A DESRAZÃO DO ENCONTRO NO COMPASSO DA TRANSFERÊNCIA Maria Inês Tassinari Resumo: Este trabalho pretende abordar o elo entre a figurabilidade e as palavras como elemento constitutivo da posição atribuída ao analista pelo paciente em transferência. Tal conceito, também denominado representabilidade, é pensado por alguns autores como efeito das transformações a que estão submetidos os pensamentos do sonho, o que os torna aptos a serem apreendidos em imagens. De modo análogo, mas em sentido contrário, o processo analítico, cujo setting reune condições para propiciar a regressão, mobiliza também a construção de elos entre inúmeras experiências sensoriais e processos de produção de sentido, sendo os mais escutados, e por isso mais interpretados, aqueles que se enunciam por meio do sentido das palavras, sendo relegado ao esquecimento os traços suprasegmentais, que expressam a forma dada as palavras pelo analisando. Relevando a importância dessa perspectiva, será discutido o caso de um paciente adulto com queixa de gagueira, para o qual a figurabilidade do analista se coloca como condição que possibilita associação, ou seja, a materialidade da presença, ou imagem fundamentalmente lhe permitem enfrentar uma relação com as palavras que abre as comportas das mais variadas possibilidades de construção de elaborações a respeito das palavras enquistadas no sintoma da gagueira. A DESRAZÃO DO ENCONTRO NO COMPASSO DA TRANSFERÊNCIA Maria Inês Tassinari “Como se explica que meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? Como é que se explica que eu não tolere ver, só por que a vida não é o que eu pensava e sim outra coisa – como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização? E uma desilusão. Mas desilusão de que? se, sem ao menos sentir, eu mal deveria estar tolerando a minha desorganização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não mais pertencer a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque enfim foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas porque não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade”. Clarice Lispector Ele chegou com aspecto efusivo, sentou-se como de costume e lançou-me aquele olhar emoldurado pelo pescoço anteriorizado e as sobrancelhas elevadas. Com esse jeito amigável de marcar presença parece implicar-me numa resposta, ao que, sem me dar conta, já correspondi. Elevo as sobrancelhas, anteriorizo o pescoço e nos enlaçamos numa certa cumplicidade corporal. Nos vemos. Lançamos a cabeça em direção um ao outro. A palavra nasce aí, nesse meio tempo entre a contração dos lábios e a abertura exagerada dos olhos. Então, começa: P - Nunca consigo lembrar o que conversamos aqui. Será que isso é normal? Da última vez que estive aqui, quando acabou cheguei ali na rua e já não lembrava de nada. Do mesmo modo, nunca consigo saber o que vou dizer, nunca sei o que vai acontecer, sobre o que vou falar. É incrível, mas na última sessão só eu falei praticamente. Você se lembra que eu disse no final que tinha falado bastante? É muito esquisito não lembrar do que falamos na sessão é como esquecer dos sonhos que são tão fortes à noite, mas perdem a força de manhã. Ontem mesmo eu sonhei que meu p.....ai me chamava para consertar seu computador. Consertei com muita facilidade, então ele me disse que eu era bom nisso, deveria estudar computação. Aí eu fiquei super feliz, pois estava certo que seria possível deixar a é a co co co contabilidade, mas de manhã, aquela sensação de certeza tinha acabado e estava novamente contabilizando os riscos de me lançar numa profissão nova. Está vendo? É muito esquisito não pensar antes no que vou dizer e quando chego aqui sai tanta coisa... A - Você pode se arriscar aqui. P - É bem esquisito não preparar o que vou falar, geralmente planejo antes, mas o pior não é isso. O pior é que não lembro do que conversamos, mas eu sei que foi importante, sei que pensei um monte de coisas que não tinha pensado, mas elas ficam num lugar escondido. A - Quer se lembrar do quê? P - Para ficar analisando... assim...é... tentando aplicar um jeito diferente de agir, mas não consigo. Aí quero parar de fazer análise, por que não parece que aprendo nada, mas cada vez que venho aqui acontece alguma coisa que me faz voltar, o p....ior é que nem lembro o que foi. A - Faz voltar? P - Ah... se não tivesse vindo eu tenho certeza que não teria de é de de des descoberto muitas coisas sobre mim . S obre o medo dos fiscais, medo do des des des controle e todas as dificuldades com meu p......ai. Também quis parar de vir quando percebi que ele era muito diferente do que eu pensava, meu p......ai caiu do p.....edestal e eu fiquei sem coragem de reconhecer, tive muita raiva de você. Mas, principalmente, vi que não tenho nenhum controle por que não sei o que vai rolar aqui. Ainda assim fico super nervoso, pois acho que tenho que prever tudo, senão parece que não estou aproveitando. É, eu só lembro que devo vir, mas não penso no que vou falar e nem no que já falamos. Entre tantas outras questões que poderiam ser discutidas na experiência de análise com esse paciente, os fragmentos acima são um mote que me abriu a possibilidade e o desejo de começar a estabelecer algumas relações entre a transferência e a figurabilidade, configurando o lugar do analista. Segundo Laplanche e Pontalis (1995), figurabilidade ou representabilidade pode ser definida como “ a exigência a que estão submetidos os pensamentos do sonho; eles sofrem uma transformação que os tornam aptos a serem representados em imagens, sobretudo visuais ”. Em seguida os autores afirmam que a figurabilidade é uma das condições reguladoras do trabalho do sonho e que tem sua origem na regressão, como dispositivo que regula a atração que a recordação visual exerce sobre os pensamentos separados da consciência e que lutam por se exprimir. Segundo esta concepção o sonho seria “ o substituto da cena infantil modificado por transferência para o recente ”. Tal afirmação permite parear os mecanismos que produzem o fenômeno da transferência com os que produzem o sonho. No entanto, a figurabilidade aparece no sonho como deslocamento do desejo para uma imagem ou mesmo para uma expressão que irá fornecer um elo (uma palavra) entre a noção abstrata e a imagem sensorial. Há, portanto, na estruturação discursiva durante a análise a tendência de ancorar as palavras em sentidos já cauterizados pela repetição, como que norteados em via régia pelo processo secundário. Nessa direção, o papel do analista seria seguir com os pacientes um caminho regressivo, não necessariamente em busca do trauma esquecido, nem da verdade da experiência, mas da autenticidade da significação. Quero dizer com isso que a força sensorial das palavras, aquilo que permitiria “sentir o sentido”, pode ser recuperada na análise mediante o retorno ao desejo infantil, retorno de lembrança imbricadas em traços mnêmicos sensoriais que não só projetam no analista seus complexos infantis, mas que o fazem de modo muito similar ao que ocorre com a criança no processo de aquisição de linguagem. A criança se dá conta dos seus afetos à medida que esses vão se articulando às palavras dos adultos, por isso o maior trabalho da criança é montar e desmontar combinações de sons na busca do sentido, até que as palavras valham algo que lhe diz respeito, quando já pode sincronicamente sentir o sentido ou fazer sentido. A mágica apropriação das palavras, no entanto, nem sempre nos coloca em conforto com os afetos, mas, pelo contrário, nos desconcerta, quando surpreendidos descobrimos que somos mais apropriados por elas do que nos apropriamos delas. A vida transcorre na incessante necessidade de produzir sentido, para o que move a pulsão e nos põe a cada ganho um certo sabor de perda sempre, ou seja, o de viver o descompasso entre encontrar as palavras e não necessariamente o sentido dos seus efeitos em nós. Como bem percebeu Rilke, “ a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou ”. Nesse terreno a figurabilidade aparece como um recurso psíquico bem mais afeito ao sensorial, o que principia e ao mesmo tempo propicia o repertório de marcas corporais cujas matrizes permitirão sentir os sentidos das palavras. Seguindo nessa perspectiva, a escuta do analista pode ser revigorada se incluir em seu espectro de significação, a singularidade da relação com as palavras com a qual cada analisando nos contamina sensorialmente, relação mais legitimamente expressa pelos traços suprasegmentais (entonação, ritmo, melodia) do que pela sintaxe e semântica, dado que esses elementos constitutivos do funcionamento da linguagem, estão muito mais próximos da figurabilidade na transferência do que a articulação lógica de idéias. A gestalt do encontro sempre impregna os sentidos que muito antes das palavras já atravessaram o corpo e vão ganhando o território, que só a posteriori , as palavras vão tentar mapear. Entendendo as palavras como um concentrado de traços mnêmicos, cabe continuar perguntando: qual o papel exercido pela imagem ou pelo que há de intenso sensorial (absolutamente singular) na técnica da interpretação? Como manejar as palavras sem ser utilitariamente? Sem retirar a força de ligação e vida que a linguagem nos possibilita? Como avançar da mesmice semântica (e da repetição teórica neurótica) para o inédito do sentido? Como engajar o que há de mais comum na cultura com o que há de mais singular no sujeito, para que ele se recoloque subjetivamente em relação ao outro e à cultura, familiar e social, na qual se constituiu? Mesmo correndo o risco de aproximações apressadas e/ou hipóteses pouco fundamentadas, parto do princípio que o que autoriza uma fala é a transferência, pela especial característica desse fenômeno de investir o outro com o que lhe é mais caro e familiar. Aquilo do que não falamos diretamente para os pacientes, mas de cujo registro, nenhum dizer analítico pode prescindir. Nos dizeres de Fontes (2002), a cura em análise é possível na medida em que esta “ permite a aquisição de uma fala que pode dar ao sujeito sua capacidade de representar as coisas”. É digno de nota como a virtualidade dessa experiência perpassa até mesmo a produção racional da escrita da autora, ou seja, ela afirma que a análise vai dar ao paciente uma capacidade que já é dele. Talvez ficasse mais apropriado o termo “devolver” ou ainda, “restituir”, mas acredito que se trata de uma qualidade do encontro (do entre), muito mais próxima da criação. Partindo da matéria bruta desafetada que lentamente se contamina com o olhar, a escuta e os gestos do analista, regando a secura do nada que atormenta o desejo de ser e de saber de si. Nesse sentido a transferência seria o elemento mais sensorial do processo analítico, por isso tão próxima do processo primário. Ao localizar o analista no espaço e no tempo de ser “destinatário– transitário”, Pontalis (1999), nos fez ver que este está reduzido a uma representação anódina que possibilita a transferência. Nesse sentido, esta presença pode ser análoga ao papel dos restos diurnos no processo de produção do sonho, ou seja, sem os restos diurnos, nas suas mais variadas combinações de detalhes e desfiguração, o desejo inconsciente não ganharia a figurabilidade necessária para penetrar na consciência. Presença anódina, mas não aleatória ou exclusivamente garantida pelas condições do enquadre. Botella (2002), a partir da experiência clínica com a análise de crianças, nos permite continuar desenvolvendo esta idéia ao inferir que o lugar do analista (nos limites do setting ) , pode ser marcado pela intensa força sensorial das imagens, ou seja, a figurabilidade está presente na relação analista analisando, manifestando-se como “ o produto de um trabalho psíquico diurno comparável ao do sonho, com seu percurso regrediente resultando numa percepção interna próxima da alucinação do sonhador ”. Parece ser algo semelhante à alucinação que Breno experimenta na transferência, uma espécie de estímulo que abre as comportas das mais variadas imagens em palavras represadas pelos fantasmas/sintomas. Entre eles, a gagueira que tentando subverter o ritmo limita a força de seus dizeres e contém a “fúria” do desejo. Manobra inconsciente que na superfície desafeta o sentido e fixa toda sensação na forma (produção do ato articulatório). A palavra segundo Törok (cit. Fontes, 2002), “ quanto à origem provinha do mundo exterior e estava estocada no préconsciente sob forma de representação acústica. Mas, por outro lado, essas mesmas representações acústicas estavam interligadas pelo interior a representações de” coisa “... enxertadas nas pulsões”. As duas faces das palavras parecem disputar os enunciados de Breno, luta que ele sempre assistiu com muita dor e perplexidade. Transferência e figurabilidade aparecem em estreita relação teórica e clínica, de modo particular, pelo que lemos nos enunciados de Breno e de outro pelo que lemos nos autores citados. Há aqui uma diferença que talvez venha, a partir desta situação clínica, interpelar a teoria; poderíamos pensar na figurabilidade também como uma imagem de fora para dentro, sem a qual o discurso não se produz, assim como a primeira face das palavras? Por exemplo, como uma percepção externa que vai dar conformação sensorial às associações fragmentárias e provocar um efeito sentido? Continuo inferindo que sim, e, de certo modo, amparada por meu paciente. Breno afirma que o encontro analítico provoca algo que gera associações e palavras, ao contrário do que experimenta nos outros encontros, nos quais por medo de gaguejar, se exclui do lugar discursivo, principalmente quando o interlocutor o ameaça por ocupar uma posição de autoridade. Desde muito cedo, segundo ele, desde que começou a falar, experimenta muita dificuldade em se apropriar das palavras, apresentando sintomas como gagueira e silenciamento, daí sua sensação de esquisitice quando não se embaraça com as palavras. Em particular, neste caso, conto com uma variável bastante significativa que é a impossibilidade deste paciente em prescindir da imagem do outro para poder falar. Diante disso que o apavora, estamos trabalhando há dois anos frente a frente. Nesse contexto, segui (por algum tempo) pensando que quando há subversão do setting clássico, há uma tendência no pensamento clínico em justificar tais diversidades no enquadre pela via do funcionamento psíquico do paciente, o que neste caso, também se aplica, pois há traços obsessivos bastante característicos. No entanto, é como se ele sustentasse o valor e a potência das suas palavras no olhar do outro, imagem que, em minha opinião, lhe assegura um retorno sensorial que mesmo sem palavras pode ampará-lo do terror de não ter sido entendido, como se estivesse protegido da ambivalência, inerente a todo processo de produção de sentido. De repente Breno começa a brotar fluentemente nos sonhos: “ sonhei que gritava muito com ele, estávamos dentro de um ônibus, havia muitas pessoas desconhecidas, mas eu dizia todas as verdades que engoli a vida inteira. Dizia que ele não era nada do que eu pensava, era mesquinho, pobre e muito rígido. Não sabia ser feliz ”. Todo sonho traz infinitas potências de interpretação, no entanto o relato desse sonho, nesse momento da análise, me permitiu pensar num sentido que apontasse na direção da declaração inconsciente do desejo de realizar o desejo que ele supõe ser da analista, a quem atualmente deseja agradar para ser amado, em obediência aos ensinamentos do pai: “ se você não fizer o que te peço é porque não me ama ”. Essa “coisa estranha”, como Freud (1938) qualificou a transferência me surpreendeu absurdamente. Que armadilha difícil de desvencilhar e, ao mesmo tempo, tão fácil de nos enredar. No sonho inicial, o autoritarismo do pai se transforma num mal do qual ele pode esperar um bem, o pai o autoriza a estudar computação, campo de conhecimento que domina sem nenhum esforço e que aprendeu sozinho e cujo investimento não pode gerar lucros, pois lhe dá prazer. Deve acreditar que é incapaz de lembrar, quando está o tempo todo mostrando do que se lembra, provavelmente esquece o que é impossível de ser precisamente enunciado, os traços mnêmicos que transformam os encontros em desejo de encontrar. Breno pode explicar as descobertas que fez na análise, percebe os efeitos do trabalho, mesmo assim, não se conforma em não poder controlar o método pelo qual se dão. A enunciação da ambivalência na relação com o pai de quem espera autorização, quando simultaneamente é nessa posição submetida que ele se desautoriza, faz lembrar e desejar que meu paciente possa como nos aponta Fedida (1988), “ transformar a ambivalência numa experiência não contraditória de contrários ”, no entanto nesse momento tudo se lhe apresenta como incompreensível e estranho, mesmo tendo valor, perde em valor por não ser linearmente explicável e por conseqüência imprevisível e sem controle. Cabe perguntar se o modelo conceitual utilizado para bordejar o fenômeno da transferência não carrega também, desde Freud, essas íntimas intensidades, de satisfação ou de desconcerto inerentes à relação terapêutica. Não fosse isso, pelo menos em parte, a regra de abstinência não seria tão fundamental quanto à associação livre. Nesse sentido, as tentativas metodológicas e conceituais para minimizar os excessos do corpo, dando maior vazão às palavras não exclui o corpo da cena, mas pelo contrário atribui a ele grande relevância, a ponto de determinar-lhe limites mediante o mapa teórico/técnico. A inexatidão dos encontros que produzem palavras justas na forma e no conteúdo, tão aderidas àquela experiência que é inútil querer reproduzir em casa, parecem ser viabilizadas pela “exatidão” do papel/função de cada um na dupla. Isso que só ocorre em presença marca-o como um sinal de desconfiança no que antes chamava de segurança. Segurança era prever para poder agir, bem nos moldes positivistas clássicos. Confiança passa a associar-se a uma experiência estranha de suportabilidade ao não saber. Graças à suspensão do já pensado se abre um espaço de criação na análise. Em oposição à repetição inerente ao exercício da profissão de contabilista, na qual, manter corretos os documentos dos clientes, calcular com precisão as contas, saber as datas dos impostos e preencher detalhados protocolos - segundo o modelo – era garantia de sua competência e valor aos olhos do pai, que a cada experiência bem sucedida do filho lhe impunha um novo desafio, até que o menino obediente recua, acuado pelo excesso de atribuições. Finalmente fala de seu cansaço e do desejo de poder jogar bola (pelo menos no fim de semana) , o que era ouvido como desobediência ou insulto. A armadilha do desejo paterno vai prender o desejo de Breno na clandestinidade , da qual nenhuma promessa de intimidade poderá demovê-lo. Até encontrar algum meio de dissolução do concentrado da experiência inconsciente em palavras/corpo de transferência. Ao incluir as marcas corporais como matéria prima do vínculo, conceituado em estreita ligação com a transferência, Zygouris (2002), afirma que o vínculo é o possibilita a transferência. Diz a autora, “ O que sustenta as palavras? O tecido do vínculo é o real entre dois organismos humanos. Trata-se, antes de tudo, de uma característica da espécie humana, uma realidade feita de” sentires “(feelings), emoções em sua maioria inconscientes, de sensorialidades que nada têm de especificamente analíticas, inclusive na sessão analítica. O que faz o vínculo entre dois seres humanos, são os alicerces de singularidades jamais generalizáveis ”. Nessa perspectiva, o vínculo é sustentado pelo que transcende qualquer explicação teórica que tente mapeá-lo, está no registro do território que tudo comporta, mas que não pode ser reduzido a nenhum modelo explicativo. Embora a amplitude dos efeitos do vínculo não seja analisável, a intimidade própria da análise, pode ser - muito sinteticamente - expressa como um modo de estar com o outro que permite ao paciente estar mais próximo de si , ou melhor, do “si” que é engendrado pelos traços mnêmicos recriados ou reconectados atuados e atualizados na relação analítica. Como, para Breno, estar com o outro cabia em dois míseros registros de sentido, o de receber e o de dar ordens, a intimidade do encontro com a analista faz parte do repertório de espantos e esquisitices, produto aparentemente novo, que o impulsiona a falar do que não sabe, falar à revelia do hábito de esperar que a fala do interlocutor o autorize, falar sem que a antecipação do fracasso aprisione as palavras. Em sua perspectiva, falar tanto assim, como na análise, é um mistério. Provavelmente, o enigma está enquistado no sentido do intrigante sintoma que - no avesso da trama associativa - o move até a análise: a gagueira. A trama dissociativa deste sintoma é poderosa para gerar muito sofrimento . Aparece aqui uma tentativa de separar palavras de afeto, subvertendo a prosódia em repetições e bloqueios fartamente encenados pela tensão no gesto articulatório que emudece o sentido dos enunciados e tende a concentrar a percepção do ouvinte na observação do seu modo de falar e não no que está dizendo. Conclui-se que sem poder assumir a literalidade do desejo expressando-o em palavras, estas se desmancham em implícitos afetos que as atravessam deformando o dizer no sentido e na forma. Por outro lado, continuam reverberando para o outro mais visualmente do que auditivamente . Em analogia com o funcionamento de seu sintoma, os efeitos provocados pela análise são simultaneamente reconhecidos e negados. Pela transferência, imagino que ele tenha certo receio que a analista encarne o lugar da mãe com quem conseguia falar, mas não ser escutado, já que as queixas dela sempre suplantavam o que supunha serem os sofrimentos do filho. No entanto, mediante um efeito autorizador que se configurou no vínculo, Breno começa a trazer para análise sonhos nos quais fala raivosamente com o pai, denuncia seus desmandos, podendo dizer publicamente para o pai que recebeu dele muitas coisas, uma profissão, a satisfação das necessidades materiais... Mas deixou muito a desejar, pois ele é um filho excelente que não recebeu proporcional reconhecimento, pelo contrário, sempre se submeteu às exigências paternas à revelia de seu desejo. Assim, sonhando, representa seu desejo de se descomprometer da dívida com o pai que na realidade é figurada pela quase compulsão de prestar contas a ele de tudo o que faz. O que, graças à saúde psíquica, não basta para obturar a falta transformada em desejo. Deixado a desejar, Breno reconfigura condições para que seu desejo encante outros encontros que favoreçam novas formas de vida. “É preciso – e a nossa evolução, aos poucos, há de processar-se nesse sentido – que nada de estranho nos possa advir, senão o que nos pertence desde há muito... há de se reconhecer aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles”. Rilke BIBLIOGRAFIA ALONSO, S. Sugestão-Transferência: os relatos clínicos de Freud , in Revista Percurso, n. 6, 1991. AUTHIER- REVUZ, J. – Falta do Dizer, Dizer da Falta: As Palavras do Silêncio in Orlandi, E. P. (org.), Gestos de Leitura. Editora da Unicamp: Campinas, 1994. BOTELLA, C. e S. Irrepresentável – mais além da representação. Editora Criação Humana – Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, 2002. BIRMAN, J. e NICÉAS, A. C. Constituição do campo transferencial e o lugar da interpretação psicanalítica. Editora Jorge Zahar: Rio de Janeiro, 1991. CHEMAMA, R. (org.) 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A separação estéril entre pensamento e sensorialidade já foi devidamente refutada por Freud, podemos citar como exemplo o texto de 1912 “Os dois Princípios de Funcionamento mental”, no qual demonstra a indissociável relação existente entre afeto, pensamento e linguagem na constituição do aparelho psíquico. Ao usar a palavra limite, não estou me referindo exclusivamente à observância dos cuidados com o espaço físico e das normas contratuais, mas fundamentalmente ao que pode permitir a função analítica, que é a suportabilidade à transferência, mediante a qual a escuta pode compor a interpretação. As demandas de Breno já eram bastante conhecidas da mãe que em silêncio, se compadece, mas não se opõe ao marido. Tal hipótese foi sendo formulada mediante as associações do paciente a respeito de seus relacionamentos, nos quais nunca consegue ter prazer, como se só pudesse viver obrigações na relação com o outro. Em parte a satisfação libidinal encontrará realização em atividades solitárias, já que amar o outro significa deixar de desejar. Nesse sentido, pode ser possível compreender porque esteve à beira do alcoolismo logo após a adolescência, e que diariamente recorra à masturbação. Numa primeira aproximação é possível pensar que o excesso de bebida neutraliza o excesso do outro e a masturbação lhe possibilita não se perder no desejo do outro. Embora nem sempre seja muito confortável, o analista está sob o mesmo efeito, vivendo com cada paciente um contato singular consigo, se isso ocorre pode ser um indício de que não estão convertendo todos os seus pacientes em sua imagem e semelhança, ou seja, há alteridade e espaço para o devir. Nesta mesma sessão o paciente disse : “Será que isso tem alguma coisa a ver com a gagueira?”. Pensei no controle das palavras no medo de errar e no quanto esse medo de falar me impediu de fazer um monte de coisas. Desde que venho aqui peço menos a opinião do meu pai. Ontem troquei de carro sem perguntar nada para ninguém“. Qualquer semelhança com a conversão histérica seria mera coincidência? Acredito que não. A aparência obsessiva superficialmente vislumbrada sob o signo da constante necessidade de controle, no caso de Breno, carrega nesse excesso paterno uma certa insuficiência que vai se manifestar não só na gagueira, enquanto traço de um sintoma conversivo, quanto em “distúrbios sexuais” que também compõem as queixas do paciente. Segundo Israël (1995), esses distúrbios, “são mais uma vez manobras de evitação, graças as quais o sujeito não precisará se expor a situações cuja dificuldade ele exagera, da mesma maneira que aumentava, em sua imaginação infantil, a dificuldade de tarefas que o adulto esperava dele”.