IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do
Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP)
de 05 a 08 de Novembro de 2013
ISSN 1984-9265
O ENCONTRO ENTRE A SOCIOLOGIA HISTÓRICA E AS RELAÇÕES
INTERNACIONAIS: A POSSIBILIDADE DE CONJUGAR PERSPECTIVAS
CRÍTICAS E CLÁSSICAS
PAOLIELLO, Tomaz Oliveira
PPGRI San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP)
MIKLOS, Manoela Salem
PPGRI San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP)
Introdução
Nos últimos anos diversos autores vêm demonstrando preocupação em reaproximar a
disciplina de Relações Internacionais do estudo de outras disciplinas – em especial a História
e a Sociologia. Tais autores são essencialmente influenciados pelos avanços alcançados pelos
estudos da Sociologia Histórica. Embora a disciplina de Relações Internacionais tenha
passado por uma “virada sociológica”, com a intensificação dos estudos construtivistas, a
necessidade de se estudar os fenômenos internacionais a partir de sua dimensão temporal e de
seu contexto histórico ainda parece preocupar uma série de analistas e desafiar a disciplina. A
chamada necessidade de um “retorno à história” é fruto de um descontentamento diante das
limitações da disciplina e da incapacidade que os paradigmas dominantes apresentam ao lidar
com a dimensão histórica de seus objetos.
O movimento de uma “virada histórica” nas Relações Internacionais pode ser
identificado com movimento semelhante no estudo da Sociologia, berço exatamente da subdisciplina da Sociologia Histórica. Essa linha, focada em estudar a dimensão histórica de
certas estruturas sociais e de investigar as condições sociais que possibilitaram o surgimento
de fenômenos contemporâneos é resposta à concepções sociológicas que buscam a
identificação de “leis universais” ancoradas na realidade de seu próprio tempo e de suas
próprias sociedades. É possível que identifiquemos essa mesma preocupação dentro dos
debates das Relações Internacionais, principalmente representados no
mainstream
Neorealista. A dimensão crítica do encontro da Sociologia Histórica com as Relações
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Internacionais é parte de uma série de esforços críticos da disciplina, mas apresenta uma
dimensão única, diferente de outras escolas que propõe uma quebra paradigmática, por
permitir a incorporação tanto de dimensões que levam em conta a particularidade de casos
quanto o conhecimento já produzido no intuito de gerar noções generalistas.
O estudo da Sociologia Histórica nas Relações Internacionais pode ser considerado, ao
mesmo tempo, um esforço crítico quanto um esforço de expansão e reprodução do
conhecimento produzido no âmbito tradicional da disciplina. Essa ambigüidade parece ter
criado uma situação na disciplina das Relações Internacionais em que a Sociologia Histórica é
“vista mas não é ouvida” (HOBSON, 2002), por ser desautorizada tanto pelas teorias críticas
quanto por teorias mainstream das Relações Internacionais. A contribuição que a Sociologia
Histórica possibilita como teoria das Relações Internacionais ainda precisa ser considerada, e
é necessário que revisemos os avanços que esse método possibilitou, principalmente em
relação à incorporação de novas dimensões de análise a abordagens teóricas clássicas das
Relações Internacionais.
A Sociologia Histórica
A Sociologia Histórica, um ramo da Sociologia, surge do reencontro entre duas
disciplinas tradicionalmente separadas. Ela surge como reação à Sociologia “convencional”,
“que parecia ter se esquecido da história para limitar-se a analisar o presente como o único
possível e inevitável”1 (PASTOR, 2006 p.1). Enquanto a História se preocupa em construir
analises do concreto sem validez universal, a Sociologia privilegia a análise geral em busca de
regularidades. “Esse “novo método de análise, enfoque, ou disciplina” provém da
complementaridade interdisciplinar da História e da Sociologia. O exercício proposto pela
Sociologia Histórica é a análise das estruturas e processos sociais em grande escala e ao longo
do tempo. (TILLY, 1980a) “Mais concretamente, buscaria a interação entre ação e contexto
para compreender a evolução social e individual, as características de uma determinada
estrutura social e as mudanças que experimenta.” (GONZALES e PEÑAS, 2006 p.9).
1
Esta e demais citações constituem traduções livres da autora.
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De acordo com Charles Tilly, a Sociologia Histórica representava originalmente quase a
totalidade dos esforços da Sociologia. A separação da Sociologia da História se deu “tanto
através da abstração quanto da concretização: abstraindo processos sociais dos
constrangimentos do tempo e do espaço e concretizando a pesquisa social ao focar em uma
observação confiável do comportamento atualmente visível” (TILLY, 1980a p.55). O objetivo
seria chegar às “leis sociais universais” através da observação de fenômenos atuais de suas
próprias sociedades (TILLY, 2001). O autor define essa separação principalmente
influenciada pelo ramo norte-americano da Sociologia. Já na concepção de Peñas e Gonzales,
foi o incentivo do Estado ao fomentar o estudo da História Política, uma história baseada na
“sucessão cronológica de feitos, batalhas, pactos, acordos, que desautorizou o estudo da
história social”, que por final acabou por relegar o estudo da Sociologia ao estudo do
contemporâneo. Para Tilly, o afastamento dos sociólogos da História foi mais dramático entre
os seguidores de Durkheim ou de Mill, do que entre os seguidores de Weber ou Marx. Não é
por acaso, portanto, que a grande maioria dos comentários sobre a Sociologia Histórica
identifiquem nessas duas correntes clássicas de teoria da Sociologia - teorias marxistas e
weberianas - a principal inspiração para os trabalhos em Sociologia Histórica (HALLIDAY,
2002; PASTOR, 2006). Halliday identifica, inclusive, uma constante desde os trabalhos
clássicos de Marx e Weber até a produção da Sociologia Histórica recente: uma combinação
de “perspectiva histórica, totalidade social e análise da modernidade com análise do
internacional” (HALLIDAY, 2002 p.244).
A retomada do diálogo entre a Sociologia e a História se deu por parte dos sociólogos a
partir da rebelião a duas formas de ortodoxia, a de “grande teoria” e de “empirismo abstrato”,
que dominavam a sociologia nos anos 1960 (SKOCPOL, 1987). Os sociólogos interessados
no estudo da história reintroduziram a “variedade, o conflito e processos” em suas apreciações
da transformação social à partir de uma oposição à emergência de métodos e estudos
quantitativos e da atemporalidade e abstração das “grandes teorias” na Sociologia. Os
“sociólogos históricos” passam a empregar métodos típicos da historiografia para incluir
evidências referentes à dimensão da transformação em seus estudos. A percepção de Charles
Tilly, à época, demonstra o tom crítico da Sociologia Histórica (1980b). Para o autor, uma
teoria sociológica baseada na história, mesmo que inadequada, é mais útil do que uma das
teorias atemporais e sem “lugar” que prevaleciam.
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A formação de uma disciplina distinta chamada Sociologia Histórica só se deu quando
os sociólogos passaram a distinguir rigorosamente a observação direta do presente da
observação indireta do passado (TILLY, 2001 p.6753). Para Tilly (1980b), a Sociologia
Histórica desperta dois chamados. O primeiro, retrospectivo, consiste em “se perguntar como
o mundo em que vivemos veio a acontecer, e como essa vinda influencia as vidas das
pessoas” (p.679). O segundo chamado, prospectivo, consiste em identificar “o que poderia ter
acontecido à experiência em grandes pontos de escolha históricos, e se perguntar porque os
desfechos que realmente ocorreram venceram as outras possibilidades” (p. 679). Com essa
exposição, Tilly define que os nossos problemas do presente dependem, em parte, da noção
das alternativas possíveis para nosso mundo. Essas alternativas também são o que vai ajudar a
definir pontos de partida para a formulação de hipóteses sobre o passado. As teorias sociais
são, para Tilly, grandes inventários dos problemas do mundo contemporâneo para serem
usadas no modo de estudo retrospectivo, e são mapas com supostas direções para “onde a
vida social pode se mover a partir de determinado ponto” (p.680).
Para Michael Mann (1994) a Sociologia, a “ciência da sociedade, sendo ciência
conhecimento sistemático, uma metodologia sistemática para se alcançar alguma forma
generalista de conhecimento”, difere da História, que não persegue esse tipo de
conhecimento, embora também possa buscá-lo. Isso faz com que as duas disciplinas não
sejam idênticas e nem fundamentalmente diferentes. Na verdade elas se sobrepõe em seu
espaço comum, a Sociologia Histórica. Para o autor, a macro-sociologia, preocupada no
estudo de grandes processos e estruturas, sempre esteve preocupada com a trajetória histórica
desses fenômenos. Os estudos das origens dos fenômenos atuais como os Estados-nação ou o
Capitalismo são o foco principal da Sociologia Histórica desde suas origens. O título de um
dos trabalhos de Charles Tilly (apud PASTOR, 2006), “Grandes estruturas, processos
amplos, comparações enormes” reflete bem em que tipo de fenômeno está focada a
preocupação da Sociologia Histórica. O título sugere também o método histórico comparativo
como central para o Trabalho da Sociologia Histórica.
A Sociologia Histórica apresenta uma dupla preocupação proveniente dos dois campos
nos quais se origina. Busca conciliar a tendência ao “generalismo” da sociologia e a
respectiva tendência ao “particularismo” da história. A compreensão de dentro e a explicação
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de fora; a identificação de estruturas - natural aos sociólogos - e a percepção de mudança do
historiador (GONZALES e PEÑAS, 2006 p.8). De acordo com os autores, a Sociologia
Histórica parte da idéia de que o futuro está determinado pelas decisões do passado. Sendo
assim, as estruturas sociais do presente só podem ser explicadas à partir da análise histórica de
suas trajetórias. Em compensação, embora o passado seja determinante para o futuro, não o
determina totalmente. Essa percepção é crucial para o desenvolvimento da Sociologia
Histórica como um compromisso mútuo entre a História e a Sociologia. O exercício é olhar
para o passado com o conhecimento sobre as estruturas do presente em mente, para que seja
possível identificar sua formação e processo, e para que se possa identificar, na medida do
possível, a nossa própria capacidade de moldar o futuro.
A inclusão da dimensão histórica aos estudos não é ferramenta meramente analítica.
Halliday (2002) considera que a capacidade da Sociologia Histórica em revelar como
instituições e práticas foram formadas, possui um caráter crítico. Ao revelar as origens
históricas e sociais de formas de poder “de gênero, sociais, políticas ou até mesmo
acadêmicas” legitimadas como naturais ou inevitáveis, a Sociologia Histórica garante uma
abertura crítica a esses processos. O autor vai além ao afirmar que a Sociologia Histórica
possui “caráter emancipatório, ao desnaturalizar o que é considerado, em determinado
contexto, como natural”. Além disso podemos depurar das visões aqui observadas, que o grau
de voluntarismo dos agentes considerado pela Sociologia Histórica, ou seja, a noção de que o
futuro é constrangido mas não plenamente determinado pelo passado, deixa espaço para que
as descobertas sejam usadas no sentido de mudar o futuro, na medida do possível, de acordo
com o aprendizado.
É necessário também apontar as limitações à Sociologia Histórica destacados nos textos
em questão. Skocpol (apud GONZALES e PEÑAS, 2006) , por exemplo, enumera três
limitações básicas dos métodos histórico-comparativos empregados na Sociologia Histórica.
Em primeiro lugar, “a impossibilidade de abarcar todas as variáveis causais de um caso a
analisar, dificulta sua comparação com outros similares”. Segundo, “pressupõe que todas as
variáveis a analisar são independentes, quando é pouco provável que realmente o sejam”.
Terceiro, “depende da teoria macrossociológica e da história para definir quais casos são
pertinentes para o estudo”. Os autores Peñas e Gonzales, no entanto, identificam nessas
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limitações também vantagens. Essas limitações influem para que se faça uma reflexão
constante a respeito dos objetos de estudo no sentido de uma crítica construtiva e não um
revisionismo relativista. A Sociologia Histórica mantém espaço para autocrítica, e talvez
também por esse motivo seja espaço privilegiado para a manifestação de uma
heterogeneidade de abordagens teóricas. Embora o método analítico histórico comparativo da
Sociologia Histórica seja imperativamente marxista e weberiano (PASTOR, 2006), existe
abertura para que diferentes teorias sociológicas induzam qual o tipo de olhar em direção ao
passado e qual tipo de estruturas e processos serão privilegiados aos se olhar para o passado.
Nesse sentido, podemos perceber o espaço propício para a incorporação do método às
diferentes perspectivas de análise das Relações Internacionais.
O desafio e a resposta da Sociologia Histórica às Relações Internacionais
Há algumas décadas a Sociologia Histórica e as Relações Internacionais se aproximam,
com cada vez mais intensidade. Desde finais da década de 70, a Sociologia Histórica se move
em direção às Relações Internacionais e desde o começo dos anos 80 as Relações
Internacionais se aproximam da Sociologia Histórica. Esse movimento ganhou força nos anos
80 e 90, principalmente com o crescente interesse de estudiosos das Relações Internacionais
em reforçar e reconfigurar a disciplina (HOBSON, 2002). Esse movimento de aproximação
foi causado, pelo lado da Sociologia Histórica, por uma crescente retomada do interesse pelo
estudo do Estado e pelo lado das Relações Internacionais por um interesse da disciplina em
problematizar o enfoque realista do estado como independente da história e de processos
sociais (SKOCPOL, 2002; PASTOR, 2006). John Hobson (1998a) identifica duas ondas de
Sociologia Histórica Weberiana, a primeira, anterior à aproximação com as teorias de
Relações Internacionais de fato, representada por autores clássicos da Sociologia Histórica
como Charles Tilly e Theda Skocpol, preocupada em analisar as mudanças sociais trazendo a
dimensão internacional, mas presa à concepções realistas do internacional. E a segunda
preocupada em perceber também as mudanças internacionais, e preocupada em produzir uma
teoria não realista das transformações nacionais e internacionais.
George Lawson (2006) diz que o movimento da disciplina Relações Internacionais em
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duas direções distintas contribuiu para o crescente interesse dos teóricos no método da
Sociologia Histórica. Em primeiro lugar, um movimento em direção à Sociologia, pela
crescente importância desta dentro dos estudos construtivistas. Também um movimento de
retorno à História, impulsionado pela “emergência do realismo neoclássico e o ressurgimento
da Escola Inglesa” (p.2). O autor acredita que esses dois movimentos tenham sido cruciais
para a criação das bases para que prosperasse “uma das principais subdisciplinas da
Sociologia, a Sociologia Histórica. O nexo entre as Relações Internacionais e a Sociologia
Histórica teve frutos abundantes, mas embora tenha sido formalmente reconhecida, ainda é
minoritária dentro da disciplina” (p.12). Lawson (2006) acredita que a Sociologia Histórica
abriga em seu universo tanto concepções clássicas das Relações Internacionais, mais
precisamente o realismo, mas também autores liberais, como concepções críticas, ou pósmodernas, que desafiam esses mesmos princípios clássicos.
A dupla presença da dimensão dos questionamentos críticos e da dimensão das
concepções clássicas das Relações Internacionais dentro da Sociologia Histórica pode ser
considerada tanto em relação ao contexto no qual as duas disciplinas se aproximaram, quanto
ao alcance do método da Sociologia Histórica. Os “sociólogos históricos” clássicos, como
Charles Tilly ou Theda Skocpol não tinham uma preocupação central com questões das
teorias de Relações Internacionais, e não levaram em conta os avanços pelos quais passava a
teoria. Pelo contrário, sua concepção do internacional é baseada em alguns preceitos realistas,
mas sem dedicação exaustiva (HOBSON, 2002; LAWSON, 2006). Quando apropriado pelos
teóricos preocupados com as Relações Internacionais aqui tratados, essa concepção do
internacional foi logo alvo de críticas, mas deixou aberto espaço para que se desenvolvessem
paralelamente, trabalhos de Sociologia Histórica focados nas concepções realistas do
internacional, quanto em teorias críticas. Os próprios Tilly, Skocpol e posteriormente Michael
Mann, mesmo depois de iniciados os questionamentos por uma teoria crítica de Relações
Internacionais dentro da Sociologia Histórica, não abandonaram sua leitura “realista” ou
“proto-realista” do internacional. Esse fenômeno pode ter se dado também pela falta de
dialogo entre as RIs e as demais ciências sociais, muito pouco sensíveis aos avanços
específicos da disciplina. (HOBSON, LAWSON, ROSEMBERG, 2010)
John Hobson (2002) afirma que as Relações Internacionais enfrentam dois problemas
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básicos pela falta de História e Sociologia em seus estudos. O autor dá a esses dois problemas
o nome de “cronofetichismo” e “tempocentrismo”. O problema do “cronofetichismo” é a
suposição de que o “presente pode ser adequadamente explicado apenas examinando o
presente” (HOBSON, 2002 p.6). Daí teriam surgido três ilusões prejudiciais ao estudo das
Relações Internacionais. Primeiro, de que o presente seja isolado do passado, sendo assim
estático e autônomo de seu contexto histórico-social. Segundo, a naturalização do presente,
que surge espontaneamente, sem levar em conta processos de poder identidade e exclusão
sociais. E terceiro, a imutabilidade do presente, que é eternizado por ser natural e resistente à
mudanças, de forma a que seja impossível levar em conta os processos de mudança que o
reconstituem. Hobson (2002) demonstra como cada uma dessas ilusões se manifesta nas
“correntes dominantes” de Relações Internacionais. De acordo com o autor, Kenneth Waltz
(2002; 2004) – autor cujos trabalhos paradigmáticos publicados respectivamente em 1959 e
1979 foram centrais para a construção da visão (neo)realista das Relações Internacionais assume que o Sistema Internacional “emerge espontaneamente das conseqüências
involuntárias das relações entre os Estados”, e que o Estado é a forma superior de
organização política, pela impossibilidade de se criar uma forma de governo global. Para os
liberais das Relações Internacionais, o Estado democrático moderno e o capitalismo liberal
são formas superiores de expressão política e econômica porque refletem melhor os “impulsos
da natureza humana”, nas palavras de Adam Smith. O autor ainda destaca que ambas as
teorias deixam de considerar a possibilidade de transformação do presente: O Liberalismo representado, entre outros, por Francis Fukuyama - por considerar que através da democracia
e do capitalismo a história atingiu seu término. E o Realismo – representado, entre outros, por
Waltz - ao considerar que nenhuma mudança estrutural é possível, pois é impossível que um
Estado possa criar uma hierarquia no Sistema Internacional, e que o equilíbrio de poder
sempre existiu e sempre existirá (HOBSON, 2002 pp. 7-9).
O “cronofetichismo” leva à um segundo problema, o chamado “tempocentrismo”,
método pelo qual os teóricos olham para o passado através das “lentes do presente.” Através
desse método se olha para o passado à procura de traços do presente, chegando-se à inevitável
conclusão de que a história se repete e mantém os mesmo padrões. Hobson (2002), citando
Gilpin e Waltz como representantes do Neorealismo, elenca uma série de exemplos de como
os fenômenos do presente são identificados por semelhança com outros do passado. As
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conclusões são, por exemplo, de que nada muda na história em função da “constante presença
da anarquia” (Waltz, 2002) ou que a história “repete ciclos de hegemonias, com a única
diferença sendo qual a potência em ascensão ou declínio” (Gilpin, 1981). A história teria
servido, enfim, nas concepções “tempocêntricas” das Relações Internacionais, apenas como o
“laboratório onde as generalizações a respeito da política internacional podem ser testadas”
(HOBSON, 2002 p.5).
Hobson (2002) demonstra que cada um desses problemas pode ser solucionado pela
Sociologia Histórica. Para o chamado “cronofetichismo”, o estudo da Sociologia Histórica
oferece uma solução por ser capaz de demonstrar que o presente é um “construto maleável,
mergulhado em um contexto sócio-temporal”. Também pode apontar as relações de poder que
fizeram surgir as condições para a construção do presente. É ainda capaz de perceber os
processos de transformação que reconstituem as instituições e as práticas do presente. A
maior virtude do método da Sociologia Histórica, para Hobson, no entanto, é a capacidade de
demonstrar as diferenças fundamentais entre “os sistemas e instituições do passado e do
presente e assim demonstrar as características únicas que constituem o presente”. A
Sociologia Histórica oferece, portanto, uma forma de evitar o “tempocentrismo” característico
das teorias dominantes das Relações Internacionais (HOBSON, 2002 p.9). Charles Tilly
(1995) faz referências aos mesmo problemas a respeito das teorias que buscam sempre
identificar novos acontecimentos com ciclos de repetição histórica. O vício das teorias
criticadas por Tilly é o de buscar não as características únicas de cada situação, mas sempre
tentar encaixar uma nova situação a algum modelo já estabelecido, que segundo o próprio
autor, pode já ter sido forçado a “caber” em uma série de outros casos.
Os problemas levantados por Hobson (2002) são, de certa maneira, os mesmos
problemas que afastaram a Sociologia da História na ruptura descrita por Tilly (1980a). As
Relações Internacionais, ao desenvolver teorias “cronofetichistas” e “tempocêntricas”,
reproduziram a pressuposição problemática da Sociologia de que esta era uma ciência
“explanatória e generalista” enquanto que a História é uma ciência “descritiva e
particularista, que se presta apenas a fornecer material bruto para os sociólogos” (TILLY,
2001 p.6753). O que Hobson manifesta como necessário para a disciplina de Relações
Internacionais foi, também, o mesmo que despertou a reaproximação da Sociologia com a
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História. Sua preocupação é uma reprodução do dilema despertado pela cisão entre a História
e a Sociologia. A Sociologia, preocupada em responder a questões da atualidade e em
formular teorias universalistas, encontrou-se presa aos mesmos problemas de alienação do
processo histórico identificados por Hobson em sua apreciação das teorias mainstream de
Relações Internacionais. O chamado da necessidade de se retornar ao estudo da história na
disciplina de Relações Internacionais é exatamente uma resposta a esses problemas.
É interessante notar que se considerarmos a história das disciplinas de Relações
Internacionais e Sociologia comparativamente, podemos identificar o paralelismo entre os
processos de isolamento da dimensão histórica para fins de consolidação de uma teoria
“positivista”. Os autores aqui tratados que defendem um incremento do estudo das Relações
Internacionais através de uma aproximação com a Sociologia Histórica identificam no
principio da disciplina uma preocupação histórica que foi perdendo força à medida que a
ambição do estudo se tornava a criação de teorias generalistas. Tanto Halliday (2002), quanto
Hobson (2002) identificam no trabalho pioneiro de Edward Carr (2003), publicado em 1939 e
considerado pelos autores como o primeiro clássico da disciplina das Relações Internacionais,
um profundo compromisso com o estudo da história. A cisão com relação à história e a
alienação dos fenômenos estudados de sua dimensão histórica culmina, de acordo com
Hobson (2002), com o chamado debate “Neo-Neo”, quando a disciplina de Relações
Internacionais se mobiliza em torno dos debates entre as teorias Neorealistas e Neoliberais.
Não é sem razão que as críticas de Hobson focalizem principalmente no trabalho de Kenneth
Waltz (2002; 2004), principal expoente do Neorealismo. Este momento, em que se constitui o
mainstream das Relações Internacionais, seria excessivamente pautado pelo que o autor
chamou de “tempocentrismo”. Embora as Relações Internacionais tenham chegado a esse
ponto algumas décadas depois do que a Sociologia, ambas receberam crítica e resposta da
Sociologia Histórica para essa questão (SKOCPOL, 1987; TILLY, 2001).
Para além da problematização epistemológica
As questões suscitadas pela discussão sobre as capacidades das Relações Internacionais
e limitações das teorias do que hoje se considera o mainstream da disciplina acabaram por
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levantar uma série de questões relativas aos pressupostos que em diversos casos são básicos
ao desenvolvimento das teorias. Uma das questões recorrentes e fundamentais nos estudos da
Sociologia Histórica é o lugar do Estado nas análises. Nesse âmbito é possível identificar
contribuições valiosas da Sociologia Histórica para as análises das Relações Internacionais.
Uma dimensão interessante de ser observada é a dependência da existência do Estado aos
processos sociais que o originam e o transformam. A Sociologia Histórica contribui para a
discussão das Relações Internacionais por sua capacidade de compreensão do Estado não
como dado, mas como fruto de um processo histórico-social.
Fred Halliday (2002) destaca o fato de que a capacidade de “desnaturalização” dos
processos sociais da Sociologia Histórica deu um resultado crucial para as análises sociais: “a
remoção do mito da “sociedade limitada”. A consideração de que uma sociedade está
necessariamente ancorada ao seu espaço nacional impede que a influência internacional seja
incorporada à análise. Ao considerar a sociedade como um sistema fechado dentro do espaço
de seu Estado-nação “correspondente”, fica inevitável a distinção fundamental entre os
processos nacionais e internacionais dentro dessa sociedade. A influência internacional em
processos e comportamentos sociais, se considerada dentro do paradigma nacionalista, é
sempre uma espécie de “intrusão” a um sistema fechado. Halliday destaca que ao
considerarmos o internacional não como um intruso no sistema social nacional, mas como
“participando de sua constituição” poderíamos chegar à conclusões “éticas e analíticas”
diversas a respeito dessas sociedades. O Estado, baseado na estrutura social da qual se
origina, poderia ser afetado apenas por processos internos a seu espaço. A proposição da
Sociologia Histórica permite que sejam considerados os processos internacionais também
como indutores da mudança do Estado, pois estão em diálogo direto com a sociedade “base”
dos Estados. Esse tipo de percepção pode ser crucial ao estudo de fenômenos transnacionais
que de alguma forma vão além das fronteiras do Estado, ou em situações em que a
segmentação do grupo social não está representada necessariamente pelos limites do Estado.
Essa percepção é fundamental, segundo Halliday, para questões de economia internacional ou
para estudos ambientais, por exemplo.
A Sociologia Histórica apresenta uma dupla promessa, internacional e histórica. De
acordo com Fred Halliday (2002), o estudo da história das relações sociais, desde autores
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como Marx e Weber, sempre se preocupou não apenas com o Estado, mas também com
outros aspectos da vida social como “a família, economia, cultura, poder e movimentos
sociais”. Também se envolveu nos estudos dos fenômenos internacionais e transnacionais
como “impérios, guerras, espaços geográficos, regiões e a relação entre a sociedade humana
e o ambiente”. Um segundo passo da Sociologia Histórica, crucial para sua aproximação às
Relações Internacionais, no entanto, é a recuperação do interesse em identificar a real
extensão da autonomia do Estado de seus processos sociais, e identificar a atuação do Estado
não só ligada à sua estrutura social, mas também à sua relação com a dimensão internacional.
Nesse ponto existe uma ambigüidade nos trabalhos da chamada Sociologia Histórica, pois
existem tanto trabalhos que, de acordo com as concepções de Halliday (2007), passam a
privilegiar outros aspectos da vida social para além do Estado, quanto trabalhos que, no final
das contas, passam a reproduzir a concepção do Estado como entidade autônoma dos
processos sociais. O próprio Halliday considera que a colocação de Kenneth Waltz (2002) de
que o sistema internacional constrange o comportamento dos Estados não é descabido, mas
que não se pode limitar a análise a isso. Halliday faz questão de destacar tanto os pontos que
são valiosos da teoria estrutural de Waltz quanto as fraquezas epistemológicas e ontológicas
de sua concepção.
Nesse sentido é interessante considerarmos o trabalho de Michael Mann (2006). O autor
identifica que a maioria das teorias sobre o Estado, “marxista, liberal e funcionalista”, são
reducionistas. Para o autor, a maioria das teorias consideram o Estado como uma arena onde
as “lutas de classes, grupos de interesse e indivíduos se expressam e se institucionalizam”. O
autor problematiza o fato de que essas teorias não atribuem qualquer autonomia ao Estado,e
não consideram sua dimensão internacional. O autor identifica uma teoria do Estado
bidimensional, que considera sua configuração interna, baseada nas estruturas de classes e
externa, baseada em suas relações com o mundo, principalmente baseadas em relações
militares. Hobson (1998a) cria um quadro parecido, em que ele considera que o poder do
Estado está sim ligado às classes sociais, mas que o próprio Estado também detém um certo
poder autônomo em relação à sua sociedade, o que o faz um ator diferenciado para as
análises. O Estado é uma entidade ligada aos interesses das classes dominantes, mas possui
também um poder independente dessa classe, que pode se opor a essa ou se aliar a outras.
Essas duas perspectivas se esforçam em considerar tanto a construção histórico-social do
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Estado quanto uma autonomia do Estado, autonomia esta que resultou, por exemplo, nas
generalizações das teorias realistas. Os autores operam com essa ambigüidade exatamente
para considerar tanto o caráter particular e transitório de cada Estado, como sua centralidade
nas análises. Nesse âmbito podemos esperar tanto uma construção voltada para a Sociologia,
baseada no caso dos autores em estruturas de classes, quanto uma construção inspirada nas
teorias de Relações Internacionais, no caso de Michael Mann, realistas.
O desenvolvimento dos estudos da Sociologia Histórica surgiram nas Relações
Internacionais junto com o desenvolvimento de outras correntes de teorias críticas às tradições
clássicas, num momento de crescente diálogo interdisciplinar. Desse momento, herdou-se
uma “vontade” de fundar uma teoria alternativa do internacional dentro da Sociologia
Histórica, como vemos em Hobson (1998b). A Sociologia Histórica compartilha algumas
tendências com outras teorias críticas, como a superação do estatocentrismo, a incorporação
da dimensão sociocultural e uma concepção mais global e menos fragmentada do mundo. Em
compensação a Sociologia Histórica parece responder às carências explicativas das teorias
mainstream não no ímpeto de negá-las, mas muitas vezes com um esforço de
complementaridade, incorporando a dimensão social e as relações entre as dimensões
nacionais e internacionais à construção das análises (GONZALES E PEÑAS, 2006).
Poderíamos considerar que a Sociologia Histórica responde ao problema do estatocentrismo
por uma questão de lógica interna do método, já que o Estado não pode ser separado de seu
contexto e de sua “base” social, mas traz o Estado de volta ao centro do debate por reconhecer
que este é um dos fatores determinantes de nossa sociedade atual (TILLY,1992; 2001).
É interessante que notemos a crítica de Skocpol (1987) à Sociologia Histórica em sua
dimensão estatocêntrica. Mesmo levando-se em conta que a Sociologia Histórica abre espaço
para análises não centradas na limitação do estado-nação, muitos “sociólogos históricos”
reificaram os Estados-nação como as arenas de pesquisa. Mesmo com a possibilidade de ir
além da análise estatocêntrica, os analistas privilegiam essa delimitação, reproduzindo o
conhecimento que possivelmente pudessem ambicionar modificar. Nesse sentido a Sociologia
Histórica reproduziu o que para muitos dos defensores desse método deveria ser considerada
uma de suas características críticas mais fortes. Como veremos a seguir, este pode ser também
considerado um ponto forte diferenciador da Sociologia Histórica de outras “escolas críticas”
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ou abordagens alternativas. O método da Sociologia Histórica não pressupõe qual o teor da
teoria que será empregada para cada uma das dimensões estudadas, mas sim alguns traços
metodológicos em comum.
A sugestão de Charles Tilly (1992) para a compreensão da guerra na história, por
exemplo, parte das considerações a respeito de cinco dimensões. São elas: “os Estados, as
relações entre os Estados, a política doméstica, a organização militar e o ambiente
econômico” (p.188). Tilly faz questão de lembrar a importância de se observar principalmente
as relações entre essas dimensões. O interessante da visão de Tilly é que o autor une a uma
apreciação tradicional realista, que considera o Estado e as relações entre os Estados como
determinantes para um conflito, duas dimensões “sociais”. Uma interna, a política doméstica,
e uma dimensão internacional, o ambiente econômico. Com isso, o autor não deixa de
considerar o conhecimento já construído a respeito dos conflitos internacionais, mas relativiza
esse conhecimento colocando como cruciais os desenhos sociais internos, e a configuração da
economia mundial, e em seu trabalho mais especificamente, o peso do capitalismo.
Se pensarmos dessa forma podemos observar reproduzida a concepção de Mann, de que
precisamos considerar o Estado, por exemplo, tanto em sua dimensão autônoma internacional,
a visão corrente do mainstream das Relações Internacionais, quanto como ancorado na
sociedade que está definida em seu espaço. Fica claro, no pensamento de autores como Mann,
o espaço privilegiado dentro da Sociologia Histórica para a incorporação das teorias de
Relações Internacionais. Ao lermos Halliday (2002), Hobson (2002) ou Rosemberg (2006)
percebemos a preocupação que esses autores manifestam a respeito da falta de profundidade
que as análises das Relações Internacionais tem, por exemplo, nos trabalhos de Sociologia
Histórica clássicos de Mann, Tilly ou Skocpol. As concepções da dimensão internacional
desses autores parecem sempre ser representações rústicas do realismo, de acordo com
Rosemberg. Trabalhos de uma complexidade analítica incrível, considerando longos períodos
e múltiplas dimensões sociais acabam por ficar limitados por sua falta de habilidade ao lidar
com a dimensão internacional. Como resposta a esse problema, existem desde os mais
radicais, como Hobson (1998a), que crêem que os trabalhos de Tilly e Mann, por exemplo,
são de certa forma inadequados por se limitarem a visões presas à centralidade do Estado. Já
outros autores, como Pastor (2006) atribuem valor aos estudos que conseguem concatenar
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concepções clássicas das Relações Internacionais com análises sociais mais profundas, que
possam dar perspectiva aos fenômenos estudados.
A Sociologia Histórica, por mais que proponha que os fenômenos modernos sejam
observados através de uma perspectiva histórica, não propõe necessariamente que seja
abandonado qualquer conhecimento gerado sobre esses fenômenos, mesmo que esse
conhecimento tenha sido gerado a partir de produção com ambição positivista alienada da
história. Dessa forma, é possível que tenhamos, por exemplo, autores realistas ou liberais da
Sociologia Histórica. O paradigma dentro do qual o autor estará inserido depende menos de
sua filiação à Sociologia Histórica, e mais da espécie de análise que será levada a cabo.
Halliday (2007) defende que a Sociologia Histórica, ao fazer uma reavaliação crítica das
categorias políticas centrais das Relações Internacionais é “representada por uma maior
proximidade e interação com os processos e fatos históricos, algo que os pós-modernistas
parecem não ser capazes de igualar, buscando freneticamente a próxima transformação, a
densidade textual ou a disseminação” (pp.56-57). A Sociologia Histórica pode ser, portanto,
uma arena privilegiada, onde fica possível a aplicação de teorias das Relações Internacionais,
sem deixar de considerar as apreciações críticas relacionadas à identificação das origens dos
processos analisados. A própria heterogeneidade do corpo de “produtos” derivados da
Sociologia Histórica demonstra sua capacidade de incorporar diferentes visões.
O fato de a Sociologia Histórica nascer de um debate interdisciplinar também privilegia
a incorporação de considerações de ainda mais disciplinas. Vimos como Tilly, por exemplo,
ao propor seu estudo histórico das guerras, faz questão de levar em conta tanto características
econômicas quanto sócio-culturais em sua análise. As teorias que Tilly utiliza para enquadrar
essas categorias não são fixas. O próprio Tilly (1992), em seu artigo, se surpreende ao dizer
que encontrou respostas interessantes ao seu problema em teorias do “Sistema-Mundo”, que
levam em conta a influência do capitalismo em escala global nas relações entre os estados. A
inclusão da Sociologia Histórica às Relações Internacionais possibilita, ao mesmo tempo, que
se leve em conta os processos sociais e econômicos internos e internacionais, a
contextualização histórica dos fenômenos tratados, uma parcial autonomia do Estado, que
permite que tratemos com atenção sua dimensão internacional, e uma capacidade de
relativizar o próprio conhecimento produzido através de sua dimensão histórica.
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Conclusão
A Sociologia Histórica apresenta uma capacidade crítica e emancipatória cada vez mais
exigida nas análises de Relações Internacionais. Embora existam diversas outras fontes de
apreciação crítica ao mainstream da disciplina, a Sociologia Histórica parece apresentar uma
característica muitas vezes ausente em outras abordagens críticas. A Sociologia Histórica, por
ser mais do que uma disciplina, um método de análise, ou um enfoque, permite que sejam
incorporados noções ou percepções de paradigmas concorrentes. Nesse sentido, é interessante
notarmos que autores “sociólogos históricos” podem ser identificados observando o
internacional tanto a partir de teorias realistas, como de teorias liberais ou marxistas. Talvez a
grande vantagem da capacidade crítica da Sociologia Histórica seja a possibilidade de
aproveitar avanços já alcançados nos estudos dentro de um determinado corpo teórico para ir
além nas análises. Isso quer dizer que o fato de colocar em perspectiva, por exemplo, o
Estado, identificando os processos e o contexto que possibilitaram a sua criação e seu
desenvolvimento, não impede que se aproveitem os avanços obtidos pelo estudo do
comportamento desses Estados em âmbito internacional, ou que se exclua o vocabulário
específico dessa área de estudo em benefício da crítica.
A Sociologia Histórica talvez se insira melhor nos estudos das Relações Internacionais
como uma abordagem alternativa do que como uma “escola crítica”. A Sociologia Histórica
reflete, mesmo que atenuado pela incorporação de dimensão relativista, uma vontade em criar
teorias que possuam valor explicativo objetivo. Mesmo assim, a Sociologia Histórica deve ser
considerada não como parte de um paradigma concorrente ao do mainstream da disciplina ou
como parte desse. A Sociologia Histórica, pelo contrário, é uma facilitadora da inclusão dos
estudos internacionais ao corpo dos estudos sociais, por permitir que questões internacionais
sejam consideradas para além das realidades nacionais limitadas,
e por outro lado, um
incremento à perspectivas teóricas das Relações Internacionais, por permitir a identificação
das origens dos fenômenos estudados sem necessariamente abrir mão dos avanços alcançados
pelos debates dessa área. A Sociologia Histórica surpreende por sua capacidade de, ao mesmo
tempo, permitir um retorno à questões clássicas das Relações Internacionais por seu renovado
interesse no estudo dos Estados e de suas relações, quanto à abordagem de questões críticas
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que se tornaram, de certa forma, um dos requisitos para grande parte dos trabalhos na
disciplina.
A História e a Sociologia já fazem parte dos estudos das Relações Internacionais há
algum tempo, sendo que alguns autores identificam a presença dessa preocupação nas origens
da disciplina. Seria interessante um trabalho que sintetizasse os avanços possibilitados pela
Sociologia Histórica não no sentido de desautorizar esse conhecimento produzido, por ser
subsidiário de teorias realistas, mas sim de considerar a força da heterogeneidade dessa área
do conhecimento. São raros os trabalhos que não clamem por uma refundação da teoria de
Relações Internacionais através do olhar Histórico. A capacidade de dar profundidade a
análises que foram desautorizadas por críticos por seus problemas ontológicos e
epistemológicos, e de reaproveitar essas teorias, que possuíram grande valor explicativo, pode
ser assustador para o corpo de estudos críticos que se focaram na negação dessas teorias. Pode
ser, por outro lado, um caminho possível para a superação da fragmentação da disciplina, e a
falta de diálogo entre diferentes paradigmas, que segundo Peñas e Gonzales (2006), é
responsável por uma crise na disciplina de Relações Internacionais.
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