15 2 Representação Gráfica Quando temos que manipular grande quantidade de informação é necessário o uso de gráficos. Isso se torna mandatário para a correta análise e compreensão das grandezas envolvidas. Note que uma grande quantidade de informação seja ele na forma de dados experimentais ou em qualquer outra forma implica em conhecimento. Necessitamos analisar essa coleção de dados e, para isso, utilizamos a representação por gráficos. Assim, a relação entre quaisquer grandezas envolvidas pode ser facilmente detectada. 2.1 Escala O primeiro passo a ser determinado na construção de um gráfico é a escala de representação dos dados. Toda escala possui um passo, ou seja, um segmento de reta delimitado entre dois traços perpendiculares ao segmento. passo = 1cm 10 0 20 30 m (g) degrau = 5g Figura 2-1 Definição de passo e degrau num gráfico de representação de uma grandeza física, i.e. a massa. Na Figura 2-1 apresentamos a definição de passo que é a menor distância real entre duas marcas seqüentes no segmento de reta. Como visto na figura Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 16 em questão existe uma grandeza física associada a escala, assim esses dois traços consecutivos dá-se o nome de degrau. Desta feita temos: M= passo 1 cm 1 cm = = g degrau 5 g 5 (1.3) Figura 2-2 Exemplo de gráfico linear e logarítmico. Note que no gráfico linear o passo e o degrau são facilmente determinados. Na escala logarítmica o degrau pode ser determinado facilmente, mas o passo segue geometricamente uma função do tipo log. Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 17 Assim, a cada variação de distância no papel temos uma variação na grandeza física medida – a cada 1 cm tem-se 5 g. Na parte inferior da Figura 2-2 apresentamos um gráfico do movimento de um móvel em função do tempo onde é assinalado os passos e degraus de cada eixo coordenado. O passo de uma escala pode ser linear ou não. Os tipos mais comuns de escalas são a linear e logarítmica mostrados na Figura 2-2 nas partes inferior e superior, respectivamente. Observe que na escala logarítmica o degrau pode ser determinado facilmente,mas o passo segue geometricamente uma função do tipo log, veja Figura 2-3. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Figura 2-3 Exemplo de uma escala log. Observe que os espaçamentos seguem uma função log. A escala começa em 1, pois log(1) = 0. Observe que a distância entre dois números no eixo é proporcional à diferença dos seus logaritmos. Para facilitar a construção gráfica a leitura dos valores numa escala logarítmica é direta ao invés dos seus logaritmos, conforme Figura 2-3. Veja que uma unidade corresponde ao intervalo entre duas potências sucessivas de dez† (log10[10n]-log10[10n-1]=n-n+1=1). Na Figura 2-4 podemos averiguar com mais detalhe como as escalas se relacionam entre si. No eixo das ordenadas temos uma escala linear cujo espaçamento é linear nas divisões apresentadas inclusive nos números delimitando cada ordenada, e.g. 0,8 − 0, 7 = 0,1 . No eixo das abscissas os espaçamentos seguem uma função logarítmica (geometricamente) e os números que delimitam cada divisão não. Observe que cada ponto do gráfico o número apresentado na abscissa tem seu logaritmo correspondente na ordenada. † Pela simplicidade os gráficos log utilizam a potência 10. Mas você pode inventar a sua. Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 18 Abscissa Ordenada (Log) (Linear) 1 0 2 0,30103 3 0,47712 4 0,60206 5 0,69897 6 0,77815 7 0,8451 8 0,90309 9 0,95424 10 1 1,1 1,0 Escala Linear 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0,0 -0,1 0,9 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Escala Logarítimica Figura 2-4 Comparação entre as escalas linear e logarítmica (base 10). Ao lado temos uma tabela de comparação dos valores na escala logarítmica (abscissa) e linear (ordenada). Observe que na escala linear os resultados assinalados são resultados da aplicação da função log nos números da escala logarítmica. 2.1.1 Regras práticas de construção de um gráfico Cada um dos eixos deve conter o nome (ou símbolo) da variável representada, a escala de leitura e a unidade correspondente. Escolha uma escala conveniente para a qual o gráfico represente bem o intervalo medido para cada variável. A regra prática para esta definição é dividir a faixa de variação de cada variável pelo número de divisões principais disponíveis é: ∆U = x → Arredondar para o múltiplo mais próximo 1, 2 ou 5. ∆C (1.4) aqui ∆U é a variação de unidades dos dados e ∆C é a variação na escala disponível. Toma-se então um arredondamento a valor superior e de fácil leitura. Estes valores de fácil leitura são: 1, 2 ou 5 unidades ou qualquer múltiplo ou submúltiplo de 10 delas. Por exemplo, no papel milimetrado, se a faixa de variação dos dados for de 35 unidades e o número de cm disponíveis Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 19 for de 10 cm, chegamos ao valor ideal de 5 unidades para cada divisão do gráfico, pois 35 Múltiplo mais próximo = 3, 5 →5 . 10 Apresentamos abaixo um exemplo de um gráfico: 220 200 180 Velocidade (km/h) 160 140 120 100 80 60 40 20 -5 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 Tempo (s) Figura 2-5 Velocidade de um automóvel acelerando. Aqui ∆C= 10 cm e ∆U= 35 s, portanto ∆U Múltiplo mais próximo = 3,5 →5 . ∆C Na Tabela 2-1 estão dispostos os pontos experimentais apresentados no gráfico na Figura 2-5. Observe que na coluna das velocidades há uma incerteza em cada medida. E essa incerteza é apresentada no gráfico anterior como uma barra vertical indicando valores acima e abaixo do valor da velocidade. Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 20 Tabela 2-1 Velocidade (v) medida em função do tempo (t), para um automóvel acelerando. t(s) v(km/h) 0 42 ± 7 5 67 ± 7 10 101 ± 7 15 134 ± 7 20 161 ± 7 25 183 ± 7 30 196 ± 7 35 200 ± 7 2.2 Análise Gráfica O gráfico cartesiano é composto de duas retas ortogonais ou perpendiculares. O ponto de intersecção das retas ou semi-retas é o ponto de origem do gráfico que nem sempre se identifica com a origem das escalas. A escala horizontal é chamada de eixo das abscissas e a vertical de eixo das ordenadas. Através de um par de coordenadas um ponto é estabelecido no gráfico. Esse ponto pode representar a medida de duas grandezas físicas. Uma reta, conforme mostrado na Figura 2-6, é caracterizada pela relação linear entre um par de pontos no gráfico cartesiano, isto é y = a + bx (1.5) a é o coeficiente linear e b é o coeficiente angular da equação. O coeficiente angular é numericamente igual a tangente do ângulo que a reta faz com o eixo das abscissas: b= ∆y y2 − y1 numericamente igual = → tan θ ∆x x2 − x1 Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br (1.6) 21 e quando a abscissa se anula temos o coeficiente linear: (1.7) x=0→ y=a O coeficiente linear também pode ser obtido da equação (1.5) com um ponto qualquer da reta, e.g. (x1, y1): (1.8) a = y1 − bx1 Eixo y (Ordenada) y2 ∆y=y2-y1 θ y1 ∆x=x2-x1 x1 x2 Eixo x (Abscissa) Figura 2-6 Elementos no plano cartesiano necessários para a determinação de uma reta. 2.3 Linearização Analisar uma grande quantidade de pontos experimentais é uma tarefa árdua e dispor esses pontos experimentais num gráfico facilita a compreensão da situação. Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 22 2.3.1 Linearização de polinômios É comprovado cientificamente que nosso cérebro facilmente identifica uma curva de uma reta; funções do tipo x2 e x4 não são perceptíveis. Para funções polinomiais do tipo: (1.9) y ( x ) = Ax B + C Resulta numa reta se fazemos a seguinte substituição de variáveis: (1.10) z = x B → y ( z ) = Az + C Assim, fazendo-se o gráfico da função da equação (1.10) os coeficientes A e C são determinados prontamente. 200 200 h(cm) 150 150 100 h (cm) 50 0 100 0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 t(s) 50 θ 0 0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 2 z (s ) Figura 2-7 Gráfico linearizado de um objeto em queda livre com a mudança de variável 2 z=t . No gráfico interior podemos observar o gráfico dos pontos originais. Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 23 Tabela 2-2 Altura (h) em função do tempo (t) para um objeto em queda livre. 2 2 t(s) h(cm) z=t (s ) 0,01 200 0,0001 0,225 173 0,051 0,319 151 0,102 0,390 124 0,152 0,450 99 0,203 0,504 76 0,254 0,552 48 0,305 0,596 26 0,355 0,637 1 0,406 Na Tabela 2-2 apresentamos os pontos experimentais da Figura 2-7. A partir desse gráfico podemos determinar os coeficientes da reta, isto é A = -4,9 × 102 cm s 2 e C = 2, 0 × 10 2 cm . 2.3.2 Linearização de funções especiais Se a função for do tipo y = C ⋅ e β x (‡) é facilmente linearizada pela função ln, i.e. a função logaritmo natural ou neperiano: ( ) ln y = ln C ⋅ e β x = ln C + β x (1.11) Um outro tipo de função pode ser y = A ⋅ x B que pode ser linearizada pela aplicação da função log: ( ) log y = log A ⋅ x B = log A + B ⋅ log x (1.12) Após a aplicação da função ln ou log nas funções acima os pontos passam a descrever uma reta. ‡ O numero transcendental e equivale a: e = 2,7182818284590452353602874713527... Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 24 Na equação (1.11) os dados do eixo das ordenadas descrevem uma função ln e o eixo das abscissas descrevem uma função linear em x. Se colocamos os pontos dessa função num papel do tipo mono-log teremos uma reta. Tabela 2-3 Exemplo de valores de uma função exponencial. x(cm) 0,0 0,4 1 1,4 2,0 4,0 4,4 7,5 T/T0 1,0 0,801 0,606 0,473 0,341 0,127 0,102 0,0165 ln (T/T0) 0 −0,222 −0,501 −0,749 −1,076 −2,064 −2,280 −4,104 Na Tabela 2-3, apresentamos os dados para um decaimento exponencial, e na mesma tabela já incluímos os valores do logaritmo da ordenada. 1 0 ln(T/T0) T/T0 -1 0,1 -2 ∆ln(T/T0)=4 -3 ∆x=-7,4 -4 0,01 -1 0 1 2 3 4 5 6 7 8 -1 0 1 2 3 4 5 6 7 8 x (cm) x (cm) Figura 2-8 Gráfico dos dados da Tabela 2-3 da transmissão normalizada. A esquerda a transmissão T/T0 (segunda coluna) é graficada diretamente na escala mono-log e a direita temos o gráfico linearizado ln (T/T0) (terceira coluna) em papel milimetrado. Graficando-se os dados desta tabela (Figura 2-8) podemos verificar a linearização da curva, indicando que a exponencial é uma boa aproximação Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 25 para estes pontos. Os parâmetros β e ln C são dados, respectivamente, pelo coeficiente angular e pelo termo constante da reta. Do gráfico (a direita), obtemos: β = −0, 54 cm−1 e C = 1. (1.13) Podemos obter os mesmos valores diretamente do gráfico da Figura 2-8 (esquerda) lembrando que o papel é log na base 10. Para que possamos obter o mesmo resultado tomamos (por exemplo) dois pontos (1º. e o ultimo), então o coeficiente angular β´ nessa escala será: β ´= log1 − log 0, 0165 ≅ −0, 2377...cm -1 7, 5 − 0 (1.14) Essa discrepância com o valor apresentado na equação (1.13) é devido ao log ser na base 10, portanto: β= β´ log e = 0, 54 cm -1 (1.15) Na Tabela 2-4 temos os pontos apresentados no gráfico da Figura 2-8. Tabela 2-4 Comprimento (L) e período (T) do pêndulo. L(cm) ±0,1 T(s) ±0,01 10,0 0,72 40,0 1,13 70,0 1,75 100,0 1,95 130,0 2,42 160,0 2,46 190,0 2,82 Um exemplo muito ilustrativo na obtenção do coeficiente de atenuação de um gráfico exponencial é mostrado na Figura 2-9. Nesse gráfico temos todos os passos para a obtenção desse coeficiente e sua correção devida a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br 26 escala logarítmica ser na base 10. Uma outra forma de encontrar o resultado da expressão log Y f − log Y é medir ∆Y e L (medida de uma década) com uma régua, a razão ∆Y é o resultado quisto, conforme mostrado na Figura 2-9. L T (oC) Y = A ⋅ ebX A=160º 30 b ⋅ log e = 200 log 20 − log100 71 − 10 ≅ −0, 012 s-1 100 L ∆Y log Y f − log Yi = ∆X X f − Xi = 50 4 ∴ b ≅ −0,027s-1 ∆Y = Y f − Yi 30 20 ∆X = X f − X i 1 0 10 20 30 40 50 60 70 t (s) Figura 2-9 Gráfico exemplo de obtenção do coeficiente b de atenuação da função Y = A ⋅ ebX . Note que o coeficiente deve ser corrigido conforme equação (1.15). O resultado b ⋅ log e pode ser obtido através da razão ∆Y com as medidas de ∆Y e L L ⋅ ∆X obtidas através de uma régua. Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Apostila de Física Experimental A – Prof. Paulo César de Souza http://fisica.uems.br