A CONTRIBUIÇÃO DO JOGO PARA O DESENVOLVIMENTO MOTOR DA CRIANÇA
DE EDUCAÇÃO INFANTIL
LÉIA DA VEIGA
VERA LÚCIA CASTELEINS
RESUMO
O jogo está intimamente ligado à espécie humana é um fenômeno antropológico que serviu de
vínculo entre os povos e é um facilitador da comunicação entre eles. Sabe-se que a atividade lúdica
é tão antiga quanto a humanidade. No entanto, só com Froebel é que o jogo passa a fazer parte da
educação. Apesar disso o jogo não era bem visto pela pedagogia tradicional, a educação e o jogo
não eram considerados uma boa combinação. Com o movimento da escola nova e novos métodos
de ensino, o jogo vem sendo cada vez mais utilizado como uma ferramenta de apoio, objetivando
facilitar os trabalhos desenvolvidos pelos alunos, tornando o ensino / aprendizagem, muito mais
significativos e prazerosos. Sabe-se que a atividade lúdica é um elemento metodológico ideal para
promover a formação integral das crianças. Dessa forma este trabalho centrou-se no estudo da
análise do desenvolvimento da criança, no estudo dos jogos com o objetivo de avaliar a
contribuição do jogo para o desenvolvimento motor da criança na Educação Infantil.
Palavras-chaves: desenvolvimento motor, jogos, brincadeiras.
INTRODUÇÃO
Os jogos sempre constituíram uma forma de atividade inerente ao ser humano, na
Grécia Antiga, conforme Kishimoto (1997, p. 19), Platão (427 – 328), já afirmava “que os primeiros
anos da criança deveriam ser ocupados com jogos educativos, com a ascensão do Cristianismo os
jogos foram perdendo seu valor, pois eram considerados profanos, imorais e sem nenhuma
significação”.
No entanto, os humanistas a partir do século XVI voltaram a perceber o valor
educativo dos jogos e que não era preciso sentir vergonha ou depender de permissões escassas para
utilizá-los. Depois disso os teóricos, precursores dos novos métodos ativos da educação, frisaram a
importância do processo lúdico na educação das crianças. Salientando Makarenko (in Kishimoto,
1997, p. 32), “o jogo é tão importante na vida da criança como o trabalho é para o adulto”, daí a
importância da educação do futuro cidadão ser baseada antes de tudo no jogo.
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Após observação realizada com crianças na faixa etária de Educação Infantil,
percebeu-se que estas apresentam maior facilidade para desenvolver atividades diversas, depois de
terem vivenciado primeiro com o corpo, deixando claro que o jogo favorece os desenvolvimentos
cognitivo, afetivo e motor, mostrando-se um excelente auxiliar no processo de aquisição do
conhecimento.
Por meio do jogo a criança exercita a capacidade de lidar com os sentimentos
aflitivos e com desafios, buscando maneiras para administrar situações cotidianas. Diante dessa
reflexão procurou-se analisar “a contribuição do jogo para o desenvolvimento motor da criança na
Educação Infantil”. Nessa faixa etária é que se aprimora o desenvolvimento motor que é um
processo contínuo e demorado e, em conseqüência disso as mudanças mais acentuadas acontecem
nos primeiros anos de vida, existe a propensão em se considerar o estudo do desenvolvimento motor
como sendo apenas o estudo da criança. Os primeiros anos de vida, do nascimento aos seis anos,
são fundamentais para o educando.
Em face do exposto, questionou-se como o jogo poderá contribuir no
desenvolvimento motor da criança na faixa etária de 3 a 6 anos, cujo objetivo foi por meio das
intervenções realizadas com as crianças e pesquisas feitas com professores e coordenadores,
identificar os jogos como ferramenta de apoio nesse processo.
1 DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA
1.1 DESENVOLVIMENTO MOTOR
Na faixa etária de 3 a 6 anos é que ocorre o desenvolvimento motor mais
significativo. O processo de desenvolvimento motor é apresentado através das fases dos
movimentos reflexos, rudimentares, fundamentais e especializados e para cada fase, são indicados
estágios com idades cronológicas correspondentes. Os movimentos podem ser caracterizados com
estabilizadores, locomotores ou manipulativos, que se combinam na execução das habilidades
motoras ao longo da vida.
As crianças na faixa etária de Educação Infantil estão na fase de desenvolvimento
das habilidades motoras básicas e os movimentos essenciais são considerados verdadeiros núcleos
cinéticos. Esta capacidade para movimentar-se com maior autonomia está relacionada com diversos
fatores: maturação neurológica; crescimento corporal, disponibilidade em realizar atividades
motoras.
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Bee (1977) afirma que até que os músculos do pescoço e das costas não tenham se
desenvolvido a criança não consegue erguer a cabeça e assim acontece com os das mãos e demais
músculos. Conforme a criança vai crescendo seu desenvolvimento motor também progride, a
criança não consegue realizar movimentos que não sejam condizentes a maturidade motora, no
entanto, nada impede que seja estimulada, pois ao realizar explorações e tateio sua inteligência
passa, aos poucos do nível motor para o representativo. Durante o período que vai
aproximadamente dos 3 a 6 anos, as crianças apresentam imensa necessidade de movimentar-se e
fazem grandes progressos nas habilidades motoras gerais, daí a importância do estímulo.
Conforme Rizzo (1992) para se atingir o desenvolvimento dos movimentos dos
grandes músculos é preciso que as atividades sejam planejadas a partir de jogos e brincadeiras, na
qual a criança possa se expressar livremente, promovendo o exercício de toda a musculatura
corporal.
Os jogos e brincadeira possibilitam ainda, o desenvolvimento cognitivo e afetivo
paralelamente ao desenvolvimento motor.
2 O QUE É JOGO
Na cultura brasileira, o jogo muitas vezes, é confundido com competição, pois ao
assistir um jogo de futebol, por exemplo, a primeira idéia que temos é a de um duelo, no qual o
resultado sempre será vitória, empate ou derrota, possui regras que estabelecem o tempo de
duração, a intensidade e término da atividade. Já na educação o jogo toma outro enfoque é mais
utilizado como forma de divertimento, algumas vezes até pode incluir a competição, mas o objetivo
do jogo na educação é estimular o desenvolvimento integral da criança, ser um facilitador na
aprendizagem e possibilitar a relação interpessoal entre as crianças. É por meio do jogo e da
brincadeira que a criança desenvolve a consciência corporal, aprende a se conhecer, a conhecer as
pessoas que estão a sua volta, estabelecer relações entre os sujeitos e os papéis que estes assumem.
Para Antunes (2003) num enfoque educacional o jogo se aproxima de sua origem
latina com o significado de divertimento, passatempo, gracejo. Todavia, nada impede que seja
utilizado em forma de competição.
Kishimoto (1997) acrescenta ainda que, entendido como recurso que ensina,
desenvolve e educa de forma prazerosa, o jogo educativo cuja concepção exigiu um olhar para o
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desenvolvimento infantil e a materialização da função psicopedagógica, mostra-nos a relevância
desse instrumento para as situações de ensino / aprendizagem e de desenvolvimento infantil global.
Para Claparède (apud Hurtado, 1996) o jogo é como uma atividade espontânea do
ser humano, para afirmar sua personalidade.
2.1 A IMPORTÂNCIA DOS JOGOS
A vida da criança não pode ser vista nem imaginada sem o jogo ou as
brincadeiras, pois são as principais atividades da infância, eles suprem as necessidades que elas têm
de tornar seu o mundo em que está inserida. (MURCIA, 2005).
O trabalho realizado com jogos de forma recreativa possibilita a criança evoluir
no domínio de seu corpo, crescendo e aprimorando suas capacidades de movimentos, superando
dificuldades, conquistando novos espaços, conseguindo enfrentar novos desafios motores,
cognitivos e afetivos. Os jogos são parte fundamental na educação, não propiciar ao aluno a
possibilidade de brincar, é estar deixando uma lacuna em seu desenvolvimento, é dificultar sua
capacidade de lidar com seus impulsos e conseqüentemente não saber como controlá-los ou avaliálos. Durante as brincadeiras e jogos a criança torna-se motorista, cozinheira, arquiteta, jogador de
futebol entre outras; ao brincar ela põe para fora todos os seus medos. Podemos ainda analisar como
a criança e tratada pelos seus familiares ao observar suas brincadeiras, pois ela imita de maneira
muito real os tratamentos recebidos.
Segundo Martins (Jornadas Curitibanas,
2003) por meio do jogo a criança
adquire habilidades e conhecimentos. Assim a escola deve utilizar mais esse recurso tão rico em seu
currículo, pois, os jogos e brincadeiras não ajudam apenas no desenvolvimento motor, cognitivo e
afetivo, mas também ajudam o aluno a descobrir e desenvolver sua criatividade.
Conforme Kishimoto (1997) o jogo tem papel fundamental no desenvolvimento
da criança pré-escolar, pois ela aprende de modo intuitivo, adquirindo noções espontâneas, que
envolvem o ser humano por inteiro em todos os aspectos, cognitivo, afetivo, corporal e nas
interações sociais. Ressalta ainda, que a utilização do jogo na sala de aula potencializa a exploração
e construção do conhecimento, pois conta com a motivação interna, típica do lúdico. No entanto
para que isso ocorra é importante que o educador planeje suas aulas utilizando jogos bem
estruturados, visando o crescimento integral da criança partindo da idéia que todos os jogos servem
para exercitar, desafiar, promover o convívio, ensinar e divertir.
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Antunes (2003) complementa ainda que os jogos bem organizados permitem à
criança novas descobertas, desenvolver e enriquecer sua personalidade e é jogando que se aprende a
extrair da vida o que a vida tem de essencial”. Então os jogos na Educação Infantil não servem
apenas para divertimento, mais também para que a criança se torne um adulto criativo, com boa
coordenação motora que saiba respeitar regras e relacionar-se com o mundo, entre outras
finalidades. É importante também lembrar que o jogo na faixa etária de Educação Infantil é fonte de
alegria e prazer e que o verdadeiro jogo possibilita a superação das dificuldades que as crianças
encontram.
2.2 TIPOS DE JOGOS
Existem muitos tipos de jogos e brincadeiras que podem ser realizados com a
criança na faixa etária proposta, porém o mais significativo é o jogo simbólico. Os jogos infantis,
num primeiro momento, podem demonstrar pouco valor para o desenvolvimento cognitivo e afetivo
da criança, porém Piaget afirma que o jogo tem um significado essencial para o desenvolvimento e
não apenas para divertir.
Os jogos motores permitem a participação efetiva do corpo da criança em sua
totalidade. Um exemplo de jogo motor é o pega-pega que possibilita trabalhar recursos físicos como
agilidade, velocidade, reflexos, visão e outros.
Os jogos sensoriais podem ajudar no desenvolvimento dos órgãos dos sentidos,
nos quais a criança desenvolve essas habilidades brincando. Por meio da cobra-cega que é um
exemplo de jogo sensorial, pode-se trabalhar o sentido da audição e do tato.
Por meio dos jogos criativos pode-se desenvolver a criatividade, a espontaneidade
e a imaginação das crianças, usando gestos imitativos, interpretativos e corporais. Esses jogos
possibilitam à criança imaginar e criar situações novas de maneira mais espontânea.
Já os jogos recreativos são jogos que têm o objetivo apenas de recrear ou de
distrair as crianças, por meio de atividades de integração. A recreação significa divertimento,
entretenimento e é muito importante na fase da educação infantil.
Quando a realidade não permite às crianças experimentarem seus diferentes
personagens, ela refugia-se em seu imaginário criando um mundo mágico que não é completamente
dissociado do mundo real, mas que mantém um lado fascinante. O jogo simbólico é uma atividade
própria para a criança criar esse mundo imaginário, no qual, o real e a fantasia se misturam.
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Conforme Leylanche e Pontalis (in Le Boulch, 1982, p. 97), “o jogo simbólico é a
atualização do fantasma. Satisfação do desejo, o jogo, como o fantasma que ele expressa, tem por
motivo um desejo insatisfeito buscando sua realização parcial”. No entanto o jogo não é ilusão, pois
ele faz parte do meio e do tempo em que a criança brinca.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Para a investigação do tema proposto, foram realizadas pesquisas exploratórias
utilizando perguntas abertas e fechadas com o objetivo de conhecer o posicionamento, o
conhecimento e aceitação em relação à importância dos jogos na Educação Infantil. Esses
questionários foram aplicados com a diretora, a coordenadora e com os professores, profissionais de
uma escola modelo.
O presente trabalho enfoca a Pesquisa Ação, com crianças de 3 a 4 anos, que de
acordo Thiollent (1986) é um tipo de pesquisa social, com estreita associação com a resolução de
um problema, sendo que todos os participantes estão envolvidos de forma participativa. Além disso,
devemos considerar que a pesquisa ação não é apenas uma orientação de ação, mas sim de
intervenção e cooperação entre os participantes.
A observação e as intervenções foram realizadas com uma amostragem de 17
crianças. Tendo como objetivo os seguintes requisitos: observar se o jogo contribui para o
desenvolvimento motor, afetivo e cognitivo da criança na Educação Infantil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados do presente estudo possibilitaram perceber o quanto é importante se
desenvolver um trabalho baseado em jogos na Educação Infantil e a identificação do valor que este
possui como ferramenta de apoio para o desenvolvimento global da criança nos primeiros anos de
vida.
Dada a importância desse tema, a proposta desse trabalho foi avaliar como o jogo
poderá contribuir no desenvolvimento motor da criança na faixa etária de 3 a 6 anos.
A pesquisa realizada com os profissionais da Instituição demonstrou que eles
consideram e valorizam o trabalho por meio de jogos. Em sua maioria utilizam-no como ferramenta
de apoio em sua prática diária.
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Além disso, foram realizadas atividades com crianças de 3 a 4 anos, com a
finalidade de observar a aplicabilidade dos conceitos abordados na fundamentação teórica deste
trabalho.
Os resultados das intervenções possibilitaram verificar que os jogos contribuem
para o desenvolvimento motor, pois houve uma melhora significativa na coordenação motora global
das crianças em função das atividades aplicadas.
Durante o período que aconteceram as intervenções, pode-se perceber que o
desenvolvimento motor se aprimorava gradativamente, pois algumas crianças que no princípio das
atividades apresentavam dificuldade para equilibrar-se , porque caiam bastante, se batiam e
andavam só com as pontas dos pés, após as intervenções apresentaram melhor controle de seus
movimentos, podendo ser percebida a importância dos jogos para que a criança possa desenvolverse integralmente.
No entanto, percebeu-se que não aconteceu apenas o desenvolvimento motor, mas
também existiu uma inter-relação entre o cognitivo e o afetivo, pois quando a criança não possui
maturidade para desenvolver as atividades propostas, mesmo que queiram não conseguem realizálas, precisando ser muito mais estimuladas do que as que já estão prontas.
Outro fator considerado bastante válido é que as crianças perceberam que quando
estão em grupo conseguem realizar muito mais, do que quando estão sozinhas, demonstrando assim
que o jogo propicia também a socialização e a integração delas com o meio em que vivem.
Não há dúvida que o jogo contribui para o desenvolvimento integral da criança,
porém ela não é capaz de adquirir conhecimentos ou realizar tarefas sozinhas, necessitando de uma
escola com professores preparados, que conheçam e saibam respeitar as fases do desenvolvimento
em que a criança se encontra e com a qual trabalham, é preciso também um ambiente adequado e
estimulador que favoreça a aprendizagem e o crescimento da criança de forma integral.
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