Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Centro de Tecnologia e Ciências
Instituto de Geografia
Departamento de Geografia Física
Programa de Pós-Graduação - Mestrado em Geografia
Flávio Augusto Pereira Mello
Ordenamento da malha de trilhas como subsídio ao
zoneamento ecoturístico e manejo da visitação no
Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu - RJ
Rio de Janeiro
2008
Flávio Augusto Pereira Mello
Ordenamento da malha de trilhas como subsídio ao
zoneamento ecoturístico e manejo da visitação no
Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu - RJ
Dissertação apresentada como requisito parcial para
obtenção do título de Mestre, ao Programa de PósGraduação em Geografia, da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro.
Área de concentração: Gestão e Estruturação do
Espaço Geográfico.
Orientadora: Profª Drª Nadja Maria Castilho da Costa
Rio de Janeiro
2008
FLÁVIO AUGUSTO PEREIRA MELLO
Ordenamento da malha de trilhas como subsídio ao
zoneamento ecoturístico e manejo da visitação no
Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu - RJ
Dissertação apresentada como requisito parcial para
obtenção do título de Mestre, ao Programa de PósGraduação em Geografia, da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração:
Gestão e Estruturação do Espaço Geográfico.
Aprovada em ______________
Banca Examinadora:
_________________________________________
Profª Drª Nadja Maria Castilho da Costa (Orientadora)
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
_________________________________________
Prof. Dr. Jorge Soares Marques
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
_________________________________________
Profª Drª Lilia dos Santos Seabra
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
_________________________________________
Prof Dr Marcelo Motta de Freitas
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
DEDICATÓRIA
Em um mundo desde sempre cheio de certezas tortas
e escolhas duvidosas, dedico este trabalho a todos
aqueles que incansavelmente acreditam que podem
fazer a diferença!
AGRADECIMENTOS
À Geografia, que ao desvendar e apontar os mistérios dos lugares e
territórios, entre outras coisas, tornou esta vida muito mais interessante!!!
Às professoras Nadja e Vivian Castilho da Costa, amigas incansáveis, pelas
oportunidades e incentivos ao longo deste caminho.
Ao professor Jorge Marques, pela dedicação e empenho no ensino e nos
esclarecimentos fundamentais na formação do “pensamento geográfico” para quem
veio de outras plagas.
Ao professor Miguel Ângelo, por sua paciência e entusiasmo no ensino e
esclarecimentos sobre o Turismo e a Geografia.
À professora Lilia dos Santos Seabra, pela atenção e observações para
conclusão deste trabalho.
Ao professor Marcelo Motta de Freitas, pela gentileza de participar desta
banca.
À professora Solange Guimarães, pelas dicas e incentivos em todas as horas.
Ao Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, pelo apoio e inúmeras
oportunidades para testar e construir possibilidades.
À Dona Lúcia Helena, minha mãe, pelo carinho permanente e apoio
incondicional ao longo da vida.
Aos meus pais postiços “Seu” José Fonseca e Dona Heloisa Helena, pelo
cuidado e compreensão nestes tempos difíceis.
À minha filha Luisa Helena, cuja existência me ensinou a olhar as coisas de
outra maneira.
Aos amigos Wladimir e Emiliana, pelos cutucões nas horas certas e incertas.
Ao amigo Cesar Lacerda pelo apoio nos momentos de sufoco.
À Judithe, companheira felina que deixa saudades (in memorian)
Às trilhas, que me ensinaram a ver o mundo além do limitado dia a dia
urbano.
Enfim... Toda a trilha tem seu encanto
e esta não foi diferente...
Ana Paula Pazini
Blog Trilhas e Versos
RESUMO
O Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (PNMNI) é um parque urbano, inserido
na APA do Gericinó-Mendanha, em cujo entorno vivem aproximadamente um milhão
de pessoas. Neste sentido, alguns impactos podem ser percebidos como o sobreuso
na zona de uso intensivo e que comprometem a qualidade da visitação. Para a
realização desta pesquisa, buscou-se ampliar o grau de envolvimento com a
administração, de modo que as estratégias de coleta e prospecção de dados
puderam ser testadas e mesmo implantadas no decorrer dos trabalhos.
Para tanto, após avaliação do zoneamento territorial e ambiental do Plano de
Manejo do PNMNI, foram aplicados questionários e investigações quanto ao perfil do
visitante e seu padrão de dispersão. Em seguida, através de conceitos de
conservação como a fragmentação florestal e efeito de borda, procurou-se ordenar e
selecionar trilhas cujos possíveis roteiros valorizem o potencial turístico das áreas
eleitas e, ao mesmo tempo, privilegiem as grandes massas florestais ainda
existentes, contribuindo também para a regeneração das áreas degradadas. Com
estas bases foi aplicado o método de zoneamento de oportunidades recreativas
(ROS) para se estabelecer subsídios para zoneamentos turísticos e de lazer para
aplicação imediata de gestão da visitação e subsidiar estudos futuros neste sentido.
Assim, foi possível concluir os objetivos previstos nesta dissertação, dentre as quais
a proposta de zoneamento de oportunidades recreativas, a avaliação atualizada do
perfil do visitante e o mapeamento e roteirização de um novo circuito de trilhas.
Destaca-se que face às dificuldades de várias unidades de conservação em
atualizar seus planos de manejo, adequando-os às realidades que se desenvolvem,
este trabalho considera, entre estes e outros aspectos, a possibilidade de
estabelecer como ferramenta de gestão, a utilização da malha de trilhas existentes e
análise do espectro de oportunidades recreativas como vetores de ações de
conservação das massas florestais ou ecossistemas e consequentemente, a
atualização do zoneamento territorial e ambiental.
Palavras-chave: Ordenamento de trilhas. Zoneamento ambiental. Recreação.
Ecoturismo. Unidades de Conservação. Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu.
ABSTRACT
The Municipal Park in Nova Iguaçu (PNMNI) is an urban park, inserted in the BBGericinó Mendanha, living environment in which approximately one million people. In
this sense some impacts may be perceived as over-use in the zone of intensive use
and that compromise the quality of visitation. To achieve this study, we tried to
enlarge the degree of involvement with the administration, so that the strategies of
exploration and collection of data that could be tested and implemented during the
work.
Thus, after evaluation of the territorial and environmental zoning of the
Management Plan of PNMNI, questionnaires were applied and research on the
profile of visitors and their pattern of dispersal. Then, through the concepts of
conservation and forest fragmentation and edge effect, tried to sort and select tracks
whose possible guidelines emphasize the tourist potential of the areas elected and at
the same time, improve the masses forest still exist, but also for the regeneration of
degraded areas. On these bases has been applied the method of zoning for
recreational opportunities (ROS) to provide subsidies for zonings tourism and leisure
management for immediate implementation of visitation and support future studies in
this direction.
It was possible to complete the objectives set in this dissertation, among which the
proposed zoning of recreational opportunities, the assessment of the current profile
of visitor and mapping and roteirização of a new circuit of trails. It is that given the
difficulties of various units of conservation in updating their management plans,
adapting them to the realities that are developed, this study considers, among these
and other issues, the possibility of setting as a management tool, the use of existing
network of tracks and analyzes the spectrum of recreational opportunities as vectors
of actions for the conservation of mass or forest ecosystems and hence the update of
zoning and environmental area.
Keywords: Planning trails. Environmental zoning. Recreation. Ecotourism. Units of
Conservation. Natural Park Hall of Nova Iguaçu.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figuras
Figura 01
Acessos ao Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu.............
22
Figura 02
Hipsometria do PNMNI...............................................................
30
Figura 03
Evolução de proposições para o modelo genético do Vulcão
de Nova Iguaçu/RJ.....................................................................
32
Figura 04
Zoneamento territorial e ambiental do PNMNI...........................
43
Figura 05
O Turismo Alternativo.................................................................
63
Figura 06
Formação de imagens da Paisagem.........................................
89
Figura 07
Bio-ritmo das destinações de lazer e turísticas.........................
96
Figura 08
Análise sistêmica de Visitação no PNMNI................................
117
Figura 09
Zoneamento territorial-ambiental: “cunha” da zona de uso
extensivo que se projeta na zona primitiva e áreas..................
126
Figura 10
Oportunidades recreativas a partir da modificação do meio......
131
Figura 11
Proposta para a Trilha da Varginha............................................ 153
Figura 12
Circuito de Trilhas proposto........................................................ 156
Figura 13
Proposta para Circular externa................................................... 158
Figura 14
Proposta para Circular interna.................................................... 160
Figura 15
Zoneamento de Oportunidades Recreativas no PNMNI............
165
Mapas e Gráficos
Mapa 01
Localização geográfica do PNMNI e vias de acesso..............
24
Gráfico 01
142
Gráfico 02
Visitantes por faixa etária – Temporada de Verão....................
Visitantes por faixa etária – Temporada de Inverno.................
Gráfico 03
Motivação por faixa etária – Temporada de Verão...................
143
Gráfico 04
Motivação por faixa etária – Temporada de Inverno.................
144
Gráfico 05
Valoração econômica dos serviços de condução de visitantes
no PNMNI........... ......................................................................
161
142
Fotografias
Fotografia 01
Formações secundárias no Poço da sede................................
36
Fotografia 02
Visitantes no Poço do Casarão (PNMNI)..................................
51
Fotografia 03
Rampa de Vôo Livre de Nova Iguaçu........................................
51
Fotografia 04
Traçado do dique. Local: Poço do Escorrega............................
55
Fotografia 05
Erosão em marmita. Local: Poço do Casarão............................
55
Fotografia 06
Panorâmica da Varginha (a “cratera” do vulcão de Nova
Iguaçu-RJ).................................................................................
125
Fotografia 07
Detalhe da bandeira...................................................................
129
Fotografia 08
Marcação da Trilha com visualização das bandeiras................. 129
Fotografia 09
Erosão e queimadas no Vale do Levi......................................... 138
Fotografia 10
Lixo na Trilha da Varginha.......................................................... 138
Fotografia 11
Voluntários instalando poleiro seco no vale do Levi................... 167
Fotografia 12
Voluntários transportando em corrente material para trilha a
partir da pedreira São José. ................................. ....................
Alunas do curso Técnico em Meio Ambiente, do Colégio
presidente Kennedy em Belfort Roxo, coletando dados na
Pedreira São José......................................................................
Fotografia 13
Fotografia 14
167
168
Pesquisadores e alunos voluntários no projeto “Diversidade
dos Morcegos do PNMNI” se preparando no Casarão para
subir ao P4.................................................................................
168
Fotografia 15
Funcionário e voluntária abordando usuários............................
169
Fotografia 16
Mutirão relâmpago de coleta de lixo no poço do Casarão.........
169
Fotografia 17
Visitantes na Pedreira São José durante a ATM-2008..............
170
Fotografia 18
Carlos Papel, fotógrafo amador e fotos do PNMNI durante a
ATM 2008...................................................................................
170
Fotografia 19
Flávio Zen e grupo no Circuito das Águas.................................
171
Fotografia 20
Grupo na Pedra na Pedra da Contenda..................................... 171
Quadros
Quadro 01
Quadro 02
Quadro 03
Zoneamento territorial-ambiental do PNMNI..............................
Fatores que influenciam na participação dos visitantes em
atividades recreativas.................................................................
42
58
Tipos de benefícios gerados mediante a participação dos
visitantes em atividades recreativas em áreas naturais.............
59
Quadro 04
Tipos de trilhas e Graus de dificuldade.....................................
102
Quadro 05
Categorias de valores econômicos atribuídos aos bens
ambientais..................................................................................
110
Cálculo da base amostral para realização dos questionários
de Dispersão de visitantes no PNMNI......................................
123
Quadro 07
Classes de Oportunidades Recreativas segundo o ROS.........
132
Quadro 08
Produtos gerados na dissertação............................................... 133
Quadro 09
Quadro analítico de áreas abertas à visitação no Zoneamento
territorial e ambiental do PNMNI...............................................
Quadro 06
Quadro 10
134
Programa de Uso Público do Parque Subprograma de Ecoturismo...................................................... 135
Quadro 11
Programa de Uso Público do Parque Subprograma de Interpretação e Informação Ambiental............ 135
Quadro 12
Programa de Uso Público do Parque Subprograma Recreação e Lazer..............................................
136
Quadro 13
Visitantes, motivação, espaço e sazonalidade........................... 141
Quadro 14
Descrição das Zonas propostas segundo o método ROS........
145
Quadro 15
Ambiências das Zonas de Uso Especial, Intensivo e área de
relevante interesse do PNMNI..................................................
148
Quadro 16
Principais atrativos e vias de acesso no PNMNI.......................
149
Quadro 17
Trilhas selecionadas e atrativos.................................................
152
Quadro 18
Roteiros sugeridos e vias de acesso.........................................
159
Quadro 19
Síntese das recomendações ao PNMNI, por área temática......
172
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
APA Área de Proteção Ambiental
ATM Abertura de Temporada de Montanhismo
CEHAB Companhia Estadual de Habitação
DRM RJ Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio de Janeiro
EPI Equipamento de Proteção Individual
IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
GPS Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global)
GTZ Cooperação Técnica Alemã (Deutsche Gesellschaft für Technische
Zusammenarbeit GmbH)
LAB LET
Laboratório de Lazer e Espaços Turísticos do Programa de PósGraduação em Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.
UFRJaneiro.
m. metro
MMA Ministério do Meio Ambiente
PM Plano de Manejo
PMNI Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu
PNMNI Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu
PROARQ Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo. Universidade Federal do Rio de Janeiro.
ROS “Recreational Opportunity Spectrum “ (Espectro de Oport.Recreativas)
S “South” (Sul)
SEMUAM Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo
SNUC Sistema Nacional de Unidades de Conservação
TAC Termo de Ajuste de Conduta
TCC Trabalho de conclusão de curso
TOMM “Tourism Optimization Model” (Modelo de Gestão de Otimização do
Turismo)
UC Unidade de Conservação
UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro
UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura
USDA “United States Department of Agriculture” (Depto de Agricultura dos
EUA)
VAMP “Visitor Activity Management Process “ (Processo de Gerenciamento
da Visitação)
VERP “Visitor Experience and Resource Protection “ (Proc.o de
Gerenciamento da Visitação)
VIM “Visitor Impact Management “ (Gerenciamento de Impactos da
Visitação)
W “West” (oeste)
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
17
1.0
ÁREA DE ESTUDO: CARACTERIZAÇÃO GERAL.............................
21
1.1
Acessos e localização geográfica
1.1.1
Acessos.................................................................................................
22
1.1.2
Localização
23
1.2
Breve histórico de criação do
Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (PNMNI).........................
geográfica........................................................................
25
1.3
Aspectos Abióticos e Bióticos
1.3.1
Clima......................................................................................................
27
1.3.2
Geomorfologia.......................................................................................
28
1.3.3
Biodiversidade
1.3.3.1
Flora......................................................................................
33
1.3.3.2
Fauna....................................................................................
39
1.4
Zoneamento Territorial e Ambiental..................................................
42
1.5
Lazer, Recreação e Ecoturismo no PNMNI
1.5.1
Panorama atual......................................................................................
51
1.5.2
O Projeto “Caminhos Geológicos” no PNMNI........................................
54
2.0
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-CONCEITUAL
2.1
2.1.1
Lazer em Ambientes Naturais, Motivação para caminhar,
Ecoturismo e Geoturismo
Lazer em ambientes naturais.................................................................
57
2.1.2
A motivação para andar em trilhas........................................................
60
2.1.3
Ecoturismo.............................................................................................
62
2.1.4
Geoturismo............................................................................................
65
2.2
Planejamento turístico e das práticas de lazer na natureza
2.2.1
Sistemas, Modelos e Equilíbrio no contexto da gestão de unidades de
Conservação e da implementação do ecoturismo.................................
68
2.2.2
Planejamento da atividade turística e das práticas de lazer na
natureza.................................................................................................
2.2.2.1 O espaço turístico e das práticas de lazer na natureza..........
78
81
2.2.2.2
Planejamento do Espaço Turístico.........................................
84
2.2.2.3
Conceito de Paisagem no contexto do Ecoturismo................
87
2.2.2.4
Fluxo e dispersão dos visitantes.............................................
90
2.2.2.5
Zoneamento ambiental e ecoturismo......................................
94
2.3
Trilhas em Unidades de Conservação
97
2.3.1
Importância das trilhas em Unidades de Conservação.........................
98
2.3.2
Impactos Ambientais relacionados a trilhas...........................................
99
2.3.3
2.3.2.1
A fragmentação florestal induzida por trilhas..........................
100
2.3.2.2
O efeito de borda como impacto das trilhas............................
102
2.3.2.3
Impactos causados no leito da trilha.......................................
104
2.3.2.4
Impactos na paisagem promovidos pelas trilhas....................
105
Conservação e recuperação de trilhas em ambientes de Mata
Atlântica.................................................................................................
111
3.0
MATERIAL E MÉTODOS
3.1
Fonte de informações..........................................................................
113
3.2
Revisão do conteúdo do Plano de Manejo referente ao
Programa de Uso Público. ................................................................
115
Avaliação do perfil do visitante e padrão de dispersão..........................
116
3.2.1.1
Uso de questionários e perguntas dirigidas............................
118
3.2.1.2
Definição da base amostral....................................................
121
3.2.2
Coletas de dados informais..................................................................
123
3.3
Ordenamento da malha de trilhas
3.3.1
Levantamento de traçado.....................................................................
124
3.3.2
Identificação de atrativos......................................................................
130
3.3.3
Zoneamento Recreativo.......................................................................
130
4.0
RESULTADOS E CONTRIBUIÇÕES
133
4.1
Caracterização e reavaliação das vias de visitação do PNMNI.......
134
3.2.1
4.2
Caracterização do perfil do visitante e seu padrão de
dispersão.............................................................................................
138
4.3
Zoneamento das oportunidades recreativas....................................
144
4.3.1
Reordenamento das ambiências nas zonas de Uso Especial,
Intensivo e área de relevante interesse do PNMNI...............................
146
4.3.2
Identificação dos principais atrativos do PNMNI....................................
149
4.3.3
Ordenamento da malha de trilhas..........................................................
150
4.3.3.1
A Trilha da Varginha...............................................................
153
4.3.3.2
Circuito de Trilhas do “Vulcão” de Nova Iguaçu......................
154
4.3.3.3
Roteiros sugeridos..................................................................
157
4.3.4
Valoração econômica dos serviços de condução de visitantes.............
161
4.3.5
Zoneamento recreativo no PNMNI........................................................
163
4.4
Ações de apoio à Gestão do PNMNI
4.4.1
Sitio na internet para divulgação Institucional do PNMNI......................
166
4.4.2
Estímulo ao Voluntariado em Unidades de Conservação.....................
167
4.4.3
Temporadas de Verão e Montanhismo..................................................
169
4.4.4
Programa “Amigo do Parque conhece o parque” .................................
171
4.4.5
Síntese das recomendações ao PNMNI, por área temática.................
172
5.0
CONCLUSÕES............................................................................................
176
6.0
Bibliografia.............................................................................................
179
7.0
Anexos
7.1
01: Site Amigos do Parque (PNMNI) ....................................................
187
7.2
02: Pesquisa “on line”: Fluxo e Dispersão de visitantes........................
188
7.3
03: Pesquisa “on line”: Perfil e dispersão de operadoras de
ecoturismo no PNMNI............................................................................
190
04: Pesquisa de Valoração econômica dos serviços de condução de
visitantes................................................................................................
192
7.5
05: Proposta de Voluntariado................................................................
194
7.6
06: Agenda...........................................................................................
195
7.4
17
INTRODUÇÃO
A Geografia vem enfatizando a necessidade de se avaliar os impactos das
atividades de lazer e turismo no espaço e suas conseqüências sociais e ambientais,
tanto em ambientes construídos (urbanos e rurais) quanto em áreas naturais,
principalmente as protegidas. Para Costa (2008) “a Geografia tem papel relevante,
na medida em que seu objeto de estudo está diretamente relacionado com a
organização espacial das atividades”. Sales & Assis (2006: 109) referem ainda que
“há uma intensa relação entre turismo e espaço, uma vez que o primeiro apropria-se
do segundo, fazendo uma série de transformações para atender às suas
exigências”.
Apontam igualmente que para a abordagem geográfica do turismo, é preciso
identificar os elementos que compõem o espaço, ou seja, os homens, as firmas, as
instituições, o chamado meio ecológico e as infra-estruturas e concluem afirmando:
“Portanto, cabe à Geografia pesquisar os aspectos relacionados ao uso que o
Turismo faz do espaço, quando ao se instalar, modifica a relação sociedadenatureza e altera a dinâmica das paisagens, regiões, territórios e lugares”.
Sandeville Jr. (2002:157) comunga da mesma opinião, ressaltando que a natureza
nas áreas tropicais, possui duas características importantes onde a biodiversidade é
“cenário e objeto de consumo”.
A indústria do Turismo analisada pelos geógrafos tem recebido vários
enfoques incluindo as atividades que associam atividades de lazer nos espaços
naturais, visto que, mormente, o usuário local e o turista fazem uso das mesmas
paisagens e infra-estruturas. Cabe ressaltar também, que para Sonaglio (2006), o
segmento do ecoturismo é visto, tanto pelo governo como pelos estudiosos do tema,
como uma alternativa econômica sustentável e como meio para conservação dos
recursos naturais e culturais, além de gerador de benefícios às comunidades locais,
a exemplo do previsto na Constituição Federal de 1988, no capítulo “Meio ambiente”
(2005)1.
1
O qual registra, no artigo 225, que: [...] todos tem o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem
de uso comum, do povo e essencial a sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e a coletividade o
dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
18
Cruz (2003) lembra ainda que a apropriação de espaços naturais pelo turismo
implica em transformações espaciais relacionadas aos fatores de acessibilidade e
hospedagem; e que “em se tratando de unidades de conservação, algumas das
transformações espaciais decorrentes do uso turístico de seus territórios diz respeito
à abertura de trilhas ou a utilização de pré-existentes, ao longo das quais podem ser
instalados instrumentos de educação ambiental (p. 19)”;
As trilhas, objeto desta dissertação, vão muito mais além, pois ao promover e
facilitar o acesso a atrativos cria e consolida lugares e territorialidades; tanto para
uso direto da visitação quanto para proteção do patrimônio natural. Razão pela qual
o planejamento e manejo adequado das trilhas e seus roteiros possibilitam a
orientação e monitoramento da dispersão de visitantes, se convertendo assim em
importante ferramenta de gestão, fundamental para que unidades de conservação
cumpram o seu papel de conservação e preservação do patrimônio natural, dentro
dos padrões de sustentabilidade, assim como propiciar a apreciação e qualidade da
visitação por seus diferentes usuários.
Deste modo, as atividades de lazer e ecoturismo associadas à ausência de
uma malha de trilhas adequada, são particularmente um problema para o Parque
Natural Municipal de Nova Iguaçu/RJ (PNMNI). Este, muito próximo de grandes
concentrações populacionais2, atende uma demanda crescente de visitantes e por
oferecer entrada franca é uma opção viável financeiramente, sobretudo para as
camadas menos privilegiadas, que possuem poucas ofertas de lazer, principalmente
as que envolvem a natureza.
Para ressaltar sua importância, sua localização permite estabelecer a relação
onde o PNMNI está para os municípios limítrofes, Nova Iguaçu e Mesquita, assim
como o Parque Nacional da Tijuca está para o Rio de Janeiro, guardando as devidas
proporções. Cabe destacar que municípios próximos como Belfort Roxo, Nilópolis e
São João de Meriti possuem 3,34%, 0,00% e 0,00%, respectivamente, de cobertura
vegetal de suas áreas totais, conforme levantamento da Fundação Cide em 2001.
2
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, a população da Baixada Fluminense,
em 2000 era estimada em aproximadamente três milhões de pessoas, destacando que Mesquita possui 182.495
habitantes e Nova Iguaçu 830.672; municípios onde o parque se localiza, totalizando em torno de um milhão de
pessoas em seu entrono imediato.
19
Em avaliação preliminar do Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova
Iguaçu vigente, ao se considerar o programa de Uso Público, nos subprogramas de
Recreação e Lazer e Ecoturismo percebe-se que o mesmo não possui análise mais
detalhada do potencial turístico e de lazer, tendo privilegiado os lugares já
consolidados para a visitação, como os poços e cachoeiras e caminhadas curtas em
sua principal via (a Estrada da Cachoeira).
Contudo, embora a administração do parque perceba o crescimento da
procura por lazer de natureza3 e do ecoturismo, principalmente por moradores da
Baixada Fluminense, esta não consegue interferir de maneira efetiva na gestão
deste aumento de demanda justamente por não possuir alternativas de atrativos
oficiais para receber este “novo” visitante. Ressalta-se que não foram concluídas as
infra-estruturas previstas no plano de manejo, como áreas para piquenique, Centro
de Visitantes e malha de trilhas com mais roteiros, as quais se estivessem
operacionais, teriam estimulado o acesso a atrativos e oportunidades de atividades
ao ar livre nas áreas hoje subutilizadas.
Desta forma, como hipótese norteadora da presente investigação, parte-se do
pressuposto de que, através do ordenamento da malha de trilhas existentes,
associado à identificação do espectro de oportunidades recreativas, será possível
estabelecer subsídios para o zoneamento recreativo e ecoturístico no Parque
Natural Municipal de Nova Iguaçu e desta maneira induzir, tanto a mudança no perfil
médio do usuário, quanto interferir na sazonalidade da visitação estabelecida. Neste
sentido, são estabelecidos os seguintes objetivos:
Gerais:
· Oferecer subsídios para os processos de planejamento, implantação e
manejo de trilhas em Unidades de Conservação
· Oferecer subsídios para caracterização e padrão de dispersão de
visitantes em Unidades de Conservação
3
Cuja divulgação é favorecida pela constante exposição na mídia que indiretamente tem induzido o aumento do
fluxo de visitantes.
20
Específicos:
· Mapeamento e seleção de caminhos e trilhas no interior do Parque,
que possam ser utilizados para atividades regulares de lazer na
natureza e ecoturismo, de modo a incorporar administrativamente as
áreas já consolidadas informalmente pelos visitantes.
· Sugerir roteiros de trilhas a ser sinalizado e implantado pela
administração do PNMNI nas zonas de uso intensivo, extensivo e de
relevante interesse4.
· Gerar subsídios para o zoneamento turístico do PNMNI, considerando
o atual zoneamento territorial e ambiental, através da análise
preliminar de acessibilidade e potencialidades turísticas nas áreas com
trilhas roteirizadas no presente trabalho.
4
Zona de relevante interesse para a gestão da UC: é uma área de aproximadamente 59,5 hectares que foi
incorporada ao PNMNI no ato de sua criação. Nela estão localizadas a Guarita de entrada, represa Epaminondas
Ramos e Pedreira desativada São José.
21
1.0 ÁREA DE ESTUDO: CARACTERIZAÇÃO GERAL
A opção por escolher o Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (PNMNI)
como objeto de pesquisa se deve à:
· Estar localizado na Apa do Gericinó-Mendanha, considerada Reserva
da Biosfera pela UNESCO desde 1996, abrigando remanescentes de
Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do mundo.
· É uma das poucas unidades de conservação do estado e do país a ter
situação fundiária plenamente resolvida.
· É uma importante área de recreação e ecoturismo para moradores da
baixada fluminense, podendo contribuir direta e indiretamente para
criação e manutenção de unidades de conservação urbanas na
Baixada Fluminense e para o crescimento de atividades de lazer e
turismo em ambientes naturais.
· Embora tenha várias trilhas na zona de uso extensivo, utilizadas
oficiosamente por uma pequena fração dos visitantes, não possui
roteiros estabelecidos e a visitação é massiva e sazonal no verão, se
concentrando na área de uso intensivo.
· Desde 2004, vem recebendo subsídios da Diretoria de Recursos
Minerais do estado do Rio de Janeiro, através do projeto Caminhos
Geológicos, entre outros, para ser elevada a categoria de geoparque,
em função dos inúmeros atrativos geológicos existentes.
Assim, o PNMNI oferece uma oportunidade impar de pesquisa sobre o
ordenamento da malha de trilhas como uma ferramenta de gestão e de avaliação do
zoneamento territorial e ambiental estabelecido, no que tange a visitação e
desenvolvimento de atividades recreacionais e ecoturísticas em unidades de
conservação. Espera-se que este trabalho contribua para a promoção e/ou melhoria
dos serviços e atrativos oferecidos aos usuários, assim como contribuir para a
proteção da biodiversidade e paisagens locais, dentre outros.
22
1.1 Acessos e localização geográfica:
1.1.1 Acessos:
Os principais acessos à estrada da Cachoeira, em cujo final se localiza a
entrada do PNMNI são basicamente dois:
·
·
Via Mesquita (melhor opção): Tomando como ponto de referencia a
Estação Ferroviária de Juscelino (antiga Vila Nova) na Estrada Feliciano
Sodré.
Nova Iguaçu: Via Bairro Kaonze: Ponto de referência: Praça do Kaonze.
Somente para pedestres. Usa uma extensão informal, não asfaltada, da
Rua Juvenal Valadares. É mais utilizada por moradores deste bairro.
Na figura 01 são discriminadas as vias referidas.
Praça do
Kaonze
Há uma ligação não oficial
e sem pavimentação até
a Estrada da Cachoeira
utilizada pela comunidade
local.
Estação de
Juscelino
Clube de
Mesquita
Figura 01: Acessos ao Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu
Fonte: http://maps.google.com – Modificado por Flávio A. P. Mello, 2008.
Para pedestres ou usuários de transportes coletivos as opções mais acessíveis são:
· De ônibus: A Viação Mirante dispõe da linha Nova Iguaçu - Mesquita.
· De trem: O ponto de referência é a Estação de Presidente Juscelino.
Existem, entretanto, inúmeros acessos informais. O mais conhecido e
utilizado principalmente por operadores de rapel na Pedra da Contenda e
caminhadas à rampa de Vôo Livre, é o Caminho do Tatu-gamela a partir de Nova
23
Iguaçu, conhecida também como Estrada da Rampa ou ainda Estrada do Itamar.
Esta via é de acesso à Rampa de Vôo Livre por seus praticantes.
Dentre outros vários caminhos e trilhas de uso consagrado pelos moradores
locais que acendem a área do parque se destacam: a trilha do Capitão, via Bairro
Kaonze; as trilhas do Mendanha que liga o PNMNI ao parque do Mendanha; Pau da
Letra que segue para Campo Grande e trilhas não identificadas que se dirigem a
Cabuçu, seguindo pelo alto da Serra de Madureira e as trilhas e suas variantes pelo
bairro da Coreia e bairro Fábrica de Pólvora que seguem pela encosta dos morros
localizados na área de Mesquita.
1.1.2 Localização geográfica
O Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, área de estudo da presente
dissertação, está localizada na Gleba Modesto Leal, entre as coordenadas
7485/7477 e 650/658, na Baixada Fluminense entre os municípios de Mesquita,
Nova Iguaçu e Rio de Janeiro; mais especificamente na vertente iguaçuana do
Maciço do Gericinó, conhecido também por Serra do Madureira. De acordo com a lei
de uso e ocupação do solo do município (Lei 2.882, de 30 de dezembro de 1997),
integra a Zona de Interesse Ambiental (AE-1). Integra com o Parque Natural
Municipal do Mendanha, pertencente à Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, as
duas únicas unidades de conservação integral do maciço. Faz parte ainda da Área
de Proteção Ambiental (APA) do Gericinó-Mendanha, sendo esta considerada
Reserva da Biosfera pela UNESCO, desde 1996. Ocupa uma área total de 1.100
hectares (incluindo as áreas localizadas nos municípios de Nova Iguaçu e Mesquita)
e sua altitude varia entre 150 metros na entrada da unidade e 956 metros no marco
sudoeste, próximo ao Pico do Gericinó.
No entorno do PNMNI há um cinturão de pequenas propriedades, como sítios
e chácaras mas sem expressão agrícola marcante que de certa forma protegem o
Parque da pressão da expansão imobiliária, entretanto, na partes altas do bairro K11
em Nova Iguaçu e Bairro da Coréia em Mesquita, a proximidade facilita a entrada
desautorizada, sendo um problema para a fiscalização.
24
NOVA IGUAÇU
N
LEGENDA:
Limites:
Município de Nova Iguaçu
MESQUITA
Município de Mesquita
658
7477
Mapa 01 Localização geográfica do PNMNI e vias de acesso
Fonte: Modificado de D08 – Localização Geopolítica e Vias de Acesso, em Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu – Versão Resumida –
SEMUAM, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, 2001.
Adaptado por Flávio A. P. Mello, 2007.
25
1.2 Breve histórico de criação do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu.
Segundo referências históricas contidas no Plano de Manejo do Parque
Municipal de Nova Iguaçu – Vs Resumida , no item “Processo histórico de
ocupação”, a área onde se localiza o parque, fazia parte da Gleba Modesto Leal,
anteriormente formada pelas antigas Fazendas Dona Eugênia e Fazenda São
Felipe, que pertenceram a Maria Eugênia Travassos, viúva de Marinho Boom
Travassos; que por sua vez as comprou de Custódio Baptista Gonçalves, em 1885.
Em 12 de dezembro de 1916, essas terras foram vendidas a João Leopoldo
Modesto Leal (Conde Modesto Leal), razão da denominação anteriormente à criação
do parque. Em 21 de julho de 1941, através do Decreto Lei nº 3.365, artigo 15, os
remanescentes florestais de Mata Atlântica da Gleba Modesto Leal e áreas
contíguas do maciço do Gericinó-Mendanha, foram transformadas em Florestas
Protetoras da União, visando proteger os mananciais hídricos existentes.
De fato, o principal elemento catalisador da criação do PNMNI ocorreu em
julho de 1985, quando o Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da CEHAB,
comprou as terras da Gleba Modesto com o objetivo de ali assentar 44 mil pessoas,
no programa “Cada Família Um Lote”. Este evento provocou a reação imediata da
Prefeitura de Nova Iguaçu, que já havia declarado o imóvel como de Utilidade
Pública para fins de desapropriação, em 19 de março do mesmo ano, pelo Decreto
nº 2858. Este Decreto foi revogado pelo Decreto nº 2.934, de 14 de junho de 1985,
que, por sua vez, foi também revogado pelo Decreto nº 2.937, de 20 de junho de
1985.
Segundo depoimentos coletados junto a administração do PNMNI, a partir de
cadastro efetuado pela Prefeitura de Nova Iguaçu, no início de outubro de 1997,
foram identificadas e classificadas 32 ocupações no interior do Parque, resultado do
extinto programa “Cada Família um Lote”, implantado pelo Governo Estadual. Neste
mesmo ano a prefeitura negociou e conseguiu junto a CEHAB que fizesse cessão de
uso ao município de 20 anos renovável por igual período, com a finalidade de
implantação de um Parque. Assim, 27 (vinte sete) ocupantes foram removidos da
26
UC, por sua caracterização como não residentes, identificadas através de cadastro
social realizado através da Secretaria de Ação Social do município.
Em 1997 o Parque foi contemplado com recursos do FECAM (Fundo Estadual
de Conservação ambiental) para elaboração de seu Plano de Manejo (PM) e
algumas ações emergenciais de proteção. O Parque Natural Municipal de Nova
Iguaçu (PNMNI) foi criado então através do Decreto Municipal nº 6.001 de 5 de
junho de 1998, visando a proteção da fauna e flora existentes e ainda tornar a
unidade opção de lazer da população local.
No ano de 2000 a Prefeitura captou recursos junto ao FNMA para a
implantação de algumas ações previstas no referido PM. Foram realizados com este
projeto: a construção da sede administrativa; a elaboração de um projeto
interpretativo para o centro de visitantes; elaboração materiais educativos (dois
filmes institucionais), folhetos e cartazes, e um projeto de educação ambiental com
previsão de um ano que se estendeu por três anos e a publicação resumida do PM.
Em 2007, as seis famílias restantes receberam indenização, e se retiraram
voluntariamente do Parque. Com isso, os problemas de ocupações irregulares foram
totalmente resolvidos, tornando o PNMNI uma das poucas unidades de conservação
do estado com sua situação fundiária plenamente resolvida.
Salienta-se que de modo geral, o PNMNI fica subordinado à Secretaria de
Meio Ambiente de Nova Iguaçu, contudo, a autonomia desta Secretaria muda de
acordo com o governo ou com as reformas administrativas internas. Assim, tomando
como exemplo o atual governo, inicialmente a Secretaria de Meio Ambiente era
adjunta (uma sub-secretaria) à Secretaria Municipal da Cidade – SEMCID e com o
último arranjo interno, a Secretaria de Meio Ambiente deixou de ser adjunta,
passando a ser plena. Atualmente, voltou a ser adjunta, e desta vez ligada a
SEMUG (Secretaria Municipal de Governo). Ressalta-se que a cada transição de
governo e orientações das políticas internas, provoca mudanças na estrutura
funcional e tais transições nem sempre são as mais adequadas.
27
Sendo assim, o tamanho do quadro funcional também oscila de acordo com
as mudanças referidas anteriormente. Atualmente estão lotados no PNMNI o gestor,
que acumula a função de Gerente de Unidades de Conservação e 12 funcionários:
01 responsável pela segurança e fiscalização, 01 responsável pela manutenção, 02
para atender as visitas guiadas, 06 que atendem a portaria e 02 para manutenção
da sede, banheiros e guarita. Não são cargos oficiais, mas delegações oficiosas
internas administrativas.
1.3 Aspectos Abióticos e Bióticos
1.3.1 Clima
As referências sobre o clima da região onde se insere o PNMNI são oriundas
de fontes do Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu, editado pela
Secretaria de Meio Ambiente de Nova Iguaçu em 2001, daí ter um caráter um tanto
genérico. Registra-se que no Projeto de Implantação do Plano de Manejo do Parque
Municipal de Nova Iguaçu (Processo E-07/000.128/2008), encaminhado à Câmara
de Compensação Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente, neste presente ano,
foi solicitado, porém indeferido, a aquisição de duas estações meteorológicas para
sistema de monitoramento de risco de incêndio florestal, as quais contribuíram para
conferir mais especificidade aos estudos do micro-clima local; conforme depoimento
coletado junto à administração do parque.
O maciço do Gericinó-Madureira-Mendanha é condicionado pelo clima
tropical de altitude super-úmido, onde a temperatura é um pouco mais baixa e chove
mais, pela amenização climática imposta pela densa cobertura floresta e pela
exposição do maciço aos ventos úmidos vindos do mar, respectivamente; sendo o
clima da região é relativamente uniforme durante todo o ano. No verão em
decorrência do grande calor, não amenizado pelos ventos, e da elevada umidade
relativa, ocorrem fortes chuvas (dezembro a março); enquanto no inverno, os totais
pluviométricos são baixos.
28
Já nas porções mais internas do Maciço do Gericinó-Mendanha, dois tipos
climáticos se conjugam: o clima tropical de altitude super-úmido (Cfa), de caráter
mesotérmico e que ocorre nas porções elevadas dos maciços litorâneos em altitudes
superiores a 500 metros, de influência apenas local; e o clima tropical semi-úmido
(Am), que possui uma estação seca no inverno durando um mês e está relacionado
aos totais anuais de pluviosidade entre 1.000 e 1.500 mm. Este, por sua vez, ocorre
nas áreas mais amenas, principalmente, em estreita faixa do litoral. De acordo com a
classificação de Köppen, baseada nos valores médios de temperatura e
precipitação, o clima da região em apreço classifica-se, genericamente, como Cw,
ou seja, clima temperado brando com verão quente e inverno seco.
Embora esse critério, por seu caráter sazonal, não caracterize completamente
as condições ambientais do local ele fornece indicações bastante aproximadas dos
aspectos climáticos e a influência de fatores locais nas encostas dos maciços, como
o avanço da ocupação urbana e o descontrolado processo de desmatamento, tem
ocasionado variações sensíveis nas condições climáticas ambientais (micro-clima da
região), como é percebido na vertente iguaçuana do maciço.
Os maiores índices pluviométricos acontecem no período de dezembro a
março, ao final do qual a intensidade de chuvas vai diminuindo gradativamente,
chegando a valores mínimos entre junho e setembro, De acordo com o estudo da
distribuição das chuvas na região, verifica-se que janeiro é o mês mais chuvoso,
com uma média que oscila ao redor de 196 mm; e agosto, o mês mais seco, tendo
uma precipitação média por volta de 35 mm.
1.3.2 Geomorfologia
O maciço do Gericinó-Madureira-Mendanha, onde se localiza a Gleba Conde
Modesto Leal, está inserido na unidade geomorfológica de Colinas e Maciços
Costeiros. É circundado pela unidade Planície Costeira, localizada na faixa de
dobramentos remobilizados que se estendem ao longo da costa do Estado do Rio de
29
Janeiro Este maciço destaca-se na paisagem da planície litorânea e da Baixada
Fluminense por seu posicionamento topográfico privilegiado. Trata-se de uma região
de relevo bastante acidentado, formada por muitas escarpas e elevações, cujo ponto
máximo atinge 974 m (Costa, 1986).
O
maciço
do
Gericinó-Madureira-Mendanha
é
uma
serra
isolada,
subdividindo-se em dois blocos, entalhados por drenagem de rios de pequeno porte.
As principais drenagens naturais são formadas pelos rios Guandu do Sapê,
localizado no flanco sul-sudeste do maciço, e D.Eugênia, localizado nos contrafortes
da porção nordeste do maciço, onde se localiza o PNMNI.
Os vales se apresentam em “V” com vertentes simétricas nas várias etapas
de seu percurso, como observado nos vales do Rio Dona Eugênia, Mata Fome e
Levi, sendo acomodados de modo geral em rochas subvulcânicas. Já o Vale da
Varginha é em forma de ferradura aberto ao norte, possuindo vertentes suaves, com
seu interior atulhado por sedimentos, constituindo uma pequena planície e cuja
forma sugeriu a possibilidade da existência de um cone vulcânico preservado,
originando a referência do “Vulcão de Nova Iguaçu” (Vieira e Klein, 2004 - inédito).
Este maciço está integrado nas bacias dos rios Sarapuí e Guandu-Mirim que
drenam para as macrobacias da Baía de Guanabara e da Baía de Sepetiba,
ocorrendo dois tipos de drenagem: retangular e pinada. O padrão retangular é
conseqüência da influência exercida por falhas, pelo sistema de juntas ou fraturas,
constituindo numa variedade de drenagem treliça, como os rios Cabuçu, Guandu do
Sapê e alguns afluentes da margem direita do rio Mesquita. O tipo pinada está
relacionado aos gnaisses do embasamento que contornam o maciço e às rochas
alcalinas, mostrando uma forma paralela como os afluentes do rio Guandu do Sena
(Costa op. cit.). A figura 02 apresenta as altitudes e unidades de relevo da região do
Parque.
30
N
Figura 02: Hipsometria do PNMNI
Fonte: Mapa de Hipsometria do Parque - Nº
HAB-NIG-D06/98. Plano de Manejo do Parque
Municipal de Nova Iguaçu – Vs Resumida –
SEMUAM, Secretaria Municipal de Meio
Ambiente e Urbanismo 2001.
Modificado por Flávio A. P. Mello, 2008.
No PNMNI propriamente dito, o único rio de destaque é o rio Dona Eugênia,
que corre ao longo do vale do mesmo nome. Possui pequenas corredeiras e quedas
d’água, se destacando, contudo, a cachoeira Véu da Noiva, localizada próximo ao
Casarão, com aproximadamente 55 metros de queda. Este rio possui inúmeros
poços utilizados para lazer por usuários e abriga ainda a Represa Epaminondas
Ramos, localizada na altura da Guarita de entrada e a Lagoa São Felipe, mais
próximo de sua nascente a aproximadamente cinco quilômetros adentrando a
unidade.
Há ainda o córrego do Mata-fome, Tapinhoã, da Porteira, Dos Tucanos, do
Gambá e vários regatos temporários por toda a extensão do parque. No vale da
Varginha, há referencias orais da existência de uma pequena lagoa, hoje assoreada,
na qual se encontrava inclusive pequenos peixes.
31
Cabe destacar que, a hipótese do Vulcão de Nova Iguaçu, tida como uma
referência por vários operadores informais de turismo, e também adotada por várias
atividades sociais e de educação ambiental realizadas por várias instituições, não
possuem sustentação em artigos científicos devidamente revisados, sendo
caracterizado
mais
como
uma
“lenda
urbana”.
As
pesquisas
geológicas
recentemente publicadas em periódicos científicos qualificados revelaram a
inexistência
do
cone
vulcânico,
cratera vulcânica, derrames de lava, fluxos
piroclásticos e bombas vulcânicas.
Segundo Motoki et Al (2007) nesta região havia vulcanismo, porém o vulcão
e os depósitos eruptivos já foram completamente eliminados por soerguimento
regional e intenso efeito de erosão sob o clima tropical. De fato, o vale interpretado
como cratera não é constituído por aglomerado piroclástico, mas por traquito maciço.
O depósito aluvionar presente no referido vale é composto de materiais regolíticos
de espessura de poucos metros. Não foi encontrado o tálus composto de grandes
blocos sugestivo de colapso da cratera. Não ocorre a saliência morfológica
correspondente ao cone vulcânico. Os afloramentos em torno da suposta cratera
não apresentam a estratificação vulcânica.
Desta forma, considera-se que esse vale não corresponde à cratera
vulcânica, mas a uma morfologia originada de erosão. O traquito mais abundante é
intrudido pelo álcali sienito e, portanto, não pode ser derrame de lava que cobre o
sienito. O traquito ocorre até o topo do maciço, 600 m acima da suposta cratera. A
disjunção colunar é originada de diques e a estrutura parecida à crosta-de-pão é
atribuída a intemperismo. As observações anteriores indicam que esse traquito não
é constituinte de derrames de lava, mas de corpos subvulcânicos. Os autores
concluem que as rochas vulcânicas em questão não são constituintes de edifício
vulcânico, mas de preenchimento de condutos e fissuras subvulcânicos.
Assim
sendo, a geologia subvulcânica de Nova Iguaçu pode ser reconhecida corretamente
pelas sociedades regionais como um patrimônio geológico com valor científico
inigualável. (figura 03).
32
Perfis geológicos do vale da suposta cratera:
A) perfil norte-sul, Vieira e Klein (2004); B)
norte-sul, Valente et al. (2005); C) norte-sul
e D) leste-oeste, presente trabalho.
Nota-se que o perfil A não está de acordo
com o mapa topográfico da região. Os
diagramas B e C apresentam perfis ao longo
da crista e do vale. A escala vertical em A é
exagerada 2,5 vezes, conforme Vieira e
Klein (2004) e, para comparação, os perfis
B, C e D seguem o mesmo padrão.
A legenda do perfil B é válida para C e D.
Figura 03: Evolução de proposições para o modelo genético do Vulcão de Nova Iguaçu/RJ
Fonte: Motoki, A., Soares, R., Netto, A.M., Sichel, S.E., Aires, J.R., Lobato, M. 2007. Reavaliação do
modelo genético do Vulcão de Nova Iguaçu, RJ: origem eruptiva ou intrusão subvulcânica? Revista
Escola de Minas, Ouro Preto, v. 60-3.
33
1.3.3 Biodiversidade
1.3.3.1 Flora
Conforme levantamento florístico preliminar, conduzido no Plano de Manejo
do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu (2001), embora a região do maciço
Gericinó-Madureira-Mendanha tenha sofrido profundas modificações ao longo do
tempo, seu revestimento florestal ainda é bastante expressivo e, aproximadamente,
60% das florestas existentes ainda estão em excelente estado de conservação,
sendo o restante, constituídos por matas secundárias, em estágios iniciais de
regeneração. As áreas florestais mais preservadas localizam-se nos vales profundos
das cabeceiras do rio D. Eugênia e em locais de difícil acesso, principalmente nas
cotas altimétricas mais elevadas, onde podem ser encontradas matas em estado
clímax. Deste modo, esta área é de grande importância como matriz de proteção e
preservação da diversidade biológica e dos mananciais hídricos existentes.
O maciço de Gericinó-Madureira-Mendanha é revestido pela Floresta Pluvial
Atlântica e forma com a serra do Tinguá, a serra dos Órgãos e outros maciços
costeiros, um dos conjuntos de remanescentes florestais mais importantes do
Estado do Rio de Janeiro, integrando a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica,
homologada pela UNESCO, em 1992. Entretanto este remanescente sofre grande
pressão antrópica o que deixa sua fisionomia semelhante a um mosaico, alternando
comunidades vegetais em diversos estágios de regeneração natural, com
pastagens, plantações e, em alguns casos, com locais em adiantados processos de
urbanização.
A cobertura vegetal do PNMNI, pode ser dividida em cinco grupos5: Os
campos antrópicos (pastagens), as formações pioneiras (estágio inicial de
regeneração), as formações secundárias iniciais (em franco processo de
regeneração) e secundárias tardias (em adiantado estado de regeneração) e Clímax
(florestas ombrófila densa em bom estado de conservação) conforme discriminação:
5
SEMUAM, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo Plano de Manejo do Parque
Municipal de Nova Iguaçu – Versão Resumida –2001 pag 32
34
·
Campos antrópicos (pastagens): Formações antrópicas compostas
por forrageiras da família das gramíneas que predominam nas cotas
inferiores do maciço, com predominância do capim gordura (Melinis
minutiflora) e nos trechos de campos antrópicos fora do parque e
nas cotas altimétricas inferiores há mais ocorrência do capim
colonião
(Panicum
maximum).
Os
quais
são
os
grandes
responsáveis pela manutenção do ciclo do fogo tanto em áreas do
parque como em seu entorno (a ocorrência desta alteração na
paisagem é por conta de desmatamentos antigos e queimadas
provocadas por moradores locais e queda de balões, ainda
freqüente na região).
·
Formações pioneiras (estágio inicial de regeneração): Presente,
sobretudo, nas áreas junto à estrada da Cachoeira, devido à
intervenção antrópica mais recente por conta dos sítios instalados
antes da formação do PNMNI. A estrutura geral é herbáceoarbustiva com a predominância de espécies ruderais e invasoras
como lantana (Lantana camara), mamona (Ricinus comunis), picão
(Bidens pilosa), oficial-de-sala (Asclepias curassavica), bunda de
nego (Thunbergia alata). Nas formações iniciais maiores, há a
dominância de representantes da família Compositae que tem como
principais espécies o alecrim (Baccahris dracunculifolia), os assapeixes e os cambarás (Vernonia spp e Eupatorium spp). Cabe
destacar, nas áreas mais altas, a presença marcante da candeia
(Gochnatia
polymorpha)
de
mesma
família
botânica.
As
representantes das melastomatáceas, nesta formação, são as
pixiricas (Miconia albicans e Leandra sp). Alguns exemplares de
porte arbóreo observados nestas formações são: Aegyphila
sellowiana,
Croton floribundus, Croton urucurana, Schinus
terebinthifolius, Trema micrantha e Cecropia lyratiloba.
·
Formações
secundárias
iniciais
(em
franco
processo
de
regeneração) e secundárias tardias (em adiantado processo de
regeneração): A diferença entre estes dois padrões de vegetação
no PNMNI é, essencialmente, em relação a estrutura da formação,
35
pois a similaridade florística entre os dois tipos de mata é alta,
devido ao fato de que a floresta secundária inicial apresenta em sua
composição muitas das espécies da secundária tardia, embora
ainda jovens. Em ambas as composições há elevada freqüência de
algumas espécies como o jacatirão (Miconia cinnamomifolia) e o
angico (Pseudopiptadenia contorta). Entretanto a diversidade
florística e a estratificação nas formações secundárias tardias são
bem mais complexas do que na secundária inicial e o índice de
umidade
torna-se
mais
expressivo
em
virtude
do
maior
sombreamento das copas.
Nos trechos de floresta secundária inicial, a altura das árvores não
ultrapassa 14 m de altura, alcançando o dossel em torno de 10
metros.
A
falta
de
bromélias
e
orquídeas
é
marcante,
provavelmente devido à coleta, e a presença de trepadeiras
agressivas como o arranha-gato (Acacia lacerans) ainda é comum.
As árvores que podem ser citadas que compõe o estrato superior
deste tipo de mata são: Sapium glandulatum, Croton floribundus,
Croton urucurana, Cybistax antisyphilitica, Erytroxylum pulchurum,
Alseis floribunda, Pyschotria sellowiana, Albizia polycephala,
Siparuna arianae. As árvores que se destacam deste estrato são:
Alchornea
triplinervia,
multijuga,
Miconia
Sparattosperma
cinnamomifolia,
leucanthum,
Tibouchina
Senna
mutabilis,
Pseudopiptadenia contorta e Piptadenia gonoacantha, entre outras.
As matas secundárias tardias apresentam, assim como as clímax, a
ocorrência de três estratos pouco definidos.
O estrato inferior apresenta uma altura de até 10 m, onde
predominam as palmeiras (Astrocaryum aculeatissimum, Geonoma
sp e indivíduos jovens de Euterpe edulis), em conjunto com
diversas espécies, a saber: Psychotria nuda, Posoqueria acutifolia,
Rheedia gardneriana, Piper rivinoides, Rollinia laurifolia, Annona
cacans, Erytroxylum pulchurum, Sorocea guilleminiana, Dahlstedtia
pinnata entre outras.
36
Os estratos superiores a este são de difícil delimitação, com limite
superior do intermediário de cerca de dezoito metros, sendo
possível a observação das seguintes espécies florestais: Apuleia
leiocarpa,
Astronium graveolens, Spondias lutea, Alchornea
triplinervia, Senna multijuga, Cassia ferruginea, Cordia trichotoma,
Pterocarpus rohrii, Schizolobium parhayba, Andira fraxinifolia,
Platycyamus regnellii, Myrocarpus frondosus, Cecropia hololeuca,
Chorisia speciosa,
edulis,
Gallesia integrifolia,
Piptadenia gonoacantha,
Marlierea edulis,
Inga
Pouroma guianensis, Abarema
brachystachya, Jacaratia spinosa, Euterpe edulis entre outras
(fotografia 01).
Fotografia 01. Formações secundárias no Poço da Sede.
Fotografia de Flávio A. P. Mello: 05/10/2008.
O superior, que se apresenta descontínuo, possuindo limite superior
a
25
metros,
cinnamomifolia,
inaequalis,
apresenta
as
seguintes
Pseudopiptadenia
Pterocarpus
rohrii,
árvores:
contorta,
Chorisia
Pseudopiptadenia
speciosa,
canjerana, Cedrela fissilis, Centrolobium robustum,
paratyensis,
Astronium graveolens,
Miconia
Cabralea
Tachigali
Moldenhawera polysperma,
Lecythis lanceolata, Geissospermum vellosii,
Jacaratia spinosa,
Virola oleifera. São poucos os indivíduos que emergem deste
estrato, tais como Cabralea canjerana, Centrolobium robustum,
37
Cariniana estrellensis, entre outras. É relevante a presença neste
tipo de formação de fetos arborescentes do gênero Dicksonia
(samambaiaçu), que em conjunto com as epífitas reflete o caráter
úmido das florestas tropicais de encosta.
·
Formações clímax (em bom estado de conservação): Encontradas
no PNMNI nas áreas de difícil acesso, onde quase não há ação
antrópica. Nestes trechos a dinâmica florestal deve-se quase que
exclusivamente da queda e morte de indivíduos. As principais
características desta formação são: os altos diâmetros das árvores
do dossel e emergentes; o terceiro estrato ou superior que
apresenta alturas entre 20-25 metros, com emergentes superando a
marca de 30 metros; e uma variedade maior de espécies no dossel
com distribuição mais equilibrada, ou seja, não há nenhuma espécie
com alta freqüência a ponto de induzir uma interpretação que
configure dominância de qualquer espécie.
A riqueza de espécies nas matas secundárias tardias e clímax é
muito maior quando comparadas com as outras formações. É
encontradas maior densidade de palmito juçara (Euterpe edulis),
por exemplo, principalmente nas matas clímax, sendo um indicador
de adiantado estado de conservação da floresta. O dossel nas
matas mais maduras é constituído praticamente das mesmas
espécies arbóreas citadas para as matas secundárias tardias
evidenciando, porém, uma queda nas populações de espécies
como
o
jacatirão
(Pseodopiptadenia
(Miconia
contorta)
cinnamomifolia),
e
o
pau-jacaré
o
angico
(Piptadenia
gonoacantha).
Além do porte, como citado anteriormente, e da maior densidade do
palmito juçara (Euterpe edulis), as matas mais preservadas
guardam a ocorrência de espécies mais raras, que por possuírem
grande potencial madeireiro não correm nas formações alteradas
ou, quando ocorrem, são indivíduos novos. Como exemplo destas
espécies pode ser citados: Dalbergia nigra, Mezilaurus navalium,
Hymenaea courbaril var. altssima, Virola gardneri, Virola oleifera,
38
Copaifera trapezifolia,
Copaifera lucens, Cariniana legalis e
Cariniana
Geissospermum
estrellensis,
vellosii,
Enterollobium
glaziovii, Cedrela fissilis, Peltogyne angustiflora, Pradosia kullmanii,
Pouteria cf. torta.
Destaca-se ainda que a flora do PNMNI compõe-se ainda de diversas
espécies exóticas introduzidas por sitiantes que lá residiam ou efetuaram plantios
em terrenos ao longo da estrada da Cachoeira. As espécies introduzidas vão desde
plantas como café (Coffea arabica), bananeira (Musa paradisiaca), limoeiros e
laranjas (Citrus spp) até árvores utilizadas na arborização urbana e em
reflorestamentos como é o caso do pau-rei (Pterigota brasiliensis), fedegoso (Cassia
grandis), sombreiro (Clitoria fairchildiana), flamboyant (Delorix regia), samã
(Pithecellobium samam), eucaliptos (Eucalyptus spp) e ciprestes, etc.
Há também muitas frutíferas, como jambo-rosa (Syzygium jambos), goiabeira
(Psidium guajava), jaqueiras (Artocarpus integrifolia), abacateiro (Persea gratissima),
mangueiras (Mangifera indica) e outras. Além de algumas plantas ornamentais,
principalmente nas proximidades do Casarão e ao redor das ruínas do antigo Clube
de Campo Dom Felipe. Nestes locais encontram-se trechos de antigas cercas vivas
(Hibiscus
sp, Malvaviscus
sp, etc.), bem como dracenas (Dracena rubra, D.
fragans, etc.) e algumas palmeiras exóticas6.
1.3.3.2 Fauna
A fauna da Região Sudeste do Brasil pertence à Província Florestal Atlântica.
Segundo o MMA Atualmente reduzida a 7% de sua extensão inicial (102 mil Km2)
encontra-se intensamente fragmentada e distribuída ao longo da costa brasileira, do
Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Abrange atualmente, total ou
6
SEMUAM, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo Plano de Manejo do Parque
Municipal de Nova Iguaçu – Versão Resumida –2001 pag 36
39
parcialmente, 3.409 municípios em 17 estados. No Rio Grande do Sul, Santa
Catarina, Paraná e São Paulo, estende-se pelo interior, até os limites com a
Argentina e Paraguai. Nela, são gerados 70% do Produto Interno Bruto (PIB) do
país, sendo estratégica para 120 milhões de brasileiros, regulando o clima,
assegurando a fertilidade do solo, protegendo escarpas de serras e encostas de
morros e preservando nascentes e fontes, regulando o fluxo dos mananciais que
abastecem estes municípios7. Considerada patrimônio nacional pela Constituição
Federal, a Mata Atlântica é um dos biomas mais ricos do mundo em biodiversidade.
Contudo, segundo a lista da fauna silvestre brasileira ameaçada de extinção8,
publicada pelo Ministério do Meio Ambiente em 2003; 185 vertebrados, 118 aves, 16
espécies de anfíbios, 38 mamíferos e 13 espécies de répteis pertenciam à Mata
Atlântica.
Sendo um importante remanescente da Mata Atlântica, o maciço do GericinóMendanha está inserido na Região Zoogeográfica Neotropical, mais precisamente
na Província Zoogeográfica Tupi. A floresta da região das serras de Madureira e
Mendanha abriga uma rica diversidade faunística, em especial em altitudes acima da
cota 200 metros e nos vales dos cursos d’água. Nesses locais, onde a
heterogeneidade de habitats e microhabitats é grande, abrigam-se animais de
preferências alimentares restritas (especialistas) que necessitam de áreas
preservadas para que suas populações mantenham-se em equilíbrio o que torna a
proteção destes remanescentes florestais imprescindível para a manutenção da
fauna local.
Originalmente, antes do processo de urbanização da Baixada Fluminense, as
matas nativas do maciço do Gericinó-Mendanha abrigavam espécies de grande
porte da fauna brasileira, tais como a onça parda ou suçuarana (Felis concolor) e o
mono carvoeiro (Brachyteles arachnoides), as quais foram registradas na região em
1922. Porém, com a pressão antrópica nas áreas ao redor do maciço, a fauna, em
busca de alimento e abrigo, migrou para áreas mais altas e menos acessíveis aos
7
“Conheça melhor a Mata Atlântica” Fonte: MMA/ASCOM e Wellton Máximo, Repórter da Agência Brasil.
Capturado em 12/02/2007. http://www.ecolnews.com.br/lei_da_mata_atlantica.htm
8
Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção. Anexo aos padrões de certificação
florestal (Ministério do Meio Ambiente - maio de 2003).
40
moradores da região. Por outro lado, a alteração ambiental causou, também, o
desaparecimento de espécies da fauna local, que requeriam áreas com maior
capacidade de suporte. A onça parda é um exemplo dessa situação de
inadaptabilidade, já que, com os desmatamentos, seu espaço natural de
forrageamento ficou bastante reduzido.
A existência de caçadores e passarinheiros na região do Parque Municipal de
Nova Iguaçu é registrada pelas atividades de fiscalização e continua sendo um
problema para a administração. Embora esporádicas, as atividades de fiscalização
são feitas geralmente em ações coordenadas entre órgãos públicos estaduais ou
municipais, em atendimento a denúncias de moradores. Com a implantação do
Parque Municipal de Nova Iguaçu, essa pressão sobre a fauna diminuiu
principalmente nas áreas mais próximas dos pontos de maior visitação, mas é ainda
bastante evidente nas partes altas do parque.
Entretanto, salienta-se que há uma grande carência de estudos sobre a
composição faunística, incluindo levantamentos atualizados, visto que os dados
constantes no plano de manejo foi uma levantamento expedito, e as listas, em
grande parte, foram interpoladas de levantamentos em todo o maciço. Relacionamse 02 espécies de anfíbios, 09 de repteis, 157 de aves, 12 de mamíferos e em torno
de 30 espécies de invertebrados. Dentre os mais comuns de serem observados
estão: Paca (Agouti paca), Preguiça (Bradipus torquatus), Jacupemba (Penelope
superciliares), Tangará (Chiroxiphia caudata) e Araçari-banana (Baillonius bailloni)
entre outros.
Cabe salientar que projetos de pesquisa recente tendem a confirmar a
biodiversidade prevista, dentre os quais se pode citar Menezes Jr. (2008) que em
estudos no Parque Natural Municipal da Serra do Mendanha (vertente oposta ao
PNMNI, podendo ser acessado através da trilha do Mendanha, na parte alta do
parque) foram encontradas 15 espécies de morcego, com destaque para os
frugívoros Artibeus lituratus, Carollia perspicillata e Platyrrhinus lineatus. Mesmo
assim, espécies ameaçadas de extinção como, Platyrrhinus recifinus e Chiroderma
doriae foram capturadas em número considerável, indicando que a região encontra-
41
se em ótimo estado de preservação, podendo sustentar até mesmo grandes
populações de espécies ameaçadas.
Já o projeto “Diversidade dos Morcegos e Quiropterocoria no Parque
Municipal de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Brasil”; conduzido pelo laboratório de
Mastozoologia do Instituto de Biologia Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro,
que pesquisa ecologia e ecomorfologia de quirópteros no PNMNI, já registraram 14
espécies de morcegos em apenas três coletas (Novaes, R.L.M. dados não
publicados); onde a espécie insetívora Myotis nigricans e os nectarívoros Anoura
caudifer e Anoura geoffroyi são as mais representativas da área. Destaque também
para o onívoro Tonatia bidens, que vem sendo tratado como bioindicador de
ambientes conservados. O considerável número de espécies de morcego em
relação à baixa amostragem do Parque pode indicar a grande diversidade que esta
área pode abrigar, dando indícios que esta seja uma importante região para ser
conservada. A presença do morcego hematófago Desmodus rotundus e de algumas
espécies frugívoras, aliadas aos já citados morcegos insetívoros, nectarívoros e
onívoros pode ser um indício da variedade de microhabitats da região, que pode
suprir as necessidades específicas das mais variadas guildas alimentares, o que é
mais um indicativo de que o Parque pode abrigar uma importante biodiversidade.
Em andamento o projeto de pesquisa de doutorado “A riqueza e diversidade
de anfíbios anuros da Serra do Mendanha, Rio de Janeiro, RJ: grau de conservação
da floresta, taxa de mudança altitudinal e uso de recursos hídricos”, cujos
levantamentos envolvem coletas em vários locais da Serra, apontam grande
biodiversidade. Nas coletas realizadas no Parques Natural Municipal do Mendanha,
próximo ao
PNMNI, mas na vertente oposta, foram identificadas 13 espécies9,
pertencentes a 3 famílias, de anfíbios anuros em diferentes altitudes. Reporta-se que
no mesmo projeto, em atividade paralela, já foram identificadas 27 espécies de
serpentes, pertencentes a 04 famílias, que ocorrem nas áreas de coleta de anfíbios.
Os trabalhos de coleta no PNMNI já foram iniciados e se espera amostragem
semelhante.
9
Dados não publicados do autor Jorge Antônio Lourenço Pontes - [email protected]
42
1.4 Zoneamento Territorial e Ambiental
O PNMNI possui 55% de sua área florestal em adiantado estado de
regeneração e/ou alto grau de preservação, onde se destacam vários exemplos da
flora e fauna da região.
O zoneamento territorial e ambiental sugerido no Plano de Manejo do Parque
natural Municipal de Nova Iguaçu (SEMUAM, 2001), definiu sete zonas (quadro 01).
DISCRIMINAÇÃO
ÁREA (ha)
%
OBSERVAÇÕES GERAIS
Zona Intangível
182,8
17,7
Zona Primitiva
384,1
37,3
Abrange matas preservadas das cotas
altimétricas mais elevadas
Engloba as matas em excelente estado
Zona Uso extensivo
380,3
38,3
Vide mapa do zoneamento (Figura 04)
Zona Uso Intensivo
41,9
4,0
Área do Casarão e arredores
Zona de Recuperação
21,2
2,0
Áreas degradadas ou com solos expostos
Zona de Uso especial
5,7
0,7
Faixa de entrada, após a represa
* Área de relevante interesse
para o manejo da UC
59,5
5,4
Inclui a Represa Epaminondas Ramos, a
pedreira e o portão principal da unidade
Quadro 01: Zoneamento territorial-ambiental do PNMNI
* Esta área de 0,595 km2 localiza-se na parte frontal do Parque Municipal, junto à entrada, e é
estrategicamente muito importante para o gerenciamento da unidade.
Fonte: Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu – Vs Resumida –
SEMUAM, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo 2001 p. 57.
Deve-se observar com especial atenção as áreas das zonas de uso especial
e intensivo, que somam aproximadamente 4,7 % da área do PNMNI e recebem
atualmente quase a totalidade da visitação; ao passo que a zona de uso extensivo,
com área em torno de 38,3% extremamente sub-utilizada. Na figura 04, são
evidenciadas as zonas criadas e sua localização no PNMNI:
43
Legenda
Zona de Uso Especial
Zona de Recuperação
Zona de Uso intensivo
Zona de Uso extensivo
Zona primitiva
Zona Intangível
MESQUITA
Figura 04 Zoneamento territorial e ambiental do PNMNI
Fonte: Zoneamento Territorial e Ambiental do Parque – Mapa Nº HAB-NIG-D10/98. Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu – Vs Resumida –
SEMUAM, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo 2001 p. 67.
Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008
44
O Zoneamento proposto obedeceu às seguintes definições e atribuições:
·
Zona Intangível: “É aquela onde a primitividade da natureza
permanece
intacta,
não
se
tolerando
quaisquer
alterações
humanas, representando o mais alto grau de preservação. Funciona
como matriz de repovoamento de outras zonas onde já são
permitidas atividades humanas regulamentadas. Esta zona é
dedicada à proteção integral de ecossistemas, dos recursos
genéticos e ao monitoramento ambiental. O objetivo básico do
manejo é a preservação, garantindo a evolução natural.”
Descrição: Situa-se na porção oeste do Parque Municipal,
englobando, grosso modo, as terras acima da cota 600 metros.
Inclui as nascentes do rio D. Eugênia e trechos bem conservados
de remanescentes de Mata Atlântica em estágio avançado de
regeneração.
Finalidades específicas:
o Proteger as nascentes do rio D. Eugênia e dos principais
afluentes localizados no seu alto curso.
o Proteger o ambiente, os processos naturais e a evolução dos
ecossistemas sem interferências antrópicas
o Proteger vegetação remanescente de Mata Atlântica, bem
conservada, situada nas cotas mais elevadas do PNMNI.
·
Zona Primitiva: “A Zona Primitiva é aquela onde ocorreu pequena
ou mínima intervenção humana, contendo espécies da flora e da
fauna ou fenômenos naturais de grande valor científico. Deve
possuir características de zona de transição entre a Zona Intangível
e a Zona de Uso Extensivo. O objetivo geral do manejo é a
preservação do ambiente natural e ao mesmo tempo facilitar as
atividades
de
pesquisa
científica,
educação
ambiental
e
proporcionar formas primitivas de recreação.
Descrição: Localiza-se na parte centro-oeste, envolvendo a Zona
Intangível, seguindo aproximadamente a cota 500 m de altitude e
incluindo as nascentes do córrego dos Tucanos e do córrego Mata
45
Fome. No trecho oeste e sudoeste também contorna a Zona
Intangível, indo-se até o limite do Parque. No lado sul da UC
estende-se ao longo da margem direita do córrego Pau da Letra,
ficando, porém, dentro desta zona as suas nascentes.
Na porção leste inclui as nascentes dos córregos Tapinhoã e
Porteira. Ali, em linhas gerais, acompanha a cota 400 m, excluindo,
entretanto, as áreas de matas secundárias em fase inicial de
regeneração. Esta zona é recoberta em sua maior parte por
formações florestais densas, em excelente estado de conservação,
mas inclui também pequenos trechos de florestas secundárias
tardias, em avançado estágio de regeneração natural.
Finalidades específicas:
o Proteger as nascentes localizadas na parte sul e sudeste do
PNMNI.
o Proteger manchas de floresta densa e aberta em bom estado
de conservação.
o Propiciar o desenvolvimento de pesquisas científicas em
áreas remanescentes de Mata Atlântica.
o Servir como banco de germoplasma (sementes, propágulos e
mudas) para processos de sucessão secundária na Zona de
Recuperação.
o Oferecer oportunidade para a realização de formas simples
de recreação, em contato direto com ambientes naturais.
·
Zona de Uso Extensivo: “É aquela constituída em sua maior parte
por áreas naturais, podendo apresentar algumas alterações
humanas. Caracteriza-se como uma área de influência entre a Zona
Primitiva e Zona de Uso Intensivo. O objetivo geral do manejo é a
manutenção de um ambiente natural com mínimo impacto humano,
apesar de oferecer acesso e facilidade públicos para fins educativos
e recreativos”.
Descrição: Esta zona está distribuída por toda parte central, norte e
leste do Parque. Engloba grande parte do córrego Pau da Letra
(médio e baixo curso) e um trecho de cerca de 2 km do rio D.
46
Eugênia. Abrange parcialmente as Trilhas do Gericinó, Mata-Fome
e de Campo Grande (em direção a Serra do Mendanha,
acompanhando o córrego do Pau da Letra). Entre os marcos
importantes incluídos nesta zona estão: as ruínas do Clube de
Campo Dom Felipe, datado de meados do século XX, freuqntado
pela elite igualuana da época , o local onde existiu um Quilombo, a
Pedra da Quilombo (Contenda) e Varginha (a suposta chaminé
vulcânica).
A cobertura vegetal da Zona de Uso Extensivo é constituída
majoritariamente por florestas densas e por formações florestais
secundárias tardias, cujas árvores apresentam menores diâmetros
e dossel mais aberto. Ocorrem ainda, matas secundárias em franco
processo de regeneração. As áreas degradadas de antigos sítios
localizados ao longo da Estrada da Cachoeira foram classificadas
como Zona de Recuperação.
Finalidades específicas:
o Assegurar maior proteção e integridade à Zona Primitiva.
o Dar aos visitantes a oportunidade de desenvolver atividades
de recreação e lazer em contato com ambientes naturais,
como
caminhadas
e
ciclismo
em
trilhas
rústicas,
contemplação de paisagens, observação de elementos de
flora e fauna.
o Propiciar aos visitantes oportunidades para conhecer e
entender aspectos naturais e histórico-culturais da região
onde se insere o Parque.
·
Zona de Uso intensivo: “É aquela constituída por áreas naturais ou
alteradas pelo homem. O ambiente é mantido o mais próximo
possível do natural, devendo conter: Centro de Visitantes, museus,
outras facilidades e serviços. O objetivo geral é o de facilitar a
recreação intensiva e a educação ambiental em harmonia com o
meio.”
Descrição: Compreende a Estrada da Cachoeira e uma faixa de
cerca de 300 m junto às suas margens, ao longo de um percurso de
47
cerca de 2,5 km — desde as proximidades da coluna de pedras no
início da Gleba Modesto Leal até a altura do mirante de onde se
avista o vale do rio Dona Eugênia. Esta zona inclui os principais
atrativos
de
uso
público
e
áreas
com
potencial
para
o
desenvolvimento de atividades programadas tanto de recreação
como de educação ambiental: cachoeiras e piscinas naturais, o
Casarão, locais para implantação de áreas de piquenique,
equipamentos de ginástica e de um mini-horto, do Centro de
Visitantes, etc. A vegetação ali verificada é constituída basicamente
por matas secundárias em franco processo de regeneração,
formações vegetais pioneiras e áreas degradadas em diversos
níveis.
Finalidades específicas:
o Oferecer áreas e infra-estrutura próprias para recreação e
atividades de lazer, interpretação e educação ambiental,
capazes de comportar um significativo número de visitantes,
de modo a não causar danos aos ambientes e recursos
naturais do Parque Municipal de Nova Iguaçu.
o Abrigar instalações e equipamentos destinados à recepção,
atendimento e orientação aos visitantes.
·
Zona de Uso Especial: “É aquela que contém as áreas necessárias
à administração, manutenção e serviços da UC, abrangendo
habitações, oficinas e outros. Estas áreas serão escolhidas e
controladas de forma a não conflitarem com seu caráter natural e
devem localizar-se, sempre que possível, na periferia do Parque. O
objetivo geral do manejo é minimizar o impacto da implantação das
estruturas ou os efeitos das obras no ambiente natural ou cultural
do Parque.”
Descrição: Esta zona se estende, ao longo da Estrada da
Cachoeira, do Portão de Entrada, junto à Represa Epaminondas
Ramos, até um ponto intermediário entre o marco inicial da Gleba
Modesto Leal (coluna de pedra) e a ponte da curva, entre Gleba
Modesto Leal (coluna de pedra) e a ponte da curva. Inclui a área da
48
pedreira desativada, o Sítio Riacho da Serra e a própria represa
Epaminondas Ramos.
Finalidades Específicas:
Assegurar a realização das atividades administrativas e rotineiras
do Parque Municipal de Nova Iguaçu sem, contudo, causar danos
às áreas da Unidade de Conservação.
·
Zona
de
Recuperação:
“É
aquela
que
contém
áreas
consideravelmente alteradas pelo homem. Zona provisória, uma vez
restaurada, será incorporada novamente a uma das zonas
permanentes. As espécies exóticas introduzidas deverão ser
removidas e a restauração deverá ser natural ou naturalmente
acelerada. O objetivo geral do manejo é deter a degradação dos
recursos ou restaurar a área.”
Descrição: A Zona de Recuperação é formada por um conjunto de
pequenas áreas, que correspondem aos antigos sítios particulares,
e por quatro áreas de maiores dimensões, assinaladas no mapa do
zoneamento, quais sejam: uma no início da Gleba Modesto Leal,
outra junto às ruínas do Clube Dom Felipe, a terceira na parte norte
do Parque, nas proximidades da Trilha Mata-Fome, e a última na
parte central da UC, nas imediações da cachoeira Véu da Noiva e
da ponte das Pedras. Em conjunto são cerca de 22 hectares
descontínuos
que
enriquecimento
necessitam
florestal,
estudos
tratamento
específicos
paisagístico
de
ou
reflorestamento.
Essas áreas, de um modo geral, são revestidas por pastagens
(campos antrópicos) ou por vegetação pioneira em estado inicial de
regeneração. Alguns desses locais apresentam, inclusive, solo
exposto, escavados, em certos casos, por grandes sulcos de
drenagem superficial. Todas as áreas do Parque que estão
atualmente
ocupadas
por
particulares,
em
função
das
características que apresentam, também integram a Zona de
Recuperação. À medida que sua situação legal seja equacionada e
49
as áreas desocupadas, deverão ser adotadas ações necessárias à
sua restauração.
Finalidades Específicas:
o Restaurar áreas alteradas pela ação antrópica ocorrida ao
longo dos anos, devolvendo ao ambiente as condições
naturais.
o Proporcionar
o
monitoramento
dos
processos
de
recuperação e das fases de sucessão ecológica.
·
Área de relevante interesse para o manejo da UC. Compreende a
área que se estende ao longo do limite leste do Parque Municipal
de Nova Iguaçu, perfazendo um total de 59,5 ha. Esse trecho,
compreendido entre portão de entrada da UC e o marco da Gleba
Modesto Leal, limite do Parque Municipal, reúne locais de grande
interesse para o manejo da unidade.
Nessa área, estão incluídos a Represa Epaminondas Ramos, a
pedreira desativada São José, antes prevista como uma área de
estacionamento, se converteu de fato em um espaço multiuso,
abrigando atividades de recreação, eventos, e atividades e
escolares dentre outros, e outros espaços aprazíveis. Ressalta-se
que a faixa territorial em questão possui também uma trilha (trilha
da represa) que corre ao longo da margem mesquitense e trechos
recobertos por remanescentes de florestas, além da guarita
principal (Portão de Entrada) e sanitários públicos.
Em relação à zona de uso Intensivo, o maior volume de visitantes se
concentra
na
faixa
compreendida
entre
a
Sede
até
o
Casarão,
com
aproximadamente mil e duzentos metros, onde estão os principais poços para banho
(o poço das Cobras e o Poço do Casarão) caracterizando a vocação da área, em
conjunto com os outros poços e pequenas quedas d’água do Rio Dona Eugênia.
Esta vocação tem sido uma das principais causas do sobre-uso dos visitantes,
extrapolando sobremaneira a capacidade de carga prevista no plano de manejo,
sobretudo, no verão ou dias mais quentes; o que tem sido caracterizado por alguns
funcionários como um fenômeno já consolidado de turismo de massa.
50
Na zona de uso intensivo, destaca-se ainda que embora as caminhadas
sejam uma porção expressiva das atividades desenvolvidas pelos usuários no
PNMNI, tanto visitantes quanto praticantes de caminhadas matutinas; os roteiros,
incluindo os utilizados pelos funcionários do PNMNI nos trabalhos de visitas guiadas,
tendem a se restringir aos roteiros que envolvem a Estrada da Cachoeira até o
Casarão, podendo se estender da entrada até o Mirante do Alto e mais raramente às
Ruínas do Clube Dom Felipe (zona de uso extensivo – onde se recomenda usar guia
do parque).
Salienta-se que no plano de manejo inicial houve a implantação da trilha do
Pau Pereira, com aproximadamente seiscentos metros de extensão, que descreve
um arco junto a Estrada da Cachoeira, tendo seu ponto de partida oficial e ponto
final aproximadamente cento e cinquenta metros da Ponte da Curva. Esta inversão
do roteiro foi uma adequação ao projeto visto que, embora a trilha tenha sido
concebida para receber o público de massa, dada a sua localização; a inadequação
do acesso, muito íngreme, fez com que a mesma fosse evitada tanto pelos usuários
menos preparados e com menor vigor físico quanto pelas visitas guiadas conduzidas
pelo pessoal do PNMNI, daí a “solução” de se começar pelo final, cujo traçado é
mais confortável.
A trilha prevista para ligar a Trilha do Pau Pereira à Pedra do Quilombo (da
Contenda) não foi projetada ou implantada, havendo apenas a referencia de
“planejada”. As referências às trilhas do Mendanha e outras que poderiam conduzir
ao Parque do Mendanha e Gericinó, assim como a outras localidades da APA do
Gericinó-Mendanha, são caminhos já existentes e não foram considerados nesta
dissertação em função de sua localização, próxima e mesmo dentro das zonas
primitiva e intangível; cujo estímulo ao fluxo de visitantes seria ilegal, conforme o
zoneamento territorial e ambiental vigente, e nocivo à proteção destas áreas nobres,
devendo ser mantidas como trilhas de trabalho (fiscalização e pesquisa).
51
1.5 Lazer, Recreação e Ecoturismo no PNMNI
1.5.1 Panorama atual
Embora pouco conhecido pela população local, a exceção da área de entorno
imediato de Mesquita, a divulgação do parque pela mídia jornalística na onda do
consumo da natureza é cada vez mais intensa, destacado principalmente como
agradável possibilidade de lazer e recreação, sobretudo, através de banhos de
cachoeira (fotografia 02) em áreas naturais de fácil acesso e práticas de vôo livre
(fotografia 03) e rapel na Pedreira desativada São José e Pedra da Contenda.
Com a descoberta em 1979 de resquícios de atividade vulcânica pelos
geólogos Victor de Carvalho Klein e André Calixto Vieira, o PNMNI tornou-se uma
importante referência geológica no estado do Rio de Janeiro. Data desta época a
introdução da referência ao “Vulcão de Nova Iguaçu” e “Serra do Vulcão”, utilizados
amplamente pela mídia e prefeituras como “chamariz ecoturístico” por conta da
hipótese lançada por estes pesquisadores acerca da existência de sinais de um
edifício vulcânico conservado na área historicamente denominada de Varginha é
dada as suas características físicas (uma pequena planície fértil no fundo do vale),
que foi interpretada como a “cratera do vulcão” de Nova Iguaçu, hipótese refutada
por Valente, et al (2005).
Fotografia 02: Visitantes no Poço do Casarão
Flávio A. P. Mello : fev./2008.
Fotografia 03: Rampa de Vôo Livre de Nova Iguaçu
Fonte: Guia 4 Ventos Brasil
Tal exposição, contudo, está se convertendo em um problema: os municípios
de Nova Iguaçu e Mesquita são os que possuem maior interface e facilidade de
52
acesso, possuindo aproximadamente um milhão de habitantes10. Isso indica uma
forte condição de massificação do lazer e ecoturismo nesta unidade. De fato, esta
situação já é percebida pela administração, por conta do aumento da demanda de
visitação tanto no verão, nas atividades de lazer e recreação nos poços e pequenas
cachoeiras ao longo do rio Dona Eugênia, notadamente no intervalo do Poço da
paixão até o Casarão, onde se encontra a Cachoeira Véu da Noiva com 53 metros
de queda; quanto na Pedra do Quilombo (Contenda) e Pedreira São José, através
de prática de rapel por conta dos operadores locais, onde sinais de degradação das
trilhas, exposição de raízes denotam sinais evidentes de deterioração ambiental.
A maior parte da dispersão dos visitantes adeptos de caminhadas em trilhas,
ecoturistas e visitantes não autorizados, ocorre em trilhas não reconhecidas
oficialmente pelo plano de manejo e fiscalizadas pelo PNMNI, conforme destacado
anteriormente. De fato, a utilização de trilhas com maior potencial para atividades
ecoturísticas como as caminhadas nas trilhas da Varginha, Mata-fome e do
Quilombo (Contenda), onde ocorrem práticas de lazer e esportes na natureza como
rapel, bouldering 11 e escalada e ainda as práticas de Vôo Livre na Rampa, recebem
acompanhamento extremamente superficial, praticamente inócuo; sem controle de
entrada ou projeções de visitação.
A rampa de vôo livre de Nova Iguaçu, localizada em um dos extremos do
Parque (S 21º 31’ 63” W 041º 53’ 24”, na cota 780,00 m.), segundo o Guia 4 Ventos,
é considerada o segundo melhor ponto do país (e melhor no estado) para a prática
desse esporte, podendo ser praticado durante todo o ano. Seu principal acesso se
dá através da estrada do Tatu Gamela, não pavimentada e utilizada também como
um atrativo para os adeptos de caminhada, por conta do mirante da rampa.
Possuindo como infra-estrutura de decolagem uma rampa de madeira e duas
rampas naturais com boa inclinação, possibilidade de decolagens simultâneas. O
pouso, de modo geral, se dá na Fazenda Cabuçu. Para o parapente há várias
alternativas de pouso junto à estrada de Madureira. Como pontos positivos
10
Contagem da População 2007, Resultados preliminares: Nova Iguaçu: 844.583 habitantes. Mesquita: 185.552
habitantes. Fonte: IBGE - Censo Demográfico
11
Bouldering ou escalada em bloco de pedra ou falésias. Atinge os mais altos graus de dificuldade técnica entre
todas as formas de escalada, geralmente realizado em rochas de até cinco metros de altura e sem o uso de
cordas. Fonte: http://ibahia.globo.com/irado/corpo_materia.asp?modulo=33&codigo=19892&tit=esporte
53
destacam-se as térmicas fortes, vôo seguro, ótima alternativa para condições de
vento Norte e como pontos negativos a proximidade do aeroporto Internacional do
Rio de Janeiro e do aeroclube de Nova Iguaçu. Estrada de acesso precário e infraestrutura hoteleira fraca.
As propostas de uso público para a zona de uso intensivo e especial
apontadas no plano de manejo do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, foram
alvo de um estudo12 sobre a qualidade dos espaços de lazer do Parque Municipal de
Nova Iguaçu, solicitada pelo DRM RJ - Departamento de Recursos Minerais do
Estado do Rio de Janeiro, em 2004, intitulado Diagnóstico Geral do Geoparque
Municipal de Nova Iguaçu, por ocasião do lançamento das placas do projeto
Caminhos Geológicos, onde se referiu a urgência de se melhorar as condições da
estrada de acesso ao parque (limpeza da rua e seu asfaltamento) e a colocação de
uma legislação edilícia que impeça construções ilegais e fora das normas
(fiscalização constante), assim como a colocação de sinalizações direcionais desde
o centro urbano até a entrada do parque.
Dentre os pontos considerados e tratados com bastante ênfase, se destacou
a sinalização, com distancias entre as ambiências; área para calçada ao longo da
estrada da cachoeira com leito mais regular; o acesso aos poços, cuja precariedade
de acesso em relação ao declive muito acentuado, denota perigo para idosos e
crianças em uma zona de uso intensivo. Neste mesmo estudo, face as constatação
do estado geral das infra-estruturas de apoio ao visitante, onde é sugerido a
cobrança de uma pequena entrada, de um real por adulto e de cinqüenta centavos
por criança até 12 anos e para os idosos a partir de 60 anos. Recursos estes, que
embora pequenos, poderiam atender algumas urgências da unidade, principalmente
as relacionadas à segurança, principalmente as relacionadas a pontes, guardacorpos e acessibilidade de idosos e crianças.
Refere-se, entretanto, que apesar do quadro desfavorável, são percebidas
atividades embrionárias de turismo conduzidas, mormente, por “guias locais” não
12
“Diagnóstico Geral do Geoparque Municipal de Nova Iguaçu”. Elaborado pela equipe do LAB LET –
Laboratório de Lazer e Espaços Turísticos. PROARQ – Programa de Pós-Graduação em Arquitetura –
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Universidade Federal do Rio de Janeiro.
54
qualificados de modo geral; os quais têm se estabelecido com mais vigor na zona de
uso extensivo, notadamente na Pedreira Desativada São José e na região
conhecida como Pedra do Quilombo (ou da Contenda), operando quase que
exclusivamente atividades de rapel, sendo que nesta última não há participação
efetiva do PNMNI na gestão deste espaço.
De fato, ao se avaliar a realidade vivida pelo PNMNI, percebe-se que as
características da dinâmica de lazer no Parque, motivo de preocupação da
administração, é particularmente clara quando se analisa o perfil do usuário atual.
Embora exista grande dificuldade, por motivos operacionais internos, em se
estabelecer uma coleta de dados eficaz junto a entrada, para um diagnóstico mais
apurado do perfil do visitante, a qual poderia facilitaria tomada de decisões mais
precisas
e
estabelecimento
de
prioridades
na
gestão
da
visitação
pela
administração; dados informais de portaria e questionários conduzidos a campo e
pela internet para esta dissertação, confirmam esta tendência da visitação e
apontam que o oferecimento de outras alternativas de lazer poderia interferir no
manejo dos visitantes e em seu perfil.
1.5.2 O Projeto “Caminhos Geológicos” no PNMNI
O Projeto Caminhos Geológicos, coordenado pelo Departamento de Recursos
Minerais - DRM-RJ, foi implantado a partir do ano de 2001 (MANSUR & ERTHAL,
2003), com o propósito de trazer a cultura da Geologia para o Estado do Rio de
Janeiro, paralelamente, visa também reconhecer e preservar os monumentos
geológicos fluminenses, divulgar o conhecimento geológico nas comunidades,
incentivar o desenvolvimento econômico relacionado com a geologia e também
fortalecer o potencial turístico das regiões. O projeto consiste na colocação de
painéis explicativos sobre a evolução geológica do Estado, para que o cidadão tenha
acesso à informação e perceba a complexidade e o tempo que a natureza leva para
construir a paisagem.
55
Dentro deste projeto em parceria com a Prefeitura da Cidade de Nova Iguaçu
e universidades presentes no estado do Rio de Janeiro, o DRM-RJ iniciou, em 2004,
a implantação do primeiro Geoparque do Estado na área do Parque Municipal de
Nova Iguaçu. O patrimônio geológico a ser preservado são as rochas e estruturas
relacionadas ao Vulcão de Nova Iguaçu (fotografias 04 e 05), descrito por Klein e
Vieira (1980), incluindo parte remanescente da suposta cratera. Foram instalados
inicialmente 6 painéis, sendo um geral com 120X90 cm junto à sede do parque e os
demais, com 60x60 cm, em afloramentos onde pudessem ser reconhecidas feições
simples, de modo geral desconhecidas e que podem despertar interesse do público.
Fotografia 04: Traçado do dique.
Local: Poço do Escorrega.
Fonte: www.drm.rj.gov.br/item.asp?chave=105
Fotografia 05: Erosão em marmita.
Local: Poço do Casarão.
Fonte: www.drm.rj.gov.br/item.asp?chave=107
No painel maior, intitulado “Geoparque do Vulcão de Nova Iguaçu”, são
apresentadas informações gerais sobre geologia, estrutura da terra, tectônica de
placas, magmatismo, vulcanismo e rochas magmáticas e são introduzidos termos
relacionadas às rochas, estruturas e demais feições geológicas encontradas na área
do Parque. Também é descrito o contexto geológico em que se desenvolveu o
vulcanismo documentado pelas rochas da região e como se deu a descrição do
vulcão à comunidade científica.
O objetivo deste painel é familiarizar o público, principalmente de alunos de
ensino fundamental e médio e moradores dos arredores do parque, com a temática
geral do geoparque, utilizando para isso linguagem simplificada e informação
sucinta, com ilustrações e fotografias que facilitem o entendimento dos conceitos
apresentados, de modo a atrair a atenção dos leitores. Em conjunto com os demais
painéis implantados no Parque, apresenta o vulcão e suas rochas aos visitantes
permitindo o reconhecimento das feições apresentadas, conscientizando da
56
importância de se preservar não só a fauna, a flora e o patrimônio cultural do local,
mas também o patrimônio geológico.
Há a previsão de extensão da sinalização geológica para outras trilhas e
afloramentos do Parque de modo a transformá-lo num Geoparque13. Salienta-se
que se encontra em fase final de conclusão, o TAC (Termo de Ajustamento de
Conduta), assinado entre o Ministério Público Estadual, a Pedreira Vigné, o governo
do Estado e a Prefeitura de Nova Iguaçu. Dentre os itens destaca-se a sinalização
geológica e reforma da Trilha da Varginha, cujas referências foram, em parte,
obtidas na fase de elaboração desta dissertação.
13
Segundo a classificação da UNESCO (2005): “Geoparque é uma unidade de conservação, em que há
preservação e gestão científica do patrimônio geológico integrado à conservação da fauna e da flora”. Fonte:
Projeto Geoparques - Serviço Geológico do Brasil – CPRM (2004)
57
2.0 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-CONCEITUAL
Os conceitos aqui apresentados e discutidos subsidiaram as análises que
foram desenvolvidas. Relacionam temas como lazer em ambientes naturais,
ecoturismo, Geoturismo, planejamento e zoneamento turístico, trilhas e impactos
relacionados em unidades de conservação.
2.1 Lazer em ambientes naturais, motivação para caminhar, Ecoturismo e
Geoturismo.
2.1.1 Lazer em ambientes naturais
Uma das mais importantes interfaces das unidades de conservação com a
população são as áreas destinadas ao lazer. As possibilidades de recreação
cumprem a função legal previstas em determinadas categorias de UCs previstas no
SNUC e ainda determinam mais diretamente o sentido de “utilidade” e valor nas
comunidades do entorno e usuários.
Para Dumazedier (1979:171), "o espaço de lazer será cada vez mais
necessário para o equilíbrio humano de cidades cada vez maiores, constituídas por
uma população cada vez mais rica, cada vez mais instruída, e que trabalha cada vez
menos". Boullón (2004) considera o lazer, além de direito do cidadão, tanto um meio
para este encontrar a liberdade e a criatividade, quanto um recurso para a formação
permanente da pessoa e ainda um veículo para estimular o desenvolvimento social e
cultural. Malta (2008:67) entende por sua vez que o conceito de lazer transcende o
de tempo disponível, porque agrega o elemento atividade a ser exercida, ou seja, o
lazer utiliza a fração de tempo livre destinada a descansar o corpo e o espírito de
modo ativo.
Assim, frente aos excessos da vida moderna, várias estratégias de lazer são
engendradas, dentre as quais se destaca o “Nadismo” cujo objetivo é o de
proporcionar a experiência de parar e dedicar-se totalmente ao ócio. O movimento
foi criado pelo designer Marboh (Marcelo Bohrer) em Londres, em 2005, visando
58
criar um evento no qual as pessoas permitissem-se parar com a justificativa de estar
participando de uma "atividade" oficial e reconhecida, como forma de frear o ritmo
estressante que as pessoas vivem na cidade.
Malta (op.cit) ressalta que os períodos de tempo disponível para o lazer,
podem ser divididos em duas formas distintas: recreação e turismo. BOULLÓN
(2004:98) coloca o turismo como uma forma de recreação: “qualquer tipo de uso que
o homem faça de seu tempo livre, sempre que este uso realize-se de forma
prazerosa [...] sendo o turismo, portanto, uma forma particular de recreação”. Trigo
(1998:18) concorda com a ampliação deste conceito frisando que turismo interliga-se
com a imensa variedade de opções destinadas ao tempo livre e aos aspectos
culturais, educacionais, da mídia e dos esportes. Salienta-se que a motivação para a
participação em atividades recreativas é dependente de variados fatores (quadro 02)
e se traduz com diferentes graus de envolvimento:
A participação em atividades recreativas é diretamente proporcional ao
rendimento. Mudanças nos valores sociais e melhoria financeira possibilitam
que famílias de poder aquisitivo menor investam em atividades recreativas;
Tempo disponível
Atividades de lazer estão diretamente relacionadas à mobilidade e à
disponibilidade de tempo;
Fontes de
informação
Própria, adquirida com outras pessoas, pela mídia ou fortuita. De forma geral, a
mídia é quem mais influencia na participação em atividades recreativas;
Quantidade e
acessibilidade das
áreas recreativas
Disponibilidade de áreas verdes adequadas para a recreação e acessibilidade
(condições das estradas e distância das áreas recreativas), interferem
acentuadamente na participação da população;
Número de
pessoas
O tamanho da população é um dos principais fatores que influi na utilização
recreativa. À medida que ocorre o crescimento da população, o nível de
satisfação dos usuários pode diminuir, fazendo com que as pessoas procurem
outras atividades que ofereçam melhores retornos para seus investimentos em
termos de tempo, dinheiro e energia;
Local de
residência
O modo de viver das pessoas afeta a escolha das atividades recreativas. As
pessoas que sempre viveram no meio urbano acabam por valorizar mais o
ambiente natural do que aqueles em que foram criados;
Idade
Define a forma de recreação na qual o indivíduo participará. Espera-se que os
jovens participem mais de esportes de aventura, enquanto acampar, observar a
natureza, caminhar e fazer piquenique são as principais atividades entre os
adultos. A terceira idade, entretanto, tem muito tempo livre e não dispõe de
local nem atividades apropriadas;
Escolaridade
A recreação é influenciada pelo nível cultural de cada visitante.
POPULAÇÃO:
Disponibilidade
financeira
Quadro 02: Fatores que influenciam na participação dos visitantes em atividades recreativas
Fonte: Malta, R. (2008:72). Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
59
A participação de visitantes em atividades recreativas em áreas naturais
oferece também diversos benefícios sociais e ambientais (quadro 03):
Benefícios
psicológicos
Compreendem a melhoria do bem-estar mental percebido pelos visitantes,
resultante da participação em atividades recreativas. Podem ser
identificados por meio da percepção de tranqüilidade, da aproximação com
a natureza e apreciação da beleza cênica, da autoconfiança, do
relaxamento físico e mental, da convivência com amigos e qualquer outra
experiência satisfatória que use um dos sentidos;
Benefícios na
Consistem na melhoria do comportamento ou aumento do desempenho,
mudança
devido à participação em atividades recreativas. A recreação promove
comportamental maior habilidade para dominar o estresse, maior produtividade no trabalho,
maior interesse na conservação e conseqüente proteção dos recursos
naturais;
Benefícios de
preservação
São percebidos pelos usuários que ficam satisfeitos em saber que os
recursos naturais estão sendo preservados e que existem oportunidades de
recreação. Estes benefícios se relacionam basicamente com a conservação
da diversidade e da qualidade ambiental, a proteção de características
cênicas, a conservação de áreas naturais e preservação de áreas para
pesquisas científicas;
Benefícios
sociais
A participação em atividades recreativas promove um relaxamento físico e
mental, tornando as pessoas menos agressivas, mais saudáveis e
produtivas. Se um visitante é mais descontraído e produtivo, ele terá um
relacionamento familiar mais solidário, mais disposição para se dedicar às
causas de interesse comum e, provavelmente, será favorável ao uso
racional dos recursos naturais e culturais. Como conseqüência, estes
benefícios se refletem no comportamento das pessoas, estendendo-se para
a sociedade como um todo.
Quadro 03: Tipos de benefícios gerados mediante a participação dos visitantes em atividades
recreativas em áreas naturais.
Fonte: Malta, R. (2008:73). Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
Cabe destacar que, tanto as atividades de lazer em áreas naturais, quanto as
ecoturísticas, em um sentido mais amplo, compartilham do mesmo lócus e
consequentemente podem compartilhar de muitas dinâmicas sociais e ambientais.
Bezerra
et al (2005:59), ressaltam o papel
que desempenha o ecoturismo na
gestão dessas áreas: “As UCs urbanas, mesmo não concentrando uma grande
diversidade biológica, pelo seu alto grau de fragmentação possuem relevante papel,
especialmente no que diz respeito às atividades de lazer, educação e turismo”.
Costa et al. (2008) destacam ainda que as atividades ecoturísticas em unidades de
conservação urbanas têm sido reconhecidas como grandes contribuintes para a
qualidade de vida daqueles que vivem nas grandes cidades, além da representação
do valor estético, paisagístico e patrimonial natural para aquelas áreas:
60
Ultimamente uma nova e mais ampla visão vem sendo construída, que vai além do
valor ambiental intrínseco que as áreas protegidas possuem, ou seja, além da
beleza estética (contemplação). Elas estão sendo encaradas também como fonte de
oportunidades de renda e trabalho para as comunidades que vivem em seu interior
e/ou entorno; como fonte de desenvolvimento social para jovens, fonte de saúde
pública e também como um poderoso agente gerador de capital social (Costa et al.
2008:115).
2.1.2 A motivação para andar em trilhas
O deslocamento de visitantes em unidades de conservação em direção a
atrativos, de modo geral se dá por caminhadas, onde o próprio ato de andar já faz
parte do lazer. Sem esgotar o tema, para Hilman (1993:55 apud Mendonça,
2003:95) em um espaço urbano, o ato de
caminhar é apenas uma maneira lenta e ineficiente de nos aproximar daquilo que os
olhos já viram. O pé é escravo do olho, o que faz com que o caminhar torne-se
chato, uma mera questão de cobrir distâncias. Quando podemos manter a tensão
entre o pé e olho, embarcamos numa abordagem circular e indireta. O pé leva o
olho, o olho instrui o pé, alternadamente. O caminhar assume o movimento da alma,
por que, como disse o grande filósofo Plotino, o movimento da alma não é direto.
Mendonça (2003:96, op. cit.) destaca ainda que na monotonia do espaço
urbano, nosso olhar é para baixo, tanto para ambientes externos quanto internos
como, por exemplo, para o transito e equipamentos que nos cercam, papeis e outros
respectivamente. Já no “espaço natural”, continua a autora, para caminhar:
“nossa maneira de ser, de estar, de posicionar nossos corpos é convidada a se
modificar. O espaço natural não supõe anterioridade nem dos olhos nem dos pés.
Ele é como é. Se a trilha foi planejada, é porque se tornou adequada às curvas de
nível, à declividade natural do terreno, e contornou rochas e raízes das arvores
maiores. Nossos corpos devem se integrar as curvas do caminho e nosso olhar deve
redobrar esforços para localizar obstáculos e apreciar a beleza, tanto pequena, dos
pequenos seres, das pequenas gotas, como as amplas, das paisagens abertas.
Mas, sobretudo, deve esforçar-se para olhar para cima, para a copa das arvores,
para o cume das montanhas, para as nuvens”.
Andrade (2005) em Costa (2006) refere que as trilhas “oferecem oportunidade
do contato efetivo com a natureza...” e a prática de caminhar como uma
manifestação de ócio ou recreação possui motivação muito próxima destas
referências, embora possam ser subliminares os motivos para tanto. Beck (1989:10)
coloca que a facilidade de acesso a trilhas urbanas ou próximas a centros urbanos
possibilita a uma diversidade extraordinária de pessoas a visitá-las, com iguais
expectativas, pois segundo o autor: “há os que buscam as montanhas pela beleza
61
do cenário, pela pura contemplação do dia e da paisagem, pelo prazer do exercício,
da mudança de ares, da companhia dos amigos, das fotos que trarão para mostrar.
O autor prossegue afirmando que qualquer trilha fácil, cênica e que traga
satisfação ao visitante além de se prestar ao lazer, indica que caminhar por trilhas é
uma aventura essencial para o ser humano, pois oferece “a incerteza do desfecho, a
excitação de novas descobertas e a magia de revelar em si novas habilidades e
forças de cuja existência ele não suspeitava” e autor destaca ainda que psicólogos
apontam que esta busca por aventura – distante da aventura inconseqüente e sem
sentido – está ligada a um nível de risco calculado, consciente, que permite uma
resposta cerebral de satisfação e ampliação da percepção.
Assim, os territórios e lugares proporcionados pelas trilhas, de fato, podem se
traduzir em uma gama de experiências e oportunidades de ócio e recreação,
incluindo práticas pedagógicas, como por exemplo, as atividades de Educação
ambiental, a exemplo do que coloca Guimarães (2007:123), citando Albero e
Benayas del Alamo (1994: 79-80), onde a utilização da paisagem como fio condutor
em programas de Educação Ambiental tem como marcos os seguintes aspectos:
· Motivação: cenários e elementos componentes que incitam e animam à
exploração e o desfrutar;
· Estimulação dos sentidos: despertar de capacidades contemplativas e
de interiorização das vivências ambientais;
· Interdisciplinaridade: a paisagem se converte em lugar de encontro de
disciplinas distintas de modo multi e interdisciplinar;
· Decifração de mensagens: infinidade de estímulos que escondem
informações múltiplas obre o entorno que podem ser decifrados pelo
conhecimento e treinamento;
· Globalização: permite uma análise sistemática e global do médio;
· Realista e concreto: vantagens dos estudos das unidades paisagísticas
graças a sua visibilidade;
· Desencadeamento de juízos e valores: estéticos, éticos e adaptativos
direcionados à conservação ambiental;
62
· Implicações na ação e intervenção: relacionadas aos impactos
ambientais.
A principio então, podemos antever que a motivação para caminhar em áreas
naturais e sobretudo em trilhas, atende não só as demandas de lazer e recreação
mas também interfere na psique do caminhante e em sua saúde, o que acaba por se
traduzir em mais uma motivação, pois os benefícios físicos de caminhar são vários,
conforme divulga o Instituto de
Ortopedia e Saúde, onde a caminhada é um
excelente relacionando desde a integração social quanto benefícios diretos como
aumento do vigor físico.
2.1.3 Ecoturismo
O turismo tem sido abordado por vários autores sob diferentes aspectos,
incluindo deste as questões sociais e econômicas quanto as ambientais. Para Garcia
(2007: 113):
“O turismo é fenômeno multifacetado e surge como opção de lazer, no qual o
indivíduo usufrui seu tempo livre durante o deslocamento e permanência temporária
em localidade diferente da sua origem, desfruta da paisagem ou de elementos
intangíveis como banho de mar, visita à parques, assistir à peças de teatro, dançar”.
Silveira (2003:84) refere que há basicamente dois grandes grupos genéricos
de turismo: o turismo convencional ou de massa (caracterizado pelo alto custo
financeiro, pela presença de mega-empreendimentos e por não considerar os
impactos ambientais e sociais decorrentes de seu exercício, sendo compreendido
como um espaço antropocêntrico) e o turismo alternativo (figura 05), também
interpretado como ecoturismo por alguns autores. O turismo alternativo é mostrado
como um modelo opositor ao turismo massificado, caracterizando-se pela adaptação
do turista ao lugar, e não o contrário, como ocorre no turismo de massa. No primeiro
caso, há a preocupação com os anfitriões, a distribuição das poucas pessoas
visitantes pelos locais disponíveis e pela consciência ecológica por parte do visitante
e dos anfitriões.
63
Neste viés, o ecoturismo é apontado por Troncoso (2002) como a modalidade
de turismo em ambientes naturais da mais especializada, cuja diferenciação de
outras atividades similares encontra-se na política de planejamento e no manejo dos
recursos naturais, educação ambiental, conhecimento e aprendizagem da natureza,
entre outras.
Figura 05: O Turismo Alternativo
Fonte: Mieczkowsi apud Wearing e Neil, 2001, p. 5. In SILVEIRA (2003)
Pires (2002), por sua vez, considera que o turismo na natureza pode ser
dividido em dois grandes grupos, sendo um deles composto pelo ecoturismo e o
outro composto pelo turismo de aventura. Fennell (2002:46), entretanto, refere à
ambigüidade de separar o turismo na natureza (a viagem para apreciar as áreas
naturais não desenvolvidas ou a vida selvagem) das outras formas de turismo, visto
que todos dependem e utilizam os recursos naturais, e nem todos são compatíveis
com o meio ambiente:
“o turismo na natureza não é ecologicamente correto em princípio, pois concentra-se
mais na motivação e no comportamento do turista individual, o que muitas vezes
está desconectado com o ambiente natural, pela ânsia de viver experiências,
sem atentar para o comportamento perturbador do entorno natural, como
barulho, depredação e deposição de resíduos” (Ziffer apud Fennell 2002).
Assim o turismo na natureza envolve todas as formas de turismo - turismo de
massa, turismo de aventura, turismo de baixo impacto, ecoturismo, e que os
mesmos utilizam os recursos naturais de uma forma selvagem ou não desenvolvida
– inclusive espécies, habitats, paisagens, atrações aquáticas de água doce e
salgada. Zachi (2004) alerta para o modismo atual de se rotular, como ecoturismo,
qualquer grupo que viaje sobre a motivação ligada ao natural e/ou cultural. Nestes
grupos, de modo geral, não se percebe a adoção da harmonização entre turismo,
conservação e cultura e papel do turismo ligado a natureza, torna-se mais amplo e
64
pode descaracterizar o desejo de se estar em ambiente preservado. Laarman e
Durst (apud Fennell 2002:45) definem ainda o turismo na natureza como aquele que
“focaliza principalmente os recursos naturais relativamente intocados, como parques
e áreas naturais, pantanais, reservas selvagens, e outras áreas de flora, fauna e
habitantes protegidos”.
Para Selva e Coutinho (2000), o turismo ecológico é considerado o segmento
no qual turistas e promotores de viagens procuram o contato direto com os mais
diferentes ambientes naturais, entretanto sem a preocupação com o equilíbrio
ecológico, ou mesmo com a compreensão dos fluxos e dinâmica que são
estabelecidos no ambiente. De fato, a expressão mais comumente aceita, tanto por
órgãos ambientais quanto de turismo principalmente na esfera federal, é que turismo
ecológico é definido como sendo “desenvolvido em áreas naturais, onde os seus
consumidores procuram usufruir ao máximo a natureza, minimizando os impactos
que possam causar, além de desenvolver uma consciência ou compreensão
ecológica” (Faria & Carneiro, 2001: 74).
Percebe-se então, que a diversidade de atividades de lazer que podem ser
desenvolvidas em ambientes naturais permite inferir em uma grande variedade de
“tipos de ecoturismo”. Oliveira (2000) coloca o Ecoturismo como um grande nicho de
mercado e aponta as múltiplas vertentes: como o científico, envolvendo estudos e
pesquisas
em
diversas
áreas
do
conhecimento (botânica,
zoologia,
paleontologia, geologia, arqueologia e ecologia...); o educativo, abrangendo a
interpretação e observação da natureza, da vida selvagem, dos
espaços
geográficos e astrais; o lúdico e recreativo, como caminhadas, acampamentos,
contemplação de paisagem, banhos e mergulhos, jogos e brincadeiras, passeios
montados; o étnico, onde há contatos e integração cultural do ecoturista com
populações autóctones (primitivas/nativas), que vivem em localidades remotas,
em estreita relação com a natureza; o naturista, formado pelos adeptos do ‘nudismo’
ao ar livre e junto à natureza, o esportivo, contanto com exercícios como escalada,
canoagem, bóia cross, surf, vôo livre, balonismo, e o de aventura, inclui
trekking14, montanhismo, expedições, contatos com culturas remotas.
14
Trekking têm sido um termo genérico, utilizado principalmente pelas operadoras de turismo de aventura e
ecoturismo para designar os deslocamentos em trilhas, as quais são o atrativo ou parte da atividade principal.
65
Desta
forma,
Oliveira
(op.cit)
salienta
que,
apesar
das
diferentes
classificações estabelecidas, é difícil encontrar um só tipo específico de turismo na
natureza, havendo, de modo geral, uma integração entre estes diferentes tipos de
atividades turísticas, tanto no momento de seu planejamento, quanto de sua
realização, através da integração da atividade educativa com o lúdico-recreativo, ou
da esportiva com a de aventura, possibilitando alternativas e experiências
diferenciadas em maior ou menor grau, de acordo com o perfil de seus operadores e
políticas locais para estas atividades.
2.1.4 Geoturismo
Para Costa (2008, op. cit.), o Geoturismo é mais um evento associado ao
turismo na natureza, com destaque para os atributos do meio físico, particularmente
da Geologia e da Geomorfologia; pois o conhecimento detalhado das principais
feições de relevo existentes em determinada área e de processos geomorfológicos
atuantes criam também oportunidades importantes para os estudos ambientais,
como as práticas ecoturísticas que envolvem atividades de lazer, recreação e
educação ambiental.
Nesta linha de pensamento, destacam-se os estudos de Guerra et al. (2006),
que demonstram que o turismo, como um todo, está fortemente relacionado com o
meio físico, em especial com aquela modalidade que explora as belezas naturais de
uma região, ou seja, o ecoturismo. Costa (op. cit.) destaca atributos como vales com
encostas escarpadas e paredões rochosos que permite rapel e escalada; área com
rupturas de declives acentuados onde trechos encachoeirados dos rios permitam a
prática de canoagem (rafting); lagoas e áreas represadas, que favorecem o banho e
contemplação da natureza; pontões/picos, que servem como mirantes entre outros,
a exemplo do que ocorre no maciço da Pedra Branca.
Segundo Nascimento (2007), o Geoturismo compreende um novo segmento
do turismo de natureza, no Brasil, que surge com a intenção de divulgar o patrimônio
Existem trekkings curtos e longos. O termo hiking, comumente utilizados na América, refere-se a caminhadas
longas. Contudo, o termo trekker se generalizou como sinônimo de quem utiliza trilhas por lazer ou esporte.
66
geológico, bem como possibilitar sua conservação. Tal atividade utiliza feições
geológicas como atrativo turístico, divulgando a geodiversidade da região turística,
sendo
útil,
portanto,
para
promover
a
associação
com
as atividades de
ecoturismo, unindo, assim, a bio e a geodiversidade.
O autor relata que há pouca literatura a respeito destacando, contudo, dois
trabalhos que tratam do assunto diretamente: o livro “Geoturismo:
scoprire
le
bellezze della Terra viaggiando” de Matteo Garofano, editado em 2003, onde são
apresentados os principais pontos geoturísticos da Itália, a
geologia italiana
e
fornece sugestões de como organizar uma viagem geoturística. Em 2006, Ross
Dowling e David Newsome, dois autores australianos, lançaram o livro “Geotourism:
sustainability, impacts and management”, onde buscam esclarecer os conceitos
básicos sobre este segmento do turismo e tece comentários sobre a prática do
geoturismo em diversos países do Mundo. Apresenta uma relação de geoparques
no mundo, mostrando sua importância para o uso sustentável do geoturismo.
Neste sentido, o Geoturismo se configura como uma possibilidade imediata a
ser explorada, em complemento as bases lançadas pelo DRM através Projeto
Caminhos Geológicos, onde em 2004, o Departamento de Recursos Minerais DRM-RJ em parceria com a Prefeitura da Cidade de Nova Iguaçu e universidades
iniciou a implantação do primeiro Geoparque do Estado na área do Parque Municipal
de Nova Iguaçu, em função do grande patrimônio geológico local. Segundo o
Serviço Geológico do Brasil (2004), para a UNESCO o geoparque atende as
seguintes características:
a) Em
princípio,
representa
um
território
e
paisagem
que
é
suficientemente grande para gerar atividade econômica - notadamente
através do turismo. Pequeno afloramento, mesmo tendo importância
científica, geralmente não tem esse potencial;
b) Deve ter normalmente tamanho suficiente para abarcar um número de
pequenos sítios (geositios) que, tomados em conjunto, mostram
feições geológicas importantes, raridade de beleza, não precisando ter
unicamente
significado
geológico-paleontológico.
Aspectos
arqueológicos, ecológicos, históricos ou culturais podem também
67
representar e devem ser vistos como importantes componentes de um
Geoparque;
c) Terrenos
que
são
de
interesse
geológico-paleontológico
(e
arqueológico e biológico), mas que não tem público permanente, ou
localizam-se em locais muito remotos para gerar atividade econômica,
não deveriam servir normalmente como Geoparques. O conceito de
Geoparque é elaborado para relacionar as pessoas com o ambiente
geológico-paleontolológico e geomorfológico; essa caracterização pode
mudar com a evolução sócio-econômica da região no tempo;
d) Tem
de
prover
pela
educação
ambiental,
treinamento
e
desenvolvimento de pesquisa científica nas várias disciplinas das
Ciências da Terra, e dar destaque ao ambiente natural e às políticas de
desenvolvimento sustentável;
e) Deve ser proposto por autoridades públicas, comunidades locais e
interesses privados agindo em conjunto;
f) Deve ser parte de uma rede global (International Network of Geoparks),
que deve demonstrar e compartilhar as melhores práticas com respeito
à conservação do patrimônio da Terra e a sua integração em
estratégias de desenvolvimento sustentável.
Assim, um Geoparque deve preservar o patrimônio geológico para futuras
gerações (conservação); educar e ensinar o grande público sobre temas relativos a
paisagens geológicas e matérias ambientais (educação) e prover meios de
pesquisas para as geociências e assegurar desenvolvimento sustentável (turismo).
O Projeto Caminhos Geológicos conduzido pelo DRM do Estado do Rio de
Janeiro, em parceria com a Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e
Paleobiológicos-SIGEP, tem buscado a classificação do Parque Natural Municipal de
Nova Iguaçu como geoparque.
68
2.2 Planejamento turístico e das práticas de lazer na natureza
A complexidade da avaliação do fenômeno do lazer em áreas naturais,
principalmente as unidades de conservação incluindo o ecoturismo como uma de
suas expressões, demandam abordagens intelectuais e técnicas que proporcionem
uma compreensão mínima dos eventos, suas interações e possíveis conseqüências
ou resultados face aos objetivos propostos. O que se busca é um modelo ambiental
onde seja possível administrar os diferentes conteúdos de lugares e territórios de
acordo com a demanda sócio-ambiental requerida.
2.2.1 Sistemas, Modelos e Equilíbrio no contexto da gestão de Unidades de
Conservação e da implementação do ecoturismo
A modelagem ambiental é um exercício de abstração mental, onde se procura
reconhecer sistemas ante a multiplicidade de fenômenos reconhecidos no meio em
questão, procurando estabelecer os elementos componentes e as relações
existentes. Por ser um ato subjetivo, o estabelecimento do modelo a servir de
referência depende intrinsecamente da qualidade da abordagem frente aos
objetivos. Assim, desde posicionamentos filosófico-religiosos, formação técnicocientífica e recursos humanos e materiais, irão interferir no produto final.
Alguns conceitos se fazem necessários para a compreensão da modelagem
ambiental. Campbell (1958, apud Christofoletti) propõe algumas normas, não
obrigatorias, devem ser consideradas nesta interpretação, como a proximidade
espacial de suas unidades, a similaridade de suas unidades, objetivos comuns de
suas unidades e padronagem distinta ou reconhecível de suas unidades. O
entrosamento destes critérios devem caracterizar organização e funcionalidades,
sendo que nos sistemas ambientais o critério funcional e de composição integrativa
são os mais relevantes. Cabe destacar que em termos gerais, a composição dos
sistemas basicamente ocorre em função da natureza de suas entradas, saídas e
reguladores envolvidos nos processos que envolvem os fluxos de massa e energia.
69
Marques (1984) relaciona as ações destes reguladores dos níveis de massa e
energia, distribuição de massa e/ou energia para os componentes do sistema,
incluindo os armazenadores e determinação do modo e quantidade de saída de
massa e energia do sistema como características do padrão de funcionamento de
sistemas (aberto ou fechado, simples ou complexo; organizado ou não). Neste
sentido, considerando-se o sistema “Unidade de Conservação”, os reguladores são
as diferentes ações e condições que interferem na distribuição de massa e energia
no sistema, assim, a dificuldade de acesso externo é um regulador do fluxo de
energia “usuários”. Este mesmo fluxo pode ter um regulador interno como, por
exemplo, as limitações administrativas de acesso a determinadas áreas previstas em
um plano de manejo por exemplo.
Cabe destacar que, de modo geral, os sistemas não isolados são mais
comuns e mantém relações com os demais sistemas do universo no qual funcionam,
podendo ser classificados em abertos quando há constante troca de energia e
matéria (recebendo e perdendo) ou fechados quando há permuta de energia
(recebem e perdem), mas não de matéria, a qual tende a se manter constante.
Com esta abordagem, é possível interpretar uma unidade de conservação
(UC) como um sistema aberto, visto que recebem energia de fora, considerando-se,
por exemplo, o volume de visitantes. Esta mesma UC também pode ser definida
como um sistema complexo, ao se avaliar as múltiplas inter-relações que se
estabelecem entre os diferentes subsistemas que o compõem, ao se diagnosticar
fatores bióticos, abióticos, culturais e sociais entre outros. Deste modo, a
interpretação do que é massa e o que é energia para a compreensão dos aspectos
dinâmicos do sistema decorre, a grosso modo, de sua própria natureza, ou seja:
eleito um determinado fator, ele é energia quando empresta movimento a seu objeto
de atuação, se caracterizando como massa quando identifica a realidade física local.
Nestes parâmetros, se destaca a possibilidade de se prever a evolução dos
sistemas e o tempo necessário para seu término. Esta perspectiva favorece a
abordagem dos fenômenos através do tratamento histórico e evolutivo, ao se poder
predizer a sucessão de etapas. No que tange às dinâmicas da visitação por
exemplo, a coleta regular e discriminada de dados como perfil do visitante, hábitos e
70
padrão de dispersão, são essenciais para se projetar quadros futuros de fluxos
dentro da unidade.
Salienta-se que nos sistemas isolados, é possível conhecer as condições
iniciais e finais com mais eficiência, visto não trocarem energia ou matéria com o
ambiente que o circunda. Contudo, funcionalmente, é possível tratar sistemas
abertos e não isolados com alguma previsibilidade conforme indicadores
selecionados, como a análise de determinada malha de trilhas, dada as relações
com os diferentes componentes encontrados em uma UC, onde a flora e a fauna
podem representar o sistema biótico e os visitantes e usuários regulares o sistema
que representa a energia e matéria originados de outros sistemas, como urbanos
locais e de outras origens.
Estes sistemas interagem com as áreas do parque acessadas por trilhas e
cujas alterações acabam por se refletir no universo local como um todo ao se
considerar os sistemas relacionados individualmente ou em seu conjunto (a unidade
de conservação). Já para critérios conforme a complexidade da composição
integrativa, Christofoletti (op. cit.) relaciona quatro sistemas de interesse para a
modelagem ambiental, dentro das onze referidas na classificação estrutural de
Chorley e Kennedy (1971):
1. Sistemas morfológicos: onde a associações das propriedades físicas,
isto é, as formas, dos sistemas e seus elementos se destacam como,
por
exemplo:
comprimento,
altura,
declividade,
densidade
e
granulometria de solos, entre outros.
2. Sistemas em seqüência ou encadeantes: quando são identificadas
cadeias de subsistemas que pela contigüidade, possuem como
grandeza de referencia a localização espacial, isto determina a
relevância da análise ao se qualificar os elementos reguladores e os
padrões de entrada e saída de energia e matéria.
Christofoletti (op. cit.) refere três possibilidades de análise dos
processos de entrada e saída por Chorley e Kennedy (1971),
identificadas
como
“Caixa-branca”
onde
os
subsistemas
são
substancialmente identificados, assim como seus processos. “Caixa-
71
cinza” onde se conhece parcialmente os subsistemas envolvidos ou a
ação se concentra em um número limitado de subsistemas e seus
processos. O sistema denominado “Caixa–preta” por sua vez, dada à
impossibilidade de se conhecer seus constituintes e processos, faz que
o sistema seja considerado como um todo, sem considerar sua
organização e dinâmica interna. A atenção se dirige especificamente
para as entradas e saídas identificadas.
3. Sistemas de processos e respostas: derivam-se da combinação entre
sistemas morfológicos, que indicam a forma e sistemas em seqüência
que determinam o processo. A ênfase maior esta em identificar as
relações entre o processo e as formas resultantes, que determinam o
sistema como um todo.
4. Sistemas controlados: São aqueles onde o homem atua sobre os
sistemas de processos-respostas determinando variáveis chaves que
podem influenciar a distribuição de matéria e energia nos sistemas em
seqüência e assim nas formas como se relacionam.
Christofoletti (op. cit.) destaca ainda outra tipologia de sistemas, atribuída a
Weaver (1958) e introduzida nos estudos ambientais por Wilson (1981), onde são
classificados três tipos de sistema de acordo com seu grau de organização: Simples,
Complexos desorganizados e Complexos organizados.
Estes conceitos são importantes para a compreensão das trilhas não só como
um fenômeno geográfico (uma alteração morfológica na paisagem, indutora de
territorializações e lugares), mas, principalmente, como um fenômeno dinâmico, que
pode ser identificado como um subsistema dentro de um sistema maior (UC) e sobre
o qual é necessário avaliar suas relações com os demais subsistemas, como por
exemplo o subsistema formado pelos usuários e o subsistema formado pela flora e
fauna local, assim como seus efeitos internos sobre os demais e consequentemente
ao sistema do parque como um todo.
72
Compreendido a UC como um sistema dinâmico, a condição operacional
ótima pode ser entendida como um estado de equilíbrio, aquele que reflete uma
condição de equidade entre os processos e morfologias15.
O lazer em áreas naturais, incluindo o ecoturismo, é um fenômeno dinâmico,
isto é implica em entradas e saídas de matéria e energia. Assim, mesmo que se
estabeleçam medidas de controle, atividades de recuperação de atributos ou mesmo
que a própria resiliência local tenda a manter o estado original, existem outros
processos que interferem nos diferentes subsistemas e no próprio sistema como um
todo. Por exemplo, podemos citar os eventos erosivos nas encostas, as alterações
provocadas pelo fogo na estação seca, etc. De fato não nos é possível congelar o
“universo” do parque e manter suas características sem alterações; mesmo por que
também não somos capazes de identificar todos os sistemas, subsistemas e
processos existentes. Cabe então referir alguns conceitos associados ao equilíbrio.
Marques (1984) destaca:
a) Auto-regulagem (Correlação entre as variáveis e autocontrole): é a
capacidade dos sistemas de se manterem em equilíbrio, isto é, de se
manterem os processos e formas que o caracterizam como tal. Podese considerar, por exemplo, uma situação hipotética onde uma trilha
possui uma ou mais áreas críticas que podem comprometer a
viabilidade ou qualidade da visitação. Se providenciarmos alternativas
de traçado que evitem estas áreas críticas, estamos na prática
propiciando uma alternativa de autoregulação do fluxo de visitantes
sem comprometer o equilíbrio de sua função.
Ao se estabelecer uma correlação entre os visitantes e um circuito de
trilhas podemos ter como exemplo de “feed-back” positivo as ações da
administração na facilitação de acesso, possibilitando em um primeiro
momento maior número de visitantes, dada às facilidades oferecidas,
ou seja, quanto mais fácil for à utilização das trilhas, maior visitação
terá. Contudo, ao se atingir um determinado nível de uso, as trilhas
15
O equilíbrio é uma relação (um processo) que se estabelece entre os componentes de um sistema, dentro de
uma escala percebida ou determinada (Aurélio, Dicionário Eletrônico Século XXI).
73
começam a se degradar e podem ultrapassar a capacidade de
administração do parque em manter o estado de “equilíbrio” inicial.
Desta forma, o maior afluxo de visitantes determina maior dificuldade
em se utilizar a trilha, afastando cada vez mais os possíveis visitantes,
diminuindo assim o número de visitas.
b) Estabilidade estatística: diz respeito à avaliação probabilística das
oscilações de comportamento, considerando as escalas de tempo e/ou
espaço; de sistemas, subsistemas ou variáveis em relação a um valor
central; sem que isso caracterize uma anormalidade (perda do “estado”
de equilíbrio). Quando determina-se a capacidade de suporte de uma
trilha ou atrativo, podemos definir uma carga limite de visitantes sobre a
qual estabelecemos os indicadores de monitoramento. A manutenção
destes indicadores dentro de níveis aceitáveis é uma estabilidade
estatística, como, por exemplo, considerar aceitável o alargamento do
corredor das trilhas em torno de 10% de sua extensão total.
c) Eficiência ótima: Considerando um sistema, subsistema ou processo,
representa a mobilização de energia e/ou massa capaz de estabelecer
a melhor relação custo-benefício frente a um objetivo ou evento
analisado. A definição desta referência, eficiência ótima, serve para se
verificar o grau de entropia que o objeto e/ou processo se encontra, isto
é desde seu grau de organização até o de eficiência da conversão de
massa/energia nos processos envolvidos. Tendo definido um objetivo,
como por exemplo, os novos roteiros estabelecidos devem absorver
pelo menos 100 visitantes dos 400 mensais que se distribuem nas
áreas mais visitadas, diminuindo assim a pressão sobre estes atrativos.
O atendimento desta meta vai demonstrar a eficiência deste
investimento e os níveis de visitação vão qualificar a eficiência das
políticas implantadas e assertiva da proposta.
d) Limiar ou Limite crítico para os Sistemas: o limiar significa um limite que
uma vez ultrapassado estabelece um novo padrão. Nos sistemas
ambientais os limiares são avaliados normalmente em escalas de
tempo e espaço. A permanência de um limiar se relaciona diretamente
com a eficiência e comportamento dos controladores internos, incluindo
as situações onde se ultrapassa o limiar e estes reconduz o sistema à
74
condição anterior. As ações de detecção de desequilíbrios ambientais
como estabelecidos, dependem da identificação dos limiares (as
referências últimas de “normalidade”, equilíbrio; do sistema) e das
causas ou dos movimentos de energia/massa que os ultrapassaram.
As evidências destes movimentos podem ser interpretados a partir de
formas e processos identificados como ativos ou inativos. Reencontrar
em um ambiente as formas e processos que podem indicar
historicamente
que
estes
limiares
já
forma
ultrapassados
anteriormente, podem indicar que o sistema pode estar caminhando
para um novo padrão ou estado de equilíbrio. É comum, ao se abrir
novas trilhas ou recuperar traçados, se encontrar vestígios de antigos
caminhos como faixas de solos compactados, acidentes erosivos,
espécies vegetais pioneiras e sinais de sub-bosque recente. Se
estabelecermos que o limiar de referência seja as características do
solo e vegetação no traçado proposto, temos assim os sinais de
limiares antigos ultrapassados (as marcas de sobreuso do solo e
alterações na vegetação).
e) Lapso de Reação: É o espaço de tempo entre a execução de uma ação
e o início da resposta obtida. Diz respeito à escala e resistência dos
componentes do sistema em ajustar às novas condições impostas. O
lapso de reação relaciona-se com ao grau de resiliência do sistema e
suas formas derivadas servem como referencias para se deduzir
situações anteriores. Para os gestores de trilhas, conhecer ou prever o
tempo de resposta às atividades de manutenção das trilhas e
resiliência da cobertura vegetal, por exemplo (que caracterizam a
capacidade da gestão em ajustar as novas condições de uso
impostas), é fundamental para se estabelecer um plano de manejo
capaz de manter o limiar previsto dentro de padrões de qualidade da
visitação e preservação dos recursos naturais aceitáveis.
A identificação do tipo de equilíbrio é fundamental para se estabelecer os
parâmetros de funcionalidade dos sistemas e subsistemas, assim como seus
limiares e desta forma melhor compreendê-los e avaliar suas tendências e
75
movimentos, subsidiado o monitoramento e a tomada de decisão. Podemos
qualificar os principais tipos de equilíbrio em:
a) Estático: De acordo com a escala utilizada é o equilíbrio onde
observador não percebe alterações de massa e energia. O processo
parece inerte e não afeta o sistema. As forças podem existir atuando
dentro de uma oposição de tendências de modo a manter o estado de
equilíbrio percebido, ou serem incapazes de o moverem.
Quando o monitoramento da qualidade das trilhas se restringe apenas
às condições de transito dos visitantes, para o gestor a trilha pode
estar em equilíbrio, visto que sua escala não contempla os impactos
ambientais por exemplo. Deste modo, apesar de estar ciente das
forças que lá atuam, ignora os processos que estão ocorrendo e
conduzindo a trilha para outro patamar de qualidade da visitação.
b) Estável: É o estado de equilíbrio onde apesar das perturbações e
oscilações de massa e/ou energia, se regula dentro da escala
estabelecida. Quando estamos em um mirante, podemos perceber
grande afluxo de visitantes se destacando na paisagem. Cessada a
visitação, a paisagem que caracteriza o patrimônio natural da unidade,
volta à normalidade com a ausência da interferência da presença do
excesso de visitantes.
c) Instável: Nesta situação o efeito do fluxo de massa/energia se torna
cumulativo ou insuficiente a ponto de conduzir o sistema para outro
padrão estático no mesmo processo.
Nas ações de recuperação e manutenção de trilhas, muitas vezes as
facilidades e infra-estruturas de apoio oferecidas (leia aporte de
matéria/energia), acabam por determinar outra qualificação. Como, por
exemplo, uma trilha que antes recebia “x” pessoas com maior vigor
físico, agora recebe “x +y” pessoas de diferentes graus de resistência
física. Por extensão, podemos deduzir que com o passar do tempo, a
deterioração das instalações poderão acabar por selecionar novamente
o perfil do visitante de maior vigor físico.
d) Meta-Instável: Nesta situação, o fluxo de matéria/energia altera a
relação processo-forma, ultrapassando o limiar que caracteriza o
76
sistema. Processos erosivos de grau acentuado podem determinar a
perda de função de uma trilha fazendo que seja abandonada ou
fechado o acesso para visitação e em seu lugar se estabeleça uma
área de recuperação ambiental, por exemplo, caracterizando um novo
padrão no sistema local.
e) Estado contínuo: Conforme a escala estabelecida, o processo se
comporta em torno de uma média sem alterar o sistema. Suas
propriedades são mantidas em torno de uma média estatística, sem,
contudo,
descaracterizá-las.
As
diferentes
ferramentas
de
monitoramento de impactos ambientais do ecoturismo visam este
“equilíbrio em estado contínuo”, ou seja, se admite oscilações na
qualidade da visitação, dos impactos e efeitos das medidas
mitigatórias, mas os mesmos devem manter as características do
sistema.
Ao se considerar as trilhas como sistemas ou sub-sistemas, e os visitantes
como energia e/ou massa, a compreensão do fenômeno é melhor avaliada ao se
considerar tipos de equilíbrio que se apóiam na teoria geral da termodinâmica16,
onde em sistemas fechados toda a energia disponível17 se transforma em energia
latente, a qual gera entropia máxima para o sistema, conduzindo a um estado de
homeostase.
Assim, em uma unidade de conservação, por exemplo, as plantas, por meio
da fotossíntese, consomem minerais, gases e materiais brutos do solo e do ar e
usam a energia do sol para converter esses materiais em energia orgânica, base da
cadeia alimentar da biosfera, onde animais e plantas convivem interativamente.
Deste modo, a quantidade total de energia não é criada nem destruída, mas apenas
transformada de um estado para outro. Por conseguinte, pouca ou nenhuma energia
é dissipada e o sistema tende ao equilíbrio homeostático, gerando pouca ou
16
A termodinâmica é o paradigma da teoria fenomenológica que não se atém somente em descrever fenômenos
de calor, mas propriedades mais gerais que servem de base para a compreensão do comportamento sistêmico
do meio ambiente. Mota (2006) refere que a Primeira Lei da Termodinâmica, ou lei da conservação, compreende
a relação entre calor e trabalho, afirmando que a matéria e energia não podem ser criadas ou destruídas, mas
somente transformadas. Toda forma de energia precisa de trabalho para a sua transformação.
17
A energia disponível ou livre de um sistema é aquela que pode ser transformada em trabalho. A energia
latente de um sistema é a que é tornada inútil para realizar trabalho.
77
nenhuma entropia. Entretanto, ao se introduzir energia e/ou massa externa a estes
sistemas, aplica-se a Segunda Lei da Termodinâmica, ou lei da entropia, é a medida
quantitativa da irreversibilidade. A entropia é representada pela quantidade de
energia que não é mais capaz de realizar trabalho e também é a medida do grau de
desordem na natureza18.
Nos processos naturais a energia livre é transformada em energia latente,
dissipada no meio ambiente, portanto não mais disponível para gerar vida nova. Um
sistema somente poderá permanecer vivo, distante da entropia máxima ou da morte
é “retirando continuamente entropia negativa do seu ambiente” Mota (2006). O
estratagema que o organismo usa para se manter estacionário em um nível bastante
alto de ordenação (um nível bastante baixo de entropia) na verdade consiste em
continuamente sugar ordenação do seu ambiente. Mota (op.cit) destaca ainda que:
Em qualquer processamento ou transformação de energia, alguma energia é
dissipada (essa propriedade ocorre também nos processos de troca de energia entre
os entes de um mesmo ecossistema; entre esses elementos gera-se energia de
baixa entropia, ao contrário das atividades econômicas, que geram energia
degradadora do meio ambiente) e em nenhum processamento de energia é possível
que o único resultado seja a conversão de uma determinada quantidade de calor –
energia térmica – em igual quantidade de trabalho útil (todos os processamentos de
energia geram entropia de baixa ou alta intensidades).
As definições relacionadas aos diferentes tipos de equilíbrio (Dinâmico, metadinâmico,
dinâmico
meta-instável)
servem
para
caracterizar
os
diferentes
comportamentos de fluxo de energia e massa ao se estabelecer sistemas para
análise das dinâmicas locais. Estes conceitos são fundamentais, por exemplo, para
se definir estudos de capacidade de suporte ecoturístico, principalmente quando
aplicados a trilhas atrativos. Segundo Stigliano (op.cit p. 02) as definições acerca de
capacidade de carga aplicadas a atividades de lazer de modo geral incorporam dois
aspectos centrais: “primeiro, o componente biofísico, referindo-se à integridade dos
recursos, que implica certo grau de tolerância, ou limite, após o qual a exploração e
o uso continuados podem causar extenuação do ecossistema natural; segundo, o
aspecto comportamental, refletindo a qualidade da experiência de lazer”.
18
Entropia também pode ser interpretada como a medida de utilização de massa e energia em um sistema, onde
a entropia mínima caracteriza energia/massa disponível e máxima onde toda a energia/massa esta
comprometida.
78
Assim, para a discussão de sustentabilidade das atividades de turismo e lazer
em áreas naturais e os conceitos de capacidade de carga, de fato, o que se
pergunta é qual o sistema ou subsistemas envolvidos e que tipo de equilíbrio se
procura estabelecer ou atingir. Conforme visto anteriormente, o conceito de equilíbrio
varia de acordo com as referências e escalas consideradas, que é à base do
conceito moderno de capacidade de carga, cujo foco é os sistemas de
monitoramento, baseados na idéia de mudanças aceitáveis ou desejáveis, isto é, na
busca de faixas de equilíbrio entre o uso e conservação.
2.2.2 Planejamento da atividade turística e das práticas de lazer na natureza
Conforme referido anteriormente, mesmo com motivações diferentes, o
Ecoturismo e as práticas de lazer em ambientes naturais muitas vezes compartilham
o mesmo espaço físico e apresentam intensa similaridade nas dinâmicas de impacto
sobre o patrimônio construído e natural das unidades de conservação. Divididas
entre preservar e consumir, o desenvolvimento e gestão destas atividades
pressionam as áreas naturais com uma multidão de consumidores cada vez mais
aparelhados e numerosos. Destas atividades, aquelas que utilizam as trilhas para
promoção, venda de serviços e acesso aos atrativos, são as mais sensíveis às
variações de eficiência desta infra-estrutura. Sendo a trilha a infra-estrutura mais
próxima do usuário, seu estado e qualificação refletem variáveis que interferem
diretamente na oferta de serviços e qualidade dos produtos atuais e futuros.
Assim, com o crescimento das ofertas de produtos ecoturísticos e a
popularização desta atividade, o grau de exigência e a percepção ambiental para o
grau de deterioração e manutenção das trilhas e seus atrativos são percebidos cada
vez mais intensamente; mesmo para visitantes menos atentos e para as
administrações de unidades de conservação deficitárias em recursos humanos e
financeiros. Desta forma, para o lazer na natureza tão dependente da riqueza de
experiências que paisagens, lugares e biodiversidade podem proporcionar; o
crescimento da demanda e da oferta de serviços, representam um sério risco para
sua própria integridade e sobrevivência, principalmente quando não é desenvolvido
sobre um planejamento consistente e acompanhado por atento monitoramento.
79
O planejamento e o manejo das trilhas são essenciais para a manutenção das
funções das unidades de conservação tanto públicas quanto privadas. Assim a
compreensão geográfica do que significa a malha de trilhas para a apropriação de
espaços e as interações sociais e ainda o impacto de sua implantação e
manutenção junto ao somatório natural, resgata a devida importância da questão do
manejo de trilhas e conseqüentemente da gestão dos lugares turísticos e
conservação de áreas naturais.
Na prática, considerando o conceito de ciclo de vida de destinações turísticas
referido por Butler (apud Ruschmann 1997), de modo geral não se aplica diretamente
à dinâmica de uso das potencialidades turísticas das unidades de conservação,
sobretudo por conta da falta de diagnósticos e planejamentos consistentes; pois as
considerações de interdependência de paisagens, lugares e biodiversidade e a
qualidade das experiências e produtos que podem ser proporcionados, devem ser
considerados diretamente com os parâmetros de sustentabilidade. Este enfoque foi
amplamente destacado na Declaração de Quebec em 2002, elaborada na
Conferência Mundial do Ecoturismo, onde se relaciona quatro aspectos indicadores
de sustentabilidade para a atividade ecoturística:
· Contribui ativamente para a conservação do patrimônio natural e
cultural;
· Inclui as comunidades locais e indígenas em seu planejamento,
desenvolvimento e exploração e contribui para seu bem-estar;
· Interpreta o patrimônio natural e cultural do destino para os visitantes;
· Serve melhor aos viajantes independentes, bem como aos circuitos
organizados para grupos de tamanho reduzido.
Deste modo, por definição, o Ecoturismo deve se caracterizar como uma
modalidade de turismo das mais sustentáveis e responsáveis. Apesar de que tanto o
turismo em geral quanto o ecoturismo em particular, assim como muitas atividades
na natureza, tenham sido caracterizados como uma indústria limpa, sem geração de
degradação ambiental; na prática, da mesma forma que as atividades industriais e
de mineração, os impactos dessa atividade podem ser tão ou mais nocivos como
80
qualquer outra; principalmente em função da preferência por lugares diferenciados
para seu exercício onde, mormente, os ecossistemas são frágeis e suscetíveis de
alterações negativas a qualquer contato humano menos cuidadoso. Assim, o turismo
sustentável (decorrente do princípio do desenvolvimento sustentável) deve ser
buscado em todas as modalidades, inclusive no de massa, conforme salienta Dias
(2003, p. 69):
“Importante assinalar que a concepção de desenvolvimento turístico sustentável não
considera o turismo de massas como uma realidade irreconciliável com o turismo
sustentável. Os princípios de sustentabilidade devem constituir o objetivo principal
de qualquer espaço ou produto turístico, em qualquer de seus estágios evolutivos, e
não circunscrever-se exclusivamente às manifestações supostamente alternativas,
como o ecoturismo e o turismo rural. Na realidade, eles são mais necessários
exatamente em espaços turísticos consolidados, com maiores níveis de pressão
ambiental, onde a estabilidade socioeconômica em grande medida dependerá da
evolução positiva e equilibrada (sustentável, portanto) da atividade turística”.
Entretanto, o turismo massificado é o mais impactante das modalidades de
turismo, gerando inúmeros problemas, conforme muito bem salientado por Dias (op.
cit.):
“O excesso de turistas conduz ao super-dimensionamento dos equipamentos
destinados ao alojamento, alimentação, transporte e entretenimento, que
impreterivelmente ocupam grandes espaços – agredindo paisagens e destruindo
ecossistemas. Além disso, a falta de cultura turística dos visitantes faz com que se
comportem de forma alienada em relação ao meio que visitam – acreditam que não
têm nenhuma responsabilidade na preservação da natureza e na originalidade das
destinações. Entendem que seu tempo livre é sagrado, que têm direito ao uso
daquilo pelo qual pagaram e que, além disso, permanecem pouco tempo – tempo
insuficiente, no seu entender, para agredir o meio natural”. (p. 15).
Para Villaverde (2001:110) quando o contato com o meio natural é mediado
por vivências de lazer e esportes na natureza: “está em jogo muito mais uma relação
de contrato, de negociação com os elementos da natureza, do que uma relação de
domínio e controle”.
É a necessidade de relação dialógica, de sintonia com os
elementos naturais, imposta pela prática de esportes na natureza que potencializa a
difusão de um sistema de valores necessários à mudança de postura e consciência
ambiental, pois a imprevisibilidade característica desses esportes induz seus
praticantes a sincronizar suas ações a diversos outros elementos, tendo como
conseqüência, o redimensionamento do paradigma moderno que concebe homem e
natureza como pólos distintos. Para que as ações dos esportes na natureza sejam
bem sucedidas é preciso que homem e natureza sejam encarados em conjunto.
81
Contudo, esta realidade, na prática quando diz respeito aos impactos
causados ou construídos para amparar estas atividades e o sobreuso dos recursos,
descaracterizam a paisagem e comprometem a qualidade dos serviços oferecidos,
assim como ocorre no ecoturismo. Cumpre ressaltar que uma das principais
características do visitante adepto do ecoturismo e dos esportes de na natureza é a
sua constante movimentação sempre atrás de novas paisagens e experiências,
razão esta claramente percebida nesta territorialização fugaz e meio sem controle,
conforme destacado por Fratucci (2007) referindo o geógrafo francês Remy Knafou.
Para Costa et al (2008) o turismo e suas vertentes, compreendem uma gama
de escolhas ou estilos de recreação, expressa por viagens ou por uma mudança
temporária, de seu local de residência. É uma modalidade de lazer e/ou recreação.
O mercado e as mudanças rápidas de tecnologias e nos sistemas social, político e
econômico, permitiram às pessoas, procurarem novas e diferentes formas de
recreação, aumentando a importância do turismo, concordando com Mathleson e
Wall (1982), onde o turismo possui um desenvolvimento evolutivo ao fazer uso do
lazer e, portanto, representa a ampliação da oportunidade para o exercício da
escolha dos tipos de atividades recreativas.
Por conseguinte, a leitura dos
parâmetros de uso do espaço natural, podem ser interpretados também para as
atividades de lazer em áreas naturais que não o turismo, tendendo para a mesma
dinâmica de ocupação dos lugares e territórios.
2.2.2.1 O espaço turístico e das práticas de lazer na natureza
Para Garcia (2007:125), o uso do espaço para o lazer e turismo estabelece
uma lógica na configuração territorial e alia-se ao homem que desempenhará novas
relações naquele ambiente específico, vinculado ao seu objetivo de deleite e prazer.
Desta forma, continua a autora, há cada vez há mais a especialização de lugares
onde o lazer se identifica com esta tendência ao configurar e dar funcionalidade ao
território para atender à população local e ao turista. Assim lugares são criados com
esta única finalidade ou são transformados para atender esse mercado em
expansão; concordando com SANTOS (1999: 214) onde:
82
Numa situação em que às virtualidades de cada localização estão sempre mudando,
instala-se o que bem se pode denominar de guerra dos lugares. Estes não apenas
devem utilizar suas presentes vantagens comparativas, como criar novas, para atrair
atividades promissoras de emprego e de riqueza. Na batalha para permanecer
atrativos, os lugares se utilizam de recursos materiais (como as estruturas e
equipamentos), imateriais (como os serviços). E cada lugar busca realçar suas
virtudes por meio dos seus símbolos herdados ou recentemente elaborados, de modo
a utilizar a imagem do lugar como imã.
Garcia (op. cit. 2007:123) reforça ainda que a especialização de lugares para
experienciar atividades distintas, tais como: se desligar e perder os vínculos
com a rotina através do deslocamento, adquirir novo ânimo para atividades
cotidianas, desfrutar de ambiente diferenciado em contanto com o meio natural, ou
mesmo divertir-se junto a familiares e amigos; enfim, são motivações que irão
reivindicar áreas e equipamentos específicos atrelados aos hábitos cotidianos
incorporados pela sociedade. Portanto o planejamento do espaço turístico19 é
condição para a territorialização das atividades previstas.
Para Boullón (2002: 79) o espaço turístico é conseqüência da presença e
distribuição territorial dos atrativos turísticos que por sua vez são a matéria-prima do
turismo. Os atrativos turísticos em conjunto com o empreendimento e a infraestrutura turística, definem o espaço turístico de qualquer país. Contudo o espaço
turístico é entrecortado, isto é, se distribui em função das configurações particulares
que o identificam como tal, quer de forma paisagística, cultural ou histórica. Assim
não se pode recorrer a técnicas de regionalização sem critérios específicos para
proceder à delimitação, dada à possibilidade de se abranger toda a superfície do
país ou da região em estudo ao se utilizar parâmetros muito genéricos. Desta forma
grandes superfícies que não são turísticas poderiam ser entendidas como turísticas,
apenas existentes, talvez por serem contíguas umas das outras.
Ruschmann (1997) avalia que planejar e desenvolver os espaços e as
atividades que tenham anseios das populações locais e dos turistas constitui a meta
dos poderes públicos que, para implantá-los, vêem-se diante de dois objetivos
conflitantes: o primeiro destaca como primordial prover oportunidades e acesso às
experiências recreacionais ao maior número de pessoas possível. O segundo afirma,
no entanto, que o desenvolvimento ecoturístico deve ser proteger e evitar a
19
Podemos ampliar como espaço de lazer, visto que o turismo e suas vertentes podem ser interpretadas como
uma manifestação de lazer. Nota do autor
83
descaracterização dos locais privilegiados pela natureza e do patrimônio cultural das
comunidades. Para o ecoturismo e demais atividades de lazer que utilizam o meio
natural, a proteção ao Meio Ambiente necessita de cuidados especiais, visto que sua
manutenção significa preservação das características locais, base para toda a
cadeia produtiva turística relacionada, afinal as imagens naturais de fundo, as
paisagens são agregadas aos produtos e bens de consumo oferecidos aos
visitantes.
Conti e Cruz (apud Costa 2006 p. 19) concordam que o turismo participa em
suas múltiplas manifestações da produção do espaço geográfico introduzindo
objetos definidos e/ou aproveitando os recursos pré-existentes, viabilizando práticas
e implicando na reorganização espacial em função de uma nova demanda.
Destacam ainda que a diferenciação das condições geográficas de um determinado
local pode se constituir em um forte atrativo, tendo a geomorfologia um papel
importante na geração de fluxos ecoturísticos.
Lembram ainda que a apropriação de espaços naturais pelo turismo implica
em transformações espaciais relacionadas aos fatores de acessibilidade e
hospedagem e que “em se tratando de unidades de conservação algumas das
transformações espaciais decorrentes do uso turístico de seus territórios diz respeito
à abertura de trilhas ou a utilização de trilhas pré-existentes, ao longo das quais
podem ser instalados instrumentos de educação ambiental”.
Costa (op. cit: 35) complementa que no ecoturismo, os atrativos que oferecem
ao visitante maior experiência e vivência da natureza são as trilhas, mas que exigem
uma infra-estrutura de manejo apropriada à demanda de seus usuários,
principalmente quando em áreas de elevado potencial. Guardando as devidas
proporções, no ecoturismo as atividades e espaços configuram a imagem como um
valor fundamental, seja através da vivência da paisagem que transporta satisfações
e sentimentos, seja através da documentação fotográfica.
Neste aspecto, cabe referir que a fotografia, por exemplo, cria referências e
significados nem sempre condizentes com a realidade que de fato existe e sob a
qual a vida se manifesta muito além da percepção do turista e de seu operador.
84
Idelber Avelar em artigo sobre Baudrillard refere à obra Simulacro e Simulação
escrita em 1981, onde o autor ressalta que a imagem passa por quatro fases, nas
quais ela sucessivamente: Reflete uma realidade básica. mascara e perverte uma
realidade básica; mascara a ausência de uma realidade básica e não mantém
qualquer relação com qualquer realidade: sendo o seu próprio simulacro.
Sem nos aprofundarmos nesta temática, mas considerando que o real é
substituído por imagens e que o momento vivido desaparece; percebe-se que na
atividade turística e de lazer na natureza, pode-se se criar espaços e significados
mascarados por um suposto compromisso com preservação e conservação, sem
considerar os impactos e alterações ambientais sob a alegação de prover aos
turistas e visitantes infra-estruturas e facilidades que propiciem um maior contato
com a natureza.
Assim, o planejamento necessariamente deve refletir a idéia de que não
apenas otimiza roteiros, mas contribui ativamente para a conservação e preservação
das paisagens e biodiversidade; possibilitando assim oportunidades de acesso à
realidade, além das simulações e simulacros de interação com o meio natural tão ao
gosto dos fabricantes de paisagens e de usuários incapazes de perceber a vida que
se ausenta com os excessos das práticas turísticas e de lazer nos ambientes
naturais.
2.2.2.2 Planejamento do Espaço Turístico
No planejamento do espaço turístico, Laube (2006) destaca que o mesmo se
apóia na teoria geral de sistemas, englobando processo, eficiência, prazos e metas,
prevendo de forma integrada o comportamento de todas as unidades independentes
implicadas no processo, daí a necessidade de uma abordagem coordenada e
sistêmica, considerando ainda que revisões contínuas façam parte do processo,
visto que a realidade (o ambiente) encontra-se em permanente mutação. Sendo da
mesma opinião que Boiteux & Werner (2003):
“Planejar um destino turístico significa estruturá-lo para que a atividade possa gerar
empregos, renda, consumo e, conseqüentemente, aumentar a qualidade de vida do
85
município. A cidade é boa para o turismo quando é boa para quem nela vive. O
planejamento turístico prevê o controle e organização dos impactos positivos
gerados pela indústria turística. O conceito de sustentabilidade deverá nortear o
planejamento de um núcleo receptor, pois integra e valoriza e preserva seu
patrimônio histórico, natural, cultural e social. Dividindo-se em oito etapas:
Inventário; Análises tendenciais; Definição de objetivos; Criação de estratégias;
Seleção de vocação; Estratégias para atingir os objetivos vocacionais;
Implementação do plano estratégico e Avaliação” (BOITEUX; WERNER, 2003:20)
Ruschmann (1997:9-10) acredita que o planejamento turístico tem como
importância: “a ordenação das ações do homem sobre o território e ocupar-se em
direcionar a construção de equipamentos e facilidades de forma adequada, evitando
dessa forma, os efeitos negativos nos recursos, que os destroem ou reduzem sua
atratividade”. Entretanto, todos os espaços com beleza considerável vêm sendo
literalmente “invadidos” nas temporadas de férias por turistas ávidos para usufruir o
seu tempo livre da forma mais gratificante possível, sem considerar os riscos que
sua presença (em massa) e seu comportamento individualista trazem não só aos
recursos naturais, mas também para as populações autóctones e para o patrimônio
histórico-cultural, prejuízos irreparáveis. Por isso, a autora acredita que: “o
planejamento é fundamental e indispensável para o desenvolvimento turístico
equilibrado e em harmonia com os recursos físicos, culturais e sociais das regiões
receptoras, evitando assim, que o turismo destrua as bases que o fazem existir”.
Guimarães (2007) considera que no planejamento e gestão do espaço
turístico e de lazer, a paisagem como objeto de identificação e territorialização, deve
propiciar a utilização do patrimônio natural e cultural, conforme suas funções de uso,
proteção, recreação, de modo a conseguir um equilíbrio entre o potencial da
paisagem como um recurso ambiental, levando-se em conta suas efetivas restrições
e limitações de natureza quanti-qualitativa, as diferenças locais e regionais das
unidades paisagísticas e as necessidades e demandas da sociedade. Para tanto
refere Seibert (1978), para o qual os aspectos relativos ao planejamento paisagístico
têm como finalidade encontrar um equilíbrio entre o potencial natural da paisagem,
limitado quantitativa e qualitativamente, e a sociedade:
O planejamento paisagístico, atrelado ou não a programas e projetos de maiores
dimensões (regionais, por exemplo), deve considerar os inventários e os diagnósticos
da paisagem a partir de sua valoração como recurso paisagístico natural ou
construído, em função de suas estruturas físicas, ecológicas, sócio-econômicas,
culturais, diagnosticando o plano-base, sob a visão da conservação necessária para a
avaliação das possibilidades de seus usos futuros como um bem, um recurso
ambiental. (SEIBERT, 1978:125).
86
Neste
sentido,
Boullón
(2002:225)
alerta
que
“a
preservação
das
características do ambiente natural que lhe servem de base é o fator a que deveria
estar subordinado qualquer plano de exploração de suas possibilidades turísticas”.
Resguardando as devidas limitações da aplicação estrita do conceito e do contrasenso que seria a missão de planejadores e paisagistas de intervir na natureza e
criar paisagens. Neste sentido, no turismo as metas paisagísticas são muito simples:
“conservar o meio natural de tal modo que as obras turísticas o afetem o mínimo
possível”; por conseguinte, a paisagem pode ser aproveitada em sua totalidade
devido a condição de que o planejamento turístico do espaço natural é uma decisão
anterior à definição dos usos e atividades, pois:
onde o procedimento correto não é impor a cada atrativo natural o uso que se
considera mais conveniente de acordo com critérios desenvolvimentistas; deve-se
antes (uma vez estabelecidas as necessidades de crescimento do setor em relação
à incorporação de novos atrativos naturais ou à expansão do empreendimento
turístico dos que estão sendo explorados) identificar quais se prestam melhor a cada
tipo de uso. Outra possibilidade é partir de cada atrativo e determinar o tipo de
desenvolvimento que admite. Boullón (2002:226)
Entretanto, Lobo & Moretti (2008) salientam que as diversas territorialidades
do turismo na natureza se asseguram em função da riqueza do conjunto de
paisagens que simbolizam uma forma de retorno à vida primitiva do ser humano de
modo que a atividade se torna melhor à medida que aumenta a noção de
wilderness. Neste sentido, a natureza intocada, ao mesmo tempo em que é almejada
pelos turistas, precisa ser transformada para se tornar acessível às suas
necessidades de consumo e segurança. Moretti (2001) lembra que isto elimina a
“aventura”, uma característica intrínseca ao ideário de wilderness20 e que consiste
em uma territorialidade turística à parte, face à artificialização e ao domínio da
técnica.
Salienta-se que duas concepções se apresentam: a Conservação dos
Recursos Naturais e o Preservacionismo. Gifford Pinchot (apud Diegues,1998),
propõe seu uso racional pela geração presente, prevenindo desperdícios e
beneficiando a maioria dos cidadãos. Esses princípios foram precursores do
conceito de Desenvolvimento Sustentável. Em contrapartida ao Preservacionismo21,
20
Wilderness: natureza selvagem
Segundo Diegues (1988), a preservação é o ato de preservar a natureza, sem a presença do homem, de forma
a manter um espaço natural, separado do espaço ocupado pelo homem.
21
87
o conceito de conservação se manifesta em se preservar o ambiente da maneira
mais sustentável possível, permitindo uma troca entre homem e natureza,
considerando que o primeiro faça parte do segundo. Desta forma, se a essência da
‘conservação de recursos’ é o uso adequado e criterioso dos recursos naturais, a
essência da corrente oposta, a preservacionista, é mais restritiva e pode ser descrita
como a reverência à natureza no sentido da apreciação estética e espiritual da vida
selvagem (wilderness), mantendo suas características, protegendo a natureza contra
o desenvolvimento moderno, industrial e urbano.
Lobo & Moretti (op.cit) destacam que para o ecoturista habitual – aquele que
viaja para as mais diferentes áreas naturais buscando uma experiência mais direta
no contato com a natureza – a artificialização pode ser um problema, dado que as
facilidades desestimulam este tipo de turista a fazer suas viagens, mas para os
ecoturistas eventuais, facilidades são necessárias como suporte à vivência de
experiências, mesmo tênues junto à natureza, onde a sensação plena de segurança
e o conforto estão em primeiro plano.
De fato, citando (Spink et al., 2005), estes “ecoturistas” buscam o simulacro
de se parecer com verdadeiros aventureiros mas sem se sujeitar às mesmas
condições que estes vivenciam em suas aventuras. Desta forma, dentro do
planejamento do espaço turístico, a intervenção na paisagem pode ser considerada,
a princípio, entre o viés conservacionista ou preservacionista, mas, sua intensidade
deve prever múltiplos aspectos, tanto ambientais quanto sociais e culturais.
2.2.2.3 Conceito de Paisagem no contexto do Ecoturismo
Embora o aprofundamento na conceituação de Paisagem não seja objeto
central desta dissertação, algumas considerações se fazem necessárias para o
entendimento da relação espaço – lugar – paisagem no contexto do Ecoturismo.
Para TUAN (1983, p.151), “o espaço transforma-se em lugar à medida que adquire
definição e significado”.
88
Pinheiro (2004) entende “lugar” como local ocupado, pontual e parte de um
todo de maior amplitude chamado "espaço", algo aberto, geral, indefinido; em que
para se entender como um espaço pode se tornar lugar deve-se considerar aspectos
das relações homem-ambiente, conforme definição que propõe onde “Paisagem é o
conjunto de elementos geográficos (habitat, culturais e naturais), num espaço
perceptível, que inter-relacionados e sob influências
recíprocas
(relações
de
interdependência), resultam numa imagem limitada aos sentidos do observador.”
Para tanto cita Rodrigues (2001, p.32):
“O lugar, como categoria filosófica, não trata de uma construção objetiva, mas algo
que só existe do ponto de vista do sujeito que o experiencia”...... “Assim, o lugar é o
referencial da experiência vivida, pleno de significado; enquanto o espaço global é
algo distante, de que se tem notícia, correspondendo a uma abstração”.
Boullon (2002:156) considera que o conhecimento da paisagem fica
empobrecido se é limitado à unidade visual que se pode perceber de um
determinado ponto. Constata que a paisagem é enriquecida quando sujeita a tempos
de observação sucessivos e expectativas, pois os diferentes fragmentos da
realidade compõem um quadro mais complexo, referido pelo autor como “visão em
série”; muito mais eficiente em se fixar na memória como experiência com
sentimentos e significados (figura 06).
Deste modo, paisagens não são sinônimos de meio ambiente, conforme
destaca Guimarães (2007:22), pois menos inclusivas, é mais percebida em
particularidades principalmente como espaço vivido, identificadas como lugares,
definidas através do campo visual e interpretadas subjetivamente.
Nesta
perspectiva, as paisagens são envolvidas pelo meio-ambiente e são parte da
dimensão ambiental, devendo ser analisadas segundo as condições atuais e futuras
dos recursos ambientais existentes nas unidades paisagísticas. Devem, portanto, ser
considerados os diagnósticos referentes ao estado dos patrimônios paisagísticos,
assim como suas projeções de riscos e impactos ambientais adversos, incluindo
seus efeitos sinérgicos.
De fato, o recurso paisagístico é único em sua história evolutiva, mesmo
quando são resguardadas as semelhanças aparentes; distinguindo-se das outras
89
unidades e matrizes de paisagem natural em função de suas complexidades e
peculiaridades visíveis e não-visíveis.
Figura 06: Formação de imagens da Paisagem
Fonte: Boullon (2002:156)
Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
Assim, a vocação da área que comporta um ou mais recursos paisagísticos
deve ser cuidadosamente avaliada e valorada em razão dos critérios utilizados para
zoneamentos de recursos paisagísticos locais e regionais. Em Rodrigues (Op. cit.
2001:48) observa-se a estreita relação entre a paisagem e o turismo:
“A observação da paisagem assim considerada é de grande importância nos
estudos de Geografia do Turismo, uma vez que a paisagem em si é um notável
recurso turístico. Tendo em vista que o turista busca na viagem a mudança de
ambiente, o rompimento com o cotidiano, a realização pessoal, a concretização de
fantasias, a aventura e o inusitado, quanto mais exótica for a paisagem mais atrativa
será para o turista. É baseado nesse princípio que se desenvolvem os estudos
sobre imagem turística, em que os folhetos publicitários oferecem um rico e
interessante material de pesquisa”.
Opinião compartilhada por Pinheiro (op. cit. 2004) que refere o Turismo como
uma das atividades a se beneficiar de paisagens (seu maior produto) que são
percebidas e os sonhos construídos antes mesmo da viagem. Assim sendo, quando
a oferta turística como conjunto de atrativos, bens e serviços disponibilizados ao
visitante existe para atender necessidades em suas viagens, torna-se clara então a
importância na compreensão sobre as imagens do que se estará ofertando. Nogué
90
(apud Pinheiro, 2004) ao se referir à paisagem como um componente da oferta
turística destaca:
“Conservar a autenticidade de uma paisagem regional, não significa mantê-la
intacta, fossilizada. A paisagem é algo dinâmico, o resultado de uma tensão entre
elementos abióticos, bióticos e antrópicos. Trata-se de tentar conservar a
especificidade e originalidade dos elementos que a constituem (...). Somente assim
poderá ser preservado o caráter do lugar, sem convertê-lo em um museu sem vida.
Somente assim pode-se falar da paisagem como um verdadeiro recurso turístico.
Somente assim pode-se consolidar para o futuro uma determinada oferta turística”
Deste modo, a atividade turística antes de ser praticada nos ambientes é
precedida de um processo virtual na construção de paisagens que ainda serão
usufruídas.
espaços
Elas têm suas dinâmicas das interações temporais por meio dos
nos
quais o
homem
estará construindo
seu
lugar,
ainda
que
momentaneamente ao se utilizar mecanismos cognitivos e perceptivos.
Concluindo, para Guimarães (2005), o planejamento, a gestão e a proteção
dos recursos paisagísticos naturais e construídos envolvem essencialmente a interrelação entre os seres humanos e suas paisagens. Fundamentam-se em aspectos
relativos às experiências e vivências ambientais, às atitudes, condutas e valorações
objetivas e subjetivas, tangíveis ou não, porém, intrínsecas à dinâmica de vida das
diferentes populações e de suas respectivas culturas. Soma-se ainda às formas de
cognição, percepção, interpretação e representação do meio ambiente, de
construção do sentido de lugar, do sentimento de enraizar-se, bem como ao do
significado de pertinência em relação a uma paisagem e suas relações identitárias.
2.2.2.4 Fluxo e dispersão dos visitantes
Um dos aspectos cruciais da visitação em unidades de conservação é o fluxo
e seu padrão de dispersão dos visitantes em relação aos atrativos, equipamentos e
instalações turísticas. Não basta saber quantos entram na unidade e qual o seu
perfil. Estas informações somente terão relevância estratégica se conjugadas com a
determinação do padrão de dispersão, que pode abordar questões como:
91
· Para onde vão os visitantes quando entram em uma unidade de
conservação?
· Quais os pontos de concentração?
· Que vias utilizam para chegar a estes pontos?
· Que atividades desenvolvem dentro dessas áreas e os prováveis
impactos que ocorrem em decorrência da visitação.
Nos planos de manejo, usualmente ao se definir o zoneamento ambiental e as
vias de acesso, o fluxo e a dispersão dos visitantes são previstos, planejados e
condicionados dentro de padrões de qualidade e de acordo com os interesses
maiores da unidade de conservação. Entretanto, é comum se perceber impactos
ambientais nos atrativos e perda da qualidade da visitação nos zoneamentos
estabelecidos. Isto se deve basicamente por que a visitação é um fenômeno
dinâmico, fracionado de acordo com os diferentes perfis de usuários e ainda sujeito
a oscilações de fluxo de visitação conforme os padrões de sazonalidade, apelos da
mídia e desenvolvimento de atividades afins. Assim sendo não é possível se prever
com exatidão o comportamento e nem a dispersão dos visitantes. Para tanto devem
necessariamente ser modulados e monitorados por diferentes estratégias de gestão.
Desta forma, a real percepção destes fenômenos é uma condição para o
estabelecimento de estratégias adequadas de gestão, que incluem a normatização
das orientações de visitação; diferentes formas de sinalização para orientação,
localização e diretrizes de comportamento; adequação dos equipamentos e
instalações através da previsão do fluxo de visitação e sistematização da
capacidade de suporte dos atrativos.
Embora o estabelecimento de parâmetros de capacidade de “carga ou de
suporte”22 para zonas e atrativos através do monitoramento dos impactos possam
ser eficientes, na medida em que modulam a movimentação dos visitantes, com
ferramentas como a Determinação da capacidade de carga turística em áreas
protegidas, o LAC – Limites Aceitáveis de Mudança e o VIM – Gerenciamento de
22
Existem várias interpretações de capacidade de carga ou de suporte, mas todos remetem o conceito de
referência de limiar para determinado parâmetro onde ultrapassado se pervertem as características originais ou
desejáveis.
92
Impactos da Visitação; estas de fato não consideram as dinâmicas e sistemas de
motivação e gestão dos visitantes de maneira tão mais eficiente como aquelas
focadas primariamente na gestão da visitação, embora as contribuições do
monitoramento de impacto sejam complementares e necessárias.
Para
melhor
exposição,
Stigliano
(2005)
detalha
algumas
destas
metodologias como o ROS – Espectro de Oportunidades Recreativas, o VERP –
Processo de Gerenciamento da Visitação, o TOMM – Modelo de Otimização do
Gerenciamento Turístico e VAMP – Processo de Gerenciamento da Visitação:
·
ROS - Recreation Opportunity Spectrum (Espectro de Oportunidades
Recreativas). O método fundamenta-se em práticas de inventariar,
planejar e gerenciar a experiência de lazer e o ambiente no qual ela
ocorre. O processo estabelece classes de oportunidades as quais
subsidiam o entendimento de relações administrativas, físicas,
biológicas e sociais, estabelecendo, por conseguinte, parâmetros e
diretrizes para a administração de oportunidades de lazer. As classes
de oportunidade são ordenadas de acordo com suas características
físicas e de uso: primitiva, semi-primitiva não motorizada, semi-primitiva
motorizada, natural com vias de transporte, rural e urbana. Uma classe
de oportunidade definida através dos tipos de condições sociais e
recursos que são aceitáveis para aquela classe e o tipo de ação
administrativa apropriada. São descrições hipotéticas das condições
que os administradores consideram possíveis de serem mantidas ou
restauradas na área.
O ROS, metodologia aqui empregada, propõe o estabelecimento de
capacidade de uso e para o gerenciamento de impactos da atividade
recreativa. É amplamente baseado em julgamentos e valores
subjetivos, porém, estabelece padrões explícitos com relação a
condições apropriadas para cada categoria de oportunidade. Além
disso, oferece uma estrutura sistemática de verificação da distribuição
das
oportunidades
e
indicações
de
procedimentos
estabelecimento de possíveis ações gerenciais.
para
o
93
É um processo prático cujos princípios levam os administradores a
racionalizar a administração a partir de três perspectivas: 1) proteção
do recurso; 2) oportunidades para uso público; 3) habilidade (da
organização) em lidar com as condições existentes. Abrangendo
demanda e oferta e podendo ser facilmente integrado a outros
métodos, assegurando que uma gama de oportunidades de lazer seja
oferecida ao público. Salienta-se que o ROS é empregada nesta
dissertação para auxiliar o zoneamento ecoturístico e de lazer do
PNMNI.
· VERP - Visitor Experience and Resource Protection (Proteção à
Experiência do Visitante e aos Recursos). Nesta metodologia o
objetivo é qualificação dos recursos e da experiência turística,
subsidiando a tomada de decisões quanto a capacidade de uso, sendo
uma adaptação do LAC, este processo é expandido para abordar uma
ampla variedade de ambientes com diferentes tipos de recursos e
experiências em áreas mais e menos antropisadas, visto que o número
excessivo de visitantes é considerado apenas mais um dos elementos
que influi na qualidade da experiência turística.
· TOMM - Tourism Optimisation Management Model (Modelo de
Otimização do Gerenciamento Turístico). Este método privilegia a
abordagem
política, isto é, procurando se ater as redes sociais
estabelecidas (o desempenho de vários fatores – econômicos,
ambientais, sócio-culturais e oportunidades de mercado) buscando
monitorar e gerenciar o turismo de forma a proporcionar um
desempenho otimizado na busca pela sustentabilidade. É considerado
um modelo de gestão de médio e longo prazo por ter que estabelecer
um sistema de gerenciamento e monitoramento sustentáveis junto à
comunidade local.
· VAMP - Visitor Activity Management Process (Processo de
Gerenciamento da Visitação). O VAMP enfatiza a interpretação e os
serviços prestados ao visitante a partir de um modelo hierarquico de
tomada de decisões em um programa de gerenciamento. As decisões
administrativas referem-se à seleção e à criação de oportunidades para
visitantes usufruírem a unidade de conservação através de atividades
94
educativas e recreativas, as quais são apresentadas em um plano de
serviços.
Seabra (2005) destaca ainda a metodologia MPTD – Monitoramento
Participativo do Turismo Desejável, onde :
“a metodologia MPTD coloca o foco de suas atenções nas comunidades receptoras
e no turismo por elas desejável. Parte do princípio que as comunidades são
dirigentes de seu destino, sendo partícipes no planejamento e no monitoramento da
atividade. Neste sentido, empondera a comunidade, criando condições materiais
para o exercício da gestão sustentável de seu legado cultural. Assim, angariar
percepções, desejos e anseios das comunidades, frente ao fato turístico, é etapa
importante na metodologia; bem como, criar instrumentos efetivos para o
monitoramento das variáveis de interesse.”
Pode-se salientar que o envolvimento dos usuários, comunitários ou não, são
essenciais para os diagnósticos e monitoramento das ações de gestão da visitação
em unidades de conservação e áreas de lazer e que podem induzir a novos
zoneamentos de acordo com as tendências e singularidades diagnosticadas.
2.2.2.5 Zoneamento ambiental e ecoturismo
Segundo Silva & Santos (2004), zonas ou unidades de zoneamento são
espaços identificados em um território e determinadas por agrupamentos de
componentes, fatores e atributos que apresentam alto grau de associação e
significativa diferenciação entre os grupos. Possuem similaridades internas de
acordo com variáveis ambientais e podem ser delimitados no eixo horizontal do
espaço e em escala definida.
De fato, é necessário reconhecer as similaridades dos componentes de um
grupo e, simultaneamente, as diferenças evidentes entre os grupos vizinhos. Os
componentes
ambientais
podem
ser
as
temáticas
do
meio
biofísico
e
socioeconômico e os fatores referem-se aos temas utilizados em cada temática; tais
como geologia, solo, uso da terra, dentre outros. Já os atributos são dados e
informações obtidas de cada fator ambiental. A delimitação dessas zonas leva em
consideração o conceito de organização hierárquica da natureza e a inter-relação
entre os fatores ambientais.
95
A identificação e a delimitação de zonas podem estar diretamente ligadas às
concepções sobre a paisagem ou espaço geográfico, discutidas em disciplinas como
a Geografia, a Ecologia e com mais propriedade na Ecologia da Paisagem. Para
Metzger (2001), a abordagem geográfica foca o estudo das paisagens modificadas
pelo homem e o planejamento da ocupação territorial, em função do conhecimento
dos limites (fragilidades) e das potencialidades (vocações) de cada “unidade de
paisagem” – um espaço de terreno com características comuns. Para o autor, essa
abordagem aplica-se mais a macroescalas.
Com a abordagem ecológica, a aplicação se dá em uma ampla gama de
escalas e enfatiza as unidades da paisagem como cada unidade componente da
paisagem, como se fossem cada qual um ecossistema.
Em planejamento ambiental, é comum adotar a estratégia de avaliar um
território por meio de seu zoneamento – método apontado como integrador de
informações ambientais. Para Silva & Santos (op.cit. 2004):
“Zoneamento” é a identificação e a delimitação de unidades ambientais em um
determinado espaço físico, segundo suas vocações e fragilidades, acertos e
conflitos, determinadas a partir dos elementos que compõem o meio planejado. Seu
resultado é a apresentação de um conjunto de unidades, cada qual sujeita a normas
específicas para o desenvolvimento de atividades e para a conservação do meio.
Na prática, o zoneamento, sendo um trabalho interdisciplinar passível da
análise quantitativa e parte do enfoque analítico e sistêmico, visa a orientar a revisão
e/ou formulação de políticas de pesquisa e conservação e manejo integrado de
recursos naturais. Considera-se que a abordagem analítica relaciona-se com a
regionalização, inventários e diagnósticos temáticos dos atributos mais importantes;
já a abordagem sistêmica remete à estruturação e integração de
diagnósticos,
prognósticos e síntese para cada conjunto de informações. Portanto, a eficiência do
zoneamento ecoturístico e de lazer demanda em se caracterizar a vocação das
áreas passíveis de uso público, potencialidades, fragilidades e ainda contextualizálas dentro dos escopos ambientais, sociais e legais.
Contudo, o zoneamento somente é testado quando confrontado com a
realidade dinâmica do ciclo de vida das destinações turísticas, conforme
96
representado na Figura 07, onde o ciclo 01 é o previsto e o ciclo 02, o ocorrido. Este,
por sua vez, é aquele em que as oportunidades são percebidas com pouco ou
nenhum diagnóstico, cuja exploração é iniciada sem os cuidados necessários para a
devida consolidação, situação que recorre em muitas unidades de conservação,
onde não se percebe o planejamento estratégico da gestão da visitação e recursos
paisagísticos.
Figura 07: Bio-ritmo das destinações de lazer e turísticas.
Fonte. Butler,1980. Modificado por Mello, Flávio A. P. 2008 inédito
Assim, o estabelecimento do Ciclo 02,“ocorrido”, significa o uso pouco
criterioso dos recursos locais, ou não previstos no planejamento; caracterizando-se
pelo sub-desenvolvimento das atividades potenciais, mas com impactos já presentes
nas áreas de sobre-uso, que podem conduzir a um estado prematuro de estagnação
e declínio ou em um nível aquém do nível de consolidação (na figura 07 no chamado
de “Ciclo” 01, previsto ou planejado), por conta das alterações e degradações
identificadas como parte do ciclo 02. Para melhor entendimento, considera-se:
· Fase da exploração, a localidade apresenta algumas facilidades para os
primeiros visitantes, que são ampliadas rapidamente pela população
local na fase do desenvolvimento, com o objetivo de conseguir lucros na
criação de um mercado forte e fiel.
97
· Fase do desenvolvimento, a participação e o controle dos
equipamentos pela população local caem rapidamente e dão lugar às
facilidades criadas por organizações externas, que estimulam o
crescimento do número de visitantes.
· Fase da consolidação se caracteriza pelo domínio de empresas e
serviços multinacionais, cuja participação ajuda a controlar os custos e
a manter a competitividade do local diante de outras destinações. O
aumento quantitativo da demanda é alcançado e, a partir daí, a destinação
começa a decair na preferência dos turistas. Na luta pela sobrevivência,
por meio da quantidade de turistas que precisam lotar os equipamentos
para viabilizá-los economicamente, os preços baixam e passam a atrair
uma demanda de menor poder aquisitivo.
· Fase de declínio ou rejuvenescimento. A localidade passa por um
desgaste econômico, social e ambiental. Os equipamentos físicos
começam a se degradar e as atrações criadas para o atendimento dos
turistas nas fases de desenvolvimento e de consolidação envelhecem,
saem de moda e perdem a atratividade. O ambiente natural, que antes
era o ponto de maior atração, deteriora-se pelo mau uso da paisagem na
construção de hotéis e de outros equipamentos, e o número de visitantes
excede os limites da capacidade de carga.
O rejuvenescimento por sua vez, caracteriza-se por um retorno aos
ciclos anteriores, seja através da exploração de novas potencialidades,
ou de requalificações paisagísticas, tanto naturais (como por exemplo,
reflorestamento,
recuperação
de
áreas
degradadas...),
quanto
construídas (novos equipamentos e infra-estruturas de apoio)...
2.3 Trilhas em Unidades de Conservação
A adequada gestão da visitação é fundamental para que as unidades de
conservação cumpram o seu papel de conservação e preservação do patrimônio
natural, dentro dos padrões de sustentabilidade, assim como propiciar a adequada
98
apreciação e qualidade da visitação por seus diferentes tipos de usuários.
O
monitoramento regular da dispersão de visitantes se converte, então, em uma
ferramenta de gestão, visto que o deslocamento dos visitantes em áreas naturais
normalmente ocorre através do uso das trilhas.
Cruz (2003) lembra que a apropriação de espaços naturais pelo turismo
implica em transformações espaciais relacionadas aos fatores de acessibilidade e
hospedagem; e que:
“... em se tratando de unidades de conservação, algumas das transformações
espaciais decorrentes do uso turístico de seus territórios diz respeito à abertura de
trilhas ou a utilização de trilhas pré-existentes, ao longo das quais podem ser
instalados instrumentos de educação ambiental” (p. 19).
2.3.1 Importância das trilhas em Unidades de Conservação
Costa (2006:4) refere que “as trilhas são os únicos meios de acesso às
Unidades de Conservação e que elas oferecem oportunidade do contato efetivo com
a natureza ...” Cole, et al. (apud Passold, 2002) refere que em áreas naturais
protegidas, as trilhas promovem o acesso e oportunidades recreacionistas e ainda
protegem os recursos e atrativos ao definir as áreas de acesso e uso. Contudo, em
todas estas atividades a ação antrópica altera o espaço natural modificando. Sendo
a atividade turística valorizada como consumidora de espaços, a lógica de produzir e
consumir representa um problema a ser administrado, principalmente quando se
trata de atividades ecoturísticas que por definição, pretendem a sustentabilidade
para a manutenção dos lugares como fonte de trabalho e recursos.
Costa (op. cit., p. 46), indica que uma trilha pode ter várias funções sendo
principal a de deslocamento. Coloca ainda que bem planejadas, possibilitam
mudanças de valores, principal alicerce da educação ambiental. Destaca também
que as trilhas podem ser de diferentes tipos, podendo ser classificadas quanto à
função, forma, grau de dificuldade e declividade do terreno. Ressalta também que
muitas trilhas e caminhos hoje utilizados para o ecoturismo; foram tradicionalmente
utilizadas por determinadas comunidades, para se locomoverem. Atualmente as
99
trilhas são o veículo para estabelecimento e operação de várias atividades em
ambientes naturais, tanto o ecoturismo quanto turismo na natureza, turismo rural e
ainda atividades esportivas e de lazer.
Contudo, como em toda infra-estrutura, os impactos decorrentes de seu uso
são rapidamente percebidos ao longo do tempo e um dos aspectos mais relevantes
é a descaracterização de sua paisagem ou até perda dos atrativos para onde
conduzem (Costa & Mello, 2005). Podemos destacar ainda impactos na flora e
fauna induzidas pela fragmentação das massas florestais assim como os causados
pelo acesso de visitantes em áreas cuja biodiversidade possui baixa resiliência às
modificações introduzidas com a territorialização turística.
Nestes aspectos, as trilhas são, portanto, indicadores das condições de uso,
intensidade da visitação, qualidade e segurança de serviços oferecidos e alterações
no patrimônio natural (biodiversidade e paisagens). Com a percepção destas
alterações
foram
desenvolvidas
várias
ferramentas
metodológicas
para
o
gerenciamento da visitação e controle dos impactos em áreas naturais, conforme
destacado no item 2.2.2.4 Fluxo e dispersão dos visitantes (pag. 70).
2.3.2 Impactos Ambientais relacionados a trilhas
Para Guerra & Guerra (1997:350) impacto ambiental é:
“a expressão utilizada para caracterizar uma série de modificações causadas ao
meio ambiente, influenciando na estabilidade dos ecossistemas. Os impactos
ambientais podem ser negativos ou positivos, mas, nos dias de hoje, quando a
expressão é empregada, já está mais ou menos implícito que os impactos são
negativos. Os impactos podem comprometer a flora, fauna, rios, lagos, solos e a
qualidade de vida do ser humano”.
No caso das trilhas, Lechner (2004) ressalta que muitos impactos podem ser
reduzidos e alguns eliminados com o conhecimento dos processos que atuam na
área de implantação e manejo. De fato, alguns impactos sempre vão existir, desde a
implantação que se caracteriza como tal, até as alterações mais sutis, decorrentes
do uso das trilhas e da reacomodação da biota e do solo como resposta à alteração
introduzida. Embora não seja objeto deste trabalho o aprofundamento nas múltiplas
100
categorias de impactos ambientais causados implantação e manutenção de trilhas
em áreas naturais, podemos qualificar zonas de influência e espacializar as
ocorrências através dos seguintes parâmetros de causalidade: Fragmentação
florestal, efeito de borda, impactos no leito e efeitos na paisagem, conforme descrito
a seguir:
2.3.2.1
A fragmentação florestal induzida por trilhas.
Com foco na utilização turística, para melhor compreensão da dinâmica das
trilhas, é possível definir para fins de análise, uma unidade de conservação ou área
natural privada, a ser reconhecida como uma dada região (o espaço que possui
propriedades e escalas conhecidas que lhe confiram uma determinada identidade).
Nesta região, através de diagnósticos orientados ou resgate de informações locais, é
identificado o patrimônio turístico, determinado, segundo Boullon (2002:66) como a
integração de quatro componentes:
· Atrativos Turísticos (a matéria prima)
· Empreendimento turístico (aparato produtivo)
· Infra-estrutura (recursos de apoio ao aparato produtivo)
· Superestrutura
turística
(subsistema
organizacional
e
recursos
humanos disponíveis para operar o sistema).
Destes componentes destaca-se o primeiro, pressupondo um espaço natural
virgem, isto é, sem intervenções humanas. A identificação da distribuição e
qualidade dos atrativos turísticos serve de base e justificativa para o estabelecimento
dos empreendimentos em um processo semelhante à criação de corredores
turísticos de translado e de estada, previsto por Boullon (Op. cit., p. 97) como vias de
conexão entre zonas, complexos, centros, conjuntos e atrativos turísticos.
Guardando as devidas proporções, é possível fazer um paralelo destes
corredores com as trilhas, categorizando-as também em dois grupos, onde o
“corredor turístico de translado” serve de parâmetro para a trilha cujo potencial é
subutilizado, sendo operada basicamente para acessar o atrativo, e o conceito de
101
“corredor turístico de estada” pode ser adaptado para a trilha que se constitui de um
atrativo em si, proporcionando a oferta de diferentes serviços e produtos em sua
extensão.
Assim ao identificarmos os atrativos como pontos em uma área determinada,
podemos visualizar que o estabelecimento de circuitos de trilhas para acessar e
interligar os atrativos tem como conseqüência a divisão de áreas contínuas em
unidades menores, individualizadas pela interrupção física no tecido florestal pelo
corredor da trilha; embora ainda estejam identificadas como uma mesma região.
Este processo é conhecido como fragmentação florestal que constitui “ilhas” do
ecossistema original, inseridas em uma matriz com diferentes ecossistemas,
segundo Saunders et al (1991, in Fleury, 2003).
Pode-se inferir. portanto, que a fragmentação pode ser evidente e prejudicial
conforme o ecossistema onde se encontra, de acordo com suas dimensões, pois as
conseqüências da formação destas “ilhas” ou da descontinuidade dos ambientes
podem interferir significativamente na flora e na fauna, alterando assim a paisagem
original e as oportunidades potenciais da região. Deste modo as dimensões das
trilhas podem agravar o fenômeno da fragmentação.
Cabe destacar que o dimensionamento destas medidas deve ser adequado à
localização dentro do zoneamento da unidade, do perfil do visitante e das atividades
a que servem; visto que variam de acordo com a utilização conforme diretrizes
gerais referidas por Costa (2006, apud USDA, 2002 e Lechner, 2003). Outro aspecto
a se considerar é que a apropriação destes espaços por parte dos visitantes, assim
como as alterações promovidas para o estabelecimento de equipamentos e
instalações de apoio, acaba por afastar a biota mais refratária a esta nova
convivência.
No quadro 04, relacionam-se dimensões genéricas de acordo com o perfil do
usuário de trilhas:
102
Quadro 04: Tipos de trilhas e Graus de dificuldade
Fonte: Willamette National Forest Hiking Trail, Oregon. U.S. Department of Agriculture Forest Service
(USDA), 2002 (http://www.fs.fed.us/r6/willamette/recreation/trails/) e LECHNER, 2003. Traduzido e
adaptado por Costa, V. C. da (2006, in: anotações de apresentação de palestra).
Modificado por Flávio A. P. Mello, 2008.
2.3.2.2
O efeito de borda como impacto das trilhas
Grande parte dos sistemas fragmentados não sustenta a mesma diversidade
de espécies encontradas em ecossistemas originais por influência do “efeito de
borda” (Fleury, 2003). De acordo com Paciência & Prado (2004), as bordas podem
ser entendidas como áreas de transição entre unidades da paisagem de hábitat e
não-hábitat, regidas pelas “forças de interação” entre as mesmas. Alguns estudos
apontam que as bordas por serem mais expostas às perturbações externas,
possuem maior diversidade de espécies vegetais decorrente da sobreposição de
espécies do interior e da matriz e maior cobertura, densidade de indivíduos e
produtividade primária proporcionado pelo aumento da taxa fotossintética total
nestes ambientes.
Funcionalmente as bordas são áreas onde a intensidade dos fluxos biológicos
entre as unidades de paisagem se modifica de forma abrupta, devido à mudança
abiótica repentina das matrizes para os fragmentos e vice-versa. Vista do interior da
103
mata, tal mudança pode ser evidenciada por um aumento da penetração da luz solar
e maior incidência de ventos.
Paciência & Prado (Op. cit) referem não haver padrões claros quanto à
penetração das alterações micro-climáticas das bordas que podem ser percebidas
no interior dos fragmentos, citando diversos estudos que demonstram a distância de
penetração destas alterações que podem chegar de 10 a 40m. Estes efeitos são
percebidos de maneiras diferentes pelos vários extratos, observando-se próximo à
borda, um incremento da mortalidade das espécies arbóreas florestais de grande
porte, ao mesmo tempo, verifica-se que há um aumento das espécies pioneiras e
tolerantes às condições climáticas do ambiente alterado.
Fleury (2003) destaca que estas mudanças microclimáticas (como aumento
da temperatura e ressecamento próximo à borda acarretando em alterando a
composição de espécies e na estrutura da vegetação) podem afetar drasticamente
os processos ecológicos como polinização, predação, comportamento territorial e
hábitos alimentares das espécies, causando perda da diversidade de plantas e
animais, e em casos extremos, levando à total perda das espécies da fauna local.
Estas alterações promovidas pela fragmentação florestal e pelo conseqüente
efeito de borda irão interferir diretamente na qualificação dos atrativos e como um
efeito cascata em toda a cadeia produtiva, podendo requer mais investimentos e
mesmo inviabilizar negócios, forçando readequações estratégicas ou busca por
novas vocações e produtos turísticos. Portanto, o impacto causado pelo transito de
visitantes pelas trilhas podem ser somados às alterações verificadas no efeito de
borda, através de eventos como o pisoteio da flora marginal, alterações de
drenagem decorrentes das alterações no leito das trilhas pela compactação induzida
pela visitação, alterações no comportamento da fauna pela presença física e barulho
de visitantes, entre outros.
104
2.3.2.3 Impactos causados no leito da trilha
Embora a abertura de uma trilha já represente um impacto considerável, em
trilhas existentes o impacto mais diretamente relacionado com o uso das trilhas é
causado pelo pisoteio, responsável pela compactação do solo e aceleração dos
processos erosivos, também possui grande importância na relação com a flora.
A revisão de Magro & Talora (2006) confirmaram que as áreas sujeitas ao uso
recreacional eventualmente mostram sinais de deterioração dos seus recursos e
implicam ainda a redução da biomassa das plantas e a cobertura do solo; a
diminuição na densidade de ervas, arbustos e plântulas e a substituição de espécies
menos tolerantes por aquelas mais tolerantes ao impacto do pisoteio; e mudanças
associadas ao solo que são freqüentemente menos óbvias, mas não menos
importantes, uma vez que ao longo do tempo eles podem conduzir a um declínio no
vigor das plantas e a uma redução na biomassa da fauna do solo.
Estas mudanças estariam relacionadas à compactação do solo, redução no
conteúdo da matéria orgânica, diminuição na taxa de infiltração de água e aumento
no escoamento superficial. Lechner (Op. cit. p.79) apresenta uma relação de
impactos que podem ser observados na trilha:
· Impactos biofísicos potenciais nas trilhas:
§ Erosão e transporte de solo;
§ Contaminação e sedimentação em rios e outros corpos de água;
§ Perda de vegetação ao longo do corredor da trilha;
§ Introdução de espécies invasoras ao longo do corredor da trilha;
§ Aumento do acesso à área por espécies predadoras ou
indesejáveis
(mudança
da
composição
de
espécies)
e
perturbações / deslocamento da vida selvagem;
· Impactos sociais potenciais nas trilhas:
§ Conflitos de visitantes e conflito entre a comunidade e visitantes;
§ Lixo;
§ Insatisfação;
105
§ Uso das trilhas para atividades ilegais / indesejáveis (caça,
extração ilegal, etc.);
§ Alargamento da trilha por usuários para evitar lamaçais, ou por
andarem lado a lado ou por obstáculos como árvores caídas e
pedras soltas;
§ Vandalismo (pichações em rochas e árvores e danos à infraestrutura como placas de sinalização, bancos, etc.);
§ Possíveis áreas de risco de acidentes aos visitantes.
· Impactos ambientais potenciais ou de uso sobre as condições das
trilhas:
§ Alargamento e inundação do corredor e do piso da trilha;
§ Usos múltiplos / sobreposição de usos;
§ Perda da borda crítica da trilha (e da drenagem);
§ Ruptura no talude;
§ Aprofundamento do leito da trilha (com perda de drenagem);
§ Entupimento por sedimentos em drenos, perda ou danos a
barragens de água, drenagens e bueiros;
§ Resíduos ou entulhos na trilha;
§ Deterioração de fundações de pontes, decks e paredes de
contenção levadas por inundações, além das condições de
segurança de sua superfície e de seus corrimãos;
§ Falta, perda ou deterioração de sinalização de orientação,
degraus e paredes de pedra.
2.3.2.4 Impactos na paisagem promovidos pelas trilhas
Como conseqüência das alterações promovidas ou induzidas pelas trilhas,
tem-se a descaracterização da paisagem, conforme destaca Magro & Talora (op.
cit.) onde a trilha representa também uma cicatriz na paisagem, sendo uma zona
sacrificada, desprovida de vegetação, um “corte raso” linear que pode representar
cerca de 0,45 ha ou mais em cada trecho de 1,6 Km e, apesar do impacto, refere
que as trilhas são vistas como uma construção aceitável em áreas naturais, onde se
aceita a área de solo nu quase como parte natural das áreas protegidas.
106
A importância da paisagem está para o lazer como o cenário para suas
atividades como para o turismo que a transforma em produto de consumo
representando uma novidade estética. Para ambos a paisagem serve como
ferramenta para a ampliação do conhecimento e agente sensibilizador de
conservação
ambiental.
Contudo
sendo
interpretado
também
como
um
“equipamento”, os impactos decorrentes de seu uso são rapidamente percebidos ao
longo do tempo e um dos aspectos mais relevantes é a descaracterização de sua
paisagem através de instalações de apoio ao visitante, como por exemplo, mirantes,
circuitos de trilhas, áreas para lazer entre outros.
Neste concepção, o conceito da paisagem como um “recurso” a ser
administrado deve ser considerado como mais cuidado e prioridade nos programas
de gestão das unidades de conservação e lugares turísticos; pois a perda da
paisagem, isto é, do patrimônio cênico, não só pode desqualificar o lugar, como
também selecionar os visitantes já que o “produto” pode ser alterado.
Cabe então salientar os conceitos de valoração da paisagem e de seus
componentes bióticos e abióticos, visto que não raro, os impactos na flora e fauna
induzidas pela fragmentação das massas florestais assim como os causados pelo
acesso de visitantes em áreas cuja biodiversidade possui baixa resiliência às
modificações
introduzidas
com
a
territorialização
turística
são
passadas
despercebidas, dada a compreensão geral de paisagem como um “grande cenário”
apenas. Esta condição decorre do fato da paisagem de modo geral ser percebida
como um todo.
Contudo, Guimarães (2007:83) concorda com estudos de Gonzalez
Bernáldez, que interpreta a paisagem através de processos onde se decifra
camadas de informação, tanto aparentes quanto ocultas. A autora relaciona duas
vertentes:
“(1) uma forma de interpretação fundamentada na percepção global e integrada da paisagem,
a partir do que o observador desenvolve suas conclusões de “visu” mediante sua experiência,
intuição ou “olho clínico”, sem que seja necessário um processo reflexivo;
(2) uma descrição analítica, mediante o isolamento de diversos componentes paisagísticos.
Para o autor, ambos os procedimentos metodológicos têm suas possibilidades, de acordo com
a aplicação que estamos dando à interpretação da paisagem.
107
Assim, o planejador, o gestor; devem considerar os impactos tanto no microambiente das trilhas, considerando a experiências mais próximas do usuário; como
também deve considerar o comprometimento da paisagem, enquanto recurso
patrimonial, por exemplo, nas alterações que a comprometem quando as trilhas são
percebidas na paisagem como uma solução de continuidade.
Deve-se, contudo, na avaliação e utilização da paisagem como um “recurso”,
considerar as repercussões históricas, sociais e ambientais, Motta (1998) cita que o
processo de apropriação do capital natural (e social23) sem a preocupação com os
possíveis usuários excluídos (presentes ou futuros); rotineiramente são ignorados e
podem passar despercebidos ou subestimados; visto que o uso de recursos
ambientais não possui preço reconhecido no mercado, embora seu valor econômico
exista, pois seu uso altera o nível de produção e de consumo dos bens de serviço
atrelados a eles.
Na valoração econômica ambiental, o valor econômico de um recurso
ambiental, é estimado a partir do valor monetário de um bem ou serviço disponível
na economia. Com a utilização desta referência monetária a descaracterização de
paisagens (e conseqüentemente comprometimento da biodiversidade, perda da
qualidade da visitação, entre outros), passa também a se correlacionar com outros
aspectos da gestão sob a mesma ótica, de maneira que a priorização orçamentária e
as previsões de valor patrimonial adquirem maior relevância nas chaves de decisão
influindo desde a gestão local até as políticas públicas mais gerais.
Assim, as estratégias de gestão e uso da paisagem estão diretamente
relacionadas à amplitude de valoração econômica do patrimônio local e de serviços
disponíveis ou possíveis. Motta (op. cit.) relaciona o critério econômico no
gerenciamento
dos
recursos
naturais,
restringindo-o,
basicamente,
a
três
abordagens básicas:
·
Análise Custo-Benefício (ACB). É a técnica econômica rotineiramente
utilizada para a determinação de prioridades na avaliação de políticas e
23
Parênteses do autor
108
de mais fácil compreensão, embora possa adquirir um caráter
superficial em função da prévia qualificação diagnóstica. A ACB
compara custos e benefícios derivados de estratégias e políticas
implementadas em termos de valores monetários. Os benefícios são
bens
e
serviços
ecológicos,
cuja
conservação
acarretará
na
recuperação ou manutenção destes para a sociedade, impactando
positivamente o bem-estar das pessoas e do patrimônio natural. Os
custos representam o bem-estar que se deixou de ter, fluxo de bens e
serviços não-ecológicos, em função do desvio dos recursos da
economia para políticas ambientais em detrimento de outras atividades
econômicas e ainda das perdas em biodiversidade que geravam
serviços e produtos.
· Análise Custo-Utilidade (e viabilidade institucional) – ACU. Os
indicadores, embora não sejam compreendidos como a única variável
monetária de um determinado benefício, são calculados para valores
econômicos
e
também
insubstitutibilidade,
para
o
critério
vulnerabilidade,
grau
ecológico,
de
como
ameaça,
representatividade e criticabilidade. A percepção destes critérios
ecológicos, entretanto dependem de não só de conhecimentos
técnicos, mas, sobretudo éticos, visto que na prática, a quantificação
financeira reduz a importância da natureza às necessidades e
horizontes humanos.
· Análise Custo-Eficiência (ACE). A ACE compara as opções disponíveis
para orientar a política definida, relacionando os custos em atingir os
objetivos estabelecidos, identificando a opção mais eficiente para
obtenção da melhor relação custo-benefício. A ACE não prioriza
opções, mas orienta para a definição de ações, principalmente em
situações de decisão nas quais os custos institucionais da avaliação do
projeto excedem aos ganhos de eficiência com uso de ACB ou ACU.
O valor econômico dos recursos ambientais (VERA), por sua vez, pode ser
interpretado como valor de uso (VU) e valor de não-uso (VNU). Os Valores de uso
podem ser desagregados em:
109
· Valor de Uso Direto (VUD) - quando o indivíduo se utiliza atualmente
de um recurso, por exemplo, na forma de extração, visitação ou outra
atividade de produção ou consumo direto;
· Valor de Uso Indireto (VUI) - quando o benefício atual do recurso
deriva-se das funções ecossistêmicas, como, por exemplo, a proteção
do solo e a estabilidade climática decorrente da preservação das
florestas;
· Valor de Opção (VO) - quando o indivíduo atribui valor em usos direto e
indireto que poderão ser optados em futuro próximo e cuja preservação
pode ser ameaçada. Por exemplo, o benefício advindo de fármacos
desenvolvidos com base em propriedades medicinais ainda não
descobertas de plantas em florestas tropicais.
O valor de não-uso (ou valor passivo) representa o valor de existência (VE)
que está dissociado do uso (embora represente consumo ambiental) e deriva-se de
uma posição moral, cultural, ética ou altruística em relação aos direitos de existência
de espécies não-humanas ou preservação de outras riquezas naturais, mesmo que
estas não representem uso atual ou futuro para o indivíduo, como, a grande atração
da opinião pública para salvamento de baleias ou sua preservação em regiões
remotas do planeta, onde a maioria das pessoas nunca visitará ou terão qualquer
benefício de uso. Assim, uma expressão para VERA é:
VERA = (VUD + VUI + VO) + VE.
Desta forma, a paisagem enquanto construção subjetiva e por isso, menos
tangível, deve ser encarada não somente como um valor de uso direto, mas também
na categoria de valor delegado e de existência, enquanto elemento passível de
apropriação. Afinal, paisagem, além de seu valor intrínseco por ser o somatório de
condições físicas e ecológicas, é também memória e identidade entre outros
aspectos sociais e culturais. Assim, deve ser protegida tanto pelo poder público
quanto privado.
Embora a utilização de termos como recursos riquezas e patrimônio possa a
princípio induzir à percepção de um reducionismo utilitarista da natureza, a intenção
110
deste conceito visa criar um denominador comum, facilmente compreendido por
indivíduos, instituições e governos, onde cujas possibilidades de lucros com serviços
ou prejuízos por perdas de “patrimônio” tendem a ser mais quantificáveis e
palatáveis quando se discute variável que podem requerer uma compreensão maior
da paisagem que o olho pode não ver, mas que existe.
No quadro 05 é demonstrado às diversas qualificações de valores e o seu
grau de tangibilidade.
Quadro 05 Categorias de valores econômicos atribuídos aos bens ambientais
Fonte Munasinghe,1992 (in MOTTA, R. S. da. Manual Para Valoração Econômica de Recursos Ambientais –
Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
Para o gestor, para o planejador e sobretudo para o usuário, tornar palpável
uma construção mental como a paisagem significa sobretudo a possibilidade real de
se gerir uma realidade com parâmetros próximos ao dia a dia das tomadas de
decisão, seja como investimento, seja como a conduta consciente de visitação.
111
2.3.3 Conservação e recuperação de trilhas em ambientes de Mata Atlântica
Diversos pontos da Mata Atlântica são considerados hotspots24 de
biodiversidade e somado ao grande endemismo, são considerados prioridade para a
conservação e preservação. Com o ritmo acelerado de comprometimento e
destruição de seus remanescentes, agora associado a incremento das atividades de
lazer, esportivas e de turismo em ambientes naturais, notadamente nas unidades de
conservação; os circuitos de trilhas devem ser interpretados como os veículos da
apropriação de territórios pela visitação e agentes de alterações ecológicas
importantes conforme demonstrado anteriormente. Percebendo a trilha fisicamente
como um corredor que funciona como eixo de ligação a atrativos ou se manifesta
como tal, suas restrições espaciais podem ser:
· Restrita ao leito
· Incluindo o efeito de borda (corredor e áreas mais profundas conforme
referido por Paciência & Prado (op.cit.)25
· Incluindo o leito, o efeito de borda e a fragmentação induzida pelos
recortes promovidos pela implantação dos circuitos de trilhas;
interferindo assim na dinâmica regional como um todo.
Com esta espacialização, as ações de conservação e recuperação de trilhas
na prática ultrapassam as atividades de controle de erosão, compactação de solos,
drenagem e conflitos entre visitantes, restritas de modo geral ao leito; mas passam
incluir a região ou zona onde se encontram as trilhas. Por conseguinte o foco de
preservação e conservação deve considerar além da biodiversidade intrínseca, o
patrimônio paisagístico e a importância dos fragmentos florestais como bancos
genéticos para todo o trabalho de restauração e preservação do que resta de Mata
Atlântica.
24
O conceito Hotspot foi criado em 1988 pelo ecólogo inglês Norman Myers para resolver um dos maiores
dilemas dos conservacionistas: quais as áreas mais importantes para preservar a biodiversidade na Terra? Ao
observar que a biodiversidade não está igualmente distribuída no planeta, Myers procurou identificar quais as
regiões que concentravam os mais altos níveis de biodiversidade e onde as ações de conservação seriam mais
urgentes. Ele chamou essas regiões de Hotspots. Hotspot é, portanto, toda área prioritária para conservação,
isto é, de rica biodiversidade e ameaçada no mais alto grau. É considerada Hotspot uma área com pelo menos
1.500 espécies endêmicas de plantas e que tenha perdido mais de 3/4 de sua vegetação original. In:
www.conservation.org.br/como/index.php?id=8 . Capturado em 18/02/2007
25
Referindo Kapos (1989) que mostrou que à distância de penetração destas alterações chega a 40 m, a partir
do limite físico do fragmento com a matriz, como 15-25 m (Williams-Linera 1990), 7-12 m (MacDougall & Kellman
1992), 10-20 m (Esseen & Renhorn 1998)
112
O estado de conservação ambiental da região em questão onde esta
instalada a malha de trilhas ou irá ser instalada, definirá seu papel, podendo ter seu
planejamento e manejo direcionado tanto para a preservação, isto é, protegendo
áreas chaves; quanto para a restauração; podendo utilizar a malha de trilhas como
acesso a áreas a ser reflorestadas ou restauradas por funcionários locais e
voluntários, servindo de veículo para atividades de educação ambiental.
Desta maneira as estratégias de conservação que envolvam as interações
flora e fauna são as mais eficientes e segundo Kageyama & Gandara (2006) nas
florestas tropicais estas interações são bastante intensas e determinantes para a
estruturação do ecossistema, envolvendo relações fundamentais como polinização,
dispersão de sementes e herbivoria/ predação. Destacam ainda que as espécies
vegetais das florestas tropicais são em sua maioria alógamas (necessitam trocar
pólen para que haja sua polinização, sendo feita fundamentalmente por animais,
principalmente insetos, morcegos e aves).
113
3.0 MATERIAL E MÉTODOS
São, a seguir, descritos os principais materiais e métodos adotados visando
atender os objetivos propostos. Em termos gerais buscou-se como prática
metodológica a “pesquisação” ou “pesquisa-ação26”, isto é, para se atingir os
objetivos propostos, foram estabelecidas estratégias para coleta e verificação de
dados, a partir do envolvimento dos usuários e da administração da unidade, em
maior ou menor grau, quer através do estímulo ao voluntariado ambiental, quer por
meio de questionários e pesquisas de campo.
3.1 Fonte de informações
Para elaboração da base dados primários sobre o PNMNI, foram realizadas
entrevistas formais e informais com a administração do PNMNI (inicialmente com
direção e posteriormente com funcionários da manutenção e vigilância) acerca de
aspectos da visitação, malha de trilhas e caminhos existentes. Embora destacassem
a existência de várias trilhas, somente a trilha do Pau Pereira é, de fato, considerada
para fins de gestão, assim como a Estrada da Cachoeira, como acesso a atrativos
mais consolidados. Encaminhou-se então, ofícios às Secretarias de Meio Ambiente
das Prefeituras de Nova Iguaçu e de Mesquita, solicitando bases cartográficas
digitais, incluindo ortofotos e imagens de satélite; além de informações sobre
programas ou sub-programas em andamento que pudessem ser úteis para a
presente pesquisa.
A solicitação documental sobre o Parque Municipal de Nova Iguaçu foi
requerida junto aos municípios de Nova Iguaçu e Mesquita, onde neste último se
localiza aproximadamente 38% da área do Parque. Fato oriundo da emancipação
deste município no ano de 2000, data posterior à criação do parque (1998). Salientase que esta situação é motivo de discussões acerca de uma possível gestão
compartilhada, cujas primeiras referências apontam um suposto acordo informal
26
SN: Modalidade de pesquisa qualitativa que se caracteriza por partir da ação sem nenhuma assunção teórica,
pela participação do investigador na situação e o uso da metodologia etnográfica como método de recoleção de
dados. A expressão foi acunhada por K. Lewin (1890-1947), que assinala três traços típicos: participação,
impulso democrático e contribuição à mudança social. Fonte: Tesauro na Filosofia da Educação
114
estabelecido a época da emancipação, entre as secretarias de Meio Ambiente de
Nova Iguaçu e Mesquita para o revezamento bi-anual na direção da unidade.
Contudo, devido ao fato da área do parque ser uma concessão estadual à
Nova Iguaçu e como até a presente data, não se estabeleceu oficialmente a
contrapartida em recursos humanos e materiais do município de Mesquita, o
revezamento ficou restrito à direção do conselho consultivo a cada dois anos, por
razões de boa vizinhança. Atualmente a gestão deste conselho está a cargo de
Nova Iguaçu, devendo se estender até 2010. Entretanto, o conselho gestor não tem
se reunido com regularidade, caracterizando de fato uma violação do plano de
manejo que prevê gestão participativa.
Embora a anuência e colaboração da Secretaria de Meio Ambiente tenha sido
fundamental para a realização deste trabalho, através da cessão da íntegra do plano
de manejo original, algumas bases digitais e diversas informações de caráter geral,
constatou-se em diversas situações, várias inconsistências em diversas demandas
de informações importantes para a presente pesquisa; como, por exemplo, a relação
dos trabalhos acadêmicos produzidos sobre o Parque e a tabulação regular dos
dados gerados na entrada principal.
Cabe destacar que embora haja projetos acadêmicos e de pesquisa
concluídos e em andamento no PNMNI, a Prefeitura e o Parque não dispõem deste
acervo bibliográfico completo e organizado. De fato o PNMNI, a exemplo de tantas
outras unidades de conservação, sofre com a falta de investimentos em recursos
humanos e materiais, mantendo, portanto, a característica presente em cada
administração que é a de não estabelecer ou proporcionar continuidade a um banco
de dados sólido e confiável sobre o histórico ambiental e administrativo da unidade.
Na pesquisa por bases digitais sobre o PNMNI que constam no Plano de
Manejo, constatou-se também que a Prefeitura, não possui estes dados na íntegra.
A documentação disponível relaciona as cartas em arquivos no formato PDF (não
possuem e disponibilizam bases georreferenciadas em Sistema de Informação
Geográfica – SIG). A empresa Habtec, contratada pela prefeitura de Nova Iguaçu
para elaboração do referido plano, foi contatada no sentido de se obter cópias das
115
bases cartográficas importantes, tais como: cartas topográficas, mapas de uso de
solo, vegetação, pedologia e geologia, mas declararam impossibilidade de
atendimento, devido a pendências com a Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu.
Quanto à topografia e uso de solo, as bases cedidas pela Prefeitura de Nova
Iguaçu foram conseguidas junto à Secretaria Municipal da Cidade – SEMCID, setor
de Geoprocessamento, porém não contemplam a área do Parque pertencente ao
município de Mesquita. Esta situação deixou caracterizada que se a direção for
desenvolver algum trabalho onde sejam necessárias as bases digitais do Parque
como um todo, poderá contar somente com documentação da área de Nova Iguaçu,
aproximadamente 60 % da área total, visto que aparentemente, a Prefeitura
Municipal de Mesquita também não dispõe tal acervo.
Posto as condições sobre a construção da base de dados obtida junto ao
PNMNI, os materiais e métodos utilizados na construção desta dissertação
prosseguiram com o seguinte ordenamento:
3.2 Revisão do conteúdo do Plano de Manejo referente ao Programa de Uso
Público.
Tomando como base o Plano de manejo do PNMNI e as atividades de campo,
foi possível caracterizar e reavaliar as zonas destinadas à visitação no interior da
área protegida, como atualmente ela é utilizada. Neste sentido, foi considerada a
seguinte ordem metodológica:
· Avaliação do perfil do visitante e padrão de dispersão.
· Levantamento das trilhas e identificação de atrativos
· Zoneamento ecoturístico e aplicação da metodologia ROS
· Conclusão e elaboração de sugestões ao PNMNI
Pretende-se, deste modo, confirmar sugestões previstas no plano de manejo
e oferecer subsídios para adequações e aprimoramentos da gestão da visitação,
116
consonantes com o momento atual, oferecendo assim bases para atualizações
subseqüentes do plano de manejo.
3.2.1 Avaliação do perfil do visitante e padrão de dispersão
Após a devida contextualização sobre o uso das zonas abertas à visitação,
procurou-se identificar o perfil do visitante, assim como seu padrão de dispersão
dentro da unidade como condição para se estabelecer a eficiência do zoneamento
territorial-ambiental vigente, paralelamente, por extrapolação, formar uma “imagem”
de como, de fato, os visitantes estão se organizando no interior da unidade e a
gestão dos mesmos. Dada a existência de uma grande malha de trilhas e caminhos
informais, o raciocínio lógico foi que a identificação de atrativos e atividades
(consolidadas e previstas) deve nortear o ordenamento de roteiros e, conseqüente, a
seleção de trilhas e acessos para tanto. Deste modo, será possível, a partir da
identificação dos atrativos e acessos, confirmar vocações e elaborar proposta para
zoneamento turístico e de lazer.
Inicialmente, a importância sobre o conhecimento do perfil do usuário e seus
padrões de fluxo e dispersão foi destacada através da elaboração de um sistema
onde foram categorizados os visitantes em autorizados27 e não autorizados,
identificados e não identificados e com acessos à áreas livres e restritas a visitação,
visto que o controle de entrada do PNMNI não é eficiente (figura 08). A abordagem
sistêmica teve como objetivo visualizar em linhas mais gerais, como poderia estar
ocorrendo à visitação dentro da unidade. Foi elaborado então um modelo de
Sistema Sequencial ou Encadeante onde foram considerados três parâmetros:
Visitantes: autorizados e não autorizados; Visitantes: Identificados e não
identificados e Acesso a zonas permitidas e não permitidas, segundo o Plano de
Manejo.
Este sistema é particularmente importante por que relaciona as situações
administrativas de dispersão de visitantes e aponta para a criação de políticas
27
Este controle têm por base a administração, podendo ser via funcionários da guarita, por exemplo.
117
diferenciadas a ser utilizadas como reguladores. Marques, J. S (1984) relaciona três
tipos de ação dos reguladores: Regulação dos níveis de massa e energia,
Distribuindo massa e/ou energia para os componentes do sistema, incluindo os
armazenadores e Determinando o modo e quantidade de saída de massa e energia
do sistema.
a
c
b
Legenda:
Armazenamento
Armazenamento
I
O
Input: Entrada de visitantes
Output: Saída de visitantes
!
Regulador a: Guarita de entrada / Sinalização
Regulador b: Entradas sem fiscalização e informais
Regulador c: Fiscalização / Sinalização
1
2
3
4
Visitantes e não visitantes com autorização.
Invasores, visitantes e não visitantes sem autorização.
Invasores, visitantes e não visitantes sem autorização não identificados.
Invasores, visitantes e não visitantes sem autorização identificados.
Z¹
Z²
Zonas permitidas à visitação: de uso especial, intensiva e extensiva.
Zonas não permitidas à visitação: primitiva, intangível.
Figura 08: Análise sistêmica de Visitação no PNMNI
Fonte: MELLO, Flávio A P. 2007
De fato, a criação destes reguladores repercute na qualidade do
monitoramento do fluxo de visitantes e, consequentemente na gestão das alterações
fisicas e funcionais que possam ocorrer no Parque, tais como erosão das trilhas, lixo,
depredação do patrimônio natural e construido, entre outros. Deste modo, para a
118
eficiência das ações da administração, estas alterações podem ser fortemente
influenciadas pela relação entre os visitantes autorizados e não autorizados e seu
padrão de distribuição na área do Parque, pois demandam de abordagens
diferenciadas.
Evidentemente, o monitoramento mais eficiente pode dimensionar com mais
precisão a relação entre os diferentes grupos de visitantes referidos, entretanto,
como ferramenta de análise geral, é possivel
se estabelecer elementos para
subsidiar a gestão da visitação. Hipotéticamente, se a administração começa a
receber denúncias o constata o aumento de visitantes não autorizados em áreas
restritas, esta pode pressupor que sua “caixa cinza” de invasores e visitantes não
autorizados (item 02 na figura 08) pode ser maior do que se supõe, assim como
seus impactos referentes. Desta forma, medidas diferenciadas devem ser tomadas,
como estabelecimento de eco-limites, aumento da fiscalização, fechamanto de
trilhas e atalhos não autorizados, entre outros.
Assim as ações envolvendo preservação do patrimonio natural ante a pressão
da visitação e qualidade dos atrativos e atividades oferecidas, deve ser capaz de
desenvolver políticas personalizadas para cada sub-sistema28, principalmente se
considerando que o Parque não possui um controle eficiente de entrada e saída de
visitantes. A existência de atividades ilegais de caçadores e passarinheiros e ainda
atividades de ecoturismo e de lazer sem o conhecimento da administração da área
protegida, principalmente na Pedra da Contenda e Rampa de Vôo Livre, denotam a
necessidade de se incorporar as categorias de visitantes nas politicas de gestão da
Unidade.
3.2.1.1 Uso de questionários e perguntas dirigidas
Para a identificação do perfil e da dispersão de usuários, optou-se pela
elaboração de questionários, onde a opção foi o modelo fechado, isto é, o
28
Sub-Sistemas: (A) Visitantes e não visitantes autorizados. (B) Visitantes e não visitantes não autorizados e
invasores. (C) Visitantes identificados. (D) Visitantes identificados em áreas permitidas. (E) Visitantes
identificados e não identificados em áreas proibidas.
119
entrevistado opina sobre dados pré-determinados, conforme preconizado por
Günther (2003), que estabelece o seguinte critério:
· Perguntas abertas: Para pesquisa inicial, exploratória, onde não se
conhece a abrangência ou variabilidade das possíveis respostas.
· Perguntas fechadas: Quando se conhece os tópicos geralmente
mencionados pelos entrevistados acerca de uma dada temática,
principalmente quando o universo amostral é grande e/ou o tempo de
coleta é pequeno.
Segundo o autor o uso de perguntas fechadas “mostra freqüentemente mais
respeito à opinião das pessoas, deixando-as classificar suas respostas como
positivas, negativas ou neutras, em vez do pesquisador fazer isso por elas”.
As pesquisas desenvolvidas através de questionários foram inicialmente:
· Pesquisa de perfil e dispersão de visitantes (internet e coleta de dados
em campo): Onde se buscou identificar o perfil geral do visitante
(gênero, faixa etária, ocupação profissional, motivação da visita,
destino no parque). Através da metodologia de Amostragem Casual ou
Aleatória Simples. Neste sentido, não houve critérios para a seleção
dos entrevistados, sendo aleatória, assim como nas coletas realizadas
durante a semana (duas vezes). Entretanto foram realizadas coletas
regulares aos sábados e domingos durante os períodos estipulados
das temporadas de verão e inverno. Quanto aos horários, buscou-se
coletar dados entre 10:00 horas e 13:00 horas, quando há maior afluxo
de visitantes.
· Pesquisa de perfil e dispersão de operadores de ecoturismo e lazer na
natureza – PNMNI (somente internet): Procurou identificar se o
operador era formal (autônomo com credenciamento ou empresa
legalmente
constituída),
sua
formação,
roteiros
operados,
se
desenvolvia atividade voluntária no PNMNI e opinião aberta sobre o
PNMNI.
120
Como complemento a estas duas pesquisas e após haver sido
selecionadas as trilhas a ser avaliadas, procedeu-se às seguintes avaliações:
· Valoração econômica dos serviços de condução de visitantes no
PNMNI (internet e coleta de dados em campo). Buscou-se identificar a
origem do visitante, tempo e meio de acesso, freqüência anual da
visita, tempo médio de permanência; aspectos ligados à percepção
ambiental e cognição ambiental e predisposição a se pagar pelos
serviços de condução de visitantes na Unidade.
A aplicação do questionário pretendeu auxiliar na oferta de novos
produtos para lazer quanto a avaliar o potencial de se instalar serviços
de condução de visitantes formais, como uma atividade econômica
consolidada. A sua montagem foi baseada nos questionários de
valoração de uso recreativo e ecoturístico desenvolvidos por MALTA,
(2008).
Para otimizar a coleta de dados e propiciar um canal adicional de
comunicação com o usuário do parque, foi encaminhado à direção do parque um
ofício para a elaboração voluntária de um site denominado “Amigos do Parque”
(anexo 01).
Cabe destacar que este site se consolidou como o site oficial da
unidade, onde foi estabelecida, além de informações gerais da unidade, uma seção
exclusiva para a administração. Neste site foram disponibilizadas as três pesquisas
referidas: Pesquisa de fluxo e dispersão de visitantes (anexo 02); Pesquisa de perfil
e dispersão de operadores de ecoturismo e lazer na natureza (anexo 03) e
Valoração econômica dos serviços de condução de visitantes no PNMNI (anexo 04).
O conteúdo destas pesquisas foi o mesmo a ser utilizado nos levantamentos
de campo pelo autor. Foram realizadas ainda chamadas no site de relacionamentos
ORKUT em comunidades afins ao PNMNI. Para identificação destas comunidades
procedeu-se a pesquisa utilizando a ferramenta de busca interna para Comunidades
do próprio site, utilizando as chaves: Parque Municipal + Nova Iguaçu, Serra do
Vulcão e Vulcão + Nova Iguaçu; visto serem as mais percebidas na mídia.
121
Com exceção das comunidades de vôo livre, foram enviadas mensagens para
as seis comunidades que possuem atividades de visitas ao PNMNI, notadamente a
região da rampa de vôo livre e Pedra da Contenda. Com chamada em 07/09/2007,
decorridos 120 dias, houve poucas manifestações. Credita-se a esta situação o fato
de que as comunidades encontradas no site de relacionamentos “Orkut”, embora
possam ter listados numerosos membros, muitos fazem parte de várias
comunidades similares e pela datação e volume das mensagens trocadas,
percebeu-se que provavelmente o acesso a estas comunidades parecem não ser
constante. Deste modo, confirma-se a pouca eficiência deste veículo para
mobilização em causas não tão importantes e relevantes para todos.
Como complemento às pesquisas de identificação do perfil do visitante, do
operador e o padrão de dispersão relacionado, foi criada a “Pesquisa de valoraçăo
econômica dos serviços de conduçăo de visitantes no PNMNI”. Este questionário,
um pouco mais completo, visou captar informações para uma possível valoração
contingente de serviços de condução em trilhas e perfil socioeconômico, de modo a
antever as possibilidades de sustentação da atividade profissional de guias de
ecoturismo (Anexo 4). Nesta pesquisa, além de se avaliar o custo de deslocamento,
predisposição para gastos com serviços de guias, foram introduzidas perguntas
quanto à oferta de alimentação e souvenirs no parque.
3.2.1.2
Definição da base amostral
Os padrões de dispersão dos visitantes são fortemente influenciados pelo seu
perfil (faixa etária, nível social, motivação, disponibilidade financeira, sazonalidade,
clima, acessibilidade, entre outros). No PNMNI, há controle de entrada de visitantes,
porém restrito à entrada principal. Anteriormente, até inicio de 200629, havia um
apontamento, irregular, de dados referentes ao gênero, idade e município de origem
dos visitantes; porém devido a constantes dificuldades com recursos humanos e
remanejamento de funcionários, o acompanhamento da visitação se restringe
atualmente à contagem pouco criteriosa através de uma roleta instalada na guarita.
29
Conforme informação de funcionários da portaria.
122
Nesta contagem, por exemplo, não são computados os praticantes de
caminhadas matinais, que constituem um grupo regular e expressivo de usuários do
Parque e muitos estendem suas atividades físicas até o Casarão. Neste sentido, o
ato de passar na roleta tem sido utilizado pelos agentes de portaria, mais para
orientação e fiscalização dos visitantes do que para controle de lotação. A ausência
de dados exatos para o estabelecimento da base amostral limitou as projeções e
análises estatísticas.
De fato, para o adequado conhecimento do perfil de visitantes e de seu
padrão de dispersão (como os visitantes ocupam os diferentes atrativos, que vias
utilizam para tal, que atividades desenvolvem...), se faria necessário, a princípio, um
controle mais eficaz de entradas e saídas. Assim, mesmo metodologias mais
acessíveis, como Amostragem Casual ou Aleatória Simples e aquelas um pouco
mais elaboradas, como a Amostragem Proporcional Estratificada - onde é possível
identificar não só a composição média dos usuários e, sobretudo, coletar dados
aptos para a criação de estratos, de modo a se poder aferir características próprias
de cada subgrupo, conforme preconizada por Tiboni (2002:22-23) - seriam mais
factíveis.
Dada a inconsistência dos dados, optou-se por definir duas faixas no
calendário, que pudessem colaborar no esforço do Parque em combater a
sazonalidade e estimular outras atividades. Sugeriu-se à administração que se
colocasse no calendário duas temporadas com atividades predefinidas no calendário
de eventos: Uma de verão, que se estende de dezembro a fevereiro do ano
subseqüente e outra de inverno (maio a junho, temporada de montanhismo no
calendário nacional).
Segundo dados coletados junto à portaria, o volume anual de visitantes gira
em torno de 30.000 usuários, principalmente se considerando que em dias de muito
calor é possível registrar cifras em torno de 1.200 usuários/dia aos fins de semana.
Face a estas condições, optou-se por admitir algo em torno de 1% do universo
amostral, como indicativo de “tendência”.
123
A amostra ficou estipulada em 184 questionários, de um universo presumível
de 18.393 usuários, incluindo a totalidade dos dados das temporadas conforme
mostra o quadro 06:
Visitantes
registrados na
guarita do PNMNI
Temporada de
referência
Tamanho da
amostra (1%)
Questionários realizados
01
02
03
Temporada de verão
Dez /2007 a Fev/2008
12.563
126
125 (49)
0
0
Temporada de inverno
Mai - Jul/2008
05.830
058
058 (17)
0
100 (33)
Total:
18.393
184
183 (86)
0
100
Legenda
01:
02:
03:
(n):
Questionário Perfil e dispersão de visitantes
Questionário Perfil e dispersão de operadores de ecoturismo e lazer na natureza
Questionário Valoração econômica dos serviços de condução de visitantes no
PNMNI
Nº de questionários respondidos diretamente no site www.pmni.infotrilhas.com
Quadro 06 Cálculo da base amostral para realização dos questionários de Dispersão de visitantes no PNMNI
Fonte: Mello, Flávio A. P. (2008)
Deve-se salientar que o fato de não haver dados referentes ao “Questionário
Perfil e dispersão de operadores de ecoturismo e lazer na natureza” se deve à
postura pouco colaborativa dos operadores com os quais houve contato. A
percepção constatada é de que o questionário foi interpretado como uma tentativa
de identificação, e, conseqüentemente controle, temor este justificado pelo fato de
que a maioria contada não dispunha de licenciamento ou capacitação técnica
evidente para o exercício da atividade. Esta situação deve ser considerada pela
administração do Parque a partir do momento em que ordenar o uso público de para
ecoturismo e práticas de lazer de aventura.
3.2.2 Coletas de dados informais.
Como estratégia complementar para a identificação do perfil do visitante, mas
em caráter geral, foram realizadas observações pessoais, entrevistas informais com
usuários durante visitas ao Parque ou nos passeios conduzidos através do Projeto
“Amigo do parque conhece o Parque”, funcionários do parque na guarita de entrada
e depoimentos da direção da Unidade.
124
A escolha por este método complementar ocorreu ao se perceber que havia
um grande banco de dados informais no coletivo relacionado ao Parque e que
poderia ser abordado com mais liberdade e de maneira mais informal, oferecendo
informações valiosas sobre aspectos gerais do Parque.
3.3 Ordenamento da malha de trilhas
Para o ordenamento da malha de trilhas, isto é, para estabelecer uma seleção
de trilhas existentes, atalhos, picadas e demais vias que pudessem ser incorporadas
em um conjunto de caminhos que pudessem contribuir para a orientação do fluxo de
visitantes dentro do PNMNI, procedeu-se com as seguintes etapas:
3.3.1 Levantamento de traçado
Concomitantemente aos levantamentos preliminares do perfil dos visitantes e
padrões de dispersão, foi conduzido o levantamento de atrativos, trilhas e caminhos
que pudessem ser utilizados na confecção de roteiros que deverão orientar o PNMNI
a reconhecer atrativos já consolidados pelo uso informal e suas vias de acesso, e
conseqüentemente, lançar as bases para proposta de zoneamento turístico e de
lazer. O PNMNI não dispõe das bases digitais da malha de trilhas existentes. Seus
registros incluem Estrada da Cachoeira e referências da Trilha do Pau Pereira e
Trilha do Mendanha que faz ligação com o Parque Natural Municipal do Mendanha.
A administração conhece as trilhas do Mata-Fome, da Contenda e do Gericinó
e do Mendanha, sendo que estas duas últimas e a Trilha do Pau da Letra estão
próximas à Zona Intangível e Primitiva e por este motivo, não foram consideradas
neste levantamento diagnóstico. A presente dissertação procurou evitar a “cunha”30
que a Estrada da Cachoeira faz na Zona primitiva.
30
Coloca-se a expressão “cunha” por que a Estrada da Cachoeira ao atingir as Ruínas do Clube Dom Felipe,
quase que literalmente divide a Zona primitiva em duas, evidenciado o fenômeno de Fragmentação florestal já
comentado neste trabalho.
125
Destaca-se que o Plano de Manejo do PNMNI já prevê que as visitas após o
Poço da Natureza, ponto mais extremo da área de uso intensivo, devem ser
acompanhadas por guias autorizados pela unidade. Assim, buscou-se orientar o
levantamento de traçado para as áreas da zona de Uso extensivo, cuja vegetação
apresentasse menor vulnerabilidade ao aumento da visitação.
Observou-se ainda que nesta fase de desenvolvimento do PNMNI, os
atrativos tendem a se concentrar a noroeste e nordeste do eixo Guarita - Casarão,
mais especificamente na borda atendida pela estrada do Tatu-Gamela e a Pedra da
Contenda - Varginha - Vale do Levi. Estas por sua vez, coincidem com as áreas cuja
vegetação se compunha basicamente de pastagens degradadas e possuíam maior
potencial para caminhadas com grandes mirantes e em espaços abertos conforme
fotografia 06:
Pedra da
Contenda
Maciço do Tinguá
(ao fundo)
Varginha ( a “cratera” do
Vulcão de Nova Iguaçu)
Fotografia 06: Panorâmica da Varginha (a “cratera” do vulcão de Nova Iguaçu-RJ)
Foto de Flávio A. P. Mello. 02/06/2008
Cabe destacar que o Vale do Mata-fome, com a trilha do mesmo nome, é
uma importante ligação da Estrada da Cachoeira com a Estrada do Tatu-Gamela.
Esta trilhas esta localizada a aproximadamente 100 metros do Mirante do Alto, mas
é um tanto ignorada pela administração, tanto para as visitas guiadas, quanto para
ações de fiscalização. Na figura 09, é demonstrado às áreas supracitadas e a
fragmentação induzida pela Estrada da Cachoeira.
126
Legenda
Zona preferencial
para “Trekkers”
01
Complexo do Vulcão:
Pedra da Contenda Varginha - Vale do Levi
02
Acesso è Rampa de
Vôo Livre: Estrada do
Tatu-Gamela
03
Vale do Mata-Fome
01
02
03
“Cunha” da Estrada
da Cachoeira
Legenda do Mapa base
Zona de Uso Especial
Zona de Uso intensivo
Zona de Recuperação
Zona de Uso extensivo
Zona primitiva
Zona Intangível
Figura 09: Zoneamento territorial-ambiental destacando a fragmentação induzida pela zona de uso extensivo (como uma “Cunha”) que se projeta na zona primitiva e áreas com
potencial para uso de trekkers
Fonte: Zoneamento Territorial e Ambiental do Parque – Mapa Nº HAB-NIG-D10/98. Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu – Vs Resumida –
SEMUAM, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo 2001 p. 67.
Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
127
Assim sendo, foi iniciado o reconhecimento em campo das trilhas mais
utilizadas e a identificação de outras entradas e pontos de interesse, utilizando
aparelhos de GPS (Global Positioning System – Sistema de Posicionamento Global)
de navegação manual das marcas Garmin (modelos 12 XL e GPSmap 76S). Devido
à geografia local e a cobertura vegetal ser menos densa na maior parte das trilhas
encontradas nas áreas de uso especial, intensivo e extensivo, não foram observadas
limitações como perda de sinal provocada por obstáculos naturais (afloramento
rochoso, copas das árvores na área de floresta), principalmente por terem sido
escolhidos dias com poucas nuvens e não existirem edificações, torres de
eletricidade, por exemplo, que poderiam comprometer a recepção dos sinais de
modo mais significativo.
De modo geral, a degradação considerável do sinal provocado pelo EPE (erro
de efeméride) oscilou entre 3 m a 10 m de erro, o que de certa forma não dificultou o
mapeamento mais detalhado, na carta topográfica (1:10.000). Para otimizar a
eficiência da ferramenta de GPS com a cartografia digital a ser trabalhada em
Sistema de Informação Geográfica, foi realizada a superposição da base gerada
com imagens do Google Earth. Para a seleção da melhor opção de traçado,
considerou-se o estado de conservação dos caminhos quanto a erosão e
declividade, incluindo a possibilidade de se chegar à Pedreira Vigné, da qual se
avista a cidade de Nova Iguaçu, oferecendo um belo contraste entre três aspectos
da ocupação: a unidade de conservação representada pelo PNMNI, a Pedreira
Vigné, denotando a exploração econômica do recurso natural e as transformações
na paisagem pela ocupação urbana. No Vale do Levi, entretanto, a porção da Trilha
da Varginha, que se estende da Pedreira desativada São José até a Praça do Boi,
início da Varginha propriamente dita, dois aspectos condicionantes interferiam na
definição traçado:
· O seu terço final, praticamente se localiza as margens de um riacho
temporário e muitas vezes segue por seu curso. Próximo a seu final
cruza uma nascente, com pouco volume de água. Assim, considerando
a legislação ambiental vigente acerca dos cursos d’água e nascentes,
optou-se por deslocar o traçado para as encostas, mantendo-se o
caminho original como uma trilha de serviço.
128
· Para a elaboração do novo traçado, a seleção do caminho mais
adequado deveria ser observada entre uma rede de caminhos que
cruzam a encosta. Para tanto se observou como critério de seleção, a
constatação de eventos erosivos e a declividade de percurso,(sendo
considerados aceitáveis o gradiente entre 0° e 15°.
A multiplicidade de caminhos encontrados são acessos construídos pelo
pisoteio de bovinos em seu deslocamento a procura de pastagens, sendo que
alguns são utilizados rotineiramente por usuários do Parque. Cabe frisar que embora
o PNMNI tenha sua situação fundiária resolvida, o mesmo não possui fiscalização
mais intensiva para coibir o transito destes animais e também não possui eco-limites
implantados (como cercas) o que facilita a invasão de animais de propriedades
próximas e queimadas, embora muitas sejam causadas por balões. Entretanto, na
ocasião do levantamento das trilhas, houve um grande incêndio nas áreas de Vale
do Levi e da Varginha, que expôs os caminhos acima mencionados, facilitando de
certa forma a visualização dos traçados que deveriam ser selecionados.
Para a seleção do caminho mais adequado ao uso como trilha turística, foram
estabelecidos alguns critérios para a seleção do mesmo e depois ser procedido o
registro com o uso do GPS. Na avaliação visual, foi identificado que muitas das
“trilhas” dos bois coalescem em trilhas mais regulares, que por sua vez tendem a
manter por grandes extensões, gradientes em torno de 5 a 15% (positivas e
negativas). Na prática, os bois, diferentemente de muitos usuários de unidades de
conservação, não gostam de atalhos e tendem a obedecer as curvas de nível em
seu deslocamento. Muitos caminhos, de fato, se entrecruzam e muitas vezes
terminam abruptamente. Assim, optou-se então pela seleção prévia de pontos de
referencia chaves e em seguida a avaliação das melhores opções de caminhos,
buscando identificar os segmentos que fossem mais regulares, mantivessem em sua
extensão declividades não superior a 15% e ainda, que fosse possível interligá-los
sem grandes obras de construção ou manutenção.
Com estes parâmetros, no levantamento de campo foram selecionados dois
caminhos, que facilmente se confundiam nas vertentes analisadas e dificultava a
aproximação ao ponto de referência estabelecido no mirante localizado próximo a
129
quatro mangueiras antigas e dispostas em linha, ao lado de afloramento rochoso
sobre o qual se localizava a casa do antigo morador de nome Levi, do qual se
estabeleceu a toponímia para este vale sem identificação no plano de manejo ou em
consultas com alguns moradores antigos. Para facilitar a visualização dos traçados
escolhidos, foram confeccionadas bandeirolas, presas a varas de bambu (1,5 m),
feitas de saco de ração canina com aproximadamente 0,40 cm de comprimento e
colocadas na trilha para análise visual desde o ponto de início ao ponto final (com
eqüidistância média de 50 a 75 metros), conforme pode ser observada nas
fotografias 07 e 08:
Fotografia 07: Detalhe da bandeira
Fotografia 08: Marcação da Trilha com visualização das bandeiras
Localização e seleção de trilhas com sinalização alternativa
Flávio A. P. Mello (2007). Local: Vale do Levi / PNMNI.
Havia sido cogitado a possibilidade de antecipar o registro definitivo com o
GPS, identificando o melhor traçado a partir das curvas de nível; entretanto se
observou que as duas “trilhas” percorriam uma encosta com inclinação média de 35
a 50° e o EPE (erro de efeméride) oscilou entre 3 m a 10 m de erro, conforme
referido; margem de erro suficiente para comprometer o traçado feito em gabinete,
daí a aplicação do método de sinalização alternativa em campo. Como avaliação
complementar, observou-se a sinalização a partir da vertente oposta, assim foi
possível identificar o melhor traçado visualmente a partir da sinalização estabelecida.
Salienta-se que além dos critérios de uso histórico, acessibilidade e presença
de atrativos já consolidados ou potenciais; o levantamento dos traçados para a
seleção das trilhas foi dirigido de modo a possibilitar a criação de pelo menos uma
trilha de grande percurso, face o público a ser beneficiado, a se denominar Circular
Externa, conforme proposta estabelecida no Parque Nacional da Tijuca durante a
130
gestão de Pedro da Cunha e Menezes, Diretor-Executivo do Parque Nacional da
Tijuca (1999 – 2000). Para a estruturação da “Grande Trilha Circular do Parque
Nacional da Tijuca” foram utilizadas trilhas e picadas existentes, com as quais se
compôs duas trilhas circulares concêntricas: a externa, “Major Archer” (com cerca de
35 km) e a interna, “Castro Maya” (com cerca de 15 km); esta última a uma altitude
inferior à primeira e desenhada de modo a incorporar em seu traçado grutas, prédios
históricos, ruínas e restaurantes.
3.3.2 Identificação de atrativos
Para o presente trabalho, a identificação dos atrativos se baseou no registro
de atrativos já consolidados, a exceção de proposições de mirantes que foram
sugeridos a partir de observações de campo durante o levantamento da malha de
trilhas. Destaca-se que principalmente no eixo do Rio Dona Eugênia, a exceção do
Poço do Escorrega, das Cobras e do Casarão, as toponímias atualmente existentes
para os poços foram criadas por funcionários de administrações anteriores ou
alteraram nomes existentes, como é o caso do Poço da Morte que passou a se
chamar de Poço da natureza e aproximadamente quatro anos para cá.
3.3.3 Zoneamento Recreativo.
Identificadas e selecionadas as principais trilhas a ser trabalhadas, procurouse estabelecer regiões geográficas, nas quais fossem diagnosticadas atividades
instaladas ou potenciais. Em termos de gestão, o tratamento diferenciado para
regiões com aptidões diferenciadas pode definir o sucesso da gestão, dos
investimentos e conservação do patrimônio natural e construído. Lugares com
identidades bem definidas tendem a atrair perfis específicos de visitantes.
Deve-se salientar que dentre as observações da administração, o sobreuso
de alguns atrativos (notadamente os poços e cachoeiras até o Casarão) por grande
parte dos usuários deve-se a pouca oferta de locais e atividades diferenciadas.
Considerou-se para tanto, o Zoneamento Territorial e ambiental do PNMNI como
131
base para o estabelecimento de zoneamento turístico, de modo a procurar atender
as demandas da Unidade. Para fins operacionais, procurou-se identificar estas
zonas como subsistemas, de acordo com os parâmetros de Campbell (1958),
referidos por Christofoletti (1979): como a proximidade espacial, a similaridade,
objetivos comuns e padronagem distinta ou reconhecível de suas unidades. Neste
sentido, para avaliar cada zona como um subsistema, foram utilizadas as feições
geomorfológicas dos vales como unidades de identificação e caracterizadas através
da metodologia ROS, cujos objetivos são:
· Identificar, delinear e classificar as áreas em classes de oportunidade
de recreação, de acordo com seu estado de natureza, grau de
isolamento e experiência de visitação esperada;
· Prover informações sobre as oportunidades de recreação existentes
para administradores, de modo a auxiliá-los nas tomadas de decisão
referentes ao uso da terra, desenvolvimento dos recursos e ações de
manejo.
O ROS caracteriza as oportunidades de recreação como a combinação de
ambientes e experiências prováveis, categorizando-as em seis classes, definidas por
critérios como grau de modificação do meio, acessibilidade, oportunidades de
interação social e controles administrativos. Salienta-se que esta classificação é
hipotética, amplamente subjetiva, mas que estabelece padrões explícitos para cada
uma delas. Estas categorias são classificadas em Área primitiva, Semi-primitiva não
motorizada, Semi-primitiva motorizada, Natural com vias de transporte, Rural e
Urbana. Esquematicamente pode-se caracterizar como a figura 10:
Figura 10 Oportunidades recreativas a partir da modificação do meio.
Fonte: Mello, 2007. In Palestra: Capacidade de carga aplicada ao Ecoturismo. I Ciclo de Palestras sobre
ecoturismo e Conservação da Natureza. Secretaria Municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro (Abr/ 2007).
132
O Quadro 07 a seguir descreve as características de cada classe recreativa,
de acordo com a metodologia ROS:
Quadro 07: ROS – Classes de Oportunidades Recreativas segundo o ROS
Fonte. Graefe et al. apud Hauff, 2000. Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
133
4.0 RESULTADOS E CONTRIBUIÇÕES
Visando atender os objetivos definidos, vários resultados foram obtidos,
sendo que alguns foram imediatamente absorvidos pela administração da Unidade.
De fato, considerando trabalhos acadêmicos realizados que foram relacionados
como projetos de pesquisas, dissertações, artigos técnicos e outros, o ineditismo
desta abordagem, focado em uma necessidade real e imediata da gestão, somado
ao estreitamento dos contatos com a administração e funcionários, possibilitou a
criação de várias oportunidades para se testar hipóteses e consolidar estratégias de
gestão, muitas previstas mas não operadas. Desta forma, foram gerados 4 grupos
de produtos, alguns já aplicados, conforme referido anteriormente, e outros que
poderão ser utilizados pela administração do PNMNI futuramente, que estão
resumidos no quadro 08:
Área
Descrição
Visitantes
Perfil do visitante
Padrão de dispersão
Ordenamento
da malha de
trilhas
Trilhas e atrativos selecionados
Roteiros sugeridos
Valoração econômica dos serviços de condução
Zoneamento
Alteração do zoneamento territorial ambiental
Zoneamento de oportunidades de lazer
Ordenamento das ambiências da Zona de uso
intensivo (até o Casarão)
Apoio à
Gestão
Site
Voluntariado
Operação
Aplicação
Imediata
Subsídio
Projetos
Mutirões
Temporada de Verão
Temporada de Inverno (de montanhismo)
Pesquisa permanente de perfil e dispersão
Observações:
A coluna Aplicação diz respeito ao grau de interação com a administração do parque, onde “em operação”
relaciona os produtos e sugestões já em andamento; “imediata”, item disponível para aplicação e “subsídio”
refere informação que pode auxiliar na compreensão do assunto em questão.
O subitem “Gestão” relaciona duas condições: “imediata” onde a UC pode aplicar já ao tomar conhecimento mais
detalhado. A condição “subsídio” alerta que a informação deve ser utilizada para estudos complementares ou
aprofundamentos da temática.
Quadro 08: Produtos gerados na dissertação
Flávio A P Mello 2008
A seguir são descritas os produtos e as principais proposições desta
dissertação
134
4.1 Caracterização e reavaliação das vias de visitação do PNMNI
Entende-se que o Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu é uma unidade
eminentemente urbana, com 45% de sua área (aproximadamente 462,9 hectares)
aberta à visitação. Destaca-se que aproximadamente 47,6 hectares (4,7%) é
dedicada à visitação intensiva e 394,1 ha (38,3% de sua área total) aberta à
visitação extensiva, conforme discriminado no quadro 09:
Discriminação
Área (ha)
%
Observações gerais
59,5
-
total:
59,5
-
Faixa de entrada do Parque, envolve a Represa
Epaminondas Ramos, Pedreira São José e área ao
longo do Córrego da represa até a cota 530 m.
Complementa a área de uso intensivo, embora não
faça da área oficial do Parque
Zona de Uso Especial
05,7
0,7
Zona de Uso Intensivo
41,9
4,0
sub-total:
47,6
4,7
Zona de Uso Extensivo
394,1
38,3
Zona de Recuperação
21,2
2,0
Áreas degradadas com solos expostos localizadas
nas zonas de uso Intensivo e Extensivo. Oriundas
de antigos sítios antes da formação do PNMNI
Total de área aberta à
visitação*:
522,4
48,0
Inclui área de relevante interesse para manejo da
unidade
Zona Primitiva
384,1
37,3
Zona Intangível
182,8
17,7
566,9
52,0
Zona de relevante
interesse para manejo
da UC
Total de área de
visitação controlada
Área total da unidade:
Faixa ao longo do Rio Dona Eugênia, a partir da
Represa Epaminondas Ramos até a Sede.
Compreende áreas ao longo do Rio Dona Eugênia,
a partir da Sede até arredores do Casarão.
Envolve as áreas mais antropisadas, principalmente
com capoeiras e pastagens degradadas. Estendese do Casarão ao Clube Dom Felipe e ocupa os
vales do Levi e Varginha.
Área com alto grau de conservação, envolve a Zona
Intangível. A área de uso extensivo se projeta
fortemente fragmentando esta massa florestal em
duas partes.
Matas preservadas de cotas mais elevadas. É um
núcleo envolvido pela Zona primitiva
1.089,3 ha
Quadro 09: Quadro analítico de áreas abertas à visitação no Zoneamento territorial e ambiental do PNMNI
Fonte: Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu – Versão Resumida – SEMUAM, Secretaria
Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo 2001:77.
Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
Dado o pouco desenvolvimento da Zona de Uso Extensivo, principalmente no
que tange as atividades de caminhadas e ecoturismo - apesar do potencial
paisagístico ser bastante expressivo – foi possível constatar que o PNMNI possui
135
uma área extremamente significativa para o desenvolvimento destas atividades, pois
são 522,4 hectares disponíveis para visitação em áreas de relevo acidentado, com
vários riachos, matacões e inúmeras possibilidades de lugares e mirantes.
Cabe observar que embora o plano de manejo conte com o zoneamento
territorial-ambiental, foi constatado, através de entrevistas e depoimentos coletados
junto à administração da UC, que a maioria dos programas de manejo para a
implantação e operação do PNMNI ainda se encontram em fase muito preliminar e
alguns não foram sequer iniciados. Dentre eles, destaca-se o “Programa de Uso
Público do Parque” que afeta diretamente a gestão da visitação, através dos
subprogramas de Ecoturismo, Interpretação e Informação Ambiental e de Recreação
e Lazer. Nos quadros 10, 11, 12 são relacionadas as principais atividades previstas
para cada subprograma referido e comentários atualizados durante o levantamento
de dados para este trabalho:
Atividades previstas
·
Mapeamento de atrativos ao
longo da estrada da cachoeira
até as Ruínas do Clube de
Campo Dom Felipe
·
Estabelecer de caminhadas
guiadas até as Ruínas do
Clube de Campo Dom Felipe
Comentários
Não há conhecimento de levantamento formal dos
atrativos. O estudo mais próximo ficou restrito da Guarita
ao Casarão (Diagnóstico Geral do Geoparque Municipal
de Nova Iguaçu. Elaborado pela Equipe do LAB LET –
Laboratório de Lazer e Espaços Turísticos. PROARQ –
Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo. Universidade Federal do Rio
de Janeiro. P 07 - Setembro /outubro de 2004).
Quadro 10: Programa de Uso Público do Parque - Subprograma Ecoturismo
Fonte: Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu – Versão Resumida – SEMUAM, Secretaria
Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo 2001:74. Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
Atividades previstas
Comentários
Implantação do Centro de Visitantes
com várias atividades previstas como:
· Exposições permanentes e
temporárias,
· Serviços de visitas guiadas,
· Projetos interpretativos,
· Construção de quiosques para
atendimento complementar ao
visitante.
Em fase de Licitação. Implantação prevista para 2009.
Verba oriunda de projeto encaminhado ao Fundo Estadual
do Meio Ambiente
Quadro 11: Programa de Uso Público do Parque - Subprograma Interpretação e Informação Ambiental
Fonte: Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu – Versão Resumida – SEMUAM, Secretaria
Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo 2001: 72-74. Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
.
136
Atividades previstas
Comentários
Implantação de sistema de cobrança
Não implantado
Implantação e controle do nº de
visitantes em três áreas de
piquenique
Implantada apenas a área perto da Ponte da Curva que se
encontra desativada.
Padronizar pontos de venda para
lanches e produtos essenciais na
zona de uso intensivo
Não implantados. Atualmente funciona informalmente um
pequeno quiosque não padronizado nos dias de maior
afluxo de visitantes.
Pedreira Desativada São José
· Estabelecer 04 vias de rapel
· Palco para shows e eventos
A Pedreira havia sido concebida também como possível
área de estacionamento, contudo as administrações
optaram por não sacrificar o local e consolidá-lo como
espaço multiuso, dado a facilidade de acesso e deficiência
de espaços amplos para eventos no Parque.
Foi construído um pequeno palco e a capoeira que se
estabeleceu marginalmente aos pés dos paredões da
Pedreira compuseram uma paisagem que vêm sendo
utilizada para práticas de Educação Ambiental, Observação
de Aves, área de lazer, área de eventos oficiais da
Unidade. Foram abertas informalmente duas vias de rapel,
mas a principal foi fechada por problemas erosivos.
Trilhas interpretativas
· Identificação e implantação
de duas trilhas autoguiadas
na zona de uso intensivo
O DRM, através do Projeto Caminhos Geológicos implantou
uma trilha interpretativa sinalizando 6 pontos com atrativos
geológicos. Algumas placas foram retiradas e os guias,
tanto do parque, quanto informais, não utilizam os atrativos
e informações da sinalização
Foi implantada a trilha do Pau Pereira, para visitas guiadas
e autoguiadas, mas não possuem detalhamento
interpretativo. A trilha da Pedra da Contenda, como
concebida, não foi implantada. A trilha da Contenda
contemplada neste trabalho refere-se à trilha já consolidada
historicamente pela comunidade local (trilha do Quilombo).
A trilha do Pau da Letra, pela distância e localização
(próximo a zona primitiva) não tem sido usada pela
administração que desconhece formalmente sua situação.
Possui a mesma situação da trilha do Pau da Letra, porém
deve ser reavaliada devido à criação da APA de Mesquita e
Parque Natural Municipal de Nilópolis, cuja prefeitura
conseguiu uma concessão do Ministério do Exército.
Trilhas para passeios guiados
(Identificação e implantação de duas
trilhas guiadas e interpretadas na
zona de uso intensivo) Indicações:
· Trilha da Pedra da Contenda
· Trilha do Pau da Letra
Proibição do acesso à trilha do
Gericinó (acessa o campo de
treinamento
do
Ministério
do
Exército)
Construção do Mirante para o Vale
do Rio Dona Eugênia e Cachoeira
Véu da Noiva
Foram construídos 03 mirantes, um na Estr. da Cachoeira
pouco antes do Poço da Natureza (estrutura de apoio em
madeira foi retirada), um na trilha do Pau Pereira (estrutura
de apoio em madeira/bambu foi retirada) e outro, pequeno,
em uma ramificação com vista para a cachoeira Véu da
Noiva, ainda operacional.
Cursos para capacitação de Guias
locais e reciclagens regulares
Não implantados. Visitas guiadas do parque são exercidas
por 02 funcionários e por guias informais.
Casarão:
Visitantes
O Casarão será reformado como centro de visitantes a
partir de 2009 graças à verba do Fundo Estadual de Meio
Ambiente. Estão previstos além da reforma do Casarão,
reforma da sede, melhorias na Estrada da Cachoeira no
trecho Guarita – Casarão, incluindo reformas nas pontes da
Curva e Casarão e áreas de apoio ao usuário próximo ao
complexo Poço das Cobras-Casarão.
Implantar
Centro
de
Quadro 12: Programa de Uso Público do Parque - Subprograma Recreação e Lazer
Fonte: Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu – Versão Resumida – SEMUAM, Secretaria
Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo 2001: 70-72. Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
137
Na avaliação dos quadros 10, 11 e 12, observa-se que o planejamento da
visitação foi concentrado na Estrada da Cachoeira, devido à acessibilidade e
concentração dos atrativos mais importantes, atendendo ao perfil de visitação
intensiva, cuja motivação principal é o lazer nos poços do rio Dona Eugênia e
caminhadas curtas ao longo da Estrada da Cachoeira até o Casarão, sendo que
algumas são atividades matinais de caminhada e corrida pela população de bairros
próximos de Mesquita e Nova Iguaçu, ocorrência que já era percebido já na época
de sua criação. É importante destacar que desde a criação do Parque (ano 1998), a
referência ao “Vulcão de Nova Iguaçu” já era reconhecida pela mídia e população
local como um importante atrativo. Tendo sido usado regularmente tanto por guias
informais, quanto pelo próprio poder público como um chamariz para atividades
“turísticas”.
Não se observou registro, ou mesmo uma estruturação preliminar no plano de
manejo vigente, para o desenvolvimento de atividades que envolvam caminhadas
mais longas e o aproveitamento de aspectos cênicos mais relevantes. Estes
atrativos estão mais concentrados na região da Varginha (área da suposta cratera
do “vulcão” de Nova Iguaçu), Pedra da Contenda e as paisagens do Vale do Levi,
assim como a Rampa de Vôo Livre, que embora tenha seu acesso principal através
da estrada do Tatu-Gamela, fora dos PNMNI, está localizada na unidade, tendo sido
consolidada como atrativo para trekkers, além de sua importância como rampa de
vôo livre. Destaca-se que a administração não possui controle mais efetivo do uso
da Rampa quanto ao seu uso e acesso.
De fato, as trilhas privilegiadas no referido plano de manejo se concentram no
interior do Parque, a uma distância de aproximadamente 4,5 km da guarita, próximo
das áreas mais preservadas do Maciço do Gericinó-Mendanha. Uma das
justificativas para esta atenção se deve as trilhas do Gericinó e Mendanha, que
poderiam sugerir travessias para o Campo de Treinamento do Gericinó e para o
Parque Natural Municipal do Mendanha, respectivamente. Como exceção, foi
construída a trilha do Pau Pereira, localizada na Zona de Uso Intensivo, com
aproximadamente 600 metros e que descreve um arco entre o Casarão e uma
entrada logo após a Ponte da Curva. Contudo, mesmo com a ausência de
estruturação da Zona de Uso Extensivo, a popularização do ecoturismo e das
138
atividades ao ar livre e a constante exposição do PNMNI na mídia, estimularam o
crescimento da demanda e apropriação informal de lugares pelos novos visitantes,
em áreas sem planejamento previsto no plano de manejo vigente, um tanto à revelia
da administração da UC.
Sem a devida incorporação administrativa destes novos territórios por parte
do PNMNI, a sub-utilização gerou alguns impactos, conforme pode ser constatado
nos levantamentos de campo, como por exemplo, o comprometimento de flora, a
erosão de encostas por prática de rapel na Pedra do Quilombo (da Contenda) e na
Pedreira desativada e a deterioração de trilhas, como as trilhas da Pedreira e Matafome, Levi e Varginha (fotografias 09 e 10). Salienta-se ainda a existência da caça
de pássaros na área da Varginha e partes altas do PNMNI e a presença de gado
(Varginha e Vale do Levi), oriundos de algumas poucas e pequenas propriedades do
entorno, os quais contribuem para a manutenção de um ciclo de queimadas para
renovação de pastagens dentro da unidade.
Fotografia 09: Erosão e queimadas no Vale do Levi
Flávio A. P. Mello. 09/2007
Fotografia 10: Lixo na Trilha da Varginha
Flávio A. P. Mello.09/2007
4.2 Caracterização do perfil do visitante e seu padrão de dispersão.
É de senso comum, entre os funcionários da administração do PNMNI, que a
grande maioria dos visitantes e usuários utiliza a unidade basicamente para lazer
através de banhos nos poços do Rio Dona Eugênia, cuja sazonalidade encontra seu
pico no verão e em feriados de dias quentes. Sabe-se que as atividades de
caminhadas propriamente ditas, tendem a se concentrar na Estrada da Cachoeira,
entre a Guarita e o Casarão, havendo também uma menor movimentação até o
139
atalho que dá acesso à cachoeira Véu da Noiva em sua porção superior (a “Janela
do Céu’) e poço da Natureza, a aproximadamente 800 metros após Casarão.
Já a utilização das trilhas para caminhadas e ecoturismo é inexpressiva,
conforme relatos e observações realizadas durante a coleta de dados nesta unidade
de conservação. Embora haja guias informais - os quais de modo geral não são
habilitados legalmente, estes tendem a ter como atividades de maior atenção o rapel
desenvolvido na Pedra do Quilombo (ou Contenda) e Pedreira desativada São José
como “proposta de turismo de aventura”. Outras características locais que de fato
podem abrir mais possibilidades de mercado, tanto em termos de produtos quanto
de consumidores, não são exploradas.
Desta maneira, o conhecimento do perfil médio do visitante e seu padrão de
dispersão é uma condição essencial para a gestão de unidades de conservação
abertas ao público, pois permite antever através do padrão comportamental frente ao
uso dos recursos naturais, apontar tendências de territorializações. A discriminação
de classes de usuários com maior detalhamento, contudo, permite ajustes com mais
eficiência e em algumas situações pode ser prevista a formação de lugares,
conforme aumenta o fluxo de visitantes.
Entretanto, é comum, na ausência de recursos humanos e materiais, que o
gestor opte por concentrar o maior volume de visitantes em áreas já consolidadas e
de fácil acesso por uma questão operacional. Neste sentido, a UC estimula a
massificação de parte de seu patrimônio de lazer e ecoturístico, por conseqüência e
não por opção; mesmo ciente de que o excesso de visitantes, em áreas restritas,
diminui a qualidade da experiência do visitante, pressiona o patrimônio natural (e
construído) e faz com que se altere o perfil sócio-econômico do usuário menos
exigente, condição esta que acaba por desqualificar a unidade em algumas
situações.
No caso do PNMNI, sendo uma unidade relativamente nova e por não ter
concluído diversos aspectos do plano de manejo, a massificação do eixo dos poços
da Estrada da Cachoeira entre a Represa e o Casarão, acabou sendo estimulada
indiretamente pela falta de investimentos, visto que ao se analisar o entorno, o
140
PNMNI se configura como uma das poucas opções de lazer gratuito de
comunidades locais, principalmente as carentes, cuja motivação foi fixada pela
proximidade e ausência de ofertas alternativas.
O objeto de estudo deste trabalho são as trilhas e como elas podem colaborar
para o estabelecimento de um novo zoneamento de lazer e turístico, de modo a
interferir em diversos aspectos da visitação, como sazonalidade, motivação e
alteração do perfil médio do visitante. Neste sentido as observações de campo
caracterizaram, em um primeiro momento, os subgrupos atuantes no PNMNI nos
aspectos referidos. Contudo, através da realização de questionários, se buscou
confirmar estas observações e informações complementares.
Segundo dados cedidos pelo PNMNI, nas duas temporadas (de Verão –
dezembro de 2007 a fevereiro de 2008 e de Inverno – maio a julho de 2008) o
Parque recebeu aproximadamente 18.393 visitantes, com 12.563 no verão e 5.830
no inverno aproximadamente. Deste volume, foi definida uma massa amostral de
1%. Deste trabalho, embora nem todas as suas correlações tenham sido exploradas,
pode-se destacar os resultados onde foram caracterizados 05 grupos distintos de
visitantes quanto à ocupação do espaço e sazonalidade.
Salienta-se que o público identificado nas trilhas consiste basicamente de
jovens, universitários e adultos, principalmente de Nova Iguaçu, os quais foram mais
comumente encontrados nos trabalhos de levantamento a campo desta dissertação.
Esta configuração deve orientar a unidade a identificar outras estratégias para a
divulgação das trilhas, visando à adesão de novos usuários e também aqueles
regulares, mas que por falta de motivação ou curiosidade, se mantém com as
mesmas atividades e roteiros. Cabe então, não só por parte da administração, mas
também de potenciais operadores de ecoturismo e lazer, assim como guias formais
e informais, a divulgação e implementação de produtos diferenciados, como por
exemplo, observação de aves e safáris fotográficos, entre outros.
No quadro 13 são discriminados os grupos de Visitantes, motivação, espaço e
sazonalidade, encontrados:
141
Grupo
Motivação
Local de concentração
Jovens, universitários e
adultos, principalmente de
Nova Iguaçu
Lazer e ecoturismo:
cons. de paisagens
dos mirantes e
práticas desportivas:
rapel e escalada
“Vulcão” de Nova Iguaçu,
e Pedra da Contenda.
Caminhadas à rampa de
Vôo Livre
Famílias e adolescentes
do entorno, moradores de
Mesquita e Nova Iguaçu
Lazer: banhistas e
caminhada/passeio
Vários poços, pequenas
cachoeiras e
represamentos do rio
Dona Eugênia
Principalmente adultos do
Rio de Janeiro
Prática desportiva:
Vôo Livre
Rampa de Vôo Livre, cujo
acesso se dá pela estrada
do Tatu-Gamela.
Instituições de Mesquita,
Nilópolis, Nova Iguaçu
(Educadores dos 3 níveis)
Diferentes atividades
de complementação
pedagógica
(interpretação e EA).
Eixo da Estrada da
Cachoeira até o Casarão.
Algumas atividades até o
Clube Dom Felipe
UERJ, UFRRJ, UFRuRJ,
ESTÁCIO, UNIG...
Pesquisadores e
acadêmicos com
produção de trabalhos
escolares,
monografias,
dissertações, etc.
Represa Epaminondas
Ramos, Eixo da Estrada
da Cachoeira até o
Casarão, e algumas
atividades até o Clube
Dom Felipe
Pr/Ver
(T° >)
Out/Inv
(T° <)
Pr./Ver. (T° >): Primavera / Verão (Temperaturas maiores)
Out./Inv. (T° <): Outubro /Inverno (Temperaturas menores)
Quadro 13: Visitantes, motivação, espaço e sazonalidade
Fonte. Mello, Flávio A. P. 2007
Foram procedidas ainda as análises dos dados obtidos a partir da aplicação
dos questionários de Pesquisa de Fluxo e Padrão de Dispersão de Visitantes e de
Pesquisa de Valoração econômica dos serviços de condução de visitantes:
a) Composição por faixa etária nas duas temporadas:
Na análise do Gráfico 01 (Visitantes por faixa etária – Temporada de
Verão), pode ser observado que as faixas 01 e 02 (Menores de 14
anos e de 15 a 24 anos), representam 51% da amostragem,
significando visitantes com mais energia para se deslocar, expor-se ao
perigo e pressionar a fiscalização. Quando somados a faixa seguinte
(25-34), têm-se 70% de ocupação com público eminentemente jovem.
No outro extremo, as faixas 05 e 06, referentes a maiores de 45 anos
totalizam 14% do total. Isto pode significar, entre outros, que o PNMNI
possui poucos atrativos para estas faixas de idade e que a qualidade
do acesso ao parque pode estar interferindo de fato, visto que a
142
maioria
que
visita
a
unidade
caminha
aproximadamente
três
quilômetros do início da Estrada da Cachoeira até a Guarita.
Gráfico 01: Visitantes por faixa etária – Temporada de Verão
* N/%: Entrevistados / percentagem na amostra
Já na temporada de inverno (gráfico 02) constata-se que todas as
faixas diminuem sua participação em aproximadamente 25%, contudo
a faixa 03 (usuários de 25-34 anos) - embora tenha sua participação
ainda menor que a faixa precedente 02 (15-24 anos), possui um
aumento específico de aproximadamente 30% na temporada de verão.
Uma das possibilidades é que esta faixa de visitante efetue
caminhadas como prática saudável, mais propícia de ser realizada nas
estações mais frias. Inclui-se também o desfrute da paisagem. É
possível considerar ainda as férias escolares neste contexto.
Gráfico 02: Visitantes por faixa etária – Temporada de Inverno
* N/%: Entrevistados / percentagem na amostra
143
O público jovem, percentualmente, registra também um pequeno
aumento, cabendo destacar, entretanto, que o perfil do jovem da
temporada de verão, por observações de campo, são na sua maioria
jovens moradores do entorno, de camadas sociais mais carentes.
Muitos dos jovens identificados na temporada de inverno são em sua
maioria universitários, atraídos pelo uso de trilhas e práticas de rapel.
b) Motivação, por faixa etária, nas duas temporadas:
Nos gráficos 03 e 04, buscou-se identificar as principais motivações de
visita ao PNMNI, de acordo com a faixa etária. Cabe salientar que nas
avaliações, a motivação por banho se destacam como principal opção
das classes mais jovens, mas aparecem com maior visibilidade as
caminhadas e os batismos de igrejas evangélicas que utilizam
principalmente o Poço do Escorrega, próximo à sede, devido ao maior
volume de água e espaço mais amplo para as atividades. Ressalta-se
que no Parque não são permitidas oferendas.
Prat. Acadêmicas
6 (> 60)
Cer. Religiosas
Trilhas
05 (45-60)
Caminhada
04 (35-44)
Banho
03 (25-34)
02 (15-24)
01 (<14)
0
2
4
6
8
10
12
Gráfico 03: Motivação por faixa etária – Temporada de Verão
Na temporada de inverno, embora o banho de cachoeira continue
como o principal atrativo, observa-se um expressivo crescimento do
volume de caminhadas na Estrada da Cachoeira e uso das trilhas. As
visitas de diferentes instituições de ensino para práticas acadêmicas
(aulas práticas, visitas de campo...) e são mais evidentes, devido à
menor incidência de chuvas.
144
Prat. Acadêmicas
6 (> 60)
Cer. Religiosas
Trilhas
05 (45-60)
Caminhada
04 (35-44)
Banho
03 (25-34)
02 (15-24)
01 (<14)
0
2
4
6
8
10
12
Gráfico 04: Motivação por faixa etária – Temporada de Inverno
Portanto o perfil médio atual do usuário do PNMNI é composto por indivíduos
jovens, usuários de modo geral dos poços para lazer (banhos principalmente).
Destacam-se, entretanto, dois grupos complementares: as famílias com motivação
aos jovens e adultos que utilizam o Parque como extensão das caminhadas
matutinas.
4.3 Zoneamento das oportunidades recreativas
O método ROS oferece uma estrutura sistemática de verificação da
distribuição das oportunidades e indicações de procedimentos para possíveis ações
gerenciais das condições que os administradores consideram possíveis de serem
mantidas ou restauradas na área; atuando a partir de três perspectivas: a proteção
do recurso; oportunidades para uso público e a habilidade (da organização) em lidar
com as condições existentes.
Baseado nestes referências, foram identificadas seis áreas a ser classificadas
nas zonas de Uso Intensivo, Extensivo e de Relevante Interesse do PNMNI,
conforme previsto no Plano de Manejo do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu.
Observa-se, contudo, que esta análise do espectro de oportunidades recreativas é
uma referência estabelecida face as condições atuais de visitação e infra-estruturas
disponíveis, devendo ser regularmente estabelecida de modo a representar com
145
mais exatidão a realidade vivida. No quadro 14 é discriminado o zoneamento
elaborado:
Zona /
Localização
Via de
referência
Principais atrativos
Principais aptidões
(a) Central:
Estrada da
Cachoeira:
da Guarita
de Entrada
até o
Casarão
Represa Epaminondas
Ramos; Pedreira São
José;Poços do Rio Dona
Eugênia, Casarão,
Cachoeira Véu da Noiva e
Trilha do Pau Pereira
Caminhadas leves, banhos
de Rio e cachoeira, pic-nics,
rapel e eventos na Pedreira,
atividades educativas e
acadêmicas, observação de
fauna
05
Trilha da
Varginha e
Trilha da
Contenda
Mirante do Levi, Praça do
Boi, Mirante da Varginha
(próximo a Pedreira
Vigné). Pedra da
Contenda e mirantes
Caminhadas moderadas,
rapel e boulder na Pedra da
Contenda, atividades
educativas e acadêmicas,
obs.de fauna e paisagem
03
Estrada do
Tatu-Gamela
Rampa de Vôo Livre,
Visão Panorâmica de
Nova Iguaçu
Caminhadas moderadas a
pesada, observação de
paisagem e práticas de Vôo
Livre. Passeios de Gaiolas.
05
Estrada da
Cachoeira:
do Casarão
até o Poço
da Natureza
e Trilha do
Mata-Fome
Mirante do Alto (Estrada
da Cachoeira); Janela do
Céu do PNMNI (alto da
Cachoeira Véu da Noiva);
Trilha do Mata-Fome
Caminhadas leve a
moderadas, atividades
educativas e acadêmicas,
observação de fauna e
paisagem
04
Estrada da
Cachoeira:
do Poço da
Natureza até
as Ruínas do
Clube Dom
Felipe.
Ruínas do Clube Dom
Felipe. Posto Quatro (P4):
Casa de morador que
deve ser reformada como
Casa do Pesquisador.
Sob Autorização:
Caminhadas moderada,
porém longa, atividades
educativas e acadêmicas,
observação de fauna e
paisagem
02
Trilhas do
Gericinó,
Mendanha e
Pau da Letra
Não computados.
Próximos a Zona Primitiva
e Intangível.
Sob Autorização:
Caminhadas moderada,
atividades educativas e
acadêmicas, observação de
fauna e paisagem
01
Vale do Rio
Dona Eugênia
(b) Complexo
do Vulcão:
Vale do Levi e
Varginha
(c) Rampa:
Estrada do
Tatu-Gamela
(d) MataFome
Vale do Rio
Dona Eugênia
- Vale do
Mata-Fome
(e) P4:
Vale do Rio
Dona Eugênia
(f) Pau da
Letra:
Vale do Rio
Dona Eugênia
OBS:
Para fins de gestão, as zonas
recreativas sugeridas foram
nomeadas de acordo com as
referências comumente utilizadas
pela Administração e
funcionários.
R
O
S
ROS
(Classe)
01
Baixa interação social e mínima evidência de usuários.
02
Baixa interação social, mas com evidência de usuários.
03
Baixa interação social, freqüentes evidências de
usuários.
Baixa e moderada interação social. Alterações dos
recursos e práticas de utilização evidentes.
Vistas e sons humanos evidentes e alta interação com
usuários. Práticas para salientar atividades de recreação
04
05
Quadro 14: Descrição das Zonas propostas segundo o método ROS.
Flávio A P Mello 2008:
146
Cabe ressaltar, que embora tenha potencial para estabelecer algumas
diretrizes de gestão, sua eficiência exatidão é melhor aproveitada quando
combinada com outras metodologias complementares de monitoramento de
impactos e gestão participativa.
4.3.1 Reordenamento das ambiências nas zonas de Uso Especial, Intensivo e área
de relevante interesse do PNMNI
As zonas de Uso Especial, Intensivo e área de relevante interesse do PNMNI,
localizadas ao longo da estrada da Cachoeira no eixo entre a Represa Epaminondas
Ramos e o Casarão, concentra a quase totalidade da visitação, devido a seu fácil
acesso e por nele se localizar a principal área para banhos. Embora sejam muitos e
variados os atrativos, não se percebeu por parte da administração um tratamento
diferenciado e dirigido na gestão destes espaços.
Para tanto, foi sugerido para este espaço de lazer, o nome de “Circuito das
águas”, como subsídio ao manejo diferenciado deste, e ainda, futuras propostas e
iniciativas de turistificação. Extrapolando o diagnóstico31 das ambiências do Parque
conduzidos pela Equipe do Laboratório de Lazer e Espaços Turísticos da UFRJ,
buscou-se agrupar nove conjuntos de ambiências, agrupando as mais próximas
entre si, como unidades de gestão, visando orientar a administração a tratar de
maneira diferenciada lugares com identidades complementares e próximas. Desta
forma,
estes
agrupamentos
de
ambiências
visam
caracterizar
lugares
e
territorialidades que possam receber tratamento e atenção diagnóstica diferenciada,
como por exemplo, estudos individualizados de perfil de visitantes, estudos de
capacidade
de
suporte
local,
estruturação
de
infra-estruturas
de
apoio
personalizadas, etc.
Salienta-se entretanto que:
31
Diagnóstico Geral do Geoparque Municipal de Nova Iguaçu. Equipe do LAB LET – Laboratório de Lazer e
Espaços Turísticos. PROARQ – Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo. Universidade Federal do Rio de Janeiro. p 07 - Setembro /outubro de 2004.
147
· A Entrada do Parque sofreu recente intervenção (08/2008), onde se
estendeu
um
“jardim”
protegido
por
cerca
de
cordas
por
aproximadamente 6 metros, em ambos os lados; descaracterizando a
entrada, retirando a área de manobra de veículos e ainda obrigando
usuários de bicicletas a estacionarem longe da visão da guarita.
· A Pedreira desativada São José, consolidada como espaço multi-uso
pelas administrações, dada a inexistência de espaço mais amplo para
eventos e mesmo área de recreação, não possui banheiros. Como
alternativa para estacionamento, deve ser avaliado a possibilidade de
se criar vagas ao longo da Estrada da Cachoeira, nos moldes, por
exemplo, do Parque Nacional da Tijuca.
· A trilha para o “Vulcão” a partir da Pedreira São José teve seu nome
resgatado junto a antigos moradores como Trilha da Varginha.
· O poço da sede não é aberto à visitação, assim como a Represa
Epaminondas Ramos.
· As áreas de piquenique não estão sendo utilizadas para tal devido à
falta de manutenção dos equipamentos e acessos.
· Os Mirantes do Véu da Noiva e do vale do Dona Eugênia, localizados
na trilha do Pau-Pereira, assim como o Mirante do Alto, localizado na
Estrada da Cachoeira, estão desativados e necessitando de reformas.
· O roteiro até as ruínas do Clube Dom Felipe, distante e com os
atrativos
pouco
caracterizados,
embora
tenha
sua
visitação
recomendada pelos guias do Parque, deve ter sua utilização revista.
· Placas de informação e orientação foram recentemente instaladas
havendo, contudo, restrições quanto às informações prestadas, visto
que algumas não fazem sentido (por exemplo: “Zona de uso
intensivo”).
Outro aspecto a ser considerar com esta proposta de zoneamento, é a
facilitação das ações de fiscalização, assim como a orientação à dispersão dos
visitantes, consolidando ao longo do tempo mais opções de uso em áreas
atualmente pouco consideradas, tanto pelos usuários quanto pela administração.
148
No quadro 15 são ilustrados os diferentes grupamentos de ambiências. Bem
como a relação dos atrativos que as compõem:
Mirante
do Alto
Rio Dona Eugênia
Estrada da Cachoeira
Trilhas
Casarão
Pau Pereira
Poço das
Cobras
Pic-nic 01
Sede
Antes da
sede
Entrada
Pedreira
Quadro 15: Ambiências das Zonas de Uso Especial, Intensivo e área de relevante interesse do PNMNI
Fonte: Diagnóstico Geral do Geoparque Municipal de Nova Iguaçu. Equipe do LAB LET – Laboratório
de Lazer e Espaços Turísticos. PROARQ – Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo. Universidade Federal do Rio de Janeiro. p 07 - Setembro /outubro de
2004. Adaptação de Flávio A. P. Mello, 2008.
149
4.3.2 Identificação dos principais atrativos do PNMNI
A identificação preliminar de atrativos é particularmente relevante devido a
sua importância na construção ou manutenção de lugares que serão acessados por
trilhas e, portanto, onde se inicia o reconhecimento dos possíveis fluxos de visitantes
que podem se estabelecer de acordo com a qualidade e características destes
atrativos.
A princípio pode-se considerar que as qualidades e limitações dos atrativos
podem selecionar o perfil do visitante. Em parte esta premissa é verdadeira, mas
deve-se considerar que no estabelecimento da infra-estrutura de apoio, desde a
caracterização das trilhas às facilidades de acesso (degraus, corrimão, guardacorpos...) e adaptação estrutural dos atrativos, este perfil pode ser mudado ao se
alterar as ambiências aos perfis de visitantes desejados. No quadro 16 relacionamse os principais atrativos percorridos através de trilhas e vias avaliadas.
Via
Atrativo
Estrada da
Cachoeira
Represa
Epaminondas
Ramos
Pedreira
desativada São
José
Poço do Escorrega
Caminho Geológico
do PNMNI
Poço das Cobras
Casarão
Poço do Casarão
Cachoeira Véu da
Noiva
Mirante do Alto
Trilha do
Pau Pereira
Janela do Céu do
PNMNI
Ruínas do Clube de
Campo Dom Felipe
Mirante do Pau
Pereira
Observação
Não é permitido banho, mas é um atrativo cênico e há práticas
de rapel em sua parede externa.
Além de sua função multiuso, possui uma pequena trilha que
leva a um mirante na parte superior da Pedreira.
Além de área de lazer, é utilizado também para batismos de
comunidades evangélicas
São seis placas explicativas de feições geológicas distribuídas
entre a Pedreira São José e o Casarão. Atualmente
desativadas.
Segundo ponto de maior afluxo de banhistas. Há um quiosque
informal atendendo visitantes em dias de maior fluxo.
Em processo de captação de verbas para reforma como
Centro de Visitantes
Primeiro ponto de maior afluxo de banhistas. É um dos
acessos a Cachoeira Véu da Noiva
Queda d’água com 55 metros, é utilizada também para
práticas de cascading (técnica de rapel em cachoeiras).
A estrutura de madeira foi retirada; mas o local permanece
com a função
*Atalho que desce a cabeceira da Cachoeira: muito erodido, é
recomendável que seja fechado
Distantes 4,5 km da guarita, é utilizado em visitas guiadas pelo
PNMNI, porém o roteiro é pobre.
Pequeno mirante para até três pessoas. Avista-se a Cachoeira
Véu da Noiva.
Quadro 16: Principais atrativos e vias de acesso no PNMNI
Fonte. Mello, Flávio A. P., 2008.
150
.Quadro 16 (Continuação): Vias de acesso e principais Atrativos do PNMNI
Trilha da
Varginha
Espelho de falha
Mirante do Levi
Praça do Boi
Mirante da Vigné
Elemento indicativo de existência de uma falha geológica (uma
quebra nas rochas através da qual se verifica que houve
movimentos relativos, ou seja terremotos. Na área do PNMNI
há falhamentos mapeados, e esse local é uma expressão de
um deles. É um ponto de grande importância científica e
didática, principalmente por estar aparente. Próximo a entrada
da Trilha, ao lado da Pedreira desativada.
*Localizado na derivação proposta neste trabalho, avista-se o
vale do Levi e o vale do Rio Dona Eugênia
*No divisor de águas entre o vale do Levi e Varginha, é inicio
da Trilha da Contenda
*Localizado em afloramento rochoso, na extremidade oposta a
Praça do Boi. Avista-se a Pedreira e Nova Iguaçu.
Trilha da
Pedra do
Quilombo
(Contenda)
Mirante da
Varginha
Mirante da
Contenda
Mirante da
Preguiça
*Pequeno Mirante na Trilha da Contenda, próximo à elevação
do mesmo nome. Visualiza-se a varginha como um todo.
Panorâmica da Serra de Madureira e Vale do Mata-Fome.
Possui vias de rapel e boulder
*Na continuação da Trilha do Quilombo até a estr. do Tatu
gamela, possui visão privilegiada da base do rapel.
Estrada do
Tatu-gamela
Rampa de Vôo
Livre
2° melhor ponto de Vôo Livre do país, a estrada também é
utilizada para caminhadas devido à ampla paisagem
panorâmica da Baixada com visão para Nova Iguaçu, maciço
de Tinguá e Serra dos Órgãos
Fonte. Mello, Flávio A. P., 2008.
Quadro 16: Principais atrativos e vias de acesso no PNMNI
4.3.3 Ordenamento da malha de trilhas
As trilhas, de modo geral, surgem para possibilitar o acesso a lugares de
interesse e, mormente, são traçadas em função da distância a ser percorrida e
acessibilidade. Em se tratando de unidades de conservação, outros cuidados e
interesses devem ser considerados, de acordo com o plano de manejo e à legislação
vigente, se este apresentar alguma inconsistência. Neste sentido, o ordenamento
das trilhas em uma malha lógica que atenda as necessidades de deslocamento e
proteja o patrimônio natural e construído da Unidade, se reveste de particular
relevância quando se considera que as trilhas, ao se estabelecerem, se comportam
como uma entidade dinâmica, geradora de mudanças, tanto ambientais quanto
sociais.
Assim,
quando
se
ordena
a
malha
de
trilhas,
fechando
atalhos,
recategorizando as trilhas existentes, interligando trilhas separadas, entre outros, se
procura induzir indiretamente territorializações e consolidação de lugares de
151
interesse da gestão da UC. No caso específico do PNMNI, a necessidade de se
ordenar a malha de trilhas existentes nas áreas abertas à visitação, se deve
principalmente ao fato de com o desenvolvimento das atividades recreativas,
algumas estão se processando um tanto quanto à revelia da administração, de modo
a ser possível perceber a formação de dois núcleos de atividades diferenciadas:
1. Núcleo Central: Que se concentra na Área de Uso Intensivo, composto
por usuários que utilizam os poços do Rio Dona Eugênia até o
Casarão, para lazer e também aqueles que se dedicam a caminhadas
e contemplação da natureza e cuja principal porta de entrada é a
guarita da Estrada da Cachoeira
2. Núcleo da Varginha, que se desenvolve um tanto a revelia da
administração, se concentrando na área da Pedra do Quilombo
(Contenda) e rampa de Vôo livre, com atividades de caminhada mais
longas e rapel; cujo acesso se dá pela estrada do Tatu-Gamela e
trilhas a partir do Morro do Cruzeiro e Bairro Kaonze.
Neste sentido, a presença mais superficial na administração da área do vale
da Varginha, compromete tanto as possibilidades de desenvolvimento sustentável
das atividades potenciais, como já sofrem os efeitos do uso pouco criterioso de seus
acessos e atrativos, com evidentes sinais de degradação. Com estas referências
percebidas, buscou-se então, unir estes dois núcleos e concentrar a entrada a partir
da entrada oficial do parque; promovendo assim maior controle e interface com os
visitantes, possibilitando diagnósticos e orientação de uso da unidade.
Nesta condição, se fez necessário então promover o acesso à Pedra da
Contenda a partir da Trilha da Varginha, que se origina na Pedreira desativada São
José e cruza com a trilha da Contenda em seu terço médio, na altura da Praça do
Boi. A trilha da Varginha não tem sido utilizada: devido a seu traçado, a falta de
sinalização e as condições de manutenção, que a deixam fechada por capim
colonião muitos meses ao ano. Estas características da trilha da Varginha são
consideradas também como alternativa ao roteiro de visitas às ruínas do Clube de
Campo Dom Felipe, que de acordo com o zoneamento proposto, passa a se
localizar em zona de recuperação especial, a qual possui limitação de visitação.
152
Destaca-se que nos trabalhos de seleção, foram considerados os vales por onde
passam as trilhas, como unidades geomorfológicas de referência. Foram
identificadas e selecionadas então as seguintes vias (trilhas, estradas e atalhos) de
interesse conforme exposto no quadro 17:
Localização
Via
Característica
Atrativos Principais
Vale do Rio
Dona
Eugênia
Estrada da
Cachoeira
Estrada de acesso, não pavimentada,
possui 4,6 km de extensão. Dá acesso as
trilha do Gericinó, Mendanha e Pau da
Letra
Circuito das águas,
Casarão, Janela do Céu,
Mirante do salto, Clube
Dom Felipe
Trilha do
Pedreira
Pequena trilha linear, reaberta na
Pedreira São José, com
aproximadamente 200 metros, leva a um
mirante em sua porção superior, com
vista para o Vale do Rio Dona Eugênia
Mirante da Pedreira, vias
de rapel e mata ciliar na
base da Pedreira em sua
face interna com grande
afluxo de avifauna
Trilha do
Pau-pereira
Trilha em atalho com 0,6 km. Liga o
Casarão a ponte da Curva, na estrada da
Cachoeira
Mirante do Pau Pereira,
poço Escondido
Vale do
Córrego do
Mata-fome
Trilha do
Mata-fome
Trilha Linear, com aproximadamente 1,3
km de extensão. Liga a Estrada da
Cachoeira, aproximadamente 100 metros
antes do Mirante do Alto, à Estrada do
Tatu-gamela, mais ou menos 500 metros
acima da Pedra da Contenda
É uma trilha de ligação.
Em seu terço médio inicial
é muito agradável e com
boas possibilidades de
obs. De aves
Estrada do
Tatugamela
Vertente
iguaçuana
do Maciço
do Gericinó
Liga as Estrada de Madureira (Av., Abilio
Augusto Távora) à rampa de Vôo Livre.
Da entrada da Trilha da Contenda até a
rampa, são aproximadamente 2 km de
acordo com o caminho. Há 02 variantes
que são usadas de acordo com as
condições da estrada.
Visão Panorâmica para
Nova Iguaçu, maciço do
Tinguá e Serra dos
Órgãos, Rampa de Vôo
Livre
Vale da
Varginha
Trilha da
Contenda
Trilha Linear, liga a Estrada do Tatugamela à Praça do Boi. Possui atalho
para a subida a Pedra do mesmo nome.
Visão Panorâmica do vale
do Mata-fome, Varginha e
Estrada do Tatu-gamela
Trilha da
Varginha
2º Segmento
Em seu interior e encostas há inúmeras
variantes, foi selecionado um traçado
linear da Praça do Boi ao cento da
Varginha onde segue como uma pequena
circular em direção à Parada da Jaqueira,
a noroeste, Mirante da Vigné e Parada do
Curralzinho, retornando ao centro. Possui
aproximadamente 1,4 Km
Praça do Boi,Mirante da
Varginha, Mirante da
Vigné, Pedra da
Contenda. Dá acesso as
trilhas do capitão e
Cruzeiro, que se dirigem
ao Cruzeiro de Nova
Iguaçu e Bairro Kaonze.
Trilha da
Varginha
1º Segmento
Trilha Linear da Pedreira desativada São
José até a Praça do Boi. Em sua porção
final cruza uma nascente e é de acesso
que exige cuidados. Possui
aproximadamente 1 km de extensão.
Para a área de nascente, optou-se por
sugerir uma variante que desloca a trilha
para uma cota acima, promovendo
inclusive maior aporte paisagístico.
Mirantes do Levi e da
Mangueira, ambos
sugeridos na alteração de
traçado que a amplia para
1,8 Km
Vale do
Levi
Quadro 17: Trilhas selecionadas e atrativos
Flávio a P Mello 2008
153
4.3.3.1 A Trilha da Varginha
Posto a importância da Trilha da Varginha como elo de ligação entre as os
dois núcleos de atividades do PNMNI, foi elaborada uma proposta de traçado
dividindo a trilha em dois segmentos: o primeiro, a ser desenvolvido na área do vale
do Levi, ligando a Pedreira desativada São José à Praça do Boi (no divisor de águas
entre os dois vales) e o segundo na Varginha propriamente dita, conforme
destacado na figura 11:
N
2º segmento
Vale da Varginha
Tr. de serviço
1º segmento
Vale do Levi
Alteração de traçado
com destaque ao
Mirante do Levi
Figura 11: Proposta para a Trilha da Varginha
Fonte: Google Earth – Realizado por: Flávio A. P. Mello 2008
Ressalta-se que no primeiro segmento, a trilha atual corre ao longo do
córrego do Levi, adentrando em seu leito em vários pontos. No seu terço médio
cruza um trecho bastante próximo à sua nascente. A partir deste ponto, por uma
extensão de aproximadamente 200 metros, continua em aclive com pontos de
acesso mais complicado, passando por blocos rochosos e erosões. A vegetação é
basicamente composta por pastos sujos, principalmente capim colonião (Pannicum
sp.), grande responsável pela manutenção do ciclo de fogo que se instala nos
períodos de inverno.
154
O traçado original existe por ser mais curto e historicamente, era utilizado pela
população local como rota de acesso à Varginha e áreas limítrofes. Sugere-se que o
trecho seja mantido como “trilha de serviço”, isto é, mantida operacional para
funcionários e fiscalização como via de rápido acesso às trilhas da Contenda e
segundo segmento da Trilha da Varginha. Deve haver sinalização restritiva para
orientação dos visitantes. Cabe destacar que neste trecho, inicio da micro-bacia
onde se localiza a nascente do córrego do Levi, se recomenda a implantação de
projeto de reflorestamento tanto para proteger e recuperar os pontos de erosão
como revitalizar a nascente aí localizada.
Outros propósitos estabelecidos deverão ser atendidos com o novo traçado
além da proteção à nascente, dentre eles se destaca a requalificação turística da
trilha, que de trilha imersa na mata ciliar, ao ser deslocada para cota superior,
aproximadamente 50 metros, recebe mirantes com visão panorâmica do vale do Levi
e vale do rio Dona Eugênia, valorizando a trilha em seus aspectos cênicos. Salientase que a área do Levi, se reveste de especial importância por conta de sua
proximidade e acesso e oferecimento de mirantes, que podem ser desfrutados sem
grandes deslocamentos, embora a trilha mereça recuperação e adequação em
diversos pontos.
4.3.3.2 Circuito de Trilhas do “Vulcão” de Nova Iguaçu
No processo de ordenamento das trilhas, buscou-se concentrar a proposta
para o circuito de trilhas nas áreas com maior apelo da mídia e que
coincidentemente se localiza nas áreas mais degradadas. Esta área se concentra na
região da Varginha, tida como a “cratera” do “Vulcão” de Nova Iguaçu. Para se
estabelecer a conexão com a área de banhos, foi selecionada a trilha da Varginha e
a Trilha do Mata-fome, possibilitando duas vias de acesso. Este traçado atende
portanto a preocupação de integração entre os principais núcleos de visitação.
Cabe destacar que na Pedreira desativada São José foi reaberta uma trilha
antiga, resgatando um mirante de fácil acesso (300 metros da entrada do Parque) e
maior capacidade de visitantes, na zona de visitação intensiva, servindo como
155
contraponto ao mirante da trilha do Pau Pereira que dá vista apenas para a
Cachoeira Véu da Noiva, recebendo no máximo três pessoas por vez ou ainda, o
Mirante do Alto, localizado a 2,5 quilômetros da entrada do Parque e que se
encontra com as instalações desmontadas.
A trilha do Pau Pereira, embora tenha sido pensada para receber um público
médio, inclusive crianças e idosos, deve ter seu traçado corrigido, principalmente m
sua porção próxima a ponte da Curva, cujo aclive supera os 35%, limitando, por
conseguinte o perfil do visitante.
Para o segmento da Estrada da Cachoeira, após o poço da Natureza, propõese obrigatoriedade da presença de guias, porém credenciados pela administração,
devido a nova condição de Zona de Recuperação Especial. As atividades ai
desenvolvidas deverão ter como foco o ecoturismo especializado como, por
exemplo, a observação de fauna e turismo científico.
Já a seção da estrada do Tatu-gamela, da Pedra da Contenda à rampa de
Vôo Livre, embora se localize no limite do Parque, pode ser incorporada como opção
de roteiros. De fato, a estrada do Tatu-gamela não faz parte do PNMNI sendo, no
entanto, um de seus limites. É via de acesso à rampa de Vôo Livre que é utilizada
por visitantes que optam como alternativa para chegar à Pedra da Contenda
ignorando a guarita do parque, localizada em extremo oposto. Esse fato se constitui
em um problema para a administração, cujo controle de visitantes é comprometido.
Na figura 12 são apresentadas as trilhas selecionadas e alguns pontos
atrativos extremos do Parque (Guarita de entrada, Mirante da Pedreira Vigné,
Rampa de vôo Livre e Ruínas do Clube de campo Dom Felipe).
156
N
Estrada do
Tatu-gamela
MIRANTE DA
PEDREIRA VIGNÉ
Trilha da
Contenda
Trilha da
Varginha
Estrada do Tatu-gamela
Acesso à rampa de Vôo Livre
Trilha da
Pedreira
Trilha do Pau
Pereira
RAMPA DE
VÔO LIVRE
GUARITA DE
ENTRADA
Acesso à sede
Estr. da Cachoeira
Seção de visitação controlada
Estr. da Cachoeira
Seção de visitação intensiva
CLUBE
DOM FELIPE
Figura 12: Circuito de Trilhas proposto
Fonte: Google Earth – Realizado por: Flávio A. P. Mello 2008
157
4.3.3.3 Roteiros sugeridos
Elaborar o traçado de uma trilha é apenas parte de seu planejamento.
Embora seja lógico considerar as oportunidades paisagísticas, pontos notáveis,
acessibilidade e adequação sócio-ambiental, é preciso dar uma identidade ao
conjunto de segmentos de trilhas, de modo a criar referências que possam ter maior
poder de atratividade junto aos visitantes, e aos gestores e operadores de turismo e
lazer na natureza. Neste sentido, busca-se aguçar a curiosidade do visitante ou
chamar a atenção para um “valor” de interesse.
No caso do PNMNI, observou-se que embora houvesse grandes cenários na
zona de uso extensivo, as trilhas eram curtas, tendendo a ter em média 2,0 km as
mais extensas. Estas distâncias, de certa maneira, são curtas para a prática de
caminhadas quando se visualizam produtos que se adeqüem às categorias 02 a 04
previstas no ROS sugerido ao PNMNI (quadro 07), pois rapidamente se chega ao
atrativo, impedindo a possibilidade de inserção no cenário e desfrute da paisagem.
Considera-se que as trilhas que possibilitam acesso rápido a seus atrativos
principais, tendem a receber visitação massiva e ser explorada em aspectos
pontuais, a exemplo do que ocorre com os operadores de rapel, cuja preocupação
em valorizar o produto, induz à utilização superficial do cenário e consequentemente
a geração de impactos em zonas específicas, comprometendo uma série de
atributos que valorizam as trilhas para o desfrute da paisagem e introspecção.
Para atender a esta expectativa, o levantamento dos traçados para a seleção
das trilhas visou a criação de uma trilha de grande percurso (para os padrões do
PNMNI), com o nome sugerido de “Circular Externa”, conforme proposta
estabelecida para o Parque Nacional da Tijuca durante a gestão inovadora de Pedro
da Cunha e Menezes. Para o PNMNI a proposta de uma Grande Circular externa
unirá segmentos da Estrada da Cachoeira, Trilha da Varginha, Estrada do Tatugamela e a totalidade das trilhas da Contenda e Mata-fome (figura 13). Com este
traçado se obterá uma trilha com aproximadamente 8 km de extensão.
158
Complexo
do “Vulcão”
N
Legenda
Mirante da
Pedreira Vigné
Atrativo de
referência
Circular
interna
Trilha da
Varginha
Praça do Boi
Trecho da Estrada
do Tatu -gamela
Varginha
(“a cratera”)
Pedra da
Contenda
Trilha da
Contenda
Trilha da Varginha.
Segmento Vale do Levi
Circular
Externa
Guarita de
entrada
SEDE
Trilha do
Mata-fome
Mirante do Alto
Casarão
Estrada da Cachoeira
Seção de visitação intensiva
Figura 13: Proposta para Circular externa (pontilhado):
Somatório de segmentos Estrada da Cachoeira + Trilha do Mata-fome + Trilha da Contenda + Trilha da Varginha
Fonte: Google Earth – Realizado por: Flávio A. P. Mello 2008
Foram elaborados então sugestões de roteiros conforme quadro 18:
Trilha do Pau
Pereira
Trilha da
Contenda
Pedreira
São José
Mirante
do Levi
Estrada da
Cachoeira
159
Roteiro
Mirante da
Pedreira
Via
Pedreira São José,
acesso pela trilha do
mesmo nome
Público beneficiário
Público com
condicionamento físico.
Parque
Expresso
Estrada da Cachoeira,
Roteiro inclui a
Represa, Mirante da
Pedreira e subida até
o Casarão
Estrada da Cachoeira.
Poços entre o Poço da
Paixão e a Cachoeira
Véu da Noiva
Público com
condicionamento físico.
Trilha do
Pau
Pereira
Trilha do
Levi
Trilha do Pau Pereira
Trilha do
Vulcão
Trilha da Varginha em
seus dois segmentos
(Vale do Levi e
Varginha
Pedra da
Contenda
Trilha da Contenda
Paisagens
da Baixada
Circular Externa
Caminhada
da Rampa
Estrada da Cachoeira
- Trilha do Mata-fome Estrada do Tatugamela - Rampa de
Vôo Livre
Estrada da Cachoeira,
da Guarita até as
Ruínas do Clube de
campo Dom Felipe
Segmentos muito
íngremes. Público com
condicionamento físico.
Segmentos íngremes, e
locais com grande
exposição ao sol.
Público com
condicionamento físico..
Segmentos íngremes, e
locais com grande
exposição ao sol.
Público com
condicionamento físico.
Segmentos íngremes, e
locais com grande
exposição ao sol.
Público com
condicionamento físico.
Segmentos íngremes, e
locais com grande
exposição ao sol.
Público com bom
condicionamento físico.
Segmentos íngremes, e
locais com grande
exposição ao sol.
Público com bom
condicionamento físico.
Segmentos íngremes,
local de difícil acesso
motorizado.
Recomenda-se público
condicionamento físico.
Circuito
das Águas
Dom Felipe
Primeiro segmento da
Trilha da Varginha,
conduz até o Mirante
do Levi
Púbico em geral.
Atividades recomendadas
Práticas de Educação ambiental e
espaço acadêmico.
Na Pedreira: espaço para lazer,
práticas de Tai Chi Chuan,
escalada, observação de aves.
No Mirante: Ocio, observação de
paisagem de aves.
Práticas de Educação ambiental e
espaço acadêmico. Caminhadas.
No Mirante: Observação de
paisagem, observação de aves.
Lazer e ócio nos poços e
cachoeiras. Observação da
natureza. Práticas de Educação
ambiental e espaço acadêmico.
Safáris fotográficos.
Caminhada de lazer, observação
da natureza.
Práticas de Educação ambiental e
espaço acadêmico. Caminhadas.
No Mirante: Observação de
paisagem, observação de aves.
Práticas de Educação ambiental e
espaço acadêmico. Caminhadas e
opção para grupos especializados:
observação de fauna, safáris
fotográficos.
Práticas de Educação ambiental e
espaço acadêmico. Caminhadas e
opção para grupos especializados:
observação de fauna, safáris
fotográficos.;
Práticas de Educação ambiental e
espaço acadêmico. Caminhadas e
opção para grupos especializados:
observação de fauna, safáris
fotográficos.
Caminhadas e acesso a rampa de
Vôo Livre. Safáris fotográficos.
Práticas de Educação ambiental e
espaço acadêmico. Caminhadas
para grupos especializados:
observação de fauna, safáris
fotográficos. Turismo científico...
Quadro 18: Roteiros sugeridos e vias de acesso
Flávio a P Mello 2008
Como proposta complementar, soma-se a proposta da criação da Circular
Interna conforme figura 14 baixo:
160
Legenda
N
Atrativo de
referência
Praça
do Boi
Circular
interna
Trilha da
Varginha.
Pedra da
Contenda
Trilha da
Varginha
Pedreira
São José
Estrada da
Cachoeira
Trilha do Pau
Pereira
Possível traçado
de trilha de ligação
Trilha da
Contenda
Circular
Interna
Trilha do
Pau Pereira
Sede
Casarão
Estrada da
Cachoeira
Figura 14: Proposta para Circular interna
Fonte: Google Earth – Modificado por Flávio A P Mello 2008
OBS:
Para a Circular interna é necessário a construção de uma variante da trilha do
Pau Pereira à Trilha da Contenda. Em consultas informais com antigos
moradores soube-se da existência de vestígios de um antigo traçado.
Com esta variante cria-se um roteiro com aproximadamente quatro quilômetros
(unindo o primeiro segmento da Trilha da Varginha no vale do Levi, a parte inicial
da Estrada da Cachoeira e parte d trilha do Pau Pereira
161
4.3.4 Valoração econômica dos serviços de condução de visitantes no PNMNI
Em apoio às sugestões de criação de diferentes roteiros para as trilhas
selecionadas, foi conduzida uma primeira avaliação quanto ao potencial econômico
deste ordenamento, através da pesquisa “Valoração econômica dos serviços de
condução de visitantes no PNMNI”. Foram aplicados cem questionários, salientandose que 67 foram aplicados em fins de semana e de terça a sexta feira, no período de
maio a julho de 2008, e trinta e três foram obtidos via internet, através do site
Amigos do Parque no link http://www.pmni.infotrilhas.com/zen_pesq.html.
No Gráfico 05, buscou-se relacionar a origem e disponibilidade do visitante
pagar por serviços de condução com guias credenciados e lembranças do parque
(postais, camisas, etc.).
100%
90%
80%
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
Origem
Nova Iguaçu
Origem dos
visitantes
Nova Iguaçu
Mesquita
Nilópolis
Belfort Roxo
Rio de Janeiro
Outros
Conhece as
trilhas para o
Vulcão
Mesquita
Origem
26
38
12
5
25
8
Pagaria por
passeios de 2
horas
Nilópolis
Conhece as
trilhas para o
Vulcão
06 (23%)
08 (21%)
03 (26%)
01 (20%)
03 (12%)
00
Pagaria por
passeios de 4
horas
Belfort Roxo
Pagaria por
passeios de
2 horas
00
00
02 (17%)
00
04 (16%)
01 (12,5%)
Pagaria por
passeios de 6
horas
Rio de Janeiro
Pagaria por
passeios de
4 horas
12 (46%)
10 (26%)
08 (67%)
02 (40%)
19 (75%)
05 (62,5%)
Gráfico 05: Valoração econômica dos serviços de condução de visitantes no PNMNI
Pagaria por
lembranças do
PNMNI
Outros Estados
Pagaria por
passeios
de 6 horas
18 (69%)
13(34%)
09 (75%)
02 (40%)
20 (80%)
06 (75%)
Pagaria por
lembranças
do PNMNI
14 (54%)
02 (05%)
03 (25%)
01 (20%)
08 (32%)
02 (25%)
162
Para criar uma referência quanto às respostas, foi inserida uma pergunta
quanto ao conhecimento das trilhas do parque, usando como referência a região do
“vulcão”, mais conhecida e onde se localizam a maioria das trilhas selecionadas
neste estudo. Das perguntas relacionadas nos questionários, dentre outras
informações coletadas, ressalta-se as seguintes:
a) Para o período de inverno, as maiores participações são de visitantes
de Mesquita, Nova Iguaçu e Rio de Janeiro, salientando que há uma
maior aproximação entre o nº de visitantes do Rio de Janeiro e Nova
Iguaçu. Isto demonstra que o fato dos cariocas possuírem mais
referências de caminhadas, esteja fazendo com que sua presença seja
quase tão evidente quanto à dos iguaçuanos, ainda pouco afeitos às
caminhadas em parques. O maior volume de visitantes de Mesquita se
deve a busca pela utilização das cachoeiras, mesmo no inverno, onde
há dias não tão frios e mesmo de calor.
b) Destaca-se ainda que a média de usuários que conhecem as trilhas do
Parque, principalmente na área do “vulcão”, gira em torno de 22,5%, o
que demonstra o grande potencial para guias e mesmo para o PNMNI
trabalhar. Observa-se ainda que os visitantes do Rio de Janeiro
totalizaram 12,5%, o que denota que nos dias pesquisados, vieram
para conhecer as trilhas da região.
c) Quanto à predisposição para pagar por serviços de condução de
visitantes com guias credenciados, de modo geral não há tal tendência
para passeios de quatro horas, os quais se concentram nas áreas de
uso intensivo. Isso provavelmente se justifica pela segurança que a
localidade dá e facilidade de acesso. Contudo, dada a riqueza de
atrativos, não devem ser desconsiderados os produtos temáticos.
Nesta avaliação, pontuaram Nilópolis com 17%, Rio de Janeiro com
16% e outros estados com 12,5%. Mesmo com tais percentagens,
pode-se considerar como justificativa o nível sócio-econômico para tal
disposição.
d) Nas avaliações para passeios com duração de quatro a seis horas que incluem a zona de uso intensivo e derivações para demais áreas
do parque (Complexo do Vulcão, Rampa de Vôo Livre, Vale do Mata
163
Fome e Ruínas do Clube Dom Felipe) - a disposição para pagar salta
para médias de 45 a 75%, a exceção de Mesquita, que mantém níveis
de 26 e 34% para passeios de quatro a seis horas respectivamente. É
possível que o hábito por lazer na cachoeira interfira neste julgamento.
Entretanto, para passeios com as durações e roteiros supra
mencionados, Nova Iguaçu, Nilópolis, Rio de Janeiro e “outros
estados”, os visitantes apresentam disposição para pagar por serviços
de guias em torno de 75% em média, o que aponta um grande
mercado não explorado e uma possibilidade de realmente poder mudar
o perfil médio do usuário e interferir na sazonalidade vigente.
4.3.5 Zoneamento recreativo no PNMNI
No
zoneamento
proposto
na
presente
dissertação,
houve
grande
preocupação em se garantir a proteção das áreas mais preservadas, dado o
potencial intrínseco de comprometimento do patrimônio natural que a visitação pode
representar, principalmente para a flora e para a fauna, cujos estudos e diagnósticos
da biodiversidade local são incipientes.
Salienta-se como agravante, que foi publicado no Diário Oficial da Cidade do
Rio de Janeiro no dia 18/08/08 a Lei Municipal 4.899/08, projeto aprovado pelos
vereadores cariocas de autoria do vereador Jorge Felippe (PMDB-RJ) e sancionada
pelo Prefeito César Maia, que extingue o Parque Natural Municipal da Serra do
Mendanha, para transformá-lo em uma Área Especial de Interesse Social. Esta
categoria se destina a dar títulos de propriedades e para implantar programas
sociais, tais como: conjuntos habitacionais, favela bairro, entre outros. Ressalta-se
que esta UC era uma das raras com a situação fundiária resolvida, coberta com a
Floresta Ombrófila Densa mais bem conservada da Cidade do Rio de Janeiro e de
toda a Região Metropolitana do Estado do RJ. Pouco estudada, mas com enorme
potencial, tendo sido noticiado recentemente à descoberta de uma nova espécie de
anfíbio. Em relação ao PNMNI, o Parque do Mendanha se liga através da trilha do
mesmo nome, próximo a zona primitiva, daí sua importância estratégica para as
áreas de proteção integral de todo o maciço.
164
Retornando ao zoneamento proposto, o PNMNI foi divido em duas grandes
áreas e para fins de gestão, as zonas recreativas sugeridas foram nomeadas de
acordo com as referências comumente utilizadas pela Administração e funcionários
(figura 15):
· Área (01) Visitação livre: envolvendo as zonas de uso especial, de uso
intensivo e extensivo (a exceção da área a partir do Poço da Natureza
até o Clube Dom Felipe).
· Área (02) Visitação controlada: Composta pela área da zona de uso
extensivo a partir do Poço da Natureza até o Clube Dom Felipe, zona
primitiva e zona intangível.
Deve-se observar que na área (2), as zonas delimitadas pela linha tracejada
em verde, diz respeito à proposta de mudança de classe deste segmento da Zona
de Uso Extensivo para Zona em Recuperação Especial, com fins de se proteger a
Zona primitiva. Esta mudança de classe visa minorar os efeitos de fragmentação
induzida pela “cunha” que a Estrada da Cachoeira representa para o tecido florestal,
que são ampliados com a visitação mantida nos moldes de uma zona de uso
extensivo.
Neste sentido, a visitação nestas áreas devem ter caráter mais restrito, sendo
utilizadas principalmente para fins de pesquisa e de turismo especializado cujo viés
principal seja a observação e conservação, como observação de fauna e turismo
científico, principalmente neste momento, em que os diagnósticos ambientais são
insuficientes e os recursos humanos e materiais não permitem um adequado
controle da visitação.
Desta forma, o maior volume fica concentrado na Área 01, nas zonas mais
alteradas, mas com grandes cenários devido as encostas recobertas por vegetação
rala e pastagens degradadas, as quais são grande promotores do consumo de
paisagem através de caminhadas.
165
Legenda:
Zoneamento proposto aplicando o ROS:
Área (1) visitação aberta
(b)
Zona (a) Central.
Zona (b) Complexo do Vulcão
Zona (c) Rampa.
Zona (d) Mata fome.
(c)
Área (2) Controlada
Zona de Recuperação Especial
(d)
(a)
2
1
Zona (e) P4 (Posto Avançado).
Zona (f) Pau da Letra.
Mapa base:
(e)
(f)
Zona de Uso Especial
Zona de Uso intensivo
Zona de Recuperação
Zona de Uso extensivo
Zona primitiva
Zona Intangível
Figura 15 Zoneamento de Oportunidades Recreativas para o PNMNI, segundo metodologia ROS
Fonte: Zoneamento Territorial e Ambiental do Parque – Mapa Nº HAB-NIG-D10/98. Plano de Manejo do Parque Municipal de Nova Iguaçu –
Vs Resumida – SEMUAM, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo 2001 p. 67.
Modificado por Flávio A P Mello 2008
166
4.4 Ações de apoio à Gestão do PNMNI
No decorrer dos trabalhos para a realização desta dissertação, a aproximação
com o corpo administrativo do PNMNI possibilitou a criação de vários produtos de
apoio à gestão, a partir de diagnósticos de demandas e análise das características
objeto de estudo. A receptividade da administração tanto possibilitou a antecipação
de algumas sugestões desta dissertação quanto testaram possibilidades aventadas
em seu desenvolvimento e conclusão . A seguir são resumidamente descritos as de
maior significância:
4.4.1 Sitio na internet para divulgação Institucional do PNMNI
Em 06/2006, início da presente pesquisa, foi oferecido à Administração
serviços voluntários de redator e designer, através da criação do site Amigos do
Parque (anexo 01) para a promoção do ecoturismo responsável e divulgação do
PNMNI. O nome “Amigos do Parque” foi escolhido por ser uma iniciativa informal, de
pessoa física, mas com fins de promoção da UC, a exemplo de iniciativas correlatas
existentes. O site hospedado em http://www.pmni.infotrilhas.com, possui atualização
regular e dispõe de seção especifica para a administração, a qual oferece também
um serviço de atendimento ao usuário, através de formulário on line. Entre as
seções existentes salientam-se:
· Lazer e Turismo: Lista dos principais atrativos em links individualizados
e com textos explicativos,
· Biblioteca digital: Dada a dificuldade de se relacionar o material técnico
e acadêmico produzido sobre a unidade, o link divulga a produção
catalogada até o momento, oferecendo links para download.
· Agenda: Divulga os eventos que ocorrem no parque.
· Voluntariado: Descrição dos serviços voluntários desenvolvidos no
parque e agenda.
· Fotorama: Hospedado em http://picasaweb.google.com.br/infotrilhas,
São álbuns fotográficos das atividades voluntárias e eventos
167
desenvolvidos com a Participação de Voluntariado Ambiental Programa
Amigos do Parque no PNMNI.
4.4.2 Estímulo ao Voluntariado em Unidades de Conservação
Com a evolução dos levantamentos desta dissertação, os dados coletados
justificaram um primeiro desdobramento da criação do sitio na internet, através de
uma proposta mais elaborada de voluntariado, protocolada pelo autor em
31/07/2007 junto a direção da unidade, tendo como objetivo desenvolver a cidadania
ambiental dos usuários do Parque através de ações envolvendo o manejo de trilhas
como eixo de educação e sensibilização ambiental. Esta proposta foi denominada
Programa
Amigos
do
Parque
de
Voluntariado
Ambiental
(anexo
05).
Operacionalmente, foi estabelecido um calendário mensal onde, a cada mês, se
alternavam mutirões de manejo de trilhas e/ou reflorestamento (fotografias 11 e 12),
conservação do viveiro de mudas florestais com passeios gratuitos guiados, com um
custo de um kg de alimento não perecível, doado a entidades do entorno.
Apoio ao voluntariado ambiental
32
Fotografia 11: Voluntários instalando poleiro seco
no vale do Levi
Flávio A. P. Mello: 2007
Fotografia 12: Voluntários transportando em corrente
material para mutirão na trilha do Levi
Flávio A. P. Mello: 2007.
As datas são divulgadas no link “Agenda” (anexo 06) com inscrições também
via internet. No ano de 2008, foram realizados 5 mutirões de manejo de trilhas, 4
mutirões de manutenção do Viveiro de mudas florestais e 6 passeios guiados,
32
Poleiros secos são uma estratégia de conservação onde se introduz pontos de descanso e observação para
aves, principalmente em zonas descampadas, de modo induzir a dispersão de sementes veiculadas por aves em
pontos dirigidos.
168
destacando-se que o 6º passeio foi um safári fotográfico para 20 participantes.
Ressalta-se que os voluntários recebem certificado de participação que podem ser
contados como estágio por algumas instituições de ensino. Em agosto/2008 o
Projeto Amigos do Parque entrou em uma nova fase de açőes para conservação e
educação ambiental através do direcionamento do voluntariado para a produçăo
acadêmica através de 02 linhas mestras:
· Apoio e orientaçăo para produção acadêmica, onde se buscou orientar
ou co-orientar estudantes para elaboração de artigos para revistas,
congressos e trabalhos de conclusão de curso. Atualmente estão
sendo orientados dois grupos: um grupo da turma do curso Técnico em
Meio Ambiente, do Colégio presidente Kennedy em Belfort Roxo, que
desenvolve um pequeno projeto de recuperação ambiental de um platô
na Pedreira São José (fotografia 13) e um grupo de alunos do curso de
Biologia da Universidade Souza Marques, que atua no Viveiro de
Mudas Florestais elaborando um projeto de gestão do viveiro.
· Criação de núcleos de apoio voluntário a pesquisadores. Os núcleos
são coletivos de alunos de diversas áreas, que auxiliam projetos do
Amigos do Parque ou de pesquisadores que se articulam com este,
propiciando estágio e oportunidades de produção acadêmica. O
conceito surgiu a partir da parceria entre Projeto Amigos do Parque de
Voluntariado Ambiental e o Projeto Pró-Morcegos (fotografia 14):
Apoio e orientação à pesquisa acadêmica
Fotografia 13: Alunas do curso Técnico em Meio
Ambiente, do Colégio Pres. Kennedy em Belfort
Roxo, coleta de dados na Pedreira São José
Foto de Flávio A. P. Mello : 2008.
Fotografia 14: Pesquisadores e alunos voluntários no
projeto “Diversidade dos Morcegos do PNMNI”.
Preparativos para a subida ao P4
Foto de Flávio A. P. Mello : 2008.
169
4.4.3 Temporadas de Verão e Montanhismo
O calendário de eventos do PNMNI, até a presente data (novembro de 2008)
tem-se focado, de modo geral, nas comemorações do calendário ecológico,
notadamente com a semana do meio ambiente e dia da arvore, além de eventos
isolados
de
iniciativas
de
particulares,
como
caminhadas
“ecológicas”
e
comemorações variadas. Contudo, embora tenha como proposta o lazer e o
ecoturismo, a direção não possuía nada mais elaborado neste sentido e para tanto
foi sugerido a criação de duas temporadas de atividades, não só para concentrar
ações similares em uma mesma época, como também criar uma demanda no
período de menor visitação durante a estação de inverno. Desta forma, foram
criadas as temporadas de Verão, cuja segunda edição ocorrerá de 07/12/2008 à
28/02/2009 e de Montanhismo, com sua primeira edição ocorrida em 25/05/2008 a
17/08/2008.
Estas temporadas foram incorporadas no calendário do PNMNI, tendo sido
realizadas eventos de abertura com grande adesão dos usuários. Cabe salientar que
na Temporada de Verão é realizada a “Operação de Verão” que têm como objetivo
principal educar o usuário, através de abordagens educativas e realização de
mutirões relâmpagos de coleta de lixo nos poços e acessos, realizados por
voluntários e funcionários do parque (fotografias 15 e 16).
Temporada de Verão no PNMNI
Fotografia 15: Funcionário e voluntária abordando
usuários
Foto de Flávio A. P. Mello : 2008.
Fotografia 16: Mutirão relâmpago de coleta de lixo no
poço do Casarão
Foto: Flávio a p Mello: 2008
170
A temporada de Montanhismo de 2008 foi a primeira iniciativa com fins
específicos de se estimular o ecoturismo e lazer em trilhas no PNMNI. As datas da
temporada são escolhidas em consonância com as demais temporadas de
montanhismo que ocorrem em todo pais. No caso do Rio de Janeiro, o estado como
um todo, é tido como região de grande expressão para atividades de montanha, que
incluem além de escaladas, as atividades em trilhas: como trekking, corridas de
orientação e outros.
Assim, apesar do PNMNI não ter muitas possibilidades de escalada, possui o
geoparque e trilhas que podem ser utilizadas para tal. Destaca-se que o maciço do
Gericinó-Mendanha possui inúmeras trilhas, algumas históricas, que podem vir a
estimular a criação de nova unidades de proteção integral, tendo como viés a
preservação do patrimônio natural como área de lazer, a exemplo da criação do
Parque Natural Municipal de Nilópolis em área do Gericinó. Esta temporada é
marcada pelo evento Abertura de Temporada de Montanhismo do PNMNI, que dá
início oficial e oferece espaço para divulgação do Parque, parceiros e iniciativas
afins (fotografias 17 e 18). Espera-se que com os anos, o evento venha a consolidar
o PNMNI como uma referência em caminhadas em trilhas na região da Baixada,
tornando-se um irradiador de melhores práticas em visitação em áreas naturais para
a região.
Abertura de Temporada de Montanhismo do PNMNI
Fotografia 17: Visitantes na Pedreira São José
durante a ATM-2008
Foto de Flávio A. P. Mello: 2008.
Fotografia 18: Carlos Papel, fotógrafo amador
expondo fotos do PNMNI durante a ATM 2008
Foto de Flávio A. P. Mello: 2008.
171
4.4.4 Programa “Amigo do Parque conhece o Parque”
O Programa “Amigo do Parque Conhece o parque” foi desenvolvido através
de uma programação bimestral, com inscrição pelo site Amigos do Parque a um
custo de um kg de alimento não perecível que foi doado aos funcionários do parque
e instituições de caridade do entorno. As inscrições eram abertas até um mês antes
do passeio, para 12 vagas, tendo sido realizados 8 passeios guiados até novembro
de 2008, atendendo 54 usuários que se inscreveram através do site “Amigos do
Parque”.
Este “programa” foi uma estratégia de pesquisa, onde se buscou um contato
com os possíveis usuários de trilhas, visando conhecer seu perfil de uma maneira
menos formal (sem questionários e informando que eram objetos de pesquisas).
Utilizando a formação de guia de ecoturismo do pesquisador, foram procedidos os
serviços de condução de visitantes de maneira profissional e dentro dos moldes do
ecoturismo responsável (grupo pequeno, indução ao consumo de paisagens,
informação dirigida para valores conservacionistas visando à valoração ambiental
local e traçando paralelos com a vida urbana...), conforme figuras 19 e 20.
Programa “Amigo do Parque conhece o parque”
Fotografia 19:
Flávio Zen e grupo no Circuito das Águas
Março de 2008
Fotografia 20: Grupo na Pedra da Contenda
Julho de 2008
172
4.4.5 Síntese das recomendações ao PNMNI, por área temática
A seguir são descritas as recomendações e sugestões de uso público
geradas nesta dissertação (quadro 19). As recomendações foram agrupadas por
áreas de atuação:
01
Gestão
Participativa
Fortalecer o Conselho consultivo, estimulando a formação de câmaras
técnicas setoriais
Consolidar no calendário anual do PNMNI as temporadas de Verão e
Montanhismo como forma de se organizar eventos, e ações de gestão
específicas e estimular parcerias, dentro de parâmetros mais definidos
Estimular o voluntariado ambiental, dando ênfase à produção acadêmica e
projetos de manejo de trilhas, recuperação de áreas degradadas,
diagnósticos ambientais e turísticos.
02
Zoneamento
Elaborar plano de gestão diferenciado para o Circuito das Águas,
observando entre outros: capacidade de suporte, qualidade da experiência
do visitante e balneabilidade dos poços.
Confirmar a área da pedreira desativada São José como espaço multi-uso,
mantendo a vegetação ciliar no sopé da lavra como espaço para Educação
Ambiental, Observação de Aves e patrimônio paisagístico.
Continuar o mapeamento das trilhas do parque, visando identificar as trilhas
adicionais para o zoneamento recreativo e de conservação.
Consolidar a área de uso extensivo nas áreas de maior alteração antrópica e
de maior grau de degradação (zonas a, b, c e d), referidas Zoneamento de
Oportunidades Recreativas no PNMNI
Criar vagas para estacionamento ao longo da Estrada da Cachoeira,
preservando o espaço da Pedreira São José, mas atendendo uma demanda
mínima (realizar estudos complementares)
03
Conservação
Requalificar as zonas ”e” e “f” referidas Zoneamento de Oportunidades
Recreativas no PNMNI, como zona de recuperação especial.
Priorizar a ativação da Casa do Pesquisador, Prevista para o Posto de
Fiscalização nº 4, como forma de ocupar a parte alta da Unidade e inibir a
ação de pessoas desautorizadas e caçadores.
Estimular programas de Educação Ambiental que valorizem a fauna, em
especial os pássaros, alvos de apreensão por parte de moradores. Assim
como apoiar iniciativas de turismo especializado como Observação de aves.
As práticas de rapel devem ser avaliadas face os flagrantes sinais de
degradação observados. Na possibilidade de operação de vias de escalada,
na pedreira desativada, devem ser contemplado um projeto especifico
visando a segurança e a conservação da mata ciliar conforme referido
04
Visitação
Manter o site Amigos do Parque como interface com o usuário e instrumento
de divulgação da unidade ou estabelecer junto à secretaria municipal de
meio ambiente de Nova Iguaçu, sitio com função e agilidade semelhante.
Monitorar o fluxo e dispersão de visitantes através do maior controle da
roleta e amostragens sistemáticas do perfil do usuário.
Consolidar os roteiros sugeridos, dando ênfase ao Circuito das Águas e
Trilha Circular Externa como referências para as temporadas de Verão e
Montanhismo respectivamente
Iniciar cadastro de operadores de turismo e lazer formais e informais que
agem na unidade
Estabelecer normas de uso para a Pedra da Contenda, visando a proteção
do patrimônio ambiental e segurança dos visitantes
Quadro 19: Recomendações e sugestões ao PNMNI
173
Em termos mais específicos, algumas observações também são pertinentes:
Para o PNMNI, é recomendado que a roleta localizada na guarita de acesso à
área seja utilizada com mais regularidade e critério, para que de fato possa
identificar qual a quantidade de pessoas que se movimentam na Unidade a partir
desta entrada e como se distribuem ao longo do ano. Foi percebido que, de acordo
com situações específicas, às vezes os visitantes não eram contabilizados ou os
dados na roleta não eram atualizados diariamente. Com estes dados mais exatos e
regulares, será possível comparar diversas leituras como, por exemplo, os
quantitativos mensais e de temporadas, as flutuações em função do clima, e ainda,
cruzar os dados de total de visitantes com as capacidades de carga previstas para
determinados atrativos e principalmente, constituir uma referência mais aproximada
da base amostral para os estudos estatísticos.
Para as interpretações mais qualificadas, é recomendável a utilização de
ferramentas
estatísticas
mais
elaboradas
como
Amostragem
Proporcional
Estratificada, onde é possível identificar não só a composição média dos usuários,
como também coletar dados aptos para a criação de estratos, de modo a se poder
aferir as características próprias de cada subgrupo, conforme preconizada por Tiboni
(2002:22-23).
Neste sentido, o controle de portaria com a correta utilização da roleta,
conforme referido, torna estas abordagens mais factíveis. A princípio, contudo, podese estabelecer uma base aleatória onde para cada 20 visitantes fossem requeridas
perguntas rápidas como: origem, se é a primeira vez que vem ou se é usuário
regular (quantas vezes ao ano) e para onde pretende ir dentro do Parque
(mapeamento da dispersão). Os dados referentes a gênero e faixa etária poderiam
ser incluídos mediante observação do apontador.
Cabe observar que se faz necessário um amplo cadastro de operadores
informais, que devem incluir os agentes que atuam com passeios de lazer,
ecoturismo, rapel e os grupos institucionais como: igrejas, escolas e associações.
Estes, são grandes agentes de descontrole da visitação quando não orientados,
principalmente quanto à responsabilidade ambiental e das relações de consumo.
Embora pouco confortável para alguns visitantes, o cadastro permite a UC monitorar
174
e passar a sensação de algum controle junto a estes operadores e ainda ter
parceiros para atividades específicas, como a divulgação das normas de visitação e
outras informações de interesse. As instituições que desenvolvem atividades no
parque ou em seu entorno, ou que poderão contribuir para tal.
Destaca-se ainda que uma aproximação operacional com a Prefeitura de
Mesquita poderia otimizar os trabalhos de diagnose e educação ambiental, visto que
a grande maioria dos usuários são oriundos deste município. Neste sentido, a
Secretaria de Meio Ambiente (via Sala Verde de Mesquita) têm desenvolvido várias
atividades sócio-ambientais no PNMNI, mas não há o adequado compartilhamento
de dados ou de iniciativas que possam redundar em benefício da unidade mútuo.
Ressalta-se, portanto, a necessidade de tornar o Conselho Consultivo, de fato, uma
ferramenta de gestão e de participação comunitária, inclusive com o fomento de
câmaras técnicas, que podem orientar a produção acadêmica sobre o PNMNI assim
como muitas decisões de gestão.
Os contatos com as secretarias de educação de ambos os municípios
chegaram a ser cogitados no decorrer da elaboração desta dissertação, entretanto,
foi constatado que estas secretarias, no tocante a programação de atividades que
envolviam o PNMNI, já possuíam uma programação de visitas ao Parque através de
duas formas: via programas específicos da Secretaria de Meio ambiente de visitas
guiadas e de treinamento de educadores (escolas públicas e privadas), notadamente
da prefeitura de Mesquita, via Sala Verde (Tapinhoã); ou através de visitas
independentes ao Parque, através de agendamento direto (principalmente Nova
Iguaçu).
Salienta-se ainda, a importância do fomento ao voluntariado em unidades de
conservação que é uma tradição em inúmeros países do mundo. Nos Estados
Unidos, o Serviço de Parques Nacionais conta com um programa de voluntários nos
parques que gera benefícios mútuos para os parques e para os voluntários. No
Brasil o trabalho voluntário foi regularizado pela lei 9608/98. Segundo esta lei, o
serviço voluntário é uma atividade não remunerada, prestada por pessoa física a
entidade pública de qualquer natureza ou a instituição privada sem fins lucrativos
que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de
175
assistência social inclusive a mutualidade. Ressalta-se que o serviço voluntário não
gera vínculo empregatício nem obrigação de natureza trabalhista previdenciária ou
afim.
No PNMNI, o desenvolvimento desta dissertação propiciou uma mobilização
conhecida como Projeto Amigos do Parque, o qual têm como objetivo desenvolver a
cidadania ambiental junto a seus usuários, através de ações de voluntariado
envolvendo uma agenda regular de mutirões de plantio de mudas e manejo de
trilhas como eixo de educação e sensibilização ambiental, assim como a promoção
do ecoturismo responsável e divulgação do PNMNI.
Apesar da mobilização de voluntários, as dificuldades de gestão do Parque
permanecem, pois o serviço voluntário, por suas características peculiares não visa
à substituição do pessoal efetivo e ainda seu espectro de atuação é limitado, de
acordo com a disponibilidade de voluntários. Contudo, foi demonstrado à direção da
Unidade, que é possível minorar ou mesmo suprir determinadas deficiências
administrativas, e ao mesmo tempo, propiciar experiência e oportunidades de
cidadania ao voluntário, desde que haja um mínimo de planejamento das atividades
e pessoal técnico responsável; conforme o saldo de atividades até a presente data
aonde desde sua implantação, o programa conduziu 14 mutirões de manejo de
trilhas, plantio de mudas nas áreas da Pedreira e vale do Levi e revitalização do
viveiro de mudas florestais; mobilizou voluntários para as atividades de abertura das
temporadas Montanhismo e de Verão 2008, na qual foram realizados mutirões
relâmpagos de limpeza dos poços e acessos.
Embora um tanto despercebido pela administração, a divulgação antecipada
de um calendário de atividades previstas, também auxilia sobremaneira na gestão
da visitação da unidade e o planejamento a médio prazo das atividades mais
representativas, que devem ter maior atenção face as repercussões na mídia e para
as políticas públicas de promoção da unidade e interação com seu público usuário.
Um outro aspecto a se destacar é a urgência de contratação de pessoal técnico
qualificado para que possa auxiliar na gestão, expandindo as funções do parque
além da manutenção da Estrada da Cachoeira até o Casarão e o controle de
portaria, conforme salientado nas várias iniciativas conduzidas através do
voluntariado Amigos do Parque.
176
5.0 CONCLUSÕES
As análises realizadas, bem como os principais resultados obtidos, permitiram
concluir que os objetivos propostos foram plenamente atingidos no que tange ao
mapeamento e ordenamento de circuito de trilhas, criação de roteiros e geração de
subsídios para o zoneamento turístico do PNMNI. A abertura de trilhas em áreas
preservadas, por si só, é uma agressão ao meio ambiente e seu estudo é de suma
importância, na medida em que é possível avaliar a relação custo-benefício das
interferências que repercutem no patrimônio natural da unidade de conservação,
tanto em termos de biodiversidade quanto em valores menos tangíveis, como nos
cenários. De fato, embora utópico, o ideal seria poder comparar o custo das
interferências e os benefícios advindos da aplicação sistemática de valoração
ambiental. Entretanto, tal condição deve ocorrer com base em diagnósticos mais
precisos, suposições e expectativas, visto que muitos de seus valores partem de
condições subjetivas. É justo, portanto, pressupor que a manutenção de áreas com
elevados índices de preservação e mesmo de conservação, deve ser considerada
com maior relevância principalmente em tempos de mudanças climáticas e extinção
massiva de espécies por alterações antrópicas de ecossistemas protegidos ou não.
Por extensão, ao se examinar o ordenamento da malha de trilhas existentes
em unidades de conservação, é patente que este se reveste de capital importância,
ao se traduzir em potencial instrumento de proteção ambiental. O ordenamento é
uma via de mão dupla, pois ao mesmo tempo em que interfere nos lugares e
territórios,
também sofre
sua
repercussão
e
conseqüência. Deste
modo,
considerando o viés da conservação, a seleção de trilhas através da elaboração de
roteiros com fins definidos e específicos, constitui por si mesmo, um dos vetores de
zoneamento territorial e ambiental, pois ao se modular a acessibilidade da visitação,
maneja direta e indiretamente os impactos, dentro de limites aceitáveis, em cada
zona estabelecida.
É fato reconhecido que a gestão ótima de recursos ambientais pressupõe
uma visão multidisciplinar e transversal, cujo julgamento, entretanto, tende a
minimizar ou ignorar elementos componentes que possam comprometer o objetivo
final, de acordo com a percepção e interesse do operador. Para a realidade do
177
PNMNI, mesmo aquelas com prerrogativas de uso para a visitação estabelecida
conforme a categorização do SNUC, a ausência de informações inconclusivas
quanto à fauna, a flora e demais recursos, devem ser consideradas com mais
acuidade quando se trata de unidades de conservação de proteção integral.
Por suposto que esta condição, de proteção integral, não deve ser impeditiva
para o estabelecimento da visitação, pois esta também cumpre sua função social e
cultural, contudo, a atenção, quanto aos impactos presentes e futuros, deve ser
considerada, não só nas trilhas, espaços de lazer e de contemplação, mas também
em seus efeitos deletérios por contigüidade, como é o caso dos eventos percebidos
na fragmentação florestal induzidas pela abertura ou manutenção destas vias e
espaços.
Ante a complexidade, demanda técnica e financeira de se estabelecer a
valoração ambiental de recursos naturais da Unidade, essencial para se ter um
parâmetro mais palpável para as relações custo-benefício de elementos tangíveis e
intangíveis, deve-se optar pelo “principio da precaução” e estabelecer com mais
prioridade as ferramentas de monitoramento de impactos, assim como aquelas que
induzem a participação dos diversos atores; como preconizado pela metodologia de
Monitoramento Participativo do Turismo Desejável (MPTD) sugerido por Seabra
(2005, op.cit) e outras como o TOMM, VERP e VAMP. Salienta-se que estas
ferramentas metodológicas são muito eficientes para a mobilização de conselhos
consultivos,
que
no
PNMNI
embora
instituído,
possui
participação
e
representatividade muito aquém do desejado. De fato, os conselhos consultivos
podem ser muito eficientes para criar condições políticas a favor da gestão das
unidades, a exemplo de experiências vitoriosas como a estabelecida no Parque
Nacional da Serra dos Órgãos através de suas diferentes câmaras técnicas e fóruns
de participação com as comunidades de usuários.
No tocante à ampliação do perfil dos usuários, conforme demonstrado nesta
dissertação, o conhecimento regular de seus hábitos e expectativas sobre o Parque
é uma informação estratégica e de relevância, principalmente em unidades com
carência de recursos humanos e materiais, como é o caso do PNMNI. Estas
informações permitem que se otimizem recursos e se tracem estratégias para a
178
adequada proteção dos recursos naturais e construídos, dentre os limites
operacionais disponíveis. De fato, a massa de dados gerada irá consubstanciar as
demandas da administração a quem de direito, assim como municiar pesquisas
acadêmicas e técnicas.
Finalmente, pode-se dizer que nos trabalhos para desenvolvimento desta
dissertação, a proposição de se subsidiar o zoneamento de lazer e ecoturismo
utilizando a seleção de trilhas e estabelecimento de roteiros predefinidos, pode ser
atingida e lançada as bases para se testar ao longo do tempo, a hipótese de se
induzir a mudança no perfil do usuário do parque desejada pela administração; isto
é, que o usuário médio do Parque também fosse capaz de utilizar as trilhas e outros
espaços e atividades, além do uso sazonal de verão e localizado nos poços e
cachoeiras do rio Dona Eugênia. Ressalta-se que em seu bojo o ordenamento da
malha de trilhas selecionadas, assim como, o zoneamento recreativo proposto, irá
facilitar os serviços de fiscalização da visitação e preservação dos recursos naturais
e paisagísticos locais, os quais somente foram possíveis graças às múltiplas
abordagens e vivências estabelecidas através de diferentes estratégias de
percepção e aquisição de dados.
De fato, poder-se-ia abster destas derivações, como por exemplo, a criação
do voluntariado e dos passeios guiados gratuitos, e concentrar-se apenas no objeto
do mapeamento das trilhas, avaliação de territórios e lugares e propor um
zoneamento conforme as diferentes proposições metodológicas existentes. Contudo,
optou-se pelo trabalho interativo, pesquisa e ação. Desta forma, a riqueza conceitual
para o ordenamento da malha de trilhas e o zoneamento conseqüente, tangencia
diversos aspectos teóricos e práticos, de organização de sistemas e fluxos de
energia, valoração ambiental, à conservação e turismo, dentre outros, reafirmando a
necessidade da abordagem multidisciplinar e transversal do manejo de trilhas como
ferramenta de conservação efetiva, representadas por diferentes contribuições.
Concluindo, como consideração final, pode-se estabelecer que a utilização
das trilhas como vetores de zoneamento turístico e de lazer, possui grande potencial
para, através de seu ordenamento, subsidiar o zoneamento territorial e ambiental de
unidades de conservação.
179
6.0 BIBLIOGRAFIA
AMBIENTE BRASIL, Portal Índice de Qualidade dos Municípios-Verde II (IQMVerde II) (Cobertura Vegetal).
www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./estadual/index.html&conteudo=./estadua
l/cide.html Capturado em 15/09/2008
AURÉLIO, Dicionário Eletrônico Século XXI. Versão 3.0. Editora Nova Fronteira e a
Lexicon Informática. 1999
AVELAR, Idelber. Weblog O Biscoito Fino e a Massa. Filosofia - sexta-feira, 09 de
março 2007: Jean Baudrillard (1929-2007). Capturado em 12/03/2007
www.idelberavelar.com/archives/filosofia/
BECK, Sérgio. A aventura de caminhar – um guia para caminhadas e
excursionismo. São Paulo: Ágora, 1989.
BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. 2. ed. São Paulo: Senac, 1998.
BEZERRA, Anselmo C. V. ; FERRAZ, Elba M. N. ; BENTO, José S. Ecoturismo em
Unidades de Conservação Urbanas no Recife. Cadernos temáticos /
Secretaria de Educação Profi ssional e Tecnológica. – N. 7, (Dez. 2005). –
Brasília : Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica, 2004-.
BOULLÓN, Roberto C. Planejamento do espaço turístico. São Paulo: Edusc,
2002. Boiteux, Bayard Do Coutto; WERNER, Maurício. Planejamento e
organização do turismo. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2003.
CHRISTOFOLETTI, Antônio. Modelagem de Sistemas Ambientais. E. Blücher,
São Paulo. 1999
______. Análise de Sistemas
HUCITEC/EDUSP, 1979.
em
Geografia.
São
Paulo:
Editora
COSTA, N. M. C. COSTA. Geomorfologia Estrutural dos Maciços Litorâneos do Rio
de Janeiro. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio de Janeiro,
UFRJ, Brasil. 1986.
COSTA, N. M. C. COSTA, V. C. da & MELLO F. A. P. Planejamento de Trilhas no
contexto do manejo e gestão do Ecoturismo de Unidades de
Conservação Urbanas OLAM Ciência & Tecnologia Rio Claro/SP, Brasil
Ano VII Vol. 7 No. 3 Pag. 115 Dezembro/2007
COSTA, N. M. C. Ecoturismo: Abordagens e Perspectivas Geográficas In: Nadja
Mª Castilho da Costa, Zysman Neyman & Vivian Castilho da Costa
(Org.).“Pelas Trilhas do Ecoturismo” Editora Rima 2008
COSTA, V. C. da. Propostas de Manejo e Planejamento Ambiental de Trilhas
Ecoturísticas: Um estudo no Maciço da Pedra Branca - Município do Rio
180
de Janeiro (RJ), Tese de Doutorado. Universidade Federal do Rio de Janeiro,
UFRJ 2006. p. 106
COSTA, V. C. da & MELLO F. A. P. Manejo e monitoramento de trilhas
Interpretativas. Contribuição metodológica para a percepção do espaço
ecoturístico em unidades de conservação. In: Anais... I Simpósio Nacional
de Percepção Ambiental. Londrina, PR. 2005. Cd-rom.
COSTA, V. C. da (2006). Tradução de LECHNER, 2003.Trail/hiking . Willamette
National Forest Hiking Trail, Oregon. From the U.S. Department of Agriculture
Forest Service website, 2002, http://www.fs.fed.us/r6/willamette/recreation/trails/.
CRUZ. R. de C. A. da. Introdução a Geografia do turismo. 2ª Edição. Editora Roca.
SP/SP. 2003
DIAS, Cleber A. G. Lazer e Esportes na Natureza face à Educação Ambiental:
Entre o possível e o necessário. V. Coletânea do V Seminário o lazer em
debate. Anais...(CD-ROM). Rio de Janeiro: UFRJ/LAZMIN, 2004. p.187 – 193
DIAS, Reinaldo. Turismo sustentável e meio ambiente. São Paulo: Atlas, 2003.
DIEGUES, Antônio Carlos Sant`Anna (1998), O Mito Moderno da Natureza Intocada.
São Paulo: Editora Hucitec.
DRM - Geoparque de Nova Iguaçu www.drm.rj.gov.br/item.asp?chave=109 Capturado em
18/07/2007
______. RJ Caminhos Geológicos: www.drm.rj.gov.br/projeto.asp?chave=1 Capturado
em 18/07/2007
DUMAZEDIER, J. Sociologia empírica do lazer. São Paulo: Perspectiva, 1979.
EARTH TECH. Proposta de Plano Diretor - APA do Gericinó-Mendanha.IEF-RJ
2004.
FAGUNDES, Fernanda da Rocha, SCHNEIDER,Maurício; FERREIRA, Nilson
Clementino; GARCIA, Maria Angélica. Proposta metodológica para a
definição de traçados alternativos de trilhas no Parque Estadual de Terra
Ronca (GO) a partir de rotinas de apoio à decisão em Sistemas de
Informações Geográficas.. Anais XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento
Remoto, Florianópolis, Brasil, 21-26 abril 2007, INPE, p. 2541-2548.
FARIA, Dóris Santos de e CARNEIRO, Kátia Saraiva. Sustentabilidade ecológica no
turismo. Brasília : UnB, 2001.
FEDERAÇÃO DE CAMPISMO E MONTANHISMO DE PORTUGAL – Montanhismo www.fcmportugal.com/frameP.asp Capturado em 12/06/2008
FENNELL, David A. Ecoturismo: Uma introdução. São Paulo: Editora Contexto,
2002.
181
FLEURY, Marina. Efeito da Fragmentação Florestal na predação de sementes
da palmeira Jerivá em florestas semidecíduas do Estado de São Paulo.
2003. Dissertação (Mestrado) – Escola Superior de Agricultura “Luiz e
Queiroz”, Universidade de São Paulo.
FRATUCCI, A. C. Os processos de turistificação do espaço e a atuação de seus
agentes produtores. In: I Encontro Nacional de Turismo com Base Local,
2007, João Pessoa - PB. X ENTBL - Identidade Cultural e Desenvolvimento
Local. João Pessoa - PB : Universidade Federal da Paraíba, 2007.
GARCIA, R. M. P. Produção do espaço pelo lazer e turismo. Revista Eletrônica da
Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Três Lagoas Três Lagoas MS, V 1 – n.º 5 - ano 4, Maio de 2007 p.113
GUERRA, A. T. & GUERRA, A. J. T. Novo Dicionário Geológico-geomorfológico.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. 648 p.
GUIA 4 VENTOS, Nova Iguaçu-RJ http://www.guia4ventos.com.br/det_rampa.php?id=59
Capturado em 18/05/2008
GUIMARÃES. Solange T. Lima. Paisagens: aprendizados mediante as
experiências. Um ensaio sobre interpretação e valoração da paisagem.
Tese (livre docência). Universidade Estadual Paulista, Instituto de
Geociências e Ciências Exatas - Rio Claro/SP. 2007
______. Planejamento e proteção dos recursos paisagísticos: aspectos
relacionados à cognição, percepção e interpretação da paisagem. Olam
- Ciência & Tecnologia. Vol. 5 nº 1 pag. 202 ISSN 1519-8693. Rio Claro/SP,
Brasil maio / 2005 www.olam.com.br
______. Percepção Ambiental e Conservação de Recursos Paisagísticos em
Áreas de Turismo Rural e Ambiental. In: Yoshiya Nakagawara Ferreira
(Org.). Construção do Saber Urbano Ambiental - a caminho da
transdisciplinaridade. Londrina: Humanidades, 2002, p. 334
______. Trilhas Interpretativas: a aventura de conhecer a paisagem, Cadernos
Paisagem. Paisagens, Rio Claro, UNESP, n.3, pp.39-44, maio/1998.
GÜNTHER. H. Como Elaborar um Questionário (Série: Planejamento de Pesquisa
nas Ciências Sociais, nº01). Brasília, DF: UnB, Laboratório de Psicologia
Ambiental. 2003.
HAUFF, Shirley Noely. “Aplicação do Espectro de Oportunidades de Recreação
(Recreation Opportunity Spectrum – ROS) para Unidades de Conservação
Brasileiras”. II CONGRESSO BRASILEIRO DE UNIDADES DE
CONSERVAÇÃO (2.:2000: Campo Grande). Anais. Campo Grande, Rede
Nacional Pro Unidade de Conservação, Fundação O Boticário de Proteção a
Natureza, 2000.
182
IBAMA, Instituto Brasileiro de Meio Ambiente. Lista nacional das Espécies da Fauna
Brasileira Ameaçadas de Extinção. www.ibama.gov.br/fauna/extincao.php
Capturado em 10/03/2007
IBGE. Censo Demográfico: Contagem da População 2007, Resultados
preliminares: Nova Iguaçu, Mesquita: www.ibge.gov.br/censo/questionarios.shtm
Capturado em 26/09/2007
______. Considerações sobre alguns aspectos do conteúdo dos questionários do
Censo Demográfico 2000. www.ibge.gov.br/censo/questionarios.shtm Capturado em
26/09/2007
IOS. Instituto de Ortopedia e Saúde. Os 10 benefícios da caminhada:
www.ortopediaesaude.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=252&Itemid=51
Capturado em 30/09/2008
KAGEYAMA, Paulo. GANDARA, Flávio B. Métodos de Estudos em Biologia da
Conservação e Manejo da Vida Silvestre. Cap 14 Restauração e
conservação de ecossistemas tropicais. p. 383. Organizadores: Larry Cullen
Jr, Cláudio Valladares- Pádua, Rudy Rudran. – 2ª ed. – Curitiba: Ed.
Universidade Federal do Paraná, 2006
KLEIN, VC. VIEIRA AC. Vulcões do Rio de Janeiro: breve geologia e
perspectivas - Min. Met. Rio de Janeiro, 1980
LAUBE, Ivanio Dalton. Diagnóstico dos Recursos da Oferta Turística de
Schroeder., TCC - Curso de Turismo e Lazer do Centro de Ciências Sociais
Aplicadas da Universidade Regional de Blumenau. 2004
LECHNER, L. Planejamento, Implantação e Manejo de Trilhas. Cadernos de
Conservação, ano 03 nº3. junho de 2006. Fundação O Boticário de Proteção
à Natureza. ISSN 1807 – 5088
LOBO, H. A. S.; MORETTI, E. C. Ecoturismo: as práticas da natureza e a
natureza das práticas em Bonito, MS. Revista Brasileira de Pesquisa em
Turismo. V. 2, N. 1, P. 43-71, MAR. 2008.
MAGRO, T. C. Talora, D. C. Planejamento e manejo de trilhas e impactos na
flora. Anais do I Congresso Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas.
Rio de Janeiro, 07-11/11/2006. CD ROM
MALTA, R. R.Valoração econômica dos serviços recreativos e ecoturísticos em
unidade de conservação - o caso do Parque Nacional da Tijuca (Rio de
Janeiro-RJ), Dissertação de Mestrado - Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, UERJ, Brasil 2008
MANSUR. K.L. & ERTHAL, F. Preservação do Patrimônio Natural –
Desdobramentos do Projeto Caminhos Geológicos – RJ. In: Simpósio de
Geologia do Sudeste, 8., Águas de São Pedro, SP, 2003. Anais... Águas de
São Pedro, SP: SBG, 2003. p.253.
183
MARBOH. Nadismo : uma revolução sem fazer nada / Marcelo Bohrer. Porto
Alegre : Verbo Jurídico, 2008.
MARQUES, J. S. Estruturação do Sistema Ambiental da Baixada de Jacarepaguá.
Geografia, v. 9, n. 17/18, p. 187-193, 1984.
MARTINS, Angela Mª M. Diagnóstico Geral do Geoparque Municipal de Nova
Iguaçu. Reprodução de Folder fornecido pelo administrador do Geoparque.
Equipe do LAB LET – Laboratório de Lazer e Espaços Turísticos. PROARQ –
Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo. Universidade Federal do Rio de Janeiro. P 07 - Setembro
/outubro de 2004.
MATHLESON, A. & WALL, G. Tourism: Economic, Physical and Social Impacts.
London and New York: Longman, 1982. 208 p.
MÁXIMO, Wellton, Lula sanciona Lei da Mata Atlântica. Agência Brasil
MMA/ASCOM www.ecolnews.com.br/lei_da_mata_atlantica.htm Capturado em
12/02/2007
MELLO, Flávio A. P. Ordenamento da malha de trilhas como suporte ao manejo
da visitação no Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu. Seminário de
mestrado do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. 2007
MENDONÇA, R. À sombra das árvores: Transdisciplinaridade e Educação
Ambiental extraclasse / Rita Mendonça, Zysman Neyman. - A percepção
das formas e organização do espaço p. 95-97. São Paulo: Editora Chronos,
2003. – (Coleção Tempo de Aprender)
MENEZES JR., L.F. (2008). Morcegos da Serra do Mendanha, Rio de Janeiro, RJ,
Brasil (Mammalia, Chiroptera). Dissertação de Mestrado. Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro. 74p.
METZGER, Jean Paul. O que é Ecologia da Paisagem. Biota Neotropica, Vol. 1,
números 1 e 2, 2001 - BN00101122001- ISSN 1676-0603
MORETTI, E.C. Atividade turística: produção e consumo do lugar Pantanal. In:
BANDUCCI J., Á.; MORETTI, E.C. (Orgs.). Qual paraíso? Turismo e ambiente
em Bonito e no Pantanal. São Paulo: Chronos/UFMS, 2001.
MOTA, José Aroudo. Enfoques Sistêmico e Termodinâmico dos Recursos
Naturais. www.transportes.gov.br/CPMA/ESTRecursosNaturais.doc Capturado em
09/09/2007
MOTOKI, A., Soares, R., LOBATO, M., PETRAKIS, G.H., NETTO, A.M., SICHEL,
S.E., AIRES, J.R. Rumo da educação ambiental com base na geológica
regional de Nova Iguaçu, RJ: de acordo com desenvolvimentos científicos ou
desejos populares do vulcão ? Amigos do Parque Natural Municipal de Nova
Iguaçu Edição eletrônica, 18p. 2007.
184
MOTOKI, A., Soares, R., NETTO, A.M., SICHEL, S.E., AIRES, J.R., LOBATO, M.
2007. Reavaliação do modelo genético do Vulcão de Nova Iguaçu, RJ:
origem eruptiva ou intrusão subvulcânica? Revista Escola de Minas, Ouro
Preto, v. 60-3.
MOTTA, R. S. da. Manual Para Valoração Econômica de Recursos Ambientais Publicação do Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da
Amazônia Legal, com suporte do IPEA e CNPq, 1998.
NOGUÉ I FONT,Joan. Geografia humanista y paisaje, Anales de la Universidad
Complufense, Madrid, nº 5, p93-107.
http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=86221 Capturado em 12/09/ 2008.
OLIVEIRA, A. P. Turismo e desenvolvimento: planejamento e organização. 2
ed., São Paulo: Atlas, 2000.
PACIÊNCIA, Mateus L.B; PRADO, Jefferson. Efeitos de borda sobre a
comunidade de pteridófitas na Mata Atlântica da região de Una, sul da
Bahia, Brasil. Revista Brasil. Bot., V.27, n.4, p.641-653, out.-dez. 2004
PASSOLD, A. J. Seleção de indicadores para o monitoramento do uso público
em áreas naturais. 2002. Dissertação (Mestrado) – Escola Superior de
Agricultura “Luiz e Queiroz”, Universidade de São Paulo. Piracicaba/SP.
PAZINI, Ana Paula. Trilhas na Serra do Japi - Março de 2007 Blog Trilhas e
Versos. http://trilhaseversos.blogspot.com/2007/03/trilhas-na-serra-do-japi-maro-de2007.html. Capturado em 15/10/2008.
PINHEIRO, E. S. Percepção ambiental e a atividade turística no Parque
Estadual do Guartelá – Tibagi, PR. 2004. Dissertação (Mestrado) – Curso
de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal do Paraná.
Curitiba/PR
PIRES, Paulo dos Santos. A dimensão conceitual do ecoturismo. Turismo: Visão e
Ação, 1998, pp. 53-71.
RODRIGUES, Adyr Balastreri. Turismo e Espaço – rumo a um conhecimento
transdisciplinar, 3.ed. Hucitec, São Paulo, 2001.
RUSCHMANN, Doris Van de Meene. Turismo e planejamento sustentável: a
proteção do meio ambiente. São Paulo: Papirus, 1997.
SALES, Airles M. M. ASSIS,Lenilton F. Turismo e ensino de Geografia : um
diálogo possível. Revista Geografia - v. 15, n. 1, jan./jun. 2006 –
Universidade Estadual de Londrina, Departamento de Geociências.
SANDEVILLE Jr. (2002:157). A paisagem natural tropical e sua apropriação para
o turismo. YÁZIGI, Eduardo. (Org.) Turismo e Paisagem. São Paulo, Editora
Contexto, 2002: 157
185
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 3. ed.
São Paulo: Hucitec, 1999.
SCHMITT, R. S. TUPINAMBÁ, VALERIANO, M. RAGATKY, D. MANSUR, K.L. O
Projeto Caminhos Geológicos - Divulgação Científica dos Monumentos
Geológicos do Estado do Rio de Janeiro Anais do 2º Congresso Brasileiro
de Extensão Universitária Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004
SEABRA, Lilia dos Santos. Monitoramento Participativo do Turismo Desejável:
Contribuição aos Estudos de Capacidade de Suporte Turístico. Anais do
I Encontro Interdisciplinar de Ecoturismo em Unidades de Conservação. CDRom. 2005
SELVA, V.S.F. e COUTINHO, S.F.S. Ecotourism X Ecological Tourism in Brazil:
A necessary distinction? Annals of the Second Internacional Congresses &
Exihibition on Ecottourism, Abril, Salvador, 2000, pp. 26-28
SEMUAM, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo Plano de Manejo
do Parque Municipal de Nova Iguaçu – Versão Resumida –2001
SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL – CPRM. Projeto Geoparques. 2004
http://www.unb.br/ig/sigep/destaques/PROJETO_GEOPARQUES.pdf.
Capturado em
08/09/2008
SILVA, J. S. V; SANTOS, R. F. Zoneamento para planejamento ambiental:
vantagens e restrições de métodos e técnicas. Cadernos de Ciência &
Tecnologia, Brasília, v. 21, n. 2, p.221-263, maio/ago. 2004
SILVEIRA, A. D. Avaliação de Ações de Empreendimentos Ecoturísticos
Considerando a Integração das Dimensões Conceituais do
Ecodesenvolvimento e do Ecoturismo. Dissertação de Mestrado.
Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, Brasil. 2003.
SNUC, Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Capturado em
03/03/2005 http://www.ibama.gov.br/siucweb/unidades/legislacao/coletanea/lei9985.htm
SONAGLIO, K. E. A transdisciplinaridade no processo de planejamento e
gestão do ecoturismo em Unidades de Conservação, Tese de Doutorado.
Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC. 2006.
SOUZA, José Arilson Xavier de ; ASSIS, Lenilton Francisco de . A inserção
transversal do Turismo nas aulas de Geografia do Ensino Médio.
Caminhos da Geografia (UFU. Online), v. 8, p. 9-17, 2007. ISSN 1678-6343
http://www.ig.ufu.br/revista/caminhos.html Capturado em 18/08/2005.
STIGLIANO, B. V.; CÉSAR, P. A. B.. Métodos de gerenciamento da visitação em
áreas naturais: possibilidades e limitações. Texto apresentado no V
Congresso Brasileiro de Pesquisa em Ambiente e Saúde, Santos, 2005.
STIGLIANO, Beatriz Veroneze; CÉSAR, Pedro de Alcântara Bittencourt. Métodos
de gerenciamento da visitação em áreas naturais: possibilidades e
186
limitações.. Texto apresentado no V Congresso Brasileiro de Pesquisa em
Ambiente e Saúde, Santos, 2005.
TIBONI, Conceição Gentil Rebelo. Estatística Básica para o Curso de Turismo.
240 páginas - 1ª Edição (2002). São Paulo: Editora Atlas S. A.
TESAURO na Filosofia da Educação: Pesquisa Ação http://www.servidoras.org.ar/cGibIn/om_isapi.dll//InfoDoc42.htm?clientID=357558072&hitsperheading=on&infobase=tesaport.
nfo&jump=PESQUISA-A%c7%c3O&softpage=ref_Doc#JUMPDEST_PESQUISA-AÇÃO
Capturado em 11/11/2008
TRIGO, L.G.G. A sociedade pós-industrial e o profissional em Turismo. 7ª
Edição (1998) Coleção Turismo. Campinas, SP: Editora Papirus
TRONCOSO, B. Rol y tipos de ecoturismo, y el potencial del país para desarrollarlo.
Disponível em: http://www.kiskeya-alternative.org/publica/bolivar/iiferia.htm. Capturado
16/08/2008
TUAN, Y Fu. Espaço e Lugar: a perspectiva da experiência, São Paulo, Editora
Difel, 1983.
VALENTE, S.C., MELLO, E.F., PALERMO, N. 2005. Geologia de uma porção do
complexo vulcânico de Nova Iguaçu limítrofe à área de lavra da pedreira
Vigné, Nova Iguaçu, RJ Relatório técnico final do Projeto TAC (Termo de
compromisso de Ajustamento de Conduta). Ministério Público do Estado do
Rio de Janeiro, 72p.
VIEIRA, A.C., KLEIN, V.C. Vulcão de Nova Iguaçu, o vulcão brasileiro. CREA-RJ,
2004. 10p. (inédito)
VILLAVERDE, Sandoval. Corpo, lazer e natureza: elementos para uma
discussão ética. IN BRUHNS, Heloísa T. & GUTIERREZ, Gustavo L.
Representações do lúdico: II ciclo de debates lazer e motricidade. Campinas,
SP: autores associados – comissão de pós-graduação de faculdade de
educação da UNCAMP, 2001.
ZACCHI, G. P. Turismo Ecológico e Ecoturismo: Diferenças e princípios éticos
Diálogos & Ciência –- Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e
Ciências de Feira de Santana. Ano II, n. 4, jun. 2004. ISSN 1678-0493
http://dialogos.ftc.br/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=33&Itemid=15
Capturado em 15/05/2008
187
7.0 Anexos
7.1 Anexo 01: Site AMIGOS DO PARQUE
·
·
www.pmni.rg3.net (redirecionado) utilizado para divulgação
www.pmni.infotrilhas.com (hospedado)
188
7.2 Anexo 02 “Pesquisa de Fluxo e Padrão de Dispersão de Visitantes”
Exemplificação da seção “Amigos do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, com
explicações de como o usuário pode participar “on line” da “Pesquisa de Fluxo e
Padrão de Dispersão de Visitantes”
189
190
7.3 Anexo 03: Pesquisa de Perfil e Dispersão de Operadoras de Ecoturismo e de
Lazer na Natureza
- Exemplificação da seção “Amigos do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu,
com explicações de como as operadoras de ecoturismo e de lazer podem participar
“on line” da “Pesquisa de Perfil e Dispersão de Operadoras de Ecoturismo e de
Lazer na Natureza”
191
192
7.4 Anexo 04: Pesquisa de Valoração econômica dos serviços de condução de
visitantes
193
194
7.5 Anexo 05: Proposta de Voluntariado
Exemplificação da seção de “Voluntariado”, com explicações sobre como participar
do programa
195
7.6 Anexo 06: Agenda
Download

View/Open - DSpace at Universia