UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CECH – CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS DEME – DEPARTAMENTO DE METODOLOGIA DE ENSINO CURSO DE PEDAGOGIA DISCUTINDO AS RELAÇÕES ENTRE CULTURA ESCOLAR E CULTURA DE REFERÊNCIA DOS ALUNOS A PARTIR DE TRABALHOS APRESENTADOS NA ANPED Teresa Cristina de Camargo SÃO CARLOS 2008 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CECH – CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS DEME – DEPARTAMENTO DE METODOLOGIA DE ENSINO CURSO DE PEDAGOGIA DISCUTINDO AS RELAÇÕES ENTRE CULTURA ESCOLAR E CULTURA DE REFERÊNCIA DOS ALUNOS A PARTIR DE TRABALHOS APRESENTADOS NA ANPED Teresa Cristina de Camargo Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado ao Centro de Educação e Ciências Humanas, na Universidade Federal de São Carlos. Orientadora: Professora Doutora Emília Freitas de Lima. SÃO CARLOS 2008 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 03 1 – CULTURA E CURRÍCULO 06 2 – APRESENTAÇÃO DOS DADOS 11 2.1. Temáticas específicas abordadas 11 2.2. Principais autores de referência 13 2.3. Abordagens metodológicas 14 2.4. Principais resultados 15 3 – ANÁLISE DOS DADOS 23 CONSIDERAÇÕES FINAIS 27 REFERÊNCIAS 29 3 INTRODUÇÃO A educação, concebida como a formação do sujeito e o desenvolvimento de suas capacidades, acontece ao longo de toda a vida e à medida que interage com o mundo a sua volta. Para potencializar este desenvolvimento construiu-se o sistema escolar, que seleciona alguns conteúdos em detrimento de outros e elabora condições que favoreçam essas aprendizagens. Uma das preocupações do pedagogo quanto a essas aprendizagens direcionadas é o confronto entre a cultura dessa escola e a cultura de referência dos alunos. Se por um lado é necessário que o aluno aprenda os conteúdos priorizados na escola, porque eles são o principal meio para a conquista da igualdade social, por outro, é necessário que o aluno não sinta sua cultura de referência desvalorizada, mas ao contrário, perceba sua importância para alcançar essa cultura mais geral. Os conteúdos escolares são, segundo Sacristán (1999), um fenômeno que surge como resposta às necessidades de um tipo específico de sociedade e, por isso, não se resumem à transmissão da cultura como um conjunto de significados desinteressados, mas que imprimem modelos de vida e hierarquia de valores. Deste modo, os professores tornam-se agentes culturais e suas ações são orientadas por suas posições e valorizações referentes ao sentido do que deve ser a cultura escolar. É por isso que o debate essencial da educação deve centrar-se no tipo de projeto cultural a que queremos que esta sirva. É importante na formação do pedagogo o questionamento e a reflexão acerca dos conteúdos introduzidos no currículo da escola e sua importância para a formação dos sujeitos. A articulação entre os conhecimentos priorizados na escola e aqueles construídos pelos grupos que dela participam é fundamental para uma educação que considere a dimensão humana dos seus participantes, capacitando-os ao domínio dos conhecimentos mais universais que somente serão adquiridos a partir da sua própria cultura. Este diálogo multicultural é, portanto, o gerador de sujeitos que sejam inseridos no mundo numa perspectiva política e criativa. É nessa perspectiva que o presente estudo pretende compreender os principais aspectos a serem considerados na prática educativa, para garantir uma aprendizagem dos conteúdos escolares – mesmo que alicerçados na cultura eurocêntrica possa, ao mesmo tempo, valorizar a cultura de referência dos alunos e, assim, garantir a alteridade dos diversos grupos sociais sem lhes negar as competências necessárias para dialogar horizontalmente. 4 A questão “O que dizem as pesquisas apresentadas na ANPEd entre os anos 2003 e 2007 sobre as relações entre a cultura de referência dos alunos e a cultura escolar?” norteou esse trabalho. Ainda que seja um tema relativamente novo nos estudos pedagógicos, já existe bastante material para ser estudado. Como não se trata de uma pesquisa extensa, foram levantados os trabalhos de apenas três grupos de trabalho da ANPEd (GT): Didática/n.04; Currículo/ n.12; Sociologia da Educação/ n.14. O procedimento metodológico utilizado foi o levantamento bibliográfico, pelo website da ANPEd, acerca do tema “Relação entre a cultura de referência dos alunos e a cultura escolar”, entre os anos 2003 e 2007. A seleção foi feita a partir da leitura dos resumos dos trabalhos, tomando para a análise aqueles que sugeriam uma investigação acerca da cultura escolar. Foi feita a análise documental e para a elaboração do suporte teórico, foram lidos importantes autores que abordam conceitos de Cultura, Currículo e Multiculturalismo. Para a leitura dos trabalhos utilizou-se uma ficha de leitura elaborada por Mariano (2006), a partir da qual foram feitos resumos críticos: FICHA DE ANÁLISE DOS TRABALHOS TÍTULO: AUTOR: ANO: ___________ CATEGORIA: ____________ EVENTO: _____________ TIPO DE MATERIAL: __________________________ QUESTÃO DE PESQUISA: _______________________ REFERENCIAL TEÓRICO/PRINCIPAIS CONCEITOS/PERSPECTIVA: ABORDAGEM METODOLÓGICA: RESULTADOS OBTIDOS: CONSIDERAÇÕES FINAIS: In: MARIANO, A. L. S. A construção do início da docência: um olhar a partir das produções da ANPEd e do Endipe. Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2006. 5 Por meio dessa ficha os trabalhos foram analisados a partir de cinco categorias: 1) questão de pesquisa; 2) referencial teórico/principais conceitos/perspectiva; 3) abordagem metodológica; 4) resultados obtidos; 5) considerações finais. Optou-se, posteriormente, por analisar as categorias dos resultados obtidos e das considerações finais em seu conjunto por se verificar que os mesmos aspectos transitavam entre uma e outra, na maioria dos trabalhos verificados. A análise foi realizada a partir do referencial teórico como diretrizes para as questões que devem ser impreterivelmente abordadas. 6 CAPÍTULO 1 Cultura e currículo Dentre os assuntos tratados no campo da pedagogia ganha cada vez mais importância as discussões sobre os conteúdos que compõem o currículo escolar, principalmente no que se refere à tensão entre o universalismo, relacionado aos conhecimentos historicamente privilegiados nas instituições escolares, e o relativismo, que defende novos critérios para a seleção e justificação desses conteúdos mais sensíveis à temática da diversidade cultural. Tomaremos por currículo, assim como Forquin (2000), não somente a determinação formal do que se deve ensinar e aprender na escola, mas fundamentalmente o conjunto dos conteúdos cognitivos e simbólicos nas práticas pedagógicas e nas situações de escolarização: saberes, competências, representações, tendências e valores, transmitidos de modo explícito ou implícito. Essa problemática, que abrange a validade da seleção dos conteúdos curriculares e confronta o universalismo e o relativismo, foi desencadeada no Brasil pela elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais1 (PCNs) em 1997, primeira ação no país que incluiu a temática da diversidade cultural em uma proposta curricular em âmbito nacional. Neste contexto têm-se constituído importantes debates, aflorando diferentes posições e tendências. O grande desafio é trazer para a escola um ensino multicultural, em que consigamos articular uma política de igualdade, na qual todos os grupos tenham direitos iguais e, ao mesmo tempo, direitos de identidade, com o cuidado para que aquela igualdade não os descaracterize. Na definição de Forquin (2000), multiculturalismo, no ensino, é levar em conta a diversidade dos pertencimentos e referências culturais dos grupos de alunos, por meio de escolhas éticas e políticas, que incluem os conteúdos, métodos e organização do ensino. Consideramos, nesse trabalho, um dos conceitos de cultura apresentado no Dicionário Básico de Filosofia: 1 Os Parâmetros Curriculares Nacionais constituem um referencial de qualidade para a educação no Ensino Fundamental em todo o País. Sua função é orientar e garantir a coerência dos investimentos no sistema educacional, socializando discussões, pesquisas e recomendações, subsidiando a participação de técnicos e professores brasileiros, principalmente daqueles que se encontram mais isolados, com menor contato com a produção pedagógica atual. Por sua natureza aberta, configuram uma proposta flexível a ser concretizada nas decisões regionais e locais sobre currículos e sobre programas de transformação da realidade educacional empreendidos pelas autoridades governamentais, pelas escolas e pelos professores. Não configuram, portanto, um modelo curricular homogêneo e impositivo, que se sobreporia à competência político-executiva dos Estados e Municípios, à diversidade sociocultural das diferentes regiões do País ou à autonomia de professores e equipes pedagógicas. In: Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais / Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 1997. p. 13. 7 cultura: [...] 3. Em oposição a natura (natureza), a cultura possui um duplo sentido antropológico: a) é o conjunto das representações e dos comportamentos adquiridos pelo homem enquanto ser social. Em outras palavras, é o conjunto histórica e geograficamente definido das instituições características de determinada sociedade, designando “não somente as tradições artísticas, científicas, religiosas e filosóficas de uma sociedade, mas também suas técnicas próprias, seus costumes políticos e os mil usos que caracterizam a vida cotidiana” (Margaret Mead); b) é o processo dinâmico de socialização pelo qual todos esses fatos de cultura se comunicam e se impõem em determinada sociedade, seja pelos processos educacionais propriamente ditos, seja pela difusão das informações em grande escala, a todas as estruturas sociais, mediante os meios de comunicação de massa. Nesse sentido, a cultura praticamente se identifica com o modo de vida de uma população determinada, vale dizer, com todo o conjunto de regras e comportamentos pelos quais as instituições adquirem um significado para os agentes sociais e através dos quais se encarnam em condutas mais ou menos codificadas. [...] JAPIASSÚ; MARCONDES, 1996, p. 61. Existe um “modelo” de currículo que influencia toda instituição escolar. A escolha formal dos conteúdos, as práticas pedagógicas, as tendências e valores que permeiam a escola tendem a se pautar em função das diretrizes por esse modelo ditadas, explícita e implicitamente. Segundo Sacristán (1999), uma das mais significativas transformações que ocorreu nas sociedades durante o século XX foi o surgimento da idéia de que todo ser humano tem direito à educação, e que esta se dá por meio da escolarização universal. Com o surgimento e a evolução das sociedades industrializadas, novas demandas foram incorporadas na estrutura e na vida da família, que transferiu algumas de suas funções às escolas. Portanto, para esse autor, a educação escolar é uma resposta prática às necessidades de um tipo específico de sociedade e, por isso, determina modelos de vida e uma certa hierarquia de valores, não sendo a cultura nela transmitida um conjunto de significados desinteressados. A escola tornou-se, por conseguinte, uma instituição tida como salvadora, em que são concentradas no currículo todas as urgências sociais que partem de diversas áreas de interesse. Certamente, cultura distingue-se como tema central para entender a educação, porque nela estão contidas significações que elevarão os sujeitos e cumprirão a principal função da escola: a socialização. Resta defender o projeto cultural ao qual pretendemos que a escola sirva. Para Sacristán (1999) a escola moderna pretende tornar o indivíduo um ser culto, bom cidadão, de personalidade adequadamente formada e bom trabalhador e, assim, 8 impulsionar o progresso dos sujeitos e de toda a sociedade em seu conjunto. Isto acontece, segundo os ideais modernos, por meio do acesso, por parte dos mais jovens, às elaborações do passado, que tornam possível compreender também o presente. Assim, a aluno torna-se depositário desse legado cultural. A cultura é entendida, na concepção moderna, como algo externo ao sujeito e que representa “o melhor de sua história”, e por isso deve permanecer. Neste sentido, é atribuída à educação a tarefa da continuidade do legado cultural, por meio da reprodução, para dignificar e aperfeiçoar o indivíduo. Este legado moderno é composto por um conjunto de objetos e obras destacados, que objetivados, muitas vezes, perdem-se de seu contexto, desconsiderando-se os processos e os agentes que os criaram. O que há de nocivo nesta medida é ignorar que essa seleção e hierarquização dos produtos culturais são resultantes de relações sociais que acabam por creditar uma herança cultural como superior em detrimento de outras. A partir dessa constatação e considerando a burocracia necessária para organizar a educação escolarizada, Sacristán (1999) aponta seus efeitos homogeneizadores que dados os dois motivos acima explicitados acabam por gerar uma miopia na escola que tende a focar no legado moderno, assim, não contribuindo para uma identificação entre o aluno e a escola - e afirma que os sujeitos podem sentir-se oprimidos, sem compreender a finalidade de seu complexo projeto, “é a coroa da moeda que no seu outro lado oferece ordem, regulamentação, garantia de receber certos bens” (SACRISTÁN, 1999, p. 204). Para Forquin (2000), a escola tem que justificar para a sociedade o que ensina, pois esta necessita conhecer a utilidade do que aprende. Seus conteúdos devem ter um alto nível de generalidade e são considerados saberes “públicos”, potencialmente acessíveis e pertinentes a todos os grupos, independente de contextos particulares. Afirma que a generalidade refere-se a uma cultura mais geral, que possibilita o acesso a conhecimentos que são a base para aquisições cognitivas cumulativas, o que não significa uma cultura no sentido de “idéias gerais”, imprecisa; ao contrário, aborda conhecimentos precisos e competências específicas. Nesse sentido, é bastante elucidativo quando desvela os saberes que chama de elementares, que são fundamento para aquisição de qualquer outro saber e são acentuados na escola primária, como os princípios lógicos e o espírito de análise. Assim, fica entendido, segundo palavras do mesmo autor, que “o essencial daquilo que a educação transmite (ou do que deveria transmitir) sempre, e por toda a parte, transcende necessariamente as fronteiras entre os grupos humanos e os particularismos 9 mentais e advém de uma memória comum e de um destino comum a toda a humanidade” (FORQUIN, 1993, p. 12). Ainda segundo este autor, a consolidação do respeito às culturas, o multiculturalismo, exige um ponto de vista exterior às próprias culturas e critérios com caráter de universalidade. Assim, uma educação intercultural só pode conceber a atenção e o respeito que indivíduos de diferentes culturas merecem se ela for capaz, antes de tudo, de reconhecê-los como seres humanos genéricos, que apresentam uma vocação transcultural para a racionalidade. (FORQUIN, 2000. p. 63). Há conhecimentos universais, elementares, que ao longo da história os seres humanos desenvolvem, mas que podem ser aplicados em diferentes universos culturais, cabe ao professor identificar os melhores exemplos pedagógicos para que se faça presente o que há de humano em cada uma dessas manifestações culturais e, assim, “apreciar o que é particular segundo o parâmetro do que é universal” (FORQUIN, 2000. p. 63). Desse modo, Forquin (2000) defende o multiculturalismo, mas que não seja ele em prol da autoproteção identitária, mas interativo e aberto, tanto para a comunicação quanto para a mudança. É, portanto, justificável a seleção de conteúdos que, de modo universal, garanta o desenvolvimento intelectual dos sujeitos pertencentes a qualquer cultura. No entanto, não podemos reduzi-los a um universalismo sem memória e descontextualizado. Os conteúdos estão sempre enraizados em uma cultura, em determinado tempo e espaço. E, no caso desses conteúdos universais, estes transcenderam, justamente porque enriquecem o conhecimento, independente de tempo, espaço ou cultura a que se refiram. Cabe à escola apresentar e deixar que se apresentem todas as vozes, compreendê-las e construir um espaço não de tolerância, nem de restrições para cada cultura, mas de um rico debate e permanente desenvolvimento das potencialidades humanas, de que resulta a cultura. Nessa perspectiva, ganham cada vez mais importância os debates sobre a relação entre a cultura escolar e a cultura de referência dos alunos. A cultura escolar é, segundo Forquin (2003, p. 20), “o conjunto dos conteúdos cognitivos e simbólicos que, selecionados, submetidos a um ‘condicionamento didático’ e organizados na forma de programas de estudos institucionalizados, são objeto de uma transmissão deliberada no 10 quadro dos estabelecimentos de ensino”. A cultura de referência dos alunos relaciona-se ao universo cultural em que cada um se constitui enquanto sujeito. É importante perceber que cultura escolar, que nos dedicamos em compreender nesta pesquisa, e cultura da escola são conceitos diferentes para Forquin (1993), como pontuou Koff (2005), em seu trabalho aqui analisado. Em nota encontram-se as seguintes definições: Segundo Forquin (1993), a cultura escolar pode ser definida como “o conjunto de conteúdos cognitivos e simbólicos que selecionados, organizados, “normalizados” rotinizados, sob efeitos de imperativos de didatização, constituem habitualmente o objeto de uma transmissão deliberada no contexto das escolas”. [...] Ainda de acordo com Forquin (1993), “a escola é também “mundo social”, que tem suas características de vida próprias, seus ritmos e seus ritos, seu imaginário, seus modos próprios de regulação e de transgressão, seu regime próprio de produção e de gestão de símbolos. E esta “cultura da escola” [...] não deve ser confundida tampouco com o que se entende por cultura escolar”. (167) (KOFF, 2005, p. 1) 11 CAPÍTULO 2 Apresentação dos dados As fontes da pesquisa do presente estudo são os trabalhos que abordam o tema da cultura escolar e/ou da escola, apresentados nas Reuniões Anuais da ANPEd entre os anos de 2003 e 2007. Foram selecionados 12 trabalhos, distribuídos nos seguintes Grupos de Trabalhos (GTs): Didática (GT 04), Currículo (GT 12) e Sociologia da Educação (GT 14). Não há muitos trabalhos acerca da relação entre a cultura escolar e a cultura de referência do aluno, apenas três o fizeram detidamente. Além disso, este muitas vezes não se apresenta como foco principal dos estudos, mas coloca-se como eixo periférico, o que, mesmo assim, não deixa de nos apontar as atuais discussões acerca do assunto. A seguir serão apresentados os principais elementos presentes nos trabalhos analisados. 2.1. Temáticas específicas abordadas As inquietações verificadas nos trabalhos são: as atividades que as escolas desenvolvem, via currículo formal e real, a respeito da pluralidade de culturas, especificamente as manifestações explícitas ou sutis do preconceito racial (Oliveira e Costa, 2003); como os currículos são feitos e refeitos por meio das perguntas não previstas, relativas ao conhecimento e à cultura dos sujeitos da escola, partindo da preocupação presente nas escolas de que todo aluno deve sair sabendo os mesmos conteúdos para garantir um futuro, muitas vezes desvinculando esses conhecimentos de sua realidade (Sgarbi, 2004); modo como se dá a relação entre a cultura escolar, a cultura da escola e a cultura social de referência dos alunos (Koff, 2005); análise da relação escola e cultura escolar como determinantes para a gestão controlada das diferenças no/pelo currículo, que embora possa expressar e articular essas diferenças necessita, antes, da compreensão de como as relações nas quais as diferenças são construídas operam como parte de um conjunto de práticas sociais, políticas e culturais (Silva e Menegazzo, 2005); compreensão do processo de construção da educação escolar no contexto das comunidades indígenas brasileiras (Nascimento, 2005); compreender o que pensam e sabem os professores a respeito de um conhecimento escolar que incorpora a dimensão da diversidade cultural, as dificuldades para acolhê-la e o espaço e tempo que se 12 tem propiciado na escola para a discussão do tema (Almeida e Cicillini, 2005); a partir da prática de jongo, refletir a prática da cultura popular e do processo de curricularização da mesma, colocando-a como modelo de escolarização e de aprendiz (Passos, 2006); a percepção que os alunos têm do professor e da escola, bem como sua importância para a vida de cada um (Lana, 2006); as implicações da inter-relação entre a escola e o bairro rural na vida da comunidade, bem como a expectativa dos moradores, e como a escola responde, no seu currículo e no seu trabalho cotidiano, às manifestações dessa cultura (caipira) (Campos, 2006); compreender a maneira como a pedagogia advinda da influência da migração gaúcha para o Mato Grosso atua no ambiente escolar e como seus elementos constituem uma forma de currículo cultural (Freitas, 2007); se há espaço para a construção do conhecimento por meio do diálogo que surge a partir do uso de artefatos culturais (revistas, televisão, cinema, internet, etc.), se essas informações são transformadas em conhecimento no cotidiano da escola (Kretli, 2007); compreensão da cultura da escola e sua relação com a cultura do samba e o contexto social que ela envolve (Lima, 2007). QUADRO 1: Temáticas específicas2 Temáticas Quantidade de trabalhos Trabalho/os Currículo 7 OLIVEIRA E COSTA, 2003; SGARBI, 2004; SILVA E MENEGAZZO, 2005; PASSOS, 2006; CAMPOS, 2006; FREITAS, 2007; KRETLI, 2007 Cultura escolar 5 KOFF, 2005; SILVA E MENEGAZZO, 2005; NASCIMENTO, 2005; ALMEIDA E CICILLINI, 2005; CAMPOS, 2006 Cultura de referência dos alunos 4 SGARBI, 2004; KOFF, 2005; CAMPOS, 2006; LIMA, 2007 Cultura da escola 3 KOFF, 2005; CAMPOS, 2006; LIMA, 2007 Pluralidade cultural 2 OLIVEIRA E COSTA, 2003; ALMEIDA E CICILLINI, 2005 Preconceito racial 1 OLIVEIRA E COSTA, 2003 Gestão multicultural; relações sociais no espaço escolar. 1 SILVA E MENEGAZZO, 2005 Educação escolar; Culturas indígenas brasileiras. 1 NASCIMENTO, 2005. Cultura popular - jongo 1 PASSOS, 2006 Migração 1 FREITAS, 2007 Artefatos culturais 1 KRETLI, 2007 Cultura do samba 1 LIMA, 2007 2 pesquisa. O Quadro 1 mostra quais os temas específicos identificados nos trabalhos analisados na presente 13 2.2. Principais autores de referência Os pesquisadores utilizaram referenciais teóricos bastante convergentes. Autores como Giroux, McLaren, Forquin e Sacristán foram bastante citados nos trabalhos. O trabalho de Oliveira e Costa apresenta Santomé, Giroux, Sacristán, Munanga e Garcia em seu referencial teórico. Em Sgarbi, destacam-se Silva, Gallo, Foulcault, Carl Rogers, Oliveira, Alves e Macedo. Koff apresentou uma abordagem pautada em Forquin, Canclini e Candau. Silva e Menegazzo buscaram referências principalmente em Williams, Giroux, Silva, Pineau, Candido, Viñao-Frago, Forquin, Julia, Brookover, Parsons, Sacristán, Bourdieu, Ainscow e Apple. No trabalho de Nascimento destacam-se Vorraber Costa, Ramos de Oliveira, Canclini e Roldão. Almeida e Cicillini apóiam-se em Hargreaves, Sacristán, Forquin, Pérez Gómes e Tardif & Raymond. Passos apresenta Agier, Geertz, Canclini e Forquin como principais referenciais de suas análises. O trabalho de Lana apresenta em seu referencial teórico autores como Mehan, Forquin, Mead, Waller, Woods, McLaren, Willis, Lahire, Zago e Bernstein. Campos, em seu trabalho, apresenta Pereira de Queiroz, Brandão, Candido, Buarque de Holanda, Shirley, Forquin e McLaren como principais referenciais teóricos. Freitas apresenta Hall, Canclini, Escosteguy, Costa, Silveira e Sommer. No trabalho de Kretli, destacam-se Certeau, Giard, Ferraço, Santos e Esteban. Lima utilizou como referencial teórico, principalmente, Candau, Forquin, Sacristán, Pérez Gómez, Velho, Ortiz, Cabral, Sodré, Sansone e Reguillo. QUADRO 2: Autores de referência3 Autores de referência Agier, Geertz Ainscow, Apple, Bourdieu, Brookover, Julia, Parsons, Pineau, Silva, Viñao-Frago, Williams Alves, Carl Rogers, Foulcault, Gallo, Macedo, Oliveira, Silva Bernstein, Lahire, Mead, Mehan, Waller, Willis, Woods, Zago Brandão, Buarque de Holanda, Shirley Cabral, Ortiz, Reguillo, Sansone, Sodré, Velho Canclini Candau Candido Certeau, Esteban, Ferraço, Giard, Santos Costa, Escosteguy, Hall, Silveira, Sommer 3 Trabalho/os PASSOS (2006) SILVA E MENEGAZZO (2005) SGARBI (2004) LANA (2006) CAMPOS (2006) LIMA (2007) KOFF (2005), NASCIMENTO (2005), FREITAS (2007), PASSOS (2006) KOFF (2005), LIMA (2007) SILVA E MENEGAZZO (2005), CAMPOS (2006) KRETLI (2007) FREITAS (2007) O Quadro 2 mostra os autores de referência dos trabalhos analisados na presente pesquisa. 14 Continuação do QUADRO 2: Autores de referência Forquin Garcia, Munanga, Santomé Giroux Hargreaves, Tardif & Raymond McLaren Pérez Gómes Ramos de Oliveira, Roldão, Vorraber Costa Sacristán KOFF (2005), SILVA E MENEGAZZO (2005), ALMEIDA E CICILLINI (2005), PASSOS (2006), LANA (2006), CAMPOS, LIMA (2007) OLIVEIRA E COSTA (2003) OLIVEIRA E COSTA (2003), SILVA E MENEGAZZO (2005) ALMEIDA E CICILLINI (2005) LANA (2006), CAMPOS (2006) ALMEIDA E CICILLINI (2005), LIMA (2007) NASCIMENTO (2005) OLIVEIRA E COSTA (2003), SILVA E MENEGAZZO (2005), LIMA (2007), ALMEIDA E CICILLINI (2005) 2.3. Abordagens metodológicas A abordagem metodológica ou metodologia de pesquisa é, na definição apresentada por Pedro Demo (1989) apud Martins (2004), o “conhecimento crítico dos caminhos do processo científico, indagando e questionando acerca de seus limites e possibilidades” (p. 291). Corresponde, portanto, a algo mais abrangente que o mero conjunto das técnicas ou métodos utilizados nas pesquisas. No entanto, dentre os trabalhos analisados nesta pesquisa nem sempre esta distinção esteve suficientemente explicitada. Conseqüentemente, alguns trabalhos não deixaram claras suas metodologias/ abordagens metodológicas de pesquisa, restringindo-se apenas a citar os métodos ou técnicas que foram usados na investigação. Por isso, e a fim de não inferir erroneamente sobre as perspectivas metodológicas, optamos por apresentar os principais métodos/ técnicas citados nos trabalhos que foram analisados, referindo-nos às metodologias quando estas nos pareceram suficientemente explícitas por seus autores. Como abordagens metodológicas foram verificadas em número significativo os estudos de caso de natureza qualitativa e de cunho etnográfico. Também são descritas observação participante e análise de documentos levantados na escola, gravação de conversas de sala de aula de nível superior para professores da educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental, levantamento de documentos oficiais do Estado referentes às leis para educação indígena, observação da participação dos grupos indígenas para a elaboração dessas leis, entrevistas qualitativas e de cunho etnográfico, entrevistas semi-estruturadas e observação de campo nos moldes de uma pesquisa etnográfica, em que o pesquisador é o principal instrumento de coleta. 15 QUADRO 3: Métodos de pesquisa4 Métodos de pesquisa Análise documental e observação da prática cotidiana dos professores. Gravações de aulas/ narrativas Trabalho/os OLIVEIRA e COSTA, 2003 Observação da prática cotidiana; entrevistas individuais; análise documental (estudo de caso de natureza qualitativa, de cunho etnográfico). KOFF, 2005 Análise documental; observação SGARBI, 2004 SILVA e MENEGAZZO, 20055 NASCIMENTO, 2005 Observações participantes; entrevista semi-estruturada (estudo de caso de cunho etnográfico). ALMEIDA e CICILLINI, 2005 Observação e entrevistas. PASSOS, 2006 Observação, notas de campo, entrevistas semiestruturadas e discussões informais (abordagem etnográfica). Observação participante e entrevista semi-estruturada. LANA, 2006 Entrevistas. FREITAS, 2007 Observação. KRETLI, 2007 Observação de campo (abordagem atnográfica) LIMA, 2007 CAMPOS, 2006 2.4. Principais resultados As pesquisas verificaram trabalhos divergentes dentro da escola e a não correspondência entre a preocupação com o multiculturalismo presente no currículo e sua efetivação na sala de aula. No caso da cultura negra, se abordada, muitas vezes centra-se apenas em aspectos triviais como alimentação, folclore, maneira de vestir, sem problematizar ou relacionar com a vida cotidiana e social das crianças. Também se percebeu rejeição e dificuldade dos professores em trabalhar com temáticas que eles consideram não ligadas diretamente a sua área de conhecimento, o que demonstra certo alheamento aos conhecimentos referentes à questão racial. Para muitos professores esse não deve ser um tema tratado dentro da escola e percebe-se a dificuldade que têm em reconhecer o pertencimento 4 O Quadro 3 mostra as abordagens metodológicas verificadas nos trabalhos analisados na presente pesquisa. 5 O trabalho de Silva e Menegazzo, aqui analisado, apresenta a etapa da pesquisa que envolve o referencial teórico, não constando, portanto, abordagem metodológica que se seguiria na possível pesquisa. 16 racial de seus alunos. Foram verificados trabalhos positivos nesse sentido, no entanto, pontuais e restritos a um pequeno número de professores (OLIVEIRA e COSTA, 2003). As professoras observadas na pesquisa de Sgarbi (2004) que trabalham em realidades sociais em que a carência é a principal marca, apontaram que os currículos que devem praticar, mesmo aqueles que se apresentam como inovadores, não encontram ressonância na realidade vivida por seus alunos, apresentando-se como um amontoado de ‘respostas’ que não foram precedidas da pergunta, o que vale dizer, que se apresentam como desinteressantes para os alunos porque nelas eles não vêem nenhuma relação com sua vida real, sendo a escola parecida com uma ‘segunda vida’. Não seria essa uma crítica aos conhecimentos ‘oficiais’, mas a maneira como são organizados e transmitidos pela maioria das escolas, sem a relevância da relação entre esses conhecimentos e as vidas das pessoas, uma ‘inadequação metodológica’. Também coloca a importância dada nos currículos a certa ordem específica de conhecimentos, validados pelas estruturas hierárquicas e pelo poder instituído. Forças estas que ditam o que deve ser ensinado na escola e ao mesmo tempo originam a inclusão e a exclusão, porque arbitrariamente instituem o certo e o errado, apresentam uma só maneira de ver o mundo, e aí não há lugar para as diferenças e as divergências, que o autor considera tão característico da humanidade. Koff (2005) verificou em sua pesquisa a preocupação em formar sujeitos que atuem com responsabilidade social, por meio do trabalho interdisciplinar, e que ao mesmo tempo adquiram os conteúdos necessários para o bom desempenho no vestibular. As salas de aula são caracterizadas como ‘clássicas’, por terem uma organização espacial convencional, com carteiras enfileiradas, pela ação estar sempre centrada nos professores, que dão aulas expositivas quase o tempo todo, com dinâmicas pouco variadas, apresentam diálogo com os alunos, na maioria das vezes, com perguntas e respostas relacionadas ao “tema da aula” planejado pelo professor, os livros didáticos e as apostilas são os recursos mais utilizados, uma ênfase nos conteúdos curriculares e muitos momentos de testes, provas e atividades para nota. Apesar disso, percebeu-se a existência de particularidades da prática pedagógica de cada professor, alguns ficando a maior parte do tempo na lousa ou em sua mesa, sentados, outros circulando muito pela sala, existem aqueles mais formais que se preocupam o tempo todo em manter o controle da disciplina e outros que buscam um ambiente de maior interação, mantendo longas conversas sobre temas variados que criam uma aproximação muito grande entre alunos e professor e, no entanto, não deixam de se preocupar com o cumprimento do programa curricular. Ainda é ressaltado o fato de que o conteúdo priorizado no trabalho dos docentes é o mesmo do programa curricular, os conteúdos exigidos em provas do tipo 17 vestibular, e que raras vezes os professores fazem relação entre esses e a vida cotidiana dos alunos. Alguns esforços do professor foram constatados no sentido de tentar fazer esse elo, falando da realidade brasileira ou assuntos que fazem parte da cultura dos alunos da escola (esporte, cinema, música, fotografia, festas, escolha da profissão, relação com os pais, amizade etc.). “Dar a aula e cobrar a aula” foram considerados os rituais mais comuns presentes nas salas de aula da escola pesquisada, restando espaços muito limitados para diferentes dinâmicas, para o diálogo e, assim, para a aproximação com a cultura dos alunos. Nesse contexto o que se percebe é que as aulas são marcadas por certo grau de ansiedade, principalmente por causa do vestibular, que se torna a esperança de estar “preparado para a vida”. Outro aspecto importante é o caráter monocultural percebido nas salas de aula, relacionado a uma concepção de cultura “culta” e aos modelos próprios da cultura ocidental, que dificulta as relações entre a cultura escolar, a cultura da escola e os demais universos culturais de referência. Muitos professores têm dificuldade em trabalhar a partir da cultura dos alunos, inclusive afirmam identificar muitos problemas ao tentar caracterizá-la. Outros chegam a relacioná-la à cultura erudita, clássica ou artística, não se referindo aos modos de vida dos alunos. Nos momentos de atividade extraclasse (cantina, ginásio esportivo, biblioteca, e lugares além dos muros da escola, museus, cinema, exposição, teatro etc.) é que os alunos encontram espaço para conversar sobre seus interesses, usar sua linguagem toda própria e realizar experiências que lhe são interessantes, muitas vezes programadas com o apoio de algum professor (gincana, semana da cultura etc.). Essas atividades pareceram propícias para o diálogo que articula o contexto escolar e o mundo social, político e cultural de referência, e que possivelmente torna realizável a outra face do projeto da escola – formar para a cidadania. Ao estudar documentos oficiais do Estado e presenciar a participação indígena para sua elaboração, Nascimento (2005) identificou a criação de um novo modelo de escola para comunidades indígenas. Enfatiza-se a importância da prática pedagógica estar ancorada em uma relação entre as ações da escola e da sociedade, para buscar o contexto educacional, que não mais é o espaço estritamente escolar, mas o “território” daquele a quem a escola serve, espaço inesgotável de significação para a realização da pedagogia como prática social. Esse modelo sugere a abertura de espaço, no âmbito da escola, para a inserção da cultura local, presente na oralidade e nos mitos, por exemplo. Na prática isso corresponde a valorizar uma releitura da história, não a contada só pelos livros, mas fundamentalmente pelos mais velhos, pelos rezadores, a produzir novos mapas, textos e conteúdos, em que todos são 18 mediadores, em busca de tornar o saber local um saber escolar relacionado aos saberes produzidos e sistematizados pela humanidade. A pesquisa de Almeida e Cicillini (2005) revelou, em uma escola, um grupo de professores interessados em orientar a elaboração de um currículo pautado no cotidiano e na participação de diferentes sujeitos, com diversos interesses, opiniões e pontos de vista. No entanto, constataram a existência de muita resistência por parte de outro grupo de professores para investir no projeto. A questão do tempo foi bastante relevante, sendo que os professores reclamam que seria necessário mais tempo. Também perceberam uma ambigüidade quanto ao emprego do tempo, alguns sugerem maior autonomia dos professores, inclusive na gestão do tempo, mas é sabido que enquanto servidores públicos são submetidos às decisões do poder público, devendo cumprir determinações da Secretaria da Educação. Assim, alguns professores vêem a exigência de lidar com as diferenças e sua responsabilidade de participação coletiva como uma intensificação do seu trabalho. As diferenças culturais, para alguns professores, são explicadas do ponto de vista da privação cultural, entendidas como cultura baseada na deficiência cultural. Isso dificulta uma reflexão e aproveitamento do referencial que o aluno traz da sua experiência de vida. As autoras verificaram que o que há de subjetivo na prática docente interfere nas decisões coletivas e que sempre há disputas, interesses e não neutralidade dos sujeitos quanto ao uso e significado do que deve ser incluído, selecionado e legitimado no currículo. Estudando a prática do jongo, Passos (2006) identificou adultos e crianças dividindo os mesmos espaços (festas, trabalho, reuniões da comunidade) e atuando como sujeitos centrais do jongo da Serrinha para preservar nas gerações mais novas a prática do jongo. Pelo fato de as crianças estarem inseridas nesse contexto cultural, pela própria condição de pertença do grupo, elas já aprendiam. E agora, como aprendizes de jongo, aprendem um conjunto de outros conteúdos. Assim, a pesquisadora verificou uma prática popular, o jongo, que foi inserida nos moldes do currículo escolar, porque se entende comumente que é essa a maneira mais legítima de inserir um sujeito em uma cultura, ou seja, é necessário sistematizar e escolarizar. Desse modo o jongo “virou” currículo. Alguns aspectos do jongo foram selecionados, negociados com outros saberes, legitimados pelo mundo do espetáculo, para então serem ensinados às novas gerações. Lana (2006) observou uma escola de classes populares. Nesse espaço seus alunos lhe atribuem significados que transitam entre sua não-valorização e a indiferença aos conhecimentos que nela circulam, entre reconhecimento da escola e do conhecimento escolar. 19 Para muitos, o espaço do trabalho parece ser mais importante que o valor da escola, apesar de muitas vezes considerarem que freqüentar a escola possa garantir um bom trabalho, e nesse sentido acreditam que a escolarização é importante para a aquisição de saberes fundamentais à inclusão no mercado de trabalho e à mobilidade social. Em sua maioria, os alunos não demonstram qualquer interesse pelos conteúdos da escola e não fazem relação com sua vida prática. Alguns apontaram a escassez dos momentos de brincadeira. A realidade deles é o trabalho e a escola aparece como uma espécie de férias forçadas, lugar de passar o tempo. Por essa razão, podem ficar vários dias ou semanas sem ir à escola em função do trabalho que dizem ser mais importante. Existe uma relação muito intensa entre o fracasso e frustrações desses alunos e a maneira inadequada como as professoras se comportam em sala de aula, que desconsideram as diferenças de ritmo de aprendizagem, suas necessidades culturais e emocionais, além do excesso de recriminação e julgamentos públicos. No geral, o cotidiano escolar está estruturado em rituais, celebrações e rotinas, que representam uma organização centrada no cumprimento de normas de comportamento. Na pesquisa de Campos (2006), realizada na escola rural, percebeu-se que as gerações entrevistadas, apesar de algumas divergências, têm muita esperança no trabalho da escola que consideram importante para a educação e o preparo de seus jovens para o futuro. Uma das maiores diferenças entre essas gerações refere-se às expectativas: os mais velhos queriam uma escola que ensinasse basicamente a ler, escrever e contar, pois para eles a escola deveria contribuir para a economia familiar nos trabalhos agropastoris. Enquanto isso, as outras gerações começaram a desejar não só um adestramento ilustrativo, mas uma escola como instrumento de capacitação política. Atualmente os moradores daquele bairro rural não querem apenas a alfabetização para melhorar sua maneira de trabalhar a natureza e para uma participação básica na política municipal, mas também querem suas crianças preparadas para viver não somente naquele espaço social agrário, mas que estejam preparadas para adquirir outras profissões e viver em outros ambientes socioculturais. No entanto, não vêem isso se concretizar por meio do trabalho escolar, já que a escola rural não está preparada para essa missão. As duas gerações aí também convergem, afirmando a importância da relação entre a unidade escolar e a cultura dos sujeitos, no que se refere ao papel do currículo. Para eles não há relação orgânica entre o que a escola sempre ensinou e a maneira de viver dos moradores. 20 Para esses moradores, existem duas grandes aspirações para a educação escolar: a preservação de seus valores e sua ética, e ligada a esse desejo de preservação aparece a necessidade de mudança, por meio do aperfeiçoamento das técnicas de trabalho. Eles também consideram o estabelecimento de ensino uma repartição pública, mas diferente porque é o único órgão público capaz de provocar impacto na rotina das famílias de modo quase permanente. Isso porque os pais organizam suas atividades em função do horário das aulas e até mesmo aqueles que não têm filhos matriculados, comparecem às festas da escola. A escola é capaz de criar identidades próprias. Na roça, por exemplo, pode despertar a idéia de educar além do simples instruir, nas tarefas cotidianas poderia educar segundo o conceito e o desejo que a comunidade tem de educação. As condições de trabalho acabam determinando a forma de escola que os moradores da zona rural desejam: eles querem que seus filhos tenham oportunidades melhores do que simplesmente vender a força de trabalho por salários diários ou pagamento pela empreitada, ou seja, o trabalho de “camarada”. Outra parceria que esses moradores esperam da escola refere-se à preservação e manutenção de seus valores e tradições. O artigo conclui que a escola não tem, de fato, se preocupado com a cultura desses sujeitos que trabalham a terra. “como pude inferir nas análises de minha pesquisa, a escola nunca foi uma parceira para os moradores da zona rural. Ao contrário, toda história dessa educação, assim como a legislação dessas escolas, expõe claramente a desigualdade perante a educação urbana e expressam o pensamento do sistema educacional em relação aos moradores da roça e o papel de inferioridade sob o qual a escola a eles destinada vem funcionando.” (CAMPOS, 2006, p. 9) O trabalho de Freitas (2007) revelou que uma comunidade gaúcha que migrou para o Mato Grosso reforçou seus hábitos quando fora do Rio Grande do Sul. É como se fora de lá tais hábitos passassem a constituir de fato a identidade daquelas pessoas, quando em seu Estado não tinham tanta relevância. Passam a freqüentar Centros de Tradições Gaúchas (CTG), participar de grupos de danças tradicionalistas, ouvir músicas gauchescas etc. esse ‘gauchismo’ apresenta-se de muitos modos como, por exemplo, na presença do chimarrão nos estabelecimentos comerciais, e também de todo o aparato gauchista dentro das escolas na região. Essa influência é sentida inclusive na Secretaria da Educação que sempre solicita a 21 participação do CTG nas festas e comemorações escolares, além de comemorar datas como a Revolução Farroupilha. Nas escolas é praticada a dança da fita e outras danças típicas gaúchas com traje e tudo o mais. Kretli (2007) estudou os artefatos culturais que podem facilitar os processos de aprendizagem. Na escola foi identificada a presença de vídeos, livros de literatura, revistas, jornais, gibis, panfletos de propaganda, internet, CD-ROMs, jogos, enciclopédias, dicionários, imagens, músicas, livros didáticos, cartilhas, materiais instrucionais de anos anteriores, novelas e programas de televisão, entre outros. No entanto, ao impor o ler e escrever para “ser alguém”, o professor impede a criança de desfrutar as dimensões estética, ética e política desses atos. Ora os professores demonstraram uma concepção de conhecimento mais reprodutivo, estático, pronto e acabado, ora mais dialógico. Existem algumas professoras que se preocupam em utilizar material trazido pelo aluno (livros, revistas, filmes, narrativas do que vêem na televisão ou vivenciam fora da escola). Foram observadas algumas situações cotidianas em que as atividades pareciam descontextualizadas da realidade sociocultural dos alunos. Materiais são levados para a escola, segundo os alunos, de forma velada e clandestina e há uma dicotomia que se estabelece dentro da escola entre brincar e estudar. Fica bem explícito, que a tarefa, com aquele conhecimento estático, é a hora de estudar e os outros produtos culturais referem-se a um momento de brincadeira, considerado pobre para as aprendizagens de interesse da escola. Por fim, Lima (2007) realizou sua pesquisa em um bairro no Rio de Janeiro com o intuito de fazer uma aproximação entre a cultura do samba e a escola. Há, na escola, uma sala de aula própria para música e dança, mas não há iniciativa nas aulas de Educação Física para atividades que contemplem o trabalho com o corpo, como capoeira, samba, funk, hip-hop e jongo. Na escola não há recreio, o que denota uma intenção de disciplinar, controlar, regular os estudantes. Durante toda a observação, o autor percebeu que apenas um aluno reclamou da falta do recreio. Há uma forte presença negra na escola, bem como descendentes de relações inter-raciais, pelo tom da pele, tipo de cabelo e fenótipo. Muitas alunas negras usam penteados afros. Apesar disso, o silenciamento da questão racial é um fato. Em relação à cultura do samba, a escola realizou desfile carnavalesco no mês de junho, que circulou pelas ruas do bairro e que tinha como tema o meio ambiente. O desfile envolveu a participação de vários professores que trabalharam o tema do meio ambiente em suas disciplinas. A conscientização sobre questões ambientais e, sobretudo, o problema da 22 poluição do rio que passa em frente à escola foram os temas trabalhados durante o projeto. Assim, a escola deu importância somente ao tema que quis apresentar, meio ambiente, e o samba foi retificado, colocado como instrumento para apresentar o tema central, sem levar em consideração os elementos culturais dele próprio. A não existência de bateria, porta-bandeira, passistas, indica a pouca importância dada aos elementos culturais, que podem ser aplicados de uma forma interdisciplinar. Do modo como foi feito não houve preocupação com os saberes construídos pelos sambistas na tentativa de compreender a cultura do samba como produtora de saberes, de conhecimento. Ela na verdade, foi apenas suporte ou atividade lúdica. A escola apenas se apropriou dos objetos da cultura do samba, mas deixou o mais importante de lado, que são os agentes sociais e os processos históricos destes. Ou seja, o samba entrou como alegoria e não como conhecimento escolar. 23 CAPÍTULO 3 Análise dos dados Os 12 trabalhos analisados nessa pesquisa abordam o currículo formal, o cotidiano escolar, a cultura e/ou o multiculturalismo. A maioria observou a relação entre o currículo formal e a prática cotidiana na sala de aula. Tais elementos, tomados em seu conjunto, caracterizam o currículo - cerne das discussões acerca do multiculturalismo - como este tem sido entendido nas literaturas estudadas, que o apontam não apenas como a determinação formal do que deve ser trabalhado na escola, mas como “conjunto dos conteúdos cognitivos e simbólicos [...] transmitidos (de modo explícito ou implícito) nas práticas pedagógicas e nas situações de escolarização” (FORQUIN, 2000, p.48). Os referenciais teóricos utilizados nos trabalhos, analisados em seu conjunto, são bastante diversificados, embora alguns autores tenham sido constantes em muitos deles, como é o caso de Forquin, Sacristán, Giroux, McLaren e Candau, autores que se dedicam aos estudos multiculturais, principalmente o multiculturalismo crítico. Teóricos de áreas complementares são fundamentais para garantir a compreensão sobre o tema da relação entre a cultura escolar e a cultura de referência do aluno. Há literatura referente ao currículo, como Santomé, Canclini, Pineau, Roldão; outros da sociologia, como Candido, Zago, Mead, Waller, Lahire e Ortiz. Há também autores da psicologia, como Oliveira e Carl Rogers. A antropologia também está fortemente marcada nos trabalhos estudados, como é o caso da referência a Agier no trabalho de Passos e a Velho no trabalho de Lima. Poucos trabalhos dedicaram-se com afinco aos estudos culturais e dentre aqueles que o fizeram destaca-se o trabalho de Freitas, que utilizou como referência, dentre outros, Hall, Canclini, Escosteguy, Costa, Silveira e Sommer. As literaturas referentes à formação de professores apareceram timidamente, destacando-se Ramos de Oliveira no trabalho de Nascimento, Hargreaves, Tardif & Raymond no trabalho de Almeida e Cicillini, Woods no trabalho de Lana. A preocupação com a cultura de referência dos alunos e, principalmente, as aspirações da comunidade estudada em relação à educação formal, ao contrário do que se esperava, não foram muito acentuadas nessas pesquisas, exceto aquela realizada no bairro rural (CAMPOS, 2006). Como já explicitado, a seleção dos trabalhos deu-se a partir da leitura de seus resumos, que embora prenunciassem tratar do tema da cultura de referência do aluno, bem como da cultura escolar, fizeram-no, muitas vezes, de modo periférico. Assim, optamos 24 por analisar além dos trabalhos que abordaram o tema centralmente (apenas três: KOFF, 2005; SILVA E MENEGAZZO, 2005; CAMPOS, 2006), aqueles que o apresentaram de modo secundário. Tais anseios são muito importantes porque apontam os diversos universos culturais presentes na sala de aula para que assim o professor consiga, por meio dos elementos culturais de pertença dos seus alunos, fazer presente o que há de humano na cultura selecionada no programa da escola. Isto seria olhar a realidade presente na vida dos alunos, a/as cultura/culturas em que estão inseridos - técnicas próprias, costumes, modo de vida, regras, comportamentos - e apreciá-las segundo parâmetros universais. Não para que cada uma delas mantenha-se inalterada e separada das outras, mas, como defende Forquin (2000), como diferencial para instaurar um diálogo interativo e aberto entre as culturas, de modo a construir um conhecimento sólido, reflexivo e que de alguma maneira responda aos anseios individuais, ao mesmo tempo em que colabora para a construção de uma sociedade igualitária, na medida em que seus sujeitos se reconhecem como participantes do mundo. Embora seja comum a abordagem da questão racial quando se trata da diversidade cultural, com ênfase nos afro-descendentes, esse tema apareceu especificamente em apenas dois trabalhos (OLIVEIRA e COSTA, 2003; LIMA, 2006). No entanto, as categorias de classe social, etnia, geração, entre outras, articulam-se com a cultura escolar, porque é a partir do lugar dos sujeitos pertencentes a essas categorias que se compreende a trama que alicerça a fabricação das culturas escolares. A escolha de conteúdos e a elaboração do currículo apareceram perifericamente em alguns trabalhos e mais detidamente em apenas três deles (OLIVEIRA e COSTA 2003; SGARBI, 2004; SILVA e MENEGAZZO, 2005). Geralmente, as pesquisas que se propõem a compreender o currículo a partir da realidade do aluno centram-se no modo como os saberes da experiência do aluno serão inseridos no âmbito escolar e não se dedicam aos conteúdos selecionados. É imprescindível trazer o universo cultural dos alunos para a sala de aula, mas é importante que o professor também se atenha aos conhecimentos que deverão ser-lhes apresentados, pois esta, além da socialização, é a função da escola: promover a aquisição de determinados conhecimentos construídos historicamente pelo homem. Assim, não fica claro se os pesquisadores têm clareza do que consideram conhecimento válido de ser ensinado e aprendido na escola. Ainda a esse respeito, é fato a crise que se instaurou no campo da pedagogia, tanto em relação aos conhecimentos sedimentados pela cultura escolar, quanto pelo modo de transmiti-los. Assim, hoje há um discurso do “aprender a aprender”, que supostamente satisfaz a todos e que na realidade, muitas vezes mascara um vazio de conteúdo. As pesquisas 25 sobre seleção de conteúdos e construção do conhecimento a partir da cultura de referência do aluno tem se mostrado pouco enfática nesse aspecto, tão relevante para a aquisição de competências específicas que garantam maior igualdade e diálogo horizontal entre as diferenças. A relação entre a cultura escolar e a cultura de referência do aluno, objeto dessa pesquisa, constou mais acentuadamente como tema central em três pesquisas apenas (KOFF, 2005; SILVA e MENEGAZZO, 2005; CAMPOS, 2006). Como foi justificado, esperava-se maior recorrência do tema, em acordo com os resumos dos trabalhos, colocandonos a possibilidade então de trabalhar com pesquisas que o consideraram de modo periférico no restante dos trabalhos. Koff enfatiza os conceitos de Cultura Escolar, Cultura da Escola, ambos a partir da abordagem de Forquin e, também, de Cultura Social de Referência dos Alunos, não deixando evidente a fonte que utilizou neste caso, embora cite Canclini (1997), para apontar o processo de hibridização entre as culturas, enfatizando que as culturas de referência são complexas, plurais e diversificadas e que acontecem em processos múltiplos e variados, onde não se contrapõem, mas se compõem. Como Silva e Menegazzo apresentam somente o referencial com vistas à proposição e o desenvolvimento de uma posterior pesquisa, esses referenciais estão bem aprofundados, sendo o único trabalho que pontua muito bem o conceito de cultura, a partir de Williams. Campos, de modo muito incisivo, desvela a relação entre a cultura escolar e a cultura de referência do aluno a partir do olhar da comunidade caipira para a escola que a atende. É importante como contextualiza a cultura escolar e a de referência dos alunos, no caso a caipira, tendo em vista uma reflexão acerca da função da escola. Traz à tona o núcleo da discussão do multiculturalismo curricular e pontua muito bem a importância da cultura de referência que implica diretamente a função que a escola tem: garantir aos alunos sua formação enquanto sujeitos atuantes e transformadores da sua realidade. Para isso também é essencial que se valorizem os conteúdos historicamente acumulados nos currículos escolares, no entanto, estes devem ser abordados de maneira crítica, afinal, é por meio deles que se avança na organização da vida social. Embora tenham apontado importantes aspectos da discussão da relação entre cultura escolar e cultura de referência do aluno, esta ainda é tomada, em certa medida, como uma homogeneidade. As pesquisas referem-se a turmas de alunos como se fossem homogêneas: caipiras, ou negros, ou pobres etc. Nenhuma apontou o fato de que em uma mesma sala, por exemplo, o professor trabalha com um grupo heterogêneo, podendo ter qualidades que os caracterizem enquanto grupo, mas que há também as particularidades que cada aluno traz do seu cotidiano. 26 Dado que todas as pesquisas referem-se à cultura, em ao menos um de seus múltiplos aspectos, é importante salientar que apenas Silva e Menegazzo apresentaram clareza quanto ao uso do conceito, apresentando os teóricos que embasam sua concepção de cultura, e utilizando, fundamentalmente, Williams para defini-la. Os outros trabalhos poderiam deter-se um pouco mais quanto ao uso do termo. De modo geral, as pesquisas centraram-se na figura do professor: seu planejamento para a aula, sua atuação frente à proposta curricular, sua formação e sua representação segundo os alunos. Isso denota a centralidade e grande importância atribuída ao professor, responsabilizando-o pela maior parte do currículo em seus outros aspectos, que não o formal. Esse fato decorre da busca pela compreensão das culturas que permeiam a escola, intrínsecas ao cotidiano escolar. Nesse sentido, há uma considerável utilização de recursos etnográficos nas pesquisas, que se dizem utilizar de estudos de caso de natureza qualitativa e observação de campo participante, em que o pesquisador é o principal instrumento de coleta, o que deveria gerar um refinamento metodológico e analítico, mas, no entanto, percebeu-se que a maioria das pesquisas foi superficial, confusa e não abordou satisfatoriamente o campo de investigação proposto inicialmente. 27 CONSIDERAÇÕES FINAIS Tendo em vista a importância e credibilidade da ANPEd como espaço de discussão e investigação dos temas educacionais no Brasil, a maioria dos trabalhos observados não corresponde às expectativas. Não há clareza nem rigor em relação ao eixo central que conduz a pesquisa. Muitas vezes a cultura escolar e a cultura de referência dos alunos, apontadas como campo de estudo, são abordadas inadequadamente ou de modo insuficiente, atendo-se apenas a alguns aspectos, como é o caso notável dos apontamentos sobre a falta de motivação dos alunos, a ausência de comprometimento de alguns professores ou mesmo a cultura identificada entre os alunos, mas não discute as acomodações e os diálogos necessários para que essas problemáticas sejam superadas e a rica diversidade prepondere para a construção de uma escola mais acolhedora e mais pujante. As discussões sobre a tensão entre o universalismo, que compreende os conhecimentos historicamente privilegiados na escola, e o relativismo, que se refere à temática da diversidade cultural, incitados nos estudos de Forquin, são muito relevantes para tratar a temática da cultura escolar e da cultura de referência dos alunos. Embora o autor tenha sido citado em sete dos trabalhos analisados, essas questões não foram abordadas durante a maioria das pesquisas. Percebe-se, assim, que o cerne dessa discussão, a aproximação entre o conteúdo a ser ensino, disposto no currículo formal, e a cultura de referência dos alunos não estão inseridos de modo significativo nos principais debates educacionais que acontecem no Brasil. Nessa perspectiva, nossas pesquisas carecem de um olhar mais rigoroso, que problematize de fato esse diálogo entre as culturas. No entanto, há trabalhos apresentados na ANPEd, entre os selecionados para a presente pesquisa, que apontam importantes aspectos a serem abordados no que diz respeito à relação entre a cultura escolar e a cultura de referência dos alunos. Discutem o cotidiano escolar, a elaboração do currículo formal, a importância da perspectiva que os alunos e a comunidade tem acerca da escola. Despertam a reflexão sobre a importância dos conteúdos curriculares e a validade da sua seleção. A formação do professor e sua sensibilidade em relação à importância da cultura de referência do aluno também são fundamentais para a garantia de que a escola realize um trabalho que tenha significado positivo na sociedade e na vida dos sujeitos que nela estão inseridos. Cabe, portanto, ao educador compreender sua tarefa, que em meio às mazelas das políticas públicas educacionais pode ser a de suscitar um contexto mais humano e mais democrático, porque seus alunos trazem para a escola a diversidade cultural, ferramenta 28 fundamental para constituir um campo fértil para o desenvolvimento da cultura e do respeito universal pelo ser humano. 29 REFERÊNCIAS FORQUIN, Jean-Claude. O currículo entre o relativismo e o universalismo. Tradução de Catherine Rato, revisão técnica de Antonio Flavio B. Moreira (UFRJ) e Tomaz Tadeu da Silva (UFRGS). Revista Educação & Sociedade, ano XXI, nº 73, Dezembro/00. p. 47-70. ____________________. Relações entre gerações e processos educativos: transmissões e transformações. Congresso Internacional Co-Educação de Gerações. SESC São Paulo | outubro 2003. ____________________. Introdução – Currículo e Cultura. Escola e Cultura: as bases sociais e sistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. pp. 926. JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 3ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996. MARIANO, André Luiz Sena. A construção do início da docência: um olhar a partir das produções da ANPEd e do Endipe. Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2006. MARTINS. H. H. T.S. Metodologia qualitativa de pesquisa. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.30, n.2, p. 289-300, maio/ago. 2004 SACRISTÁN, J. Gimeno. Poderes instáveis em educação. Tradução de Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. 30 TRABALHOS ANALISADOS ALMEIDA, Carmen Lúcia de, CICILLINI, Graça Aparecida. Igualdade de direitos e direito à diferença: interfaces no cotidiano escolar. GT: Currículo / n.12. 28ª Reunião Anual da ANPEd. 2005. 1CAMPOS, Judas Tadeu de. A relação entre a escola rural e a cultura caipira. GT: Sociologia da Educação / n.14. 29ª Reunião Anual a ANPEd. 2006. 1FREITAS, Letícia F. R. O currículo e sua dimensão cultural: o caso do gauchismo em comunidades de migrantes em Mato Grosso. GT: Currículo / n.12. 30ª Reunião Anual da ANPEd. 2007. KOFF, Adélia Maria Nehme Simão. Cotidiano escolar e cultura(s): dialogando os resultados de uma pesquisa. GT: Didática / n.04. 28ª Reunião Anual da ANPEd. 2005. KRETLI, Sandra. Artefatos culturais usados por professores/as e alunos/as no cotidiano escolar como possibilidades de ressignificar o currículo. GT: Currículo / n.12. 30ª Reunião Anual da ANPEd. 2007. LANA, Débora Oliveira. O significado da escola e do conhecimento escolar na experiência de alunos de camadas populares. GT: Sociologia da Educação / n.14. 29ª Reunião Anual da ANPEd. 2006. LIMA, Augusto César G. Cultura do samba e a escola: uma aproximação. GT: Sociologia da Educação / n.14. 30ª Reunião Anual da ANPEd. 2007. 31 NASCIMENTO. Adir Casaro. Currículo, interculturalidade e educação indígena guarani/kaiowá. GT: Currículo / n.12. 28ª Reunião Anual da ANPEd. 2005. OLIVEIRA, Vanessa Regina Eleutério Miranda de, COSTA, Claudio Fernandes da. A questão racial no currículo e no cotidiano da escola. GT: Currículo / n.12. 26ª Reunião Anual da ANPEd. 2003. PASSOS, Mailsa Carla. Aprendi no pé da Érica: diálogos, negociações e transformações de uma prática de cultura popular. GT: Currículo / n.12. 29ª Reunião Anual da ANPEd. 2006. SGARBI, Paulo. Entre perguntas e resposta, conversando com meu filho sobre currículo. GT: Currículo / n.12. 27ª Reunião Anual da ANPEd. 2004. 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