sessenta – Anos oitenta.
1991. p.46-47.
133
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
Em poucos meses o SAAL, despoletou um número considerável de
projectos, devido a este método de interacção entre populações e estado e
“sem a priori dogmático, sem utopia salvadora recusando a prática do plano
abstracto “científico”, o processo retrata um duplo compromisso: do projecto
social e da arquitectura num projecto social. No concreto da organização
territorial, contribui para fixar os efeitos urbanos e os efeitos políticos dos
movimentos urbanos.” 104
No entanto, o que se pretendia ser o ponto de viragem nas políticas
habitacionais, ficou a meio, coincidindo com a saída de Nuno Portas do
Governo e a ruptura ou má interpretação das ideias, por parte dos ministros
seguintes: “este trabalho ficou a meio – de resto 11 meses no Governo dá para
muito pouco, dá para marcar muito pouco o futuro, sobretudo quando os
sucessores não continuam a mesma via ou a procuram invalidar. Em todo o
caso, os dispositivos legais fundamentais que tivemos que inventar nesse
período de 11 meses ainda subsistem, embora tenham sido postos ao ralenti –
contrariados ou suspensos uns, mal interpretados outros, etc. De qualquer
modo, os regimes fundamentais de produção urbana e de produção
habitacional são os que existem ainda hoje... Essa actividade, portanto, foi
mais uma actividade para reformar ou criar instituições do que uma actividade
directa de valorizar a arquitectura ou certos fins específicos, disciplinares, na
arquitectura ou no urbanismo.” 105
Para Portas esta curta passagem na política, era um trabalho sequencial
da década e meia anterior, que analisamos, e “portanto, a minha preocupação
com as instituições, com todo o sistema de descentralização administrativa, a
criação das regiões, a estruturação dos municípios, todo este trabalho destes
últimos anos, julgo que vai no mesmo sentido das outras preocupações de
sempre: tentar fazer a ponte entre a arquitectura e o contexto em que ela se
move e produz. A mesma coisa que me aconteceu ao tentar saber o modo de
vida das pessoas na década de 50; ou a relação entre a arquitectura e a
____________________
104| Ibidem, p.47.
105| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do
mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.59.
135
A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76]
tecnologia, entre a arquitectura e a racionalidade dos métodos de projecto, nos
anos 60. Essa mesma preocupação hoje é a de relacionar a arquitectura com o
modo como a sociedade política e a administração pública estão organizadas
porque, na minha opinião, essa organização é absolutamente determinante
sobre o mundo das formas em que nos movemos. Quer o aceitemos quer
não.”106
Analisemos, então o mundo das formas que o Atelier de Nuno Teotónio
Pereira construiu ao longo de 17 anos, e onde podemos observar essa
confluência de estudo e aplicação operativa que Nuno Portas foi cultivando
entre as décadas de 50 e 70. Deste modo tentaremos comprovar a relação
entre teoria e prática no percurso de Portas, tema central desta dissertação de
Mestrado.
____________________
106| Ibidem, p.59.
137
Capítulo III
Obras
Obras
No início do capítulo II, abordamos o método projectual do atelier da Rua
da Alegria. Referimos um Atelier a “várias vozes”, em torno do mestre Nuno
Teotónio Pereira, “que desenhava só de longe em longe mas orientava muito
sobre a marcha” 1, e de como a entrada “fogosa” de Nuno Portas constituiu o
virar da página na prática arquitectónica do Atelier, num “compromisso realista
construtivo e reformista – nem conformista nem vanguardista –, espécie de
aggiornamento da modernidade.” 2
Ao iniciarmos o terceiro capítulo, importa referir as influências que os
vários colaboradores transportaram para os estiradores do Atelier e que Portas
tão bem sintetizou no “testemunho, também pessoal” 3, sobre a sua passagem
pelo Atelier.
____________________
1| PORTAS, Nuno – Sobre o Método e os Significados no Atelier Nuno Teotónio Pereira/Nuno Portas. In:
Arquitectura[s], Teoria e Desenho, Invetigação e Projecto. 2005. p.233.
2| PORTAS, Nuno – Atelier Nuno Teotónio Pereira. Um testemunho, também pessoal. In: Arquitectura e Cidadania –
Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.52.
3| Ibidem, p.51-57.
141
Obras
Nuno
Portas
sublinhou
“colaboradores que se
o
aspecto
de
um
tomavam também como
atelier formado
por
críticos ou teóricos
multifacetados [orgânicos, contextualistas, estruturalistas, neo-realistas ou
regionalistas...],”
4
e de como essa múltipla influência, se não criava rupturas,
“acrescentava complicação, não tanto nas intenções programáticas, mas,
sobretudo, nas tensões que se reflectiam na linguagem dos espaços”, e de
como “não prescindíamos do método dito “funcional” [sempre presente na
pedagogia de NTP], removíamos sucessivamente e sem complexos os
axiomas e figurinos estéticos que, em nome da funcionalidade e da novidade,
a vulgata modernista tinha entretanto cristalizado.” 5
No entanto, este processo renovador da linguagem arquitectónica, que
poucos o faziam em Portugal, mas que para o atelier da Rua da Alegria era
urgente fazer, não era pioneiro na Europa e “estava também na forja nos
países mediterrânicos e nórdicos que nesses anos visitavámos e discutíamos.
Percorremos os bairros sociais e as igrejas [as encomendas mais frequentes
no atelier] em Espanha, Itália, Escandinávia; conhecemos Oiza, Coderch,
Bohigas, Moneo, Scarpa, Gregotti e Rossi; Martin, Aalto, sem esquecer
Asplund; e, por cá, interessava-nos a obra de Keil, Godinho, Távora, Tainha e
entusiasmava-nos o que faziam o Siza, o Víctor Figueiredo e outros parentes
próximos.”
6
Autores que Portas dedicou muitos dos artigos que escreveu na
revista Arquitectura7 e muitas das fichas de trabalho, já mencionadas,
tornando-se profundo conhecedor das suas obras e princípios. O atelier
“juntava as memórias tão díspares como as de F.L.Wright, Raúl Lino, ou
Cassiano, dos autores do Team X […] mas também de mestres obscuros do
vernacular alentejano ou saloio, ou das igrejas-salão e das suas colunas e
nervuras lavradas... sem esquecer os pioneiros do betão.” 8
____________________
4| Ibidem, p.52.
5| Ibidem, p.52.
6| Ibidem, p.52.
7| Nuno Portas escreveu variados artigos sobre as referências mencionadas, entre os quais destacamos: Carlo
Scarpa, Um Arquitecto Moderno em Veneza. Arquitectura 59, Jul. 1957; 3 Obras de Álvaro Siza Vieira. Arquitectura 68,
Jul. 1960; Fernando Távora: 12 Anos de Trabalho Profissional. Arquitectura 71, Jul. 1961; A Obra de José Coderch e
M. Valls Vergés. Arquitectura 73, Dez. 1961; 2 Obras do Arq. Alfredo Viana de Lima. Arquitectura 74, Mar. 1962;
Actualidade de Le Corbusier. Arquitectura 89-90, Dez. 1965.
8| Ibidem, p.53.
143
Obras
Mas não só de arquitectos se faziam as influências, como vimos na
interdisciplinaridade defendida desde o início por Portas: “se o que nos
interessava eram os espaços “internos” como expressão dos modos de vida e
da poética do habitar, recebíamos com ansiedade o crescente interesse das
ciências humanas por essas relações que Heidegger, Bachelard ou LevyStrauss, depois Chombart de Lauwe, Lefebvre ou Barthes explorariam,
mostrando-nos os limites do funcionalismo, a natureza não arbitrária nem
mecânica da conformação dos espaços habitáveis enquanto “linguagem”
estruturada que em especial o Pedro Vieira de Almeida tinha anunciado entre
nós, e o meu primeiro livro prolongava.” 9
Todos os projectos que analisaremos de seguida, permitiram reflectir
sobre os resultados de experiências e programas tão diversos quanto os
respectivos contextos. As obras constituíram uma resposta à crise da
linguagem
modernista
“que
abria
uma
grande
disponibilidade
para
experimentar novos significantes e, com eles, novas significações, tendo como
protagonistas, o espaço interno e o espaço público, por um lado, e a
contextualização ou “integração construtiva”, e não por oposição, do novo e do
existente, por outro.” 10
Vejamos então como se processa essa relação teórico-prática.
____________________
9| Ibidem, p.52-53. Portas referia-se ao Ensaio Sobre o Espaço de Arquitectura de Pedro Vieira de Almeida e ao seu
Arquitectura para Hoje
10| Ibidem, p.53.
145
Figura 55| Plano de Olivais Norte, Lisboa, 1955-1958
Figura 56| Olivais Norte em construção, vistas aéreas parciais
Figura 57| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Torres de Habitação, 1957-1968
Olivais Norte, vista aérea parcial
3.1. Olivais-Norte | Olivais-Sul
Mudanças no paradigma social e urbano
Como referimos o atelier da rua da Alegria teve um papel importante no
desenvolvimento e investigação da habitação social, em Portugal. A
participação nas operações de grande escala que constituíram Olivais-Norte e
Olivais-Sul veio na continuidade da experiência já acumulada de Nuno Teotónio
Pereira, ao longo da década de colaboração na Federação da Caixa de
Previdência, mas também do CODA realizado por Nuno Portas sobre habitação
social. A habitação popular e colectiva constituía, assim, no final dos anos 50,
juntamente com a habitação unifamiliar, o programa de maior interesse e
empenho no atelier.
O plano para Olivais-Norte11 planeado entre 1955 e 1958 – pelo Gabinete
de Estudos de Urbanização [GEU] da Camâra Municipal de Lisboa sob a
liderança de Guimarães Lobato – foi um ensaio de pequena escala, ocupando
uma área de 40 ha, para o que sucederia no vizinho a Sul, no início da década
60. Com a extinção do GEU, e a criação do Gabinete Técnico da Habitação
[GTH], foi projectado Olivais-Sul12 em 1960-61, com 180 ha, através dos
arquitectos Rafael Botelho, Carlos Duarte, António Pinto Freitas, Mário
Bruxelas e Celestino de Castro.
Ambos os bairros foram marcados pelo experimentalismo, consequência
de um processo de revisão arquitectónica que se procedia em Portugal,
influenciado pelas new tows inglesas e por conjuntos habitacionais construídos
na Europa13. Olivais-Norte e Olivais-Sul seriam assim encarados como um
laboratório
de
experiências
urbanísticas,
mas
também
de
tipologias
edificatórias diversas, como referimos no capítulo I.
A operação dos Olivais, segundo Nuno Portas, “ficariam como um curioso
catálogo de tendências que reflectiam respectivamente as preocupações da
geração que se revelava nos primeiros anos 50 ou mesmo no congresso de
____________________
11| Olivais-Norte. Arquitectura 81. Mar. 1964, p.4-28.
12| Olivais-Sul Em Discussão. Arquitectura 127-128. Abr. 1973. p.56-64.
13| Alguns destes conjuntos habitacionais seriam alvo de análise na revista Arquitectura. Ver: Roehampton.
Arquitectura 72. Out. 1961. p.10-22; Conjunto Habitacional Juan XXIIII, Madrid. Arquitectura 97. Junho 1967. p.106-11.
147
Figura 58| Plano de Olivais-Sul, Lisboa, 1960-1961
Figura 59| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Torres e Bandas de Habitação, 1959-1968
Olivais-Sul, vista aérea parcial
Olivais-Norte | Olivais-Sul
1948 [ou seja, a dos arquitectos nascidos cedo, na década de 20] e as dos
discípulos/ colaboradoes nascidos nos anos 30/40 [no Porto, dentro da Escola,
em Lisboa, fora dela].” 14 Recordando que o processo experimental era fruto de
“tais preocupações de programa/ tipologia e de linguagem tinham entrado em
turbulência [no plano interno, o Inquérito à Arquitectura Popular, a mudança de
mãos da revista Arquitectura; e no internacional, as críticas do Team X, E.
Rogers e De Carlo, Coderch... até à pedagogia zeviana e ao [neo]realismo
italiano].” 15
O Plano de Olivais-Norte assumiu a expressão urbana moderna,
caracterizada por uma implantação dispersa dos blocos habitacionais, de
acordo com a ideologia moderna da Carta de Atenas, o que levou Leopoldo de
Almeida na crítica da revista Arquitectura, a afirmar que: “Olivais-Norte constitui
a primeira realização, em Lisboa, dum plano habitacional de envergadura
concebido em moldes verdadeiramente modernos.” 16
Nos Olivais-Norte, a rua tradicional desapareceu – as ruas passaram a
ser designadas como “vias” – e em seu lugar surgiu uma rede circulatória,
baseada na separação entre os caminhos pedestres e as “vias” de tráfego
automóvel. Os blocos habitacionais projectados, de diversas tipologias e
dimensões, por diferentes autores [Braula Reis, Pedro Cid, Fernando Torres,
Pires Martins ou Palma de Melo], eram assim colocados com o princípio da
independência entre si, não formando a continuidade volumétrica habitual nos
arruamentos tradicionais, abdicando de uma geometria sistemática de
organização dos edifícios. O espaço livre envolvente dos blocos constituiu,
então, um logradouro colectivo e arborizado para a população.
Esta vinculação demasiado fiel aos princípios modernos valeu uma crítica:
“poder-se-ia apontar ainda aos Olivais-Norte um excesso de fidelidade a
princípios esquemáticos, excesso que, por ter conduzido a uma neutralidade
dos espaços urbanos, a um esquema circulatório demasiado desvinculado dos
____________________
14| PORTAS, Nuno – A habitação colectiva nos ateliers da Rua da Alegria. Jornal dos Arquitectos 204, Jan./ Fev. 2002.
p.49.
15| Ibidem, p.49.
16| ALMEIDA, Leopoldo de – Olivais-Norte, Nota crítica. Arquitectura 81. Mar. 1964. p.12.
149
Figura 60| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Estudos dos Conjuntos de Habitação, Olivais-Sul
Figura 61| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Planta de Conjunto Torres e Bandas de Habitação, Olivais-Sul
Olivais-Norte | Olivais-Sul
edifícios [...] poderá talvez não ajudar à constituição duma vida comunitária
intensa.” 17
Por sua vez, o bairro de Olivais-Sul, funcionou como uma antítese do seu
congénere a Norte, recusando a ideologia moderna da carta de Atenas e
retomando a rua tradicional, enquanto elemento organizador dos blocos
habitacionais, pela mão de Nuno Portas e Bartolomeu da Costa Cabral.
A mudança conceptual, de clara influência da “via italiana”, ficou marcada pela
“passagem do conceito funcionalista de “unidade de vizinhança” – ainda claro
em Olivais-Norte – para o modelo do tipo cluster, combinando o pátio
agregador e a rua geradora, e optando por blocos unitários de média altura em
detrimento de edifícios mais altos e isolados.”
18
As torres e habitações em
banda surgiam assim articuladas e relacionadas entre si, o que proporcionava
espaços de estar ao ar livre, de maior conforto e com uma escala humana, que
ajudavam a constituição de vida comunitária, ao contrário de Olivais-Norte.
Nuno Portas resumiu todas estas questões, ao recordar as diferenças entre
as duas operações urbanísticas: “se o plano inicial de Olivais-Norte lembrava
um imenso siedlung fora de tempo de blocos paralelos entremeados por torres
– unidade imposta à diversidade – o de Olivais-Sul era já celular [e seria gerido
como tal], facilitando as [divergentes] incursões dos autores dos projectos no
próprio desenho urbano – a diversidade impondo-se à unidade. Em ambos os
planos – apesar das diferenças de cultura urbanística que traduziram –, era
evidente a dissociação entre os elementos estruturantes [vias e verdes/
equipamentos de proximidade] e os edifícios que preenchiam as células
servidas pelos primeiros: o desenho urbano era de matriz modernista,
entendendo a edificação como composição de volumes [plan masse] e o
espaço livre como sobrante ou intersticial. No primeiro, a repetição do tipo ou
do standard era mais evidente; no segundo a mistura de tipos e formas de
agrupamento [o mixed developement de Roehampton] era mesmo encorajada,
prescindindo da disposição helio-orientada ou de qualquer outra geometria
____________________
17| Ibidem, p.13.
18| GRANDE, Nuno; PORTAS, Nuno – Entre a crise e a crítica da cidade moderna – A experiência portuguesa no
contexto internacional. In: Lisboscópio. 2006. p.7.
151
Figura 62| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Estudos, Torre de Habitação, Olivais-Norte
Olivais-Norte | Olivais-Sul
sistemática. As vias eram um dado, com a sua lógica própria [de cinturas
separadoras das células], os espaços ou equipamentos não residenciais
previam-se autónomos e fisicamente separados e os edifícios de habitação
mantinham-se descontínuos.”19
A participação em Olivais Norte, do atelier da Rua da Alegria, devido ao
Plano de urbanização previamente estabelecido pelo GEU, resumiu-se, então,
ao desenvolvimento das tipologias-base, torre e banda, implantadas em
diferentes pontos do bairro. Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira
encarregaram-se da tipologia da torre, enquanto António Pinto Freitas,
desenvolveu as habitações em banda. Esta condicionante valeu um reparo por
parte dos autores visto nem sempre a implantação, das três torres construídas
se revelou a mais adequada, relativamente à adaptação da morfologia do
terreno e ao enquadramento pretendido para as torres. 20
Teotónio Pereira e Portas ensaiaram uma inovadora solução de torre,
onde os focos estiveram centrados na circulação vertical e na organização
interna dos fogos, e onde se denota a influência do estudo que Nuno Portas
realizou para o seu CODA, “A Habitação Social: proposta para a metodologia
da sua arquitectura” e para o projecto prático que acompanhou a Tese –
conjunto habitacional para uma comunidade mineira em São Pedro da Cova.
A torre desenvolvia-se em 8 pisos, com 4 fogos por piso, de tipologias T1,
T2 e T3. O volume do edifício era articulado em 3 volumes, os dois corpos de
habitações mediados por uma caixa central de circulação vertical21, que
funcionava como charneira de ligação. Um dos aspectos mais inovadores foi a
organicidade com que estes 3 volumes foram desenvolvidos, devido à torsão
de um deles, desmaterializando o bloco rígido, conferindo à torre “movimento”
quando observada de pontos de vista diferentes, e revelador de um tratamento
formal cuidado, não habitual em habitação social. 22
____________________
19| PORTAS, Nuno – A habitação colectiva nos ateliers da Rua da Alegria. Jornal dos Arquitectos 204. Jan./ Fev. 2002.
p.49.
20| PORTAS, Nuno – Habitações em Torre em Olivais-Norte. Arquitectura 110. Jul./ Ago. 1969. p.172.
21| Ver: PORTAS, Nuno – A Habitação Social: proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.105-124.
22| O projecto de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas receberia, em 1967, o prémio Valmor, atribuído pela primeira
vez a um edifício de habitação social. Ver: ArchiNews 2, Dez. 2004. p.42.
153
Figura 63| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta Rés do Chão e Terraços, Torre de Habitação, Olivais-Norte
Figura 64| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta Tipo; Corte Parcial, Torre de Habitação, Olivais-Norte
Figura 65| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Cortes; Alçado Poente, Torre de Habitação, Olivais-Norte
Figura 66| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Torre de Habitação, Olivais-Norte
Olivais-Norte | Olivais-Sul
Outra consequência desta inflexão foi o permitir tratar o patim de
distribuição dos fogos de forma inovadora. Os autores ao entenderem que o
convívio social dos moradores estaria condicionado pela verticalidade do
edifício, promoveram a caixa de escadas como ponto de encontro e de estar
dos vizinhos. Nesse intuito trataram esse espaço com dignidade, quer pelo
tratamento artístico da parede de betão, quer pela colocação de bancos que
tinham um relacionamento visual com o exterior. O terraço do último andar, era
a continuidade deste espaço social, com vistas sobre o bairro e o rio, mas
também, aproveitado para colocar estendais e arrecadações particulares. 23
Por outro lado, há uma reformulação do espaço interno de habitacão. 24 A
organização dos fogos, partindo de uma estrutura similar, variavam consoante
a expectativa do modo de vida dos moradores que iriam ocupar cada
habitação, reflexo da sociologia da habitação,25 tão cara a Nuno Portas. As
alterações mais consequentes das habitações projectadas consistiam: na maior
independência entre as partes da casa, através da existência de vestíbulos ou
corredores de distribuição para as várias divisões e na ligação visual e prática
entre a cozinha e a sala, através de um balcão, tendo em vista a possibilidade
da sua utilização não só como passa-pratos mas também como apoio para
refeições. A resultante continuidade espacial era fruto da alteração do papel da
mulher na habitação, fomentando o convívio entre a mulher, que tem um papel
central na habitação, e os restantes elementos da família. Todas estas
intenções constituíram o reflexo dos estudos das décadas de 50 e 60, que
Nuno Portas desenvolveu, primeiro por iniciativa pessoal e posteriormente no
Departamento de Construção e Habitação do LNEC, como referimos.
Se como vimos a actuação de Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira, se
cingiu apenas ao desenho de uma tipologia, em Olivais-Sul, a actuação, de
Nuno Portas, agora com Bartolomeu da Costa Cabral, ficou marcada por uma
intervenção também urbanística com as características que mencionamos: “se
____________________
23| PORTAS, Nuno – Habitações em Torre em Olivais-Norte. Arquitectura 110. Jul./Ago. 1969. p.171.
24| Ver: PORTAS, Nuno – A Habitação Social: proposta para a metodologia da sua arquitectura. p.125-167.
25| Ver: PORTAS, Nuno – A Habitação Social: proposta para a metodologia da sua arquitectura. p.19-35.
155
Figura 67| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Estudo; Plantas, Corte e Alçados Gerais,
Banda de Habitação, Olivais-Sul
Figura 68| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Estudo; Plantas, Corte e Alçados Gerais,
Banda de Habitação, Olivais-Sul
Figura 69| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Estudos; Plantas, Torre de Habitação, Olivais-Sul
Olivais-Norte | Olivais-Sul
a primeira experiência foi mais limitada ao edifício isolado, já na segunda nos
foi permitido imaginar conjuntos com autonomia e dimensões suficientes para
“fazer um bairro”, num grande Bairro feito de bairros, como então se
recomendava.”
26
Portas recordava a surpresa que lhe causou o poder testar
praticamente o que já alguns anos teorizava, como fomos referindo: “para
quem pretendia chegar a uma teoria da habitação social [que pretendia ser
também uma teoria social da habitação] e tinha andado por essa Europa a ver
o que, desde o pós-guerra, de melhor se fazia, a oportunidade de desenhar
casas fazendo com elas um bairro, em Lisboa, era um inesperado desafio.”
27
Também aqui podemos referir o CODA, em que Nuno Portas estudou a
“Concepção da Forma do Agrupamento”
28
, ou seja, modos de associação das
habitações em termos urbanísticos e onde incluiu as experiências das visitas,
entre outras, aos bairros do INA-Casa italiano, como o bairro Triburtino de
Ludovico Quaroni e Mario Ridolfi, em Roma.
Nuno Portas recordava, então, o que lhe marcou nessa experiência
urbanística
e arquitectónica
em
Olivais-Sul.
Uma
primeira impressão
arquitectónica: “se as casas vestiram bem o[s] modo[s] de vida da primeira
geração de habitantes-famílias relativamente numerosas e pobres de origem
rural ou de bairros de lata mas também outras com características mais
urbanas e menos desmunidas – creio que aguentaram menos bem a melhoria
do seu nível de vida e a autonomização dos filhos, apesar das “inovações” que
lhes dirigimos como: a cozinha alargada para comer e trabalho de casa, a
saleta que se podia fechar, um ou dois quartos privilegiados com uma boa
varanda protegida e ligada à cozinha para as crianças, condutas verticais de
lixo e isolamento sonoro dos pavimentos [que nem os ricos o faziam então].”
29
Também em Olivais-Sul havia sido reformulado o espaço interno da habitação,
consonante com um novo modo de vida, que iam sendo acompanhados na “via
sociológica” do LNEC.
____________________
26| PORTAS, Nuno – Olivais: Retrato de um bairro. In: Arquitectura[s] Teoria e Desenho, Investigação e Projecto. 2005.
p.495.
27| Ibidem, p.495.
28| PORTAS, Nuno – A Habitação Social: proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.93-126.
29| PORTAS, Nuno – Olivais: Retrato de um bairro. In: Arquitectura[s] Teoria e Desenho, Investigação e Projecto. 2005.
p.495-496.
157
Figura 70| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Bandas de Habitação, Olivais-Sul
Figura 71| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Bandas de Habitação, Olivais-Sul
Figura 72| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Torre de Habitação, Olivais-Sul
Olivais-Norte | Olivais-Sul
A segunda impressão urbanística: “a tentiva de re-criar “ruas” e
“quarteirões” em Olivais-Sul – imagens tradicionais de sociabilidade ou
vizinhança em espaços comuns protegidos, evitando o contraste excessivo
entre “torres e blocos dispostos livremente no verde” tinha sido imposto em
Olivais-Norte – tinha obviamente muito de retórica “neo-realista” a que também
a passagem do tempo terá reduzido o sentido: a Anna Magnani não está mais
no pátio gesticulando mas no trabalho ou em casa diante da TV e o filho do
ladrão de bicicletas gasta o tempo com algum jogo electrónico.” 30
E por último, uma impressão de balanço final: “se se pode dizer que as
pessoas mudam aparentemente muito os seus padrões de vida, enquanto os
edifícios resistem à mudança, tambem podemos admitir, para ficarmos um
pouco mais descansados, que nem tudo muda tanto e tão depressa no
quotidiano dos habitantes e que as arquitecturas e seus bairros, apesar da
estabilidade e rigidez construtivas vão aguentando adaptações [por vezes
merecidas traições] e vão sendo re-apropriadas pelas sucessivas gerações de
usos e de vida.” 31
____________________
30| Ibidem, p.496.
31| Ibidem, p.497.
159
Figura 73| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa Metelo, Praia das Maças, 1958-1959
Figura 74| Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e Pedro Vieira de Almeida, Casa Brás de Oliveira, Sesimbra,1959-1964
Figura 75| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa Dr. Barata dos Santos, Vila Viçosa, 1959-1963
3.2. Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa
Integração, Experimentação e Organicidade
Como referimos, no capítulo anterior, a habitação unifamiliar constituiu um
programa decisivo para a renovação da linguagem arquitectónica do Atelier,
aproveitando as oportunidades para extrair experiências bem resolvidas que
seriam aplicadas em escalas e programas de maior complexidade. O
cruzamento entre os contributos da arquitectura moderna orgânica e os valores
da tradição arquitectónica portuguesa, resultariam na resposta as questões
levantadas pelo lugar, pelo programa e sobretudo pelo modo de vida das
pessoas.
As três habitações que referimos, foram desenvolvidas para contextos
muito díspares, no entanto, todas elas contêm um sentido telúrico muito forte,
na medida em que estão agarradas ao terreno e à envolvente, numa
aproximação que procura o conceito de integração de cada lugar.
O conceito de integração, é referido no artigo de Nuno Portas,
“Arquitectura Integrada?”
32
, segundo o qual, “a ideia fundamental contida no
conceito de integração, é a da necessidade de adequar ou, melhor, de
relacionar a expressão de uma casa com o condicionalismo concreto do lugar
onde se insere e das pessoas a que se destina, abstraindo de um sistema
formal preconcebido”, podendo “desdobrar-se em aspectos distintos: inserção
harmónica numa paisagem natural” – como na Casa da Praia das Maças e na
Casa de Sesimbra – “inserção num ambiente arquitectónico preexistente,
popular ou erudito” – como sucedeu na Casa de Vila Viçosa – e de “acordo
com os anteriores hábitos de vida e sobretudo de habitar, com a psicologia e
valores culturais dos utentes”
33
, como sucedeu em todas as habitações e
fundamental na elaboração de qualquer programa arquitectónico do Atelier da
Rua da Alegria.
____________________
32| O artigo Arquitectura Integrada? de Nuno Portas, foi escrito originalmente para o Jornal de Letras e Artes 84 a 8
Mai. 1963, e publicado na compilação de textos do autor: Arquitectura[s] História e Crítica, Ensino e Profissão.
2005. p.25-31.
33| PORTAS, Nuno – Arquitectura Integrada?. In: Arquitectura[s] História e Crítica, Ensino e Profissão. 2005. p.26.
161
Figura 76| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Estudos, Casa da Praia das Maças
Figura 77| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Plantas; Alçados e Cortes, Casa da Praia das Maças
Figura 78| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa da Praia das Maças
Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa
A Casa Metelo [1957-59], na Praia das Maças, teve como ponto de partida
um modesto orçamento e o objectivo de servir como casa de campo e praia, e
posteriormente, como casa permanente, deixando em aberto uma segunda
fase de construção. Implantado no meio do pinhal, o corpo longitudinal –
resultante da conjugação de volumes não racionais, dos quartos e da zona de
estar – acompanhava o declive natural da duna, onde apenas o piso superior é
visível da estrada de acesso e o piso inferior se abre somente para o terreno
baixo.
O núcleo central desta casa foi a zona social, reflexo da vontade e modo
de vida da numerosa família residente e respectivos amigos. A habitação
desenvolveu-se, então, a partir da zona de estar, desdobrando-se pelos dois
níveis do terreno através duma escada que prolongava a vida interior para o
exterior, entre a cota superior da duna e o terreno baixo. A Casa Metelo integrase assim na paisagem natural, quer pela forma como a habitação se adapta ao
local [como sempre lá estivesse], quer pelo arranjo da vegetação ou mesmo
dos caminhos, que cuidadosamente foram construídos para nos levarem à
entrada.34
Recordemos que neste período, decorria o Inquérito à Arquitectura
Popular em Portugal35, e que Fernando Távora, prontamente, incluiu os
resultados na casa de Ofir, também ela inserida no meio de um pinhal. Portas,
na análise à obra do mestre portuense, refere a casa de Ofir, mas também o
Pavilhão de Ténis da Quinta da Conceição como “a obra mais acabada, aquela
onde o domínio da escala é tão seguro que conta com a própria natureza dos
materiais [o carácter táctil da madeira, ou a dureza incisiva dos panos cheios];
aquela em que se adoptam com realismo materiais e técnicas tradicionais, mas
submetidos a uma conversão de modernidade no conceito dos volumes, dos
planos, do claro-escuro, do vigor.” 36
____________________
34| Habitação na Praia das Maças [1957-59]. Arquitectura 79. Jul. 1963. p.11-14.
35| O Inquérito não ia de encontro à metodologia que Portas que queria implementar, mas resultava antes como “livro
de receitas” de formas de arquitectura já construídas. Para Portas o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal “[...]
constituiu uma notável base de estudo mas também perigoso “catálogo”, se como tal for folheado surge precisamente
quando se tem de afastar a ideia tentadora e paternalista de compor para os utentes populares ao “gosto do povo.” ”
Ver: PORTAS, Nuno – Arquitectura[s] História e Crítica, Ensino e Profissão. 2005. p.29.
36| PORTAS, Nuno – Fernando Távora: 12 Anos de Trabalho Profissional. Arquitectura 71. Jul. 1961. p.22.
163
Figura 79| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Estudos, Casa de Sesimbra
Figura 80| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Estudos, Casa de Vila Viçosa
Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa
Na Casa da Praia das Maças, como na Casa de Ofir ou no Pavilhão de
Ténis, a integração de materiais [os planos de pedra do embasamento, caiados
na parte superior, pontuados por vãos de proporção vertical protegidas por
tradicionais venezianas e a madeira nos acabamentos interiores] e os sistemas
vernaculares de construção, contribuíam para a proposta de uma arquitectura
moderna na continuidade da tradição portuguesa.
Se o risco na Casa da Praia das Maças tinha sido pouco, na Casa de
Sesimbra e em Vila Viçosa, há um arriscar no desenho e nas soluções
propostas. Para Nuno Portas era um período de “ “experimentação” que então
fazíamos e se estendeu por dois ou três anos[...], na procura sucessiva da
melhor linguagem, de mais expressivas, maneiras de dizer ou, menos
literalmente, os meios formais mais capazes de dar, ou designar, espaços que
queríamos fossem entendidos como sinais de certas intenções de vida”
37
, e
que constituísse, simultaneamente, uma forma de criação e de crítica,
fundamental no pensamento de Portas.
A Casa Dr. Barata dos Santos [1958-63], de Vila Viçosa e a Casa Brás de
Oliveira [1959-64], em Sesimbra, prosseguiram ambas a via de uma integração
formal proposta como um gesto natural, apesar de contextos e abordagens
diferentes. Porém, se a Casa de Vila Viçosa, inserida num quarteirão da vila
alentejana, em frente das muralhas do castelo, “se apaga quase até ao
anonimato”, em Sesimbra, “a posição sobranceira na encosta, convidou aqui a
destacar a obra nova e o seu movimento interior ainda que agarrando-a, como
uma lapa, ao declive.” 38
Ou seja, a integração em Vila Viçosa processou-se de um modo quase
mimético, não um “pastiche” mas uma reinterpretação, ao confundir-se com a
realidade construtiva envolvente, marcada pelas vicinais confrontações
monumentais – o Castelo, o Palácio Ducal, o Convento dos Agostinhos e o Alto
de S. Bento. Enquanto que a solução, assumidamente indiscreta, em Sesimbra
foi o resultado da relação intencional, estabelecida com a envolvente
aproveitando a cobertura, em terraço, para a criação de áreas de estar ao ar
livre, que permitiam um relacionamento muito franco com a paisagem natural.
____________________
37| PORTAS, Nuno – Habitação em Sesimbra. Arquitectura 93, Mai./Jun. 1966. p.115.
38| Ibidem, p.115.
165
Figura 81| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta Piso Principal; Planta Cave e Planta Piso Superior,
Casa de Vila Viçosa
Figura 82| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Alçado Norte Nascente, Casa de Vila Viçosa
Figura 83| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Alçado Norte Poente, Casa de Vila Viçosa
Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa
No entanto, para lá da sua integração, as casas de Vila Viçosa e de
Sesimbra, são marcadas pela sua definida e complexa geometria na origem do
desenho planimétrico, na procura de um espaço interno revelador da
arquitectura pela qual Teotónio e Portas ansiavam.
Na experiência de Vila Viçosa, a geometria planimétrica partia de uma
malha geradora ortogonal de base com um outro sistema ortogonal [a 45º com
o primeiro]. Esta concepção planimétrica exprimia-se através de uma
distribuição horizontal por todo o terreno do corpo principal da habitação, dado
o extenso programa e a exiguidade do lote quadrado na vila alentejana. A
volumetria de carácter fragmentário, permitia uma presença discreta e
integrada no casario envolvente, ainda que houvesse um elemento excepcional
que se destacava – o torreão estúdio-quarto – proporcionando, em contraponto
à volumetria rasa do resto da casa, um enquadramento para os pontos de
interesse já referidos.
O desnível entre as duas ruas, possibilitava uma solução em patamares e
pátios – adoptada também na Igreja do Sagrado Coração de Jesus –, na cota
superior funcionava o pátio de entrada e recepção, onde se situava o núcleo
social da habitação, na transição entre o espaço público e o espaço privado, e
na cota inferior o pátio-logradouro, para os caseiros e serviços. A distribuição
planimétrica era assim reflexo dessa integração volumétrica organicamente
adaptada ao lugar através de “uma planta que se distribui em vários braços,
para criar uma sequência de volumes de construção e de pátios murados que
prolonga para o exterior o espaço interno, segundo a tradição mediterrânica,
bem frequente na própria Vila.” 39
Por outro lado, em Sesimbra, num terreno caracterizado por uma
acentuada pendente e com uma configuração irregular, a concepção partiu de
uma malha triangular em substituição da disposição ortogonal, como
constatação que a geometria não ortogonal adaptava-se muito bem ao declive,
possibilitando uma volumetria fraccionada de encaixe dos corpos uns nos
outros e proporcionando um prolongamento entre espaço interior e espaço
exterior – um dos princípios de concepção desta habitação.
____________________
39| PORTAS, Nuno – Moradia em Vila Viçosa. Arquitectura 79. Jul.1963. p.8.
167
Figura 84| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas , Planta Superior; Planta Inferior; Planta Cobertura, Casa de Sesimbra
Figura 85| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Corte, Casa de Sesimbra
Figura 86| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Alçado Nacente, Casa de Sesimbra
Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa
A casa de Sesimbra desenvolve-se, então, a partir de uma malha
geradora de base triangular ou hexagonal, definindo em planta ângulos de 60 e
de 120 graus, numa composição geométrica que respondia ao programa
relativamente alargado [com diversas salas e seis quartos], e que se adaptava
ao terreno, através de três patamares bem perceptíveis no corte longitudinal,
correspondentes ao mesmo número de núcleos interiores, que distribuem para
as diferentes células da habitação. Nuno Portas assume o risco e a influência
wrightiana: “arriscámos uma estrutura celular no sentido literal ou orgânico do
termo, seguindo, […] a irresístivel sugestão didáctica da fase “Hanna House”
de F.L.Wright – como para saber se o dinamismo formal da construção da
planta asseguraria, pelo carácter sistemático e animado, pelas diferenças de
nivéis, um sentido de continuidade a todo o ambiente, desde as células
encerradas aos espaços mais abertos.” 40
Apesar de ambas abordagens projectuais partirem de malhas geométricas,
isso não era a garantia de sucesso, para Nuno Portas continuava “hoje em
aberto, para nós, este problema crítico [e por isso necessitamos da crítica] e
ainda esta experiência tenha tido menos um valor pessoal de desinibição
formal, mais nos convenceu da necessidade de um sério ‘controle’ ao nível da
resultante-espaço, mais do que do feito geométrico, isto é, verificado ambiente
a ambiente, [...] e para o qual uma malha, seja ela ‘ortogonal’, a ‘30º’, ou a ‘45º’
ou agora em ‘redondos’, não é instrumento automático ou mágico. Como lhe
não é também indiferente – e aqui se põe toda a ambiguidade de um problema
de estruturalismo linguístico...”
41
, ou seja, a procura da metodologia
arquitectónica que tanto Nuno Portas debateu ao longo da década de 60, e
referida no capítulo II.
Portas utilizava a obra de Sesimbra, para criticar também o facto de
“continuarmos a vogar, excessivamente, ao sabor de modas formais – ficandonos no tal jeito cheirar de onde sopra o vento, como dizia [Ludovico] Quaroni –
modas muito mais fáceis de implantar do que a procura da necessidade de
uma linguagem do que, por ela, teremos para dizer.” 42
____________________
40| PORTAS, Nuno – Habitação em Sesimbra. Arquitectura 93. Mai./Jul. 1966. p.115.
41| Ibidem, p.115.
42| Ibidem, p.116.
169
Figura 87| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa de Sesimbra
Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa
Em Vila Viçosa, como em Sesimbra, a geometria não é repetitiva, há
quase um ‘horror’ ao ângulo recto, cada compartimento tem uma conformação
muito própria, cada geometria resulta numa linguagem espacial dinâmica,
fluída e era essa a verdadeira procura: o espaço interno. Espaço interno com
carácter diversificado, de uma riqueza e intensidade singulares, concebido de
“dentro para fora”, onde o espaço exterior era uma continuidade do interior e
que nos remete para a obra de F.L.Wright reinterpretada pelo mestre italiano
Bruno Zevi.
Nuno Portas, no texto de análise da “Habitação em Sesimbra”, acaba por
enunciar a procura de “ambientes variados e estimulantes à vida social da
casa, […] ao encontro dos conceitos de fluência de espaços não estanques,
compostos de ambientes diversificados pelos contornos, pelas variações
altimétricas, por obturações focadas, etc., mas ligadas com um sentido
dinâmico, sugerindo o movimento dos seus utentes. Conceitos de origem
confessadamente Wright – Loos – Aalto – Zeviana, mas que, de qualquer
modo, confirmavam uma convicção dominante: a da primazia da formação do
espaço interno de dentro [ainda quando se tratasse de espaço exterior] como
aquela estrutura onde se joga o intimismo e a sociabilidade, sobrepondo-a à
anterior primazia da composição volumétrica ou facial, porque conducente ao
neo-academismo de criar objectos, porventura belos de ver, no seio do vago
espaço sobrante.” 43
E deixava uma pergunta por qual tanto lutou por conseguir a resposta:
“[…] quais as fontes e os critérios – ou o método se possível – para uma
interpretação coerente do problema real de uma obra concreta, por forma a que
pudéssemos assumir o que lhes pode conferir uma identidade – o sítio, a
cultura pré-existente, as disponibilidades materiais e técnicas – exprimindo com
não menos força os valores universais de uma nova cultura de habitar, de uma
nova forma de entender o espaço, numa palavra, comunicando novidade e
progresso à vida quotidiana dos utentes? ” 44
____________________
43| Ibidem, p.115.
44| Ibidem, p.115.
171
Figura 88| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa de Vila Viçosa
Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa
Podemos concluir que à “timidez” da solução proposta, “mais próxima de
um certo empirismo que havia interessado a Fernando Távora” 45, na casa da
Praia das Maças, foi o dado o passo seguinte no caminho para a evolução, na
Casa de Sesimbra, mas principalmente no projecto-manifesto que constituiu a
Casa de Vila Viçosa, no culminar dos três pontos referidos – integração,
experimentação e organicidade. O valor da tradição cruzado com um sentido
de contemporaneidade, contextualizou as obras nos lugares, dando conta da
cultura, dos materiais possíveis – e dos novos materiais como o betão – mas
sobretudo aproximando-se da vontade e vida das pessoas.
____________________
45| Ibidem, p.115.
173
Figura 89 | Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa, 1962-1976
Figura 90| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas, Igreja Paroquial de Almada, 1963-1971
3.3. Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada
Entre o espaço Litúrgico e o espaço Urbano
Antes de analisarmos os trabalhos de carácter religioso, duas notas a
sublinhar, mencionadas nos capítulos anteriores. A primeira, o facto destas
duas igrejas paroquiais constituírem a afirmação definitiva do novo paradigma
da arquitectura religiosa em Portugal. A segunda nota, relaciona-se com a nova
ideia de intervenção e escala urbana na arquitectura portuguesa, operada
pioneiramente, no atelier da Rua da Alegria.
Ora foi precisamente em torno destes dois pontos, que a equipa
constituída por Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Vasco Lobo e Vítor
Figueiredo, com a colaboração de Luís Almeida Moreira e de Pedro Vieira de
Almeida, desenvolveu o anteprojecto vencedor do concurso público, lançado
em 1962, para a Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus [1962-1976],
em Lisboa, prémio Valmor de 1975.46
A oportunidade para desenhar uma igreja no centro de Lisboa constituiu,
antes de mais, um manifesto em prol da arquitectura religiosa moderna,
contestando o padrão das igrejas históricas anteriores, do edifício enquanto
objecto arquitectónico, valorizando a reformulação e a integração no espaço
urbano. A proposta apresentada a concurso47 destacou-se, assim, dos outros
catorze trabalhos, pelo modo como o programa foi urbanamente articulado no
coração da capital. À tradição de fazer igrejas no “meio do nada” 48, o atelier da
Rua da Alegria respondeu com a recuperação do conceito setecentista de
espaço religioso inserido na malha da cidade pombalina, agora adaptada à
malha das Avenidas Novas desenhadas por Ressano Garcia.
____________________
46| Atribuição do prémio Valmor em 1975, ex aequo com a Sede da Fundação Calouste Gulbenkian. Interrompida em
1971 a atribuição de prémios foi retomada após o 25 de Abril de 1974. Ver: ArchiNews 2. Dez. 2004. p.43.
47| A revista Arquitectura, publicou os resultados e a acta do Júri, constítuido pelos arquitectos Octávio Lixa Filgueiras,
Sebastião Formosinho Sanchez e Bartolomeu da Costa Cabral. Ver: Concurso de anteprojectos para a Igreja Paroquial
do Sagrado Coração de Jesus e seus anexos. Arquitectura 76. Out. 1962. p. 11-30.
48| Nuno Portas à conversa com Nuno Teotónio Pereira sobre os projectos do atelier da Rua da Alegria. Ver:
FERREIRA, Joana Cunha – Nuno Teotónio Pereira. Um Homem na Cidade. 2009.
175
Figura 91| Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Vasco Lobo e Víctor Figueiredo,
Concurso Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa, 1962
Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada
A proposta desenvolveu-se, então, caracterizada pela envolvência de
edifícios com escala considerável, num programa extenso e complexo,
minuciosamente encaixado num quarteirão exíguo, que compreendia a igreja,
centro paroquial, residências, capelas mortuárias, salão de festas, centro de
serviço social, jardim de infância, garagens... Ambicionava-se mais que um
simples equipamento religioso, um pedaço de cidade, dentro da própria cidade.
Nuno Portas resumiu muito bem estas questões, recordando o intenso
debate – muitas das vezes impulsionado pelo próprio, depois de “esquiços em
cartões pequenos”
49
trazidos do café – que se gerou entre a articulação do
programa e o modelo que queriam para o quarteirão: “o programa era central
mas não anterior ao desenho: era paralelo, era interactivo. A certa altura
sabíamos todos que a igreja não seria um objecto no meio do terreno [como
fizeram todos os outros concorrentes], mas uma igreja encostada como as
pombalinas com um pátio central, às escadinhas, a ligar as duas ruas e a
distribuir coisas tão diferentes como igreja, restaurante, teatro, escritórios,
quiosque, residências... enfim, uma miniatura de cidade.” 50
O desenvolvimento da ideia de mini-cidade, procedia dos conceitos
tradicionais de cidade [ruas, escadas, pátios], através de “uma rua-escadório
distributiva e de estar”
51
, que permitia articular a igreja com os restantes
corpos do conjunto. Um átrio central que possibilitava o ponto de encontro,
realização de actividades e de enorme vida ao quarteirão, ao mesmo tempo
que constítuia uma antecâmara exterior, preparando o acto de entrada na
igreja, num espaço bem escalonado e acolhedor.
A criação desta rua interior, ligando pedonalmente as ruas de Castelo
Camilo Branco e a de Santa Marta, em patamares para vencer o acentuado
desnível – solução adoptada em Vila Viçosa, como vimos, e que Távora havia
utilizado no Mercado da Feira – permitiu que o espaço público invadisse o
quarteirão relacionando-o com o espaço litúrgico. Para Pedro Vieira de
____________________
49| PORTAS, Nuno – Sobre o Método e os significados no Atelier Nuno Teotónio Pereira. In: Arquitectura[s], Teoria e
Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.234.
50| Ibidem, p.234.
51| Ibidem, p.234.
177
Figura 92 | Estudos, Igreja Sagrado Coração de Jesus, Lisboa
Figura 93 | Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta 4º Piso; Alçado Rua Camilo Castelo Branco; Cortes;
Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa
Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada
Almeida,
este
princípio
era
evidente,
“a
uma
igreja
que
se
abre
arquitectonicamente para a cidade parece legítimo propor que a cidade se
introduza no seu organismo.” 52
A citada abertura arquitectónica para a cidade, constitui o primeiro ponto
de contacto entre a Igreja de Santa Marta e a Igreja Paroquial de Almada
[1963-71], resultante de uma encomenda feita em 1963. Ao contrário, da Igreja
de Lisboa, inserida num contexto urbano, a Igreja de Almada aparece como
uma igreja-objecto, resultado da implantação num extenso lote ajardinado, mas
sobretudo pela falta do corpo dos serviços paroquiais, não construído, que
seria concretizado numa 2ª fase, desenhando um pátio exterior, à imagem de
Santa Marta. Este volume permitiria uma outra leitura a todo o complexo
religioso, motivo pelo qual, a análise terá de partir da clarividência, que
escrevemos sobre um projecto inacabado. No entanto, se a idealização de todo
o conjunto apenas é vísivel na maqueta, o princípio foi o mesmo da Igreja de
Santa Marta: fazer cidade para as pessoas, paroquianos e os habitantes se
apropriarem.
A opção de implantar o edifício no limite às ruas circundantes, foi então o
reflexo deste objectivo, conceber um novo equipamento religioso, com espaços
para a comunidade, espaço livre para estar, mas também para valorizar a
presença da própria igreja, pelo modo como se “lança voluntariamente no
terreno, procurando integrar em si
o espaço ajardinado envolvente,
empregando um vocabulário intencionalmente surdo e com manifestas
referências à Igreja-sinal, de características, que direi ruralizantes,”
53
na
continuidade, recordemos, do Mosteiro de Santa Maria do Mar [1959-1968], em
Sassoeiros e que havia despoletado na Igreja para o ambiente rural de Águas,
de Nuno Teotónio Pereira.
De referir, o papel do Mosteiro de Santa Maria do Mar, no programa
religioso do atelier da Rua da Alegria, como ensaio geral para as duas igrejas
sucessoras, que confrontamos. Para Ana Tostões: “o convento das freiras
____________________
52| ALMEIDA, Pedro Vieira de – Duas Igrejas: Sagrado Coração de Jesus e Paroquial de Almada. Arquitectura 123.
Set./ Out. 1971. p.163.
53| Ibidem, p.163.
179
Figura 94| Nuno Teotónio Pereira, Pedro Vieira de Almeida e Nuno Portas, Mosteiro de Santa Maria do Mar,
Sassoeiros, 1959-1968
Figura 95| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa, 1962-1976
Figura 96| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas, Igreja Paroquial de Almada, 1963-1971
Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada
Beneditinas Missionárias foi certamente o ensaio da articulação espacial
escalonada e deslizante, da iluminação, dos materiais onde já aparece o betão
descofrado, rude e áspero jogado com requintadíssimos perfis e vitrais de
iluminações “sobre naturais”, confirmada na Igreja do Sagrado Coração de
Jesus,”
54
mas também na Igreja Paroquial de Almada. Os conceitos de
experimentação, integração e organicidade denunciados com as habitações
unifamiliares tornam-se também eles, patentes na análise aos esquiços e
desenhos finais do Mosteiro de Santa Maria do Mar. No entanto, à imagem do
que sucedeu posteriormente em Almada, a construção de apenas uma parcela
do Mosteiro, descaracterizaria uma ambiciosa proposta de grandes dimensões
articulada com escala e virtudes humanas.
Na concepção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, como em Almada,
o espaço interno constituiu o outro foco de desenvolvimento e discussão do
projecto. Reflexo da intervenção exterior no quarteirão, o espaço interno
desenvolveu-se em três níveis sobrepostos de plataformas, entre a cripta e as
capelas secundárias a um nível inferior, o piso intermédio principal com a nave,
o santuário, o baptistério e a capela lateral, prolongado com as galerias e
balcões posicionados perimetralmente a um nível superior. Esta disposição
interna desenhada com uma coerente geometria, moldava uma grande
assembleia de fiéis, envolvendo o altar, num espaço contínuo e orgânico e sem
a direccionalidade axial característica das igrejas históricas – a entrada
principal foi posicionada lateralmente – acompanhando as mudanças impostas
pelo Concílio do Vaticano II. 55
O resultado é a proposta de uma espacialidade rica de significados,
capaz de comover e de assumir a espiritual atmosfera que sempre caracterizou
as igrejas. E é nesta proposta de uma espacialidade significante, capaz de
____________________
54| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.103.
55| O Concílio Vaticano II, foi convocado pelo Papa João XXIII, em 1959, e decorreu em 4 sessões, entre 1962 e 1965.
O maior propósito foi a actualização das doutrinas católicas adaptadas ao espírito da época. Abordou diferentes temas,
que ainda hoje geram diferentes intepretações, como a reforma da Liturgia [a missa passou a ser celebrada em
vernáulo], a defesa da liberdade religiosa ou o ecumenismo, formando um novo ponto de vista sobre a constituição e
a pastoral da Igreja [fundamentada, a partir de então, na igual dignidade de todos os fiéis]. Ver: Enciclopédia Verbo
Edição Século XXI. Editorial Verbo.
181
Figura 97| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas,
Planta Inferior; Planta Principal; Planta Superior e Planta das Coberturas, Igreja Paroquial de Almada
Figura 98| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas, Cortes; Alçados, Igreja Paroquial de Almada
Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada
integrar a dimensão da condição humana e o sentido sobre a realidade, que
residiu a procura principal na Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jeus,
mas também em Almada.
No entanto, se a Igreja Paroquial de Almada procedeu dos mesmos
princípios da Igreja de Santa Marta – a exemplo, a entrada principal é também
ela lateralizada – o tratamento do espaço interno revela-se menos denso e
carregado de significados. O sentido de envolvência do altar proporcionado por
uma assembleia escalonada, para permitir uma maior proximidade aos fiéis das
últimas filas, e a singularidade da galeria e balcão lateral que não circundam o
altar e tornam o espaço mais estático, revelam-se insuficientes para
caracterizar a Igreja de Almada com o ambiente da Igreja de Lisboa. Como
refere Pedro Vieira de Almeida na análise às duas igrejas: “Almada parece
menos conseguida não só pela modelação e densidade espacial, como
também pelo controlo da luz mas ainda por propor uma pormenorização
dispersiva que me parece menos adequada e não conseguir ganhar aquele
grau de unidade a nível superior, que suponho uma das melhores conquistas
da Igreja do C. Jesus.” 56
A ausência de um tratamento tão pormenorizado do espaço interior,
sublinhava o aspecto da falta de tratamento exterior. A preparação para a
entrada na Igreja, que sucede em Santa Marta, perde aqui protagonismo,
sobretudo pela a ausência do corpo de serviços paroquiais referido, que
elevaria o projecto para um nível mais próximo da igreja de Lisboa. A singular
obra que constituiu a Igreja do Sagrado Coração de Jesus deveu-se, assim, a
este tratamento duo espacial, entre um espaço exterior bem escalonado e
intimista, que proporcionava uma passagem gradual para o interior orgânico,
fluído e humano, na busca exaustiva pela sincera espacialidade sagrada.
Mas as diferenças não se situavam apenas na articulação espacial e na
proposta urbana. A estes dois pontos associava-se um modesto nível de
pormenorização, e que havia sido objecto de um obsessivo trabalho em Santa
____________________
56| ALMEIDA, Pedro Vieira de – Duas Igrejas: Sagrado Coração de Jesus e Paroquial de Almada. Arquitectura 123.
Set./ Out. 1971. p.163.
183
Figura 99| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas, Igreja Paroquial de Almada
Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada
Marta. Partindo de um mesmo material, o betão devido ao seu carácter perene
e de fácil manutenção, predominante em ambas as igrejas, o que as distanciou
foi também o diferente tratamento na articulação concedida ao betão com os
outros materiais.
O betão aparente, betonado in loco, os painéis e blocos pré-fabricados em
estaleiro – algo de inovador e experimental naquele período – são
cuidadosamente manipulados na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, através
de uma pormenorização exarcebada de todos os elementos, que a longa
duração da obra permitiu amadurecer. A exemplo, o cuidado na aplicação dos
blocos de cimentos, que revestem interiormente a igreja e que a unificam
espacialmente, conjugados com o estudo das hierarquias dos jogos de luz –
onde se destacava o altar e o posicionamento do sacerdote – asseguravam a
riqueza e densidade espaciais internas.
Por outro lado em Almada, apesar da atenção que envolveu o plano de
fundo, no tratamento artístico a que foi submetido, com o mesmo objectivo de
destacar o altar, a articulação dos planos de betão com os outros materiais não
foi tão bem conseguido. O tratamento das transições entre betão, madeira e as
placas de revestimento do plano inclinado da cobertura, não asseguram, a
nosso ver, o efeito homogéneo e superior da Igreja do Sagrado Coração de
Jesus.
O facto de a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, ser um projecto mais
bem conseguido, deveu-se em muito ao facto de constituir o projecto onde
mais se reflectiu a influência dos vários colaboradores, como enunciamos no
início do capítulo. Tanto assim foi que a Igreja de Santa Marta viria a resultar no
projecto mais referenciado e influenciado pela arquitectura de ‘lá de fora’, num
modo de projectar com soluções ‘à maneira de’, onde o background da vasta
cultura arquitectónica e do sentido crítico de Portas, contribuiu decisivamente.
Portas relembra as obras que naquele período lhe vagueavam na cabeça:
“como a de Scarpa [que tinha conhecido dois anos antes]. O “brutalismo” na
sua versão menos agressiva do “Economist” dos Smithson ou da biblioteca e
primeira igreja do Kahn. E, em pano de fundo, o meu mestre da fase escolar
185
Figura 100| Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa
Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada
[Frank Lloyd Wright] e os realistas italianos [Ridolfi, Quaroni].”
57
As influências
postas em cima do estirador, foram tantas ao ponto de Portas chegar a
afirmar, com o afastamento temporal necessário, “mas, por minha culpa,
também um certo “barroquismo” [comparado com as obras contemporâneas do
Távora ou do Siza, no Norte, ou do Taínha, no Sul], salpicado de maneirismos
que hoje reconheço demasiado carregados e eclécticos. [o meu problema era
talvez o ter informação e intenção a mais].”
58
No entanto, o importante a reter,
é que “com o tempo, os “tiques” vão-se apagando e o essencial [o sentido do
espaço, a ligação à cidade] vem ao de cima.” 59
E é na visita aos lugares, quer à Igreja do S. Coração, quer à Igreja de
Almada, que se torna evidente a ligação à cidade, que Portas referiu. No largo
que se abre à frente da Igreja de Almada, nas pessoas nos cafés, ou à espera
de outras, nas crianças a brincar ou então ao percorremos a rua interior do
quarteirão de Santa Marta, os projectos tiveram o condão de serem
agregadores de pessoas, e não apenas nos actos litúrgicos, e neste ponto
foram ambas as propostas bem sucedidas, onde de facto, para além da
resposta ao programa, o “fazer cidade” aconteceu.
O maior contributo da Igreja do Sagrado Coração, para lá da renovação
do programa religioso, foi seguramente esse despertar para a valorização do
espaço urbano ao integrar-se num contexto consolidado, mas sem deixar de
assumir a sua modernidade, uma nítida influência do Economist Building [195964], do casal Smithson. Por isso encaramos esta obra como um virar da página
para o atelier da Rua da Alegria, ao antecipar o debate sobre a “construção no
espaço da cidade” 60, que despoletaria, internacionalmente com o incontornável
“A Arquitectura da Cidade” [1966] de Aldo Rossi, e que em Portugal seria
questionado com o livro de Nuno Portas “A Cidade como Arquitectura” [1969].
____________________
57| PORTAS, Nuno – Sobre o Método e os significados no Atelier Nuno Teotónio Pereira. In: Arquitectura[s], Teoria e
Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.234.
58| Ibidem, p.234.
59| Ibidem, p.234.
60| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura. 2007. p.1.
187
Figura 101| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Centro de Compras de São Sebastião,
Lisboa, 1968-1970
Figura 102| Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira, Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa, 1970-1975
3.4. Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
As duas propostas com que finalizamos a análise das obras, constituem a
afirmação do atelier da Rua da Alegria voltado para uma arquitectura com
carácter urbano – “a construção no espaço da cidade” – na procura da cidade
enquanto palco para as pessoas interagirem, onde o espaço público e o
espaço privado se misturam, transformando-o num espaço singular, como
referimos anteriormente.
Nuno Portas desempenhou um papel fundamental nesta valorização da
cidade, operada no final na década de 70, como acabamos de mencionar.
Quer seja um troço de cidade, como foi o quarteirão do Centro Comercial São
Sebastião, quer seja uma extensa área citadina, como foi o caso do Plano de
Pormenor do Restelo, os últimos anos de Portas no atelier, foram ocupados a
desenhar para uma escala urbana. Depois dos anos de abrandamento
projectual, com a investigação desenvolvida no LNEC e o ensino na ESBAL,
Portas estendeu de uma forma prática, com a participação nestes dois
projectos, o debate dos modelos a adoptar para a cidade, expressos na suas
obras seminais A Arquitectura para Hoje, mas sobretudo em A Cidade como
Arquitectura. Os dois projectos que analisaremos são também eles, a prova do
meta-projecto arquitectónico que Nuno Portas procurava, ou seja, a metaarquitectura desenvolvida autonomamente por vários intervenientes.
Foram estas questões que Portas abordou, quando a revista Arquitectura
publicou conjuntamente o Centro Comercial de São Sebastião e a Igreja do
Sagrado Coração de Jesus, onde havia iniciado na prática, 10 anos antes, a
“arquitectura como cidade”.
Portas recordou como “o Centro de São Sebastião veio retomar o
essencial da igreja de Santa Marta – uma espinha dorsal constítuida por um
espaço público enfatizado [por recurso quase literal a tipologias facilmente
identificáveis – as ruas densas de encosta na igreja, as “galerias” no Centro]; a
partir dessa espinha também os espaços distribuídos ficariam relativamente
abertos a usos que só ilusoriamente podiamos controlar na fase inicial do
projecto e que se deviam antes destinar a arquitecturas de outros que
189
Figura 103| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Plantas; Perfis; Perspectiva;
Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
igualmente não desejaríamos dominar. Portanto, um espaço enfático – o
distributivo e o de encontro – e um conjunto de regras mínimas de jogo para
decisões ulteriores privadas, regras que o são sobretudo para assegurar dadas
continuidades urbanas. Não quer isto dizer que o atelier se venha
desinteressando dos problemas de linguagem arquitectónica a favor de
preocupações de “simples” estrutura tipológica [...]; apenas aconteceu que o
problema posto nos obrigava a estudar sobretudo este nível de concepção e
que achamos interessante que o nosso acto não menos linguístico fosse um
começo de articulação da fala [uma sintaxe e uma semântica básica] que
aspira a ser entendido e continuado não sabemos por quem nem exactamente
quando.” 61
Portas revelava nesta declaração a superação do puro formalismo na
arquitectura para a importante “contribuição ao problema num nível que afinal é
aquele onde, parece, a contribuição do arquitecto continua mais deficitária e
que é o da estrutura mesma dos artefactos que pomos na cidade ou com que
[des]fazemos cidade.” 62
Uma dessas contribuições, foi o projecto-estudo do Centro de Compras
de São Sebastião da Pedreira, resultante de uma encomenda dos Serviços de
Urbanização da Câmara Municipal de Lisboa, em 1968 e finalizado em 1971.
Contudo o projecto acabou por não ser construído, sendo o quarteirão
ocupado, 30 anos depois, pela cadeia espanhola “El Corte Inglés”.
O resultado da proposta de Nuno Portas, Nuno Teotónio Pereira e
Gonçalo Byrne, procedeu de uma quantidade de factores como “a sondagem
de mercado, o estudo de rentabilidade económica ou uma regulamentação
condicionante da execução de forma”,63 que foram criteriosamente estudados,
para que este inovador espaço comercial, constituísse a todos os níveis –
sociais, económicos, arquitectónicos, urbanos – uma mais valia para a cidade
de Lisboa.
___________________
61| PORTAS, Nuno – Testemunho de um dos autores. Arquitectura 123. Set./Out. 1971. p.172.
62| Ibidem, p.172.
63| BYRNE, Gonçalo; PEREIRA, Nuno Teotónio; PORTAS, Nuno – Centro de Compras em Lisboa – Estudo para um
centro em S.Sebastião da Pedreira. Arquitectura 123. Set./Out. 1971. p.179.
191
Figura 104| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Planta de Esquemas de Utilização/ Ocupação
Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa
Figura 105| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Perspectiva de Esquema de Utilização/ Ocupação
Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
Contudo, para lá dos factores de ordem sócio-económica, envolvendo os
potenciais consumidores e os promotores municipais, [com a subida do poder
de compra e consequente aumento do consumo, dos primeiros, e o papel, dos
segundos, na deslocação para São Sebastião de equipamentos de utilidade
pública – biblioteca, espaços de lazer ou espaços administrativos], o que nos
importa sublinhar foi a forma como todas estas condicionantes foram
articuladas urbanisticamente e arquitectonicamente, porque, e como está
expresso no estudo: “seria um perigoso erro de cálculo subestimar a
importância dos factores propriamente urbanísticos – relativos à localização,
dimensionamento e variedade de serviços a oferecer – assim como dos
factores arquitectónicos – relativos à potencialidade de crescimento e de
readaptação do edifício, quer na forma de divisão interna, quer nas relações
com o exterior.” 64
O Centro Comercial, o primeiro em Lisboa com tão grande dimensão e
planeamento, surgiu “como a necessidade de ensaiar na cidade um tipo de
edificação para o comércio de retalho de produtos de consumo diário,
alimentar ou não, alternativo ao “mercado da banca” que nos últimos decénios
tem sido construído e que hoje se reputa obsoleto.”
65
Naquele vazio urbano,
no alto do parque Eduardo VII, foi, então, adoptado um novo modelo de
“shopping center” transposto de países mais desenvolvidos, como os Estados
Unidos e a Suécia.
Um dos focos da discussão, centrou-se no tipo e escala adequada para o
centro de compras, entre local ou trans-zonal, optou-se pelo segundo pois
aumentava o raio de acção de consumidores potenciais, acrescentando
naquela zona um atractivo de oferta de produtos e serviços que não existia
ainda em Lisboa, como foi referido pelos autores: “o centro de compras transzonal funciona cumulativamente como centro local, mas jogando com as
rodovias e linhas de transporte, propõe-se um raio de acção muito mais vasto,
que pode chegar à escala de centro regional com características de
diversificação das áreas centrais antigas.” 66
___________________
64| Ibidem, p.179.
65| Ibidem, p.180.
66| Ibidem, p.180.
193
Figura 106| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Plantas Pisos 0, 1 e 2; Corte;
Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
Esta escolha levou a que se articulassem vários tipos de transporte –
automóvel, metro e autocarro – com uma infra-estrutura de cariz urbano, até
pela intervenção nas ruas circundantes para benefício de acessibilidade ao
centro, para potenciar São Sebastião da Pedreira como um centro alternativo
da cidade, e não apenas comercial: “tendo presente que um Centro de
Compras se caracteriza, funcionalmente, por uma grande diversidade de tipos
de compras [lojas, supermercados e grandes armazéns, além de outros
serviços não-comerciais de utilidade pública] e sobretudo por apreciáveis
facilidades de estacionamento automóvel e de serviços de transporte de
superfície ou subterrâneos, a sua localização deverá ser jogada como
elemento importante de criação ou reforço de uma nova zona central que
funcione como dissuadora do centro antigo.” 67
O Centro Comercial, na visão dos autores funcionaria urbanisticamente
com um pólo dinamizador do desenvolvimento de toda a zona envolvente, ao
atrair os inexistentes serviços colectivos para São Sebastião e por outro alargar
o seu raio de influência através de uma bem articulada rede de transportes que
facilitava a afluência de pessoas, em qualquer período do ano, para o Centro.
No fundo, o modelo de mega-estrutura, na procura da dimensão urbana,
agregadora de funções díspares como serviços, de consumo, lúdicas ou
cultural. Uma nova forma tipológica de mega-edíficio, como verificamos, no
Centro Cívico de Cumbernauld, na Escócia. 68
Por outro lado, arquitectonicamente, o edifício em si mesmo, era um novo
modelo de centro comercial, uma resposta ao anterior modelo, inserido “na
malha citadina e incrustrados nos edifícios de habitações e escritórios,
fundamentalmente por razões de maior segurança dos promotores que provêm
de menor investimento inicial [...] e mais fácil readaptação em caso de
insucesso. É portanto um processo natural que provoca a concentração de
certos comércios, cafés e salas de espectáculos, sendo o “passeio” a
descoberto o elemento de ligação entre eles.” 69
___________________
67| Ibidem, p.180.
68| Ver: GRANDE, Nuno – Arquitecturas da cultura: política, debate, espaço: génese dos grandes equipamentos
culturais da contemporaneidade portuguesa. 2009. p.187-207.
69| Ibidem, p.180.
195
Figura 107| Teotónio Pereira e João Braula Reis, Edifício de Escritórios e Comércio “Franjinhas”, Lisboa, 1965-1969
Figura 108| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Perspectiva Galeria Coberta
Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
Nuno Teotónio Pereira e Braula Reis com o Edifício de Escritórios e
Comércio “Franjinhas”, haviam dado um primeiro passo na reinterpretação
deste modelo, ao conceberem um edifício de escritórios convencional mas com
a inovação dos primeiros 3 pisos destinados a comércio, serem invadidos pela
rua, através de galerias cobertas, que ampliavam o espaço público em diversos
níveis pedonais.70
Foi também este o modelo de concepção que esteve na origem do
Centro Comercial de São Sebastião, modelo de galeria coberta com lojas de
variada
oferta
comercial,
recriando
o
ambiente
exterior,
através
do
desdobramento da rua em diversos planos de circulação e de estar, criando
novas formas de sentir o espaço urbano, mas com todas as comodidades de
um espaço interno. A galeria coberta era, então, o elemento agregador de toda
a complexa infra-estrutura urbana, aberta para a cidade onde “diferentes
actividades sobrepõem-se no mesmo edifício, aglutinando-se em torno da
galeria comercial ou rua interior coberta. Um valor simbólico não subestimável
atribui-se à criação de uma “galeria” com distribuição linear de serviços do
Centro – um pouco na tradição europeia das galerias urbanas – funcionando
como elemento que prolonga o passeio-com-lojas, corrente na cidade.” 71
O Centro Comercial de São Sebastião da Pedreira, constituiu naquele
período, sobretudo, a proposta de um novo modelo para outro núcleo de
cidade, e para os autores, o Munícipio de Lisboa deveria encarar o estudo
como “uma experiência-piloto para futuras operações de natureza semelhante
e maior porte, que a renovação urbana e o reequipamento da cidade imporão
no futuro próximo”, sublinhando que para garantir o sucesso de tais operações
era essencial um “controlo da qualidade urbanística e arquitectónica do
empreendimento, sobretudo no sentido do conjunto e do desenho de toda a
zona pública, descoberta ou coberta.” 72
Toda a proposta vem ao encontro do que Portas por esta altura, defendia
que todos os edifícios são em si mesmo, um modo de desenhar cidade, e
___________________
70| Edíficio Comercial na Rua Braamcamp. Arquitectura 113. Jan./ Fev. 1970. p.6-14.
71| Ibidem, p.183.
72| Ibidem, p.183.
197
Figura 109| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Plantas de Conjunto; Perfis Transversais Tipo
Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa
Figura 110| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta de Conjunto; Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
apesar do Centro Comercial de São Sebastião, ter permanecido apenas no
papel, constituiu um dos melhores exemplos dos edifícios a desenharem
cidade, defendida por Nuno Portas.
Por sua vez, o Plano Pormenor do Restelo [1970-75], uma segunda
encomenda da Câmara Municipal de Lisboa, constituiu a oportunidade singular
para os seus autores – Nuno Portas, Nuno Teotónio Pereira e Gonçalo Ribeiro
Telles [arquitecto paisagista] – ensaiarem e repensarem o modelo de cidade
tradicional com as condicionantes contemporâneas, numa área relativamente
extensa e dentro de uma malha consolidada como é o contexto previlegiado da
encosta sobre Belém.
A encomenda da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa [EPUL],
entidade camarária mediadora do processo, centrou-se em dois requisitos: por
um lado amenizar os efeitos provocados pelo plano anterior, caracterizado
pelas imponentes “Torres do Alto do Restelo” no perfil da encosta, procurando
uma harmoniosa transição entre a volumetria das torres dos anos 60 e das
moradias dos anos 40-50, situadas mais abaixo. O objectivo era preservar a
paisagem e não entrar em confronto com um contexto singular, como era o
Mosteiro dos Jerónimos e Monsanto. Por outro lado, pretendia-se a mesma
elevada densidade populacional das habitações existentes, que desse uma
resposta ao objectivo comercial do empreendimento, dado que parte das
habitações eram para venda e outra parte para aluguer em regime de casas
económicas.
Os autores desenvolveram a proposta a partir destas duas condicionantes
mas também como uma crítica e reinterpretação dos modelos de habitação e
formas urbanas desenvolvidas até então no atelier da Rua da Alegria. Nuno
Portas no “Posfácio por Ocasião da Publicação em Revista do Projecto para o
Restelo”, refere que “quando nos surgiu a oportunidade de projectar uma “parte
de cidade” tendencialmente densa, tornou-se-nos óbvia a necessidade de
rever
os principais lugares-comuns
experiência anterior.”
73
arquitectónicos da
nossa
própria
Percorre então o filme desse percurso projectual, do
___________________
73| PORTAS, Nuno – Posfácio por Ocasião da Publicação em Revista do Projecto para o Restelo. Arquitectura 130.
Mai. 1974. p.23.
199
Figura 111| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Perspectivas, Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
atelier na temática habitacional: “depois de experiências com edifícios tomados
como tipologias isoladas em que se exploram sobretudo o acesso vertical
como articulação de fogos e expressão do movimento, na passagem dos
nossos projectos de Olivais Norte para os da Célula C de Olivais Sul demos
um primeiro passo no sentido de integrar “bandas e torres”, dispor os edifícios
em quadras [não quadradas aliás] e mesmo esboçar algumas relações de
“rua”; mais tarde e ainda para Olivais-Sul, na célula junto a Cabo Ruivo,
tentámos a articulação de edifícios em contínuos de dimensão já importante.”74
Depois dos exemplos dos anos 50, onde foi aplicada a Carta de Atenas como
em Alvalade ou Olivais-Norte, às últimas gerações das new towns de OlivaisSul ou Chelas, para Portas “impunha-se o passo seguinte no caminho do...
realismo.” 75
A proposta da forma urbana para o Plano do Alto do Restelo pretendeu,
então, “responder aos problemas que se verificaram em ambos tipos urbanos
anteriores – os de disposição livre de volumes de grande altura e os de
disposição com continuidade de volume de baixa ou média altura, ou seja de
quarteirões,”
76
uma oportunidade de regressar às tipologias tradicionais do
desenho urbano, na redescoberta do valor da rua e da praça como espaço
público, que já tinha ensaiado em Olivais Sul. Para Nuno Portas, em termos
práticos: “tratava-se para mim de voltar à lógica dos “traçados” do “projecto do
chão”, que seria o referente, o suporte dos projectos dos edifícios, e não o
contrário que nos tinha legado o modernismo,”
77
traçado esse que será
determinante para o pensamento urbanístico a partir da década de 80.
O plano apresentado tinha uma orientação bem definida: as ruas
desenvolviam-se longitudinalmente na encosta, enquanto as moradias e blocos
em banda eram orientados para as vistas sobre o rio Tejo, ao quadrante
nascente – poente, adoptando um modelo tradicional, de traçado pombalino já
existente na Lapa. Esta disposição permitia o regresso a imagem de bairro e
habitação em banda contínua, pensados a uma escala humana que
___________________
74| Ibidem, p.23.
75| Ibidem, p.23.
76| Ibidem, p.23.
77| PORTAS, Nuno – O processo também desenha. Arquitectura e Vida 51. Jul./Ago. 2004. p.36.
201
Figura 112| Leslie Martin e Lionel March, Land Use and Built Form Studies [LUBFS], Escola de Cambridge
Figura 113| Nuno Portas, Estudos; Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
proporcionava o contacto com as pessoas, contrapondo aos vazios
modernistas das torres vicinais.
A relação entre vias e edifícios era estabelecido através de uma única
regra – considerada clara e simples – a altura dos edifícios é igual a largura
das ruas. Portas recorda esta opção e a não opção por quarteirões: “desde o
famoso gráfico de Gropius relacionando altura e afastamento de edifícios
paralelos para igual inclinação mínima de um sol escasso – e note-se como
uma simples variável, a insolação, informou anos de desenho urbano, tal como
a rejeição do quarteirão, etc – desde então, dizia, não tinha havido progressos
notáveis no tratamento quantitativo da relação ‘tipologia-densidade de uso do
solo’, apesar de ser esse, de longe, o mais delicado problema que se põe ao
arquitecto na sua relação com o sistema económico – aquela onde se
enfrentam uma concepção de habitabilidade e uma maximização da
rendibilidade do terreno!”
78
Esta era a nova realidade, onde factor económico
de rendibilidade do espaço, se aliava com o factor “tempo”, no processo
evolutivo da cidade existente.
E neste ponto a questão das densidades era fulcral. Portas invocava
então os estudos da anteriormente referida Escola de Cambridge e a teoria do
Land Use and Built Form Studies [LUBFS], com ilustrações demonstrativas que
ao aumentar o perímetro ou a continuidade dos edifícios, poderia-se obter-se a
mesma densidade populacional das torres, sem o aumento desproporcional da
altura dos edifícios. Para Portas, era ilusória a questão de as torres libertarem
muito espaço exterior à volta, visto que era preciso tomar em consideração o
factor do estacionamento, que retirava muita área ao terreno libertado. No
fundo, era uma questão matemática ou de lógica formal, onde os estudos
demonstravam que acima dos 4 a 5 pisos, e mantendo os standards
estabelecidos entre a proporcão de espaço construído e espaço livre adjacente
[para estacionamento, equipamentos, vias...], não se justificava a construção
em altura, porque a densidade das torres estaria assegurada com os edíficios
construídos linearmente, e foi o que sucedeu no Plano do Restelo.
___________________
78| PORTAS, Nuno – Posfácio por Ocasião da Publicação em Revista do Projecto para o Restelo. Arquitectura 130.
Mai.1974. p.23.
203
Figura 114| Nuno Teotónio Pereira, Pedro Viana Botelho e João Paciência, Plantas e Alçado Poente Moradias,
Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa
Figura 115| Nuno Teotónio Pereira, Pedro Viana Botelho e João Paciência,
Alçado Poente e Cortes de Bloco Habitacional; Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
Todos estes raciocínios atrás anunciados, haviam sido lançados através
da vasta cultura arquitectónica de Portas, e que também no Restelo, se fez
sentir a influência: “daí o impacte que já em 65 teria para alguns de nós o
polémico livro de Jane Jacobs, ou o artigo de Alexander [que mostrou como a
teoria se podia juntar ao bom senso!] ou aquela expressão de Candilis que
tanto me fez pensar: “Porque é que havemos de evidenciar muito mais o que
separa ou diferencia as coisas do que aquilo que as junta ou unifica?” Porque
teimamos em pensar a cidade como “árvore”? E, sempre em busca da nossa
tradição, lá fomos reestudar o plano de Cerdá, a Amesterdam-Sul, a Viena
Socialista e depois a área homogénea de Rossi ou as investigações de Lionel
March sobre a altura e densidade da edificação.” 79
Relativamente ao Plano em si, um terço das tipologias da habitação
adoptadas, correspondiam a moradias-pátio com 3 pisos e as restantes
resultavam de blocos em banda com um máximo de seis pisos de altura,
conjugando diferentes tipologias, entre pisos simples e duplex, onde para
aceder aos apartamentos superiores, se resolvia com uma galeria pública
exterior elevada no quarto piso – uma clara referência ao “building as a street”
do casal Smithson.
Outro característica adoptada, foi o sistema de quarteirões abertos, que
possibilitava libertar as fachadas interiores das habitações – relativamente aos
quarteirões tradicionais – e criar um método que pudesse ser adaptado à
topografia de outros locais. O resultado era uma continuidade urbana
assegurada pelo espaço público de ruas principais e passeios laterais
arborizados, para circulação de automóveis e peões, alternados com ruelas
secundárias para acesso ao estacionamento ou então aos pátios.
A relação entre os vários volumes que compõem o plano, moradias e
blocos em banda, viviam lado a lado, num diálogo de volumes e tipologias de
habitação, que devido as reduzidas distâncias entre os planos das fachadas
paralelas, variavam entre os blocos de maior altura e os blocos de moradias,
caracterizando as vias longitudinais com a variedade arquitectónica desejada e
___________________
79| Ibidem, p.23.
205
Figura 116| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
um maior desafogo visual.
Todo o plano habitacional descrito era complementado por uma área
central80, que funcionava como eixo de articulação entre o novo plano e as
áreas envolventes, e para o qual os autores organizaram um completo estudo
sobre o programa e funções previstas. A área de carácter cívico e comercial
contemplava espaços públicos e equipamentos como restauração, hotelaria,
salas de espectáculos, escritórios e uma igreja, actualmente em construção.
Apesar da aceitação do plano por parte do Munícipio, o processo de
construção arrastou-se ao longo de 25 anos sendo que não se construiu o que
estava planeado na sua totalidade, ficando-se apenas só pela concretização da
Zona Piloto, da responsabilidade de Teotónio Pereira, Pedro Botelho e João
Paciência, onde se testaram as tipologias das habitações e do chamado
“Quarteirão Rosa”, este já nos anos 80. Dissipou-se, assim, neste processo de
construção descontínuo e inacabado alguns dos pressupostos que fizeram do
Plano do Restelo uma das mais importantes experiências urbanísticas em
Portugal.
No entanto, as contribuições que o Plano do Restelo encetou foram
atingidas no essencial, e onde o conceito de que o “processo também
desenha”, foi melhor desenvolvido, que viria a ser aplicado nas políticas
habitacionais pela mão de Nuno Portas, como Secretário de Estado da
Habitação, como referimos no capítulo II. Por outro lado constituiu uma
oportunidade para recuperar o pensamento urbanístico da cidade histórica,
retomando o caminho correcto a adoptar no futuro, por isso Nuno Portas
refere, em jeito de balanço, que a “nossa aposta está muito mais no que une
os elementos de um ambiente urbano do que naquilo que os separa e, como
aquela foi a característica da Cidade histórica, era difícil que não resultassem
dela – apesar de tudo o que diferencia os contextos históricos – certas
caracteristicas morfológicas que, pelo menos superficialmente, se podem
aparentar com alguns traçados de bairros antigos das colinas da Cidade ou
___________________
80| Os autores do plano particularizam a justificação para esta área multifuncional, confessado o risco devido à falta de
exemplos similares em Portugal. Ver: Projecto para a Área Central – Justificação. Arquitectura 130. Mai. 1974. p.19-20.
207
Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo
com o ambiente arquitectónico das ruas modernistas do tempo e influência de
Cassiano Branco – apenas porque não havia maior razão para procurar o
contrário.” 81
___________________
81| PORTAS, Nuno – Posfácio por Ocasião da Publicação em Revista do Projecto para o Restelo. Arquitectura 130.
Mai.1974. p.23.
209
CONCLUSÃO
Tenho procurado desmistificar esta ideia iluminada dos arquitectos de que
são eles que dispõem do mundo das formas. De facto, os arquitectos
ainda que estejam muito convencidos que dispõem livremente da
capacidade de criar formas não dispõem da “língua”, do mesmo modo que
um escritor não dispõe da linguagem, a não ser na maneira como a
trabalha, na maneira até como a vicia ou a critica mas, na realidade, a
língua está estruturada, a língua corresponde a determinadas estruturas
profundas e não se inventa em cada livro que se escreve. Para efeitos de
comparação, ponho aqui a tipologia [da trama urbana ou da edificação] no
lugar da semântica e da sintaxe de uma língua.
PORTAS, Portas. Arquitectura 135. 1979.
Percebemos ao longo deste trabalho, que Nuno Portas estabeleceu
variados diálogos multidisciplinares – os diálogos ao estirador; os diálogos com
as pessoas dos inquéritos do LNEC; os diálogos com os seus alunos; os
diálogos nos congressos de arquitectura... – na procura da arquitectura que
vale a pena fazer mas, sobretudo, o como e o porquê de fazer essa
arquitectura. No fundo, uma arquitectura que não fosse em si mesmo apenas
uma linguagem, “um mundo de formas”, mas que procurasse a sua semântica1
tendo como suporte uma sintaxe2.
Nuno Portas precocemente percebeu que o caminho a percorrer, não era
a constante reformulação das linguagens arquitectónicas mas sim a sua
estruturação
sintáctica.
E
para
isso
desde
o
início
defendeu
uma
multidisciplinaridade entendida e relacionada através de um “plano de
metodologia”
3
, como instrumento de conexão entre o arquitectar e os
processos de conhecimento da realidade.
____________________
1| Semântica: [Na Linguística] Ramo da linguística que estuda o significado das palavras. [Na Lógica] Estudo das
relações entre os signos e os seus referentes.
2| Sintaxe: [Na Linguística] Ramo da linguística que se dedica ao estudo das regras e dos princípios que regem a
organização dos constituintes das frases. [Na Informática] Conjunto de regras que regem a escrita de uma linguagem
de programação.
3| Ver: Capítulo 2. A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas. p.85.
211
Conclusão
O plano metodológico que aspirou a implementar na disciplina
arquitectónica revelou-se, então, inicialmente nos seus textos e na crítica, num
período onde a teoria de arquitectura era olhada com desconfiança ou
descrédito, pelos seus colegas. Portas pautou-se sempre por este espírito de
fazer o que ainda não estava feito, como o demonstrou prontamente com o seu
seminal CODA, “A Habitação Social, proposta para a metodologia da sua
arquitectura”.
Os escritos que Nuno Portas foi produzindo ao longo do tempo – a
crónica, o ensaio, a entrevista, o relatório, a notícia, o comentário –, ou então,
os seu dois livros A Arquitectura para Hoje e a Cidade como Arquitectura,
cristalizaram um conhecimento resultante de uma atitude reflexiva, de
constante e obssessiva investigação, aliada a uma frontalidade e pertinência
com que abordou uma multiplicidade de temas, reinterpretando o passado e o
presente, apontando os caminhos para o futuro e aspirando sempre à
democratização da arquitectura com textos incitadores do debate público da
arquitectura.
Uma teoria crítica, de palavras escolhidas a dedo, pondo preto no branco
uma investigação cada vez mais ambiciosa nos objectivos e na escala. Um
conhecimento produzido entre as ideias de outros autores cruzadas com as
ideias próprias, sempre na procura do que está por revelar, sobre o que não é
evidente mas está presente. A teoria de Nuno Portas foi/é, assim, seminal e
fomentadora, feita de revelações provenientes de um plano metodológico,
desmultiplicado ao longo do tempo em vários níveis: crítico, de ensino, de
investigação ou de concepção.
No entanto, foi com a criação do Departamento de Construção e
Habitação
do
LNEC,
que
concretizou
o
impulso
decisivo
para
o
desenvolvimento da ansiada lógica científica que pudesse fundamentar a
produção urbanística e arquitectónica.
A investigação de Laboratório permitiu a Nuno Portas atingir uma
metodologia projectual baseada no trabalho multidisciplinar e chegar à sua tão
defendida expressão de que o “processo também desenha”, sublinhando,
contudo, que não sendo possível controlar todo o processo – dada a
213
Conclusão
quantidade de factores envolvidos – nas diferentes tipologias de edificação, a
concepção dos projectos deveria ser encarada numa lógica evolutiva, ou seja,
de “obra mais ou menos aberta”4. Portas desenvolveu, então, um pioneiro
trabalho no campo da habitação social, que se revelaria precioso, no combate
ao défice de habitação em Portugal, quando por fim, é nomeado Secretário de
Estado da Habitação e Urbanismo, em 1974.
Toda a investigação desenvolvida no LNEC, prolongou-se na breve
carreira como docente na ESBAL, onde defendeu a implantação da referida
estruturação sintáctica da arquitectura a partir do ensino académico. A didáctica
da disciplina arquitectónica deveria então conceder aos arquitectos, e a todos
os intervenientes do processo projectual, os instrumentos necessários – a
sintaxe e a semântica arquitectónica – para o desenvolvimento do que Portas
designou de meta-projecto.
E se estas várias “facetas do poliedro arquitectónico”
5
de Nuno Portas,
aqui resumidas, nos deram as pistas do como e o porquê, o seu exercício
projectual no atelier da Rua da Alegria, permitiu-nos descobrir qual foi a
arquitectura que valeu a pena fazer. Uma arquitectura não de receitas, mas de
uma incontornável pesquisa caso a caso, programa a programa, onde a obra
entrava em diálogo com o sítio, com as disponibilidades técnicas e materiais e,
sobretudo, com o modo de vida das pessoas.
Uma arquitectura de permanente revisão arquitectónica, que a crise
línguística do Movimento Moderno, primeiro, e a crise da Cidade Funcionalista
depois, promoveram. E que despoletaram um diálogo de Nuno Portas com a
realidade portuguesa e com a história, na recuperação do conceito wrightiano
de construção do espaço, e na procura, num primeiro momento, de linguagens
arquitectónicas, por vezes díspares, comprovadas pelo experimentalismo do
betão na casa de Sesimbra, pelo detalhe scarpiano na casa de Vila Viçosa ou
pelos vazios urbanos smithsonianos da Igreja do Sagrado Coração de Jesus.
____________________
4| Ver: Capítulo 2. A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas. p.117.
5| Ver: Capítulo 2. A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas. p.57.
215
Conclusão
Obras que colocaram o atelier da Rua da Alegria na vanguarda da arquitectura
no Portugal da década de 1960.
Este foi um exercício projectual construído no diálogo crítico com a
investigação, o ensino e a teoria, e que o conduziu a superar as referidas
“linguagens arquitectónicas” de edifícios ou bairros isolados, para passar a
defender uma meta-arquitectura à escala da cidade, a “malha como geradora”
que os diferentes intervenientes e as múltiplas arquitecturas se encarregariam
de preencher ao longo do tempo. No fundo, o retornar ao “projecto do chão” do
século XIX, de que o Plano Pormenor do Restelo constituiu um exemplo.
O percurso de Nuno Portas que descrevemos ao longo destes 17 anos, foi
revelador desta meta-morfose de arquitecto formalista [do edifício] para
arquitecto estruturalista [da cidade], transformação confessada pelo próprio ao
afirmar-se “nos cinquenta-e-tal como arquitecto e aparecer mais tarde como
urbanista teórico-prático [mais teórico que prático]” 6, como constatação do “que
a intuição, a imaginação, a temeridade, podem resolver na pequena escala da
intervenção isolada já o não pode fazer, nem sozinho nem sem complexos
justificativos na intervenção urbanística.” 7 Portas transformou-se, assim, numa
personagem ambígua, que tenta perceber e conectar o melhor de dois mundos,
entre a arquitectura e o urbanismo, na procura da ansiada forma urbis.
E em boa hora a metamorfose sucedeu, como o seu amigo Solà-Morales
ressaltou: “el urbanismo de este siglo XXI necesita desesperadamente de esta
inteligencia, de este espiritu de ingeniero de la NASA y de alquimista medieval
que subyace en la reflexión de NP. Necesitamos su punto de vista previlegiado,
porque es autoconstruido, y por tanto independiente, y por tanto original.
Desperdiciar este capital, perderlo entre brumas de litigios personales o en el
acomodamiento a la mediocridad del medio disciplinar, sería imperdonable. Los
trabajos [...], nos explican el valor pasado de su punto de vista: pero todo
importa lo que vale hoy.” 8
____________________
6| PORTAS, Nuno – Do Astro à Nebulosa, do Nó à Malha, da Malha aos Nós. In: Arquitectura[s], Teoria e Desenho,
Investigação e Projecto. 2005. p.76.
7| Ibidem, p.76.
8| SOLÁ-MORALES, Manuel de – El Hombre que Sabía Demasiado. In: Os Tempos das Formas, volume I: A Cidade
Feita e Refeita. 2005. p.8.
217
Conclusão
No epílogo destes diálogos, resta-nos ressaltar que os textos, a
investigação, a arquitectura e, por último, o urbanismo de Portas, continuam a
dar pistas sobre os caminhos a seguir no futuro. O conhecimento, teórico e
prático, que produziu e desenvolveu em tempos conturbados, como os que
vivemos contemporaneamente, tem a força das ideias metodológicas e não
intuitivas, restando-nos ter a coragem e a generosidade para as perceber e
reinterpretar, tal como Nuno Portas o fez com outros autores, produzindo com
isso novos diálogos e novos caminhos, que seguramente contribuirão para uma
arquitectura como motor do progresso social e cultural.
219
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5| HEUVEL, Dirk van den, RISSELADA, Max, coord. – TEAM 10 1953-81 – In Search of a Utopia of the Present, p.33.
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7| HEUVEL, Dirk van den, RISSELADA, Max, coord. – TEAM 10 1953-81 – In Search of a Utopia of the Present, p.168.
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19| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.63.
20| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.165.
21| Arquitectura 81, 1964, p.6.
22| TÁVORA, Fernando – Da Organização do Espaço, 1963, Capa.
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24| MILHEIRO, Ana Vaz, coord. – Arquitectos Portugueses Contemporâneos.
25| MILHEIRO, Ana Vaz, coord. – Arquitectos Portugueses Contemporâneos.
Capítulo II
26| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.47
27| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.140-141.
28| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.156-157.
29| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Capa.
30| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II.
31| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II.
32| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.158-159.
33| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II.
34| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II.
35| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II.
36| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II.
37| Arquitectura 59, 1957, p.23; Arquitectura 60, 1957, p.20; Arquitectura 64, 1959, p.32; Arquitectura 68, 1960, p.13;
Arquitectura 69, 1960, p.48; Arquitectura 77, 1963, p.16; Arquitectura 89-90, 1965, p.141; Arquitectura 93, 1966, p.115;
Arquitectura 97, 1967, p.111;
38| Zevi, Bruno – História da Arquitectura Moderna, Capa.
39| http://www-ext.lnec.pt/LNEC/museuvirtual/index.html
40| PORTAS, Nuno – Relato Sucinto dos Contactos Estabelecidos por Ocasião do Congresso da U.I.A, Paris, Julho
1965, Capa e p.10.
231
Fontes das Imagens
41| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura, 3ª edição, p.170 e 174.
42| PORTAS, Nuno – Arquitectura para Hoje, Capa.
43| PORTAS, Nuno – Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal, Capa.
44| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura, 1ª edição, Capa.
45| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura, 3ª edição, Capa.
46| PORTAS, Nuno – Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal, p.147-148.
47| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura, 3ª edição, p. 59 e 61.
48| Arquitectura 103, Junho 1968, p.127-128.
49| PORTAS, Nuno – Funções e Exigências de Áreas de Habitação, Capa.
50| PORTAS, Nuno – Funções e Exigências de Áreas de Habitação, p.14.
51| Arquitectura 126, Outubro 1972, p.100.
52| MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno, p.130.
53| Arquitectura 126, Outubro 1972, p.111-113 e 116.
54| AFONSO, João, MILHEIRO, Ana Vaz – Nuno Portas: Prémio Sir Patrick Abercrombie: Prize UIA 2005, p.4.
Capítulo III
55| Arquitectura 81, 1964.
56| Arquitectura 81, 1964, p.11 e 13
57| http://www.bing.com/maps/#Y3A9MzguNzYzNDY0MTMzMDE2MTY0fi05LjExNTkyOTYwMzU3NjY1OCZsdmw
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58| Arquitectura 127-128, 1973, p. 59.
59| http://www.bing.com/maps/#Y3A9MzguNzYzNDY0MTMzMDE2MTY0fi05LjExNTkyOTYwMzU3NjY1OCZsdmw
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60| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. p.172-173.
61| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.173.
62| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.173.
63| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.169.
64| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.169.
65| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.168.
66| Fotografias do Autor, 2011.
67| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.29 e 173.
68| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.54 e 173.
69| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira.
70| Fotografia do Autor, 2011.
71| Fotografia do Autor, 2011.
72| Fotografias do Autor, 2011.
73| Arquitectura 79, 1963, p.11.
74| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.189.
75| Arquitectura 79, 1963, p.3.
76| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.179.
77| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.180.
78| Arquitectura 79, 1963, p.12-13.
79| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, pp.186 e 187.
80| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, pp.182 e 183.
81| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.184.
82| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.184.
83| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.184.
84| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.188.
85| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.188.
233
Fontes das Imagens
86| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.188.
87| Arquitectura 93, 1966, p.117-119.
88| Arquitectura 79, 1963, p.6, 8 e 10.
89| Arquitectura 123, 1971, p.165.
90| Arquitectura 123, 1971, p.173.
91| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.198-199.
92| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.197.
93| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.200.
94| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.192 e 195.
95| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.196;
Arquitectura 123, 1971, p.167.
96| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.205
97| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.203-204.
98| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.203-204.
99| Fotografias do Autor, 2011.
100| Fotografias do Autor, 2011.
101| Arquitectura 123, 1971, p.182.
102| http://www.bing.com/maps/#Y3A9MzguNzA0ODg1NTEwMDA0Mzd+LTkuMjA2Njg0MTY4Njg4ODgmbHZsPTE4Jn
N0eT1y
103| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.214-215.
104| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.215.
105| Arquitectura 123, 1971, p.182.
106| Arquitectura 123, 1971, p.184-185.
107| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.212-213.
108| Arquitectura 123, 1971, p.178.
109| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.216 e 221.
110| Arquitectura 130, 1974, p.13.
111| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.217.
112| KRÜGER, Mário – Leslie Martin e a Escola de Cambridge.
113| AFONSO, João, MILHEIRO, Ana Vaz – Nuno Portas: Prémio Sir Patrick Abercrombie: Prize UIA 2005, p.28-30.
114| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.220-221.
115| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.218.
116| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.222-223.
235
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Nuno Portas Diálogos entre teoria e prática [1957