EMPREENDIMENTO ECONOMICO SOLIDÁRIO: CONCEPÇÃO,
PRINCÍPIOS E VALORES DA EMPRESA ART FINAL INDÚSTRIA E
COMÉRCIO DE MÓVEIS PLANEJADOS LTDA.
Juliano Branco de Moura – Uniplac – [email protected]
Geraldo Augusto Locks – Uniplac – [email protected]
ÁREA TEMÁTICA: 6. Desenvolvimento Social, Economia Solidária e Políticas
Públicas
RESUMO
Este artigo analisa características e desenvolvimento do empreendimento econômico
solidário Art Final Indústria e Comércio de Móveis Planejados, localizado no bairro São
Miguel, cidade de Lages, SC. Para alcançar este objetivo realiza-se uma pesquisa de
caráter qualitativo e bibliográfica. A técnica do estudo de caso com a realização de
entrevistas com participantes do empreendimento foi o caminho para se obter a coleta
de dados. Os principais referenciais teóricos utilizados para fundamentar e analisar os
dados foram Singer, Gonter, Mance, Mészaros e Boaventura. Do ponto dos resultados
obtidos, constatou-se que o empreendimento Art Final emergiu de uma empresa
dissolvida no início dos anos 2000. O empresário com a declaração de falência gerada
pela situação de insolvência repassou judicialmente a razão social da empresa e os
equipamentos aos seis trabalhadores contratados como forma de ressarcir os direitos
trabalhistas e salários atrasados. Os seis trabalhadores assumiram as dívidas com
terceiros e as saldaram com o trabalho de fabricação de móveis sob medida,
concomitantemente, passaram a garantir o seu sustento e de suas famílias. Depois de
sete anos de funcionamento da empresa, os trabalhadores tiveram conhecimento de que
seu empreendimento continha valores que configuravam a economia solidária, pois a
administração se caracterizava pelos princípios da autogestão, participação efetiva dos
sócios, solidariedade e a distribuição equitativa do excedente social resultante do
trabalho associado. Atualmente o empreendimento Art Final, está inscrito no cadastro
nacional dos empreendimentos econômicos solidários (CADSOL) no portal da
Secretaria Nacional de Economia Solidária/Ministério do Trabalho e Emprego. Está
vinculada e acompanhada pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da
Universidade do Planalto Catarinense (ITCP/UNIPLAC). Trata-se uma empresa
recuperada da lógica empresarial individual transitando para a lógica do
empreendimento econômico social. Atualmente o desafio reside em conquistar um
1
Graduado em Administração pela FACVEST, Especialista em Gestão Empresarial e Gestão Logística
Empresarial. Mestrando do PPGE – Mestrado Acadêmico em Educação, Uniplac. E-mail:
[email protected]
2
Graduado em Ciências Sociais pela UNIPLAC, Mestre e Doutor em Antropologia pela UFSC, Pós-Doc
em Educação pela UFSC. Professor do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação da
Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC). E–mail: [email protected]
terreno urbano para construir sede própria e desta forma liberta-se do aluguel, passo
estratégico para sua consolidação.
Palavras-chave: Economia Solidária. Art Final Indústria e Comércio de Móveis
Planejados Ltda. Empreendimento Econômico Recuperado.
INTRODUÇÃO
Este artigo analisa características e desenvolvimento do empreendimento
econômico solidário Art Final Indústria e Comércio de Móveis Planejados, localizado
no bairro São Miguel, cidade de Lages, SC. Trata-se de uma empresa recuperada, pois
sua histórica demonstra que transitou da condição de um empreendimento econômico
individual para um empreendimento social.
Para a realização deste trabalho, utilizou-se a pesquisa qualitativa onde o ambiente
é a fonte de bases dos dados, pesquisa de campo sob a forma de questionário
semiestruturado o qual visava obter informações a respeito do empreendimento. Entre
os seis trabalhadores que compõem o empreendimento, dois foram entrevistados, um
deles envolvido com a produção interna e outro ocupado com a comercialização,
combinado com os primeiros planejamentos e montagem dos móveis. Ou seja, os dois
entrevistados situam-se no início e final da cadeia produtiva. A exclusão dos demais se
deu pela redundância das informações. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica com o
intuito de dialogar com autores que já estudaram ou se encontram engajados no tema e
na política pública da economia solidária. Foi útil também para a análise dos dados
recolhidos em campo. A análise está referenciada em dados históricos apresentados
pelos entrevistados e tem caráter comparativo na medida em que problematiza o modo
de produção capitalista hegemônico na sociedade confrontado com outro modo de
organizar a economia, a chamada outra economia, porque se fundamenta nos valores e
princípios da economia solidária: autogestão, participação, solidariedade, repartição
equitativa do resultado do trabalho associado, cuidado com o meio ambiente e
responsabilidade com o entorno social e econômico no qual se situa o empreendimento.
Na sequência realiza-se uma análise histórica do Art Final, a percepção dos
entrevistados sobre características e desenvolvimento do empreendimento.
ANÁLISE HISTÓRICA
A empresa Art Final Indústria e Comércio de Móveis Planejados Ltda., fundou-se
em meados do ano de 2008, na cidade de Lages/SC, através da absorção onde o exproprietário utilizou da realização de um processo de transferência da empresa, onde a
mesma estava em fase de falência devido a sua insolvência e não tendo condições de
realizar o acerto dos funcionários, foi concretizada através de um repasse judicial para a
consecução e acertos das dívidas trabalhistas para com os funcionários, restando
algumas dívidas com terceiros onde às mesmas foram acertadas com o pagamento em
forma de fabricação de móveis, iniciando então o empreendimento de economia
solidária. A antiga empresa estava a cerca de quatro anos no mercado. Para Gonter
(2011, p. 164):
O fechamento ou a falência das empresas vai se delineando no decorrer de sua gestão, que
pode estar motivado por: Resultados baixos: podem não expressar o retorno esperado pelos
donos do capital, não alcançando a TMA (taxa mínima de atratividade) do negócio.
Insolvência: tem dificuldade de liquidez, de transformar seus ativos em caixa. A partir deste
momento, pode-se agravar a situação, partindo-se para resultados negativos. Resultados
Negativos: a empresa não tem como se manter ao longo do tempo com resultados
negativos, vai aumentando o seu prejuízo e alcança níveis nos quais não tem mais
credibilidade ou, ainda, seu ativo não cobre o passivo.
Para retratar o estudo Singer apud Moraes (2011, p. 68) “a economia solidária é
caracterizada como fruto do anseio de construir uma sociedade melhor do que a atual. E
por esse motivo a economia solidária adapta-se aos princípios e valores de quem a
aplica”.
O empreendimento atua no segmento de móveis planejados, trabalhando nas
linhas comerciais e residenciais. A empresa já conta com uma organização em escala de
lideranças, mas opera pelo sistema informal para a tomada de decisões de modo
coletivo, conta com sua unidade fabril alugada, esta que retira boa parte de seus
dividendos. Atua em sua parte financeira com o apoio de um contador dando suporte
aos processos burocráticos contábeis para a empresa, realizando as folhas de
pagamentos dos mesmos através de pró-labore.
Atualmente a empresa é composta pelos seis sócios iniciais, sendo que cinco
trabalham na produção dos móveis e um trabalha com a venda e montagem e já conta
com a participação de mais dois associados, uma trabalhando como auxiliar
administrativo, onde a mesma realiza os projetos em programa específicos e também a
parte burocrática financeira do empreendimento solidário. O último realiza os trabalhos
externos na parte de montagem. Alinham seus horários de trabalho através do sistema
de cartão ponto manual. O sistema organizacional de produção é a de ordem de entrega
dos pedidos, para alinhamento de seu sistema produtivo. A compra ainda é realizada
através do mercado regional pela quantidade encomendada e agilidade nas entregas.
Inicialmente o grupo de trabalhadores teve grande dificuldade, devida a nenhum
de seus sócios trabalharem com a parte comercial, ocasionando a falta de serviço. Para
suprir esta demanda, o grupo passou neste período a prestar serviços de fabricação e
montagem para consumidores mais conhecidos, iniciando assim um ciclo de clientela e
indicações dando origem a propulsão para e engrandecimento desta empresa que já é
reconhecida no cenário local e regional. Atualmente a Art Final atende clientes
localizados no litoral de Santa Catarina.
Para o futuro o empreendimento Art Final busca a melhoria no maquinário em
vista de melhor qualidade e desenvolvimento de seus produtos. Tem também em sua
visão a importância da aquisição de uma sede própria, pois o que se utiliza é locado,
reduzindo assim seus resultados líquidos. Também neste caminho, busca-se a melhoria
nos equipamentos automotores. Hoje conta com uma pequena camionete de pequeno
porte, e uma moto para o deslocamento rápido dos funcionários. O caminho para a
negociação de sede própria já começou no diálogo com a Secretaria Municipal de
Desenvolvimento. Tudo indica, sendo os entrevistados, que as dificuldades de ordem
burocrática e de vontade política serão grandes. Isto porque, até então, no município de
Lages, não existia explicitamente o reconhecimento por parte da gestão pública da
economia solidária. Somente em dezembro de 2014 é que, por pressão do Fórum
Regional de Economia Solidária, Entidades Apoiadoras e Representantes de Órgãos
Públicos conseguiu-se sensibilizar a Câmara de Vereadores para aprovar a Lei
Municipal de Economia Solidária.
A ECONOMIA SOLIDÁRIA NA ÓTICA DOS EMPREENDEDORES
Para a realização do estudo foram disponibilizados aos empreendedores dois
questionários semiestruturados, onde nestes continham perguntas referentes à economia
solidária, seus conhecimentos sobre o assunto, e necessidades encontradas pelos
mesmos para a realização e normatização de suas atividades. Para os trabalhadores
entrevistados denominados de Empreendedor Solidário 1 (ES1) e Empreendedor
Solidário 2 (ES2).
A pesquisa foi realizada com quatro questões, sendo elas, 1. A empresa iniciou
com vistas ao empreendedorismo solidário? Quais seus conhecimentos sobre economia
solidária? 2. O empreendimento recebe algum tipo de apoio? Se sim, favor descrever
quais entidades ou instâncias governamentais que o apoiam, discriminando a forma de
apoio: 3. Os empreendedores conhecem alguma rede de economia solidária? Se sim, a
empresa Art Final faz parte de alguma rede solidária? 4. Na visão dos empreendedores o
crescimento do empreendimento gera benefício e é vantajoso para todos? Como são
divididos os ganhos da empresa? Todos participam na gestão e decisões
organizacionais? De que forma? 5. Quais as dificuldades iniciais e atuais para o
crescimento do empreendimento?
Em primeira instância os pesquisados ficaram surpresos com o interesse pela
pesquisa, pois até então, não tinham conhecimento que seu empreendimento poderia ser
objeto de estudo científico, mas posteriormente foram se soltando e retratando seus
conhecimentos e experiências de forma generosa.
Para o primeiro questionamento se a empresa iniciou com vistas ao
empreendedorismo solidário? Quais seus conhecimentos sobre economia solidária? As
respostas foram semelhantes e permitiram ter uma visão sobre a experiência dos
mesmos com a economia solidária. Para ES1 e ES2, a princípio a formação da empresa
foi uma questão de necessidade, onde os pensamentos dos sócios visavam como se
sustentar no caso de não receberem seus acertos e sim uma empresa para a realização de
um trabalho para a obtenção de lucro e sustento da família. Gem, (2007), reflete que o
Brasil é cercado por sua desigualdade social, embora percebida melhoras, ainda é uma
das mais distanciadas no mundo. Para Santos (2007, p. 4):
O empreender por necessidade como uma necessidade de segurança ou ainda de
sobrevivência. Portanto, empreendedores por necessidade consistem naqueles que iniciam
negócios motivados pela falta de alternativa satisfatória de ocupação e renda. Já os
empreendedores por oportunidade, são motivados pela percepção de um nicho de mercado
em potencial.
A respeito de seus conhecimentos sobre a economia solidária, ambos relataram
que souberam desta modalidade há pouco tempo, e nem se davam conta de que a mesma
existia. O princípio que orientava a iniciativa, as ações e a geração de renda no
empreendimento, segundo os entrevistados, tinha a finalidade de manutenção familiar.
Esta constatação demonstra que os trabalhadores do Art Final já desenvolviam
princípios da economia solidária desde sua origem, pois eles buscavam a sustentação
familiar baseada no próprio trabalho associado, não coexistindo com a lógica da
exploração do homem sobre o homem ou do capital sobre o trabalho.
Para a segunda pergunta foi verificado se o empreendimento recebe algum tipo de
apoio do Governo? Em caso positivo, referir à forma de apoio. O entrevistado ES1
relatou que houve a aproximação e um início de trabalho com Serviço Brasileiro de
Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) para o qual os empreendedores
solidários não deram continuidade, devido aos investimentos necessários para a
realização dos cursos que lhes foram oferecidos. Para Dornelas (2008) o SEBRAE é a
principal entidade de apoio aos empreendedores brasileiros. Presta serviços de
consultoria aos empresários, incluindo a abertura de um negócio, e toda sua estruturação
perante sua estrutura de gestão empresarial. A outra oportunidade de busca de apoio,
segundo os entrevistados foi à integração junto ao Fórum Regional de Economia
Solidária (FRESOL). Neste espaço o empreendimento encontrou outros grupos que
praticam a economia solidária. Entrou para a rede dos empreendimentos em âmbito
local, regional e nacional. O apoio caracterizou-se pelo estímulo e encorajamento do Art
Final na continuidade de seu desenvolvimento. Disto resultou seu mapeamento no
CADSOL, posteriormente na integração aos empreendimentos econômicos solidários
incubados pela ITCP/UNIPLAC.
No questionamento, Os empreendedores conhecem alguma rede solidária? Se sim,
a iniciativa faz parte de alguma rede solidária? O ES1 relata que desconhece o sistema
de redes solidárias, mas imagina que esta pode ser benéfica pelo sistema de distribuição
de renda e melhora nas condições de vida dos empreendedores solidários que o cercam.
Mance (2002, p. 83) afirma que redes solidárias têm como objetivo:
O objetivo principal é gerar trabalho e renda para as pessoas que estão desempregadas e
marginalizadas, melhorar o padrão de consumo de todos os que dela participam proteger o
meio ambiente e construir uma nova sociedade em que não haja a exploração das pessoas
ou a degradação do equilíbrio ecológico.
Um dos itens que mais chamou a atenção dos entrevistados, devido a sua
extensão e complexidade foi: Na visão dos empreendedores o crescimento da
organização gera benefício e vantagem para todos? Como são divididos os ganhos da
empresa? Todos participam na gestão e decisões organizacionais? Conforme o
entrevistado ES2 Sim, pois certifica o alicerce da empresa e renova as esperanças de
melhores ganhos. Os ganhos são recebidos via pró-labore todos com salários fixos,
folha ponto assinada e descontos legais. Para ES1 a empresa organiza suas decisões de
forma coletiva, onde todos participam e opinam no sistema de gestão. Spers (2009, p.
38) alinha a temática em verificar que:
A cultura pode ser vista com uma forma de tradução e compreensão da realidade
organizacional, pois ela se sustenta em normas e costumes seguidos por todos. A aplicação
de uma regra deve ser precedida pela interpretação da cultura na qual a incidirá, como
também pela situação específica que se traduz pelo contexto.
O sistema cultural tem grande influência no sistema organizacional, neste não é
diferente, pois os mesmos trabalham há vários anos numa sistemática constante por eles
organizada. É sabido que predomina a cultura do modo de produção capitalista da vida
na sociedade brasileira, onde as relações de dominação e exploração produzem as
contradições e contraste presentes na sociedade. Em contraposição, pode ser
identificada a cultura da solidariedade com seus valores ancestrais, presentes nos grupos
étnicos indígenas, afrodescendentes, mesmo em comunidades tradicionais. As formas
de troca de dia, mutirões ou puxirões estão presentes em experiências, vivências
comunitárias, particularmente no meio rural brasileiro e na região do Planalto
Catarinense. (LOCKS, 1998). Portanto, pode-se contar com um substrato cultural a ser
trabalhado como suporte no desenvolvimento da economia solidária.
Diante da pergunta verificando quais foram às dificuldades iniciais e atuais para o
crescimento do empreendimento? Nesta resposta os entrevistados abordaram a
indagação de forma correlata, evidenciando inicialmente que seus problemas estavam
na falta de experiência na área comercial, pois todos os empreendedores solidários desta
empresa tinham experiência somente na área produtiva, levando um bom tempo para a
aderência no mercado devido a este quesito. Outro relata foi o de arcar com algumas
dívidas para com a absorção da empresa, atrasando o tempo de reação da empresa
recém-adquirida pelos mesmos. Para a atualidade, a visão de crescimento é na melhoria
de equipamentos, em vista da realização dos trabalhos e aumento da produtividade,
reduzindo a margem de erro; outro aspecto é a necessidade de aquisição de uma sede
própria, que segundo os entrevistados, seria a melhor forma de estabilização e
organização financeira, e também na estrutura dos veículos para melhoria nos
transportes e na imagem da empresa. Para Slack et al (2009) as funções dentro da
empresa são primordiais para o sucesso da organização, este vê e divide os setores por
funções centrais, conforme se correlata com o exposto acima, a função comercial tem
função plena para a ligação da empresa com o mercado, pois faz a conexão entre as
necessidades de mercado e a realização dos pedidos. Já a função produção, tem por
objetivo satisfazer as solicitações dos clientes por meio da produção e entrega das
solicitações. Ainda insere não menos importantes as funções de apoio como a contábilfinanceira, recursos humanos e informação/tecnologia.
A ECONOMIA SOLIDÁRIA: ALTERNATIVA AO CAPITALISMO
A temática do capitalismo, atualmente o principal sistema econômico mundial,
tem como características a propriedade privada dos meios de produção, o trabalho
assalariado e a liberdade dos agentes econômicos (empresas, famílias, mercado, estado e
resto do mundo). Neste Singer (1987, p. 8) insere que:
O que move o capitalismo é o capital constituído em empresa. [...] O que caracteriza acima
de tudo é a unidade de proposto: o lucro. O capital é valor que se valoriza, valor que
engendra mais valor. A empresa se apresenta como entidade a serviço dos seus
consumidores e dos seus empregadores (chamados de ‘colaboradores’). Mas esta aparência
é enganadora. A empresa capitalista está a serviço dos seus possuidores, isto é, dos que nela
mandam.
Para o socialismo estatal as propriedades produtivas estariam nas mãos do
governo. Para tanto Singer (2006, p. 183) retrata o socialismo como:
A luta pelo socialismo almeja, hoje em dia, não tanto a abolição da propriedade privada dos
meios de produção que, no capitalismo monopólico, se tornou um pouco mais que uma
ficção jurídica (os ‘donos’ das grandes empresas são incontáveis acionistas, com quase
nenhum poder de decisão), mas a eliminação da hierarquia de mando nas unidades de
produção e distribuição.
Formando então conforme Singer (2006) novas forças produtivas contingentes,
sem a existência da separação do emprego manual do emprego intelectual, fazendo com
que estes atuem em consonância.
ECONOMIA SOLIDÁRIA
A proposta da economia solidária se inicia no século XVIII através de grandes
projetos do socialismo idealizados por Robert Owen que alicerça o olhar em querer
alterar a visão global de que o sistema é incorrigível, onde o efeito de remediar
situações de inconsistência de mercado ainda é a questão do poder do capital. A ideia
foi de uma mudança radical, através de todos os meios disponíveis, forçando o
rompimento da lógica nesta sociedade implantada. Sendo as cooperativas as formas
mais clássicas de economia solidária. Para tanto Singer (2005, p. 83) coloca que:
A economia solidária foi inventada por operários, nos primórdios do capitalismo industrial,
como resposta à pobreza e ao desemprego resultantes da difusão ‘desregulamentada’ das
máquinas-ferramenta e do motor a vapor no início do século XIX, as cooperativas eram
tentativas por parte de trabalhadores de recuperar trabalho e autonomia econômica,
aproveitando as novas forças produtivas. Sua estruturação obedecia aos valores básicos do
movimento operário de igualdade e democracia sintetizado na ideologia do socialismo.
Na perspectiva do socialismo, Singer (2006) coloca que Marx no século XIX
lançou uma hipótese que a sociedade socialista se tornará necessária quando o
conhecimento sobre a natureza chegar a um ponto de ser a única forma de satisfazer as
sociedades humanas.
Para Mészaros (2005), o sistema atual existente insere um formato de classes
sociais com grande disparidade, onde quem é rico é bem rico e quem divide a carteira
dos mais e menos abastado ainda é a classe média bem distante das realidades dos
sujeitos acima citados, e também da grande maioria da população de classe inferior
onde nem a honestidade e integralidade do trabalho são mais respeitadas devido à
diferença nos sistemas regidos na atualidade, estes que são a força motriz da máquina
capitalista.
Economia Solidária traz a perspectiva de uma sociedade fundada na visão da
igualdade democrática, social e econômica, como proposta estrutural, a economia
solidária.
Neste Morais (2011) disserta que na atualidade existem duas discussões que
permeiam as estratégias da economia solidária, uma no sentido da organização politica
dos trabalhadores empregados e a outra de proporcionar uma forma de trabalho não
capitalista, para os excluídos economicamente.
Ainda nesta sistemática precisa-se lutar contra a fome, contra as diferenças, contra
a miséria, redistribuição de renda e a democratização das oportunidades, isto faz com
que a economia solidária afixe como item importante para o desenvolvimento. Para isso
a mesma é uma maneira de organizar as atividades econômicas produção, distribuição e
consumo, tornando os empreendimentos dos trabalhadores inseridos em um sistema no
qual não haja patrão, e os mesmos não sejam tratados como empregados, e que todos
possam gerir de forma mútua.
A aproximação com a economia solidária, segundo portal Ministério do Trabalho
e Emprego (MTE) se dá pelos moldes que a cercam como a cooperação sensibilizadas
pela existência de interesses e objetivos comuns. Da autogestão em que todos
participam das execuções e definições estratégicas onde atuam. Da dimensão econômica
que visa desenvolvimento através de esforços para a geração de renda. E por último a
solidariedade disponibilizada na distribuição igualitária dos rendimentos, melhorias nas
condições de vida, questões de sustentabilidade entre outros. E que também existem
fontes de fomento a estes empreendedores como é o caso das cooperativas de crédito,
bancos comunitários ou fundos rotativos solidários.
Para tanto a economia solidária se apresenta de forma a abraçar as práticas sociais,
em padrões mais amplos sem a existência das divisões de classes como parâmetro e
também sem as estruturas geridas por um único proprietário como se apresenta o modo
de produção econômico capitalista.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A empresa estudada Art Final teve sua origem através da recuperação orientada
pelos princípios do empreendimento econômico solidário. Como se viu, os
trabalhadores não detinham consciência desta situação. Os dados recolhidos em campo
demonstram a economia solidária realmente funciona, é eficaz e neste caso traz
benefícios a seis famílias que trabalham no empreendimento, pois retiram dele retiram
renda garantido à vida digna e de qualidade para suas famílias. Revelam também, a
capacidade de autogestão, cooperação e solidariedade, prática de justiça social entre os
trabalhadores.
O estudo mostra como a economia solidária se dá de forma benéfica para com os
sujeitos que dela participam. O processo de tratamento e desenvolvimento igualitário
fortalece o cuidado o meio ambiente, ao mesmo tempo, resgata valores culturais
ancestrais que sedimentam a economia solidária no Planalto Catarinense.
Observa-se que o trabalho associado, garante uma perspectiva de melhoria e
geração de renda de forma mais ampla, pois as práticas e valores aplicados respondem
de forma mais abrangente as necessidade dos trabalhadores organizados. Reside aí a
estratégia de erradicação da pobreza, do exercício da cidadania e da autonomia dos
sujeitos.
Indiscutivelmente, a economia solidária tendo base este estudo, se mostra uma
alternativa ao sistema capitalista contemporâneo. As dificuldades existem, mas os
trabalhadores da empresa Art Final Indústria e Comércio de Móveis Planejados Ltda,
demonstram que este outro caminho trilhado pelos princípios e valores da economia
solidária, apontam para “outro mundo possível” já em realização.
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