BREVE DOSSIÊ SOBRE A MATÉRIA “MADE IN PARAGUAI” (REVISTA VEJA - Edição nº 1999, 14 de Março de 2007) Mensagem enviada pelo repórter José Edward Lima à antropóloga Maria Inês Ladeira, do Centro de Trabalho Indigenista – São Paulo: Prezada antropóloga Maria Inês Ladeira: Estou fazendo uma reportagem sobre a demarcação da TI Morro dos Cavalos (SC). Como o relatório circunstanciado/laudo antropológico que norteia o processo é de sua autoria, peçolhe que, por favor, me responda às seguintes questões: 1. Baseada em que a senhora afirma que a região da Serra do Tabuleiro, especificamente o Morro dos Cavalos é território original dos Mbyá? A historiografia registra que os guarani que habitaram a costa de Santa Catarina foram os Carijó, os quais tinham características bem distintas dos Mbyá e foram extintos no final do século XVII... 2. A senhora afirma em seu relatório que aquela região é tradicionalmente ocupada pelos Mbyá. Mas estive lá e os indígenas mais antigos me disseram que só mudaram-se para lá, vindos do Paraguai ou da Argentina, no início da década de 1990, estimulados por antropólogos. Assim sendo, sua proposta de criação de uma TI para os Mbyá não vai contra o artigo 231 da Constituição Federal, o qual exige, entre outras coisas, que, para ser declarada indígena, a área tem que necessariamente ser habitada "tradicionalmente" pela etnia em questão? 3. Não é um contrasenso colocar os indígenas em um local tão acidentado como o Morro dos Cavalos, onde eles não têm sequer condições para plantar e/ou fazer criações? O próprio cacique da tribo, o argentino Artur Benites, me garantiu que tão logo o DNIT libere os recursos referentes às "medidas compensatórias", eles vão comprar terras em outro lugar, pois ali não dá para sobreviver. 4. Acórdão do Tribunal de Contas da União critica a atuação dos antropólogos que fizeram laudos antropológicos referentes à TI Morro dos Cavalos, inclusive a senhora. Diz, por exemplo: "(...) o que se vê no EIA/Rima (e em outros textos sobre a ocupação da área) é uma grande lacuna de matérias de conhecimento. E essa falta de matéria de conhecimento foi suprida pelos antropólogos com matéria de fé (...)". Orienta também o DNIT a utilizar "profissionais ou expertos isentos e não ligados à defesa dos interesses daquelas comunidades". O que a senhora a tem a dizer sobre isto? 5. A senhora não acha um precedente perigoso entregar oficialmente terras a indígenas originários de outros países? Pelas informações que temos, várias outras famílias de Mbyá têm se mobilizado para deixar o Paraguai e mesmo Missiones, na Argentina, estimulados pela possibilidade de conseguirem não apenas terras, como também benefícios sociais do governo brasileiro (bolsa família, cestas básicas etc). Em tempo: a) Tentei falar com a senhora por telefone nos escritórios do CTI em Brasília e em São Paulo. Como me disseram que a senhora estava viajando e não me forneceram o número do seu celular, tomei a liberdade de enviar-lhe as questões por e-mail b) Peço-lhe que, por favor, me responda com urgência, pois a matéria deverá ser fechada esta semana. 2 Meu e-mail é o seguinte: [email protected] Grato, desde já, pela atenção. José Edward Lima - Repórter/Revista VEJA ______________________________________________________________________ Resposta de Maria Inês Ladeira: Prezado repórter José Edward Lima Revista Veja Agradeço sua atenção em tentar me localizar para elaborar reportagem sobre a demarcação da TI Morro dos Cavalos (SC). Estive fora toda a semana passada, incluindo os dias de carnaval, e sem celular. Infelizmente é difícil acompanhar o cronograma apertado da imprensa no momento em que nos contatam, para colaborar em reportagens, tais como a em questão, que merecem toda a atenção e clareza quanto às informações. A TI Morro dos Cavalos é uma das várias Terras Indígenas Guarani cujos procedimentos administrativos necessários à regularização se encontram paralisados devido à complexidade da situação fundiária envolvendo interesses particulares e políticos próprios das regiões em que estão situadas. Assim, pela relevância do assunto seria necessário discorrer com maior profundidade para esclarecer aspectos que constam nas questões que me foram direcionadas, de modo que a matéria seja informativa ao leitor. Cabe-me apenas, neste momento, fazer breves referências sobre o teor das questões, a título de contribuição. Vale ressaltar que Relatório de Identificação de Terras Indígenas é um trabalho de natureza diversa à de matéria jornalística, tanto em termos metodológicos quando de objetivos. O primeiro implica em estadias prolongadas no campo e pesquisas minuciosas que acarretam implicações no futuro de comunidades indígenas e o segundo tem a tarefa não menos importante de informar corretamente a população sobre questões relevantes e atuais. Como o senhor deve ter se inteirado, a elaboração do Relatório deve seguir as normas definidas pela portaria n.º 14 do MJ que regulamenta o parágrafo 6º do artigo 2º do decreto n.º 1775/96. Requer a realização de pesquisas etnográficas que envolvem levantamentos genealógicos, investigação de terminologias, sistemas de parentesco, de formas próprias de organização social, estudos da cosmologia, além de levantamentos da história oral, de registros documentais, do conhecimento da bibliografia especializada, e de procedimentos criteriosos para o levantamento de dados ambientais referentes às áreas de uso da comunidade indígena. Tais estudos devem ser executados por um Grupo de Trabalho constituído por profissionais de áreas diversas com qualificação profissional, formação acadêmica, experiência acumulada de trabalho, coordenado por antropólogo especializado, e, em todas as etapas, deve contar com o acompanhamento e a participação ativa da comunidade em questão. Devo esclarecer ainda que os referidos estudos exigem, não apenas dedicação e tempo da equipe, mas alcançarão maior eficácia e exatidão quando realizados por antropólogo com conhecimentos sobre a língua indígena. Fato que não deve ser menosprezado é que o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da TI Morro dos Cavalos foi aprovado pela comissão de análise da FUNAI, tendo o parecer conclusivo publicado no DOU em dezembro de 2002, as contestações então apresentadas foram devidamente refutadas pela FUNAI no prazo estipulado pelo decreto n.º 1775/96, e o processo encaminhado finalmente à aprovação do Ministro com o parecer favorável da assessoria jurídica do Ministério da Justiça. Como o senhor deve ter constatado no Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da TI Morro dos Cavalos, produzido entre os anos de 2001 e 2002, a aldeia Morro dos Cavalos, como outras aldeias Guarani, se insere na rede de relações de consangüinidade e de afinidade que integram parentelas e grupos residenciais dispostos em diferentes localidades nas regiões sul e sudeste do Brasil (do RS ao ES), em Misiones na 3 Argentina, no nordeste do Paraguai, o que pode ser verificado a partir dos dados genealógicos coligidos em campo. Estas relações definem o território ocupado pelo povo Guarani, tal como testemunharam seus primeiros cronistas (vide relatório), muito antes das classificações vigentes na etnografia atual, e antes mesmo da definição das fronteiras nacionais que vieram sobrepor-se aos territórios indígenas. Portanto é comum encontrar nas aldeias Guarani (tanto no Brasil como na Argentina ou no Paraguai) indivíduos e/ou famílias que moraram ou nasceram em diferentes Estados nacionais. A complexa dinâmica de mobilidade Guarani não se fundamenta tão rudemente em critérios essencialmente utilitaristas (programas assistenciais, políticas públicas e legislações favoráveis), lembrando que enfrentam dificuldades enormes em todas as unidades administrativas nacionais (províncias, estados, departamentos) estabelecidas no seu território, não sendo atualmente o Brasil um modelo ideal. (São notórios as violências impingidas aos Guarani no Mato Grosso do Sul, em Ocoí no Paraná, em Araçaí em Santa Catarina, além da paralisação dos processos demarcatórios e das ações judiciais no litoral). Desconsiderar a tradicionalidade da ocupação Guarani na TI Morro dos Cavalos seria o mesmo que ignorar a ocupação tradicional deste povo nas áreas de domínio da Mata Atlântica nas regiões sul e sudeste, onde travaram relações com tantos outros grupos indígenas. É pois um contra-senso reconhecer o povo Guarani, como um povo que manteve idioma, religião e conhecimentos profundos sobre a flora e a fauna da Mata Atlântica, e não reconhecer sua ocupação tradicional em nenhuma das terras que ocupam atualmente. Torna-se sim importante, neste momento, levantar quais os interesses que pesam sobre as terras ocupadas pelos Guarani, uma vez que, de modo extemporâneo, se buscam argumentos de qualquer tipo para tentar descaracterizar a tradicionalidade de sua ocupação em todas elas. Diversamente do que me foi atribuído, enquanto autora do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da TI Morro dos Cavalos, não afirmo “que a região da Serra do Tabuleiro, especificamente o Morro dos Cavalos é território original dos Mbya”, e sim que os Guarani ocupam toda a área pleiteada tradicionalmente. Haveria que discorrer sobre termos e conceitos empregados corriqueiramente de modo errôneo que remetem a sentidos e significados distorcidos. O Relatório deixa claro a partir dos depoimentos prestados pelas famílias indígenas que a comunidade elegeu apenas partes vitais das áreas ocupadas por seus ascendentes e antigos moradores, áreas que inclusive transcendiam os limites identificados entre 2001 e 2002. Conforme afirmam os Guarani, antigamente não haviam fronteiras nem a necessidade de definir limites. Cumpre ainda notar que os povos indígenas não são meros objetos que são colocados em aldeias, ao sabor dos desejos de antropólogos e nem estes possuem interesses particulares nas Terras Indígenas. Ao contrário procuram cumprir uma tarefa, cada vez mais difícil, de ampliar o entendimento e compreensão sobre outros povos e sociedades cujo reconhecimento dos direitos históricos territoriais torna-se imprescindível para continuarem vivendo. A desconsideração de formas próprias de expressão, de organização social e de uso do espaço durante os processos de reconhecimento oficial dos direitos territoriais indígenas conduz a equívocos e a práticas discriminatórias e racistas que resultarão em violências irreparáveis para os índios, como o foram as repetidas invasões e práticas predatórias de suas terras, as sistemáticas expulsões e genocídio cometidos contra os índios desde o início da colonização. Já não é mais possível, nos dias atuais, negar aos índios a condição de sujeitos de sua própria história. Para um tratamento adequado da reportagem recomendamos a leitura do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da TI Morro dos Cavalos, com atenção na carta elaborada pelos índios às autoridades justificando os limites escolhidos; os ofícios da comunidade encaminhados ao Ministro da Justiça, a integra do documento “Decisão do TCU sobre Br 101 trecho Morro dos Cavalos”; Análise Jurídica Do Despacho Gab/CJ N.° 175 / 2005 da Consultora Jurídica Substituta do Ministério da Justiça, elaborada pela assessoria jurídica do CIMI. Além disso seria importante a consulta a outros profissionais especializados 4 que acompanham o processo de regularização da TI Morro dos Cavalos e que podem contribuir para a qualidade da reportagem. Atenciosamente, Maria Inês Ladeira Centro de Trabalho Indigenista - CTI www.trabalhoindigenista.org.br Matéria publicada: Índios - A Funai quer demarcar reserva para paraguaios Made in Paraguai - A Funai tenta demarcar área de Santa Catarina para índios paraguaios, enquanto os do Brasil morrem de fome 10/03/2007 José Edward, da Serra do Tabuleiro (SC) Fotos Hermes Bezerra e Luis Carlos À esquerda, embiás, que foram considerados carijós. À direita, um grupo de crianças caiabis, tribo que pode ganhar uma reserva para além dos poderes do deus Tupã No período do descobrimento, o litoral de Santa Catarina era habitado por índios carijós, subgrupo do povo guarani. Escravizada pelos colonizadores portugueses, a etnia foi considerada extinta em meados do século XVII, segundo os registros dos historiadores. Essa versão não foi contestada até 1993, quando a Fundação Nacional do Índio (Funai) adotou a tese – controvertida – de que ainda havia remanescentes dos carijós. A fundação se baseou num estudo publicado dois anos antes pela antropóloga Maria Inês Ladeira. Ela defende que alguns dos carijós teriam se refugiado no Paraguai, onde seriam chamados de embiás. Depois que o trabalho foi divulgado, dezenas de embiás paraguaios (e alguns argentinos) sentiram-se legitimados para invadir o parque ecológico da Serra do Tabuleiro, nas imediações de Florianópolis. Os índios se instalaram no Morro dos Cavalos, um dos pontos mais acidentados da região. Invasão consumada, a Funai planeja transformar o local em reserva indígena. Para brasileiro pagar e paraguaio (e argentino) usufruir. Muito escarpada, a região é considerada imprestável tanto para a agricultura quanto para moradia. Mas ganhou valor econômico porque o Morro dos Cavalos fica à margem da Rodovia BR-101, que 5 atravessa a maior parte do litoral brasileiro e está sendo duplicada. A pista adicional cortará a área que a Funai quer converter em reserva para os embiás. Com base nisso, a fundação determinou que o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) construa túneis sob o Morro dos Cavalos para não incomodar os hermanos invasores. A obra foi orçada em 150 milhões de reais. Mais: por exigência da Funai, o Dnit terá de pagar uma indenização aos embiás. Ou seja, os paraguaios (e alguns argentinos) serão compensados já por uma reserva que ainda não foi criada. Como o território que a Funai pretende demarcar está dentro de um parque ecológico estadual, o processo acabou na Justiça. O Ministério Público catarinense tenta impugnar a demarcação. Na opinião de seus integrantes, Maria Inês Ladeira produziu uma fraude e a Funai embarcou nela. "Os carijós tinham características físicas e culturais distintas das dos embiás e estão extintos", afirma o promotor José Eduardo Cardoso. Segundo o Ministério Público, Maria Inês empenhou-se para convencer a Funai de que os embiás são de origem carijó. Na seqüência, a fundação contratou Maria Inês para elaborar o relatório que instrui o processo de demarcação. O promotor Cardoso aponta falhas metodológicas no estudo que transubstanciou embiás paraguaios (e alguns argentinos) em carijós de ascendência brasileira. Segundo Cardoso, a antropóloga baseou a tese no depoimento de uma única família de paraguaios que chegou a Santa Catarina nos anos 60. Em um trecho do trabalho, ela chega a sugerir que alguns carijós teriam permanecido escondidos no Morro dos Cavalos desde o século XVII. Diz Manoel João de Souza, morador da região: "Acho que eles eram invisíveis. Estou aqui há 87 anos e só vi o primeiro índio nos anos 90". Ao comentar o assunto, os embiás são de uma objetividade Wilton Junior/AE raramente atribuída ao pensamento indígena. "Os antropólogos nos incentivaram a vir para cá, dizendo que a terra era nossa", afirma o paraguaio Augusto Karai Tataendy, que se mudou para o local em 1992. Eles, no entanto, decidiram deixar a Serra do Tabuleiro mesmo que a reserva seja demarcada. Querem usar a indenização do Dnit para recomeçar a vida em um lugar menos inóspito do que o Morro dos Cavalos. "Vamos pegar o dinheiro para comprar terras em outro lugar. Aqui não dá para viver", diz o cacique argentino Artur Benites. Atualmente, os hermanos vivem dos repasses do Bolsa Família. Foi por um triz que não receberam a bolada do Dnit em 2005. O departamento estava prestes a começar a Índios caiovás, em Mato Grosso do Sul: 47 duplicação da estrada e, por conseqüência, a liberar as crianças mortas de inanição indenizações, quando o Tribunal de Contas da União (TCU) declarou que a tese de Maria Inês era inconsistente. Procurada por VEJA para explicar seu estudo, a antropóloga enviou uma correspondência na qual esmiúça as leis e os procedimentos burocráticos da Funai, mas deixa de lado as incongruências históricas e antropológicas apontadas pelos promotores e pelo TCU. Nos últimos vinte anos, a Funai se converteu numa indústria de reservas. O número de áreas demarcadas saltou de 210 para 611. As aberrações na delimitação de terras para índios são corriqueiras. No Espírito Santo, a fundação classificou moradores de Aracruz de tupiniquins, uma etnia extinta há um século. Para tal, desconsiderou um relatório elaborado por funcionários seus em 1982 que apontava sinais de fraude nesse processo. O documento mostrava como os tais tupiniquins foram inventados por um jornalista e por missionários católicos: "Habitantes da região foram pagos para colocar enfeites de pena na cabeça, usar anzóis adornados à moda indígena e afirmar que moravam em aldeias", registra o relatório. Em outro caso grotesco, a Funai tentou decuplicar uma reserva caiabi do Centro-Oeste do país. A Justiça bloqueou a ampliação porque o presidente da Funai, Mércio Gomes, incitou os índios a invadir a região. Imbuída de um voraz espírito demarcatório, a Funai é leniente com os índios que vivem em reservas antigas. O exemplo mais eloqüente do fracasso da política indigenista está em Mato Grosso do Sul. As reservas dadas aos caiovás e nhandevas do estado são um cenário de horrores. Nelas, 30.000 índios moram confinados em 40.000 hectares. Nas aldeias, imperam a prostituição, o alcoolismo e, sobretudo, a fome. Desde 2005, 47 crianças caiovás morreram de desnutrição. Neste ano, já houve seis casos. A degradação é tamanha que, por ano, registram-se sessenta casos de suicídio nessas comunidades. O último ocorreu na semana passada. O sociólogo Carlos Siqueira, que chefiou o setor de indigenismo da Funai entre 1997 e 1998, não tem dúvida de que a fundação precisa sofrer uma intervenção. "A Funai está sendo regida pelos interesses dos antropólogos e das ONGs, e não pelos dos índios", afirma Siqueira. 6 MANIFESTAÇÕES CONTRÁRIAS À MATÉRIA: 1. Maria Inês Ladeira A desinformação veiculada pela Revista Veja sobre a Terra Indígena Morro dos Cavalos – SC O processo de reconhecimento oficial da Terra Indígena Guarani Morro dos Cavalos, localizada no estado de Santa Catarina, vem tornar-se caso exemplar das dimensões alcançadas pelos conflitos que têm obstado a regularização fundiária das Terras Indígenas com o recente agravamento da violência racista fomentada contra os índios, e as injúrias e insultos propagados contra antropólogos e instituições especializadas. O crescente agravamento deste caso revela-se diretamente proporcional à inoperância e à protelação dos atos conclusivos do governo federal para a regularização das Terras indígenas no país. Devemos ressaltar inicialmente que esta Terra Indígena Guarani foi identificada e delimitada com a publicação do Despacho do presidente da FUNAI nº 201 em 17 de novembro de 2002 no Diário Oficial da União (e no Diário Oficial do Estado em 2003), aprovando os estudos realizados pelo Grupo de Trabalho instituído pelo órgão indigenista oficial em outubro de 2001, apresentados no “Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da TI Morro dos Cavalos”. Posteriormente à identificação e à delimitação, o processo de reconhecimento oficial da Terra Indígena Guarani Morro dos Cavalos foi submetido aos procedimentos do contraditório, conforme estabelece o Decreto nº 1.775/96. Terminado o prazo estipulado de noventa dias para a apresentação de contestações, a Funai encaminhou, em outubro de 2003, o processo em pauta ao Ministério da Justiça, com a devida refutação fundamentada às manifestações apresentadas por particulares e por órgãos do governo estadual de Santa Catarina. A Consultoria Jurídica do Ministério da Justiça expediu, então, parecer conclusivo favorável à publicação da Portaria Ministerial Declaratória da Terra Indígena Morro dos Cavalos, compreendendo 1.988 hectares, conforme os limites definidos no Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação. Mesmo após o término do prazo estipulado legalmente para a apresentação e a análise de contestações por parte de eventuais atingidos, o Ministro da Justiça, de modo inexplicavelmente extemporâneo, e sem qualquer alegação técnica ou administrativa, cedeu às gestões entabuladas pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina e remeteu, de forma arbitrária, o processo de volta à FUNAI. Desde 2002 as comunidades Guarani têm solicitado reiteradas vezes ao Ministro da Justiça providências urgentes para o reconhecimento da Terra Indígena Morro dos Cavalos, em razão das pressões e restrições sofridas. Dado o fato incontestável de os trâmites administrativos constituintes do processo para o reconhecimento oficial da TI Morro dos Cavalos haverem sido cumpridos, atendendo plenamente os requisitos legais, eis que os mesmos representantes de interesses particulares e do governo estadual contrários à demarcação da Terra Indígena, cujos pleitos já tinham sido refutados formalmente na fase do contraditório, pretendem agora barrar politicamente a ação governamental e reverter o processo de regularização fundiária com o recurso pelo qual tentam forjar o desvirtuamento de uma acórdão emitido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em maio de 2005. Tal acórdão dispõe sobre as alternativas técnicas para a duplicação da BR 101 que atravessa a TI, determinando ao DNIT e à FUNAI a realização de estudos específicos para viabilizar a construção de 2 túneis com menor custo e menor impacto à comunidade indígena. Entre as diversas investidas contrárias a demarcação desta TI, a matéria veiculada pela Revista Veja (edição 1999 de 14 de março de 2007) intitulada “Made in Paraguai” é a mais 7 perniciosa pois multiplicada em escala de propaganda massiva, desinformando eventuais leitores pelo país afora. Reações favoráveis e indignação surgirão, infundidas, infelizmente, com base em mentiras grosseiras covardemente alardeadas. Não cabe aqui responder às investidas desqualificadas do repórter. Importa apenas, neste momento, informar sobre o desencadeamento dos fatos que antecedem tal publicação. No final do mês de fevereiro de 2007, um repórter da Revista Veja remeteu, via e-mail, uma série de questões tendenciosas, baseadas em informações e documentos deturpados, apresentados adiante, à coordenadora do GT de Identificação e Delimitação da TI Morro dos Cavalos, Maria Inês Ladeira antropóloga do CTI – Centro de Trabalho Indigenista. Como se pode constatar, a matéria veiculada na revista superou as piores expectativas possíveis, em todos os sentidos: má qualidade, má fé, deturpação inescrupulosa de fontes, preconceitos raciais e étnicos, além de falsidade deliberada em imputar à antropóloga e coordenadora do GT de Identificação da Terras Indígena, a autoria de atos e afirmações inverídicos. O mais grotesco, porém, se não fosse trágico, é o oportunismo do autor, ao tentar tirar proveito da crítica situação fundiária dos Guarani kaiová no MS (que vivem na região de fronteira com o Paraguai), contrapondo-os aos Guarani Mbya e Nhandéva, e a outros povos indígenas citados na matéria. Tal oportunismo está explícito na chamada do artigo: “A Funai tenta demarcar área de Santa Catarina para índios paraguaios, enquanto os do Brasil morrem de fome”. 2. Silvio Coelho dos Santos Senhor Diretor de Redação: O jornalista José Edward na matéria "Made in Paraguai" (Veja 1999, de 14/03/07) extrapolou todas as regras do bom jornalismo. Sua matéria está eivada de erros históricos e antropológicos além de dar uma visão extremamente estereotipada em relação aos Guarani do Morro do Cavalos, à Funai e aos antropólogos. Assim sendo encareço que V.Sª abrigue minha indignada manifestação. Sílvio Coelho dos Santos. Professor Emérito da UFSC; Coordenador do Núcleo de Estudos de Povos Indígenas/UFSC; ex-Presidente da Associação Brasileira de Antropologia; ex-Secretário Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência; Pesquisador Sênior do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 3. Terra Indígena Guarani de Morro dos Cavalos 13 de Março de 2007, Palhoça, Santa Catarina. À: Revista VEJA, Editora Abril Viemos por meio deste informar aos editores e responsáveis da Revista VEJA que toda a comunidade Guarani de Morro dos Cavalos está indignada e transtornada com a reportagem intitulada “Made in Paraguai”, publicada na Edição 1999, de 14 de março de 2007, páginas 56, 57 e 58, de autoria do jornalista José Edward Lima, em que é tratado o processo de Demarcação da Terra Indígena Morro dos Cavalos, Palhoça, Santa Catarina. Estamos nos sentindo gravemente insultados e desrespeitados pelas calúnias e distorções escritas na matéria que contém racismo e imoralidade, difamando a autenticidade da História Indígena Guarani no Brasil. Nos sentimos também agredidos pela manipulação das informações cedidas em entrevista. 8 Além de distorcer nosso depoimento e o depoimento de nossos parentes, usaram de inverdades para justificar a reportagem. O repórter não teve o cuidado de conhecer um pouco mais a nossa história, o nosso território e a nossa luta pela terra. Bastaria ler o relatório circunstanciado de identificação e delimitação, que muita coisa iria ficar esclarecida, ele preferiu confiar em fontes pouco confiáveis, essa mesma fonte que há muito tempo vem ameaçando nossa comunidade. O repórter afirma que a TCU declarou inconsistente a “tese” da antropóloga: bastaria o repórter ter lido o Acórdão do TCU pra saber que o referido tribunal informa que não teve acesso a “tese”. Por isso, exigimos o direito de resposta, nos termos do Art. 29 da Lei 5.250, de 9.2.1967, na mesma quantidade de espaço da citada reportagem, para podermos esclarecer à população brasileira a verdade sobre a História Indígena de Morro dos Cavalos. Caso o pedido não seja atendido, seremos obrigados a recorrer a via judicial para defender nossa honra e esclarecer as verdades dos fatos. Atenciosamente, Artur Benite Cacique 4. Marianna Kutassy Sr. Editor, Ao ler hoje a reportagem Made in Paraguai, fui tomada de revolta pela forma como esta foi elaborada. Há ali uma construção claramente xenófoba, além de leviana, o que sempre deve ser rechaçado por uma revista do naipe de VEJA, sobretudo quando se trata de índios guaranis que, como sabemos, vivem em centenas de aldeias situadas no Paraguai, Argentina e Brasil. Ressalto, entretanto, um aspecto importante: o jornalista José Edward menciona a antropóloga Maria Inês Ladeira e diz que a mesma foi procurada para explicar o seu estudo. Pergunto se o autor da matéria leu esse relatório da terra indígena aprovado pela Funai, uma vez que a conjuntura parece ser bastante complexa, somando questões que envolvem a arqueologia, a história, a antropologia, a duplicação da rodovia BR 101, o parque ecológico da Serra do Tabuleiro, entre outras. Impossível conquistar a credibilidade junto aos leitores de um texto com tamanha denúncia, quando se apresenta apenas um lado da questão. Atenciosamente Marianna Kutassy Produtora Cultural Niterói/RJ 5. Adriana Biller Venho por meio desta repudiar a matéria veiculada nesta revista sobre o povo Guarani em Santa Catarina por abordar de forma preconceituosa e tendenciosa uma importante questão transnacional. Adriana Biller Aparício advogada e mestranda em Direito, Estado e Sociedade pela UFSC 9 6. Maria Dorothea Post Darella Sr. Editor, Lamentavelmente a matéria Made in Paraguai é um total desserviço à informação. Reúne uma gama de dados de forma inconseqüente e irresponsável, desconsiderando inteiramente a complexidade do contexto que envolve Terra Indígena Morro dos Cavalos – Parque Estadual da Serra do Tabuleiro – Duplicação da rodovia BR 101. Como antropóloga que acompanha o processo de regularização fundiária, ressalto alguns pontos, a título de esclarecimento à população: 1) O povo Guarani tem várias denominações de subgrupos, que podem variar no espaço e no tempo, de acordo com os entendimentos dos próprios índios, apontados desde o século XVI. Desta forma, Carijó, Mbyá (e não embiá), Kaiová, Nhandeva, assim como outras denominações, como Tambeopé, Paim, Chiripá, Apapocúva, dizem respeito a este povo, o maior povo indígena do Brasil. 2) O território de ocupação e mobilidade guarani é extenso (e sabidamente não-exclusivo), abrangendo países como o Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Isso está documentado através de pesquisas arqueológicas, históricas e etnográficas. Desta forma, é necessária a compreensão que os índios Guarani possuem percepção territorial distinta daquela das sociedades nacionais, percepção que integra a sua visão de mundo. 3) A antropóloga Maria Inês Ladeira é reconhecida nacional e internacionalmente como autoridade acadêmica quanto aos Guarani, trabalhando há trinta anos junto a suas aldeias. Os próprios índios Guarani qualificam sua atuação como de total credibilidade e competência. Desta forma, alardear que seu trabalho relacionado a Morro dos Cavalos é uma fraude é, no mínimo, leviano e inaceitável. 4) Há registros de sítios e evidências arqueológicas guarani em toda a região mencionada na matéria, bem como registros orais de famílias Guarani que ocupavam a região de Morro dos Cavalos há décadas, algumas de forma ininterrupta e outras temporariamente, antes mesmo da criação do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. 5) Os índios possuem direitos relacionados à duplicação da BR 101, que podem ser denominados como medidas mitigadoras deste projeto de desenvolvimento. As centrais estão relacionadas à questão fundiária. Desta forma, não se pode confundir o processo demarcatório da Terra Indígena de Morro dos Cavalos e o processo de aquisição de uma outra área, na qual apenas parcela da atual população de Morro dos Cavalos pretende viver. 6) Uma das citadas fontes – Walter Alberto Bensousan – possui interesses particulares no impedimento da demarcação de Morro dos Cavalos. Em 1996 ajuizou ação de reintegração de posse (2a Vara Federal da Seção Judiciária de Florianópolis-SC), processo que em 2001 foi julgado extinto sem julgamento do mérito, com fundamento no artigo 267, VI, do Código de Processo Civil. Atenciosamente, Maria Dorothea Post Darella Museu Universitário/UFSC Florianópolis/SC 7. Beate Isleb A VEJA, em sua edição 1999, traz em suas páginas centrais a matéria Made in Paraguai que, no meu entender, é tendenciosa e preconceituosa. Ao que tudo indica aqui no litoral de Santa 10 Catarina, o contexto vivido pelos índios guaranis da área de Morro dos Cavalos é dramático, mas não consegue ser devidamente explanado pela reportagem, o que faz com que a matéria instigue justamente o preconceito contra os índios. Sei que existem várias aldeias guaranis tanto no litoral quanto no interior deste estado, bem como em outros estados do Brasil, estendendo-se aos países Argentina e Paraguai. Este dado, por si, indica que os guaranis devem ter uma interpretação e uma vivência territorial bastante diferente daquela da população não-indígena. Assim que, falar em índios guaranis paraguaios, argentinos e brasileiros parece ser impróprio e leviano. Beate Isleb Turismóloga – Blumenau/SC 8. Gelci José Coelho – Diretor do MU/UFSC O Museu Universitário da UFSC possui pesquisadores nas áreas de arqueologia, história, sociologia e antropologia que, ao se depararem com a matéria Mande in Paraguai (VEJA, edição 1999), a reputaram como absurdamente tendenciosa e preconceituosa. Desta forma, como diretor deste órgão, gostaria de esclarecer que a situação vivenciada pelos Guarani da área do Morro dos Cavalos é tão precária quanto complexa, o que não consegue ser explanado pela reportagem. Ao contrário, o jornalista induz a erros crassos que produzem posicionamentos contrários aos direitos indígenas neste país, o que é lastimável. É preciso considerar, por exemplo, que existem várias aldeias guarani no litoral e interior deste estado, bem como em outros estados do Brasil, estendendo-se aos países vizinhos Argentina, Paraguai e até recentemente Uruguai, o que comprova possuírem os Guarani uma interpretação e vivência territorial baseada em sua cosmologia. Sublinho igualmente que a antropóloga citada, Maria Inês Ladeira, conta com nosso mais profundo reconhecimento, por sua lisura, competência e atuação há décadas junto aos Guarani. Gelci José Coelho Historiador / Diretor do Museu Universitário da UFSC 9. Sergio Eduardo Carrera Quezada Diretor de Redação: Sr. José Edward: Na última edição da revista foi publicada uma matéria intitulada “Made in Paraguai”, da autoria do Sr. José Edward –utilizando os subsídios, em termos de informação e dados, do Sr. Walter Alberto Bensousan- na qual é tratado o tema polêmico sobre os processos CONSTITUCIONAIS de demarcação e homologação de Terras Indígenas em Santa Catarina e os obstáculos impostos por alguns que manifestam como proprietários das terras disputadas. Depois de ter lido várias vezes a matéria, não posso deixar de expressar minha indignação e repúdio pela falta de comprometimento jornalístico e imparcialidade contida no texto, assim como pelo desrespeito à população referida, os membros do subgrupo Mbyá, (e não embiás, conforme foram tratados na referida matéria), os quais são denominados como pertencentes à família lingüística e grupo étnico Guarani. O desconhecimento tanto de conceitos jurídicos, antropológicos e históricos, sem contar a forma evidentemente tendenciosa com que foi realizada a matéria, bem como a maneira como foram utilizados os dados e considerando os 11 conflitos fundiários nos municípios catarinenses onde se localizam as aldeias guarani, especificamente Palhoça e a região do Morro dos Cavalos, a publicação desta evidencia a influência política do Sr. Walter Alberto Bensousan, que diz ser um dos proprietários da área onde está situada a aldeia indígena. Evidentemente, os dados foram manipulados de forma que servissem de base para a criação de um estereótipo dos Mbyá frente à opinião pública, taxando-os como “hermanos invasores”, ignorando a forma de vida, os costumes e as formas de organização social e territorial deste subgrupo Guarani, apresentando uma versão distorcida das características culturais e criando assim subsídios para a argumentação que visa impedir a continuidade dos processos de homologação de Terras Indígenas. Ao longo de 2006 tive a oportunidade de conviver com a população Mbyá-Guarani em três aldeias do litoral catarinense (Morro dos Cavalos, Massiambu e Cachoeira dos Inácios), a fim de conhecer os problemas territoriais enfrentados por este grupo perante os conflitos por terras, a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, a duplicação da BR 101 e o projeto de construção de linhas de transmissão elétrica pela Eletrosul. Como mestre em antropologia social, consegui registrar uma série de dados de campo entre os Mbyá destas aldeias, os quais foram constatados com pesquisas arqueológicas, históricas e etnográficas. O objetivo da carta que aqui apresento aos senhores é de mostrar as carências da matéria jornalística, as inconsistências dos dados expressados pelos informantes, a manipulação das fontes, o desconhecimento dos conceitos jurídicos e antropológicos dentro da política indigenista e a forma tendenciosa com que foram utilizados os dados. Em primeiro lugar, o termo Carijó foi uma imposição terminológica dada pelos primeiros conquistadores e colonizadores, que foram espanhóis e franceses (e não portugueses, conforme referencia a matéria) para a população nativa que habitava o litoral sul do Brasil antes do século XVI. De forma genérica, o termo Carijó refere-se ao conjunto de subgrupos guarani, cuja população estendia-se pelos atuais estados meridionais de Brasil, o oriente de Paraguai e o nordeste de Argentina e Uruguai, conforme as pesquisas arqueológicas e os registros históricos proporcionados pelos primeiros cronistas dos séculos XVI e XVII (Gonneville, 1504; Solís, 1515; Alexo Garcia, 1512; Cabeza de Vaca, 1541). Na tentativa de atacar a tese de Maria Inês Ladeira que defende a ocupação guarani como parte do território tradicional do grupo indígena, a matéria aqui referida emprega o depoimento do promotor José Eduardo Cardoso, que manifesta, sem nenhum fundamento, que “os carijós tinham características físicas e culturais distintas das dos embiás e estão extintos”. O que foi extinto foi o termo Carijó para nos referirmos ao conjunto de subgrupos Guarani, pois este grupo sempre esteve presente, tanto no Brasil quanto nos países vizinhos, e na medida em que foi sendo ampliado o conhecimento acerca de suas parcialidades (Mbyá, Nhandeva-Xiripa-Avá, Kaiowá, Guarayo, Paï Tavytera), passaram a ser reconhecidos a partir de suas próprias classificações e não mais pelas nossas categorias impostas. Dentro desta mesma problemática, o jornalista tenta argumentar que a Funai, por influência de antropólogos e ONG‟s, “planeja transformar o local [o Morro dos Cavalos, a qual será afetada pela duplicação da BR 101] em reserva indígena”, ao mesmo tempo em que manifesta que a Funai permitiu que o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes “construa túneis sob Morro dos Cavalos para não incomodar os hermanos invasores”. Sendo este um dos enunciados mais preconceituosos contidos na matéria, além de mostrar o pleno desconhecimento da organização social mbyá-guarani baseada na mobilidade espacial (sendo esta freqüentemente confundida com nomadismo, pois uma vez que membros do grupo decidem se deslocar, os antigos assentamentos dificilmente são totalmente abandonados), o jornalista também mostra seu desconhecimento sobre a diferença entre Reserva Indígena e Terra Indígena. Os depoimentos proporcionados por Mbyá e registrados no texto referido mostram uma clara manipulação, como por exemplo o depoimento de Augusto da Silva Karai Tataendy, que segundo o autor da matéria afirma ser paraguaio. Meus registros de campo, assim como outras pesquisas, demonstram que Augusto da Silva nasceu em Mangueirinha, Terra Indígena localizada no estado de Paraná, ou seja, que ele é Mbyá e ao mesmo tempo brasileiro, como 12 consta na sua carteira de identidade. O argumento utilizado para caracterizar aos Mbyá como “estrangeiros” e “invasores”, além de ser vergonhoso, é inconsistente, pois no Brasil habitam cerca de 4.400 Mbyá. Nas aldeias do litoral de Santa Catarina, a população guarani é de 768 aproximadamente, sendo em sua maioria nascidos dentro de território brasileiro, como foi constatado através do registro de campo. O objetivo da matéria publicada é de interesse político que beneficia mais aos proprietários particulares que vêem uma porção de seus interesses prejudicados, com uma posição evidentemente preconceituosa e racista sobre uma parte da população BRASILEIRA (os índios no Brasil). Esta publicação é uma afronta direta aos direitos indígenas (por não dizer também a certos processos constitucionais), e fere gravemente os logros alcançados na luta pelo reconhecimento destes direitos e as agências que os apóiam, tentando desvirtuar os fatos e os contextos, influindo uma visão negativa dos indígenas entre a opinião pública, sem contar o desprestígio sobre a atuação de instituições acadêmicas e não governamentais. Para finalizar, considero que o texto aqui referido carece do posicionamento das pessoas afetadas, principalmente dos próprios Mbyá. A matéria não consta que a precariedade nas aldeias Guarani (assim como da maioria de outras populações indígenas) se deve ao desmatamento desmesurado, a políticas públicas incorretas (incluo também as políticas indigenistas), a pressão da sociedade dominante que historicamente tem contribuído para a desterritorialização dos espaços ocupados pelas sociedades indígenas, e aos interesses de proprietários regionais. Um dos problemas ainda por resolver (e que talvez seja o mais positivo da matéria, pois é um dos principais argumentos) refere-se ao tratamento de populações nativas em fronteiras nacionais. Quando as populações nativas podem servir aos interesses do Estado e da sociedade dominante, então estes são chamados para defender as fronteiras nacionais, como é no caso de populações indígenas que transitam entre as fronteiras dos estados brasileiros de Acre, Amazonas e Roraima, e os países vizinhos, criando “milícias indígenas” comandadas pelo exército brasileiro, por fazendeiros ou garimpeiros regionais na defesa de seus territórios e interesses particulares. Por outro lado, não se pode esquecer que a população de Santa Catarina (assim como dos outros estados do sul do Brasil) foi formada através das políticas de colonização impulsionadas pelo Estado brasileiro a finais do século XIX e inícios do XX, sendo que os registros da presença guarani nestes espaços datam de muitos séculos antes da chegada dos migrantes açorianos, alemães, italianos e outros migrantes europeus. A falta de registros históricos da presença Mbyá-Guarani nos séculos XVIII-XIX se deve a nosso próprio desconhecimento, mas isto não significa seu desaparecimento ou extinção enquanto grupo étnico. Por outro lado, no passado o Brasil já entregou terras para estrangeiros e migrantes, dentro de uma política de colonização que hoje caracteriza à população dos estados sulistas, mesma que hoje reclama ser “nativa” perante grupos que demonstram uma ocupação mais antiga. Atenciosamente: Sergio Eduardo Carrera Quezada. Mestre em Antropologia Social, UFSC. 10. Eliana Elisabeth Diehl Prezados Senhores, Venho manifestar minha indignação e repúdio à reportagem “Made in Paraguai” sobre os índios Guarani que vivem no Morro dos Cavalos, publicada no n. 1999 do dia 14 de março de 2007. Sou professora da Universidade Federal de Santa Catarina e faço pesquisa na área da saúde nessa comunidade indígena. Lá vivem em torno de 30 famílias (aproximadamente 150 pessoas), sendo que a maioria é nascida no Brasil, mantendo laços de parentesco com índios 13 Guarani residentes em Terras Indígenas do litoral das regiões sul e sudeste, incluindo ainda parentes em Terras Indígenas do interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Considerando que a região citada está localizada no belo litoral de Santa Catarina, próxima a Florianópolis e, portanto, com grande potencial para a especulação imobiliária, turística, comercial e industrial, devemos questionar quais são os reais interesses não-indígenas em torno da área. Eliana Elisabeth Diehl, professora doutora da Universidade Federal de Santa Catarina. Departamento de Ciências Farmacêuticas, Centro de Ciências da Saúde, UFSC, Campus Universitário, Florianópolis, SC. 11. Moreno Saraiva Martins Gostaria de parabenizar a Revista Veja pela reportagem MADE IN PARAGUAI, publicada na revista de 14/03/2007. Esta reportagem conseguiu jogar no lixo mais de 30 anos de produção antropológica brasileira, feita nas melhores Universidades do Brasil. Sabemos que os meios de comunicação não são imparciais, mas esconder-se atrás de uma pretensa parcialidade para publicar uma reportagem tão mal elaborada e mal intencionada, feita a partir de uma pesquisa que um aluno de ensino fundamental faria melhor, é um absurdo. O repórter José Edward ou agiu de má fé, com intenções escusas por trás da reportagem, ou é um péssimo repórter e sugiro então à Revista Veja que o demita imediatamente. Como imagino que essa última opção não seja a que melhor retrata a situação, parece claro que setores que têm grandes interesses em não demarcar terras indígenas no Estado de Santa Catarina "encomendaram" essa reportagem. Um desses setores é a iniciativa privada, que embalada pela especulação imobiliária, têm planos mirabolantes de eco-turismo e coisas do gênero para o local. O outro setor é o próprio Governo do Estado que além de não querer contrariar os interesses do setor de turismo, um dos mais proeminentes de Santa Catarina, ainda se interessa pelos impostos que a exploração da área pode trazer. Em primeiro lugar: embias e carijós não existem e nunca existiram. Existem sim indígenas da etnia guarani. No século XVI, quando os portugueses aqui chegaram, obviamente não existia nenhum estudo sobre as populações indígenas. Desta forma, a designação das populações nativas era arbitrária, pois os portugueses não falavam as línguas nativas e em geral essas populações não tinham auto-denominações. Assim, é comum encontrar etnônimos pejorativos, quando apontados por etnias rivais, ou senão etnônimos que significam "ser humano", como é o caso de um sub-grupo guarani que é chamado de mbyá (a pronuncia desta palavra usa fonemas que não tem equivalentes em português), que está entre as chamadas parcialidades guarani, e que parece que são os embiás referidos na reportagem. Além dos mbyás, foram citados na reportagem os nhandeva e os kaiowas, duas outras parcialidades guarani. Os guarani mbyá ocupam pelo menos seis estados no sul e sudeste do Brasil, além de áreas na Argentina e no Paraguai. Poucos locais ocupados por estes indígenas são ideais para uma ocupação tradicional, seja no Brasil, na Argentina ou no Paraguai. Processos históricos de colonização fizeram com que grande parte da população indígena da América do Sul fosse dizimada por guerras, doenças ou fome e a parte sobrevivente foi sumariamente expulsa das terras que tinham qualquer valor para a agricultura ou para especulação imobiliária. Ficaram então reclusos em áreas sem valor para a agricultura, separadas umas das outras por cidades, plantações ou acidentes geográficos. Assim se conformou a ocupação indígena principalmente no sul e no sudeste do Brasil, onde a terra tem o maior valor comercial se comparado com outras regiões. Os guarani ficaram então ilhados em um oceano de “civilização”. 14 Os guarani são conhecidos por seu constante deslocamentos, seja de indivíduos entre aldeias, seja de aldeias inteiras em busca de lugares mais propícios para se viver. Estes deslocamentos já são apontados em cartas de jesuítas dos séculos XVI e XVII como nos ensina Hélène Clastres que estudou os documentos jesuítas deste período. No início deste século Kurt Nimuendaju, eminente etnólogo alemão acompanhou migrações de um grupo guarani, desde o Rio Paraguai, território reconhecido dos guarani, até o litoral de São Paulo. Hoje os guarani continuam se deslocando, por razões que são explicitadas nos trabalhos citados acima e nas centenas de trabalhos posteriores a eles, como podemos ver em estudos bibliográficos sobre o tema feitos por Bartolomeu Meliá e Eduardo Viveiros de Castro, antropólogos de renome nacional e internacional. Estas razões fazem parte do modo de compreensão que os guarani tem do mundo, e que não pode ser comparado com a visão de mundo ocidental. Assim, se existem guaranis que são nascidos em outros países residindo no Brasil isso se deve ao fato de que eles se deslocam muito entre aldeias. Da mesma forma é possível encontrar guaranis nascidos no Brasil residindo no Paraguai e na Argentina. O que mais importa aqui não é sua nacionalidade, mas seu pertencimento a um determinado grupo, que por razões impostas por nós se chama guarani, pois essa necessidade de auto-denominação veio junto com os europeus, assim como a necessidade de se dividir o espaço em países, fruto da criação do Estado Nação na Europa pós feudalismo. Assim os guarani não são brasileiros, não são argentinos e nem paraguaios. Eles são guaranis. E entender isso é respeitar efetivamente a pluralidade cultural presente aqui no Brasil, coisa que a reportagem da Revista Veja fez questão de anular, colocando questões completamente tendenciosas para confirmar uma tese que serve a interesses próprios de alguns grupos relacionados à questão da demarcação de terras indígenas. A questão importante no caso não é o local de nascimento dos indígenas e sim a possibilidade que eles podem ter de usufruir de um território de maneira tradicional, território esse que estudos arqueológicos mostram com clareza terem pertencidos aos ascendentes das populações guarani atuais. Sem mais e dados os erros crassos cometidos na reportagem referida, sugiro que a Veja ofereça espaço para que seja publicado um direito de resposta, redigido por jornalistas apontados pela comunidade indígena. Moreno Saraiva Martins Mestrando em Antropologia Social no Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina 12. Valéria S. de Assis À redação da Revista Veja, Escrevo para expressar meu estranhamento e espanto ao ler a reportagem assinada por José Edward. O que mais chamou a atenção é a pouca qualidade do texto jornalístico. É evidente a intenção de desqualificar os índios que vivem em Morro dos Cavalos. Essas pessoas (os índios Guarani), em condições difíceis de vida, e que esperam, pacífica e pacientemente pelo reconhecimento das autoridades e dos poderes nacionais para viverem dignamente, não merecem ser apontadas como coisas ou como estrangeiros ("hermanos" ou "paraguaios") como aparece no texto. O jornalista demonstra desrespeito aos índios também ao grafar intencionalmente sua autodenominação como "embiás" em substituição a Mbyá. O jornalista escreveu seu texto sem ter feito a lição de casa com o menor cuidado, ou seja, não pesquisou minimamente o assunto e demonstra isso com grande recorrência de equívocos. Não possui a mínima idéia do que seja tradicionalidade do ponto de vista jurídico ou antropológico. Há muitos povos indígenas que vivem em um território no qual se sobrepõem fronteiras políticas de países vizinhos e não cabe, em tais circunstâncias, identificá-los com qualquer 15 nacionalidade (como é o caso dos Yanomami, seu território está em terras brasileiras e venezuelanas). Verifica-se que se trata de um trabalho de jornalismo ruim, desqualificado. É algo que evidentemente tenta ter visibilidade ou credibilidade da forma mais antiética possível: agredindo desnecessariamente os índios Mbyá de Morro dos Cavalos e a antropóloga Maria Inês Ladeira. Mais que isso, o jornalista transborda preconceitos, inverdades e racismos dos mais grosseiros. Enfim, um texto muito mal escrito e que destoa da qualidade da revista como um todo. Com isso, o texto cumpre um papel ruim, de desinformar e aumentar as dificuldades já tão grandes que essa população indígena vem enfrentando no sul do país. Valéria S. de Assis Antropóloga e professora DFE – CCH - Universidade Estadual de Maringá/PR 13. Silvia Maria de Oliveira – CAPI Sr. Editor A Comissão de Apoio aos Povos Indígenas - CAPI, ONG situada em Florianópolis/SC, vem manifestar seu veemente repúdio à matéria Made in Paraguai, veiculada na edição 1999. Entende se tratar de matéria tendenciosa, preconceituosa, xenófoba, por desconsiderar a complexidade do mosaico relacionado à Terra Indígena Morro dos Cavalos, aos índios Guarani. Outrossim, a CAPI posiciona-se favoravelmente à divulgação de dados sobre populações indígenas quando as fontes possuem credibilidade e competência. Silvia Maria de Oliveira Coordenadora da Comissão de Apoio aos Povos Indígenas Florianópolis / SC 14. Ismenia de Fátima Vieira Revolta, repúdio, indignação e todos os outros adjetivos que revelem o sentimento de rejeição a tudo que está escrito na matéria: "Made in Paraguai" veiculada na edição 1999 da Veja. Registro a minha indignação e repúdio ao repórter que escreveu a matéria e a revista por ter publicado uma matéria tão preconceituosa e mentirosa. Basta de perseguição aos Guarani, eles são tão brasileiros quanto o autor da matéria. Os povos indígenas neste país sofrem perseguições dos invasores desde o "período do descobrimento" expressa no início da matéria. Que descobrimento? Invasão dos colonizadores que não se cansam de perseguir os povos tradicionais e expropriar as suas vidas e o seu sossego. A revista Veja está cada vez mais tendenciosa, mentirosa, digna de ser ignorada. A imprensa deve servir para divulgar a verdade, é melhor obter mais informações e produzir matérias respeitáveis. O que acabei de ler foi uma matéria que denigre os índios Guarani e privilegia quem? Por esse tipo de matéria e por outras, que faz muito tempo que não gasto o meu dinheiro com essa revista. Respeitem os seres humanos! Ismenia de Fátima Vieira Mestre em Educação Docente no Programa de Formação para professores Guarani Florianópolis/SC 16 15. Ana Lúcia Vulfe Nötzold Faço uso desta ferramenta para manifestar minha surpresa e indignação em relação à matéria veiculada na Revista Veja, edição 1999, sob o título: "Made in Paraguai". Surpresa e indignação pelo fato de uma revista do porte da Veja publicar matéria tendenciosa e com clara manifestação de parcialidade quando se refere aos assuntos indígenas, demonstrando total desconhecimento e desrespeito à diversidade cultural, quando vivemos num país pluriétnico. Não bastasse esse fato, o autor da reportagem comete inúmeros outros erros, como em relação à grafia dos sub-gupos guarani, desconhece a mobilidade territorial das populações indígenas e quando os trata por "hermanos" esquece-se que os indígenas já estavam aqui muito antes dos europeus aqui aportarem. Considero que as matérias para circularem nacionalmente como as matérias dessa revista, seus autores deveriam preocupar-se em esclarecer os fatos e não apenas em fazer matérias sensacionalistas. Profa. Dra. Ana Lúcia Vulfe Nötzold Coordenadora do LABHIN - Laboratório de História Indígena Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC Florianópolis SC 16. Cátia Weber Fiquei perplexa ao ler a reportagem "A Funai quer demarcar reserva para paraguaios", veiculada na revista VEJA, edição 1999, desta semana. As informações contidas a respeito do povo Guarani, que reside no Morro dos Cavalos, são errôneas e preconceituosas. Sem falar na falta de respeito com a antropóloga Maria Inês Ladeira, cujo trabalho sempre trilhou os caminhos da ética e da seriedade, principalmente, com relação aos povos indígenas com quem trabalha a muito tempo. Para falar a verdade, esperava mais profissionalismo desta revista, cuja principal função é pesquisar a verdade e não apresentar dados inverídicos. Onde a sociedade brasileira irá parar se continuarem a disseminar inverdades? Cátia Weber, Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Santa Catarina. São José/SC. 17. Kimiye Tommasino Prezados senhores, gostaria de externar meus votos veementes de repúdio à reportagem intitulada "Made in Paraguai" assinada pelo jornalista José Edward Lima. Trata-se de uma reportagem com dados recheados de preconceitos e inverdades que não apenas não contribui para informar corretamente o grande público sobre a complexa realidade dos povos indígenas como acirra ainda mais os preconceitos racistas e xenófobos contra minorias sociais e étnicas.O CTI é uma instituição séria e respeitada assim como a antropóloga Maria Inês Ladeira, reconhecida como uma das maiores autoridades acadêmicas sobre a etnia guarani. Quero deixar registrado meu protesto e minha indignação diante deste desrespeito à sociedade em geral e em especial aos povos indígenas. 17 Kimiye Tommasino Antropóloga, docente aposentada da Universidade Estadual de Londrina/Pesquisadora do Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações-Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Londrina. 18. Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História Carta de Repúdio ao Artigo do Repórter José Edward Publicado na Revista Veja de 14-032007 sobre a Terra Indígena Morro dos Cavalos-SC Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História Universidade Estadual de Maringá Av. Colombo, 5790 - Bloco G-45 CEP 87020-900 - Maringá - PR Fone: (42) 3261-4670 E-mail: [email protected] A reportagem intitulada “Made in Paraguai” assinada por José Edward merece o nosso mais veemente repúdio e indignação. O autor da matéria presta um desserviço à sociedade ao explicitar, de forma tendenciosa e caracterizada pela má fé contra uma instituição seríssima, o Centro de Trabalho Indigenista-CTI cujos profissionais sempre se pautaram pela competência científica, como é o caso de Maria Inês Ladeira. Esta profissional vem, há quase 30 anos pesquisando as comunidades guarani e seus trabalhos constituem referência nacional e internacional quando se trata dessa etnia. É lamentável que um periódico de grande circulação nacional, senão o maior (conforme dados divulgados pelo IVC Instituto Verificador de Circulação), possua em seus quadros, profissional com formação tão deficiente que, ao invés de informar correta e eticamente sobre questões cruciais de nossa sociedade, apresentou uma montagem recheada de falsidades e idéias estapafúrdias, contribuindo com o desenvolvimento de atitudes racistas e xenófobas tão combatidas em nosso continente pelos principais organismos internacionais como a ONU, UNESCO, BANCO MUNDIAL, OEA, OMC, CEPAL e outros, em todos os documentos que tratam da questão indígena na atualidade. Uma revista que se pretende séria não poderia assumir uma linha ou manter em seus quadros profissionais contrários a projetos de reconhecimento, respeito à diversidade cultural e inclusão social que vêm sendo construídos por esses organismos juntamente com respeitadas instituições nacionais em toda a América Latina. Poderemos disponibilizar ao Conselho Editorial da Revista Veja inúmeras informações, imagens, documentos, registros de ações, publicações e pesquisas que temos procurado desenvolver para que a sociedade civil brasileira não receba informações falaciosas sobre os grupos indígenas e suas lutas pela sobrevivência e respeito. Nós, professores e pesquisadores do Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações - Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Maringá, queremos externar nossa solidariedade à colega Maria Inês Ladeira diante de tantas mentiras veiculadas com o objetivo claro de denegrir sua imagem, ela que é uma profissional conhecida e reconhecida nos meios acadêmicos e a quem só temos a agradecer pelos conhecimentos que disponibilizou à sociedade brasileira por meio de diversas publicações sérias (basta olharmos seu currículo que é disponível a consulta pública via Plataforma Lattes), pela enorme contribuição acadêmica, pelo esforço e dedicação junto ao CTI como pesquisadora e pelo respeitável trabalho de intervenção social que realiza entre grupos da etnia Guarani. 18 Prof. Dr. Lúcio Tadeu Mota Profa. Dra. Claudia Netto do Valle Profa. Dra. Kimiye Tommasino Prof. Dr. Marcos Rafael Nanni Profa. Ms. Isabel Cristina Rodrigues Profa. Ms. Rosângela Faustino Prof Dra. Maria Aparecida Honório Prof Dra. Valéria de Assis Darcy Souza – ASSINDI – Associação Indigenista de Maringá 19. Maria Conceição de Oliveira Lílian B.S. Rocha À Equipe de Redação da Revista Veja, Vimos por meio deste, manifestarmos nosso repúdio à matéria da última edição (dia 14 de março de 2007) desta renomada revista, com o título "Made in Paraguai" elaborada por José Edward. Consideramos que tal matéria não retrata a realidade dos índios M'bya Guarani sobre o seu direito constitucional no que se refere aos processos demarcatórios de suas terras. Outro ponto, bem mais grave é o total desconhecimento sobre os processos migratórios dos grupos Guarani, nos territórios do Sul e Sudeste brasileiros. O autor da referida matéria, ao nosso ver, fere princípios éticos importantes - primeiro ao colocar-se de forma altamente discriminatória a questão indígena e as múltiplas problemáticas enfrentadas por essa população, e, ainda, sobre colegas antropólogos ao afirmar que Maria Inês Ladeira teria produzido uma "fraude" em sua tese. Por útlimo, nos chama muito a atenção o fato de um promotor, que deveria ser magnânimo e estar zelando pela busca da eqüidade fazer colocações sobre os M'bya sem uma base científica adequada. Solicitamos que haja uma espécie de "retratação" por parte desta renomada revista, que, assim como outros veículos de informação nacional, tem como principal tarefa divulgar de forma madura, ética, consistente - matérias pautadas na verdade e na realidade. Att. Maria Conceição de Oliveira - médica e antropóloga Florianópolis – SC Lílian B.S. Rocha - enfermeira, especialista em saúde pública Biguaçu – SC 20. Ramon M Padilha Prezados Senhores, venho, com todo respeito, solicitar que os senhores possam refletir a respeito do artigo - Terra Indígena Morro dos Cavalos e índios Guaranis. Sou indiodescendente e conheço o sofrimento dos povos indígenas. O artigo não é positivo quanto à imagem dos povos indígenas. Os guaranis são um povo muito sofrido e perseguido. Suas terras foram historicamente tomadas pelos brancos e suas famílias dizimadas. Uma revista do porte da Veja, penso que merece fazer um artigo positivo que auxilie os povos indígenas e não que os prejudique. A aldeia morro dos cavalos, vem há muito tempo, batalhando para conseguir um território, para criar os seus filhos, que é um direito de todo ser 19 humano. Respeitosamente Ramon M Padilha Consultor em desenvolvimento sócio-ambiental Assessor da SEMDE - Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Ipatinga-MG Ipatinga-MG 21. Conselho Indigenista Missionário Ao Diretor de Redação da VEJA O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ficou indignado ao ver a matéria “Made in Paraguai”, publicada na edição de 11/3 da revista Veja, com autoria do jornalista José Edward. A reportagem tratou de forma extremamente desrespeitosa o povo Guarani Mbyá (grafado embiá na matéria) e traz informações erradas sobre demarcação de terras indígenas e sobre este povo. O título da matéria insinua que os Guarani Mbyá são falsificados ou de procedência duvidosa (idéia que o senso comum atribui ao que é fabricado – “made” – no Paraguai). Durante todo o texto, os Guarani são tratados de forma jocosa como “hermanos”. O autor da matéria, pelo que mostra o texto, desconsiderou o que a antropóloga Maria Inês Ladeira explicou a ele sobre a dinâmica da circulação Guarani, que atravessa as fronteiras criadas sobre o território deste povo. Além de desqualificar os Guarani Mbyá, a reportagem trata de forma leviana a situação fundiária de outros povos indígenas que vivem no Brasil. O jornalista apresenta como fonte uma “consultoria social” e não menciona como estão estes processos na Fundação Nacional do Índio. A Funai não é uma “indústria de reservas”. Como determina a Constituição Federal, ela é o órgão responsável, em nome da União, pela demarcação das terras indígenas. Quem definiu o que é terra indígena foi a Constituição. O relatório necessário num processo de demarcação prevê pesquisas etnográficas, com levantamentos genealógicos, ambientais, de organização social, entre outros, para mostrar a relação que um povo tem com a terra em questão. Portanto, o fato de uma terra ser produtiva, por exemplo, não é um critério considerado pela lei para definir se uma terra é ou não é indígena. O jornalista também publicou no texto afirmações falsas. O Tribunal de Contas da União não declarou a tese da antropóloga inconsistente, até por que não analisou este relatório. Os leitores de Veja merecem reportagens feitas com mais profundidade, cuidado e responsabilidade. E, claro, veracidade. Os povos indígenas deste país merecem, pelo menos, seriedade e respeito ao serem objeto de uma reportagem. Atenciosamente, Éden Magalhães Secretário-Executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) 22. Zélia Bonamigo 20 Prezados Senhores O motivo desta carta de repúdio à matéria Made in Paraguai, da Veja de 14 de março, é a tendenciosidade da matéria. Chamo a atenção para os seguintes pontos: 1)considero que esteja faltando uma investigação mais aprofundada por parte da Veja a respeito dos índios Carijós. A antropóloga Maria Inês Ladeira não é a única a tratar deste tema, embora o faça de modo competente. Existem outros antropólogos, historiadores e lingüistas que têm estudos publicados. Sugiro que sejam lidos, pois são de domínio público e seus títulos e muitos de seus textos estão disponíveis, inclusive, na internet. 2)Considero a necessidade da Veja aprofundar os estudos científicos referentes aos índios Mbya-Guaranis, que a revista chama de Embiá, pois não se pode definir o pensamento de outros povos com olhar etnocentrista. Como outras tantas pessoas fizeram, realizei minha pesquisa de mestrado estudando a economia dos Mbya-Guaranis da ilha da Cotinga em Paranguá-PR. Na minha percepção, o que está sendo dito no texto é um desrespeito aos Mbya-Guaranis, ao trabalho antropológico, aos trabalhos científicos, pela simples falta de realizar um jornalismo científico. Penso que quem escreve sobre índios precisa se preparar, estudar, fazer uma especialização em jornalismo científico e consultar muitas outras fontes. Atenciosamente Zélia Maria Bonamigo, jornalista e Antropóloga. Curitiba/PR 23. Osmarina de Oliveira Venho por meio desta, demonstrar a minha indignação com a matéria “Made in Paraguai” (Veja 1999 ano 40 nº 10). A matéria simplesmente deturpa os fatos com relação ao processo de demarcação da terra indígena Morro dos Cavalos, e acusam os Guarani de serem estrangeiros em sua própria terra. O jornalista acusa os Guarani de serem paraguaios e argentinos, só que as pessoas que ele cita na matéria, nasceram no Brasil, um no estado do Paraná e outro no Rio Grande do Sul, mas independente da onde nasceram, é preciso ter claro que o território Guarani compreende os seguintes países: Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia e que independente da onde nasceu o mais importante que como sendo Guarani ele está dentro do seu território, Já que as fronteiras foram imposta pelo Juruá (branco). O Povo Guarani se divide em subgrupos: Mbyá, Kaiowá e Xiripá Nhandeva, o grupo embias citado pelo jornalista não existe. Mas o mais grave é que essa matéria traz acusações de invenções de terras indígenas, como se os povos indígenas citados fossem inventados, que não tem história, que não tem território e não tem direitos. Na minha opinião a revista ao publicar essa matéria está se colocando contra os povos indígenas, principalmente contra o direito mais sagrado desses povos, que é a terra. Osmarina de Oliveira Geógrafa Florianópolis/SC 24. Clovis Brighenti Caro leitor Você não merece ser desinformado e agredido em sua inteligência como ocorreu com a matéria “Made in Paraguai” (Veja 1999 ano 40 nº 10). Vejamos algumas incoerências resultantes de incompetência e/ou má-fé, de preconceitos e falta de ética profissional: 21 1 – Carijó, Mbyá (não Embiá conforme consta na matéria), Kaiowa, Xiripa, Nhandeva e tantos outros, são classificações lingüísticas (subgrupos) de um único povo indígena: Guarani. O repórter esqueceu de informar isso, preferiu falar em embiás como se fosse um povo indígena; 2 – As classificações de grupos indígenas obedecem a interesses e contextos diversos. Se anteriormente eram chamados de Carijós, Cariós, M‟biaças, Tapes e hoje são Mbyá, Kaiowa, são por questões externas ao povo indígena. O que importa, no caso, é que todos esses grupos falavam e falam uma mesma língua, mantém a organização social uniforme e a cultura material (como a cerâmica), já provada pela arqueologia, idêntica. Infundada a informação do Ministério Público Catarinense que os Carijó tinham características físicas diferentes. Para a arqueologia, a etno-história e a antropologia essa informação não procede; 3 – O território Guarani abrange um vasto território no cone sul americano. Com pequenas variações é o mesmo território registrado pela etnografia desde muito antes do ano 1500. Esse território só começou a receber fronteiras nacionais com a chegada do invasor europeu. Foi nesse momento que surgiu Paraguai, Argentina, Brasil, Uruguai e tantos outros. Porém, para os Guarani o território continua sendo o mesmo, continuam migrando o ocupando esse território como já faziam anteriormente, com limitações em função da falta de espaço e pelo fato do meio ambiente estar degradado. Para o Guarani pouca importa se a pessoa nasceu no ES, SC, Misiones, MS ou Paraguai, pois o povo é único e o território é o mesmo. 4 – Contrariamente do que apresenta a matéria, o TCU não declarou inconsistente a “tese” da antropóloga. Esse tribunal informa no Acórdão, que não teve acesso ao relatório circunstanciado (“tese”). Bastaria o repórter ter lido o Acórdão. 5 – O repórter José Edward também não leu o relatório circunstanciado nem qualquer outra informação séria sobre o povo Guarani, evidencia-se, pela quantidade de inverdades que são afirmadas. Confiou na fonte errada. A pergunta é: Por que confiou apenas em fontes contrárias aos povos indígenas, contrárias a demarcação de Terra Indígena Morro dos Cavalos? Não cita uma linha sequer das respostas da antropóloga enviadas via e-mail! Clovis Brighenti Mestre em integração latino americana Florianópolis – SC 25. Cláudia Scharf Caro Presidente e editor Sr. Roberto Civita Por anos minha família foi assinante da Veja, porém há algum tempo tenho achado que a qualidade da revista caiu bastante, estando direcionada para matérias sensacionalistas e claramente tendenciosas. Por isso cancelei minha assinatura, mas ainda comprava eventualmente a revista. Fiquei chocada ao ler na última edição a matéria intitulada "Made in Paraguai - FUNAI quer demarcar terra para paraguaios". Como uma revista de circulação nacional permite que um repórter escreva um texto de forma tão grosseira, com tamanha falta de informação e clareza? Sou arquiteta e, portanto, leiga no assunto, e fico indignada ao concluir que a revista trata os leitores como ignorantes, incapazes de perceber as distorções e incongruências de uma matéria. Primeiro, o texto fala em índios argentinos e paraguaios todo o tempo, eu pergunto: todos os índios que estão lá são reconhecidamente não-brasileiros? De onde vem esta informação, pois a fonte não é citada. Segundo, o texto também cita seguidamente uma antropóloga e antropólogos em geral - que até onde sei são os estudiosos e conhecedores dos índios - sem em nenhum momento entrevistar qualquer um deles. Terceiro, o texto reproduz uma frase de um promotor de justiça, que afirma que os índios carijós não tinham qualquer semelhança física e cultural com os atuais embias. Pergunto: se no início 22 da matéria o repórter afirma que os carijós desapareceram completamente no séc. XVII, como o promotor pode comparar características físicas desses índios há tanto desaparecidos? Por que um arqueólogo não foi consultado? Quarto, atualmente resido em Florianópolis, mas cresci em Palhoça, cidade onde situa-se o Morro dos Cavalos. Desde minha infância, na década de 1970, lembro de passar pelo Morro dos Cavalos e sempre ficar fascinada olhando os "bugres" como eram chamados, que moravam no Morro. Pergunto: o repórter afirma que os índios estão lá somente a partir dos anos 1990 com o depoimento de apenas uma pessoa? Quinto, acho que muitas coisas foram tratadas e misturadas em um texto tão pequeno, como se o problema dos índios e das terras indígenas fosse o mesmo em todos as regiões do país. Sexto, por que os índios, os reais nativos dessa terra, mereceram um tratamento tão grosseiro e preconceituoso da revista? Por que nenhum índio foi entrevistado sobre a questão que a matéria trata, a demarcação de suas terras? Enfim, essas são apenas algumas questões que uma simples leitora, interessada em se atualizar com as notícias da semana, percebeu nesta matéria. Acho importantíssimo tratar dos problemas indígenas, mas por favor, façam isso de maneira séria, com mais espaço na revista, pois o tema é polêmico e abrangente e, principalmente, consultando antropólogos, funcionários da FUNAI e pessoas competentes da área. Grata pela atenção e esperando ver meu e-mail publicado, Cláudia Scharf – Arquiteta Florianópolis/SC 26. Claudenir Levandro Gazzoni Lamentável a reportagem de José Edwards sobre os indios GUARANIS de Morro dos Cavalos (Grande Florianópolis), em que, os quais não são brasileiros. A matéria (sob encomenda?), distorce informações,desconsidera registros históricos sobre a população Guarani, promovendo o odiável racismo e a xenofobia. BURRICE OU MÁ FÉ DO REPÓRTER E DA REVISTA?! Claudenir Levandro Gazzoni Ex-assinante de Veja há muito tempo! 27. Ângela Bertho VEJA, os excluídos de seu próprio mundo É desafiador o trabalho que a Educação tem pela frente neste país! Um repórter com um Laudo Demarcatório nas mãos, um email à sua autora para algumas "dicas", umas entrevistas descontextualizadas, muitos equívocos ao nomear instituições, entre eles, tomando promotoria por procuradoria, nenhuma leitura da maior bibliografia sobre uma etnia sulamericana. Nenhuma das últimas teses produzidas nas várias universidades brasileiras transformaram, na reportagem, até o nome do subgrupo, de mbyá ( em guarani) para embiás. Sim, os carijós não existem mais, da mesma forma que os portugueses e espanhóis que aqui chegaram se transformaram. A primeira escravatura nesse país foi com índios, incluídos os Tupi e Guarani, e muitas fontes quinhentistas nos autorizam a afirmar que quando não foram caçados para escravos, fugiram para as impenetráveis florestas interiores que maravilhavam viajantes e cronistas, assim como a abundância em que viviam seus habitantes. A cada avanço das fronteiras extrativistas e agropecuárias, deslocavam-se buscando a invisibilidade. A 23 mobilidade Guarani tem historicamente razões estruturais à própria cultura, adaptativas, conjunturais à necessidade de sobrevivência. Da mesma forma que um dia fugiram, um dia voltaram buscando os contornos próprios a um povo de floresta, a floresta é o seu mundo cujas fronteiras não são as nossas. A geopolítica do Cone Sul lhes foi imposta, da mesma forma que às outras etnias, com as quais compartilharam e disputaram espaços territoriais que a Arqueologia mapeou. Se há guarani nascido sob a jurisdição paraguaia e argentina sob a jurisdição brasileira, há também guarani nascido sob a jurisdição brasileira no Paraguai e na Argentina. As densas florestas meridionais passaram a ser disputadas pelas suas valiosas madeiras por brasileiros, paraguaios, argentinos, depois criação de gado e agricultura extensivacommoditis globais; mas alguns "espaços de refúgio" mais inacessíveis foram seu último baluarte até que a devastação alertou para a necessidade de conservação do mínimo, um anteparo à desertificação, ao escasseamento de recursos hídricos, à captura de carbono, à contribuição ao aquecimento global. Alguns desses “refúgios” tornaram-se Unidades de Conservação da Reserva da Biosfera do Cone Sul, e do Sistema Nacional de Unidades de Conservação no Brasil. Esse o drama atual, o que restou do mundo das florestas continua refugiando os Guarani e ao mesmo tempo viraram Unidades de Conservação. Último capítulo dos séculos de transplante de um sistema agropastoril com manejo de clima temperado europeu no subtrópico latino americano, e o resultado é a pobreza ambiental da Mata Atlântica que traduz com veemência a pobreza dos Guarani que esgrimem seu direito constitucional à demarcação de espaços territoriais tradicionais em todos os países do Cone Sul. É de bom alvitre que a narrativa dos acontecimentos seja contada de forma perspectivada, do ponto de vista da concepção da História dos que chegaram depois, da Etnohistória dos que assistiram às muitas chegadas e pelas ciências arqueológica e ambiental e agronômica que revelam evidências irrefutáveis de que é necessário fazer-se Justiça histórica e Justiça ambiental para a permanência da vida nessas latitudes. Já não há mais Eles e Nós, há a necessidade antes, de trocarmos a velha moeda do conhecimento, que a do racismo ou do nacionalismo e cuidarmos que as fronteiras políticas não destruam ainda mais esse que já foi um dos mais belos e exuberantes ecossistemas da Terra. Essa sim pode ser a maior lição dessa narrativa que está sendo escrita a muitas mãos, que ela sirva de alerta e em tempo real e não seja reprisada na Amazônia latinoamericana. Ângela Bertho Professora Departamento de Antropologia Social da UFSC Doutora pelo Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas 28. Oscar Calavia VEJA e a incongruência dos extintos Com preocupante freqüência, a revista VEJA publica matérias de capa apregoando as maravilhas da vida em Florianópolis. Milhares de cidadãos brasileiros ou não, descendentes das mais diversas nações da terra, fogem da violência e do caos urbano de suas cidades de origem e vão se instalar nessa ilha de infra-estrutura frágil e exuberante natureza –já em boa parte localizada sob as mansões que eles vão construindo. Com a mesma freqüência, a revista VEJA publica matérias sobre outro tipo de invasão. Desta vez, uma invasão de índios “paraguaios” e “argentinos” no Morro dos Cavalos, bem às portas de Florianópolis. A diferença entre uma e outra invasão é evidente: os índios não têm dinheiro para comprar terrenos e edificar mansões, e isso é um problema. São mortos de fome, pedinchões; laranjas 24 da FUNAI e dos antropólogos que têm uma perversa inclinação a semear pelo país afora lamentáveis colônias de maltrapilhos. Como a reportagem da VEJA indica, os índios sempre estão onde não devem: em áreas de valor agrícola, em reservas ecológicas, em sítios históricos, à beira de estradas que devem ser duplicadas. Pior ainda, acrescentemos, nas fronteiras. Cidadãos de bem não têm a fronteira do Paraguai, da Argentina ou da Bolívia na sua sala de jantar. Se acaso, possuem propriedades a um lado e outro, nunca uma miséria binacional. Já foi pior, convenhamos: houve um tempo em que os índios estavam por toda parte, não deixando espaço livre para fazendas, estradas, nem fronteiras. Por isso tiveram que ser extintos. Mas os índios têm ainda o mau gosto de se amontoarem em territórios exíguos no Mato Grosso do Sul, de andar por aí depois de serem extintos e de colocar cocares de plumas para que os tomemos por índios. Poderiam evitar tantos constrangimentos se ficassem na terra deles, ou, caso quisessem mudar, se comprassem uma nova com o dinheiro deles. O repórter prestaria um serviço ao país investigando as razões dessa conduta extraordinária, e explicando porquê, aparentemente, eles nunca têm terras nem dinheiro, e estão sempre onde não devem, mamando das tetas do governo. Não sejamos injustos. A revista VEJA já tem se ocupado outras vezes do outro lado desse escândalo, denunciando que outros índios –os Kaiapó, os Cinta-Larga, por exemplo-, têm demasiadas terras ou demasiados diamantes. Isso também está mal: há no Brasil pessoas, que a VEJA sabe identificar, mais graduadas para acumular terras e dinheiros, e que, como sabemos, chegaram a essa posição centavo a centavo e sem tocar em teta nenhuma. Índio que é índio não tem dinheiro; a rigor, como a terra deve se comprar e render, também não deveria ter terra, ele deveria estar onde não deve. O repórter, da velha estirpe brasílica dos Edwards, se preocupa pela autenticidade desses índios: serão eles verdadeiros descendentes dos primeiros habitantes desta terra? Ou serão argentinos, bolivianos e paraguaios? Isto é grave: como sabemos, as nações sul-americanas passaram longos anos a examinar os passaportes dos índios para saber aonde colocar os marcos de fronteira. Ou serão figurantes pagos pelas ONGs ou pela Igreja? Só com fraudes, erros metodológicos e incongruências podem os antropólogos sustentar o inverossímil: que os índios existem e, de Cabral à hora presente, estiveram em alguma parte. A situação é aberrante, e cabe aos índios tomar um de dois caminhos: ou se comportarem de fato como extintos, nobre condição que cabe aos primeiros habitantes da nossa terra, ou se integrarem na sociedade nacional nos lugares habitualmente designados aos seus descendentes, isto é nas cadeias, nas favelas e sob as pontes. De preferência, fora das poucas ilhas maravilhosas que ainda existem. Oscar Calavia Antropólogo PPGAS-UFSC, Florianópolis/SC 29. Karin Lisboa Gostaria de apontar minha revolta quanto à matéria intitulada “Made in Paraguai”, edição 1999, por seu tom jocoso e irônico. Na verdade, desconheço as particularidades em relação à Terra Indígena Morro dos Cavalos, foco da reportagem, mas posso afiançar que os índios não estão lá somente desde os anos 1990, pois lembro-me bem que em 1971 passei algumas vezes de carro pela BR 101 – morava em Curitiba/PR e estudava em Novo Hamburgo/RS, em internato – e lá já viviam famílias indígenas, o que me chamava a minha atenção e era foco de comentários na família. Karin Lisboa Curitiba/PR 25 30. Jean Carlos de A. Medeiros Prezados Editores da Revista Veja, Considero vergonhosa e de extrema má fé, a forma como foi conduzida a reportagem sobre os índios Guarani da aldeia Morro dos Cavalos pelo repórter José Edward. A pergunta é, a que propósito uma reportagem como essa possa servir? Haja visto que o que acredito ser o papel de um bom repórter, seja investigar com profundidade, informar com responsabilidade e propriedade, coisa que a meu ver o sr. José Edward o fez com tamanha falta de profissionalismo, tentando atingir o povo Guarani que se constitui na maior etnia indígena do nosso país. Só temos a repudiar atos como esse que reiteram e reforçam preconceitos quinhentistas quanto aos povos mais legítimos de nosso território nacional. Jean Carlos de A. Medeiros Engenheiro Agrônomo – Mestre em Agroecossistemas Gaspar-SC 31. Helena Alpini Rosa Feitos no Brasil x Made in Paraguai Li a reportagem da Veja, de 14 de março de 2007, de José Edward e me impressionei com tamanha falta de informação. Primeiro dizer que a FUNAI usa de “argumentos duvidosos” para demarcar ou criar reservas indígenas, criticando as fontes usadas para tal, no caso da antropóloga e pesquisadora Maria Inês Ladeira, as quais para o autor da reportagem tratam-se de uma fraude. Ora, uma pesquisa quando chega a ser publicada é porque antes passa por uma banca examinadora e há critérios para realizá-la. Outro aspecto, talvez o mais sério na reportagem é tratar os “Kaiovás”, “Nhandeva”, os “Tupiniquins” e os “Mbiá”, como grupos distintos, não havendo nenhuma relação entre eles. São grupos de uma mesma origem lingüística - Guarani, por isso entre eles tratam-se como uma só família, ou etnias irmãs. Ainda, dizer que o grupo existente no Morro dos Cavalos é Paraguai é desconhecer a trajetória histórica do povo Guarani, bem como do grupo de famílias que ali residem, assim como das famílias de Guarani espalhadas pelo litoral catarinense. Para se fazer afirmações sobre determinados grupos étnicos é necessário conhecimento, convivência, pesquisa, estudos, o que não se evidencia na reportagem. O mais grave é que o autor fundamenta-se somente nos dizeres do ministério público e também ouve apenas uma das famílias para chegar a estas conclusões. Cabe perguntar: em que se fundamenta o Ministério Público para apontar “falhas metodológicas” nos estudos realizados pela pesquisadora Maria Inês? Que métodos o promotor usaria? Que método de pesquisa o repórter usou? Quais as “incongruências históricas e antropológicas” apontadas pelo TCU no processo de indenização? (É muita ingenuidade não pensar que por trás da não demarcação das terras há muitos intere$$es...Não só aqui, mas no Espírito Santo, onde a outra parte intere$$ada é uma grande multinacional, que “faz um bonito papel” expulsando as famílias nativas e degradando o meio ambiente). O repórter não usou de “argumentos duvidosos”? Que objetivos tem a revista e o repórter em publicar uma reportagem como esta? Quem pagou para que ela fosse publicada? Percebemos nitidamente como os meios de comunicação (no caso aqui a Revista Veja) conseguem distorcer os fatos e passá-los como verdades. É lamentável que depois de 500 anos da chegada dos europeus a este continente se tenha ainda a mentalidade retrógrada, 26 dominadora e exploradora dos que aqui vieram. Os povos que aqui moravam e moram continuam sendo extirpados, dominados, humilhados e abandonados à própria sorte! Helena Alpini Rosa 32. Celeste Ciccarone Não há dúvida de que a Revista Veja, assim como outros jornais e meios de comunicação, entre os quais A Gazeta, do Espírito Santo, subordinados a interesses bem diferentes dos de um jornalismo profissional, como aponta José Ribamar Bessa Freire, estão cumprindo seu papel para a visibilidade da intolerância e racismo contra os povos indígenas. Imbuídos de informações falsificadas, deturpadas e de argumentos retrógrados e preconceituosos, assusta a profunda ignorância destes jornalistas nos temas que tratam, se dando o direito de questionar as atribuições do Estado e de suas instituições, e duvidar de profissionais, como M. Inês Ladeira, conhecidos pela seriedade e competência com as quais há anos desenvolvem seus trabalhos em prol das populações indígenas, cujos direitos, garantidos pela Constituição Brasileira e pela legislação internacional, são sistematicamente omissos nestas reportagens. A competência da incompetência está tomando conta destes meios de comunicação, pois é desta forma que conseguem reproduzir discursos colonialistas e desenvolvimentistas notórios pelas violências praticadas contra as populações indígenas. Considerando-os passados ou do passado, estes jornalistas não conseguem enxergar “embias”(sic!), mas também Tupinikim, Caiabi, Kaiova e Nhandeva, como sujeitos de direitos e protagonistas de sua história presente. São índios mortos, estrangeiros indesejáveis, inventados, ressuscitados e manipulados por antropólogos, ong´s e uma Funai “leniente”, todos mentirosos e delirantes no anseio de demarcar terras que certamente poderiam e/ou estão sendo “melhor” aproveitadas, para monocultura de eucalipto, de soja, para criação de gado, etc., para empreendimentos, nacionais, multinacionais e estrangeiros, estes sim bem vindos, para o progresso do país e a salvaguarda dos patrimônios nacionais. Os argumentos sem fundamentos usados nas reportagens para “desmascarar as mentiras” não poderiam ser que outras mentiras: os invadidos e expropriados de suas terras são chamados de invasores, as manifestações de autoafirmação são definidas de disfarce, os direitos são considerados privilégios. Qual será o nome desta profissão e será que é mesmo nova? Celeste Ciccarone Universidade Federal do Espírito Santo 33. José R. Bessa Freire Veja: os índios e o uísque paraguaio Você, leitor (a), compraria um uísque „escocês‟ destilado numa fábrica de fundo de quintal do Paraguai? Ou fumaria tabaco „paraguaio‟ plantado na Escócia? Então, cuidado, porque é isso que estão tentando fazer descer por tua garganta. Querem te vender gato por lebre, confundindo cinto com bunda e cipó com jerimum. Não te deixa enganar! Olha só! A revista VEJA desta semana publicou matéria sobre a Terra Indígena Morro dos Cavalos, em Palhoça (SC), onde vivem 130 índios Guarani. A área situada no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro é pequena. Conta com apenas 1.988 hectares, mas adquiriu valor econômico porque a BR-101, construída na década de 1960, está agora ampliando sua pista. Os índios aceitaram negociar, sugerindo que no lugar de um viaduto, fossem construídos dois túneis, que seriam menos invasivos. De qualquer forma, exigem indenização, o que é previsto, legalmente, nesses casos. 27 Os Carijós Bastou isso para desestabilizar VEJA. A revista, em sua linha editorial, considera os índios como um obstáculo ao progresso, e os direitos indígenas como privilégios contrários aos interesses nacionais. Decidiu noticiar o fato dando-lhe, porém, tratamento tendencioso, sem qualquer compromisso com a informação. A malandragem já começa pelo título que esconde os interesses particulares e políticos existentes por trás da situação fundiária: “A Funai quer demarcar reserva para paraguaios”. É claro. Nenhum leitor sensível aceitaria que VEJA, para defender interesses obscuros, atacasse 130 índios, confinados hoje numa pirambeira porque foram expulsos do seu outrora vasto território. Por isso, a revista apelou para o nacionalismo do leitor, transformando os moradores da aldeia em “paraguaios”, sem qualquer relação com os “índios brasileiros”, a quem finge defender: “A Funai tenta demarcar área de Santa Catarina para índios paraguaios, enquanto os do Brasil morrem de fome”. Na maior cara-de-pau, o repórter José Edward insinua aqui uma relação causal: os “nossos índios” estão morrendo de fome, só porque a Funai quer demarcar o Morro dos Cavalos como reserva indígena, “para brasileiro pagar e paraguaio (e argentino) usufruir”. No entanto, VEJA, felizmente, está vigilante e não permitirá que isso aconteça. Dá vontade de pedir ao repórter: - “Depois dessa do paraguaio, conta agora a do papagaio”. De onde José Edward tirou essa história de “paraguaios”? Ele não pode deixar de reconhecer que, efetivamente, todo o litoral catarinense era ocupado pelos carijós, mas garante que essa etnia, de um lado “foi considerada extinta em meados do século XVII”, e de outro, não tem qualquer relação com os atuais Guarani, que vivem hoje em centenas de aldeias no Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. É o velho golpe: descaracterizar a ocupação tradicional dos índios para poder abocanhar suas terras. Como é que Edward sabe que esses índios foram extintos no século XVII? Ele não confessa nem sob tortura e levará esse segredo para o túmulo. Não cita qualquer fonte histórica para apoiá-lo, mas invoca uma fonte atual sem qualquer qualificação acadêmica para tal tarefa, o promotor José Cardoso, parte interessada em impugnar a demarcação, que afirma: “Os carijós tinham características físicas e culturais distintas da dos embiás e estão extintos”. O repórter acreditou no promotor e ponto final. Se não revela quem extinguiu os Carijó - afinal é preciso preservar suas fontes - Edward não hesita em indicar quem recentemente os ressuscitou: a antropóloga Maria Inês Ladeira. Em suas pesquisas, ela comprovou “que alguns carijós teriam se refugiado no Paraguai, onde seriam chamados de embiás”. Por causa disso - acredita Edwards - “dezenas de embiás paraguaios (e alguns argentinos) sentiram-se legitimados para invadir o parque ecológico da Serra do Tabuleiro”. Os “paraguaios” O repórter de VEJA pensa que índio é como uísque: se veio do Paraguai, é falso. Desconhece as pesquisas etnográficas e etnohistóricas, que envolvem um cuidadoso levantamento genealógico, sistemas de parentesco, organização social, cosmologia, conhecimento da língua e registros escritos e orais. Se lesse tais estudos, saberia que o povo guarani habita esses territórios muito antes da criação das fronteiras nacionais e que ainda hoje é comum encontrar nas aldeias guarani do Brasil, Argentina, Uruguai ou Paraguai indivíduos e famílias que moraram ou nasceram em diferentes países. Se tivesse apurado corretamente, saberia que a região da aldeia de Morro dos Cavalos é denominada de Tekoa Yma, que significa “aldeia antiga”. Não escreveria que a ocupação dos “paraguaios” é recente. Bastaria consultar as fontes escritas e orais. Na “Breve notícia dos limites e confins dos Carijós”, os jesuítas Inácio de Sequeira e Francisco Moraes confirmam a antiguidade da ocupação, citando nominalmente os índios que organizaram a resistência: 28 Caraibebe, Araraibe, Diabo Manco, Grande Anjo, Igparuguaçu, Boiupeba, Tubarão, Ocara Abaeté, Marumaguaçu e tantos outros. Edward poderia confirmar essas histórias, ouvindo um antigo morador do Morro dos Cavalos, Alcindo Moreira, 96 anos, atual xamã da aldeia de Biguaçu, a quem o autor dessas linhas conhece muito bem, porque divide com ele e sua esposa, dona Rosa, as aulas de História no Curso de Formação de Professores Guarani da Região Sul e Sudeste. Em depoimento à antropóloga Ângela Bertho, Alcindo confirmou: “Isso aqui era só mato. Tinha de tudo, a gente vivia bem. Mas depois abriram a estrada e foram tomando conta de tudo, só sobrou esse barranco”. O repórter Joseph Eduards, que nem sequer consegue grafar corretamente o nome Mbyá (ele escreve embiá), mijou fora do penico. Sua matéria tendenciosa e sensacionalista nos leva a formular uma série de perguntas: onde é que esse rapaz estudou jornalismo? Quem foram seus professores? Qual a experiência que tem com os índios? O que foi que ele leu sobre o assunto? Por que obedece cegamente a linha editorial da revista sem qualquer questionamento? Quais são os princípios éticos que norteiam sua conduta? Se esse repórter fosse meu aluno, eu o reprovaria. Planejou mal, apurou incorretamente e redigiu de forma incoerente. Daria um zero bem redondo em Ética. Mandaria refazer tudo, aconselhando a se dedicar a outros temas, como aquele da matéria que ele fez em dezembro de 2005, sobre “a alma praiana de Belo Horizonte”, quando registrou a existência de 10 mil bares e botecos na capital mineira, bolando um título criativo: “BH, se não tem mar, tem bar”. Quanto ao veículo no qual escreve, pergunto francamente: quem acredita no que a VEJA publica sobre os índios, depois do caráter parcial da reportagem sobre Paulinho Payakã, acusado injustamente de estuprador, sem nunca ter sido entrevistado pela revista? VEJA não tem credibilidade. Não dá pra ler nem no dentista. Nas universidades brasileiras é motivo de chacota. Quando você quer insinuar que uma informação é falsa, diz: “foi publicada na VEJA”. Como professor de jornalismo, usei sempre em sala de aula matérias como essa para servir de modelo do que não se deve fazer. José R. Bessa Freire Doutor em Letras Prof. da UERJ e da UFRJ (Texto publicado em Taquiprati - Diário do Amazonas, em 18.03.07) 34. Deise Lucy Oliveira Montardo Venho manifestar meu repúdio à matéria " Made in Paraguai" publicada na Veja a qual me impressionou negativamente por várias razões. Uma delas foi por ignorar que as populações indígenas que habitam este continente tem uma história de vários milênios. No caso específico que trata a matéria, o caso dos guaranis, que habitam há pelo menos dois mil anos toda a área que hoje é compreendida pelos estados do sul, sudeste, e parte do centro-oeste do Brasil, parte do Paraguai e Argentina, partes do Uruguai e Bolívia. A demarcação das fronteiras do que hoje são os países, é bem mais recente, foram estabelecidas na forma como conhecemos hoje nos últimos duzentos anos, é respeitada pelos grupos indígenas, que se identificam com estas nações, mas que tem também laços de parentesco e uma maneira de ver este território, distinta da forma que a matéria apresenta. Outra, é a maneira como o autor da matéria denigre o trabalho de uma cientista, que teve sua tese aprovada na academia, por seus pares. Chamar um trabalho consolidado de fraude, sem entrar nos detalhes do trabalho, depositados nas bibliotecas, poderia ser considerado um ato de desrespeito e uma ignorância se não fosse o fato flagrante de que esta é uma matéria paga. Afirmo isto pelo simples fato de que os dados considerados no quadro a parte, como verdades, são de autoria da pessoa que 29 reivindica o terreno localizado no Morro dos Cavalos, onde residem historicamente os guarani mbyá. E não embiá, termo que eu, em mais de vinte anos de pesquisas na área da arqueologia e antropologia nunca havia visto. Os guaranis moram no Morro dos Cavalos, documentados fartamente, desde a década de 1940, pelo menos. Quando a primeira BR 101 foi feita eles já viviam ali. Este local, onde a Serra o Mar se encontra com o Atlântico é importantíssima na visão de mundo deste povo. A estrada cortou sua aldeia pelo meio. É inadmissível que uma revista do porte da Veja se paute, numa matéria, em afirmações do pretenso proprietário de uma área que todos os estudos demonstram ser tradicionalmente indígena. O site Antropowatch citado como fonte das informações é direcionado única e exclusivamente para divulgar o caso desta terra, e ataca pessoalmente as pessoas que tem trabalhado nesta área, numa atitude obsessiva do citado Walter Bensousan. Se o jornalista tivesse consultado os trabalhos científicos, não poderia escrever na linguagem chula que a matéria traz, falando nos índios guarani como hermanos, numa atitude racista. A Funai, é um órgão do Ministério da Justiça, e que durante muitos anos fez a política do Estado brasileiro, de tentar acabar com os grupos indígenas, das mais variadas formas, como por exemplo, no caso do Mato Grosso do Sul, citado na matéria, loteando as suas terras e espremendo-os em reservas. Depois da constituição de 1988, que garantiu aos povos indígenas o direito a sua terra imemorial, a educação diferenciada, ao direito de falarem suas línguas, o órgão vem tentando fazer uma política diferente. O caso do Morro dos Cavalos, terra guarani, está há mais de dois anos completos, com todas as etapas legais cumpridas, na mesa do Ministro da Justiça. Sua assinatura, no entanto, esbarra neste tipo de lobby, ao qual a revista Veja vem, neste caso, dar todo o espaço. Profa. Dra. Deise Lucy Oliveira Montardo Departamento de Antropologia – UFAM Manaus/AM – Brasil 35. Clarissa Rocha de Melo Prezada redação da revista Veja: É com imensa tristeza que leio a matéria intitulada "Made in Paraguai", onde discorrem sobre as populações indígenas do Brasil e mais especificamente sobre a aldeia guarani - e não embiá, como descrevem na reportagem - de Morro dos Cavalos, município de Palhoça na grande Florianópolis. Depois de mais de 500 anos de massacre às populações indígenas, de escravidão e colonização, não é correto que os guarani - etnia que é proveniente sim dos carijós - pois estes pertenciam ao grupo guarani, sejam criticados de tal maneira preconceituosa pela revista. O território originário dos guarani é composto por parte da Argentina , Paraguai e Brasil, e só foi dividido pela sociedade ocidental com a criação dos estados nacionais, mas para a população indígena guarani, tudo faz parte de seu território. Faz mais de 500 anos que esta população guarani transita por todos estes territórios, inclusive pelo Brasil e litoral de Santa Catarina. Não é porque vocês colheram dados irrelevantes de que os primeiros guarani vieram morar aqui no Morro dos Cavalos na década de 90, isto de modo algum quer dizer que eles não transitavam por aqui antes. Se tivessem realizado uma pesquisa mais profunda, conversassem com os mais antigos, veriam nos relatos de guaranis que transitavam por toda região desde 1900, com relatos de cronistas e do próprio Nimuendajú, que viveu entre os guarani de 1903 à 1907. Agiram de má fé, e com interesses políticos e fundiários na região da Serra do Tabuleiro. Mas também é com imensa felicidade que relato que os guarani mbya/ carijó/nhandeva, ou como 30 quiserem chamar estão mais unidos do que nunca, e não deixaram de lutar pela demarcação de sua terra e muito menos deixaram de reivindicar a posse legítima do Morro dos Cavalos. Clarissa Rocha de Melo Mestranda do curso de Antropologia Social da UFSC Florianópolis/SC 36. Egon Heck AS CESTAS E O GENOCÍDIO "O que está em curso com essa mortandade endêmica de índios é, na verdade, um genocídio, que lança na cara da sociedade a acusação, até agora irresponsável, de criminosa omissão."(Fabio Trad, presidente OAB secional MS14/3/07). Talvez o presidente da Funasa esteja objetivando a criação da milionária TV para transmitir ao vivo e a cores o que a barbárie da ganância está conseguindo fazer com os índios no Mato Grosso do Sul. É sabido que a caneta mata tanto quanto a espada ou a fome. Basta vermos a ignominiosa campanha veiculada na Veja. O Povo Guarani é ridicularizado e enquadrado em paraguaio, argentino ou outros forasteiros que vilipendiam essa terra, cospem na nossa cara, e são exaltados como mocinhos montados na besta do progresso, troteando por entre as vítimas das racistas teses desenvolvimentistas. Basta. Ou estancamos essa vala de violência e mortes, ou seremos, perante a história, cúmplices desse processo criminoso. Já imaginaram algo mais aviltante do que depender sistematicamente de um sacolão, seja ele proveniente de uma mão caridosa ou de um assistencialismo estéril e opressor. Mata do mesmo jeito. Ou melhor adia a morte para outro dia. Mata primeiro por dentro. Mata a autoestima de um povo, de portadores de uma heróica história de resistência e abundância. Alguns meios de comunicação se apressam em apresentar números e estatísticas do óbvio - a morte por fome e desnutrição, o suicídio por falta de perspectiva de vida, a corrosão interna do sistema social e familiar, que gera a violência desenfreada, enfim "um profundo mal estar nas aldeias Guarani", como afirmou recentemente o antropólogo Jorge Grunberg. E o que estamos nós a fazer, se cúmplices não queremos ser? A indignação é um começo, mas não basta. A apatia e descrença - é assim mesmo! Nos conduzirá a nosso próprio inferno. Ou nos colocamos no caminho de profundas mudanças ou sucumbiremos sob nossas próprias mazelas. Que a ira solidária desabroche em flor guerrilheira, bela e instigante, para seguirmos avante nesse chão que produz alimentos e dignidade. Soa muito triste o lamento da fome que tem que se socorrer de cestas básicas. É amargo o fel da esmola estrutural. Mas infelizmente quem passou fome e disse ter vindo para superá-la, parece estar no caminho do aprofundamento da mesma, na medida em que opta pela acumulação gananciosa. Se cestas e genocídio não rimam, se alimentam. Que amanhã brote uma nova semente. Egon Heck Cimi MS 37. Antônio C. Passaty Passador Falar de desconforto sobre artigos publicados pela Abril é como chover no molhado. Porém, quando acontece com uma pessoa próxima, esta indignação se torna ainda maior. 31 Uma parte desta lista conhece, já trabalhou com a Inês e acredito que respeita toda a trajetória desta antropóloga. Não é à toa que até (e com todo o respeito a estes profissionais) vendedores de jornais e revistas rejeitam comercializar a revista Veja. Todo apoio e respeito à Maria Inês Ladeira. Antônio C. Passaty Passador 38. Flávia Cristina de Mello À seção "Cartas dos leitores" A reportagem de página central da edição de 14/3, intitulada "Made in Paraguai" indignou a comunidade acadêmica da Universidade Federal de Santa Catarina e da Universidade Estadual de Santa Catarina. Como profissional vinculada ao Núcleo de Estudos sobre Saberes e Saúde Indígenas (NESSI-UFSC) e ao Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB-UDESC) venho expressar minha total discordância com a matéria realizada pelo jornalista José Edward. O referido jornalista e o editorial da revista demonstram incapacidade e incompetência (ou seria má fé?) na composição da referida reportagem. Não houve nenhum tipo de pesquisa jornalística, histórica, nem mesmo enciclopédica para fundamentar os dados ali expostos.Bastaria uma rápida pesquisa para revelar que os índios Guarani, que são referidos ali equivocadamente como "embiás", nunca foram extintos, e ao contrário, compõem o mais numeroso grupo indígena brasileiro, com uma população transnacional superior a 40 mil pessoas. Os Mbyá figuram como um dos sub-grupos da etnia Guarani, porém a aldeia de Morro dos Cavalos abriga também outro sub-grupo, os Chiripá ou Nhandeva. São amplamente levianas, preconceituosas e desinformativas as informações difundidas na reportagem, atingindo não só a população indígena, como também a antropóloga Maria Inês Ladeira, profissional com reconhecimento nacional pela qualidade de seu trabalho. Entendo que os responsáveis pelo editorial devem retratar-se veementemente na edição seguinte, para resgatar o propósito jornalístico a que se destina uma revista de circulação nacional como a Veja. Flávia Cristina de Mello. Doutora em Antropologia. Florianópolis/SC 39. Maria Izabel de Bortoli Hentz Prezados Senhores, O título da matéria matéria "Made in Paraguai", publicada na edição 1999, de 14 de março de 2007, assinada por José Edward, já dá o tom do que vai se ler ao longo do texto. Se esse título tivesse sido escrito em Língua Guarani (para citar uma das quase 200 línguas indígenas faladas no Brasil) poderíamos pensar que o repórter estaria preocupado com questões nacionais, com interesses daqueles que, desde a colonização do Brasil, foram expropriados praticamente de tudo (terra, cultura, língua, enfim). Ao escrever na língua de outro país, o que estará sugerindo o repórter? Muitas podem ser as respostas. O certo é que há uma posição muito marcada em relação ao que se discute na matéria, o que por si só já é um complicador, na medida em que se espera da imprensa séria um cuidado maior com as informações que publica. Ainda que as nossas lições de história nem sempre mostraram (ou quem sabe ainda não 32 mostrem) o que efetivamente aconteceu aos povos indígenas que viviam no Brasil quando os portugueses aqui chegaram, hoje, ano de 2007, ler em uma revista de circulação nacional matéria com o teor da que se lê causa espanto e indignação. É lamentável constatar que, enquanto muitos se ocupam em buscar soluções para reparar minimamente o estrago de uma colonização predatória, alguns (que tem a responsabilidade de informar, esclarecer, mas de forma imparcial) se ocupem de distorcer fatos e situações para criar uma opinião pública favorável a interesses que não são explicitados. Espero sinceramente que se retome o assunto em pauta em outra edição e que se o trate com a seriedade que requer e merece. Atenciosamente, Maria Izabel de Bortoli Hentz São José – SC 40. Tekoa Marangatu (Aldeia Guarani) À Revista Veja, Ficamos muito indignados com a matéria publicada nesta revista – edição 1999 ano 40 número 10 de 14 de 3 de 2007 com o título (Made in Paraguai). O jornalista José Edward escreveu coisas que não dissemos: 1 – Augusto Karai Tataendy é nascido na aldeia Palmeirinha, estado do Paraná, e não no Paraguai conforme escreveu o jornalista. 2 – Augusto Karai Tataendy nunca morou no Morro dos Cavalos. Os antropólogos nunca nos levaram para lugar nenhum, sempre seguimos nossos conhecimentos e a revelação de Nhanderu (Deus). Somente na aldeia Maciambu, em Palhoça SC, em que a Terra foi seqüestrada judicialmente, o juiz nos permitiu morar lá. Ficamos nessa aldeia até 1999 quando conquistamos essa nova Terra e mudamos para Marangatu. Pedimos que seja informado corretamente os leitores, senão teremos que entrar com justiça contra revista. Augusto da Silva Eduardo da Silva (cacique) Terra Indígena Cachoeira dos Inácios – Imaruí/SC 41. Marcio Verá Mirim Rodrigues Vejam Jornalista, ou qualquer pessoa, para falar dos Guarani tem que saber da realidade, conhecer como é o nosso cotidiano. Infelizmente é muito fácil falar mal dos Guarani Mbya, que já habitam esse território há muitos anos, chamando nosso povo de “embiás” e de “los hermanos invasores”. Ele não sabe que os verdadeiros invasores são os que chegaram depois, destruindo e comprando e vendendo as nossas riquezas naturais e as nossas terras tradicionais que hoje se chamam Brasil. Porque, pelo conhecimento dos nossos ancestrais, antigamente todo esse território era dominado pelos povos indígenas, e não havia divisões geográficas e fronteiras nacionais. Eu não sei o que o jornalista pensa, mas eu penso que ele é ignorante. O jornalista acusa os antropólogos e as entidades que estão apoiando os índios com trabalhos que exigem 33 sacrifícios e defendendo uma causa justa, como Maria Inês. Pessoas que conhecemos e que nos conhecem há muitos anos. Principalmente porque as acusações vêm de parte de pessoas que defendem interesses capitalistas sem se preocuparem com o lado social. Para o Povo Guarani, a prioridade é a garantia e o reconhecimento da nossa Terra. Marcio Verá Mirim Rodrigues Assessor da Comissão da Terra Guarani Yvy Rupa 42. Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina Moção ao editor-chefe da revista Veja (aprovada em 21.03.07) A Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, acolhendo proposição do Partido dos Trabalhadores, apela pela concessão de direito de resposta à comunidade Guarani de Morro dos Cavalos, em razão do conteúdo da matéria intitulada “Made in Paraguai”, publicada na edição 1999 de 14 de março de 2007. Atenciosamente, Deputado Clésio Salvaro, Presidente em exercício. 43. Henrique Santos Visconti Cavalleiro Como já é tradição, Veja novamente despeja todo o seu preconceito contra os povos indígenas, desta vez tendo como alvo os Guarani de Morro dos Cavalos, em SC. O repórter poderia tentar aprender rudimentos de antropologia e de história, para entender a mobilidade Guarani por toda a região sul do Brasil e pelos países vizinhos, antes de demonstrar tamanha ignorância sobre o tema. Poderia também ler o artigo 231 da Constituição Federal e o Decreto 1775/96, que regulamentam o processo de regularização das terras indígenas pela FUNAI. Veja tem todo o direito de ser de direita (sem trocadilho), mas não precisa ser leviana. Henrique Santos Visconti Cavalleiro Geógrafo e Indigenista Brasília-DF 44. Teresa Domitila Fossari As (des)informações contidas na matéria intitulada “Made in Paraguai” veiculada pela Revista Veja [14/03/2007] poderiam ser tratadas como imposturas apenas e, neste caso, desmerecedoras de qualquer comentário. No entanto, tais (des)informações são encaminhadas para negar a vinculação imemorial das populações Guarani com terras do litoral catarinense e, por isso, invocam reparos. Ora, negar tal vinculação imemorial é negar os relatos dos conquistadores europeus como Hans Staden, Cabeza de Vaca e outros que aportaram no litoral catarinense nos séculos XVI e XVII. Sob os mais diferentes objetivos todos tecem comentários sobre os ocupantes deste litoral, ou seja, os índios Guarani. O termo “Carijós” é evocado por Gabriel Soares de Souza [em seu Tratado descritivo do Brasil em 1587], Fernão Cardim [em seu Tratados da terra e gente do Brasil – século XV] e outros para falar dos mesmos Guarani que ocupavam todo o litoral paulista até o litoral sul catarinense. 34 No mapa da Ilha de Santa Catarina feito por Hans Staden no século XVI, o autor localizou uma aldeia Guarani no continente, área onde há evidências arqueológicas dessas antigas aldeias, como o da Baixada do Massiambu que escavamos em 1987. Deste modo, negar a vinculação imemorial das populações Guarani com terras do litoral catarinense, é também negar a existência dos inúmeros sítios arqueológicos testemunhos da vivência dessas populações no litoral catarinense. Testemunhos registrados pelos arqueólogos João Alfredo Rohr, Walter Piazza, Alroino Eble, Maria José Reis, Teresa Domitila Fossari, entre outros, e publicados a partir de meados do século XX. Aliás, em um estudo sobre a “A cerâmica Guarani da Ilha de Santa Catarina” (1959), o Pe. Pedro Ignácio Schmitz trata de um acervo arqueológico com mais de 80.000 fragmentos cerâmicos coletados no Sul da Ilha, que se encontra no Colégio Catarinense. Dra. Teresa Domitila Fossari Arqueóloga do Museu Universitário/UFSC Florianópolis, SC 45. Marta Adriana Pedri Prezados, Sou leitora da Veja há muitos anos e é com muita indignação que vejo a questão indígena tratada com tanto sarcasmo e tendências. Os índios Guarani há muito vêm sendo discriminados, principalmente quando o assunto se refere ao reconhecimento do direito às suas terras tradicionais. A matéria de José Edward é que parece ser made in paraguai. Apresenta um tom cínico, debochado e desrespeitoso quando se refere à população indígena de Morro dos Cavalos como “hermanos” ou “paraguaios”. Tudo bem que a FUNAI como instituição tenha muito a questionar, mas quando será que vamos deixar de confundir as coisas neste país? Marta Adriana Pedri Engenheira Agrônoma, MSc. em Agroecossistemas. José Boiteux-SC 46. Rosnel Bond Senhor Editor: Recebi seu e-mail. e o que desejo nao eh nem ver minha carta publicada. Meu objetivo realmente eh outro. Voltarei a acreditar na seriedade da revista se esta publicar uma retratacao publica atraves de suas paginas, relativa a "materia" sobre os índios Guaranis. Seria pouco ainda comparando com o tamanho da injustica cometida contra nossos irmãos indigenas. Vou ficar a espera! Rosnel Bond Camas – Washington – USA 47. Lucia Helena P. da Silva À revista Veja Seção de Cartas 35 Senhor editor: Protesto pelo conteúdo da reportagem sobre os guaranis da aldeia Morro dos Cavalos, de Santa Catarina. É um amontoado de deturpações históricas, além de ser uma soma de injustiça e preconceito. Toda a sociedade catarinense sabe da verdadeira situação dos nossos guaranis e de sua justa reivindicação por um pequeno pedaço de terra. Sabe também que nosso litoral é valorizado no mercado imobiliário e alvo de cobiça de muitos tubarões. Será que esse não é o verdadeiro motivo para tentar expulsar os índios, inventando mentiras sobre eles? Lucia Helena P. da Silva Florianópolis – SC 48. Aldo Litaiff Sr. Editor, Sobre o conteúdo da matéria intitulada "Made in Paraguai - FUNAI quer demarcar terra para paraguaios", como antropólogo especialista em cultura guarani há mais de vinte anos, conhecedor da realidade destes índios em toda a América do Sul, especificamente a dos grupos guarani do litoral do estado de Santa Catarina, gostaria de esclarecer os seguintes pontos: 1- Não existe nenhum documento que prove a descontinuidade física e cultural entre os Guarani que ocupavam o litoral brasileiro e os guarani atuais. 2- A foto que abra a matéria sobre os Guarani do Morro dos Cavalos, é na realidade, dos índios da comunidade de Imaruí, no sul do Estado de Santa Catarina. 3- Augusto da Silva Karai Tataendy nasceu em Mangueirinha, Terra Indígena localizada no Estado de Paraná (conforme pode ser verificado em sua certidão de nascimento e em sua carteira de identidade), sendo, portanto, brasileiro, não paraguaio como afirma o repórter. 4- Augusto da Silva é Cacique da comunidade guarani de Imaruí, não é e nunca foi líder do Morro dos Cavalos, como afirma o autor da matéria. 5- É consenso entre todos os Historiadores, Arqueólogos e Antropólogos sérios (ou seja, formados e ligados a respeitáveis instituições de ensino), a estreita ligação física e cultural entre os Guarani pré-históricos, históricos (também conhecidos como Carijós) e os atuais. 6- Temos informações (devidamente documentadas) da população das cidades vizinhas a esta comunidade, que estes índios habitam o Morro dos Cavalos, pelo menos desde a década de 1960, com o registro da chegada de um grupo de parentes destes guarani anteriores, na década de 1990. Logo, as informações veiculadas pela Revista Veja (1999, de 14/03/07) não são verdadeiras. É, então, de se questionar a origem destas informações (pois a fonte não é citada), apresentadas de forma irresponsável ao público como verdadeiras. Solicito sérias providências contra o repórter responsável pela a matéria, que desqualifica a imagem desta revista. 36 Aldo Litaiff, Ph.D. Antropólogo da UFSC Florianópolis, SC. 49. Maria Amélia Schmidt Dickie Venho expressar minha indignação com a tendenciosa reportagem publicada por VEJA(14/3) sobre os indígenas e seus direitos a terra, reportagem que debocha destes direitos, falando inverdades. O repórter desconhece a história dos indígenas brasileiros e se arvora de autoridade ao declarar sobre os Guarani do Morro dos Cavalos, Palhoca, SC, que não são brasileiros. Inverdade sobre inverdade, o artigo é uma afronta a todos os povos minoritários brasileiros e agride também a legislação a este assunto pertinente que, no Brasil, estabelece seus direitos, em especial, o direito a terra. Maria Amélia Schmidt Dickie Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social Universidade Federal de Sta. Catarina 37 Zélia Maria Bonamigo A revista Veja de 14 de março de 2007 publicou a matéria Made in Paraguai, que deixou perplexos antropólogos e todos os que conhecem de perto a população indígena Guarani. Maria Dorothea Post Darella, do Museu da UFSC - Universidade de Santa Catarina, antropóloga que acompanha o processo de regularização fundiária na terra indígena de Morro dos Cavalos - SC, em cuja tese de doutorado, em 2004, tratou do tema Territorialização Guarani no litoral de Santa Catarina, Brasil, elaborou um dossiê contendo cartas de pelo menos 50 profissionais repudiando a reportagem, que foi enviado à Veja e à Procuradoria da República. Todos os participantes do dossiê, inclusive eu, repudiamos também a acusação de que o trabalho da antropóloga Maria Inês Ladeira seja uma fraude. Seu trabalho é reconhecido nacional e internacionalmente, pois trabalha há quase 30 anos com comunidades guaranis além de ter realizado pesquisas acadêmicas em várias aldeias do Sul e Sudeste durante o mestrado e o doutorado. Em resposta à edição da matéria, o CTI - Centro de Trabalho Indigenista - informou em seu site que “no final de fevereiro de 2007, um repórter da Veja remeteu, por e-mail, uma série de questões tendenciosas à coordenadora do GT - Grupo Técnico de Identificação e Delimitação da TI -terra indígena Morro dos Cavalos, Maria Inês Ladeira, antropóloga do CTI, baseadas em informações e documentos deturpados” e que “a matéria superou as piores expectativas possíveis: preconceitos raciais e étnicos, além de falsidade deliberada em imputar à antropóloga a autoria de atos e afirmações inverídicos”. Além de recomendar ao repórter a leitura dos documentos relativos aos procedimentos de demarcação e a consulta aos demais profissionais envolvidos, Maria Inês, quanto à alegação do repórter de “colocar” os índios no Morro dos Cavalos, respondeu: “Cumpre notar que os povos indígenas não são meros objetos que são colocados em aldeias ao sabor dos desejos de antropólogos e nem estes possuem interesses particulares nas terras indígenas. Ao contrário, procuram cumprir uma tarefa, cada vez mais difícil, de ampliar o entendimento e a compreensão sobre outros povos e sociedades cujo reconhecimento dos direitos históricos territoriais torna-se imprescindível para continuarem vivendo.” Outras inverdades da matéria: a) o povo embiá citado não existe. Explica Darella: “Carijó, Mbyá, Kaiová, Nhandeva, Tambeopé, Paim, Chjiripá, Apapocúva dizem respeito ao povo Guarani, o maior povo indígena do Brasil”; b) os Guaranis não são “índios paraguaios”, mas guaranis. Eles já habitavam os territórios que foram posteriormente 38 demarcados como Argentina, Uruguai e Paraguai; c) sobre a presença indígena no território Morro dos Cavalos, “há registros de sítios e evidências arqueológicas guaranis em toda a região, bem como registros orais de famílias guaranis que ocupavam a região há décadas, algumas de forma ininterrupta e outras temporariamente”, explicou Darella. O cacique Artur Benite manifestou que seu povo se sente “gravemente insultado e desrespeitado pelas calúnias escritas na matéria, que contém racismo e imoralidade, difamando a autenticidade da história indígena Guarani no Brasil”. Não há dúvida de que a matéria é uma investida contrária à demarcação da terra indígena. Outras informações: www.trabalhoindigenista.org.br Zélia Maria Bonamigo é jornalista, mestre em antropologia pela UFPR, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (Publicado no jornal O Estado do Paraná, Caderno Variedades, p. 3, em 01/04/2007). Resposta da Funai publicada na Veja, edição 2000, de 21.03.07 À redação de VEJA A Funai ainda não chegou a uma definição sobre o processo de regularização da Terra Indígena Morro dos Cavalos, cujo trâmite administrativo cumpre rigorosamente os requisitos do artigo 231 da Constituição Federal e do Decreto Presidencial 1775/96. O índio guarani embiá habita o território do Brasil, do Paraguai e da Argentina. Como vários outros povos indígenas, vive no Brasil e em outros países da América do Sul. É o caso dos ticunas, dos ingaricós, dos galibis, dos achanincas, dos caiovás e de tantos outros. É graças aos povos indígenas que o Brasil possui suas dimensões continentais. A Funai se alegra com o fato de VEJA reconhecer seu esforço pela demarcação das terras e pela proteção dos direitos indígenas. Contudo, a Fundação reitera que, ao contrário do sugerido pelo texto, suas ações orientam-se pela legislação nacional. Michel Blanco Maia e Souza Assessor de Imprensa – Funai Brasília/DF