Onde encontrar o Min istério da Agricultura T Agricultur AgriculturA: A pAixão pelA terrA odos os dias, desde o amanhecer, milhões de brasileiros cultivam uma de suas grandes paixões: a produção agrícola. Eles planejam, plantam, criam, cuidam e colhem seus produtos, buscando sempre eficiência no trabalho e harmonia com o meio ambiente. Esta riqueza de nossa terra vem do trabalho do campo. Está ali o grande celeiro nacional que abastece as cidades. Este ciclo produtivo virtuoso vai além da vocação de um povo. É um compromisso de Estado. O governo brasileiro adota políticas agrícolas que estimulam o crescimento com responsabilidades social e ambiental. Nas últimas décadas, a pesquisa e a tecnologia desenvolvidas no País permitiu o melhor aproveitamento do solo e a adaptação de culturas ao clima tropical, gerando significativos ganhos em produtividade. O trinômio saúde animal, sanidade vegetal e segurança alimentar ganham destaques nos fóruns de negociações nos mercados interno e externo. Desta maneira, esta Nação zela pela qualidade do alimento que vai à mesa dos brasileiros e os demais consumidores espalhados pelo mundo. Nesta edição, a Terra Brasil mostra como dezenas de trabalhadores frequentam diariamente um espaço no alto da Serra da Mantiqueira para cultivar rosas. Em outra matéria é revelada a energia que vem da pimenta-do-reino, um dos temperos mais usados na culinária internacional. Ganha evidência ainda, neste número, o bem-estar animal apresentado como uma exigência para alcançar mercados qualificados e a importância da fiscalização na alimentação animal, para garantir condições adequadas para a segurança dos alimentos consumidos pelo homem. A agricultura do futuro também está nesta quinta edição da revista, com indicadores que evidenciam tendências e projetam as perspectivas deste valioso setor para os próximos dez anos. Este panorama, com análise de dezenas de produtos, é um caminho para entender a dinâmica das relações entre produção, consumo e exportação e a trajetória do Brasil a curto, médio e longo prazos, bem como estruturar visões de futuro da agricultura e pecuária brasileiras no contexto mundial, buscando crescimento e conquista de novos mercados. Expediente Conselho Editorial Wilma Annete Cesar Gonçalves, Neuza Arantes Silva, Tony Geraldo Carneiro, Jorge Caetano Junior, Helinton José Rocha, Débora de Freitas Oliveira Pinheiro, Leda Laboissière e Eliana Maria Martins Ferreira Redação Editora-Executiva Adélia Azeredo Pará Av. Almirante Barroso, 5.384, Castanheira. CEP 66645-250 Belém-PA Telefone: (91) 3214-6422 [email protected] Paraíba BR-230, Km-14, Estrada de Cabedelo. 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É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e que não seja para venda ou qualquer fim comercial. A responsabilidade pelos direitos autorais de textos e imagens desta obra é do autor. Catalogação na Fonte Biblioteca Nacional de Agricultura – BINAGRI Terra Brasil. Ano 1, n.1 (dez. 2008)- .– Brasília : Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento v. ; 27 cm. Quadrimestral ISSN 1984-204X 1. Agricultura. I. Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Assessoria de Comunicação Social. II. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Central de Atendimento do Mapa - 0800 704 1995 AGRIS A01 CDU 630 Rio de Janeiro Av. Rodrigues Alves, 129, 11º andar, Praça Mauá. CEP 20081-250 Rio de Janeiro-RJ Telefone: (21) 2233-9122 [email protected] Santa Catarina Rua João Grumiche, 117, Kobraso. CEP 88102-600 São José-SC Telefone: (48) 3261-9900 Fax: (48) 3261-9902 [email protected] Rio Grande do Norte Av. Eng. Hildebrando de Góis, 150, Ed. 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CEP 77015-202 Palmas-TO Telefone: (63) 3219-4300 [email protected] SUMÁRIO 04 12 20 26 34 ESPECIAL POLÍTICA AGRÍCOLA Produção Encantada Tecnologia e pesquisa favorecem floricultura brasileira, mercado que movimenta mais de R$ 2,5 bilhões ao ano. Projeções do Agronegócio Para o início da próxima década, a expectativa é de crescimento da produção de grãos e carnes em 37%. COMÉRCIO E MERCADOS Patrimônio dos Reis Principal item de exportação agrícola do Pará, a pimenta-do-reino tem forte presença na culinária. DEFESA SANITÁRIA Bem-estar Animal Passaporte para a carne de qualidade, com boas práticas de criação e manejo. Pragas na Agricultura Sob alerta, produtores e fiscalização unidos para o controle e o combate. PESQUISA E TECNOLOGIA 40 46 Frutos do Cerrado O Cerrado, segunda formação vegetal no Brasil, tem grande variedade de cores, formas e sabores. PRODUÇÃO E CONSUMO 54 Ceagesp Maior entreposto da América Latina, abastece o Brasil e mais 18 países. Qualidade do Leite Das fazendas aos supermercados, o leite no Brasil passa por diversos processos. SERVIÇO Indicação Geográfica 60 68 Alimentação Animal Qualidade da alimentação animal garante a segurança do consumo. Produtos Veterinários 69 3 Terra Brasil Março/2010 Produção Encantada “Queixo-me às rosas Mas que bobagem As rosas não falam Simplesmente as rosas exalam O perfume que roubam de ti, ai”. (Trecho da música “As rosas não falam”, de Cartola.) No alto da Serra da Mantiqueira, município de Andradas-MG, dezenas de funcionários ocupam os postos de trabalho no Sítio Dallas. A cada hectare, 12 funcionários são responsáveis pelo espaço, desde o plantio das mudas até a colheita, acompanhamento que leva em torno de seis meses. A rotina é semelhante a qualquer propriedade rural. Quando chega a hora de voltar para casa, no vai-e-vem, homens e mulheres têm rostos cansados, mas sorridentes. Ao apresentar as estufas da propriedade, exibindo rosas com diferentes cores e tamanhos, o agrônomo Gustavo Vieira deixa escapar. “Aqui plantamos o alimento da alma”, diz. Lá no alto da serra, contrariando a música de Cartola, as rosas falam. Cultivar flores requer mais do que paixão. A Serra da Mantiqueira, entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, foi “escolhida” a dedo. Com clima ensolarado de dia, chegando a 28ºC, e o friozinho da noite, lá pelos 14ºC, na altitude de mais de 1,3 mil metros, o lugar é ideal para o desenvolvimento e a colheita das melhores rosas que o Brasil produz. A cada passo percorrido nas estufas do Sítio Dallas, encontramos rosas vermelhas, amarelas, brancas, lilases e bicolores. E elas têm nome. Às vezes, sobrenome. Para os leigos, são rosas vermelhas. No agronegócio da floricultura, elas ganham nomes delicados, como Amada, Carola ou Lovely Red. Em qualidade, ainda não competem com as rosas produzidas na Colômbia, Equador e alguns países da África, que ganham em altitude, resultando em botões maiores que os daqui. “As condições climáticas não são tão favoráveis, mas em contrapartida temos temperaturas mais altas e ciclo de produção mais curto”, defende o presidente do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), Kees Schoenmaker. Nas últimas décadas, a floricultura brasileira vem ampliando o espaço de maneira significativa. Hoje, 3,5 mil variedades estão disponíveis em 18 mil pontosde-venda e o cultivo passou a ser feito em ambientes protegidos, com apoio tecnológico. Sistemas de aquecimento, refrigeração e irrigação permitem o controle da temperatura, garantindo produção de qualidade o ano todo. O setor movimenta 25 polos de produção, alcança R$ 2,5 bilhões ao ano e gera 200 mil empregos diretos. Tecnologia e pesquisa favorecem a floricultura brasileira. O mercado movimenta mais de R$ 2,5 bilhões ao ano e gera 200 mil empregos diretos. 4 Terra Brasil Março/2010 Para o agrônomo Gustavo Vieira, ali se planta o “alimento da alma”. 5 5 Terra Terra Brasil Brasil Março/2010 Março/2010 A produção concentra-se principalmente em São Paulo, responsável por 70% do volume brasileiro. Quanto ao consumo, 85% da demanda está no Sudeste e 50% em São Paulo. Segundo o presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Flores e Plantas Ornamentais, Renato Opitz, Holambra, a 150 km da capital paulista, concentra o polo de produção e comercialização do País. Com isso, o escoamento acaba sendo mais fácil para a região Sudeste. “As flores são produtos perecíveis e exigem logística bem articulada. Se o produtor não estiver nos principais centros, a distribuição fica complicada”, alerta. No Ceará, a logística é o principal gargalo para um dos nichos de produção de flores que mais crescem. Em dez anos, o cultivo de rosas no estado saltou de 19 para 300 hectares. As exportações passaram de US$ 400 mil para US$ 6 milhões, em apenas seis anos. Flores para quem... Mesmo com entraves, o setor ganhou fôlego nos últimos anos. De acordo com dados do Ibraflor, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresce em média 4% a 5% ao ano, o PIB do setor florista dobra. Um exemplo de impulso do setor foi a opção de compra de flores e plantas ornamentais pelos supermercados e a criação dos garden centers (supermercados de flores), iniciativas que mudaram a rota comercial e instigaram a criatividade dos floricultores. O consumo brasileiro é tímido, cerca de US$ 8 a US$ 9 por pessoa, comparado a países como a Argentina, que chega a US$ 25, Holanda, com US$ 120 ou Bélgica, saindo na frente, com US$ 130. Na opinião de Renato Opitz, as ações localizadas incentivam o consumo, mas o resultado será colhido apenas daqui a alguns anos. “O principal reflexo no aumento do consumo vem do crescimento do poder aquisitivo dos brasileiros, embora apenas um terço da população tenha condições de gastar com flores”, argumenta. Para a presidente da Associação Brasileira de Proteção de Cultivares de Flores e Plantas Ornamentais (ABPCFlor), Silvia van Rooijen, o consumo de flores no País é mais significativo nas datas comemorativas, mas ela acredita que as iniciativas de melhoramento genético podem aquecer o mercado. “O Brasil tem expressivo número de pesquisadores com conhecimento técnico para desenvolver esses programas”, complementa. Flores melhoradas Ganhar mercado, preferência do consumidor e competitividade requerem do produtor, primeiramente, aquisição de sementes, mudas ou bulbos com melhoramento reconhecido. Grande parte importa esse material, principalmente da Holanda. Cada remessa é avaliada por técnicos brasileiros que, durante dois anos, realizam testes para a adaptação ao clima tropical. O agricultor compra o material do obtentor ou melhorista da tecnologia, profissional especializado em desenvolver novas plantas, com características superiores a partir das existentes. As tecnologias são obtidas por meio de engenharia genética, métodos tradicionais ou biotecnologia. No Sítio Kolibri, em Holambra-SP, são cultivados antúrios e orquídeas em 20 mil metros quadrados de estufa. O proprietário, Theo Breg, foi buscar em dois laboratórios holandeses mudas dos melhores exemplares para produção. “O resultado são plantas com hastes maiores, mais flores e durabilidade”, reforça Breg, ao mostrar as estufas. Assim como Breg, outros produtores compram mudas, sementes ou bulbos melhorados, respeitando a Lei de Proteção à Propriedade Intelectual nº 9.456/1997 e o Decreto nº 2.366/2007. Os melhoristas estrangeiros fazem os pedidos de proteção intelectual sobre novas variedades de plantas, concedidos pelo Serviço Nacional de Proteção de Cultivares (SNPC) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O certificado de proteção de cultivares assegura o livre exercício do direito dos melhoristas e defende o interesse nacional na proteção de novas espécies vegetais. Proteção de flores Nas espécies vegetais, a proteção assegura o direito dos pesquisadores especializados em obter plantas com características superiores. De acordo com a coordenadora do SNPC, Daniela de Moraes Aviani, a medida fomenta parcerias entre os setores público e privado, instituições de pesquisa e produtores de sementes. “Na medida em que foram melhoradas, obtivemos plantas adaptadas às diferentes regiões e climas do Brasil”, ressalta. Cabe ao Ministério da Agricultura guardar as informações genéticas das cultivares protegidas por meio de sementes, mudas e em bancos de DNA, ou seja, o código genético da planta. “É uma forma de combater, com mais eficiência, a pirataria de sementes e mudas”, afirma a coordenadora. A importância da proteção de cultivares e a defesa dos interesses dos obtentores e produtores de ornamentais no Brasil estão entre os principais trabalhos da ABPCFlor. A presidente da entidade explica que se trata de ferramenta econômica, uma vez que a expectativa do comércio para o produto é o primeiro ponto avaliado pelo setor. Silvia van Rooijen cita o trabalho da União Internacional para Proteção de Novas Variedades de Pl antas sobre o impacto da proteção de cultivares em alguns países. Argentina, China, Quênia, Polônia e República da Coreia foram os países escolhidos para a análise. Os resultados mostraram aumento da quantidade de sementes certificadas, maior investimento da iniciativa privada em melhoramento genético e crescimento significativo de variedades disponíveis, com reflexo positivo da demanda de produtos. “O estudo comprova que um sistema adequado e eficaz de proteção de cultivares atrai investimento e fortalece a cadeia produtiva”, argumenta. As orquídeas de Theo Breg chegam em mudas da Holanda. Ao comprar material protegido, o consumidor paga, embutido no preço, um valor que varia entre 0,5 a 3%, revertido à instituição que registrou a variedade da planta. Esse royalty permite à empresa obtentora recuperar os investimentos e prosseguir em novas pesquisas. 6 6 Terra Brasil Terra Brasil Março/2010 Março/2010 7 Terra Brasil Março/2010 Flores para o mundo Kees Schoenmaker conduz um negócio de família que produz bulbos, mudas, flores e plantas ornamentais. Passarela Florida Como no mundo da moda, divulgar novidades e variedades de flores e plantas requer um desfile para as criações. No Brasil, a principal oportunidade para essa promoção é a Expoflora, realizada entre agosto e setembro, em Holambra-SP. Nas últimas edições, o evento atraiu mais de 300 mil pessoas. Segundo Renato Opitz, a feira indica as possibilidades de uso de flores e plantas ornamentais para incentivar o consumo no Brasil. As variedades de flores e plantas ornamentais são testadas com o público. Na próxima edição da Explofora, será apresentada uma novidade da empresa Van Noije Plantas Ornamentais que, durante seis anos, investiu em pesquisa para desenvolver uma variedade de cróton com folhas verdes e amarelas. “Apresentaremos o novo produto, com as cores do Brasil, e lançaremos opção para decorar eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas. Mostraremos ao mundo a variedade só encontrada aqui”, explica Tommy van Noije. 8 Terra Brasil Março/2010 As exportações de flores ainda são pequenas. Em 2009, o setor movimentou US$ 31,5 milhões para 42 países. Entre os principais destinos estão a Holanda, que comprou US$ 18,6 milhões, seguida pelos EUA, com US$ 5,9 milhões, Itália, com US$ 2,7 milhões e Bélgica, com US$ 720 mil. Para Kees Schoenmaker, do Ibraflor, o comércio interno está em crescimento e oferece ainda mais oportunidades que o internacional. Ele compartilha com Silvia van Rooijen a ideia de que o mercado brasileiro é promissor. “Temos um país populoso e com renda per capita em crescimento“, aponta. Schoenmaker acredita que a prosperidade na produção de flores no Brasil é resultado de dedicação do setor. Afinal, foi em Holambra que os imigrantes holandeses se estabeleceram e implantaram as primeiras sementes de flores para o cultivo em larga escala. Chegaram ao Brasil pelas mãos do pai, Klaas Schoenmaker, em 1959, que escolheu o País tropical para viver com a esposa e 11 filhos e investir na experiência em produzir bulbos de flores, vislumbrando um futuro promissor com a família. Kees relata também as primeiras tentativas, na produção de palmas, em um pequeno sítio na região de Campinas-SP. A comercialização, inicialmente local, foi ampliada para a capital. Hoje, a empresa da família pesquisa, desenvolve e produz bulbos, mudas, flores e plantas ornamentais. Os negócios expandiram para produção de frutas, cereais, batatas, tomates e hortifrútis, em mais de 12 mil hectares, em São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Holanda e Paraguai. A conf iança na produção de flores no Brasil veio junto com as famílias holandesas, que encontraram no clima ensolarado as condições ideais para o sonho acontecer. Schoenmaker afirma que falta ao brasileiro o hábito de consumir f lores. “Quando acostumado a ter flores e plantas em casa, não poderá mais viver sem elas”, assegura. De olho no mercado, Silvia van Rooijen, da ABCFlor, ressalta que os programas de melhoramento de ornamentais no Brasil ainda são incipientes. “O caminho para a valorização do produto e conquista de mercado é espinhoso, mas a tecnologia e o melhoramento genético trazem resultados coloridos e perfumados”, vislumbra. 9 Terra Brasil Março/2010 A rota de comercialização das flores e plantas ornamentais segue rumos diferentes comparados aos de outros produtos agropecuários. De forma peculiar, mais da metade do comércio é por meio de leilão eletrônico. Em Holambra, todas as quartas-feiras, bem cedo, os principais compradores entram na corrida pelo melhor preço na Veiling (comercialização realizada em barcos comuns holandeses). Os produtos são negociados em pregão, a oferta e a procura permitem a formação de preços, que são referência para o mercado. Cada lote entra no leilão e as informações são apresentadas em mostradores eletrônicos. O processo valida um pregão diário, com preços decrescentes e a cada 1,5 segundo um lote é negociado. Em dois relógios (Klok), as regras são definidas para a saída de veículos carregados com as melhores flores e plantas. A Veiling Holambra classifica os produtos em A1, A2 e B. “O grupo A1, das flores mais valorizadas, representa 89% do total. É o sistema mais moderno de comercialização de flores e de plantas, uma referência mundial”, explica Theo Breg. Aproximadamente 44% das flores e plantas ornamentais não são comercializadas por meio do “relógio”. A intermediação permite entregas programadas e, assim, fornecedores e clientes fecham contratos com preços e prazos de pagamento pré-estabelecidos. Para os leigos, a comercialização na Veiling tem perfil de bolsa de valores. Para os experientes, as regras definidas facilitam a compra pelo melhor preço e qualidade, sanidade vegetal, uniformidade de folhas e flores, tamanho e espessura de hastes. Já o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio de Flores e Plantas (Abafep), Paulo Loli, lembra que os produtos são perecíveis e a cooperativa Veiling controla a qualidade das remessas para vários locais do Brasil. “Após o pregão, boletos de pagamento são colocados nas flores e plantas, que seguem para os caminhões no estacionamento”, afirma. A Veiling Holambra ocupa uma área de 800 mil metros quadrados, sendo 105 mil metros quadrados cobertos. Concentra a produção de 313 fornecedores, sendo 222 sócios da cooperativa, 55% do município e 45% de outras localidades. São mais de 520 clientes e mais da metade das vendas destinam-se ao estado de São Paulo. A outra parte segue, principalmente, para Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. A rota das flores, após a compra na Veiling Holambra, tem destino certo, segundo o atacadista Rogério Martins. Com experiência e atento ao leilão, ele sabe que tudo começa na compra de melhores produtos. “No pregão, procuro atender aos pedidos dos clientes em relação às novidades e exclusividades”, explica. Após o leilão, Martins comercializa os produtos na Ceasa/Campinas, maior mercado permanente de flores e plantas da América Latina, onde quatro mil toneladas de produtos são negociadas todo mês. A agente de departamento de flores da Ceasa/ Campinas, Ana Rita Pires Stenico, explica que a central reúne mais de 500 pontosde-venda e 375 atacadistas, em 68 cidades. “Os principais fornecedores ficam em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mas em Atibaia-SP encontram-se 70% dos fornecedores”, afirma. A 100 quilômetros de Campinas, a Central de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) mantém, na capital paulista, a Feira de Flores, com produtos principalmente de Holambra, Mogi das Cruzes, Cotia e Bragança Paulista. Às terças e sextas-feiras, das 5 às 10 horas, atacadistas e varejistas movimentam 4,5 mil toneladas/mês em vendas de flores de corte e de vaso. A média de comercialização ultrapassa R$ 200 milhões ao ano. O comércio das rosas, relativamente baixo na Veiling Holambra, é feito principalmente pela internet. Os produtores se uniram para a negociação de flores de corte. Há dez anos, criaram a Cooperativa dos Floricultores (Cooperflora), que reúne mais de 50 floricultores e 300 compradores exclusivos, pela internet. 10 Terra Brasil Março/2010 Segundo o presidente da Cooperflora, André Boersen, a ideia da cooperativa foi dos próprios floricultores, especialmente de rosas. A iniciativa marcou um novo modelo de comercialização. “O produtor está em contato direto com os clientes e suas exigências”, afirma. Os associados são de Holambra, sul de Minas Gerais, Campos de Holambra (antiga Holambra II), região de Atibaia, Arujá e, um pouco mais distante, na Serra de Ibiapaba, no Ceará. Em 2009, foram comercializados 90 milhões de hastes de rosas, com faturamento de R$ 50 milhões. 11 Terra Brasil Março/2010 Patrimônio dos Reis Nos séculos XV e XVI, uma trepadeira com frutos verdes, em forma de espiga, tinha tanto valor comercial quanto as jóias e sedas. Era época das Grandes Navegações e as especiarias, como a pimentado-reino, considerada patrimônio dos reis europeus que investiram em rotas mais curtas para a Índia e China, países onde esse produto era cultivado. Hoje, o condimento não é mais vendido a peso de ouro, mas representa a principal fonte de renda para cerca de 20 mil famílias no Pará, estado que concentra 90% da produção nacional da especiaria. No período da colheita, de julho a novembro, garante emprego a 60 mil famílias. “A pimenta-do-reino foi introduzida no Brasil em 1933 por imigrantes japoneses que se instalaram em Tomé-Açu, no sudoeste paraense. Na década de 1980, o País chegou a ser o primeiro no ranking mundial de produção”, Principal item de exportação agrícola do Pará, que concentra 90% da produção nacional, a pimenta-do-reino tem presença marcante na culinária dos pratos clássicos aos mais exóticos 12 Terra Brasil Março/2010 conta a técnica do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal, do Ministério da Agricultura, Emídia Coelho Pereira, que trabalha com a especiaria no governo. Atualmente, o Brasil é o terceiro maior produtor da pimenta-doreino que representa o principal item de exportação agrícola do Pará, tendo gerado, em 2009, mais de US$ 91 milhões em divisas. Bem adaptada ao clima do Norte brasileiro, quente e úmido, a também conhecida como pimenta-da-Índia, tem importância econômica preponderante para a região. “A especiaria tem característica diferenciada de outras culturas agrícolas, pois o produtor vende tudo que colhe. Mesmo com a oscilação no preço, a pimenta-do-reino não deixa de ser comercializada”, explica o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Oriel Lemos, que desenvolve estudos, há 15 anos, para reforçar a eficiência e qualidade da cultura. Usada como moeda na época das Grandes Navegações, a pimenta-do-reino era um dos produtos mais disputados pelos monarcas europeus. 13 Terra Brasil Março/2010 O chef Francisco Ansileiro não abre mão da pimenta-do-reino. louro, cravo e pimenta preta. O chef também usa a especiaria em quantidades mais generosas para suavizar pratos gordurosos, como o terrine de foie gras (fígado de ganso). Ao contrário de Francisco Ansileiro, Simon Lao prefere aplicar os tipos de pimentado-reino separadamente. “Uso a branca em molhos claros, como o bechamel, e a preta, mais perfumada, em carnes”, exemplifica. Do clássico ao exótico Além do sustento para milhares de famílias no Pará, Espírito Santo e Bahia, a pimenta-do-reino figura entre os temperos mais usados na culinária internacional. Na época das conquistas marítimas, o condimento funcionava como conservante para carnes e outros alimentos estocados nos navios por longos períodos. Com o tempo, chefs de cozinha e indústria alimentícia encontraram melhores formas de aproveitar o sabor encorpado e peculiar da especiaria. “Uso o triplo pepper em todos os pratos do cardápio (mix das pimentas: preta, branca e rosa ou vermelha)”, revela o chef Francisco Ansileiro, proprietário do restaurante Dom Francisco, instalado há 22 em Brasília-DF. Ansileiro não abre mão do tempero clássico da culinária mediterrânea 14 Terra Brasil Março/2010 que leva sal, azeite e pimenta-doreino e diz que a função do condimento é suavizar o odor da carne, sem comprometer a percepção do sabor da comida, em função da ardência da especiaria. O chef também dá uma dica: o ideal é comprar a pimenta na forma de grão, em pequenas quantidades, e moê-la na hora de preparar o prato. “Assim a pimenta se mantém sempre fresca, conservando seu aroma, sabor e ardência”, completa. Pratos mais exóticos, que combinam características da culinária francesa com produtos tipicamente brasileiros, são a marca do chef dinamarquês Simon Lao, há 14 anos na capital federal, onde comanda, desde 2005, o restaurante Aquavit. Lao, um apreciador da pimentado-reino, diz que apesar de ser tempero secundário, o condimento realça o sabor da comida e “dá personalidade ao prato”. Ele aposta em misturas exóticas. Por exemplo, morango marinado com mel, limão e pimenta verde e um torresmo com A presença do condimento na mesa também traz benefícios à saúde. O principal componente ativo da pimenta-do-reino, a piperina (que dá a ardência ao grão) tem ação antioxidante e anti-inflamatória, ensina a nutricionista do Hospital Universitário de Brasília, Juliana Rolim. A substância ainda tem a propriedade de liberar a endorfina. “Ao contato com a mucosa oral, a piperina ativa receptores sensoriais na língua, que se comunicam diretamente com o cérebro, liberando a endorfina e causando a sensação de bem-estar”, revela a nutricionista. A sensação, conforme Juliana Rolim, é significativa para aliviar enxaqueca e dores de cabeça crônicas. A pimenta também é rica em vitaminas A, E e C; zinco e potássio; e contém outras substâncias que neutralizam os radicais livres. Tecnologia - A partir de 1995, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu sete novas cultivares da pimenta-do-reino de alta produtividade, algumas resistentes à murcha amarela, uma das principais pragas que atingem a especiaria. As pesquisas ajudaram o produtor de mudas de pimenta-do-reino, Fernando Albuquerque, a se manter na atividade por 25 anos. O engenheiro agrônomo que trabalha numa propriedade de Castanhal (65 km de Belém-PA) é a segunda geração da família envolvida no cultivo do condimento. “Dois fatores são fundamentais para a produção de mudas: a pimenteira precisa crescer vigorosa e isenta de doenças. E o componente mais importante no plantio é a muda”, relata Albuquerque que conta com o apoio da Embrapa para análises laboratoriais, que garantem a oferta de mudas sadias. Por ano, são 150 mil mudas de pimenteiras que, em média, ficam prontas para o cultivo em nove meses. Cada uma, que custa R$ 2, é vendida aos produtores da região, na maioria, pequenos proprietários com menos de meio hectare e cerca de 500 pés de pimenta, informa o pesquisador da Embrapa. Uma área de 30 mil hectares, abrangendo, principalmente, os municípios de Tomé-Açu, Baião e Castanhal, é ocupada com o plantio da pimenta-do-reino. No ano passado, foram produzidas 35 mil toneladas da especiaria, 90% exportada para os Estados Unidos, a União Europeia e Argentina, entre outros mercados. No topo do ranking dos produtores mundiais estão: Vietnã (82 mil toneladas) e Indonésia (62 mil toneladas), além do Brasil, Índia, Malásia e Sri Lanka. Esses países são integrantes da Comunidade Internacional da Pimenta (CIP), organismo multilateral com sede em Jacarta (Indonésia), que promove a troca de informações sobre políticas públicas para o cultivo da pimenteira, intensifica as pesquisas sobre novos usos da especiaria e define padrões de qualidade. O Brasil é membro da CIP desde 1981. No último encontro da Comunidade, entre os dias 30 de novembro e 4 de dezembro de 2009, em Belém-PA, o Ministério da Agricultura mostrou seu Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCR) que incluiu a pimenta-do-reino entre as 15 novas culturas que serão analisadas em laboratórios oficiais, na safra 2009/2010. O resultado da análise das 30 primeiras amostras referentes à detecção de salmonela deve ser divulgado ainda neste semestre. O consumo crescente do condimento, em média 3% ao ano (conforme a CIP), vai demandar maior eficiência dos países produtores. “Além disso, o estoque global de 30 mil a 35 mil toneladas, aproximadamente, indica queda na oferta da pimenta este ano”, informa o pesquisador Oriel Lemos. Ele diz que o maior desafio para o Brasil é diminuir os custos de produção do cultivo da pimenteira. Para isso, a Embrapa está incentivando o uso de “tutores vivos” (plantados para apoiar a pimenteira, que crescem junto com a pimenta) para o desenvolvimento da planta, como a gliricídia em vez do “tutor morto” (toco ou estaca de madeira). “ Também estamos investindo em variedades resistentes à fusariose, praga causada por um fungo que mata a pimenteira. Temos um projeto de melhoramento genético com uma linha de pesquisa utilizando ferramentas de biotecnologia e clonagem de plantas, para conseguirmos atingir esse objetivo”, relata Lemos. O pesquisador reforça que o uso das tecnologias já existentes é primordial para o produtor alcançar a eficiência desejada com manejo correto, adubação orgânica e uso de mudas certificadas. A inclusão da pimenta-do-reino nos estudos de Zoneamento Agrícola de Risco Climático também foi uma conquista importante. O zoneamento garante um direcionamento para o plantio, indicando a melhor época e regiões adequadas para o cultivo. A expectativa do Ministério da Agricultura é publicar o primeiro estudo ainda este ano. O chef Simon Lao é um apreciador da especiaria. 15 Terra Brasil Março/2010 Acarajé com espumante? Nome científico: Piper nigrum L. Tipo: trepadeira de porte médio. Pode chegar a três metros de altura e precisa de um “tutor de madeira” ou troncos de árvores para se desenvolver. Clima: o mais adequado é o quente e úmido, com volume de chuvas entre 1,5 mil milímetros e 2,5 mil milímetros, bem distribuídas ao longo do ano. Solo: os mais favoráveis são os profundos, bem drenados, porosos, permeáveis, arenosos ou levemente argilosos. Topografia: o terreno deve ser, preferencialmente, plano ou suavemente ondulado, com declives inferiores a 8%. Produtividade: a colheita de três quilos de pimenta por pé é considerada boa. Mas, com bom manejo e irrigação, pode atingir de seis a oito quilos por pé. Classes: Preta – resulta de frutos colhidos completamente desenvolvidos, de coloração verde-clara ou amarelada e secadas ao sol ou em secador artificial. Branca – os frutos são colhidos quando ainda na cor amarelada ou vermelha e macerados para retirada da película. É a que tem maior valor comercial. Vermelha – os frutos são colhidos com coloração vermelha e conservados em salmoura. Verde – as espigas são colhidas quando os frutos atingem 2/3 do desenvolvimento e são preparadas em salmoura. Fonte: Produção e Processamento de Pimenta-do-reino. Centro de Produções Técnicas, da Universidade de Viçosa • www.cpt.com.br 16 Terra Brasil Março/2010 O ardido da pimenta-do-reino, que existe por causa de um composto químico chamado piperina, pode trazer dificuldades na hora de combinar o prato com um bom vinho. Mas, de acordo com o professor de enogastronomia e somelier, Antônio Duarte, há soluções, até surpreendentes, para harmonização da bebida com pratos picantes. “Acarajé com espumante rosè é uma delícia. Harmoniza o gosto e o aroma da pimenta. Também recomendo vinhos brancos das uvas: Cabernet sauvignon, Shirraz e Tempranillo para degustar com pratos da culinária baiana”, explica. Para o cardápio com o tempero clássico que leva sal, azeite e pimenta-do-reino, mais utilizado nas carnes, a dica do especialista é seguir as regras básicas da harmonização. “Um bife de panela cai muito bem com um vinho Merlot da Serra Gaúcha. Já uma carne mais pesada combina com um Tanat. Os peixes, normalmente, devem ser acompanhados de vinho branco, porém os mais gordurosos, como: salmão e atum harmonizam com um tinto da uva Pinot Noir, por exemplo”, completa. Duarte garante que há bons vinhos a preços acessíveis encontrados em supermercados. Espumantes e v i n ho s rosè s ão o s nacionais de melhor qualidade, segundo o especialista. Embrapa Amazônia Oriental • www.embrapacpatu.br 17 Terra Brasil Março/2010 Ministério da Educação Agora, está na Constituição: o ensino 2009, o ano das grandes conquistas da educação brasileira Este ano o Brasil teve uma conquista inédita: a educação pública dos quatro anos de idade até os 17 está garantida na Constituição, a partir de 2016. Mas desde já é vista de maneira integrada, da creche à pós-graduação. Em 2009, o avanço não parou por aí. O Brasil fez mudanças estruturais e criou as condições básicas para todos os programas funcionarem com o mesmo princípio, o compromisso com a qualidade do ensino público. Tudo regido pelo Plano de 18 Terra Brasil da Educação (PDE). Desenvolvimento Março/2010 Educação de qualidade, só com professor valorizado Piso Nacional do Magistério – A remuneração básica do professor foi fixada para 2010 em R$1.024,67 para profissionais de formação média com carga de 40 horas semanais, beneficiando uma significativa parcela de trabalhadores. Além disso, os professores têm o seu direito à formação permanente garantido no Plano Nacional de Formação. Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies) – Com a mudança das regras do Fies, os recém-formados em medicina público dos quatro aos 17 anos é obrigatório. e licenciaturas abatem o financiamento estudantil apenas com o trabalho nas redes públicas de saúde e educação. O Brasil que todo mundo quer tem educação pública de qualidade Resgatar a qualidade do ensino público é um desafio que só pode ser vencido com a força dos governos federal, estadual e municipal. Esta colaboração tem um nome, Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), e beneficia 60 milhões de crianças e jovens no Brasil. Com o fim da Desvinculação das Receitas da União (DRU), o PDE receberá mais R$11 bilhões nos próximos dois anos. Acesse www.mec.gov.br e conheça os programas que estão transformando a educação do nosso país. O BRASIL ESTÁ CADA VEZ MAIS FORTE. E A EDUCAÇÃO PÚBLICA TAMBÉM. 19 Terra Brasil Março/2010 Bem-estar Animal, passaporte para a carne de qualidade Murilo Quintiliano, diretor-executivo da Food Animal Iniciative (FAI) do Brasil. A adesão às boas práticas é voluntária, mas torna-se praticamente obrigatória para produtores que buscam mercados cada vez mais exigentes como a União Europeia 20 Terra Brasil Março/2010 E studos evidenciam vantagem econômica do manejo racional, bons-tratos e bemestar dos animais que resultam na maior produção de leite, melhor qualidade da carne e em subprodutos, como o couro e vísceras. Além de ser uma tendência mundial, consumidores e criadores movimentam-se para que países produtores de carne bovina, suína e de aves cumpram padrões mínimos de bem-estar animal. Além de melhorar os atributos, esses procedimentos dão lucro para o pecuarista. “Ao adotar os princípios das boas práticas no trato com animais, o produtor alcança maior eficiência econômica, seja na facilidade do manejo na propriedade, seja em maior rendimento de carcaça ou na qualidade diferenciada da carne”, assegura a coordenadora da Comissão Técnica Permanente de Bem-estar Animal, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Andrea Parrilla. 21 Terra Brasil Março/2010 Brasil - Não existem leis que obri- guem o cumprimento de regras de bem-estar animal no sistema produtivo brasileiro. Mas o Ministério da Agricultura publicou a Instrução Normativa nº 56/2008 com recomendações de manejo cuidadoso, alimentação saudável, instalações seguras que não ofereçam riscos aos animais. A adesão à norma é voluntária, mas torna-se praticamente obrigatória para criadores que querem conquistar um mercado cada vez mais exigente, como a União Europeia (UE). Governo e setor produtivo trabalham em adequações de procedimentos para garantir produtos seguros aos mercados mais exigentes. Técnicos do Ministério da Agricultura acreditam que, com pequenas adaptações nas estruturas físicas e no transporte, o País estará plenamente ajustado às regras internacionais estabelecidas para o bem-estar animal. A adesão voluntária dos produtores rurais aos preceitos de bem-estar animal será mais uma vitória do Brasil, que se coloca cada vez mais Cleverson Bornatte, funcionário da fazenda Santa Terezinha, acompanha o embarque dos animais. forte como o maior produtor de alimentos do mundo. As condições brasileiras favoráveis, como: clima, espaço, alimentação farta e adequada propiciam naturalmente o bem-estar animal. O clima é estável e com pouca variação de temperatura durante o ano todo. Os animais são criados em grandes áreas abertas com água e pastagens em abundância. Quando confinados ou em granjas, alimentam- se somente de rações nobres à base de milho, soja e outros cereais. Para o diretor-executivo da Food Animal Iniciative (FAI) do Brasil, consultor do Grupo Etco e zootecnista, Murilo Quintiliano, o Brasil tem condições de realizar um excelente trabalho. “Basta disseminar o que já existe e trabalhar na solução das deficiências de manejo, desde o nascimento até o abate dos animais em frigoríficos”, defende. As mudanças ainda são pontuais. A mentalidade está mudando gradativamente. Ele explica que as estratégias de ensino das boas práticas de manejo são transmitidas em linguagem acessível aos vaqueiros, com uso de manuais ilustrados e vídeos. “A técnica é assimilada muito rapidamente. A mudança de atitude é a chave dos bons resultados”, diz. Além das fazendas paulistas, as técnicas já foram disseminadas aos criadores, técnicos, tratadores de gado e estudantes de ciências agrárias no Rio Grande do Sul, Bahia, Rondônia, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e estabelecimentos rurais no Paraguai e Colômbia. 22 Terra Brasil Março/2010 Facilitando o manejo Animais calmos em função das boas práticas e de construções rurais que atendem os princípios de bem-estar facilitam o manejo e evitam acidentes com o rebanho e com os tratadores, que estão aprendendo novas técnicas de lidar com o gado e ganhando mais segurança. “Antigamente, o pessoal achava que com grito e com pancadas resolvia as coisas”, disse o gaúcho Cleverson Bornatte, funcionário da fazenda Santa Terezinha, que acompanha as atividades sobre o comportamento de animais do Grupo Etco, desde 2006. “A diferença é muito grande. Você trata o animal como gostaria de ser tratado. O último lote de 40 animais para a venda, eu conduzi sozinho em dois caminhões e não gastei mais que dez minutos. Depois de subir a rampa, o gado segue por um corredor e não precisa pular para entrar no caminhão. Assim, não se machuca. De outra forma, seria preciso mais quatro funcionários, fora a gritaria e o uso de ferrão para tocar os animais agitados”, explica. Mal dá para o tratador, que toca o rebanho na maior tranquilidade. O comando de voz é feito em tom grave com as palavras para conduzir os animais: “vai, vai” e “vem, vem”. Eles sabem que a bandeira é um auxílio no serviço de tocar a boiada. “Se eu trabalhar sempre da mesma maneira os animais vão aprender os sinais que eu estou mandando”, disse Cle- verson. Nos piquetes, os vaqueiros são orientados para que o espaço não fique muito cheio, como antigamente. Com menos animais, o trabalho fica mais fácil. Seguindo a filosofia da especialista norte-americana Temple Grandin, que captou o comportamento dos animais e projetou modelos de curral antiestresse. Os currais são sempre arredondados para dar conforto aos animais. As paredes laterais são revestidas de madeira encaixada, sem pregos, e o piso cimentado e antiderrapante. “Eu acredito que o custo em um curral como este seja o mesmo ou menor que um curral convencional. Na verdade, o que importa mesmo é o conceito”, explica Quintiliano. Alteração de pH, coloração e textura da carne modificada, além de cortes nobres mal-aproveitados e tempo de prateleira diminuído são algumas das consequências do tratamento inadequado aos animais de corte. Trabalhos do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (Etco), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal-SP, comprovam que 50% das carcaças analisadas em frigoríficos, cerca de 400 gramas são eliminadas por animal. A perda pode ser de três a cinco quilos por carcaça provenientes de contusões e maus-tratos. “Cerca de 73% das contusões e hematomas encontram-se no traseiro causadas por pancadas de porteiras ou batidas na anca”, relata o diretor-executivo da Food Animal Iniciative (FAI) do Brasil, consultor do Grupo Etco e zootecnista, Murilo Quintiliano. O impacto é percebido também na qualidade da carne. “É comprovado que o estresse altera as características organolépticas (textura, cor, sabor) do produto final”, enfatiza. 23 Terra Brasil Março/2010 Os europeus querem que as medidas de bem-estar façam parte das regras do comércio internacional e devem adotar, a partir de 2012, nova legislação para a avicultura de postura que prevê abolir o uso de gaiolas convencionais e, em 2013, eliminar as gaiolas de gestação na suinocultura. Transporte - Os manejos de embarque e de transporte sem emprego de bastões elétricos, ou ferrões, evitam contusões e estresse desnecessários, influenciam diretamente na qualidade da carne. No transporte do gado até o frigorífico, a velocidade é controlada e, a cada 100 quilômetros, o caminhão-boiadeiro faz uma parada para ver como estão os animais. As condições precárias dos caminhões de transporte de animais para o abate preocupam a organização não-governamental Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA). “Não faz sentido tratar mal os animais. Afinal, o produtor cria um boi durante dois anos. Na hora que ele está pronto para ser abatido é transportado de forma errada. O boi chega ao frigorífico cheio de lesões, hematomas e com sinais muito claros desse tipo de estrago na carcaça. Isso tudo é perda. O bem-estar tem que estar presente também no transporte”, diz Antônio Augusto Silva, diretor da WSPA Brasil. Pecuária leiteira - Na fazenda Germânia, em Taiaçu, interior de São Paulo, o proprietário Maurício Vital mostra como o manejo racional e os bons-tratos podem ser vantajosos na pecuária leiteira. Com a ajuda de pesquisadores do Grupo Etco da Unesp, eles conseguiram reduzir a mortalidade dos bezerros e diminuir os custos de produção. O foco do trabalho foram os animais de até três meses, que antes ficavam presos nos abrigos individuais e, agora, são criados juntos, soltos no pasto. À noite, eles vão para o galpão. A consultora do 24 Terra Brasil Março/2010 As camas dos bezerros, antes serragem, são agora de capim seco. Grupo Etco, Lívia Carolina Magalhães Silva conta que a cama em que os bezerros dormiam era feita com serragem. Agora, é forrada com capim seco, tem espessura maior, de dez centímetros, para proporcionar conforto e diminuir as partículas de poeira em suspensão. “A vantagem de não ter poeira é que diminui a incidência de problemas respiratórios, muito comuns nos bezerros”, explica. As tigelinhas, onde os bezerros bebiam e, às vezes, inalavam o leite acidentalmente, foram substituídas. No lugar delas, entraram os baldes com bico, que ajudam a satisfazer a necessidade de sucção dos bezerros. A intenção é tornar o processo o mais próximo possível da mamada natural. Os baldes ficam a 40 centímetros do chão, na mesma altura da teta da vaca. As funcionárias responsáveis pelos bezerros, Cleidiane e Eliane Mascarenhas, acreditam que o contato permanente não só engorda, mas também previnem doenças, melhora a defesa imunológica e facilita o manejo dos bezerros. Um levantamento feito pela equipe mostrou que a mortalidade caiu de 20 para dois bezerros por ano. Os casos de diarreia e pneumonia diminuíram 50% e os gastos com an- tibióticos caíram. Para a zootecnista do Grupo Etco, Carla Ferrarini, bezerros felizes e livres de estresse tendem a ser mais saudáveis e, portanto, mais lucrativos. As granjas de aves e suínos - O bem-estar em sistemas produ- tivos de aves e suínos, de maneira geral, já conta com instalações e manejo adequados. A Embrapa Aves Suínos, em Concórdia-SC, vem desenvolvendo pesquisas sobre boas práticas no trato com animais. Também investigam as estruturas dos caminhões que transportam animais. No entanto, a maior dificuldade dos pesquisadores é oferecer uma alternativa economicamente viável aos criadores para o uso de gaiolas em aves poedeiras e porcas em gestação. Iniciativas em propriedades com produção diferenciada buscam alternativas aos sistemas convencionais. Quem visita a granja produtora de ovos localizada em Ipeúna, região central do estado de São Paulo, pode verificar que as aves são criadas soltas no galpão, com poleiros e ninhos para botar os ovos. Tudo é feito para que os animais sintam como se estivessem soltos na natureza. O gerente industrial da granja, Luis Carlos Demattê, explica que as aves recebem, na ração, produtos naturais, como extratos e óleos essenciais, além de um produto com cheiro de erva-doce, para simular algo que a ave encontraria na natureza. “Essas substâncias contribuem para melhor funcionamento digestivo dos animais, favorecendo o equilíbrio entre o meio interno da ave com o seu ambiente externo, ou seja, a própria granja. Entendemos que isso é um aspecto fundamental, quando abordamos a questão do bem-estar do animal”, diz Luis Carlos. Frango orgânico - Tratamen- to parecido recebe a criação de frango orgânico para engorda. As aves, desde o seu primeiro dia, são criadas com manejo diferenciado e, a partir do 25º dia, ganham liberdade nos piquetes. É uma espécie de semiconfinamento para produzir carne em conformidade com as normas de produção orgânica nacionais e internacionais. “É fundamental que os animais estejam bem, sem estresse constante. O estresse crônico debilita o sistema de defesa dos animais, tornando- os mais vulneráveis a doenças”, explica Luis Carlos. Fiscais agropecuários do Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura, por meio de cooperação com a WSPA, estão sendo capacitados para atender às normas do Mapa de abate humanitário de bovinos, suínos e aves. No programa do treinamento, os profissionais também aprendem com conceitos internacionais da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) e da União Europeia na aplicação de boas práticas de manejo pré-abate e de abate. No Brasil, a questão de maus-tratos animais, regulamentada em 1934, estabeleceu medidas de proteção dos animais. Normas do Ministério da Agricultura abordam o tema especificamente para animais criados para obtenção de carne, leite, ovos, lã, pele, couro e mel. Hoje, o Brasil é considerado o País da América do Sul melhor organizado nessa questão. Recomendações do Mapa de boas práticas para os animais envolvendo os sistemas produtivos e transporte (IN nº 56/2008): 1. Proceder ao manejo cuidadoso e responsável desde o nascimento, a criação e o transporte. 2. Possuir conhecimento básico de comportamento animal a fim de proceder ao adequado manejo. 3. Proporcionar dieta satisfatória, apropriada e segura adequada às várias fases da vida do animal. 4. Assegurar que as instalações sejam projetadas apropriadamente aos sistemas de produção de diferentes espécies de forma a garantir a proteção, o descanso e o bem-estar. 5. Manejar e transportar os animais de forma adequada para reduzir o estresse e evitar contusões e o sofrimento desnecessário. 6. Manter o ambiente de criação em condições higiênicas. 25 Terra Brasil Março/2010 Verdadeiras forças-tarefa de fiscalização nas fronteiras contribuem para a prevenção e o controle do ingresso de pragas no País Controle de pragas vegetais protege a economia brasileira De Rio Jari, que separa Monte Dourado de Laranjal do Jari, regiões que estão livres da mosca da carambola. 26 Terra Brasil Março/2010 um braço do rio, os amapaenses do município de Laranjal do Jari podem avistar facilmente os paraenses de Monte Dourado e essa proximidade faz com que as duas áreas sejam consideradas uma só, já que a travessia de barco não chega a durar cinco minutos. Juntamente com a cidade de Vitória do Jari-AP, a região está livre da mosca da carambola, praga que torna as frutas hospedeiras impróprias para consumo e ainda pode prejudicar as exportações, causando danos à economia brasileira. Há dois anos, porém, a situação era diferente na área conhecida como Vale do Jari. Em 1996, a mosca entrou no Brasil, pelo município de Oiapoque-AP, vinda da Guiana Francesa, e, apesar do nome, não ataca apenas a fruta agridoce, que é a principal hospedeira. Manga, goiaba, acerola e caju também são alvos da Bactrocera carambolae (nome científico), além de outras bastante conhecidas no Norte do País, como jambo, taperebá e abiu. 27 Terra Brasil Março/2010 A gravidade da possível dispersão da praga pelo território nacional fez com que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) criasse o Programa Nacional de Erradicação da Mosca da Carambola (PNEMC) há 13 anos. O Vale do Jari tornou- se o foco principal de atenção, pois a ameaça de ingresso da praga no Pará poderia seguir em duas direções principais: o Nordeste, devastando os pomares do Vale do São Francisco e o Sul, pela Rodovia Belém/Brasília. Em termos gerais, praga é qualquer agente patogênico, ou micro-organismo, que causa danos a vegetais ou seus produtos, como frutos, sementes e folhas. Segundo a coordenadora do programa, Maria Julia Godoy, a maior barreira fitossanitária da fruticultura nacional é, hoje, a mosca da carambola. “Os países importadores, que não têm a praga, não 28 Terra Brasil Março/2010 aceitam comprar de quem as tem. Cláusulas como essa são comuns nas negociações para exportação de produtos agrícolas. Se hoje o Pará tivesse incidência da mosca, teríamos a obrigação de avisar ao Japão, por exemplo”, explica. Em 2008, a área foi oficialmente declarada livre da mosca, mas as equipes combatentes não descansam nos dois estados. Desde então, três frentes atuam no controle póserradicação na região do Jari, na tentativa de extermínio da mosca da carambola em cinco municípios do Amapá, incluindo a capital, Macapá, e na contenção da praga no Oiapoque, fronteira com a Guiana Francesa. Trabalho de convencimento Ao ver de perto o trabalho da Superintendência Federal de Agricultura no Estado do Amapá (SFA-AP), a impressão é de que a mosca da carambola tornou-se parte da vida das equipes. Para realizar teatro de fantoches e explicar o perigo da mosca da carambola, Jacirene Maia, do Núcleo de Educação Sanitária do programa, literalmente veste a camisa e vai, de casa em casa, em uma comunidade do Braço, em Monte Dourado, chamando as crianças para a apresentação. Minutos depois, 40 meninos e meninas chegam à igreja local para ver a peça. As crianças assistem atentas à história de Dona Virtuosa, que fez o curso de multiplicadores de informações e tornou-se agente do PNEMC, transmitindo à família e aos amigos os conhecimentos adquiridos, como a proibição de levar frutas para outros estados ou comprá-las de áreas contaminadas, como Macapá. Por trás da boneca, que se empenha em ajudar o País a conter a praga, Jacirene trabalha também levando esse conceito a lugares de grande circulação, como portos, terminais rodoviários e feiras livres. seriam entre 65 a 88 dólares. “Isso reforça o conceito de que a melhor e mais econômica forma de controle é a prevenção”, diz Maria Julia Godoy. Acompanhada de agentes multiplicadores, ela distribui panfletos educativos e conversa com a população: “Boa tarde, a senhora já ouviu falar da mosca da carambola?”. Assim ela inicia a abordagem breve e amistosa, para passar a mensagem de que a praga estraga a produção de diversas frutas e pode causar graves prejuízos à economia do Brasil. Erradicação e controle Não há estimativas sobre o impacto financeiro que as perdas de frutas causariam ao País, caso a praga se espalhasse. No entanto, estudo do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) aponta que, para cada dólar investido na erradicação da praga, os benefícios Pulverização e armadilha, armas contra a expansão da mosca da carambola. Jackson e Mc Phail são as armadilhas que, até hoje, ajudam a manter a erradicação da mosca na região do Jari. A primeira atrai e captura moscas machos, por meio do feromônio e a segunda, principalmente, as fêmeas, pelo odor que remete à fruta. A cada 15 dias, técnicos percorrem propriedades para monitorar a presença da mosca. Em Macapá, a ação é mais agressiva. Para exterminar a mosca, são realizadas pulverizações por baixo das folhas e lançados, nas árvores, blocos de aniquilamento que matam a mosca. A coleta de frutos também é parte da ação. Equipe do Núcleo de Educação Sanitária (SFA-AP) orienta a população. 29 Terra Brasil Março/2010 Outras pragas Portas de entrada e barreiras As pragas põem em risco lavouras de extrema importância na O Brasil faz fronteira com dez países agricultura. É o caso da ferrugem e praticamente todos os 16,8 mil asiática da soja (Phakopsora pachyrhi- quilômetros dessa extensão podem zi), que apareceu no País na safra apresentar perigo para a produção 2001/2002 e está instalada em agrícola. Por conta dessa proximidaestados com considerável produção, de e do trânsito fácil entre brasileicomo Mato Grosso, Mato Grosso do ros e estrangeiros, é fundamental a Sul e Paraná. O principal problema contínua estruturação de barreiras é a desfolha precoce, que impede fitossanitárias para produtos vegea completa formação de grãos e tais em portos e aeroportos. Essa prejudica a produtividade. As altas é a forma de prevenir o ingresso temperaturas e o excesso de chuva dessas pragas quarentenárias pela favorecem o deconcentração senvolvimento na entrada de Praga: qualquer espécie, da praga, caumercadorias e sando perdas de passageiros que estirpe ou biótipo de planta, até 80%. podem oferecer animal ou agente patogênico maior risco de Uma das formas que cause injúrias em plantas material hospede manejo da deiro por pragas. ou produtos de plantas. ferrugem asiática é o chamado “Se permitísseFonte: Convenção Internacional para vazio sanitário, mos a entrada a Proteção dos Vegetais (CIPV). que proí be o de determinaplantio da soja dos materiais na entressafra. O objetivo é reduzir sem nenhum requisito fitossanitáa quantidade de esporos do fungo no rio, poderíamos estar ‘carimbanambiente e inibir o ataque precoce à do o passaporte’ dessas pragas”, soja durante a safra. explica a doutora em Ciências e Detectado em 2004, o greening é consultora em Defesa Agropecuária uma praga que prejudica a citricul- e Análise de Risco de Pragas, Regina tura nacional. Ele requer atenção Sugayama. pelo alto poder destrutivo em frutas cítricas (laranja, limão, tangerina) e atinge os estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Com mais de um milhão de hectares plantados com frutas cítricas, o País é grande exportador de suco de laranja. Em 2009, os embarques do produto somaram US$ 1,6 bilhão. As ações de defesa para impedir a propagação da praga são importantes para preservar esse segmento. 30 Terra Brasil Março/2010 O documento de Certificação Fitossanitária de Origem (CFO) é emitido para evitar que pragas existentes no Brasil sejam transportadas para regiões livres e também para auxiliar o processo de exportação. Ele permite a rastreabilidade e atesta a condição fitossanitária dos lotes, partes de plantas ou de produtos vegetais, na origem, de acordo com as normas internacionais de defesa sanitária vegetal. No ano passado, a praga Raoiella indica Hist se instalou na área urbana de Boa Vista-RR, vinda, possivelmente, da Venezuela, Trinidad e Tobago ou do Caribe. Popularmente conhecida como “ácaro vermelho”, ataca coqueiros, palmeiras nativas, bananeiras e espécies ornamentais. Em medida emergencial, o Mapa suspendeu temporariamente o trânsito desses hospedeiros de Roraima para qualquer local do Brasil, o que afetou o comércio de bananas do estado. cetíveis”, completou. Nas áreas de ocorrência, três variedades já se mostraram suscetíveis à praga. Manter longe do País a monília do cacau (Moniliophthora roreri) também é uma ação que requer forte vigilância fitossanitária nas fronteiras com Peru, Colômbia e Venezuela. A monília é endêmica do noroeste da América Latina e de alguns países da América Central. Pode ser introduzida no Brasil pelos estados da Amazônia Ocidental e se espalhar por outras regiões produtoras por meios naturais, como ventos, insetos e animais silvestres. Como medida emergencial, o Ministério da Agricultura deve aprovar o primeiro fungicida para combate à ferrugem alaranjada. Ferrugem alaranjada: a ameaça aos canaviais Com mais de oito milhões de hectares cultivados no Brasil, a cana-de-açúcar sempre teve grande importância na produção agrícola e está arraigada na cultura nacional, desde os tempos coloniais. Do açúcar, com estimativa de 34,5 milhões de toneladas para a safra 2009/2010, ao etanol, com 29,5 bilhões de litros no mesmo período, a cana é a terceira maior cultura do País, em termos de área plantada. Ainda em Piracicaba, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) investiga variedades mais resistentes à ferrugem alaranjada. Entre os estudos feitos para o melhoramento genético das plantas está a avaliação do comportamento diante de pragas e doenças, medida fundamental para o melhoramento genético, segundo o coordenador de Pesquisa Tecnológica, Enrico Arrigoni. São Paulo, o maior produtor nacional, sofreu com a entrada de uma das maiores ameaças aos canaviais nos últimos anos. A ferrugem alaranjada (Puccinia kuehnii) é causada por um fungo que, como o próprio nome diz, deixa nas folhas a cor laranja, reduz a fotossíntese da planta e prejudica a produção de sacarose. A praga é perigosa, pois sua disseminação é feita pelo vento em curtas, médias ou longas distâncias. Estudo australiano aponta que a ferrugem atinge cerca de 600 quilômetros por semana para dispersão. Além disso, os esporos podem ser levados pelo homem nas roupas, calçados ou transporte de material vegetal. No Brasil, a praga já está presente em canaviais paulistas e paranaen- ses. Em Piracicaba, a 180 quilômetros de São Paulo, o administrador da fazenda Capuava, José Carlos Rodrigues, conta que, dos 1,5 mil hectares plantados, 25% estão infectados com a ferrugem. “Em dezembro, quando soube da entrada da praga em São Paulo, fui imediatamente identificar a parte da lavoura com a variedade suscetível. Estava toda contaminada.”, lamentou. Segundo André Peralta, diretor de sanidade vegetal do Mapa, pesquisadores acreditam que 70% das variedades plantadas de cana-deaçúcar são resistentes à ferrugem alaranjada. O melhor método de controle é plantar essas variedades. “As áreas onde a doença já chegou devem ser priorizadas quando da substituição das variedades sus31 Terra Brasil Março/2010 Ácaro vermelho (Raioella indica Hist) O que é: praga que atinge as palmeiras, bananeiras e plantas ornamentais tropicais. Na plantação atingida, as folhas da bananeira ficam amarelas e os cachos pequenos e malformados. A praga raspa a superfície da folha e suga a seiva, enfraquecendo a planta. Onde está: no Brasil, restringe-se à região urbana de Boa Vista-RR. Pode ser encontrado na Venezuela, Trinidad e Tobago e países do Caribe. Greening ou Huanglongbing (HBL) O que é: bactéria (Candidatus Liberibacter) que afeta os citros (laranja, limão e tangerina), deixando suas folhas amareladas e mosqueadas e os frutos imprestáveis à comercialização. Onde está: em São Paulo, Paraná e Minas Gerais. É endêmica nos Estados Unidos, África e Ásia. Ataca: citros (laranja, limão, tangerina). Ataca: coqueiros, palmeiras nativas e ornamentais, bananeiras, helicônias (flor de Narciso) e outras espécies ornamentais. - Foto: Josiane Takassaki Ferrari Monília do cacau ((Moniliophthora roreri) Ferrugem Alaranjada (Puccinia kuehnii) O que é: fungo que afeta folhas da cana-de-açúcar, redu zindo sua capacidade de fotossíntese e, em consequência, a produção de sacarose. Sua disseminação é feita pelo vento em curtas, médias ou longas distâncias. O ser humano também pode transportar os esporos. Onde está: nos Estados Unidos, Guatemala e países vizinhos, além da Austrália. A praga foi identificada pela primeira vez no Brasil no fim de 2009 e atinge os estados de São Paulo e do Paraná. Ataca: cana-de-açúcar. Ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi) O que é: fungo que ataca as folhas da soja, diminui a quantidade de vagens e o peso dos grãos. A praga é favorecida por altas temperaturas e excesso de chuva e as perdas causadas podem chegar a 80%. Onde está: a ferrugem asiática no Brasil ocorreu, pela primeira vez, na safra 2001/2002 e pode ser detectada em qualquer plantação de soja no Brasil. Ataca: soja. 32 Terra Brasil Março/2010 O que é: fungo Moniliophthora roreri, que produz 10 tipos de sintomas nos frutos. Destacam-se manchas verdes ou amarelas, inchaço e/ou depressão nos pontos da infecção, deformações, protuberâncias e rachaduras. Onde está: no noroeste da América Latina e também de alguns países da América Central. Foi registrada pela primeira vez no Equador, em 1917, de onde se disseminou para a Colômbia ,Venezuela, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Peru, Honduras e Belize. A doença não existe no Brasil. Ataca: cacau. Mosca da carambola ((Bactrocera carambolae) O que é: inseto que ataca frutos, deixando-os impróprios para consumo. É mais perigosa que outras porque a fêmea se reproduz muito rápido e os ovos são chamados bichos da fruta. Onde está: originária da Malásia e Indonésia, a praga foi encontrada no Suriname, em 1985. Em 1989, chegou à Guiana Francesa e em 1996 foi detectada no município de Oiapoque-AP. A praga está erradicada em municípios do Pará e Amapá, mas encontra-se no norte amapaense e na capital, Macapá. Ataca: carambola, goiaba, manga, caju, jaca, laranja, pitanga, jambo vermelho e taperebá, entre outras. 33 Terra Brasil Março/2010 Alimentação Animal P a ra ga ra n t i r a li me nto s d e origem animal d e q u a l id a d e aos consumidores, é importante observar as rações animais no seu processo de fabricação. final e garantir a segurança dos alimentos à população”, enfatiza Perrone. Score de Cocho - Na fazenda Monte Alegre, os funcionários verificam se a quantidade de ração servida aos animais está adequa- da, por meio do Sistema Score de Cocho. “Todos os dias, às 6 horas da manhã, analisamos as sobras do dia anterior e avaliamos a necessidade de modificar ou não o alimento, para manter o bom desempenho do animal”, informa. No município de Barretos, em São Paulo, o proprietário da fazenda Monte Alegre, André Luiz Perrone dos Reis, fornece rações quatro vezes por dia aos 1,2 mil bois, sendo duas vezes na parte da manhã e duas à tarde. “A dieta é composta por 32% de polpa cítrica, 25% de germe de milho, 22% de farelo de algodão, 17% de bagaço de cana, 3,5% de núcleo e 0,5% de ureia”, explica. Qualidade da alimentação animal garante a segurança do consumo 34 Terra Brasil Março/2010 Esses ingredientes passam pelo misturador, o que confere homogeneidade ao alimento. Cada batida leva cerca de seis minutos e produz 5,8 mil quilos. Em seguida, a ração é distribuída aos animais. “O manejo alimentar adequado é indispensável para diminuir a incidência de distúrbios metabólicos nos animais, minimizar a presença residual de medicamentos no produto 35 Terra Brasil Março/2010 foram abatidos 18,5 mil animais da Fazenda Monte Alegre e, em 2010, a expectativa é chegar a 24 mil. “Compramos animais de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo, na faixa de 18 a 30 meses, que são engordados em confinamento e a carne é enviada para mais de 80 países”, afirma. Na fazenda Monte Alegre, a aspersão de água é feita duas vezes por dia (de manhã e à tarde) para diminuir a poeira do local, proporcionar maior conforto térmico, melhorar a eficiência alimentar e o bem-estar do animal. Medicamentos - Para que as empresas fabriquem alimentação anima l com adição de medicamentos aprovados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), é necessária habilitação prévia. Além disso, é preciso respeitar as regras da Instrução Normativa De acordo com Perrone, quando os funcionários encontram, por três dias consecutivos, o Score de Cocho zero, a quantidade de alimento fornecida aos animais é aumentada em 5%. Rastreabilidade - Os bois permanecem de 95 a 98 dias confinados na fazenda Monte Alegre e, nesse período, estão prontos para o abate. “Assim, respeitamos os requisitos da União Europeia, de permanência mínima de 90 dias na propriedade, já que exportamos para aquele mercado. Em nosso sistema, existe ganho diário de 1,5 quilo por animal”, destaca o proprietário. Segundo o diretor de Suprimentos de Frigorífico em Barretos, Wagner José Augusto, em 2009, 36 Terra Brasil Março/2010 Wagner J. Augusto e André Luiz P. dos Reis, parceiros quando se trata de qualidade da alimentação animal. Fiscalização O registro de ingredientes, rações, suplementos, concentrados e alimentos coadjuvantes para cães e gatos deve atender ao Decreto nº 6.296/2007 e às Instruções Normativas nº 15/2009 e nº 22/2009. Cabe aos fiscais federais agroagropecuários do Ministério da Agricultura a conferência dos estabelecimentos que fabricam, importam, fracionam e comerciam produtos destinados à alimentação animal. Para isso, as empresas precisam ter registro no Ministério da Agricultura e aplicar as Boas Práticas de Fabricação (BPFs). Assim, os produtos destinados à alimentação animal serão produzidos de forma segura e livre de resíduos de medicamentos, contamicontaminantes inorgânicos ou drogas que tenham reflexos na saúde humana. n° 65, de 2006, da Secretaria de Defesa Agropecuária. “Os estabelecimentos registrados devem solicitar auditoria ao Ministério da Agricultura, que avaliará as boas práticas de fabricação, instalações, equipamentos, utensílios e procedimentos operacionais, bem como a validação do processo de limpeza dos equipamentos”, enfatiza a responsável técnica da área de Alimentação Animal da Superintendência Federal de Agricultura em São Paulo, Renata Anaruma. Nos casos em que são detectadas irregularidades, a empresa é autuada e pode receber sanções, que vão desde advertência à cassação de registro. Análises - O Ministério da Agricultura dispõe de uma rede específica para análises e diagnósticos laborator iais. Uma das unidades oficiais é o Laboratório Nacional Agropecuário (Lanagro), em Campinas-SP, que recebe para análises amostras dos alimentos animais enviados pelos serviços de fiscalização agropecuária. “O primeiro passo é registrar a entrada da amostra, identificá-la, analisar a documentação e as condições de armazenamento do produto. Depois, verificamos o código do estabelecimento onde foi coletado e encaminhamos para uma das unidades de exames”, explica a responsável substituta pela Unidade de Recepção de Amostras, Ester Garcia Rossi. O Lanagro, em Campinas, é especializado em análises de alimentos para animais em unidades de microbiologia, físico-química e de microscopia. Entre os testes realizados na área de microbiologia, encontra-se a detecção de salmonella em rações, um dos principais patógenos que prejudicam o desempenho do animal. “A bactéria pode causar problemas gastrointestinais, como vômito e diarreia, nos seres humanos”, ressalta Anaruma. Na unidade de Microscopia, é pesquisada a presença de subprodutos de origem animal não permitidos em rações para ruminantes (bovinos, caprinos e ovinos), como farinhas de carne e ossos, vísceras e sangue. Esse programa de controle tem o objetivo de diminuir o risco de incidência da Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), a “doença da vaca louca”, nunca registrada no Brasil, que causa danos ao sistema nervoso dos animais. A análise físico-química verifica a conformidade das rações e das matériasprimas com a descrição no rótulo. Em 2009, a rede de laboratórios do Mapa analisou 1.250 amostras para verificar a conformidade dos produtos destinados à alimentação animal em relação aos aspectos bromatológicos, 255 amostras para identificar a presença de salmonella e 857 para detectar ingredientes de origem animal em alimentos de ruminantes. 37 Terra Brasil Março/2010 Mercado - O Brasil é o terceiro maior produtor de alimentos para animais, atrás dos Estados Unidos e China. Dados do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações) apontam que a produção brasileira de ração animal, em 2009, foi de 58,4 milhões de toneladas. A maior demanda foi para o segmento de avicultura (32,64 milhões de toneladas), seguido pelo de suínos (15,33 milhões de toneladas). “A expectativa, para 2010, é de crescimento de 5% na produção de rações”, ressaltou o vice-presidente executivo do Sindirações, Ariovaldo Zanni. Fábrica de alimentação animal. 38 Terra Brasil Março/2010 39 Terra Brasil Março/2010 Cenários futuros: Ministério da Agricultura estuda comportamento de 23 produtos até 2020 E studo realizado pelo Ministério da Agricultura aponta que a produção de grãos - soja, milho, trigo, arroz e feijão - deverá crescer 36,7%, de 129,8 milhões de toneladas em 2008/09 para 177,5 milhões em 2019/2020. As carnes bovina, suína e de aves deverão seguir percentual parecido, com aumento de produção estimado em 37,8%. O incremento deve ser de 8,4 milhões de toneladas. Três outros produtos com elevado crescimento previsto são: açúcar (mais 15,2 milhões de toneladas), etanol (35,2 bilhões de litros) e leite (7,4 bilhões de litros). Projeções do Agronegócio apontam crescimento da produção de grãos em 37%. 40 Terra Brasil Março/2010 O óleo de soja e a celulose merecem atenção, na opinião de Gasques. “O óleo de soja segue tendência mundial, pois a demanda tem crescido nos mercados interno e externo, inclusive para a utilização do produto como biocombustível. No caso da celulose, o crescimento será expressivo, por conta da substituição de florestas nativas por plantadas”, afirma. “O Brasil vai apresentar, nos próximos anos, aumento das exportações e o mercado interno será um fator expressivo de crescimento”, destaca Gasques. Do aumento previsto nos próximos anos na produção de soja e milho, 52% e 80%, respectivamente serão dirigidos ao mercado interno. Produção versus área De acordo com a pesquisa, o avanço da produção agrícola no Brasil deve ocorrer com base na produtividade. Os resultados revelam maior aumento na agropecuária do que na área plantada. As projeções indicam que, de 2010 a 2020, a taxa anual média de crescimento das lavouras deve ser de 2,67%, enquanto a área deverá se expandir anualmente em 0,45%. O coordenador da pesquisa realizada pela Assessoria de Gestão Estratégica (AGE), José Gasques, explica que os produtos mais dinâmicos do agronegócio brasileiro deverão ser: soja, carne de frango, açúcar, etanol, algodão, óleo de soja e celulose. Esses produtos indicam maior potencial de crescimento da produção e das exportações para os próximos anos. A pesquisa mostra cenários de produção, participação no mercado mundial, exportação e consumo de 23 produtos da pauta agropecuária do País. 41 Terra Brasil Março/2010 As estimativas realizadas até 2019/2020 indicam que o total da área plantada deve passar de 60 milhões de hectares em 2010 para 69,7 milhões em 2020, com incremento de 9,6 milhões de hectares. Essa expansão de área está concentrada na soja (mais 4,7 milhões de hectares) e na cana-de-açúcar (mais 4,3 milhões). A área do milho deve crescer por volta de um milhão de hectares e as demais lavouras analisadas se mantêm praticamente sem alteração ou perdem área, como o café, arroz e laranja. Projeções regionais Soja - A produção mato-grossense de milho e soja deverá aumentar, até 2020, 94,3% e 55,6%, respectivamente. Do mesmo modo, a área de soja em Mato Grosso deverá ser acrescida de 2,46 milhões de hectares. Esse número representa quase metade da expansão da plantação da commodity no Brasil, estimada em cinco milhões de hectares em 10 anos. Novas áreas e a introdução da soja em superfícies de pastagens degradadas serão responsáveis por esse desenvolvimento no estado. No Paraná, a soja ganha aproximadamente um milhão de hectares até o final das projeções e o Rio Grande do Sul mantém a área quase inalterada nos próximos anos. Milho - No Paraná, a produção de milho indica possível incremento de 50,2%. Em 2008/2009, o resultado foi de 11,1 milhões de toneladas e as projeções indicam que, na safra 2019/2020, o número passará a 16,6 milhões. De acordo com as estimativas, o crescimento da área no 42 Terra Brasil Março/2010 estado sulista será de 17%, saindo de 2,78 milhões de hectares para 3,25 milhões. Minas Gerais deve registrar aumento de 32,9% na quantidade produzida, passando de 6,45 milhões de toneladas para 8,57 milhões. A produção mineira, no entanto, terá a área reduzida em 7%, caindo de 1,28 milhão para 1,18 milhão de hectares. Cana-de-açúcar - As projeções mostram que o estado de São Paulo deverá aumentar a produção de cana-de-açúcar em 50,3% nos próximos anos, passando de 400,5 milhões de toneladas em 2008/09 para 602 milhões em 2019/2020. Por sua vez, a área canavieira nesse estado deve expandir em 46%, 4,7 milhões de hectares em 2008/09 para 6,8 milhões em 2019/2020. Destaque para a cana-de-açúcar, que vem crescendo em estados sem tradição na atividade, como: Paraná, Mato Grosso e Minas Gerais. Esse último, deve incrementar 75% na cultura, passando de 56 milhões de toneladas, na safra 2008/2009, para 98,15 milhões, em 2019/2020. Carnes brasileiras despontarão no mercado externo A produção nacional de carnes deverá suprir, até 2020, 44,5% do mercado mundial. Em 2010, a participação do Brasil nas exportações mundiais de carnes bovina, suína e de frango devem ficar em 37,4 %. 222,9%, passando de 4,6 bilhões de litros, na safra 2008/2009, para 15,1 bilhões de litros, no período 2019/2020. Também devem apresentar expressivo incremento as exportações de algodão (91,6%), leite (84,3%), carne bovina (82,8%), milho (80,3%), carne de frango (71,5%) e óleo de soja (52,8 %). Haverá expressiva mudança de posição do Brasil no mercado mund ia l. A relação entre as exportações brasileiras e o comércio mundial mostra que, em 2019/2020, a carne bovina representará 30,3% das negociações internacionais do produto. A carne suína ocupará 14,2% e a de frango, 48,1% do comércio. Os resultados indicam que o Brasil continuará a manter sua posição de primeiro exportador mundial de carnes bovina e de frango. Um dos principais itens na pauta comercial do Brasil, a car ne bovina, ficou em patamar inferior em comparação com estudos anteriores. Gasques explica que a crise financeira internacional, em setembro 2008, impactou as exportações, refletindo na dinâmica do produto. De acordo com o coordenador, nos próximos anos, o agronegócio brasileiro sofrerá dupla pressão. “Haverá aumento do consumo interno, por conta do crescimento da renda, e grande demanda do mercado mundial.”. Os embarques de etanol têm estimativa de crescimento de 43 Terra Brasil Março/2010 44 Terra Brasil Março/2010 45 Terra Brasil Março/2010 O Cerrado é a segunda formação vegetal predominante no Brasil e ocupa mais de 24% do território, com grande variedade de cores, formas e sabores As formas intrigantes da vegetação do bioma Cerrado, que se caracteriza por pequenos arbustos e árvores baixas e retorcidas, abrigam uma diversidade de espécies que começou a ser explorada nos últimos 50 anos. Com o desen- volvimento da área, rapidamente a região foi inserida no contexto da produção de alimentos e, hoje, mais de 25% da colheita nacional de grãos é proveniente desse bioma. Localizado, principalmente, no Planalto Central do Brasil, o Cerrado ocupa 24% do território nacional, pouco mais de dois milhões de quilômetros quadrados. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 61,2% ainda são preservados, com a maioria da área distribuída nos estados de Minas Gerais, Goiás, do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, da Bahia, do Piauí, Maranhão e Distrito Federal. Depois do bioma amazônico, o Cerrado é a segunda maior formação vegetal brasileira e a savana tropical mais rica em biodiversidade no mundo. O processo de desenvolvimento agrícola do Cerrado preocupa agrônomos e ambienta listas quanto à sustentabilidade do ecossistema. A ação direta e constante das queimadas e do desmatamento vem contribuindo de forma significativa para a ex- 46 Terra Brasil Março/2010 tinção de muitas espécies animais e vegetais, incluindo as fruteiras nativas, base de sustentação da vida silvestre e alimento de fundamental importância na dieta alimentar de algumas comunidades indígenas e rurais. Segundo estudos e levantamentos realizados por técnicos da unidade de Cerrados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), várias frutas nativas têm consumo consagrado e significativa importância cultural nas regiões do Cerrado. Muitas são altamente nutritivas, pois, além do valor energético, são também ricas em vitaminas, sais minerais e propriedades medicinais. A diversidade é enorme. Segundo a pesquisadora da Embrapa Cerrados, Ana Maria Costa, são aproximadamente 60 mil espécies de fauna e flora, sendo mais de dez mil tipos de plantas e seis mil variedades de frutas, a maior parte com potencial para a alimentação humana. “Dentro da mesma espécie, temos frutas com diferentes qualidades nutricionais, condições de adaptabilidade e produtividade”, explica. Bioma Cerrado Fonte: Embrapa. 47 Terra Brasil Março/2010 U s o d i ve r s i f i c a d o - A Amora-Preta Ananás Araçá Araticum Araticum-- ddee - Casca-Lisa Araticum Araticum-RRRasteiro Araticumasteiro Babaçu Bacupari Banha-- ddee - Galinha Banha Baru Buriti Cagaita Cajazinhoo - ddoCajazinh o- Cerrado Caju-- ddee -ÁrvoreCaju -Árvore- ddoo - Cerrado Caju-RRRasteiro Cajuasteiro Cajuzinhoo - ddoCajuzinh o- Cerrado Chichá Coquinhoo - ddoCoquinh o- Cerrado Croadinha Curriola FFrut ruto - ddee -TTatu ruto atu Gabiroba Gravatá Guapeva Guariroba Ingá-- ddoIngá o- Cerrado Jaracatiá Jatobá-- ddoJatobá o- Cerrado Jatobá-- da-Mata Jatobá 48 Terra Brasil Março/2010 Jenipapo Jerivá Lobeira Macaúba Mama-- Cadela Mama Mangaba Maracujá-- ddeMaracujá e- Cobra Maracujá-- ddoMaracujá o- Cerrado Maracujá-Doce Maracujá-Nativo Maracujá-RRRoxo Maracujáoxo Marmelada-- ddee -Bezerro Marmelada Marmelada-- ddeMarmelada e- Cachorro Marmelada-- ddee -PPinto Marmelada into Melancia-- ddoMelancia o- Cerrado Murici PPalmit almito- da-Mata almitoPPequi equi PPequi-Anão equi-Anão PPera era- ddoo- Cerrado PPerinha erinha PPimenta imenta- ddee -Macaco PPitanga itanga-VVermelha ermelha PPitomba itomba- ddoo- Cerrado PPuçá uçá Saputá TTucum ucum- ddoo - Cerrado Uva-- ddoUva o- Cerrado mangaba é bastante apreciada por moradores de Goiás e Minas Gerais. Tem sabor característico e não chega na gôndola do supermercado porque se estraga rapidamente. Porém, segundo a pesquisadora, poucos sabem que o látex da fruta tem potencial para produção de borracha, já que é mais fino e delicado que o da seringueira. “Esse é um exemplo de uso diversificado das frutas do Cerrado, ainda pouco conhecido. Além de ser um ingrediente delicioso para suco, contém fibras e antioxidantes”, informa. Algumas espécies de maracujá podem ser utilizadas como vermífugos, a partir de sementes torradas. De outras variedades da fruta é possível utilizar as folhas, até para fazer emplastro (medicação caseira colocada sobre a pele) para picada de cobra. Além das espécies em estudo para auxiliar no controle de doenças como o câncer. Contudo, a pesquisadora recomenda o uso de medicamentos caseiros somente com acompanhamento de profissional especializado, para evitar efeitos por mau uso dessas plantas. O emprego mais comum para as frutas do Cerrado é a fabricação de sucos, geleias, doces, licores, paçocas, barras de cereal, amêndoas, xaropes, farinhas, cosméticos, cremes emolientes e aromatizantes de ambiente. Na indústria de sucos, sorvetes e geleias, a demanda do mercado interno por novos sabores é cres- Cem gramas de semente de baru (típica fruta do Cerrado) fornecem cerca de 600 calorias e 26% de proteína. Em 100g da polpa de pequi, encontram-se 20 mil microgramas de vitamina A e em 100g da polpa de buriti contém 158mg de cálcio. cente. R ita de Medeiros, produtora de uma fábrica especializada em sorvetes e picolés de frutas do bioma, conta como nasceu a ideia de montar o negócio. “Pensamos em usar o sabor inigualável do Cerrado em forma de sorvete, assim, muitas dessas frutas, ainda pouco conhecidas, foram ganhando espaço na gastronomia brasileira”, explica. Das frutas utilizadas na fábrica, 17 variedades são colhidas e processadas na Cooperativa de Catadores de Frutas Nativas, em Goiás. “Colocamos em prática a utilização responsável dos recursos que a natureza oferece”, pontua a empresária. El a cont a que as frutas são beneficiadas, enviadas para a fábrica e transformadas em calda pura, que receberá os ingredientes básicos para a preparação do sorvete. Rita de Medeiros ressalta que, além da geração de emprego e renda na região, essa atividade ajuda a preservar um dos mais importantes patrimônios do planeta. Esses frutos possuem elevado valor nutricional, com atrativos sensoriais como: cor, sabor e aroma peculiares e intensos. “Alguns, como o araticum, o buriti, a cagaita e o pequi apresentam teores de vitaminas do complexo B equivalentes ou superiores aos encontrados no abacate, na banana e goiaba. Os frutos de palmeiras, como o buriti e a macaúba, são fontes de carotenóides pró-vitamina A”, ressalta. Hoje, a falta de técnicas para extrativismo sustentável limita o uso das frutas e do Cerrado de modo geral. “É necessário um trabalho coordenado e um sistema de cultivo que atenda às necessidades comerciais. Enquanto isso, temos que conscientizar o produtor para não tirar tudo da terra, deixar uma reserva do fruto para preservar a natureza”, ressalta a pesquisadora Ana Maria Costa. Com o objetivo de orientar esses produtores, a Embrapa Cerrados implantou unidades de observação em algumas propriedades de voluntários da região de Brasília e Entorno. Em frações das terras cedidas, são semeadas espécies para observação do crescimento da variedade, estudo e comparação do desenvolvimento da planta. “A partir daí, será criado um banco de dados de espécie que se adaptam melhor a uma determinada área”, enfatiza Ana Maria. A lg umas aná lises prév ias já apontam que o plantio de fruteiras pode auxiliar muito no enriquecimento da flora do Cerrado, fortalecer a área do ponto de vista ambiental, proteger nascentes e auxilia na recuperação de áreas degradadas. Muitas espécies são integralmente aproveitadas. O baru, por exemplo, produz a castanha consumida pelo homem e, como forrageira, protege o pasto e alimenta o gado. 49 Terra Brasil Março/2010 Extrativismo sustentável Recuperação - A principal vantagem ambiental das frutas do Cerrado é a utilização na recuperação de áreas degradadas por desmatamento. “Cada ambiente e paisagem do bioma tem uma estratégia de recuperação. A Embrapa Cerrados executa um trabalho de regeneração de ambientes de savana e utiliza 19 espécies nativas, como o pequi, baru, ingá, jenipapo e a mangaba”, explica a pesquisadora da Embrapa, Fabiana Aquino. Um experimento de recuperação leva anos para se consolidar em uma área degradada. Por isso é necessário fazer análises de solo, para identificar as espécies mais adequadas para cada área. A pesquisadora recomenda a diversidade biológica, evitando o plantio de uma única espécie. “Quanto mais variedades, melhor. A diversidade atrai mais dispersores que catalisam o processo de recuperação”, afirma. Os produtores devem consultar técnicos especializados para conhecer a região, verificar o grau de degradação, identificar o tipo de formação vegetal pertinente e se esse solo ainda tem banco de sementes. “A partir desses dados, será possível traçar uma proposta”, explica Fabiana Aquino. Os ganhos da recuperação a partir de fruteiras são grandes. “A atração dos animais silvestres é muito positiva, já que ao consumir as frutas e sementes essas serão dispersadas por meio dos dejetos, replantando a área. Com isso, acelera o processo de recuperação”, observa . 50 Terra Brasil Março/2010 Ingá. Baru. A Embrapa Cerrados vem orientando produtores das comunidades tradicionais Água Boa 2 e Vereda Funda, em Rio Pardo de Minas-MG, há mais de 100 anos, quanto ao planejamento do uso das áreas e recuperação ambiental com o cultivo de frutas do Cerrado. Segundo o agrônomo da Embrapa Cerrados e coordenador do projeto, a comunidade Água Boa 2 já possui uma unidade de produção de frutos e busca recursos para transformá-la em agroindústria. O processo de capacitação e da pesquisa é participativo, a comunidade decide o desenvolvimento e a utilização das técnicas. Basicamente, trabalham com a polpa do pequi para produção de óleo comestível. Atualmente, vêm aprimorando técnicas a partir da amêndoa do pequi, de alto valor agregado. “Dialogamos com a comunidade sobre o aproveitamento total da fruta: produção de farinha, pasta, polpa congelada, lascas em conserva e amêndoas. Tudo isso ali, no quintal de suas casas”, explica. Já a comunidade Vereda Funda possui uma cooperativa de produção e uma agroindústria implantada com o apoio do Ministério do Meio Ambiente, Sindicato dos Trabalhadores Rurais e do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, organização nãogovernamental (ONG) que atua com agricultores familiares na região. As atividades estão centradas na produção de frutas desidratadas e doces. “Os moradores conseguiram gerar renda a partir da comercialização de um recurso que usavam artesanalmente, em casa, o óleo de pequi”, ressalta. Ele informa ainda que os agricultores produzem, mas não sabem como vender. Todo o trabalho é feito de uma forma que não degrada o meio ambiente, com orientações a partir da coleta dos frutos. No caso da mangaba, o processo é especial, com limitação do número de frutos que devem ser colhidos sem comprometer o ecossistema. Seu Antônio e Dona Lúcia, moradores da comunidade Água Boa 2, afirmam que essas práticas servem para conscientizar os agricultores quanto à preservação ambiental. “Não podemos só tirar da planta, é necessário cuidar para que aqueles frutos nunca cheguem ao fim”, explica Seu Antônio. Já Dona Lúcia aponta que a autoestima das pessoas está crescendo. Todos se sentem úteis. Pequi. Mangaba. 51 Terra Brasil Março/2010 Dê alimentos orgânicos para seus filhos. Seus netos agradecem. Para manter o corpo em equilíbrio e a saúde em dia é fundamental uma alimentação saudável. Por isso, você precisa conhecer melhor os alimentos orgânicos. São frutas, hortaliças, grãos, laticínios e carnes produzidos com respeito ao meio ambiente e sem utilizar substâncias que possam colocar em risco a saúde dos produtores e consumidores. O resultado são produtos de melhor qualidade, mais nutritivos, 52 que certamente trarão mais saúde para a sua família e para todo o planeta. Terra Brasil Março/2010 53 Terra Brasil Março/2010 O mundo está aqui O dia começa quando ainda é noite no maior entreposto da América Latina, a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). No escuro, Maior entreposto da América Latina, a Ceagesp abastece o Brasil e mais 18 países, movimentando 10 mil toneladas de alimentos frescos por dia 54 Terra Brasil Março/2010 carregadores circulam em ritmo acelerado pelas 44 ruas, com a produção de frutas, verduras, legumes e pescados de 1,5 mil municípios de todos os estados brasileiros e mais 18 países. As frutas representam mais da metade dos produtos comercializados nos entrepostos da Ceagesp, empresa vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), movimentando quase dois milhões de toneladas por ano. Para chegar até lá, o caminho dos alimentos é longo. Pode começar em Beberibe, interior do Ceará, com o melão da Fazenda Itaueira. A fruta viaja mais de três mil quilômetros, em caminhão refrigerado, até a venda no atacado pela famíliaBenassi, na Ceagesp. Conhecida no entreposto pela comercialização de frutas, a família trabalha com 200 variedades de diversas regiões e mais 15 países. Diariamente, 10 carretas saem do box da Ceagesp com alimentos para São Paulo e outros estados. “Meu pai começou aqui, há 40 anos, e oferecemos as melhores frutas do mercado”, conta Eduardo Benassi. A tarefa de levar frutas e verduras a lugares distantes no Brasil foi escolhida também pelo empresário Marcelo Ferraz. Dentro da Ceagesp, ele compra de diferentes fornecedores com a missão de vender alimentos frescos nos municípios com pouca variedade de hortifrútis. Para ser cliente na empresa de Ferraz, a distância mínima exigida é 1,5 mil quilômetros. “Tenho compradores a quatro mil quilômetros de São Paulo”, diz, orgulhoso. Hoje, Ferraz atende mercados do Amazonas, Acre, Rondônia, Pará e Goiás. Por semana, 25 carretas transportam 500 mil toneladas de alimentos. 55 Terra Brasil Março/2010 Os números da Ceagesp é o quarto legume mais consumido em São Paulo. Então, oferecemos produto de qualidade para a dona de casa”, ressalta Oswaldo. Aos 74 anos, dona Alice, mãe de Oswaldo, é a entusiasta das cenouras. Sempre com uma receita na ponta da língua, ela sabe que produzir e vender requer experiência. “A cenoura e o alho, com um pouquinho de água, curam qualquer resfriado”, aconselha. Além de receitas, ensina regras para continuar no mercado. “A cenoura precisa de refrigeração, senão adquire aspecto viscoso e estraga”, conta, ao mostrar o estoque climatizado da empresa. - 700 mil metros quadrados no entreposto de São Paulo. - 13 entrepostos atacadistas no interior do estado. - 1.500 municípios e 18 países fornecem alimentos frescos. - Os pescados vêm de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. - Diariamente, 50 mil pessoas circulam no entreposto de São Paulo, além de 10 mil veículos, e 10 mil toneladas de alimentos são comercializadas. Dona Alice: entusiasta das cenouras. Frutas exóticas - O diferencial Caqui: de São Paulo direto a Marabá. Para chegar em condições de consumo, as frutas viajam ainda verdes. Ele mostra caixas de caqui, cuidadosamente acomodadas no caminhão refrigerado, com a coloração esverdeada e que nem de longe parecem saborosos. “Quando chegarem em Marabá, no Pará, estarão alaranjados e ideais para o consumo. Afinal, a viagem dura até quatro dias”, explica. Se a viagem, para o caqui, é delicada, para o tomate mais ainda. Com equipe treinada em transporte e logística, José Luiz Bastista dá a dica. Conhecido na Ceagesp como “Rei do Tomate”, explica que a entrega deve ser no menor tempo possível, mantendo sempre o frescor e a qualidade. Além da venda, Batista produz 40 mil toneladas de tomate em sítios espalhados pelas regiões 56 Terra Brasil Março/2010 Sul e Sudeste. “O desafio é oferecer produto bom o ano todo. Para cultivar tomate, a temperatura ideal é entre 20ºC e 30ºC, por isso plantamos em várias regiões”, esclarece. Plantar e comercializar faz parte do negócio da família Koga. Antes da inauguração da Ceagesp, há quatro décadas, ainda no mercado da Cantareira, os Koga escoavam a produção naquele entreposto. Oswaldo, o filho mais velho, conta, orgulhoso, como a família ficou conhecida pelo cultivo e venda de cenouras. “Há 25 anos, resolvemos investir no cultivo do legume. Hoje, em Santa JulianaMG, plantamos 500 hectares e colhemos 50 toneladas por ano”, comenta. A variedade escolhida, híbrida Juliana, promete maciez, sabor e pigmentação alaranjada. “A cenoura faz parte dos negócios da Ceagesp. Mais alguns minutos de caminhada pelo entreposto e outro permissionário mostra uma nova receita de saúde. “Esse aqui é o noni e trata febre e reumatismo. Há quem acredite que também alivia o estresse”, conta Nakoto Aoki, comerciante especializado em frutas exóticas. O noni é uma fruta verde, originária da Ásia, com cheiro desagradável, mas que, transformado em suco, promete “quase” milagres. “Escolhi vender frutas exóticas porque não tinha muito espaço para estoque”. No pequeno box de Seu Aoki, é preciso legenda para decifrar as frutas expostas na prateleira. “A amarelinha é seriguela. Aquela, parecida com a lichia, é rambutã. A rosa, igual a uma flor, é a pitaia”, mostra. Ao todo, são mais de 50 itens pesquisados em várias regiões e países. O transporte é quase sempre aéreo, o que encarece o produto. Em Belém do Pará, está a pequena produção brasileira de noni e, quando chega em São Paulo, é vendido a R$ 20 o quilo. Ceagesp - O entreposto mostra- se pequeno diante da movimentação diária de alimentos frescos. Todos os dias, 10 mil toneladas de produtos são comercializadas em 700 mil metros quadrados. Em média, 50 mil pessoas, 10 mil caminhões e três mil carregadores contribuem para gerar negócios em torno de R$ 50 milhões por dia. milhões de toneladas de frutas, verduras, legumes, pescados e flores, recorde dos últimos 21 anos. O volume financeiro movimentado alcançou R$ 4,35 bilhões, 12% superior ao ano anterior. O setor de frutas liderou na quantidade comercializada, com 1,67 milhão de toneladas, seguido por legumes, com 807,2 mil toneladas. No total, a rede de 13 entrepostos da companhia comercializou 3,9 milhões de toneladas de produtos, resultado 2,42% maior que 2008. - 3 mil carregadores trabalham em 44 ruas. - 3,9 milhões de toneladas fora m negoc i ados em 2009. - 89% dos alimentos são produ zidos no Brasi l, seg uido de Argentina, Chile e China. - São Pau lo é o maior fornecedor, seguido de Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina. “ Todas as regiões brasileiras recebem alimentos da Ceagesp. Há 10 anos, era improvável”, ressalta o comerciante Marcelo Ferraz. “Daqui a alguns anos, a empresa não vai comportar o volume de negócios que cresce vertiginosamente”, afirma. Em 2009, o entreposto de São Paulo da Ceagesp comercializou 3,15 57 Terra Brasil Março/2010 ORIGEM DOS ALIMENTOS PAÍSES “A Ceagesp é líder nacional na estocagem de açúcar, embora sempre esteja associada ao entreposto”, lembra Alexandre Campos, chefe operacional de armazéns. A rede de armazéns e silos trabalha com capacidade estática superior a um milhão de toneladas. O chefe operacional explica que a companhia atende um terço dos municípios agrícolas do estado de São Paulo. “As unidades de armazenagem estão próximas aos polos de produção e consumo, interligadas por transporte ferroviário”, complementa. Resultado da fusão entre a Central de Abastecimento (Ceasa) e da Cagesp - antiga empresa de armazenamento fundada em 1930 -, a Ceagesp “herdou” armazéns e silos. As 34 unidades ativas, locadas ou cedidas, foram construídas e adquiridas próximas à malha ferroviária do estado de São Paulo e abrigavam pequenos estoques reguladores do Governo Federal. Em 1970, foram construídos os primeiros armazéns horizontais do Brasil e silos de grande capacidade, acoplados a graneleiros. Os armazéns foram adaptados para estocagem de açúcar a granel e hoje 50% da produção do estado de São Paulo encontra-se em unidades da companhia. “Somos a opção para pequenos e médios produtores, que não possuem armazéns na propriedade”, explica Alexandre Campos. A estrutura tem capacidade para estocar grãos, sementes, farelos, produtos prensados de soja e trigo, açúcar a granel e produtos embalados, agrícolas ou industrializados. Os armazéns prestam serviços de expurgo, secagem e limpeza para reduzir perdas e elevar as condições de comercialização. Para financiamento dos estoques depositados, a Ceagesp emite títulos de crédito especiais e é credenciada pela Bolsa de Mercadorias e Futuros, para a guarda de mercadorias. Os principais clientes são produtores rurais, órgãos do governo, exportadores e importadores, cooperativas e usinas. 58 58 Terra Terra Brasil Brasil Março/2010 Março/2010 Feira, flores e peixes Além da comercialização atacadista, a Ceagesp promove venda no varejo de hortifrútis e outros produtos por meio dos varejões. Semelhantes às feiras livres, funcionam aos sábados, domingos e quartas-feiras. Por semana, 250 toneladas de alimentos frescos são vendidas direto ao consumidor. Além de São Paulo, o varejão é realizado em Sorocaba, interior do estado. Na capital, nas terças e sextas-feiras, a Ceagesp promove a Feira de Flores. A comercialização em semivarejo reúne mais de mil produtores de flores, plantas ornamentais, grama e mudas. O maior movimento acontece na comemoração do Dia das Mães, com 25 mil visitantes, gerando R$ 20 milhões. Durante a madrugada, de terça a sábado, o entreposto da capital reúne os principais atacadistas de pescados. Mais de 60 empresas comercializam produtos vindos de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em 2009, na semana que antecede a Páscoa, os comerciantes venderam mais de 60 toneladas de pescados, incluindo os produtos frescos e bacalhau. Origem Produtos pera, maçã, Argentina ameixa, cebola, alho e calamar maçã, uva, Chile ameixa, cebola, alho e salmão China alho ameixa, cebola Espanha e bacalhau pera, maçã Estados Unidos e cebola Holanda cebola Portugal pera e ameixa Uruguai kiwi, pera e alho Itália kiwi Noruega bacalhau França maçã Turquia figo e damasco Nova Zelândia kiwi Origem São Paulo Minas Gerais Bahia Santa Catarina Rio Grande do Sul Paraná Espírito Santo Rio de Janeiro Goiás Pernambuco Rio Grande do Norte Ceará Tocantins Pará Paraíba Sergipe Alagoas Maranhão Piauí Mato Grosso do Sul Mato Grosso Amapá Produtos laranja, tangerina, tomate, chuchu, milho, repolho, alface, batata, cebola, grama, crisântemo, tilápia e pescada banana, abacaxi, tangerina, cenoura, tomate, brócolis, repolho, batata e cebola mamão, manga e coco seco maçã, maracujá, abóbora, tomate, batata, cebola, corvina e pescada maçã, pêssego, batata, cebola e pescada uva, ameixa, abóbora, mandioquinha, repolho, batata e cebola coco verde, mamão, chuchu, tomate e atum abacaxi, tomate, pepino, atum e sardinha melancia, tomate, cebola e batata melão, manga e cebola melão e camarão melão e coco seco abacaxi, melancia e tomate abacaxi e pescada abacaxi, coco verde e coco seco manga e coco seco coco seco abacaxi e robalo caju melancia, kani e kama manga polpa de frutas O Brasil está aqui 59 Terra Brasil Março/2010 Caminhos do Leite O leite é o alimento sempre presente na mesa do brasileiro e de quase todos os povos. Afinal, o ser humano é um mamífero que necessita dos principais componentes desse líquido, como: lipídios, proteínas, carboidrato, cálcio e água. O que nem todos sabem é como os fabricantes trabalham para garantir esse alimento saboroso, com qualidade e durabilidade. “Os cuidados com a matéria-prima são a base do processo de produção”, observa o técnico em captação de leite de uma das maiores indústrias brasileiras, Alexandre Hense Condé. A fábrica de laticínios fica em Pará de Minas, a 90 quilômetros de Belo Horizonte, uma das Integral, desnatado, com vitaminas, em forma de queijo, requeijão ou iogurte 60 Terra Brasil Março/2010 cinco unidades que a rede mantém em Minas Gerais e Goiás. A linha de produção em Pará de Minas é de iogurtes, bebidas lácteas, requeijões, leites longa vida, queijinho doce tipo suíço (petit suisse), achocolatados e leite fermentado. Só essa unidade, coloca no mercado mais de 100 tipos de derivados do leite, comercializados em supermercados de todo o País e até nos Estados Unidos. A captação diária na unidade é de 210 mil litros, fornecidos por 370 propriedades rurais do estado. Essa matéria-prima se transforma em 16 mil toneladas de mercadorias finais por mês. “Nas outras quatro unidades da empresa, são fabricados manteigas, creme de leite, leite em pó e condensado, requeijões e doces. No total, são 3,5 milhões de litros de leite fornecidos por mais de 7.500 produtores”, calcula o técnico em captação da empresa. Dos arredores da cidade, vem a maior parte do leite processado na fábrica, onde trabalham Condé Pereira e outros 700 funcionários. A menos de 25 quilômetros de Pará de Minas, Geraldo Moreira Melo é criador de 320 vacas mestiças (mistura do gado de raça holandesa com o zebu), que produzem, em média, 4,7 mil litros de leite por dia (10 litros por cabeça). Ele demonstra orgulho de integrar uma cadeia que está crescendo e se aperfeiçoando. “Há 23 anos, estou no ramo, é muito bom ver um produto no supermercado feito com leite fornecido por nós. Investimos muito de uns anos para cá, inclusive passamos a produzir a ração dos animais aqui mesmo na fazenda”, afirma. Geraldo Melo, produtor de leite, orgulhoso do seu rebanho. 61 Terra Brasil Março/2010 As vacas são alimentadas com silagem de milho, polpa cítrica, caroço de algodão e farelo. O cardápio é elaborado para aumentar a produção e suprir as necessidades diárias de minerais e vitaminas para que o leite tenha padrão adequado. Além disso, o produtor lembra que é preciso administrar muito bem o negócio para fornecer leite fresquinho e puro à fábrica. Ele explica que o primeiro passo da ordenha é higienizar as tetas dos animais com iodo para eliminar bactérias. Na ordenha mecânica, são usados sugadores automáticos acoplados às mangueiras, que conduzem o leite direto para o resfriamento, no “tanque de expansão”, que mantém o produto em temperatura inferior a 5ºC. Para finalizar o trabalho, os cinco funcionários da propriedade refazem a aplicação de iodo nas vacas e lavam os tubos de alumínio que transportam o leite até o tanque de resfriamento. “É água quente, detergente especial, caminhão próprio para transportar o leite na temperatura correta. Tudo isso faz parte do nosso trabalho diário e que termina com a venda do leite para uma grande beneficiadora”, explica Geraldo Melo. O fazendeiro demonstra paixão pelo que faz quando chama o leite, carinhosamente, de mercadoria abençoada. No processo de conservação do leite, o papel dos motoristas também é importante. Ao carregarem o caminhão isotérmico com o produto, devem recolher uma amostra para ser entregue na indústria juntamente com a carga. “Se as análises derem algum resultado fora do padrão, como a quantidade de água, por exemplo, recorremos a essa con62 Terra Brasil Março/2010 traprova”, destaca o coordenador de qualidade e meio ambiente da empresa, Alessandro Junqueira Pereira. Programas especiais de informática determinam a dosagem dos ingredientes que compõem as fórmulas dos lácteos. Isso mesmo. A maioria dos produtos de grandes empresas já não passam por processos manuais. O leite recebido vai direto para tanques resfriadores e recebem a adição de frutas, açúcares e outros compostos, automaticamente, até serem envasados e lacrados. A produção fica em torno de cinco a seis toneladas, informa o gerente da fábrica, Janilson Fernandes Gonçalves. Por volta das 16 horas, o funcionário troca o uniforme branco da linha de produção e vai até o curral da Fazenda Palmeiras, nos fundos da queijaria, para acompanhar a segunda ordenha diária. As vacas desse rebanho são holandesas puras e produzem quase 23 litros por cabeça. Na propriedade, os 46 animais rendem 800 litros de leite por dia, destinados à produção de queijos. A ordenha também é mecânica. Outra semelhança entre as fazendas Em outro estabelecimento, também é a preocupação com a qualidade do em Minas Gerais, a produção de leite ainda na fonte, como a higiene queijos é prioridade. Entre as varie- dos equipamentos e o cuidado com dades estão os frescais, a mussarela, o tanque térmico para mantê-lo o prato, o cheddar, f resco. “O a ricota, os repré-requisiqueijões de corte, to para um Uma bezerra saudável pode se os cremosos e de produto de tornar uma vaca leiteira, a partir uso culinário. Os qua lidade dos dois anos e meio de idade. Na produtos abasteé o manejo maioria das fazendas produtivas, cem lanchonetes inicial. a ordenha é feita duas vezes por do estado e coQ u a ndo o dia, pela manhã e à tarde. mércio em todo o leite é bemBrasil e também conservado, são exportados. desde a “Por dia, recebemos 55 mil litros de origem, é muito difícil acontecer imleite. Cada 10 mil litros são trans- previstos depois da preparação dos formados em mil quilos de queijo. queijos”, esclarece Gonçalves. Serviço de Inspeção Federal (SIF) Os Serviços de Inspeção de Produtos Agropecuários (SIPAGs), do Ministério da Agricultura, fiscalizam a documentação e as instalações das empresas de laticínios e autorizam o uso do selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF) apenas nos produtos que estão de acordo com a legislação. Atualmente, são 1.534 indústrias de laticínios (esse total engloba todas as categorias, sendo que as fábricas são 794 e as usinas de beneficiamento são 384) que estão registradas no Mapa e seguem as normas do SIF para a fabricação de produtos de origem animal. Para aderir ao SIF, a empresa deve solicitar à Superintendência Federal de Agricultura (SFA) no estado a aprovação do terreno. Depois de inspecionada e aprovada a área, apresenta um projeto detalhado, compatível com a atividade que pretende desenvolver. São avaliadas questões como: facilidade para obtenção da matéria-prima, distância de fontes poluidoras, acesso, disponibilidade de energia elétrica e meios de comunicação, abastecimento de água potável, escoamento de águas residuais, entre outras. 63 Terra Brasil Março/2010 Laboratórios de análises do leite - Para ampliar a inspeção de produtos derivados de leite, além de manter a Rede Oficial de Laboratórios Agropecuários (Lanagros), composta por seis unidades distribuídas no Rio Grande do Sul, em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, no Pará e em Pernambuco, o Ministério da Agricultura criou a Rede Brasileira de Laboratórios da Qualidade do Leite (RBQL). São oito laboratórios credenciados e um de referência, mantido pelo Lanagro/ MG, em Pedro Leopoldo. Outras unidades da RBQL funcionam no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná, em São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Goiás. Eles analisam amostras de leite das principais bacias leiteiras do País, monitorando os requisitos mínimos de qualidade do leite cru, previstos na Instrução Normativa nº 51 (gordura, proteína, lactose, sólidos totais, contagem de células somáticas e contagem total de bactérias). Dados de produção nacional - Nos últimos 20 anos, a produção brasileira de leite vem crescendo contínua e significativa- 64 Terra Brasil Março/2010 mente. De 1989 a 2009, passou de 14 bilhões para 30 bilhões de litros. De 2004 para 2008, o crescimento da produção foi de quatro bilhões de litros, ou seja, 40% do percentual produtivo da Argentina em 2008. No entanto, a produtividade do leite no Brasil, em média, ainda necessita de incremento. Os índices apresentados, de modo geral, são extremamente baixos e com marcantes diferenças regionais. Enquanto algumas bacias leiteiras especializadas, caso da região de Campos Gerais-PR, destacam-se com produtividade de 7.900 quilos vaca/ano, índices semelhantes aos da América do Norte e Europa, outras regiões do País alcançam média de 500 quilos vaca/ano. Mercado externo - A balança comercial brasileira de leite e derivados inverteu-se em 2004, quando o Brasil passou de importador a exportador de laticínios. Assim, a perspectiva de exportação de derivados de leite e até de leite fluido tem grande potencial e é discutida constantemente pelo setor. O Brasil exporta leite, mas ainda em valores não tão significativos, se comparados a outras cadeias do agronegócio. No entanto, as perspectivas de exportação são promissoras, com a produção de derivados de maior valor agregado. Já na participação do comércio internacional, os maiores exportadores oferecem 30 bilhões de litros ao mercado externo, como: a Nova Zelândia, com 34%; a União Europeia, com 31%; e a Austrália, com 15%, de acordo com dados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Rebanho - São 21,6 milhões de vacas ordenhadas no Brasil. Só em Minas Gerais, estado com maior produção de leite, 5,15 milhões de cabeças garantem sua liderança nacional, superando 7,7 milhões de litros. As raças leiteiras de maior produtividade são de origem europeia, selecionadas e adaptadas em ambientes distintos na maior parte do Brasil. As questões relativas ao estresse, em especial calórico, são pontos críticos para os rebanhos leiteiros. Nesse sentido, a adoção de boas práticas que minimizem o estresse é primordial, tanto no aspecto de bem-estar animal quanto no de produtividade. Consumidor, saiba o que está comprando UHT ou UAT - A sigla vem do inglês (Ultra Hight Temperature) e informa que o leite foi submetido a Ultra Alta Temperatura (UAT). Esses produtos têm a gordura uniformemente distribuída, sem formação da nata (processo de homogeneização) e são submetidos, durante dois a quatro segundos, à temperatura de 130ºC e imediatamente resfriados à 32ºC. Sem contato manual, são envasados em embalagens estéreis e hermeticamente fechadas. A medida permite ao fabricante chamar o produto de longa vida, pois a mudança brusca de temperaturas elimina possíveis contaminantes orgânicos, que afetam a sua durabilidade. Pasteurizado - É o leite fluido elaborado a partir do leite cru refrigerado na propriedade rural, que apresenta especificações de produção, coleta e qualidade da matéria-prima definidos em legislação específica. No processo de pasteurização, o leite é submetido ao calor de 72ºC a 75ºC, por 15 a 20 segundos, para a eliminação de micro-organismos nocivos à saúde humana. Tipos A e B - As diferenças entre o leite tipo A e B estão nos critérios de higiene e contagem microbiana em cada um, antes e depois do processamento, além de diferenças na fabricação do produto. O leite tipo A tem produção expressamente mecanizada, processada na granja leiteira, em circuito fechado e sua matéria-prima deve ser de altíssima qualidade higiênica. O leite tipo B pode ser processado dentro da usina de beneficiamento, assim como o leite pasteurizado, porém contém critérios mais rigorosos na seleção de matéria-prima que o leite pasteurizado. Mas todos os tipos de leite devem estar isentos de germes que prejudicam a saúde humana. 65 Terra Brasil Março/2010 Estamos vivendo um novo Brasil. Feito por você. Respeitado pelo mundo. Nós brasileiros conquistamos um país cada vez melhor para todos. Estamos juntos, seguindo em frente. E é possível avançar ainda mais. 27,5 milhões de pessoas ascenderam à classe C e 6,5 milhões às classes A e B, de 2003 a 2009. US$ 241 bilhões em reservas internacionais. Fonte: Centro de Políticas Sociais - FGV. 11,9 milhões de empregos formais gerados nos 14 novas universidades federais e 124 campi. 111 novas escolas técnicas. (posição de 25 de fevereiro de 2010). últimos 8 anos. Segundo dados da RAIS (2003-2008) e do Caged (2009-2010, até janeiro). Início da exploração de petróleo na camada do Pré-Sal. As exportações brasileiras mais que dobraram Redução de 75% no desmatamento Aumento de 5,9% nas vendas do comércio da Amazônia nos últimos 5 anos. O menor nível em 21 anos. Fonte INPE. varejista em 2009. A bolsa brasileira obteve a maior valorização do mundo nos últimos 12 meses: 66,4% . (encerrados em janeiro de 2010). (+109%) entre 2003 e 2009. Crescimento de 18,9% da indústria em dezembro de 2009, em comparação com o mesmo mês em 2008. 3,01 milhões de veículos vendidos em 2009, um novo recorde histórico. Crescimento de 12,7% frente a 2008. www.confiancanobrasil.gov.br 66 Terra Brasil Março/2010 67 Terra Brasil Março/2010 Indicação Geográfica O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), órgão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, é o responsável pelos registros das Indicações Geográficas no Brasil (IGs). Esta competência foi atribuída pela Lei da Propriedade Industrial (Lei nº 9.279, de 1996). Hoje, o INPI não apenas efetua o registro como também fornece assistência e orientações diretamente aos produtores e prestadores de serviço interessados. A Indicação Geográfica é um mecanismo de propriedade intelectual reconhecido em nível internacional, assim como marca ou patente. A IG tem natureza declaratória. Não se cria uma IG, apenas se reconhece e o documento segue para avaliação do Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Atualmente, existem seis Indicações Geográficas nacionais registradas no INPI: o Vale dos Vinhedos (RS), para vinhos tintos, brancos e espumantes; Pampa Gaúcho, para Campanha Meridional (RS), para carnes; Região do Cerrado Mineiro (MG), para café; Paraty, para aguardente de cana-de-açúcar; Vale do Submédio São Francisco, para uvas de mesa e manga; e Vale dos Sinos (RS), para couro acabado. As indicações estrangeiras registradas no Brasil são: Região dos Vinhos Verdes (Portugal), para vinhos; Cognac (França), para destilado de vinho; San Daniele (Itália), para coxas de suínos e presunto defumado cru; e Franciacorta (Itália), para vinhos espumantes e bebidas alcoólicas. O INPI, no momento, analisa 11 pedidos de IG, sendo sete nacionais e quatro estrangeiras. Produtos Veterinários Para incentivar o uso correto e consciente dos produtos, o Ministério da Agricultura fiscaliza a fabricação, manipulação, importação, exportação, comércio e controle de qualidade. Hoje, são 7,9 mil produtos licenciados pelo Ministério para utilização em animais como bovinos, suínos, aves, equinos, pássaros, cães e gatos. Entre os tipos comercializados estão antibióticos, antiparasitários (para controle de carrapatos e verminoses), vacinas, xampus, sabonetes e produtos para o diagnóstico de doenças. Importação - O Mapa fis- caliza produtos de fabricação naciona l e importados. Para obter licenciamento, as empresas interessadas em adquirir matérias-primas ou artigos para comercialização devem solicitar autorização prévia ao Ministério e apresentar estudos que comprovem a eficácia, segurança e estabilidade desses produtos. No caso de materiais destinados aos animais de produção, deve ser comprovado o período de retirada (carência). As pessoas físicas que necessitam importar produtos veter iná r ios não dest inados à comercialização devem também pedir autorização prévia de importação ao Ministério da Agricultura. Junto com a solicitação, é preciso encaminhar receita do médico veterinário e informações como nome do produto, fórmula completa ou composição, além de características físicas e químicas, indicações de uso, espécies animais a que se destinam, origem, procedência, quantidade a ser importada, data e local provável de chegada ao País. Para os produtos destinados, exclusivamente, à entidade oficial ou particular, para fins de pesquisas, experimentações científicas ou programas sanitários oficiais, o pedido deve ser encaminhado ao Mapa, previamente, ao embarque do produto. Denúncias podem ser enviadas para: produtosveterinarios@ agricultura.gov.br Para mais informações, acesse o endereço eletrônico: www.agricultura.gov.br - link serviços/produtosveterinarios 68 Terra Brasil Março/2010 69 Terra Brasil Março/2010 Onde encontrar o Min Acre Rodovia AC-40, 793. CEP 69901-180 Rio Branco-AC Telefone: (68) 3212-1301 [email protected] Ceará Av. dos Expedicionários, 3.442, Benfica. CEP 60410-410 Fortaleza- CE Telefones: (85) 3455-9202 / 9201 [email protected] Maranhão Praça da República, 147, Diamante. CEP 65020-500 São Luís-MA Telefones: (98) 2106-1962 / 1961 [email protected] Alagoas Av. Fernandes Lima, 72, Farol. CEP 57050-900 Maceió-AL Telefones: (82) 3315-7000 / 7001 [email protected] Distrito Federal SBN – Ed. Palácio do Desenvolvimento, Qd. 01, Bl. D, 5º andar. CEP 70057-900 Brasília-DF Telefone: (61) 3329-7100 [email protected] Mato Grosso Alameda Dr. Aníbal Molina, s/n, Bairro Porto. CEP 78115-000 Várzea Grande-MT Telefones: (65) 3685-5678 / 5481 [email protected] Amapá Rua Tiradentes, 469, Centro. CEP 68906-380 Macapá-AP Telefone: (96) 3223-3075 [email protected] Amazonas Rua Maceió, 460, Adrianópolis. CEP 69057-010 Manaus-AM Telefone: (92) 4009-3801 [email protected] Bahia Largo dos Aflitos, s/n, Ed.Ceres, Centro. CEP 40060-030 Salvador-BA Telefones: (71) 3444-7436 / 7434 [email protected] Espírito Santo Av. Nossa Senhora dos Navegantes, 485, Centro Empresarial Enseada do Suá, sala 804. CEP 29050-420 Vitória-ES Telefone: (27) 3137-2754 [email protected] Goiás Praça Cívica, 100, Centro. CEP 74003-010 Goiânia-GO Telefones: (62) 3221-7204 / 7205 [email protected] Mato Grosso do Sul Rua Dom Aquino, 2.696, Centro. CEP 79002-182 Campo Grande-MS Telefones: (67) 3316-7120 / 7100 / 7119 [email protected] Minas Gerais Av. Raja Gabaglia, 245, Cidade Jardim. CEP 30380-090 Belo Horizonte-MG Telefone: (31) 3250-0300 [email protected] Central de Atendimento do Mapa - 0800 70 Terra Brasil Março/2010 Onde encontrar o Min istério da Agricultura T AgriculturA: A pAixão pelA terrA odos os dias, desde o amanhecer, milhões de brasileiros cultivam uma de suas grandes paixões: a produção agrícola. Eles planejam, plantam, criam, cuidam e colhem seus produtos, buscando sempre eficiência no trabalho e harmonia com o meio ambiente. Esta riqueza de nossa terra vem do trabalho do campo. Está ali o grande celeiro nacional que abastece as cidades. Este ciclo produtivo virtuoso vai além da vocação de um povo. É um compromisso de Estado. O governo brasileiro adota políticas agrícolas que estimulam o crescimento com responsabilidades social e ambiental. Nas últimas décadas, a pesquisa e a tecnologia desenvolvidas no País permitiu o melhor aproveitamento do solo e a adaptação de culturas ao clima tropical, gerando significativos ganhos em produtividade. O trinômio saúde animal, sanidade vegetal e segurança alimentar ganham destaques nos fóruns de negociações nos mercados interno e externo. Desta maneira, esta Nação zela pela qualidade do alimento que vai à mesa dos brasileiros e os demais consumidores espalhados pelo mundo. Nesta edição, a Terra Brasil mostra como dezenas de trabalhadores frequentam diariamente um espaço no alto da Serra da Mantiqueira para cultivar rosas. Em outra matéria é revelada a energia que vem da pimenta-do-reino, um dos temperos mais usados na culinária internacional. Ganha evidência ainda, neste número, o bem-estar animal apresentado como uma exigência para alcançar mercados qualificados e a importância da fiscalização na alimentação animal, para garantir condições adequadas para a segurança dos alimentos consumidos pelo homem. A agricultura do futuro também está nesta quinta edição da revista, com indicadores que evidenciam tendências e projetam as perspectivas deste valioso setor para os próximos dez anos. Este panorama, com análise de dezenas de produtos, é um caminho para entender a dinâmica das relações entre produção, consumo e exportação e a trajetória do Brasil a curto, médio e longo prazos, bem como estruturar visões de futuro da agricultura e pecuária brasileiras no contexto mundial, buscando crescimento e conquista de novos mercados. Expediente Conselho Editorial Wilma Annete Cesar Gonçalves, Neuza Arantes Silva, Tony Geraldo Carneiro, Jorge Caetano Junior, Helinton José Rocha, Débora de Freitas Oliveira Pinheiro, Leda Laboissière e Eliana Maria Martins Ferreira Redação Editora-Executiva Adélia Azeredo Pará Av. Almirante Barroso, 5.384, Castanheira. CEP 66645-250 Belém-PA Telefone: (91) 3214-6422 [email protected] Paraíba BR-230, Km-14, Estrada de Cabedelo. 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É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e que não seja para venda ou qualquer fim comercial. A responsabilidade pelos direitos autorais de textos e imagens desta obra é do autor. Catalogação na Fonte Biblioteca Nacional de Agricultura – BINAGRI Terra Brasil. Ano 1, n.1 (dez. 2008)- .– Brasília : Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento v. ; 27 cm. Quadrimestral ISSN 1984-204X 1. Agricultura. I. Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Assessoria de Comunicação Social. II. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Central de Atendimento do Mapa - 0800 704 1995 AGRIS A01 CDU 630 Rio de Janeiro Av. Rodrigues Alves, 129, 11º andar, Praça Mauá. CEP 20081-250 Rio de Janeiro-RJ Telefone: (21) 2233-9122 [email protected] Santa Catarina Rua João Grumiche, 117, Kobraso. CEP 88102-600 São José-SC Telefone: (48) 3261-9900 Fax: (48) 3261-9902 [email protected] Rio Grande do Norte Av. Eng. Hildebrando de Góis, 150, Ed. 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