POR QUE O BRASIL É O PAÍS DO FUTEBOL?
DEIBSON FERNANDO DA SILVA1
FRANCISCO XAVIER DOS SANTOS2
DISCENTE DA UFPE1
DOUTORANDO SOCIOLOGIA PELA UFPE E DOCENTE DA UFPE2
[email protected]
Resumo
Este estudo versa sobre a temática do futebol, mais especificamente, toca questões relativas à
difusão do futebol como fenômeno social no cotidiano do povo brasileiro como atesta Lever
(1983). O mesmo visa abordar a importância exercida pelo futebol, enquanto elemento cultural
que atinge a sociedade brasileira, destacando a contribuição deste esporte na construção da
identidade nacional e aspectos que dão conta de ser o “Brasil o país do futebol”. Trata-se de
uma revisão de literatura em que nos valemos de artigos e livros que tratam do tema em
questão. É sabido por todos nós que o futebol até a década de 1910 não tinha grande impacto
no Brasil, mas, que nos anos 20 apresentou um rápido crescimento – como é apontado por
autores como Mario Filho (2003), só para citarmos algum – e muitas vezes utilizado como
forma de expressão de comportamento das emoções para nossa sociedade em geral. O Brasil
como todos sabem é o maior ganhador de copas do mundo, detentor de 5 títulos, além de ter
produzido o melhor jogador de todos os tempos “O Rei Pelé” e único país a participar de todas
as Copas. Por essas e outras questões, que inicialmente podemos constatar em nossa
exploração foi que esse esporte parece ter contribuído – sobretudo, nos tempos iniciais de sua
difusão - para construção da identidade de nós brasileiros, pois quase sempre esteve atrelado
ao contexto pelo qual nossa sociedade estava impregnada.
Palavras Chave: futebol, fenômeno social e identidade nacional.
Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013
Abstract
This study focuses on the theme of football, more specifically, issues related to diffusion plays
football as a social phenomenon in the daily life of the Brazilian people as evidenced by Lever
(1982). It aims to address the importance exerted by football, while cultural element that affects
Brazilian society, highlighting the contribution of sport in the construction of national identity and
aspects that account of being the "Brazil the country of football." This is a literature review in
which we make use of articles and books dealing with the topic in question.
Key Words: football, national identity and social phenomenon.
Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013
Introdução
É bastante difundida a ideia de que o Futebol chegou ao Brasil em 1894, através de
Charles Miller grande pioneiro desse esporte que arrasta multidões por todo país (NETO, 2002,
p.27). Desde seu desembarque em nosso país esse esporte de origem inglesa apresentou um
grande impacto nacional, influenciando o povo brasileiro no comportamento social, no gosto
pelo esporte e na prática específica. Nestes termos Toledo diz que
“A terra é plana e chã’. Excelente, portanto, para a prática do futebol”. Sentenciava um
cronista paulistano em meados dos anos 40, recorrendo, jocosamente, à conhecida e
emblemática carta de Pero Vaz de Caminha para explicar a origem de nossa afinidade
natural com a prática do futebol (TOLEDO, 2000, p.07).
Por essas e outras questões, é possível afirmar que o futebol brasileiro finda por se
constituir ao longo do século XX como um dos símbolos de identidade nacional, processo
caracterizado por um conjunto de aspectos – por exemplo, a necessidade de projeção da
imagem de país em desenvolvimento - que estimulou tal condição (SILVA, 2010, p.53). Neste
sentido, Damatta (apud RINALDI, 2000, p. 167) afirma que “[...] esse esporte expressa a
sociedade brasileira, devendo, portanto, ter seu espaço assegurado” em nossa cultura. E
nessa conjuntura a figura dos jogadores brasileiros vai cooperar para difusão de uma imagem
que ganha espaço, em parte, pela maneira criativa que remete a ideia de sermos os “melhores”
com a bola no pé. Logo, a criatividade pode ser “explicada” pelo fato de o brasileiro ser visto
como povo uma imaginação fértil e Milan (1998, p.13) diz que “o estilo do nosso jogo é o de um
povo que se entrega à imaginação porque vê nela uma saída” para seu dilemas. Noutros
termos, parafraseando Freyre (1971) dançamos com a bola.
Mudanças na trajetória deste esporte ocorrem e neste aspecto, “quando o futebol se
tornou global, passou a ser um campo de disputa política” conforme Gurteman (2009, p.10). E,
enquanto meta de nação, nos parece que “ter o ‘melhor futebol do mundo’ virou uma obsessão
brasileira, perseguida como um projeto de afirmação nacional” (GURTEMAN, 2009, p.10).
Talvez, essa busca excessiva implique em práticas e comportamentos que em alguns casos
revelam um extremo do processo é sobre este ponto Bellos (2003) relata que vivemos num
país de contraste de ações que reverberam na “mania” chamada futebol. Diz o nosso autor que
é comum em nosso cotidiano depararmo-nos desde agentes funerários que oferecem caixões
com o escudo dos clubes, plataformas marítimas de petróleo equipadas com campos de
futebol-soçaite e o clube de futebol se constituir num trampolim para um cargo parlamentar, ou
seja, por onde andamos os traços do futebol estão impressos. Para Bellos (2003), uma das
melhores formas de se inserir na sociedade brasileira, é acompanhando o futebol nacional.
Sobre a questão em foco, Henry faz uma comparação de como esse esporte foi tratado
em alguns países referente ao contexto em que a sociedade vivenciava, e como o Brasil tratou
esse esporte. Segundo o autor
A seleção alemã joga como o estado-maior se preparava para a guerra. Jogadas
meticulosamente planejadas, homens treinadíssimos para o ataque e a defesa, tendo
considerado tudo o que era humanamente previsível. Já a seleção italiana procura economizar energia para a tarefa decisiva e forçar o adversário a abrir mão da tática
planejada. Daí ser defensiva, além de demolidora. O Brasil se caracteriza, em
contrapartida, pelos jogadores mais acrobáticos do mundo, capazes até de esquecer que
o objetivo do jogo é marcar gols, convencidos de que a virtude sem alegria é uma
contradição; individualistas, porém dispostos aos ajustes práticos necessários a um
desempenho eficiente Henry (apud MILAN, 1998, p.19).
Pode-se inferir que em vários países o futebol foi utilizado como forma de intervenção
política, para futuras disputas. Assim comentar Sevcenko, em relação ao Brasil
Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013
[...] que, a partir de Washington Luis, que se dizia “governador-desportista”, os líderes
políticos foram aprendendo a estimular e tentar tirar proveito desses momentos de
catarse e união nacional espontânea- foi assim em 1920 quando a seleção brasileira foi
campeã da sul-americana- procurando convertê-los em legitimação emocional de seus
próprios projetos políticos (SEVCENKO 1994, p.36-37).
De acordo com o contexto em que a sociedade vivenciava, a prática desse esporte era o
meio de mostrar, se o país era forte perante o outro. De fato, esse esporte que tomou uma
proporção enorme em nosso meio ao ponto de por diversos momentos haver intervenção dos
políticos com interesses diversos sobre tal fenômeno de massa. Assim foi na década de 30
com o “Estado Novo” e de 60 com o “Regime Militar”.
Embora possa se levantar diversas situações como a que cogitamos acima do poder de
penetração de futebol em espaços sociais diversos, como, por exemplo, do poder político, são
por fatos como estes que nos levam a conjecturar a perspectiva de o Brasil ser visto como o
País do futebol. Bellos neste aspecto ressalta que:
A seleção canarinho, como todos sabem, venceu mais Copas do Mundo que qualquer
outra. O país ainda produziu Pelé. O melhor jogador de todos os tempos. Mais do que
isso, os brasileiros inventaram um estilo exuberante e requintado que estabeleceu um
padrão inatingível para o resto do mundo. Os britânicos o chamam de “beautiful game”.
Os brasileiros de “futebol-arte” (BELLOS, 2003, p.09).
A fim de coadunar com a nossa indagação inicial destacamos alguns fatos que realçam
o “status” da preferência brasileira pelo futebol e, por conseguinte, da questão de sermos ou
não o país do futebol. Basta lembra que além de ter a única seleção que participou de todas as
copas, e ter o maior artilheiro de todas as Copas, Ronaldo com 15 gols, essas e outras
façanhas servem para responder nossa questão e também abarcar o nosso objetivo posto.
Ora se os argumentos acima não forem suficientes, também trazemos a memória que no
ano em que ocorre a copa do mundo toda a nação brasileira se envolve como se fôssemos um
só. Durante a Copa do Mundo, sempre há uma movimentação e um interesse pelo evento que
atinge significativos segmentos sociais: imprensa, trabalhadores do campo e da cidade,
estudantes, professores, profissionais liberais. Enfim, a nação “calça as chuteiras” (SILVA,
2010, p. 53).
Vale ainda mencionar que o futebol apresentou uma rápida ascensão e que o povo
brasileiro acreditava que “torcer pelo êxito do futebol brasileiro remetia à idéia de se envolver
no sucesso da própria nação” (SILVA, 2010, p.55). Pensando neste aspecto, Negreiros (2003,
p.122) afirma que “[...] um clima de unidade nacional é forjado, não deixando imune sequer
aqueles que não gostam desse esporte”. E se pararmos para pensar, qual o impacto que o
futebol teve nos anos iniciais para a construção da identidade nacional? Como é tratado o
futebol no Brasil nos dias atuais? Como um Esporte, um jogo, um espetáculo? Esses e outros
questionamentos surgem no texto e de algum modo tentamos elucidar questões que não
esgotam o tema, mas deixa entrever a condição que tal esporte ocupa na representação social
brasileira.
Objetivo
O presente estudo tem como objetivo principal, apontar alguns fatos que ponderam
sobre a condição do Brasil ser visto, ainda hoje por muitos, como o país do futebol e ainda
ressaltar a contribuição do mesmo para construção da identidade de um povo.
Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013
Metodologia
Este estudo é resultado de uma breve pesquisa de revisão, feita a partir de fontes
bibliográficas que estão apontadas em nossas referências, sendo assim um trabalho de
natureza qualitativa. Em nossa empreitada nos debruçamos sobre uma literatura que trata do
tema em questão, buscando, entre, outras coisas, pensar sobre o quanto esse esporte
contribui para a construção da identidade nacional.
Os artigos e livros utilizados foram encontrados através de bibliografias citadas em livros
(ou capítulos de livros) referentes à esfera do fenômeno futebol. A literatura impressa (artigo,
dissertações e livros) foi pesquisada em revistas cientificas, através de busca na internet (estão
disponíveis nas bases de dados, Scielo e GOOGLE ACADÊMICO).
Resultados
Hoje o futebol é praticado em cinco continentes do mundo (Ásia, África, América, Europa
e Oceania). É um esporte diferenciado pela sua facilidade em unir pessoas de diferentes
etnias. Não foi diferente no Brasil, como relata Franzini (2003), que a despeito de seu forte
sotaque britânico, o futebol unia o país e proporcionava a vivida manifestação popular do
orgulho Patriótico. Mas, vale lembrar que na chegada ao Brasil o futebol ficou restrito a
pessoas com o alto poder aquisitivo. À medida que o tempo passava, o futebol foi se difundindo
por todo o país, e logo seria uma pratica comum vê os pobres jogando nas “várzeas”. Assim
Daolio (2000) diz que, o futebol brasileiro alcançou um considerado sucesso nacional,
escapando ao controle de dirigentes de clubes, diretores de escolas estrangeiras e dos donos
de fábricas para ser praticado nas praias, campo de várzea, enfim por todo o país. Com há
rápido difusão os estádios de futebol começaram a lotar de pessoas, a fim de apreciar esse
espetáculo. Neste termo Sevcenko (1994) escreve que num estádio ninguém mais é João ou
José, pedreiro ou historiador, com contas a pagar, briga na família ou disputa com o
empregador. No estádio, pela transmissão e repercussão da mídia, uma nação surge, vibra e
luta por noventa minutos, mais descontos. Com o rápido crescimento o futebol sendo um
fenômeno social, de natureza e funcionamentos simbólicos integrado na realidade social
concreta, é capaz de todos os investimentos sociais e pode representar simbolicamente a
sociedade, tanto no seu funcionamento global, como nas suas vertentes diversas (KRAUSER,
2010, p.08). Para a sociedade brasileira o futebol representa um símbolo muito importante. Foi
assim, no “Estado Novo”, na “Ditadura Militar”, entre muitas outras manifestações do povo
brasileiro em frente aos governantes brasileiros. Podemos apontar fatos ocorridos nas Copas
de 50, 58, 62 e 70 como contribuição para a construção da sociedade brasileira, e sem dúvidas
para expressão dos sentimentos, do povo brasileiro, que sofria com as derrotas e vibrava com
as vitórias.
Entre as muitas coisas possíveis de apontar em nossa revisão, ao menos é de se
destacar a condição e o lugar que o futebol ocupa na vida cotidiana do brasileiro. É quase
impossível, não dormimos e acordamos imerso na discussão que envolve futebol e paixão
nacional. Lever (1993) diz e com ele concordamos que o futebol é um espelho de nosso tempo.
Embora, não possamos afirmar contundentemente que o Brasil é o país do futebol, também,
não podemos desconsiderar que ele é parte da vida de nosso povo e, portanto, habita o dia-adia de todos nós. Então devido a todos esses fatos, o artigo é importante para a sociedade
perceber que o futebol fez e faz parte de nossas vidas. Sua contribuição para a construção da
Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013
identidade nacional foi enorme, desde sua chegada ao Brasil, até os dias atuais. Então não se
deve menosprezar ou descartar a sua contribuição para o povo brasileiro.
Conclusão
Como foi abordado no estudo, o futebol brasileiro é sem dúvidas o melhor do mundo.
Após seu penta campeonato mundial conquistado em (1958-1962-1970-1994) 2002, tornou-se
o país com o maior número de conquistas mundiais, além de ser o local de origem do “Rei
Pelé” e única seleção com participação em todas as copas. Mas é importante ressaltar o
quanto esse esporte contribuiu para a construção da identidade do povo brasileiro. Como
escreve Capraro, Santos e Lise (2012, p.02) dizendo que, no “final da década de 1950, o
futebol já se encontrava devidamente inscrito como elemento central da cultura brasileira,
assumindo um papel de agente afirmador da identidade nacional”. Um fato que pode explicar
essa contribuição e a paixão dos brasileiros por esse esporte é o acontecimento de 1950, que
ficou conhecido como “maracanaço”. Segundo Gurteman (2009) o Brasil até então país sede
da Copa do Mundo, chegou à final contra o Uruguai, e pela campanha invejável a Seleção
brasileira jogava pelo empate. Um dia antes da final os jornais já indicavam a vitória do Brasil.
Fato que se consumava até os 21 do segundo tempo, quando o Brasil já ganhava por 1 x 0,
mas a seleção uruguaia não desistiu e conseguiu uma virada heróica contra a seleção
brasileira. O silencio imperou no maracanã, estimula que cerca de 200 mil pessoas estavam no
estádio. No dia seguinte o Brasil estava de luto, o povo brasileiro sofria com aquela derrota.
Witter (2003, p.165) relata que “nunca se viu comoção maior que aquela, só comparável com a
da morte de Getúlio Vargas”, já Capraro, Santos e Lise (2012) comenta que , a “tragédia”
derrota do selecionado nacional em 50 foi à maior expressão do futebol como elemento central
da cultura brasileira. Diante disso podemos observar o quanto esse esporte influenciou a vida
de muitos brasileiros e ao mesmo tempo ajudou na construção da identidade, de um povo que
sofreu com as barbáries dos governantes brasileiros e buscou nesse esporte uma saída.
Para Finalizarmos exponho aqui, imagens das seleções campeãs do Mundo. Nelas
podemos observar os maiores craques do Brasil, como Pelé, Garrincha, Romário, Cafu,
Ronaldinho, Ronaldo entre muitos outros que brilharam pela amarelinha. Jogadores que
fizeram sucesso no Brasil e no exterior e com as chuteiras nos pés puderam contribuir para a
construção e reconhecimento do Brasil perante o mundo. E aponto Lever (1983) que muito
sábio escreve uma frase que expressa à relação futebol e Brasil: “é eterno e vive na alma do
povo”.
Imagens extraídas do mochileiro descobrindo o Brasil.
Seleção Campeã de 1958.
Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013
Seleção Campeã de 1962.
Seleção Campeã de 1970.
Seleção Campeã de 1994.
Seleção Campeã de 2002.
Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013
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Revista Carioca de Educação Física, nº 8, 2013
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