A MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA MARIA INÊS DE SOUZA AZEVEDO MELLO UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO - UENF MESTRADO EM COGNIÇÃO E LINGUAGEM CENTRO DE CIÊNCIAS DO HOMEM CAMPOS DOS GOYTACAZES – RJ MARÇO - 2012 MARIA INÊS DE SOUZA AZEVEDO MELLO A MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem do Centro de Ciências do Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, como parte das exigências para a obtenção do título de Mestre em Cognição e Linguagem. Orientador: Prof. Dr. Pedro Lyra Co-orientadora: Profª Dra. Maria Cristina dos Santos Peixoto CAMPOS DOS GOYTACAZES – RJ MARÇO - 2012 FICHA CATALOGRÁFICA Preparada pela Biblioteca do CCH / UENF 008/2012 M527 Mello, Maria Inês de Souza Azevedo A música como instrumento de intervenção psicopedagógica / Maria Inês de Souza Azevedo Mello -- Campos dos Goytacazes, RJ, 2012. 78 f. : il Orientador: Pedro Lyra Dissertação (Mestrado em Cognição e Linguagem) – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Centro de Ciências do Homem, 2012 Bibliografia: f. 69 - 73 1. Música e Educação. 2. Psicopedagogia. 3. Psicologia da Aprendizagem. I. Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Centro de Ciências do Homem. II. Título. CDD – 780 A MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA MARIA INÊS DE SOUZA AZEVEDO MELLO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem do Centro de Ciências do Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, como parte das exigências para a obtenção do título de Mestre em Cognição e Linguagem. Aprovada em: 13 de março de 2012. Comissão examinadora: ______________________________________________________ Orientador: Prof. Dr. Pedro Lyra - UENF ______________________________________________________ Co-orientadora: Profª Dra. Maria Cristina dos Santos Peixoto – UENF _______________________________________________________ Profª Dra. Marlúcia Cereja de Alencar – UNIFLU - FAFIC _______________________________________________________ Prof. Dr. Giovane do Nascimento - UENF “A música presta auxílio a mentes enfermas, arranca da memória uma tristeza arraigada, arrasa as ansiedades escritas no cérebro, e com seu doce e esquecedor antídoto, limpa o seio de todas as matérias perigosas que pesam sobre o coração”. Shakespeare1 1 apud Tame (1984). Agradecimentos Primeiramente sou grata a Deus, Criador de todas as coisas e Sustentador da minha vida. A Ele toda honra e glória. Ao meu marido Carlos, um amigo sempre presente com seu amor e incentivo. Aos meus amados filhos, Lívia e Daniel, presentes de Deus para mim. À minha mãe, Evane, que sempre me incentivou e me cercou com seu amor e carinho constantes. Ao meu pai, Arizo, que apesar de hoje não mais me conhecer devido à perda da memória, quando tinha consciência sempre me animava a fazer todos os cursos e se colocava à disposição para ajudar no que eu precisasse. À minha irmã querida, Suely, grande incentivadora e torcedora pelo meu sucesso. Aos meus irmãos amados Rose e Júnior, que sempre me dispensaram seu carinho e amor. À minha irmã querida de fé, Karla Rodrigues, que numa manhã de domingo ficou conversando comigo ao invés de assistir uma aula, tentando me convencer de fazer a prova de seleção para o Mestrado. Às minhas “irmamigas”, Denise e Williana, que com amizade e oração me ajudaram a chegar até aqui. Ao meu pastor, Heron, que orou por mim pedindo a Deus sabedoria para a conclusão do meu curso. Ao professor Valdecy Passos, pela preciosa ajuda com o Inglês. À Miriam Freitas, coordenadora da ONG “Orquestrando a Vida”, que com seu carinho e boa vontade me ajudou na pesquisa de campo. À Jony Willian, diretor da ONG “Orquestrando a Vida”, por sua amizade e por ter aberto as portas da ONG para a pesquisa. À Marcelo Nascimento pela ajuda com a informática e amizade de longa data. À Charles Willian, que me deu todo suporte tecnológico que precisei, sempre com muito carinho, amizade e presteza. Jamais esquecerei. À Profª Rita Chardelli, que foi fundamental no incentivo e ajuda no meu préprojeto para entrar na UENF. Você é inesquecível. Aos meus orientadores Pedro Lyra e Maria Cristina Peixoto, pelas preciosas e sábias orientações. “A música faz parte da vida das crianças desde o berço. Acalantos, canções de ninar, brinquedos sonoros ilustram o cotidiano de toda criança. Introduza no currículo escolar a música e ela será revelada na estrutura de sua elaboração e na técnica de seus instrumentos, podendo até ser estímulo para o despertar de vocações, além de se constituir num complemento cultural e na possibilidade de amenizar as dificuldades com as demais disciplinas. Será um respiro artístico em meio à rigidez científica.” Toquinho (2009) Resumo Esta pesquisa buscou investigar sobre a utilização da música, através da aprendizagem de um instrumento musical, como possibilidade de intervenção cognitiva, capaz de auxiliar alunos com dificuldades de aprendizagem. Inicialmente, foi realizado um estudo teórico sobre a abordagem psicopedagógica, com foco nas dificuldades de aprendizagem relacionadas à cognição, como a concentração e a memorização. Posteriormente, o enfoque foi sobre a música e sua relevância, enquanto função terapêutica para o corpo e para as emoções, além das implicações do estudo de um instrumento musical, e sua relação com a cognição e com a intervenção psicopedagógica. A pesquisa de campo foi realizada em Campos dos Goytacazes, na ONG “Orquestrando a Vida”, no período de maio a dezembro de 2011, com a participação de vinte e uma crianças e dezoito pais, que foram entrevistados. Utilizamos uma metodologia qualitativa, do ponto de vista da forma de abordagem do problema, sendo realizadas observações e análises dos dados coletados, através de entrevistas com alunos e seus pais. Palavras-chave: música, instrumento musical. psicopedagogia, intervenção psicopedagógica e Abstract Music as an Instrument of Psychopedagogical Inter-vention This research sought to study about the music use as a help cognitive intervention possibility through the study of a musical instrument, to help students with learning disabilities. At first, a theoretical study about the psychopedagocical approach was carried out focusing on the cognition-related learning difficulties like concentration and memorization. Later, the focus was on music and its relevance, as a therapeutic function for the body and emotions, besides the implications of the study of a musical instrument, and its relation with the cognition and the psychopedago-gical intervention. The field research was realized in Campos dos Goytacazes, at the non-profit organization “Orquestrando a Vida” (Orchestrating Life), from the period of May through December of 2011, with the participation of twenty-one children and eighteen parents, who were interviewed with. We have used a qualitative methodology, from the view point of the problem approach means, being realized observations and analyses of the collected data, through interviews with the students and their parents. Keywords: Music, Psychopedagogy, Psych-opedagogical Intervention and Musical Instrument. LISTA DE FIGURAS Figura 01 – Teclado musical .................................................................................... 43 Figura 02 – Partitura da música Garota de Ipanema ............................................... 45 Figura 03 – Instrumento musical – teclado eletrônico .............................................. 50 LISTA DE FOTOGRAFIAS Fotografia 01 – Crianças estudando orientadas pelo professor ............................... 44 Fotografia 02 – Crianças fazendo alongamento antes do ensaio ............................ 47 Fotografia 03 – Crianças da ONG tocando em conjunto ......................................... 49 Fotografia 04 – Menina da ONG tocando violino ..................................................... 52 Fotografia 05 – Fachada da ONG – Centro Cultura Musical de Campos ................ 59 Fotografia 06 - Ensaio na ONG ................................................................................ 59 Fotografia 07 – Alunos tocando no concerto ............................................................ 65 Fotografia 08 - ONG tocando no Teatro Municipal do Rio de Janeiro ..................... 66 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 01 – Perfil dos alunos entrevistados ............................................................ 61 Gráfico 02 – Dificuldades ou não antes da música .................................................. 62 Gráfico 03 – Redes de Ensino: Pública e Particular ................................................. 62 Gráfico 04 – A música para os que tinham dificuldades escolares .......................... 63 Gráfico 05 – A música para todos os alunos ............................................................ 63 Gráfico 06 – Equilíbrio emocional ............................................................................. 64 Gráfico 07 – A música como profissão ..................................................................... 65 SUMÁRIO RESUMO ABSTRACT 1. INTRODUÇÃO.................................................................................................15 1.1. Problema....................................................................................................16 1.2. Hipótese ....................................................................................................16 1.3. Objetivos ...................................................................................................17 1.4. Metodologia do Estudo..............................................................................17 2. PSICOPEDAGOGIA: DEFINIÇÃO E ABRANGÊNCIA DE ATUAÇÃO.........19 2.1. Dificuldades de aprendizagem ................................................................20 2.1.1. Concentração ..............................................................................25 2.1.2. Memorização ...............................................................................27 2.2. Intervenção psicopedagógica nas dificuldades de aprendizagem ...........29 3. A MÚSICA E SUA RELEVÂNCIA...................................................................32 3.1. A influência da música no corpo e nas emoções ....................................34 3.1.1. Emoções negativas despertadas pela música ..............................38 3.2. Implicações do estudo de um instrumento musical ............................... 42 3.3. Música e cognição ................................................................................. 51 3.4. Intervenção psicopedagógica via música .............................................. 55 4. METODOLOGIA DA PESQUISA....................................................................57 5. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS...................................61 6. CONCLUSÃO..................................................................................................67 7. REFERÊNCIAS.............................................................................................. 70 8. APÊNDICES .................................................................................................. 75 9. ANEXOS 1 - LEI Nº 11.769, DE 18 DE AGOSTO DE 2008.....................................78 2 - Resultado do IDEB de 2009 ............................................................... 79 15 1. INTRODUÇÃO A música é uma arte capaz de despertar os mais diferentes sentimentos e emoções, levando o homem a reviver fatos marcantes da vida, trazendo à memória lembranças de momentos tristes e alegres, ou mesmo auxiliando na memorização de poesias, histórias e números. Ela faz parte da vida e está presente em quase todas as atividades que o homem desenvolve e participa. Como pensar num filme sem música? E uma cerimônia de casamento, com uma igreja repleta de convidados, tudo num imenso silêncio? Como imaginar uma festa somente com o barulho das vozes conversando, sem ter como dançar e nem ao menos com o som de um fundo musical? As novelas sem trilha sonora não fariam o sucesso que fazem, despertando emoções nos telespectadores, mesmo se escritas por autores famosos e de alto nível de competência. E o que dizer dos filmes? É impossível imaginar o romantismo e emoção do filme “Titanic” sem sua música tema My Heart Will Go On. Até mesmo os desenhos animados, com todo seu apelo visual, não iriam cativar a atenção das crianças sem as músicas que fazem as imagens ganhar sentido e graça. Imaginar um mundo sem música é como ter a visão de um vazio, com ausência de cor, brilho e beleza, que se constituem elementos essenciais para tornar a vida mais prazerosa e satisfatória. Esta pesquisa busca tratar a música como possibilidade de intervenção cognitiva para auxiliar alunos com dificuldades de aprendizagem. O quadro pedagógico atual tem demonstrado, através de dados das avaliações oficiais do governo, como o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), a gravidade dos problemas relacionados à cognição, às dificuldades de aprendizagem (anexo 2) e à formação de professores, evidenciando o desafio a ser enfrentado, principalmente no que diz respeito às políticas públicas municipais do Norte Fluminense. Tal fato faz crescer as estatísticas sobre o fracasso escolar e o aumento do número de pais que solicitam auxílio de psicólogos e psicopedagogos, numa tentativa de diagnosticar os problemas e buscar possíveis soluções. Dentro desta ótica, como educadora na área da música há mais de vinte anos, objetivamos verificar se esta área do conhecimento poderá ser uma ferramenta a ser utilizada na ajuda a alunos com dificuldades de aprendizagem. 16 Estudos de autores como Gainza (1988), Gardner (1994; 1995; 1998; 1999), Jeandot (1997), Perret (2004) e Victorio (2008), entre outros, apontam que a música, por ser um tipo de linguagem que estimula diferentes sentidos, poderá facilitar a construção do conhecimento de forma mais inteira e prazerosa. Consideramos que a oportunidade de reflexão teórica-prática no Mestrado em Cognição e Linguagem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense - UENF, vem realçar a necessidade de discussões sobre o entendimento do homem da pósmodernidade, que tem vivenciado conflitos e dificuldades na conquista dos conhecimentos necessários a sua integridade. Dessa forma, a pesquisa poderá favorecer que novos espaços educativos possam ser abertos na busca de meios para a superação dos limites impostos à educação brasileira, que poderão passar pelo caminho da arte musical. 1.1. Problema O estudo de um instrumento musical poderá exercer influência positiva em alunos com dificuldades cognitivas de aprendizagem, ligadas à concentração e à memorização, objetivando uma melhoria em sua performance cognitiva e equilibrando suas emoções? 1.2. Hipótese Acredita-se que a mente humana é influenciada pela música e emoções são provocadas inegavelmente pelos sons musicais, tanto pela música cantada como a tocada. E se emoções são provocadas pela música, o estudo de um instrumento musical leva à prevenção de futuros problemas de aprendizagem relacionados à concentração e à memorização, bem como auxilia estudantes que apresentam estes tipos de dificuldades escolares, pois contribui na concentração, na organização, na socialização, na memorização, promovendo assim um desenvolvimento cognitivo saudável. 17 1.3. Objetivos 1.3.1. Geral: Desenvolver um estudo teórico e de campo sobre a influência que a música e o estudo de um instrumento musical exercem na aprendizagem do educando, oferecendo subsídios para uma atuação psicopedagógica, visando ampliar os conhecimentos em torno do tema. 1.3.2. Específicos: (a) Investigar teoricamente a relação existente entre o estudo da música e os seus benefícios no processo de aprendizagem e nas emoções de educandos; (b) Verificar, através de entrevistas, a percepção de pais, de professores e de alunos a respeito do progresso ou não dos sujeitos participantes da pesquisa, na aprendizagem escolar e nas questões relacionadas à afetividade, após a introdução da música na sua formação; (c) Relacionar o estudo teórico realizado com o resultado dos dados coletados na pesquisa, para a elaboração de uma síntese conclusiva. 1.4. Metodologia do Estudo A estrutura desta dissertação está dividida da seguinte forma: 1. Apresentação do trabalho com introdução constando problema, hipóteses, objetivos e metodologia do estudo; 2. Levantamento bibliográfico referente à Psicopedagogia, tendo como foco as dificuldades cognitivas de aprendizagem, relativas à concentração e à memorização; 3. Estudo relacionado à música e sua relevância, identificando sua influência no corpo e nas emoções. Em seguida, uma abordagem sobre as implicações do 18 estudo de um instrumento musical; reflexão sobre a relação da música com a cognição; a intervenção psicopedagógica via música. 4. Definiu-se a metodologia utilizada neste trabalho, suas abordagens, os procedimentos da coleta de dados através do uso de entrevistas, com os sujeitos, os pais e os professores. 5. Descrição, análise e interpretação dos dados relativos à pesquisa de campo feita com alunos de música com a idade de nove anos da ONG “Orquestrando a Vida”, seus pais e professores da escola regular, numa investigação sobre o papel da música na vida acadêmica destes estudantes. 6. Conclusão baseada na relação entre as hipóteses e os resultados da pesquisa de campo. A seguir, apresentaremos as partes que compõem este estudo teórico-prático. Na segunda parte, faremos reflexões acerca da Psicopedagogia, situando-a historicamente, definindo o termo e sua abrangência de atuação. Ainda dentro desta parte, refletiremos as dificuldades de aprendizagem, que é o objeto de estudo da Psicopedagogia, dando ênfase em duas relacionadas à cognição, que são as de concentração e memorização. Encerrando esta parte, discorreremos sobre a intervenção psicopedagógica nas dificuldades de aprendizagem. Após, discutiremos sobre a música e sua relevância histórica e cultural, bem como a influência que ela exerce no corpo e nas emoções, possuindo uma função terapêutica. Apesar de todos os benefícios da música apontados nesta parte, também abordaremos as emoções negativas despertadas pela música. Ainda, apresentaremos as implicações do estudo de um instrumento musical, tomando como exemplo o piano. Em seguida, faremos a relação dentre música e cognição, e encerrando com a intervenção psicopedagógica onde ela é utilizada. Na quarta parte, traremos a metodologia que foi utilizada nesta pesquisa, seguindo com a quinta parte analisando e interpretando os resultados obtidos com a pesquisa de campo, através de gráficos. Finalmente, em uma tentativa de concluir, levantaremos algumas reflexões referentes à importância da utilização da música na intervenção psicopedagógica, relacionando o estudo teórico realizado com a pesquisa de campo, verificando se as hipóteses de confirmam. 19 2. PSICOPEDAGOGIA: DEFINIÇÃO E ABRANGÊNCIA DE ATUAÇÃO A Psicopedagogia teve seu início histórico na Europa, em 1946, tendo sido fundados os primeiros centros psicopedagógicos por J. Boutonier e George Mauco, com direção médica e pedagógica, unindo conhecimentos da área de Psicologia, Psicanálise e Pedagogia. Estes centros tentavam readaptar crianças com comportamentos socialmente inadequados na escola ou em casa e atender crianças com dificuldades de aprendizagem mesmo sendo inteligentes, segundo Bossa (2000). O que se esperava era que por meio desta união Psicologia-PsicanálisePedagogia, fosse possível conhecer a criança e o seu meio, para assim compreender o caso, determinando-se uma ação reeducadora. O desafio era fazer a diferença entre os que não aprendiam, apesar de serem inteligentes, daqueles que apresentavam alguma deficiência mental, física ou sensorial. No Brasil, a psicopedagogia chegou na década de 1970. As dificuldades de aprendizagem nesta época eram ligadas a uma disfunção neurológica chamada de Disfunção Cerebral Mínima (DCM), que neste período virou costume usar esta denominação, servindo para encobrir problemas de ordem sociopedagógicos, como diz Bossa (2000). Hoje, a Psicopedagogia é entendida como uma área de estudo relacionada à aprendizagem escolar, tanto no que diz respeito ao seu desenvolvimento normal, quanto às dificuldades que possa apresentar no percurso, podendo estar ou não ligada aos problemas de ordem neurológica, auxiliando na identificação das dificuldades de aprendizagem e oferecendo opções de intervenção, com o objetivo de que haja uma diminuição ou solução destes problemas, evitando assim conseqüências indesejadas, como a multirrepetência, o fracasso escolar e a evasão. As intervenções psicopedagógicas têm um caráter multidisciplinar devido à complexidade e diversidade dos problemas de aprendizagem, buscando interagir com diversas outras áreas de conhecimento, principalmente da Psicologia e da Pedagogia. Sua proposta é integrar, de modo coerente, conhecimentos e princípios de distintas ciências humanas, visando adquirir uma ampla compreensão sobre os variados processos inerentes ao aprender, segundo Beuclair (2004). 20 Para que os objetivos da intervenção psicopedagógica sejam cumpridos, é preciso que todos os envolvidos com o processo de ensino-aprendizagem reflitam sobre a situação-problema. E refletir sobre os problemas de aprendizagem consiste em procurar compreender a forma como o aluno está utilizando os elementos do seu sistema cognitivo e emocional para aprender. Significa também pensar as relações que se estabelecem entre o aluno e o conhecimento, as quais são apresentadas pelo professor e pela escola. A abrangência de atuação da Psicopedagogia é bem ampla e envolve, além do ambiente escolar, oferecendo um atendimento individual ou grupal, os campos das empresas, hospitais e pode estar presente em quaisquer instituições onde existam grupos de pessoas reunidas necessitando superar as dificuldades de relacionamento, pois segundo Beuclair (2010)2, a função de um psicopedagogo institucional é: (...) fomentar e avaliar ações quanto à aprendizagem do indivíduo no contexto grupal, facilitando a construção e o compartilhamento do conhecimento coletivo, incentivando novas formas de relacionamentos, criando harmonia entre gestores e colaboradores, podendo atuar junto ao profissional de RH, assumindo um papel importante, avaliando e controlando a aprendizagem, favorecendo a qualidade nos processos de recrutamento, seleção e organização de pessoal, bem como, levantando o diagnóstico organizacional, dando subsídios significativos e perfis específicos, estabelecendo princípios didáticos aos treinamentos. É utilizar possibilidades criativas e eficazes através da reflexão grupal e assim, conseguir, uma real transformação do indivíduo, e isso é aprendizagem. Apesar desta ampla abrangência de atuação da Psicopedagogia, o enfoque deste trabalho será voltado exclusivamente para a área da aprendizagem escolar. 2.1. Dificuldades de Aprendizagem Para que se possa entender o que são as dificuldades de aprendizagem, é primeiro necessário que haja uma compreensão do que seja aprendizagem. Segundo Fonseca (2007), a aprendizagem pode ser analisada da seguinte forma: 2 BEUCLAIR, João. Artigo: “Psicopedagogia Empresarial: as possibilidades de atuação de um psicopedagogo numa empresa”, 2010. Disponível em: http://www.profjoaobeauclair.net/visualizar.php?idt=1235591. Acesso em agosto de 2011. 21 A aprendizagem compreende, assim, um processo funcional dinâmico que integra quatro componentes cognitivos essenciais: • input (auditivo, visual, tatil-cinestésico, etc.); • cognição (atenção, memória, integração, processamento simultâneo e seqüencial, compreensão, planificação, auto-regulação, etc.); • output (falar, discutir, desenhar, observar, ler, escrever, contar, resolver problemas, etc.); • retroalimentação (repetir, organizar, controlar, regular, realizar, etc.). Aprender, portanto, envolve quatro unidades funcionais do cérebro em perfeita interação. Se essa dinâmica neurofuncional não for harmoniosa, o indivíduo pode experimentar dificuldades de aprendizagem. Após esta definição do que consiste a aprendizagem, pode-se pensar no significado do termo Dificuldades de Aprendizagem, que foi citado no artigo de Carvalho (2009): O National Joint Committee on Learning Disabilities (NJCLD), composto por representantes de oito das mais importantes organizações nacionais dos EUA assim define dificuldade de aprendizagem: “Dificuldade de Aprendizagem (DA) é um termo geral que se refere a um grupo heterogêneo de transtornos que se manifestam por dificuldades significativas na aquisição e uso da escuta, fala, leitura, escrita, raciocínio ou habilidades matemáticas. Esses transtornos são intrínsecos ao indivíduo, supondo-se devido à disfunção do sistema nervoso central, e podem ocorrer ao longo do ciclo vital. Podem existir, junto com as dificuldades de aprendizagem, problemas nas condutas de auto-regulação, percepção social e interação social, mas não constituem, por si próprias, uma dificuldade de aprendizagem. Ainda que as dificuldades de aprendizagem possam ocorrer concomitantemente com outras condições incapacitantes (por exemplo, deficiência sensorial, retardamento mental, transtornos emocionais graves) ou com influências extrínsecas (tais como as diferenças culturais, instrução inapropriada ou insuficiente), não são o resultado dessas condições ou influências”. (NJCLD, 1988, p. 1). Deve-se considerar dificuldade de aprendizagem como um transtorno constante que afeta a maneira como o indivíduo retém e expressa informações. Estas informações que entram ou que saem podem ficar desordenadas na medida em que viajam entre os sentidos e o cérebro. É por isso que os problemas de aprendizagem contrariam a harmonia do desenvolvimento, segundo Gouveia (2006), levando o indivíduo a apresentar atrasos cognitivos significativos na relação potencial de aprendizagem normal e o seu aproveitamento escolar abaixo do esperado e considerado dentro da média. 22 As razões pelas quais uma criança não aprende na escola podem ser multifatoriais, bem como as classificações dos problemas de aprendizagem. Estas razões podem ser não apenas de aprendizagem, mas também, ou somente, de “ensinagem”, com aulas desestimulantes, sem atrativos, sem didática adequada e sem a utilização de meios que favoreçam uma aprendizagem satisfatória. Segundo Ciasca (2004), são três áreas específicas que envolvem as dificuldades de aprendizagem: fisiológica- são caracterizadas geralmente por déficits neurológicos, problemas de ordem física que atrapalham no desenvolvimento cognitivo, como paralisia cerebral, deficiência mental, epilepsia e deficiências sensoriais; socioambiental- refere-se a inadequações socioeducacionais, como ambiente escolar precário, professores despreparados, com uma formação acadêmica insuficiente e/ou de qualidade insatisfatória e também questões relacionadas com o ambiente familiar, como falta de motivação dos pais em relação aos estudos de seus filhos e falta de limites estabelecidos pelos pais, permitindo a ociosidade e não aproveitamento do tempo que deve ser dedicado aos estudos; desenvolvimentista- indica que uma falha no desenvolvimento poderia ser a causadora da dificuldade de aprendizagem, como os quadros psicológicos e/ou psiquiátricos: TDAH3, depressão infantil, ansiedade, estresse, bem como questões emocionais, causadas por: separação dramática dos pais, caso de luto na família, acidentes ou nascimento de um irmão. Com relação ao fator socioambiental, vale um parêntese sobre o sistema educacional brasileiro, onde se vê publicado na imprensa e em documentários a precária situação do ensino no Brasil. Pesquisas4 mostram que, pela falta de qualidade na Educação e por ter dificuldades de alfabetizar, o Brasil aparece em 88º lugar dentre 127 países. O que se observa são escolas sucateadas, com problemas de infra-estrutura, abandonadas pelo poder público, que deveria cumprir a lei e oferecer à população uma educação de qualidade num ambiente adequado para o 3 Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Pesquisa encontrada no site: http://www1.folha.uol.com.br/saber/882676-brasil-fica-no-88-lugar-em-ranking-deeducacao-da-unesco.shtml. Acesso em março de 2012. 4 23 desenvolvimento das potencialidades do indivíduo. Os professores têm uma formação precária, gerando assim um ensino de baixa qualidade. E como o governo não investe na formação e capacitação dos professores e nem oferece uma remuneração digna para estes profissionais da Educação, os que, na sua maioria, se submetem aos baixos salários, são aqueles que tiveram uma formação ruim, pois estudaram em escolas públicas e não conseguiram nenhuma profissão melhor remunerada. Desta forma, estes professores só têm a oferecer o que lhes foi dado: uma Educação de baixa qualidade, voltada apenas para a memorização, sem a preocupação com a formação de cidadãos conscientes, capazes de construir seu próprio conhecimento e aptos para atuar e tentar transformar a sociedade. Assim, fica estabelecido o ciclo do fracasso educacional brasileiro, sem perspectivas de melhora, pois a ajuda financeira e a criação de políticas públicas voltadas para a educação estão nas mãos de políticos sem escrúpulos que só pensam no enriquecimento próprio em detrimento da miséria do povo. Estes políticos são favorecidos pelo analfabetismo, que gera a manutenção de indivíduos mais facilmente manipuláveis. Por todas estas razões, não se pode depositar a responsabilidade do fracasso escolar e as dificuldades na aprendizagem apenas no aluno. Antes da realização de quaisquer intervenções psicopedagógicas, é necessário que se desenvolva um estudo interdisciplinar para diagnosticar cada caso, envolvendo diferentes especialistas e profissionais da saúde e da educação, constituindo-se um desafio para os que desejam trabalhar nesta área. Existem casos que necessitam da intervenção de psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos, neurologistas ou mesmo aqueles em que o problema pode ser resolvido dentro do contexto escolar, por meio de programas individualizados de ensino e práticas pedagógicas diferenciadas. Carvalho (2009), afirma que se pode considerar que uma criança apresenta dificuldades de aprendizagem quando manifestar problemas em um ou mais dos seguintes aspectos: Pensar claramente; Escrever legivelmente; Soletrar com exatidão; Aprender a ler; 24 Aprender a calcular; Copiar formas; Recordar fatos; Seguir instruções; Colocar coisas em seqüência. Como os fatores que podem interferir no processo ensino-aprendizagem são diversos, não se pode deixar de investigar o ambiente no qual a criança vive e a metodologia utilizada nas escolas (fatores socioambientais), antes de se direcionar a intervenção psicopedagógica, pois a criança pode não ter uma dificuldade de aprendizagem, mas apenas uma dificuldade de adaptação à metodologia utilizada pelo professor, ou ao ambiente escolar, como também o problema pode ter sua raiz na ausência de estímulos dentro de casa ou acompanhamento escolar de seus familiares. Crianças que não apresentam nenhum fator externo a ela e mesmo assim não conseguem desenvolver plenamente suas habilidades cognitivas, têm grandes possibilidades de ter distúrbio de aprendizagem, cujas limitações intrínsecas se manifestam através de déficits lingüísticos, alteração no processamento auditivo, desatenção e falta de concentração, agitação (hiperatividade), impulsividade e outros vários fatores que podem prejudicar em grande medida o aprendizado da leitura e da escrita, segundo Carvalho (2009). O processo de ensino-aprendizagem requer uma integração entre afetividade, cognição e ação e, nas pessoas que não apresentam dificuldades, esta integração acontece, favorecendo assim a aprendizagem. Mas aqueles que, por algum motivo, apresentam dificuldades, esta integração aparece cheia de obstáculos, em desorganização, provocando tensão diante das situações que envolvem o aprender. O não conseguir aprender por repetidas vezes faz com que o indivíduo forme de si uma imagem de derrotado, desenvolvendo baixa autoestima, levando-o à inibição ou afastamento de novas situações de aprendizagem, podendo gerar um círculo vicioso do fracasso, pois quanto mais ele se sente inferiorizado, mais estará propenso ao insucesso, e menos poderá conseguir aprovação a partir de seu desempenho. A criança com dificuldade de aprendizagem não deve ser rotulada como incapaz ou deficiente, mas deve ser vista como uma criança normal que simplesmente aprende de uma forma diferente e apresenta um desnível entre o potencial que ela demonstra e o potencial que se espera dela. Esta não pertence a 25 nenhuma categoria de deficiência e não possui uma deficiência mental, pois tem um potencial cognitivo que não é realizado em termos de aproveitamento educacional, segundo Fonseca (1995). Após esta visão geral do que significam as dificuldades de aprendizagem e suas implicações, será apontada a direção do enfoque que se pretende dar neste ponto do trabalho, que são aquelas que têm relação com a cognição: concentração e memorização. 2.1.1. Concentração Concentração significa direcionar esforços mentais para a realização de uma determinada atividade, situação ou problema. Existem vários fatores que podem prejudicar a concentração: Estímulos externos, que são aqueles provenientes do ambiente, como ruídos, objetos, imagens, pessoas, músicas, odores, etc.; Estímulos internos, que são os da própria pessoa, como imagens mentais, pensamentos, lembranças, preocupações e emoções; Problemas psicológicos, que envolvem dificuldades de ordem financeira, relacionamentos familiares e sociais, problemas de doença e também questões religiosas, que muitas vezes impõe determinados tipos de comportamentos castradores e inibidores da auto-expressão. As dificuldades de concentração que se apresentam nos estudantes, são problemas relacionados à atenção necessária tanto na hora da aula quanto no estudo individual para fixação e entendimento da matéria estudada. Segundo Gonçalves (2011), a criança com problemas relacionados à concentração, (...) sente dificuldade em fixar a atenção não selecionando os estímulos relevantes dos irrelevantes. Ela apresenta geralmente problema de selecionar quando dois ou mais estímulos estão presentes. A atenção é controlada pelo tronco cerebral e quando a unidade funcional é afetada o cérebro está impedido de processar e conservar as informações, pondo em risco as funções de decodificação e de codificação. (...) A atenção compreende uma organização interna e externa de estímulos, organização indispensável à aprendizagem, caso contrário as mensagens sensoriais são recebidas, mas não integradas. 26 Os estímulos extra-escolares existentes hoje, como internet (com todas as suas redes sociais), vídeo-game, televisor, celular, entre outros, fazem com que muitas vezes a atenção da criança seja dividida e desviada para algo que se apresenta como mais atraente que a escola, tirando o foco dos estudos e ocasionando numa dispersão que pode desembocar numa dificuldade na aprendizagem. Apesar deste reconhecimento dos estímulos que se constituem em instrumentos dispersivos, não se pode evitar o seu uso, pois o mundo tecnológico está cada vez mais desenvolvido, apresentando todos os dias novidades que deixam as pessoas estarrecidas. Já que seu uso não pode ser evitado, que seja ao menos feito com bom senso e moderação para que o seu excesso não prejudique a concentração necessária, levando à dificuldade de aprendizagem. É possível o indivíduo ter uma boa concentração através de treino e disciplina. Estudar ouvindo música, assistindo um televisor, com preocupações povoando a mente ou com o pensamento em coisas que deverão ser feitas, atrapalha a atenção necessária para o momento do estudo. No momento em que se estuda, as coisas ao redor devem ser deixadas de lado, as preocupações esquecidas e o maior silêncio possível deve ser buscado, criando assim um ambiente propício para que a mente possa focar no objetivo que é o de estudar, aprender e memorizar os conteúdos propostos, visando um rendimento escolar satisfatório. O estudo de um instrumento musical tem importantes aspectos que podem ajudar na melhora da concentração, como, por exemplo, quando o músico toca com outros instrumentistas, fazendo o que se chama de música de câmera: é preciso ter atenção para tocar na hora certa (porque muitas vezes o instrumento que a pessoa toca executa apenas algumas partes da música); estar bem conectado com os outros músicos para que a velocidade da música seja constante, não variando o andamento; no caso de se ter um maestro, estar muito atento para suas orientações e variações de interpretações; executar o próprio instrumento com o máximo de perfeição possível e, para tanto, faz-se necessária uma grande concentração devido à complexidade das implicações da execução, com necessidade de boa leitura da partitura com todos os seus símbolos, bem como as técnicas referentes ao próprio instrumento. É por isso que, após esta descrição do que constitui a prática da música em conjunto, esta pesquisa tentará verificar se o estudo de um instrumento musical 27 pode ser considerado como importante ferramenta no auxílio do exercício da concentração, ajudando o indivíduo a manter sua atenção direcionada, objetivando uma boa execução de seu próprio instrumento, via utilização de técnica instrumental adequada e eficiente leitura da partitura, além de oportunizar o prazer de ouvir o bom resultado com a harmonia conquistada pelos músicos do grupo. 2.1.2. Memorização Uma definição muito adequada de memória foi dada por Cardoso5,que escreveu em seu artigo: A memória é uma faculdade cognitiva extremamente importante porque ela forma a base para a aprendizagem. Se não houvesse uma forma de armazenamento mental de representações do passado, não teríamos uma solução para tirar proveito da experiência. Assim, a memória envolve um complexo mecanismo que abrange o arquivo e a recuperação de experiências, portanto, está intimamente associada à aprendizagem, que é a habilidade de mudarmos o nosso comportamento através das experiências que foram armazenadas na memória; em outras palavras, a aprendizagem é a aquisição de novos conhecimentos e a memória é a retenção daqueles conhecimentos aprendidos (...) Assim, aprendizagem e memória são o suporte para todo o nosso conhecimento, habilidades e planejamento, fazendo-nos considerar o passado, nos situarmos no presente e prevermos o futuro. Sendo a memória este suporte fundamental para que a aprendizagem ocorra de forma satisfatória, Oliveira (2007) faz algumas considerações relacionando-a com a escrita e, também, colocando-a como elemento essencial para a construção de valores e costumes de uma sociedade: O estudo e a pesquisa sobre memória possuem longo percurso na história do desenvolvimento humano. A própria escrita tem fundamento não apenas no ato de comunicar, mas também na necessidade de reter informações e acessa-las mais tarde. A escrita agiria como reforço para a memória e, neste entendimento, memória não passa de um registro de informações natural. Assim, concebemos que a capacidade de memorizar é também responsável por parte importante do funcionamento de nossa sociedade. (...) A memória é uma função com base evolutiva que determina quem somos e como 5 CARDOSO, Silvia Helena. Memória: o que é e como melhorá-la. Disponível em: http://www.cerebromente.org.br/n01/memo/memoria.htm. Acesso em 04 de agosto de 2011. 28 devemos nos comportar. É uma das funções cognitivas que definirá como trataremos nossa prole, como voltaremos para casa após um longo dia de trabalho ou se reconheceremos ou não as pessoas que nos rodeiam. Portanto, define também parte dos nossos comportamentos e personalidade. Conhecer como funciona a memória é primordial para entender como se organizam nossos pensamentos, comportamentos e idéias (p. 20). Quando ocorre uma insuficiente assimilação dos conteúdos estudados pelos alunos, pode-se dizer que está acontecendo uma dificuldade de memorização, que traz a reboque um obstáculo para o raciocínio, pois este consiste em comparar as informações existentes na memória, seja entre dados isolados ou conceitos. Se há insuficiente memorização, o raciocínio fica prejudicado, acarretando numa dificuldade de aprendizagem, pois esta depende da capacidade do indivíduo de raciocinar. A aprendizagem está diretamente ligada à capacidade de memorização. É por isso que quando uma criança apresenta problemas com a retenção dos conhecimentos estudados, as dificuldades de aprendizagem começam a surgir, pois segundo Lieury (2001), a aprendizagem depende da estimulação constante da memória. Os fatos carregados de emoção ficam muito bem registrados na memória, mas ela não registra, ou registra de maneira insatisfatória os fatos desinteressantes, banais ou corriqueiros. Quanto mais sentidos são envolvidos no processo de aprendizagem, melhor é a retenção dos conhecimentos, e isso envolve cores, sons, gestos, músicas, imagens e odores, que constituem elementos fundamentais para a aprendizagem. A memória deve ser exercitada constantemente como condição para o seu funcionamento satisfatório, bem como para sua expansão. Quanto mais a memória é utilizada e trabalhada, mais o indivíduo aumenta sua capacidade de retenção de informações e conhecimentos. Segundo Sé (2005), existe uma plasticidade na memória dos indivíduos e por meio de técnicas específicas é possível aumentar a eficiência da gravação de informações e até mesmo reverter ou compensar déficits cognitivos. Pode-se comparar a plasticidade da memória e sua necessidade de exercício com jogadores de futebol, por exemplo. Eles não entram em campo simplesmente colocando em prática todas as técnicas ensaiadas de jogadas como dribles, chutes de pênaltis, cobranças de faltas, entre outras. É necessário que haja todo um 29 preparo físico com atividades aeróbicas, exercícios de musculação, massagens e uma dieta rica em nutrientes que contribuirão para o bom desempenho em campo, para assim serem colocadas em prática todas as técnicas de jogadas ensaiadas. Com a memória não é muito diferente. É preciso que haja treino para o seu desenvolvimento, utilizando atividades que contribuam para uma maior plasticidade, levando a uma melhor performance cognitiva. Um excelente exercício para o treino da memória é o estudo de um instrumento musical. Neste estudo a memória é treinada de forma prazerosa e eficaz. Memorizar cada nota que deve ser tocada para que a música aconteça é um grande feito da memória, segundo Jourdain (1998), que afirma que “A capacidade de lembrar uma composição inteira, nota por nota, (...) talvez seja o mais notável feito de memória da experiência humana” (p. 222). Para que se toque um instrumento musical é necessária a memorização de vários símbolos e de vários sons que caracterizam as notas musicais. Dependendo da complexidade do instrumento, o exercício da memória pode variar de intensidade. A execução de um instrumento musical exige a integração de várias funções distintas. Se o instrumento for o piano, por exemplo, é necessário ler a partitura, com toda sua simbologia e riqueza de detalhes. Isto envolve as notas musicais escritas na pauta, as figuras que indicam a duração de cada nota, a localização destas mesmas notas no instrumento e os dedos que devem ser usados para tocar cada uma das notas escritas. Existe também a dinâmica indicada que consiste em tocar mais suave ou mais forte, variando a intensidade das notas de acordo com o trecho da música marcada pelo compositor. Com toda esta riqueza de detalhes, pode-se concluir que executar um instrumento musical exige a utilização e integração de diversos tipos de funções e memórias, sendo que cada uma dessas funções requer ativações de várias partes do cérebro. Para que se consiga tocar o piano com beleza e proximidade da perfeição, muitas habilidades têm que ser colocadas em prática, especialmente as motoras e cognitivas, e o desafio é conseguir conciliar todas estas habilidades ao mesmo tempo. 30 2.2. Intervenção Psicopedagógica nas Dificuldades de Aprendizagem A intervenção psicopedagógica é a interferência de um profissional, que pode ser o educador, o psicopedagogo, o pedagogo, ou qualquer profissional que trabalha na equipe multidisciplinar psicopedagógica, atuando no sentido de investigar, detectar e buscar solucionar os problemas do processo de aprendizagem apresentados pelo indivíduo. Rubinstein (2006) afirma que um dos objetivos da intervenção psicopedagógica é: (...) desenvolver as condições, para o sujeito da aprendizagem, melhorar sua integração em relação às funções cognitivas e eventualmente alterar sua posição com o conhecimento e o saber. Parte-se do pressuposto de que atrás do manifesto, da dificuldade em si, está o sentido latente. Esse pressuposto interfere na perspectiva de como se analisa a produção escolar, bem como se estabelece o contato com a criança ou o jovem. Essa posição exige um levantamento constante de perguntas, não para obtenção de respostas imediatas, mas questionamentos que ocorrem durante as sessões (p. 189 -190). O procedimento da intervenção psicopedagógica deve iniciar-se com uma profunda investigação, com entrevistas seguindo um roteiro pré-determinado e devidamente adaptado a cada caso, começando com os pais, posteriormente o sujeito e por fim deve-se ouvir a escola e a equipe de docentes que está inserida no contexto do investigado. Este procedimento é chamado pelos psicopedagogos de anamnese, que consiste nesta busca detalhada por informações via entrevistas, que podem nortear o rumo da intervenção psicopedagógica, pois, conforme afirma Gouveia (2006), “o diagnostico é um momento fundamental no trabalho psicopedagógico, pois a partir dele se determina a direção da intervenção a ser feita” (p. 69). A partir desta anamnese, é necessário um estudo detalhado com base em todos os dados coletados, a fim de se definir os procedimentos a serem adotados, que tipo de intervenção será feita e se outros profissionais serão envolvidos no processo, pois multiprofissional, um que psicopedagogo pode incluir muitas vezes fonoaudiólogo, age com psicólogo, uma equipe neurologista, 31 psicanalista, entre outros, por entender que não domina todas as áreas do conhecimento, valorizando, assim, a competência de outros profissionais. Um grande benefício desta intervenção é que “vai sustentar a relação do indivíduo com o conhecimento para aumentar sua consciência sobre o seu processo de conhecer, em relação às suas estruturas cognitivas” (CAMPOS, 1999, p. 207). No processo da intervenção psicopedagógica, não se pode esquecer de incluir a família. Em muitos casos de dificuldades de aprendizagem, o problema vem da própria família, mesmo que seja de forma não intencional. Os pais podem estar agindo de maneira errada, seja com cobranças exageradas, estabelecendo metas para seus filhos acima do que eles podem atingir, ou no outro extremo, com uma atitude de indiferença, sem se importar e nem se envolver com os estudos deles, não dando atenção aos seus pedidos de socorro, mesmo que silenciosos, quando algo errado acontece, ou simplesmente sem parar para ouvir seus problemas, angústias, anseios, expectativas e sonhos. Neste mundo em que o ter é mais importante que o ser, no qual as pessoas vivem correndo de um lado para o outro, em uma busca incessante por realização pessoal e sucesso, seja financeira ou profissional, além de se encontrarem envolvidas em trabalhos, estudos, compromissos e muitas atividades, as crianças têm recebido pouca atenção da parte de muitos pais. 32 3. A MÚSICA E SUA RELEVÂNCIA Uma das expressões artísticas mais antigas da humanidade é a música. Através dela o indivíduo pode se expressar, se comunicar e interagir com o mundo. Alvarez (2008), afirma que: Muitos filósofos dedicaram especial atenção à música em seus estudos e a consideraram desde sempre uma parte importante da educação. Platão afirmava que “o ritmo e a harmonia chegam a todas as áreas d’alma e toma posse delas, outorgando graça ao corpo e mente que apenas se encontram em quem tenha sido educado de forma correta.” Aristóteles também promoveu a educação musical integral, pois estava convencido de que “alcançamos uma certa qualidade de personalidade graças a ela”. Confúcio considerava que a música exercia influência tanto pessoal como política: “O homem superior pretende promover a música como meio de aperfeiçoamento da cultura humana. Quando a música prevalecer e conduzir as pessoas para seus ideais e aspirações, contemplaremos o panorama de uma grande nação.” Na Idade Média e no Renascimento, a música era considerada um dos quatro grandes pilares da aprendizagem, junto com a Geometria, a Astronomia e a Aritmética (p. 67). Como bem expôs Lyra (2009)6, a música é uma arte rítmica, que “se define por sua progressão no espírito e, portanto, ocupa um lugar imaterial no tempo”. Existem registros muitos antigos de instrumentos musicais que foram feitos com o objetivo de imitar os sons da natureza, dos pássaros, do trovão, do vento nas árvores e dos animais da floresta. Na Bíblia, no Antigo Testamento, são citados alguns instrumentos musicais, já no primeiro livro, o de Gênesis, no capítulo 4, como a harpa e a flauta. Também são encontrados, em outros livros da Bíblia, o saltério (semelhante à viola, mas de forma triangular), o címbalo (instrumento de percussão formado por dois pratos), o alaúde (instrumento de corda, semelhante também à viola), tamborins (pequenos tambores), entre outros. Ouvir música pode provocar sensações, emoções, lembranças de momentos vividos e sentimentos multiformes. Ela é uma arte muito valorizada e utilizada para auto-expressão e também com o intuito de despertar nos ouvintes emoções as mais diversas. Existem muitos estudos na área da musicoterapia que comprovam a eficácia de seu efeito terapêutico na cura de várias doenças, pois a música interfere 6 LYRA, Pedro. “As Três Formas Culturais de Conhecimento” - Texto utilizado no curso Cognição e Linguagem da UENF – Universidade Estadual do Norte Fluminense, 2009. 33 na saúde física, mental e emocional do homem, podendo atuar melhorando o sono, o humor, atenuando a ansiedade e o stress, que são males muito recorrentes neste conturbado século XXI. Como a música desperta emoções, pode também contribuir para moldar o caráter da pessoa, pois, segundo diz Tame (1984): Quem pode duvidar de que a música afeta nossas emoções? É por certo verdadeiro que só ouvimos música, em primeiro lugar, porque ela nos faz sentir alguma coisa. Mas isto agora é deveras interessante, pois se a música nos proporciona sentimentos, podemos dizer que tais sentimentos – de inspiração moral, alegria, energia, melancolia, violência, sensualidade, calma, devoção e assim por diante – são experiências. E as experiências que temos na vida constituem um fator vitalmente importante no moldar-nos o caráter (p. 158). Diante do poder da música e da relação que se tem, mesmo que em alguns casos, indireta com ela, fica clara a sua abrangência em todas as idades da vida humana, como afirma Gainza (1988, p. 22 - 23): “A música e o som, enquanto energias estimulam o movimento interno e externo do homem, impulsionam-no à ação e promovem nele uma multiplicidade de condutas de diferente qualidade e grau”. Na vida do ser humano ela é muito importante por ser um elemento que auxilia no seu bem estar, quando bem utilizada, e age diretamente nas suas emoções, podendo favorecer o desenvolvimento do seu potencial criativo e influenciar positivamente na estruturação de sua personalidade, pois como diz Gainza (1988, p. 36): “A música movimenta, mobiliza, e por isso contribui para a transformação e para o desenvolvimento”. É importante explorar as possibilidades do ensino de música não apenas no ambiente escolar, mas também fora deste, como excelente subsídio ao desenvolvimento de habilidades cognitivas do aluno, necessárias no seu desempenho acadêmico e no processo de aprender a aprender, que consiste na capacidade do sujeito de constituir-se como autor de sua aprendizagem. A linguagem musical vem sendo apontada, por um número cada vez maior de especialistas em todo o mundo, como uma das áreas do conhecimento mais importantes a serem estudadas no desenvolvimento da criança, pois a aprendizagem musical contribui para o desenvolvimento cognitivo, psicomotor, 34 emocional e afetivo e, principalmente, para a construção de valores pessoais e sociais de crianças, jovens e adultos, melhorando a agilidade cognitiva, a capacidade de administrar informações em conflito e de escolher a que melhor se aplica em cada momento da vida. O estudo de um instrumento musical, com a utilização da leitura de partituras, desenvolve a memória, a concentração e, ao tocar, melhora o controle motor, a coordenação e a expressividade emocional, podendo preparar o indivíduo para uma variedade de funções perceptuais e executivas, levando a um melhor desempenho e competência cognitiva, segundo Perret (2009). A percepção da música, dos sons musicais e dos diversos timbres que existem, é assimilada de forma bem individualizada, varia de pessoa para pessoa, pois cada um traz suas próprias memórias e vivências, conforme afirma Gainza (1988): Um objeto sonoro ou instrumento musical qualquer tende a penetrar no campo auditivo dos sujeitos que se encontram dentro do seu raio de ação. As diferentes pessoas, segundo sua idade, educação e estado psicofísico, reagirão de maneira característica, mostrando menor ou maior atração ou apetite pelo “alimento” sonoro que está ao seu alcance ou lhes é oferecido, realizando o ato de absorção e internalização com diferentes graus de concentração, continuidade e finura (p. 25). Entende-se que ampliar a compreensão da música enquanto tipo privilegiado de linguagem no processo ensino-aprendizagem favorecerá o exercício da docência, bem como auxiliará a atuação psicopedagógica, influenciando para uma melhora cognitiva do educando, pois, ao mexer com as emoções, torna a aprendizagem mais prazerosa e eficaz. 3.1. A Influência da Música no Corpo e nas Emoções O homem deve ser olhado como um todo, não separando o corpo da mente e das emoções. Fisicamente o homem pode estar saudável, mas se suas emoções adoecerem, isto levará reflexos para sua saúde física, o que a psicologia chama de somatização, que consiste no aparecimento de sintomas de doença física sem explicação médica, gerada por conflitos psicológicos inconscientes. 35 Foi na Grécia antiga que se descobriu a influência da música no corpo humano. Aristóteles falava do verdadeiro valor terapêutico da música e Platão receitava música para a cura das angústias. Ele afirmava que “a música é o remédio da alma”, reconhecendo assim que sons produzem efeitos terapêuticos. Gardner (1994) afirma que: Ao aludir a afeto e prazer, encontramos o que pode ser o enigma central em relação à música. Partindo do ponto de vista da ciência positivista “rígida”, pareceria preferível descrever a música puramente em termos físicos, objetivos: enfatizar o tom e os aspectos rítmicos da música, talvez reconhecendo o timbre e as formas de composição permissíveis; mas tomando o cuidado para evitar a patética falácia na qual o poder explanatório é concedido a um objeto devido aos efeitos que ele pode produzir em alguém mais. De fato, ao longo dos séculos, tentativas de associar a música com matemática parecem um esforço conjunto para ressaltar a racionalidade (quando não, negar os poderes emocionais) da música. No entanto, dificilmente alguém que esteve intimamente associado à música pode abster-se de mencionar suas implicações emocionais: os efeitos que ela exerce sobre indivíduos; as tentativas às vezes deliberadas feitas por compositores (ou músicos) de imitar ou comunicar determinadas emoções; ou, colocando em seus termos mais sofisticados, a alegação de que, se a música não transmite em si mesma emoções ou afetos, ela capta as formas destes sentimentos (p. 83). Pode-se comprovar que a música exerce influência no humor das pessoas e na sua saúde física, tomando como exemplo a atuação de musicoterapeutas que fazem uso dela para ajudar na cura de muitas doenças e conseguem obter bons resultados. Um trabalho de musicoterapia feito pela psicóloga Pólo (2009)7, com crianças vítimas de violência doméstica, mostrou a relevância do trabalho com a música e seus efeitos terapêuticos: (...) eles desabafavam através do bater no tambor, pandeiro (...) construindo canções que discorriam sobre a situação vivida ao som do teclado, flauta, xilofone, etc. (...) brincar com música e com instrumentos auxilia os pacientes a expressarem sentimentos de forma lúdica sem ansiedade. Esta técnica facilita a expressão de estados emocionais, proporciona relaxamento, descarga de tensão, interação, socialização, regras, normas e propicia acolhimento. Parece que tudo tem relação com o poder da música, pois dentre todas as manifestações culturais do Homem, é a arte que mais atinge 7 POLO, Christianne Kamimura. “Tocando Emoções: A Musicoterapia no CRAMI com crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica”, 2009. Disponível em: <http://www.crami.org.br/pop_craminho_anteriores_not10.asp>. Acesso em junho de 2010. 36 diretamente o ser humano, ou seja, é difícil quem não tem contato ou não é tocado pela música e sons. Existem várias teses que explicam a funcionalidade da musicoterapia. Entre elas, encontra-se a de Puga (2004)8 que afirma: (...) ao chegarem aos tímpanos, as ondas sonoras atingem o ouvindo médio e ali são convertidas em impulsos nervosos. Viajando até o cérebro, esses impulsos são interpretados como sons por células diferenciadas e o deslocamento das vibrações acaba agindo como uma espécie de massagem nas cavidades cerebrais de ressonância. Isso, dependendo da qualidade do som, provoca efeitos benéficos ou maléficos para o organismo. “Uma música mais melodiosa, mais terna, tem, de modo geral, efeitos analgésicos e de relaxamento porque leva a uma liberação de serotonina. Já sons estridentes, fortes ou desarmônicos hiperestimulam as células nervosas e provocam estresse neurional. É isso que faz com que a gente se acalme, se agite, chore, ria ou mesmo sinta raiva ao ouvir uma música”, explica a musicoterapeuta Isabel Ferreira. Segundo Sé (2005), um estudo sobre a biologia do som realizado no Laboratório de Neuropsicologia da Música e da Cognição na Universidade de Montreal – Canadá, que investigou as contribuições da música nas reações do indivíduo, revelou que a música lhe produz reações fisiológicas. Nas reações emocionais, o sistema nervoso central reage com aceleração dos batimentos cardíacos ou aumento da transpiração. O medo e a alegria provocam reações na pele (de transpiração). Outros estudos mostram que a música exerce grande influência sobre o comportamento, ativando áreas cerebrais que participam do processamento das emoções. Dependendo do tipo de acorde ou melodia que se ouvem, emoções como alegria, tristeza e temor podem ser despertadas. Já a calma ou a excitação estão relacionadas com ritmo. Pode-se sentir saudades simplesmente por ouvir um timbre (característica particular de cada som) que se ouvia na infância, ou mesmo ter uma sensação de dor no peito ao escutar determinada melodia que faz lembrar de alguém que se ama e está distante ou que abandonou. Segundo Gainza (1988): (...) o ritmo musical induz ao movimento corporal, a melodia estimula a afetividade; a ordem ou a estrutura musical (na harmonia ou na forma 8 PUGA, Fernando. “Música para a saúde”, 2004. Disponível em: <http:// www.bolsademulher.com/corpo/musicapara-a-saude-3185.html>. Acesso em junho de 2010. 37 musical) contribui ativamente para a afirmação ou para a restauração da ordem mental do homem. Essa qualidade – o poder mobilizador da música – constitui a base da terapia musical ou musicoterapia (p. 37). É por isso que se pode afirmar que, entre os benefícios que a música traz para as emoções, se tem nas funções cognitivas e no comportamento a melhora do humor, do sono, da motivação, da autoconfiança, diminuição da ansiedade, auxílio no combate à tensão, ajuda na eliminação do stress, porque ela é capaz de ativar no cérebro os mesmos centros de recompensa que uma comida saborosa, droga ou sexo, e reduz as concentrações dos hormônios do stress, segundo Sé (2005). Como exemplo, tem-se o mito grego de “Orfeu e Eurídice”, no qual o personagem Orfeu enfrentou as feras do Hades cantando com sua lira, usou a música para sensibilizá-los e acalmá-los, e conseguiu alcançar seu objetivo que era chegar ao encontro de seu amor, Eurídice, que havia morrido, segundo Bulfinch (2005). A Bíblia também apresenta um exemplo sobre o poder da música ao influenciar as emoções, no episódio do rei Saul. Quando ele se encontrava atormentado por um espírito maligno, mandava chamar Davi, que tocava sua harpa, e, então, proporcionava, através de sua música, alívio e melhora para o rei, pois o espírito maligno o deixava, segundo diz a Bíblia.9 Victorio (2008) confirma que as emoções do homem podem ser harmonizadas via música, na manutenção do seu equilíbrio, nas suas relações interpessoais, haja vista a sua abrangência no despertar de sentimentos diversificados, quando diz que: (...) sendo a expressão emocional uma das funções da música, podemos dizer que ela se apresenta como essencial para a harmonização entre razão e emoção. No século em que estamos vivendo, essa busca de equilíbrio está sendo percebida como uma necessidade básica para a sobrevivência do ser humano. É tentando acertar o passo com o compasso rítmico universal e com o som criativo primordial, que o século XXI vive uma busca intensa pela restauração do equilíbrio perdido que acabou por refletir na personalidade do homem, sendo esse um dos motivos para a crise de identidade que já se percebe e que atinge os níveis das relações (p. 31). Existem músicas apropriadas para cada situação da vida, guardando as devidas diferenças culturais, como afirma Jeandot (1997): 9 Esta história encontra-se no livro de I Samuel no capítulo 16, versículos 14 a 23. 38 O conceito de música varia de cultura para cultura. Embora a linguagem verbal seja um meio de comunicação e de relacionamento entre os povos, constatamos que ela não é universal, pois cada povo tem sua própria maneira de expressão através da palavra, motivo pelo qual há milhares de línguas espalhadas pelo globo terrestre. A música é uma linguagem universal, mas com muitos dialetos, que variam de cultura para cultura, envolvendo a maneira de tocar, de cantar, de organizar os sons e de definir as notas básicas e seus intervalos [...] (p. 12). A música marcial sempre foi usada, na nossa cultura ocidental, para despertar o espírito cívico e existem músicas próprias para cada solenidade ou ritual: marcha nupcial (para casamentos), marcha fúnebre (para velórios), cantigas de ninar (para fazer o bebê dormir), de aniversário (cantadas nas festas, como “Parabéns pra você”), hinos oficiais das escolas, hino nacional (muito cantado em solenidades importantes e em jogos internacionais), etc. Segundo Silveira (2004)10, “o uso de uma música apropriada diminui o ritmo cerebral, contribuindo para haver uma equilibração no uso dos hemisférios cerebrais (...) e a música barroca, especialmente o movimento "largo" (bem lento), propicia um bom aprendizado”. 3.1.1. Emoções Negativas Despertadas pela Música Assim como a música exerce influência positiva em várias áreas da vida humana, as negativas também podem ser observadas, não apenas no que se refere ao conteúdo ruim da mensagem (quando esta possui uma letra), mas também com relação ao ritmo, à harmonia e ao volume em que é executada e escutada. Pode-se também observar que, da mesma forma que emoções ruins podem adoecer o corpo, o contrário também pode acontecer: doenças físicas também podem levar ao adoecimento das emoções. Não são poucos os casos de pacientes com doenças graves e incuráveis que caem num quadro de depressão profunda, ou num desequilíbrio emocional. 10 SILVEIRA, Mara Musa Soares. “O Funcionamento do Cérebro no Processo de Aprendizagem”, 2004. Disponível em: <http://www.conteudoescola.com.br/site/content/view/124/42/>. Acesso em novembro de 2010. 39 Em todas as épocas a música sempre exerceu influência nas emoções do homem e não é diferente com o homem pós-moderno11. Talvez a grande diferença esteja no tipo de música ouvida, na sua maioria com letras vazias ou pior, imbuídas de toda espécie de pornografia e apologias às drogas, violência e desrespeito à vida humana, sem profundidade e com melodias repetitivas, ritmos acelerados e ouvidas em volumes altos, o que faz com que algumas pessoas fiquem agitadas, sendo levadas até mesmo a atitudes violentas. Como as características da arte da pós-modernidade, segundo Lyra (2010), são o novo e breve, tem surgido a cada dia, também no contexto da música, essa tentativa por parte dos artistas de apresentar algo novo e breve, com a óbvia intenção de obter sucesso, fama e enriquecimento. E nessa busca da novidade e brevidade, perde-se muitas vezes a beleza e a profundidade, levando a produção musical, geralmente, apenas à satisfação da indústria cultural que é a obtenção do lucro com a venda de CDs com músicas sem qualidade, mas que agradam a grande população e caem “na boca do povo”. Um artista que tem verdadeiro amor à sua arte, fará composições com objetivos, segundo Lyra (2010), de expressão, comunicação e repercussão, tendo como meta a produção de obras que fiquem para posteridade, para que sua arte não morra consigo, mas que seja apreciada por muitas gerações futuras. Estes produzem músicas que inspiram, despertam sentimentos bons e levam à tranquilidade, à alegria e bem estar, com letras e melodias arrebatadoras. Porém, apesar da excelente qualidade destas músicas, elas não costumam ser admiradas pela maioria da população, ou melhor, pelo “povão”, pois o ambiente em que estas pessoas são criadas e permanecem vivendo não lhes oportuniza o conhecimento de outros estilos. Existem sucessos musicais que revelam o desprezo de nossa juventude pela cultura brasileira e o desrespeito à pessoa humana, como os funks. Numa resposta dada por um internauta no yahoo!Respostas, sobre o lado positivo e negativo dos funks, pode-se constatar o depoimento de quem vive no ambiente onde este tipo de música é ouvida e admirada. Ele respondeu: O lado positivo só é positivo para um tarado igual a mim que gosta de ver as meninas expostas com suas nádegas, pernas, seios, tudo de 11 Homem pós-moderno, segundo Lyra (2010), em “A Poesia na Pós-modernidade”. 40 fora e chacoalhando, o que equivale dizer que não há lado positivo [...] Lado negativo nem daria para dizer a maioria, pois não haveria papel no mundo onde coubesse uma resposta tão grande. Mas tentarei ser breve. O funk até teve algumas letras no início bem louváveis, mas isto foi dois ou três anos no máximo depois foi só chafurda enaltecendo o crime, o vício, o domínio dos bandidos nas favelas, esculachando as mulheres, esculachando os adversários, esculachando a sociedade [...] Moro no Rio e sei bem do que estou falando, além de tudo isto esta cultura funkeira tem entregado milhares de crianças para mães e avós criarem, enquanto as cabeças de vento saem de novo para fazer novos filhos nos bailes frequentados por meninas que muitas vezes nem peito tem, nem pelo pubiano tem, quanto mais juízo [...] pergunte a todos num baile quem é o governador, quem é o ministro da educação, que é interesse de todos ali que tem idade escolar, pergunte se sabem de cor as capitais dos pais nem falo as do norte e nordeste, mas as do sul e sudeste, que são mais conhecidas pelo seu potencial cultural e econômico e ninguém saberá responder. Pergunte aos frequentadores o nome de cinco políticos importantes e depois pergunte o nome de cinquenta tipos de armas usadas pelo tráfico como só responderão a segunda opção e estará caracterizado o que te digo. Veja os ônibus em que eles se dirigem aos bailes e que vão embora depois do baile. Veja o semblante de medo nas pessoas quando eles entram nos coletivos, o pavor estampado nos olhos das pessoas, isto te dará uma ideia do quanto de “bom” é a cultura funk, a banalização do sexo, do vício, da gravidez precoce, do mau desempenho na escola, etc. Não consigo ver nada de bom no Funk. Eu só fui porque lá tu consegue meninas para saírem contigo facilmente e nos meus tempos de diabrura (de vez em quando) saía a catar uma companhia em bailes, pois nunca gostei de prostíbulo [...]. Um abraço. Luiz F.12 Este tipo de música, além de ter como característica rítmica uma batida forte e contínua que leva às emoções negativas, como agitação e irritabilidade, suas letras (na sua maioria) trazem temas ligados à desmoralização e banalização do corpo, do sexo e das mulheres, bem como estimulam a violência, que gera mais violência ainda, pois entra em ação a polícia que, para inibir e reprimir o vandalismo usa também da força física, gerando mais conflitos, resultando em mortes. O uso de drogas também é muito freqüente nestes bailes funks. Fazendo uma comparação entre a música clássica e o funk, facilmente notamos que há um abismo entre estes dois estilos. Pode-se então questionar: será que músicas que levam o ouvinte à perda da consciência, com gritos histéricos, um instrumental ensurdecedor, batidas fortes e contínuas, danças sensuais, além de 12 Encontrado no site: http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20090407103335AAlvvoY. Acesso em 04 de outubro de 2011. 41 letras com temas negativos, trazem algum benefício ao adolescente em formação? Muito pelo contrário, os males são enormes e com consequências negativas por vezes irreversíveis. Outro aspecto negativo refere-se ao fato de que as novas gerações estão apresentando cada vez mais cedo problemas de audição, que são comuns aos idosos, devido à exposição constante a músicas com volumes cada vez mais altos em festas e especialmente quando são ouvidas com fones de ouvido, através da utilização cada vez maior do aparelho de mp3, ou simplesmente do próprio celular. Até as pessoas próximas a estes que utilizam fones de ouvido conseguem ouvir a música que eles estão ouvindo no fone, tão alto é o volume que colocam. Segundo dados do artigo de Edgar Nascimento (2007), estes são os efeitos que músicas em volumes altos podem causar ao homem: Até 90 decibéis, os efeitos são principalmente psicológicos: • O som de uma música pode acalmar, alegrar ou até excitar; • Um som desagradável como o raspar de uma unha sobre um quadro-negropode “arrepiar”; • O som intermitente de uma gota d’água pingando de uma torneira pode impedir o sono, e veja que se trata de apenas 30 ou 40 dB. De 90 dB a 120 dB, podem ocorrer também efeitos fisiológicos, como alteração temporária ou irreversível da fisiologia normal do organismo. Os ambientes com essa intensidade sonora são considerados insalubres. Acima de 120 dB, o som pode começar a causar efeitos físicos sobre as pessoas: vibrações dentro da cabeça, dor aguda no ouvido médio, perda de equilíbrio, náuseas. A própria visão pode ser afetada por som muito intenso devido à vibração, por ressonância, do globo ocular. Próximo dos 140 dB pode ocorrer a ruptura do tímpano.13 O descaso com os cuidados que os jovens têm com a audição, apesar de advertidos quanto à utilização de volumes altos como causadores de surdez, provavelmente deve-se ao fato de que a perda da audição ocorre em longo prazo, ou seja, por não sentirem as conseqüências imediatamente, ignoram o dano que está sendo causado. Em resumo, os efeitos negativos da música podem ser observados quanto ao ritmo, quando tem uma batida forte que leva à irritação e agressividade; quanto ao conteúdo de suas letras, quando trazem mensagens negativas e de desvalorização 13 http://www.edgarnascimento.mus.br/art70411.htm - Edgar Nascimento - Voz, violão, teclado e bossa. Acesso em 04 de outubro de 2011. 42 do ser humano e também quanto ao volume em que é escutado que, sendo muito alto, pode levar até mesmo à perda auditiva. A música pode ser utilizada como excelente ferramenta para ajudar no equilíbrio emocional do homem, desde que a escolha do repertório seja criteriosa, com cuidado de observar o conteúdo das letras e o estilo da música, pois a influência pode ser boa ou ruim. Quando a influência é boa, as emoções tornam-se equilibradas, gerando calma, tranqüilidade, sensação de paz interior, promovendo assim relações interpessoais harmoniosas, ajudando até mesmo na terapia de várias doenças, sejam emocionais ou físicas. Quando a música exerce uma influência ruim, as emoções entram em desequilíbrio, causando irritabilidade, intolerância, podendo gerar conflitos nas relações interpessoais, com brigas, violências físicas e verbais. Este tipo de música pode levar ao adoecimento do corpo, pois o homem emocionalmente desequilibrado na maioria das vezes desenvolve problemas psíquicos que resultam em patologias físicas. É necessário, neste mundo pós-moderno, onde o gosto musical das pessoas é cada vez mais manipulado pela indústria cultural, disseminar uma boa música, que seja capaz de despertar emoções positivas, como amor, paz, amizade e alegria. 3.2. Implicações do Estudo de um Instrumento Musical “Quando o ser humano toca um instrumento, é o gesto que cria e controla o som” (JEANDOT, 1997, p.15). Uma das mais complexas atividades que homem pode fazer é tocar um instrumento musical, pois explora na sua totalidade seu sistema de conhecimento, levando a uma interdependência dos aspectos cognitivos, motores e emocionais, através de uma harmonia entre os sistemas auditivos e visuais, resultando numa articulação com o controle motor fino. Isso constitui numa exploração multi-sensorial, uma vez que faz uso de sistemas neurais que interrelacionam o ouvido, a voz e o cérebro, com implicações para o desenvolvimento cognitivo. Pode-se tomar como exemplo o piano. Este instrumento requer do músico a realização de movimentos complexos, que devem ser feitos de forma harmoniosa, 43 racional e consciente com o objetivo de que se toque utilizando o mínimo possível de energia no desempenho musical, evitando movimentos exagerados e desnecessários que levam à dificuldade na agilidade. É necessário, também, que o estudo seja planejado de forma uniforme, com regularidade e com disciplina, proporcionando o melhor aproveitamento do tempo em contato com o instrumento. Cada tecla do piano emite um som diferente e cada uma das notas tem sua “cor”, sua identidade. São sete as notas musicais (do, re, mi, fa, sol, la e si), formando um total de doze sons e isto acontece porque cada nota pode ser alterada, tendo sua entonação modificada, com a utilização de símbolos que podem ser escritos ao lado esquerdo da nota na partitura, que são sustenido, dobrado sustenido, bemol e dobrado bemol. O piano possui 88 teclas e as sete notas musicais vão se repetindo, mudando apenas sua altura, indo do mais grave ao mais agudo. As notas podem ser identificadas tendo como referenciais as teclas pretas, que são arrumadas em grupos de duas e três, conforme exemplo a seguir: Figura 01 – Teclado musical Fonte: walmirsilva14 O exemplo do piano mostra que este é um instrumento que exige a utilização das habilidades cognitiva e motora. A habilidade cognitiva é necessária porque quando uma partitura é lida, significa que todo um estudo já foi desenvolvido anteriormente, como a assimilação de símbolos musicais com todas as regras da teoria musical e a aplicação destes conhecimentos no instrumento. A habilidade motora é imprescindível, pois, para que se toque, é preciso ter técnica no manuseio do instrumento, colocando os dedos certos (cada dedo é identificado com um 14 Imagem disponível em: http://www.walmirsilva.com.br/iniciante/escala-musical. Acesso em setembro de 2011. 44 número) nas teclas corretas, tocando devagar ou mais rápido e usando vários dedos ao mesmo tempo. Jourdain (1998) diz que: “Quando um músico aprende uma peça musical de modo a poder tocá-la ‘automaticamente’, condiciona seu sistema motor de tal forma que ele reage de determinadas maneiras a determinadas sensações corporais” (p. 283). Isto pode ser observado quando, em algumas ocasiões, o músico estuda tão intensamente a música que toca de maneira automática, desenvolvendo o que se pode chamar de memória digital: os dedos vão “sozinhos” para o lugar certo, independente do nível de atenção que o músico esteja dando ao momento da execução. Fotografia 01 – Crianças estudando orientadas pelo professor Fonte: Arquivo da ONG Orquestrando a Vida A seguir se pode observar o exemplo de uma partitura com todos os seus detalhes e riqueza de símbolos, numa música muito conhecida no Brasil e no exterior, sendo considerada uma das mais gravadas por músicos nacionais e estrangeiros: 45 Figura 02 – Partitura da música Garota de Ipanema 15 Fonte: partituraspraviolinistas 15 Imagem disponível em: http://partituraspraviolinistas.blogspot.com/2011/07/tom-jobim-garota-de-ipanema.html. Acesso em agosto de 2011. 46 Nesta partitura nota-se a utilização de diferentes tipos de figuras musicais, que servem para determinar a duração de cada nota musical: mínima () colcheia () semínima () semicolcheia () Podem ser observados, também, outros detalhes que envolvem a leitura de uma partitura como esta de Garota de Ipanema: a utilização de pontos nas figuras (que lhes modificam a duração); as ligaduras (que são as linhas curvas que ligam uma nota a outra com a finalidade de unir as figuras, executando-se apenas a primeira, mas contando-se o tempo da segunda e terceira, se houver); os vários números que aparecem abaixo da pauta, indicam a contagem dos compassos, que consiste na divisão com traços (travessões) da música em partes iguais e, neste caso, o compasso é binário, conforme a fração que está escrita no início da partitura; o número 3 próximo de um determinado grupo de notas, que representa uma modificação rítmica, chamada de quiáltera; as letras (chamadas cifras) em cima das notas, que representam os acordes que serão tocados naquelas partes da melodia. Acordes são notas combinadas e tocadas ao mesmo tempo; os números próximos às cifras indicam acréscimos de notas nos acordes; a clave de sol - - que aparece no início de todas as pautas, indicando a localização das notas escritas; as alterações que modificam a entonação das notas, que são sustenidos (#) e bemóis (). Após esta descrição, pode-se ter uma pequena idéia da quantidade de detalhes que cercam a leitura de uma partitura. Tal exemplo se refere a uma partitura simples de piano popular, nas quais as notas e as cifras são lidas, mas, apenas com a utilização de uma clave. Numa partitura para piano clássico, são lidas duas claves ao mesmo tempo: a de sol - - que serve para a execução da mão 47 direita, com notas de alturas médias e agudas, e a de fa - - na 4ª linha da pauta, onde a mão esquerda executa, com notas de alturas médias e graves. Mas neste caso as cifras não são utilizadas. Segundo Gardner (1994), Parte da organização da música é horizontal – as relações entre os tons quando se desenrolam no tempo; e parte é vertical, os efeitos produzidos quando dois sons são emitidos ao mesmo tempo, dando surgimento a um som harmônico [...]. O próximo em importância logo após o tom e o ritmo, é o timbre – as qualidades características de um som (p. 82). Há necessidade de que esta partitura seja lida, fazendo-se uma aplicação no instrumento, envolvendo toda parte da habilidade motora, com dedilhado certo e postura corporal adequada, com a coluna ereta e os dois pés apoiados no chão, para que a música aconteça de forma harmoniosa e bonita. Fotografia 02 – Crianças fazendo alongamento antes do ensaio Fonte: Arquivo da ONG Orquestrando a Vida No estudo de qualquer instrumento musical se faz necessário o desenvolvimento do músico como um todo, não apenas nos aspectos das habilidades motora e cognitiva. Deve ser trabalhada a criatividade, pois, segundo confirma Peixoto (2008), 48 O fazer artístico através da criação representa uma forma de mobilização de ações que resultam em construções de coisas novas, a partir da natureza e da cultura, sendo, também, resultado de expressões imaginativas, provenientes de sínteses emocionais e cognitivas (p.40). A improvisação, a composição, a interpretação, a percepção, os conceitos de certo e errado, de belo e feio, de bom e ruim na música, oportunizam ao músico estudante um contato mais íntimo com seu instrumento. Assim, ele poderá ser estimulado a explorar todas as possibilidades sonoras, usando ao máximo sua criatividade, fazendo o que é chamado de improviso em música, que consiste exatamente nesta capacidade de criar que todo músico deve exercitar. Jourdain (1998) faz uma interessante relação entre este improviso e uma conversa informal entre duas pessoas: Não há nada de extraordinário no improviso. Todos nós improvisamos constantemente, mas com palavras, não com tons. Começamos uma conversa com um determinado tema, partimos para observações relacionadas, fazemos digressões em torno de um subtema e acrescentamos momentos de vigor ou de espírito. Da mesma forma, um pianista de jazz começa tocando um tema, faz variações, entrelaça um segundo tema, acrescenta enfeites. O conversador utiliza uma hierarquia bem organizada de conhecimentos sobre o mundo, enquanto o pianista utiliza outra hierarquia bem organizada, esta de idéias musicais. Num caso ou no outro, a qualidade do desempenho depende da profundidade e flexibilidade e da hierarquia do executor para explorá-la rapidamente, num tempo real (p. 228, 229). Outro importante aspecto que envolve o estudo de um instrumento musical é a interação que o músico precisa desenvolver com o mundo que o cerca, seja com os outros músicos que estão tocando com ele ou com o público que está assistindo seu concerto ou apresentação informal. De nada adianta um músico dominar todas as técnicas de seu instrumento, tocando maravilhosamente, se não consegue interagir com as pessoas que o cercam, segundo Gohn (2003). 49 Fotografia 03 – Crianças da ONG tocando em conjunto Fonte: Arquivo da ONG Orquestrando a Vida Quando o músico participa de uma orquestra ou algum grupo musical, fazendo o que se chama música de câmera, que consiste na prática musical em conjunto, vários aspectos que estão envolvidos relacionam-se ao desenvolvimento do sentido de organização e disciplina, pois quando se toca em grupo, é necessário, além de cuidar para que a execução do próprio instrumento seja boa, ouvir a si mesmo e aos outros, esperando a sua vez de tocar, pois, segundo Gardner (1994), “a música pode servir como um meio para capturar sentimentos, conhecimento sobre sentimentos ou conhecimento sobre as formas de sentimento, comunicandoos do intérprete ou do criador para o ouvido atento”, p. 97. É preciso também que o instrumentista domine todos os recursos tecnológicos que pretende utilizar. Tomando como exemplo o teclado, é possível liga-lo ao computador, através de um fio especial chamado cabo midi, passando os sons que estão armazenados no computador para o instrumento. É possível que, conectado ao computador e usando um programa específico, o computador escreva na pauta a partitura da música que está sendo executada e desta forma evitando um gasto enorme de tempo desta escrita. A quantidade de 50 botões e funções mostradas no painel de um teclado exige que o músico tecladista acompanhe as mudanças tecnológicas de seu tempo e as conheça e, de preferência, as domine. A imagem a seguir exemplifica o que aqui foi exposto: Figura 03 – Instrumento musical – teclado eletrônico Fonte: rolandclan16 Na imagem observa-se uma quantidade de botões e opções de regulagem que modificam o som do instrumento, podendo variar o timbre (sons de órgão, guitarra, piano, flauta, violino, baixo, sax, etc.), oferecendo possibilidades de arranjos. Existe um painel (na cor laranja) que apresenta os sons escolhidos, os ritmos que estão sendo usados, e o tempo (velocidade) em que a música será executada se o ritmo programado estiver ligado. Também estão presentes outras funções que poderão dar asas à imaginação dos músicos, estimulando a criação. Com a utilização de teclados como este da figura anterior, é possível que o músico faça gravações de músicas instrumentais, usando numa mesma música vários timbres diferentes, como também é possível tocar ligando o ritmo programado do teclado, onde se tem os sons de uma banda completa, com guitarra, baixo, bateria e órgão, que mudam os arranjos de notas de acordo com as mudanças de acordes, podendo variar a complexidade destes arranjos de acordo com o teclado. É por isso que se faz necessária uma constante atualização dos músicos, pois os avanços tecnológicos aumentam a cada dia, trazendo uma maior possibilidade de se fazer uma música mais trabalhada e rica. 16 Imagem disponível em: http://www.rolandclan.com/library/juno-g. Acesso em setembro de 2011. 51 3.3. Música e Cognição Segundo Gardner (1995): “Uma inteligência implica na capacidade de resolver problemas ou elaborar produtos que são importantes num determinado ambiente ou comunidade cultural” (p. 21). Em sua teoria das inteligências múltiplas, existem várias habilidades às quais ele chama de inteligências, que cada pessoa tem em diferentes graus e combinações e fazem parte da herança genética humana. Conforme o estímulo recebido e a cultura na qual está inserido, o indivíduo desenvolve mais uma ou outra(s) determinada(s) inteligência(s). Ainda, o autor acrescenta que: “Em resumo, a cultura circundante desempenha um papel predominante na determinação do grau em que o potencial intelectual de um indivíduo é realizado” (GARDNER, 1995, p. 47). Tais inteligências estudadas pelo autor se apresentam em um número de sete: Lingüística, Musical, Lógico-matemática, Espacial, Cinestésica, Interpessoal e Intrapessoal. A inteligência musical, que é a mais importante para esta pesquisa, se caracteriza pela habilidade de identificar sons, timbres e ritmos, compor ou reproduzir uma peça musical, bem como por tocar um instrumento musical ou cantar, pois, segundo o autor, “de todos os talentos com que os indivíduos podem ser dotados, nenhum surge mais cedo do que o talento musical” (GARDNER, 1994, p. 78). Confirmando as palavras de Gardner (1994), pode-se ter um maior detalhamento da razão pela qual este é o talento que surge mais cedo, segundo Jeandot (1997): As crianças gostam de acompanhar as músicas com movimentos do corpo, tais como palmas, sapateados, danças, volteios de cabeça, mas, inicialmente, é esse movimento bilateral que ela irá realizar. E é a partir dessa relação entre o gesto e o som que a criança – ouvindo, cantando, imitando, dançando – constrói seu conhecimento sobre música, percorrendo o mesmo caminho do homem primitivo na exploração e na descoberta dos sons. Ao entrar em contato com objetos, ela rapidamente começa a interagir com o mundo sonoro, que é o embrião da música, e, nessa medida, qualquer objeto que produz ruído torna-se para ela um instrumento musical capaz de prender sua atenção por muito tempo. A criança não é um artista, nem um ser meramente contemplativo, mas antes de tudo um ser “rítmico-mímico”, que usa espontaneamente os gestos ao sabor da sensação que eles despertam [...] (p. 19). 52 Fotografia 04 – Menina da ONG tocando violino Fonte: Arquivo da ONG Orquestrando a Vida Outra razão pela qual o talento musical é o que surge mais cedo, segundo Gardner (1994), é pela proximidade, como afirma Jeandot (1997), da música com a linguagem: Música é linguagem. Assim, devemos seguir, em relação à musica, o mesmo processo de desenvolvimento que adotamos quanto à linguagem falada, ou seja, devemos expor a criança à linguagem musical e dialogar com ela sobre e por meio da música. Como acontece com a linguagem, cada civilização, cada grupo social, tem sua expressão musical própria. O educador, antes de transmitir sua própria cultura musical, deve pesquisar o universo musical a que a criança pertence, e encorajar atividades relacionadas com a descoberta e com a criação de novas formas de expressão através da música (p. 20). Alguns sons musicais são derivados da fala: a entonação, a pontuação, a exclamação, a interrogação, o tom da voz, que constituem elementos da linguagem verbal que encontram seus correspondentes na música. É por isso que se pode afirmar que a música e linguagem são organizações sonoras que servem ao homem como veículos de expressão, como afirma Gardner (1994), 53 Assim como ocorre com a linguagem, a destreza musical pode ser elaborada até um grau simplesmente através da exploração e do aproveitamento do canal oral-auditivo. De fato, dificilmente parece ser um acidente que as duas competências que a partir do período mais inicial do desenvolvimento podem proceder sem relação com objetos físicos, baseiem-se ambas no sistema oral-auditivo [...] de fato, a música relaciona-se de uma variedade de modos à gama dos sistemas simbólicos humanos e suas competências intelectuais. Além disso, precisamente por não ser usada para a comunicação explícita ou para outros propósitos evidentes de sobrevivência, sua centralidade continuada na experiência humana constitui um enigma desafiador (p.95,96). O'Donnell (1999) conta que Albert Einstein, apesar de ser considerado como um dos homens mais inteligentes que já viveu, poucos sabem que quando ele era criança, teve grandes dificuldades de aprendizagem, chegando ao ponto de seus professores das séries iniciais dizerem a seus pais para tirá-lo da escola porque ele era "burro demais para aprender" e seria um desperdício o gasto de recursos, investimento de tempo e energia em sua educação. Sua mãe não achava que Albert era "estúpido". Ao invés de seguir o conselho da escola, os pais de Albert compraram-lhe um violino. Albert tornou-se um bom violinista. A música foi a chave que ajudou Albert Einstein a tornar-se um dos homens mais inteligentes que já viveu. O próprio Einstein disse que a razão pela qual ele se tornara tão inteligente era porque tocava violino. O poder que a música possui para interferir na memória é impressionante. Conforme relata O'Donnell (1999), pesquisas foram realizadas comprovando que a música de Mozart e a música barroca, com um padrão de sessenta batimentos por minuto e que possui uma ordem que inclui repetição e alterações, com certos padrões de ritmo e tom, são capazes de ativar o cérebro nos lados esquerdo e direito e esta ação simultânea, quando estes dois lados do cérebro são ativados, maximizam o aprendizado e a assimilação de informações. Atividades em que os dois lados do cérebro estão sendo ativados ao mesmo tempo, como tocar um instrumento ou cantar, fazem que o cérebro possa ser mais eficaz ao processar informações, levando-o a responder de forma especial aos estímulos recebidos. Pesquisas revelam que os alunos que têm algum tipo de formação musical têm a tendência de trabalhar melhor em grupos e são capazes de executar várias 54 tarefas de forma mais eficiente do que os alunos que não tiveram nenhuma formação musical. Como a música tem sido valorizada e reconhecida como capaz de exercer grande influência positiva nas atitudes e melhora do desempenho cognitivo, foi publicada a Lei nº. 11.769, em 19 de agosto de 2008 (anexo 1), que altera a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica. A promulgação desta lei reforça o que vem sendo exposto no que se refere à importância e necessidade de um estudo mais aprofundado sobre as contribuições que a música pode oferecer à educação. Entretanto, é preciso estar atento ao objetivo de se inserir a música nos currículos das escolas. Sobre tal questão, Jeandot (1997) afirma: A finalidade do ensino de música no 1º grau17, e mais ainda na fase pré-escolar, não é tanto transmitir uma técnica particular, mas sim desenvolver no aluno o gosto pela música e a aptidão para captar a linguagem musical e expressar-se através dela, além de possibilitar o acesso do educando ao imenso patrimônio musical que a humanidade vem construindo (p. 132). Perret (2009)18 fez uma experiência com um quinteto de sopros numa escola onde os alunos tinham notas muito abaixo da média em testes estaduais de desempenho escolar. O quinteto tocava para os alunos e conversava com eles sobre música e instrumentos musicais. Esta experiência com música foi determinante na melhoria cognitiva destes alunos: (...) um quinteto de sopro foi fazer música numa escola cujos alunos revelavam dificuldades de aprendizagem (...) Tudo começou nos primeiros anos da década de 1990 em conversas do maestro com seus músicos. No período letivo de 1994/5, o quinteto começou a concretização do projeto em Bolton, uma escola pública. Os alunos eram crianças do último ano do pré-primário e das três primeiras séries do ensino fundamental. Os resultados foram melhores que o esperado. As crianças que passaram por um currículo apoiado pelas atividades do quinteto revelaram progressos notáveis em linguagem e matemática. 17 Hoje, este 1º grau citado pela autora, é chamado de Ensino Fundamental. Mas a obrigatoriedade da Lei abrange a Educação Básica, que se estende até o Ensino Médio, antigo 2º grau. 18 PERRET, Peter. e FOX, Janet (2004), apud BARATO, Jarbas Novelino.“Música e melhoria da aprendizagem: projeto Bolton”.São Paulo, 2009. Disponível em: <http://aprendente.blogspot.com/2009/01/msica-e-melhoria-daaprendizagemprojeto.html>. Acessado em novembro de 2010. 55 Experiência como esta do projeto em Bolton só ratifica o que tem sido exposto e defendido neste trabalho com relação ao benefício da música na aprendizagem escolar, levando à melhora cognitiva. 3.4. Intervenção psicopedagógica via música A música é uma linguagem da arte que toca as emoções com simplicidade e eficácia, sem que se tenha a necessidade de um estudo profundo, sabendo-se que todos conseguem sentir e perceber seus efeitos, desde os indivíduos mais cultos aos mais iletrados. Assim, é possível haver uma união entre esta linguagem da arte e a Psicopedagogia, objetivando uma melhora no desempenho cognitivo em alunos que necessitam de intervenção psicopedagógica. Numa intervenção psicopedagógica com a utilização da música, através do estudo de um instrumento musical, deve-se ter grande cuidado com o que se espera do aluno em termos musicais, pois, muitas vezes, há exigências descabidas por parte de pais ou de professores, quanto à perfeição na execução dos instrumentos, tirando o próprio prazer que a música deve proporcionar ao intérprete. Sobre tal questão Gainza (1988), admite: “O objetivo específico da educação musical é musicalizar, ou seja, tornar um indivíduo sensível e receptivo ao fenômeno sonoro, promovendo nele, ao mesmo tempo, respostas de índole musical” (p. 101). Observa-se muitas vezes que algumas pessoas executam seus instrumentos mecanicamente, sem que haja um envolvimento emocional com o que está sendo tocado, numa preocupação única de simplesmente acertar as notas escritas na partitura. Quanto a este enfoque, Jeandot (1997) faz uma importante consideração: Uma aprendizagem voltada apenas para os aspectos técnicos da música é inútil e até prejudicial, se ela não despertar o senso musical, não desenvolver a sensibilidade. Tem que formar na criança o musicista, que talvez não disponha de uma bagagem técnica ampla, mas será capaz de sentir, viver e apreciar a música (p. 21). Professores de música devem estimular a sensibilidade e percepção de seus alunos para que a música que está sendo executada toque primeiro a sensibilidade deles, como um convite sonoro para que penetrem no mundo dos sons, estimulando 56 a imaginação, para que aqueles que a ouvirão sintam a sensibilidade da interpretação musical e também sejam tocados por ela, pois, ainda segundo Gainza (1988): Educar-se na música é crescer plenamente e com alegria. Desenvolver sem dar alegria não é suficiente. Dar alegria sem desenvolver tampouco é educar. Embora o aspecto do desenvolvimento propriamente dito encontre-se associado principalmente ao conhecimento das técnicas pedagógicas, o segundo aspecto, chame-se prazer, alegria, plenitude, participação ou motivação, relaciona-se mais de perto com aquilo a que chamamos intuição ou espírito pedagógico (p. 95). Uma intervenção psicopedagógica que tenha como ferramenta o estudo de um instrumento musical deve ser criteriosa com relação ao professor de música que atuará como mediador. É preciso que o psicopedagogo dê ciência a este professor do objetivo do estudo da música para que todos possam atuar com o foco da melhora cognitiva do aluno, sem que haja exigência de técnicas instrumentistas perfeitas, pois o objetivo é que este estudo do instrumento seja algo que proporcione felicidade e paz, trazendo equilíbrio emocional e não ansiedade na formação de um músico virtuoso que executa sua música de maneira perfeita. É importante também observar que não basta que o indivíduo seja matriculado em uma aula de música para que seu desempenho escolar melhore, pois a aula, normalmente, acontece apenas uma vez por semana. Não se trata de uma mágica e nem seu resultado é percebido instantaneamente. Para que o objetivo da melhora cognitiva possa ser alcançado, é necessário que o estudo do instrumento musical seja, preferencialmente, diário, mesmo que por um período de tempo pequeno. É a regularidade do estudo que proporcionará o treino da atenção e a melhora da capacidade de memorização, fazendo com que o desempenho escolar cresça e isto ocorrerá como conseqüência da dedicação à música, de forma natural e gradativa. 57 4. METODOLOGIA DA PESQUISA Considerando que a investigação sobre a relação do estudo de um instrumento musical com a intervenção psicopedagógica é um assunto relativamente novo, esta pesquisa pode ser considerada, do ponto de vista da forma de abordagem do problema, como qualitativa, pois foi feita uma análise dos dados coletados para que o objeto de estudo pudesse ser compreendido. Segundo o modelo de projeto dado por Souza (2010), quanto aos procedimentos técnicos, as estratégias utilizadas foram: Bibliográfica, explorando o material publicado sobre o tema a partir de livros, artigos e material disponibilizado na internet, haja vista constituir-se como “procedimento reflexivo sistemático, controlado e crítico, que permite descobrir novos fatos ou dados, relações ou leis, em qualquer campo do conhecimento” (SANTOS, 2003, p. 184). Este procedimento é essencial por se entender que sem o respaldo teórico, a pesquisa de campo ou qualquer outro tipo de ação exploratória ficaria inviabilizado; Experimental, visto que há um objeto de estudo e variáveis que foram observadas para verificar os efeitos produzidos no objeto; Levantamento, pois envolveu a interrogação direta das pessoas cujo comportamento se desejou conhecer. Instrumento da Coleta de Dados O instrumento utilizado para a coleta de dados foi a entrevista padronizada, com um roteiro previamente estabelecido, sendo roteiros diferentes para cada domínio investigativo, conforme apêndices 1, 2 e 3. As entrevistas aos sujeitos, os alunos, foram todas feitas pessoalmente. Quanto aos pais (ou responsáveis) e professores, foram pessoalmente e por telefone. 58 Universo da Pesquisa A pesquisa foi realizada na ONG “Orquestrando a Vida” que pertence ao Centro Cultura Musical do município de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, localizada à Avenida Alberto Torres, 223 - Centro. Neste local lecionamos há mais de vinte anos nos cursos de Teclado, Piano Popular e Teoria Musical. Sobre a ONG, podemos destacar: A ONG “Orquestrando a Vida” é uma organização não governamental criada há 15 anos e atuante na cidade de Campos dos Goytacazes em educação musical e reconhecida por seu grande desenvolvimento educativo através da prática de orquestra. É um modulo pioneiro do projeto Ação Social pela Música no Brasil sendo conveniada ao Sistema de Orquestras e Corais Infantis e Juvenis da Venezuela. Em caráter estrutural, suas atividades se dividem em dois núcleos básicos: Núcleo Central de Orquestras, localizado na sede do Centro Cultura Musical de Campos, onde é realizado o treinamento de jovens músicos de maneira intensiva na preparação de concertos, ensaios e apresentações públicas, bem como treinamento instrumental individualizado. E o núcleo Coral Avançado, localizado em escolas públicas e privadas da cidade que conta com a participação de diversos maestros em formação, objetivando a formação de corais nas escolas e a inserção dos mesmos dentro das atividades artísticas e sociais promovidas pela ONG. Com esta plataforma de educação musical a ONG se utiliza do dispositivo musical sinfônica (coros e orquestras) para introduzir, desenvolver e aprimorar conceitos e atitudes positivas em seus alunos para a formação de um bom ser humano, sem discriminação e préconceitos. 19 Nesta ONG são ministrados cursos gratuitos para população de baixa renda, sendo este o critério para a admissão dos seus alunos. Os instrumentos oferecidos são os de orquestra, como violino, violoncelo, flauta, trompete, trompa, entre outros. 19 Encontrado em: http://academiadeorquestrasecoros.blogspot.com/p/orquestrando-vida_07.html. Acesso em 22 de fevereiro de 2012. 59 Fotografia 05 – Fachada da ONG – Centro Cultura Musical de Campos Fonte: Arquivo de fotos de Anaceli Nuffer Fotografia 06 - Ensaio na ONG Fonte: Arquivo da ONG Orquestrando A Vida 60 Domínios Investigativos 1. Alunos com a idade de nove anos completos, independente do instrumento que estuda. 2. Pais destes alunos ou seus responsáveis, preferencialmente a mãe, pois é a pessoa que, teoricamente, passa mais tempo com a criança, podendo fornecer respostas mais precisas. 3. Professores da escola regular. População e Amostra Existem cerca de trezentos alunos matriculados na ONG “Orquestrando a Vida” e para a composição do grupo pesquisado, considerou-se os sujeitos com, no mínimo, seis meses de aula de quaisquer instrumentos musicais, pois é um tempo, considerado por nós adequado, no qual se pode analisar melhor os efeitos da introdução da música na vida de uma pessoa. Foi um total de vinte e um alunos que preencheram os requisitos propostos. Foram entrevistados os vinte e um alunos que se enquadraram no perfil proposto, dezoito pais e cinco professores. Quando na testagem do questionário com as perguntas da pesquisa feitas aos professores, foi observado que eles não tinham conhecimento destes alunos antes de começarem seus estudos de música. Por isso não houve investimento na continuação da pesquisa aos professores por se constatar que as respostas deles não serviriam para que fosse feita uma comparação do antes e depois do início do estudo da música. As respostas dos cinco professores entrevistados não foram contabilizadas. 61 5. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS A análise e interpretação dos dados coletados nesta pesquisa têm o objetivo de buscar respostas à questão levantada no problema: O estudo de um instrumento musical poderá exercer influência positiva em alunos com dificuldades cognitivas de aprendizagem, ligadas à concentração e à memorização, objetivando uma melhoria em sua performance cognitiva e equilibrando suas emoções? Este problema foi parcialmente respondido ao longo do desenvolvimento desta pesquisa e das informações descobertas. Para que a teoria fosse respaldada na prática, buscamos respostas mediante entrevistas padronizadas, com um roteiro de perguntas previamente estabelecido, utilizando-se do procedimento técnico de levantamento. Resultados Com relação aos sexos feminino e masculino dos sujeitos, houve um equilíbrio, prevalecendo um pequeno percentual do sexo masculino, como mostra o gráfico 01: Gráfico 01 – Perfil dos alunos entrevistados Meninos -11 48% 52% Meninas -10 Fonte: Pesquisa da Dissertação: A Música como Instrumento de Intervenção Psicopedagógica (2012). No gráfico 02 podemos observar o percentual de alunos num relato dos pais, quando perguntados sobre as dificuldades ou não dificuldades escolares antes de 62 iniciados nos estudos de música, sendo bem maior o número de alunos que não têm dificuldades na escola antes de iniciados os estudos de música: Gráfico 02 – Dificuldades ou não antes da música Com dificuldades - 8 38% 62% Sem dificuldades - 13 Fonte: Pesquisa da Dissertação: A Música como Instrumento de Intervenção Psicopedagógica (2012). O resultado deste gráfico 02 parece ir contra os dados do IDEB mostrados no anexo 2. Mas é preciso que se faça uma observação importante antes de julgar contraditório o resultado da pesquisa. Os dados do IDEB são de escolas públicas e as crianças entrevistadas nesta pesquisa são, na sua maioria, de escolas particulares, conforme o gráfico 03 a seguir: Gráfico 03 – Redes de Ensino: Pública e Particular 33% Escolas particulares - 14 67% Escolas públicas - 7 Fonte: Pesquisa da Dissertação: A Música como Instrumento de Intervenção Psicopedagógica (2012). Estes dados da pesquisa que mostram crianças de escolas da rede particular, que apresentam poucas dificuldades escolares, contrastando com os dados do IDEB, que apresentam grande dificuldade escolar das crianças das escolas da rede pública, levam-nos a outra reflexão sobre a qualidade de ensino oferecida nas duas redes de ensino. Mas esta é outra discussão que não cabe neste trabalho. 63 Apesar da população da ONG ser constituída de alunos carentes, o fato da maioria ser oriunda de escolas particulares deve-se ao fato de que no Município de Campos dos Goytacazes existe um limite de vagas nas escolas municipais, e quando o número de alunos excede ao quantitativo de vagas oferecidas, a Prefeitura os encaminha para escolas particulares conveniadas ao Município. Dentre os oito alunos mostrados no gráfico 02, que apresentavam dificuldades escolares antes de iniciados os estudos de música, a maioria experimentou melhora no desempenho escolar, segundo afirmaram seus pais e eles mesmos, como aponta o gráfico 04, confirmando a investigação bibliográfica em que a música é apontada como importante ferramenta a ser utilizada na ajuda às crianças que apresentam dificuldades na escola regular: Gráfico 04 – A música para os que tinham dificuldades escolares 25% Melhoraram - 6 75% Permaneceram - 2 Fonte: Pesquisa da Dissertação: A Música como Instrumento de Intervenção Psicopedagógica (2012). No total de alunos pesquisados, o gráfico 05 apresenta o resultado com relação à melhora do desempenho escolar ou não, a despeito de se ter ou não dificuldades na escola, de acordo com a percepção de seus pais e deles mesmos: Gráfico 05 – A música para todos os alunos Melhoraram - 12 43% 57% Permaneceram - 9 Fonte: Pesquisa da Dissertação: A Música como Instrumento de Intervenção Psicopedagógica (2012). 64 Este resultado demonstra o valor que tem o estudo da música, mesmo quando as crianças não apresentam dificuldades na escola. Alunos mais concentrados têm maiores chances de absorver melhor os conteúdos e como conseqüência o desempenho escolar é elevado. Quando uma aluna, que alegava não apresentar dificuldades na escola, foi perguntada sobre o que mudou na vida escolar após a introdução da música na sua vida, sua resposta foi: “Mudou tudo, estou mais concentrada e minhas notas melhoraram, especialmente em Matemática.” É interessante observar a opinião dos pais quando é feita a pergunta sobre o comportamento de seus filhos, se houve alguma mudança ou não após iniciados os estudos de música. Um deles respondeu: “Ela ficou mais calma, menos ansiosa, mais carinhosa, amiga e responsável”. Outra mãe falou: “Ele era muito agitado e agressivo. Depois que começou a estudar música, está outra criança, mais calmo e carinhoso”. Estas respostas, dentre tantas outras similares, comprovam na prática o que já havia sido relatado na investigação teórica de que a música ajuda no equilíbrio das emoções, favorecendo, assim, um melhor aprendizado, pois, como afirma Gardner (1994), as pessoas que estão intimamente ligadas à música experimentam seus efeitos nas emoções, tornando-se mais calmas e afetuosas. Dentre os alunos que apresentaram uma melhora no equilíbrio emocional ou não, podemos constatar este resultado no gráfico 06, conforme a percepção de seus pais: Gráfico 06 – Equilíbrio emocional 24% Melhoraram - 16 76% Permaneceram - 5 Fonte: Pesquisa da Dissertação: A Música como Instrumento de Intervenção Psicopedagógica (2012). Este resultado é o mais desigual de todos, mostrando que a música contribui com muita eficácia na transformação emocional do indivíduo, como relata uma mãe quando lhe foi perguntado se havia mudado algo no comportamento de sua filha 65 após iniciados os estudos de música, ao que ela respondeu: “Ela está mais carinhosa, mais alegre. Antes ela chorava por qualquer motivo, agora está mais equilibrada emocionalmente.” Com relação ao futuro profissional destes alunos, foi perguntado o que eles desejam ser quando crescerem, e mais de 50% responderam que pretendem ser músicos ou trabalhar em algo relacionado à música, conforme mostra o gráfico 07: Gráfico 07 – A música como profissão Músicos - 12 43% 57% Outras profissões - 9 Fonte: Pesquisa da Dissertação: A Música como Instrumento de Intervenção Psicopedagógica (2012). Para muitos destes alunos que são provenientes de classe social baixa, e alguns até que residem em abrigos para menores, a música pode constituir-se como meio de ascensão social, pois eles podem se tornar professores de algum instrumento musical, ou maestros, ou músicos concertistas, ou fazer parte de alguma banda que faça shows e assim ter uma melhor colocação na sociedade, com uma remuneração mais digna. Fotografia 07 – Alunos tocando no concerto Fonte: Arquivo da ONG orquestrando a Vida 66 Fotografia 08 – ONG tocando no Teatro Municipal do Rio de Janeiro Fonte: Arquivo da ONG Orquestrando a Vida Concluindo a análise dos resultados da pesquisa de campo, podemos afirmar que o estudo de um instrumento musical contribui para o equilíbrio emocional, proporcionando uma maior concentração e disciplina nos estudos escolares, gerando uma maior memorização dos conteúdos estudados, razão pela qual o aproveitamento na escola é elevado após iniciados os estudos musicais, independente de se ter ou não dificuldades na aprendizagem. 67 6. CONCLUSÃO Esta pesquisa teve o propósito de destacar a relevância de se estudar a relação que existe entre a música, a aprendizagem e as emoções do homem. No decorrer desta pesquisa, através das análises teóricas analisadas, percebeu-se que a Psicopedagogia é de grande importância para se investigar, diagnosticar e buscar possíveis soluções para os problemas relacionados à aprendizagem e que a intervenção psicopedagógica deve ser realizada com a atuação de uma equipe multidisciplinar, pois os problemas que envolvem a aprendizagem e as dificuldades que podem surgir no seu percurso podem ser multifatoriais. Como o tema “Dificuldades de Aprendizagem” é bem amplo, abrangendo áreas fisiológicas, sócio-ambientais e desenvolvimentistas, foi feito um zoom na última destas áreas, dando um enfoque aos dois aspectos relacionados à cognição que são a concentração e a memorização, pois, segundo os teóricos estudados, são áreas em que a música pode exercer grande influência para uma considerável melhora cognitiva. Com esta pesquisa concluímos que a música tem grande penetração nas emoções humanas, podendo levar a um equilíbrio e favorecer assim uma melhor aprendizagem, pois emoções em conflito atrapalham o bom aprendizado e prejudicam as relações interpessoais e intrapessoais, além do seu poder terapêutico, sendo utilizada por musicoterapeutas no tratamento de várias desordens físicas e emocionais, com resultados positivos relatados em artigos e livros, contando as experiências bem sucedidas com vários grupos de pessoas. Com relação ao estilo, descobrimos que não é qualquer tipo de música que contribuirá para uma melhora cognitiva, pois existem músicas que influenciam negativamente as emoções, causando irritação, acelerando os batimentos cardíacos e levando os indivíduos até mesmo a atitudes violentas, como o funk, com sua batida forte e contínua, com letras de conteúdo pornográfico e violento na sua maioria. Estas músicas geralmente são ouvidas em volumes muito altos, causando danos irreversíveis à audição, podendo levar ao adoecimento físico, pois desequilibra as emoções, que podem gerar problemas psíquicos e estes desembocam na patologia física, conforme mostrou o estudo realizado. 68 Uma importante conclusão desta pesquisa foi em relação à complexidade do estudo de um instrumento musical, que trabalha aspectos cognitivos, motores e emocionais, constituindo-se numa exploração multi-sensorial, trazendo significativas implicações para o desenvolvimento cognitivo, seja com o exercício da leitura de partituras, com toda sua simbologia, seja com a prática da música em conjunto, que desenvolve, além de toda percepção musical, a inteligência interpessoal, pois promove a interação com outros músicos e com o público. Concluímos, também, que para se realizar uma intervenção psicopedagógica com a utilização da música, é preciso que haja um consenso entre o professor de música e os pais com relação ao nível de exigência do aluno, pois o objetivo deve ser proporcionar prazer, musicalizar, estimular a sensibilidade, a percepção e a imaginação e não querer que o aluno transforme-se num virtuose, um instrumentista perfeito que não comete erros. Mas, também, não podemos perder de vista o objetivo que é o de desenvolver o aspecto cognitivo do educando e, para que este seja alcançado, o estudo deve ser regular e disciplinado, para que haja um treino eficaz da concentração e da memória. A pesquisa de campo mostrou que, após iniciados os estudos de música, as crianças se apresentaram emocionalmente mais equilibradas, mais disciplinadas, com maior concentração e, como conseqüência, melhoraram seu rendimento escolar, tendo um maior aproveitamento das disciplinas, pois estavam mais atentas, o que favoreceu a memorização e assimilação dos conteúdos estudados. A concentração, por ter sido treinada nas aulas de música, favoreceu uma aprendizagem mais eficaz. A investigação teórica e a pesquisa de campo comprovaram as hipóteses levantadas inicialmente nesta pesquisa de que a mente humana é influenciada pela música e emoções são provocadas pelos sons musicais. E, sendo estas afirmativas inegáveis, certamente o estudo de um instrumento musical, que contribui para que o indivíduo seja mais atento, organizado e disciplinado, poderá prevenir problemas cognitivos relacionados à concentração e à memorização, como, também, poderá auxiliar estudantes que apresentam dificuldades nestas áreas, promovendo assim um desenvolvimento cognitivo saudável. Se a música contribuiu para uma melhor concentração e memorização dos entrevistados, ela poderá ser utilizada no auxílio às crianças com dificuldades de aprendizagem, que necessitam de acompanhamento psicopedagógico. O próprio 69 psicopedagogo poderá encaminhar estas crianças para as aulas de música, incentivando um estudo regular e disciplinado, sendo, assim, a música se apresentará como uma forte aliada à intervenção psicopedagógica. 70 7. REFERÊNCIAS ALVAREZ. Maria Esmeralda B. Exercitando as Inteligências Múltiplas – dinâmicas de grupo fáceis e rápidas para o ensino superior. Papirus, 2ª Edição, 2008. 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As notas melhoraram? 4- Mudou algo no comportamento após iniciar os estudos de música? 5- Por que você acha importante o seu filho estudar música? 76 2 - Entrevista aos alunos 1- Por que você decidiu estudar música? Você gosta de estudar música? 2- Como são suas notas na escola? 3- Você acha que depois que começou as aulas de música mudou alguma coisa na escola, como atenção, concentração, responsabilidade com as atividades e provas? 4- Suas notas melhoraram depois que iniciou as aulas de música? 5- O que quer ser quando crescer? 77 3 - Entrevista aos Professores 1- Há quanto tempo dá aulas para o aluno (a)_________________? 2- Como é o comportamento do seu aluno na sala de aula? É concentrado ou desatento? 3- Observou algum tipo de melhora relativa à cognição após o início do estudo de música? 4- Existe alguma área de conhecimento em que ele se destaca? Qual? 5- Como é a relação dele (a) com os colegas? 78 ANEXO 1 - LEI Nº 11.769, DE 18 DE AGOSTO DE 2008. Presidência da República Casa Civil Subchefia para Assuntos Jurídicos LEI Nº 11.769, DE 18 DE AGOSTO DE 2008. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA - Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1o O art. 26 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescido do seguinte § 6o: “Art. 26. .................................................................................. ................................................................................................ § 6o A música deverá ser conteúdo obrigatório, mas não exclusivo, do componente curricular de que trata o § 2o deste artigo.” (NR) Art. 2o (VETADO) Art. 3o Os sistemas de ensino terão 3 (três) anos letivos para se adaptarem às exigências estabelecidas nos arts. 1o e 2o desta Lei. Art. 4o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 18 de agosto de 2008; 187o da Independência e 120o da República. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Fernando Haddad 79 ANEXO 2 – Resultado do IDEB de 2009