Ecologia na prática:
Parque Estadual do Papagaio Charão
Simone Luiza Fritzen
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Simone Luiza Fritzen
ECOLOGIA NA PRÁTICA: PARQUE ESTADUAL DO PAPAGAIO CHARÃO
Livro Reportagem apresentado à disciplina
de Laboratório de Jornalismo Impresso III,
ministrada pelo professor Cássio dos
Santos Tomaim, para obtenção de nota no
curso de graduação em Comunicação
Social Habilitação em Jornalismo, do
Centro de Educação Superior Norte RS da
Universidade Federal de Santa Maria
(UFSM).
Frederico Westphalen/RS
2014
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SUMÁRIO
Agradecimentos ....................................................................................................................... 4
Reconhecimento de território: primeiras impressões ............................................................. 5
Uma questão de perceber: a observação indireta da ocorrência das espécies....................... 8
Monitoramento da fauna silvestre atropelada ...................................................................... 11
Uma Unidade em um Sistema de Unidades........................................................................... 13
Plano de Manejo do Parque Estadual do Papagaio Charão: um capítulo à parte ................. 18
Flora: a vida em cadeia........................................................................................................... 20
O pote de ouro no final do arco-íris e, no caminho de volta, mais surpresas... .................... 23
Ensaio por mais parcerias em defesa da biodiversidade ....................................................... 28
Referências Bibliográficas ...................................................................................................... 31
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Agradecimentos
À Divisão de Unidades de Conservação, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente do
Estado do Rio Grande do Sul, por autorizar a realização desta pesquisa.
Ao Gestor do Parque Estadual do Papagaio Charão, Ígor Kraemer, pelo
acompanhamento do trabalho e partilha de conhecimentos.
Ao mestre que orientou esta grande reportagem, Prof. Cássio dos Santos Tomaim.
À minha família, por todo o apoio.
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Reconhecimento de território: primeiras impressões
Quando saía de casa, às 9 horas da manhã de segunda-feira, imaginei, pela leve friaca
que fazia, que a temperatura devia estar em torno de uns 14º C. Era outono, mas o inverno,
tímido, começaria a aparecer. O céu, azul de um só tom, dava espaço às indefinidas nuvens
acinzentadas, que deixavam passar um ou outro raio de sol até a superfície da terra. O meu
destino, naquele dia, era o Parque Estadual do Papagaio Charão, uma das Unidades de
Conservação (UC) brasileiras.
Provavelmente você ainda não a conheça, ou não com este nome, pois, inicialmente,
se chamava Parque Florestal de Sarandi, depois, foi chamada de Parque Estadual de Rondinha,
em homenagem ao município. Acreditava-se que estava no território desta cidade (RS), o que
gerou uma confusão entre ambos, uma vez que os dois queriam que pertencesse ao seu
município, porque gera retorno em ICMS na receita municipal. No ano de 2010, ficou
esclarecido que a área dos mil hectares está completamente localizada no território de
Sarandi, e que, para evitar mais equívocos, receberia o nome com base em um atributo natural
que ocorresse no Parque ou na região, assim como acontece com os outros Parques do Estado:
o Papagaio Charão.
Depois de alguns minutos de conversa com o Agente Florestal e Gestor da Unidade
desde 2012, Ígor Kraemer, era hora da saída de campo. De carro, em marcha lenta,
adentramos na floresta pela trilha do aceiro, a única que pode ser percorrida por automóveis e
também a mais lúdica: termina na cascata do Arroio Baios – principal atrativo paisagístico do
parque –, a cinco quilômetros da entrada do Parque.
Aos poucos, começava a me familiarizar com o local: o ruído dos gravetos e pedaços de
pau, inertes no caminho, estalando insistentemente ao serem atropelados pela força dos
pneus; ao longe, algum pássaro, vez ou outra, nos presenteava com a graça de sua melodia; os
grilos, quase despercebidos pelo tamanho, davam a perceber que não estávamos sozinhos:
simpáticos anfitriões, os insetos curiosamente cantavam com suas asas – sim! É assim que
produzem som – por todo o tempo, em plena luz do dia; além da composição do trio (gravetos,
pássaro e grilos), nada mais se ouvia; nesse instante, tive a certeza de que barulho algum,
produzido pelas fábricas das grandes cidades, ousaria interromper aquela infinita paz.
Nos olhos, confundiam-se os vários tons de verde clássico, cuidadosamente pintados
pela Mãe Natureza nas folhas das plantas – que também foram minuciosamente recortadas
em sortidas formas: grandes, pequenas, largas, estreitas, compridas ou curtas, pontudas ou
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arredondadas, retas ou ziguezagueadas –, e de marrons, cinzas e cor-de-palha, colorindo os
troncos das árvores, arbustos e cipós – alguns mais grossos, outros mais finos, uns mais lisos,
outros mais ásperos. O aroma dessa mistura de cores, formas e superfícies? Um cheiro de
mato custoso de descrever. Fragrância de terra; de terra úmida, eu diria, para me aproximar
daquele cheiro que levanta do solo quando começa a chover. Lugares assim, para Euclides da
Cunha, fazem deste país uma região privilegiada, “onde a natureza armou a sua mais
portentosa oficina”.
Ao mesmo tempo em que olhava pela janela aberta do carro e sentia, sem nenhum
esforço, o equilíbrio entre todos os tipos de vida que me rodeavam, Ígor explicava o que fazia
daquela área uma Unidade de Conservação (UC): − Ela tem remanescentes florestais originais
dessa região. Parte da vegetação, na região noroeste do Parque, é uma área que sempre teve
mato, e que teve pouca alteração. Para ser incluída na categoria Parque, passou por uma
análise de um grupo de estudos, apresentando as condições necessárias. Muitas espécies da
fauna e da flora são endêmicas, específicas dessa região, e estão ameaçadas de extinção –,
contou.
A trilha pela qual percorríamos, nesse momento, além de permitir o deslocamento
pelo interior da Unidade, serviu de aporte para reparar que, do meu lado esquerdo, a
vegetação era de mata nativa fechada (Floresta Ombrófila Mista e Floresta Estacional
Decidual), enquanto do lado direito a vegetação era mais fina (aberta) e rasteira, com
ocorrência predominante de gramíneas, capins e barbas-de-bode – que secam em
determinado período.
A diferença das duas formações vegetais, ambas consideradas Bioma Mata Atlântica,
ocorreu porque esta segunda área (da minha direita, mais aberta), há cerca de 15 anos, fora
uma área de campo com plantio de araucária, ligado à Secretaria Estadual da Agricultura, com
foco na exploração florestal, na pesquisa florestal e no manejo, mas que recebeu mais atenção
e legislação porque estava com seus recursos naturais se exaurindo; daí a preocupação em
manter a vegetação que havia para conhece-la melhor, objetivo das áreas de proteção
integral: – Até hoje não conhecemos todas as espécies que ocorrem aqui – revelou Ígor.
Já a linha divisória entre as duas vegetações, hoje usada como trilha, já foi um aceiro –
faixa arada de terra que servia como limite para o fogo, usado como técnica agrícola para
revÍgorar o solo (na área de campo), não avançar pela mata. Assim, a área de campo está
atualmente em fase de transição, pois como o manejo não é mais realizado, a floresta está
lentamente avançando sobre ela, o que não deveria acontecer.
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Um dos objetivos do Parque, inclusive, é manter as áreas de campo; nelas,
de
extinção,
como
paraguayensis,
o
FOTO: Ígor Kraemer/Jun. 2012
sobrevivem espécies ameaçadas
Butia
conhecido
popularmente como butiá, e que
só
resiste
nesse
tipo
de
vegetação. Na mata fechada,
avistei um deles e pude perceber
como era diferente dos outros:
mais alto e menos expansivo, por
não estar no ambiente biológico
adequado. Caso a área de campo
Indivíduo do Butia paraguayensis, espécie endêmica ameaçada
desapareça, em longo prazo, a de extinção, localizado em uma das poucas áreas de campo que
espécie
do
butiá
morrerá restaram no Parque Estadual do Papagaio Charão.
juntamente.
Com as primeiras impressões já registradas, relembro que, quando soube, nesses
últimos meses, da existência do Parque Estadual do Papagaio Charão, localizado no município
de Sarandi, no norte do estado do Rio Grande do Sul, por meio do site da Prefeitura Municipal,
fiquei extremamente tentada a conhecê-lo melhor, já que sempre fui simpatizante das causas
ecológicas.
Ao escrever este livro, começo a perceber o quanto poderá contribuir na educação
ambiental de crianças, jovens e adultos, levando-se em conta que o jornalismo ambiental está,
até então, em um contexto deveras restrito ao nicho de profissionais e público segmentados
da área, na grande maioria das vezes, em função da linguagem especializada demais que
utiliza, quando deveria, por outro lado, abranger, sobretudo, o círculo dos leitores comuns,
cidadãos responsáveis pelo meio em que vivem tanto quanto os órgão ambientalistas.
Além disso, mostrar aos brasileiros que existem mais iniciativas de proteção do que se
imagina, mesmo que recentes e em construção, tornou ainda mais instigante meu trabalho,
visto que esta é a única pesquisa jornalística e das ciências sociais de que se tem conhecimento
em uma UC do estado do Rio Grande do Sul, conforme o coordenador de Pesquisas da Divisão
de Unidades de Conservação da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Felipe Kohls Rangel.
Assim, quando contatei Ígor para explicar-lhe informalmente minha proposta de
trabalho, informou-me que, para a realização de pesquisas, são necessárias duas autorizações
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– uma para desenvolver o trabalho (expedida pela Coordenação de Pesquisas do
Departamento de Unidades de Conservação da Secretaria do Meio Ambiente) e outra para
ingresso no Parque (concedida pelo próprio Gestor da Unidade), que deveriam ser solicitadas
com a devida antecedência. Era metade do mês de março quando fiz um breve projeto e
preenchi um formulário com alguns dados, que enviei para a referida Coordenação. Na
primeira semana de maio, a solicitação foi concedida, e fiz minha primeira visita na segunda
semana do mesmo mês.
Confesso que, nesse meio tempo, fiquei, por vezes, irritada com a rigidez burocrática,
e ansiosa, pois não sabia se a autorização seria concedida ou quando seria. Depois de
conversar com a Gestor, porém, percebi que o trabalho da Administração do Parque e da
Coordenação de Pesquisas é, justamente, desembaralhar tais “burocracias”, e que algumas
precauções são realmente necessárias. É através do projeto de pesquisa encaminhado que as
visitas e as atividades do Parque são organizadas.
Além disso, muitos acadêmicos solicitam pesquisa, realizam-na (o que dispende tempo
e recursos públicos), mas não disponibilizam o retorno desta – relatórios e artigos elaborados.
Por isso, atualmente, exige-se que o pesquisador faça um relatório a cada saída de campo, que
fica arquivado no setor administrativo do Parque, para evitar perdas de material importante.
Segundo Ígor, dificilmente pesquisas serão negadas, a não ser que sejam realmente
impróprias. Quando os dados estiverem incompletos, não fornecendo os subsídios necessários
para a análise, acréscimos serão solicitados e, havendo a complementação requerida, a
possibilidade da pesquisa será novamente avaliada.
Perceba, caro leitor, que esta é uma verdadeira viagem ao universo da ecologia, da
preservação, e mais do que isso, a um fragmento do planeta que possibilita a observação da
natureza como ela realmente é, na sua essência. Continue conosco!
Uma questão de perceber: a observação indireta da ocorrência
das espécies
Visualizadas as diferenças dos dois tipos de vegetação (de mata e de campo),
continuamos a trilha até chegar a uma bifurcação, na qual o caminho à direita leva à outra
trilha que termina em um açude não pertencente ao Parque, enquanto à da esquerda continua
em direção à cascata, nosso destino. Ao dar uma breve parada, ouvimos o sonoro canto de um
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pássaro. Ver um animal no Parque, porém, é algo bem difícil, pois eles são selvagens. A ocasião
me desanimou um pouco, pois imaginava que iria tirar boas fotografias deles. Tive de
compreender que certas coisas não seriam alcançadas como o previsto, e que as evidências de
que grandes mamíferos e aves como tatus, veados, jacus e iraras circulam no Parque são
obtidas por meio dos relatórios de patrulha, ou – para minha surpresa – por meio da
observação indireta, como pegadas, frutos comidos e a vocalização – que presenciávamos
naquele momento.
Existe ainda ali uma espécie de esquilo, vulgarmente conhecida como serelepe, que,
por um momento, tive impressão de ter visto, mas era um pássaro. Com frequência, o roedor
vai até perto da casa do Parque e, certa vez, chegou a aparecer na janela durante uma reunião.
Ígor tirou fotos mas, por ser uma animal muito rápido, o pequeno só deixou-se perceber pela
FOTO: Ígor Kraemer/Dez. 2012
silhueta: − Não conseguimos nenhuma foto nítida dele –, lamentou.
Animal da espécie Sciurus aestuans, também conhecida como esquilo ou serelepe, chegou próximo à
janela da sala em que o Conselho do Parque estava reunido. Muito ágil, mostrou apenas o contorno
do corpo na fotografia.
Continuando a conversa sobre a ocorrência das espécies, outro espanto: correm
boatos na comunidade científica de que o nome do Parque foi dado errado, porque ali não
existe o papagaio charão (cientificamente, Amazona pretrei)! Óra, mas que ironia! O papagaio
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que existe em maior abundância é, de fato, o Amazona vinacea, popularmente conhecido
como papagaio do peito-roxo. Segundo Ígor, porém, afirmar que o Papagaio Charão não
ocorre ali é pouco concreto, pois a espécie é migratória e já foi avistada no entorno do local.
Nunca foram encontrados ninhos dele no Parque, como também nunca fora fotografado –
assim como o papagaio do peito-roxo.
Poucos passos à frente é possível avistar outra trilha, que parte do mesmo ponto de
saída da trilha do aceiro, que percorríamos, e se junta a ela novamente. Porém, nesta outra, a
trilha das araucárias, é possível andar somente a pé, sendo o percurso de mais floresta do que
campo. Também conhecidas como pinheiro brasileiro, as araucárias são nativas e imponentes
dentro do Parque, havendo algumas com mais de 1 metro de diâmetro.
Ao dar os primeiros passos em direção a esta trilha, encontramos um buraco na terra,
recém-mexida, não muito fundo e de circunferência média: provavelmente de tatu. Depois
dali, houveram vários semelhantes. Eles são também indícios indiretos dessa espécie no
Parque. Com mais alguns metros de caminhada, ouvimos outra espécie de Psitacídeo, família à
qual pertencem, por exemplo, os papagaios e araras. Para Ígor, possivelmente um periquito ou
uma baitaca. O ruído produzido me lembrou as conhecidas caturritas ou ainda cocotas, pois
era muito semelhante.
Quando voltei os olhos do céu para o chão, um pinhão. Estava embaixo de uma
araucária e aquele não era só um pinhão: ao ajuntá-lo, vi que estava aberto pela metade e com
a semente completamente comida. O detalhe, que talvez passasse despercebido se não o
ajuntasse, só veio a provar o quanto a fauna precisa da flora, inclusive para se alimentar. O
animal que se nutrira desse fruto havia sido, supostamente, uma Dasyprocta aguti, a cutia –
animal terrestre roedor que se alimenta de frutas, sementes e raízes.
Não prosseguimos na trilha pois o objetivo era seguir pelo aceiro, caminho que levaria
à cachoeira – maior atributo paisagístico do Parque –, mas, vi que mais adiante as árvores
começavam a ficar maiores. Algumas, espécies precursoras (que causam interações físicas no
meio), como as Ervas-Mate, Cambarás, Camboatás-Vermelhos, Mamicas-de-Cadela; outras,
espécies secundárias, como as Grápias (ameaçada de extinção), Cedros, Canjeranas e SeteCapotes. Todas em uma batalha surda: a luta pelo sol. Senti que o local enfeixava os aspectos
predominantes da Mata Atlântica numa escala reduzida, como uma maquete viva de um
grande paraíso. Um estudo preliminar do ano 2000 constatou que existem na UC cerca de 387
espécies de vegetais, 144 de aves, 12 de répteis, além dos anfíbios, peixes e insetos, não
contabilizados.
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Monitoramento da fauna silvestre atropelada
A ocorrência de espécies da fauna silvestre, além da observação indireta, é constatada
de outra forma: pelo monitoramento dos animais atropelados. O projeto, entretanto, não é
exclusivo da Unidade: é nacional e aberto a qualquer pessoa que queira participar, você sabia?
A diferença é que o monitoramento realizado pelos técnicos florestais é sistemática, isto é,
cumpre uma série de regras de protocolo e é transformada em dados estatísticos, que ficam
disponíveis na internet e podem ser utilizados tanto em pesquisas acadêmicas de todo o
mundo, quanto para a proposição de medidas mitigatórias ou mesmo ações do Plano de
Manejo da UC; enquanto o registro de atropelamento de animais por pessoas como eu e,
provavelmente, você leitor, é enquadrado no monitoramento eventual, para constar que
determinado animal ocorre na região em que foi avistado.
O grande projeto, chamado Projeto Malha, na prática, é simples: exige que haja um
motorista, para cumprir a função de dirigir, exclusivamente, e um observador, que marca no
GPS o início do percurso de cada projeto, avisa ao motorista para parar o carro ao perceber um
animal morto, vai até ele, marca no GPS o ponto exato da localização e preenche os dados da
planilha. Esse monitoramento deve ser feito, preferencialmente, no início da manhã, devido à
existência de animais decompositores, como urubus e aves, que começam a agir nesse
período. Os técnicos Ígor e Milena fazem-no todas as quartas-feiras e, numa dessas, participei
da ação como observadora.
Por convenção, os técnicos do Parque Estadual do Papagaio Charão dividiram o
monitoramento da fauna atropelada no entorno da Unidade em cinco projetos que totalizam
110 quilômetros: BR 386 Sul (que inicia no trevo de Sarandi e vai até o Arroio Cascata, em
direção à Carazinho), BR 386 Norte (iniciando no trevo de Sarandi e encerrando no próximo
trevo em direção à Palmeira das Missões), RS 404 e RS 324 (em direção à Ronda Alta) e RST 12
(estrada de chão de Sarandi que passa no entorno do Parque).
A velocidade máxima permitida para o deslocamento com o veículo, a fim de que o
monitoramento diminua sua margem de erro, é de 50 Km/h. Assim, evita-se o risco de que o
observador que talvez percorra o trajeto mais rápido não constate algum animal. Caso o
motorista veja um animal que o observador não percebeu, o registro pode ser feito, porém, o
dado não será contabilizado como sistemático, apenas eventual.
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No dia em que participei do monitoramento, encontrei apenas um animal atropelado
em todos os projetos: paramos o carro, fomos até lá e verificamos que era uma lebre europeia,
tiramos fotos de todos os ângulos, e Ígor removeu-o da pista apenas. A possibilidade de coleta
existe, quando do desejo de fazer um estudo mais detalhado da classificação do animal ou
guarda-lo como amostra, mas, além de exigir as condições adequadas de armazenamento, a
ação deve estar registrada junto ao IBAMA.
Esta lebre europeia que encontramos não é um animal nativo do Brasil (ao contrário
do tapeti, natural do país), pois foi trazido da Europa no processo de colonização para
abastecimento da Corte Portuguesa. Porém, alguns indivíduos da espécie provavelmente
escaparam e procriaram, se adaptando à natureza. Por isso, mesmo sendo exótica, já é
considerada, por alguns ambientalistas, como selvagem.
Depois disso, algumas anotações: nome do projeto, data, hora, observador, número do
indivíduo, espécie, família, classe, rodovia, coordenada, datum, latitude, longitude, setor, tipo
de monitoramento, lado da rodovia, local do atropelamento, laboratório e sexo do animal.
Posteriormente, os dados colhidos serão digitados em uma planilha e, juntamente com as
informações do GPS, enviados para a central do Projeto Malha, em Viçosa - MG.
Se, por um lado, pensei que a pouca quantidade encontrada naquela manhã (apenas
um) fosse algo positivo, Ígor me explicou que isso pode significar o contrário: o número de
animais pode estar diminuindo. No caso dessa época do ano, a pouca incidência é natural,
mas, em outras, pode ser um indicativo ruim.
Por meio do monitoramento da fauna atropelada até o momento, os técnicos já
contabilizaram mais de 150 indivíduos mortos, sendo eles de 35 diferentes espécies, incluindo
aves, mamíferos, anfíbios e répteis. Porém, a maior ocorrência é de mamíferos e aves.
Pequenos anfíbios e répteis são difíceis de enxergar. Com uma observação a pé eles seriam
encontrados em maior abundância. A possibilidade desse tipo de monitoramento também
existe, porém demanda mais tempo e recursos humanos. Ele seria interessante, por exemplo,
em corredores ecológicos, onde os animais transitam mais.
Outro resultado que chama a atenção é que os graxains do mato, espécie que circula
mais entre as áreas de mata, por estarem com os recursos escassos, são os indivíduos mais
encontrados no monitoramento. Mas a época do ano e os locais também são fatores que
causam grande variação na quantidade. Em áreas de maior concentração populacional,
animais “menos exigentes” (que se adaptam mais facilmente à qualquer ambiente), como o
gambá, são encontrados com mais frequência. Já os graxains, “mais exigentes”, dificilmente.
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Por fim, uma boa notícia: para facilitar esse monitoramento que exige certos
protocolos, os tecnólogos da informação já desenvolveram um aplicativo para iPhone,
chamado “Urubu”. Assim, se você estiver andando por qualquer estrada do país e encontrar
um animal morto, poderá tirar uma foto do mesmo (com as coordenadas do GPS, automáticas
em iPhones) e enviar para a central, que fará a análise do animal e o colocará os dados no
banco do monitoramento eventual. A ferramenta permite que qualquer cidadão, usufruidor e
responsável pelo meio em que vive, contribua imensamente sem precisar dispensar grandes
esforços.
Uma Unidade em um Sistema de Unidades
Ao contrário do que se pensa, uma unidade de conservação como o Parque Estadual
do Papagaio Charão não é um local isolado do meio que o cerca, nem mesmo das outras UCs
que existem no país. Elas formam uma grande teia. A criação do primeiro Parque efetivamente
implantado no Brasil, o Parque Nacional do Itatiaia, foi decretada em junho de 1937, durante o
Governo Getúlio Vargas. O evento marcou o início efetivo de uma política de estabelecimento
e gerenciamento de áreas protegidas no país. Em seguida, foram estabelecidos os Parques
Nacionais do Iguaçu e da Serra dos Órgãos, em 1939, todos na Mata Atlântica, área de maior
visibilidade e que já apresentava nível crítico de devastação.
No período militar, muitas áreas protegidas foram criadas. Em 1986, pouco menos da
metade das UCs hoje existentes já estava decretada. Nesse período, outra grande iniciativa foi
a criação de um aparato de gestão para elaborar e executar a política ambiental do país, que
estava sob responsabilidade do Ministério da Agricultura, até então. O primeiro órgão criado,
nesse sentido, foi o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF). Já em 1973, foi
criada a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA), órgão base para a criação do Ministério
do Meio Ambiente, duas décadas depois.
A política ambiental consolidou-se, porém, de forma definitiva, com a Constituição
Federal de 1988 – lei maior que rege as diretrizes e prioridades do país –, a qual tem um
capítulo específico sobre o meio ambiente. O artigo nº 225 deste capítulo determina que
“todos tem direito ao Meio Ambiente, ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do
povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o
dever de defende-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Quer dizer, não é só
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do poder público ou dos órgãos fiscalizadores o dever de zelar e preservar o meio ambiente –
como muitos pensam –, mas de todos os cidadãos!
A principal lei que regulamenta este artigo da Constituição Federal é o Sistema
Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), criado em 2000 pela Lei Nº 9.985 – perceba que
é recente, pois sua tramitação no Congresso levou oito anos, marcados por embates entre
proprietários de terra, setores produtivos e ambientalistas, debates radicais entre
preservacionistas e conservacionistas e uma extensa discussão sobre o papel do controle social
na gestão das UCs.
A lei de criação do SNUC – que se aplica à todo o país – estabelece, portanto, os
critérios e normas para a criação, implantação e gestão das UCs. Além disso, deixa
determinada que deve haver a interação entre as UCs. Ter uma UC não significa que se pode
desmatar e poluir todo o meio que a rodeia, “pois já se está fazendo a sua parte”. Pelo
contrário: a interação entre as unidades é feita, também, pelos corredores ecológicos –
porções de ecossistemas naturais ou seminaturais, ligando UCs, que possibilitam entre elas
maior fluxo de genes e o movimento da biota, facilitando a dispersão de espécies e a
recolonização de áreas degradadas, bem como a manutenção de populações que demandam
para sua sobrevivência áreas com extensão maior do que aquela das unidades individuais.
O Parque Estadual do Papagaio Charão, por exemplo, deveria ter ligação com o Parque
da Sagrisa, em Pontão, através de áreas como matas ciliares, para que os animais pudessem se
deslocar, protegidos, de uma área à outra. Assim, são expostos pois acabam atravessando
estradas e correm o risco de ser atropelados, ou lavouras, tendo chance de ser caçados. Além
dos corredores ecológicos, a interação entre as Unidade é buscada por meio de encontros
entre os técnicos florestais das UCS próximas.
Entre os objetivos gerais das UCS, estão a manutenção da diversidade biológica e dos
recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais; a proteção das espécies
ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional; a contribuição para a preservação e a
restauração da diversidade de ecossistemas naturais; a promoção do desenvolvimento
sustentável a partir dos recursos naturais; a recuperação ou restauração de ecossistemas
degradados; proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e
monitoramento ambiental; e a promoção da educação e interpretação ambiental, a recreação
em contato com a natureza e o turismo ecológico.
Usados muitas vezes como sinônimos, o conservacionismo e preservacionismo, porém,
são duas diferentes correntes ideológicas. O termo conservação, em suma, é entendido como
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a proteção de recursos naturais com utilização racional que garanta a sustentabilidade de sua
existência para as futuras gerações, isto é, a prática do bom uso dos recursos naturais. Já o
conceito de preservação supões a proteção integral com intocabilidade para evitar perda de
biodiversidade (espécie, ecossistema ou bioma) e para perenidade dos recursos naturais, quer
dizer, a defesa da natureza selvagem, por seu valor próprio e contra qualquer intrusão.
Depois de avaliado e considerado uma UC, o local é classificado como uma Unidade de
Proteção Integral (que tem o objetivo de preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso
indireto dos seus recursos naturais) ou como uma Unidade de Uso Sustentável (que tem o
objetivo de compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos
seus recursos naturais). Próximo à Sarandi, existe a Floresta Nacional de Passo Fundo (Flona),
uma UC de uso sustentável que, no passado, teve o plantio de árvores para fins de estudo, que
são agora manejadas pois já havia a previsão de corte.
O Parque Estadual do Papagaio Charão, por sua vez, é uma UC de proteção integral,
que só faz uso indireto dos recursos, “aqueles que não envolvem consumo, coleta, dano ou
destruição dos recursos naturais”. A retirada de árvores exóticas no Parque, quando realizada,
é com o propósito da proteção integral da floresta natural, à qual as árvores exóticas é
prejudicial, e não como forma de uso sustentável.
Já as Unidades de Proteção Integral abrangem as Estações Ecológicas, as Reservas
Biológicas, os Parques Nacionais, os Monumentos Naturais e os Refúgios de Vida Silvestre. Já
as Unidades de Uso Sustentável envolvem as Áreas de Proteção Ambiental (APAs), as Áreas de
Relevante Interesse Ecológico (ARIEs), as Florestas Nacionais, as Reservas Extrativistas,
Reservas de Fauna, Reservas de Desenvolvimento Sustentável e Reservas Particular do
Patrimônio Natural (RPPNs). Os níveis nacional, estadual e municipal dependem
exclusivamente de quem é proprietário da área (União, Estado ou Município). No caso de ser
particular, vai depender da esfera pública pela qual tramita a criação legal. A porção de terra
do Parque Estadual do Papagaio Charão fazia parte, antigamente, da Fazenda Sarandi,
pertencente a castelhanos. Ela, porém, foi adquirida amigavelmente pelo Governo do Estado
para realizar a reforma agrária, e por isso é Estadual.
Cada uma dessas categorias tem características próprias e determinações do que pode
ser feito ou não na UC. Esta, que venho apresentando no decorrer deste livro-reportagem, foi
avaliada por uma equipe de estudos e considerada um Parque – que tem esse nome não por
ser um local de recreação, como o Parque do Beto Carreiro ou outros; no contexto
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ambientalista, remete à proteção integral e ao objetivo principal desta categoria, que é a
preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica.
Os Parques possibilitam a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de
atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e
de turismo ecológico. A visitação pública, porém, está sujeita às normas e restrições
estabelecidas no Plano de Manejo da UC, assim como a pesquisa científica depende de
autorização prévia do órgão responsável pela administração da UC e está sujeita às condições
FOTO: Ígor Kraemer/Jun. 2014
e restrições por este estabelecidas.
Grupo de 18 ciclistas Pedal Sarandi em passeio educativo ambiental pela trilha do aceiro. Todos
demonstraram grande entusiasmo na participação das atividades
É devido à esses parâmetros que as três linhas-guias seguidas pelo Parque são: a
preservação da natureza, as pesquisas acadêmicas e a educação ambiental. Para cada uma
delas haverá, no Plano de Manejo, um capítulo específico de normativas, que designarão como
as atividades serão concretizadas, com base nas diretrizes nacionais da qual falamos até então.
Existem ainda, no intuito de integrar as administrações das UCs próximas, os Mosaicos
de UCs, que vão trabalhar em prol da elaboração de corredores ecológicos e outras ações
ambientais comuns, pois seria impossível implantar um UC de proteção integral para cada
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pequeno fragmento. O Parque Estadual do Papagaio Charão participa de um modelo
semelhante ao Mosaico, porém que não existe juridicamente, apenas informalmente: a Rede
Norte de UCs. Ela inclui as administrações da RPPN Maragato, do Parque Municipal da Sagrisa
e da Floresta Nacional de Passo Fundo.
Além disso, o Estado é o gestor das UCs, porém, essa gestão deve ser realizada com a
participação da sociedade civil, por isso, quem ajuda na manutenção e difusão do Parque é o
Conselho, apenas consultivo (e não deliberativo como nas Unidades de Proteção Integral),
formado por representantes de diversas entidades e que se reúne a cada 3 meses para
consulta e conhecimento de alguns assuntos.
Com base nas normativas nacionais do SNUC, foi construída ainda a legislação estadual
que rege as UCs, através do Sistema Estadual de Unidades de Conservação, o SEUC,
regulamentado no Decreto Nº 34.256 de 02 de abril de 1992. E, no ponto mais afunilado das
normativas, está o Plano de Manejo, do qual falaremos no próximo capítulo. Posto nesse
grande contexto, é possível ver que não basta criar uma unidade e deixá-la inerte. Isto não é
preservação, por si só. Uma UC precisa estar em interação com as demais para que sua
implantação seja efetiva. A legislação, nesse sentido, é importante para determinar o que
pode ou não ser feito. Trilhas de moto, por exemplo, não são permitidas no Parque porque
tem um impacto muito grande e entram em desacordo com a proteção integral e o uso
indireto dos recursos.
Curiosidade: as áreas de proteção integral no Brasil apresentam distinções em relação
ao modelo de paisagens intocadas dos norte-americanos. Uma delas refere-se ao local de
estabelecimento: nos EUA, estão preferencialmente em locais não ocupados por
colonizadores, sendo, portanto, paisagens relativamente naturais. Enquanto isso, no Brasil,
priorizou-se a ocupação de áreas onde havia concentração populacional e de atividades
humanas para a conservação de ecossistemas remanescentes. Desse modo, enquanto os
Parques americanos buscavam proteger as paisagens de um impacto futuro, os Parques
brasileiros procuraram proteger áreas de interesse ambiental de impactos imediatos e
conflitos já existentes.
Outro conceito importante, em nível maior, é o de reservas da biosfera: busca-se a
implantação de uma rede mundial de áreas protegidas, a partir de parâmetros discutidos por
uma rede internacional de pesquisadores. Com base nas discussões sobre a conservação da
biodiversidade e melhoria de vida para populações locais, são definidas áreas do globo
terrestre em que os recursos financeiros relacionados à proteção da natureza serão
17
prioritariamente investidos. As reservas da biosfera, mesmo submetidas a normas
internacionais, são geridas pelos países em que se localizam.
Plano de Manejo do Parque Estadual do Papagaio Charão: um
capítulo à parte
Já nos minutos iniciais de conversa com Ígor, quando cheguei ao Parque, ao perguntar
sobre o Plano de Manejo, Ígor me respondeu que esse era um assunto que merecia um
capítulo inteiro do meu livro. Agora, em meio à conversa que vinha e voltava num emaranhado
de novos conceitos – para mim e imagino que também para você leitor –, tocamos novamente
no assunto.
O Plano de Manejo é como o Plano Diretor de uma cidade. Digo, é particular de cada
UC. É um documento elaborado a partir de diversos estudos, incluindo diagnósticos do meio
físico, biológico e social, que serve para estabelecer as normas, restrições para o uso, ações a
serem desenvolvidas e o manejo dos recursos naturais da UC, do seu entorno e, quando for o
caso, dos corredores ecológicos a ela associados, podendo também incluir a implantação de
estruturas físicas dentro da UC. O plano de manejo também inclui medidas para promover a
integração da UC à vida econômica e social das comunidades vizinhas. É neste documento que
constam as regras para a visitação aberta ao público, as pesquisas acadêmicas e a visitação de
educação ambiental das escolas.
A composição de um Plano de Manejo não se resume apenas à produção do
documento técnico. Ela implica em elaborar e compreender o conjunto de ações necessárias
para a gestão e uso sustentável dos recursos naturais em qualquer atividade no interior e em
áreas do entorno dela. O processo de sua elaboração é um ciclo contínuo de consulta e
tomada de decisão com base no entendimento das questões ambientais, socioeconômicas,
históricas e culturais que caracterizam uma UC e a região onde se insere.
Por volta do ano 2000, começou-se a falar em um Plano de Manejo para o Parque
Estadual do Papagaio Charão. Então, nesse período, uma empresa foi contratada para fazer o
subsídio da elaboração do Plano de Manejo, isto é, a coleta de dados das espécies que
ocorrem na área. Porém, somente em 2008 abriu-se o processo de criação do Plano, quando o
Estado contratou, através de licitação, técnicos para fazerem uma nova coleta de dados, a fim
de atualizar aqueles primeiros, de 2000. Os resultados apresentados, entretanto, foram
18
considerados insatisfatórios, ema vez que a empresa utilizou as mesmas informações do
subsídio já elaborado, não trazendo nada complementar – a exemplo da má aplicação do
dinheiro público.
Após isso, convenceu-se as chefias a não renovar o contrato com essa empresa, e a
terminar o estudo por meio da própria equipe da Divisão de Unidades de Conservação, para
não gerar mais gastos em algo que já se tinha. Assim, esta atual equipe que terminará o
trabalho, fazendo a compilação dos dados que já constam nos subsídios e a obtenção e
inserção de informações novas e atuais – pois muitas espécies mudaram de nomenclatura
científica de 2000 para cá – tem o prazo de dois anos para a conclusão do Plano, e até agosto
deste ano para a entrega do diagnóstico (relação das espécies de fauna e flora que existem no
local).
Porém nada impede que que uma nova contratação seja feita para a obtenção de
alguma informação específica nova e relevante para o Plano, para comprovar, por exemplo, as
ocorrências de grandes mamíferos e canídeos, que até então são verificadas indiretamente,
pois nunca foi feito um estudo que constatasse de fato a presença desse animais (com
métodos como armadilhas e outros). Além disso, uma pesquisa poderia explicar como se
comporta a vegetação no Parque e porque em alguns lugares a floresta não tomou conta da
área de campo como aconteceu em outras muito semelhantes, permanecendo a vegetação
rasteira de gramíneas mesmo sem manejo.
O Parque não é aberto à visitação pública, por exemplo, porque isso não está
normatizado pelo Plano de Manejo – já que ele ainda não foi concluído. No Rio Grande do Sul,
existem apenas dois parques com visitação aberta ao público: o Parque do Turvo e o Parque de
Itapuã. Segundo o Gestor, o Plano de Manejo em construção prevê a possibilidade do Parque
Estadual do Papagaio Charão ser aberto à visitação pública, o que falta é o diagnóstico de
quantas pessoas o poderão receber por mês, ou por dia, e em quais locais se permitirá a
circulação, por exemplo. Isso, porém, não significaria que os visitantes terão a liberdade de ir e
vir quando desejarem, pois a visita depende do deslocamento dentro da área.
Ademais, há uma manifestação da população local contrária à liberação de
acampamento nesse processo de abertura da visitação, uma vez que essa é uma
movimentação recreativa que causa danos ambientais maiores, e se aproxima mais do uso
direto do que indireto da Unidade – de proteção integral, como explicarei adiante. Além disso,
também compreendi que a mudança causaria certas modificações em questões
19
administrativas, pois necessitaria a cobrança de ingressos e o aumento do número de
funcionários.
Hoje a equipe é composta por 19 pessoas: 12 Vigilantes Terceirizados que tem o
objetivo de cuidar do patrimônio; cinco Auxiliares de Serviços Rurais e Gerais que fazem a
fiscalização florestal (patrulhas) e a manutenção das trilhas e das benfeitorias; e dois Técnicos
Florestais. Ígor, que me acompanha nessa visita, é um deles. Mas, além de ser Técnico,
acumula as funções de Gestor e Agente Administrativo. Este último, servidor em déficit na
Unidade, assim como os Guardas-Parque, que poderiam fazer a fiscalização florestal de fato,
pois os Auxiliares de Serviços Rurais e Gerais ajudam na função, mas sua jurisdição (“poder de
polícia”) é somente avisar a Brigada Militar (obrigada a atender ao chamado) ao perceber
aproximações potencialmente perigosas; esses auxiliares não podem fazer abordagem nem
efetuar prisões.
Mesmo sem ser aberta à visitação pública, até então, a UC busca incentivar as
pesquisas acadêmicas e a visitação de escolas e grupos com fim de educação ambiental. Aliás,
nesse ponto da trilha, acabamos de passar por uma Clidemia Hirta, popularmente conhecida
como pixirica – vegetal de altura média, com galhos finos e folhas um pouco compridas –, que
muitas pessoas, inclusive eu, classificariam como uma erva daninha ou inço. A equipe do
Parque, porém, aguarda nos próximos dias um grupo de estudos da Universidade Estadual de
Campinas - SP (UNICAMP), que vai pesquisar em nível genético a família botânica das
Melastomataceae, da qual a pixirica faz parte, para entender a distribuição dessas plantas no
Parque.
Flora: a vida em cadeia
Há algum tempo já havia reparado que algumas árvores no caminho tinham no tronco
manchas circulares preenchidas de pigmentação vermelho claro. Aproveitei a brecha de alguns
minutos de silêncio e perguntei curiosa. A resposta foi, no mínimo, satisfatória. A mancha não
é parte da árvore, mas um líquen, pertencente ao reino dos fungos e, mais do que isso, um
indicativo da qualidade do ambiente, denominado pela ciência de Indicador Ambiental. Eu
chamaria de característica da flora caprichada, o que quer dizer que o ambiente precisa estar
muito bem preservado para que aja a ocorrência dele.
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Notei mais algumas árvores de tronco totalmente preto, imaginando que talvez
estivessem apodrecendo, mas esta pigmentação era também um fungo, vinculado à espécie
do Timbó. Estranhei que outras eram apenas um tronco pela metade, sem copa alguma. Mas
essa é uma propriedade característica do Timbó que, por ser uma espécie precursora, se
desenvolve até determinada altura e, quando outros tipos de vegetação vem surgindo,
apodrece e quebra, gerando matéria orgânica para as demais. É uma questão de cumprir sua
função natural na cadeia biológica, ainda mais por ser uma área de transição.
A floresta, em geral, se origina, em uma área desprovida de manejo, com o surgimento
inicial da vegetação rasteira – gramíneas, vassouras, etc. A partir do momento em que as
vassouras vão morrendo, vão dando carbono para o solo – enroupando-o com um aspecto
formosíssimo –, e outras árvores mais precursoras como as aroeiras, os timbós, vão surgindo.
Depois de se criar um micro-habitat com condições mais propícias, outras árvores mais
“exigentes”, de sub-bosque, como a família das mirtáceas – árvores frutíferas – vai nascendo.
Depois delas, aparecem ainda as espécies clímax, como as araucárias, os cedros, as grápias e
outras, que não se desenvolvem em qualquer lugar, somente em lugares de interior da floresta
e, por isso, são consideradas espécies ameaçadas – em função de que demoram muito tempo
para se desenvolver e produzem a cobiçada madeira.
O consumo exagerado e indevido da madeira, aliás, é uma ocorrência que gera aos
técnicos florestais uma atividade extra parque. Em outra oportunidade, conheci um pouco das
atividades dos técnicos Ígor e Milene que, como eles mesmos comentaram, são uma surpresa
a cada dia: mesmo que tentem se programar, imprevistos sempre acontecem e precisam ser
resolvidos. Além de estarem construindo o Plano de Manejo, de realizarem atividades de
educação ambiental com as escolas e atenderem às pesquisas acadêmicas, como a minha, os
técnicos são responsáveis pela autorização de empreendimentos que utilizem recursos
naturais num raio de 10 quilômetros em torno do Parque.
Veja só: a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) é ramificada em vários
Departamentos. Um deles é o Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (DEFAP),
composto por três divisões: a Divisão de Cadastro Florestal, a Divisão de Licenciamento
Florestal, a Divisão de Unidades de Conservação, além de uma Seção recente, de Fauna. O
órgão responsável pela expedição das licenças ambientais é a Divisão de Licenciamento
Florestal, ou as próprias prefeituras municipais, dependendo do impacto gerado. Se um
empreendimento estiver localizado num raio de até 10 quilômetros de uma UC, além da
licença, é necessário uma autorização da UC se manifestando em relação ao impacto que o
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empreendimento vai ter sobre a UC, que pode implicar no deferimento ou indeferimento da
licença.
Toda a zona urbana de Sarandi está nesse raio de 10 quilômetros, assim como parte da
zona urbana de Rondinha, da zona rural de Barra Funda e uma pequena zona rural de Nova
Boa Vista. Isto quer dizer que os órgãos licenciadores desses municípios, antes de licenciarem,
nessa determinada área, a construção, ampliação, reforma, recuperação, alteração, operação
e desativação de estabelecimentos, obras e atividades utilizadoras de recursos ambientais, ou
consideradas efetivas e potencialmente poluidoras, ou capazes de causar degradação
ambiental, devem pedir a autorização do Parque quanto ao impacto que vai ter na UC. Caso
isso não aconteça, o órgão licenciador, seja prefeitura ou agência, poderá ser autuado.
Com a intenção de conhecer melhor a atividade, participei de duas vistorias: a primeira
em uma propriedade vizinha ao Parque. Enquanto íamos até lá, Ígor e Milene analisavam o
processo, que era para a retirada de dois pinheiros caídos. A licença foi solicitada para a
prefeitura em dezembro de 2013, mas a solicitação de autorização só chegou aos técnicos do
Parque em abril deste ano.
Nesse ponto do caminho, em algumas partes da borda da mata, encontramos bastante
lixo depositado – é desanimador ver que alguns se esforçam tanto para preservar enquanto
outros deixam esses presentinhos desagradáveis, que só dificultam o trabalho dos primeiros.
Mais adiante, paramos por alguns minutos para visualizar como é grande a quantidade de
araucárias em meio à vegetação de floresta do Parque, algumas plantadas, outras
disseminadas, mas que não deveriam estar ali, e, por isso, precisam de manejo.
Chegando na propriedade, avistamos os pinheiros caídos. Os técnicos compararam-nos
à foto que está na solicitação e fotografaram novamente. Constataram que eles podem ser
retirados porque estão realmente caídos, há bastante tempo, inclusive. Porém, como a
propriedade tem vários donos, mas só um está fazendo o requerimento, os técnicos solicitarão
adequações, para obter o consentimento dos outros e evitar futuros aborrecimentos. A
autorização então será dada para a Prefeitura Municipal de Sarandi, que é o requerente, e ela,
posteriormente, dará a licença ao solicitador inicial.
Depois dali, fomos para zona urbana central de Sarandi – achamos o local exato com a
ajuda do GPS –, onde havia uma solicitação para a retirada de 19 árvores e o transplante de 2
butiás – não da mesma espécie que há no Parque, mas também ameaçados de extinção –,
para a construção de um muro no terreno, vazio. Milene então fotografou e conferiu cada uma
das árvores, para comparar se eram iguais àquelas descritas na solicitação.
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FOTO: Simone Fritzen/Mai. 2014
Vistoria para autorização de retirada de vegetação, realizada pelos técnicos florestais do Parque
Estadual do Papagaio Charão, na cidade de Sarandi.
A verificação foi positiva e, nesse caso, a autorização também será favorável, pois
nenhuma das espécies de árvores é ameaçada de extinção. Para minimizar a ação, outras
delas, em quantidade maior, serão plantadas em outro local pelo requerente da licença –
sendo o órgão emissor da licença o responsável pela fiscalização da ação. Quanto aos butiás,
também poderão ser transplantados, para outro local no mesmo terreno – conforme a
solicitação –, pois são de fácil adaptação.
Segundo os técnicos, esses dois casos de vistoria dos quais participei eram simples, em
função de não atingirem diretamente a área do Parque. Outros porém, mais próximos e mais
impactantes na UC, costumam demandar uma análise maior e mais aprofundada,
especialmente se tiverem ligação com os corredores ecológicos.
O pote de ouro no final do arco-íris e, no caminho de volta,
mais surpresas...
Chegamos finalmente ao fim do trecho da trilha que pode ser transitada de carro.
Agora, colocamos os pés para fora novamente e pudemos ouvir o cair da água na cascata. A
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ideia que me passou pela cabeça era a de ter recursos financeiros suficientes para poder
comprar uma área de mata nativa com a finalidade de preservá-la, senti-la quando quisesse, e
proporcionar isso à outras pessoas.
Avançamos alguns passos e atravessamos sobre um tronco caído de árvore podre.
Apesar de já não se sustentar de pé, ainda alimentava uma espécie de fungo mole, comprido e
FOTO: SÍgor KraemerMai. 2012
cinza claro – que aparece só
nesse período do ano em
que se aproxima o inverno e
que
está
ligado
ao
substrato. Isso quer dizer
que,
talvez
em
outras
espécies de árvores, não
ocorra. Porém, não se sabe
se este fungo, por exemplo,
está descrito nos subsídios
do Plano de Manejo.
Fungo em toco podre próximo à cascata.
Outras
árvores,
próximas deste lugar, eram cheias de orelhas-de-pau, cinzentas em degrade, como se tivessem
sido pintadas por Monet ou outro grande artista impressionista. Presumi que ocorriam mais ali
por causa da umidade – nesse ponto comecei a sentir a brisa de frescor no ar; a respiração já
era bem mais leve. O solo declinava aos poucos. Fomos descendo com cuidado e eco da água
aumentava a cada passo. Ígor ia na frente com um graveto tirando as poucas teias de aranha
que encontrava.
Daquele ponto, já era possível ver parte do arroio, não muito largo, no qual deslizava
uma água marrom. Esta era a divisa norte do Parque. Do outro lado, uma propriedade
particular pertencente ao município de Rondinha. Preparados para uma descida acentuada,
Ígor contou que existem na UC dois hectares de eucaliptos, árvore exótica que não pode existir
em Unidades de Proteção Integral, pois tem vantagem sobre a mata nativa (podem prejudicala, já que se criam sem controle e geram desequilíbrio) e, por isso, devem ser retirados.
Com a madeira, uma escadaria será construída para melhorar a segurança. Até isso
acontecer, os visitantes devem descer o morro de lado, para poder frear se necessário, e não
cruzar as pernas. Ademais, nunca encostar em árvores. Se inevitável, observar antes de tocar,
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pois podem haver sustâncias urticantes e até mesmo animais. Apoiar-se em tocos podres,
jamais!
Ao chegar lá em baixo, vi a água límpida que corria de cima da queda estalar nas
escadas de rocha. Foi como lavar a alma... A umidade produzia no ar uma fina serração, com
gotículas de água que o próprio vento, calmo, quase imperceptível, se encarregava de dissipar.
Nas pedras molhadas que formavam a cascata, mas que não recebiam água corrente, um
FOTO: Ígor Kraemer/Dez. 2013
musgo verde escuro criava um fofo tapete.
Além de ser considerado o maior atributo paisagístico do Parque, a cascata do Arroio Baios abriga
grande diversidade de espécies, sobretudo peixes, répteis e anfíbios.
Em torno do arroio, a vegetação predominante é a taquara. Depois de concluído o
Plano de Manejo, as taquaras deverão ser retiradas para melhor acomodação e observação de
quem chega. O riacho estava alto naquele dia, mas a equipe do Parque acredita que não tem
muita profundidade, apesar de nunca ter sido medido (ocorrência que já está programada
para complementação do Plano de Manejo), pois em alguns pontos, o fundo era visível.
A proteção ciliar do arroio, no ponto da cascata, de um lado, é de 5 quilômetros
(pertencentes ao Parque), enquanto do outro, é de 5 metros, e só existe em função de ser um
barranco. Em outros pontos, a lavoura chega até a margem do rio.
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Como o tempo voava, tivemos de voltar. Na subida do aclive, Ígor ia me contando que
vive no Parque, próximo às casas, um Pseudalopex gymnocercus – conhecido como graxaim do
campo. O animal circula no local porque acha que as pessoas dali estão integradas ao
ambiente, ou seja, que não oferecem riscos. Eventualmente, cachorros domésticos aparecem
no Parque, quando abandonados na redondeza, e a UC permanece com eles até fazer a
destinação para doação. Nesse período, o graxaim some.
foram
FOTO: Simone Fritzen/Mai. 2014
Rrecentemente,
realizadas em 11 turmas dos 6°s e
7°anos
das
escolas
Dom
José
Coutinho, João Carlos Machado e
Milton Alves de Souza, palestras
sobre preservação e uma campanha
para a escolha do nome do graxaim,
considerado o mascote da UC. Dentre
os nomes selecionados pelas turmas
estavam Bob, Black White, Chorão, Faísca: graxaim do campo que rodeia as casas do Parque
com frequência, por isso, já é considerado o mascote da
Faísca, Freeway, Simbá, Scooby, Zé Unidade.
graxinha, Zeus e Willy, mas o
escolhido, por votação da equipe do Parque, foi Faísca, relacionado à rapidez do animal. Este
foi o nome dado pela turma de 6°ano A da E.E.E. F. Dom José Coutinho.
FOTO: Simone Fritzen/Mai. 2014
Concluí a subida para a trilha já ofegante, andamos mais um pouco e a natureza
resolveu
nos
presentear
novamente: pertinho de nós, um
pica-pau. Aproximamo-nos um
pouco com todo o cuidado, sem
fazer movimentos bruscos, e ele
voou para a árvore ao lado, um
pouco mais alta, para posicionarse contra o sol, de forma que não
pudéssemos vê-lo com nitidez.
Essa é, conforme Ígor, uma tática
Assim como outras aves, o pica-pau, quando percebe a
aproximação de pessoas, posiciona-se contra o sol, como de defesa comum dos pássaros.
forma de defesa.
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Quando pensamos que não voltaria, o afável bichinho deslocou-se de uma árvore para
outra, até permanecer em um tronco quebrado de Timbó, pertinho de nós, e pude fotografálo. Tal ocorrência não seria assim se um grande número de pessoas caminhasse pela mata.
Parecia até estar fazendo pose...
Dali pra frente, a conversa foi um pouco mais descontraída. Ígor me contou que, ainda
nesse mês, recebeu uma ligação da Polícia Rodoviária Federal, pois uma preguiça havia sido
“pega” andando de carona em um caminhão que passava pela BR-386 próximo a Sarandi:
queriam soltá-la no Parque, imaginando que, por ser um animal silvestre, pudesse ser
colocado ali. Entretanto, isso não é algo possível, porque não se sabe se o animal é saudável,
nem mesmo se vai sobreviver na natureza. É preciso que ele passe por uma quarentena, para
verificar, por exemplo, se consegue se alimentar sozinho – e isso não é atribuição desta
divisão. Normalmente, os animais são levados para a Universidade de Passo Fundo (UPF) fazer
a triagem e só depois se pensa na reintrodução do animal no meio. Ademais, não há histórico
de preguiça no local. Isto quer dizer que, como não ocorre nesta região, vai interferir no
equilíbrio dos demais que já estão ali.
Por outro lado, se alguém desejasse largar no Parque um puma que sabe sobreviver
sozinho, o Gestor estaria totalmente de acordo, pois já foi constatada a ocorrência da espécie:
no ano de 2010, uma pesquisa encontrou a pegada do animal, que passa por ali. O felino anda
mais de 50 quilômetros em uma noite, sendo sua área de ocorrência mais de 30 mil hectares
(apenas para um puma!). Ou seja, ele estava de passagem, pois esta área preservada não
garante a sobrevivência do animal, e nem quer dizer que, se a área fosse maior, ele se
adaptaria ou a ocuparia: − A natureza não se comporta assim. O ser humano tem tendência de
achar que tem controle pela natureza, mas não tem! – afirmou.
Em outro episódio semelhante, uma clínica veterinária ligou para o Parque informando
que foi encontrado um cervídeo baleado, questionando se o animal era do Parque. – Como
assim, do Parque? – perguntou Ígor. O veado também é um animal selvagem e não vive
somente dentro daqueles limites, ele tem certa área de alcance. − Não pense que se largarmos
um veado aqui dentro ele vai andar só aqui – complementou.
Incidentes como esse expressam a visão errônea que a maioria das pessoas ainda tem
a respeito da preservação da fauna. Cercar uma área seria condenar os animais que nela vivem
à morte: os que estão dentro, que se deslocam para outras áreas, não poderiam mais sair; da
mesma forma que os que estão fora não usufruiriam daquele território – é um impedimento
da passagem. Os animais fechados não trocariam mais genes com outros, ou seja, acabariam
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cruzando entre si (pais, filhos, irmãos) e, em um período longo de tempo, começariam a ter
doenças e morreriam.
Ensaio por mais parcerias em defesa da biodiversidade
Para encerrar a visita, fomos até o local onde, em 27 de abril deste ano, um incêndio
atingiu 2,8 hectares de área de campo. O ar, nessa parte, era mais pesado e o vento, mais
forte, soprava sacudindo e retorcendo as galhadas. Eu tentava pisar com a menor intensidade
possível, mas era impossível deixar de ouvir as folhas se esfarelando no chão. A vegetação,
90% seca; pouca dela manteve a coloração verde da vida, e logo se renderá também. O calor
FOTO: Ígor Kraemer/Abr. 2014
também era maior ali, talvez por já ser passado do meio-dia e o sol estar mais forte.
Incêndio ocorrido no Parque em abril deste ano. Mais de 200 indivíduos da espécie de butiá
ameaçada de extinção que sobrevive na UC foram destruídos.
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Percebi a grandeza da gravidade do ocorrido, pois o incêndio atingiu justamente uma
das áreas de campo do Parque onde a floresta estava avançando, tendo sido queimados mais
de 200 exemplares do Butia paraguayensis, espécie endêmica ameaçada de extinção. O
Gestor, que estava presente no dia, contou que o momento é desesperador. O fogo teve de
ser apagado com abafadores, pois o caminhão pipa dos bombeiros não conseguiu chegar até o
local. A suspeita é de que tenha sido criminoso. A Polícia Civil de Sarando está encarregada da
investigação.
Outro incêndio semelhante, porém em outra área do Parque, foi registrado pouco
mais de um ano antes, no dia 19 de janeiro de 2013. Neste, foram queimados
aproximadamente 7 hectares de mata nativa e vegetação rasteira. Conforme Vanius Ricardo
Sanvido, bombeiro que participou da ação de combate ao fogo, ela também foi realizada com
abafadores apenas, já que não havia como entrar no local com o carro de combate a
incêndios: – Eram labaredas de fogo de mais de 10 metros de altura. Não foi nada fácil –,
lembrou-se. Contou ainda que, como os bombeiros eram apenas dois, ajudaram na tarefa os
auxiliares de serviços rurais e gerais da UC e também moradores próximos.
Ambas as situações provaram que, definitivamente, este Parque não está isolado nem
das outras UCs, nem mesmo do contexto social no qual se insere. Vemos que, mediante uma
sucessão de relações sociedade/ambiente geograficamente situadas, a natureza tem sido
bastante alterada ao longo dos tempos, enfrentando frequente e grande fragmentação dos
hábitats e perda da biodiversidade. Desde os tempos pré-agriculturais, as florestas do mundo
declinaram em um quinto, passando de cinco bilhões para quatro bilhões de hectares. O
declínio mundial dessas florestas está associado, sobretudo, à expansão das atividades
econômicas e ao crescimento das populações humanas.
A conservação da biodiversidade, assim, adquiriu importância somente ao longo dos
anos 80 do século XX, quando a comunidade científica começou a identificar novo processo de
extinção das espécies com taxas muito elevadas, especialmente nos trópicos, e também com a
descoberta de novos usos e aplicações para a diversidade biológica, como matéria-prima para
modernas biotecnologias em atividades econômicas.
A criação de áreas protegidas, como as UCs, tem sido o modo como as sociedades
reagem frente aos problemas ambientais. Elas, assim como quaisquer outras bases territoriais
física, social e politicamente construídas, constituem complexas formas de relações sociais
entre grupos sociais, territórios e ambientes. As UCs adquirem diferentes significados devido
aos diversos contextos geográficos em que estão localizadas.
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Os atores dos grandes projetos de pesquisas globais sobre o clima, os oceanos, a
biodiversidade passaram a entender a impossibilidade de implantar políticas de proteção da
natureza e de prevenção dos impactos das mudanças globais sem a participação humana. A
biodiversidade não é um conceito abstrato, mas, sim, humano, pois tem uma localização
geográfica e formas de apropriação com feições específicas, o que lhe confere uma dimensão
material concreta e, portanto, a insere necessariamente no contexto das relações sociais.
Muitas populações tradicionais são fundamentais para a manutenção e a geração da
biodiversidade nos ecossistemas. As práticas culturais de manejo dos recursos naturais
desenvolvidas por algumas dessas populações interagem com os processos evolutivos das
espécies há milhares de anos, de modo que a presença das populações e o manejo que fazem
de determinados ecossistemas são essenciais à manutenção da biodiversidade.
A implantação de Parques e a retirada de povo que manejava as paisagens de savana
em regiões da Tanzânia e do Quênia, com queimadas periódicas, por exemplo, levaram à
continuidade do processo de sucessão ecológica, de modo que as áreas anteriormente
cobertas por herbáceas passassem a ser dominadas por arbustos, com redução nas populações
de grandes mamíferos.
Sabemos que são diferentes os interesses, as práticas e as representações dos diversos
atores sociais envolvidos e afetados pelas delimitação dos territórios destinados à proteção
dos recursos naturais. As UCs são, ao mesmo tempo, territórios de conservação, de vida, de
produção e de pesquisa acadêmica. Percebe-se, por isso, que o Estado, detentor oficial da
propriedade, disponibiliza os recursos que possui, porém, muitas parcerias e convênios podem
contribuir ainda mais para novas e importantes ações, que vão desde o monitoramento da
fauna e flora até mesmo à preservação de espécies ameaçadas de extinção!
Nos dias atuais, com contribuições simples como o monitoramento da fauna
atropelada via iPhone, ou com projetos mais planejados, de estudo das populações do
papagaio do peito-roxo e do papagaio charão, por exemplo, ou, ainda, pesquisas que revelem
porque áreas semelhantes de vegetação de campo se comportam de forma diferente (questão
que instiga a gestão do Parque), os principais responsáveis por promover a ecologia e a
preservação da natureza são, mais do que os ambientalistas e órgãos fiscalizadores, todos os
cidadãos.
30
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Senado,
1998
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Reportagem da Disciplina de Laboratório de Jornalismo Impresso III do Curso de Comunicação
Social Habilitação Jornalismo do Centro de Educação Superior Norte RS da Universidade
Federal de Santa Maria: Ecologia na Prática: Parque Estadual do Papagaio Charão, 2014.
Entrevista concedida à Simone Luiza Fritzen.
PRESTES, Milena. SEUC e Licenciamento Florestal: depoimento [mai. 2014]. Livro Reportagem
da Disciplina de Laboratório de Jornalismo Impresso III do Curso de Comunicação Social
Habilitação Jornalismo do Centro de Educação Superior Norte RS da Universidade Federal de
Santa Maria: Ecologia na Prática: Parque Estadual do Papagaio Charão, 2014. Entrevista
concedida à Simone Luiza Fritzen.
RIO GRANDE DO SUL. Sistema Estadual de Unidades de Conservação. Assembleia Legislativa,
02 de Abril de 1992. Disponível em
< http://www.sema.rs.gov.br/upload/Dec%20Est%2034256-92_Cria%20SEUC.doc>
Acesso em 12 mai. 2014.
RIO GRANDE DO SUL. Decreto de Criação do Parque Estadual do Papagaio Charão. Governo do
Estado do RS, 22 de abril de 1982. Disponível em
<http://www.icmbio.gov.br/cepsul/images/stories/legislacao/Decretos/1982/dec_30645_198
2_criaparqueflorestalrondinha_rs_altrd_dec_47168_2010.pdf> Acesso em 12 mai. 2014.
SANVIDO, Vanius R. Incêndio no PESPC em janeiro de 2013: depoimento [mai. 2014]. Livro
Reportagem da Disciplina de Laboratório de Jornalismo Impresso III do Curso de Comunicação
Social Habilitação Jornalismo do Centro de Educação Superior Norte RS da Universidade
Federal de Santa Maria: Ecologia na Prática: Parque Estadual do Papagaio Charão, 2014.
Entrevista concedida à Simone Luiza Fritzen.
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Ecologia na prática: Parque Estadual do Papagaio Charão