Novos paradigmas para o planejamento do produto turístico no meio rural
Valdir José da Silva
CPF 311.488.240-49
Estudante do Curso de Mestrado em Extensão Rural do Departamento de Economia Rural da
Universidade Federal de Viçosa
Avenida P. H. Rolfs, s/nº - Campus Universitário - CEP 36570-000 - Viçosa-MG
E-mail: [email protected]
José Benedito Pinho
CPF 721.574.618-68
Professor do Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa
Av. P. H. Rolfs, s/nº - Campus Universitário - CEP 36570-000 - Viçosa-MG
E-mail: [email protected]
Grupo de Pesquisa 10 - Desenvolvimento Territorial e Ruralidade
Forma de apresentação: Apresentação em sessão sem debatedor
Trabalho submetido tem como base dissertação de mestrado em andamento
Novos paradigmas para o planejamento do produto turístico no meio rural
RESUMO
A partir da constatação da complexidade do produto turístico no meio rural e com base nas
formulações teóricas de KRIPPENDORF (2000) e de WOORTMMANN (1990), este artigo
levanta aspectos inerentes à sua própria especificidade e às implicações que a interação de
culturas provoca no meio rural. Conclui, ao final, que o planejamento do turismo no meio
rural deve considerar novos paradigmas de marketing, que permitam novas abordagens e
concepções de desenvolvimento, em que o meio rural seja considerado como um todo, nos
aspectos econômicos, sociais, culturais e ecológicos.
PALAVRAS-CHAVE: Turismo rural, marketing de turismo, planejamento do turismo rural,
produto turístico.
Novos paradigmas para o planejamento do produto turístico no meio rural
1. INTRODUÇÃO
Devido a características próprias do Brasil, como a dimensão continental, a
exuberância de sua área natural, a diversidade cultural e as novas conformações do meio rural
brasileiro, o turismo no espaço rural apresenta-se como um dos mais favoráveis. Por sua vez,
a tendência contemporânea pela busca do novo, do diferente, do autêntico e do particular, em
contraposição ao desgastado turismo de massa, tem representado um grande estímulo ao
desenvolvimento das atividades de lazer e turismo em ambientes rurais.
O desenvolvimento rural já não pode estar alicerçado apenas em atividades agrárias
tradicionais, permanentemente submetidas ao risco, à incerteza e à exaustão dos fatores de
produção. A diversificação impõe-se e, assim, o turismo rural é uma alternativa promissora
em razão da constatação de que a busca pelos ambientes rurais surge como um legítimo
anseio das populações de grandes centros urbanos. As dificuldades da vida moderna e o
enfrentamento de desafios cada vez mais intensos têm levado, cada vez mais, parcelas
significativas da população urbana a se conscientizarem de que o contato com a natureza e
com a vida simples, autêntica e peculiar do campo é a melhor forma de recuperação de
energias.
O meio rural prepara-se para essa crescente demanda, visualizando os benefícios que
poderão advir da atividade turística, como o aumento da diversificação da renda, a ocupação
de mão-de-obra familiar relativamente ociosa, a interação social e cultural com um público de
“alto nível social” e o aproveitamento de espaços e tempos ociosos, amenizando os problemas
da sazonalidade da agropecuária. Os custos não são exagerados e, geralmente, envolvem
adequação de instalações para acomodar visitantes e treinamento de pessoas para atender aos
turistas.
Porém, o que fica patente nas proposições de implementação do turismo no meio
rural 1 é que o imediatismo provocado pela necessidade de encontrar alternativas para o
desenvolvimento local, em face das dificuldades da atividade agropecuária, não tem permitido
o aprofundamento das questões que dizem respeito à complexidade do planejamento do
produto de forma a contemplar os interesses e necessidades de todos os grupos envolvidos –
turista, comunidade local e investidores.
Por sua vez, o planejamento de marketing tem um foco basicamente empresarial,
voltado para as estratégias de comercialização de produtos. Assim, no caso do Turismo Rural,
as unidades produtivas aparecem com prioridade sobre a comunidade rural, o que pode ser
visto como uma decorrência do próprio histórico do desenvolvimento capitalista, que se dá
por meio da indústria e do surgimento do marketing vinculado a um mercado de produtos e
mercadorias.
Justifica-se, assim, propor neste estudo uma reflexão a respeito da complexidade do
produto turístico no meio rural, por sua própria especificidade e pelas implicações que a
interação de culturas provoca no meio rural, as quais não são, atualmente, consideradas no
planejamento do marketing turístico.
1
As conceituações do turismo no meio rural são muitas e contraditórias, sendo discutidas, por exemplo, em
TULIK, O. Turismo rural. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2004. Por não ser objeto de preocupação nesse trabalho, a
expressão “turismo no meio rural” será utilizada pela sua abrangência e por permitir superar a visão restritiva de
turismo rural, enquanto atividade predominantemente voltada para unidades produtivas, com pouca ênfase na
comunidade rural. Outras denominações são empregadas apenas para por razões de estilo,
2. O MIX DE MARKETING E O PRODUTO TURÍSTICO
Os estudiosos do marketing têm afirmado que o sucesso das organizações depende da
adequada combinação entre os 4 Ps do composto de marketing (Cobra, 2001; Kotler e
Armstrong, 2003; Schewe e Hiam, 2000). Nesse sentido, é necessário ter um bom produto,
um ponto de venda ou uma forma de levar esse produto até o cliente, uma comunicação
eficiente e, finalmente, um preço que seja compatível com o produto ofertado e com a
capacidade da demanda.
Nos negócios turísticos, apesar da possibilidade de uma analogia com os demais tipos
de produtos ou serviços, algumas particularidades requerem uma análise mais detalhada sobre
a concepção e aplicação dos componentes do mix de marketing. Em primeiro lugar, trata-se de
destacar que o turismo, como área específica de mercado, é relativamente recente. A
sistematização dos estudos e a preocupação com o marketing turístico no Brasil têm pouco
mais de trinta anos, considerando-se que a criação da Embratur (Empresa Brasileira de
Turismo) data de 1966. As primeiras faculdades de turismo e de hotelaria surgiram na década
de 1970, com uma clara preocupação de aperfeiçoar as relações mercadológicas nesse setor.
No entanto, as pesquisas somente se desenvolveram a partir da década de 1990, com o
surgimento de mestrados em turismo e teses de mestrado e doutorado sobre o assunto, nas
áreas de administração, economia, comunicação, geografia e sociologia.
Por outro lado, como visto, as origens do marketing denotam um vínculo muito
intenso com o desenvolvimento industrial e, portanto, com ênfase no produto. Os estudos de
marketing turístico estão limitados por esses paradigmas do marketing de produtos, gerando
uma adaptação do marketing de consumo para o mercado turístico, como pode ser constatado
na afirmação de Cobra (2001, p.46): “No setor de negócios turísticos ter um bom produto é o
primeiro e mais importante passo para atender as expectativas dos consumidores”.
Dois problemas podem ser identificados nessa adaptação. Primeiro, o mercado
turístico vai além da simples prestação de serviços. Sabe-se, hoje, que a “economia da
experiência” tem uma dimensão que não é coberta pela prestação de serviços. Segundo, a
prestação de serviço, tratada no conceito de marketing moderno, é uma espécie de
complemento ao modelo industrial, pois trata da comercialização de produtos, da assistência
técnica, da educação, da saúde e do lazer. Assim, esquece-se que o turismo tem uma dimensão
imaterial e subjetiva muito acentuada, e que exige novos paradigmas para a adequada
definição de produto e serviços turísticos.
Outro aspecto a ser considerado são as singularidades do produto turístico, como
apontou Kripendorf (2000). Por sua natureza, o produto turístico apresenta, entre outras,
características de intangibilidade; simultaneidade espacial e temporal da venda e do consumo;
consumo no local da produção; impossibilidade de estocagem; irregularidade na prestação de
serviços; concentração no espaço e no tempo; e instabilidade da demanda. O produto turístico
ainda é estático, visto que é difícil adaptar ou mudar a localização ou a quantidade de uma
atração turística, e tem demanda heterogênea, pois os consumidores no turismo são muitos e
com características bastante distintas.
3. OFERTA TURÍSTICA
O turismo não é um setor de produção bem definido, na medida em que utiliza bens e
serviços de outras cadeias produtivas para oferecer o que se chama de produto final. Pode-se
mesmo imaginar que ele exista em teoria, porque, na prática, cada pessoa procura dar um
colorido especial a suas viagens, razão pela qual o resultado final poderá ser completamente
outro.
“Por razões de terminologia e conceituação diz-se que o ‘produto turístico’ total, em
sentido macroeconômico, é constituído de um conjunto de subprodutos, tais como
transporte, hotelaria, restaurantes, filmes, livros, diversões, souvenirs, seguro e outros.
Em sentido microeconômico, cada um deles pode receber a denominação de ‘produto
turístico’.”(Beni, 2000, p.160)
A composição do produto turístico, no sentido macroeconômico, dá-se pela
classificação da oferta turística em oferta original e em oferta agregada. A oferta original,
representada pelos atrativos turísticos, determina a escolha do turista ou o diferencial do
destino, sendo também denominada de “matéria-prima” do turismo. Já a oferta agregada é
dada pelas facilidades (transporte, hospedagem, alimentação e entretenimento), as quais
constituem elementos do produto turístico que, por si só, não geram fluxos turísticos. 2 A falta
delas, porém, pode impedir o turista de visitar as atrações.
Em relação à oferta original, a herança cultural de um povo é importante fator de
atratibilidade, pois o desejo de conhecer os usos e costumes de um povo constitui importante
motivação das viagens turísticas. A herança cultural é constituída de fatores inerentes, de
hábitos ou lendas instituídas pelo homem e que se difundiram, consciente ou
inconscientemente, numa sociedade ao longo dos anos, de tal forma que delineiam seu estilo
de viver, as formas de morar, as manifestações materiais (como os monumentos) e as
manifestações imateriais (ritos e mitos).
4. INTERAÇÃO DOS GRUPOS SOCIOLÓGICOS DO TURISMO NO MEIO RURAL
O desenvolvimento turístico em pequenas comunidades foi tratado, por Krippendorf
(2000), a partir da caracterização de três grupos sociológicos envolvidos – a comunidade
autóctone, o turista e os investidores ou trabalhadores do turismo –, cada um com
necessidades diferenciadas com relação ao turismo. A comunidade autóctone tem a
necessidade primordial de manter o meio ambiente e a qualidade de vida, bem como preservar
os seus valores sociais e culturais. O turista, um grupo geralmente proveniente de centros
urbanos, busca, por meio do turismo no meio rural, a tranqüilidade, o ar puro, o contato com a
natureza e a descontração. O grupo dos investidores ou trabalhadores, por sua vez, têm
interesse maior na renda (lucros ou salários) do que no desenvolvimento que essa atividade
pode proporcionar.
Assim, o planejamento do produto turístico deve observar o equilíbrio na satisfação
das necessidades de cada grupo ou, se isso não for possível, seguir uma hierarquia de
atendimento de necessidades, em que, inicialmente, se considerem os interesses e as
necessidades da comunidade autóctone e do turista, e depois do grupo de investidores e
trabalhadores. Conforme Krippendorf (2000), o desenvolvimento turístico, até então, sempre
seguiu hierarquia inversa, visto que privilegiando o grupo de investidores e trabalhadores em
detrimento do turista e, principalmente, da comunidade autóctone.
Normalmente, são considerados e avaliados muito mais os impactos econômicos das
diversas manifestações do turismo no meio rural, relegando-se a segundo plano os impactos
no meio físico da localidade e nos aspectos socioculturais das comunidades receptoras. Nesse
sentido, no Brasil a sistematização teórica que estrutura o conhecimento do turismo, por meio
do Sistema de Turismo - SISTUR, é pioneira na análise do conjunto das relações ambientais
do turismo, abordando a necessidade de equilíbrio entre os subsistemas ecológico, econômico,
2
Aos elementos da oferta original e da oferta agregada devem ser acrescentadas as bases técnicas e materiais do
turismo, bem como a infra-estrutura, que inclui, adicionalmente, serviços de informações, de comunicação e de
acesso.
sociológico e cultural, como forma de garantir o desenvolvimento sustentável do turismo
(Beni, 2000). Nota-se, nesse autor, o pensamento de Krippendorf (2000), especialmente
quando aborda o subsistema sociológico do SISTUR e atribui grande ênfase às necessidades
dos três grupos sociológicos – turista, comunidade autóctone e investidores ou trabalhadores
do turismo.
Ruschmann (1997, p.9-10) acompanhou essa linha e expôs, com muita propriedade,
seu ponto de vista:
“A finalidade do planejamento turístico consiste em ordenar as ações do homem sobre
o território e ocupa-se em direcionar a construção de equipamentos e facilidades de
forma adequada, evitando, dessa forma, os efeitos negativos nos recursos, que os
destroem ou reduzem sua atratividade.
(........................................................................................................................................)
Por isso, o planejamento é fundamental e indispensável para o desenvolvimento
turístico equilibrado e em harmonia com os recursos físicos, culturais e sociais das
regiões receptoras, evitando, assim, que o Turismo destrua as bases que o fazem
existir.
Nesse estudo, defendemos a tese de que apenas as ações planejadas dentro de uma
metodologia científica – com vistas em um desenvolvimento ‘sustentável’ da atividade
turística – poderiam conduzir a uma evolução favorável para os empreendedores, para
as populações receptoras, para os turistas e, conseqüentemente, para todas as
destinações.”
Entretanto, o risco dessa postura é presumir que valores e interesses que permeiam
esse grupo – comunidade autóctone – sejam os mesmos dos outros dois – turistas e
investidores do turismo. Conclui-se que o tipo de desenvolvimento turístico proposto interessa
a todos e que a sua matéria-prima – representada pelas manifestações culturais que
demonstram os valores autênticos da comunidade receptora –, necessita ser preservada como
condição para a continuidade do negócio. Assim, essas manifestações passam a não
representar os valores da comunidade em si, mas sim a ter o seu valor meramente atrelado à
condição de insumo do produto turístico.
5. PECULIARIDADES DO MEIO RURAL E RELAÇÃO COM GRUPOS EXTERNOS
A caracterização da sociedade rural brasileira como receptora do turismo torna-se
difícil devido à própria dimensão e diversidade cultural de nosso país, assim como em razão
da diversidade inerente à própria concepção dessa sociedade.
Sabe-se que o sentido da terminologia “meio rural” ultrapassa a visão que a vincula
exclusivamente às atividades agropecuárias (ENCONTRO DE PESQUISADORES E
JORNALISTAS, 2001), visto que o rural é maior do que a agricultura e há necessidade de se
estabelecer novos critérios para divisão do que seja rural e urbano no Brasil. O critério
meramente espacial de divisão, utilizado aqui, não corresponde aos empregados na maioria
dos países, que usam o critério de densidade demográfica. Nessa nova proposição, o meio
rural pode incluir pequenos municípios, vilas, distritos e bairros rurais onde a densidade é
menor do que cem habitantes por quilômetro quadrado. Essa postura mais recente com
relação ao meio rural permitiria uma ampliação do conceito de turismo rural, extrapolando a
concepção que o vincula às unidades produtivas até atingir a comunidade rural como um todo.
Portanto, se o planejamento do produto turístico no meio rural deve ser capaz de
compatibilizar os interesses e necessidades dos grupos envolvidos, principalmente do grupo
receptivo, é necessário que haja um estudo que extrapole as concepções parciais e restritivas
da concepção de meio rural. Uma nova postura se faz necessária para permitir a melhor
compreensão dos valores sociais e culturais que orientam esse grupo.
Os impactos mais relevantes do turismo na sociedade rural podem ser abordados em
torno de variados aspectos. O primeiro é o econômico-objetivo. Sabe-se que o turismo pode
acontecer em vários tipos de comunidades rurais, desde unidades produtivas (fazendas)
modernamente equipadas e estruturadas para receber o turista até pequenas comunidades
rurais onde há precariedade até mesmo de acomodação para o visitante. O segundo é o
aspecto subjetivo, relacionado com os valores culturais. É possível que o turismo ocorra em
comunidades rurais que comungam os valores morais e culturais da sociedade moderna
capitalista, até aquelas que tem uma vida social pautada por valores característicos de uma
sociedade tradicional.
Outra observação importante é que, na prática, torna-se difícil delimitar a fronteira
entre o objetivo e o subjetivo, assim como entre os valores tradicionais e os modernos. No
entanto, isso não impede que, no aspecto teórico, esses conceitos possam ser tomados como
parâmetro de análise. Para efeito dessa reflexão, será analisado basicamente o aspecto
subjetivo, pois a preservação dos valores éticos, morais e culturais da comunidade autóctone é
a “matéria-prima” do produto turístico no meio rural.
Não menos importante, outro fator que remete essa análise ao aspecto subjetivo é a
questão da atratividade. A maior ou menor capacidade para o desenvolvimento do turismo
está intimamente relacionada com o poder de atração do local, provocado principalmente pela
busca do diferente e exótico. Nesse sentido, as manifestações culturais da comunidade
receptora exercerão maior fascínio ao turista quanto maior for a particularidade ou a
genuinidade de sua cultura. Então, paradoxalmente, as sociedades que mais preservam os seus
valores culturais terão maior capacidade de desenvolver o turismo. Porém, maior será o
impacto que poderá ser provocado quando da interação desse grupo com outros grupos
externos, aumentando ainda mais a probabilidade de comprometimento da sua capacidade de
preservação cultural.
Para melhor compreensão dos valores que norteiam cada grupo envolvido no turismo
rural, é necessário distinguir a sociedade tradicional, que representa a comunidade autóctone,
da sociedade moderna, que representa o turista e os investidores do turismo. Nesse sentido, os
estudos sociológicos e antropológicos sobre as sociedades camponesas e a sua contraposição
por meio do estudo da formação da sociedade moderna, capitalista, como ponto de vista
predominante dos grupos de turistas e investidores do turismo, permitirão a elucidação da
contradição de interesses e necessidades no processo de desenvolvimento turístico no meio
rural.
Nessa perspectiva, vários estudos podem ser analisados, particularmente os que tratam
da campesinidade, especialmente Woortmann (1990). Nele, os valores morais, éticos e sociais
do camponês manifestam-se na relação com a terra, com o trabalho, com a família e com a
comunidade. A terra é o valor que permeia as relações sociais, e o termo campesinidade serve
para designar uma ordem de valores do campesinato, determinada pelo grau de maior ou
menor permeabilidade desses grupos, de acordo com suas relações com outros grupos
externos.
A sociedade camponesa possui valores e princípios organizacionais, como honra e
hierarquia, que fazem parte de uma ordem moral que se contrapõe a uma ordem econômica
das sociedades modernas, individualizadas, voltadas para o mercado. O “homo economicus”,
associado aos valores racionais da sociedade capitalista, estaria em oposição ao “homo
moralis”, relacionado com os valores de honra, reciprocidade e família da sociedade holista,
hierárquica, tradicional. A ênfase dessas concepções fica evidente no próprio título da obra de
Woortmman – Com parente não se neguceia –, na qual ele demonstra como as categorias
antropológicas de reciprocidade, honra e hierarquia se articulam para representar uma tradição
na qual se inscreve a campesinidade.
A noção de reciprocidade, mais do que de troca, permite a compreensão da
campesinidade em sua dimensão mais geral. Contrariamente ao que se denomina na sociedade
moderna de fetiche ou espírito da mercadoria que é trocada, a reciprocidade tem significado
mais abrangente, pois constitui um espírito de reciprocidade que se afirma pela negação do
negócio. Nesse sentido, o negócio
“é percebido como a negação da moralidade, pois ele significa ganhar as custas do
trabalho alheio. É percebido, então, em oposição ao trabalho e como uma atividade
que não envolve honra”. (Woortmann, 1990, p.38).
A reciprocidade afirma-se como um princípio moral, pela negação do espírito do
lucro, e articula-se com outros conceitos de honra e hierarquia, formando uma ordem moral.
O trabalho é percebido como honra do pai de família, que representa um todo e opõe-se ao
negócio, atividade enriquecedora, mas desonrante, voltada para o interesse particular
individual. Trabalho também significa aquilo que transforma a terra em patrimônio de família,
em que família, trabalho e terra, nessa ordem social, constituem um ordenamento moral do
mundo, em que a terra, mais que coisa, é patrimônio, isto é, pessoa moral.
“Terra e pai expressam o princípio da hierarquia em seu sentido mais fundamental de
relação entre a parte e o todo, entre o englobado e o englobante. É só quando ela se
torna mercadoria que ela se desloca da tradição e do todo para aderir ao indivíduo.”
(Woortmann, 1990, p.62)
Assim, terra, trabalho e família não podem ser considerados separadamente porque são
categorias de um universo concebido holisticamente. Também não é possível falar de
reciprocidade sem falar de honra e de hierarquia, pois são conceitos teóricos que se
interpenetram na constituição de uma ordem moral que o autor chama de campesinidade.
Baseado nestes e em outros estudos sobre o campesinato, Pereira (2000) elaborou uma
matriz de valores que sintetiza essa problemática e é também de grande importância para
demonstrar a contraposição entre a sociedade rural – grupo receptor no turismo rural – e a
sociedade urbana – grupo de turista e investidores do turismo. Neste trabalho, esse autor
distinguiu a sociedade camponesa, com características tradicionais e holístas, da sociedade
urbana, com características modernas, individualistas. Trabalhou com categorias analíticas
nucleantes, em que, no primeiro grupo, o valor englobante é a honra; a relação social é
baseada na reciprocidade; a terra é um patrimônio de família; e o parentesco é um valor de
família; enquanto no segundo grupo o valor englobante é a dignidade; a relação social está
baseada na contratualidade; a terra é uma mercadoria; e o parentesco é um valor individual.
Outro trabalho que trata dos valores éticos e morais da sociedade rural e serve como
base para sua caracterização são os estudos sobre o campesinato latino-americano, de Foster
(1974). Esse autor defendeu a idéia de que a consciência do limite dos bens materiais,
existente na sociedade camponesa, forja uma ética baseada no sentimento de que o acúmulo
material é imoral, uma vez que, para uns, representa o acúmulo e para outros, a escassez.
Compreende-se, aí, o forte sentimento de valor social existente no meio rural e demonstra a
dificuldade de enquadramento do camponês no espírito racional mercantilista da sociedade
moderna.
Com base nos estudos sobre o campesinato, percebem-se a complexidade que envolve
o desenvolvimento turístico no meio rural e a dificuldade de compatibilização dos interesses e
necessidades dos três grupos sociológicos envolvidos. A relação da sociedade camponesa com
grupos externos, norteados por valores racionais voltados para uma atividade mercantil,
possui componentes contraditórios difíceis de conciliar. Como imaginar um camponês
cobrando por um pouso ou por um prato de comida? Como querer que ele pense os seus
valores fundamentais como objeto de troca? Para ele, sua propriedade, sua casa, é local onde
manifesta e reproduz, juntamente com os “seus”, os valores fundamentais de honra e
reciprocidade que norteiam sua vida. Pensar este local como mercadoria é abrir mão não
apenas do seu conforto ou bem-estar familiar, mas de todos esses valores.
Por outro lado, as próprias manifestações culturais, representadas por cerimônias e
rituais religiosos da comunidade rural camponesa, possuem uma simbologia de valores
próprios que estão profundamente arraigados no “etos” social. Essas festas acontecem de
acordo com uma lógica própria, em que os objetivos de fé definem dias, horários e momentos
próprios para acontecer. Portanto, como conceber que, de repente, esse ritual possa tornar-se
espetáculo para ser exibido para um grupo externo, no momento e na hora que convier, de
acordo com a lógica do mercado turístico? Como conciliar uma lógica de valores de fé com
uma lógica de valor comercial?
As propostas de planejamento do produto turístico no meio rural não podem ignorar
essa realidade. Não há como negar que os valores de parentesco, compadrio e as relações de
reciprocidade existentes entre os camponeses dificultem o estabelecimento do turismo no
meio rural.
A interação e a convivência com grupos externos em si não são o que dificulta a
preservação dos valores camponeses. Porém, quando essa relação é mediada por uma relação
mercantil, cujas manifestações fazem parte da própria mercadoria, a preservação de valores
culturais da comunidade receptora é um discurso sem consistência.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A elucidação da complexidade do produto turístico no meio rural deve servir como
ponto de partida para o planejamento do marketing. Inicialmente, é preciso considerar a
dificuldade da adaptação da idéia concreta, como é a idéia original de produto, a um tipo de
atividade que foge a essa característica e atinge, basicamente, o imaterial.
Outro aspecto a considerar é a dificuldade de adaptação de uma idéia de unidade bem
definida e clara, que o termo “produto” induz, a uma complexidade de unidades dependentes
como é o macroproduto turístico em comunidades rurais, pois este envolve desde
microprodutos, como no caso da hospedagem, restauração, entretenimento, até o
macroproduto, que é o conjunto de todos, mais os atrativos culturais e naturais de uma
localidade, bem como as facilidades de transporte e de infra-estrutura.
Se, por um lado, a dificuldade do planejamento do turismo se deve aos paradigmas do
marketing de produtos, por outro, o turismo no meio rural envolve outro agravante ligado a
este. O paradigma dos valores que acompanham o planejamento do produto são valores da
sociedade moderna, na qual a indústria é a base primordial do desenvolvimento. Assim, é
preciso planejar o turismo no meio rural a partir do estabelecimento de novos paradigmas de
marketing que permitam novas abordagens e concepções de desenvolvimento, em que o meio
rural seja considerado como um todo, nos aspectos econômicos, sociais, culturais e
ecológicos.
Os grupos envolvidos precisam ser devidamente pesquisados e ouvidos, para que o
turismo nesse meio respeite as necessidades de todos os envolvidos. É necessário promover
experiências interessantes ao turista, pois é ele que mantém economicamente essa atividade. É
essencial, também, que gere resultados financeiros para os investidores e trabalhadores, mas é
imprescindível, sobretudo, que qualidade de vida, cultura e bem-estar da comunidade
receptora sejam respeitados, pois é na “sua casa” que o turismo acontece. Se o turista está ali
durante certa temporada e se os investidores, muitas vezes, têm ali apenas uma fonte de renda,
o autóctone depende do local para viver e conviver com os seus. Assim, esse grupo,
necessariamente, precisa estar envolvido no processo de planejamento da atividade turística
no meio rural.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENI, M. C. Análise estrutural do turismo. 4. ed. São Paulo: SENAC, 2001.
COBRA, M. Marketing de turismo. 2. ed. São Paulo: Cobra, 2001.
FOSTER, G. M. La sociedad y la imagen del bien limitado. In: BARTOLOMÉ, L. J. e
GOROSTIAGA, E. E. (Eds.). Estudios sobre el campesinado latinoamericano. Buenos
Aires: Ediciones Periferia, 1974. p.57-90.
KOTLER, P. e ARMSTRONG, G. Princípios de marketing. 9. ed. Trad. Arlete Simille
Marques e Sabrina Cairo. São Paulo: Prentice Hall, 2003.
KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do turismo: para uma nova compreensão do lazer e das
viagens. São Paulo: Aleph, 2000.
ENCONTRO DE PESQUISADORES E JORNALISTAS, 2001, São Paulo. Brasil rural na
virada do milênio. Brasília, Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural, 2001.
PEREIRA, José Roberto. De camponeses a membros do MST: os novos produtores rurais e
sua organização social. Brasília, 2000. 258p. Tese de Doutorado em Sociologia. Instituto
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RUSCHMANN, D. V. M. Turismo e planejamento sustentável. Campinas: Papirus, 1997.
SCHEWE, C. D. e HIAM, A. MBA: curso prático: marketing. Trad. Maurette Brandt. Rio de
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WOORTMMANN, Klass. Com parente não se neguceia: o campesinato como ordem moral.
In: Diversos autores. Anuário Antropológico 87. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.
p.11-73.
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