Futebol Americano no País do Futebol: um estudo etnográfico Autoria: Rodrigo Vieira de Sousa Pons, Flávia d'Albergaria Freitas, Victor Manoel Cunha de Almeida Resumo O objetivo desse estudo é descrever etnograficamente a tribo do Futebol Americano do Rio de Janeiro, identificando as dimensões culturais dessa comunidade de praticantes e admiradores e os papéis desempenhados por seus membros. Para auxiliar na identificação das dimensões culturais da tribo, foram utilizadas as categorias sugeridas por Mariampolski (2006); e para a identificação dos papéis desempenhados por seus membros, o modelo do Trevo Tribal de Cova e Cova (2002). O estudo permitiu uma reflexão sobre os desafios a serem enfrentados para o desenvolvimento de uma nova modalidade esportiva. Contribui ainda com a sugestão de políticas públicas. 1 INTRODUÇÃO A indústria do esporte é uma das maiores do mundo e vem crescendo mais do que o PIB mundial. Somados todos os ativos de clubes, ligas e federações, a indústria do esporte vale € 450 bilhões. Ela abrange desde o setor de construção de estádios até imprensa especializada, patrocínios esportivos e direitos de transmissão de TV. Considerando o mercado de eventos esportivos composto por bilheteria, receita de mídia e de marketing, os maiores esportes do mundo movimentaram € 45 bilhões, sendo que €19,5 bilhões vieram do futebol e € 5,8 da NFL, a liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos (A.T. KEARNEY, 2011). Nesse contexto, o futebol americano é o esporte mais popular nos Estados Unidos, sendo apontado por como preferido por 36% da população, seguido pelo baseball e futebol americano universitário com 13% cada (HARRIS INTERACTIVE, 2012). No Brasil, o Futebol Americano ainda é relativamente novo, tem uma base pequena de fãs e praticantes e inexistem estatísticas oficiais sobre o esporte. Em um estudo recente, o Futebol Americano foi indicado como o décimo esporte na preferência de brasileiros em uma amostra predominantemente formada por homens, estudantes universitários da região sudeste (DELLOITE, 2011). De acordo com Renato Grassiotto, fundador do movimento “Futebol Americano no Brasil: Eu Acredito”, há cerca de 600.000 fãs do Futebol Americano no Brasil, sendo que 17.000 pessoas apresentam algum tipo de envolvimento com essa prática esportiva. Em um país com uma forte tradição de futebol, o que levaria as pessoas a se interessarem e praticarem esportes como o Futebol Americano? A investigação sobre o dia a dia dos praticantes e admiradores do Futebol Americano no Brasil pode fornecer insights para o entendimento dos mecanismos que facilitam ou dificultam o desenvolvimento de um esporte em um contexto sem tradição na modalidade esportiva. Assim, o objetivo desse estudo é descrever etnograficamente a tribo do Futebol Americano do Rio de Janeiro, identificando as dimensões culturais dessa comunidade de praticantes e admiradores e os papéis desempenhados por seus membros. Para tal, a literatura de tribos pósmoderna foi utilizada como referencial teórico, uma vez que o grupo dos admiradores e praticantes de Futebol Americano apresenta um comportamento de tribo, sendo formado por pessoas que compartilham emoções e paixões, existindo por meio de compromissos simbólicos e ritualísticos manifestados por seus membros (COVA; COVA, 2002). O conhecimento gerado a partir desse estudo é relevante não só para pensar sobre o desenvolvimento do Futebol Americano no Brasil, mas também para refletir sobre outras modalidades esportivas que ainda não atingiram o seu potencial de penetração, apresentando implicações para o marketing esportivo, bem como para políticas públicas de apoio ao esporte. REFERENCIAL TEÓRICO O presente estudo se insere na linha de pesquisa da Consumer Culture Theory (CCT), um campo de pesquisa interpretativista (ARNOULD; THOMPSON, 2005), mais especificamente, na linha de pesquisa que aborda cultura de mercado. Os estudos de cultura de mercado tem por objetivo entender como o consumo reconfigura a ação e a interpretação da cultura, assim como a cultura afeta o consumo. Entender a cultura ajuda a descrever e classificar o comportamento humano assim como compreender como as escolhas individuais são influenciadas pelas relações interpessoais e 2 pelo universo simbólico em que elas vivem. Assim, pode-se analisar uma cultura através do (i) comportamento, (ii) dos significados e (iii) dos instrumentos culturais presentes no convívio das pessoas. (MARIAMPOLSKI, 2006). O comportamento cultural consiste de toda ação não fisiológica das pessoas, como: (i) rituais; (ii) papéis; (iii) atividades práticas; (iv) realizações; e (v) jogos e diversões. Os rituais são as ações realizadas sem pensar, por força do hábito ou por crença. Os papéis definem o relacionamento entre os membros do grupo. As atividades práticas são as tarefas necessárias no dia a dia. As realizações são as ações que o indivíduo empreende em busca de um reconhecimento. Os jogos e diversões são ações realizadas para relaxar e interagir (MARIAMPOLSKI, 2006). O significado cultural consiste no sentido existente por trás de um comportamento, quando ideias, emoções ou crenças são atribuídas a objetos, comportamentos ou opiniões. Os conceitos do significado cultural são: (i) símbolos; (ii) sinais; (iii) linguagem, jargões e gírias; (iv) valores e crenças; (v) atitudes e opiniões; (vi) interpretações; (vii) emoções e sentimentos; e (viii) relacionamentos. Os símbolos são objetos ou ideias que estão ligados a um significado. Os sinais são marcações que indicam algo no ambiente. A linguagem, jargões e gírias são palavras que possuem um significado além do tradicional. Valores e crenças determinam o que é certo ou errado no comportamento das pessoas. Atitudes e opiniões são como as pessoas se expressam a respeito de pessoas, objetos ou eventos. Interpretações são como as pessoas entendem o que é apresentado. Emoções e sentimentos são experiências reflexivas perante pessoas, comportamentos ou ideias. Relacionamentos consistem em laços sociais construídos em torno de um objeto ou indivíduo (MARIAMPOLSKI, 2006). Os instrumentos culturais são qualquer coisa que aumente os poderes humanos. São objetos e ideias que ajudam as pessoas a melhorar sua vida e fortalecer seus laços sociais, tais como: (i) espaço físico; (ii) tecnologia; (iii) regras; e (iv) técnicas. O espaço físico é o ambiente onde são realizadas as atividades do dia a dia e cada um tem suas oportunidades e limitações. A tecnologia são as ferramentas tecnológicas que influenciam na relação entre os usuários. As regras podem ser formais ou informais e garantem que o dia a dia das organizações sociais transcorra com certa previsibilidade e segurança. As técnicas são as formas de como fazer cada tarefa do dia a dia (MARIAMPOLSKI, 2006). Comunidades de Consumo O consumo pode ser definido como uma necessidade simbólica que o indivíduo tem com a sociedade. Através do consumo, as pessoas expressam sua relação social e experiências de vida (ROCHA; BARROS, 2006). Em algumas ocasiões, esse consumo é manifestado coletivamente. Esse consumo socialmente enraizado conecta o consumidor a uma comunidade o que aumenta o valor utilitário do produto/serviço a ser consumidor (CANNIFORD, 2011). Outro aspecto relevante é que os consumidores passaram a ser vistos como ativos no processo de criação de valor (SCHAU; MUÑIZ JR.; ARNOULD, 2009). A literatura sobre comunidades de consumo ajuda a entender como esses consumidores constroem esses relacionamentos por meio do consumo e como participam do processo de co-criação de valor. As comunidades de consumo foram estudadas por diferentes autores sendo abordados por diferentes conceitos: subcultura de consumo (SCHOUTEN; MCALEXANDER, 1995); comunidade de marca (MUNIZ JR.; O'GUINN, 2001) e tribos pós modernas (COVA; COVA, 2002). A subcultura de consumo pode ser definida como “um grupo distinto da sociedade que se auto seleciona com base no compromisso compartilhado com uma particular classe de produto, marca ou atividade de consumo” (SCHOUTEN; MCALEXANDER, 1995, p. 43). A 3 subcultura de consumo só existe dentro de um contexto de consumo (BURGH-WOODMAN; BRACE-GOVAN, 2007) e existe em oposição a cultura majoritária (SCHOUTEN; MCALEXANDER, 1995). Sua estrutura é hierarquizada, com os diferentes níveis sendo definidos pelo nível de comprometimento com os valores da comunidade. Por ter uma estrutura social complexa, há barreiras de entrada (SCHOUTEN; MCALEXANDER, 1995). As subculturas se caracterizam por serem coesivas, dedicadas e resistentes (CANNIFORD, 2011). Já as comunidades de marca (brand community) são “grupos especializados e não geográficos, baseados em um conjunto de relações sociais estruturadas entre admiradores de uma marca” (MUNIZ JR.; O'GUINN, 2001, p. 412). Assim, as comunidades de marca têm como valor de ligação (linking value) o consumo de produtos e serviços de determinada marca focal, que normalmente possui uma imagem forte, com uma história rica e antiga e que possuem uma concorrência forte. Essas comunidades de marca se caracterizam pelo compartilhamento de rituais e tradições, pelo senso de responsabilidade social e pela consciência compartilhada, que diferencia os membros dos não-membros (MUNIZ JR.; O'GUINN, 2001). Tribos pós-modernas As tribos pós-modernas foram assim batizadas em referência às tribos das sociedades arcaicas por manterem a ordem sem a existência de um poder central. As tribos pós-modernas existem quando indivíduos se identificam uns com os outros e compartilham experiências e emoções, por meio de atividades sociais (COVA; COVA, 2002). Esses valores de ligação, podem, no caso das tribos, acontecer ao redor de um produto, um serviço, uma marca ou mesmo uma atividade de consumo (CANNIFORD, 2011). A formação de uma tribo se dá a partir do engajamento, da imaginação e do alinhamento como processos de aprendizado focal. Assim, o marketing tribal deve oferecer o seu produto ou serviço como facilitador desse processo de aprendizagem (GOULDING; SHANKAR; CANNIFORD, 2013). As tribos são normalmente efêmeras, múltiplas, afetivas e heterogêneas (COVA; COVA, 2002), uma vez que elas emergem e desaparecem a medida que a combinação de pessoas e recursos se alteram (GOULDING; SHANKAR; CANNIFORD, 2013). Assim, elas não podem ser consideradas como totalizantes, já que os indivíduos que a compõem só são membros enquanto mantêm seu interesse nos rituais e nos objetos de culto (COVA; COVA, 2002). Com isso, os indivíduos podem pertencer simultaneamente a mais de uma tribo e exercerem diferentes papéis em cada uma delas (COVA, 1997; COVA; COVA, 2002; KARSAKLIAN, 2004; MAFFESOLI, 2000). Muitos estudos procuraram identificar e classificar esses papéis. Cova e Cova (2002), por exemplo, criaram um framework chamado Trevo Tribal onde o eixo horizontal refere-se às evidências físicas e o eixo vertical identifica sinais invisíveis. A partir dessa classificação, os autores determinaram os papéis que os membros das tribos assumem: (i) adeptos, são os membros das instituições; (ii) participantes, membros ligados a reuniões informais e/ou esporádicas; (iii) praticantes, os membros que se envolvem quase diariamente com a tribo; (iv) simpatizantes, os membros que marginalmente ou virtualmente integram a tribo. MÉTODO O objetivo desse trabalho é descrever etnograficamente a tribo do Futebol Americano do Rio de Janeiro, identificando as dimensões culturais dessa comunidade de praticantes e admiradores e os papéis desempenhados por seus membros. Para auxiliar na identificação das 4 dimensões culturais da tribo, foram utilizadas as categorias apresentadas por Mariampolski (2006); e para a identificação dos papéis desempenhados por seus membros, o modelo do Trevo Tribal apresentado por Cova e Cova (2002). Cova e Cova (2002) reconhecem que não é fácil identificar as tribos usando as abordagens tradicionais de marketing e recomendam como práticas de pesquisa: pesquisas documentais (desk research); entrevistas semiestruturadas e não estruturadas com membros; e observação participante e não participante. Assim, para esse estudo adotou-se a etnografia como método de pesquisa. Para a condução do estudo, um dos pesquisadores conduziu uma observação participante, uma vez que ele é membro da tribo. O período de observação participante foi precedido por um período de oito anos em que esse autor já fazia parte da tribo do Futebol Americano. Acontecimentos a partir do ano de 2004 no Futebol Americano no Brasil foram presenciados pelo autor e utilizados como dados neste estudo. Esse fato facilitou o acesso às informações e aos demais membros da tribo durante a fase de entrevistas. Os dados do estudo foram coletados durante o período de janeiro de 2012 até julho de 2013, quando foram feitas 48 entrevistas formais semiestruturadas e não estruturadas com 45 pessoas, individualmente, que duraram em média uma hora. Os informantes foram selecionados para abranger toda a tribo do futebol americano do Rio de Janeiro, mas durante a pesquisa novos informantes foram incluídos para a obtenção de mais insights. Foram entrevistados jogadores e ex-jogadores da praia e da grama e pessoas que participaram do início do futebol americano em suas cidades no Brasil com o objetivo de entender o ambiente em que o esporte surgiu no país e os fatores que contribuíram para tal. Torcedores também fizeram parte dos membros da tribo entrevistados. Para enriquecer a análise foram entrevistados torcedores com diferentes níveis de envolvimento com o esporte: (i) nível de conhecimento, torcedores que conheciam bastante o esporte até os que já tinham ouvido falar que futebol americano era praticado no Brasil; (ii) presença no estádio, tanto torcedores que já haviam assistido a um jogo de futebol americano no Brasil quanto os que nunca havia assistido a um jogo; (iii) envolvimento com o pesquisador, tanto torcedores que conheciam o pesquisador membro da tribo quanto os que não conheciam. Foram, também, utilizados dados secundários principalmente para a reconstrução da história do futebol americano. Além disso, foram utilizadas informações coletadas das páginas das redes sociais dos membros da tribo e de grupos criados para essa tribo, como por exemplo as páginas no Facebook do Torneio Touchdown, da CBFA.oficial e dos times: Corinthians Steamrollers e Flamengo FA. As anotações e observações do pesquisador foram analisadas, assim como as transcrições das entrevistas que foram codificadas e classificadas em categorias. Esses códigos e categorias foram baseados na classificação sugerida por Mariampolski (2006): comportamento, significados e instrumentos culturais. Para auxiliar essa análise, foi utilizado o programa Atlas/TI, pois ele possibilita a análise de uma grande quantidade de dados qualitativos. A TRIBO DO FUTEBOL AMERICANO NO RIO DE JANEIRO A cultura opera tanto no nível material quanto não material das experiências humanas, afetando as escolhas pessoais por meio das influências interpessoais e do universo simbólico do seu dia-a-dia (MARIAMPOLSKI, 2006). Assim, ao analisar as dimensões culturais da 5 tribo do Futebol Americano é possível entender os compromissos simbólicos e ritualísticos manifestados por seus membro (COVA; COVA, 2002). O Quadro 1 apresenta de forma resumida as evidências dos comportamentos, significados e instrumentos culturais identificadas no estudo etnográfico. Quadro 1 Evidências Culturais da Tribo do Futebol Americano no Rio de Janeiro Comportamentos Rituais Papéis Atividades Práticas Performances Jogos e diversões Símbolos Sinais Significados Linguagem Valores e crenças Atitudes e opiniões Instrumentos Interpretações Rituais de iniciação: trote para os novatos; Rituais Individuais e coletivos de concentração e aquecimento para o jogo; Rituais de iniciação das partidas com grito de guerra e execução do hino nacional; Rituais de Comemorações de boas jogadas durante a partida. Diversos papéis: fã, jogador, treinador, coordenador, dirigente, árbitro, narrador; com diferentes graus de senioridade: de veterano a novato. Preparação física que os jogadores fazem individualmente voltada para o melhor desempenho durante a partida e preparação técnica e tática, incluindo o estudo sobre estratégia de jogos que são televisionados (incluindo os norte-americanos). Algumas comemorações podem ser consideradas como performances porque são feitas exclusivamente com o intuíto de se exibir ou tentar passar uma imagem de bom jogador para terceiros. Os trotes nos novatos são brincadeiras dos veteranos com novatos e a reunião dos membros para jogar jogos de vídeo game de futebol americano ajudam os membros a se relacionarem. Objetos do jogo: Bola oval, capacete, uniforme, emblema, tinta preta sob os olhos; Símbolos que representam estratégia: jogo de xadrez e guerra. Sinais universais: dos árbitros para as marcações durante a partida Sinais exclusivos: gestuais e audibles entre técnicos e jogadores do time para identificar jogadas. Utilização de termos técnicos do esporte em inglês e utilização de apelidos entre os praticantes. Esporte democrático: adequado para vários tipos físicos de jogadores; Aceitação à diversidade socioeconômica; Auxílio a jogadores sem condições de arcar com deslocamento para os jogos. Equipamentos: importados são melhores do que os nacionais; Campo de Jogo: jogo na grama full pads é superior ao praticado na praia; Novatos: são o futuro dos times. Os membros da tribo associam o futebol americano ao xadrez ou à guerra em virtude da estratégia intrínseca presente nessas atividades. Emoções e sentimentos Amizade, sentimento de pertencimento ao grupo, desejo de reconhecimento, integração e competitividade. Relacionamentos O time a qual o membro da tribo faz parte ou torce influencia em suas atividades tanto com os membros do time quanto com os demais membros da tribo. Espaço Físico Campo de Jogo: time de praia adota um espaço “sagrado” e o time de grama tem ligação com estádios onde conquistaram resultados especiais. Espaços de congregação: onde assistem jogos pela TV Espaços virtuais: redes sociais, fóruns de discussão. Equipamentos necessários: capacete, shoulder pads, luva e chuteira. Tecnologia Regras Regras do futebol americano Código de conduta dos times: direitos e deveres que os integrantes Técnicas Preparação física Preparação tática e técnica 6 O estudo permitiu identificar evidências do comportamento cultural da tribo. Diversos rituais foram identificados. Um desses rituais é o grito de guerra. Acho que nesse momento todos os atletas deixam de se concentrar individualmente e se juntam ao time, cada um tem seu modo de preparação, mas nesse grito todos ficam juntos e começam a pensar como time. (Ramon Martire) Os rituais e tradições compartilhados pelos membros da tribo são processos sociais vitais para que a reprodução e transmissão do significado de uma comunidade ocorra (MUNIZ JR.; O'GUINN, 2001). No entanto, dentro de uma tribo, nem todos percebem esses rituais com tendo a mesma importância. Esse é um ritual que todos os times têm, na maioria. O grito de guerra eu acho que o objetivo dele é muito maior do que é executado, entendeu? Acho que poucos executam como deveriam. Ele perde muito o valor aqui. Se você perguntar se ele faz diferença. Eu diria que faria se fosse executado de outra forma, mas não acho que faz da forma que a gente executa. Acho que ninguém faz isso de dentro. Acho que é uma coisa mais um clichê do que um encorajador mesmo. (Fabio Buchner) Essas diferenças de interpretação podem ser explicadas pelo fato de as tribos serem efêmeras e não totalizantes. Outra característica das tribos é que os membros tem diferentes papéis e há um processo de socialização (COVA; COVA, 2002), isso porque, para a formação das tribos é necessário um processo de aprendizagem social (GOULDING; SHANKAR; CANNIFORD, 2013). No futebol americano, muitos times exigem que os novatos passem por um período de testes para se tornar um membro efetivo, assim como acontece com a comunidade da HarleyDavidson nos Estados Unidos (SCHOUTEN; MCALEXANDER, 1995). Mas também existem times em que o processo de inclusão é mais direta e só depende da aceitação dos outros membros, como no caso do Off-Road 4x4 (DALMORO, 2012). A importância da entrada dos novatos é reconhecida por todos devido ao processo necessário de renovação. No entanto, o membro novo entra no nível mais baixo da hierarquia da tribo por meio da experimentação e passa por um processo de socialização onde ele se aprofunda nos motivos e valores através da conformidade e imitação enquanto conquista o respeito dos pares (SCHOUTEN; MCALEXANDER, 1995). No Flamengo FA, por exemplo, há um ritual de iniciação sem roteiro pré-estabelecido, são brincadeiras aleatórias para facilitar a inclusão dos novatos no grupo. Por meio dessas atividades os rituais e tradições, importantes para a manutenção da comunidade, são compartilhados (MUNIZ JR.; O'GUINN, 2001). Contudo, essas manifestações culturais não estão presente somente no comportamento, muitas vezes ela é transferida para objetos (MARIAMPOLSKI, 2006). Esses rituais e tradições compartilhados podem ser observados também a partir dos símbolos, como a bola, o capacete e o shoulder pad (protetor para os ombros), No entanto, alguns desses significados não são visíveis para quem está de fora da tribo. Por exemplo, ao pedir que se escolhesse um símbolo que representasse a tribo, alguns membros apontaram um tabuleiro de xadrez. Isso demonstra o sentimento dos jogadores de que o futebol americano é visto como um esporte estratégico, acima de qualquer outro adjetivo. Essas manifestações são as conexões intrínsecas que identificam os membros entre si e os diferenciam de quem está fora da comunidade, ou seja, a consciência compartilhada (MUNIZ JR.; O'GUINN, 2001). Outro exemplo de significado cultural é o vocabulário próprio. Por se tratar de um esporte criado nos Estados Unidos, os termos relacionados ao esporte são utilizados em inglês. As pessoas que não entendem esses termos completamente são normalmente iniciantes ou vistos como inferiores por não entenderem muito sobre futebol americano. A linguagem própria é um um reconhecimento social como membro dessa tribo (CELSI; ROSE; LEIGH, 1993). Além do vocabulário próprio, outro aspecto da linguagem são os apelidos. Os jogadores de 7 Futebol Americano no Rio de Janeiro, na maioria das vezes, possuem apelidos e acabam ficando conhecidos no esporte por esse nome. Nem sempre os apelidos são apreciados pelas pessoas que as recebem. Os significados culturais incluem os valores e crenças. As tribos são formadas por pessoas de diferentes origens e experiências de vida que têm em comum algo que consideram especial e que aproxima as pessoas de diferentes classes sociais, raças e crenças (CELSI; ROSE; LEIGH, 1993). Alguns acreditam que o futebol americano evidencie ainda mais essa integração do que em outros esportes, isso porque, é um dos esportes mais democráticos, já que pessoas com diferentes perfis físicos podem integrar o time. OS DIFERENTES PAPÉIS NA TRIBO DO FUTEBOL AMERICANO Para analisar os papéis dos membros da tribo dos jogadores de futebol americano, foram utilizados os eixos da invisibilidade e da visibilidade sugeridos por Cova e Cova (2002). Eixo da invisibilidade O eixo da invisibilidade representa as evidências vindas do dia-a-dia da tribo, assim como as tendências e modas. Na parte superior do eixo estão os membros chamados simpatizantes que apreciam a tendência da tribo, esses membros se movem com as tendências e modas e têm um baixo envolvimento com a tribo. Enquanto que na parte inferior estão os praticantes que têm um envolvimento quase diário com as atividades da tribo (COVA; COVA, 2002). Para ser um membro da tribo do futebol americano uma pessoa precisa se interessar pelo esporte. Não é preciso ser um jogador de futebol americano ou estar efetivamente envolvido com a prática do esporte para pertencer à tribo. A pessoa pode ser um fã ou um torcedor, assim como no caso do Surfe em Portugal (MOUTINHO, DIONÍSIO e LEAL, 2007). O envolvimento com o futebol americano vai depender da seriedade com que esse jogador encara o esporte. Por ser um esporte novo no Brasil e não haver investimento em pesquisas nessa área, é difícil estabelecer um número de simpatizantes e praticantes. Além disso, uma vez que os indivíduos só se mantêm membros da tribo enquanto têm interesse nos rituais e nos objetos de culto, o número de membros está em constante mudança, não podendo ser totalizado (COVA; COVA, 2002). Imaginário A parte superior do eixo da invisibilidade é chamada de imaginário e nela estão os simpatizantes que são as pessoas que tem um interesse marginal pelo futebol americano, ou seja, não possuem um grande envolvimento com o esporte. Os simpatizantes são os membros da tribo que assistem, torcem, buscam informações ou praticam o futebol americano de maneira esporádica. Estes possuem diferentes níveis de interesse pelo o esporte. Assim como no caso do Surfe em Portugal (MOUTINHO, DIONÍSIO e LEAL, 2007), assistir futebol americano pode não ser a atividade preferida do simpatizante, mas uma das preferidas em que se reúne com outras pessoas, mesmo que virtualmente. Dois subgrupos da tribo podem ser identificados como tendo comportamento tipicamente de simpatizantes: os torcedores ocasionais e as pessoas que praticam o esporte por diversão esporadicamente, sem compromisso e sem fazer parte de um time. Tipicamente, os membros da tribo do futebol americano tiveram contato pela primeira vez com o esporte através de amigos ou pela televisão. Quando estes passam a se interessar pelo esporte, começam a assistir os jogos e procurar entender mais sobre as regras e a história do esporte. Quanto mais tempo e empenho voltados para o futebol americano, mais o membro conhece sobre o esporte. 8 Não simpatizava, mas agora simpatizo um pouco. Na verdade achava um esporte idiota, até conhecer. Conhecendo a galera que joga, comecei a entender melhor do que se tratava. Outra coisa que mudou um pouco minha percepção foi ver outras pessoas comentando os jogos no Facebook. (João Guilherme) A evidência acima ratifica a ideia de Cova e Cova (2002) de que a internet é uma importante ferramenta para ligar os membros da tribo e ajudar na realização de ações conjuntas sem os obstáculos de tempo e espaço. Isso porque, a internet é um ambiente virtual que ajuda os simpatizantes do esporte a interagirem. Esse contato pode acontecer por meio de fóruns, como o Redzone, ou por rede sociais como as páginas do Facebook do Torneio Touchdown e do Flamengo FA, por exemplo. Embora participem dos encontros virtuais, os simpatizantes tipicamente não estão presentes nos estádios. Isso pode ser explicado pelo baixo interesse no esporte, opção por outra atividade de lazer, má localização e baixa qualidade de infraestrutura dos estádios, horário inadequado e falta de divulgação. Sempre pensei em ir, mas acaba surgindo algo e deixo o jogo de lado. (...) [O que me] Afasta? Conhecer pouco. Não tendo ido nenhuma vez, acaba não sendo algo natural, como jogar uma pelada ou ir ao Maracanã, por exemplo. Imagino que essa primeira vez seria importante para ter uma ideia do que se trata. (João Guilherme Amorim) Foram identificados dois motivos principais que atraíram os simpatizantes para essa tribo: o convite de amigos e as transmissões dos jogos pela TV. O Futebol Americano no Rio de Janeiro começou com um grupo de amigos que se reuniam na praia para praticar o esporte e foi através do convite de amigos que a tribo cresceu. Independente de conhecer o esporte previamente ou não, eles foram levados por amigos a experimentar o futebol americano e acabaram se identificando. Um amigo me chamou para jogar na praia, na época ele estava reunindo gente para praticar esse "novo" esporte, apenas como uma brincadeira de final de semana. Não sabíamos que existia campeonato, e nem times no Brasil. (Daniel Prates) Já a TV funciona como divulgadora dos times, até mesmo nas transmissões dos jogos da Liga Norte-Americana, pois os comentaristas mencionam a existência de times brasileiros, despertando o interesse de alguns que procuram os times para jogar. Meu irmão conheceu de um garoto na escola que sabia que tinha um time na praia e a primeira coisa que a gente fez foi procurar um time de futebol americano na praia porque a gente sempre gostou, apesar de não assistir, mas a gente gostava, sabia que a gente tinha um tamanho pra tentar jogar, aí começamos a jogar. (Anselmo Brauer) Adicionalmente, o fato de alguns times tradicionais de futebol estarem patrocinando o futebol americano, pode estar contribuindo para o aumento da base de simpatizantes, em virtude do aumento da exposição na mídia, bem como pela apropriação da base de torcedores desses times. No Rio de Janeiro, três times de futebol americano de grama e um de praia têm parceria com clubes de futebol: Botafogo Mamutes (time de praia); Botafogo Mamutes, Vasco Patriotas e Flamengo FA (grama full pads). Conforme identificado, os motivos para os jogadores ingressarem na tribo do futebol americano estão de acordo com os achados de Celsi, Rose e Leigh (1993) que afirmam que o quê as pessoas escolhem como lazer ou estilo de vida depende de variáveis internas como predisposição, objetivos pessoais, estado psicológico e influências interpessoais e fatores externos resultantes da sociedade, cultura, mídia e mudanças tecnológicas. 9 Rotina Diária A parte inferior do eixo da invisibilidade é chamada de rotina diária e nela estão os praticantes que são os membros da tribo que possuem um nível de envolvimento elevado com o esporte, chegando a fazer parte do seu dia-a-dia. Assim, os jogadores chamados praticantes no conceito de Cova e Cova (2002) são os membros que treinam e competem por time, que vivem o futebol americano, que têm seu dia-a-dia influenciado pelo esporte. No entanto, não são apenas os jogadores que compõe o grupo dos praticantes, mas todos que se envolvem com uma frequência elevada, incluindo treinadores, dirigentes, árbitros e torcedores. Assim, para os praticantes, o futebol americano é a atividade central em suas vidas, principalmente para os que estão envolvidos com o dia-a-dia dos times, como jogadores, técnicos e dirigentes. Sendo um esporte amador, ninguém no Rio de Janeiro recebe algum tipo de remuneração dos times de futebol americano. Os praticantes estudam e/ou possuem empregos para sustentar suas famílias. O tempo que destinam ao futebol americano é o tempo livre das obrigações de estudantes e/ou profissionais. Quanto mais envolvidos com o esporte, mais horas de seus dias são gastas com o futebol americano, seja treinando, estudando o esporte, analisando jogadas, assistindo jogos, administrando seus times e cuidando da preparação física. O Futebol Americano ocupa bastante tempo no meu dia a dia. Dificilmente eu passo um dia sem ver, fazer ou pensar algo sobre futebol americano. O futebol americano fora da minha vida hoje é uma coisa impensável pra mim. (Loan Felisardo) O tempo livre do trabalho que os membros da tribo têm para descansar e ficar com a família é o mesmo que eles utilizam para treinar e jogar futebol americano. Em muitas situações eles precisam escolher a que vão dar preferência, pois os compromissos esportivos, pessoais e profissionais são conflitantes. O membro da tribo sabe que isso não é o fator mais importante da sua vida (BURGH-WOODMAN; BRACE-GOVAN, 2007), todavia, não chega a ser comum ou banal (MUNIZ JR.; O'GUINN, 2001). Alguns praticantes conseguem unir a paixão pelo futebol americano com o trabalho. Anos de estudo e vivência dentro do esporte fizeram com que negócios fossem criados tendo o futebol americano como propulsor, com profissionais agregando valor aos seus trabalhos com a experiência adquirida e a rede de contatos funcionando para gerar negócios entre os atletas. O Treino do Sapo é um exemplo de negócio criado a partir dos conhecimentos do fundador com o futebol americano. Criado pelo professor de educação física Bruno Rosa, o Treino do Sapo é uma aula de preparação física na praia voltada para o público em geral, baseada nos exercícios utilizados nos treinos de futebol americano. Foram observados praticantes, com o alto nível de envolvimento, que acumulam mais de uma função dentro dos times de futebol americano no Rio de Janeiro. São jogadores, coordenadores, técnicos e dirigentes que se comprometem a assumir mais de uma função. Isso demanda tempo deles sem nenhuma compensação financeira, apenas satisfação pessoal. Acabei tendo um envolvimento muito maior do que só de jogador. Passei três ou quatro anos (...) no Falcões onde fui capitão de defesa, coordenador de defesa e cheguei a presidir o time. (Fábio Buchner) Eixo da visibilidade O eixo da visibilidade apresenta as evidências físicas da tribo - temporais e espaciais. As evidências temporais, apresentadas no lado esquerdo do eixo, representam as ocasiões informais dos membros, que são chamados de participantes. No lado direito do eixo, encontram-se as evidências espaciais, os espaços de encontro virtuais e físicos, as instituições formais que reúnem os membros classificados como adeptos (COVA; COVA, 2002). 10 Ocasiões As evidências temporais são chamadas de ocasiões, elas têm caráter informal e as pessoas envolvidas são chamadas de participantes (COVA; COVA, 2002). Essas reuniões não são necessariamente para a prática do futebol americano, mas são relacionadas a ele. A ocasião mais comum é quando os participantes se reúnem na casa de alguém ou em um restaurante para assistir a um jogo da NFL (Liga Norte Americana de Futebol). Nessas ocasiões, os participantes tipicamente estão vestindo algum produto relacionado ao esporte como, por exemplo, camisas e bonés. As ocasiões de reunião são ligadas também às rotinas dos jogadores. No Falcões, time de futebol americano de praia, se tornou hábito sair dos treinos de domingo e ir para um bar próximo beber, conversar, assistir jogos de futebol e fazer churrasco. O clima mais descontraído e com menos cobrança faz com que, algumas vezes, o treino acabe antes do horário estipulado porque muitos querem ir para o bar, principalmente em dias de clássico carioca de futebol. Essas ocasiões, no entanto, extrapolam os ambientes de jogos, com a ligação que eles desenvolvem se estendendo para as vidas pessoais. É comum que as esposas, filhos, namoradas e os pais sejam conhecidos pelos outros jogadores do time. Eles costumam se encontrar em diversas situações e incluir familiares e pessoas de outros círculos de amizade nos programas que vão desde: almoço, praia, ao teatro, restaurantes, bar, boate, viagens e etc. Esse tipo de relação pessoal estreita os laços de amizade e faz com que os jogadores não queiram parar de jogar ou trocar de time. Um exemplo de ocasião onde se pode verificar o envolvimento dos jogadores com o futebol americano é no casamento de alguns deles. Quando há uma festa de casamento é comum que companheiros ou ex-companheiros de time sejam padrinhos na cerimônia. Um fato expressivo é a customização dos bonecos do noivo no bolo de casamento, que na maioria das vezes está segurando uma bola oval e um capacete de futebol americano. Instituições As evidências espaciais das tribos são chamadas de instituições. Elas têm caráter formal e as pessoas envolvidas são os adeptos ou devotos (COVA; COVA, 2002). As reuniões se tornam formais quando associações ou facções estão envolvidas na organização. Neste estudo entendem-se como associações ou facções, os times de futebol americano, federações, confederações ou ligas independentes, incluindo os treinos dos times e seus jogos. As instituições mais formais do Futebol Americano são as federações e confederações, que muitas vezes organizam os campeonatos. No Rio de Janeiro, existe a Federação de Futebol Americano do Rio de Janeiro (FeFARJ), fundada em 2010, que é responsável pelas três categorias do esporte no estado: full pads, beach football e flag football, tanto nas categorias masculinas quanto femininas. Já a Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA) é a principal instituição do futebol americano no Brasil. Ela é responsável pelo Campeonato Brasileiro de Futebol Americano, o Campeonato Sub-19 de Seleções Estaduais, o Campeonato Brasileiro de Flag Feminino e pelas seleções brasileiras masculina adulta, sub-19 e feminina de full pads e flag football. Já os times de futebol americano são as instituições mais básicas do esporte. Um time consiste em jogadores organizados praticando futebol americano. Cada time, além dos jogadores, possui um nome, um emblema ou escudo, cores oficiais, uniforme, um presidente e os diretores que ajudam na organização. Existem times masculinos adultos, júniores e femininos. Cada time conta, em média, com 40 jogadores no elenco, podendo chegar a 80. Nem todos os 11 times participam de campeonatos, pois alguns ainda estão se estruturando e não se sentem preparados para enfrentar uma competição. Esses times mantém uma rotina de treinos, onde os jogadores se reúnem para praticar o futebol americano visando a disputa de jogos e campeonatos. O seguinte extrato das notas de campo descreve um dos treinos do Fluminense Imperadores (atual Flamengo FA) que aconteceu em 2012. Mais perto do início do treino, os jogadores colocavam suas roupas de treino e chuteira. Os que se arrumavam primeiro começavam a brincar de arremessar a bola um para o outro. Tudo em clima de descontração. O treino começava com o aquecimento que era liderado por algum dos jogadores formados em educação física. (...) Depois do aquecimento os jogadores eram divididos por suas posições e faziam treinos específicos. Cada posição possui um coordenador que elabora os treinos específicos junto com o técnico de defesa e o técnico principal (...).Depois dos treinos específicos os jogadores de diferentes posições vão se juntando para um ajudar no treinamento do outro.(...) Há uma rivalidade saudável entre ataque e defesa, onde um quer ganhar do outro em todos os treinos, mas sempre lembrando que eles são do mesmo time Fluminense Imperadores para que ninguém corra o risco de se machucar por causa de um contato mais forte. No entanto, o evento principal dessa tribo é o dia de um jogo de campeonato. Todos os treinos, horas de estudo do playbook, preparação física, musculação, fisioterapia, dinheiro gasto e estresse familiar são direcionados para esses dias especiais, mais especificamente, para essas mais ou menos três horas que duram os jogos. O time que tem o mando de campo precisa preparar o campo para que o jogo aconteça, sendo a diretoria e os jogadores responsáveis por preparar o campo – medição, marcações são feitas com cal e montagem dos field goals com barras de ferro ou canos de PVC amarrados às traves de futebol já existentes nos campos. Normalmente essas tarefas são designadas para os novatos e alguns veteranos supervisionam. Os jogos são momentos de congraçamento, com o comparecimento de parentes, amigos e até jogadores de outros times. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS A partir da descrição do grupo de indivíduos envolvidos com Futebol Americano no Rio de Janeiro, pode-se observar que esse grupo apresenta características que o qualificam como uma tribo pós-moderna, segundo o conceito apresentado por Cova e Cova (2002), uma vez que pode-se perceber que essas pessoas compartilham emoções e a paixão pelo esporte e que existem compromissos simbólicos e ritualísticos manifestados por seus membros. O estudo permitiu observar que quando uma tribo é formada a partir da prática de uma atividade esportiva, ela carrega os comportamentos, significados e instrumentos dessa prática esportiva para dentro da tribo, se apropriando dos símbolos, rituais, comportamentos, instrumentos dessa prática para formar os rituais e tradições dessa tribo. As regras do jogo, por exemplo, acabam servindo como regras de conduta dentro da tribo. Os membros utilizam o capacete, a bola, a camisa para se manifestarem como membros dessa tribo, chegando a utilizar referência a tais elementos mesmo em situações diferentes como suas festas de casamento. Assim como identificado na literatura (COVA; COVA, 2002; MUNIZ JR.; O'GUINN, 2001), os membros das comunidades de consumo utilizam essas manifestações culturais não só para se diferenciarem dos não membros, como para construírem uma identidade que os une. Uma contribuição do presente estudo reside na identificação dos quatro papéis sugeridos no modelo do Trevo Tribal proposto por Cova e Cova (2002). Esse modelo foi imaginado para tribos – como dos patins roller analisados no estudo dos autores – em que os membros 12 atuavam da mesma forma na tribo, ou seja, todos eram patinadores. No entanto, os membros de uma tribo podem atuar de diferentes formas: como jogadores, técnicos, árbitros e torcedores, o que oferece uma dificuldade na utilização do modelo. Por exemplo, os simpatizantes não são somente os torcedores, e os praticantes, os jogadores, como uma reflexão mais superficial poderia sugerir. A partir do estudo empírico e da reflexão sobre o estudo apresentado por Cova e Cova (2002) pode-se concluir que o eixo vertical mede o nível de envolvimento que o membro tem com a tribo. Na parte superior do eixo, encontram-se os membros com baixo nível de envolvimento, chamados de simpatizantes, e na parte inferior do eixo encontram-se os membros com alto envolvimento, chamados de os praticantes. Já o eixo horizontal mede o nível de formalidade das ocasiões e momentos em que os membros se encontram. Na parte da esquerda do eixo estão os encontros informais, onde podem ser identificados os participantes, e na parte da direita do eixo estão os encontros formais, onde podem ser identificados os adeptos. A Figura 1 mostra o modelo do Trevo Tribal, conforme apresentado originalmente pelos autores, bem como os eixos correspondentes de envolvimento e formalidade, usados no presente estudo. Nível de envolvimento Baixo Nível de formalidade Baixa Alta Alto Trevo Tribal – Cova e Cova (2002) Interpretação sobre os eixos do Trevo Tribal Figura 1 Trevo Tribal e eixos correspondentes Percebe-se que os eixos (nível de envolvimento e nível de formalidade) mensuram dimensões distintas e até certo ponto independentes. Assim, a categorização de um indivíduo em um papel específico (simpatizante, praticante, participante e adepto) se transforma em tarefa difícil e às vezes inexequível, pois o mesmo indivíduo pode em algumas ocasiões ser categorizado como participante, quando se encontra com os amigos para assistir à jogos pela TV, ou como adepto, quando está atuando como jogador em uma partida de campeonato. Dessa forma, por meio dos eixos correspondentes de envolvimento e formalidade, o presente estudo pretende oferecer uma contribuição adicional à operacionalização do modelo do Trevo Tribal proposto por Cova e Cova (2002) Implicações Gerenciais A literatura sobre tribos a caracteriza como efêmera, instável, pequena e afetiva (COVA; COVA, 2002). O que parece ser exatamente o caso da tribo de Futebol Americano no contexto brasileiro. Então, sob o ponto de vista gerencial, isso apresenta um desafio expressivo para o marketing esportivo, ou seja: Como o Futebol Americano poderia transpor essa barreira de tribo e se tornar em uma modalidade esportiva de expressão nacional? 13 Não há uma resposta fácil para essa pergunta, ainda mais no contexto brasileiro, onde os patrocinadores esportivos tipicamente só demonstram interesse por esportes capazes de gerar alta visibilidade para suas marcas, o que, definitivamente, não é o atual caso do Futebol Americano no Brasil. A partir desse estudo empírico, é possível perceber que o a introdução de um membro na tribo se dá tipicamente na condição de simpatizante. Com a maior exposição à tribo, o nível de envolvimento de alguns membros aumenta, e esses se tornam praticantes. O aumento do número de praticantes, por sua vez, fortalece as instituições, o que potencializa o interesse da mídia e, por consequência, dos patrocinadores. Com as instituições fortalecidas e tendo obtido destaque na mídia, o número de simpatizantes tende a aumentar, pois uma maior quantidade de pessoas será exposta ao esporte, podendo desenvolver um interesse por ele. Esse ciclo está representado no círculo interno da Figura 2. No entanto, também se pode observar o círculo externo, de feedback. O aumento no número de simpatizantes, atrai mais investimento por parte das instituições, devido ao aumento da base de potenciais consumidores e pelo aumento da visibilidade da modalidade esportiva. Com isso, o esporte se torna mais atrativo para os praticantes, pois esses podem ser remunerados ou premiados de diversas formas. Por fim, o aumento do número de praticantes acaba por fortalecer a atratividade dos eventos esportivos, aumentando o número de simpatizantes. Simpatizantes Praticantes Instituições Figura 2 Ciclo de desenvolvimento de uma modalidade esportiva Esse modelo de desenvolvimento pode ajudar a explicar também o movimento que vem acontecendo recentemente com o Rugbi no Brasil. Até 2010, a trajetória do esporte no país era muito parecida com a do Futebol Americano. A modalidade atraia um nicho, normalmente formado por indivíduos que tiveram contato prévio com o esporte ao morarem fora do Brasil. De forma similar ao que ocorre com os jogadores do Futebol Americano, os jogadores do Rugbi tipicamente arcavam com todas as despesas para jogarem nos eventos esportivos. No entanto, a coincidência da inclusão do Rugbi nos Jogos Olímpicos, com sede no Brasil em 2016, despertou, nas empresas que apoiam esse esporte em outros países, o interesse por patrocinar a modalidade no Brasil. Com isso, estima-se que a captação de recursos de patrocínio, que em 2010 foi de apenas R$ 30 mil, venha a ser de R$ 17 milhões em 2014, com o número de empresas patrocinadoras saltando de 3 para 17 (FRANÇA, 2014). Se o investimento esperado para 2014 se concretizar e se ampliar nos anos subsequentes, o fator “Instituições” promoverá uma mudança substancial no ciclo de desenvolvimento dessa 14 modalidade, alavancando novos “Praticantes” e “Simpatizantes”, que proporcionarão o retorno dos investimentos dos patrocinadores, criando um círculo virtuoso, conforme demonstra a Figura 2. A pergunta formulada nessa seção, portanto, resta sem resposta para o Futebol Americano no Brasil, mas pode ser reformulada nos seguintes termos: Que ações poderiam (deveriam) ser realizadas junto às Instituições de forma a impulsionar os investimentos necessários para fazer rodar o círculo virtuoso supra descrito? Implicações para Políticas Públicas O Brasil dispõe de mecanismos públicos de incentivo ao esporte. Todavia, sempre surge a questão relativa à se esses mecanismos estariam sendo direcionados corretamente. Os programas de incentivo ao esporte oferecem apoio aos simpatizantes, aos praticantes e às instituições. Os apoios aos simpatizantes são tipicamente direcionados a projetos que alcançam as crianças e as escolas, incentivando diferentes práticas esportivas. Em relação aos praticantes, esse apoio aparece em forma de incentivo à atletas de alta performance. Por fim, o apoio às instituições aparece em forma de repasse, por exemplo, para que clubes, federações e confederações desenvolvam seus eventos esportivos. Alguns dos incentivos tomam a forma de renúncia fiscal, especialmente quando estimulam o investimento privado no esporte. Ocorre que boa parte dos recursos são canalizados para modalidades esportivas que já atingiram certo grau de maturidade e, por isso mesmo, capturam a atenção da iniciativa privada, que busca via de regra a visibilidade proporcionada pelo patrocínio esportivo. Em outros termos, uma modalidade esportiva madura não deveria drenar os recursos públicos, pois essa deveria ser capaz de se sustentar com os recursos gerados pela atividade em si e aqueles oriundos dos patrocinadores que exploram sua maior visibilidade. Ocorre, portanto, que o círculo virtuoso não funciona para aquelas modalidades que ainda não atingiram um patamar de visibilidade atrativo para a iniciativa dos patrocinadores. Assim, o presente estudo aponta para a necessidade de políticas públicas que tenham como objetivo proporcionar uma plataforma para atrair simpatizantes e praticantes para modalidades esportivas que ainda não atingiram seu potencial de forma a garantir que alcancem um nível de visibilidade que as torne atrativas para as instituições privadas patrocinadoras. Tomando como referência o modelo do Trevo Tribal de Cova e Cova (2002), as iniciativas públicas deveriam tornar visível (trazer para o eixo da visibilidade) aquilo que ainda está invisível, ou seja, as tendências dos simpatizantes. REFERÊNCIAS A.T. KEARNEY. The Sports Market. [S.l.], 2011. ARNOULD, E. J.; THOMPSON, C. J. Consumer Culture Theory (CCT): Twenty Years of Research. Journal of Consumer Research. v. 31, n. 4, p. 868-882, 2005. BURGH-WOODMAN, H. D.; BRACE-GOVAN, J. We do not live to buy: Why subcultures are different from brand communities and the meaning for marketing discourse v. 27, n. 5/6, p. 193 - 207, 2007. CANNIFORD, R. A Typology of Consumption Communities. In: BELK, R. W., et al. Research in Consumer Behavior. [S.l.]: Emerald Group Publishing Limited, v. 13, 2011. p. 57-75. 15 CELSI, R. L.; ROSE, R. L.; LEIGH, T. W. An Exploration of High-Risk Leisure Consumption through Skydiving. Journal of Consumer Research. v. 20, n. 1, p. 1 - 23, 1993. COVA, B. Community and consumption: towards a definition of the "linking value" of product or services. European Journal of Marketing. v. 31, n. 3/4, p. 297 - 316, 1997. COVA, B.; COVA, V. Tribal Marketing: the tribalisation of society and its impact on the conduct of marketing. European Journal of Marketing. v. 36, n. 5/6, p. 595-620, 2002. COVA, B.; COVA, V. Tribal marketing: the tribalization of society and its impact on the conduct of marketing. European Journal of Marketing. v. 36, n. 5, p. 595-620, 2002. DALMORO, M. 4x4=.Uma Análise da Cultura de Consumo Off-road. Encontro de Marketing da ANPAD. Curitiba, Maio/2012. DELLOITE. Muito além do futebol: Estudo sobre esportes no Brasil. [S.l.], 2011. GOULDING, C.; SHANKAR, A.; CANNIFORD, R. Learning to be tribal: facilitating the formation of consumer tribes. European Journal of Marketing. v. 47, n. 5/6, p. 813-832, 2013. HARRIS INTERACTIVE. Football is America’s Favorite Sport as Lead Over Baseball Continues to Grow. [S.l.], 2012. KARSAKLIAN, E. Comportamento do Consumidor. 2. São Paulo: Atlas, 2004. MAFFESOLI, M. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. 3. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. MARIAMPOLSKI, H. Ethnography for marketers: A guide to consumer immersion. Thousand Oaks: Sage Publications, 2006. MOUTINHO, L.; DIONÍSIO, P.; LEAL, C. Surf tribal behavior: a sports marketing application. Marketing Intelligence & Planning., 2007. 668-690. MUNIZ JR., A. M.; O'GUINN, T. C. Brand Community. Journal of Consumer Research. v. 27, n. 4, p. 412-432, 2001. REVISTA EXAME. O rugbi virou negócio. Revista Exame. v. Ano 48, n. 1058, p. 96 - 98, 2014. ROCHA, E.; BARROS, C. Dimensões Culturais do Marketing: teoria antropológica, etnografia e comportamento do consumidor. Revista de Administração de Empresas. v. 46, n. 4, p. 36 - 47, 2006. SCHAU, H. J.; MUÑIZ JR., A. M.; ARNOULD, E. J. How Brand Community Practices Create Value. Journal of Marketing. v. 73, n. September, p. 30–51, 2009. SCHOUTEN, J. W.; MCALEXANDER, J. H. Subcultures of Consumption: An Ethnography of the New Bikers. Journal of Consumer Research. v. 22, n. 1, p. 43 - 61, 1995. 16