Resenha Crítica ____________________________________________________________ Pela institucionalização da sociologia do conhecimento, da ciência e do conhecimento científico no Brasil RODRIGUES, Léo Peixoto. Introdução à sociologia do conhecimento, da ciência e do conhecimento científico. Passo Fundo: UPF Editora, 2005, vol.1, 143 p. Fabrício Monteiro Neves Mestre em Políticas Sociais – PGPS-UENF Doutorando em Sociologia pela UFRGS Geralmente, as introduções têm por finalidade a exposição básica de determinados temas que estiveram presentes durante grande parte da história institucional do concernente campo de estudo. Às vezes, também, introduções vão além e buscam discutir tais temas, à luz de conhecimentos novos que ainda não encontraram um distanciamento temporal suficiente a ponto de serem reconhecidos como novas contribuições. Estas duas possibilidades representam níveis de institucionalização diferentes do campo: à primeira corresponde um nível ainda primordial e pouco desenvolvido, comumente se resume a uma argumentação histórica, ao segundo está ligada uma discussão aprofundada nos temas fundamentais do campo. No Brasil, poucos são os campos na sociologia que permitiriam um estudo introdutório avançado já que a disciplina aqui ficou condicionada ao conhecimento de problemas concretos e à questão da identidade da sociedade brasileira, levando algumas áreas a pouca institucionalização. Agenda Social. Revista do PPGPS / UENF. Campos dos Goytacazes, v.2, n.3, out-dez / 2008, p.140-145, ISSN 1981-9862 141 Fabrício Monteiro Neves Talvez, a sociologia da ciência (contemporaneamente, Science Studies) seja o caso mais notório desta ausência de institucionalização. Por isso, uma introdução de primeiro tipo é oportuna, este é o caso de Introdução à sociologia do conhecimento, da ciência e do conhecimento científico, de Léo Peixoto. Vejamos, assumindo os critérios de diferenciação do próprio autor, como estão as subdivisões deste campo em termos institucionais no Brasil. A sociologia institucional da ciência, que se atribui a Robert K. Merton sua sistematização, foi a que mais se desenvolveu e continua tendo sua relevância acadêmica mediante estudos das instituições científicas que aqui se desenvolveram e a relação desta com a estrutura social. Tal vertente sociológica, inclusive, gerou alguns livros clássicos para a sociologia nacional 1. Porém, os frutos destas tentativas exemplares não superaram aqueles limites temáticos primordiais, concentrando-se em áreas como políticas científicas e tecnológicas, cientometria e história das instituições científicas. Como, em Merton, estes estudos tinham por objetivo “identificar e explicar as condições sociais, políticas e culturais em que a ciência, possuidora de um valor autônomo em si e como instituição social, apresentava maior ou menor possibilidade de se desenvolver” (Peixoto, 2005, p. 97), aqui, esta temática concentrou-se no estudo da ciência como elemento de progresso, bem ao gosto de uma teoria do desenvolvimento. O problema é que estes estudos desencorajaram uma ampliação do campo de pesquisa, o que prejudicou o deslocamento dos estudos sociológicos da ciência da instituição para o produto, o próprio conteúdo do conhecimento. Porque há provavelmente pouco a conhecer e narrar em relação à história das idéias originais e próprias ou dos impactos realmente significativos da ciência sobre a sociedade e economia, em contextos em que a atividade científica sempre teve uma importância e uma prioridade relativamente marginal; mas há certamente muito a contar e a entender a respeito dos esforços de estabelecer uma ciência normal, um sistema Agenda Social. v.2 , n.3, out-dez / 2008, p.140-145, ISSN 1981-9862 Pela institucionalização da sociologia do conhecimento, 142 da ciência e do conhecimento científico no Brasil universitário moderno e uma capacidade de participar de maneira efetiva, ainda que não central, das fronteiras contemporâneas do conhecimento. É a história deste esforço, com seus sucessos e fracassos, que necessita ser contada e entendida (Schwartzman, 1979, p 8). A citação acima é exemplar da própria história da sociologia da ciência ou do conhecimento. Ela reproduz a dicotomia básica relativa ao objeto a se estudar, bifurcando-o entre a concentração no conhecimento - na construção das idéias - ou na instituição. É, nesse sentido, que mais uma vez se torna oportuna uma Introdução que tenha como parte considerável os estudos sociológicos do conhecimento. Afinal, já que pouco se fez para o desenvolvimento deste campo por aqui, uma introdução é mais apropriada. Tais estudos são mais genéricos que os primeiros e apresentam uma natureza mais diluída, menos específica, já que pensar sobre a natureza do conhecimento é mais corriqueiro na história da sociologia, como mostra o autor ao tratar de três autores não necessariamente vinculados à sociologia do conhecimento, a saber, Marx, Weber e Durkheim. Estes autores, junto com a sociologia do conhecimento de matriz fenomenológica, através de Thomas Luckmann e Peter Berger, e a influência de Karl Mannheim na formação da elite intelectual nacional, tiveram maior penetração por aqui, ainda que timidamente pelo lado de uma sociologia do conhecimento. Por isso, a Introdução de Peixoto justifica-se fracamente no tratamento destas vertentes sociológicas, a não ser que se observe o enquadramento das mesmas por uma questão histórico-referencial, para contrastar com vertentes mais contemporâneas dos estudos sociais da ciência. Os estudos clássicos do conhecimento tinham vieses mais epistemológicos autoimplicativos ou, quando não, restringiam suas análises a esferas como a religião, as Agenda Social. v.2 , n.3, out-dez / 2008, p.140-145, ISSN 1981-9862 143 Fabrício Monteiro Neves idéias políticas, as normas jurídicas e ao conhecimento cotidiano. E a ciência? Seria o conhecimento científico passível de abordagem sociológica? O século 20 respondeu positivamente a esta pergunta e, em seu fim, floresceram perspectivas que tentaram tratar sociologicamente a construção do conhecimento científico. Deve-se este encorajamento a Thomas Kuhn 2, embora anteriormente autores como Georges Canguilhem e Ludwick Fleck já tinham deslocado a base analítica da lógica, racionalidade e linguagem (ou seja, da perspectiva internalista) para a sociedade (perspectiva externalista). A década de 1970 foi promissora no que tange ao tratamento do conhecimento científico pela sociologia, seja pela carta-manifesto Knowledge and social imagery por David Bloor, sejam pelos estudos etnográficos de laboratório por Karin Knorr-Cetina, Bruno Latour e Steve Woolgar. Decorre desses estudos uma ciência menos isolada das influências sociais e mais próximas de processos como interesses e conflitos, uma ciência contextualmente construída, fundamentalmente dependente de estratégias retóricas para a legitimação do fato científico: este foi o mérito das diversas vertentes que se seguiram àqueles trabalhos pioneiros. Na Introdução, como argumento no começo do texto, seria mais importante se concentrar nesta modalidade de estudos sociais da ciência, já que a penetração na sociologia brasileira foi nula 3. Mas, o autor reserva poucas páginas a tais abordagens, correndo o risco de introduzir questões já devidamente discutidas aqui, o que poderia, então, exigir um estudo mais sistemático. Ficam de fora, por exemplo, os programas de pesquisa da década de 1980 como a escola de Bath e seu Programa Empírico do Relativismo (EPOR – Empirical Programme of Relativism) 4 ou a Construção Social da Tecnologia (SCOT – Social Consturction of Technology), programas que se concentravam nos estudos de controvérsias científicas e tecnológicas. De qualquer forma, tais estudos são continuações dos objetivos inaugurais desta nova modalidade de sociologia, extensões aprofundadas das discussões tratadas no livro de Peixoto. Uma Agenda Social. v.2 , n.3, out-dez / 2008, p.140-145, ISSN 1981-9862 Pela institucionalização da sociologia do conhecimento, 144 da ciência e do conhecimento científico no Brasil outra ausência na Introdução foi o racha interno, entre Bloor e Latour, por exemplo, e externo, causado pelo caso Sokal, onde se verifica novas bifurcações ontológicas e epistemológicas nos estudos, como realistas vs. construtivistas, controvérsias circunscritas aos anos 1990 e que ficaram conhecidas como Science Wars. Bem, ainda que atrasado, seria desejável que se desenvolvesse mais no Brasil a sociologia do conhecimento científico, principalmente pelo fato de emergir conhecimentos científicos novos por aqui ou ainda pela maior transferência de conhecimento e tecnologia, sobre os quais, seus conteúdos, se conhece pouco. As conseqüências não premeditadas e os riscos da ciência e tecnologia já são notórios, inclusive para a opinião pública, haja vista a discussão da Lei de Biossegurança. Mais do que informar sobre a instituição, o laboratório e o cientista que construíram aquele fato, vale descortinar os interesses, conflitos e controvérsias que o formatou no intercurso de sua cristalização. A Introdução de Peixoto conduz até esta discussão, falta levá-la à frente. Referências Bibliográficas COLLINS, H.; PINCH, T. O Golen: O que você deveria saber sobre ciência, São Paulo: UNESP, 2003. MOREL, Regina L. Ciência e Estado: A política científica no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979. SCHWARTZMAN, S. A formação da comunidade científica no Brasil. São Paulo: ed. Nacional; Rio de Janeiro: FINEP, 1979. Agenda Social. v.2 , n.3, out-dez / 2008, p.140-145, ISSN 1981-9862 1 Para ficar em alguns exemplos, Schwartzman, 1979 e Morel, 1979. Se bem que operando um exercício de sociologia do conhecimento, pode-se atribuir também tal encorajamento a uma mudança na representação social da ciência e tecnologia (C&T) na segunda metade do século XX, em que os efeitos dos riscos dos desenvolvimentos de C&T já se faziam notar, principalmente pelos resultados de Hiroshima e Nagasaki, e uma visão de ciência ligada a progresso, tributária do século XIX, fora abalada. 3 Para se ter uma idéia, nenhum livro de D. Bloor ou Knorr-Cetina foram publicados por aqui, embora Latour já conte com vasta publicação nacional, provavelmente menos por suas características ligadas aos estudos sociais da ciência e mais por sua etnografia, novas perspectivas antropológicas e, não menos importante, pela penetração da academia francesa no Brasil. 4 Curiosamente com um livro importante publicado no Brasil, a saber, Collins, H.; Pinch, 2003. 2