E-book reader: um novo cenário em
informação e bibliotecas
[E-book reader: a new vista for information management and libraries]
Ana Vera Finardi Rodrigues*
Isabel Merlo Crespo**
Resumo: O presente artigo considera os e-book readers (leitores digitais) como
uma alternativa adicional para armazenar documentos em bibliotecas e suporte
para a indústria da informação. Apresenta alguns modelos disponíveis no mercado
e aborda a experiência de bibliotecas com o uso dos aparelhos no que tange ao
gerenciamento deste tipo de recurso e, através de revisão de literatura, pondera
a respeito dos benefícios, desvantagens e caminhos a serem percorridos pelos
profissionais da informação. Os e-books (livros eletrônicos) são, também, discutidos, buscando-se compreender como as bibliotecas se adaptam à demanda
crescente pelas novas mídias.
Palavras-chave: Livros eletrônicos; Leitores de livros digitais; Bibliotecas.
Abstract: The paper discusses e-book readers both as a new archiving option
for libraries and as a tool for the information industry. It reports on some of the
leading models available on the market and analyzes the librarian’s experience
with e-readers as a management tool. The review of the literature offered here
also ponders the road ahead for information professionals with regard to this new
technological option. E-books are discussed as well, with a view to understanding how libraries adapt to the growing demand for the new media.
Keywords: E-books; E-book readers; Libraries.
Bibliotecária-chefe da Faculdade de Veterinária, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Av. Bento Gonçalves, 9090 - 91540-000 Porto Alegre, RS, Brasil. Correo-e:[email protected]
**
Bibliotecária. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Av. Ipiranga, 6681 –
90619-900 Porto Alegre, RS, Brasil. correo-e: [email protected]
Artículo recibido: 6-12-2012. Aceptado: 9-4-2013.
INFORMACIÓN, CULTURA Y SOCIEDAD. No. 28 (junio 2013) p. 91-110
©Universidad de Buenos Aires. Facultad de Filosofía y Letras. Instituto de Investigaciones
Bibliotecológicas (INIBI), ISSN: 1514-8327, ISSN-e 1851-1740.
*
Artículo publicado bajo Licencia Creative Commons (CC) http://creativecommons.org/
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Resumen: E-book reader: un nuevo escenario para las bibliotecas y la información. Este artículo examina los lectores de libros electrónicos (lectores digitales)
como una alternativa adicional para el almacenamiento de documentos en las
bibliotecas y el apoyo a la industria de la información. Presenta algunos modelos
disponibles en el mercado y analiza la experiencia de las bibliotecas con el uso
de los equipos en relación con la gestión de este tipo de recurso y, por medio
de revisión de la literatura, reflexiona sobre las ventajas e inconvenientes y los
caminos que deben tomar los profesionales de la información. Los e-books (libros
electrónicos) también se discuten, tratando de entender cómo las bibliotecas se
adaptan a la creciente demanda frente a los nuevos medios.
Palabras clave: Libros electrónicos; Lectores de libros digitales; Bibliotecas.
Introdução
O desenvolvimento dos equipamentos para leitura de livros digitais (ebooks) tem evoluído substancialmente nos últimos anos. Além das facilidades
apresentadas, relativas ao armazenamento de publicações diversas, os leitores
digitais (e-readers) oferecem uma gama crescente de funções.
Tais equipamentos, uma vez que pretendem reunir em um só produto as
vantagens dos livros e da tecnologia, indicam o prenúncio de uma revolução
no cenário da informação. A partir de 2007, com a popularização dos primeiros
e-readers, a conquista de usuários causou uma verdadeira explosão na indústria
dos leitores eletrônicos. Empresas voltadas à pesquisa e produção de aparelhos
eletrônicos vislumbraram um filão a ser explorado, partindo para estratégias
competitivas. Atualmente, novos modelos, agregando cada vez mais funcionalidades, são colocados no mercado, em tempo recorde, na busca incessante do
cliente, tencionando aliar modernos recursos a preços convidativos.
Sem dúvida, as vantagens apresentadas por tais aparatos, merecem consideração. Dehal (2009), reproduzindo a entrevista concedida pelo Editor da
Mundania Press LCC, de Cincinati, Ohio, Daniel J. Reitz, cita a possibilidade
de disponibilizar títulos esgotados e atenta para a tendência da queda nos custos,
na aquisição de e-books, em relação às cópias impressas.
Há uma convergência, sob o ponto de vista prático, entre a experiência
proporcionada pelo livro e sua ampliação por meio da tecnologia. Tal pode ser
observada no uso do eReader Nook, da empresa Norte Americana Barnes &
Noble. Por meio de uma função chamada “LendMe” os usuários podem emprestar “seus livros” para outro usuário por até duas semanas e, no momento
que o faz, este deixa de estar disponível em seu próprio e-reader, simulando o
empréstimo de um livro físico (Barnes..., 2010).
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Rodrigues y Crespo / E-Book reader: um novo cenário em informacão e bibliotecas
O viajante contumaz, que tem a leitura entre as suas preferências, pode
carregar sua biblioteca na maleta de mão. Além dos jornais já assinados e dos
títulos de livros já armazenados em seu aparelho, pode lançar mão da compra
de um novo título, onde quer que esteja. Aparelhos com conexão sem fio proporcionam este conforto. Para aqueles usuários que dispõem de um pouco mais
de tempo há, ainda, a possibilidade de baixar gratuitamente, no seu PC, determinados títulos como, por exemplo, aqueles disponíveis no Projeto Gutenberg, e
transferi-los para o seu aparelho (Mies, 2009). Amplia-se de forma considerável
o acesso a obras de domínio público disponíveis gratuitamente, o que é uma
vantagem em relação a estas mesmas obras impressas onde se paga o valor da
produção/publicação/distribuição, cabendo aqui, também, a consideração a
respeito da questão ambiental.
Entretanto, há que ficar atento para as limitações impostas por alguns dos
modelos disponíveis no mercado, tais como: aquisição de títulos (downloads)
restritos à empresa que comercializa o aparelho, idioma dos títulos disponibilizados e restrição em relação à transferência de dados para outros aparelhos
similares por incompatibilidade de softwares.
A escolha do aparelho depende do desejo de cada indivíduo ou instituição,
que optará por aquele que melhor se adapte às suas necessidades -- capacidade
de armazenamento, de conexão sem fio, WIFI e/ou 3G, funções e vantagens
em geral.
Posto isto, faz-se necessário conceber que um novo horizonte permeia
o processo de gestão do livro. O livro estático, tal como o impresso, associa-se
ao livro móvel–eletrônico; este, capaz de armazenar uma infinidade de obras
em um mesmo espaço físico, antes ocupado por um único exemplar. Também
se destaca que, conforme já abordado acima, periodicamente são apresentados
e comercializados novos tipos de e-readers, agregando variadas tecnologias e
recursos.
Diante de tais fatos, delineiam-se ações envolvendo novas dinâmicas,
tanto no que concerne ao gerenciamento da informação, neste suporte, quanto
às tecnologias que permitem
que os processos de publicação sejam totalmente eletrônicos: criação da obra,
impressão direta..., até chegar à fase final de produção na qual [...] pode-se eleger
entre diferentes formatos de saída: papel, web, arquivo de voz etc.” (Lara-Navarra,
Gros-Salvat e Almirall, 2008, p. 391, tradução nossa).
E-books e E-readers
No final da década de 90, com a grande expansão da Internet e o aumento
dos tipos de documentos disponibilizados, os títulos de livros em meio eletrônico
cresceram consideravelmente. Estes documentos começavam a ser vistos sob
uma perspectiva positiva, como potenciais negócios, dando um novo impulso
à indústria da informação.
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No cenário atual, a informação é produzida quase em sua totalidade em
meio eletrônico, entretanto, já em 2002, Lee, Guttemberg e McGrary observam que 93% da informação é produzida neste meio, consolidando a edição e
produção de publicações eletrônicas (Lee, Guttemberg e McGrary, 2002). Os
livros eletrônicos não são uma iniciativa nova, entende-se que iniciaram junto
com os computadores, mas define-se como um marco no seu uso e divulgação,
o Project Gutenberg. Em 1971, Michael Hart, fundador do Project Gutenberg,
iniciou o desenvolvimento deste tipo de recurso, iniciativa esta que conta, atualmente, com aproximadamente 39.000 obras disponíveis, sem custo, para o
acesso (Project..., 2012). Ações como estas se tornaram comuns, transformando
o e-book em uma alternativa para democratizar a leitura, potencializando a
função da Internet como disseminadora de informações.
A evolução e desenvolvimento dos e-books possuem diversos fatos chave
que impulsionaram seu uso e divulgação, como o lançamento, exclusivamente
na Internet, da obra Riding Bullet de Stephen King em 2000, que gerou congestinamento nos sites que o disponibilizaram, devido à imensa procura. No
Brasil, considera-se o primeiro e-book lançado comercialmente, a obra “Miséria
e grandeza do amor de Benedita” de autoria de João Ubaldo Ribeiro, que tinha
seu capítulo inicial disponível gratuitamente e o restante do livro deveria ser
adquirido por um valor de R$ 4,00 (quatro reais).
A idéia de oferecer versões eletrônicas de livros (e-books) não é recente,
conforme demonstra o Quadro 1 e, acredita-se ser, esta idéia, a grande impulsionadora da tecnologia dos leitores eletrônicos (e-readers).
Os livros digitais apresentam uma nova estrutura em relação ao livro
impresso quanto à sua produção e distribuição. A produção de um livro impresso
necessita de uma cadeia produtiva detalhada, que inicia com um contrato com
o autor da obra, o pagamento dos direitos autorais, seguindo-se da formatação,
diagramação, impressão e, por fim, da distribuição dos exemplares. Para o
livro eletrônico, todo este processo é simplificado, garantindo, em tese, o preço
sempre menor dos livros eletrônicos -- em média 30% a menos -- bem como a
sua chegada mais rápida ao mercado.
Apresentam muitos aspectos positivos e que garantem a sua ampla
disseminação como: a sua fácil transmissão através da Internet e a facilidade de
se armazenar grandes volumes de livros em pequenos e-readers; por encontrarse em formato digital, o leitor pode baixar e/ou adquirir de qualquer lugar e a
qualquer hora o livro que precisa e terá acesso a ele em poucos minutos. Também
se destaca a possibilidade de converter os livros para a mídia sonora, por exemplo,
no formato MP3 ou MP4, ampliando as possibilidades de leitura.
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Michael Hart lidera o projecto Gutenberg que procura digitalizar livros e oferecê1971 los gratuitamente ao público.
Zahur Klemath Zapata registra o primero programa de livros digitais. Digital
1993 Book v.1, DBF.
Publica-se o primeiro livro digital: Do assassinato, considerado uma das belas
1993 artes, de Thomas de Quincey.
1995 Amazon começa a vender livros através da Internet.
1996 O projecto Gutenberg alcança os 1.000 livros digitalizados. A meta é um milhão.
São lançados ao mercado os leitores de livros eletrônicos: Rocket ebook e
1998 Softbook.
Surgem sites na Internet que vendem livros eletrônicos, como eReader.com e
1998-1999 eReads.com.
Stephen King lança seu romance Riding Bullet em formato digital. Só pode ser
2000 lído em computadores.
Os editoriais Random House y HarperCollins começan a vender versões eletrôni2002 cas dos seus títulos na Internet.
2005 Amazon compra Mobipocket na sua estratégia sobre o livro eletrônico.
Acordo entre Google e a Biblioteca Nacional do Brasil para digitalizar 2 milhões
2006 de títulos.
2006 Sony lança o leitor Sony Reader que conta com a tecnologia da tinta eletrônica.
2007 Amazon lança o leitor de e-books Kindle.
Adobe e Sony fazem compatíveis suas tecnologias de livros eletrônicos (Leitor
2008 e DRM).
2008 Sony lança seu PRS-505.
2009 Barnes & Noble lança o Nook.
2010 Apple lança o iPad.
Quadro 1. Cronologia dos e-books. Fonte: Livro..., 2010.
Os livros eletrônicos já estão definitivamente inseridos no acervo das
bibliotecas, nas versões em acesso livre ou mediante pagamento, e exigem
novas formas de processamento técnico, de conhecimentos para sua gestão e
sua disponibilização. O oferecimento de acervo, também em meio eletrônico,
especialmente de livros, pode ser identificado através dos sites de inúmeras
bibliotecas brasileiras. Conforme Alonso Arévalo e Cordón García (2010) as
bibliotecas americanas fazem uso deste recurso em larga escala, destacando-se que
todas as 5.400 bibliotecas públicas americanas oferecem livros eletrônicos e, entre
estas, a New York Public Library que possui, aproximadamente, 18.300 títulos.
Considera-se que os e-books já são um caminho sem volta, pois a
demanda atual por informação gera o aumento crescente deste tipo de documento.
Informações da Association of American Publishers divulgam um aumento
de 193% nas vendas de livros digitais (e-books), nos Estados Unidos, entre
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janeiro e agosto de 2010, configurando-se em 10% de toda a venda de livros,
e atribui tal acréscimo ao sucesso das vendas de e-readers (Vendas..., 2010).
No site americano Amazon.com, a venda de e-books superou a venda de livros
de papel já no segundo trimestre do ano de 2010; para cada 100 livros em
papel vendidos pelo Amazon.com, a companhia vendeu 143 livros eletrônicos
(Amazon..., 2010).
Neste caminho, a Google anunciou, em 2009, o projeto de lançamento
do Google Edition, em parceria com editoras digitais com as quais já opera,
possibilitando a compra de livros diretamente do site, compatíveis com os
leitores eletrônicos disponíveis no mercado. Junto a este projeto há outro,
ainda considerado controverso pela questão do direito autoral, de “digitalizar
e indexar dezenas de milhões de livros por meio de parcerias com bibliotecas”
(Google..., 2009).
O livro eletrônico ou e-book tem várias características dos documentos
eletrônicos –pode ser acessado por muitas pessoas de qualquer lugar a qualquer
hora– e pode ser definido como “[...] livro em formato eletrônico, podendo
ser baixado via Internet para o computador por meio de download e para o
aparelho que permite a sua leitura fora do computador [...]” (Benício e Silva,
2005, p. 4). Seu conceito se amplia e apresenta-se como um tipo de mídia que
disponibiliza informações em formato digital, que pode ser visualizado por
meio de diversos aparelhos além do computador, como os celulares, palm tops,
mp3 e mp4 players.
Os leitores de e-books também remetem à questão da leitura na tela, que
atualmente vem ganhando espaço, e à importância do suporte, que no caso do
livro é totalmente vinculado ao seu conteúdo, não permitindo a visão dissociada.
“A [...] experiência do livro é parte integrante do consumo do texto. Mas assim
como o cinema e o vídeo, que estão sendo substituídos pelos vídeos baixados
via Torrent e TVs de maior tamanho e resolução, o consumo de textos tende a
mudar” (Nóbrega, [2008?] apud Rodrigo, 2008).
Já se tem notícia de livros que são lançados, simultaneamente, em versão
impressa e áudio, como o caso do livro “The death of Bunny Munro”, do escritor
australiano Nick Cave, cuja versão em áudio faz uso de elementos musicais, além
de formato compatível com iPhone. Aventa-se, ainda, a possibilidade de que o
livro possa ser acessado em ambos os formatos (leitura ou áudio), no mesmo
aparelho, dependendo apenas do desejo do usuário (Freitas, 2009). O e-reader da
Amazon, chamado Kindle, possibilita que os textos sejam ouvidos por meio de
um leitor artificial que transforma as palavras em áudio, com a opção de escolha
entre uma voz digital que imite a voz de um homem ou de uma mulher.
“Leitor de livros digitais (e-Reader, em inglês) é um pequeno aparelho
que tem como função principal mostrar em uma tela, para leitura, o conteúdo de
livros digitais (e-books) e outros tipos de mídia digital” (Leitor..., 2010).
O leitor de livros digitais, também chamado de leitor eletrônico, permite
que inúmeros títulos sejam “baixados” no aparelho, na íntegra, inclusive com
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Rodrigues y Crespo / E-Book reader: um novo cenário em informacão e bibliotecas
acesso sem fio, através de compra ou download gratuito. A disponibilidade e
distribuição dos títulos dependem da empresa que comercializa o aparelho,
entretanto, a praticidade não pode ser contestada. O grande atrativo está na
possibilidade de conexão on-line com as livrarias. A Amazon, com seu Kindle,
possui a função de busca e, segundo relata Gelles (2010), já superou a venda
de livros impressos com a comercialização de e-books.
O primeiro modelo de e-reader, consagrado publicamente, foi o Kindle,
lançado em 2007 pela empresa americana "Amazon" apresentando, como funcionalidade principal, a possibilidade de leitura de e-books. Diante da aceitação,
em dois anos, a mesma Empresa lançou a segunda versão, ampliando as possibilidades de acesso à informação, agregando, às suas possibilidades, a leitura
de jornais e blogs, além de possibilitar a compra direta de títulos, utilizando o
próprio aparelho (Kindle, 2010). Há, ainda, nesta mesma linha, lançados por
outras empresas, o Cool-er, o Sony Reader, o Cybook, o e-Nook, o Alfa e outras
tantas opções menos conhecidas, fabricadas por empresas do Japão, China,
Coréia, França, Estados Unidos e Brasil.
Tais aparatos têm como vantagens fundamentais a portabilidade e a
praticidade. Sua estrutura permite armazenar mais livros do que, talvez, fosse
possível ler em uma vida, carregando um peso em torno de 280 gramas, em
média. Além disso, suas especificações prometem manter o usuário conectado
com o mundo, uma vez que alguns modelos atuais permitem acesso à Internet
através da Tecnologia WiFi ou 3G, permitindo ao leitor a compra e o download
de livros até mesmo dentro de um ônibus no seu caminho de casa até a faculdade, por exemplo.
A tinta eletrônica
Sobre a questão da leitura, os e-readers podem se caracterizar como
uma boa solução, uma nova experiência de leitura, em telas, com o uso da tinta
eletrônica (papel eletrônico), que se aproxima da experiência da leitura de um
livro por não emitir luz. Com eles é possível navegar pelas partes de um livro,
pesquisar informações, aumentar o tamanho das letras, escolher entre formato
widescreen ou full screen e fazer anotações sem modificar a obra original.
O papel eletrônico (electronic paper), também chamado de e-paper, é
uma tecnologia de superfície originária nos anos 70, na empresa Xerox Palo
Alto Research Center, e foi desenvolvido justamente com a intenção de imitar a
aparência de tinta em papel (Bonsor, 2000). O papel eletrônico, diferentemente
das superfícies tradicionais (telas) que emitem luz, reflete a luz como qualquer
outro tipo de papel, sendo capaz de projetar imagens e textos, indefinidamente,
sem gastar eletricidade, além de propiciar a troca destas imagens mais tarde.
As tecnologias utilizadas no desenvolvimento do e-paper são várias.
Algumas utilizam substratos plásticos e eletrônicos, de modo a tornar a superfície
flexível. Esta característica de “não emissão de luz” torna a leitura mais cômoda
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do que a leitura em telas tradicionais. Isto se deve ao fato de a imagem no
e-paper ser fixa, diferentemente das telas com emissão de luz, onde a imagem
precisa ser atualizada constantemente, o que causa seu deslocamento e um leve
piscar. Ambientes muito iluminados levam vantagem ao utilizar o e-paper, pois,
além deste não emitir luz como o fazem telas que utilizam outra tecnologia,
proporcionam um ângulo de visão superior ao modelo de telas tradicionais.
Conforme Bonsor (2000) existem duas grandes empresas americanas que
estão desenvolvendo, simultaneamente, tintas eletrônicas bastante semelhantes.
Uma delas é a E Ink de Cambridge, no Estado de Massachussets, e a outra é
a Xerox, em Palo Alto, no Estado da Califórnia, precursora desta tecnologia.
Ainda de acordo com Bonsor (2000), os “papéis eletrônicos” das duas empresas
variam pouco e os componentes utilizados são basicamente os seguintes:
• milhões de minúsculas microcápsulas ou orifícios;
• uma tinta ou substância oleosa preenchendo essas microcápsulas ou
orifícios;
• chips ou bolas pigmentadas com carga negativa flutuando dentro da
microcápsula.
Diferente do que se imagina normalmente, a tinta eletrônica pode ser
aplicada nos mesmos materiais que a tinta comum. À primeira vista, a tinta
eletrônica assemelha-se à tinta comum, mas um olhar mais atento percebe
diferença marcante. Como descreve Bonsor (2000), “[...] no caso de um livro
digital, as páginas seriam feitas de um tipo de plástico ultrafino. A tinta cobriria
toda a página, separada por células como as de um papel quadriculado”. Essas
células são semelhantes aos pixels em uma tela de computador, “[...] com cada
célula ligada a componentes eletrônicos minúsculos incrustados nessa folha
plástica. Esses componentes eletrônicos seriam usados para aplicar uma carga
positiva ou negativa às microcápsulas, criando o texto ou as imagens desejadas”
(Bonsor, 2000).
A Xerox e a E Ink usam técnicas diferentes para o desenvolvimento de
suas respectivas tintas eletrônicas. A E Ink, ao explicar como sua tinta eletrônica
funciona, “[...] compara os milhões de microcápsulas, dentro da tinta, a bolas
transparentes. Cada uma dessas bolas está cheia de minúsculas bolas de pinguepongue brancas. Em vez de ar, a bola foi preenchida com tinta azul” (Bonsor,
2000). Ainda segundo a descrição de Bonsor (2000), a carga elétrica aplicada às
microcápsulas faz com que os chips subam à superfície, e com que as cápsulas
pareçam brancas, ou desçam à parte inferior, formando a tinta escura. A partir
deste princípio, os padrões branco e preto são criados, originando a escrita. Já a
empresa Xerox, aprimora sua versão da tinta eletrônica (papel eletrônico), cuja
tecnologia inicial data da década de ’70. Em lugar dos chips acima descritos,
utiliza bolas bicolores, brancas de um lado e pretas do outro que, semelhantes
à tecnologia da E Ink, respondem diante de descargas elétricas que as fazem
girar, produzindo os padrões claros e escuros e, neste mesmo projeto, “[...] para
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Rodrigues y Crespo / E-Book reader: um novo cenário em informacão e bibliotecas
poder produzir as páginas dos livros digitais, a Xerox está desenvolvendo folhas
de borracha nas quais essas bolas microscópicas estarão suspensas em líquido
oleoso” (Bonsor, 2000).
O incremento desta tecnologia, entretanto, ainda está encontrando barreiras. A utilização dos fios que criam a carga elétrica aumenta a “espessura do
papel”, ou seja, não há, ainda, maneira de produzir “papel eletrônico” tão fino
quanto o “papel folha” e, neste departamento, a E Ink tomou a dianteira “[...] ao
assinar um acordo com a Lucent Technologies, que deu à E Ink o direito de usar
os transistores de plástico [por ela] criados [...]. Esses pequeninos transistores
podem ser impressos em uma página para fornecer a carga adequada necessária
para mudar as cores dos chips da E Ink” (Bonsor, 2000).
Outro avanço importante é o uso de cores no papel eletrônico, tecnologia já disponível e que se propõe a tornar a leitura na tela dos e-readers ainda
mais atrativa. A americana Qualcomm, conforme prometido, lançou, em 2011,
a tecnologia de telas Mirasol, que utiliza a luz refratada para gerar algumas
cores e bloquear outras, mantendo o baixo consumo de energia e a rapidez para
visualização de imagens e vídeos (Bessa Monqueiro, [2010]). A tecnologia em
questão promete a possibilidade de se dispensar a iluminação suplementar, na
maioria dos ambientes, bem como sua visualização sob luz solar intensa. De
acordo com a Empresa, seu diferencial está na união da leitura tradicional com os
conteúdos mais dinâmicos da tecnologia (Qualcomm..., 2011). Aliás, tecnologia
figura como algo a ser explorado, inventado e reinventado indefinidamente. Já
estão em fase de pesquisa e desenvolvimento os leitores eletrônicos flexíveis, que
utilizam a chamada ‘eletrônica orgânica’, “[...] constituída por circuitos eletrônicos
impressos sobre plásticos e que promete, entre outros avanços, equipamentos
totalmente flexíveis, como telas de enrolar” (Tendência..., 2011). Os leitores
eletrônicos encabeçam a fila na utilização desta tecnologia, buscando, além da
qualidade de imagem do papel impresso, a espessura e a flexibilidade deste.
Principais e-readers disponíveis no mercado
Como já mencionado anteriormente, muitos são os modelos de leitores
eletrônicos disponíveis no mercado atualmente e, embora se tratando de novas
mídias, ainda pode-se observar, na maioria desses aparelhos, uma interface
marcada pela mídia impressa, ou seja, aparência do texto semelhante aos livros com suporte em papel. De acordo com Rothman (2009), o Rocket book,
lançado em 1998, foi o primeiro leitor de livros eletrônicos difundido e reconhecido publicamente. A ele, seguiram-se o Sony Reader, lançado em 2006, e
o Kindle, em 2007 (Alonso Arévalo e Cordón Garcia, 2010). Considerando o
pioneirismo da Amazon, com o seu Kindle, no mercado de comercialização de
e-books, diretamente para o aparelho, iniciaremos a descrição pelo aparelho
por eles lançado.
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O Kindle, já em sua terceira versão, permite a conexão wireless por rede
3G, ou, na falta deste, pelo Edge (Enhanced Data rates for GSM Evolution –
tecnologia, para telefonia digital, que permite troca de dados via internet), para
acesso à biblioteca virtual da Amazon, nos Estados Unidos, cujo acervo é de mais
de 300.000 mil títulos, sendo que, alguns deles, são oferecidos gratuitamente
aos usuários do Kindle, por um período determinado. No Brasil também estão
disponíveis publicações de periódicos locais, por exemplo, os jornais, O Globo e
Zero Hora entre outros, que mediante assinatura ficam disponíveis todos os dias
diretamente no e-reader. Pode armazenar até 3.500 livros, levando, no máximo,
um minuto para contar com o conteúdo total do livro no aparelho.
A Sony possui, até o momento, três edições de e-readers (Pocket, Touch
e Daily Edition). Destes, o mais recente é o Daily Edition (com dicionário e
tela com dispositivo touch screen) que, nos Estados Unidos, possui rede 3G e
permite a compra de títulos digitais em livrarias conveniadas.
A Barnes & Noble possui o E-nook que, a exemplo do Kindle, está disponível com conexão WiFi e/ou 3G. Permite a compra dos livros diretamente
da Barnes & Noble e, para os interessados, o acesso diário pelo período de uma
hora, dos títulos por ela disponibilizados, é gratuito, desde que dentro de uma de
suas lojas. Sua estrutura inclui botões de comando coloridos (touch screen).
O Cybook, idealizado pela empresa francesa Booken, possui interface
multi-touch em 23 idiomas e conexão por Wi-Fi, Bluetooth e Micro-USB. Pode
armazenar em torno de 1000 livros e coloca à disposição de seus usuários 150
títulos, gratuitamente.
Em relação ao idioma dos títulos disponíveis, o Alfa (fabricado pela empresa Positivo) chegou para suprir a lacuna de quem tem dificuldade de leitura
em outro idioma que não o português, uma vez que grande parte dos títulos
comercializados é na língua de Camões, entretanto, traz a desvantagem de não
permitir a compra direta no aparelho. Esta deve ser efetuada pelo computador
para, só então, ser transferida ao e-reader via cabo USB.
Tantas são as novidades e lançamentos que se torna impraticável a descrição de modelos, funções, vantagens, interfaces, em detalhes. O que não se
pode desconsiderar é o avanço estrondoso de uma tecnologia que, ao que tudo
indica, já está consolidada, e, sendo assim, uma tentativa de caracterizar alguns
dos diversos modelos, em suas especificidades, segue no Quadro 2.
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Rodrigues y Crespo / E-Book reader: um novo cenário em informacão e bibliotecas
Fabricante
Tamanho (cm)
Peso
Tela
(Polegadas)
Botões
Conexão
Kindle
Amazon
19,05 x 12,19 x 0,85
246 g
6"
Botões manuais
3G; WiFi;
USB
Daily
Edition
Sony
19,99 x 12,8 x 0,97
361 g
7"
Touchscreen
3G; WiFi;
USB
E-nook
Barnes & Noble 20,57 x 12,7 x 1,22
447 g
7"
Touchscreen; Botões
manuais
3G; WiFi;
USB
Cybook
Bookeen
245 g
6"
Touchscreen; Botões
manuais
WiFi; USB
WiFi; USB
18,98 x 12,57 x 7.6
Alfa
Positivo
17 x 12,4 x 0,89
240 g
6"
Touchscreen; Botões
manuais
Cool-Er
Interead
18,3 x 11,77 x 1,09
178 g
6"
Botões manuais
USB
Quadro 2. Quadro comparativo sobre os principais leitores de e-books
As obras eletrônicas podem fazer uso de Digital Rights Management
(DRM), termo usado para as tecnologias que inibem o uso e garantem a proteção
ao conteúdo digital e que podem ser utilizados por fabricantes, editores e outros
interessados. O uso dos DRM para e-books é voltado para garantir os direitos
sobre a obra e define como cada arquivo será utilizado, como, por exemplo, que
um e-book poderá ser utilizado em um único leitor eletrônico, sem restrições
de tempo de uso.
O crescimento na venda e uso de e-books também poderá ser incrementado no Brasil por uma decisão da justiça, baseada no artigo 150 da Constituição,
que dá isenção de importação para livros, com o entendimento de que esta interpretação possa ser aplicada aos leitores de livros eletrônicos como o Kindle. O
juiz, em sua sentença, reconhece a imunidade tributária do produto e entende que
este se equipara a livros, os quais são isentos de tributação, independentemente
do suporte em que estejam (Nascimento, 2010).
Também é relevante destacar o crescimento dos tablets, utilizados inclusive
para a leitura de e-books e que estão avançando sobre o mercado dos e-readers.
Os tablets podem ser definidos como computadores que não possuem um teclado
físico e que usam tela sensível ao toque e trazem diversas funcionalidades, como
o uso de telefonia e chat para o e-mail e mensagens de texto, ver filmes, fotos
e navegar na Web. O modelo da Apple Tablet PC iPad, possui tela de LCD e
permite a conexão com a Internet, trazendo a vantagem da compatibilidade com
diversos formatos de arquivos. Pode ser utilizado como um e-reader, além de
agregar as funções de um notebook, pois reúne as características de iPhone e
MacBook e caminha, atualmente, para sua terceira versão. Visando manter-se
neste mercado competitivo, a Amazon, já tem olhos para a segunda versão de
seu modelo mais recente, o tablet Kindle Fire (Dutra, 2012). Na mesma linha,
o mercado oferece, entre outros modelos de tablets, o Nook Tablet, da Barnes
& Noble; o Galápagos A01SH da Sharp; o Motorola Xoom; o Galaxy Tab, da
Samsung; o ZTE V9, da chinesa ZTE Corporation; o Sony Tablet e o Coby Kyros,
da empresa americana Coby Electronics Corporation (Quadro 3).
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Fabricante
Tamanho (cm)
Peso
Tela
(Polegadas)
Botões
Conexão
To u c h s c re e n
Botões manuais
WiFi
Galápagos*
Sharp
10,64 x 6,0
389 g
7‘’
Galaxy Tab
10.1
Samsung
25.67 x 17.53 x 0,86
565 g
10.1‘’
Touchscreen
3G; WiFi
Xoom
Motorola
25,39 x 17,39 x 0,88
600 g
10.1”
Touchscreen
3G; WiFi;
Nexus 7
Google
19,85 x 12,0 x 1,045
340 g
7‘’
Touchscreen
WiFi;
ZTE V9
ZTE Corp. 19,2 x 11 x 1,26
403 g
7‘’
Touchscreen
3G; WiFi
Sony Tablet
Sony
24,12 x 17,43 x 2,06
598 g
9.4”
Touchscreen
3G;WiFi
Coby Kyros
Coby
19,05 x 12,19 x 1,27
408 g
8”
Touchscreen
3G;WiFi
Nook Tablet
Barnes &
Noble
20,57 x 12,7 x 1,20
399 g
7‘’
Touchscreen
WiFi
Kindle Fire
Amazon
19 x 12,0 x 1,14
413 g
7‘’
Touchscreen
WiFi
Apple Tablet
PC iPad
Apple
24,13 x 18,57 x 0,94
662 g
9,7‘’
Touchscreen
3G; WiFi;
* Oferece interface em 3D
Quadro 3. Quadro comparativo sobre os principais modelos de Tablets
A tela de LCD, característica desses aparelhos, pode ser uma desvantagem
para quem prefere e-ink ou papel, considerando que a leitura em LCD, embora
permita o recurso das cores, é mais cansativa.
A principal característica e diferencial dos e-readers é o tipo de tela que
utilizam, que não emite luz, é mais cômoda para leitura, é utilizada por quase
todos os leitores e, por ter sido projetada especialmente para este fim (a leitura de
livros) possui, entre suas peculiaridades, a capacidade de não distrair o usuário
durante sua leitura com outros atrativos na tela.
O profissional da informação face ao livro eletrônico e ao leitor eletrônico
De acordo com Lara-Navarra, Gros-Salvat e Almirall (2008), o conceito
de mobilidade altera, de forma substancial, as tecnologias da informação e,
junto a ela, os sistemas de gestão da informação. A mudança comportamental,
em decorrência das Tecnologias de Informação, está determinando um novo
perfil comportamental diante de produtos e serviços. Segundo o pensamento
de Braga (2000),
[...] as novas Tecnologias de Informação são os instrumentos que vieram permitir gerir a informação em novos moldes, agilizando o fluxo das informações
e tornando a sua transmissão mais eficiente (gastando menos tempo e menos
recursos) [...].
Caberá ao bibliotecário gerenciar este tipo de recurso, a falta de títulos
nos formatos compatíveis, os novos caminhos para a distribuição de conteúdo
digital, a mobilidade no projeto e organização de livros eletrônicos e negociar
102
Rodrigues y Crespo / E-Book reader: um novo cenário em informacão e bibliotecas
a compra de títulos para disponibilizar nas Bibliotecas, garantindo melhor
interação para os usuários.
Os e-readers, tanto quanto os livros digitais (e-books), têm o seu espaço
nas Bibliotecas, que devem considerar a demanda crescente pelos e-books e,
tanta é a importância do assunto, que estudos tais como o relatório recentemente
publicado, tendo como objeto as bibliotecas públicas e acadêmicas do estado
do Colorado, nos Estados Unidos, têm sido desenvolvidos por especialistas,
direcionados à análise e recomendações às instituições (bibliotecas públicas e
acadêmicas) que pretendam adotá-los (Ebooks..., 2011).
Um aspecto irrefutável nos e-readers é a possibilidade de aumento
considerável do acervo em um espaço mínimo, uma vez que, um mesmo aparelho,
possibilita o armazenamento de milhares de títulos. Além disso, a possibilidade
de se agregar, em um único item físico, áudio, vídeo e acesso à Internet, deve
soar tentadora, tanto aos bibliotecários, que poderão oferecer o item aos seus
usuários, quanto aos próprios usuários, diante da possibilidade de usufruir do
produto, sem custo. A pesquisa empreendida por Rabina e Pattuelli (2009) relata,
brevemente, enquanto usuários, as impressões dos estudantes de biblioteconomia
do Pratt Institute, em New York (NY), a respeito do uso de e-readers Kindle.
De acordo com a sua descrição, fica claro que a grande maioria dos sujeitos não
tinha a menor familiaridade com os e-readers (Rabina e Pattuelli, 2009).
Na realidade, já há algumas Bibliotecas que passaram a dispor de
e-readers, para empréstimo local ou domiciliar, identificando uma oportunidade
de ampliar suas coleções e seus serviços. Quanto ao impacto do uso de e-readers,
Clark (2009) apresenta a experiência das bibliotecas do Texas A&M University
Libraries implantada em 2008, com a compra de 40 leitores e a avaliação de
seu uso no decorrer do ano. Entre as conclusões verificadas está o fato de que
o Kindle é um recurso eficaz para a leitura geral, mas tem um valor limitado
para a leitura acadêmica devido às restrições para apresentação de gráficos e
limitações de conteúdo. Nesta mesma linha, a biblioteca da Pennsylvania State
University participou de um projeto em parceira com a Sony com o intuito de
avaliar a praticidade do equipamento. Como relata Behler (2009), todos os
e-readers foram catalogados, com as devidas notas que permitissem identificar
seus conteúdos, e etiquetados. Além disso, houve o cuidado de equipá-los com
capas protetoras e códigos de barras. A partir daí, iniciou-se o empréstimo. A
pesquisa, desenvolvida entre os anos de 2008 e 2009, concluiu que, embora
os usuários tenham apreciado a experiência, não consideraram o equipamento
exatamente prático. Além de considerações sobre a durabilidade da bateria e
reflexos na tela, dificultando a leitura, questionaram: "[...] por que monopolizar
muitos livros de uma só vez, quando o usuário só quer um ou dois? [...]" (Behler,
2009, p. 57, tradução nossa).
A Biblioteca Rector Gabriel Ferraté (BRGF) da Universidad Politécnica de
Catalunya também estudou o uso dos leitores de livros eletrônicos, disponibilizando
aos seus usuários quatro equipamentos com prazo de empréstimo de dez dias.
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INFORMACIÓN, CULTURA Y SOCIEDAD (ISSN 1514-8327) No. 28 (junio 2013) 91-110
Renováveis por quatro vezes, cada empréstimo é acompanhado por um cartão
de memória, com os títulos disponíveis, para o usuário definir quais deseja
acessar, além do manual de uso do equipamento (Clavero et al., 2009). O estudo
iniciou em outubro de 2008 e foi finalizado em fevereiro de 2009, destacou a
dificuldade para a obtenção de títulos para a leitura nos e-readers, considerando
as coleções ainda restritas. Como fator positivo, foi verificado um aumento na
visibilidade da Biblioteca que, com a criação do novo serviço, obteve um alto
índice de empréstimo dos e-readers. Tal fato foi determinante em relação à
importância da manutenção, atualização e ampliação deste serviço (Clavero et al.,
2009). Em janeiro de 2011, 15 bibliotecas já contavam com os e-readers como
opção aos seus usuários e, de acordo com o projeto do Ministério da Cultura
daquele país, a previsão é de que no prazo de um ano todas as 54 bibliotecas
públicas disponibilizem o serviço (Bibliotecas..., 2011). Segundo Koch (2012), a
experiência tem sido positiva em vários aspectos, tanto que há o plano de estender
o serviço de empréstimo de e-readers a outras 54 bibliotecas públicas, mas o autor
observa um entrave: a impossibilidade de armazenar livros recentes nos leitores
eletrônicos, pela questão do direito autoral. Há, segundo relata, a necessidade
de consenso em relação aos interesses envolvidos nas diversas frentes – leitor,
autor, editor e biblioteca – e, admite, através do relato de profissionais da área,
haver ainda um longo caminho a ser percorrido (Koch, 2011).
No Brasil, a Biblioteca de São Paulo, localizada no Parque da Juventude,
na capital paulista, disponibiliza, ao público, e-readers: sete Kindles e alguns
Cool-ers para uso nas suas dependências (Freitas, 2010). A proposta da biblioteca
é um passo importante para dar a conhecer, aos usuários, este novo suporte da
informação. Considerando a curiosidade e a predisposição à exploração do novo,
as chances de despertar o leitor adormecido, não podem ser desconsideradas.
Proporcionar o contato direto do usuário com novas tecnologias tem alcançado
sucesso; haja vista as diversas lojas da Apple, espalhadas pelo mundo, onde
vários aparelhos de última geração estão dispostos sobre bancadas, à disposição
dos interessados, para manuseá-los livremente, tal como uma grande biblioteca
de livre acesso.
Há que considerar, entretanto, a necessidade de análise criteriosa a respeito
das implicações legais que tais empréstimos possam acarretar. Como impedir que
sejam feitas cópias dos livros ali baixados, uma vez que basta um cabo, ou outro
dispositivo periférico, para copiar o conteúdo para seu computador pessoal? A
Associação dos Editores do Reino Unido (The Publishers Association – PA) está
preocupada, e tomando providências para sustar a disseminação sem controle
das publicações disponibilizadas eletronicamente. Com a possibilidade de acesso
remoto, mediante senha, pelos usuários com vínculo com as universidades,
torna-se fácil replicar exemplares por download. A sugestão da PA é de que a
permissão seja restrita aos equipamentos localizados dentro do espaço físico
das bibliotecas, além de cobrar uma taxa de direitos autorais, destas, relativa aos
livros ali baixados. A idéia é o rigor às permissões para acesso a obras eletrônicas,
104
Rodrigues y Crespo / E-Book reader: um novo cenário em informacão e bibliotecas
uma vez que a Internet possibilita o envio de obras, independentemente de
limites geográficos, sem o devido controle do direito autoral, onerando, assim,
a indústria editorial (Page, 2010).
A necessidade de conhecimento a respeito da tecnologia e análise criteriosa da relação custo-benefício é fundamental. Não se pode desconsiderar
o desconforto da bateria sem carga quando se está desfrutando da leitura ou,
mesmo, da possibilidade de perda dos dados por um toque distraído no botão
errado. Em se tratando de acervos de bibliotecas, tal poderia ser desastroso,
probabilidade que exige armazenamento em ambiente seguro, mediante download, dos documentos disponibilizados aos usuários via e-reader. Conforme a
experiência vivida pelas bibliotecas da Pennsylvania State University, além da
avaliação dos alunos em relação aos problemas relativos à necessidade de carregar a bateria, houve, por parte da equipe de bibliotecários, alguma dificuldade
para configurar e armazenar as publicações nos aparelhos, cuja implementação,
a autora chamou de “acrobacias técnicas” (Behler, 2009).
As formas de empréstimo estão atualmente se encaminhando positivamente,
contando com a boa vontade dos editores e livreiros em geral. Hodiernamente,
duas idéias principais se apresentam. A primeira seria o empréstimo virtual,
onde o usuário teria acesso ao e-book em seu leitor eletrônico e/ou computador
por um período predeterminado. A outra modalidade estaria na tão propalada
"internet nas nuvens" (icloud), cujo conteúdo do documento fica disponível
em servidores remotos, podendo ser acessado em qualquer equipamento, sem
a necessidade de armazená-lo em uma unidade física.
Além das ações já relatadas, onde o empréstimo depende fisicamente
da biblioteca, outras iniciativas, tais como aquela empreendida pela Biblioteca
Regional de Broward (Broward County Library), na Flórida, merece alusão.
Em parceria com o aeroporto internacional de Fort Lauderdale-Hollywood
a Biblioteca oferece, junto à esteira de bagagens, aos passageiros que por ali
passam, o acesso a 34.000 títulos de domínio público, via download gratuito
(através da plataforma OverDrive), e com acesso sem prazo para expirar, em
qualquer tipo de aparelho eletrônico que comporte esta tecnologia (OverDrive)
e já há planos, por parte da biblioteca, no sentido de expandir este serviço para
as estações rodoviárias locais e para Port Everglades, o mais importante porto
da Flórida. Os livros oferecidos são aqueles de acesso gratuito, que já caíram
em domínio público, quando expira o prazo de proteção da obra via Direito
Autoral (Kelley, 2011).
Considerações Finais
As redes de comunicação, a partir do advento da Internet, têm se multiplicado
e a afirmação de que as tecnologias digitais são um fator facilitador no que tange
ao armazenamento e, principalmente, disseminação da informação, é irrefutável.
Estas facilidades resultam em flexibilidade no que se refere à aprendizagem.
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INFORMACIÓN, CULTURA Y SOCIEDAD (ISSN 1514-8327) No. 28 (junio 2013) 91-110
Ampliam o acesso às bibliotecas, promovem o compartilhamento da informação
e, conseqüentemente, da aprendizagem e da cultura – haja vista a possibilidade
de aulas, orientações, palestras e tantas outras atividades desenvolvidas com
recursos virtuais, não presenciais. O mundo virtual – bibliotecas digitais, pesquisa
em bases de dados e toda uma gama de informações disponíveis em rede – que
ora se apresenta, exige um domínio mínimo dos recursos digitais e, sem este,
parte importante da aprendizagem atual é excluída.
De qualquer forma, acredita-se que o livro impresso e o eletrônico
conviverão, ainda, por um grande período juntos, embora se preveja o
crescimento rápido das publicações em formato eletrônico. O uso dos e-readers
não desconsidera o livro impresso como importante suporte informacional que
é e, como já aconteceu com o surgimento de outras mídias tais como o rádio e a
televisão, um não supera o outro, cada um detém seu espaço e, algumas vezes,
se mesclam, como verificamos em rádios que atuam, também, na Internet. O
mesmo, se acredita, virá a acontecer com os livros eletrônicos, acessados e
lidos através de e-readers, e com os livros tradicionais impressos. Entretanto,
considera-se que talvez ainda haja um caminho a ser percorrido até que o e-reader
atinja níveis ideais para atender as bibliotecas, tanto por parte dos fabricantes
quanto dos profissionais da informação.
A disponibilização crescente de livros eletrônicos e de e-readers, nos
acervos das bibliotecas, demonstra a necessidade das mesmas adequarem seus
serviços, com avaliações e atualizações contínuas, exigindo que o profissional
bibliotecário desenvolva métodos de gestão para o acervo eletrônico, dominando
aspectos como a sua comercialização, conhecimento de softwares e outras
informações que se façam necessárias, inclusive buscando meios de levar a
biblioteca ao usuário, uma vez que as mídias, ora emergentes, podem ocasionar
uma redução na freqüência aos seus espaços físicos. Novas tecnologias demandam
novas posturas, inclusive a possibilidade do empréstimo on-line, que permita
ao usuário, em contato com o profissional bibliotecário, solicitar acesso a
documentos, para sua consulta, a quilômetros de distância. Tal, atitude, contudo,
exige medidas que permitam o controle de disseminação da informação, de
modo a preservar o direito dos autores e editores.
Destaca-se a crescente modernização e ampliação dos recursos
disponibilizados pelos e-readers, que facilitam cada vez mais a leitura, tais
como a marcação e comentários no texto e o manuseio do equipamento, além
da consequente redução de seu valor, o que fará com que seja mais utilizado
e aceito pelos usuários. Entretanto, devem ser consideradas as características
do mercado editorial de cada país, que apresentará a sua forma de organizar
a produção e distribuição de livros eletrônicos, podendo demorar um tempo
razoável para que muitas obras sejam comercializadas neste formato.
As vantagens dos e-readers são várias: agregar diversos títulos em apenas
um dispositivo eletrônico, com peso médio de 280 gramas, conferindo a fácil
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Rodrigues y Crespo / E-Book reader: um novo cenário em informacão e bibliotecas
mobilidade a uma gama de volumes; aquisição de um novo título de qualquer
lugar do mundo, com apenas um “click”; download de livros consagrados,
gratuitamente; custo abaixo dos livros impressos; acréscimo da demanda –
possibilita aumentar a gama de publicações, uma vez que dispensa a impressão e
distribuição do produto; possibilidade de imagens, links, som, interatividade com
a obra. Enfim, cabe dizer, como já abordado, que os leitores de livros eletrônicos
não chegaram para desbancar de imediato o livro impresso –sequer sabemos
se este chegará, um dia, a ser preterido por aquele– mas sim para somar; mais
possibilidades, mais cultura, mais disseminação da informação.
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