Nuno Portas Diálogos entre teoria e prática [1957-1974] Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura por Carlos Miguel Freire Campos Apresentada ao Departamento de Arquitectura [Darq], Faculdade Ciências Tecnologia Universidade Coimbra, 2011 Orientação do Prof. Doutor Nuno Alberto Leite Rodrigues Grande Nuno Portas Diálogos entre teoria e prática [1957-1974] Agradecimentos, Ao Professor Doutor Arquitecto Nuno Grande, pela generosa e paciente orientação. Aos Pais, pela ajuda e apoio na caminhada até aqui. Aos Amigos, pela amizade e companheirismo na minha odisseia universitária. E à Carolina... um obrigado especial por tudo, e pelo mais que virá. Índice Introdução 3 1| O contexto 11 1.1. Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana 13 1.2. O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria 27 2 | A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas 53 2.1. A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] 61 2.2. A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBA Lisboa [1965-71] 89 2.3. Da A Arquitectura para Hoje [1964] para A Cidade como Arquitectura [1969] 105 2.4. A “via evolutiva” de investigação no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] 113 3 | Obras 139 3.1. Olivais-Norte | Olivais-Sul 147 3.2. Casa Metelo | Casa Dr. Barata Santos | Casa Brás de Oliveira 161 3.3. Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada 175 3.4. Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo 189 Conclusão 211 Bibliografia 221 Fontes das Imagens 231 INTRODUÇÃO Viagem Nunca Feita Foi por um crepúsculo de vago outono que eu parti para essa viagem que nunca fiz. [...] Eu não parti de um porto conhecido. Nem hoje sei que porto era, porque ainda nunca lá estive. Também, igualmente, o propósito ritual da minha viagem era ir em demanda de portos inexistentes – portos que fossem apenas entrar-para-portos; enseadas esquecidas de rios, estreitos entre cidades irrepreensivelmente irreais. Julgais, sem dúvida, ao ler-me, que as minhas palavras são absurdas. É que nunca viajastes como eu. [...] PESSOA, Fernando – Livro do Desassossego. 1982. p.90. 3 Figura 1| Nuno Portas Introdução Em “Viagem Nunca Feita”, Fernando Pessoa escreve que “o propósito ritual da minha viagem era ir em demanda de portos inexistentes”. Nuno Portas foi/é um pensador com o mesmo propósito. A ânsia e a curiosidade do saber encetou-o, desde muito jovem, a partir em busca do conhecimento que estava por descobrir, compilar ou associar, da crítica que estava por escrever, da arquitectura que estava por redesenhar, das lições que estavam por ensinar, da investigação que estava por desenvolver ou das políticas que estavam por implementar... Nuno Portas foi/é um descobridor de novos portos, e muitas das vezes, “por caminhos dantes nunca navegados”. Entre o final dos anos 50 e os meados dos anos 70, Nuno Portas navegou numa multiplicidade de mares na procura de descobrir novas rotas, resultante de um inconformismo, característico duma época em que todas as possibilidades estavam em aberto na arquitectura, perante um Movimento Moderno em decadência, que não acompanhava as mudanças políticas, sociais, económicas e culturais. Diriamos que Nuno Portas nasceu na época certa, tomando para si as ânsias e frustrações da sua geração, sabendo acima de tudo compreender o seu tempo, o contexto português e internacional onde se movimentava, ou seja, “tomar a realidade como instância da génese arquitectónica um princípio, pressentido como essencial, mas perigoso, vistos os desequilíbrios e tanta imobilidade com que vivemos.”1 ____________________ 1| PORTAS, Nuno – A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal. 2008. p.19. 5 Introdução Nuno Portas encarnou, assim, o génio português, na aventura de descobrir o desconhecido, na generosidade e coragem com que desvendou a imensa cultura internacional influenciando o contexto português. Falamos de um arquitecto com vários “heterónimos”, que decobrimos ao analisar o percurso, académico e profissional, errante [mas lúcido] e desassossegado que o impulsionou a viajar, na literalidade do termo, para o bairro do Triburtino em Roma, para os congressos da UIA em Paris, pelos vazios do The Economist, em Londres, ou pelas barriadas de Lima, no Peru, na procura de “saber que arquitectura vale a pena fazer.” 2 Do crítico na revista Arquitectura a professor na ESBAL, do investigador no LNEC ao político dos Governos Provisórios... Nuno Portas desmultiplicou-se no desenvolvimento de conhecimento teórico e conceptual, tendo como “porto de abrigo”, entre 1957 e 1974, o Atelier da Rua da Alegria e o exercício projectual na “realização de uma arquitectura que saiba «o que fazer».” 3 Qual foi, então, a arquitectura que valeu a pena fazer? Como e porquê fazê-la? E quais os mares por onde Portas navegou para chegar a ela? A dissertação que apresentamos incidiu, no estudo deste arco temporal de 17 anos de Nuno Portas no atelier da Rua da Alegria, procurando perceber de que forma os seus “heterónimos arquitectónicos” influíram na singularidade da obra do atelier e na revisão da disciplina arquitectónica operada em Portugal. Por outras palavras, utilizando termos da cibernética, tentamos perceber como o software acumulado por Nuno Portas, influiu no hardware que constituiu as obras do Atelier da Rua da Alegria. Neste sentido, a investigação desenvolve-se em 3 capítulos, tendo como o pano de fundo, as obras a analisar no último capítulo. O capítulo I, desdobra-se em dois momentos entre a produção arquitectónica internacional e nacional. Um primeiro momento onde desejamos perceber de que forma, a crise gerada no debate da doutrina do Movimento ____________________ 2| Ibidem, p.17. 3| Ibidem, p.17. 7 Introdução Moderno, se desmultiplicou em diversas vias críticas europeias, focando-nos nas vias inglesa e italiana, as mais influentes no contexto português. O segundo momento descreve-nos um conjunto de transformações arquitectónicas e urbanas operadas em Portugal ao longo das décadas 50, 60 e 70, despoletados com o Congresso Nacional de Arquitectura de 1948, e onde a revista Arquitectura e o atelier da Rua da Alegria, tiveram um papel essencial no desenrolar destas transformações. No capítulo II, pretende-se analisar o percurso multidisciplinar de Nuno Portas, que pautou o período de projectista no Atelier da Rua da Alegria entre 1957 e 1974. Nesse período Portas encontrou na revista Arquitectura, na Divisão de Construção e Habitação do LNEC e na ESBAL, os espaços complementares da prática projectual desenvolvida no atelier e que terminaria com a sua passagem para Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, nos três primeiros Governos Provisórios, pós 25 de Abril de 1974. No capítulo III, procede-se à análise e interpretação das obras mais significativas do atelier da Rua da Alegria, no período abrangido, de modo a perceber como foram influenciadas, teórica e conceptualmente, pela investigação de Nuno Portas. As obras selecionadas englobam quatros programas arquitectónicos: a habitação social: Olivais Norte e Olivais Sul; a habitação unifamiliar: Casa Metelo, Casa Brás de Oliveira e Casa Dr. Barata dos Santos; o equipamento religioso: a Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus e a Igreja Paroquial de Almada; e a finalizar a escala urbana: o Centro Comercial de São Sebastião e o Plano de Pormenor do Restelo. Pretendemos assim os diálogos entre teoria e prática de Nuno Portas. 9 Capítulo I O Contexto Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana Nos anos de 1950, a situação político-cultural na Europa vivia marcada pelo segundo pós-guerra. O rescaldo desse período difícil originou um ambiente de grande agitação social onde a mudança dos sistemas políticos para Estados-Providência [Welfare State] e o crescimento económico verificado [com o binómio produção-consumo], caracterizavam a nova realidade económico-social europeia. Foi um tempo de libertação, com um vivo debate em todos os quadrantes da sociedade, marcado por uma elite, cultural e intelectual, com nova consciência social e artística. Toda esta agitação reflectiase no campo da arquitectura.1 Nesse período a arquitectura debatia-se no seio dos importantes encontros dos Congrés Internationaux d'Architecture Moderne [CIAM], onde ao longo de três décadas, arquitectos de diversos países desenvolveriam e propagariam os princípios programáticos do Movimento Moderno. Esta instituição elitista defendia uma doutrina onde o Homem e o paradigma da Máquina assumiam o protagonismo, e através de um ortodoxo e rigoroso método projectual, procurava reformular a sociedade pela arquitectura e pelo urbanismo2. Segundo Kenneth Frampton, entre 1928 e 1956 os CIAM percorreram três fases3. Em linhas gerais, numa primeira fase [1928-33] os encontros foram dominados pelos arquitectos alemães socialistas da Neüe Sachlichkeit [Nova Objectividade], centrados no debate do tema Existenzminimum, na procura dos padrões mínimos para a habitação adaptados à vida do Homem Moderno. A segunda fase [1933-47], foi dominada pela personagem de Le Corbusier, e pela _______________ 1| OLMO, Carlo – Themes and Realities of the Reconstruction. Rassegna 54. 1993. p.7. 2| MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.12. 3| FRAMPTON, Kenneth – História Crítica da Arquitetura Moderna. 2003. p.327. 13 Figura 2 | Participantes do CIAM IV em Atenas, 1933. Figura 3 | Aldo van Eyck, Alison e Peter Smithson e Jaap Bakema, anunciando a dissolução dos C.I.A.M., Otterlo, 1959 Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana doutrina urbana consagrada pela Carta de Atenas4. Na terceira e última fase, além da temática do Habitat constituir o foco de debate, emergiu uma geração de jovens arquitectos e estudantes presentes nestes concorridos encontros, os quais, progressivamente, demonstraram a sua insatisfação com a rígida doutrina dos mestres e com os princípios simplificadores da Carta de Atenas, pretendendo introduzir uma ideologia heterodoxa que permitisse responder aos complexos problemas sociais, culturais e urbanos. É neste contexto de conflito entre gerações e de uma solicitada revisão crítica no interior dos CIAM, que em Aix-en-Provence, no IX congresso [1953], se formou um grupo de jovens constituído por Alison e Peter Smithson, Aldo van Eyck, Jaap Bakema, George Candilis, Rolf Gutman, Jill Howell, Jonh Voelcker e Shadrac Woods5. Este grupo de arquitectos, da chamada terceira geração6, ficaria responsável pela organização do derradeiro CIAM X em 1956, na cidade de Dubrovnik [Jugoslávia], e após a dispersão dos CIAM, passariam a denominar-se como Team 10. Este comité criticava “o formalismo da Carta de Atenas, reclamando para resolver o tema do Congresso – o Habitat – que fosse introduzido o conceito de 'identidade' e investigado de acordo com os princípios estruturais do crescimento urbano” 7, para o Team 10: “tratava-se de propor uma utopia do possível, aceitando os gostos e as necessidades das pessoas”8, contrariamente à doutrina dos CIAM, que defendia a mudança radical do modo de vida das pessoas através duma arquitectura racional. Iniciava-se, então, a lenta dissolução dos ortodoxos CIAM, consumada em 1959, contudo prevaleceria a vontade de reformular e enriquecer uma “nova tradição moderna” 9 , como confirmaria a heterogeneidade das formas arquitectónicas que emergiram na segunda metade do século XX, através de grupos e personagens de diversos contextos culturais. ____________________ 4| Redigida a bordo do cruzeiro SS Patris II, no CIAM IV [1933], a Carta de Atenas constituiu o documento mais emblemático destes congressos. Era um manifesto para uma genérica Cidade Funcional, com quatro categorias bem definidas: trabalho, residência, circulação e descanso. Foi traduzida para português, por Nuno Teotónio Pereira, e publicada em 12 fascículos da revista Arquitectura 20, Fev. 1948, à Arquitectura 32, Out. 1949. 5| BOSMAN, Jas – CIAM After the War: a Balance of the Modern Movement. Rassegna 52. 1992. p.15. 6| Os arquitectos desta geração procurariam conciliar a continuidade com a revisão das ideias dos mestres do Movimento Moderno. MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.36. 7| MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.30. 8| Ibidem, p.30. 9| Ibidem, p.30. 15 Figura 4 | “A via inglesa” - Alison e Peter Smithson, The Economist [1963-67] Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana O Team 10 seria o grupo mais influente no desenvolvimento desta “nova tradição moderna”. Tratava-se de um grupo plural, que resultava da multiplicidade de culturas e ideias dos seus membros, com um método de trabalho pragmático, empírico e antidogmático. O Team 10 centrava-se na investigação dos princípios básicos do desenvolvimento urbano, que representasse a verdadeira complexidade das relações humanas, na procura de uma arquitectura onde ‘identidade’, ‘comunidade’ e ‘vizinhança’ fossem conceitos presentes10. Através dos elementos do seu ‘núcleo duro’, o Team 10 seria gerador de diversas vias críticas europeias11 – na via holandesa, Aldo van Eyck e Jaap Bakema; na francesa, Georges Candilis e Shadrach Woods; na italiana com Giancarlo de Carlo; e na inglesa com o casal Alison e Peter Smithson – procurando despoletar uma reinterpretação e revisão crítica do Movimento Moderno. E apesar do contraste de visões que cada colectivo expunha, todos estes arquitectos defendiam uma revisão que conciliasse os princípios modernos com o contexto e a cultura onde se inseria; voltando a olhar para a história, numa tentativa de reconciliação com o passado e colocando a arquitectura novamente no trilho evolutivo da história com um ponto essencial: a reformulação da cidade e do planeamento urbano, perante o falhanço da cidade funcionalista. Centremo-nos, pois, nas vias críticas que, como veremos, mais influência tiveram no contexto português. A Inglaterra surgia na linha da frente da revisão crítica ao Funcionalismo, expressas no academismo e nas obras de arquitectos como Leslie Martin, Peter Moro, Denys Lasdun, Patrick Hodgkinson, James Stirling e o colectivo Lyons, Israel e Ellis; com o despoletar do “New Brutalism”12, identificado pelo crítico Reyner Banham, e nas propostas teóricas e práticas do casal Smithson. ____________________ 10| COLQUHOUN, Alan – La arquitectura moderna, una historia desapasionada. 2005. p.218-219. 11| GRANDE, Nuno; PORTAS, Nuno – Entre a crise e a crítica da cidade moderna – a experiência portuguesa no contexto internacional. In: Lisboscóspio. 2006. p.66. 12| A arquitectura do neo-brutalismo era caracterizada pelos elementos estruturais totalmente aparentes e pela valorização dos materiais, nas suas qualidades inerentes. A Escola de Hunstanton [1949-54] seria a sua primeira expressão prática e teria o seu epílogo com o projecto The Economist [1963-67], ambos pelo casal Smithson. MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.73. 17 Figura 5 | Alison e Peter Smithson, o conceito de cluster e “the building as a street”, Golden Lane, 1952 Figura 6 | Alison e Peter Smithson, Robin Hood Gardens [1962-72] Figura 7 | Candilis, Josic e Woods, em Toulouse-le-Mirail [1962-75] Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana Alison e Peter Smithson, em reacção às new towns13 inglesas, criticavam a tábua rasa da Carta de Atenas e as suas categorias funcionais – trabalho, residência, circulação e descanso – recuperando para o discurso disciplinar uma hierarquização banida pela ortodoxia moderna – casa, rua, bairro e cidade – que se adaptava ao contexto urbano e consequentemente à cidade histórica. Repôs a criação de modelos de associação específicos para cada lugar, que proporcionavam relações de vizinhança e de pertença, num complexo conceito a que chamaram cluster 14, como o demonstraram no estudo para Golden Lane em 1952. Neste conjunto habitacional, o casal Smithson, apresentavam a casa como unidade principal, colocando a rua acima do nível do solo – the building as a street; a ideia era criar extensas galerias que percorriam todo o edifício, formando uma série de ‘lugares’ urbanos ao ar livre para a vida em comunidade, e onde “o bairro e a cidade eram vistos como domínios váriáveis que ficavam fora dos limites de definição física” 15. No entanto, esta cidade de múltiplos níveis desenhada através desta ‘rede rizomática’ de percursos e plataformas aéreas – que seria construída em Robin Hood Gardens [1962-72] e por propostas de outros arquitectos como em Sheffield, Park Hill [1961-62] de Jack Lynn e Ivor Smith ou nas obras de Candilis, Josic e Woods, em Toulouse-le-Mirail [1962-75] e na Universidade de Berlim [1962-70] – tinha as suas limitações devido à difícil continuidade com as ruas ao nível do chão. Um esboço do próprio casal Smithson demonstraria que a partir do sexto andar, o contacto com o solo era inexistente, o que justificava a aproximação aos modelos de ‘baixa altura, alta densidade’, nos anos 60, no desenvolvimento da habitação familiar europeia16. Voltaremos a este tema na abordagem ao contexto português e particularmente com o Plano Pormenor do Restelo. ____________________ 13| A new tows foi uma operação urbana despoletada pelo Welfare State britânico, em 1945, na reconstrução do II pósguerra, com o objectivo de controlar o crescimento de Londres, construindo novas cidades em seu redor, na continuidade da tradição da cidade-jardim. Stevenage [1946] e Harlow [1947], constituíram os exemplos mais significativos destas novas cidades. Ver: MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.72. 14| Este e outros conceitos, desenvolvidos no seio de reuniões do Team 10, foram compilados no texto Urban Structuring, editado em 1967, pelo casal Smithson. TEAM 10 1953-81 – In Search of a Utopia of the Present. 2006. 15| FRAMPTON, Kenneth – História Crítica da Arquitetura Moderna. 2003. p.331. 16| FRAMPTON, Kenneth – História Crítica da Arquitetura Moderna. 2003. p.330-331. 19 Figura 8 | A “via italiana” – INA-Casa, Ludovico Quaroni e Mario Ridolfi, Bairro Triburtino [1950], Roma Figura 9 e 10 | Bruno Zevi, Verso un’ Architettura Organica [1945] e Storia dell’ Architettura Moderna [1950] Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana Noutra “via”, a destruída Itália do pós-guerra, encontrava-se num complexo processo de reestruturação política, económica e social. A este panorama, e depois de duas décadas de compromisso com o fascismo de Mussolini, os arquitectos italianos respondiam com debates ideológicos na procura de novas interpretações para a tradição moderna, despoletando diversas correntes pelo país, do neo-realismo de Roma ao neo-liberty entre Milão e Turim17. No Norte de Itália, surgia uma arquitectura elitista e delicada, baseada num regresso à tradição, no sublinhar das qualidades dos materiais, num universo artesanal e ornamental, disperso por várias cidades e personagens – BBPR18, Ignazio Gardella, Franco Albini, ou posteriormente, Carlo Ayomino, Gae Aulenti ou Aldo Rossi. Por outro lado, em Roma, surgia pela mão dos arquitectos Ludovico Quaroni, Mario Ridolfi, Mario Fiorentino entre outros, uma corrente neo-realista – expressa também nas artes plásticas, na literatura ou no cinema – que propunha uma arquitectura com linguagem popular e acessível, materializada a partir do “Piano Fanfani”, posto em prática em 1949, pelo governo italiano para colmatar as carências de habitação e promover o emprego. A construção dos bairros de habitação pelo programa INA-Casa [Instituto Nazionale Assicurazione]19, constituiria um laboratório de investigação tipológica e morfológica de cariz contextualista que influenciaria a produção arquitectónica europeia, inclusive o contexto português. No campo da teoria da arquitectura italiana, os livros e artigos de Ernesto Nathan Rogers e Bruno Zevi, entre outros, resultariam numa referência da cultura arquitectónica dos anos 50 e 60, influenciando várias personagens por toda a Europa. Em Roma, ainda em 1945, Bruno Zevi através dos seus editoriais na revista Metron e com a publicação dos livros “Verso un’ Architettura Organica” e “Storia dell’ Architettura Moderna” propõe uma arquitectura organicista ____________________ 17| COLQUHOUN, Alan – La arquitectura moderna, una historia desapasionada. 2005. p.185-186. 18| Grupo de arquitectos milaneses, constítuido por Gian Luigi Banfi [1910-1945], Ludovico Barbiano Belgiojoso [19092004], Enrico Peressutti [1908-1976] e Ernesto Nathan Rogers [1909-1969]. De destacar, o projecto da Torre Velasca [1951-57], construída em Milão. MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno. 2001. p.100-101. 19| TAFURI, Manfredo – Architettura Contemporanea. 2005. p.288 e 326. 21 Figura 11 | Reyner Banham, Neoliberty. The Italian Retreat from Modern Architecture, Abril 1959. Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana e humanista, ao contrário do carácter racional e funcional apregoado pelo Movimento Moderno, invocando os mestres Frank Lloyd Wright e Alvar Aalto, e o “new empirism” da arquitectura nórdica como “vias” pós-racionalistas, a seguir. Zevi anunciava assim, pela sua APAO [Associação para a Arquitectura Orgânica], uma “arquitectura para o homem, moldada segundo a escala humana e segundo as necessidades espirituais, psicológicas e actuais do homem em actividade. A arquitectura orgânica, tem por objetivo, a antítese da arquitectura monumental que serve a mitificação do Estado.” 20 Por seu lado, Ernesto N. Rogers, o R do colectivo BBPR, nos seus editoriais da revista Casabella-Continuitá, definiu alguns dos pontos-chave do pensamento arquitectónico italiano, defendendo uma Continuitá dos princípios modernos, numa resposta formal ao contexto histórico e espacial italiano, com o objectivo de resolver a relação com a história e a tradição, mas também com a cidade existente. No entanto se Rogers defendia a continuidade do movimento moderno, era o primeiro a despoletar a sua crise, no sentido progressivo, na ânsia de construir uma nova teoria e prática arquitectónica. Para Rogers era “preciso aprofundar as razões do Movimento Moderno, distinguindo as que surgiram por motivos contingentes, e que tiveram assim uma duração limitada, das que podem ambicionar a uma maior duração porque implicam conteúdos essenciais.” 21 Em 1959, Rogers estaria envolvido num momento-chave do debate entre os dois campos mais consequentes na Europa, o inglês e o italiano, quando respondeu ao artigo de Reyner Banham, “Neoliberty. The Italian Retreat from Modern Architecture”. Banham, defensor da integração dos inovadores aspectos técnicos na arquitectura, acusou os arquitectos italianos de uma atitude lamentável ao seguirem a via do revivalismo e que a arquitectura italiana não havia correspondido às expectativas do pós-guerra, com o neoliberty mas também com o neo-realismo, terminando o artigo a afirmar: “mesmo para os padrões puramente locais de Milão e Turim, o neo-liberty é uma ____________________ 20| COLQUHOUN, Alan – La arquitectura moderna, una historia desapasionada. 2005. p.186 [tradução do autor]. 21| ROGERS, Ernesto Nathan – Continuidade ou crise. In: Teoria e Crítica de Arquitectura Século XX. 2010. p.385. 23 Entre a crise internacional dos CIAM e as vias críticas inglesa e italiana regressão infantil”.22 Apesar de não estar completamente ao lado da neo-liberty, Rogers viria a ripostar prontamente, em “L'evoluzione dell'Architettura. Risposta al custode dei frigidaires”, na revista Casabella. Em defesa dos arquitectos italianos, Rogers alegava que o regresso à tradição histórica era útil na reformulação dos princípios modernos, para proceder a “uma revolução contínua”.23 A troca de artigos entre Rogers e Banham evidenciou o aceso debate entre as duas principais e divergentes “vias” críticas europeias. Se por um lado os arquitectos ingleses potenciavam uma visão tecnicista, propondo a revisão dos princípios modernos com conceitos inovadores, como o cluster, e o neobrutalismo expresso nas obras do casal Smithson; por outro, os arquitectos italianos assumem um compromisso com a tradição e a história, baseados no neo-realismo, expresso numa arquitectura com uma linguagem popular e facilmente inteligível. Para Jorge Figueira, “os caminhos divergentes que aqui se anunciam são relevantes porque são as matrizes de desenvolvimentos posteriores”.24 Portugal, como veremos, na viragem dos anos 50 até meados dos anos 60, estará mais próximo da “via italiana”, quando uma nova geração de arquitectos, liderada por Nuno Portas, assume o controlo da revista Arquitectura, orgão essencial para o debate do movimento moderno em Portugal. Como afirmou Jorge Figueira, “estes sinais vindos de Itália, a chave zeviana e a ‘continuidade’, encontram eco no jovem grupo de arquitectos e críticos que está a emergir em Portugal”,25 e serão decisivos no “aggiornamento da arquitectura portuguesa”.26 ____________________ 22| BANHAM, Reyner – Neoliberty. The Italian retreat from modern architecture. The Architectural Review 747. Apr. 1959. p.231-235 [tradução do autor]. 23| FERREIRA, Jorge Manuel Figueira – A Periferia Perfeita: Pós-Modernidade na Arquitectura Portuguesa, Anos 60Anos 80. 2009. p.29. 24| Ibidem, p.29. 25| Ibidem, p.26. 26| Ibidem, p.48. 25 Figura 12 | Relatório do 1º Congresso Nacional de Arquitectura, 1948 Figura 13 | Intervenção de Keil do Amaral no 1º Congresso Nacional de Arquitectura, Instituto Superior Técnico, 1948 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria Com a derrota do fascismo na II Guerra Mundial, a ditadura salazarista, na tentativa de sobrevivência, deixou de exercer influência na expressão arquitectónica, após duas décadas marcadas por uma arquitectura ditatorial e nacionalista, contrária aos princípios modernos que vinham a ser desenvolvidos por toda a Europa desde os anos 20, como referimos. É perante este cenário, que no I Congresso Nacional de Arquitectura, em 1948, emerge a vontade de uma mudança na arquitectura portuguesa, através de uma nova geração, disposta a lutar pela liberdade de expressão dos arquitectos e pela afirmação da arquitectura moderna.27 Esta nova geração fundamentou-se na actividade de duas organizações de arquitectos, geradas nos pólos de ensino e debate de arquitectura em Portugal. Dinamizadas pela figura de Keil do Amaral, as ICAT [Iniciativas Culturais Arte e Técnica] de Lisboa, constituiam-se como um espaço de debate da cultura e da arquitectura, realizada naquele período. Por seu lado, no Porto, a ODAM [Organização dos Arquitectos Modernos], batia-se pela defesa de uma arquitectura marcadamente modernista. Os dois grupos surgiriam aliados pela primeira vez, “numa tomada de consciência colectiva da necessidade de produzir obras verdadeiras e actuais” 28 , e teriam um papel preponderante no sucesso da organização e desfecho do Congresso de 1948. A partir daqui, a arquitectura portuguesa procurava um novo percurso. Nesta procura de um novo caminho e em consequência do Congresso, decorreu, entre 1955 e 1960, o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa dirigido pelo então Sindicato Nacional dos Arquitectos. O Inquérito foi defendido pela primeira vez, na revista Arquitectura em Abril de 1947, quando Keil do Amaral, o visionário e impulsionador do Inquérito, escreveu “Uma Iniciativa Necessária”. Neste artigo expôs a urgência da elaboração de um estudo sobre ____________________ 27| PEREIRA, Nuno Teotónio – O que fazer com estes 50 anos. In: 1º Congresso Nacional de Arquitectos. 2008. p.42-49. 28| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.33. 27 Figura 14| Arquitectura Popular em Portugal [1ªEdição], 1961 Figura 15| revista Arquitectura 59, 1957 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria a arquitectura regional portuguesa que desmitificasse a presença de um estilo genuinamente português e evidenciasse que havia afinal tantas arquitecturas como regiões, ao contrário do que o regime propagandeava. A introdução da Arquitectura Popular em Portugal – título com que publicaram o Inquérito em 1961 – foi categórica: “Portugal carece de unidade em matéria de Arquitectura. Não existem, de todo, uma “Arquitectura Portuguesa” ou uma “casa portuguesa”. Entre uma aldeia minhota e um “monte alentejano”, há diferenças muito mais profundas do que entre certas construções portuguesas e gregas.” 29 Esta afirmação, baseada nos resultados publicados, permitiu aos arquitectos portugueses fundamentar o debate – na linha neo-realista italiana – entre a revisão do movimento Moderno e a ligação com a tradição, adequada à realidade nacional, “acabando finalmente por validar o racionalismo dentro da esfera da arquitectura popular.” 30 As primeiras experiências retiradas deste Inquérito seriam transmitidas por uma equipa do Porto, no CIAM X, realizado em Dubrovnik em 1956. Fernando Távora com Viana de Lima e Arnaldo Araújo, apresentaram um trabalho, intitulado “Plano de uma Comunidade Rural”, onde se propunha a organização de um habitat rural, baseado numa nova abordagem metodológica onde a comunidade teria um papel participativo.31 A apresentação deste trabalho, segundo Fernando Távora: regionalizado e nada internacionalista” “extremamente referenciado, 32 , contribuiu para a revisão do Movimento Moderno, por um país periférico como Portugal e constituiu o primeiro passo para um aggiornamento da arquitectura portuguesa. No entanto seria a revista Arquitectura, meio de difusão das ideias do grupo ICAT, a despoletar a ‘actualização’ da arquitectura portuguesa, com a refrescante entrada de um grupo de jovens arquitectos, em 1956, para pertencer ao corpo editorial, onde se incluíam Carlos Duarte, Francisco Silva Dias, Raúl Hestnes Ferreira, etc, e posteriormente em 1957, “o brilhante, ____________________ 29| Arquitectura Popular em Portugal. 2004. p.XX. 30| FIGUEIRA, Jorge – Escola do Porto: Um Mapa Crítico. 2002. p.49. 31| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.164-165. 32| FERREIRA, Jorge Manuel Figueira – A Periferia Perfeita: Pós-Modernidade na Arquitectura Portuguesa, Anos 60Anos 80. 2009. p.21. 29 Figura 16 | Nuno Portas, A responsabilidade de uma novíssima geração no Movimento Moderno em Portugal, Arquitectura 66, Dezembro 1959 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria informado e inteligente crítico Nuno Portas.” 33 Esta nova geração editorial incutiu um pioneirismo à revista. Como afirmou Carlos Duarte, “uma das nossas preocupações era iniciar uma coisa que nunca tinha existido em Portugal: a crítica de arquitectura.” 34 Este grupo editorial originou uma nova fase de divulgação e crítica de obras nacionais e internacionais, assente nos pressupostos anti-racionalistas de Bruno Zevi, mas sobretudo numa ideia de ‘continuidade’ em relação à herança do Movimento Moderno aliada com a tradição arquitectónica portuguesa, próximo conceptualmente da linha italiana, como anteriormente referimos. A revista Arquitectura iniciava, ainda que tardiamente, não lhe chamamos revisão – dada a pouca arquitectura moderna para rever – mas sim debate crítico do Movimento Moderno no contexto português. Nuno Portas assumiu o protagonismo nesta nova estrutura da revista Arquitectura. Num texto basilar, “A responsabilidade de uma novíssima geração no Movimento Moderno em Portugal”,35 Portas comprometeu-se a debater “o conteúdo e significação do próprio espírito moderno” e apontou a fórmula: “pensamos que uma importante contribuição para esse debate – que constitui uma das preocupações centrais da revista – seria precisamente o interrogar de uma novíssima geração, não só nas suas ideias e intenções mas sobretudo nas suas obras.” 36 Esta ideia foi materializada com a publicação e crítica de projectos de nomes emergentes no panorama arquitectónico nacional: Álvaro Siza, Vítor Figueiredo, Manuel Taínha... mas também de Nuno Teotónio Pereira e do atelier da Rua da Alegria, onde Portas dava os primeiros passos como projectista. No artigo Portas alertou para a necessidade de resolver as questões de lá de fora mas sobretudo em Portugal: “a responsabilidade deste momento é, com efeito, duplamente grave: no conjunto dos problemas do Movimento ____________________ 33| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.155. 34| DUARTE, Carlos – Os críticos não se inventaram de um dia para o outro. Jornal dos Arquitectos 211. 2010. p.38. 35| PORTAS, Nuno – A responsabilidade de uma novíssima geração no Movimento Moderno em Portugal. Arquitectura 66. Dez. 1959. p.13-14. 36| Ibidem, p.13. 31 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria Moderno no Mundo, ou, pelo menos, na Europa e na situação particular que se mostra entre nós.” 37 No plano internacional, os testemunhos do comité português no CIAM X, levam-no a afirmar: “a intransigência acirrada de um Team X não explica totalmente um impasse; de facto, a própria cultura italiana necessita de resolver as recentes oposições internas, produto natural do aparecimento de obras às vezes brilhantes mas cujo historicismo polémico não pode contribuir para uma síntese da nova etapa do movimento” 38 , fazendo antever a dificuldade da tarefa apontada. E no plano nacional, a geração, onde Portas também se incluía, tinha a responsabilidade: “de promover um diálogo fecundo, a de procurar um método comum de interpretação da realidade complexa que a solicita, a de abdicar de vocabulários feitos quando possam ser estes factores de abstracção formal” porque “mais importante ainda do que uma unidade formal ou conceptual é, certamente, a definição dos planos de actuação do arquitecto e do urbanista em face das necessidades objectivas de cada país ou região.” 39 A partir de três moradias unifamiliares deste período e publicadas na revista Arquitectura – a Casa Metelo [1957-59] na Praia das Maças, a Casa Brás de Oliveira em Sesimbra [1957-64] e a Casa Dr. Barata dos Santos em Vila Viçosa [1959-63] – tentaremos perceber, no capítulo III, como Portas explanou estas questões no campo prático. Num dos seus primeiros artigos “Arquitectura Religiosa Moderna em Portugal” 40 de 1957, Nuno Portas abordou o paradigma da renovação da arquitectura religiosa em Portugal, que anos mais tarde viria a constituir um dos programas arquitectónicos desenvolvido pelo autor na prática do atelier de Teotónio Pereira. A Igreja Paroquial de Águas [1949-1955], de Teotónio Pereira, em Penamacor e a Igreja Paroquial de S. António [1951-1956], de Freitas Leal, em ____________________ 37| Ibidem, p.13. 38| Ibidem, p.13. 39| Ibidem, p.14. 40| PORTAS, Nuno – Arquitectura Religiosa Moderna em Portugal. Arquitectura 60. Out. 1957. p.20-23. 33 Figura 17 | Concurso de anteprojectos para a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, publicado na revista Arquitectura 76, Outubro 1962 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria Moscavide, constituíram na altura um ponto de viragem na construção de edifícios religiosos em Portugal, a partir da sua análise Portas refere que o programa arquitectónico litúrgico “tornou-se, recentemente, obra dos melhores arquitectos actuais e, talvez, a par da habitação popular, o programa que mais profundamente tem permitido expressar o enriquecimento humanístico que a crítica ao racionalismo significou.'' 41 Para esta mudança muito havia contríbuido o MRAR [Movimento de Renovação da Arte Religiosa]. Recuando até 1953, este movimento surgiu para lutar pela aceitação da Arte Moderna, por parte da Igreja até então associada aos cânones oficiais do Estado Novo. Defendeu uma arquitectura autêntica e sem contradições, à imagem do catolicismo, na “adopção de uma arquitectura seriamente integrada no espírito do nosso tempo” 42 , reagindo contra a manutenção dos modelos arquitectónicos de cariz tradicionalista nas novas construções religiosas dos centros urbanos de Lisboa e do Porto. O MRAR conseguiu que em 1962 fosse organizado um concurso público para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no qual viriam a sair vencedores Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. A igreja foi a expressão construída das teses programáticas e espaciais que alguns dos autores desenvolviam no seio do MRAR, acompanhando o Concílio do Vaticano II, ocorrido entre 1962 e 1965, que viria a revolucionar o espaço litúrgico. Para Nuno Portas “era a ocasião para contestar uma certa linha moderna de fazer igrejas, mantendo-as como edifícios isolados, rodeados de vazios, rompendo a continuidade do espaço urbano” 43, como se demonstrará no Capítulo III com a referida Igreja. No final da década de 50, o território português era povoado por más condições de habitação, onde proliferavam bairros clandestinos e bairros de lata; a escassez de casas económicas e o desnível entre os níveis de rendimento das familias e os custos de habitação, eram situações urgentes a resolver, num cenário de crise habitacional, fruto de um precipitado crescimento ____________________ 41| Ibidem, p.20. 42| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.24. 43| PORTAS, Nuno – Testemunho de um dos autores. Arquitectura 123. Out. 1971. p.171. 35 Figura 18 | Inauguração da Exposição O Cooperativismo Habitacional no Mundo, Lisboa, 1957 Figura 19 | Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral, Anteprojecto de conjunto de habitação cooperativa, vista parcial, 1957 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria e concentração urbana, principalmente em Lisboa e no Porto. Perante este panorama e dada a falta de um plano e políticas habitacionais para promoverem melhores condições de habitação surgem movimentos de cooperação entre a população mais desfavorecida.44 Na sequência destes movimentos é organizada em 1957, a Exposição “O Cooperativismo Habitacional no Mundo”, com o objectivo de demonstrar soluções de cooperativismo habitacional dispersas pelo mundo. A exposição, organizada pela Associação de Inquilinos Lisbonenses, contou com desenhos e maquetas de um conjunto habitacional, projectado por Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral – auxiliados pelo recém-chegado ao atelier da Rua da Alegria, Nuno Portas – bem como o modelo à escala real de um dos fogos, equipado e mobilado, promovendo o contacto das pessoas com o espaço habitacional como bem sintetizou José António Bandeirinha: “da exposição, ficou a memória de uma das mais pertinentes tentativas de mediatizar a questão da habitação através da divulgação das ríquissimas experiências que o período do pós-guerra foi gerando, na Europa e um pouco por todo o lado, chegando mesmo a aproximar a discussão a matérias bem concretas como a do uso da habitação. […] Mas vale também, e sobretudo, registar uma das primeiras experiências no campo da chamada participação dos utentes, com o inquérito a funcionar à posteriori.” 45 No seguimento destas questões o decénio de 60, abria com o Colóquio sobre o tema “Os Aspectos Sociais na Construção do Habitat”, em Fevereiro de 1960, no Sindicato Nacional dos Arquitectos, revelando uma “tomada de consciência seguida de uma atitude consequente” 46 por parte da classe, em resolver os problemas de habitação em Portugal. Neste sentido Nuno Teotónio Pereira destacou duas personagens no sucesso da iniciativa: Nuno Portas, participação que abordaremos no capítulo II ____________________ 44| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.40-49. 45| BANDEIRINHA, José António – O Processo SAAL e a Arquitectura no 25 de Abril de 1974. 2007. p.65. 46| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.38. 37 Figura 20 | Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Federação das Caixas de Previdência, Barcelos, 1959-62 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria e o sociólogo francês Chombart de Lauwe. Lauwe expõe o seu relatório “Sociologia da Habitação – Métodos e Perspectivas de Investigação”, publicado na revista Arquitectura, onde defendia que não bastava aplicar as técnicas e os materiais mais avançados para alojar os homens, era preciso conhecê-los para dessa forma “resolver em comum os problemas de urgência, para maior satisfação de todos […] reunindo nas mesmas equipas arquitectos e engenheiros com representantes das ciências humanas” 47 , apresentando casos específicos de construção massiva em França. A Federação das Caixas de Previdência [Habitações Económicas], desempenhou um papel fundamental no combate ao défice habitacional, que se estende por todo o país entre 1947 e 1972, e onde Nuno Teotónio Pereira teve um papel preponderante, elaborando um Conjunto de Casas de Renda Económica considerável: Braga [1950-52], Póvoa de Santa Iria [1955-58], Trancoso [1958-60]; e já com a colaboração de Nuno Portas: Vila do Conde [1958-64], Barcelos [1959-62] e Caramulo [1959-63]. A Federação havia sido criada “com a incumbência de promover a construção de edifícios plurifamiliares de carácter social em regime de arrendamento” 48 e teve em 1947 com Alvalade [Faria da Costa] o modelo-tipo que viria a ser reproduzido nas capitais de distrito e noutras localidades para colmatar as carências habitacionais do país. Para além de Alvalade, o bairro da Chamusca [Bartolomeu da Costa Cabral e Vasco Croft] em 1962; Barreiro, Benavente, S. Estêvão e Torres Novas [Vítor Figueiredo] 1962-64, e posteriormente, o conjunto habitacional do Funchal [Chorão Ramalho] em 1969, constituem exemplos do trabalho desenvolvido no âmbito da Federação. Por sua vez, no Porto, o Bairro de Ramalde [1952], de Fernando Távora, também para a Federação de Caixas de Previdência, constitui a primeira proposta de organização urbana em resposta a Alvalade e em consonância com a ideologia moderna da Carta de Atenas. Anos mais tarde, surge o Bairro ____________________ 47| LAUWE, Chowbart de – Sociologia da Habitação – Métodos e Perspectivas de Investigação. Arquitectura 68. Jul. 1960. p.41. 48| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.206. 39 Figura 21| Plano de Lisboa, onde estão delineadas, as 3 operações habitacionais de grande escala, Olivais Norte [40 ha], Olivais Sul [187 ha] e Chelas [507ha] O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria da Pasteleira [1961], inserido no Plano de Melhoramentos, encetado pela Câmara Municipal do Porto, em 1956, para extinção das Ilhas – construções precárias de habitação –, destacando-se “da média geral pelo volume de obra e a sua radicação na renovação urbanística e, sobretudo, pelo corajoso programa administrativo e financeiro que a Câmara portuense conseguiu angariar e efectivar”,49 inserindo-no num plano de cidade, algo inovador em Portugal. Entretanto, e por iniciativa municipal, é criado em Lisboa, o Gabinete Técnico de Habitação [GTH] em 1959, para o lançamento de operações habitacionais de grande escala – Olivais-Sul [1961] e Chelas [1966] – aproveitando a experiência do bairro de Alvalade, ao englobar diferentes modalidades de habitação social. Neste contexto iniciou-se, assim, um extenso conjunto de habitação social, o bairro de Olivais Sul [1961-68], plano de Rafael Botelho e Carlos Duarte, e na continuação de Olivais Norte [1955-64], planeados pelo Gabinete Estudos de Urbanização [GEU] da Câmara Municipal de Lisboa. Se o conjunto de Olivais Norte assumira um planeamento consonante com os conceitos e a doutrina urbana da cidade moderna explicitada na Carta de Atenas, o seu vizinho a Sul, punha em causa essa doutrina, e pela mão de Nuno Portas e Bartolomeu da Costa Cabral, retomou a rua como elemento agregador do espaço arquitectónico, funcionando como um laboratório de produção tipológica e urbanística, num processo de revisão arquitectónica que estava em curso em Portugal.50 Olivais Norte e Olivais Sul serão alvo de análise e confrontação no último capítulo. Os anos 60 ficam também marcados pelo acréscimo da preocupação teórica e pedagógica, com a Reforma do Ensino levada a cabo nas escolas do Porto e Lisboa, paralelamente a uma revisão da arquitectura praticada. ____________________ 49| CABRAL, Bartolomeu da Costa; PORTAS, Nuno – O novo conjunto habitacional da Pasteleira. Arquitectura 69. Dez. 1960. p.31-47. 50| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.75-77. 41 Figura 22 | Fernando Távora, Da Organização do Espaço, 1963 Figura 23| Octávio Lixa Filgueiras, Da função social do arquitecto, 1963 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria Surgem então alguns escritos assinaláveis, resultantes da necessidade de apresentação de provas académicas. Em 1959, Nuno Portas apresenta o seu CODA [Concurso Obtenção Diploma Arquitecto], no Porto, “A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura”, e posteriormente, em 1963, Pedro Vieira de Almeida o “Ensaio sobre o Espaço na Arquitectura”, onde aborda a problemática filosófica do espaço arquitectónico. No mesmo ano e ainda no Porto, seriam publicadas dissertações de concurso para professor: “Da Organização do Espaço”, de Fernando Távora, reflexão crítica e acertiva sobre os problemas da organização da cidade e do território, e “Da função social do arquitecto”, de Octávio Lixa Filgueiras, uma abordagem sobre o papel que o arquitecto desempenha na sociedade, constituem exemplos disso mesmo. A revista Arquitectura já referida e a revista Binário, criada em 1958 e dirigida por Manuel Taínha, contribuíam decisivamente, para a revisão.51 Nuno Portas, emerge como figura preponderante, na reflexão teórica sobre os problemas na disciplina de arquitectura, através da autoria de dois livros seminais, “A Arquitectura Para Hoje” em 1964, e posteriormente, “A Cidade como Arquitectura” em 1969, como analisaremos no capítulo seguinte. Também pela mão de Portas, a investigação, no quadro do LNEC [Laboratório Nacional de Engenharia Nacional], recebia um forte e determinante impulso com a criação da Divisão de Construção e Habitação, em 1962, onde uma equipa de arquitectos e engenheiros, desenvolveu investigação na àrea da tipologia da habitação colectiva, publicando diversos estudos.52 O ano de 1969, na transição para o que caracterizaria a década de 70, ficou marcado pelo debate em plenário das questões habitacionais e políticas em Portugal. Os três eventos: Colóquio sobre o Urbanismo [em Janeiro, no Funchal], Colóquio sobre Política da Habitação [em Setembro, Lisboa] e o Encontro Nacional de Arquitectos [em Dezembro, Lisboa] surgem já depois de Marcelo Caetano assumir a liderança do poder em 1968, e passar haver uma maior abertura política para os grandes problemas nacionais, sem descriminações, através de uma alargada informação pública e uma aceitação ____________________ 51| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.169-173. 52| FERNANDEZ, Sergio – Percurso. Arquitectura Portuguesa 1930/1974. 1985. p.179. 43 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria de propostas elaboradas pelos técnicos especializados.53 No Funchal, Nuno Teotónio Pereira apresenta o “Habitações para o maior número”, um incisivo programa de política habitacional baseado na análise à evolução da habitação social em grande escala dos últimos 40 anos – Alvalade e Olivais, em Lisboa, e Plano de Melhoramentos, no Porto – e onde defende a construção “não de somatórios exaustivos de habitações, mas conjuntos urbanos equilibradamente organizados e equipados” para “o maior número” 54 que era constituído por uma larga população sem recursos individuais para colmatar a sua precária situação habitacional, concluindo que o problema da habitação não se resolvia com a construção de alguns bairros mas sim algo mais abrangente e estruturante, remetendo para uma concisa intervenção do poder político. Por sua vez, o Colóquio sobre Política da Habitação, promovido pelo Ministério das Obras Públicas [MOP], resulta num momento de charneira na abordagem estatal dos problemas de habitação em Portugal, sucedendo grandes reformas institucionais e administrativas, no combate as carências habitacionais. Surge então, a criação do Fundo de Fomento da Habitação [FFH], em 1969, um organismo oficial que agrupava as diversas formas de intervenção estatal no sector da habitação social. Por último, em Dezembro, realiza-se o Encontro Nacional de Arquitectura [ENA], convocado por um grupo de arquitectos libertos de qualquer instituição oficial, com o objectivo de estender o debate para fora dos círculos habituais, fomentar o papel interventivo e social do arquitecto e, principalmente, defender a participação das populações nos processos de construção das habitações. Constitui-se, então, o Grupo de Intervenção no Meio Urbano [GRIMU], que através de um texto, enuncia a necessidade e a urgência da “participação das populações nas decisões que orientam e condicionam o fenómeno urbano” defendendo a “formação de um grupo de estudo e intervenção, de carácter interdisciplinar, estabelecendo ligações entre a urbanística e a arquitectura, por ____________________ 53| BANDEIRINHA, José António – O Processo SAAL e a Arquitectura no 25 de Abril de 1974. 2007. p.70. 54| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.80. 45 Figura 24| Gonçalo Byrne e António Reis Cabrita, Conjunto da ‘Pantera Cor-de-Rosa’, Lisboa, 1972-74 Figura 25| Vítor Figueiredo, Conjunto dos ‘Cinco Dedos', Lisboa, 1973-80 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria um lado, e a promoção social e cívica, por outro.” 55 Surgia assim, pela primeira vez, a ideia da criação de equipas de apoio local para intervir directamente nas zonas carenciadas, que seriam postas em prática após o 25 de Abril de 74 com o processo de Serviço de Apoio Ambulatório Local [SAAL]. No entanto o debate decisivo que ocuparia o início dos anos 70 era a relação da arquitectura com o espaço público urbano ou o impacto que esta tinha no perfil da cidade. É o tempo da reinterpretação da rua [praça ou largo] como elemento organizador da diversidade e da falta de homogeneidade das intervenções arquitectónicas. O programa colectivo assumia-se como a solução à falta de habitação social nos centros urbanos, provocando uma proliferação de intervenções arquitectónicas de qualidade duvidosa, onde apenas algumas pontuavam pela qualidade e pertinência na abordagem a esta questão. Assim é com o Conjunto Habitacional Chelas [1972] da responsabilidade de Francisco Silva Dias, o Conjunto da ‘Pantera Cor-de-Rosa’ [1972-74] de Gonçalo Byrne e António Reis Cabrita, ou o Conjunto dos ‘Cinco Dedos' [1973-80] de Vítor Figueiredo, personagens que tinham em comum a sua passagem pelo atelier da Rua da Alegria antes de se afirmarem com ateliers próprios. Atelier que viria a desenvolver pela mão de Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e Gonçalo Ribeiro Telles [arquitecto paisagista], em 1970-72, o Plano Pormenor do Restelo, repondo a rua e a praça na linguagem urbana, contrapondo aos princípios da Carta de Atenas que tinham sido adoptados nos últimos anos. Ao plano anterior povoado por edifícios em altura, as chamadas ‘torres do Restelo’, Nuno Portas esboça um plano com construções mais baixas, mas no entanto, com a mesma densidade do anterior. Segundo o autor “julgo que através deste trabalho demos um passo importante no sentido de conjugar e integrar coisas que desde o Movimento Moderno fomos ensinados a separar” 56 , de facto, este plano distanciava-se da Carta de Atenas integrando torres com bandas e moradias, a alta densidade e a baixa densidade, o tráfego rodoviário com os caminhos para os peões, num retorno à escala humanizada ____________________ 55| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.109. 56| PORTAS, Nuno – Dossier Restelo. Arquitectura 130. Mai. 1974. p.23. 47 O aggiornamento crítico de Nuno Portas e o atelier da Rua da Alegria constituindo o paradigma dos planos urbanísticos nos anos seguintes. Estas questões serão desenvolvidas na análise ao Plano do Restelo, no capítulo III. Como vimos ao longo deste capítulo, o desenrolar da arquitectura em Portugal neste período é indissociável do atelier da Rua da Alegria, coordenado por Nuno Teotónio Pereira. Não será certamente ocasional o facto de ali terem colaborado algumas das personagens principais no debate arquitectónico da época, como fomos evidenciando, sendo no entanto Nuno Portas aquele que seguramente mais influência conceptual teve nos anos em que lá colaborou [1957-1974], complementada com as suas outras vertentes: de crítica, de investigação, de ensino e de concepção política que culminaria com a sua nomeação para Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo dos III primeiros Governos Provisórios, em Maio de 1974. Esta passagem de Nuno Portas pela política teve na criação no Serviço de Apoio Ambulatório Local [SAAL], a iniciativa mais consequente, questão que será alvo de uma abordagem mais específica no capítulo seguinte. 49 Capítulo II A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas A crítica. A investigação. O ensino. A teoria. E a prática de Nuno Portas Como referimos no capítulo I, o percurso da arquitectura portuguesa na segunda metade do século XX, é indissociável do Atelier da Rua da Alegria e da personagem singular de Nuno Teotónio Pereira. Sem nunca recusar a ideologia moderna, Teotónio Pereira, embarcou pelo caminho da experimentação, ao “arriscar soluções, métodos, sistemas construtivos, materiais e programas” 1 , e da contextualização do ambiente físico mas também social, na procura de uma arquitectura que conciliasse o programa moderno com a tradição, com a história, com o contexto e com as pessoas, o que Ana Tostões designou como uma “Obra Aberta […], uma arquitectura participada quando ainda não se falava nisso” 2. A “sacristia” 3 formou-se baseada numa conduta crítica e experimental sobre soluções ‘em cima do estirador’ através do mestre Teotónio Pereira mas também com a contribuição das várias gerações de colaboradores 4 que por lá passaram ao longo dos anos, num diálogo constante e entusiasmado como método de trabalho. Teotónio Pereira descreve esse período: “de partilha do trabalho com colaboradores que haviam estado a riscar sobre o estirador durante todo o dia, deixando assim muitas vezes o desenho entregue a mãos alheias, para além da discussão em comum de ideias e soluções. […] Com tal prática, criavam-se condições para que os mais talentosos e assíduos pudessem afirmar-se como co-autores, ou até, como veio a acontecer, como autores principais” 5, o que sucederá com Nuno Portas. ____________________ 1| TOSTÕES, Ana – Obra aberta: entre experimentalismo e contexto, um sentido de escola. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.21. 2| Ibidem, p.22. 3| Nome atríbuido ao atelier pelos colaboradores, devido ao catolicismo ferveroso de Nuno Teotónio Pereira. 4| Nomes como Bartolomeu da Costa Cabral, Pedro Vieira de Almeida, Pedro Viana Botelho, João Paciência, Gonçalo Byrne, Helena Roseta, entre tantos outros, colaboraram em determinado momento no Atelier. 5| PEREIRA, Nuno Teotónio Pereira – Um testemunho pessoal. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.45. 53 Figura 26 | Interior do Atelier da Rua da Alegria A crítica. A investigação. O ensino. A teoria. E a prática de Nuno Portas Foi um atelier de intervenção social, no combate pelo direito à arquitectura e à cidade, através da personalidade reivindicativa de Nuno Teotónio Pereira, mas também uma autêntica escola de arquitectura. Nesse sentido Helena Roseta afirma “que o atelier Rua da Alegria formou verdadeiramente mais gente do que a velha ESBAL.” 6 “Mas foi a entrada do jovem e fogoso Nuno Portas, em 1957, que marcou decisivamente o atelier. Dotado de uma grande capacidade de trabalho, de uma informação de ponta sempre actualizada e de uma facilidade de concepção e criação muito ricas, foi um esteio fundamental para todo o trabalho posterior. Estabeleceu-se entre nós uma cumplicidade permanente, talvez fruto de uma certa complementariedade de formações e de temperamento.” 7 As palavras de Teotónio Pereira reflectem fielmente o impacto e a influência que a entrada de Nuno Portas produziu no atelier. O afastamento, até então, que Teotónio demonstrou da vertente teórica e académica da arquitectura, em prol do seu rigor de projecto, foi colmatada com Nuno Portas. O próprio confessou que o apelidavam “de ‘empírico’, epíteto que plenamente assumo, mas que por vezes me faz sentir algo desarmado diante do papel vegetal, face à questão crucial de como dar forma às ideias que vão surgindo. Foi esta insuficiência [além de outras] que Nuno Portas veio suprir ao longo dos dezassete anos que trabalhámos juntos, no quadro das preocupações que nos eram comuns.” 8 O ingresso de Nuno Portas, em 1957, constituiu então um ponto de viragem na prática arquitectónica do Atelier. Portas “acarretou uma inflexão crítica nas opções anteriores. Repensa-se a linguagem da arquitectura […], esbatendo-se os conteúdos abstractos [modernos] que ainda subsistem, ____________________ 6| Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.9. 7| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.159. 8| PEREIRA, Nuno Teotónio Pereira – Um testemunho pessoal. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.47. 55 Figura 27| Nuno Teotónio Pereira, Igreja Paroquial de Águas, Penamacor, 1949-1957 Figura 28| Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral, Edifício Bloco das Águas Livres, Lisboa, 1953-1956 A crítica. A investigação. O ensino. A teoria. E a prática de Nuno Portas fazendo emergir o tom de maior ‘realismo’ ” 9, numa continuidade com as preocupações e objectivos que Teotónio Pereira vinha desenvolvendo nas suas primeiras obras, a Igreja Paroquial de Águas [1949-1957], em Penamacor e o Edifício Bloco das Águas Livres [1953-1956], em Lisboa. Portas, quando questionado sobre os trâmites da sua entrada para o atelier, recordou que o seu papel “foi sempre uma contribuição de certo modo mais teorizante e um pouco de prolongamento da actividade que como crítico eu fazia [...], uma oportunidade para prolongar certas linhas que ele próprio, Teotónio Pereira, tinha esboçado em obras anteriores e que eu, como crítico, vinha estudando.” Assim sendo, desde o princípio que a colaboração “estava orientada num certo sentido, o de irmos fazer uma certa pesquisa no campo da tipologia e da linguagem arquitectónica.” 10 Nuno Portas, neste período de 17 anos desempenhou vários papéis – cronista, crítico, investigador, professor e político – que complementaram e influenciaram a prática de arquitecto no Atelier da Rua Alegria. O atelier constituiu o ponto de convergência do conhecimento acumulado, partilhado e discutido com todos, e em particular com Teotónio Pereira. Portas reconhece: “encontrei no ‘NTP’, como lhe chamavamos, ‘o mestre’ que não tive na escola, o patrão e, depois, o sócio, mas, sobretudo, o amigo incondicional e o parceiro com mais experiência para esses vários papéis que, no meu caso, senti dever desempenhar.” 11 Este sentimento de dever levou-o a percorrer “quase todas as facetas do poliedro arquitectónico ou das habilidades dos arquitectos, por vezes pisando os campos de outros não arquitectos”, 12 que resultou numa multidisciplinaridade de conhecimento que poucos arquitectos portugueses naquele período dispunham. ____________________ 9| MILHEIRO, Ana Vaz – Nuno Teotónio Pereira. Á Procura da Manhã Clara. In: Arquitectos Portugueses Contemporâneos. 2004. 10| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.61. 11| PORTAS, Nuno – Um testemunho, também pessoal. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.51. 12| PORTAS, Nuno – Do Astro à Nebulosa, do Nó à Malha, da Malha aos Nós. In: Arquitectura[s], Teoria e Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.75. . 57 A crítica. A investigação. O ensino. A teoria. E a prática de Nuno Portas Poderemos afirmar, perante o discurso directo de ambos os protagonistas, que acabamos de descrever, que se Teotónio era a “cara” prática do atelier, Portas viria a ser a “coroa” teórica, que contribuiu decisivamente para as obras darem o salto para lá dos dogmas do Movimento Moderno que Teotónio Pereira procurou desde o início, e que se verificou neste período de intensa prática arquitectónica, no dobrar da década de 50 para 60.13 Se conciliarmos a entrada de Portas e de alguns novos elementos, às variadas oportunidades de trabalho que surgiram, o Atelier vivia, nas palavras de Portas “um clima de entusiasmo criativo centrado na resposta à crise da linguagem modernista, que abria uma grande disponibilidade para experimentar novos significantes e, com eles, novas significações.” 14 Nesse contexto, Portas nomeia as obras que constituirão os casos de estudo no capítulo seguinte, “duas ou três moradias em contextos opostos muito fortes – em tecido histórico, uma, e em meio de paisagem ‘natural’, as outras –, um concurso público para uma grande Igreja urbana integrada em quarteirão das Avenidas Novas, […], logo seguida de outra igreja mais periférica. Para completar a variedade temática, dois conjuntos de habitação social em Lisboa-Olivais.” 15 e uma década mais tarde, acrescentamos, o projecto-plano para o Alto do Restelo. Percorramos, então, as várias “facetas do poliedro arquitectónico” de Nuno Portas, tendo como pano de fundo a prática arquitectónica do Atelier da Rua da Alegria. ____________________ 13| Ver: FERREIRA, Joana Cunha – Nuno Teotónio Pereira. Um Homem na Cidade. 2009. Um filme sobre a vida e a obra de Nuno Teotónio Pereira. De salientar o frente a frente informal entre Teotónio Pereira e Nuno Portas onde vagueiam sobre o seu relacionamento pessoal e profissional, com o pano de fundo das obras do atelier da Rua da Alegria. 14| PORTAS, Nuno – Um testemunho, também pessoal. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.53. 15| Ibidem, p.53. 59 Figura 29| Concurso Obtenção Diploma de Arquitecto [CODA] de Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Dezembro 1959 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] Como evidenciamos no capítulo anterior, Portugal padecia, na década de 60, de um grave problema de habitação e o atelier da Rua da Alegria contribuiu pioneiramente com diversas iniciativas para alterar esse panorama. Para mais, Teotónio Pereira colaborava na Federação das Caixas de Previdência e no Inquérito Regional à Arquitectura Portuguesa, despertando para as questões da sociologia do habitat aliada à arquitectura, como vimos na Exposição “O Cooperativismo Habitacional no Mundo”, ocorrida em 1957. Por estes motivos, não é de estranhar que a habitação social e unifamiliar, tenha constituído um tema central de investigação no atelier da Rua da Alegria. Neste contexto a iniciativa de Nuno Portas, em Fevereiro de 1960, num Colóquio dedicado aos problemas habitacionais, “Aspectos sociais na construção do habitat” projectou para um nível de maior visibilidade no campo português, as preocupações sociológicas sobre o habitat, que naquele período despoletavam na Europa e na América, e expostas, entre outros, por Chombart de Lauwe. A comunicação apresentada por Portas no Colóquio, com o tema “Problemas da célula social”, derivada do seu CODA intitulado “A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura” 16 , defendido dois meses antes, levantou muitas das questões debatidas na iniciativa e nas palavras de Teotónio Pereira, “além do seu valor como trabalho de metodologia e de sistematização, ele tem uma característica que lhe confere grande importância: é que põe os problemas simultaneamente no campo da sociologia e da crítica espacial.” 17 A primeira síntese na temática da habitação do jovem Nuno Portas, na altura com 25 anos, “A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua ____________________ 16| De referir que Nuno Portas frequentou o curso de Arquitectura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa [ESBAL]. No entanto, como a ESBAL não aceitava trabalhos teóricos, foi na Escola Superior de Belas-Artes do Porto [ESBAP], que apresentou o Concurso para Obtenção do Diploma de Arquitecto [CODA], em Dezembro de 1959. Editado em 2004 pela Faup Publicações, em 2 volumes: um de texto e outro de fichas de casos de estudo. 17| PEREIRA, Nuno Teotónio – Escritos [1947-1996]. Nuno Teotónio Pereira. 1996. p.36. 61 Figura 30| Fichas de casos de estudo, Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] Arquitectura”, constituiu uma intensa pesquisa, de uma multiplicidade de matérias, com o objectivo de obter uma estruturação metodológica para a análise e construção da habitação social, na tentativa de aliar à capacidade criativa dos arquitectos uma teoria que permitisse assimilar todos os dados do problema. Para Portas, “o modo criativo do arquitecto tende a acentuar os aspectos intuitivos, e a afastá-lo de uma autocrítica rigorosa, de um método de análise que lhe pode parecer ameçar a unidade da obra.” 18 Neste ambicioso trabalho, Portas sintetizou e relacionou, pioneiramente, vários estudos em curso, de uma extensa bibliografia de autores estrangeiros19 – de onde destacamos, Paul Chombart de Lauwe, mestre sociológico de Nuno Portas – de modo a alcançar uma “espinha metodológica” teórica, “tentando ler caminhos que se desenham e não criando caminhos a seguir – aclarar e não inventar” 20 , que perante a mutabilidade constante de diversos factores, constituía apenas uma base inicial para posterior actualização, dado “que dentro de pouco tempo, a hierarquização de noções que nos esforçámos por conseguir “revelar” poderá estar, estará, se Deus quiser, ultrapassada pela incessante fertilização das novas contribuições.” 21 Ora as contribuições abrangiam também as experiências práticas – como foi documentado nas mais de duzentas fichas de casos de estudo, num volume em anexo ao CODA, com projectos de referências como Wright, Aalto, Le Corbusier, Coderch, Lasdun, Candilis, entre tantos outros. A importância das fichas de trabalho de Nuno Portas, e do seu perspicaz conteúdo informativo, mereceriam um extenso e elogioso comentário de Pedro Vieira de Almeida: “nesta altura discutia-se duramente a bondade das fichas de trabalho pessoais, da mesma forma apaixonada como se avaliava da eficácia do nível organizativo do ficheiro de cada um. […] Com todos os defeitos que se possam ____________________ 18| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.13. 19| A sociologia aplicada ao habitat proliferava em vários países: na Inglaterra, nos Estados Unidos, nos Países Nórdicos, e, posteriormente, na França e Itália. Só para referir os autores mais relevantes: os norte-americanos Mumford, Sven Rimer, Festinger ou R.K.Merton; o nórdico Odd Brochman e o grupo parisiense que Chombart de Lauwe e Paul Couvreur lideram no Centre National Recherche Scientifique [CNRS]. 20| Ibidem, p.14. 21| Ibidem, p.14. 63 Figura 31| Fichas de casos de estudo sociológico, Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] apontar contra o carácter rudimentar do sistema, efectivamente nele, cada “bit” de informação registado correspondia a concreto trabalho de investigação particular – sublinho de investigação – através de um exigente crivo de selecção e avaliação críticas. Era certamente um processo moroso, um pouco enervante até, mas que tinha desde logo a vantagem de não tomar a informação como um valor em si, […] mas de a avaliar através da verdadeira capacidade de estabelecer com ela, outros níveis de pensamento, outros horizontes de teorização. Daí que toda a informação que podemos encontrar em Nuno Portas seja toda ela, informação útil.” 22 De referir, que muitos dos casos de estudo – poucos deles portugueses – foram estudadas in loco nas viagens de estudo que Portas realizou com Nuno Teotónio Pereira. Em 1958, viajam por Espanha e Itália, onde travam conhecimento com o veneziano Carlo Scarpa e visitam a construção dos bairros de habitação pelo programa INA-Casa, referido no capítulo I, e que constituiu uma das influências mais directas na prática arquitectónica do Atelier da Rua da Alegria e tantas vezes mencionado na tese de Portas. 23 A colocação da tese de Nuno Portas no campo da sociologia, ficou evidenciada na primeira parte, “O Sujeito da Habitação. A Família”. A análise ao principal elemento social que ocupa o espaço da habitação, a família – no seu modo de vida, necessidades e relacionamento entre os vários sujeitos desta – possibilitaria assegurar uma qualidade espacial e um mínimo de condições humanas de habitação, que estariam a ser desprezadas pelas políticas habitacionais dos anos 50. Para Portas, “a sociologia aplicada permite-nos uma observação mais aproximada da estrutura familiar na sociedade europeia dos nossos dias – e esse conhecimento afigura-se-nos capital para a formulação de um conteúdo actualizado do habitat, e pode servir de base a uma crítica das suas diferentes formas.” 24 ____________________ 22| ALMEIDA, Pedro Vieira de – A “A Arquitectura para hoje”. A Arquitectura para Hoje seguido de Evolução da Arquitectura Moderna em Portugal. 2008. p.14-15. 23| A exemplo, Nuno Portas refere o programa habitacional italiano INA-Casa, como modelo sociológico de habitação a adoptar. PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p. 33. 24| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.22. 65 Figura 32| Nuno Teotónio Pereira, António Pinto Freitas e Nuno Portas, Edifício de Habitação, Escritórios e Comércio na Rua de São Filipe Nery [não construído], 1957 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] O trabalho de Portas colocou-se assim, também no campo da política ao despertar para políticas habitacionais que teriam de englobar a sociologia aplicada ao habitat, e numa nova consciência de abertura social e cooperação, as famílias participariam na elaboração dos programas habitacionais, à imagem dos países socialmente mais desenvolvidos, dando como o exemplo o projecto INA-Casa, em Itália, que seria uma das referências para a mais consequente política habitacional portuguesa participada, o processo SAAL, onde Portas viria a desempenhar um papel importante. Para Nuno Portas a sociologia aplicada ao habitat tratava “de definir as necessidades humanas em matéria de habitat [psicológicas e sociológicas], segundo as regiões e condições de vida”,25 e para essa definição, Portas encerra a primeira parte da tese, com um inovador esquema metodológico – “Temas de investigação sociológica aplicada ao habitat” – que contribuiria para a concepção da habitação a um nível, simultaneamente, mais realista e mais progressivo. A realização da tese entre 1958 e 1959, colocou Portas num plano sociológico, político, histórico, económico e arquitectónico de vanguarda, neste final dos anos 50, sendo por isso, com naturalidade, que muitas das reflexões, ideias e casos de estudo, que expressou ao longo deste pioneiro trabalho, começassem a reflectir-se nos primeiros anos de colaboração no atelier e na sua faceta de crítico na revista Arquitectura e noutros meios de comunicação. Assim sendo a influência crítica de Portas ficou desde logo patente na evolução do primeiro, de 1955, para o segundo anteprojecto, em 1957, do Edifício de Habitação, Escritórios e Comércio na Rua de São Filipe Nery [não construído], numa das primeiras abordagens projectuais de Nuno Portas no atelier. O primeiro anteprojecto, um edifício de habitação em altura, perpendicular a um de serviços implantado no terreno triangular, desenhado à imagem do Edifício de Habitação, Escritórios e Comércio, Bloco das Águas Livres [1953____________________ 25| Ibidem, p.42 67 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] 1956]26, era um modelo considerado por Portas “como ultrapassado, a posição essencialmente teórica do período racionalista, o qual concebia um tecido urbanístico como uma malha estandardizada de unidades-tipo [como, por exemplo, era entendida por Le Corbusier nos seus famosos planos de há duas décadas].” 27 Temos, assim, o desenvolvimento para um segundo anteprojecto, constituído por um conjunto fragmentado de edifícios ordenados organicamente no terreno, integrados no declive e atentos à exposição solar, configurando uma plataforma ajardinada percorrível, num prenúncio daquilo que será o modelo explorado pelo atelier ao longo dos anos 60. A segunda parte da tese de Portas, “A Concepção da Habitação”, inicia-se com o “Esboço de uma História do Movimento Moderno da Casa”, um relato histórico que percorre a evolução da casa – na sua renovação formal e conceptual – desde os finais do século XIX, nas primordiais reivindicações de William Morris, para “uma casa de novo conteúdo destinada às massas proletarizadas pela civilização industrial”,28 até meados do século XX, com os mestres da Bauhaus – Mies van der Rohe, Walter Gropius, ou Adolf Loos – e a sua rígida doutrina racionalista, que seria propagada nos CIAM, por Le Corbusier e a Carta de Atenas, como referimos. A análise da casa, enquanto génese de toda a reformulação arquitectónica e urbanística contemporânea, permitiu enriquecer espacialmente a Tese, e transportou Nuno Portas para a linha evolutiva da arquitectura e a descobrir os caminhos futuros, que seriam influência activa nos seus primeiros anos de prática: “pela anterior crítica ao espírito racionalista, vimos que nele se destacavam alguns pontos que as alterações estruturais tornavam particularmente vulneráveis e não tardariam em ser revistas no seu significado ou mesmo substituídas. Assim, assistimos agora à afirmação do primado do espaço interno, vulgarmente entendido como resultante e não como director; ____________________ 26| Baseado no paradigma da Unidade de Habitação de Le Corbusier, o Bloco das Águas Livres procurou servir o quotidiano duma comunidade numa inicial aproximação à arquitectura humanizada e integrada com as pessoas. Inovou nas soluções programáticas, materiais, construtivas, espaciais e mesmo na pioneira integração das artes plásticas nos espaços de uso colectivo. Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.148-157. 27| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.83. 28| Ibidem, p.58 69 Figura 33 | Fichas de caso de estudo: Frank Lloyd Wright, Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] assim, a extensão do conceito de funcionalismo, pela adopção crítica de exigências e particularidades reais dos indivíduos, e dos grupos, para além de esquematismos intelectualistas; assim da vontade em interpretar intimamente a fisionomia natural de um lugar, ou a persistência dos costumes e os modelos formais e ecológicos a ela ligados, como de procurar o diálogo com todas as raízes que possam conter sugestões para uma linguagem mais aderente e directamente humana.” 29 Os valores da arquitectura a que Portas se referia neste parágrafo, tinham sido deixados em suspenso 30 anos antes por Frank Lloyd Wright – mestre académico de Portas – e como referido no “Esboço”, estariam a germinar novamente, na tentativa de superação do racionalismo, através dos arquitectos nórdicos, Asplund e Aalto, no movimento da história designado como “newempirism”, referido no capítulo I. À importância do espaço interno na génese da arquitectura e a sua relação com a natureza – pontos fundamentais na arquitectura de Wright – juntava-se a relação da casa com o espaço exterior, enquanto espaço social e o ponto essencial da arquitectura neo-empirista: um humanismo que concedesse, “à nova noção de espaço que começava a delinear-se por sobre o espírito anterior [orgulhoso no seu desenraizamento], a reintegração de uma dimensão social, após essa conquista do ambiente natural. A realidade preexistente, efectivamente, não era apenas de natureza paisagística ou climática, mas humana – alicerçada em anos de história, história presente em hábitos de vida e relações humanas profundamente enraizadas.” 30 Nuno Portas refere, então, a via crítica italiana, onde todas estas questões foram prontamente adoptadas e reinterpretadas, entre a tradição da corrente neo-realista, materializada com o INA-Casa, e a análise crítica da história de Bruno Zevi. Tal como na obra de Wright as habitações unifamiliares, constituíram o leitmotiv do atelier da Rua da Alegria. Um programa mais acessível de ser experimental e de abordar o conjunto de valores que Portas referiu, formando ____________________ 29| Ibidem, p.68. 30| Ibidem, p.7. 71 Figura 34 | Fichas de casos de estudo: Concepção da Forma de Agrupamento, Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959 Figura 35 | Fichas de casos de estudo: Organização Interna da Célula Familiar, Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] um laboratório de soluções aplicadas a projectos com uma escala maior, que nesse tempo também se iniciavam. Foi na habitação, unifamiliar e social, que o atelier efectuou os saltos linguísticos que Teotónio Pereira sempre procurou, e que com a pesquisa e aprendizagem de Portas do movimento arquitectónico e urbanístico moderno, que acabamos de mencionar, viria a suceder. Aos princípios ensaiados e seguros da escola wrightiana seriam articulados os valores das tradições culturais e da arquitectura vernacular portuguesa – numa evidente influência da via italiana – e desenvolvidos, como veremos na análise no capítulo III, nas três casas deste período: a Casa Metelo [1958-59], Casa Brás de Oliveira [1957-64], a Casa Dr. Barata dos Santos [1959-63]. “A Concepção da Habitação”, para lá do carácter histórico referido, colocaria a tese, como referiu Teotónio Pereira, no campo da crítica espacial: exterior, na análise da “Concepção da Forma de Agrupamento”, e interior na “Organização Interna da Célula Familiar”, visto que “o problema de concepção de um habitat, […] está na opção de agrupamento. Este vincula, talvez irreversivelmente, a relação da célula com o espaço exterior, com as outras células e, finalmente, o seu próprio espaço interno.” 31 Na análise do planeamento do espaço exterior, Portas alertou, recordemos, em 1959, que “o problema das densidades, dos mais graves e complexos que se põem à planificação, tem antes de ser encarado em função do dimensionamento das comunidades e do seu equipamento, vistos não só á escala local mas, antes, na sua inserção regional e nacional” 32 ; ora este problema poderia condicionar de modo decisivo a forma de dispôr os edifícios e teriam consequências gravosas no plano económico e social se não fossem coordenadas e controladas pelas precárias políticas nacionais de habitação. Segundo o autor as ausências de uma legislação, de estudos rigorosos e continuados sobre a morfologia dos tipos habitacionais, conjugadas com os preconceitos e modelos ideológicos de um ‘modo de fazer’ com décadas de enraizamento, como foi o exemplo falacioso da ‘casa portuguesa’, estariam na origem da débil situação da habitação em Portugal e condicionaram o ____________________ 31| Ibidem, p.53. 32| Ibidem, p.82. 73 Figura 36 | Fichas de caso de estudo: Quanto aos orgãos de acesso e distribuição como espaços de relação, Nuno Portas, A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, 1959 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] desenvolvimento de uma arquitectura habitacional com valor social. O jovem Nuno Portas revelava, então, ‘inconscientemente’, os motivos condutores pessoais que acabariam por ocupá-lo ao longo das décadas seguintes: “esta situação só corrobora a necessidade […] de coordenar, inclusivamente no plano institucional, as coisas do urbanismo e da habitação, de acertar critérios e métodos, de pôr estudos históricos, sociológicos e económicos ao serviço síncrono dos vários planos de trabalho actualmente pulverizados por ministérios e serviços vários, naturalmente divididos, cada um no seu critério.” 33 Perante esta análise do cenário português, não será pois de estranhar que o projecto de habitação social de Olivais-Norte, iniciado em 1957, e Olivais-Sul, em 1961, constituíssem já uma reacção a todo este panorama crítico e muito dos temas que Portas desenvolveu na sua Tese, tivessem a sua primeira experimentação prática precisamente nestes projectos. Em Olivais-Norte, o plano de conjunto estava já realizado de acordo com a ideologia racionalista de blocos individualizados segundo o modelo da Carta de Atenas que, como referimos, para Nuno Portas estava ultrapassado. A intervenção do atelier da Rua da Alegria cingiu-se apenas ao desenho das ‘torres’ e ‘bandas’, num ensaio de edifícios que englobavam os valores tradicionais – desenvolvidos paralelamente nas habitações unifamiliares – com novas soluções para o corpo de entrada e distribuidor dos acessos verticais, conjugadas com os estudos sociológicos e os novos pressupostos de custos e áreas mínimas da habitação social, temas que Portas acabara de desenvolver no seu CODA. E se a Norte o modelo era o da Carta de Atenas, em Olivais-Sul a novidade na intervenção do atelier, é que o desenho ia para lá dos edifícios, constituindo o ensaio de um novo desenho urbano e de novos tipos de edifícios que superassem a ideologia racionalista. As torres deixaram de ser isoladas e foram integradas em conjunto e relacionadas com os edifícios em ____________________ 33| Ibidem, p.82. 75 Figura 37 | Alguns dos Artigos de Nuno Portas na Revista Arquitectura A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] banda mais baixos e em maior número, com a introdução dos valores urbanos da rua definida na continuidade das construções e com carácter de espaço social ao ar livre – à imagem das últimas gerações das new towns inglesas e com influência da experiência da revisão operada em Itália. Procederemos à análise mais detalhada destas e doutras questões da habitação social no capítulo III. Se nos estendermos na análise de “A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura”, percebemos a atenção que Portas, desde muito jovem, concedeu aos vários campos do conhecimento sociológico, político e urbanístico, que constituíram os focos das suas investigações na década de 60, e assim, como estas se reflectiram desde o princípio da sua colaboração no atelier da Rua da Alegria. Por outro lado, importa observar que muita da investigação que Portas efectou para a realização do seu CODA permitiu-lhe escrever na revista Arquitectura, de uma forma fundamentada e actualizada. De facto muitos dos artigos escritos na Arquitectura, e noutros espaços de crítica, desenvolveram os mesmos temas, sínteses e análises históricas desenvolvidas na sua Tese.34 Analisemos Nuno Portas na sua faceta de crítico de arquitectura. Paralelamente à sua actividade no atelier da Rua da Alegria, Portas colaborou na revista Arquitectura, na crítica e divulgação de arquitectura portuguesa e internacional. Iniciado em 1956, enquanto estudante, o papel de crítico, primeiro de cinema no Diário de Lisboa e no Diário Ilustrado e depois de arquitectura, foi porventura naquele em que o autor mais se destacou, individualmente. Portas chega mesmo a receber o Prémio de Crítica de Arte da Fundação Gulbenkian, em 1963, por artigos escritos para o Jornal de Letras e Artes na crónica “Pioneiros de uma Renovação”, onde também explanou o seu pensamento arquitectónico. ____________________ 34| Ver: Conceito de Casa-pátio como Célula Social. Arquitectura 64. Jan./Fev. 1959. p.32-34, 59-60; Considerações sobre o Organismo Distributivo das Habitações. Arquitectura 69. Nov./Dez. 1960. p.48-52. 77 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] Numa entrevista35 bastante elucidativa sobre o seu projecto crítico e teórico, Portas alertou para a ausência de uma crítica de arquitectura 36 mais abrangente e com mais autores, que trouxesse para o quotidiano e para o público em geral a discussão “das formas das cidades ou das casas em que vive” 37 , destacando o papel da revista Arquitectura nesse sentido a partir de 1957, com a sua entrada e de outros críticos, como referimos no capítulo I. Na referida entrevista de 1965, Portas sublinhou o ponto que evidenciamos neste segundo capítulo, a importância de abordar diferentes campos de conhecimento e modo como o aprofundamento multidisciplinar era essencial no seu projecto teórico e na sua prática arquitectónica: “a minha crítica e o meu próprio trabalho de concepção da arquitectura têm beneficiado, dos contactos com obras ou estudos de outros sectores da criação, como a crítica literária e os estudos linguísticos, como as preocupações espacialistas na pintura, como toda a controvérsia sobre os modos e eficácias da intervenção das formas artísticas na consciencialização social, política, cultural... moral, dos seus consumidores. Pelo menos tanto como o que tem beneficiado com o contacto de economistas, sociológos ou engenheiros.” 38 O projecto crítico e teórico de Nuno Portas, quando começou a escrever na revista Arquitectura, teve como ponto de partida os pressupostos antiracionalistas de Bruno Zevi – mestre histórico e crítico de Portas – reflexo duma maior proximidade conceptual com a via crítica italiana. Zevi elaborou um trabalho historiográfico fundamental e através de uma releitura crítica da ___________________ 35| PORTAS, Nuno – A Crítica da Arquitectura que Temos Ensaiado Não Está à Altura da Importância do que se Constrói para a Vida Quotidiana. In: Arquitectura [s]. História e Crítica. Ensino e Profissão. 2005. p.32-36. 36| A falta de uma crítica e teoria arquitectónica a que Portas se referiu, era reflexo de uma ausente “escola portuguesa” teórica, num campo pontuado por poucas personagens. Autores como Ramalho, que colaborou como editor na revista Arquitectura, nos anos 20 e Raúl Lino com os ensaios A Nossa Casa [1919] e A Casa Portuguesa [1929], eram a excepção no deserto teórico português da primeira metade do século XX; Nos anos 40, Keil do Amaral tentou alterar este panorama, também como editor da revista Arquitectura e publicando Arquitectura e Vida [1942] e O Problema da Casa Portuguesa [1947]. Sucedendo-lhe Fernando Távora no papel de dinamizador da teoria e crítica de arquitectura em Portugal. Ver: PORTAS, Nuno – A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal. 2008. p.153-210. 37| PORTAS, Nuno – A Crítica da Arquitectura que Temos Ensaiado Não Está à Altura da Importância do que se Constrói para a Vida Quotidiana. In: Arquitectura [s]. História e Crítica. Ensino e Profissão. p.33. 38| Ibidem, p.33 79 Figura 38| Bruno Zevi, História da Arquitectura Moderna, versão portuguesa, 1970 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] história descobriu novas perspectivas que viriam a ser incluídas no processo de criação e na redefinição da arquitectura que ocorria nos anos 50 na Europa. Se por um lado Zevi foi o responsável maior pela divulgação do conceito de espaço interno – influenciado pela arquitectura de Wright e pela constatação que a história da arquitectura é sobretudo feita pela história das concepções espaciais – enquanto meio de análise e de valorização da arquitectura e da urbanística, por outro lado revelou e evidenciou na sua Storia della Architettura Moderna valores da arquitectura que foram ignorados na ideologia racionalista nas décadas de 20 e 30, ao indicar o caminho para uma arquitectura que respondesse às necessidades humanas e sociais, materializadas nas anteriormente referidas correntes orgânicas. E como fomos referindo, eram aspectos que Portas incutia na sua prática projectual. Para lá dos seus artigos, o discurso de Nuno Portas revelam a sua aproximação a Zevi: “assim, entendo a forma em arquitectura como a própria organização e modelação do espaço e é em ordem a este poderoso meio expressivo que tenho reduzido a descrição e a crítica dos diversos elementos que intervêm numa obra – volumes, estrutura, superfícies, proporções, claroescuro, ornato, etc. – e que são, afinal, sinais que designam espaços sensíveis, ambientes e, logo, experiências humanas.” 39 Encontraremos esta chiave zeviana, vincada no esboço histórico do seu CODA e uma década mais tarde, na ode ao arquitecto italiano que constituiu o Prefácio da primeira edição portuguesa da História da Arquitectura Moderna de 1970, num texto onde revemos Portas e no Posfácio da segunda edição em 1973, onde resume a “evolução da arquitectura moderna em Portugal.” 40 Contudo para Portas “a crítica de arquitectura que temos ensaiado não está à altura da importância do que se constrói para a nossa vida quotidiana” ,41 se até então a crítica operada tinha sido feita a obras isoladas de autores ____________________ 39| Ibidem, p.34. 40| A síntese de Nuno Portas da arquitectura moderna em Portugal, viria a ser compilada com a 2ª edição de A Arquitectura para Hoje, com o título: A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal. 2008. p.149-235. 41| PORTAS, Nuno – A Crítica da Arquitectura que Temos Ensaiado Não Está à Altura da Importância do que se Constrói para a Vida Quotidiana. In: Arquitectura [s]. História e Crítica. Ensino e Profissão. p.35. 81 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] portugueses – como Fernando Távora, Siza Vieira, Viana de Lima, entre outros – que se fecharam sobre si mesmas e não acarretaram questões para serem aplicadas a arquitectura em geral, para Portas era o momento para a mudança de escala num plano crítico mais abrangente – não apenas o edifício mas a cidade – e com um diferente método de análise, à imagem do que sucedeu no plano prático. Nas palavras do crítico: “ora, assim como, nas obras de arquitectura, há uma mudança de escala dos problemas pela qual se passa da obra isolada, de âmbito quase individual, que caracterizou a fase difícil das obras modernas [...] para o conceito actual da obra integrada – integrada no plano, na repetibilidade das soluções em pontos diferentes, em resumo, na exemplaridade de cada contribuição – assim também, dizia, há uma evolução no papel da crítica [única que pode aclarar e difundir essa exemplaridade] que se dilata, igualmente, do julgamento formal da peça isolada, para avaliar o que em cada contribuição pode ser absorvido, desenvolvido ou contrariado, no que se faça posteriormente ou noutros locais – e cabe-lhe, deste modo, alargar a um uso mais geral, ao uso de toda a população, valores adquiridos na obra investigada.” 42 Este apelo foi corroborado pela mudança de escala, que se efectuou no plano prático, neste período no atelier da Rua da Alegria. De “obras isoladas” com uma escala muito controlável, como as habitações unifamiliares, surgiu a oportunidade de construir uma “obra integrada”, virada para a escala da cidade como foi o projecto da Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus. Paralelamente ao programa habitacional, que constítuia a grande fatia da encomenda do atelier, foi desenvolvida uma arquitectura religiosa, relevante para superar dogmas implantados e testar outras questões e escalas. Como vimos, Nuno Teotónio Pereira foi um dos membros do MRAR, e contribuiu de forma decisiva para a mudança do paradigma da arquitectura religiosa com a Igreja Paroquial de Águas, em Penamacor [1949-55]. Mas foi com o concurso ganho em 1962 para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus [1962-1976], e posteriormente com a Igreja Paroquial de Almada [1963-1971], que houve uma ____________________ 42| Ibidem, p.35. 83 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] ruptura definitiva com os equipamentos religiosos projectados ao longo das décadas anteriores. Como veremos, na análise a esta obra no capítulo seguinte, na concepção do concurso para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, o espaço interno constituiu o motor do projecto – algo sempre presente em toda a arquitectura do atelier – no entanto, o protagonismo na discussão da Igreja centrou-se no programa e no modo como foi desenvolvido no quarteirão do coração de Lisboa. À tradição de fazer “igrejas no meio do nada” 43, o atelier da Rua da Alegria respondeu com uma igreja integrada no quarteirão, onde espaço religioso e espaço público se inter-relacionavam, num inovador conceito de intervenção urbana da arquitectura portuguesa. O atelier despertou, deste modo, para uma arquitectura articulada com o espaço público e com a malha da cidade existente, no que Portas apelidou de “fazer cidade.” 44 Retornando ao projecto teórico, se um primeiro período, diriamos ingénuo, ficou marcada pelos pressupostos zevianos – na análise histórica e na adopção dos princípios orgânicos – Nuno Portas rapidamente percebeu que o caminho não terminaria aí. Este afastamento da chave zeviana, ficou precocemente explícito no texto de 1959, referido no capítulo I, Portas expõe a necessidade da procura de um ''plano de metodologia'' que permitisse um “modo de conexão do acto criador com os processos de conhecimento da realidade”, fundamentado sociologia]” “pelas ciências humanas [fenomenologia, psciologia, 45 , o que constituirá a base da sua pesquisa ao longo dos anos 60: a procura de uma metodologia crítica e projectual baseada nas ciências sociais e no trabalho multidisciplinar. Anos mais tarde Portas, na entrevista de 1965, constatava que as “condições dessa crítica estão ainda por realizar, pois carece de um _______________ 43| PORTAS, Nuno – Sobre o Método e os significados no Atelier Nuno Teotónio Pereira. In: Arquitectura[s], Teoria e Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.234. 44| PORTAS, Nuno – A cidade como Arquitectura. 2007. p.13. 45| PORTAS, Nuno – A responsabilidade de uma novíssima geração no Movimento Moderno em Portugal. Arquitectura 66. Dez. 1959. p.14. 85 A pesquisa para o CODA [1957-59] e a crítica na revista Arquitectura [1957-71] aperfeiçoamento do método para estruturar desde o programa da intervenção aos domínios formais. Pessoalmente, vejo-a muito ligada à didáctica da formação dos arquitectos, pois o seu ensino repousa, precisamente, em toda a fase vital de projectar – no esclarecimento dos métodos – método de análise das implicações, método de concepção, método crítico. E, agora, que me foi dada a oportunidade de ensaiar por forma sistemática esta ideia, espero poder avançar um pouco mais nos campos da teoria e da crítica.” 46 Ora as oportunidades concedidas foram a sua entrada no Laboratório Nacional de Engenharia Civil [LNEC] para investigador na Divisão de Construção e Habitação, e a de professor na ESBAL. Analisemos essas duas vertentes de Portas. ____________________ 46| PORTAS, Nuno – A Crítica da Arquitectura que Temos Ensaiado Não Está à Altura da Importância do que se Constrói para a Vida Quotidiana. In: Arquitectura [s]. História e Crítica. Ensino e Profissão. 2005. p.36. 87 Figura 39| Laboratório Nacional de Engenharia Civil [LNEC], Lisboa A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71] Ao longo deste capítulo II, destacamos como Nuno Portas, misturou o papel de crítico na revista Arquitectura com a intensa prática arquitectónica do atelier da Rua da Alegria neste virar da década de 60. Portas confirmou-o: “quando fiz crítica de arquitectura estava a fazer a mesma coisa que ao tentar fazer no atelier uma experiência de arquitectura. Sempre defendi a crítica como uma actividade de intervenção nos destinos da própria arquitectura.” 47 No entanto, para Portas a crítica e a prática de atelier não eram os únicos domínios da disciplina e para “uma arquitectura mais enraizada na sociedade e que tenha mais impacto na vida das pessoas, portanto que se justifique social e culturalmente, tem que se passar a níveis diversos e não só ao nível de trabalho de atelier.” 48 Se o domínio projectual era fundamental, o domínio teórico não o era menos e com a sua entrada para o Laboratório Nacional Engenharia Civil [LNEC] em 1962 e para professor na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa em 1965, dois papéis que se misturaram e complementaram, Portas obteve as oportunidades para explorar a vertente teórica por que ansiou, apenas com o prejuízo de um abrandamento no campo prático retomado de forma mais constante no final dos anos 60, como veremos. A passagem de Nuno Portas para o nível de investigação em arquitectura aconteceu então no Departamento de Construção e Habitação do LNEC, criado com a entrada de Portas, após aceitar o convite de Ruy J. Gomes, engenheiro com sensibilidade arquitectónica que descobriu Portas na leitura do CODA sobre habitação, anteriormente referido. Portas comentou, quinze anos depois numa marcante entrevista à revista Arquitectura, a sua entrada para o LNEC e o olhar desconfiado de outros arquitectos para esta nova abordagem arquitectónica de investigação: “é-me dada então no “santuário” dos engenheiros a possibilidade de começar a fazer, ____________________ 47| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.61. 48| Ibidem, p.57. 89 A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71] em paralelo com a actividade de projecto, uma actividade que chamavamos de investigação, trabalho que, para muitos colegas não era arquitectura...” 49 Se para a generalidade dos arquitectos portugueses a investigação na arquitectura cingiu-se a encontrar soluções na prática projectual, Portas teve a ambição, a necessidade diriamos, de dar o salto para lá do isolamento da prática de atelier, na tão desejada multidisciplinaridade de conhecimento: ''para mim havia que utilizar métodos da investigação científica e tentar estabelecer umas pontes com domínios do conhecimento arquitectónico, quer dizer fora da disciplina da arquitectura […] o arquitecto não podia mais estar isolado a inventar a cidade dos outros, como se outros não estivessem, ao mesmo tempo, a estudá-la, a criticá-la...” 50 Deste modo, a investigação de “Laboratório” foi o impulso que permitiu a Portas por um lado, superar os pressupostos anti-racionalistas de Zevi – que marcaram os primeiros anos de colaboração na revista Arquitectura – e por outro lado, desenvolver questões que três anos antes expressou no seu CODA [1959], por exemplo, a questão duma metodologia projectual baseada nos resultados da “investigação sociológica aplicada ao habitat”. De facto, Nuno Portas, sem se desprender da arquitectura orgânica, evoluiu da chave zeviana de crítica ao racionalismo – um debate focalizado na “forma” e no seu “significado” – para a discussão de questões metodológicas, na concepção de arquitectura, com um carácter científico. Ou seja, passou da arquitectura “formal” para uma arquitectura “metodológica ou programática”, como o fez transparecer no seu primeiro livro, A Arquitectura Para Hoje, editado em Outubro de 1964 e cinco anos mais tarde no A Cidade como Arquitectura. Analisemos as diferentes “vias de investigação” que Nuno Portas explorou neste período que integrou o LNEC, que terminaria com a sua entrada para o Governo Provisório, como Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, após o 25 de Abril de 1974. Quando Nuno Portas iniciou o seu percurso no LNEC, conjuntamente com uma pequena equipa, o trabalho de investigação em arquitectura estava ____________________ 49| Ibidem, p.57. 50| Ibidem, p.57-58. 91 A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71] envolto em dúvidas e incertezas quanto às vias a seguir, “como era um trabalho de tipo novo, mesmo no estrangeiro, havia que procurar várias linhas de investigação para ver o que davam.” 51 Assim sendo, ao longo deste período de doze anos vão surgindo “vias” de investigação sequenciais, como tão bem Portas resumiu: “a seguir às incursões nos campos da sociologia e da psicologia, das ciências humanas aplicadas ao espaço [via sociológica], e à busca dos métodos explícitos, dos chamados métodos de design [via metodológica], havia uma outra ponte a fazer, agora para os lados da economia urbana e para os lados das políticas tout court. Essa passagem ainda a tentámos dar a partir do LNEC, quando nos começamos a preocupar pelas relações entre as políticas urbanas em geral e da habitação em particular e as formas arquitectónicas. Antes de 74, lembro a abordagem dos sistemas evolutivos e dos modelos urbanos [via evolutiva]; nos últimos anos o trabalho sobre o sistema de planeamento e a descentralização.” 52 Sintetizando, a uma primeira “via sociológica” em estreita permutação com uma outra “via metodológica”, surgiria na confluência das anteriores uma última “via evolutiva”, no virar para a década de 70. No início dos anos 60, a experiência em Portugal no domínio da sociologia aplicada ao habitar era muito reduzida, o trabalho mais relevante cingia-se ao capítulo do CODA de Nuno Portas que, como referimos, condensou, a partir de uma extensa bibliografia de diversos autores, as experiências internacionais de domínio sociológico, e portanto, na continuidade deste conhecimento, como recordou o investigador, “aconteceu-me que, por contactos que tinha tido, com homens como Chombart Lauwe ou Imbert e, mais tarde, com Lefebvre ou Castells, vim a iniciar trabalhos de ponte entre as preocupações dos arquitectos na concepção espacial da casa, do bairro e as preocupações que sociológos e psicológos começavam nessa altura a ter sobre a organização do espaço.” 53 ____________________ 51| Ibidem, p.58. 52| Ibidem, p.58. 53| Ibidem, p.58. 93 Figura 40| Nuno Portas, Relato Sucinto dos Contactos Estabelecidos por Ocasião do Congresso da U.I.A, Paris, Julho 1965, Lisboa, Outubro 1965 A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71] A primária “via sociológica” de investigação veio então colmatar a ausência de estudos nesta área em Portugal e pautou-se por um intenso trabalho de campo, com um “Inquérito-Piloto sobre Necessidades Familiares em Matéria de Habitação” 54 realizado em 1963, nos bairros de habitação social, de Alvalade em Lisboa e no Plano das Ilhas no Porto. O objectivo deste inquérito experimental consistiu no processamento do feedback, das necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais, do sujeito da habitação: a família – através de métodos inovadores e progressivos, de análise ao modo de vida dos habitantes – para posterior integração dos resultados e conclusões, no processo da prática arquitectónica de habitação social, no que designamos de “via metodológica”. Contudo, perante a incerteza destas linhas de investigação, os estudos realizados ou em curso na Divisão de Construção e Habitação, foram confrontados em Paris por “Ocasião do Congresso da U.I.A. Julho 1965”, por iniciativa pessoal de Nuno Portas, com outros organismos e personalidades – onde se inseriam Lauwe e Imbert – que desenvolviam trabalhos similares nos seus países, com o objectivo de perceber o grau de desenvolvimento dos trabalhos estrangeiros e de assegurar futuros contactos e trocas de dados. De salientar este constante contacto que Portas estabeleceu, através das suas iniciativas e viagens, com o conhecimento de vanguarda desenvolvido na Europa e, como veremos, também na América Latina, essencial para o desenvolvimento da investigação da arquitectura em Portugal. Nas páginas do relato do Congresso ao LNEC, Portas conclui que o trabalho desenvolvido, neste período inicial tinha acertado nas vias seguidas: “desta série de contactos pode tirar-se como conclusões para o trabalho […] que se confirma a pertinência do programa estabelecido pelo LNEC seguindo a dupla via: inquiração das necessidades humanas e preparação de métodos e instrumentos que permitam integrar a crescente informação disponível num processo mais objectivo de concepção de projectos.” 55 No entanto, se a “via ____________________ 54| Além de Nuno Portas, de referir a equipa na elaboração deste inquérito: os sociológos Adérito Sedas Nunes e J.C.Ferreira de Almeida [questionário e trabalho de campo] e a arquitecta Luz Valente Pereira [no tratamento de dados ulterior]. Do Inquérito-piloto resultaram o Relatório I [Setembro 1963] e o Relatório II [Setembro 1967]. 55| PORTAS, Nuno – Relato Sucinto dos Contactos Estabelecidos por Ocasião do Congresso da U.I.A, Paris, Julho 1965. 1965. p.9. 95 A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71] sociológica” estava já bastante desenvolvida e fundamentada, dado que “encontra já apoio sólido em múltiplos estudos concluídos e criticados em países onde contam já bastante anos de trabalho, o segundo campo encontrase em fase inicial nas diversas instituições de investigação de que obtivemos informação.” 56 De referir que, nos anos 50 e 60, surgiram na Europa, vários autores e instituições com preocupações de desenvolver “métodos sistemáticos de projecto” [design methods], de modo a conceder aos arquitectos maior controlo sobre o processo criativo e de concepção na arquitectura e no desenho urbano. Ainda no Congresso de 1965 em Paris, Portas reuniu-se para trocar impressões sobre este tema com A.G.Atkinson [Building Research Station, Londres], que “iniciou um estudo sobre o “design process” baseado nas análises sistemáticas de programa iniciadas com a tese de C. Alexander 57 [Harvard 1964] cujos princípios têm apoiado o estudo de racionalização de soluções do fogo iniciado na Divisão Construção e Habitação.” 58 A investigação no LNEC, em meados de 60, enveredava então pela via da conexão entre a arquitectura e outro mundo, “o das actividades racionais e da análise empírica, que utilizavam formas lógicas explícitas: como a engenharia, a teoria de sistemas, e da tomada de decisão e onde as preocupações de metodologia eram dominantes.” 59 A “via metodológica” recebeu o trabalho de Christopher Alexander desenvolvido em Harvard, mas sobretudo de destacar o influente papel da interacção com a Escola de Cambridge, que Portas recordou nas primeiras páginas de “Leslie Martin e a Escola de Cambridge” 60, décadas mais tarde. No prefácio do livro de Mário Kruger, Portas resumiu o cenário que se viveu nos anos sessenta – entre a investigação arquitectónica e a influência desta na ____________________ 56| Ibidem, p.9. 57| A tese referida intitula-se Notes on the Synthesis of a Form [1964]. Christopher Alexander [1936-], publicou outros ensaios de onde destacamos: City is not a Tree [1965] e A Pattern Language [1977]. 58| Ibidem, p.9. 59| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.58. 60| Título da Prova de Agregação em Arquitectura, do arquitecto Mário Kruger pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Refira-se que Mário Krüger [1945-] realizou o PhD na Escola de Cambridge impulsionado por Nuno Portas. 97 Figura 41| Leslie Martin e Lionel March, The Grid as Generator, Cambridge A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71] prática do atelier – e prestou a homenagem à Escola e a Leslie Martin que “conseguiu reunir um grupo de jovens docentes dedicados à investigação que produziram verdadeira inovação nos métodos e nas soluções dos problemas urbanos e arquitectónicos, alargando e aprofundando a racionalidade de que o modernismo reclamava – abrindo então as janelas da teoria aos domínios da lógica e da matemática, da biofísica e das ciências humanas.” 61 Nuno Portas foi então o responsável, pela introdução da “escola martiniana” no contexto português, reflectida nas linhas de investigação no Departamento de Construção e Habitação do LNEC e caracterizado “pelo uso da lógica e da computação na geração de tipos de organização espacial, depois ampliadas para os modelos urbanos […] e implementados, por nós, para a cidade de Lisboa, só possível de serem concretizados com os instrumentos informáticos já disponíveis na época.” 62 No entanto, o que nos importa sublinhar, foi a preponderância que o trabalho de Leslie Martin e seus discípulos, tiveram na prática arquitectónica de Nuno Portas e consequentemente do atelier da Rua da Alegria. Recordemos que no início dos anos 60, o atelier procurou uma linguagem arquitectónica que conseguisse superar os princípios modernistas, na ligação com a história e com as pessoas. Portas recordou o impacto da sua visita “ao projecto do Caius College, em Cambridge, pela organização do edifício no sítio, em que Martin se liberta dos “moldes” Corbusianos, tão presentes em Roehampton, para se juntar à pesquisa de Aalto, maduro na relação empática, mas não mimética com o contexto histórico e urbano, como na complexidade de espaços internos e de transição para o exterior e tendo como referente a visão dos modos de vida dos futuros utentes.” 63 Temas explorados nas primeiras obras, mas principalmente na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, obra de transição do atelier da Rua da Alegria para uma arquitectura de dimensão urbana, num projecto inserido num quarteirão da cidade construída, como referimos, questão que Leslie Martin evidenciou “no ____________________ 61| PORTAS, Nuno – Prefácio. In: Leslie Martin e a Escola de Cambridge. 2005. p.11. 62| Ibidem, p.13. 63| Ibidem, p.12. 99 A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71] seu ensaio seminal “The Grid as Generator”, e que hoje parece tão óbvio mas na época tão provocativo, ou seja, de como a cidade se organizava e devia continuar a organizar-se espacialmente, a partir dos traçados da malha de suporte enquanto seu elemento mais perene e não como resultante de volumes edificados, mas sensíveis aos momentos das decisões, dos processos ou dos gostos.” 64 Ora foi precisamente a valorização e organização da cidade, a importância consentida ao espaço público e aos valores das tipologias urbanas da cidade tradicional – a rua, a praça, o quarteirão – que centrou as atenções no atelier da Rua Alegria, em finais dos anos 70, depois do ensaio dos Olivais. Não foi, certamente, por acaso o facto de Nuno Portas ter regressado à actividade de atelier mais constantemente, após um período de focalização quase exclusiva na investigação crítica dos modelos de habitação e formas urbanas desenvolvida no âmbito do LNEC, como referimos. E se neste período Portas ainda se encontrava a desenvolver investigação, houve contudo a oportunidade de passar novamente à prática através de dois projectos: o Centro de Compras de São Sebastião [1968-70] e o Plano de Pormenor do Restelo [1970-75], que constituíram os últimos projectos de análise no capítulo III. Em 1968, o projecto-estudo para o não construído Centro de Compras de São Sebastião, constituiu o primeiro complexo de centro comercial concebido para Lisboa. Foi um edifício de escala e programa inovadores, onde se articulavam diferentes níveis de circulação: pedonal, rodoviário e de metropolitano e onde as galerias comerciais se organizavam em vários planos, criando novas formas de viver o espaço urbano, à imagem dum projecto anterior, o Edifício de Comércio e Escritórios “Franjinhas” [1965-1969], desenvolvido por Nuno Teotónio Pereira e João Braula Reis. No entanto, o projecto emblemático do atelier, no repensar da cidade tradicional em termos contemporâneos, revela-se no Plano de Pormenor do Restelo, encomendado pela Câmara Municipal de Lisboa. A intervenção na cidade consolidada, onde imperavam os blocos modernos e as torres de uma ____________________ 64| Ibidem, p.12. 101 A investigação no LNEC [1962-74] e o ensino na ESBALisboa [1965-71] elevada densidade habitacional, seria questionada e contrariada através do traçado da malha ortogonal, retomando a rua, o quarteirão e a praça, como matriz do desenho urbano, depois da hegemonia anterior da Carta de Atenas. E foi também aqui, no ‘plano da arquitectura urbana’, que Portas recordou a influência de Leslie Martin e os seus estudos sistemáticos de ocupação do solo e de novas tipologias que levaria a uma passagem da construção em altura para uma construção em perímetro: “também aqui fiquei a dever a estas revelações os princípios do plano de pormenor do Restelo [69-71] que justificava, apoiado nos relatórios – working papers – de Cambridge, a possibilidade de competir em densidade de uso do solo com as recém construídas “Torres do Restelo”, sem ultrapassar os 3 a 5 pisos, simplesmente explorando a ocupação perimetral e não o miolo das quadras definidas pelas ruas.” 65 Recapitulando, com o decorrer dos anos 60, o pensamento de Portas evolui de um patamar doméstico para um patamar urbanístico, como evidenciaremos no capítulo III com o aumento gradual da escala das obras analisadas, e que culminaria com o Plano de Pormenor do Restelo, no início dos anos 70. Se no princípio Portas incidiu a sua pesquisa na linguagem arquitectónica, numa escala mais modesta – o edifício como objecto – uma década mais tarde, as baterias estariam apontadas para uma escala mais abrangente – a cidade como território – reflexo dos anos de investigação no LNEC mas também da sua experiência pedagógica na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. ____________________ 65| Ibidem, p.1. 103 Figura 42| Nuno Portas, Arquitectura para Hoje, 1ª edição, 1964 Figura 43| Nuno Portas, Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal, 2ª edição, 2008 Da A Arquitectura para Hoje para A Cidade como Arquitectura Acerca da passagem de Nuno Portas pela Escola de Lisboa, e do trabalho que desenvolveu ao nível da didáctica em arquitectura, há a explorar a evolução denunciada no parágrafo anterior, explícita nos seus dois livros A Arquitectura para Hoje [1964] e no A Cidade como Arquitectura [1969]. O livro A Arquitectura para Hoje, resultado de uma prova académica no âmbito da ESBAL, surgiu como uma revisão da matéria dada por parte de Portas até 1964, “numa época de encruzilhadas”, como lhe chamou no prólogo, com temas que ao longo deste capítulo tomamos como referências. O autor referiu-se a uma “sociedade em mutação” e onde era necessário, apesar de perigoso, “tomar a realidade como instância da génese arquitectónica” 66 , defendendo a urgência de incutir princípios metodológicos e científicos de concepção na arquitectura, a partir do ensino da disciplina nas Escolas, mas também enquanto estrutura de todo o pensamento interno da arquitectura. Ora são estas as ideias que importam ressaltar, expressas nos últimos capítulos do livro, relativos à “integração metodológica” e às “contribuições para o ensino”, que concorriam para o objectivo principal de uma arquitectura como reflexo da sociedade onde se inseria: “a insistência com que se fala num método conceptual adequado não se justifica pela intenção de que venha a fundamentar um esforço de progresso na pedagogia mas, antes ainda, de fundamentar o lugar da própria produção de Arquitectura na sociedade que se racionaliza.” 67 No entanto, Nuno Portas não deixou de sublinhar o sentido metodológico que incutiu no ensino, que simultaneamente desenvolvia no LNEC, não tanto empenhado em transmitir “formalários” – no sentido de uma colecção de formas – mas métodos e instrumentos [design methods] para que os alunos constituíssem ’motores’ e não ‘atrelados’ numa escola enquanto “lugar de transmissão do melhor que sabemos mas também, desde logo, um lugar em que didáctica e investigação se confundem, ou, por outras palavras, na qual a didáctica da arquitectura é criadora, responsabilizando-se não apenas em ____________________ 66| PORTAS, Nuno – A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em portugal. 2008. p.12. 67| Ibidem, p.101. 105 Figura 44| Nuno Portas, A Cidade como Arquitectura, 1ª edição, 1969 Figura 45| Nuno Portas, A Cidade como Arquitectura, 3ª edição, 2007 Da A Arquitectura para Hoje para A Cidade como Arquitectura reflectir o melhor nível existente mas em acrescentar possibilidades ao futuro exercício da profissão.” 68 Recordemos que a reforma do ensino em arquitectura nas Escolas Superiores de Belas Artes de Lisboa e Porto69 que ocorreu na década de 60, rompeu com o modelo de ensino centralizado na figura de mestre-arquitecto, para um modelo caracterizado por uma atitude fundamental de interrelacionar investigação com a prática profissional, e onde os estudos universitários tinham um papel de dinamizador desta ligação, algo que a escola da Bauhaus já tinha ensaiado e que neste período a Escola de Cambridge e Leslie Martin estavam a desenvolver e dinamizar, como ressaltou Portas no prefácio sobre a escola inglesa. Por sua vez, o livro publicado em 1969, A Cidade como Arquitectura, no âmbito de uma prova académica para a ESBAL, traduziu o evoluir da pesquisa de Nuno Portas das metodologias de projecto [design methods], expressa no livro anterior, para a pesquisa de uma arquitectura com a dimensão urbanística [town-design], dado que para o autor, “sob o ponto de vista da arquitectura urbana não pode haver edifício que não faça cidade ou seja, não há tipologia que não esteja, por estrutura, penetrada por uma morfologia urbana.” 70 Para Portas tornara-se evidente, que tal como o somatório dos vários componentes de um edifício não constituíam um edifício significativo, também a soma de vários componentes da cidade – edifícios, estradas, parques – não constituiriam uma cidade com carácter, alertando para a urgência de um “estudo interdisciplinar sobre os conteúdos da cidade, devassando a evolução das relações entre funções e entre estas e o meio territorial para as diversas estruturas actuantes na cidade” 71 e ao encontro do imprescindível planeamento territorial de índole política, inexistente em Portugal. ____________________ 68| Ibidem, p.109. 69| Nuno Portas escreveu vários textos sobre o ensino, inclusive sobre a passagem pelas Escolas de Porto e Lisboa, nos quais explorou as reformas que ambicionou fomentar na didáctica de arquitectura. Os textos foram compilados no livro Arquitectura[s], História e Crítica, Ensino e Profissão, no capítulo Na Formação. p.353-444. 70| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura. 2007. p.15. 71| Ibidem, p.22. 107 Da A Arquitectura para Hoje para A Cidade como Arquitectura Portas refere então o conceito de meta-projecto, enquanto solução para interligar e estruturar todas as componentes que constituem a cidade: “o metaprojecto conterá, numa descida ao essencial, à estrutura das coisas, um metaprograma de funções [isto é, também não restringido a um local ou uma data de execução] e uma meta-linguagem arquitectural [isto é, um reportório de signos combinatórios e permutatórios, segundo uma sintaxe restrita mas geradora de muitas relações novas possíveis a criar ao nível semântico, como a língua o assegura antes das literaturas que sobre ela se criam].” 72 Para Jorge Figueira os conceitos que Portas enunciou: “significam a formulação do problema arquitectónico com todas as variantes colocadas em jogo, sem resíduos formalistas, entendendo que, se a equação for bem formulada”, onde a cidade era o denominador comum, “o resultado será o mais correcto.” 73 O ensino académico seria então o motor da criação desta metalinguagem, que facilitaria a relação dos vários intervenientes na cidade – arquitectos, engenheiros, urbanistas – enquanto obra colectiva que se ambicionava. No entanto, a implantação desta língua comum não se pressupunha uma tarefa simplista e facilitista, antes pelo contrário, exigia “um esforço de qualificação da língua – ou seja de adequação entre os tipos de ambiente e as formas de uso – que permita institucionalizar uma sintaxe e uma semântica, escrever uma prosa civicamente qualificada no decorrer da qual surjam, como uma pontuação e um desafio, “palavras” ricas de conotações.” 74 Neste sentido, Portas apontava então para uma “etapa semiológica do ensino que se abre agora, integrando os progressos tecnológicos no refundamentar de um vocabulário [semiologia arquitectónica] e de um linguajar [semântica arquitectónica] que sejam efectivamente domínio comum dos que arquitectam e dos outros – que habitam significativamente” 75, ou seja, o ensino seria o primeiro passo para a institucionalização de um código comum, com variantes particulares que por si só não fariam sentido mas apenas quando ____________________ 72| Ibidem, p.49. 73| FERREIRA, Jorge Manuel Figueira – A Periferia Perfeita: Pós-Modernidade na Arquitectura Portuguesa, Anos 60Anos 80. 2009. p.86. 74| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura. 2007. p.192. 75| Ibidem, p.193. 109 Figura 46| Nuno Portas, A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em portugal. Experiências de Didáctica Figura 47| Nuno Portas, A Cidade como Arquitectura. Métodos Sistemáticos e Meta-Projectos Da A Arquitectura para Hoje para A Cidade como Arquitectura conjugadas entre si, produziriam um novo arquitectar, mais próximo da realidade que o rodeava. A Arquitectura para Hoje, essencialmente, aspirou a ser o gérmen do caminho, no que o autor definia como uma “nova fronteira”, da renovação do conceito de arquitectura, a partir dos princípios metodológicos propostos que concediam aos arquitectos instrumentos para “saber que arquitectura vale a pena fazer” 76, numa realidade cada vez mais complexa de servir. Realidade que Portas encarou em A Cidade como Arquitectura numa escala mais ampla, na cidade enquanto território, apontando como caminho “a consciência de uma língua comum que assegure coerentes estruturas de signos, ou uma base de sintaxe arquitectural” 77 , ficando evidente que o importante para Nuno Portas era o “processo”. Para Jorge Figueira, esta abordagem de Portas constituiu uma démarche de inspiração “estruturalista”, “então em voga, e visa encontrar aquilo que é decisivo no interior daquilo que é aparente, fixar uma estrutura que possa ser conhecida, dominada e comunicada” 78 , em que a cidade era o ponto de encontro multidisciplinar [sociológico, arquitectónico, urbanístico, político...]. E depois deste [extenso] parêntesis nas vias investigação de Portas no LNEC, para abordarmos a pedagogia na Escola de Lisboa, os seus dois livros seminais e as obras do epílogo na partipação de Portas no atelier da Rua da Alegria, resta-nos finalizar este percurso pelas várias vertentes de Nuno Portas, com a última fase de investigação durante os anos 70, que culiminaria com a entrada do investigador no Governo Provisório, pós 25 de Abril de 1974. ____________________ 76| PORTAS, Nuno – A Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em portugal. 2008. p.17. 77| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura. 2007. p.32. 78| FERREIRA, Jorge Manuel Figueira – A Periferia Perfeita: Pós-Modernidade na Arquitectura Portuguesa, Anos 60Anos 80. 2009. p.91. 111 Figura 48| Nuno Portas, Desenho e Apropriação do Espaço da Habitação, 1968 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] Retomando a investigação no Departamento de Arquitectura e Urbanismo, os resultados obtidos até então pelas vias “sociológica” e “metodológica” foram transmitidos, no Outubro de 1967 em Estocolmo, numa comunicação intitulada “Desenho e Apropriação do Espaço da Habitação”, apresentada por Nuno Portas, representante português do LNEC, à reunião da Comissão W45 do C.I.B..79 O texto era a síntese do Relatório II do Inquérito-piloto,80 que mencionamos anteriormente, sobre o modo de apropriação do espaço da habitação por parte das famílias, apresentado em quadros na forma de planta de habitação. A comunicação vinha na continuidade do trabalho anterior: “Definição e evolução das normas da habitação” 81 , de Nuno Portas, em 1966, onde se retiraram como mais importantes conclusões, tendo em vista os modelos organizativos da habitação: a modificação do papel da mulher e dos jovens, a intensificação e diversificação da vida familiar no lar e a procura de novas formas de equilíbrio entre a privacidade e a vida de relação dos grupos, no interior da família, mas também à escala da vizinhança. Por outro lado, Portas denunciava os problemas metodológicos no domínio da investigação na habitação social, onde ressaltamos uma das alíneas que apontava como possível saída a “via evolutiva”: “a necessidade de tipificação dos comportamentos como base para uma tipologia urbana”, que originariam “hipóteses e vias de diversificação, afirmação e criação pessoal ou de grupos, que possam a vir orientar uma arquitectura “aberta” futura.” 82 ____________________ 79| Conseil International du Batiment [CIB, Paris]. A Comissão W 45 fora criada pelo CIB para investigação multidisciplinar no sector da habitação social. A comunicação foi publicada em Portugal na revista Arquitectura 103, Jun. 1968, p.124-128. 80| Ver: Capítulo 2. A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas, p.95. 81| Trabalho exposto no colóquio do Habitat da UIA, Bucareste [1966], onde o delegado português foi Nuno Teotónio Pereira, acompanhado de Nuno Portas, e publicado internacionalmente no Cahiers do CSTB 86, Jun. 1967, Paris. Outro estudo a assinalar do mesmo ano: Racionalização de Soluções de Habitação, de Nuno Portas e Alexandre Alves Costa. Os objectivos do estudo passavam pela racionalização e sistematização de projectos habitacionais, na produção de uma série tipológica que optimizasse as relações espaciais de utilização. Na base do estudo estavam os métodos de sistematização matemática e computorizada, influenciados pelas premissas analíticas desenvolvidas por Christopher Alexander. 82| PORTAS, Nuno – Desenho e Apropriação do Espaço Urbano. Arquitectura 103. Jun. 1968. p.124. 113 Figura 49| Nuno Portas, Funções e Exigências de Áreas de Habitação, LNEC, 1969 Figura 50| Tabela de Áreas Úteis, Funções e Exigências de Áreas de Habitação, LNEC, 1969 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] Nuno Portas terminava a comunicação de 1967, afirmando a necessidade da continuação “dos esforços para o aperfeiçoamento dos métodos em estreita ligação com a discussão dos estudos psico-sociológicos, e assim, tentar lançarse algumas pontes que permitam verdadeiras relações estruturais entre o sistema dos comportamentos e o sistema dos espaços imaginados e construídos.” 83 O resultado do esforço para uma investigação em contínua reformulação, foi cristalizado com a publicação do caderno Funções e Exigências de Áreas de Habitação, pelo LNEC em 1969. O dossier resumiu a meia dúzia de anos de inquéritos e estudos, até então realizados – confrontados com estudos estrangeiros – e condensou a experiência acumulada no âmbito da concepção de habitação, e em particular a de finalidade social. A análise monográfica foi orientada sobre 16 funções ou actividades 84 exercidas pelo agregado familiar, que permitiriam perceber através da descrição de cada uma das acções no espaço habitável, as exigências de funcionamento antropométrico articuladas com o equipamento móvel e fixo existente. A metodologia adoptada procurou, assim, um feedback das famílias fundamental para estabelecer um conjunto de medidas e áreas, consideradas como os níveis mínimos de habitabilidade, traduzidas numa tabela de áreas úteis, essencial para a definição das ausentes e urgentes políticas da habitação. No entanto, estes níveis mínimos eram apenas aceitáveis para um determinado estádio de evolução – dada a mutabilidade económica e cultural, procedente da mobilidade social –, motivo pelo qual o estudo “procurou os pontos de mais provável incidência do processo evolutivo nas características e exigências de qualidade da casa.” 85 A evolução da vida quotidiana das famílias no espaço habitável, juntamente com os factores de custo económico e ____________________ 83| Ibidem, p.128. 84| As actividades e funções foram denominadas como: [1] Dormir; [2] Alimentação-preparação; [3] e [4] Alimentaçãorefeições; [5] e [6] Estar – Reunião e Recepção; [7] Actividades Particulares – Recreio; [8] [9] Actividades particulares – de estudo ou de outro trabalho; [10] [11] [12] Tratamento de roupa; [13] Higiene; [14] Permanência em Exterior; [15] Separação – Comunicação de zonas; e [16] Arrumos interiores. PORTAS, Nuno – Funções e Exigências de Áreas de Habitação. 1969. p.18. 85| PORTAS, Nuno – Funções e Exigências de Áreas de Habitação. 1969. p.1. 115 Figura 51| Francisco Silva Dias e Nuno Portas, Habitação Evolutiva, 1970 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] políticos, demonstrava, então, a necessidade de uma habitação de carácter evolutivo. Para Portas, anos mais tarde, quando confrontado a recordar as vias de investigação no LNEC, um dos problemas daquele período [e continua a sê-lo contemporaneamente] é o facto de a arquitectura não se submeter a um “feedback cuidadoso” com a sociedade e vice-versa, no entanto, ressaltava: “se não há a possibilidade de saber como os nossos edifícios vão ser usados, devíamos voltar à lição da arquitectura vernacular e considerar que a habitação é evolutiva. Mas sobre o evolutivo também, convém que nos ponhamos de acordo, porque envolve opções de tipologia da edificação e sobre os graus de liberdade que se deixam à evolução – à “obra mais ou menos aberta”...” 86 Nesta linha surgiu o relatório “Habitação Evolutiva”, em 1970, por Nuno Portas e Francisco Silva Dias, que neste período desenvolviam as questões relacionadas com formas evolutivas na habitação em agrupamentos de carácter urbano. O estudo foi transmitido, no referido, “Colóquio sobre Política da Habitação”, de 1969, organizado por Portas e Silva Dias, no LNEC: “fizemos um relatório-base que foi muito explorado pelos jornais para atacar a política do Governo, e o Laboratório aguentou esse impacte político. Desse trabalho saiu o relatório da habitação evolutiva que foi publicado na revista Arquitectura, e que foi depois divulgado a todas as equipas que depois do 25 de Abril trabalharam no SAAL, com um sucesso relativo.” 87 Abordaremos de seguida o relatório- base. Antes importa referir que, as questões relacionadas com o carácter de habitação evolutiva, são inerentes ao ethos dos anos 60. Um pouco por todo o Mundo, mas sobretudo na América Latina e no Norte de África, debatiam-se as experiências do “Housing” para o problema da escassez de alojamento, dada a afluência desmedida de habitantes para as cidades emergentes. Na tentativa de resolver o problema da construção clandestina – bairros de lata, favelas…– emergem então, soluções baseadas na construção popular mas executadas pelas autoridades administrativas, as denominadas experiências de auto____________________ 86| PORTAS, Nuno – O Processo também Desenha. Arquitectura e Vida 51. Jul./Ago. 2004. p.35. 87| Ibidem, p.35-36. 117 Figura 52| Processo de autoconstrução de bairros periféricos, Lima, Peru A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] construção assistida.88 Neste processo de desenvolvimento de práticas habitacionais de carácter informal destacaram-se duas personagens: Jonh Turner, que neste período vivia em Lima [Peru], na assistência à auto-construção de barriadas e pueblos jóvenes, e Carlos Nelson dos Santos, na reabilitação de favelas no Rio de Janeiro [Brasil]. O trabalho e a teoria desenvolvida por ambos, acabaria por influenciar o discurso de Nuno Portas, enquanto Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, consequência do contacto directo com ambas as personagens, na ponte entre a América Latina e Portugal que Portas concretizou. Nuno Portas relembrou o primeiro contacto que teve com a América do Sul, aquando do concurso Previ Lima, no Peru, entre 1967-78: “fui para acompanhar esse concurso que acabou por ser um fiasco para as Nações Unidas. É aí que apanho o “banho” do urbanismo do Terceiro Mundo, pois é diferente pensar as coisas para esses países ou para as sociais-democratas europeias. Ainda hoje mostro nas minhas aulas projectos desse concurso montado por gente das Nações Unidas que fui encontrar no Peru, em Lima, para descobrir soluções alternativas aos pueblos jóvenes, que cá chamaríamos “bairros clandestinos”. 89 Portas criticava o absurdo do concurso ao convidarem o “star-system” daquele período: Chistopher Alexander, Vasques de Castro, James Stirling... e o princípio de cada um propôr uma solução diferente, “o segundo absurdo é que as Nações Unidas decidiram construir um bocadinho de cada um. Não voltei lá para ver!” 90 Nuno Portas extraiu, então, in loco as lições de Jonh Turner 91 – seu mestre em políticas habitacionais e segundo as palavras do Portas: “tornei-me ____________________ 88| BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p.44-59. 89| PORTAS, Nuno – O Processo também Desenha. Arquitectura e Vida 51. Jul./Ago. 2004. p.35. 90| Ibidem, p.35. 91| Jonh Turner, desenvolveu uma vasta teorização – entre os quais Freedom to Build [1972] e Housing By People [1976] – sobre o problema da habitação, “[...] previlegiando sempre a evolução dos conceitos em função das práticas analisadas e não abdicando nunca da raiz libertária de pensamento. De resto, esse background anarquista foi certamente determinante para a consignação dos aspectos essenciais da sua obra: a evolução permanente com lições que se iam retirando das práticas sociais e o inconformismo para com os canônes pré-estabelecidos, que começaria logo na revolucionária formulação dos problemas a resolver.” Ver: BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p. 44. 119 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] um paladino dele na península ibérica [...]. Jonh Turner dizia que o que o Estado deve fazer em termos de habitação não é o que as famílias pobres sabem e podem fazer por elas, mas é antes o que não podem fazer, ou seja, a aquisição do solo, a concepção geral, as infra-estruturas, o que é comum, o que é público, em vez da obsessão de fazer casas, muito arquitectónica com a casa em si e para todos, que nos países do Terceiro Mundo está acima das possibilidades do Estado, ao contrário da Europa em que o Estado-Providência se tornou em Estado-construtor.” 92 No entanto, para Turner os ensinamentos que tinha retirado da análise das cidades clandestinas do Terceiro Mundo, poderiam ser transpostos para os países mais desenvolvidos de Estado-Providência. Propunha, então, que a questão da habitação, não fosse apenas controlada pelas instituições estatais, mas que se estabelecessem ligações orgânicas com as comunidades na promoção da habitação, dada a triunfante revelação de autonomia e capacidade da realização popular, sem a intervenção de governos, como foram as barriadas. Por outro lado, a questão da habitação estava mais relacionada com aquilo que oferecia as pessoas do que propriamente o objecto em si, o que nos transporta para a grande lição extraída de Jonh Turner, e que seguramente Portas a assimilou, é que as pessoas deveriam contribuir no processo de concepção e construção das próprias casas, no contexto do seu bairro, dos seus recursos económicos e locais.93 As teorias de Jonh Turner e as experiências de auto-construção assistida latino-americanas, viriam a influenciar, pelo menos no papel, os acontecimentos do ano de 1969, que como referimos no capítulo I, constituiu um ponto de viragem na abordagem das políticas habitacionais, em Portugal. No documento conclusivo, “Colóquio sobre Política da Habitação, Relato Final”, do encontro de carácter estatal [MOP] – onde Nuno Portas foi o relator – foram estabelecidas um conjunto de medidas, consideradas como essenciais para a resolução dos problemas de habitação, consumando o primeiro passo consequente, para assegurar o “direito à habitação” aos cidadãos, por parte ____________________ 92| PORTAS, Nuno – O Processo também Desenha. Arquitectura e Vida 51. Jul./Ago. 2004. p.36. 93| BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p.47. 121 Figura 53| Francisco Silva Dias e Nuno Portas, Habitação Evolutiva, 1970 Classificação Tipológica das Soluções Evolutivas A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] das entidades estatais. O governo deveria, então, através de uma “política de habitação”, proporcionar as condições necessárias para o desenvolvimento de programas do habitat: no controlo à especulação fundiária, questão central dos problemas urbanos; na dinamização da habitação, através de fundos públicos, relegando para outros promotores a construção; na reorganização de todos os serviços e departamentos estatais de habitação, com a criação do Fundo Fomento Habitação; e um dos pontos mais relevantes do Relato Final, a ideia da participação das populações nas decisões do habitat, algo que se verteria, mais tarde, com o processo SAAL. Por detrás de todas estas medidas estaria, o relatório-base de Nuno Portas e Francisco Silva Dias, em torno da “Habitação Evolutiva”. O relatório, integrado posteriormente com elementos saídos do Colóquio, seria publicado e divulgado na revista Arquitectura, em 1972, trazendo para a esfera pública o debate urgente do tema. O relatório transmitia, assim, as possibilidades da fórmula evolutiva: “a de constituir um sistema, baseado em regras simples de projecto e execução, capaz de assegurar uma primeira fase de instalação mas concebido por forma tal que não impeça a evolução quantitativa do ambiente da casa e dos níveis das áreas, a par e passo com a evolução sócio-cultural dos habitantes.” 94 Ou seja, consoante as possibilidades económicas e sociais, a habitação acompanharia o desenvolvimento das comunidades, através das tipologias de alojamento, também graficamente representadas no estudo. 95 Contudo, a questão evolutiva não permaneceria apenas na habitação mas seria contaminada para o conceito de “urbanização evolutiva” – a escala de cidade, que como analisamos, ocupava agora as ideias de Nuno Portas – onde os equipamentos urbanos acompanhariam este desenrolar, assegurarando a qualidade urbanística através “da definição de dimensão do ‘lote’ e suas regras ____________________ 94| DIAS, Francisco Silva; PORTAS, Nuno – Habitação Evolutiva. Arquitectura 126. Out. 1972. p.100. 95| Em Abril de 1970, foi elaborada uma experiência-piloto de habitação evolutiva – Fogos Evolutivos para a Autoconstrução – na Quinta do Pombal, por Nuno Portas e Margarida Sousa Lobo no Gabinete Técnico de Habitação de Lisboa, englobando as ideias do Colóquio. No entanto, nenhum edifício foi construído, constituindo apenas uma proposta de regulamentação processual e de uso para toda a operação habitacional que se viria a verificar posteriormente em 1974. Ver: BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p.93-95. 123 Figura 54| Francisco Silva Dias e Nuno Portas, Habitação Evolutiva, 1970 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] de associação – pois assim como prever um lote demasiado reduzido seria negar a evolução da casa que se pretende, assim também uma ocupação excessiva do solo com casas, cerceria as possibilidades de evolução de todo o conjunto para os níveis de equipamento colectivo, áreas livres e disponibilidade de aparcamento que já o são ou virão a ser exigidos como necessários.” 96 Meses mais tarde, em Dezembro, no Encontro Nacional de Arquitectura [ENA], e apesar da ausência, Nuno Portas enviou uma importante e incisiva mensagem, “Arquitectura e Sociedade Portuguesa” 97 , na continuidade das ideias do Colóquio no LNEC, onde criticava o facto de os arquitectos se esconderem atrás da débil estrutura política para justificar a sua inércia, apelando para o carácter social da profissão de arquitecto. Nuno Portas dava como exemplo a pesquisa que realizava em torno do habitat evolutivo e apelava as acções mais do que as palavras para resolver o problema da habitação. No fundo, aplicar a máxima de John Turner, que afirmava: “Housing as a Verb”, a habitação enquanto verbo, enquanto acções que promovam o desenvolvimento de uma sociedade melhor. Acções essas centralizadas no arriscar de soluções que constituissem uma pedrada no charco, como o tinham feito os CIAM, o Team X, etc... e que no contexto português, o atelier da Rua da Alegria, de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, havia iniciado no final da década de 50, com uma arquitectura de forte carácter de inovação, mas sobretudo de cidadania. ____________________ 96| DIAS, Francisco Silva; PORTAS, Nuno – Habitação Evolutiva. Arquitectura 126. Out. 1972. p.102. 97| Nas palavras de Nuno Portas: “[…] o campo decisivo onde se decide o destino social da arquitectura é o da definição de prioridades socio-económicas e logo a seguir o das decisões sobre os programas. É aqui que terá de começar o nosso plano de abordagem; ora, mesmo que a definição de prioridades entre os diversos sectores exceda muito a nossa competência disciplinar [não a de cidadãos, naturalmente], a verdade é que a partir do momento em que põe o problema da concretização dos problemas – estratégia das operações, aglutinação das actividades no espaço, etc – o arquitecto competente pode dar contribuições decisivas a melhores rendimentos sociais e culturais dos investimentos. Exemplos: a alternativa de operações de habitat evolutivo aos bairros acabados convencionais é uma típica proposta cuja viabilidade compete ao arquitecto demonstrar, tomando sobre si os riscos da proposta; mostrar um conceito de centro direcional pode conduzir à unificação dos transportes regionais e nós privilegiados e indicar pontos prioritários para a instalação de edifícios até agora dispersos, pondo-os mais à mão da população do subúrbio com o mesmo ou menor investimento; e mais profundamente saber que a ideia temos do território urbanizado e quais os processos ou tácticas para chegar a soluções melhores que as que conhecemos, é uma responsabilidade indeclinável que nos encontra demasiado desprevenidos. Adivinho as objecções a este desafio que me ponho a mim próprio: são problemas complexos, precisamos de equipas interdisciplinares e de proceder a extensos inquéritos antes de tomar decisões.” Ver: BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p.87-88. 125 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] Para alterar o rumo de uma Arquitectura estagnada e sem intervenção na sociedade, Portas propunha, então, por um lado, trazer o debate para o espaço público, através dos meios de comunicação sociais, a televisão ou revistas especializadas como a Arquitectura, sobre os caminhos que a arquitectura tomava. Esta era uma medida há muito defendida por Nuno Portas que, como analisamos, desde a sua entrada para a revista debatia-se por uma divulgação e democratização da arquitectura. Por outro lado, e na continuidade do ponto anterior, Portas afirmava que este era o momento para que os técnicos competentes presentes no Encontro – arquitectos, engenheiros, sociológos, juristas... – de assumirem o controlo nos organismos governamentais. Portas chamava para os arquitectos a responsabilidade de estabelecerem estratégias e planos para actuarem eficazmente no campo de intervenção habitacional, através de uma entidade [que acabaria por ser o Fundo Fomento Habitação] que impulsionasse a concretização do conjunto de medidas que Portas anunciava e que o Colóquio anterior, onde foi relator, havia estabelecido. 98 A relevância de referirmos estes acontecimentos de 1969, é que são eles o esboço das reformulações administrativas que ocorreriam nos vários sectores, e principalmente no da habitação, após o golpe de Estado que constituiu o 25 de Abril de 1974. Chegava, então a oportunidade única do atelier da Rua da Alegria, através da nomeação de Nuno Portas, para Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, pôr em prática os pressupostos teóricos e práticos adquiridos ao longo destes anos de debate, iniciativas e movimentações, que como vimos no capítulo I, o atelier da Rua da Alegria encetou. E nesta perspectiva, Nuno Portas viria a ser a mão política, que por tanto, a personagem de Nuno Teotónio Pereira havia lutado, com o seu carácter reivindicativo, através da sua militância política ou textos clandestinos de denúncia, da “habitação para o maior número” e pelo exercíco duma arquitectura comprometida socialmente. ____________________ 98| BANDEIRINHA, José António – O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 2007. p.88-89. 127 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] No período que nos propusemos a analisar [1957-74], esta era a última etapa, culminando todo o trabalho realizado até então. Nuno Portas enveredava pela última face do poliedro arquitectónico: a de político. Papel que o levou a afastar-se de vez do atelier da rua da Alegria, num período atribulado e de incerteza, que conduziu a suspensão das encomendas e consequente dissolução do atelier em 1974. Portas transitava da investigação do LNEC e da colaboração no atelier, para o I Governo Provisório naturalmente, nomeado pelo ministro Manuel Rocha, um velho conhecido do LNEC. A parceria era uma continuidade do trabalho desenvolvido por ambos, na última década, agora posto ao serviço do país. Estava consumado o passo para se aliarem as culturas arquitectónica, científica e política. Aliança essa centrada na personagem de Nuno Portas. Na entrevista, do final da década de 70, Portas refere a aspiração dos arquitectos ao longo do tempo, de condensar a decisão política e o poder projectual numa única personagem, referindo-se a actividade tipo “Marquês de Pombal”, contudo numa escala ambiciosa, que abringiria todo o território português. Portas criticava a sua classe: “os arquitectos habituaram-se a pensar que o problema das formas é um problema dos seus ateliers, que se inventam nos seus estiradores e que a obrigação da política é criar as condições para fazer uma arquitectura tão livre de condicionamentos materiais e institucionais que permitam uma expressão tão pessoal quanto os projectistas a desejam. A minha opinião é que esses dois domínios não se podem separar, o que, de resto, se liga à minha própria trajectória pessoal dos últimos anos. Eu julgo que as políticas têm a ver com as arquitecturas que se fazem, e as arquitecturas que se fazem estão muito ligadas às políticas, ao próprio sistema administrativo. Uma arquitectura de grande desenho, de grande intervenção na cidade, com uma enorme unidade formal supõe uma administração extremamente potente, que disponha de todos os meios, de alto a baixo, que possa condicionar e quase anular o contexto de tempo e espaço que se põe numa intervenção desse tipo.” 99 ____________________ 99| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.59. 129 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] Foi, então, na ligação entre a arquitectura e a política, que se baseou a actividade de Portas, na curta passagem de 11 meses pelo Governo. Portas profundo conhecedor da realidade precária da situação habitacional do país mas também das reformas que deveriam ser implementadas, que vinha desenvolvendo e estudando ao longo do seu percurso de investigador, desdobrou-se na definição de inovadoras políticas para habitação e na actualização da legislação sobre o urbanismo: “o povo português precisava de políticas de habitação diferentes, ou de políticas de urbanismo diferentes, mas também porque essas novas condições, essas novas políticas e as novas instituições democráticas iriam determinar um caminho diferente para a arquitectura e para a intervenção urbana, em geral, em Portugal. […] São essas mesmas preocupações as que me levam a aceitar ir para o Governo e a propor certas políticas que, na minha opinião, viriam a traduzir-se mais cedo ou mais tarde, em soluções de arquitectura diferentes daquelas que outras políticas dariam.” 100 Esta visão precursora, em Portugal, teve um papel central na estruturação do programa Serviço de Apoio Ambulatório Local – SAAL. Contudo, mais do que desenvolvermos o que foi o SAAL 101, e as vicissitudes várias que todo o processo desencandeou, importa referir, sucintamente, o trabalho de Nuno Portas “na Secretaria de Estado, que foi o de criar alguns instrumentos institucionais leis e medidas administrativas, que permitissem uma arquitectura mais próxima das realidades concretas, mais próxima, portanto, dos problemas e dos meios locais. Uma arquitectura que faria aí a sua ligação com o contexto urbano e o contexto social e não através da imposição das minhas ideias arquitectónicas, do mecenato-ditadura de quem tem o poder político e ao mesmo tempo se considera culturalmente um iluminado.” 102 Segundo Portas, o Estado deveria regular e apoiar, técnica e economicamente, as movimentações das populações na vontade de resolução dos problemas habitacionais, e para isso, defendia a descentralização e ____________________ 100| Ibidem, p.59. 101| Remetemos o estudo do processo para a incontornável tese de Doutoramento de José António Bandeirinha, O processo SAAL e a arquitectura do 25 de Abril de 1974. 102| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.59. 131 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] consequente simplificação dos poderes institucionais, para estarem mais próximos dos problemas reais das pessoas, espalhando-se por todo o território português, através de várias brigadas de actuação. No entanto, para Portas todo o processo deveria desenvolver-se com um carácter experimental, de várias possibilidades em aberto avaliadas e adaptadas ao longo do tempo, “a obra aberta”, de que Teotónio Pereira e Nuno Portas eram defensores. E foi então, criado um Despacho alguns meses após a Revolução, com três premissas essenciais: “o princípio geral de edificar – para renovar – nas próprias áreas degradadas em que habitavam os membros da associação de moradores, retrata o critério de projecto que presidiu à maior parte das realizações do SAAL, […] de dar preferência aos tipos e escala de edificação existente, a qual correspondia, também, à preferência natural das populações; […] uma segunda particularidade daquele programa prende-se com a sua própria definição, e que a distinguiu de outras políticas de alojamento do sector público: o SAAL parte da organização social da procura, organização a que o Estado reconhece personalidade para transferir competências que, correntemente, eram detidas apenas pelos orgãos estatais: competências nas decisões de escolha da localização, na definição do programa e seu faseamento, na designação e acompanhamento dos técnicos que desenvolvem os projectos da operação, na atribuição dos encargos financeiros e na distribuição dos alojamentos. A proposta do SAAL é, assim, a de instaurar um processo de “cooperação conflitual” entre o Estado e os habitantes, tendo em conta que nem os segundos estão interessados em que o primeiro se demita das suas competências fundamentais, nem o primeiro as pode desempenhar a favor das classes subalternas, sem que estas se organizem para o controlo e gestão dos empreendimentos que devem responder à suas necessidades.” E por fim um terceiro princípio: “a procura de adequação da arquitectura ao contexto social e físico constitui uma terceira particularidade na argumentação do processo; argumentação metodológica que se quer liberta de preconceitos de demiurgia formal, para fazer da procura social e da participação dos moradores material de projecto.” 103 ____________________ 103| MENDES, Manuel; PORTAS, Nuno – Arquitectura Portuguesa Contemporânea, Anos sessenta – Anos oitenta. 1991. p.46-47. 133 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] Em poucos meses o SAAL, despoletou um número considerável de projectos, devido a este método de interacção entre populações e estado e “sem a priori dogmático, sem utopia salvadora recusando a prática do plano abstracto “científico”, o processo retrata um duplo compromisso: do projecto social e da arquitectura num projecto social. No concreto da organização territorial, contribui para fixar os efeitos urbanos e os efeitos políticos dos movimentos urbanos.” 104 No entanto, o que se pretendia ser o ponto de viragem nas políticas habitacionais, ficou a meio, coincidindo com a saída de Nuno Portas do Governo e a ruptura ou má interpretação das ideias, por parte dos ministros seguintes: “este trabalho ficou a meio – de resto 11 meses no Governo dá para muito pouco, dá para marcar muito pouco o futuro, sobretudo quando os sucessores não continuam a mesma via ou a procuram invalidar. Em todo o caso, os dispositivos legais fundamentais que tivemos que inventar nesse período de 11 meses ainda subsistem, embora tenham sido postos ao ralenti – contrariados ou suspensos uns, mal interpretados outros, etc. De qualquer modo, os regimes fundamentais de produção urbana e de produção habitacional são os que existem ainda hoje... Essa actividade, portanto, foi mais uma actividade para reformar ou criar instituições do que uma actividade directa de valorizar a arquitectura ou certos fins específicos, disciplinares, na arquitectura ou no urbanismo.” 105 Para Portas esta curta passagem na política, era um trabalho sequencial da década e meia anterior, que analisamos, e “portanto, a minha preocupação com as instituições, com todo o sistema de descentralização administrativa, a criação das regiões, a estruturação dos municípios, todo este trabalho destes últimos anos, julgo que vai no mesmo sentido das outras preocupações de sempre: tentar fazer a ponte entre a arquitectura e o contexto em que ela se move e produz. A mesma coisa que me aconteceu ao tentar saber o modo de vida das pessoas na década de 50; ou a relação entre a arquitectura e a ____________________ 104| Ibidem, p.47. 105| PORTAS, Nuno – Tenho procurado dismitificar esta ideia iluminada dos arquitectos que são eles que dispõem do mundo das formas. Arquitectura 135. Out. 1979. p.59. 135 A “via evolutiva” no LNEC [1969-74] e o processo SAAL [1974-76] tecnologia, entre a arquitectura e a racionalidade dos métodos de projecto, nos anos 60. Essa mesma preocupação hoje é a de relacionar a arquitectura com o modo como a sociedade política e a administração pública estão organizadas porque, na minha opinião, essa organização é absolutamente determinante sobre o mundo das formas em que nos movemos. Quer o aceitemos quer não.”106 Analisemos, então o mundo das formas que o Atelier de Nuno Teotónio Pereira construiu ao longo de 17 anos, e onde podemos observar essa confluência de estudo e aplicação operativa que Nuno Portas foi cultivando entre as décadas de 50 e 70. Deste modo tentaremos comprovar a relação entre teoria e prática no percurso de Portas, tema central desta dissertação de Mestrado. ____________________ 106| Ibidem, p.59. 137 Capítulo III Obras Obras No início do capítulo II, abordamos o método projectual do atelier da Rua da Alegria. Referimos um Atelier a “várias vozes”, em torno do mestre Nuno Teotónio Pereira, “que desenhava só de longe em longe mas orientava muito sobre a marcha” 1, e de como a entrada “fogosa” de Nuno Portas constituiu o virar da página na prática arquitectónica do Atelier, num “compromisso realista construtivo e reformista – nem conformista nem vanguardista –, espécie de aggiornamento da modernidade.” 2 Ao iniciarmos o terceiro capítulo, importa referir as influências que os vários colaboradores transportaram para os estiradores do Atelier e que Portas tão bem sintetizou no “testemunho, também pessoal” 3, sobre a sua passagem pelo Atelier. ____________________ 1| PORTAS, Nuno – Sobre o Método e os Significados no Atelier Nuno Teotónio Pereira/Nuno Portas. In: Arquitectura[s], Teoria e Desenho, Invetigação e Projecto. 2005. p.233. 2| PORTAS, Nuno – Atelier Nuno Teotónio Pereira. Um testemunho, também pessoal. In: Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 2004. p.52. 3| Ibidem, p.51-57. 141 Obras Nuno Portas sublinhou “colaboradores que se o aspecto de um tomavam também como atelier formado por críticos ou teóricos multifacetados [orgânicos, contextualistas, estruturalistas, neo-realistas ou regionalistas...],” 4 e de como essa múltipla influência, se não criava rupturas, “acrescentava complicação, não tanto nas intenções programáticas, mas, sobretudo, nas tensões que se reflectiam na linguagem dos espaços”, e de como “não prescindíamos do método dito “funcional” [sempre presente na pedagogia de NTP], removíamos sucessivamente e sem complexos os axiomas e figurinos estéticos que, em nome da funcionalidade e da novidade, a vulgata modernista tinha entretanto cristalizado.” 5 No entanto, este processo renovador da linguagem arquitectónica, que poucos o faziam em Portugal, mas que para o atelier da Rua da Alegria era urgente fazer, não era pioneiro na Europa e “estava também na forja nos países mediterrânicos e nórdicos que nesses anos visitavámos e discutíamos. Percorremos os bairros sociais e as igrejas [as encomendas mais frequentes no atelier] em Espanha, Itália, Escandinávia; conhecemos Oiza, Coderch, Bohigas, Moneo, Scarpa, Gregotti e Rossi; Martin, Aalto, sem esquecer Asplund; e, por cá, interessava-nos a obra de Keil, Godinho, Távora, Tainha e entusiasmava-nos o que faziam o Siza, o Víctor Figueiredo e outros parentes próximos.” 6 Autores que Portas dedicou muitos dos artigos que escreveu na revista Arquitectura7 e muitas das fichas de trabalho, já mencionadas, tornando-se profundo conhecedor das suas obras e princípios. O atelier “juntava as memórias tão díspares como as de F.L.Wright, Raúl Lino, ou Cassiano, dos autores do Team X […] mas também de mestres obscuros do vernacular alentejano ou saloio, ou das igrejas-salão e das suas colunas e nervuras lavradas... sem esquecer os pioneiros do betão.” 8 ____________________ 4| Ibidem, p.52. 5| Ibidem, p.52. 6| Ibidem, p.52. 7| Nuno Portas escreveu variados artigos sobre as referências mencionadas, entre os quais destacamos: Carlo Scarpa, Um Arquitecto Moderno em Veneza. Arquitectura 59, Jul. 1957; 3 Obras de Álvaro Siza Vieira. Arquitectura 68, Jul. 1960; Fernando Távora: 12 Anos de Trabalho Profissional. Arquitectura 71, Jul. 1961; A Obra de José Coderch e M. Valls Vergés. Arquitectura 73, Dez. 1961; 2 Obras do Arq. Alfredo Viana de Lima. Arquitectura 74, Mar. 1962; Actualidade de Le Corbusier. Arquitectura 89-90, Dez. 1965. 8| Ibidem, p.53. 143 Obras Mas não só de arquitectos se faziam as influências, como vimos na interdisciplinaridade defendida desde o início por Portas: “se o que nos interessava eram os espaços “internos” como expressão dos modos de vida e da poética do habitar, recebíamos com ansiedade o crescente interesse das ciências humanas por essas relações que Heidegger, Bachelard ou LevyStrauss, depois Chombart de Lauwe, Lefebvre ou Barthes explorariam, mostrando-nos os limites do funcionalismo, a natureza não arbitrária nem mecânica da conformação dos espaços habitáveis enquanto “linguagem” estruturada que em especial o Pedro Vieira de Almeida tinha anunciado entre nós, e o meu primeiro livro prolongava.” 9 Todos os projectos que analisaremos de seguida, permitiram reflectir sobre os resultados de experiências e programas tão diversos quanto os respectivos contextos. As obras constituíram uma resposta à crise da linguagem modernista “que abria uma grande disponibilidade para experimentar novos significantes e, com eles, novas significações, tendo como protagonistas, o espaço interno e o espaço público, por um lado, e a contextualização ou “integração construtiva”, e não por oposição, do novo e do existente, por outro.” 10 Vejamos então como se processa essa relação teórico-prática. ____________________ 9| Ibidem, p.52-53. Portas referia-se ao Ensaio Sobre o Espaço de Arquitectura de Pedro Vieira de Almeida e ao seu Arquitectura para Hoje 10| Ibidem, p.53. 145 Figura 55| Plano de Olivais Norte, Lisboa, 1955-1958 Figura 56| Olivais Norte em construção, vistas aéreas parciais Figura 57| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Torres de Habitação, 1957-1968 Olivais Norte, vista aérea parcial 3.1. Olivais-Norte | Olivais-Sul Mudanças no paradigma social e urbano Como referimos o atelier da rua da Alegria teve um papel importante no desenvolvimento e investigação da habitação social, em Portugal. A participação nas operações de grande escala que constituíram Olivais-Norte e Olivais-Sul veio na continuidade da experiência já acumulada de Nuno Teotónio Pereira, ao longo da década de colaboração na Federação da Caixa de Previdência, mas também do CODA realizado por Nuno Portas sobre habitação social. A habitação popular e colectiva constituía, assim, no final dos anos 50, juntamente com a habitação unifamiliar, o programa de maior interesse e empenho no atelier. O plano para Olivais-Norte11 planeado entre 1955 e 1958 – pelo Gabinete de Estudos de Urbanização [GEU] da Camâra Municipal de Lisboa sob a liderança de Guimarães Lobato – foi um ensaio de pequena escala, ocupando uma área de 40 ha, para o que sucederia no vizinho a Sul, no início da década 60. Com a extinção do GEU, e a criação do Gabinete Técnico da Habitação [GTH], foi projectado Olivais-Sul12 em 1960-61, com 180 ha, através dos arquitectos Rafael Botelho, Carlos Duarte, António Pinto Freitas, Mário Bruxelas e Celestino de Castro. Ambos os bairros foram marcados pelo experimentalismo, consequência de um processo de revisão arquitectónica que se procedia em Portugal, influenciado pelas new tows inglesas e por conjuntos habitacionais construídos na Europa13. Olivais-Norte e Olivais-Sul seriam assim encarados como um laboratório de experiências urbanísticas, mas também de tipologias edificatórias diversas, como referimos no capítulo I. A operação dos Olivais, segundo Nuno Portas, “ficariam como um curioso catálogo de tendências que reflectiam respectivamente as preocupações da geração que se revelava nos primeiros anos 50 ou mesmo no congresso de ____________________ 11| Olivais-Norte. Arquitectura 81. Mar. 1964, p.4-28. 12| Olivais-Sul Em Discussão. Arquitectura 127-128. Abr. 1973. p.56-64. 13| Alguns destes conjuntos habitacionais seriam alvo de análise na revista Arquitectura. Ver: Roehampton. Arquitectura 72. Out. 1961. p.10-22; Conjunto Habitacional Juan XXIIII, Madrid. Arquitectura 97. Junho 1967. p.106-11. 147 Figura 58| Plano de Olivais-Sul, Lisboa, 1960-1961 Figura 59| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Torres e Bandas de Habitação, 1959-1968 Olivais-Sul, vista aérea parcial Olivais-Norte | Olivais-Sul 1948 [ou seja, a dos arquitectos nascidos cedo, na década de 20] e as dos discípulos/ colaboradoes nascidos nos anos 30/40 [no Porto, dentro da Escola, em Lisboa, fora dela].” 14 Recordando que o processo experimental era fruto de “tais preocupações de programa/ tipologia e de linguagem tinham entrado em turbulência [no plano interno, o Inquérito à Arquitectura Popular, a mudança de mãos da revista Arquitectura; e no internacional, as críticas do Team X, E. Rogers e De Carlo, Coderch... até à pedagogia zeviana e ao [neo]realismo italiano].” 15 O Plano de Olivais-Norte assumiu a expressão urbana moderna, caracterizada por uma implantação dispersa dos blocos habitacionais, de acordo com a ideologia moderna da Carta de Atenas, o que levou Leopoldo de Almeida na crítica da revista Arquitectura, a afirmar que: “Olivais-Norte constitui a primeira realização, em Lisboa, dum plano habitacional de envergadura concebido em moldes verdadeiramente modernos.” 16 Nos Olivais-Norte, a rua tradicional desapareceu – as ruas passaram a ser designadas como “vias” – e em seu lugar surgiu uma rede circulatória, baseada na separação entre os caminhos pedestres e as “vias” de tráfego automóvel. Os blocos habitacionais projectados, de diversas tipologias e dimensões, por diferentes autores [Braula Reis, Pedro Cid, Fernando Torres, Pires Martins ou Palma de Melo], eram assim colocados com o princípio da independência entre si, não formando a continuidade volumétrica habitual nos arruamentos tradicionais, abdicando de uma geometria sistemática de organização dos edifícios. O espaço livre envolvente dos blocos constituiu, então, um logradouro colectivo e arborizado para a população. Esta vinculação demasiado fiel aos princípios modernos valeu uma crítica: “poder-se-ia apontar ainda aos Olivais-Norte um excesso de fidelidade a princípios esquemáticos, excesso que, por ter conduzido a uma neutralidade dos espaços urbanos, a um esquema circulatório demasiado desvinculado dos ____________________ 14| PORTAS, Nuno – A habitação colectiva nos ateliers da Rua da Alegria. Jornal dos Arquitectos 204, Jan./ Fev. 2002. p.49. 15| Ibidem, p.49. 16| ALMEIDA, Leopoldo de – Olivais-Norte, Nota crítica. Arquitectura 81. Mar. 1964. p.12. 149 Figura 60| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Estudos dos Conjuntos de Habitação, Olivais-Sul Figura 61| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Planta de Conjunto Torres e Bandas de Habitação, Olivais-Sul Olivais-Norte | Olivais-Sul edifícios [...] poderá talvez não ajudar à constituição duma vida comunitária intensa.” 17 Por sua vez, o bairro de Olivais-Sul, funcionou como uma antítese do seu congénere a Norte, recusando a ideologia moderna da carta de Atenas e retomando a rua tradicional, enquanto elemento organizador dos blocos habitacionais, pela mão de Nuno Portas e Bartolomeu da Costa Cabral. A mudança conceptual, de clara influência da “via italiana”, ficou marcada pela “passagem do conceito funcionalista de “unidade de vizinhança” – ainda claro em Olivais-Norte – para o modelo do tipo cluster, combinando o pátio agregador e a rua geradora, e optando por blocos unitários de média altura em detrimento de edifícios mais altos e isolados.” 18 As torres e habitações em banda surgiam assim articuladas e relacionadas entre si, o que proporcionava espaços de estar ao ar livre, de maior conforto e com uma escala humana, que ajudavam a constituição de vida comunitária, ao contrário de Olivais-Norte. Nuno Portas resumiu todas estas questões, ao recordar as diferenças entre as duas operações urbanísticas: “se o plano inicial de Olivais-Norte lembrava um imenso siedlung fora de tempo de blocos paralelos entremeados por torres – unidade imposta à diversidade – o de Olivais-Sul era já celular [e seria gerido como tal], facilitando as [divergentes] incursões dos autores dos projectos no próprio desenho urbano – a diversidade impondo-se à unidade. Em ambos os planos – apesar das diferenças de cultura urbanística que traduziram –, era evidente a dissociação entre os elementos estruturantes [vias e verdes/ equipamentos de proximidade] e os edifícios que preenchiam as células servidas pelos primeiros: o desenho urbano era de matriz modernista, entendendo a edificação como composição de volumes [plan masse] e o espaço livre como sobrante ou intersticial. No primeiro, a repetição do tipo ou do standard era mais evidente; no segundo a mistura de tipos e formas de agrupamento [o mixed developement de Roehampton] era mesmo encorajada, prescindindo da disposição helio-orientada ou de qualquer outra geometria ____________________ 17| Ibidem, p.13. 18| GRANDE, Nuno; PORTAS, Nuno – Entre a crise e a crítica da cidade moderna – A experiência portuguesa no contexto internacional. In: Lisboscópio. 2006. p.7. 151 Figura 62| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Estudos, Torre de Habitação, Olivais-Norte Olivais-Norte | Olivais-Sul sistemática. As vias eram um dado, com a sua lógica própria [de cinturas separadoras das células], os espaços ou equipamentos não residenciais previam-se autónomos e fisicamente separados e os edifícios de habitação mantinham-se descontínuos.”19 A participação em Olivais Norte, do atelier da Rua da Alegria, devido ao Plano de urbanização previamente estabelecido pelo GEU, resumiu-se, então, ao desenvolvimento das tipologias-base, torre e banda, implantadas em diferentes pontos do bairro. Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira encarregaram-se da tipologia da torre, enquanto António Pinto Freitas, desenvolveu as habitações em banda. Esta condicionante valeu um reparo por parte dos autores visto nem sempre a implantação, das três torres construídas se revelou a mais adequada, relativamente à adaptação da morfologia do terreno e ao enquadramento pretendido para as torres. 20 Teotónio Pereira e Portas ensaiaram uma inovadora solução de torre, onde os focos estiveram centrados na circulação vertical e na organização interna dos fogos, e onde se denota a influência do estudo que Nuno Portas realizou para o seu CODA, “A Habitação Social: proposta para a metodologia da sua arquitectura” e para o projecto prático que acompanhou a Tese – conjunto habitacional para uma comunidade mineira em São Pedro da Cova. A torre desenvolvia-se em 8 pisos, com 4 fogos por piso, de tipologias T1, T2 e T3. O volume do edifício era articulado em 3 volumes, os dois corpos de habitações mediados por uma caixa central de circulação vertical21, que funcionava como charneira de ligação. Um dos aspectos mais inovadores foi a organicidade com que estes 3 volumes foram desenvolvidos, devido à torsão de um deles, desmaterializando o bloco rígido, conferindo à torre “movimento” quando observada de pontos de vista diferentes, e revelador de um tratamento formal cuidado, não habitual em habitação social. 22 ____________________ 19| PORTAS, Nuno – A habitação colectiva nos ateliers da Rua da Alegria. Jornal dos Arquitectos 204. Jan./ Fev. 2002. p.49. 20| PORTAS, Nuno – Habitações em Torre em Olivais-Norte. Arquitectura 110. Jul./ Ago. 1969. p.172. 21| Ver: PORTAS, Nuno – A Habitação Social: proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.105-124. 22| O projecto de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas receberia, em 1967, o prémio Valmor, atribuído pela primeira vez a um edifício de habitação social. Ver: ArchiNews 2, Dez. 2004. p.42. 153 Figura 63| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta Rés do Chão e Terraços, Torre de Habitação, Olivais-Norte Figura 64| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta Tipo; Corte Parcial, Torre de Habitação, Olivais-Norte Figura 65| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Cortes; Alçado Poente, Torre de Habitação, Olivais-Norte Figura 66| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Torre de Habitação, Olivais-Norte Olivais-Norte | Olivais-Sul Outra consequência desta inflexão foi o permitir tratar o patim de distribuição dos fogos de forma inovadora. Os autores ao entenderem que o convívio social dos moradores estaria condicionado pela verticalidade do edifício, promoveram a caixa de escadas como ponto de encontro e de estar dos vizinhos. Nesse intuito trataram esse espaço com dignidade, quer pelo tratamento artístico da parede de betão, quer pela colocação de bancos que tinham um relacionamento visual com o exterior. O terraço do último andar, era a continuidade deste espaço social, com vistas sobre o bairro e o rio, mas também, aproveitado para colocar estendais e arrecadações particulares. 23 Por outro lado, há uma reformulação do espaço interno de habitacão. 24 A organização dos fogos, partindo de uma estrutura similar, variavam consoante a expectativa do modo de vida dos moradores que iriam ocupar cada habitação, reflexo da sociologia da habitação,25 tão cara a Nuno Portas. As alterações mais consequentes das habitações projectadas consistiam: na maior independência entre as partes da casa, através da existência de vestíbulos ou corredores de distribuição para as várias divisões e na ligação visual e prática entre a cozinha e a sala, através de um balcão, tendo em vista a possibilidade da sua utilização não só como passa-pratos mas também como apoio para refeições. A resultante continuidade espacial era fruto da alteração do papel da mulher na habitação, fomentando o convívio entre a mulher, que tem um papel central na habitação, e os restantes elementos da família. Todas estas intenções constituíram o reflexo dos estudos das décadas de 50 e 60, que Nuno Portas desenvolveu, primeiro por iniciativa pessoal e posteriormente no Departamento de Construção e Habitação do LNEC, como referimos. Se como vimos a actuação de Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira, se cingiu apenas ao desenho de uma tipologia, em Olivais-Sul, a actuação, de Nuno Portas, agora com Bartolomeu da Costa Cabral, ficou marcada por uma intervenção também urbanística com as características que mencionamos: “se ____________________ 23| PORTAS, Nuno – Habitações em Torre em Olivais-Norte. Arquitectura 110. Jul./Ago. 1969. p.171. 24| Ver: PORTAS, Nuno – A Habitação Social: proposta para a metodologia da sua arquitectura. p.125-167. 25| Ver: PORTAS, Nuno – A Habitação Social: proposta para a metodologia da sua arquitectura. p.19-35. 155 Figura 67| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Estudo; Plantas, Corte e Alçados Gerais, Banda de Habitação, Olivais-Sul Figura 68| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Estudo; Plantas, Corte e Alçados Gerais, Banda de Habitação, Olivais-Sul Figura 69| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Estudos; Plantas, Torre de Habitação, Olivais-Sul Olivais-Norte | Olivais-Sul a primeira experiência foi mais limitada ao edifício isolado, já na segunda nos foi permitido imaginar conjuntos com autonomia e dimensões suficientes para “fazer um bairro”, num grande Bairro feito de bairros, como então se recomendava.” 26 Portas recordava a surpresa que lhe causou o poder testar praticamente o que já alguns anos teorizava, como fomos referindo: “para quem pretendia chegar a uma teoria da habitação social [que pretendia ser também uma teoria social da habitação] e tinha andado por essa Europa a ver o que, desde o pós-guerra, de melhor se fazia, a oportunidade de desenhar casas fazendo com elas um bairro, em Lisboa, era um inesperado desafio.” 27 Também aqui podemos referir o CODA, em que Nuno Portas estudou a “Concepção da Forma do Agrupamento” 28 , ou seja, modos de associação das habitações em termos urbanísticos e onde incluiu as experiências das visitas, entre outras, aos bairros do INA-Casa italiano, como o bairro Triburtino de Ludovico Quaroni e Mario Ridolfi, em Roma. Nuno Portas recordava, então, o que lhe marcou nessa experiência urbanística e arquitectónica em Olivais-Sul. Uma primeira impressão arquitectónica: “se as casas vestiram bem o[s] modo[s] de vida da primeira geração de habitantes-famílias relativamente numerosas e pobres de origem rural ou de bairros de lata mas também outras com características mais urbanas e menos desmunidas – creio que aguentaram menos bem a melhoria do seu nível de vida e a autonomização dos filhos, apesar das “inovações” que lhes dirigimos como: a cozinha alargada para comer e trabalho de casa, a saleta que se podia fechar, um ou dois quartos privilegiados com uma boa varanda protegida e ligada à cozinha para as crianças, condutas verticais de lixo e isolamento sonoro dos pavimentos [que nem os ricos o faziam então].” 29 Também em Olivais-Sul havia sido reformulado o espaço interno da habitação, consonante com um novo modo de vida, que iam sendo acompanhados na “via sociológica” do LNEC. ____________________ 26| PORTAS, Nuno – Olivais: Retrato de um bairro. In: Arquitectura[s] Teoria e Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.495. 27| Ibidem, p.495. 28| PORTAS, Nuno – A Habitação Social: proposta para a metodologia da sua arquitectura. 2004. p.93-126. 29| PORTAS, Nuno – Olivais: Retrato de um bairro. In: Arquitectura[s] Teoria e Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.495-496. 157 Figura 70| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Bandas de Habitação, Olivais-Sul Figura 71| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Bandas de Habitação, Olivais-Sul Figura 72| Bartolomeu da Costa Cabral e Nuno Portas, Torre de Habitação, Olivais-Sul Olivais-Norte | Olivais-Sul A segunda impressão urbanística: “a tentiva de re-criar “ruas” e “quarteirões” em Olivais-Sul – imagens tradicionais de sociabilidade ou vizinhança em espaços comuns protegidos, evitando o contraste excessivo entre “torres e blocos dispostos livremente no verde” tinha sido imposto em Olivais-Norte – tinha obviamente muito de retórica “neo-realista” a que também a passagem do tempo terá reduzido o sentido: a Anna Magnani não está mais no pátio gesticulando mas no trabalho ou em casa diante da TV e o filho do ladrão de bicicletas gasta o tempo com algum jogo electrónico.” 30 E por último, uma impressão de balanço final: “se se pode dizer que as pessoas mudam aparentemente muito os seus padrões de vida, enquanto os edifícios resistem à mudança, tambem podemos admitir, para ficarmos um pouco mais descansados, que nem tudo muda tanto e tão depressa no quotidiano dos habitantes e que as arquitecturas e seus bairros, apesar da estabilidade e rigidez construtivas vão aguentando adaptações [por vezes merecidas traições] e vão sendo re-apropriadas pelas sucessivas gerações de usos e de vida.” 31 ____________________ 30| Ibidem, p.496. 31| Ibidem, p.497. 159 Figura 73| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa Metelo, Praia das Maças, 1958-1959 Figura 74| Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e Pedro Vieira de Almeida, Casa Brás de Oliveira, Sesimbra,1959-1964 Figura 75| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa Dr. Barata dos Santos, Vila Viçosa, 1959-1963 3.2. Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa Integração, Experimentação e Organicidade Como referimos, no capítulo anterior, a habitação unifamiliar constituiu um programa decisivo para a renovação da linguagem arquitectónica do Atelier, aproveitando as oportunidades para extrair experiências bem resolvidas que seriam aplicadas em escalas e programas de maior complexidade. O cruzamento entre os contributos da arquitectura moderna orgânica e os valores da tradição arquitectónica portuguesa, resultariam na resposta as questões levantadas pelo lugar, pelo programa e sobretudo pelo modo de vida das pessoas. As três habitações que referimos, foram desenvolvidas para contextos muito díspares, no entanto, todas elas contêm um sentido telúrico muito forte, na medida em que estão agarradas ao terreno e à envolvente, numa aproximação que procura o conceito de integração de cada lugar. O conceito de integração, é referido no artigo de Nuno Portas, “Arquitectura Integrada?” 32 , segundo o qual, “a ideia fundamental contida no conceito de integração, é a da necessidade de adequar ou, melhor, de relacionar a expressão de uma casa com o condicionalismo concreto do lugar onde se insere e das pessoas a que se destina, abstraindo de um sistema formal preconcebido”, podendo “desdobrar-se em aspectos distintos: inserção harmónica numa paisagem natural” – como na Casa da Praia das Maças e na Casa de Sesimbra – “inserção num ambiente arquitectónico preexistente, popular ou erudito” – como sucedeu na Casa de Vila Viçosa – e de “acordo com os anteriores hábitos de vida e sobretudo de habitar, com a psicologia e valores culturais dos utentes” 33 , como sucedeu em todas as habitações e fundamental na elaboração de qualquer programa arquitectónico do Atelier da Rua da Alegria. ____________________ 32| O artigo Arquitectura Integrada? de Nuno Portas, foi escrito originalmente para o Jornal de Letras e Artes 84 a 8 Mai. 1963, e publicado na compilação de textos do autor: Arquitectura[s] História e Crítica, Ensino e Profissão. 2005. p.25-31. 33| PORTAS, Nuno – Arquitectura Integrada?. In: Arquitectura[s] História e Crítica, Ensino e Profissão. 2005. p.26. 161 Figura 76| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Estudos, Casa da Praia das Maças Figura 77| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Plantas; Alçados e Cortes, Casa da Praia das Maças Figura 78| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa da Praia das Maças Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa A Casa Metelo [1957-59], na Praia das Maças, teve como ponto de partida um modesto orçamento e o objectivo de servir como casa de campo e praia, e posteriormente, como casa permanente, deixando em aberto uma segunda fase de construção. Implantado no meio do pinhal, o corpo longitudinal – resultante da conjugação de volumes não racionais, dos quartos e da zona de estar – acompanhava o declive natural da duna, onde apenas o piso superior é visível da estrada de acesso e o piso inferior se abre somente para o terreno baixo. O núcleo central desta casa foi a zona social, reflexo da vontade e modo de vida da numerosa família residente e respectivos amigos. A habitação desenvolveu-se, então, a partir da zona de estar, desdobrando-se pelos dois níveis do terreno através duma escada que prolongava a vida interior para o exterior, entre a cota superior da duna e o terreno baixo. A Casa Metelo integrase assim na paisagem natural, quer pela forma como a habitação se adapta ao local [como sempre lá estivesse], quer pelo arranjo da vegetação ou mesmo dos caminhos, que cuidadosamente foram construídos para nos levarem à entrada.34 Recordemos que neste período, decorria o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal35, e que Fernando Távora, prontamente, incluiu os resultados na casa de Ofir, também ela inserida no meio de um pinhal. Portas, na análise à obra do mestre portuense, refere a casa de Ofir, mas também o Pavilhão de Ténis da Quinta da Conceição como “a obra mais acabada, aquela onde o domínio da escala é tão seguro que conta com a própria natureza dos materiais [o carácter táctil da madeira, ou a dureza incisiva dos panos cheios]; aquela em que se adoptam com realismo materiais e técnicas tradicionais, mas submetidos a uma conversão de modernidade no conceito dos volumes, dos planos, do claro-escuro, do vigor.” 36 ____________________ 34| Habitação na Praia das Maças [1957-59]. Arquitectura 79. Jul. 1963. p.11-14. 35| O Inquérito não ia de encontro à metodologia que Portas que queria implementar, mas resultava antes como “livro de receitas” de formas de arquitectura já construídas. Para Portas o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal “[...] constituiu uma notável base de estudo mas também perigoso “catálogo”, se como tal for folheado surge precisamente quando se tem de afastar a ideia tentadora e paternalista de compor para os utentes populares ao “gosto do povo.” ” Ver: PORTAS, Nuno – Arquitectura[s] História e Crítica, Ensino e Profissão. 2005. p.29. 36| PORTAS, Nuno – Fernando Távora: 12 Anos de Trabalho Profissional. Arquitectura 71. Jul. 1961. p.22. 163 Figura 79| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Estudos, Casa de Sesimbra Figura 80| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Estudos, Casa de Vila Viçosa Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa Na Casa da Praia das Maças, como na Casa de Ofir ou no Pavilhão de Ténis, a integração de materiais [os planos de pedra do embasamento, caiados na parte superior, pontuados por vãos de proporção vertical protegidas por tradicionais venezianas e a madeira nos acabamentos interiores] e os sistemas vernaculares de construção, contribuíam para a proposta de uma arquitectura moderna na continuidade da tradição portuguesa. Se o risco na Casa da Praia das Maças tinha sido pouco, na Casa de Sesimbra e em Vila Viçosa, há um arriscar no desenho e nas soluções propostas. Para Nuno Portas era um período de “ “experimentação” que então fazíamos e se estendeu por dois ou três anos[...], na procura sucessiva da melhor linguagem, de mais expressivas, maneiras de dizer ou, menos literalmente, os meios formais mais capazes de dar, ou designar, espaços que queríamos fossem entendidos como sinais de certas intenções de vida” 37 , e que constituísse, simultaneamente, uma forma de criação e de crítica, fundamental no pensamento de Portas. A Casa Dr. Barata dos Santos [1958-63], de Vila Viçosa e a Casa Brás de Oliveira [1959-64], em Sesimbra, prosseguiram ambas a via de uma integração formal proposta como um gesto natural, apesar de contextos e abordagens diferentes. Porém, se a Casa de Vila Viçosa, inserida num quarteirão da vila alentejana, em frente das muralhas do castelo, “se apaga quase até ao anonimato”, em Sesimbra, “a posição sobranceira na encosta, convidou aqui a destacar a obra nova e o seu movimento interior ainda que agarrando-a, como uma lapa, ao declive.” 38 Ou seja, a integração em Vila Viçosa processou-se de um modo quase mimético, não um “pastiche” mas uma reinterpretação, ao confundir-se com a realidade construtiva envolvente, marcada pelas vicinais confrontações monumentais – o Castelo, o Palácio Ducal, o Convento dos Agostinhos e o Alto de S. Bento. Enquanto que a solução, assumidamente indiscreta, em Sesimbra foi o resultado da relação intencional, estabelecida com a envolvente aproveitando a cobertura, em terraço, para a criação de áreas de estar ao ar livre, que permitiam um relacionamento muito franco com a paisagem natural. ____________________ 37| PORTAS, Nuno – Habitação em Sesimbra. Arquitectura 93, Mai./Jun. 1966. p.115. 38| Ibidem, p.115. 165 Figura 81| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta Piso Principal; Planta Cave e Planta Piso Superior, Casa de Vila Viçosa Figura 82| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Alçado Norte Nascente, Casa de Vila Viçosa Figura 83| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Alçado Norte Poente, Casa de Vila Viçosa Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa No entanto, para lá da sua integração, as casas de Vila Viçosa e de Sesimbra, são marcadas pela sua definida e complexa geometria na origem do desenho planimétrico, na procura de um espaço interno revelador da arquitectura pela qual Teotónio e Portas ansiavam. Na experiência de Vila Viçosa, a geometria planimétrica partia de uma malha geradora ortogonal de base com um outro sistema ortogonal [a 45º com o primeiro]. Esta concepção planimétrica exprimia-se através de uma distribuição horizontal por todo o terreno do corpo principal da habitação, dado o extenso programa e a exiguidade do lote quadrado na vila alentejana. A volumetria de carácter fragmentário, permitia uma presença discreta e integrada no casario envolvente, ainda que houvesse um elemento excepcional que se destacava – o torreão estúdio-quarto – proporcionando, em contraponto à volumetria rasa do resto da casa, um enquadramento para os pontos de interesse já referidos. O desnível entre as duas ruas, possibilitava uma solução em patamares e pátios – adoptada também na Igreja do Sagrado Coração de Jesus –, na cota superior funcionava o pátio de entrada e recepção, onde se situava o núcleo social da habitação, na transição entre o espaço público e o espaço privado, e na cota inferior o pátio-logradouro, para os caseiros e serviços. A distribuição planimétrica era assim reflexo dessa integração volumétrica organicamente adaptada ao lugar através de “uma planta que se distribui em vários braços, para criar uma sequência de volumes de construção e de pátios murados que prolonga para o exterior o espaço interno, segundo a tradição mediterrânica, bem frequente na própria Vila.” 39 Por outro lado, em Sesimbra, num terreno caracterizado por uma acentuada pendente e com uma configuração irregular, a concepção partiu de uma malha triangular em substituição da disposição ortogonal, como constatação que a geometria não ortogonal adaptava-se muito bem ao declive, possibilitando uma volumetria fraccionada de encaixe dos corpos uns nos outros e proporcionando um prolongamento entre espaço interior e espaço exterior – um dos princípios de concepção desta habitação. ____________________ 39| PORTAS, Nuno – Moradia em Vila Viçosa. Arquitectura 79. Jul.1963. p.8. 167 Figura 84| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas , Planta Superior; Planta Inferior; Planta Cobertura, Casa de Sesimbra Figura 85| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Corte, Casa de Sesimbra Figura 86| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Alçado Nacente, Casa de Sesimbra Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa A casa de Sesimbra desenvolve-se, então, a partir de uma malha geradora de base triangular ou hexagonal, definindo em planta ângulos de 60 e de 120 graus, numa composição geométrica que respondia ao programa relativamente alargado [com diversas salas e seis quartos], e que se adaptava ao terreno, através de três patamares bem perceptíveis no corte longitudinal, correspondentes ao mesmo número de núcleos interiores, que distribuem para as diferentes células da habitação. Nuno Portas assume o risco e a influência wrightiana: “arriscámos uma estrutura celular no sentido literal ou orgânico do termo, seguindo, […] a irresístivel sugestão didáctica da fase “Hanna House” de F.L.Wright – como para saber se o dinamismo formal da construção da planta asseguraria, pelo carácter sistemático e animado, pelas diferenças de nivéis, um sentido de continuidade a todo o ambiente, desde as células encerradas aos espaços mais abertos.” 40 Apesar de ambas abordagens projectuais partirem de malhas geométricas, isso não era a garantia de sucesso, para Nuno Portas continuava “hoje em aberto, para nós, este problema crítico [e por isso necessitamos da crítica] e ainda esta experiência tenha tido menos um valor pessoal de desinibição formal, mais nos convenceu da necessidade de um sério ‘controle’ ao nível da resultante-espaço, mais do que do feito geométrico, isto é, verificado ambiente a ambiente, [...] e para o qual uma malha, seja ela ‘ortogonal’, a ‘30º’, ou a ‘45º’ ou agora em ‘redondos’, não é instrumento automático ou mágico. Como lhe não é também indiferente – e aqui se põe toda a ambiguidade de um problema de estruturalismo linguístico...” 41 , ou seja, a procura da metodologia arquitectónica que tanto Nuno Portas debateu ao longo da década de 60, e referida no capítulo II. Portas utilizava a obra de Sesimbra, para criticar também o facto de “continuarmos a vogar, excessivamente, ao sabor de modas formais – ficandonos no tal jeito cheirar de onde sopra o vento, como dizia [Ludovico] Quaroni – modas muito mais fáceis de implantar do que a procura da necessidade de uma linguagem do que, por ela, teremos para dizer.” 42 ____________________ 40| PORTAS, Nuno – Habitação em Sesimbra. Arquitectura 93. Mai./Jul. 1966. p.115. 41| Ibidem, p.115. 42| Ibidem, p.116. 169 Figura 87| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa de Sesimbra Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa Em Vila Viçosa, como em Sesimbra, a geometria não é repetitiva, há quase um ‘horror’ ao ângulo recto, cada compartimento tem uma conformação muito própria, cada geometria resulta numa linguagem espacial dinâmica, fluída e era essa a verdadeira procura: o espaço interno. Espaço interno com carácter diversificado, de uma riqueza e intensidade singulares, concebido de “dentro para fora”, onde o espaço exterior era uma continuidade do interior e que nos remete para a obra de F.L.Wright reinterpretada pelo mestre italiano Bruno Zevi. Nuno Portas, no texto de análise da “Habitação em Sesimbra”, acaba por enunciar a procura de “ambientes variados e estimulantes à vida social da casa, […] ao encontro dos conceitos de fluência de espaços não estanques, compostos de ambientes diversificados pelos contornos, pelas variações altimétricas, por obturações focadas, etc., mas ligadas com um sentido dinâmico, sugerindo o movimento dos seus utentes. Conceitos de origem confessadamente Wright – Loos – Aalto – Zeviana, mas que, de qualquer modo, confirmavam uma convicção dominante: a da primazia da formação do espaço interno de dentro [ainda quando se tratasse de espaço exterior] como aquela estrutura onde se joga o intimismo e a sociabilidade, sobrepondo-a à anterior primazia da composição volumétrica ou facial, porque conducente ao neo-academismo de criar objectos, porventura belos de ver, no seio do vago espaço sobrante.” 43 E deixava uma pergunta por qual tanto lutou por conseguir a resposta: “[…] quais as fontes e os critérios – ou o método se possível – para uma interpretação coerente do problema real de uma obra concreta, por forma a que pudéssemos assumir o que lhes pode conferir uma identidade – o sítio, a cultura pré-existente, as disponibilidades materiais e técnicas – exprimindo com não menos força os valores universais de uma nova cultura de habitar, de uma nova forma de entender o espaço, numa palavra, comunicando novidade e progresso à vida quotidiana dos utentes? ” 44 ____________________ 43| Ibidem, p.115. 44| Ibidem, p.115. 171 Figura 88| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Casa de Vila Viçosa Casa da Praia das Maças | Casa de Sesimbra | Casa de Vila Viçosa Podemos concluir que à “timidez” da solução proposta, “mais próxima de um certo empirismo que havia interessado a Fernando Távora” 45, na casa da Praia das Maças, foi o dado o passo seguinte no caminho para a evolução, na Casa de Sesimbra, mas principalmente no projecto-manifesto que constituiu a Casa de Vila Viçosa, no culminar dos três pontos referidos – integração, experimentação e organicidade. O valor da tradição cruzado com um sentido de contemporaneidade, contextualizou as obras nos lugares, dando conta da cultura, dos materiais possíveis – e dos novos materiais como o betão – mas sobretudo aproximando-se da vontade e vida das pessoas. ____________________ 45| Ibidem, p.115. 173 Figura 89 | Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa, 1962-1976 Figura 90| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas, Igreja Paroquial de Almada, 1963-1971 3.3. Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada Entre o espaço Litúrgico e o espaço Urbano Antes de analisarmos os trabalhos de carácter religioso, duas notas a sublinhar, mencionadas nos capítulos anteriores. A primeira, o facto destas duas igrejas paroquiais constituírem a afirmação definitiva do novo paradigma da arquitectura religiosa em Portugal. A segunda nota, relaciona-se com a nova ideia de intervenção e escala urbana na arquitectura portuguesa, operada pioneiramente, no atelier da Rua da Alegria. Ora foi precisamente em torno destes dois pontos, que a equipa constituída por Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Vasco Lobo e Vítor Figueiredo, com a colaboração de Luís Almeida Moreira e de Pedro Vieira de Almeida, desenvolveu o anteprojecto vencedor do concurso público, lançado em 1962, para a Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus [1962-1976], em Lisboa, prémio Valmor de 1975.46 A oportunidade para desenhar uma igreja no centro de Lisboa constituiu, antes de mais, um manifesto em prol da arquitectura religiosa moderna, contestando o padrão das igrejas históricas anteriores, do edifício enquanto objecto arquitectónico, valorizando a reformulação e a integração no espaço urbano. A proposta apresentada a concurso47 destacou-se, assim, dos outros catorze trabalhos, pelo modo como o programa foi urbanamente articulado no coração da capital. À tradição de fazer igrejas no “meio do nada” 48, o atelier da Rua da Alegria respondeu com a recuperação do conceito setecentista de espaço religioso inserido na malha da cidade pombalina, agora adaptada à malha das Avenidas Novas desenhadas por Ressano Garcia. ____________________ 46| Atribuição do prémio Valmor em 1975, ex aequo com a Sede da Fundação Calouste Gulbenkian. Interrompida em 1971 a atribuição de prémios foi retomada após o 25 de Abril de 1974. Ver: ArchiNews 2. Dez. 2004. p.43. 47| A revista Arquitectura, publicou os resultados e a acta do Júri, constítuido pelos arquitectos Octávio Lixa Filgueiras, Sebastião Formosinho Sanchez e Bartolomeu da Costa Cabral. Ver: Concurso de anteprojectos para a Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus e seus anexos. Arquitectura 76. Out. 1962. p. 11-30. 48| Nuno Portas à conversa com Nuno Teotónio Pereira sobre os projectos do atelier da Rua da Alegria. Ver: FERREIRA, Joana Cunha – Nuno Teotónio Pereira. Um Homem na Cidade. 2009. 175 Figura 91| Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Vasco Lobo e Víctor Figueiredo, Concurso Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa, 1962 Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada A proposta desenvolveu-se, então, caracterizada pela envolvência de edifícios com escala considerável, num programa extenso e complexo, minuciosamente encaixado num quarteirão exíguo, que compreendia a igreja, centro paroquial, residências, capelas mortuárias, salão de festas, centro de serviço social, jardim de infância, garagens... Ambicionava-se mais que um simples equipamento religioso, um pedaço de cidade, dentro da própria cidade. Nuno Portas resumiu muito bem estas questões, recordando o intenso debate – muitas das vezes impulsionado pelo próprio, depois de “esquiços em cartões pequenos” 49 trazidos do café – que se gerou entre a articulação do programa e o modelo que queriam para o quarteirão: “o programa era central mas não anterior ao desenho: era paralelo, era interactivo. A certa altura sabíamos todos que a igreja não seria um objecto no meio do terreno [como fizeram todos os outros concorrentes], mas uma igreja encostada como as pombalinas com um pátio central, às escadinhas, a ligar as duas ruas e a distribuir coisas tão diferentes como igreja, restaurante, teatro, escritórios, quiosque, residências... enfim, uma miniatura de cidade.” 50 O desenvolvimento da ideia de mini-cidade, procedia dos conceitos tradicionais de cidade [ruas, escadas, pátios], através de “uma rua-escadório distributiva e de estar” 51 , que permitia articular a igreja com os restantes corpos do conjunto. Um átrio central que possibilitava o ponto de encontro, realização de actividades e de enorme vida ao quarteirão, ao mesmo tempo que constítuia uma antecâmara exterior, preparando o acto de entrada na igreja, num espaço bem escalonado e acolhedor. A criação desta rua interior, ligando pedonalmente as ruas de Castelo Camilo Branco e a de Santa Marta, em patamares para vencer o acentuado desnível – solução adoptada em Vila Viçosa, como vimos, e que Távora havia utilizado no Mercado da Feira – permitiu que o espaço público invadisse o quarteirão relacionando-o com o espaço litúrgico. Para Pedro Vieira de ____________________ 49| PORTAS, Nuno – Sobre o Método e os significados no Atelier Nuno Teotónio Pereira. In: Arquitectura[s], Teoria e Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.234. 50| Ibidem, p.234. 51| Ibidem, p.234. 177 Figura 92 | Estudos, Igreja Sagrado Coração de Jesus, Lisboa Figura 93 | Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta 4º Piso; Alçado Rua Camilo Castelo Branco; Cortes; Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada Almeida, este princípio era evidente, “a uma igreja que se abre arquitectonicamente para a cidade parece legítimo propor que a cidade se introduza no seu organismo.” 52 A citada abertura arquitectónica para a cidade, constitui o primeiro ponto de contacto entre a Igreja de Santa Marta e a Igreja Paroquial de Almada [1963-71], resultante de uma encomenda feita em 1963. Ao contrário, da Igreja de Lisboa, inserida num contexto urbano, a Igreja de Almada aparece como uma igreja-objecto, resultado da implantação num extenso lote ajardinado, mas sobretudo pela falta do corpo dos serviços paroquiais, não construído, que seria concretizado numa 2ª fase, desenhando um pátio exterior, à imagem de Santa Marta. Este volume permitiria uma outra leitura a todo o complexo religioso, motivo pelo qual, a análise terá de partir da clarividência, que escrevemos sobre um projecto inacabado. No entanto, se a idealização de todo o conjunto apenas é vísivel na maqueta, o princípio foi o mesmo da Igreja de Santa Marta: fazer cidade para as pessoas, paroquianos e os habitantes se apropriarem. A opção de implantar o edifício no limite às ruas circundantes, foi então o reflexo deste objectivo, conceber um novo equipamento religioso, com espaços para a comunidade, espaço livre para estar, mas também para valorizar a presença da própria igreja, pelo modo como se “lança voluntariamente no terreno, procurando integrar em si o espaço ajardinado envolvente, empregando um vocabulário intencionalmente surdo e com manifestas referências à Igreja-sinal, de características, que direi ruralizantes,” 53 na continuidade, recordemos, do Mosteiro de Santa Maria do Mar [1959-1968], em Sassoeiros e que havia despoletado na Igreja para o ambiente rural de Águas, de Nuno Teotónio Pereira. De referir, o papel do Mosteiro de Santa Maria do Mar, no programa religioso do atelier da Rua da Alegria, como ensaio geral para as duas igrejas sucessoras, que confrontamos. Para Ana Tostões: “o convento das freiras ____________________ 52| ALMEIDA, Pedro Vieira de – Duas Igrejas: Sagrado Coração de Jesus e Paroquial de Almada. Arquitectura 123. Set./ Out. 1971. p.163. 53| Ibidem, p.163. 179 Figura 94| Nuno Teotónio Pereira, Pedro Vieira de Almeida e Nuno Portas, Mosteiro de Santa Maria do Mar, Sassoeiros, 1959-1968 Figura 95| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa, 1962-1976 Figura 96| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas, Igreja Paroquial de Almada, 1963-1971 Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada Beneditinas Missionárias foi certamente o ensaio da articulação espacial escalonada e deslizante, da iluminação, dos materiais onde já aparece o betão descofrado, rude e áspero jogado com requintadíssimos perfis e vitrais de iluminações “sobre naturais”, confirmada na Igreja do Sagrado Coração de Jesus,” 54 mas também na Igreja Paroquial de Almada. Os conceitos de experimentação, integração e organicidade denunciados com as habitações unifamiliares tornam-se também eles, patentes na análise aos esquiços e desenhos finais do Mosteiro de Santa Maria do Mar. No entanto, à imagem do que sucedeu posteriormente em Almada, a construção de apenas uma parcela do Mosteiro, descaracterizaria uma ambiciosa proposta de grandes dimensões articulada com escala e virtudes humanas. Na concepção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, como em Almada, o espaço interno constituiu o outro foco de desenvolvimento e discussão do projecto. Reflexo da intervenção exterior no quarteirão, o espaço interno desenvolveu-se em três níveis sobrepostos de plataformas, entre a cripta e as capelas secundárias a um nível inferior, o piso intermédio principal com a nave, o santuário, o baptistério e a capela lateral, prolongado com as galerias e balcões posicionados perimetralmente a um nível superior. Esta disposição interna desenhada com uma coerente geometria, moldava uma grande assembleia de fiéis, envolvendo o altar, num espaço contínuo e orgânico e sem a direccionalidade axial característica das igrejas históricas – a entrada principal foi posicionada lateralmente – acompanhando as mudanças impostas pelo Concílio do Vaticano II. 55 O resultado é a proposta de uma espacialidade rica de significados, capaz de comover e de assumir a espiritual atmosfera que sempre caracterizou as igrejas. E é nesta proposta de uma espacialidade significante, capaz de ____________________ 54| TOSTÕES, Ana – Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. 1997. p.103. 55| O Concílio Vaticano II, foi convocado pelo Papa João XXIII, em 1959, e decorreu em 4 sessões, entre 1962 e 1965. O maior propósito foi a actualização das doutrinas católicas adaptadas ao espírito da época. Abordou diferentes temas, que ainda hoje geram diferentes intepretações, como a reforma da Liturgia [a missa passou a ser celebrada em vernáulo], a defesa da liberdade religiosa ou o ecumenismo, formando um novo ponto de vista sobre a constituição e a pastoral da Igreja [fundamentada, a partir de então, na igual dignidade de todos os fiéis]. Ver: Enciclopédia Verbo Edição Século XXI. Editorial Verbo. 181 Figura 97| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas, Planta Inferior; Planta Principal; Planta Superior e Planta das Coberturas, Igreja Paroquial de Almada Figura 98| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas, Cortes; Alçados, Igreja Paroquial de Almada Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada integrar a dimensão da condição humana e o sentido sobre a realidade, que residiu a procura principal na Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jeus, mas também em Almada. No entanto, se a Igreja Paroquial de Almada procedeu dos mesmos princípios da Igreja de Santa Marta – a exemplo, a entrada principal é também ela lateralizada – o tratamento do espaço interno revela-se menos denso e carregado de significados. O sentido de envolvência do altar proporcionado por uma assembleia escalonada, para permitir uma maior proximidade aos fiéis das últimas filas, e a singularidade da galeria e balcão lateral que não circundam o altar e tornam o espaço mais estático, revelam-se insuficientes para caracterizar a Igreja de Almada com o ambiente da Igreja de Lisboa. Como refere Pedro Vieira de Almeida na análise às duas igrejas: “Almada parece menos conseguida não só pela modelação e densidade espacial, como também pelo controlo da luz mas ainda por propor uma pormenorização dispersiva que me parece menos adequada e não conseguir ganhar aquele grau de unidade a nível superior, que suponho uma das melhores conquistas da Igreja do C. Jesus.” 56 A ausência de um tratamento tão pormenorizado do espaço interior, sublinhava o aspecto da falta de tratamento exterior. A preparação para a entrada na Igreja, que sucede em Santa Marta, perde aqui protagonismo, sobretudo pela a ausência do corpo de serviços paroquiais referido, que elevaria o projecto para um nível mais próximo da igreja de Lisboa. A singular obra que constituiu a Igreja do Sagrado Coração de Jesus deveu-se, assim, a este tratamento duo espacial, entre um espaço exterior bem escalonado e intimista, que proporcionava uma passagem gradual para o interior orgânico, fluído e humano, na busca exaustiva pela sincera espacialidade sagrada. Mas as diferenças não se situavam apenas na articulação espacial e na proposta urbana. A estes dois pontos associava-se um modesto nível de pormenorização, e que havia sido objecto de um obsessivo trabalho em Santa ____________________ 56| ALMEIDA, Pedro Vieira de – Duas Igrejas: Sagrado Coração de Jesus e Paroquial de Almada. Arquitectura 123. Set./ Out. 1971. p.163. 183 Figura 99| Nuno Teotónio Pereira, Luís de Almeida Moreira e Nuno Portas, Igreja Paroquial de Almada Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada Marta. Partindo de um mesmo material, o betão devido ao seu carácter perene e de fácil manutenção, predominante em ambas as igrejas, o que as distanciou foi também o diferente tratamento na articulação concedida ao betão com os outros materiais. O betão aparente, betonado in loco, os painéis e blocos pré-fabricados em estaleiro – algo de inovador e experimental naquele período – são cuidadosamente manipulados na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, através de uma pormenorização exarcebada de todos os elementos, que a longa duração da obra permitiu amadurecer. A exemplo, o cuidado na aplicação dos blocos de cimentos, que revestem interiormente a igreja e que a unificam espacialmente, conjugados com o estudo das hierarquias dos jogos de luz – onde se destacava o altar e o posicionamento do sacerdote – asseguravam a riqueza e densidade espaciais internas. Por outro lado em Almada, apesar da atenção que envolveu o plano de fundo, no tratamento artístico a que foi submetido, com o mesmo objectivo de destacar o altar, a articulação dos planos de betão com os outros materiais não foi tão bem conseguido. O tratamento das transições entre betão, madeira e as placas de revestimento do plano inclinado da cobertura, não asseguram, a nosso ver, o efeito homogéneo e superior da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. O facto de a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, ser um projecto mais bem conseguido, deveu-se em muito ao facto de constituir o projecto onde mais se reflectiu a influência dos vários colaboradores, como enunciamos no início do capítulo. Tanto assim foi que a Igreja de Santa Marta viria a resultar no projecto mais referenciado e influenciado pela arquitectura de ‘lá de fora’, num modo de projectar com soluções ‘à maneira de’, onde o background da vasta cultura arquitectónica e do sentido crítico de Portas, contribuiu decisivamente. Portas relembra as obras que naquele período lhe vagueavam na cabeça: “como a de Scarpa [que tinha conhecido dois anos antes]. O “brutalismo” na sua versão menos agressiva do “Economist” dos Smithson ou da biblioteca e primeira igreja do Kahn. E, em pano de fundo, o meu mestre da fase escolar 185 Figura 100| Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa Igreja do Sagrado Coração de Jesus | Igreja Paroquial de Almada [Frank Lloyd Wright] e os realistas italianos [Ridolfi, Quaroni].” 57 As influências postas em cima do estirador, foram tantas ao ponto de Portas chegar a afirmar, com o afastamento temporal necessário, “mas, por minha culpa, também um certo “barroquismo” [comparado com as obras contemporâneas do Távora ou do Siza, no Norte, ou do Taínha, no Sul], salpicado de maneirismos que hoje reconheço demasiado carregados e eclécticos. [o meu problema era talvez o ter informação e intenção a mais].” 58 No entanto, o importante a reter, é que “com o tempo, os “tiques” vão-se apagando e o essencial [o sentido do espaço, a ligação à cidade] vem ao de cima.” 59 E é na visita aos lugares, quer à Igreja do S. Coração, quer à Igreja de Almada, que se torna evidente a ligação à cidade, que Portas referiu. No largo que se abre à frente da Igreja de Almada, nas pessoas nos cafés, ou à espera de outras, nas crianças a brincar ou então ao percorremos a rua interior do quarteirão de Santa Marta, os projectos tiveram o condão de serem agregadores de pessoas, e não apenas nos actos litúrgicos, e neste ponto foram ambas as propostas bem sucedidas, onde de facto, para além da resposta ao programa, o “fazer cidade” aconteceu. O maior contributo da Igreja do Sagrado Coração, para lá da renovação do programa religioso, foi seguramente esse despertar para a valorização do espaço urbano ao integrar-se num contexto consolidado, mas sem deixar de assumir a sua modernidade, uma nítida influência do Economist Building [195964], do casal Smithson. Por isso encaramos esta obra como um virar da página para o atelier da Rua da Alegria, ao antecipar o debate sobre a “construção no espaço da cidade” 60, que despoletaria, internacionalmente com o incontornável “A Arquitectura da Cidade” [1966] de Aldo Rossi, e que em Portugal seria questionado com o livro de Nuno Portas “A Cidade como Arquitectura” [1969]. ____________________ 57| PORTAS, Nuno – Sobre o Método e os significados no Atelier Nuno Teotónio Pereira. In: Arquitectura[s], Teoria e Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.234. 58| Ibidem, p.234. 59| Ibidem, p.234. 60| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura. 2007. p.1. 187 Figura 101| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa, 1968-1970 Figura 102| Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira, Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa, 1970-1975 3.4. Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo As duas propostas com que finalizamos a análise das obras, constituem a afirmação do atelier da Rua da Alegria voltado para uma arquitectura com carácter urbano – “a construção no espaço da cidade” – na procura da cidade enquanto palco para as pessoas interagirem, onde o espaço público e o espaço privado se misturam, transformando-o num espaço singular, como referimos anteriormente. Nuno Portas desempenhou um papel fundamental nesta valorização da cidade, operada no final na década de 70, como acabamos de mencionar. Quer seja um troço de cidade, como foi o quarteirão do Centro Comercial São Sebastião, quer seja uma extensa área citadina, como foi o caso do Plano de Pormenor do Restelo, os últimos anos de Portas no atelier, foram ocupados a desenhar para uma escala urbana. Depois dos anos de abrandamento projectual, com a investigação desenvolvida no LNEC e o ensino na ESBAL, Portas estendeu de uma forma prática, com a participação nestes dois projectos, o debate dos modelos a adoptar para a cidade, expressos na suas obras seminais A Arquitectura para Hoje, mas sobretudo em A Cidade como Arquitectura. Os dois projectos que analisaremos são também eles, a prova do meta-projecto arquitectónico que Nuno Portas procurava, ou seja, a metaarquitectura desenvolvida autonomamente por vários intervenientes. Foram estas questões que Portas abordou, quando a revista Arquitectura publicou conjuntamente o Centro Comercial de São Sebastião e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, onde havia iniciado na prática, 10 anos antes, a “arquitectura como cidade”. Portas recordou como “o Centro de São Sebastião veio retomar o essencial da igreja de Santa Marta – uma espinha dorsal constítuida por um espaço público enfatizado [por recurso quase literal a tipologias facilmente identificáveis – as ruas densas de encosta na igreja, as “galerias” no Centro]; a partir dessa espinha também os espaços distribuídos ficariam relativamente abertos a usos que só ilusoriamente podiamos controlar na fase inicial do projecto e que se deviam antes destinar a arquitecturas de outros que 189 Figura 103| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Plantas; Perfis; Perspectiva; Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo igualmente não desejaríamos dominar. Portanto, um espaço enfático – o distributivo e o de encontro – e um conjunto de regras mínimas de jogo para decisões ulteriores privadas, regras que o são sobretudo para assegurar dadas continuidades urbanas. Não quer isto dizer que o atelier se venha desinteressando dos problemas de linguagem arquitectónica a favor de preocupações de “simples” estrutura tipológica [...]; apenas aconteceu que o problema posto nos obrigava a estudar sobretudo este nível de concepção e que achamos interessante que o nosso acto não menos linguístico fosse um começo de articulação da fala [uma sintaxe e uma semântica básica] que aspira a ser entendido e continuado não sabemos por quem nem exactamente quando.” 61 Portas revelava nesta declaração a superação do puro formalismo na arquitectura para a importante “contribuição ao problema num nível que afinal é aquele onde, parece, a contribuição do arquitecto continua mais deficitária e que é o da estrutura mesma dos artefactos que pomos na cidade ou com que [des]fazemos cidade.” 62 Uma dessas contribuições, foi o projecto-estudo do Centro de Compras de São Sebastião da Pedreira, resultante de uma encomenda dos Serviços de Urbanização da Câmara Municipal de Lisboa, em 1968 e finalizado em 1971. Contudo o projecto acabou por não ser construído, sendo o quarteirão ocupado, 30 anos depois, pela cadeia espanhola “El Corte Inglés”. O resultado da proposta de Nuno Portas, Nuno Teotónio Pereira e Gonçalo Byrne, procedeu de uma quantidade de factores como “a sondagem de mercado, o estudo de rentabilidade económica ou uma regulamentação condicionante da execução de forma”,63 que foram criteriosamente estudados, para que este inovador espaço comercial, constituísse a todos os níveis – sociais, económicos, arquitectónicos, urbanos – uma mais valia para a cidade de Lisboa. ___________________ 61| PORTAS, Nuno – Testemunho de um dos autores. Arquitectura 123. Set./Out. 1971. p.172. 62| Ibidem, p.172. 63| BYRNE, Gonçalo; PEREIRA, Nuno Teotónio; PORTAS, Nuno – Centro de Compras em Lisboa – Estudo para um centro em S.Sebastião da Pedreira. Arquitectura 123. Set./Out. 1971. p.179. 191 Figura 104| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Planta de Esquemas de Utilização/ Ocupação Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa Figura 105| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Perspectiva de Esquema de Utilização/ Ocupação Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo Contudo, para lá dos factores de ordem sócio-económica, envolvendo os potenciais consumidores e os promotores municipais, [com a subida do poder de compra e consequente aumento do consumo, dos primeiros, e o papel, dos segundos, na deslocação para São Sebastião de equipamentos de utilidade pública – biblioteca, espaços de lazer ou espaços administrativos], o que nos importa sublinhar foi a forma como todas estas condicionantes foram articuladas urbanisticamente e arquitectonicamente, porque, e como está expresso no estudo: “seria um perigoso erro de cálculo subestimar a importância dos factores propriamente urbanísticos – relativos à localização, dimensionamento e variedade de serviços a oferecer – assim como dos factores arquitectónicos – relativos à potencialidade de crescimento e de readaptação do edifício, quer na forma de divisão interna, quer nas relações com o exterior.” 64 O Centro Comercial, o primeiro em Lisboa com tão grande dimensão e planeamento, surgiu “como a necessidade de ensaiar na cidade um tipo de edificação para o comércio de retalho de produtos de consumo diário, alimentar ou não, alternativo ao “mercado da banca” que nos últimos decénios tem sido construído e que hoje se reputa obsoleto.” 65 Naquele vazio urbano, no alto do parque Eduardo VII, foi, então, adoptado um novo modelo de “shopping center” transposto de países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos e a Suécia. Um dos focos da discussão, centrou-se no tipo e escala adequada para o centro de compras, entre local ou trans-zonal, optou-se pelo segundo pois aumentava o raio de acção de consumidores potenciais, acrescentando naquela zona um atractivo de oferta de produtos e serviços que não existia ainda em Lisboa, como foi referido pelos autores: “o centro de compras transzonal funciona cumulativamente como centro local, mas jogando com as rodovias e linhas de transporte, propõe-se um raio de acção muito mais vasto, que pode chegar à escala de centro regional com características de diversificação das áreas centrais antigas.” 66 ___________________ 64| Ibidem, p.179. 65| Ibidem, p.180. 66| Ibidem, p.180. 193 Figura 106| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Plantas Pisos 0, 1 e 2; Corte; Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo Esta escolha levou a que se articulassem vários tipos de transporte – automóvel, metro e autocarro – com uma infra-estrutura de cariz urbano, até pela intervenção nas ruas circundantes para benefício de acessibilidade ao centro, para potenciar São Sebastião da Pedreira como um centro alternativo da cidade, e não apenas comercial: “tendo presente que um Centro de Compras se caracteriza, funcionalmente, por uma grande diversidade de tipos de compras [lojas, supermercados e grandes armazéns, além de outros serviços não-comerciais de utilidade pública] e sobretudo por apreciáveis facilidades de estacionamento automóvel e de serviços de transporte de superfície ou subterrâneos, a sua localização deverá ser jogada como elemento importante de criação ou reforço de uma nova zona central que funcione como dissuadora do centro antigo.” 67 O Centro Comercial, na visão dos autores funcionaria urbanisticamente com um pólo dinamizador do desenvolvimento de toda a zona envolvente, ao atrair os inexistentes serviços colectivos para São Sebastião e por outro alargar o seu raio de influência através de uma bem articulada rede de transportes que facilitava a afluência de pessoas, em qualquer período do ano, para o Centro. No fundo, o modelo de mega-estrutura, na procura da dimensão urbana, agregadora de funções díspares como serviços, de consumo, lúdicas ou cultural. Uma nova forma tipológica de mega-edíficio, como verificamos, no Centro Cívico de Cumbernauld, na Escócia. 68 Por outro lado, arquitectonicamente, o edifício em si mesmo, era um novo modelo de centro comercial, uma resposta ao anterior modelo, inserido “na malha citadina e incrustrados nos edifícios de habitações e escritórios, fundamentalmente por razões de maior segurança dos promotores que provêm de menor investimento inicial [...] e mais fácil readaptação em caso de insucesso. É portanto um processo natural que provoca a concentração de certos comércios, cafés e salas de espectáculos, sendo o “passeio” a descoberto o elemento de ligação entre eles.” 69 ___________________ 67| Ibidem, p.180. 68| Ver: GRANDE, Nuno – Arquitecturas da cultura: política, debate, espaço: génese dos grandes equipamentos culturais da contemporaneidade portuguesa. 2009. p.187-207. 69| Ibidem, p.180. 195 Figura 107| Teotónio Pereira e João Braula Reis, Edifício de Escritórios e Comércio “Franjinhas”, Lisboa, 1965-1969 Figura 108| Nuno Teotónio Pereira, Gonçalo Byrne e Nuno Portas, Perspectiva Galeria Coberta Centro de Compras de São Sebastião, Lisboa Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo Nuno Teotónio Pereira e Braula Reis com o Edifício de Escritórios e Comércio “Franjinhas”, haviam dado um primeiro passo na reinterpretação deste modelo, ao conceberem um edifício de escritórios convencional mas com a inovação dos primeiros 3 pisos destinados a comércio, serem invadidos pela rua, através de galerias cobertas, que ampliavam o espaço público em diversos níveis pedonais.70 Foi também este o modelo de concepção que esteve na origem do Centro Comercial de São Sebastião, modelo de galeria coberta com lojas de variada oferta comercial, recriando o ambiente exterior, através do desdobramento da rua em diversos planos de circulação e de estar, criando novas formas de sentir o espaço urbano, mas com todas as comodidades de um espaço interno. A galeria coberta era, então, o elemento agregador de toda a complexa infra-estrutura urbana, aberta para a cidade onde “diferentes actividades sobrepõem-se no mesmo edifício, aglutinando-se em torno da galeria comercial ou rua interior coberta. Um valor simbólico não subestimável atribui-se à criação de uma “galeria” com distribuição linear de serviços do Centro – um pouco na tradição europeia das galerias urbanas – funcionando como elemento que prolonga o passeio-com-lojas, corrente na cidade.” 71 O Centro Comercial de São Sebastião da Pedreira, constituiu naquele período, sobretudo, a proposta de um novo modelo para outro núcleo de cidade, e para os autores, o Munícipio de Lisboa deveria encarar o estudo como “uma experiência-piloto para futuras operações de natureza semelhante e maior porte, que a renovação urbana e o reequipamento da cidade imporão no futuro próximo”, sublinhando que para garantir o sucesso de tais operações era essencial um “controlo da qualidade urbanística e arquitectónica do empreendimento, sobretudo no sentido do conjunto e do desenho de toda a zona pública, descoberta ou coberta.” 72 Toda a proposta vem ao encontro do que Portas por esta altura, defendia que todos os edifícios são em si mesmo, um modo de desenhar cidade, e ___________________ 70| Edíficio Comercial na Rua Braamcamp. Arquitectura 113. Jan./ Fev. 1970. p.6-14. 71| Ibidem, p.183. 72| Ibidem, p.183. 197 Figura 109| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Plantas de Conjunto; Perfis Transversais Tipo Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa Figura 110| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Planta de Conjunto; Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo apesar do Centro Comercial de São Sebastião, ter permanecido apenas no papel, constituiu um dos melhores exemplos dos edifícios a desenharem cidade, defendida por Nuno Portas. Por sua vez, o Plano Pormenor do Restelo [1970-75], uma segunda encomenda da Câmara Municipal de Lisboa, constituiu a oportunidade singular para os seus autores – Nuno Portas, Nuno Teotónio Pereira e Gonçalo Ribeiro Telles [arquitecto paisagista] – ensaiarem e repensarem o modelo de cidade tradicional com as condicionantes contemporâneas, numa área relativamente extensa e dentro de uma malha consolidada como é o contexto previlegiado da encosta sobre Belém. A encomenda da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa [EPUL], entidade camarária mediadora do processo, centrou-se em dois requisitos: por um lado amenizar os efeitos provocados pelo plano anterior, caracterizado pelas imponentes “Torres do Alto do Restelo” no perfil da encosta, procurando uma harmoniosa transição entre a volumetria das torres dos anos 60 e das moradias dos anos 40-50, situadas mais abaixo. O objectivo era preservar a paisagem e não entrar em confronto com um contexto singular, como era o Mosteiro dos Jerónimos e Monsanto. Por outro lado, pretendia-se a mesma elevada densidade populacional das habitações existentes, que desse uma resposta ao objectivo comercial do empreendimento, dado que parte das habitações eram para venda e outra parte para aluguer em regime de casas económicas. Os autores desenvolveram a proposta a partir destas duas condicionantes mas também como uma crítica e reinterpretação dos modelos de habitação e formas urbanas desenvolvidas até então no atelier da Rua da Alegria. Nuno Portas no “Posfácio por Ocasião da Publicação em Revista do Projecto para o Restelo”, refere que “quando nos surgiu a oportunidade de projectar uma “parte de cidade” tendencialmente densa, tornou-se-nos óbvia a necessidade de rever os principais lugares-comuns experiência anterior.” 73 arquitectónicos da nossa própria Percorre então o filme desse percurso projectual, do ___________________ 73| PORTAS, Nuno – Posfácio por Ocasião da Publicação em Revista do Projecto para o Restelo. Arquitectura 130. Mai. 1974. p.23. 199 Figura 111| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Perspectivas, Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo atelier na temática habitacional: “depois de experiências com edifícios tomados como tipologias isoladas em que se exploram sobretudo o acesso vertical como articulação de fogos e expressão do movimento, na passagem dos nossos projectos de Olivais Norte para os da Célula C de Olivais Sul demos um primeiro passo no sentido de integrar “bandas e torres”, dispor os edifícios em quadras [não quadradas aliás] e mesmo esboçar algumas relações de “rua”; mais tarde e ainda para Olivais-Sul, na célula junto a Cabo Ruivo, tentámos a articulação de edifícios em contínuos de dimensão já importante.”74 Depois dos exemplos dos anos 50, onde foi aplicada a Carta de Atenas como em Alvalade ou Olivais-Norte, às últimas gerações das new towns de OlivaisSul ou Chelas, para Portas “impunha-se o passo seguinte no caminho do... realismo.” 75 A proposta da forma urbana para o Plano do Alto do Restelo pretendeu, então, “responder aos problemas que se verificaram em ambos tipos urbanos anteriores – os de disposição livre de volumes de grande altura e os de disposição com continuidade de volume de baixa ou média altura, ou seja de quarteirões,” 76 uma oportunidade de regressar às tipologias tradicionais do desenho urbano, na redescoberta do valor da rua e da praça como espaço público, que já tinha ensaiado em Olivais Sul. Para Nuno Portas, em termos práticos: “tratava-se para mim de voltar à lógica dos “traçados” do “projecto do chão”, que seria o referente, o suporte dos projectos dos edifícios, e não o contrário que nos tinha legado o modernismo,” 77 traçado esse que será determinante para o pensamento urbanístico a partir da década de 80. O plano apresentado tinha uma orientação bem definida: as ruas desenvolviam-se longitudinalmente na encosta, enquanto as moradias e blocos em banda eram orientados para as vistas sobre o rio Tejo, ao quadrante nascente – poente, adoptando um modelo tradicional, de traçado pombalino já existente na Lapa. Esta disposição permitia o regresso a imagem de bairro e habitação em banda contínua, pensados a uma escala humana que ___________________ 74| Ibidem, p.23. 75| Ibidem, p.23. 76| Ibidem, p.23. 77| PORTAS, Nuno – O processo também desenha. Arquitectura e Vida 51. Jul./Ago. 2004. p.36. 201 Figura 112| Leslie Martin e Lionel March, Land Use and Built Form Studies [LUBFS], Escola de Cambridge Figura 113| Nuno Portas, Estudos; Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo proporcionava o contacto com as pessoas, contrapondo aos vazios modernistas das torres vicinais. A relação entre vias e edifícios era estabelecido através de uma única regra – considerada clara e simples – a altura dos edifícios é igual a largura das ruas. Portas recorda esta opção e a não opção por quarteirões: “desde o famoso gráfico de Gropius relacionando altura e afastamento de edifícios paralelos para igual inclinação mínima de um sol escasso – e note-se como uma simples variável, a insolação, informou anos de desenho urbano, tal como a rejeição do quarteirão, etc – desde então, dizia, não tinha havido progressos notáveis no tratamento quantitativo da relação ‘tipologia-densidade de uso do solo’, apesar de ser esse, de longe, o mais delicado problema que se põe ao arquitecto na sua relação com o sistema económico – aquela onde se enfrentam uma concepção de habitabilidade e uma maximização da rendibilidade do terreno!” 78 Esta era a nova realidade, onde factor económico de rendibilidade do espaço, se aliava com o factor “tempo”, no processo evolutivo da cidade existente. E neste ponto a questão das densidades era fulcral. Portas invocava então os estudos da anteriormente referida Escola de Cambridge e a teoria do Land Use and Built Form Studies [LUBFS], com ilustrações demonstrativas que ao aumentar o perímetro ou a continuidade dos edifícios, poderia-se obter-se a mesma densidade populacional das torres, sem o aumento desproporcional da altura dos edifícios. Para Portas, era ilusória a questão de as torres libertarem muito espaço exterior à volta, visto que era preciso tomar em consideração o factor do estacionamento, que retirava muita área ao terreno libertado. No fundo, era uma questão matemática ou de lógica formal, onde os estudos demonstravam que acima dos 4 a 5 pisos, e mantendo os standards estabelecidos entre a proporcão de espaço construído e espaço livre adjacente [para estacionamento, equipamentos, vias...], não se justificava a construção em altura, porque a densidade das torres estaria assegurada com os edíficios construídos linearmente, e foi o que sucedeu no Plano do Restelo. ___________________ 78| PORTAS, Nuno – Posfácio por Ocasião da Publicação em Revista do Projecto para o Restelo. Arquitectura 130. Mai.1974. p.23. 203 Figura 114| Nuno Teotónio Pereira, Pedro Viana Botelho e João Paciência, Plantas e Alçado Poente Moradias, Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa Figura 115| Nuno Teotónio Pereira, Pedro Viana Botelho e João Paciência, Alçado Poente e Cortes de Bloco Habitacional; Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo Todos estes raciocínios atrás anunciados, haviam sido lançados através da vasta cultura arquitectónica de Portas, e que também no Restelo, se fez sentir a influência: “daí o impacte que já em 65 teria para alguns de nós o polémico livro de Jane Jacobs, ou o artigo de Alexander [que mostrou como a teoria se podia juntar ao bom senso!] ou aquela expressão de Candilis que tanto me fez pensar: “Porque é que havemos de evidenciar muito mais o que separa ou diferencia as coisas do que aquilo que as junta ou unifica?” Porque teimamos em pensar a cidade como “árvore”? E, sempre em busca da nossa tradição, lá fomos reestudar o plano de Cerdá, a Amesterdam-Sul, a Viena Socialista e depois a área homogénea de Rossi ou as investigações de Lionel March sobre a altura e densidade da edificação.” 79 Relativamente ao Plano em si, um terço das tipologias da habitação adoptadas, correspondiam a moradias-pátio com 3 pisos e as restantes resultavam de blocos em banda com um máximo de seis pisos de altura, conjugando diferentes tipologias, entre pisos simples e duplex, onde para aceder aos apartamentos superiores, se resolvia com uma galeria pública exterior elevada no quarto piso – uma clara referência ao “building as a street” do casal Smithson. Outro característica adoptada, foi o sistema de quarteirões abertos, que possibilitava libertar as fachadas interiores das habitações – relativamente aos quarteirões tradicionais – e criar um método que pudesse ser adaptado à topografia de outros locais. O resultado era uma continuidade urbana assegurada pelo espaço público de ruas principais e passeios laterais arborizados, para circulação de automóveis e peões, alternados com ruelas secundárias para acesso ao estacionamento ou então aos pátios. A relação entre os vários volumes que compõem o plano, moradias e blocos em banda, viviam lado a lado, num diálogo de volumes e tipologias de habitação, que devido as reduzidas distâncias entre os planos das fachadas paralelas, variavam entre os blocos de maior altura e os blocos de moradias, caracterizando as vias longitudinais com a variedade arquitectónica desejada e ___________________ 79| Ibidem, p.23. 205 Figura 116| Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, Plano de Pormenor do Restelo, Lisboa Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo um maior desafogo visual. Todo o plano habitacional descrito era complementado por uma área central80, que funcionava como eixo de articulação entre o novo plano e as áreas envolventes, e para o qual os autores organizaram um completo estudo sobre o programa e funções previstas. A área de carácter cívico e comercial contemplava espaços públicos e equipamentos como restauração, hotelaria, salas de espectáculos, escritórios e uma igreja, actualmente em construção. Apesar da aceitação do plano por parte do Munícipio, o processo de construção arrastou-se ao longo de 25 anos sendo que não se construiu o que estava planeado na sua totalidade, ficando-se apenas só pela concretização da Zona Piloto, da responsabilidade de Teotónio Pereira, Pedro Botelho e João Paciência, onde se testaram as tipologias das habitações e do chamado “Quarteirão Rosa”, este já nos anos 80. Dissipou-se, assim, neste processo de construção descontínuo e inacabado alguns dos pressupostos que fizeram do Plano do Restelo uma das mais importantes experiências urbanísticas em Portugal. No entanto, as contribuições que o Plano do Restelo encetou foram atingidas no essencial, e onde o conceito de que o “processo também desenha”, foi melhor desenvolvido, que viria a ser aplicado nas políticas habitacionais pela mão de Nuno Portas, como Secretário de Estado da Habitação, como referimos no capítulo II. Por outro lado constituiu uma oportunidade para recuperar o pensamento urbanístico da cidade histórica, retomando o caminho correcto a adoptar no futuro, por isso Nuno Portas refere, em jeito de balanço, que a “nossa aposta está muito mais no que une os elementos de um ambiente urbano do que naquilo que os separa e, como aquela foi a característica da Cidade histórica, era difícil que não resultassem dela – apesar de tudo o que diferencia os contextos históricos – certas caracteristicas morfológicas que, pelo menos superficialmente, se podem aparentar com alguns traçados de bairros antigos das colinas da Cidade ou ___________________ 80| Os autores do plano particularizam a justificação para esta área multifuncional, confessado o risco devido à falta de exemplos similares em Portugal. Ver: Projecto para a Área Central – Justificação. Arquitectura 130. Mai. 1974. p.19-20. 207 Centro de Compras de São Sebastião | Plano de Pormenor do Restelo com o ambiente arquitectónico das ruas modernistas do tempo e influência de Cassiano Branco – apenas porque não havia maior razão para procurar o contrário.” 81 ___________________ 81| PORTAS, Nuno – Posfácio por Ocasião da Publicação em Revista do Projecto para o Restelo. Arquitectura 130. Mai.1974. p.23. 209 CONCLUSÃO Tenho procurado desmistificar esta ideia iluminada dos arquitectos de que são eles que dispõem do mundo das formas. De facto, os arquitectos ainda que estejam muito convencidos que dispõem livremente da capacidade de criar formas não dispõem da “língua”, do mesmo modo que um escritor não dispõe da linguagem, a não ser na maneira como a trabalha, na maneira até como a vicia ou a critica mas, na realidade, a língua está estruturada, a língua corresponde a determinadas estruturas profundas e não se inventa em cada livro que se escreve. Para efeitos de comparação, ponho aqui a tipologia [da trama urbana ou da edificação] no lugar da semântica e da sintaxe de uma língua. PORTAS, Portas. Arquitectura 135. 1979. Percebemos ao longo deste trabalho, que Nuno Portas estabeleceu variados diálogos multidisciplinares – os diálogos ao estirador; os diálogos com as pessoas dos inquéritos do LNEC; os diálogos com os seus alunos; os diálogos nos congressos de arquitectura... – na procura da arquitectura que vale a pena fazer mas, sobretudo, o como e o porquê de fazer essa arquitectura. No fundo, uma arquitectura que não fosse em si mesmo apenas uma linguagem, “um mundo de formas”, mas que procurasse a sua semântica1 tendo como suporte uma sintaxe2. Nuno Portas precocemente percebeu que o caminho a percorrer, não era a constante reformulação das linguagens arquitectónicas mas sim a sua estruturação sintáctica. E para isso desde o início defendeu uma multidisciplinaridade entendida e relacionada através de um “plano de metodologia” 3 , como instrumento de conexão entre o arquitectar e os processos de conhecimento da realidade. ____________________ 1| Semântica: [Na Linguística] Ramo da linguística que estuda o significado das palavras. [Na Lógica] Estudo das relações entre os signos e os seus referentes. 2| Sintaxe: [Na Linguística] Ramo da linguística que se dedica ao estudo das regras e dos princípios que regem a organização dos constituintes das frases. [Na Informática] Conjunto de regras que regem a escrita de uma linguagem de programação. 3| Ver: Capítulo 2. A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas. p.85. 211 Conclusão O plano metodológico que aspirou a implementar na disciplina arquitectónica revelou-se, então, inicialmente nos seus textos e na crítica, num período onde a teoria de arquitectura era olhada com desconfiança ou descrédito, pelos seus colegas. Portas pautou-se sempre por este espírito de fazer o que ainda não estava feito, como o demonstrou prontamente com o seu seminal CODA, “A Habitação Social, proposta para a metodologia da sua arquitectura”. Os escritos que Nuno Portas foi produzindo ao longo do tempo – a crónica, o ensaio, a entrevista, o relatório, a notícia, o comentário –, ou então, os seu dois livros A Arquitectura para Hoje e a Cidade como Arquitectura, cristalizaram um conhecimento resultante de uma atitude reflexiva, de constante e obssessiva investigação, aliada a uma frontalidade e pertinência com que abordou uma multiplicidade de temas, reinterpretando o passado e o presente, apontando os caminhos para o futuro e aspirando sempre à democratização da arquitectura com textos incitadores do debate público da arquitectura. Uma teoria crítica, de palavras escolhidas a dedo, pondo preto no branco uma investigação cada vez mais ambiciosa nos objectivos e na escala. Um conhecimento produzido entre as ideias de outros autores cruzadas com as ideias próprias, sempre na procura do que está por revelar, sobre o que não é evidente mas está presente. A teoria de Nuno Portas foi/é, assim, seminal e fomentadora, feita de revelações provenientes de um plano metodológico, desmultiplicado ao longo do tempo em vários níveis: crítico, de ensino, de investigação ou de concepção. No entanto, foi com a criação do Departamento de Construção e Habitação do LNEC, que concretizou o impulso decisivo para o desenvolvimento da ansiada lógica científica que pudesse fundamentar a produção urbanística e arquitectónica. A investigação de Laboratório permitiu a Nuno Portas atingir uma metodologia projectual baseada no trabalho multidisciplinar e chegar à sua tão defendida expressão de que o “processo também desenha”, sublinhando, contudo, que não sendo possível controlar todo o processo – dada a 213 Conclusão quantidade de factores envolvidos – nas diferentes tipologias de edificação, a concepção dos projectos deveria ser encarada numa lógica evolutiva, ou seja, de “obra mais ou menos aberta”4. Portas desenvolveu, então, um pioneiro trabalho no campo da habitação social, que se revelaria precioso, no combate ao défice de habitação em Portugal, quando por fim, é nomeado Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, em 1974. Toda a investigação desenvolvida no LNEC, prolongou-se na breve carreira como docente na ESBAL, onde defendeu a implantação da referida estruturação sintáctica da arquitectura a partir do ensino académico. A didáctica da disciplina arquitectónica deveria então conceder aos arquitectos, e a todos os intervenientes do processo projectual, os instrumentos necessários – a sintaxe e a semântica arquitectónica – para o desenvolvimento do que Portas designou de meta-projecto. E se estas várias “facetas do poliedro arquitectónico” 5 de Nuno Portas, aqui resumidas, nos deram as pistas do como e o porquê, o seu exercício projectual no atelier da Rua da Alegria, permitiu-nos descobrir qual foi a arquitectura que valeu a pena fazer. Uma arquitectura não de receitas, mas de uma incontornável pesquisa caso a caso, programa a programa, onde a obra entrava em diálogo com o sítio, com as disponibilidades técnicas e materiais e, sobretudo, com o modo de vida das pessoas. Uma arquitectura de permanente revisão arquitectónica, que a crise línguística do Movimento Moderno, primeiro, e a crise da Cidade Funcionalista depois, promoveram. E que despoletaram um diálogo de Nuno Portas com a realidade portuguesa e com a história, na recuperação do conceito wrightiano de construção do espaço, e na procura, num primeiro momento, de linguagens arquitectónicas, por vezes díspares, comprovadas pelo experimentalismo do betão na casa de Sesimbra, pelo detalhe scarpiano na casa de Vila Viçosa ou pelos vazios urbanos smithsonianos da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. ____________________ 4| Ver: Capítulo 2. A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas. p.117. 5| Ver: Capítulo 2. A crítica. A investigação. O ensino. E a prática de Nuno Portas. p.57. 215 Conclusão Obras que colocaram o atelier da Rua da Alegria na vanguarda da arquitectura no Portugal da década de 1960. Este foi um exercício projectual construído no diálogo crítico com a investigação, o ensino e a teoria, e que o conduziu a superar as referidas “linguagens arquitectónicas” de edifícios ou bairros isolados, para passar a defender uma meta-arquitectura à escala da cidade, a “malha como geradora” que os diferentes intervenientes e as múltiplas arquitecturas se encarregariam de preencher ao longo do tempo. No fundo, o retornar ao “projecto do chão” do século XIX, de que o Plano Pormenor do Restelo constituiu um exemplo. O percurso de Nuno Portas que descrevemos ao longo destes 17 anos, foi revelador desta meta-morfose de arquitecto formalista [do edifício] para arquitecto estruturalista [da cidade], transformação confessada pelo próprio ao afirmar-se “nos cinquenta-e-tal como arquitecto e aparecer mais tarde como urbanista teórico-prático [mais teórico que prático]” 6, como constatação do “que a intuição, a imaginação, a temeridade, podem resolver na pequena escala da intervenção isolada já o não pode fazer, nem sozinho nem sem complexos justificativos na intervenção urbanística.” 7 Portas transformou-se, assim, numa personagem ambígua, que tenta perceber e conectar o melhor de dois mundos, entre a arquitectura e o urbanismo, na procura da ansiada forma urbis. E em boa hora a metamorfose sucedeu, como o seu amigo Solà-Morales ressaltou: “el urbanismo de este siglo XXI necesita desesperadamente de esta inteligencia, de este espiritu de ingeniero de la NASA y de alquimista medieval que subyace en la reflexión de NP. Necesitamos su punto de vista previlegiado, porque es autoconstruido, y por tanto independiente, y por tanto original. Desperdiciar este capital, perderlo entre brumas de litigios personales o en el acomodamiento a la mediocridad del medio disciplinar, sería imperdonable. Los trabajos [...], nos explican el valor pasado de su punto de vista: pero todo importa lo que vale hoy.” 8 ____________________ 6| PORTAS, Nuno – Do Astro à Nebulosa, do Nó à Malha, da Malha aos Nós. In: Arquitectura[s], Teoria e Desenho, Investigação e Projecto. 2005. p.76. 7| Ibidem, p.76. 8| SOLÁ-MORALES, Manuel de – El Hombre que Sabía Demasiado. In: Os Tempos das Formas, volume I: A Cidade Feita e Refeita. 2005. p.8. 217 Conclusão No epílogo destes diálogos, resta-nos ressaltar que os textos, a investigação, a arquitectura e, por último, o urbanismo de Portas, continuam a dar pistas sobre os caminhos a seguir no futuro. O conhecimento, teórico e prático, que produziu e desenvolveu em tempos conturbados, como os que vivemos contemporaneamente, tem a força das ideias metodológicas e não intuitivas, restando-nos ter a coragem e a generosidade para as perceber e reinterpretar, tal como Nuno Portas o fez com outros autores, produzindo com isso novos diálogos e novos caminhos, que seguramente contribuirão para uma arquitectura como motor do progresso social e cultural. 219 BIBLIOGRAFIA AFONSO, João, MILHEIRO, Ana Vaz – Nuno Portas: Prémio Sir Patrick Abercrombie: Prize UIA 2005. Lisboa: OA/ Caleidoscópio, 2006. 130 p. ISBN 972-8897-12-X AFONSO, João – IAPXX – Inquérito à Arquitectura Portuguesa do Século XX em Portugal. 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Filmes do Tejo. 2004. 229 FONTES DAS IMAGENS Capítulo I 1 | AFONSO, João, MILHEIRO, Ana Vaz – Nuno Portas: Prémio Sir Patrick Abercrombie: Prize UIA 2005, p.6. 2| http://www.fondationlecorbusier.fr 3| HEUVEL, Dirk van den, RISSELADA, Max, coord. – TEAM 10 1953-81 – In Search of a Utopia of the Present, p.60. 4| HEUVEL, Dirk van den, RISSELADA, Max, coord. – TEAM 10 1953-81 – In Search of a Utopia of the Present, p.137. 5| HEUVEL, Dirk van den, RISSELADA, Max, coord. – TEAM 10 1953-81 – In Search of a Utopia of the Present, p.33. 6| HEUVEL, Dirk van den, RISSELADA, Max, coord. – TEAM 10 1953-81 – In Search of a Utopia of the Present, p.177. 7| HEUVEL, Dirk van den, RISSELADA, Max, coord. – TEAM 10 1953-81 – In Search of a Utopia of the Present, p.168. 8| TAFURI, Manfredo; DAL CO, Francesco – Architettura Contemporanea, p.324. 9| ZEVI, Bruno – Verso un’ Architettura Organica, Capa. 10| ZEVI, Bruno – Storia dell’ Architettura Moderna, Capa. 11| The Architectural Review 747, Apr. 1959, p.231. 12| TOSTÕES, Ana, coord. – 1º Congresso Nacional de Arquitectos, p.55. 13| TOSTÕES, Ana, coord. – 1º Congresso Nacional de Arquitectos, p.14. 14| AA|VV, Arquitectura Popular em Portugal, Capa. 15| Arquitectura 59, 1957, Capa. 16| Arquitectura 66, 1959, p.13-14. 17| Arquitectura 76, 1962, p.13, 16, 19, 24, 25 e 28. 18| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.47. 19| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.63. 20| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.165. 21| Arquitectura 81, 1964, p.6. 22| TÁVORA, Fernando – Da Organização do Espaço, 1963, Capa. 23| FILGUEIRAS, Octávio L. – Da função social do arquitecto, 1963, Capa. 24| MILHEIRO, Ana Vaz, coord. – Arquitectos Portugueses Contemporâneos. 25| MILHEIRO, Ana Vaz, coord. – Arquitectos Portugueses Contemporâneos. Capítulo II 26| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.47 27| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.140-141. 28| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.156-157. 29| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Capa. 30| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II. 31| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II. 32| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.158-159. 33| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II. 34| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II. 35| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II. 36| PORTAS, Nuno – A Habitação Social, Proposta para a metodologia da sua arquitectura, Anexo II. 37| Arquitectura 59, 1957, p.23; Arquitectura 60, 1957, p.20; Arquitectura 64, 1959, p.32; Arquitectura 68, 1960, p.13; Arquitectura 69, 1960, p.48; Arquitectura 77, 1963, p.16; Arquitectura 89-90, 1965, p.141; Arquitectura 93, 1966, p.115; Arquitectura 97, 1967, p.111; 38| Zevi, Bruno – História da Arquitectura Moderna, Capa. 39| http://www-ext.lnec.pt/LNEC/museuvirtual/index.html 40| PORTAS, Nuno – Relato Sucinto dos Contactos Estabelecidos por Ocasião do Congresso da U.I.A, Paris, Julho 1965, Capa e p.10. 231 Fontes das Imagens 41| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura, 3ª edição, p.170 e 174. 42| PORTAS, Nuno – Arquitectura para Hoje, Capa. 43| PORTAS, Nuno – Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal, Capa. 44| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura, 1ª edição, Capa. 45| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura, 3ª edição, Capa. 46| PORTAS, Nuno – Arquitectura para Hoje seguido de evolução da arquitectura moderna em Portugal, p.147-148. 47| PORTAS, Nuno – A Cidade como Arquitectura, 3ª edição, p. 59 e 61. 48| Arquitectura 103, Junho 1968, p.127-128. 49| PORTAS, Nuno – Funções e Exigências de Áreas de Habitação, Capa. 50| PORTAS, Nuno – Funções e Exigências de Áreas de Habitação, p.14. 51| Arquitectura 126, Outubro 1972, p.100. 52| MONTANER, Josep Maria – Depois do Movimento Moderno, p.130. 53| Arquitectura 126, Outubro 1972, p.111-113 e 116. 54| AFONSO, João, MILHEIRO, Ana Vaz – Nuno Portas: Prémio Sir Patrick Abercrombie: Prize UIA 2005, p.4. Capítulo III 55| Arquitectura 81, 1964. 56| Arquitectura 81, 1964, p.11 e 13 57| http://www.bing.com/maps/#Y3A9MzguNzYzNDY0MTMzMDE2MTY0fi05LjExNTkyOTYwMzU3NjY1OCZsdmw 9MTMmc3R5PXI= 58| Arquitectura 127-128, 1973, p. 59. 59| http://www.bing.com/maps/#Y3A9MzguNzYzNDY0MTMzMDE2MTY0fi05LjExNTkyOTYwMzU3NjY1OCZsdmw 9MTMmc3R5PXI= 60| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. p.172-173. 61| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.173. 62| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.173. 63| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.169. 64| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.169. 65| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.168. 66| Fotografias do Autor, 2011. 67| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.29 e 173. 68| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.54 e 173. 69| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira. 70| Fotografia do Autor, 2011. 71| Fotografia do Autor, 2011. 72| Fotografias do Autor, 2011. 73| Arquitectura 79, 1963, p.11. 74| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.189. 75| Arquitectura 79, 1963, p.3. 76| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.179. 77| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.180. 78| Arquitectura 79, 1963, p.12-13. 79| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, pp.186 e 187. 80| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, pp.182 e 183. 81| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.184. 82| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.184. 83| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.184. 84| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.188. 85| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.188. 233 Fontes das Imagens 86| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.188. 87| Arquitectura 93, 1966, p.117-119. 88| Arquitectura 79, 1963, p.6, 8 e 10. 89| Arquitectura 123, 1971, p.165. 90| Arquitectura 123, 1971, p.173. 91| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.198-199. 92| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.197. 93| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.200. 94| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.192 e 195. 95| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.196; Arquitectura 123, 1971, p.167. 96| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.205 97| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.203-204. 98| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.203-204. 99| Fotografias do Autor, 2011. 100| Fotografias do Autor, 2011. 101| Arquitectura 123, 1971, p.182. 102| http://www.bing.com/maps/#Y3A9MzguNzA0ODg1NTEwMDA0Mzd+LTkuMjA2Njg0MTY4Njg4ODgmbHZsPTE4Jn N0eT1y 103| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.214-215. 104| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.215. 105| Arquitectura 123, 1971, p.182. 106| Arquitectura 123, 1971, p.184-185. 107| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.212-213. 108| Arquitectura 123, 1971, p.178. 109| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.216 e 221. 110| Arquitectura 130, 1974, p.13. 111| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.217. 112| KRÜGER, Mário – Leslie Martin e a Escola de Cambridge. 113| AFONSO, João, MILHEIRO, Ana Vaz – Nuno Portas: Prémio Sir Patrick Abercrombie: Prize UIA 2005, p.28-30. 114| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.220-221. 115| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.218. 116| TOSTÕES, Ana, coord. – Arquitectura e Cidadania – Atelier Nuno Teotónio Pereira, p.222-223. 235